Epístola (Tt. 2,11-14)

A MANIFESTAÇÃO DA BONDADE DE DEUS. Manifestou-se, pois, a beneficência do Deus, a salvadora, a todos os homens (11).

Manifestou-se do verbo epifanö aparecer, mostrar-se, vir à luz, tornar-se visível, tornar-se conhecido, manifestar-se. Em Lc. 1,79 o evangelista fala de iluminar aqueles que estão na escuridão e na sombra da morte, como voz ativa. Como intransitivo, que é nosso caso, temos At. 27,20: E quando nem sol nem estrelas durante muitos dias não apareceram. Portanto, o sentido é de se tornar conhecida a beneficência de Deus. Charis é graça que é a qualidade que nos proporciona prazer, deleite; também é boa vontade, favor, benevolência, bondade, benignidade, especialmente da misericordiosa bondade pela qual Deus olha os que em Cristo se tornaram seus filhos. Pode ser sinônimo de eleos [misericórdia]. Beneficência é o amor gratuito pelo qual Deus nos salva e por isso Paulo acrescenta a qualidade de SALVADORA adjetivo que tem como significado que traz a salvação ou salvadora para todos os homens. Deus não quer fazer distinção, como dirá Paulo, entre judeus e gregos (1Cor. 1,24 e Rm. 10,12) porque um mesmo é o Senhor de todos, rico para com todos os que o invocam. E por isso essa salvação chega a todos os homens.

 

O EXEMPLO. Educando-nos para que tendo negado a descrença e os desejos mundanos, prudentemente e santamente e religiosamente vivamos nesta época (12).

EDUCANDO-NOS particípio de presente do verbo paideuö que tem o duplo significado de instruir ou ensinar as crianças e também de castigar as mesmas, pois, segundo o velho ditado, as letras com o sangue entram, ou pueri et naves a posteriora reguntur.

NEGADO é o particípio de aoristo de arneomai, com o significado de negar, abjurar, renegar, renunciar. Aqui é negar com a ideia de renunciar. O que se renuncia é a falta de fé no evangelho que temos traduzido por DESCRENÇA propriamente é a falta de religiosidade, a irreverência ou desprezo, incredulidade e descrença que, dadas as circunstâncias, é a melhor opção. Dentre as coisas negativas que os fieis romanos tiveram que renunciar eram os DESEJOS MUNDANOS epithymia é a paixão, desejo e apetite tanto luxurioso como cobiçoso, que Paulo diz ser próprio do mundo ou mundano, como oposto à vontade de cumprir o que Deus ordena. Por isso, escreve uma fórmula breve, mas extremamente sensata de vida cristã.

PRUDENTEMENTE advérbio que significa sobriamente, temperadamente, moderadamente, controladamente, com o qual Paulo não condena todo uso de dinheiro e de prazer, uso que deve ser controlado, pois não são fins em si mesmos mas meios para uma vida que ele afirma deve ser vivida SANTAMENTE ou em conformidade com as leis e mandatos divinos, respeitando a preeminência de Deus na vida humana nesta ÉPOCA. Aiön é uma palavra que indica um período longo de tempo, como uma era, uma idade, uma geração e que por vezes se confunde com mundo e século, como em Hb 11, 3: pela fé entendemos que os mundos foram criados pela palavra de Deus. Em Ef. 2,2 Paulo fala que noutro tempo andastes segundo o curso deste mundo. Poderíamos ter traduzido por geração deste mundo. Talvez, mais conforme ao nosso modo de pensar, no lugar desta época seria melhor o plural: Nestes tempos, ou o período da vida mortal de cada um.

 

A ESPERA. Aguardando pela ditosa esperança e a manifestação da glória do grande Deus e do nosso salvador Jesus Cristo (13).

Neste modo de vida sóbrio e piedoso os fieis vivem AGUARDANDO o verbo prosdechomai tem dois significados: admitir e aceitar, ou esperar e aguardar o cumprimento de uma promessa. É nesse último sentido que o temos traduzido. O que se está esperando é a MANIFESTAÇÃO a comparência ou aparição da GLÓRIA esplendor, majestade de Deus a quem Paulo chama de GRANDE ou melhor, magnífico e do salvador nosso que é Jesus Cristo. De modo que a esperança do cristão não está no dia de amanhã, mas no DIA DO SENHOR, imprevisível no tempo e desconhecido na forma.

 

O SALVADOR. O qual deu-se a si mesmo por nós para resgatar-nos de toda iniquidade e purificar para si um povo próprio, zeloso de boas obras (14).

Paulo termina este parágrafo com uma expressão dogmática que encerra uma ação de graças: Esse Salvador se entregou a si mesmo para nos RESGATAR o preço pago, que Pedro dirá não ser prata nem ouro, coisas corruptíveis, mas o precioso sangue de Cristo (1 Pd 1,18-19). E não só resgate da iniqüidade, mas também SANTIFICAÇÃO como se fosse uma limpeza das muitas purificações que os judeus tinham que fazer para se apresentarem diante da divindade. E assim formar um novo povo EXCLUSIVO que fosse diligente em realizar obras boas.

 

Evangelho (Lc. 2,1-15) - Nascimento de Jesus segundo Lucas

O nascimento de Jesus foi anunciado (Mq. 5,1-3) e consequentemente previsto e querido de antemão por Deus em sua previdência ou economia de salvação, como se diz atualmente. E que tipo de família e que casa foram as escolhidas? São fatos que mostram a vontade divina tanto como a sua palavra pronunciada ou escrita pelos seus profetas. Outro assunto é o problema histórico que as narrações da infância, especialmente a de Lucas, apresentam para a crítica moderna, disposta a não aceitar, como históricos, relatos nos quais entra o sobrenatural. Impossível o milagre, impossível uma intervenção extra-humana, ou divina. A história só pode ser a narração de fatos humanos. O resto é mito ou lenda. E para isso, entre os fatos e a sua narração devem transcorrer anos suficientes para que, não existindo testemunhas visuais, esta última possa adquirir aspectos de realidade, embora seja uma elaboração fantástica. A uma e outra questão devemos enfrentar com espírito realista e com ânimo apologético.

 

O RECENSEAMENTO. Sucedeu, pois, naqueles dias, saiu um decreto procedente de César Augusto para recensear toda a terra habitada (1). Esse registro primeiro aconteceu, sendo autoridade governativa da Síria Quirino (2).

A HISTÓRIA: é um pouco estranho encontrar em Lucas, pretendido historiador, que assinale com aparente precisão duas datas iniciais na vida de Jesus: a de seu nascimento e a do início da pregação de João Batista. Mas a sua morte está diluída no governo de Pilatos. Tem existido muita discussão sobre estes dados, tão precisos e ao mesmo tempo tão incompletos, de modo a dar interpretações confusas. Interessa-nos agora a data próxima ao nascimento de Jesus. São evidentemente dados históricos – conhecidos pelos documentos romanos correspondentes – a existência, nos últimos tempos do século primeiro a.C. de:

A) César Augusto (na realidade Gaius Iulius Caesar Octavianus Augustus 23 de setembro de 63 a.C. – 19 de agosto de 14 d.C.) geralmente conhecido como Octávio.

