Missão a todos, na unidade

A festa que hoje celebramos é popularmente reconhecida como o dia do papa, sucessor de Pedro. Mas não podemos esquecer que, ao lado de Pedro, é celebrado também Paulo, o apóstolo, o missionário por excelência. A figura de Pedro é destacada principalmente na primeira leitura e no evangelho; a de Paulo, na segunda leitura. Mas a primeira leitura cria um espaço para falar dos dois: mostra que Deus está com seus enviados. Baseando-se na compreensão popular dos dois santos, pode-se combinar, nesta celebração, a idéia da pessoa de referência para a unidade da Igreja, como foi Pedro, e a do incansável missionário, que foi Paulo. O lema que se pode repetir na pregação é: “Missão a todos, na unidade”.

1ª leitura (At. 12,1-11)

A primeira leitura, tomada dos Atos dos Apóstolos, narra o episódio da prisão e libertação de Pedro. Por volta de 43 d.C., o rei judeu, Herodes Agripa I, vassalo dos romanos, mandou executar o apóstolo Tiago, filho de Zebedeu. Depois mandou aprisionar Pedro. Mas o “anjo do Senhor” o libertou, como libertou os israelitas do Egito. A comunidade recorreu à arma da oração: é Deus quem age, ele é o libertador. Assim, Pedro é libertado da prisão pelo anjo do Senhor. Este feito confirma sua missão especial na Igreja, ressaltada no evangelho. O significado desse episódio pode ser estendido à vida de Paulo, que, conforme At. 16,16-40, viveu uma experiência semelhante, além de muitas outras situações de perigo e aperto (cf. 2Cor. 11,16-33).

Evangelho (Mt 16,13-19)

O evangelho apresenta Pedro como a pedra ou rocha da Igreja. A situação é a seguinte: Jesus havia enviado os Doze em missão, e eles tomaram conhecimento das reações do povo diante de Jesus, além do acontecido com João Batista, decapitado por Herodes Agripa. Quando os discípulos voltam da missão, Jesus lhes pergunta quem o povo e quem eles mesmos dizem que ele é. Pedro responde pelos Doze e chama Jesus de Messias (em grego, Cristo: cf. Mc. 8,29) e Filho de Deus (como diz Mt 16,16; cf. 14,33). Enquanto o relato de Marcos (Mc. 8,27-30) é mais simples, o de Mateus mostra que Jesus reage à profissão de fé feita por Pedro em nome dos Doze com três observações. Primeiro, reconhece nela uma inspiração divina: “não foi um ser humano (literalmente, ‘carne e sangue’) que te revelou isso” (Mt 16,17). Além disso, muda o nome de Simão, chamando-o, com um jogo de palavras, de Pedro, porque “sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e o poder (literalmente, ‘as portas’) do inferno nunca poderá vencê-la” (Mt. 16,18). Enfim, Jesus confia a Pedro o serviço de governar a comunidade (as “chaves” e o poder de ligar e desligar, ou seja, obrigar e deixar livre, poder de decisão), com ratificação divina (“será ligado/desligado no céu”, Mt. 16,19).

Jesus dá a Simão o nome de Pedro, “Pedra”, que sugere solidez: Simão deve ser a “pedra” (rocha) que dará solidez à comunidade de Jesus (cf. Lc. 22,32). Isso não é um reconhecimento de suas qualidades naturais, embora possamos supor que Simão deva ter sido um bom empresário de pesca! Pelo contrário, não se refere ao que Pedro foi, mas ao que será. Trata-se de uma vocação que o transforma. Muitas vezes, na Bíblia, a imposição de um novo nome significa que a pessoa recebe nova vocação e deverá transformar-se para corresponder. Na Bíblia, ser “rocha” é, antes de tudo, um atributo de Deus mesmo, o “Rochedo de Israel” (cf. Dt. 32,4 etc.). Jesus, com certeza, não quer colocar Pedro no lugar do “Rochedo de Israel”, mas o incumbe, por assim dizer, de uma missão que tenha qualidade análoga. A firmeza e a proteção evocadas pela imagem da rocha não são algo que Simão Pedro tem em si mesmo (ele negará conhecer Jesus na hora em que deveria testemunhar), mas são a firmeza e a proteção de Deus das quais ele é constituído “ministro”, e essa “nomeação” vai acompanhada de uma promessa: as “portas” (cidade fortificada, reino) do inferno não poderão nada contra a Igreja. Esse ministério está a serviço do reino dos céus (maneira de Mateus dizer o reino de Deus). Assim como as chaves das portas da cidade são entregues a seu prefeito (cf. Is 22,22), assim Pedro recebe o governo da comunidade que instaura o reino de Deus no mundo. Em Mt 18,18, autoridade semelhante é exercida pela comunidade, mas Pedro tem uma responsabilidade específica, unificadora, que dá solidez à Igreja.

2ª leitura (2Tm. 4,6-8.17-18)

A segunda leitura evoca Paulo. Ele, que sempre trabalhou com as próprias mãos, está agrilhoado; na defesa, ninguém o assistiu. Contudo, fala cheio de gratidão e esperança. “Guardou a fidelidade”: a sua e a dos fiéis. Aguarda com confiança o encontro com o Senhor. Ofereceu sua vida no amor, e o amor não tem fim (cf. 1Cor 13,8). Seu último ato religioso é a oblação da própria vida (cf. Rm. 1,9; 12,1). Sua vida está nas mãos de Deus, que a arrebata da boca das feras.

Sua vocação se deu por ocasião da aparição de Cristo no caminho de Damasco: de perseguidor, Paulo se transformou em apóstolo e realizou, mais do que os outros apóstolos, a missão de ser testemunha de Cristo até os confins da terra (At 1,8). Apóstolo dos pagãos, tornou realidade a universalidade da Igreja, da qual Pedro é o guardião. A segunda leitura que hoje ouvimos é o resumo de sua vida de plena dedicação à evangelização entre os pagãos, nas circunstâncias mais difíceis: a palavra tinha de ser ouvida por todas as nações (2Tm. 4,17). A ninguém podia ficar escondida a luz de Cristo! O mundo em que Paulo se movimentava estava dividido entre a religiosidade rígida dos judeus farisaicos e o mundo pagão, entre a dissolução moral e o fanatismo religioso. Nesse contexto, o apóstolo anunciou o Cristo crucificado como a salvação: loucura para os gregos, escândalo para os judeus, mas alegria verdadeira para quem nele crê. Missão difícil. No fim de sua vida, Paulo pode dizer que “combateu o bom combate e conservou a fé”. Essa afirmação deve ser entendida como fidelidade na prática, tanto de Paulo como dos fiéis que ele ganhou. Como Cristo, o bom pastor, não deixa as ovelhas se perder, assim também o apóstolo, enviado de Cristo, as conserva nesse laço de adesão fiel, marca de sua própria vida.

Pistas para reflexão

Conforme o evangelho, Simão responde pela fé dos seus irmãos. Por isso, Jesus lhe dá o nome de Pedro, que significa sua vocação de ser “pedra”, rocha, para que seja edificada sobre ele a comunidade dos que aderem a Jesus na fé. Pedro deverá dar firmeza aos seus irmãos (cf. Lc. 22,32). Essa “nomeação” vai acompanhada de uma promessa: o reino do inferno não poderá nada contra a Igreja, que é uma realização do reino do céu. A libertação da prisão, lembrada na primeira leitura, ilustra essa promessa. Jesus confia a Pedro “o poder das chaves”, o serviço de administrador de sua “cidade”, de sua comunidade. À medida que a Igreja é realização (provisória, parcial) do reino de Deus, Pedro e seus sucessores, os papas, são “administradores” dessa parcela do reino. Eles têm a última responsabilidade do serviço pastoral. Pedro, sendo aquele que “responde” pelos Doze, administra ou governa as responsabilidades da evangelização (não a administração material). Quem exerce esse serviço hoje é o papa, sucessor de Pedro e bispo de Roma, cidade que, pelas circunstâncias históricas, se tornou o centro a partir do qual melhor se exercia essa missão. Pedro recebe também o poder de “ligar e desligar” – o poder da decisão, de obrigar ou deixar livre –, exatamente como último responsável da comunidade (a qual também participa nesse poder, como mostra Mt. 18,18). Não se trata de um poder ilimitado, mas de responsabilidade pastoral, que concerne à orientação dos fiéis para a vida em Deus, no caminho de Cristo.

Se Pedro aparece como fundamento institucional da Igreja, Paulo aparece mais na qualidade de fundador carismático. Transformado por Cristo em mensageiro seu (“apóstolo”), ele realiza, por excelência, a missão dos apóstolos de serem testemunhas de Cristo “até os extremos da terra” (cf. At. 1,8). As cartas a Timóteo, escritas na prisão em Roma, são a prova disso, pois Roma é a capital do mundo, o trampolim para o evangelho se espalhar por todo o mundo civilizado daquele tempo. Paulo é o “apóstolo das nações”. No fim da sua vida, pode entregá-la como “oferenda adequada” a Deus, assim como ensinou (Rm 12,1). Como Pedro, ele experimenta Deus como o Deus que liberta da tribulação (cf. a primeira leitura).

Hoje, celebra-se especialmente o “dia do papa”. Isso enseja uma reflexão sobre o serviço da responsabilidade última. Importa libertar-nos de um complexo antiautoritário de adolescentes. Pedro e Paulo representam duas vocações na Igreja, duas dimensões do apostolado – diferentes, mas complementares. As duas foram necessárias para que pudéssemos comemorar, hoje, os cofundadores da Igreja universal. A complementaridade dos dois “carismas” continua atual: a responsabilidade institucional e a criatividade missionária. Essa complementaridade pode provocar tensões (cf. Gl. 2); por exemplo, as preocupações de uma “teologia romana” podem não ser as mesmas que as de uma “teologia latino-americana”. Mas tal tensão pode ser extremamente fecunda e vital para a Igreja toda. Hoje, sabemos que o pastoreio dos fiéis – a pastoral – não é exercido somente pelos “pastores constituídos” como tais, pela hierarquia. Todos os fiéis são um pouco pastores uns dos outros. Devemos conservar a fidelidade a Cristo – a nossa e a dos nossos irmãos – na solidariedade do “bom combate”.

E qual será, hoje, o bom combate? Como no tempo de Pedro e Paulo, a luta pela justiça e pela verdade em meio a abusos, contradições e deformações. Por um lado, a exploração desavergonhada, que até se serve dos símbolos da nossa religião para fins lucrativos; por outro, a tentação de largar tudo e dizer que a religião é um obstáculo à emancipação humana. Nossa luta é, precisamente, assumir a libertação em nome de Jesus, sendo-lhe fiéis; pois, na sua morte, ele realizou a solidariedade mais radical que podemos imaginar.

Johan Konings, sj

 

 

Combateram o bom combate

A Igreja celebra o martírio de Pedro e de Paulo na mesma data porque eles estiveram unidos no mesmo propósito: seguir Jesus até a morte. Ambos são alicerces vivos do edifício espiritual que é a Igreja. Pedro evangelizou os judeus, Paulo fez a mensagem de Jesus chegar às demais nações. A incessante pregação de ambos foi fecundada com o martírio. Eles deram provas de até que ponto pode ir o ser humano quando elege o projeto de Deus como opção de vida. Não foram pessoas apenas de palavras, mas testemunhas de que a fé remove as montanhas do egoísmo. O modo como viveram e como morreram questiona o comodismo de nossa fé.

Evangelho (Mt. 16,13-19)

As portas do inferno não vencerão

No evangelho de hoje, Jesus faz duas perguntas aos discípulos. Na primeira, ele quer saber o que as pessoas em geral estão dizendo a respeito dele e, na segunda, o que os discípulos pensam sobre ele.

Com essas perguntas, pode parecer que Jesus está fazendo uma pesquisa, para ver se a mensagem dele está agradando ao público ou se ele terá de mudar alguma coisa que aumente o índice de audiência. Na verdade, Jesus está ocupado em construir, na consciência coletiva, a identidade dele, ou seja, quer estabelecer exata compreensão a respeito do Messias e, além disso, mostrar que tipo de Messias ele é. Jesus faz essas perguntas aos discípulos porque sabe que da correta assimilação de sua identidade depende a correta compreensão de sua mensagem. Se alguém entende de forma errada quem é Jesus, compreenderá erroneamente a sua mensagem e terá uma práxis totalmente diferente daquela que ele espera.

Na resposta dos discípulos à primeira pergunta são explicitadas as diversas esperanças messiânicas de Israel.

Pedro toma a iniciativa para responder à pergunta feita aos discípulos sobre a identidade de Jesus. Mas é a comunidade dos discípulos, representada por Pedro, quem diz corretamente quem é Jesus e qual sua missão. A resposta da comunidade representada por Pedro é uma profissão de fé no “Cristo, Filho do Deus vivo”. 

Essa profissão de fé não é fruto da lógica e do esforço humano, mas é revelação divina, pois quem o revela à comunidade é o próprio Pai, que está no céu. Foi a abertura da comunidade à revelação divina que possibilitou reconhecer o Cristo e confessar a fé nele. E é sobre a fé confessada no Cristo, Filho do Deus vivo, que a Igreja é edificada. A expressão “esta pedra” refere-se à confissão de fé e é um trocadilho com a palavra “Pedro”, por cujos lábios ela é pronunciada. O fundamento da Igreja é Jesus, pedra angular (Mt. 21,42), confessado por Messias/Cristo pela comunidade de seus seguidores.

Porque a comunidade dos seguidores confessou a verdadeira identidade de Jesus como Messias/Cristo, pedra angular ou fundamento, ela recebeu “as chaves do reino” (e não da Igreja). O termo “chaves” significa ter acesso e, nesse caso, remete a Is. 22,22. Então, é tarefa da Igreja cuidar da obra divina, não como um proprietário – pois o reino é de Deus –, mas como um mordomo ou despenseiro que cuida da casa de seu verdadeiro senhor, ao qual prestará contas de seu serviço. E cuidar do reino significa fazer com que ele cresça neste mundo.

Então a principal tarefa da comunidade dos discípulos de Jesus, a Igreja, é proporcionar o avanço do reino dos céus (ou de Deus). Esse avanço significa uma ofensiva contra tudo o que se constitui em antirreino (representado pelo termo “inferno”). “As portas”, naquela época como hoje, significavam o poder de defesa. Uma cidade (murada) com portas resistentes tinha grande poder de defesa numa batalha. “As portas do inferno não resistirão” significa que a comunidade dos discípulos de Jesus faz o reino avançar contra o antirreino (o inferno), e, por mais fortes que sejam os poderes de defesa (as portas) do inferno, não conseguirão resistir por muito tempo e por fim o reino vencerá e será instaurado plenamente. As portas do antirreino cairão.

Em função do avanço do reino, uma das tarefas da Igreja é “ligar ou desligar”, mas isso não diz respeito a uma autoridade soberana do líder da Igreja. O sentido de “ligar ou desligar” diz respeito ao âmbito da comunhão entre o fiel e a comunidade, ou melhor, ao sacramento da reconciliação. É precisamente no âmbito do ministério da reconciliação que a Igreja exerce a tarefa de excluir oficialmente um membro da comunhão plena ou readmiti-lo (reconciliá-lo), uma vez cumpridas certas condições.

Assim, “ligar” significa “algemar” alguém, ou seja, deixá-lo preso ao pecado; e “desligar” significa romper os laços com que o pecado escraviza o ser humano, readmitindo o pecador arrependido à comunidade salvífica.

Desse modo, “ligar ou desligar” significa fundamentalmente a faculdade de perdoar os pecados, reconciliando o pecador com Deus, mediante a visibilidade do sacramento, e impondo-lhes condições e obrigações que sejam o sinal da verdadeira conversão.

1ª leitura (At. 12,1-11)

Foi lançado na prisão

Na primeira leitura, Pedro é envolvido no mesmo destino de Jesus, primeiramente porque foi preso na festa dos Pães sem fermento (a Páscoa). Além disso, o texto começa com a decisão do rei Herodes de tentar destruir a Igreja, prendendo e matando seus líderes. O rei deseja remover os pilares da casa para fazer a construção inteira ruir. A prisão de Pedro não é um fato isolado – na mesma época, Tiago (filho de Zebedeu) foi martirizado. O governante condena pessoas inocentes para garantir a própria popularidade, algo semelhante ao que foi feito a Jesus.

Os detalhes sobre como Pedro estava sendo guardado pelos soldados romanos querem apenas assegurar que uma fuga seria impossível. Enquanto Pedro estava preso, a Igreja reunida orava incessantemente, solidarizando-se com a situação dele, pois constituíam um só corpo no Senhor. E ao fervor da oração Deus respondeu com a libertação. Na noite anterior ao dia em que Herodes apresentaria Pedro ao sinédrio para ser condenado, Deus agiu em resposta à oração da Igreja. 

O texto enfatiza que Pedro dormia enquanto esperava o próprio julgamento e condenação. Ele teve dificuldade para saber se o que estava acontecendo era real, o que significa que não esperava a libertação. E, se mesmo assim conseguia dormir, era porque confiava plenamente em Deus e estava preparado para morrer por sua fé. Enquanto Pedro está sendo libertado, o texto faz questão de ressaltar novamente que a prisão era de segurança máxima e que, apesar de todas as precauções, Herodes não conseguiu o seu intento de destruir a Igreja.

2ª leitura (2Tm. 4,6-8.17-18)

Terminei minha carreira, guardei a fé

O texto da segunda leitura se refere ao momento em que Paulo estava preso e pensava que seria condenado à morte. Suas palavras não revelam nenhuma amargura, mas a serenidade de quem se abandonou nas mãos de Deus. O apóstolo estava pronto para ser imolado, isto é, estava à disposição para ser morto por causa do evangelho. Além disso, considera que a morte por causa do evangelho é aceita por Deus como verdadeira oferta ou sacrifício. 

A vida do cristão é comparada a uma batalha e a um esporte de Olimpíada: “Combati o bom combate, terminei minha carreira” (v. 7), mas em tudo a fé saiu vitoriosa; faltava apenas subir ao pódio e receber a coroa de louros que confirmava a vitória. Isso significa que o apóstolo sabe que Deus não deixará sua morte sem resposta; a última palavra não é da morte, mas de Deus, que dá vida plena aos que nele se abandonam. A ressurreição não significa um prêmio, mas sim que Deus partilha a vida que lhe é própria (eterna) com aqueles que lhe doaram a vida humana e efêmera. A ressurreição é grande dom de Deus e não simples troca de uma vida por outra; a vida que doamos a Deus em nada se compara à vida eterna que ele gratuitamente nos dá. Por isso não é um prêmio. A coroação de que o apóstolo fala significa que a última ação é de Deus, e não do carrasco.

Pistas para reflexão

– As prisões dos dois apóstolos atestam que somente é verdadeiro discípulo de Cristo quem por ele enfrenta perseguições e martírios, mantendo a fé/fidelidade. Os exemplos de Pedro e Paulo mostram que a Igreja não é edificada sobre homens, mas sobre a confissão de fé no Cristo ressuscitado e ressuscitador. Tal confissão de fé não é apenas um discurso de belas palavras, mas testemunho de vivência na fidelidade a Deus custe o que custar, mesmo que seja a própria vida. Muitas pessoas se orgulham de que Cristo tenha entregado as chaves do reino para Pedro e não se lembram de que as chaves significam serviço. Outras pessoas se ufanam de que Pedro tenha recebido a missão de “ligar e desligar” e não sabem que o objetivo disso é manter a Igreja numa fé autêntica e operante no mundo. 

– É oportuno que o presidente da celebração evite aumentar o orgulho de ser católico e destaque a humildade de ser cristão, pois foi isto que Cristo nos ensinou. Também deve ficar claro, mesmo quando Pedro é o padroeiro do lugar, que a festa é também de são Paulo. Ambos são as duas colunas principais da Igreja.

Aíla Luzia Pinheiro Andrade, nj

 
 

Simplesmente Pedro e Paulo

Novamente vivemos a alegria da solenidade dos apóstolos Pedro e Paulo. Ao longo do ano litúrgico há outras comemorações de um e de outro: a festa da conversão de Paulo e a cátedra de Pedro.  Na presente solenidade os dois aparecem juntos e a coleta do dia  exprime bem o sentido da festa: “Ó Deus, que hoje nos concedeis a alegria de festejar são Pedro e são Paulo, concedei à vossa Igreja seguir em tudo os ensinamentos desses apóstolos que nos deram as primícias da fé.