B) Públio Sulpício Quirino (45 a.C. – cerca 21 d.C.).

C) Os recenseamentos de César Augusto foram três, o primeiro dos quais no ano 28 a.C. [749 da fundação de Roma] o ano 8 a.C. e o 14 d.C. segundo o famoso Monumentum Ancyranum.

D) O recenseamento de Quirino no 6 d.C. Ao unir à Síria os territórios de Arquelau era o Legatus (delegado) da Síria, encarregado de fazer o censo na província e vender os bens patrimoniais de Arquelau na Palestina. Censo que é descrito por Atos 9,37 e que deu lugar à insurreição de Judas o Galileu.

DOGMA: com o significado de opinião ou doutrina filosófica; e, a nível civil, decreto, edito.

OIKOMENOS: temos traduzido por terra habitada, mas, na realidade, era o orbis latino, ou seja, as regiões dominadas e submetidas ao Império, que hoje chamaríamos mundo civilizado. Quando os evangelistas tratam da terra prometida ou Palestina falam com o nome de terra ou toda a terra.

PRIMEIRO: Autë ë apografë prötë = Haec descriptio prima = este o registro primeiro]. Há uma divergência notável na interpretação quanto ao adjetivo prötë. Prötë, feminino de protos, significa, como adjetivo, principal, o mais distinguido; e neste sentido, o primeiro em ordem de tempo ou espaço. Exemplos: a roupa ten proten [mais excelente] em Lc. 15,22 será a vestida pelo pródigo. Este é o prötë e grande mandamento (Mt. 22,38). Herodes convidou os protoi da Galileia (Mc. 6,21). Nestes casos, significa principal muito mais do que primeiro. E com o segundo significado de ordinal temos: na prötë emera, [dia] em Mc. 14,2. Modernamente a frase de Lucas seria melhor traduzida como anterior ao censo de Quirino, no lugar de primeiro censo de Quirino. Já temos dito que a frase era bastante estranha e que a tradução era difícil. Todo o parágrafo indica: A) que na Palestina houve vários recenseamentos;

B) que entre eles, este foi o primeiro ou o principal.

QUIRINO: veremos mais adiante, no Excursus, a história deste personagem. Agora nos interessa a frase completa:  ëgemoneuontos tës Surias Kurëniou = facta est praeside Syriae Cyrino= foi feito sendo Quirino presidente da Síria. A tradução latina e a tradução da RA dão suporte a uma péssima interpretação: Quirino era o autor ou, pelo menos, o executor desse recenseamento. O grego não diz isso. Mas que o recenseamento aconteceu no tempo em que ele era o magistrado ou poder supremo na Síria.  O latim contribuiu para a errônea idéia de que Quirino foi quem levou a cabo o censo, com o factum est que tanto significa sucedeu como foi executado. A BJ traduz: esse recenseamento foi o primeiro, enquanto Quirino foi governador da Síria. De fato, quem executou o recenseamento foi Herodes, o Grande, a pedido de Augusto. E foi no tempo em que Quirino era o chefe militar da Anatólia que no seu tempo abrangia provavelmente a Síria. Historicamente, podemos determinar estes dados: no ano de 133 a.C., Roma obteve como herança, após a morte do rei Átalo, de Pérgamo, a cobiçada província da Ásia. Em 129 a.C. Ásia se transforma em província proconsular. De 74 a 66 a.C., sob a liderança de Cneu Pompeu (Gnaeus Pompeius), Roma bateu o Rei Mitrídates VI do Ponto, numa disputa pela província da Ásia. Em consequência, foram incorporados ao Império Romano os territórios da Síria, Bitínia, Ponto, Cilícia, Galácia, Capadócia, Lícia e Panfília. A Armênia tornou-se um Estado vassalo. Será em 64 a.C. que Cilícia e Chipre (Cilicia et Cyprus), tornar-se-ão província pró-pretorial. PRESIDENTE: hegemonos é traduzido por governador, mas deveríamos traduzir por autoridade máxima num dado território. Atualmente corresponde ao Presidente ou Governador de um Estado ou Província. De fato, Quirino foi cônsul no ano 12 aC e um ano mais tarde era nomeado Procônsul da Ásia num período compreendido entre 11 a 2 a.C. Este é nosso caso. O pro significava estar no lugar de. Como era quase impossível a escolha anual de magistrados romanos nas províncias, estes eram escolhidos, a dedo, por um largo período e daí o nome de procônsul, propretor e proquestor. Quirino, pois, teve a maior magistratura na província da Ásia que, entre seu território, compreendia a Síria. Com a criação das províncias romanas, competia ao Senado nomear os governadores provinciais, o que era feito por meio de senatus consulta que designavam cidadãos romanos quer como procônsules, quer como propretores. Para as províncias mais tranquilas, o Senado nomeava propretores, que haviam exercido a pretura no ano anterior. Para governar as províncias mais difíceis (na fronteira, por exemplo), geralmente com contingentes militares, o Senado designava procônsules (proconsules), que haviam servido como cônsul no ano anterior. Em ambos os casos, os funcionários mantinham, nas províncias, o mesmo nível de imperium de que gozavam no ano anterior, como cônsules ou pretores, o que lhes dava uma autoridade quase ilimitada nos assuntos provinciais. E P. S. Quirino foi nomeado cônsul junto com Válgio Rufo no ano 12 a.C. [justo um ano antes de seu proconsulado na Síria] e teve que enfrentar os bandidos armados da Cilícia [tudo concorda evidentemente com a narração de Lucas]. Uma outra questão é por que Lucas introduz este personagem. Pela simples razão de que era o mais conhecido dos hegemonos romanos entre os judeus, que nunca ouviram falar possivelmente de um suposto Gneus Sentius Saturninus legado imperial de 9 a 6 a.C. na Síria. Conclusão: Sabemos que Sulpício Quirino, nos tempos da morte de Herodes estava à frente de uma expedição militar nas províncias orientais do Império, ou seja na Síria, da qual formava parte a Cilícia (Tácito), com a evidência de que ele era um co-regente do governador, Quintílio Varo [o famoso general que perdeu em Teoturgo as legiões germânicas em 9 dC]. Era, pois, Quirino o chefe de uma missão militar, entre 12 e 6 a.C. quando andava ocupado em vingar, na Cilícia, a morte do rei Amintas e esmagava os rebeldes homônades que tinham ousado enfrentar o poder de Roma. Este fato não pode fixar-se com toda a precisão, mas deu-se indubitavelmente entre o ano 9 e o ano 6 antes de Cristo. Como chefe militar, seu imperium era superior ao de qualquer outro magistrado e, sob as suas ordens, foi feito um recenseamento, mas a data deste é desconhecida.