Pedro, o pescador, o homem de pés no chão, preocupado com o trabalho duro de ir mar adentro, de passar noites e noites no mar da Galiléia. É chamado pelo Mestre.  Simão passa a ser chamado de Rocha, de Pedra, de Pedro.  Mostra, em vários lugares do Novo Testamento, um carinho e um amor muito grande pelo Mestre.  Quer mesmo tirar da espada e matar os que o perseguem… Quando muitos parecem  hesitar  ele prorrompe num grito de confiança: “A quem iremos, Senhor?  Só tu tens palavras de vida eterna”.  Declara que está disposto a acompanhar o Mestre até a morte.  Sua maravilhosa biografia, no entanto, revela também momentos de fragilidade. Uma empregada, no pátio da casa do governador romano, diz que ele era também  discípulo desse  Jesus que estava sendo julgado.  Pedro nega o Mestre.  El Grecco, o grande pintor espanhol,  representou belissimamente o rosto de Pedro, depois da negação, com uma lágrima no canto dos olhos.

Esse, que no seu próprio dizer, amava o Senhor mais do que os outros  nunca haveria de se esquecer da experiência que tivera na montanha da  transfiguração quando vira o rosto do Senhor transmutado e transfigurado.  Belamente a primeira leitura de hoje relata:  “Enquanto Pedro era mantido na prisão a Igreja rezava continuamente a  Deus por ele”.

Saulo de Tarso era judeu convicto. Não podia admitir que  Jesus um homem fosse tido como Deus. Os discípulos de  Jesus de Nazaré estavam  equivocados.  O Senhor, no entanto, escolhe esse  homem para uma missão admirável e única.  Ele seria o grande pregador do Evangelho às nações. Ele faria com que a Boa Nova atingisse os confins da terra. Converte-se, se reveste de força, anuncia a Palavra, cria comunidades, escreve cartas, penetra no mistério de Cristo, na altura, largura e comprimento do amor de Deus. Não sabe se é melhor continuar a pregar ou morrer e entrar na glória.  Tem como lixo e esterco tudo quem não é Cristo Jesus. Na epistola proclamada nesta liturgia ele diz:  “O Senhor esteve a meu lado e me deu forças, ele fez com que a mensagem fosse anunciada por mim  integralmente e ouvida por todas as nações.”

Pedro e Paulo são decantados e exaltados  no prefácio da missa de  hoje:  “Pedro, o primeiro a proclamar a fé, fundou a  igreja primitiva sobre a herança de Israel. Paulo, mestre e doutor das nações, anunciou-lhes o evangelho da salvação. Por diferentes meios, os dois congregaram a única família de Cristo e, unidos pela coroa do martírio, recebem hoje,  por toda a terra, igual veneração”.

 

 

Festa solene de duas colunas de nossa fé. A fé que professamos recebemos como herança dos apóstolos, de modo especial de Pedro e Paulo.

Pedro era pescador de Betsaida. Mais tarde se fixou em Cafarnaum. Seu irmão André foi quem o introduziu  Simão no grupo que começava a seguir Jesus. Talvez ele tivesse sido preparado para esse encontro pelo testemunho e pela fala de João Batista. Jesus muda o nome do pescador Simão para o de Pedro, rocha, pedra. Ele é uma das primeiras testemunhas da ressurreição do Mestre. Depois da Ascensão toma a frente da comunidade. Vemos claramente isto nos relatos da primeira metade dos Atos dos Apóstolos. Suas intervenções em público, seus discursos seguem basicamente o seguinte esquema: Jesus foi o eleito, passou a vida fazendo o bem, foi perseguido, padeceu o martírio da cruz, ressuscitou e, em seu nome, é pregado o evangelho para a conversão dos pecadores. Vemo-lo nitidamente à frente de seus companheiros. A missão que lhe fora confiada não elimina os traços de seu temperamento: experimenta medo, nega o Mestre, não quer deixar que Jesus lhe lave os pés, num veemente ímpeto corta a orelha de um servo. Paulo o enfrenta porque Pedro insiste ainda nas práticas religiosas obsoletas dos judeus.

Podemos destacar algumas de suas atitudes cheias de nobreza e  que mostram seu coração ardoroso: vive com intensidade a experiência luminosa da transfiguração de Jesus e sugere ao mestre que sejam feitas três tendas ali para eternizar aquele momento. No discurso do pão da vida quando todos parecem abandonar Jesus ele faz a famosa declaração: “A quem iremos, Senhor, só tu tens palavras de vida eterna”. No famoso episódio de Cesaréia de Filipe proclamado hoje na liturgia encontramos a solene declaração da messianidade de Jesus: “Tu és o Messias, o filho do Deus vivo”.

Paulo, depois de sua conversão na estrada de Damasco, experimenta uma profunda transformação. Tem consciência de que lhe foi  reservada  uma tarefa especial:  anunciar o mistério de Cristo aos gentios. Transforma-se num missionário andarilho. Percorre toda a região do Mediterrâneo em quatro viagens missionárias. Não se cansa. Sofre tudo por Cristo. Em sua fala transparece a força do Evangelho que é uma pessoa que pode revolucionar as pessoas e o mundo. É responsável de ser instrumento da ação do Cristo ressuscitado.  Com os convertidos e alguns de seus colaboradores mais diretos vai fundando comunidades de fé na gentilidade. Essas comunidades vão se somar às que iam surgindo a partir da herança de Israel. Desenvolve um imenso apostolado epistolar de cunho doutrinário e exortativo.  Suas epístolas enriqueceram imensamente o trabalho de evangelização que a Igreja estava  desenvolvendo e que realiza até nossos dias. Preso, na qualidade de cidadão romano, quer ser julgado na capital do Império. Para lá se dirige e ali dá a vida. Sem nos darmos conta fomos formando nosso homem interior a partir do ardente palavra de Paulo. Fazemos nossas palavras de Paulo: “Para mim,  viver é Cristo”. “Tenho por lixo tudo o que não for Cristo Jesus”. “Quando sou fraco é que sou forte”.   “Tudo posso naquele que me conforta”.

frei Almir Ribeiro Guimaeães

 
 

1) Pedro: Simão responde pela fé dos seus irmãos (evangelho). Por isso, Jesus lhe dá o nome de Pedro, que significa sua vocação de ser pedra, rocha, para que Jesus edifique sobre ele a comunidade daqueles que aderem a ele na fé. Pedro deverá dar firmeza aos seus irmãos (cf. Lc. 22,32). Esta “nomeação” vai acompanhada de uma promessa: as “portas” (= cidade, reino) do inferno (o poder do mal, da morte) não poderão nada contra a Igreja, que é uma realização do “Reino do Céu” (de Deus).

A libertação da prisão ilustra esta promessa (1ª leitura). Jesus lhe confia também “o poder das chaves”, i.é, o serviço de “mordomo” ou administrador de sua casa, de sua família, de sua comunidade ou “cidade”. Na medida em que a Igreja é realização (provisória, parcial) do Reino de Deus, Pedro e seus sucessores, os Papas, são “administradores” dessa parcela do Reino de Deus (dos “Céus” no sentido de “Deus”... nada a ver com a figura de Pedro como porteiro do céu no sentido do “além”..).

Eles têm a última responsabilidade do serviço pastoral. Pedro, sendo aquele que “responde pelos Doze”, administra ou governa as responsabilidades da evangelização (não a administração material...). Quem exerce este serviço hoje é o papa, sucessor de Pedro e bispo de Roma (de Roma, por causa das circunstâncias históricas).

Pedro recebe também o poder de “ligar e desligar” - o poder da decisão, de obrigar ou deixar livre -, exatamente como último responsável da comunidade (em Mt. 18,18, esse poder é dado à comunidade como tal, evidentemente sob a coordenação de quem responde por ela). Não se trata de um poder ilimitado, mas da responsabilidade pastoral, que concerne à orientação dos fiéis para a vida em Deus, no caminho de Cristo.

2) Paulo: Se Pedro aparece como fundamento institucional da Igreja, Paulo aparece mais na qualidade de fundador carismático. Sua vocação se dá na visão do Cristo no caminho de Damasco: de perseguidor, transforma-se em mensageiro de Cristo; “apóstolo”. É ele que realiza, por excelência, a missão dos apóstolos, de serem testemunhas de Cristo “até aos extremos da terra” (At. 1,8).

As cartas a Tímóteo, escritas da prisão em Roma, são a prova disto, pois Roma é a capital do mundo, o trampolim para o Evangelho se espalhar por todo o mundo civilizado daquele tempo. Ele é o “apóstolo das nações”. No fim da sua vida, pode oferecer sua vida como “oferenda adequada” a Deus, assim como ele ensinou (Rm 12,1). Como Pedro, ele experimenta Deus como um Deus que liberta da tribulação (2ª leitura).

Pedro e Paulo representam duas vocações na Igreja, duas dimensões do apostolado, diferentes, mas complementares. As duas foram necessárias para que pudéssemos comemorar, hoje, os fundadores da Igreja universal. A complementaridade dos dois “carismas” continua atual: a responsabilidade institucional e a criatividade missionária.

Essa complementaridade pode provocar tensões (cf. Gl. 2); as preocupações de uma “teologia romana” podem não ser as mesmas que as de uma “teologia latino-americana”. A recente polêmica em tomo da Teologia da Libertação mostrou que tal tensão pode ser extremamente fecunda e vital para a Igreja toda.

Hoje, celebra-se especialmente o “Dia do Papa”. Enseja uma reflexão sobre o serviço da responsabilidade última. Importa libertar-nos de um complexo antiautoritário de adolescentes. Devemos crescer para a obediência adulta, sem mistificação da autoridade, nem anarquia. O “governo” pastoral é um serviço legítimo e necessário na Igreja. Mas importa observar também que aquele que tem a última palavra deve escutar as penúltimas palavras de muita gente.

padre Johan Konings "Liturgia dominical"

 
 

Ter fé em Jesus e ser salvo

Na primeira parte do evangelho de Marcos (caps. 1–8), vemos Jesus percorrendo a região em torno do lago de Genesaré. Tanto do lado judaico como do lado pagão, manifesta a presença poderosa de Deus, por sua palavra e seus gestos de poder sobre os “espíritos imundos” e os elementos da natureza. Estes gestos deveriam corresponder à fé. Foi ao acalmar a tempestade no lago que Jesus perguntou aos discípulos apavorados: “Vocês ainda não têm fé?” (4,40). Quando eles voltam do outro lado e se encontram novamente em Cafarnaum, centro das primeiras atividades de Jesus, eles podem aprender das pessoas daí o que é ter fé.

Em 5,21-43, Marcos conta mais uma de suas histórias em forma de “sanduíche” (cf. acima, 10º dom.). Inclui uma história dentro da outra, como um recheio entre duas fatias de pão. As fatias de pão são a cura da filha de Jairo, e o “recheio”, a cura da mulher que sofria de hemorragia.

Quando Jesus chega em Cafarnaum, o chefe da sinagoga, Jairo, lhe cai aos pés e insiste: “Minha filhinha está no fim. Vem impor-lhe as mãos para que se salve e fique com vida!” Jesus vai com ele (vv. 21-24).

Enquanto caminham e grande multidão se comprime em torno deles, uma mulher lhe toca o manto para ver se ela talvez fique curada da hemorragia que há doze anos vem sofrendo. A hemorragia, além de tirar-lhe as forças, tornava-a “impura” para a religião que declarava impuro todo sangue. Sendo “impura”, ela nem poderia tocar o manto de Jesus. Robou, por assim dizer, a cura, pensando que ninguém ia perceber. Mas Jesus percebe tudo. Percebeu que uma força curadora saiu dele. Pergunta quem o tocou. Os discípulos acham a pergunta estúpida, por causa da gente apinhada em redor. Mas a mulher, cheia de medo, confessa. Jesus responde: “Filha, tua fé te salvou!” (vv. 25-34).

Além de ter cometido uma “infração”, a mulher causou também atraso. Enquanto estão falando, chegam os empregados de Jairo comunicando que a filhinha já morreu. Mas Jesus repete, agora para Jairo: “Não tenha medo, tenha fé!” E, entrando na casa sozinho com três discípulos-aprendizes, apesar dos comentários incrédulos do povo, toma a mão da menina e diz: “Menina, levanta-te”. Ela se levanta. Tinha doze anos. Como sempre, Jesus proíbe que se faça propaganda, pois estamos ainda na primeira parte do evangelho: o povo e os próprios discípulos ainda têm conceitos muito equivocados sobre a atuação de Jesus... (vv. 35-43).

Vimos dois casos de fé que salva. Mas que fé? Não se trata aqui de uma fé intelectual, fé em dogmas, etc. O sentido fundamental da fé, na Bíblia, é a constância e a firmeza que se tem em quem o merece. Em primeiro lugar, em Deus e no seu enviado, Jesus. Pois este se mostra depositário do poder-autoridade de Deus, capaz de gestos que significam a inauguração do seu Reinado. “Acreditar no evangelho” (Mc. 1,15) refere-se em primeiro lugar, à confiança no anúncio deste Reinado e naquele que o anuncia. Implica confiança nas obras de poder que respaldam este anúncio e inauguram a realidade do Reinado, já. Está aí o sentido profundo desta fé das pessoas que, em toda simplicidade, “contam com Jesus”.

padre Johan Konings "Descobrir a Bíblia partir da liturgia"

 
 

O Evangelho desta Solenidade nos mostra a cena em que Jesus perguntara aos discípulos o que os homens diziam a Seu respeito. E, quando Jesus perguntou o que os próprios discípulos diziam a Seu respeito, São Pedro tomou a palavra e disse:

“Tu és o Messias, o Filho do Deus Vivo” (Mt 16,16).

Jesus então afirmou que fora Deus quem inspirara São Pedro a dizer que Ele era o Messias e Filho do Deus Vivo.

Ouvindo assim, depressa, este diálogo de Jesus com São Pedro, pouco captamos da profundidade destas palavras.

Como São Pedro podia ter tanta convicção de que Jesus era o Messias e Filho de Deus?

Certamente São Pedro intuía estas coisas depois de ver tantas demonstrações de Jesus sobre Sua Missão messiânica e de sua filiação divina. Não sabemos em detalhe como São Pedro chegou a esta conclusão. Sabemos, no entanto, que Jesus o elogiou, chamando-o de “feliz”, como para dizer uma bem-aventurança exclusiva, dada a São Pedro.

Ora, se Deus Pai tinha inspirado São Pedro a reconhecer em Jesus o Messias Filho de Deus, Jesus podia confiar na escolha divina sobre Simão Pedro, e confiar-lhe as chaves do Reino dos Céus.

Assim Jesus proclamou com palavras solenes a missão dada a São Pedro por Ele e por vontade de Deus Pai:

“Eu te darei as chaves do reino dos céus:

tudo o que tu ligares na terra será ligado nos céus;

tudo o que tu desligares na terra será desligado nos céus” (Mt. 16,19).

Depois que Jesus subira aos céus, deixou como seu representante na terra São Pedro. São Pedro era a ponte, na terra, entre o céu e a terra, para perdoar e reconciliar os homens com Deus, ou para declarar que tal reconciliação não podia ser feita. É um poder tremendo, jamais dado a algum homem sobre a terra, exceto ao homem Jesus.

Sobre esta importância de São Pedro devemos refletir, ajudados por outras informações que a Liturgia da Palavra desta solenidade nos fornece.

Depois da Ascensão de Jesus, era São Pedro a cabeça da Igreja, da comunidade dos discípulos de Jesus.

O rei Herodes queria agradar os judeus incomodados com a atividade dos discípulos de Jesus, que se espalhavam e conquistavam a cada dia mais adeptos. Herodes já tinha matado São Tiago, o Maior, para agradar aos judeus. E, para lhes ficar ainda mais simpático, conseguindo dividendos políticos, Herodes planejou matar também São Pedro.

Diz o Livro dos Atos:

“Depois de prender Pedro, Herodes colocou-o na prisão [ ...]

tinha a intenção de apresentá-lo ao povo depois da festa da Páscoa”  (At. 12,4).

‘Apresentá-lo ao povo’ era o trunfo de Herodes para conseguir apoio político dos que detestavam Jesus e seus discípulos. Depois de apresentado ao povo, Herodes mandaria matar São Pedro, certamente à espada, como fizera com São Tiago.

Preso, à espera de sua morte, São Pedro somente podia confiar em Deus o seu fim.

O Livro dos Atos, no entanto, depois de dizer que a Igreja toda intercedia por São Pedro diante de Deus, descreve como um anjo o libertou das correntes que lhe prendiam os pés, e o conduziu para fora, ao encontro dos discípulos.

São Pedro mal se dera conta de que não vivera um sonho. Mas teve a certeza disto ao se ver na rua, fora da prisão. Então disse:

“Agora sei, de fato,

que o Senhor me enviou o seu anjo para me libertar do poder de Herodes

e de tudo o que o povo judeu esperava” (At 12,11).

Aquele Simão Pedro que Jesus escolhera para chefiar sua Igreja, não podia ser entregue a si mesmo. Deus interveio para libertá-lo. Ora, para a Igreja nascente, esta foi a prova de que Deus jamais a abandonaria. Deus estaria sempre ao lado dos que Nele confiassem.

Nesta mesma solenidade celebramos também São Paulo.

Jesus o escolhera para ser seu missionário entre os pagãos, os não judeus de todas as nações. São Paulo foi fiel a Jesus Cristo, e mais de uma vez correu o risco de morte para testemunhá-Lo.

Ao chegar à idade avançada, São Paulo escreveu a São Timóteo, seu ajudante mais próximo, estas palavras:

“Quanto a mim, já estou para ser derramado em sacrifício; [...]”  (2Tm 4,6).

“O Senhor me libertará de todo mal e me salvará para o seu reino celeste” (2Ts 4,18).

Ora, aconteceu com São Paulo o mesmo que acontecera a São Pedro.

Se na iminência da morte São Pedro foi socorrido por Deus, São Paulo sabia que Deus também o libertaria de todo mal, e, ainda, o salvaria para o Seu Reino Celeste.

São Pedro e São Paulo tinham sido apóstolos de Jesus Cristo ao longo de toda a vida, e sempre encontraram a proteção de Deus.

O Salmo Responsorial de hoje é apropriado para exprimir a entrega total destes apóstolos às mãos de Deus, quando diz:

“Este infeliz gritou a Deus e foi ouvido,

e o Senhor o libertou de toda angústia” [Sl 33(34),7].

Na festa de São Pedro e São Paulo, comemoremos a vitória do poder de Deus em favor de Sua Igreja. E como eles, aguardemos a proteção divina sobre cada um de nós, sobre todos os cristãos, enfim, sobre todos os que Ele salva por Seu filho na Igreja confiada a São Pedro e a São Paulo.

padre Valdir Marques, SJ

 
 

A liturgia de hoje, celebra são Pedro e são Paulo, os dois pilares de fundação da Igreja que, de formas diferentes e complementares, edificaram a Igreja de Jesus. É a festa da fé de são Pedro que reconheceu, antes de qualquer outro, Jesus como o Messias, e foi escolhido por Ele para ser a pedra fundamental da Igreja, por isso comemoramos também hoje o dia do papa, e de são Paulo que passou de perseguidor a perseguido por aceitar a missão para qual Jesus o convidou, de levar seus ensinamentos a todos: pagãos, reis e também ao povo de Israel, missão esta que ele cumpriu com dedicação e especial criatividade missionária.

Pedro, um homem simples, um pescador sem cultura que ao longo dos evangelhos se revela cheio de contrastes, se recusa a ter os pés lavados por Jesus, mas de imediato pede que Ele o lave por completo; diz que jamais abandonaria Jesus, mas em seguida quando Jesus é condenado, ele o nega três vezes. No entanto, o poder do Espírito Santo transforma esse homem simples e intempestivo em um líder sensato e dinâmico que, juntamente com seus irmãos em Cristo, funda a igreja de Jesus e a comanda com firmeza, como uma rocha. Jesus confiou também a ele as chaves do Reino dos céus, conferindo-lhe autoridade para governar Sua igreja, Seu povo. Já o poder de ligar e desliga, é o poder de tomar decisões e de absolver ou não os pecados.

Paulo, por sua vez, não era um discípulo que caminhou com Jesus durante sua vida terrena, ou se quer era seu seguidor, na verdade perseguia os cristãos e, no caminho de Damasco, na sua última perseguição a eles, Jesus o convida a conversão, e mais do que isto, quer que ele seja Seu apóstolo para levar a Sua palavra a todas as nações, missão esta que Paulo cumpre com coragem e determinação. Mas, seu marco principal é a criatividade de sua catequese, que faz brotar a fé em Cristo em todos os que o escutam, quer seja oralmente ou através de suas cartas repletas do Espírito Santo. Perto de sua morte, Paulo deixa em sua segunda carta a Timóteo 4,7, o seu mais belo ensinamento: “Combati o bom combate, terminei a minha corrida, conservei a fé”, pois não importa as adversidades que se tem no dia a dia, a Fé deve ser sempre conservada.

São Pedro e são Paulo eram muito unidos na missão, e o compromisso de Evangelizar eles cumpriram à risca, correndo risco de vida, sem medo, iluminados com a força do Espírito de Jesus que os fortalecia a cada dia, em todos os lugares.

 
 

Fé e missão

A missão de liderança confiada a Pedro exigiu dele uma explicitação de sua fé. Antes de assumir o papel de guia da comunidade, foi preciso deixar claro seu pensamento a respeito de Jesus, de forma a prevenir futuros desvios.

Se tivesse Jesus na conta de um messias puramente humano, correria o risco de transformar a comunidade numa espécie de grupo guerrilheiro, disposto a impor o Reino de Deus a ferro e fogo. A violência seria o caminho escolhido para fazer o Reino acontecer.

Se o considerasse um dos antigos profetas reencarnados, transformaria a Boa-Nova do Reino numa proclamação apocalíptica do fim do mundo, impondo medo e terror. De fato, pensava-se que, no final dos tempos, muitos profetas do passado haveriam de reaparecer.Se a fé de Pedro fosse imprecisa, não sabendo bem a quem havia confiado a sua vida, correria o risco de proclamar uma mensagem insossa, e levar a comunidade a ser como um sal que perdeu seu sabor, ou uma luz posta no lugar indevido.

Só depois que Pedro professou sua fé em Jesus, como o “Messias, o Filho do Deus vivo”, foi-lhe confiada a tarefa de ser “pedra” sobre a qual seria construída a comunidade dos discípulos: a sua Igreja. Entre muitos percalços, esse apóstolo deu provas de sua adesão a Jesus, selando o seu testemunho com a própria vida, demonstração suprema de sua fé. Portanto, sua missão foi levada até o fim.

padre Jaldemir Vitório

 
 

Mártires pelo testemunho do amor à pessoa de Jesus Cristo.

Ao celebrarmos a festa de Pedro e Paulo, celebramos a festa do que a Igreja é: Corpo de Cristo, testemunha de Jesus Cristo (At. 1,8), testemunha da vitória de Cristo sobre o mal e todas as suas manifestações e sobre a morte. Ao celebrarmos num mesmo dia a festa desses dois mártires, tão diferentes entre si mas unidos pelo mesmo amor à pessoa de Jesus, amor que os levou a entregar as próprias vidas, celebramos a diversidade da Igreja e o desafio de construir a comunhão eclesial. Um e outro puderam experimentar uma profunda e radical transformação em suas vidas. Pedro foi encontrado pelo Senhor às margens do mar da Galileia, enquanto com seu irmão André lavava as redes, depois de uma noite de pesca. A partir desse primeiro encontro, teve início um longo caminho de transformação radical da vida, que o levou a essa magnífica expressão de adesão radical a Jesus: “… Senhor, tu sabes tudo; tu sabes que eu te amo” (Jo 21,17). Paulo, de perseguidor implacável da Igreja de Cristo, foi iluminado pelo Senhor no caminho de Damasco. Essa iluminação, num primeiro momento, o cegou para fazê-lo compreender que todo o passado dele sem Cristo era uma grande cegueira. A luz que surpreendeu Paulo o cegou para dar a ele uma nova luz, a luz do Cristo ressuscitado, a iluminação que é dada como fruto da fé no Senhor, vencedor do mal e da morte.

A fé da Igreja está apoiada na rocha da fé de Pedro e no testemunho daqueles que com Pedro foram testemunhas oculares de tudo o que Jesus fez e ensinou. Pela fé a Igreja é revestida da luz do Cristo ressuscitado e, pela graça do mesmo Cristo, é herdeira de sua vitória (cf. Ap. 12,1-6). Deles e de todos os que viveram o tesouro da fé a ponto de darem suas vidas, pode-se dizer que nada foi capaz de separá-los do amor de Cristo (Rm. 8,35-37). Por razões diferentes, a Igreja de todos os tempos sempre foi perseguida e ameaçada. Sempre tivemos mártires. O nosso tempo, nesse aspecto, não faz exceção. Atrás do discurso da tolerância religiosa, esconde-se uma verdadeira rejeição aos valores verdadeiramente cristãos. Que Deus nos dê a graça e a força do Ressuscitado para que, apoiados na fé dos Apóstolos, possamos, não obstante o mundo que nos cerca, dar o verdadeiro testemunho de Cristo.

Carlos Alberto Contieri, sj

 

 

Confissão de Pedro

Esta narrativa da "confissão de Pedro" se completa e encontra seu sentido pleno com a narrativa seguinte sobre o primeiro "anúncio da paixão", com o diálogo conflitivo entre Jesus e Pedro. Estas narrativas são encontradas nos três evangelhos sinóticos, Marcos, Mateus, e Lucas, porém com destaques próprios em cada um destes evangelistas.

Marcos, que é o primeiro dos evangelhos canônicos a ser escrito, situa a passagem narrada no momento em que Jesus encerra seu ministério entre os gentios da Galiléia e das regiões vizinhas, iniciando o caminho para Jerusalém, em ambiente de exclusividade judaica, onde se dará o confronto final com os chefes de Israel. Marcos se preocupa em mostrar que Jesus rejeita o título messiânico, indicativo de ambição e poder, afirmando-se como o simples e humilde humano, cheio do amor de Deus e comunicador deste amor que dura para sempre. Um sinal de seu despojamento é a sua vulnerabilidade à morte programada pelos chefes do Templo e das sinagogas. Lucas, por sua vez, despreocupa-se com a situação temporal e geográfica do episódio narrado, colocando-o em um momento de oração de Jesus, e conclui sua narrativa, como Marcos, registrando a rejeição sumária de Jesus ao título messiânico.

No texto de Mateus, acima, encontramos duas de suas características dominantes. Mateus acentua a dimensão messiânica de Jesus e já apresenta sinais da instituição eclesial nascente. Mateus escreve na década de 80, quando os discípulos de Jesus oriundos do judaísmo estavam sendo expulsos das sinagogas que até então freqüentavam. Mateus pretende convencer estes discípulos de que em Jesus se realizavam suas esperanças messiânicas moldadas sob a antiga tradição de Israel. Daí o acentuado caráter messiânico atribuído a Jesus por Mateus. Os cristãos, afastados das sinagogas, começam a estruturar-se em uma instituição religiosa própria, na qual a figura de referência é Pedro, já martirizado em Roma. Embora no Segundo Testamento se perceba conflitos entre Pedro e Paulo (cf. Gl. 2,11-14), a liturgia os reúne em uma só festa. Pedro é lembrado pelo seu testemunho corajoso diante da perseguição e Paulo, por seu empenho missionário em territórios da diáspora judaica.

José Raimundo Oliva

 
 

“Eis os santos que, vivendo neste mundo, plantaram a Igreja, regando-a com seu sangue. Beberam do cálice do Senhor e se tornaram amigos de Deus”.

Estas palavras que o missal propõe como antífona de entrada desta solenidade, resumem admiravelmente o significado de são Pedro e são Paulo. A Igreja chama a ambos de “corifeus”, isto é líderes, chefes, colunas. E eles o são.

Primeiramente, porque são apóstolos. Isto é, são testemunhas do Cristo morto e ressuscitado. Sua pregação plantou a Igreja, que vive do testemunho que eles deram. Pedro, discípulo da primeira hora, seguiu Jesus nos dias de sua pregação, recebeu do Senhor o nome de Pedra e foi colocado à frente do colégio dos Doze e de todos os discípulos de Cristo. Generoso e ao mesmo tempo frágil, chegou a negar o Mestre e, após a ressurreição, teve confirmada a missão de apascentar o rebanho de Cristo. Pregou o Evangelho e deu seu último testemunho em Roma, onde foi crucificado sob o imperador Nero. Paulo não conhecera Jesus segundo a carne. Foi perseguidor ferrenho dos cristãos, até ser alcançado pelo Senhor ressuscitado na estrada de Damasco. Jesus o fez se apóstolo. Pregou o Evangelho incansavelmente pelas principais cidades do império romano e fundou inúmeras igrejas. Combateu ardentemente pela fidelidade à novidade cristã, separando a Igreja da sinagoga. Por fim, foi preso e decapitado em Roma, sob o imperador Nero.

O que nos encanta nestes gigantes da fé não é somente o fruto de sua obra, tão fecunda. Encanta-nos igualmente a fidelidade à missão. As palavras de Paulo servem também para Pedro: “Combati o bom combate, completei a corrida, guardei a fé”. Ambos foram perseverantes e generosos na missão que o Senhor lhes confiara: entre provações e lágrimas, eles fielmente plantaram a Igreja de Cristo, como pastores solícitos pelo rebanho, buscando não o próprio interesse, mas o de Jesus Cristo. Não largaram o arado, não olharam para trás, não desanimaram no caminho... Ambos experimentaram também, dia após dia, a presença e o socorro do Senhor. Paulo, como Pedro, pôde dizer: “Agora sei, de fato, que o Senhor enviou o seu anjo para me libertar...”

Ambos viveram profundamente o que pregaram: pregaram o Cristo com a palavra e a vida, tudo dando por Cristo. Pedro disse com acerto: “Senhor, tu sabes tudo; tu sabes que te amo”; Paulo exclamou com verdade: “Para mim, viver é Cristo. Minha vida presente na carne, eu a vivo na fé do Filho de Deus, que me amou e se entregou por mim”. Dois homens, um amor apaixonado: Jesus Cristo! Duas vidas, um só ideal: anunciar Jesus Cristo! Em Jesus eles apostaram tudo; por Jesus, gastaram a própria vida; da loucura da cruz e da esperança da ressurreição de Jesus, eles fizeram seu tesouro e seu critério de vida.

Finalmente, ambos derramaram o sangue pelo Senhor: “Beberam do cálice do Senhor e se tornaram amigos de Deus”. Eis a maior de todas a honras e de todas as glórias de Pedro e de Paulo: beberam o cálice do Senhor, participando dos seus sofrimentos, unido a ele suas vidas até o martírio em Roma, para serem herdeiros de sua glória. Eis por que eles são modelo para todos os cristãos; eis por que celebramos hoje, com alegria e solenidade o seu glorioso martírio junto ao altar de Deus! Que eles intercedam por nós na glória de Cristo, para que sejamos fiéis como eles foram.

Hoje também, nossos olhos e corações voltam-se para a Igreja de Roma, aquela que foi regada com o sangue dos bem-aventurados Pedro e Paulo, aquela, que guarda seus túmulos, aquela, que é e será sempre a Igreja de Pedro. Nós sabemos que ela é a esposa do Cordeiro, imagem da Jerusalém celeste. Conhecemos e veneramos o ministério que o Senhor Jesus confiou a Pedro e seus sucessores em benefício de toda a Igreja: ser o pastor de todo o rebanho de Cristo e a primeira testemunha da verdadeira fé naquele que é o “Cristo, Filho do Deus vivo”. Sabemos com certeza de fé que a missão de Pedro perdura nos seus sucessores em Roma. Hoje, a missão de Pedro é exercida por Bento XVI. Ao santo Padre, nossa adesão filial, por fidelidade a Jesus, que o constituiu pastor do rebanho. Não esqueçamos: o papa será sempre, para nós, o referencial seguro da comunhão na verdadeira fé apostólica e na unidade da Igreja de Cristo. Quando surgem, como ervas daninhas, tantas e tantas seitas cristãs e pseudo-cristãs, nossa comunhão com Pedro é garantia de permanência seguríssima na verdadeira fé. Quando o mundo já não mais se constrói nem se regula pelos critérios do Evangelho, a palavra segura de Pedro é, para nós, uma referência segura daquilo que é ou não é conforme o Evangelho.

Rezemos, hoje, pelo nosso santo Padre, Bento. Que Deus lhe conceda saúde de alma e de corpo, firmeza na fé, constância na caridade e uma esperança invencível. E a nós, o Senhor, por misericórdia, conceda permanecer fiéis até a morte na profissão da fé católica, a fé de Pedro e de Paulo, pala qual, em nome de Jesus, “Cristo Filho do Deus vivo”, os santos apóstolos derramaram o próprio sangue.

Ao Senhor, que é admirável nos seus santos e nos dá a força para o martírio, a glória pelos séculos dos séculos. Amém.

Solenidade de são Pedro e são Paulo

Hoje celebramos o glorioso martírio dos santos apóstolos Pedro e Paulo, aqueles “santos que, vivendo neste mundo, plantaram a Igreja, regando-a com seu sangue. Beberam do cálice do Senhor e se tornaram amigos de Deus”. Pedro, aquele a quem o Senhor constituiu como fundamento da unidade visível da sua Igreja e a quem concedeu as chaves do Reino; Paulo, chamado para ser apóstolo de um modo único e especial, tornou-se o Doutor das nações pagãs, levando o Evangelho aos povos que viviam nas trevas. Um pela cruz e o outro pela espada, deram o testemunho perfeito de Cristo, derramando seu sangue e entregando a vida em Roma, por volta do ano 67 da nossa era.

Esta solenidade hodierna dá-nos a oportunidade para algumas ponderações importantes.

A Igreja é apostólica. Esta é uma sua propriedade essencial. João, no Apocalipse, vê a Jerusalém celeste fundada sobre doze alicerces com os nomes dos doze apóstolos do Cordeiro (cf. 21,14). Eis: a Igreja não pode ser fundada por ninguém, a não ser pelo próprio Senhor, que a estabeleceu sobre o testemunho daqueles Doze primeiros que ele mesmo escolheu. Seu alicerce, portanto, sua origem, seu fundamento são o ministério e a pregação apostólicas que, na força do Espírito Santo, deverão perdurar até o fim dos tempos graças à sucessão apostólica dos bispos católicos, transmitida na consagração episcopal. Dizer que nossa fé é apostólica significa crer firmemente que a fé não pode ser inventada nem tampouco deixada ao bel-prazer das modas de cada época; crer que a Igreja tem como fundamento os apóstolos significa afirmar que não somos nós, mas o Cristo no Espírito Santo, quem pastoreia e santifica a Igreja pelo ministério dos legítimos sucessores dos apóstolos. O critério daquilo que cremos, a regra da nossa adesão ao Senhor Jesus, a norma da nossa fé é aquilo que recebemos dos santos apóstolos uma vez para sempre. Só a eles e aos seus legítimos sucessores o Senhor confiou a sua Igreja, concedendo-lhes a autoridade com a unção do Espírito para desempenharem o ofício de guiar o seu rebanho pelos séculos a fora. Olhemos para Pedro e Paulo e renovemos nosso firme propósito de nos manter alicerçados na fé católica e apostólica que eles plantaram juntamente com os demais discípulos do Senhor. Hoje, quando surgem tantas comunidades cristãs que se auto-intitulam “igrejas” e se auto-denominam “apostólicas”, estejamos atentos para não perder a comunhão com a verdadeira fé, transmitida de modo ininterrupto e fiel na única Igreja de Cristo, santa, católica e apostólica.

Um outro aspecto importante é o significado de ser apóstolo: ele não é somente aquele que prega Jesus, mas, sobretudo, aquele que, escolhido pelo Senhor, com ele conviveu, nele viveu e, por ele, entregou sua vida. Os apóstolos testemunharam Jesus não somente com a palavra, mas também com o modo de viver e com a própria morte. Por isso mesmo, seu martírio é uma festa para a Igreja, pois é o selo de tudo quanto anunciaram. O próprio são Paulo reconhecia: “Não pregamos a nós mesmos, mas a Cristo Jesus, o Senhor. Trazemos, porém, este tesouro em vasos de argila para que esse incomparável poder seja de Deus e não nosso. Incessantemente trazemos em nosso corpo a agonia de Jesus, a fim de que a vida de Jesus seja também manifestada em nosso corpo. Assim, a morte trabalha em nós; a vida, porém, em vós” (2Cor. 4,5.7.10.12). Eis o sinal do verdadeiro apóstolo: dar a vida pelo rebanho, com Jesus e como Jesus, gastando-se, morrendo, pra que os irmãos vivam no Senhor! Por isso a alegria da Igreja na festa de hoje: Pedro e Paulo não só falaram, não só viveram, mas também morreram pelo seu Senhor; e já sabemos pelo próprio Cristo-Deus que não há maior prova de amor que dá a vida por quem amamos! Bem-aventurado é Pedro, bendito é Paulo, que amaram tanto o Senhor a ponto de darem a vida por ele! Nisto são um exemplo, um modelo, uma norma de vida para todos nós. Aprendamos com eles!

Um terceiro aspecto que hoje podemos considerar é a ação fecunda da graça de Cristo na vida dos seus servos. O exemplo de Pedro, o exemplo de Paulo servem muito bem para nós. Bento XVI, ao ser eleito, afirmou humildemente que se consolava com o fato de Deus saber trabalhar com instrumentos insuficientes: quem era Simão, chamado Pedro? Um pescador sincero, mas rude, impulsivo e de temperamento movediço. No entanto, foi fiel à graça, e tornou-se Pedra sólida da Igreja, tão apegado ao seu Senhor, a ponto de exclamar, cheio de tímida humildade: “Senhor tu sabes tudo; tu sabes que te amo” (Jo 21,17). Quem era Saulo de Tarso, chamado Paulo? Um douto, mas teimoso e radical fariseu, inimigo de Cristo. Tendo sido fiel à graça, tornou-se o grande Apóstolo de Jesus Cristo, tão apaixonado pelo seu Senhor, a ponto de nos desafiar: “Sede meus imitadores como eu sou de Cristo!” (1Cor. 11,1). Eis, caros meus, abramo-nos também nós à graça que o Senhor nos concede para a edificação da sua obra, para a construção do seu Reino, e digamos como são Paulo: “Pela graça de Deus sou o que sou, e sua graça em mim não foi em vão” (1Cor. 15,10).

Ainda um derradeiro aspecto, amados no Senhor. Nesta hodierna solenidade somos chamados a refletir sobre o ministério de Pedro na Igreja. Simão por natureza foi feito Pedro pela graça. Pedro quer dizer pedra. Eis, portanto, Simão Pedra. “Tu és Pedro e sobre esta Pedra eu edificarei a minha Igreja. Eu te darei as chaves do Reino” (Mt. 16,16 ss). O ministério petrino é mais que a pessoa de Pedro. Seu serviço será sempre o de confirmar os irmãos na fé em Cristo, Filho do Deus vivo, mantendo a Igreja unida na verdadeira fé apostólica e na unidade católica. É este o ministério que até o fim dos tempos, por vontade do Senhor, estará presente na Igreja na pessoa do sucessor de Pedro, o bispo de Roma, a quem chamamos carinhosamente de papa, pai. O papa é o Pastor supremo da Igreja de Cristo porque somente a ele o Senhor entregou de modo supremo o seu rebanho. Aquilo que entregou aos doze e a seus sucessores, os bispos, entregou de modo especial a Pedro e a seus sucessores, o papa: “Tu me amas mais que estes? Apascenta as minhas ovelhas!” (Jo 21,15). Estejamos atentos, caríssimos: nossa obediência, nossa adesão, nosso respeito, nossa veneração pelo santo Padre não é porque o achamos simpático, sábio, ou de pensamento igual ao nosso, mas porque ele é aquele a quem o Senhor confiou a missão de confirmar os irmãos. Nossa certeza de que ele nos guia em nome de Cristo vem da promessa do próprio Senhor: “Simão, Simão, eis que Satanás pediu insistentemente para vos peneirar como trigo; eu, porém, orei por ti, a fim de que a tua fé não desfaleça. Quando, porém, te converteres, confirma teus irmãos” (Lc. 22,31-32). É porque temos certeza da eficácia da oração de Jesus por Pedro e seus sucessores, que aderimos com fé ao ensinamento do santo Padre. Estejamos certos de uma coisa: quem não está em comunhão com o papa está fora da plena comunhão visível com a Igreja de Cristo, que é a Igreja católica.

dom Henrique Soares da Costa

 
 

1º leitura: At. 12,1-11 - AMBIENTE

O texto que nos é hoje proposto encerra praticamente a primeira parte do livro dos Atos dos Apóstolos (a história da expansão do cristianismo dentro das fronteiras palestinas – cf. At. 1-12). Lucas narra, neste texto, uma nova perseguição à Igreja de Jesus.

Esta perseguição é obra de Herodes Agripa I, neto do famoso Herodes, o Grande. O imperador Calígula deu-lhe, por volta do ano 37, os antigos territórios de Filipe (Itureia, Traconítide, Bataneia, Gaulanítide e Auranítide); mais tarde (ano 40), confiou-lhe ainda os antigos territórios de Herodes Antipas (Galileia e Pereia). Depois do assassínio de Calígula, Herodes Agripa prestou vários serviços ao imperador Cláudio, o qual lhe ofereceu o governo da Samaria e da Judeia (ano 41). Assim, Herodes Agripa I reinou praticamente sobre toda a Palestina entre os anos 41 e 44. Morreu subitamente no ano 44, durante uma cerimónia pública.

Herodes Agripa I preocupou-se bastante em não se incompatibilizar com os líderes judaicos. Por isso, foi muito cuidadoso em observar as prescrições da Lei de Moisés (embora essa preocupação tenha sido mais por política do que por convicção: fora do território judaico, Herodes Agripa I vivia à maneira helénica). Foi, provavelmente, com o mesmo objetivo que ele tentou suprimir a “seita cristã”, mandando executar Tiago e prendendo Pedro.