EXCURSUS

O RECENSEAMENTO: o primeiro dos três recenseamentos de César foi feito no ano 28 a.C., que corresponde ao 749 da fundação de Roma. O segundo foi feito no ano 8 a.C. e corresponde ao nosso caso. Havia duas classes de censo pessoal:

a) o dos cidadãos romanos tanto na Itália como nas províncias. Em grego apotímesis tou desmou (censo do povo), era feito com a finalidade de recolher impostos ou exigir o serviço militar. Normalmente requeria uma declaração e uma valoração das propriedades [timësis]. Este tipo de censo foi feito nos anos 28 e 8 a.C., e repetido em 14 d.C.

b) dos incolae, ou habitantes nas províncias que não tinham cidadania romana. Chamava-se também apografê, palavra que usa Lucas, e fazia-se nas províncias, dependendo das condições da demarcação em curso. Por exemplo, no Egito cada 14 anos desde o 33/34. Nas Gálias, 27 e 12 a.C. e 14-16 d.C. E consta que na Lusitânia (Portugal), Espanha e Judeia realizaram-se também esta classe de apografés. Nas províncias imperiais, os delegados como era o caso da Síria-Palestina, podiam convocar o censo por própria vontade. Distinguia-se também entre apografé, um termo genérico para qualquer tipo de censo e apotímesis, termo técnico para um censo para fins fiscais. No nosso caso, não parece ser um censo fiscal, mas uma convocação para prestar um juramento de fidelidade a César no tempo de Herodes, feito por comparecimento à semelhança com o que foi feito em Paflagônia [região na costa da Anatólia central do Mar Negro].

O CENSO DE AUGUSTO: há uma referência a este censo de Augusto datada no dia 5 de fevereiro do ano 3 a.C. num escrito pessoal do Imperador: Quando eu estava administrando meu 13º  consulado [2 a.C.] o senado, e a ordem equestre e todo o povo romano me deu o título de Pai da Pátria. Por isso o registro da aprovação dos cidadãos deve ter sido feito no ano 3 ou 4 a.C. ou talvez antes. Orósio [século V] escreve que os registros romanos de seu tempo revelavam que um censo foi efetivamente feito quando Augusto foi nomeado o primeiro dos homens [uma adaptação de Pai da Pátria], num tempo em que as grandes nações deram um juramento de obediência a ele. Fato que data do ano 3 a.C. Também Flávio Josefo corrobora este juramento de obediência a Augusto, afirmando que foi solicitado na Judeia pouco antes da morte de Herodes. Ainda mais, foi achada uma inscrição na Paflagônia [leste da Turquia] datada também no ano 3 a.C. mencionando um juramento de todos os habitantes da região nos altares de Augusto nos templos a ele dedicados nos vários distritos. E Moses de Khoren, historidor armênio do século V afirma que o censo que levou José e Maria a Belém foi dirigido por agentes romanos na Armênia onde colocaram a imagem de Augusto em todos os templos. Os detalhes indicam que Orósio, a inscrição de Paflagônia, Josefo e Moses apontam a um mesmo censo, feito no ano 3 aC e relatado por Lucas como motivo do traslado de Maria e José a Belém. É certo que foi começado anos antes, pois demoravam anos antes de serem cumpridos. Daí que, por exemplo, no Egito se realizassem cada 14 anos. Este juramento foi feito por ordem de Roma e com os procedimentos romanos: isto é, no lugar de residência de cada um, especialmente no Oriente em que  abundava a população flutuante. Foi feito para congraçar-se com César, aproximadamente no ano 7 aC. Seis mil fariseus se negaram e foram multados, multa que foi paga pela mulher de Ferora, irmão de Herodes. Este censo-juramento do ano 7/6 a.C. foi feito antes do censo de  Quirino, legado da Síria no ano 6/7 d.C. após a queda de Arquelau como etnarca da Judeia. Por que Lucas escreve sobre Quirino se não era propriamente esse o censo que obrigou José a ir a Belém? A solução é a memória incorreta dos judeus que consideravam como datas memoráveis, tanto a morte de Herodes quanto o censo de Quirino em que os tumultos do povo foram notáveis. A data, pois, de Lucas podia ser traduzida por: “antes do famoso censo de Quirino”. Foi feito no tempo em que Sentio Saturnino era legado da Síria (9-6 aC), segundo diz Tertuliano. A apografê ou inscrição de pessoas e propriedades iniciou-se em tempos de Saturnino (7/6 a.C.) e a ulterior apografesis (apotímesis) ou objetivo cadastral dos dados registrados, foi realizada por Quirino (6/7 d.C.) com a conseguinte revolta dos contribuintes judeus.

PUBLIUS SULPICIUS QUIRINUS: no ano 12 a.C. foi proclamado cônsul em companhia de Valgio Rufo. Tácito fala dele como um soldado intrépido e disciplinado que lutou contra os bandidos homonadenses na Cilícia ao sul da província da Galácia, sudeste da Ásia Menor, lugar montanhoso e terra perigosa pelos bandidos. Estrabão disse que após cortar toda possibilidade de mantimentos fez 4 mil prisioneiros e os deportou, de modo que ficaram as terras sem homens. Após o ano 4 a.C. foi Rector (assessor) de Gaio César, neto do imperador e filho adotivo do mesmo, nomeado, na época, vice-rei das províncias orientais entre as quais estava a Síria. No ano 6 d.C., ao unir à Síria os territórios de Arquelau, Quirino foi o Legatus (delegado) da Síria, encarregado de fazer o censo na província e vender os bens patrimoniais de Arquelau na Palestina. Censo que é descrito por Atos 5,37 e que deu lugar à insurreição de Judas, o Galileu. Segundo S. Justino, mártir (século II), Quirino era unicamente procurator, ou seja, assistente de Saturnino que era, de fato, o governador da Síria, como afirma Tácito. Por conseguinte, a data do nascimento de Jesus deve situar-se em 7 a.C. ou em 6 a.C., i. e. 7 ou 6 anos antes da nossa era! Foi esse mesmo Quirino que teve um segundo imperium [mandato] na Síria, estendido à Judeia no ano 6 dC, quando  esta ficou sob o controle direto de Roma; e como legado da Síria no ano 6 d.C., ele fez o inventário dos bens de Arquelau (herdeiro de Herodes), mas não podemos situar nesta data o nascimento de Jesus. E este censo foi feito por ordem do mesmo Quirino que esteve atuando no censo feito entre 8-7 a.C. Uma afirmação de Tertuliano vem trazer-nos luz nova sobre este ponto. O grande escritor africano, excelente jurista e bom conhecedor dos documentos anagráficos romanos, apoiando-se não só no Evangelho de Lucas, mas num texto oficial do Império, atribui este censo do nascimento de Cristo ao legado Sêncio Saturnino. Ora, sabemos que o mandato de Sêncio Saturnino na Síria foi exercido desde o ano 8 até ao ano 6 antes de Cristo. Isto, que a primeira vista parece uma contradição, vem confirmar a afirmação do evangelista. Os dois textos completam-se, obrigando-nos a supor, ou que Sêncio Saturnino terminou na Judeia o que Quirino começara no resto da sua província, ou, o que é mais provável, que Saturnino atuava a título de colaborador de Quirino, ocupado na campanha contra os rebeldes da Cilícia, que pertencia também à província da Síria. O testemunho da Lápis Tiburtinus confirma o fato de Quirino ter sido legado na Síria duas vezes. Uma delas entre 10 e 7 aC por ocasião da guerra dos homonadenses, quando a administração civil estava nas mãos de outro administrador ou governador, incluindo Saturnino (8-6), em cujas ordens foi feito o censo, segundo Tertuliano. A outra como legatus após o ano 6 d.C..

A VIAGEM: Assim, saiam todos para se registrar cada um em sua  própria cidade (3). Também, pois, José subiu da Galileia, da cidade de Nazaré,  para a Judeia, a cidade de Davi que é chamada Bethleem, por ser ele da casa e família de Davi (4). Et ibant omnes ut profiterentur singuli in suam civitatem ascendit autem et Ioseph a Galilaea de civitate Nazareth in Iudaeam civitatem David quae vocatur Bethleem eo quod esset de domo et familia David.

SUBIU: De qualquer ponto da Galileia ir às montanhas de Jerusalém era uma subida. Para mais detalhes, damos o versículo do salmo 24,3: Quem subirá ao monte do Senhor?  E geograficamente Nazaré está a 140 m sobre o nível do mar, enquanto Belém está a 765m e o caminho era através do Jordão, que, no último trecho, estava a quase 300 m abaixo do mesmo nível. O último trecho era, pois, uma subida de Jericó a Jerusalém [já que Jerusalém está a 785 m acima do nível do mar] de 25 Km; e são mais 8 a percorrer para encontrar Belém. A viagem demorava aproximadamente 5 dias, já que a distância entre Nazaré e Belém é de 140 km aproximadamente.

BELÉM: Inicialmente o nome da vila era Beit Lahama, em homenagem a Lahm, deus caldeu da fertilidade, que foi adotado pelos cananeus com o nome de Laham, a quem construíram um templo, localizado no atual Monte da Natividade, voltado para os vales férteis da região, depois chamados Campo dos Pastores. Fundada na região de Éfrata [=com honra, dito de uma mulher], nome de uma rica família que lhe deu o nome.  Narra o Gn. 35,16: quando ficava um bom trecho de caminho para chegar a Éfrata, Raquel entrou em parto, um parto muito penoso….e morreu e foi enterrada em Éfrata. Pertencia à tribo de Judá e por isso era designada como Belém de Judá (Jz. 17, 7 e Mt. 2,5) para distingui-lo de Belém de Zabulon (Js 19,15). Nela existe o túmulo de Raquel. Ocupada pelos filisteus, foi fortificada por Roboão e repovoada quando da volta do exílio. Nela nasceu Jesus (Mt. 2,1-6; Lc. 1,4-15 e Jo 7,42). 7,42), cumprindo-se então a famosa profecia messiânica: “ E tu Belém, terra de Judá, não és de modo nenhum o menor dentre os principais lugares de Judá. Porque é de ti que há de sair o Chefe, que há de pastorear o meu povo, Israel” (Mq. 5,2). Belém, em sua etimologia judaica, significa Casa do Pão. O pão era o principal alimento de Israel, e por isso muito respeitado. O pão judaico era feito de cevada e com a flor da farinha [trigo] os israelitas faziam bolos. O pão usado era ázimo, isto é, sem fermento, sendo este último apenas um pouco de massa da véspera, posta em reserva. Este pão fermentado era tido como impuro, sendo proibido em algumas festas. Quando o judeu quer agradecer a Deus pelo alimento concedido é pão que ele leva ao templo. No tempo de Jesus, a população de Belém não excedia o milhar de habitantes. Não fora despropositada a preocupação de procurar um lugar solitário e tranquilo. Mais tarde, o mundo há de venerar a gruta onde acaba de ocorrer aquele nascimento prodigioso. Mas, transcorrido um século, já um escritor nascido naquela terra da Palestina, São Justino, nos falará dela com respeito, e algum tempo depois o grande Orígenes afirmará que até os próprios pagãos conheciam a cova em que tinha nascido um tal Jesus, adorado pelos nazarenos, mas as caravanas que passavam do Egito para Jerusalém davam-lhe certa vida. Um tal Camaam, filho de um contemporâneo de Davi, construíra em Belém uma pousada que, no tempo de Jeremias e talvez no tempo de Jesus, continuava a chamar-se o khan ou geruth – hospedaria – de Camaam.   Jerusalém e Belém distam uma da outra apenas duas horas de caminho, mas fazem parte de regiões geograficamente distintas. Ao deixar o planalto que as separa, a paisagem modifica-se bruscamente; é outro o ambiente, outro o clima, outro o curso das águas. É o vale que se estende em melodiosa policromia até a meseta situada sobre o Jordão; campos de trabalho, áridas planuras, terraplenos onde crescem oliveiras centenárias, depressões de uma beleza deslumbrante, defendidas do vento pelas montanhas do Oeste, onde os pastores têm os abrigos, e, ao centro, uma feraz terra de semeadura, que deu o nome à histórica povoação de Beth-lehem, “casa do pão”. Do outro lado de Belém, estendia-se um vasto ermo, terra inculta e abandonada, por onde erravam numerosos rebanhos guardados pelos respectivos pastores, quer no inverno quer no verão, de dia ou de noite. Embora mal vistos pelos doutores de Israel, já que davam muito pouca importância aos seus ensinamentos sobre abluções, dízimos, alimentos impuros e a observância do sábado, esses pastores eram os continuadores dos patriarcas bíblicos. Levavam a mesma vida que eles e, tal como eles, contemplavam todas as noites o céu coalhado de estrelas, negro, profundo, aveludado. Os seus atuais descendentes continuam a levar os rebanhos sem rumo fixo por aqueles ermos e planícies, e são designados por um nome que significa: “os que vivem ao relento”. Nômades, livres, de uma liberdade adquirida à força de fadigas, privações e desprezos, conservam melhor do que os habitantes das cidades a fé simples, a piedade sincera e as antigas tradições de Israel.

 

COM MARIA. Para se registrar com Mariam, mulher desposada com ele, estando em cinta (5).