Este Tiago de que se fala no nosso texto é o filho de Zebedeu, irmão de João. Tiago era, com toda a certeza, um pregador ativo do Evangelho de Jesus e um membro importante da comunidade cristã de Jerusalém. Com esta morte violenta, Tiago “bebeu do mesmo cálice”, conforme lhe foi anunciado pelo próprio Jesus (cf. Mc. 10,38).

Estamos no ano 42.

Esta perseguição atingiu também outros membros da comunidade cristã de Jerusalém. O próprio Pedro foi preso, neste contexto, embora tenha sido, posteriormente, libertado. Os dados avançados por Lucas – no texto que nos é hoje proposto – sobre a prodigiosa libertação de Pedro não devem ser rigorosamente históricos; mas devem ser, sobretudo, uma catequese sobre a forma como Deus cuida da sua Igreja e dos discípulos que dão testemunho da salvação.

MENSAGEM

No livro dos Atos dos Apóstolos, Lucas procura mostrar como o plano salvador de Deus para os homens continua a cumprir-se, mesmo depois da partida de Jesus para junto do Pai. Os discípulos de Jesus são agora, no meio do mundo, as testemunhas desse projeto de libertação que Deus ofereceu aos homens através de Jesus Cristo.

Como é que o mundo acolhe o testemunho dos discípulos? Deus deixa as testemunhas do seu projeto de salvação entregues à sua sorte, à mercê da perseguição e da incompreensão do mundo? O texto que nos é proposto como primeira leitura procura responder a estas questões.

1. Os elementos históricos avançados por Lucas sobre a morte de Tiago e a prisão de Pedro, no contexto da perseguição contra a Igreja durante o reinado de Herodes Agripa I (vs. 1-4), mostram como o testemunho do projeto libertador de Deus no mundo gera sempre confronto com as forças da opressão e da morte. Trata-se de uma realidade que não deve deixar os discípulos surpreendidos, pois o próprio Jesus teve que percorrer o caminho da cruz (a indicação de que Pedro foi preso no dia dos Ázimos e, portanto, muito próximo do dia de Páscoa, pode sugerir uma correspondência com a Páscoa de Jesus: o caminho que Pedro está a seguir é o mesmo caminho do Mestre). Por outro lado, a oposição do mundo não pode nem deve calar o testemunho que os discípulos são chamados a dar.

2. Enquanto Pedro estava na prisão, a Igreja orava por ele (v. 5). A indicação mostra uma comunidade cristã unida, em que os crentes estão próximos e solidários, apesar da distância e das grades da prisão. Por outro lado, o fato de a libertação de Pedro acontecer enquanto a Igreja “orava instantemente a Deus por ele” mostra como Deus escuta a oração da comunidade.

3. A maravilhosa história da libertação de Pedro (vs. 6-11) mostra a presença efetiva de Deus na caminhada da sua Igreja e a solicitude com que Deus cuida daqueles que dão testemunho do seu projeto de salvação no meio dos homens. O relato está construído com elementos maravilhosos e prodigiosos que não são, certamente, de caráter histórico (o aparecimento do “anjo do Senhor”, a luz que iluminou a cela da cadeia, a passagem pelos guardas sem que nenhum deles se tivesse apercebido da fuga do prisioneiro, a abertura milagrosa da porta da prisão); mas pretendem sublinhar a presença de Deus e apor no testemunho dos apóstolos o “selo de garantia” de Deus. Não há dúvida: Deus está com os apóstolos e, diante da oposição do mundo, garante a autenticidade da proposta apresentada por eles.

ATUALIZAÇÃO

·  Como cenário de fundo da nossa primeira leitura, está o fato de a comunidade cristã (aqui representada por Pedro) ser uma comunidade que tem como missão dar testemunho do projeto libertador de Deus no meio dos homens. A Igreja que nasce de Jesus não é uma comunidade fechada em si própria, ou que vive apenas de olhos postos no céu à espera que Deus, de forma mágica, renove o mundo; mas é uma comunidade comprometida com a transformação do mundo, que testemunha – com palavras e com gestos concretos – os valores de Jesus, do Evangelho e do mundo novo.

·  O nosso texto mostra que o anúncio da proposta de salvação que Deus faz aos homens gera sempre oposição. Essa oposição vem, especialmente, daqueles que querem perpetuar os mecanismos de exploração, de injustiça, de morte; mas também pode vir de quem está comodamente instalado na escravidão e não tem a coragem de questionar as cadeias que o prendem… Em qualquer caso, a oposição traduz-se sempre em atitudes de incompreensão, de desrespeito, ou mesmo de perseguição declarada. Uma Igreja que procura ser fiel ao mandato de Jesus e testemunhar a libertação de Deus ver-se-á sempre confrontada com esta realidade. Todos nós, discípulos de Jesus, chamados a testemunhar a vida de Deus na sociedade, no nosso local de trabalho, na nossa família, conhecemos a oposição, as calúnias, os sarcasmos, a dificuldade em que levem a sério o nosso testemunho… Tal fato não deve preocupar-nos demasiado: é a reação lógica do mundo quando se sente questionado pelos valores de Jesus. Para nós, o que é importante é afirmar, com sinceridade e verticalidade, os valores em que acreditamos.

·  A história de Pedro que hoje nos é proposta garante-nos que, nos momentos de perseguição e de oposição, o nosso Deus não nos abandona. Ele será sempre uma presença reconfortante e libertadora ao nosso lado, dando-nos a coragem para continuarmos a nossa missão e para darmos testemunho dos valores do Reino. O cristão não tem medo porque sabe que Deus está com ele e que, por isso, nenhum mal lhe acontecerá.

· A nossa história sugere também a importância da união e da solidariedade da comunidade, sobretudo para com os irmãos que estão longe ou que estão em situações dramáticas de sofrimento. A oração é uma forma de manifestar essa solidariedade e a comunhão que deve unir todos os irmãos, membros da mesma família de fé.

 

2º leitura: 2 Timóteo 4,6-8.17-18 - AMBIENTE

O Timóteo destinatário desta carta é um cristão nascido em Listra (Ásia Menor), de pai grego e de mãe judeo-cristã. A partir de certa altura, tornou-se um companheiro inseparável de Paulo; foi a ele que Paulo confiou importantes missões e a quem encarregou da responsabilidade pastoral das Igrejas da Ásia Menor. Segundo a tradição, foi o primeiro bispo da comunidade cristã de Éfeso.

É muito duvidoso que seja Paulo o autor desta carta: a linguagem, o estilo e mesmo a doutrina apresentam diferenças consideráveis em relação a outras cartas paulinas; além disso, o contexto eclesial em que esta carta nos situa é mais do final do séc. I ou princípios do séc. II do que da época de Paulo (o grande problema destas cartas já não é o anunciar o Evangelho, mas o “conservar a fé”, frente aos falsos mestres que se infiltram nas comunidades e que ensinam falsas doutrinas).

De qualquer forma, quem escreve a carta refere-se à vida de Paulo como uma vida integralmente preenchida pelo amor a Jesus Cristo e ao seu Evangelho. Estamos numa época em que as comunidades cristãs se debatiam com as perseguições organizadas, a falta de entusiasmo dos crentes e as falsas doutrinas… Ao recordar, desta forma, o exemplo de Paulo, o autor desta carta pretende convidar os crentes em geral (e os animadores das comunidades, em particular) a redescobrirem o entusiasmo por Jesus e pelo testemunho da Boa Nova libertadora que Jesus veio propor aos homens.

MENSAGEM

O autor da carta apresenta-se na pele de Paulo, prisioneiro em Roma; e, nessa pele, faz um balanço final da sua vida e da sua entrega ao serviço do Evangelho.

A vida de Paulo foi, desde o seu encontro com Cristo ressuscitado na estrada de Damasco, uma resposta generosa ao chamamento e um compromisso total com o Evangelho. Por Cristo e pelo Evangelho, Paulo lutou, sofreu, gastou e desgastou a sua vida num dom total, para que a salvação de Deus chegasse a todos os povos da terra.

No final, ele sente-se como um atleta que lutou até ao fim para vencer e está satisfeito com a sua prestação. Resta-lhe receber essa coroa de glória, reservada aos atletas vencedores (e que Paulo sabe não estar reservada apenas a ele, mas também a todos aqueles que lutam com o mesmo denodo e o mesmo entusiasmo pela causa do “Reino”).

Para definir a sua vida como dom total a Deus e aos irmãos, Paulo utiliza aqui uma imagem bem sugestiva: a imagem da vítima imolada em sacrifício. Paulo fez da sua vida um dom total, ao serviço do Evangelho; a sua entrega foi um sacrifício cultual a Deus. Agora, para que o sacrifício seja total, só resta coroar a sua entrega com o dom do seu sangue… A referência à oferta “em libação” faz referência aos sacrifícios em que se vertia o vinho sobre o altar, imediatamente antes de ser imolada a vítima sacrificial.

Há duas maneiras de dar a vida por Cristo: uma é gastá-la dia a dia na tarefa de levar a libertação que Cristo veio propor a todos os povos da terra; outra é derramar, de uma vez, o sangue por causa da fé e do testemunho de Cristo… Paulo conheceu as duas modalidades; imitar Paulo é um desafio que o autor da carta a Timóteo faz aos discípulos do seu tempo e de todos os tempos.

Na segunda parte do nosso texto (vs. 16-18), o autor desta carta põe na boca de Paulo o lamento desiludido de um homem cansado que, apesar de ter oferecido a sua vida como dom aos irmãos se sente, no final, votado ao abandono e à solidão… Mas, apesar de tudo, Paulo tem consciência de que Deus esteve a seu lado ao longo da sua caminhada, lhe deu a força de enfrentar as dificuldades, o livrou de todo o mal e lhe dará, no final da caminhada, a vida definitiva. Daí o louvor com que Paulo termina: “glória a Ele por todo o sempre. Ámen”.

É esta a atitude que o autor da carta pede aos seus irmãos: apesar do desânimo, do sofrimento, da tribulação, descubram a presença de Deus, confiem na sua força, mantenham-se fiéis ao Evangelho: assim recebereis, sem dúvida, a salvação definitiva que Deus reserva a quem combateu o bom combate da fé.

ATUALIZAÇÃO

· Paulo foi uma das figuras que marcou, de forma decisiva, a história do cristianismo. Ao olharmos para o seu exemplo, impressiona-nos como o encontro com Cristo marcou a sua vida de forma tão decisiva; espanta-nos como ele se identificou totalmente com Cristo; interpela-nos a forma entusiasmada e convicta como ele anunciou o Evangelho em todo o mundo antigo, sem nunca vacilar perante as dificuldades, os perigos, a tortura, a prisão, a morte; questiona-nos a forma como ele quis viver ao jeito de Cristo, num dom total aos irmãos, ao serviço da libertação de todos os homens. Paulo é, verdadeiramente, um modelo e um testemunho que deve interpelar, desafiar e inspirar cada crente.

·  O caminho que Paulo percorreu continua a não ser um caminho fácil. Hoje, como ontem, descobrir Jesus e viver de forma coerente o compromisso cristão implica percorrer um caminho de renúncia a valores a que os homens dos nossos dias dão uma importância fundamental; implica ser incompreendido e, algumas vezes, maltratado; implica ser olhado com desconfiança e, algumas vezes, com comiseração… Contudo, à luz do testemunho de Paulo, o caminho cristão vivido com radicalidade é um caminho que vale a pena, pois conduz à vida plena.

·  Concordo? É este o caminho que eu me esforço por percorrer? Convém ter sempre presente esse dado fundamental que deu sentido às apostas de Paulo: aquele que escolhe Cristo não está só, ainda que tenha sido abandonado e traído por amigos e conhecidos; o Senhor está a seu lado, dá-lhe força, anima-o e livra-o de todo o mal. Animados por esta certeza, temos medo de quê?

 

Evangelho: Mateus 16,13-19 - AMBIENTE

O Evangelho deste domingo situa-nos no norte da Galileia, perto das nascentes do rio Jordão, em Cesareia de Filipe (na zona da atual Bânias). A cidade tinha sido construída por Herodes Filipe (filho de Herodes o Grande) no ano 2 ou 3 a.C., em honra do imperador Augusto.

O episódio que nos é proposto ocupa um lugar central no Evangelho de Mateus.

Aparece num momento de viragem, quando começa a perfilar-se no horizonte de Jesus um destino de cruz. Depois do êxito inicial do seu ministério, Jesus experimenta a oposição dos líderes e um certo desinteresse por parte do povo. A sua proposta do Reino não é acolhida senão por um pequeno grupo – o grupo dos discípulos.

É, então, que Jesus dirige aos discípulos uma série de perguntas sobre Si próprio.

Não se trata, tanto, de medir a sua quota de popularidade; trata-se, sobretudo, de tornar as coisas mais claras para os discípulos e confirmá-los na sua opção de seguir Jesus e de apostar no Reino.

O relato de Mateus é um pouco diferente do relato do mesmo episódio feito por outros evangelistas (nomeadamente Marcos – cf. Mc. 8,27-30). Mateus remodelou e ampliou o texto de Marcos, acrescentando a afirmação de que Jesus é o Filho de Deus e a missão confiada a Pedro.

MENSAGEM

O nosso texto pode dividir-se em duas partes. A primeira, de caráter mais cristológico, centra-se em Jesus e na definição da sua identidade. A segunda, de caráter mais eclesiológico, centra-se na Igreja, que Jesus convoca à volta de Pedro.

Na primeira parte (vs. 13-16), Jesus interroga duplamente os discípulos: acerca do que as pessoas dizem d’Ele e acerca do que os próprios discípulos pensam.

A opinião dos “homens” vê Jesus em continuidade com o passado (“João Batista”, “Elias”, “Jeremias” ou “algum dos profetas”). Não captam a condição única de Jesus, a sua novidade, a sua originalidade. Reconhecem, apenas, que Jesus é um homem convocado por Deus e enviado ao mundo com uma missão – como os profetas do Antigo Testamento… Mas não vão além disso. Na perspectiva dos “homens”, Jesus é, apenas, um homem bom, justo, generoso, que escutou os apelos de Deus e que Se esforçou por ser um sinal vivo de Deus, como tantos outros homens antes d’Ele (vs. 13-14). É muito, mas não é o suficiente: significa que os “homens” não entenderam a novidade do Messias, nem a profundidade do mistério de Jesus.

A opinião dos discípulos acerca de Jesus vai muito além da opinião comum. Pedro, porta-voz da comunidade dos discípulos, resume o sentir da comunidade do Reino na expressão: “Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo” (v. 16). Nestes dois títulos, resume-se a fé da Igreja de Mateus e a catequese aí feita sobre Jesus. Dizer que Jesus é “o Cristo” (Messias) significa dizer que Ele é esse libertador que Israel esperava, enviado por Deus para libertar o seu Povo e para lhe oferecer a salvação definitiva. No entanto, para os membros da comunidade do Reino, Jesus não é apenas o Messias: é também o “Filho de Deus”. No Antigo Testamento, a expressão “Filho de Deus” é aplicada aos anjos (cf. Dt. 32,8; Sal. 29,1; 89,7; Job. 1,6), ao Povo eleito (cf. Ex. 4,22; Os 11,1; Jer. 3,19), aos vários membros do Povo de Deus (cf. Dt. 14,1-2; Is. 1,2; 30,1.9; Jer. 3,14), ao rei (cf. 2Sm. 7,14) e ao Messias/rei da linhagem de David (cf. Sal. 2,7; 89,27). Designa a condição de alguém que tem uma relação particular com Deus, a quem Deus elegeu e a quem Deus confiou uma missão. Definir Jesus como o “Filho de Deus” significa, não só que Ele recebe vida de Deus, mas que vive em total comunhão com Deus, que desenvolve com Deus uma relação de profunda intimidade e que Deus Lhe confiou uma missão única para a salvação dos homens; significa reconhecer a profunda unidade e intimidade entre Jesus e o Pai e que Jesus conhece e realiza os projetos do Pai no meio dos homens. Os discípulos são convidados a entender dessa forma o mistério de Jesus.

Na segunda parte (vs. 17-19), temos a resposta de Jesus à confissão de fé da comunidade dos discípulos, apresentada pela voz de Pedro. Jesus começa por felicitar Pedro (isto é, a comunidade) pela clareza da fé que o anima. No entanto, essa fé não é mérito de Pedro, mas um dom de Deus (“não foram a carne e o sangue que to revelaram, mas sim o meu Pai que está nos céus” – v. 17). Pedro (os discípulos) pertence a essa categoria dos “pobres”, dos “simples”, abertos à novidade de Deus, que têm um coração disponível para acolher os dons e as propostas de Deus (esses “pobres” e “simples” estão em contraposição com os líderes – fariseus, doutores da Lei, escribas – instalados nas suas certezas, seguranças e preconceitos, incapazes de abrir o coração aos desafios de Deus).

O que é que significa Jesus dizer a Pedro que ele é “a rocha” (o nome “Pedro” é a tradução grega do hebraico “Kephâ” – “rocha”) sobre a qual a Igreja de Jesus vai ser construída? As palavras de Jesus têm de ser vistas no contexto da confissão de fé precedente. Mateus está, portanto, afirmando que a base firme e inamovível, sobre a qual vai assentar a Ekklesia de Jesus é a fé que Pedro e a comunidade dos discípulos professam: a fé em Jesus como o Messias, Filho de Deus vivo.

Para que seja possível a Pedro testemunhar que Jesus é o Messias Filho de Deus e edificar a comunidade do Reino, Jesus promete-lhe “as chaves do Reino dos céus” e o poder de “ligar e desligar”. Aquele que detém as chaves, no mundo bíblico, é o “administrador do palácio”… Ora o “administrador do palácio”, entre outras coisas, administrava os bens do soberano, fixava o horário da abertura e do fechamento das portas do palácio e definia quais os visitantes a introduzir junto do soberano… Por outro lado, a expressão “atar e desatar” designava, entre os judeus da época, o poder para interpretar a Lei com autoridade, para declarar o que era ou não permitido, para excluir ou re-introduzir alguém na comunidade do Povo de Deus. Assim, Jesus nomeia Pedro para “administrador” e supervisor da Igreja, com autoridade para interpretar as palavras de Jesus, para adaptar os ensinamentos de Jesus a novas necessidades e situações, e para acolher ou não novos membros na comunidade dos discípulos do Reino (atenção: todos são chamados por Deus a integrar a comunidade do Reino; mas aqueles que não estão dispostos a aderir às propostas de Jesus não podem aí ser admitidos).

Trata-se, aqui, de confiar a um homem (Pedro) um primado, um papel de liderança absoluta (o poder das chaves, o poder de ligar e desligar) da comunidade dos discípulos? Ou Pedro é, aqui, um discípulo que dá voz a todos aqueles que acreditam em Jesus e que representa a comunidade dos discípulos? É difícil, a partir deste texto, fazer afirmações concludentes e definitivas. O poder de “ligar e desligar”, por exemplo, aparece noutro contexto, confiado à totalidade da comunidade e não a Pedro em exclusivo (cf. Mt. 18,18). Provavelmente, o mais correto é ver em Pedro o protótipo do discípulo; nele, está representada essa comunidade que se reúne em volta de Jesus e que proclama a sua fé em Jesus como o “Messias” e o “Filho de Deus”. É a essa comunidade, representada por Pedro, que Jesus confia as chaves do Reino e o poder de acolher ou excluir. Isso não invalida que Pedro fosse uma figura de referência para os primeiros cristãos e que desempenhasse um papel de primeiro plano na animação da Igreja nascente, sobretudo nas comunidades da Síria (as comunidades a que o Evangelho de Mateus se destina).

ATUALIZAÇÃO

· Quem é Jesus? O que é que “os homens” dizem de Jesus? Muitos dos nossos conterrâneos vêem em Jesus um homem bom, generoso, atento aos sofrimentos dos outros, que sonhou com um mundo diferente; outros vêem em Jesus um admirável “mestre” de moral, que tinha uma proposta de vida “interessante”, mas que não conseguiu impor os seus valores; alguns vêem em Jesus um admirável condutor de massas, que acendeu a esperança nos corações das multidões carentes e órfãs, mas que passou de moda quando as multidões deixaram de se interessar pelo fenômeno; outros, ainda, vêem em Jesus um revolucionário, ingênuo e inconseqüente, preocupado em construir uma sociedade mais justa e mais livre, que procurou promover os pobres e os marginais e que foi eliminado pelos poderosos, preocupados em manter o “statu quo”.

Estas visões apresentam Jesus como “um homem” – embora “um homem” excepcional, que marcou a história e deixou uma recordação imorredoira. Jesus foi, apenas, um “homem” que deixou a sua pegada na história, como tantos outros que a história absorveu e digeriu?