Lucas diz-nos que José levava consigo Maria, sua esposa, que estava grávida. Na realidade, ela não tinha obrigação de ir, uma vez que não era abrangida pela lei; mas era impossível deixá-la só naquele estado. Aliás, não é improvável que, dadas as circunstâncias prodigiosas da concepção, o casal tivesse resolvido estabelecer-se no lugar de origem da linhagem de Davi já que, segundo o anjo Gabriel, Deus daria ao fruto que esperavam o trono de seu pai Davi.  Maria, que nenhumas dores sentira ao dá-lo à luz, estava em condições de lhe prodigalizar pessoalmente os primeiros cuidados. É um pormenor, esse de Maria acompanhar a José, que o evangelista não quer omitir, para nos dar a entender que, se foi concebido milagrosamente, mais milagrosamente nasceu. “Jesus – diz são Jerônimo – desprendeu-se da mãe como o fruto maduro se separa do ramo que lhe comunicou a seiva, sem esforço, sem angústia, sem esgotamento”. E noutro lugar diz: “Não houve ali auxílio algum de outra mulher, como logo julgaram os evangelistas apócrifos. Foi Maria quem envolveu o Menino em panos. Ipsa mater et obstetrix fuit: a própria mãe foi a parteira”.

MOTIVO: qual foi a intenção de Lucas em narrar esses detalhes? Sem dúvida, delimitar o nascimento de Jesus com fatos históricos conhecidos na sua época. Ele quer ser um historiador e não um inventor de lendas ou mitologias. À parte essa intenção, temos a ação do Espírito que nos dá detalhes para combater uma das mais sugestivas heresias do primitivo cristianismo: o docetismo, que pretendia provar que o corpo de Jesus era aparente. Os detalhes de seu nascimento desbaratam semelhante disparate. Outra intenção é ligar Jesus com Davi, não unicamente como descendente, da mesma tribo, mas também como um nascido no mesmo lugar, para indicar a ininterrupção da realeza fundada no mais famoso dos reis de Israel. O nome Betlehem, casa do pão, é simbolicamente uma referência ao que chamar-se-ia pão descido do céu ( Jo 6,51). Belém era a cidade de Davi e seria logo a cidade de Jesus.

 

O PARTO. Aconteceu, pois, que estando eles ali, completaram-se os dias de ela dar à luz (6). E deu à luz o seu  filho, o primogênito, e o enfaixou e o depositou no estábulo, porque não havia para eles lugar na sala superior (7).

O PARTO: o parto se efetuou segundo os dias costumeiros de uma mulher. Tudo para indicar que Jesus era um homem normal de corpo e osso, formado durante a gravidez no seio de Maria (contra o docetismo e a heresia de Marcião). O envoltório em faixas era coisa rotineira entre as mulheres da época e da Palestina. Só deixavam o rosto do menino sem envolver. O detalhe de que foi Maria quem o envolveu, indica que esta não estava traumatizada pelo parto, e que José, segundo o costume da época, não estava presente. Talvez fosse a busca de uma parteira, que no caso não foi necessária. Assim o afirmam os apócrifos que, se bem rodeiam o sucesso de acontecimentos sobrenaturais, dizem uma coisa importante do ponto de vista humano e real: não houve parteira. “Tirai-me esses panos vergonhosos e essa manjedoura, indignos do Deus que adoro” – dirá Marcião, um dos primeiros hereges. E Tertuliano lhe responderá: “Nada mais digno de Deus que salvar o homem espezinhando as grandezas transitórias, julgando-as indignas de si e dos homens”.

PRIMOGÊNITO: A palavra protótokos (primogênito ou primeiro nascido) tem um valor técnico, religioso. Traduz a palavra hebraica Bekor, que tem valor semântico como primícias que devem ser dadas a Jahveh. Já em Gn. 4,4 Abel oferecia os primogênitos de seu rebanho a Javé, e  em Êxodo 13,2 Javé manda consagrar todos os primogênitos de Israel tanto de homens como de animais, pois todos são dEle. Nada indica sobre outros filhos. Um filho único é primogênito, segundo a linguagem bíblica.

O KATALYMA: [traduzido ao latim por diversorium = estalagem, pousada, albergue, a típica taberna]. O significado inicial de Katalyma era o de quarto de hóspedes. A palavra tem origem em kataluein, verbo que significa desatar. Era inicialmente o lugar em que se desatavam as cavalgaduras após a viagem ou albergue noturno. Ou seja, um albergue, que pode ser até uma casa particular, LISHK. Também a sala de invitados como em 1Sm. 1,18 (só nos setenta). Tanto Marcos como Lucas, usam katalyma para a sala de refeição da última ceia, que a vulgata traduz por refectio (refeitório) em Marcos e diversorium (alojamento) em Lucas. E dizem ambos os evangelistas que o dono mostrará o ANAGAION em ambos os casos. Uma solução moderna é dada pela arqueologia: As casas de Belém não eram covas escavadas no monte, como eram as de Nazaré, mas construídas ao redor de um pátio comum. Eram casas de dois andares. O andar inferior era uma cobertura em forma de arco ou abóbada, sobre a qual estava a casa propriamente dita à qual se subia por uma escada externa. Nessas habitações do andar superior não havia lugar, nem espaço físico disponível, nem lugar decente para um parto. Por isso, José e Maria escolheram o andar inferior, o estábulo dos animais. Aliás fatnë pode ser traduzido por estábulo, de modo que Maria deitou o menino no estábulo. Os pastores recebem como sinais (Sëmeion ou Oth em hebraico) as faixas e o presépio, ou estábulo. Sëmeion era um meio da manifestação divina, nem sempre miraculoso. Assim o arco-íris era sinal de não acontecer um novo dilúvio. São fatos indicadores de um acontecimento que deve ser conhecido. Não são apologéticos, mas didáticos, que comportam um fato real, e consequentemente não sobrenaturais. O simbolismo das faixas pode ser evidente, pois Salomão em Sb 7,4 relaciona sua condição de REI com o fato de ter sido envolto em faixas e afirmando que nenhum entre os reis teve outro início ao nascer. Ou como Moisés que foi envolto pela própria mãe por falta de parteira [o que confirma nossa opinião anterior]. Melhor, parece ser um sinal de que Jesus é como todo homem quando criança e que é amado e acolhido, à diferença de Jerusalém que, segundo afirma Ezequias 16, 4-5, tornar-se-ia uma cidade abandonada. Antes pelo contrário, teve uma verdadeira mãe que o cuidava desde o primeiro instante. Um messias-menino era praticamente impensado nos tempos de Jesus. Uma mãe solícita é o que descobrimos neste relato íntimo e familiar. Os católicos descobriram Maria como instrumento vivo para a  vida do Salvador. O Verbo escolheu o Homem Jesus, mas também escolheu de modo especial Maria como mãe.

O PRESÉPIO: é a manjedoura das traduções vernáculas. Mas a palavra grega, fátnë, também pode significar estábulo, curral. Isso facilitaria a compreensão do sinal dado aos pastores. O midrash judeu recolhe a lenda em que, Adão castigado depois do pecado, replica a Deus: terei que comer no mesmo presépio que meu asno? Outra explicação é a de Isaías: conhece o boi seu dono e o asno o presépio de seu amo; mas Israel não me conhece; o povo não me discerne (1,3). Daí o boi e o asno no presépio natalino, que se tornaram uma imagem tradicional. Agora serão os pastores, os mais humildes, que receberão o sinal e poderão conhecer o rei Jesus em circunstâncias tão impróprias, fora de todo palácio e de todo leito real. Finalmente, o presépio era um sinal de que o menino era descendente de um rei que tinha sido pastor e desse ofício elevado a rei. Será, pois, aos pastores que Deus revela sua providencial intervenção de um Messias-pastor, nascido de uma mulher sem especial relevância (Lc 2,48), mas que como a mãe de Moisés, o outro grande líder de Israel, não teve parteira no nascimento do seu filho, já que esta tinha como cometido matar os varões nascidos entre os filhos de Israel.

 

OS PASTORES. E havia pastores naquela mesma  região vivendo no campo e vigiando à noite sobre seu rebanho (8).

Ao oriente de Belém, a caminho do mar Morto, estende-se a planície verde onde ficava a célebre torre do rebanho, junto da qual Jacó armara a sua tenda para chorar a amada Raquel. Uma igreja, escondida entre oliveiras, assinala o lugar onde se abriram as nuvens para permitir que uma nova luz se visse, o resplendor que viram os pastores. Eram nômades que viviam no descampado, pastoreando seu rebanho e à noite faziam suas vigílias para guardá-lo. O Talmud [escrito nos inícios do século II] que é uma condensação de tradições judaicas, afirma que naquelas paragens de Belém, os rebanhos saiam para os campos em Março e os pastores os recolhiam no princípio de Novembro. Deste modo, em Dezembro já não estavam nos campos, porque, nessa época, em Belém, que se situa entre 770 e 820 m de altitude, reina a geada. E assim, Dezembro não é o mês mais provável do nascimento de Jesus. E se, frequentemente, o Talmud contradiz escritos do séc. I (não devendo merecer credibilidade histórica) é certo que não temos nenhuma informação de maior credibilidade que contrarie esta, tanto mais que as tradições dos pastores são difíceis de serem alteradas, ainda hoje. Deste modo, em Dezembro, já não estavam nos campos. Não era aos poderosos da terra, não era aos doutores do templo que a mensagem se dirigia, mas aos pobres pastores do deserto, gente desprezível e suspeita aos olhos dos escribas, que os excluíam dos tribunais e recusavam o seu depoimento nos julgamentos, e tinham inventado este provérbio depreciativo: “Não deixes que o teu filho seja guardador de burros, condutor de camelos, bufarinheiro ou pastor, que são ofícios de ladrões”. Os pastores eram também considerados como ladrões, pois seus rebanhos entravam nos pastos vizinhos a comer, para não falar do vício da ludopatia, pois passavam grande parta do tempo jogando aos dados. Como seria possível submeter essa gente ambulante, ladra, que acima de tudo precisava pensar em viver, às mil prescrições que complicavam a Lei? Mas a vida de Cristo aparece impregnada, logo desde o início, de uma profunda ironia contra os sábios e poderosos. Quando começar a sua atividade missionária, dará como sinal da sua missão divina a evangelização dos pobres. E eis que, mal acabado de nascer, já os pobres são evangelizados. E os pobres compreenderam e acreditaram: acreditaram que o Messias havia nascido. Em que ano? Ora, em setembro ou outubro do ano 5 a.C. adoecera o monarca [Herodes, o Grande], retirando-se para o outro lado do Mar Morto, onde morreria em Jericó após um eclipse da lua. E foi antes de sua morte que ele quis matar o menino, que tinha menos de dois anos na ocasião. Logo nos aproximamos de uma data que é aceita como a mais provável: entre o 7-6 antes de nossa Era.

 

O ANJO. E eis que um anjo d(o) Senhor apresentou-se a eles e (a) glória d(o) Senhor brilhou em torno deles e temeram com grande medo (9).

A aparição do anjo, que veio interromper a conversa noturna em torno da fogueira, encheu-os de espanto. Um israelita não podia ver um raio de glória caído do céu, sem o associar à recordação dos raios de Javé, portadores de morte.

DOXA KYRIOU: os envolveu de luz. No grego clássico doxa é a opinião favorável dos homens. No grego bíblico corresponde à tradução de Kabod, ou seja, a manifestação visível de Deus junto ao seu povo, rodeando o tabernáculo (Êx 16,10) ou o templo, na visão de Ezequiel (Ez. 9,3). Deus toma como nova moradia os corpos simples dos pastores. São os novos tabernáculos, segundo o que Jesus declara à samaritana (Jo 4,24), pois a glória do Senhor é, na tradição sacerdotal, um sinal característico da presença de Jahveh (Ex. 2,10 e 40,34). Era uma luz que os envolveu como fez com os apóstolos, no monte Tabor, a nuvem luminosa que indicava a presença divina e da qual saiu uma voz (Mt. 7,5). No dia da ressurreição, o anjo tinha o rosto de um relâmpago e sua vestimenta era branca como a neve (Mt. 28,3). Isso explicaria a luz em que foram envoltos, pois o anjo estaria a pouca distância dos pastores.  Lucas não diz em que forma apareceu o anjo, mas pelo que vemos em outras circunstâncias seria em forma de um jovem ou adolescente [Mc. 16,5]. Seu rosto luminoso como um raio de luz e suas vestes brancas como a neve. Em Fátima os três pastorinhos foram surpreendidos por “uma luz mais branca que a neve”, na forma dum jovem. Este diz-lhes: “Não temais. Sou o anjo da Paz. [Como três crianças, sem nenhuma instrução,  respondem com exatidão aos dados que conhecemos pelas escrituras!]. Enquanto os evangélicos apresentam os anjos como uma luz, as maiorias das apresentações católicas os representam como uma jovem mulher. Ambos estão errados provavelmente. Seu aspecto era o de um adolescente ou de um homem, que se distinguia do tipo comum pela luz que dele saia e das roupas brancas que vestia (Lc. 24,4).

O MEDO: é próprio de todo relato de aparições, este medo que Lucas traduz da expressão hebraica. É o yirah ou yirat Elohim [= temor de Deus]. Temor que recebe o nome de grande quando a epifania divina está presente nas mentes dos que a experimentam: os marujos, no caso de Jonas [efobethesan fobon megan, tremeram com grande medo, timuerunt timore magno] palavras exatas repetidas por Lucas nesta ocasião. Ter visto a Deus ou a sua majestade nos anjos, era o mesmo que uma sentença de morte. Fala-nos tu… não nos fale Javé porque morreremos (Êx. 20,19).

 

O ANÚNCIO. Então lhes disse o anjo: Não temais: Pois eis que vos evangelizo uma grande alegria, que será para todo o povo (10). Porque  vos nasceu um salvador, que é Cristo Senhor, na cidade de Davi (11).