Para os discípulos, Jesus foi bem mais do que “um homem”. Ele foi e é “o Messias, o Filho de Deus vivo”. Definir Jesus dessa forma significa reconhecer em Jesus o Deus que o Pai enviou ao mundo com uma proposta de salvação e de vida plena, destinada a todos os homens. A proposta que Ele apresentou não é, apenas, uma proposta de “um homem” bom, generoso, clarividente, que podemos admirar de longe e aceitar ou não; mas é uma proposta de Deus, destinada a tornar cada homem ou cada mulher uma pessoa nova, capaz de caminhar ao encontro de Deus e de chegar à vida plena da felicidade sem fim. A diferença entre o “homem bom” e o “Messias, Filho de Deus”, é a diferença entre alguém a quem admiramos e que é igual a nós, e alguém que nos transforma, que nos renova e que nos encaminha para a vida eterna e verdadeira.

·  “E vós, quem dizeis que Eu sou?” É uma pergunta que deve, de forma constante, ecoar nos nossos ouvidos e no nosso coração. Responder a esta questão não significa papaguear lições de catequese ou tratados de teologia, mas sim interrogar o nosso coração e tentar perceber qual é o lugar que Cristo ocupa na nossa existência… Responder a esta questão obriga-nos a pensar no significado que Cristo tem na nossa vida, na atenção que damos às suas propostas, na importância que os seus valores assumem nas nossas opções, no esforço que fazemos ou que não fazemos para O seguir… Quem é Cristo para mim?

· É sobre a fé dos discípulos (isto é, sobre a sua adesão ao Cristo libertador e salvador, que veio do Pai ao encontro dos homens com uma proposta de vida eterna e verdadeira) que se constrói a Igreja de Jesus. O que é a Igreja? O nosso texto responde de forma clara: é a comunidade dos discípulos que reconhecem Jesus como “o Messias, o Filho de Deus”. Que lugar ocupa Jesus na nossa experiência de caminhada em Igreja? Porque é que estamos na Igreja: é por causa de Jesus Cristo, ou é por outras causas (tradição, inércia, promoção pessoal…)?

· A Igreja de Jesus não existe, no entanto, para ficar a olhar para o céu, numa contemplação estéril e inconsequente do “Messias, Filho de Deus”; mas existe para O testemunhar e para levar a cada homem e a cada mulher a proposta de salvação que Cristo veio oferecer. Temos consciência desta dimensão “profética” e missionária da Igreja? Os homens e as mulheres com quem contatamos no dia a dia – em casa, no emprego, na escola, na rua, no prédio, nos acontecimentos sociais – recebem de nós este anúncio e este convite a integrar a comunidade da salvação?

· A comunidade dos discípulos é uma comunidade organizada e estruturada, onde existem pessoas que presidem e que desempenham o serviço da autoridade. Essa autoridade não é, no entanto, absoluta; mas é uma autoridade que deve, constantemente, ser amor e serviço. Sobretudo, é uma autoridade que deve procurar discernir, em cada momento, as propostas de Cristo e a interpelação que Ele lança aos discípulos e a todos os homens.

p. Joaquim Garrido, p. Manuel Barbosa, p. José Ornelas Carvalho

 
 

Esta solenidade data dos primeiros tempos do cristianismo. “Os apóstolos Pedro e Paulo são considerados por todos os fiéis cristãos, com todo o direito, como as primeiras colunas, não somente da Santa Sé romana, mas também da Igreja universal do Deus vivo, disseminada por toda a terra” (Paulo VI). Fundadores da Igreja de Roma, Mãe e Mestra das demais comunidades cristãs, foram eles que impulsionaram o seu crescimento com o supremo testemunho do “seu martírio, padecido em Roma com fortaleza: Pedro, a quem Nosso Senhor Jesus Cristo escolheu como fundamento da sua Igreja e bispo desta esclarecida cidade, e Paulo, o Doutor das gentes, mestre e amigo da primeira comunidade aqui fundada” (Paulo VI). No Brasil, transfere-se esta festa para o primeiro domingo depois de 29 de junho.

I. SIMÃO PEDRO, como a maior parte dos seguidores de Jesus, era natural de Betsaida, cidade da Galiléia, às margens do lago de Genesaré. Era pescador, como o resto da família. Conheceu Jesus por intermédio de seu irmão André, que pouco tempo antes, talvez naquele mesmo dia, tinha passado uma tarde inteira em companhia de Cristo, juntamente com João. André não guardou para si o tesouro que tinha encontrado, “mas, cheio de alegria, correu a contar ao seu irmão o bem que tinha recebido” (1).

Pedro chegou à presença do Mestre. Intuitus eum Iesus... “Jesus, fitando-o...” O Mestre cravou o olhar no recém-chegado e penetrou até o mais íntimo do seu coração. Como teríamos gostado de contemplar esse olhar de Cristo, capaz de mudar a vida de uma pessoa! Jesus olhou para Pedro de um modo imperioso e tocante. Nesse pescador galileu, ou melhor, para além dele, Jesus via toda a sua Igreja através dos tempos. O Senhor mostrou conhecê-lo desde sempre: Tu és Simão, filho de João! E também conhece o seu futuro: Tu te chamarás Cefas, que quer dizer Pedro. Nestas poucas palavras condensavam-se a vocação e o destino de Pedro, a sua tarefa neste mundo.

Desde o começo, “a situação de Pedro na Igreja é a da rocha sobre a qual se levanta o edifício” (2). Toda a Igreja – e a nossa própria fidelidade à graça – tem como pedra angular, como alicerce firme, o amor, a obediência e a união com o Sumo Pontífice; “em Pedro, robustece-se a nossa fortaleza”3, ensina São Leão Magno. Olhando para Pedro e para toda a Igreja na sua peregrinação terrena, vemos que lhes podem ser aplicadas as palavras pronunciadas por Jesus: Caiu a chuva, transbordaram os rios, sopraram os ventos e investiram contra aquela casa, mas ela não desabou porque estava fundada sobre rocha4. Rocha que, com as suas debilidades e defeitos, um dia foi escolhida pelo Senhor: um pobre pescador da Galiléia e os seus sucessores ao longo dos séculos.

O encontro de Pedro com Jesus deve ter impressionado profundamente os que o presenciaram, familiarizados como estavam com as cenas do Antigo Testamento. O próprio Deus tinha mudado o nome do primeiro Patriarca: Chamar-te-ás Abraão, que quer dizer Pai de uma multidão5. Também mudara o nome de Jacó pelo de Israel, que quer dizer Forte diante de Deus6. Agora, a mudança de nome de Simão não deixava de revestir-se de certa solenidade, no meio da simplicidade do encontro. “Eu tenho outros desígnios a teu respeito”, foi o que Jesus lhe deu a entender.

Mudar o nome equivalia a tomar posse de uma pessoa, ao mesmo tempo que era designar-lhe uma missão divina no mundo. Cefas não era nome próprio, mas o Senhor impõe-no a Pedro para indicar-lhe a função que desempenharia como seu Vigário e que lhe seria revelada de modo pleno mais tarde7. Nós podemos examinar hoje, na nossa oração, como é o nosso amor por aquele que faz as vezes de Cristo na terra: se rezamos diariamente por ele, se difundimos os seus ensinamentos, se o defendemos prontamente quando é questionado ao recordar a doutrina da Igreja, que é a mesma de sempre e que jamais mudará, ainda que mude o que os homens e as sociedades acham ou deixam de achar. Que alegria damos a Deus quando Ele vê que amamos, com obras, o seu Vigário aqui na terra!

II. Este primeiro encontro de Pedro com o Mestre não foi a chamada definitiva. Mas desde aquele instante o Apóstolo sentiu-se cativado pelo olhar de Jesus e por toda a sua Pessoa. Não abandona o seu ofício de pescador, mas acompanha Jesus e escuta os seus ensinamentos. É bem provável que tenha presenciado o primeiro milagre do Senhor em Caná, onde conheceu Maria, a Mãe de Jesus.

Um dia, às margens do lago, depois de uma pesca excepcional e milagrosa, Jesus convidou-o a segui-lo definitivamente8. Pedro obedeceu imediatamente – o seu coração fora sendo preparado pouco a pouco pela graça – e, deixando tudo, seguiu o Senhor, como discípulo disposto a compartilhar em tudo a sorte do Mestre.

Tempos depois, encontravam-se em Cesaréia de Filipe e, enquanto caminhavam, Jesus perguntou aos seus: E vós, quem dizeis que eu sou? Respondeu Simão Pedro e disse: Tu és o Cristo, Filho do Deus vivo9. Mal pronunciou estas palavras, Cristo prometeu-lhe solenemente o primado sobre toda a Igreja10. Como Pedro se lembraria então do que Jesus lhe dissera uns anos antes, quando seu irmão André o levara até Ele: Tu te chamarás Cefas...!

Pedro não mudou de maneira de ser tão rapidamente como mudou de nome. Não manifestou do dia para a noite a firmeza que o seu novo nome indicava. A par de uma fé firme como rocha, vemos nele um caráter às vezes vacilante. Certa vez, chegou até a ser motivo de escândalo para o Senhor, ele que seria o fundamento da Igreja de Cristo (11).

Deus conta com o tempo para formar cada um dos seus instrumentos, como conta também com a boa vontade de cada um deles. Nós, se tivermos a boa vontade de Pedro, se formos dóceis à graça, iremos convertendo-nos em instrumentos idôneos para servir o Mestre e para levar a cabo a missão que nos confiou. Até os acontecimentos que parecem mais adversos, os nossos próprios erros e vacilações, se recomeçarmos uma vez e outra, se abrirmos o coração ao sacerdote na direção espiritual, haverão de ajudar-nos a estar mais perto de Jesus, que não se cansa de suavizar e polir os nossos modos rudes e toscos. E é provável que, em momentos difíceis, cheguemos a ouvir como Pedro: Homem de pouca fé, por que duvidaste?12 E veremos Jesus ao nosso lado, estendendo-nos a mão.

III. Jesus teve especiais manifestações de afeto para com Pedro; no entanto, nos momentos dramáticos da Paixão, quando Jesus mais precisava dele, quando estava só e abandonado, Pedro negou-o.

Depois da Ressurreição, porém, numa ocasião em que Pedro e os outros Apóstolos tinham voltado ao antigo ofício de pescadores e se achavam em plena faina, Jesus foi procurá-lo especialmente a ele, e manifestou-se através de uma segunda pesca milagrosa, que lhe evocaria aquela outra após a qual o Mestre o convidara definitivamente a segui-lo e lhe prometera que seria pescador de homens. Agora, Jesus espera os discípulos nas margens do lago e, servindo-se de coisas materiais – uns peixes, umas brasas... –, sublinha diante deles o realismo da sua presença e reata ao mesmo tempo o tom familiar que imprimia ao seu convívio com os discípulos. Quando acabaram de comer, Jesus disse a Simão Pedro: Simão, filho de João, amas-me mais do que estes?...13

Depois anunciou-lhe: Em verdade te digo: Quando eras jovem, tu te cingias e ias aonde querias; quando fores velho, estenderás as mãos e outro te cingirá e te levará aonde não queres ir14. Quando São João escreveu o seu Evangelho, esta profecia já se tinha cumprido; é por isso que o Evangelista acrescenta: Jesus disse isto para indicar com que morte Pedro havia de glorificar a Deus. Depois o Senhor recordou a Pedro aquelas palavras memoráveis que um dia, anos atrás, nas margens daquele mesmo lago, tinham mudado para sempre a vida de Simão: Segue-me.

Uma piedosa tradição conta que, durante a cruenta perseguição de Nero, Pedro saía de Roma, a instâncias da própria comunidade cristã, em busca de um lugar mais seguro. Junto às portas da cidade, cruzou-se com Jesus que carregava a Cruz. E quando Pedro lhe perguntou: “Aonde vais, Senhor?” (Quo vadis, Domine?), ouviu a resposta do Mestre: “Vou a Roma para deixar-me crucificar novamente”. Pedro entendeu a lição e voltou para a cidade, onde o esperava a sua cruz.

Esta lenda parece um último eco daquele protesto de Pedro contra a cruz, quando o Senhor anunciou pela primeira vez a sua paixão15. Pedro morreu pouco tempo depois. Um historiador antigo refere que o Apóstolo pediu para ser crucificado de cabeça para baixo, por sentir-se indigno de morrer como o seu Mestre, de cabeça para o alto. O martírio do Príncipe dos Apóstolos é recordado por São Clemente, seu sucessor no governo da Igreja romana16. Pelo menos desde o século III, a Igreja comemora neste dia, 29 de junho, o martírio de São Pedro e São Paulo17, o dies natalis, o dia em que aqueles que foram as duas colunas da Igreja viram novamente a Face do seu Senhor e Mestre.

Apesar das suas fraquezas, Pedro foi fiel a Cristo, até dar a vida por Ele. Isto é o que lhe pedimos ao terminarmos esta meditação: fidelidade, apesar das contrariedades e de tudo o que nos seja adverso. Pedimos-lhe fortaleza na fé, como o próprio Pedro pedia aos primeiros cristãos da sua geração: que saibamos resistir fortes in fide18. “Que podemos pedir a Pedro para nosso proveito, que podemos oferecer em sua honra senão esta fé, na qual têm as suas origens a nossa saúde espiritual e a nossa promessa, por ele exigida, de sermosfortes na fé?”19

Esta fortaleza é a que pedimos também à nossa Mãe Santa Maria, para sabermos conservar a nossa fé sem ambigüidades, com serena firmeza, seja qual for o ambiente em que tenhamos de viver.

Francisco Fernández-Carvajal

(1) São João Crisóstomo, em Catena Aurea, vol. VII, pág. 113;

(2) Paulo VI, Alocução, 24-XI-1965;

(3) São Leão Magno, Homilia na festa de são Pedro Apóstolo 83,3;

(4) Mt. 7,25;

(5) cf. Gn. 17,5;

(6) cf. Gn. 32,28;

(7) cf. Mt. 16,16-18;

(8) cf. Lc. 5,11;

(9) Mt. 16,15-16;

(10) Mt. 16,18-19;

(11) cf. Mt. 16,23;

(12) Mt. 14,31;

(13) Jo 21,15 e segs.;

(14) Jo 21,18-19;

(15) cfr. Otto Hophan, Los Apóstoles, Palabra, Madrid, 1982, pág. 88;

(16) cfr. Paulo VI, Exort. Apost. Petrum et Paulum, 22-II-1967;

(17) João Paulo II, Angelus, 29-VI-1987;

(18) 1Pe. 5,9;

(19) Paulo VI, Exort. Apost. Petrum et Paulum, 22-II-1967.

 

 

O verdadeiro poder é o serviço

Hoje, junto com toda a Igreja celebramos a festa dos apóstolos Pedro e Paulo. Ambos são considerados as duas grandes colunas da Igreja.

Provindo de realidades diferentes, Pedro é pescador pobre da Galileia, Paulo é um judeu culto de origem romana. Os dois são conquistados por Jesus Cristo e fazem de sua vida uma paixão pelo reino como seu Mestre, até dar a vida no martírio.

O texto sobre o qual hoje somos convidados a refletir é fundamental no evangelho de Mateus. Depois de sua missão na Judéia, Jesus parte para terras estrangeiras, Cesareia de Filipe, no meio de uma confusão crescente e com aceitação discutida.

Leva seus discípulos e discípulas para fazer um balanço de sua missão neste momento crítico. Jesus surpreende aos seus com a pergunta: “Quem dizem os homens que é o Filho do Homem?” (Mt 16,13b)

Por que Jesus quer saber isso? 

Na relação com as pessoas, especialmente com os mais pobres, foi compreendendo o amor infinito do Pai por cada um deles, e sua consciência foi adquirindo a sabedoria do Reino e sua responsabilidade por ele.

E agora Jesus percebe que circula entre o povo diferentes expectativas sobre sua missão e uma imagem um pouco distorcida dele. Então se submete ao humilde e necessário ato de discernimento, mais um passo no crescimento de sua consciência, de sua responsabilidade diante do amor e da salvação que o Pai colocava em suas mãos.

Pela resposta que dão os discípulos, podemos concluir que, no dizer geral do povo, Jesus era um profeta, o profeta de Nazaré.

Se a primeira pergunta os surpreendeu, imaginem o que terá ocasionado neles esta segunda: “E vocês, quem dizem que eu sou?”

Peçamos luz ao Espírito Santo e respondamos a Jesus quem é Ele para nós?

Pedro em nome dos demais responde rapidamente: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo”.

Esta confissão de fé em Jesus Cristo é semelhante àquela que Marta faz para Jesus por ocasião da morte de Lázaro: “Eu acredito que tu és o Messias, o Filho de Deus que devia vir a este mundo” (Jo. 11,27).

Como disse Domergue no seu comentário O que quer dizer a palavra “Messias”? 

"Em primeiro lugar, Messias é aquele que recebeu a unção real ou sacerdotal. Um personagem de alguma forma 'consagrado'.

No tempo de Jesus, esperava-se a vinda de um'filho de Davi', um herdeiro da realeza davídica que viria restituir aos israelitas a sua autonomia. Um libertador, portanto, mas também um soberano. [...] 

Mal entendido aparecia cada vez com maior facilidade, na medida em que Jesus falava do 'Reino de Deus'. Não tinham chegado ainda a compreender o sentido desta expressão. Por outro lado, foi-se aos poucos concebendo o Messias como um personagem sobrenatural. De fato, com o passar do tempo, o 'Filho de Davi' tinha herdado características do 'Filho do homem', nome que Jesus se dá com muita frequência, em particular no v. 31 de nossa leitura." 

As duas confissões são inspiradas pelo Espírito Santo, por isso Jesus parabeniza Pedro, porque foi o Pai quem lhe deu a conhecer a verdade sobre Jesus.

O Reino de agora em diante é dos homens e das mulheres. O impossível converteu-se em nosso dote, em nosso tesouro. A Igreja está a serviço do Reino. Ressalta o Papa Francisco: O verdadeiro poder é o serviço. Ele também lembra que "O caminho do Senhor é o Seu serviço: assim como Ele fez o Seu serviço, nós devemos ir atrás dele, o caminho do serviço. Esse é o verdadeiro poder na Igreja. Eu gostaria hoje de rezar por todos nós para que o Senhor nos dê a graça de entender que o verdadeiro poder na Igreja é o serviço.

Agora Jesus abre os olhos de sua comunidade, alertando-a das dificuldades pelas quais vão passar. Adverte-os de que na vida cristã comprometida com o Reino haverá lutas, oposições, mas nada hão de temer, porque “o poder da morte não poderá sobre ela”!

Desta maneira Jesus antecipa sua vitória, não afasta o sofrimento, nem da sua vida nem da vida da sua comunidade, mas oferece a esperança da vitória, de que a morte não terá a última palavra nem sobre o Cristo, nem sobre seu Corpo! 

Fundada numa fé forte como a rocha e confiante nestas palavras de Jesus, as comunidades cristãs caminham entre luzes e sombras, buscando servir os homens e mulheres de todos os tempos como aprendeu de seu Mestre e Senhor, para que todos tenham vida, e vida em abundância.

Nesta festa lembramos todas aquelas discípulas e discípulos de Jesus que deram a vida em fidelidade ao Projeto do Pai: “Deixemos de lado tudo o que nos atrapalha e o pecado que se agarra a nós. Corramos com perseverança, mantendo os olhos fixos em Jesus, autor e consumador da fé. Levantem as mãos cansadas e fortaleçam os joelhos enfraquecidos. Endireitem os caminhos por onde terão que passar, a fim de que o aleijado não manque, mas seja curado” (Hb. 12,1-2.12-13).

Oração

Peçamos ao Senhor, pela intercessão de seus santos que sua Igreja tenha a fé fundante de Pedro e a ousadia evangélica de Paulo.

A festa dos Apóstolos

alegra todo o mundo

até os seus extremos

com júbilo profundo.

Louvamos Pedro e Paulo,

por Cristo consagrados

colunas das Igrejas

no sangue derramado.

São duas oliveiras

diante do Senhor,

brilhantes candelabros

de esplêndido fulgor.

Do céu luzeiros claros,

desatam todo laço

de culpa, abrindo aos santos

de Deus o eterno Paço.

Ao Pai louvor e glória

nos tempos sem fronteiras.

Império a vós, o Filho,

beleza verdadeira.

Poder ao Santo Espírito,

Amor e Sumo Bem.

Louvores à Trindade

nos séculos. Amém.

(Hino da Liturgia da Horas)

Referências

BARBAGLIO, Giuseppe; FABRIS, Rinaldo; MAGGIONI Bruno. Os evangelhos. São Paulo: Loyola, 1990.

PIKAZA, Javier. A Teologia de Mateus. São Paulo: Paulinas, 1978.

 

 

Ninguém consegue algemar o evangelho de Jesus Cristo!

Estamos concluindo este mês cheio de memórias de santos populares com a solenidade de São Pedro e São Paulo. Escutemos e acolhamos com reverência o testemunho destes irmãos maiores, colunas que sustentam as comunidades cristãs. Mas, para chegar à vida real destes personagens é preciso escutar o testemunho das Escrituras. Se é verdade que Pedro é o primeiro líder dos cristãos e Paulo é o apóstolo dos povos,também é certo que ambos, cada um a seu modo e a seu tempo, foram discípulos de Jesus e passaram por sucessivas crises e dificuldades, provaram a prisão e foram martirizados.

Esqueçamos por um instante a cena contada por Mateus e centremos nossa atenção no acontecimento narrado nos Atos dos Apóstolos. Pedro, o primeiro Papa foi presidiário! "Para que servem as chaves prometidas por Jesus Cristo se não ajudam a soltar as algemas que o prendem ou abrir a porta da prisão, mantida sob rigorosa vigilância?" Pedro estava imerso na penumbra desta e outras perguntas quando uma luz iluminou sua cela, uma mão tocou seu ombro e uma voz ordenou que se levantasse. As algemas caíram, os guardas não viram nada e a porta que separava a cela da cidade se abriu sozinha...

Depois de ter sido um fariseu zeloso e violento e de ter acumulado muitos méritos e honras por causa disso, Paulo fez a experiência de ser conquistado por Jesus Cristo e, diante do bem supremo desta acolhida gratuita e imerecida, considerou tudo o mais como lixo e déficit na contabilidade da vida (cf. Fil 3,1-14) e se lançou incansavelmente no anúncio desta boa notícia, especialmente às pessoas de origem pagã.O zelo e o ardor que Paulo demonstrara pelo judaísmo se transformou em zelo pela fé em Jesus Cristo. Com isso, perdeu de vez a tranquilidade...

Esta complexa trajetória de vida atraiu contra Paulo a desconfiança dos próprios cristãos e o ódio dos seus irmãos judeus. Depois de sucessivos enfrentamentos e perseguições, ele também acabou na prisão. Sendo cidadão romano, exigiu o direito de ser julgado decentemente em Roma, e para lá foi conduzido. Entretanto, ninguém conseguiu colocar sob algemas aquilo que o fazia livre: a Boa Notícia de Jesus Cristo. "Por ele, eu tenho sofrido até ser acorrentado como um malfeitor. Mas a Palavra de Deus não está acorrentada", escreveu ele ao seu fiel amigo e companheiro Timóteo (2Tm 2,9).

Pedro e Paulo são filhos, irmãos e pais da fé numa Igreja que confirmou com a vida aquilo que anunciou com as palavras. De um lado, Pedro, Paulo e os demais cristãos detidos mantêm contato com as suas comunidades de base, inclusive através de cartas às suas principais lideranças; de outro, as comunidades não ficam indiferentes, apesar da crise de fé provocada por uma perseguição feita em nome de Deus e da religião, assim como pelos riscos políticos e sociais que estas relações implicam. O vínculo entre a comunidade dos discípulos e seus líderes presos se mostra de um modo singelo e comovente no relato dos Atos dos Apóstolos que a liturgia nos propõe hoje (cf. 12,1-11).

As escrituras dizem que "enquanto Pedro era mantido na prisão, a Igreja orava continuamente por ele." É neste contexto que Pedro experimenta a presença fiel de Deus também na prisão. Logo que é libertado do cárcere, vai à casa da mãe de João Marcos, onde a comunidade está reunida em oração. Quando Rosa, a mãe de Marcos, abre a porta e vê que é Pedro, é tomada de tamanha alegria que o deixa plantado do lado de fora e vai anunciar à comunidade reunida, a qual pensa que Rosa está doida. Aberta a porta, Pedro entra e conta entusiasmado o que havia acontecido.

O que sustenta as Igrejas e comunidades cristãs é o encontro com Deus em Jesus Cristo. O que o evangelho de hoje nos propõe é substancialmente isso. Num lugar marcado pelo domínio estrangeiro, Jesus interroga seus discípulos sobre o que pensam dele. E Pedro é o primeiro dentre todos os seguidores a reconhecê-lo e proclamá-lo Messias. Só quem está aberto e sintonizado com a lógica de Deus pode reconhecer a presença de Deus nas ações e palavras deste filho da humanidade e irmão de todos os seres humanos. Esta é a base sólida sobre a qual Jesus Cristo constrói a comunidade cristã.

Queridos Pedro e Paulo, apóstolos e irmãos na fé! Com vocês aprendemos que crer, confiar, partilhar e anunciar são os verbos essenciais da gramática cristã. O verdadeiro discípulo é aquele que conjuga estes verbos em todos os tempos, modos e pessoas. Ajudem-nos a viver de tal modo que, chegando ao entardecer da existência, também nós possamos dizer: "Chegou o tempo da minha partida. Combati o bom combate, terminei a corrida, guardei a fé." Suportando os sofrimentos e incertezas presentes, jamais nos envergonhemos ou desanimemos, pois sabemos em quem acreditamos! Assim seja! Amém!

 

 

Eles permaneceram firmes como se vissem o invisível

Para coroar este mês recheado de memórias de santos populares, temos a festa de São Pedro e São Paulo. Como sempre, é preciso escutar o testemunho das Escrituras e chegar à vida real, com suas possibilidades e desafios. Se é verdade que Pedro é o primeiro líder dos cristãos e Paulo é o apóstolo dos povos, não podemos esquecer que ambos, cada um a seu modo, foram discípulos de Jesus e passaram por sucessivas crises e dificuldades, provaram a prisão e foram martirizados. Eles fazem parte daquela ?nuvem de testemunhas? da qual fala a Carta aos Hebreus (12,1). Eles viveram e morreram firmes na fé, como se vissem o invisível (cf. Hb. 11,13.27). Acolhamos com reverência o testemunho destas colunas que sustentam e vidas que interpelam as comunidades cristãs de hoje.

 "Enquanto Pedro era mantido na prisão..."

O primeiro Papa foi presidiário! Esqueçamos por um instante a cena contada por Mateus e centremos nossa atenção no acontecido narrado nos Antos dos Apóstolos. Herodes maltratava os cristãos e mandara matar à espada Tiago. Percebendo que isso agradava aos judeus, aproveitou para aumentar sua baixa popularidade e mandou prender Pedro, providenciou uma guarda competente e de confiança e permitiu-se festejar tranquila e cinicamente a páscoa judaica.

Para que serviam as chaves prometidas por Jesus Cristo se não ajudavam a soltar as algemas que o prendiam ou abrir a porta da prisão, mantida sob rigorosa vigilância? Pedro estava imerso na penumbra destas e outras perguntas quando uma luz iluminou a cela, uma mão tocou seu ombro e uma voz ordenou que se levantasse depressa. As algemas que o prendiam caíram no chão, os guardas que vigiavam não viram nada e as portas que separavam a cela da cidade se abriram sozinhas...

Em vez de centrar nossa atenção nos aspectos miraculosos, fixemo-nos na condição de vida de Pedro e dos demais irmãos na fé. Acusados publicamente, apedrejados nas praças, trancafiados nas prisões, degolados a fio de espada... Mas nada disso tinha o poder de calar a voz ou deter a ação. Que diferença de uma Igreja que faz o sucessor de Pedro desfilar no papa-móvel sob aclamações como 'Cristo venceu, Cristo reina, Cristo impera' e procura protegê-lo hermeticamente das críticas da imprensa... Às vezes penso que o sucessor de Pedro é prisioneiro da própria Cúria e suas tradições...

"Chegou o tempo da minha partida..."

Paulo, por sua vez, foi denunciado, perseguido, encarcerado e finalmente executado. Depois de ter sido um fariseu zeloso e violento e de ter acumulado muitos méritos e honras por causa disso, ele fez a experiência de ser conquistado por Jesus Cristo e, diante do bem supremo desta acolhida gratuita e imerecida, considerou tudo como lixo e déficit na contabilidade da vida (cf. Fl. 3,1-14) e se lançou incansavelmente no anúncio desta boa notícia, especialmente às pessoas de origem pagã.

O zelo e o ardor que Paulo demonstrara pelo judaísmo se transformou em zelo pela fé em Jesus Cristo. Mas isso provocou desconfiança por parte dos próprios cristãos e ódio por parte dos seus irmãos judeus. Para resumir esta história que conhecemos bem, depois de sucessivos enfrentamentos e perseguições, Paulo também acabou na prisão. Sendo cidadão romano, exigiu o direito de ser julgado decentemente em Roma, e para lá foi conduzido.

Mas ninguém conseguiu colocar sob algemas aquilo que o fazia livre: a Boa Notícia de Jesus Cristo. "Por ele, eu tenho sofrido até ser acorrentado como um malfeitor. Mas a Palavra de Deus não está acorrentada" (2Tm. 2,9). Paulo sabia muito bem em quem colocara sua confiança, não se envergonhava de compartilhar a sorte dos encarcerados e pedia que ninguém se envergonhasse dele e de testemunhar a favor de Jesus Cristo, que também foi preso e condenado (cf. 2Tm. 1,8).

"A Igreja orava continuamente a Deus por ele."

Pedro e Paulo são filhos, irmãos e pais da fé numa Igreja que confirmou com a vida aquilo que anunciou com as palavras. De um lado, Pedro, Paulo e os demais cristãos detidos mantinham contato com as suas comunidades de base, inclusive através de cartas às suas principais lideranças; de outro, as comunidades não ficavam indiferentes, apesar da crise de fé provocada por uma perseguição feita em nome de Deus e da religião e dos riscos políticos e sociais que estas relações implicavam.

O vínculo entre a comunidade dos discípulos e discípulas e seus líderes presos se mostra de um modo singelo e comovente no relato dos Atos dos Apóstolos. ?Enquanto Pedro era mantido na prisão, a Igreja orava continuamente por ele.? Um pouco antes, quando Pedro e João haviam sido liberados da prisão, a comunidade pedia em oração: "Agora, Senhor, olha as ameaças que fazem, e concede que teus servos anunciem corajosamente a tua Palavra" (At. 4,29). Pedia coragem, e não tranquilidade.

Pedro faz a profunda experiência da presença fiel de Deus na prisão. Saindo do cárcere, vai à casa da mãe de João Marcos, onde a comunidade estava reunida em oração. Quando Rosa, a mãe de Marcos, abriu a porta e viu que era Pedro, foi tomada de tamanha alegria que o deixou plantado do lado de fora e foi anunciar à comunidade reunida, a qual pensou que Rosa estava doida. Aberta a porta, Pedro entrou e contou entusiasmado o que havia acontecido, e depois recolheu-se num lugar escondido.

"Tu és o Messias, o Cristo, o Filho do Deus vivo!"

O que sustenta as Igrejas e comunidades cristãs é o encontro com Deus em Jesus Cristo. O que o evangelho de hoje nos propõe é substancialmente isso. Num lugar marcado pela influência e pelo domínio estrangeiro (a cidade se chamava Cesaréia e depois Neronias), Jesus faz uma pergunta que é central no terceiro bloco narrativo de Mateus (11,2-16,20). E esta é a primeira vez que um discípulo o reconhece e proclama Messias, embora um pouco antes, depois da tempestade acalmada, todos os discípulos haviam proclamado, de joelhos: ?Verdadeiramente, tu és o Filho de Deus? (Mt 14,33).

Não esqueçamos que, mesmo sem rejeitar a confissão de Pedro e dos demais discípulos, Jesus chama a si mesmo Filho do Homem, e não  Filho de Deus (cf. Mt. 11,19; 12,8; 12,32), acentuando assim seus vínculos com a humanidade. Só quem está aberto e sintonizado com a lógica de Deus pode reconhecer a presença de Deus nas ações e palavras deste filho da humanidade e irmão de todos os seres humanos, e esta é a base sólida sobre a qual Jesus Cristo constrói a comunidade cristã, literalmente, a assembléia dos chamados. ?Não foi um ser humano que te revelou isso...?

Da experiência de fé e de adesão a Jesus Cristo brota a missão. As lideranças e comunidades que conseguem dar este passo recebem as chaves do Reino de Deus, ou seja: a missão de continuar a tarefa libertadora de Jesus. A imagem das chaves e a metáfora ligar-desligar estão relacionadas a esta missão de construir o Reino de Deus na perspectiva das Escrituras e do caminho trilhado e proposto por Jesus Cristo, enfrentando conflitos mas jamais sucumbindo. Quem recebe as chaves da porta do Reino de Deus não teme as portas do inferno. Até a prisão se torna uma oportunidade de evangelização.

"O Senhor veio em meu auxílio e me deu forças."

Crer, confiar, partilhar e anunciar: estes são os verbos essenciais da gramática dos cristãos. Só chega à meta estabelecida quem conjuga estes verbos em todos os tempos e pessoas e percorre estas etapas. Escrevendo a Timóteo desde a cela da prisão, Paulo faz um balanço da sua vida, e suas palavras são eloquentes e comoventes: "Chegou o tempo da minha partida. Combati o bom combate, terminei a corrida, guardei a fé." Um pouco antes ele havia escrito: "Estou suportando também os sofrimentos presentes, mas não me envergonho. Sei em quem acreditei" (2Tm. 1,12).

Os santos e santas são filhos da Igreja, os mais belos entre seus muitos frutos: profetas, mártires, confessores/as, construtores/as de uma terra renovada na qual a Justiça faz morada (cf. 2Pd 3,13). Mas são também pais e mães da Igreja, gente que aceita gerar no sofrimento e na alegria uma assembléia de irmãos e irmãs, de homens e mulheres convocados/as e convocadores/as, amigos/as entre si e solidários/as com todas as vítimas e sofredores, em permanente ritmo de missão.

A glória dos santos e santas não vem das honras e aplausos encomendados, mas do Deus vivo, e por isso os humildes que os vêm podem se alegrar. Quem reconhece o Filho de Deus encarnado na humanidade não está livre das dificuldades, mas sabe que "o anjo de Deus acampa em volta dos que o temem", como diz o Salmo. Por isso, feliz quem nele crê e espera: viverá firme e forte, como quem vê o invisível.

padre Itacir Brassiani msf

 

 

Pedro e Paulo, "colunas" da Igreja.

Hoje festejamos São Pedro e São Paulo. Pela sua importância, eles ocupam a liturgia do domingo mais próximo do dia 29 de junho que é propriamente seu dia.

O Evangelho que ouvimos fala da fé de Pedro, o líder dos apóstolos. Essa fé se manifesta quando Jesus se retira com os discípulos e provoca uma avaliação da caminhada. Ele pergunta aos discípulos: "Quem dizem os homens ser o Filho do Homem?" Depois lança a questão aos próprios discípulos: "E vós, quem dizeis que eu sou?" Pedro responde: "Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo".

A resposta de Pedro, conforme o Evangelho de Mateus, recebe um elogio de Jesus e torna-se a base para uma importante missão e uma promessa animadora: Pedro será um fundamento para a comunidade dos seguidores de Jesus; e essa comunidade, fundada na mesma fé, será mais forte do que qualquer adversidade.

Paulo teve uma trajetória muito diferente daquela de Pedro. Primeiro, foi perseguidor dos cristãos. Mas "caiu por terra" e mudou radicalmente. Convenceu-se do profundo valor do caminho de Jesus e se tornou o maior dos seus missionários. Defendeu com todas as suas forças a abertura das comunidades aos não judeus. Sofreu muito por isso. Foi contestado até por gente das comunidades cristãs, pessoas que não concordavam com ele. Teve, inclusive, algum confronto com Pedro. À sua maneira, Paulo viveu a paixão de Cristo. O tempo, porém, deu-lhe razão. Não fosse ele, certamente o Evangelho não teria chegado até nós e os seguidores de Jesus teriam se tornado, simplesmente, uma seita do Judaísmo.

Testemunhas da mesma fé, São Pedro e São Paulo são "colunas" da Igreja. Cultivar sua memória e seguir seus ensinamentos é fundamental para nós. Uma igreja que esquecesse os seus mártires perderia sua identidade e sua força. Vamos, pois, celebrá-los vivamente neste domingo.

Lembremos, também, hoje, os sucessores desses apóstolos: nosso querido papa Francisco, os bispos e todos os missionários que, a exemplo de Paulo, procuram dialogar com diferentes culturas, para descobrir nelas as sementes do Evangelho e anunciar-lhes o Reino de Deus.

padre Léo Zeno Konze

 

 

“Tu és Pedro e sobre esta pedra. Eu edificarei a minha Igreja!”

1.Acolhida

Hoje celebramos a Festa de nossa Igreja Católica, Igreja de Jesus, mas confiada aos cuidados temporais dos Apóstolos Pedro e Paulo! O Papa, sucessor de Pedro não é o dono da Igreja; é apenas o “servo dos servos de Deus”! Deve cuidar das ovelhas e dos cordeiros do rebanho de Cristo, cuidar da Doutrina evangélica e dos Sacramentos deixados por Jesus e zelar pela prática dos bons costumes, pois os discípulos de Jesus devem ser luz do mundo e sal da terra!

Quando o Papa fala ou escreve algum documento não está repassando a sua doutrina, mas atualiza os ensinamentos de Jesus para nosso tempo e situações. Nós, os cristãos, devemos meditar seus ensinamentos para sermos fiéis a Jesus Cristo.

2.Palavra de Deus.

At 12,1-13 – O Apóstolo Pedro, preso por Herodes, dormia entre dois soldados e duplamente acorrentado, mas o poder de Deus o retirou da prisão e o levou para Roma onde iniciou a Comunidade cristã, exatamente, na capital do Império Romano. Jesus se serve até da maldade humana para expandir a sua Igreja! Ele é o Senhor da História e conduz a sua Igreja.

2Tm 4,6-8.17-18 – O Apóstolo Paulo está preso, mas confiante na justiça divina, pois, cumpriu o seu dever missionário: anunciou o evangelho a todas as nações conhecidas de seu tempo!  Agora, está reservada para mim a coroa da justiça (...) que o Senhor me dará naquele dia!”.  Paulo consumiu sua vida a serviço do evangelho!

Mt  16,13-19 – Jesus, a caminho de Jerusalém, dá os últimos ensinamentos aos discípulos. A divindade de Jesus, que lhe dá a missão de construir e cuidar de sua Igreja: “Tu és Pedro e sobre esta pedra construirei a minha Igreja...”.

3. Reflexão.

A pedra fundamental que sustenta a Igreja, evidentemente, é o próprio Jesus. Pedro é quem dá visibilidade ao seu fundamento divino. Já os antigos diziam: “Lá onde está Pedro, lá está a Igreja de Jesus!  Por isso, complicado “não reconhecer a Igreja de Pedro!” É uma Igreja com deficiências humanas, inclusive, com pecados... mas é a Igreja de Jesus! A Igreja de Jesus tem Pedro como sinal visível, como pedra fundamental visível!

A Igreja católica tem a garantia de perenidade não por causa da sabedoria humana de seus pastores (Papas e bispos...), mas porque Jesus a sustenta com seu poder divino! Nem o poder do inferno vai conseguir destruí-la... mas nossa fragilidade humana (nossos pecados) pode enfraquecê-la, diminuir-lhe o brilho da luz e enfraquecer o poder do sal que a preserva da corrupção!

Ela balança como barco em tempestade, mas dizia o filósofo Pascal: “É gostoso viajar num barco sacudido pela tempestade, sabendo que ele não vai afundar!”  Há mais dois mil anos que satanás procura afundar e destruir a Igreja de Jesus, mas ela segue em frente cumprindo sua missão. Não amar a Igreja católica não é sinal de inteligência; pelo contrário, é colocar em risco a própria salvação!

“Combati o bom combate, completei a corrida, guardei a fé!”

frei Carlos Zagonel

 

 

O dia 29 de junho é o dia da solenidade dos apóstolos são Pedro e são Paulo, colunas da Igreja, que no Brasil é transferida para o domingo seguinte, quando esse dia ocorrer durante a semana, para que todos possam participar da celebração eucarística. O domingo é “Dia do Senhor ressuscitado”, do qual os apóstolos foram testemunhas qualificadas da ressurreição de Jesus Cristo; domingo também é dia de ouvir a Palavra de Deus e de celebrar a Eucaristia, transmitidas a todos pelos apóstolos, e de professar a fé que nos reúne na mesma Igreja fundada sobre o testemunho apostólico. Nesta solenidade, somos convidados a louvar a Deus pela vida e a missão de São Pedro e São Paulo. Duas figuras tão diferentes, que, no entanto se uniram no testemunho de Cristo até a morte. Pedro, o homem volúvel e frágil, mas ao mesmo tempo decidido, recebe uma atenção especial de Cristo. Homem corajoso, que confessa sua fé em Cristo, disposto a acompanhá-lo em sua paixão, caminha sobre as águas, quer defender o seu Mestre, mas ao mesmo tempo tão frágil a ponto de trair o seu Mestre, negando conhecê-lo, por três vezes.