GRANDE ALEGRIA: a alegria, ou melhor, o gozo é uma constante do evangelho da infância de Lucas: João será para seu pai alegria e regozijo e muitos se alegrarão (Lc. 1,14). Maria deve se alegrar (Lc 1,28). O feto se estremeceu de alegria no ventre de Isabel (Lc. 1,44). Maria canta: se alegrou meu espírito (Lc. 1,47). Os vizinhos se alegram com o nascimento do Batista (Lc. 1,58). Mas a causa de toda essa alegria é um nascimento que dá origem a todos os regozijos; é o nascimento que hoje se celebra também com festa em todo o orbe: o de um menino que os homens e mulheres de fé afirmam ser o Filho de Deus e filho de uma mulher ao mesmo tempo. Isso é o que o anjo anunciou aos pastores: O nascimento de um Salvador, Messias Senhor, que por sua vez era causa de um grande gozo para todo o povo de Israel. Pois o Laós bíblico significa o povo escolhido diferente do ethnos, povo gentil.

SALVADOR: Sötër é o titulo de Deus quando realizava atos salvadores, o salvador de Israel (1Sm. 14,39 ). Da raiz Yesha (salvação) provém o nome Yeshuá, nome em hebraico que traduzimos por Jesus. Sötër foi o título que Augusto recebeu, segundo a inscrição de Priene, perto de Mileto [na atual Turquia, onde se obtinha a melhor lã da Grécia antiga] no ano 9 a.C. em que o Imperador, nosso benfeitor, nosso salvador [soter]: o dia de seu [do deus] nascimento, começou para o mundo o início das boas novas. O paralelismo é, quando menos, notável. Só que o César era louvado pela pax romana e Jesus pela pax divina. Aquele pelo bem terreno e este pelo perdão dos pecados. Aquele para o mundo do império, este, nosso Jesus, pelo povo de Israel. São duas primazias opostas e divergentes.

CRISTO: o segundo título dado pelo anjo é o de Cristo ou Mashiáh, Ungido. Ora, no AT, o cerimonial da unção realizava-se sobre alguns objetos sagrados – o tabernáculo, as pedras votivas, os altares -, mas centrava-se, particularmente, numa representação pessoal tripartida. Falamos, naturalmente, dos sacerdotes, dos profetas (Elias, Eliseu) e dos reis    (Saul, David, Salomão, Jeú, Joás). Em Jesus se deram as três funções ao mesmo tempo. Porém o Ungido identificava-se com o Messias.

SENHOR: o terceiro título é o de Senhor que no AT era a tradução de Jahveh, no aramaico Mareh só para reis e deuses e daí a fórmula maranathá = Senhor, vem! em 1Cor. 16,22). Os três títulos aparecem de novo unidos em Fp. 3,20: “Nossa pátria está nos céus de onde esperamos como salvador o Senhor Jesus Cristo”.

NA CIDADE DE DAVI: Na realidade, a cidade de Davi era o monte Ofel [= monte], ao sul do Moriá [de duvidosa etimologia e que se identifica com a esplanada do primeiro templo em 2Cr. 3,1]. É Davi quem conquista a cidade de Jerusalém, até então habitada pelos jebuseus (2Sm. 5,5-11), estabelecendo aí a sua capital, no “Ofel” (Monte Sião) e preocupa-se, a partir de então em atribuir à cidade a suprema importância quer pessoal, quer política ou religiosa. Porém este anúncio do anjo refere-se à pequena aldeia de Belém, cidade na qual nasceu Davi.

 

O SINAL. E isto (é) o sinal para vós: encontrareis um infante, enfaixado, estando reclinado em manjedoura (12).

A primeira parte é um hebraísmo, que omite o verbo ser. O sinal é de que não devem esperar um Messias adulto como era a opinião comum na época, vindo do deserto, mas que seria um menino recém-nascido e não um adulto recém encontrado. O Brefos grego indica menino como feto, recém-nascido, ou infante na mais tenra idade. O sinal não é tanto um sinal sobrenatural, mas um sinal de que hoje, é o dia em que nasceu seu Salvador. E de que a visão de um Messias acabado de nascer não era um produto de imaginação, mas uma realidade. Provavelmente não houve em Belém outro nascimento nesse mesmo dia e por isso era ao mesmo tempo uma revelação de um fato acontecido que eles não podiam inventar. Aliás, a manjedoura [ou estábulo] indicava que a família não era do lugar, era forasteira, pois caso contrário, estaria no berço e dentro de uma casa, como encontraram os reis o menino algum tempo depois. Era num estábulo onde encontrariam o menino. Não havia dúvida com semelhantes pormenores. Nisso consistia precisamente o sinal, e não em extraordinários portentos como o quarto evangelista narra dos semeia [sinais] de Jesus (Jo 2,23). Era um sinal didático e não maravilhoso. Podemos, é verdade, refletir sobre a pobreza, ou melhor, a humildade do Messias, pois as circunstâncias modestas e de uma simplicidade e pobreza, aparentemente extremas, foram previstas pelo Pai para seu Filho.

 

O CÂNTICO. E de repente sucedeu com o anjo uma multidão de exército celeste louvando a(o) Deus e dizendo (13): Glória nos mais altos (lugares) a Deus e sobre a terra paz, em homens de benevolência (14).

OS ANJOS: a expressão multidão de exército celeste é puramente semítica que em 1Rs. 22,19 designa os espíritos celestes que constituem a corte de Javé. Deus, que não se agrada dos cânticos e músicas de um povo prevaricador, recebe a verdadeira glória de seus fieis cortesãos e neles se compraz e deleita com satisfação. É propriamente o canto de glória do Messias, de seus atributos e de seus efeitos, tanto nos céus como na terra. É um cântico breve de 11 palavras gregas, sem verbo algum nem artigo. Há uma leitura duvidosa: a palavra EUDOKIA, nominativo, pode ser um genitivo: EUDOKIAS. Esta segunda é a preferida pela Vulgata e pelos códices mais antigos.

GLORIA: a Doxa significa honra que se deve tributar a Deus, como o leproso samaritano em Lc. 17,18. A divindade tem uma série de atributos que formam sua Doxa (sabedoria, poder, imortalidade…), mas o homem pode dar graças por uma intervenção poderosa e salvadora de Deus e esta é a glória que a Divindade espera e que os anjos louvam como louvarão os eleitos a majestade divina, por toda a eternidade. PAZ: ou Eirene, (shalom em hebraico) é o oposto a guerra e, em sentido figurado, significa tranquiliade de espírito. Biblicamente no NT significa o conjunto de bens desejáveis. Quando se trata da paz messiânica, abrange todos os bens, essencialmente os de ordem espiritual, provindo diretamente de Deus. O Messias devia aportar como príncipe da paz (Is. 9,5), afirmando Miqueias que ele mesmo será a paz (5,4). O salmo 85,9-10 resume perfeitamente este ambiente messiânico: Vou ouvir o que Javé Deus diz, porque ele fala de paz ao seu povo e seus fieis, para que não voltem à insensatez. Sua salvação está próxima dos que o temem e a Glória habitará em nossa terra. Após o cântico de Zacarias a paz tem um sabor de perdão, de amizade renovada após um período de inimizade (Lc. 1,77). Cristo fez horizontalmente de dois povos um só e verticalmente reconciliou a humanidade com Deus (Ef. 2,14-18). A Nova Aliança, que foi chamada pelos profetas aliança de paz (Ez. 37,26), seria uma aliança entre amigos e não mais entre servos (Jo 15,15).