Mas é sobre esta fragilidade fundamentada na fé que Cristo edifica sua Igreja. Paulo, homem zeloso, que passou de perseguidor da Igreja a apóstolo totalmente dedicado à pregação do Evangelho. Temperamento forte e difícil, mas cresce no amor de Cristo, a ponto de poder dizer: “Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim”. A Solenidade de Pedro e Paulo nos dá ocasião para aprofundar o nosso amor à Igreja e a nossa missão aos povos. Em ambos vemos a nossa missão de discípulos missionários. Eles se doam totalmente à causa da Igreja. A esta mesma vocação somos todos chamados. Importa confiar no Senhor, buscando n’Ele a sua força. Então ainda hoje Deus há de intervir e guiar a Igreja. A nossa fé em Jesus Cristo passa pelos Apóstolos, passa pela Igreja. Cremos numa Igreja una, santa, católica e apostólica. Se Pedro é a coluna da unidade da Igreja e da comunhão na mesma fé, Paulo representa a dimensão missionária da Igreja, enviada para o meio dos povos para lhes comunicar sem cessar o Evangelho. “Ai de mim, se eu não evangelizar!”. Por ocasião desta Solenidade, celebramos o Dia do Papa. Unidos ao atual sucessor de Pedro, o papa Bento XVI, a exemplo dos primeiros cristãos que estavam unidos a Pedro, em oração, de modo especial, no momento em que ele mais sofria. “A Igreja rezava continuamente a Deus por ele” (At. 12,5).

Hoje, também, somos convidados a permanecer unidos ao Santo Padre, rezando por ele. Como sinal de comunhão e de partilha, oferecemos, nas missas da solenidade dos apóstolos Pedro e Paulo, o óbolo de são Pedro, oferta a ser enviada ao papa para atender às necessidades da Igreja no mundo inteiro. Em Roma, solenidade comemorada mesmo no dia 29 de junho, onde Pedro e Paulo deram a vida por Cristo e são patronos da cidade, o papa entrega o pálio aos novos arcebispos do mundo inteiro, isto é, um pano de lã branca confeccionado com a lã de cordeiros, adornado com seis cruzes e três cravos, símbolo da Paixão. O simbolismo da lã pura sobre os ombros recorda o Bom Pastor que leva as ovelhas consigo, e as cruzes bordadas em lã lembram as chagas de Cristo e sua Paixão salvadora. Revigoremos nossa vida cristã no testemunho no testemunho apostólico para realizarmos hoje a missão que Jesus confiou a eles e também a nós. Sigamos o exemplo destes dois Apóstolos que nos deram as primícias da fé.

dom Francisco de Assis Dantas de Lucena

 

 

A festa de são Pedro, neste final de semana, enseja uma boa oportunidade para conferir a posição do Concílio Vaticano II, neste ano do seu jubileu.

Uma das características deste concílio é o fato de ele ter sido convocado sem um problema específico a resolver. O papa Pio XII tinha deixa a Igreja em perfeita ordem. A rigor, não havia necessidade de um concílio.

Na verdade, a pronta acolhida da ideia de um concílio, lançado por João XXIII, cedo mostrou quantos assuntos podiam ser abordados com proveito, a nível de concílio.

Um assunto muito importante estava pendente desde o Concílio Vaticano I, que foi interrompido e não pôde ser concluído. Tratava-se de completar o ensinamento sobre o governo da Igreja. O Vaticano I tinha definido bem a função do Papa, explicitando sua incumbência de sinal de unidade e de garantia de fidelidade de toda a Igreja a Cristo.

Faltava falar da missão dos bispos, que com o papa partilham suas responsabilidades para com toda a Igreja.

A missão do papa é reconhecida, de modo tradicional, como exercendo na Igreja o Primado, palavra que evoca a missão eclesial dada por Cristo a Pedro, de cuidar de todo o rebanho.

A missão dos bispos é expressa pela “Colegialidade episcopal”, expressão cunhada pela Igreja para indicar a responsabilidade conjunta que Cristo confiou aos Doze Apóstolos.

Confirmando tudo o que o Vaticano I tinha dito a respeito do Papa, reconhecendo, portanto, o Primado concedido a Pedro, o Concílio se dedicou exaustivamente a propor com clareza a missão dos bispos, definindo a “Colegialidade Episcopal”.

Atenta ao formato que Cristo deu ao seu grupo de Apóstolos, o primeiro e fundamental “Colégio episcopal”, a Igreja faz questão de ressaltar sua continuidade, na mesma comunhão e na mesma missão. A missão confiada aos Doze, comporta a comunhão e a igualdade entre eles, e ao mesmo tempo a missão própria confiada a um deles, Pedro, a serviço da unidade e da fidelidade de todos os outros.

Para a vida da Igreja são indispensáveis tanto a dimensão de colegialidade, como a dimensão de primado. Ambas estão a serviço da comunhão eclesial e da fidelidade a Cristo.

Quando se rompe o equilíbrio entre primado e colegialidade, a Igreja fica exposta a rupturas, fáceis de irromper e muito difíceis de serem depois superadas.

Em todo o caso, da reta visão da colegialidade episcopal, e da visão da Igreja como Povo de Deus, derivam as grandes intuições pastorais do Concilio Vaticano II, mostrando que o fato do Concílio ter sido doutrinário, não invalidada sua importância pastoral. E dito de outro ponto de vista, o fato deste Concílio ter sido “pastoral”, não invalida o conteúdo “doutrinário” que ele ostenta.

Uma dessas grandes intuições pastorais ressalta a importância das Igrejas locais, como concretizações da Igreja nas realidades onde ela se insere, na diversidade de raças e culturas.

Igualmente a importância das comunidades eclesiais, onde o Evangelho pode ser vivido na prática da convivência cotidiana e da inserção no mundo.

A Igreja da América Latina nunca colocou em dúvida a importância do primado de Pedro, expresso pela figura do papa. Será que não estaria na hora de deixar mais espaço para o exercício da colegialidade, inclusive para que a Igreja Católica da América Latina tenha condições de ir ao encontro do povo que quer participar ativamente da vida da Igreja, e nem sempre encontra o espaço adequado nas atuais estruturas da Igreja?

De novo se percebe como a recepção do Concílio não esgotou ainda sua potencialidade.

dom Demétrio Valentini

 

 

Hoje celebramos a festa de são Pedro e são Paulo. Foram dois apóstolos diferentes, que tiveram até divergências sérias, mas que souberam preservar na unidade da Igreja e viveram, ambos com muita firmeza, a sua adesão ao Evangelho. Paulo não teve um caminho fácil: compara sua tarefa de criador e animador de comunidades, testemunha de Cristo, a um combate da fé. Um combate desse tipo não se larga pelo meio quando aparece uma dificuldade. Cada combatente da fé é responsável por si mesmo e pelo fortalecimento de outros. Paulo diz que está terminando a carreira, chegando ao final. Esse final não o assusta, embora não ignore os riscos da prisão e do martírio. O importante é manter-se firme, não se perder no caminho. A Igreja de Paulo e de Pedro é a Igreja de muitos. Nela cabem doutores e faxineiras, engenheiros e operários, padres e leigos, religiosos e religiosas, agentes de pastoral, crianças, adolescentes, jovens e idosos que dão os primeiros passos nas tarefas da comunidade. Cada um luta o bom combate a seu jeito, de acordo com seus talentos e com as circunstâncias que a vida vai trazendo. No Evangelho vemos um momento importante de Pedro. Na qualidade de líder dos apóstolos, ele é chamado de "pedra" sobre a qual a Igreja vai ser edificada. Pedro representa aqueles que vão ser o alicerce da comunidade, exercendo o ministério da unidade. A missão de Pedro, assim como a do papa e a dos bispos, é proposta como um serviço prestado a todos na Igreja. Alicerce sozinho não faz prédio; ninguém mora em alicerce. O alicerce, a pedra fundamental, adquire sentido como sustentação da casa; é por causa da casa que ele existe. Assim, o papa existe por causa das necessidades da Igreja; foi desse modo, também, com os primeiros apóstolos. Pedro e Paulo exerceram com responsabilidade, zelo, coragem e muita fé a tarefa que lhes coube, de acordo com as circunstâncias do seu tempo histórico. Junto com eles e inspirados pelo seu exemplo, rezemos hoje pelo papa e pelas lideranças da Igreja, pedindo que Deus lhes dê muita luz para apontar sempre o melhor caminho e muita força para enfrentar com otimismo e alegria os desafios do mundo moderno.

 

 

Pedro e Paulo: exemplos de coragem e fidelidade batismal

Junho chega ao fim. E as festas juninas também. São Pedro e são Paulo coroam o mês. É interessante notar que não se trata somente de festas populares, mas há uma espiritualidade subjacente a esses momentos dentro de nossas comunidades. Claro que muitas dessas festas não têm nada de religioso! Mas quero dizer que os santos mais populares deste mês: santo Antônio, são João e são Pedro, são homens que viveram para Deus e deram sua vida pelo Reino.

Hoje, ao celebrarmos são Pedro e são Paulo, celebramos as duas colunas da Igreja. "Pedro, o primeiro a proclamar a fé, fundou a Igreja primitiva sobre a herança de Israel. Paulo, mestre e doutor das nações, anunciou-lhes o Evangelho da Salvação. Por diferentes meios, os dois congregaram a única família de Cristo e, unidos pela coroa do martírio, recebem, por toda a terra, igual veneração" [prefácio da missa]. Pedro representa a instituição da Igreja, é a "Pedra" que recebe a incumbência de "confirmar os irmãos", enquanto Paulo representa o carisma missionário, atravessa mares e desertos para anunciar a Boa Nova do Reino, formando novas comunidades.

A profissão de fé de Pedro é a base da comunidade cristã: "Tu és o Cristo, o filho de Deus vivo". É nessa fé que a Igreja se firma e caminha. É o Espírito que sustenta a caminhada da Igreja. Ela não se instituiu sobre "carne e sangue", mas no Amor gratuito do Pai.

As "chaves do Reino" que são confiadas a Pedro devem sempre abrir as cadeias e algemas daqueles que estão dominados pelo mal. Quanta gente presa nas amarras da mentira, da ambição, da corrupção, do ódio, do medo, do preconceito, da enganação! Nosso mundo precisa, cada vez mais, das "chaves do Reino" para que haja mais partilha, mais sentido de vida, mais fraternidade e compreensão.

Quando lançamos um olhar de fé sobre esses dois homens que celebramos hoje, percebemos quão distantes ainda estamos da vivência de uma fé autêntica, corajosa, testemunhal!

Pedro foi presidiário por causa da fé! Levou às últimas consequencias sua profissão de fé: "Tu és o Cristo". Paulo também foi preso, ameaçado e perseguido pelos de dentro e pelos de fora. Mas levou até o fim sua missão: "Combati o bom combate, terminei a minha carreira, guardei a fé. [...] O Senhor me assistiu e me revestiu de forças, a fim de que por mim a mensagem fosse plenamente proclamada e ouvida por todas as nações" [2Tm. 4,6-7.17].

Podemos nos perguntar até que ponto damos conta de sustentar nossa fé e fidelidade ao Evangelho, levando às últimas consequências nosso batismo. O que é mesmo que nos faz desanimar, abandonar a missão, a comunidade? O "conteúdo" de nossa vida é Jesus Cristo? Ou são as vaidades e posses da sociedade consumista? O que preciso deixar e o que preciso abraçar com mais vigor para ser verdadeiro discípulo como Pedro e Paulo?

Nesse dia a Igreja nos pede orações pelo Papa. Ele é o sucessor de Pedro. É o sinal da caridade e da unidade da Igreja. Peçamos ao Senhor que lhe dê muita luz para conduzir a Igreja pelos caminhos de Jesus. E lhe dê muita força e coragem para enfrentar os obstáculos que essa sociedade e as situações difíceis que os "de dentro" lhe opõem. E que tenha a sabedoria necessária para ajudar a Igreja a se abrir ao diálogo com o novo que surge a cada dia sem perder a fidelidade a Jesus e à sua missão.

padre Aureliano de Moura Lima, SDN

 

 

Combati o bom combate, terminei a carreira, guardei a fé (2 Tm. 4,6-8.17-18)

Estamos terminando o mês de junho dedicado ao Sagrado Coração de Jesus; mês da religiosidade popular. Em nossas últimas reflexões falamos de Santo Antonio, de João batista e hoje chegou o momento de celebrar São Pedro e São Paulo. Vejamos: Dois Apóstolos – uma única Igreja. Em uma única festa a Igreja reúne dois mártires – chave e alicerce da Igreja. Pedro é lembrado pelo seu testemunho e suas convicções a respeito de Jesus. Certo dia Jesus quis saber a opinião dos Apóstolos sobre sua pessoa e Pedro respondeu com firmeza: “Tu és o Cristo, o Messias, o Filho de Deus vivo (Mt. 16,13-19)”. Instruído no Colégio dos Apóstolos sabemos que não lhe foi fácil aprender. Este rude pescador de profissão um dia aceitou o convite de Jesus e tornou-se pescador de almas. Jesus lhe entregou a chave da Igreja escolhendo-o para ser o primeiro Papa (chefe visível). “Eu te digo: Tu és Pedro e sobre esta pedra construirei a minha Igreja e as portas do inferno nunca levarão vantagem sobre ela (Mt. 16,18)”. O espírito de liderança de Pedro lembra-nos poder, instituição, hierarquia. No tempo de Jesus a chave simbolizava liberdade e poder. Ao receber a chave, Pedro estava recebendo o dom do poder como serviço para o bem humano e espiritual. O Evangelho de Jesus nos ensina que a verdadeira autoridade constituída é aquela que está a serviço do bem comum. Então, devemos votar com consciência e responsabilidade, orando pelas autoridades investidas de poder para que governem com sabedoria e justiça. Pedro foi martirizado em Roma selando com seu sangue sua fidelidade ao projeto de Jesus. No momento do martírio pediu aos carrascos que fosse pregado na cruz de cabeça para baixo para não igualar-se a Jesus. Sobre seu túmulo ergueu-se a basílica do vaticano

São Paulo – Lembrado pelo seu empenho missionário, oriundo de família nobre tinha cidadania romana. Antes de sua conversão ocupava o cargo de oficial no temido exército romano com o nome de Saulo. Não conheceu Jesus e após a sua conversão foi admitido no grupo dos Apóstolos com o nome de Paulo. Realizou várias viagens apostólicas. Tinha como método pastoral, criar e organizar comunidades cristãs. Acompanhava pessoalmente estas comunidades, preparando lideranças para dar continuidade ao trabalho iniciado. Na prisão por volta do ano 67 dc escreveu ao amigo Timóteo: “Quanto a mim, estou a ponto de ser imolado. Combati o bom combate, terminei a minha carreira, guardei a fé (2Tm 4,6-8)”. Vejamos: Mais de dois mil anos se passaram, houve perseguições e nem mesmo os assassinatos como os de Pedro e Paulo conseguiram acabar com a Igreja Católica Apostólica Romana fundada por Jesus. Como fieis seguidores de Jesus sejamos a exemplo de Pedro e Paulo testemunhas do Reino. Vivendo nossa fé e colocando nossos dons a serviço do bem comum poderemos um dia dizer: “Combati o bom combate, completei a corrida, guardei a fé”. Pense nisto e tenha uma semana abençoada.

 

 

Apóstolos Pedro e Paulo

“Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo!” 

As leituras bíblicas da Solenidade de hoje descrevem o martírio de duas importantes testemunhas (Pedro e Paulo) mortas pelo mesmo Império Romano que matou Jesus. A primeira leitura relata que enquanto Pedro estava na prisão, a Igreja permanecia unida na oração por ele (Atos 12,5). A segunda leitura descreve os últimos momentos da vida de Paulo que ao escrever de dentro da prisão para o amigo Timóteo diz: “Quanto a mim, estou a ponto de ser imolado... combati o bom combate, terminei a carreira, guardei a fé” (2Tm 4,6-7).

Paulo tem consciência de ter cumprido seu ministério de forma exemplar, com garra e constância. Ao colocarmos num único dia a memória de Pedro e Paulo que entregaram as suas vidas por amor a cristo e aos irmãos, celebramos a riqueza e a diversidade da Igreja. A pessoa de Pedro nos lembra dois aspectos da Igreja: a instituição e a hierarquia. A pessoa de Paulo nos lembra a Igreja na sua dimensão missionário-evangelizadora. Aquele cruel oficial do exercito romano de nome Saulo que perseguia e matava cristãos, um dia teve um encontro com Jesus e se converteu ao cristianismo. Aceito pelo grupo dos apóstolos recebeu o nome de Paulo, criando e organizando várias comunidades na região da Macedônia, Éfeso, Felipos, Galácia, Corinto e Roma. Mantinha contato com as lideranças através de cartas que iniciava com a seguinte saudação: “Graça e paz a vós da parte de Deus nosso Pai e do Senhor Jesus Cristo”. Pedro é lembrado pelo seu testemunho corajoso e sua firme convicção a respeito de Jesus como vimos no Evangelho de domingo passado (Lucas 9).

No Evangelho de hoje proclamamos o mesmo episódio segundo Mateus 16,13-19. Pedro ao confessar: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo”, recebe por parte de Jesus um elogio e uma grande responsabilidade. Disse Jesus: “Tu és Pedro (em hebraico-rocha) e sobre esta pedra construirei a minha Igreja e o poder do mal nunca poderá vencê-la. Eu te darei as chaves do Reino dos Céus.” Este homem simples, pescador de profissão, aceitou o convite de Jesus tornando-se pescador de almas. A liderança e a fé deste rude pescador são inquestionáveis. Jesus pessoalmente lhe entregou a chave da Igreja escolhendo-o para ser o primeiro Papa (chefe visível) da Igreja. No tempo de Jesus a chave simbolizava liberdade e poder. Ao receber a chave, Pedro estava recebendo o dom do poder como serviço para o bem humano e espiritual. No passado e no presente a verdadeira autoridade constituída é aquela que está a serviço do bem comum. Então, é preciso rezar pelas autoridades investidas de poder para que sejam iluminados pelo Espírito Santo, governando com sabedoria e justiça.

Pedro Scherer

 

 

Jesus e os discípulos estão em Cesaréia de Filipo, região pagã distante do centro político, econômico e ideológico. Nesta periferia os discípulos são estimulados a dar uma resposta plena de quem é Jesus.

Primeiro Jesus pergunta aos discípulos o que as pessoas dizem sobre ele [v.13]. A resposta indica diversas opiniões, todas insuficientes. Ele é visto como precursor dos tempos messiânicos, uma idéia distanciada da sua pessoa. Apresenta-se como “Filho do homem”, em carne e osso. Por isso alguns dizem que ele é João Batista, Elias, Jeremias ou algum dos profetas [v.14].

Em seguida, Jesus interpela os discípulos que haviam convivido com Ele: “E para vocês, quem sou eu?”. A resposta é o Messias, Filho do Deus vivo, o Emanuel, o Salvador… Reconhecer Jesus assim é ser bem-aventurado, pois o cristão mergulha no projeto de Deus realizado em Jesus [v.17]. o reconhecimento de Jesus não é fruto de especulação ou teorias sobre ele, mas da vivência do seu projeto. É a partir daí que a comunidade nasce [v.18], cresce e vive em meio aos conflitos devido à práxis cristã. “As portas do inferno não prevalecerão…”.

Jesus confia a responsabilidade da liderança a quem o professa como Messias. A sua liderança é conservar no meio dos conflitos a firme convicção de que o projeto de Deus triunfará. Deve manter a esperança. Deve também professar a salvação e a vida que vem de Deus. A primeira função do líder é manter de pé a esperança da comunidade em torno da justiça e testemunhar que a salvação vem de Deus. Viver essa dimensão não comporta viver um messianismo alternativo, como Pedro quis, recusando o sofrimento, pois a conversão a Cristo é a conversão a um Cristo rejeitado que morre por causa da justiça.

Jesus realiza o projeto de Deus num contexto de conflitos, passando pela morte. O messianismo é uma luta em favor da justiça do Reino. O seu poder é para comunicar a vida.

Os discípulos ainda não conheciam plenamente a identidade de Jesus. Foi só depois de Cesaréia que se tornaram o núcleo da futura comunidade cristã e Pedro, por eleição, se tornará a rocha. Ele foi lembrado por Marcos no momento do seu chamado como o primeiro dos doze e teve o seu nome trocado. Lucas o mostra investido de autoridade na última ceia. João, da mesma forma, coloca-o como líder após a ressurreição. Mateus o vê como a rocha da Igreja.

Por isso, as palavras de Jesus a Pedro começam assim: “Você é bem-aventurado, pois não foi a carne nem o sangue…”. A carne e o sangue indicam o homem com suas forças naturais, radicalmente incapaz de penetrar nos mistérios do Reino de Deus [Mateus 11,25; 13,11], de acolher a novidade de Jesus. Deixado a si mesmo, o homem perde a fé e a “ekklesia” não existe, pois o construtor da Igreja, embora usando o material humano, é sempre Jesus. Por isso ele pode dizer que as portas do inferno não prevalecerão. Mesmo que haja confiança em Pedro, a Igreja só nascerá depois da ressurreição. Por isso Jesus diz: “edificarei”. É um evento futuro, pertencente ao mundo novo.

A autoridade que Jesus dará a Pedro é descrita com duas imagens tradicionais do judaísmo:

1) As chaves – símbolo do conferimento da autoridade a um ministro ou a um vice-rei [Isaias 22,22]. As chaves do Reino dos Céus não significam as chaves do paraíso, mas do Reino de Deus, ou seja, da Igreja.

2) Ligar e desligar – para os rabinos, isto significa a autoridade de interpretar a Lei, esclarecer o que é licito ou não. Para Mateus, significa interpretar a vontade de Deus.

No episódio de Cesaréia de Filipo, Pedro professa que Jesus é o Messias, o Filho de Deus, e reconhecer isso, é ser bem-aventurado, pois é mergulhar no projeto de Deus realizado em Jesus [v.17]. Reconhecê-lo não é uma questão de teoria, mas de vivência do projeto. É a partir dessa profissão que nasce a Igreja. Isto não é fácil, pois a comunidade nasce e cresce em conflitos, entre forçar hostis que procuram derrotar o projeto.

Reflexão

A profissão de Pedro ocorreu em Cesaréia de Filipo, 30 quilômetros ao norte do lago de Nazaré, cidade governada pelo tetrarca Filipe, irmão de Herodes Antipas, uma região habitada por pagãos. Era uma espécie de periferia.

Para Pedro, Jesus é o Messias, o rei de Israel por antonomásia, o descendente de Davi, o filho de Deus vivo. Por isso, Pedro é bem-aventurado e “Kephas”. A troca de nome exprime uma missão especial no plano da salvação [Jeremias 17,5.15; 32,29; Lucas 1,28]. Pedro será a rocha sobre a qual a Igreja se fundamentará. Por isso, possuirá as chaves, o poder de administrar e de governar [Isaias 22,20-22].

Esta página do Evangelho descreve um momento decisivo na vida de Jesus e dos discípulos. Ele já era conhecido pelo povo, havia pregado, operado milagres, suscitando entusiasmo, mas muitos haviam se afastado dele. Apenas um pequeno grupo o seguia e nem este o compreendia. Alguns até procuravam eliminá-lo. Este diálogo de Jesus com os discípulos foi um teste e ali Jesus deu o fundamento à sua Igreja sobre Pedro [Rocha]. A partir de Pedro, muitos Papas deram a vida por Cristo e pela Igreja. Os primeiros 24 papas, de Pedro a Sixto II, morreram todos mártires [de 67 a 258 d.C.]. O papa Dionísio morreu de morte natural em 268, mas os seis seguintes morreram martirizados. No século VI, houve dois papas mártires e no século VII tivemos Martinho I. No século IX, Estevão VII e Bento VI. No século X, João XIV, morreu na prisão e Gregório VII e Pio VII foram exilados.

As respostas dos discípulos sobre a identidade de Jesus como o povo a pensava foram incompletas. Ele não é um simples precursor dos tempos messiânicos, um simples Filho do homem, um profeta, mas o Filho do Deus verdadeiro [v.16], o realizador das expectativas messiânicas, o portador da justiça para a sociedade. É o prometido por Javé pela boca de Natã, ou seja, o descendente de Davi [2 Samuel 7,14]. Pedro, com a sua resposta, afirmou uma tese cara ao messianismo dinástico, aquela que Jesus negou as tentações [Mateus 4,1-11] e depois da multiplicação dos pães [João 6,15; Mateus 14,22].

A profissão de fé de Pedro, é um dos pontos altos de Mateus. Reconhecer Jesus assim é ser bem-aventurado e tal conhecimento não foi fruto de teorias e especulações sobre Lee, mas um do Espírito. Pedro é o porta-voz de Deus ao proclamar a fé em Jesus. Por isso, é, também, o homem de confiança de Jesus para conduzir a Igreja. Este lhe confia uma responsabilidade, a liderança para conservar o projeto de Deus no meio dos conflitos, o que já provoca a firme convicção de que esse projeto triunfará. Ele deve manter em pé a fé da comunidade. Deve testemunhar que a salvação e a vida vêm de Deus e, por isso, é a rocha onde a Igreja se edifica. É o ponto de referência, possui as chaves, ou seja, tem a atividade de legislador que pode declarar lícito ou ilícito, permitir ou não.

Pedro ocupa um lugar privilegiado no Novo Testamento e na tradição cristã. Em Marcos, a sua figura está ligada à carência de fé e à traição. Em Mateus, porém, ele é o “alter ego” de Jesus, está sempre ao seu lado e, às vezes, até em seu lugar. A comunidade primitiva também se apóia nele e depende de suas decisões. Ele foi o “primeiro a confessar a fé em Cristo”. Formou a primeira comunidade cristã como os justos de Israel.

A solenidade celebra os dois mártires fundadores da Igreja, embora com carismas diferentes. Às vezes, discordam sobre a práxis da circuncisão [Gálatas 2], mas terminaram a controvérsia com um aperto de mão. Diferentes, por formação e temperamento, ambos deixaram que o Espírito os conduzisse no exercício do ministério.

Pedro sobrevive na pessoa do papa e a cada um deles Cristo repete: “Tu és Petrus”, as palavras escritas com letras de outro que medem dois metros de altura na cúpula de São Pedro, em Roma. Antes de qualquer cerimônia de canonização, o secretario diz: “Pedro vai falar pela boca…”, e pronuncia o nome do pontífice reinante.

Leão Magno lembra que o papa tem, ao longo dos séculos, a tarefa de repetir: “Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo”. Ele é o guia na fé e na esperança, o centro da comunhão eclesial.

Esta festa litúrgica é muito antiga. Foi inserida no Santoral romano antes da festa do Natal. No século IV já eram celebradas neste dia três missas: uma na Basílica de São Pedro, no Vaticano, outra em São Pietro fora Muri, outra nas catacumbas de são Sebastião, onde durante algum tempo os corpos dos dois apóstolos foram escondidos.

Paulo, o apóstolo dos gentios, deixou-nos o ensinamento de que, “se alguém não ama Jesus Cristo, seja maldito”. Ele, que não o conheceu e o perseguiu, depois de Damasco tornou-se o apóstolo do amor ardente que o impulsionou para o mundo dos gregos, dos hebreus e dos romanos, pregando Jesus crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os pagãos. Percorreu o Mediterrâneo em quatro viagens, de Antioquia a Chipre, de Atenas a Corinto, de Éfeso a Mileto.

Pedro e Paulo, dois estilos, uma mesma vocação missionário. Pedro apóstolo dos judeus, Paulo, dos gentios. Um apenas pescador singelo, outro doutor fariseu de Tarso. Ambos judeus fogosos, apaixonados por Cristo até o martírio.

A apostolicidade da Igreja é uma das características: “Creio na Igreja católica, apostólica…”. Ela tem a sua origem em Cristo por meio da pregação dos apóstolos, que por vontade de Cristo têm em Pedro a pedra, o fundamento visível da sua unidade.

Pedro recebeu o primado, que é serviço à Igreja, governando-a [Mateus 18,18] como sua coluna, pois a Igreja não é acéfala, nem anárquica, mas uma construção que tem fundamento na autoridade e responsabilidade de Pedro. Sem Pedro não há Igreja, porque falta o fundamento.

Cabe-nos o exemplo de Thomas Morus, chanceler do rei Henrique VIII, um dos cargos importantes na Inglaterra e um verdadeiro homem de fé. Depois de Pico Della Mirandola e Erasmo de Roterdã, foi considerado o maior humanista da época. Nasceu em 1477, de família rica, freqüentou as melhores escolas da Inglaterra, até se tornar o colaborador mais direto do rei. Todos os dias rezava o ofício divino e não esquecia da caridade. A coerência da sua fé foi colocada à prova pelo famoso “juramento de fidelidade”, que Henrique VIII impôs a seus súditos, advogando para si a supremacia sobre a Igreja. Thomas, porém, sustentou que o primado da Igreja cabia ao papa e foi o único leigo a negar o rei em favor do papa, e por isso, foi condenado à morte. Antes de morrer escreveu: “Aquilo que Deus quer, embora nos pareça um mal, é verdadeiramente um bem”. Foi decapitado em 6 de junho de 1535, beatificado em 1886 e canonizado em 1935.

Em Heliópolis [Egito], um faraó havia construído mil obeliscos de granito duríssimo, como um desafio ao céu. Um dia um velho de barba branca se apresentou a ele e disse-lhe: “Deixe tudo e vá”. O faraó sorriu e disse: “Quem é você, velho, para mandar-me fazer isso? Será que você é mais forte do que eu?”. O velho respondeu: “Eu sou mais forte que você. Eu sou o tempo”. O faraó desceu do trono e se foi e o seu império acabou.

O mesmo se repetiu entre as pirâmides na Babilônia, entre as soberbas paredes de barro em Nínive e, também, entre os mármores brancos da maravilhosa Acrópole, em Atenas, e entre os mármores brancos da Moloch, em Cartagena. Onde o velho de cabeça branca aparecia, os poderosos inclinavam a cabeça e seus reinos desapareciam.

Mas um dia nas colinas do Vaticano, em Roma, um velho homem frágil e bondoso não deu ouvidos às ameaças do homem de cabeça branca. Não quis obedecer ao tempo e permaneceu sentado solenemente diante dele. “Eu sou o tempo” gritou o furioso destruidor de impérios. E o santo homem do Vaticano respondeu: “E eu sou a eternidade, por graça de Deus. Através dos séculos devo representar a fidelidade eterna do amor de Deus aos homens” [G. K. Chersterton].

Pedro é o fundamento da Igreja: “Ninguém pode pôr outro fundamento, senão aquele que já é tido como fundamento, que é Jesus Cristo” [1Coríntios 3.11]. Contudo, pero é tido como fundamento, pois a Igreja tem os apóstolos como alicerce e Jesus como pedra angular [Efésios 2,19 - 22].

Pedro, natural de Betsaida, na Galiléia, às margens do lago de Genesaré, era pescador e conheceu Jesus por meio de André, seu irmão. “Intuitus eum Iesus” [“Jesus, fitando-o”], de modo imperioso e tocante o chamou. O se nome foi mudado, como foi o de Abrão para Abraão [Pai de uma multidão] e o de Jacó para Israel [Forte diante de Deus]. Com isso, Jesus tomou posso dele e designou-lhe uma missão. A partir dali, Simão deixou tudo para seguir o Mestre. A sua vida foi desde então um testemunho constante do Mestre, a ponto de lhe dar a vida, sendo pregado na cruz.

Da mesma forma Paulo, ao se encontrar com Jesus na estrada de Damasco, perguntou: “O que devo fazer, Senhor?” [Atos dos Apóstolos 22,10]. Transformado pela graça, recebeu instruções e o batismo através de Ananias. Depois, tendo Cristo como eixo de sua vida, dedicou-se com todas as suas forças a pregar a Boa Nova, sem se importar com os perigos e as perseguições. Paulo estava convicto de que Deus contava com ele desde o seio materno [Gálatas 1,15-16] e de que o chamou não em virtude de suas obras, mas do seu desígnio [2Timóteo 1,9]. A vocação é um dom preparado desde a eternidade. Por isso, quando ele descobriu o chamado, não consultou a carne, mas se entregou imediatamente, como Pedro e os apóstolos. “Relictis omnibus” [abandonando tudo], seguiram o Mestre.

Identificando-se com Cristo, que veio para servir e não para ser servido, Paulo torno-se o grande evangelizador: “Ai de mim se não evangelizar” [1Coríntios 9,16], fazendo-se um com os judeus para ganhar os judeus, fraco com os fracos… [1Coríntios 9,19s].

padre José Antonio Bertolin, OSJ

 

 

 

À medida que se observa a história das nações, das sociedades públicas e privadas, dos regimes de governo e de autoridade, pode-se ver com relativa frequência a maneira como se super estruturam e se protegem para garantir a continuidade da sua existência e da sua influência sobre as pessoas e sobre aqueles que de algum modo garantem que tal condição permaneça.

Isso está narrado na leitura dos Atos dos Apóstolos, na carta de Paulo a Timóteo e no texto do Evangelho que se proclama neste domingo, todavia o que se vê nestes textos não é o exercício de autoridade e do poder para garantir a subsistência, mas experiência de comunhão e de oração.

No texto da primeira leitura se vê Herodes, tomando todas as medidas que “agradam” ao povo, e o faz servindo-se de sua autoridade não se importando com as consequências e com a legitimidade das ações que ordena. Manda prender e matar todos os que não concordam com seu estilo de governo e com a forma como exerce o poder. Entretanto, há uma realidade, que é invisível, que não precisa do uso da força. Trata-se do poder da oração e da comunidade como se lê: “A Igreja rezava continuamente a Deus”.  O resultado de tal atitude não poderia ser outro, depois de libertado, Pedro reconhece e proclama: “Agora sei, de fato, que o Senhor enviou o seu anjo para me libertar do poder de Herodes e de tudo o que o povo judeu esperava!”.

A mesma situação se repete com Paulo, convencido de ter feito tudo o que devia fazer conclui: “Combati o bom combate, terminei minha carreira, guardei a fé”.  E tem certeza que tudo foi possível porque “O Senhor esteve a meu lado e me deu forças; ele fez com que a mensagem fosse anunciada por mim integralmente, e ouvida por todas as nações; e eu fui libertado da boca do leão”.

Tal situação foi anunciada por Jesus, mediante a confissão de Pedro. Enquanto este o reconhece como Messias, enviado de Deus, aquele confirma: “Feliz és tu porque não foi um ser humano que te revelou isso, mas meu Pai que está nos céus”. E lhe dá uma atribuição extraordinária. Ou seja, a partir desta convicção Pedro é chamado para Edificar a Igreja.

Em resumo, não há outro nome, não há outra condição, que não seja acreditar na pessoa de Jesus Cristo para que os projetos e instituições alcancem seus objetivos.

Eis que a Igreja convida a celebrar, neste domingo, a Solenidade de São Pedro e São Paulo e à sombra deles rezar pelo Papa e pelos pastores da Igreja a fim de que sejam, na mesma proporção, testemunhas da Boa Notícia de Jesus no meio do mundo.

Obviamente, que de algum modo, tal incumbência é extensiva a todos os cristãos, e é por isso que também se reza no salmo: “Bendirei o Senhor Deus em todo o tempo, seu louvor estará sempre em minha boca. Minha alma se gloria no Senhor; que ouçam os humildes e se alegrem!”. E a missa se conclui com esta oração: “Concedei-nos viver de tal modo na vossa Igreja que, perseverando na fração do pão e na doutrina dos apóstolos, sejamos um só coração e uma só alma”.

padre Elcio

 

 

Neste domingo, celebramos a solenidade de são Pedro e são Paulo. O que podemos destacar destes dois grandes apóstolos, dos testemunhos de cada um deles?

Pedro e Paulo são bastante diferentes quanto à personalidade, mas idênticos no amor a Cristo e à Igreja. Ambos dão a vida por Jesus Cristo até o martírio em Roma. Dois santos, podemos dizer, que nunca estão parados. Homens como nós, com tantas fraquezas, medos, capazes de trair, mas que tiveram plena confiança em Jesus. E Jesus aposta tudo neles. Dá sempre uma nova chance a Pedro, e Paulo não se cansa de repetir que se tornou apóstolo somente pela graça.

Falando de Pedro e Paulo, podemos falar da grandeza e santidade que eles representam, mas podemos também falar das suas fraquezas e dos seus pecados, e aí, descobrimos que uma coisa leva à outra, pois é exatamente a bondade e a misericórdia do Senhor que muda o coração deles e os transforma até se tornarem de pecadores a grandes santos e a transformar suas vidas num amor humilde e apaixonado pelo Senhor Jesus.

Pedro demonstrou várias vezes o seu caráter, a sua fraqueza, o seu cansaço para entender o coração de Jesus. Lembremo-nos quando Jesus lhe diz: “afasta-te de mim, Satanás!”; ou quando caminhando sobre as águas, duvida e Jesus lhe diz: “homem de pouca fé!” Mas, sobretudo é humano e fraco no momento da paixão de Jesus. Ele que tinha afirmado: “mesmo que todos os outros te abandonem, eu jamais te abandonarei”, é o mesmo que na sua fraqueza nega por três vezes a Jesus, jurando nunca tê-lo visto. Entretanto, é esta pobreza de Pedro que encontra o olhar misericordioso de Jesus e por ele se deixa curar.

Depois da ressurreição, às perguntas repetidas de Jesus se ele o ama, responde: “sim, Senhor, tu sabes tudo, tu sabes que eu te amo, tu sabes como te amo”. E a sua vida, mesmo em meio às dificuldades e fraquezas, será sempre a demonstração deste amor apaixonado pelo seu Senhor, até a prisão, às viagens, e, finalmente, ao martírio.

Também Paulo, fariseu convicto, fanático, perseguidor ferrenho dos cristãos, colaborador do martírio de Estevão, é transformado por Jesus, e, assim, vive o resto de vida numa missão contínua dirigida aos vários povos que ele pode alcançar. Até o momento no qual pode afirmar: “combati o bom combate, terminei a corrida, guardei a fé. Não me resta outra coisa senão esperar a coroa da justiça que o Senhor, o justo juiz, preparou para mim. O Senhor veio em meu auxílio e me deu forças” (2ª leitura).

Homens frágeis, pecadores, transformados pela misericórdia do Senhor e pela força do seu Espírito. Deram a vida pelo Senhor e estabeleceram as bases da comunidade cristã, a Igreja, destinada a se espalhar por todo o mundo. Aquela de Pedro e de Paulo é a nossa humanidade resgatada; também nós não devemos nunca ficar desencorajados diante das nossas fraquezas, de nossas dúvidas, de nossa falta de fé, mas sempre renovar o nosso amor ao Senhor.

Dois apóstolos diferentes, colunas fundamentais da Igreja, garantindo a unidade desta. Pedro recebe o carisma, isto é, o dom e a tarefa, de ser referência para a unidade e a comunhão entre os que acreditam em Cristo, através do serviço à Verdade. Pedro é a pedra sobre a qual Cristo quis edificar a sua Igreja, a sua comunidade e a ele confia as chaves do Reino. Paulo recebeu a tarefa de difundir a palavra de Verdade, o Evangelho, até os confins da terra, pregando e fundando comunidades cristãs. São santos que encontram no Papa o continuador e o testemunho da missão de Cristo que continua em meio a nós. No Papa, encontra-se a autoridade de Pedro, chefe visível da Igreja e centro de unidade, e no Papa, encontramos o ardor missionário de Paulo. A festa de hoje nos ajuda a renovar a nossa fé. A fé cristã católica não é simplesmente uma fé em Deus ou em Cristo, mas é fé na Igreja. Dizemos no Credo: “Creio na Igreja, una, santa, católica e apostólica”. É na Igreja que nós podemos ter uma relação autêntica com Cristo, único salvador e com Deus, o Pai, que Cristo nos revelou. A solenidade deste domingo nos chama a ser presença ativa, assumindo a nossa responsabilidade na Igreja, para que sejamos sempre mais “comunhão” no interior dela e sejamos sempre mais “missão” no mundo de hoje.

Ao comentário do ano passado como vimos acima, acrescento:

Pedro e Paulo. Simão e Saulo. Dois novos nomes, dois percursos de novidade. Quem encontra Jesus não pode permanecer como era. Porque o Senhor toma aquilo que mais detestamos em nós e nos transforma. A cabeça dura do pescador Simão se faz rocha sobre a qual é construída a Igreja. Disto, ninguém duvida, nem Dan Brown em “Anjos e demônios”,quando o professor Langdon, da Universidade de Harvard, encontra-se na frente da basílica de São Pedro e os pensamentos em sua mente neste momento são: “Pedro é a pedra. A fé de Pedro em Deus foi tão firme, que Jesus o chamou de “a pedra”, o discípulo sobre cujos ombros Jesus construiria sua Igreja. Neste lugar, pensou Langdon, na colina do Vaticano, Pedro havia sido crucificado e enterrado. Os primeiros cristãos construíram um pequeno santuário sobre o seu túmulo. À medida que o cristianismo se estendeu, o santuário cresceu, passo a passo, até converter-se nesta basílica colossal. Toda a fé católica havia sido levantada, literalmente, sobre são Pedro, a pedra” (Anjos e demônios, cap.118).

A paixão exagerada de Paulo pela lei se transforma em ardor por Jesus Cristo. O que pode unir estas duas figuras tão diferentes? O amor por Jesus Cristo. É Cristo quem coloca os dois em estreita colaboração porque a diversidade de carismas é o que faz crescer.

Em que sentido a trajetória da nossa vida espiritual se identifica com a de Pedro e a de Paulo?

Meus atos dão testemunho de que eu realmente amo a Jesus Cristo?

Meu serviço na minha Igreja local faz crescer a união e o amor na comunidade ou divide-a ainda mais?

padre Carlos Henrique de Jesus Nascimento