A BOA VONTADE: é uma tradução pouco feliz da palavra grega EUDOKIAS, que significa complacência, beneplácito; sem dúvida do hebraico RATSON, prazer, satisfação. É a palavra empregada no batismo de Jesus quando se submete à humilhação de ser considerado pecador (Lc. 3,22) ou no momento da transfiguração (Mt. 12,18). Há um fundo em todos eles de filiação, o verdadeiro filho de Deus, que se submete e no qual o Onipotente admite ter verdadeira complacência: Paz na terra aos filhos do beneplácito divino poderíamos traduzir em definitivo. Era essa a boa nova prodigiosa: a paz. Cristo quis nascer num momento assinalado pela paz que as vinte e cinco legiões de Roma mantinham em todas as fronteiras. Mas a paz que Ele trazia era muito mais profunda e duradoura. Era a paz que unia o homem com Deus, que havia de tornar felizes as almas que, pelos seus atos, se tornassem dignas do beneplácito divino. Aí temos a tradução exata do termo que Lucas usa: “Paz na terra aos homens por Ele amados”.

EXCURSUS

NOITE DE NATAL.

Qual foi o tempo do ano em que nasceu Jesus? O dia 25 de dezembro da tradição é evidentemente falso. Só temos um dado certo no evangelho de Lucas: os pastores estavam no campo durante as vigílias da noite e guardavam os seus rebanhos. Temos também um dado certo da climatologia: em dezembro estamos na estação das chuvas e faz muito frio. É por isso, que os pastores têm seus rebanhos recolhidos e abrigados e não nos campos. Os pastores, na Palestina, costumavam enviar suas ovelhas aos desertos por ocasião da Páscoa e recolhê-los no começo das primeiras chuvas,  que começavam em meados de Heshvan [início de novembro]. Portanto o Messias não nasceu no dia 25 de dezembro quando não havia pastores no campo. O nono mês [kishlev] corresponde ao nosso dezembro. Pois bem: temos na escritura em Esdras 10,19: todos os homens de Judá e Benjamim, em três dias, se ajuntaram em Jerusalém; era o nono mês, no dia vinte  do mês; e todo o povo se assentou na praça da Casa de Deus, tremendo por este negócio e por causa das grandes chuvas. E o frio é confirmado em Jr. 36,22: Estava, então, o rei assentado na casa de inverno, pelo nono mês; e estava diante dele um braseiro aceso. O que os pastores estariam fazendo, com seus rebanhos no campo, num tempo de chuvas e frio? Daí que não sabemos, nem o dia, nem sequer o mês em que Jesus nasceu.

Clemente de Alexandria (243 d.C.) fala de que certos teólogos egípcios indicam o dia do nascimento de Jesus como sendo o 25 de Pachon [maio] do vigésimo oitavo do reinado de Augusto. Outros, o 24 ou 25 de abril. Porém ele mesmo tem como certa a data de 25 de março. Data em que foi criado o sol. Para os basilianos [monges de são Basílio] seria entre os dias 6-10 de janeiro porque muitos códices afirmam no lugar de tu és meu Filho em quem me agrado, o hoje eu te gerei, e como a festa era celebrada no dia 6 de janeiro daí a confusão, até o ponto de que uma cruz com a imagem da Maria era levada em procissão com o canto de a Virgem deu à luz hoje nesta hora o Eterno. Só tardiamente se começou a celebrar o nascimento de Jesus (em Roma já se celebrava no séc. IV no dia 25 de dezembro) na data atual. Ao chegar a noite, os pastores reuniam o gado numa vedação campestre (redil) e eles abrigavam-se da inclemência do tempo nalguma cabana feita de ramos, mesmo durante o inverno.

A GRUTA: era gruta ou estábulo? Hoje esta última interpretação é a mais seguida. Porém, segundo uma tradição que vem do séc. II (são Justino, nascido na antiga Siquém), Jesus nasceu numa gruta natural, já fora de Belém, que, ao mesmo tempo, podia ser o estábulo grego. Nessa gruta, Santa Helena, mãe de Constantino, no princípio do séc. IV, ergueu uma basílica de cinco naves que, depois de várias modificações, chegou até nós, sendo, por isso, a mais antiga igreja de toda a Cristandade. A confirmar a tradição da gruta, temos vários testemunhos que falam da profanação desta nos tempos do imperador Adriano, que ali erigiu uma estátua de Adônis. Isto confirma que se tratava de um lugar de culto dos primeiros cristãos.

PISTAS

1) Muitos acreditam que quanto mais divinizemos a figura de Jesus tanto mais se tornará em proveito próprio essa imagem sagrada do mesmo que aparentemente despojamos  da vertente humana. O evangelho de hoje mostra o contrário: Deus quis se aproximar do homem, tornando-se um de nós, sem diferença, porque ele ama a humanidade e a admite no seu Filho. A humanidade de Jesus, como diz Teresa d’Ávila, deve ser sempre o motivo de nossa meditação. Como homens devemos ver nele o nosso espelho.

2) Se Cristo é como homem, o modelo, poderemos pensar que tipo de homem [o sábio, o rico, o poderoso, o louvado e estimado], ou pelo contrário [o pobre, o humilde, o necessitado, o escondido e até excluído], foi desde o início o homem Jesus em quem o Verbo quis habitar pessoalmente unido a Ele. Evidentemente o evangelho de hoje escolhe este segundo tipo e o descreve com especiais detalhes de modo que ninguém se sinta envergonhado de sua pequenez e insignificância.

3) Jesus é pastor, nasce como pastor e é visitado e adorado por pastores antes de ser Rei. Deus, entre os homens, gostará de ser o verdadeiro pastor, trocando uma realeza esperada como era a esperada de um descendente do rei Davi, pelo ofício que este tinha de cuidar das ovelhas. O reinado de Cristo começa pelo serviço como pastor que dá a vida pelas ovelhas.

padre Ignácio de Nicolás Rodríguez

 

 

A incrível e nova história de Papai Noel e Jesus

“Embora pequeno, deitado em presépio,/ em todo o Universo, ó Cristo, reinais./ Ó fruto bendito da Virgem sem mancha,/ que todos vos amem num reino de paz” (Hino, estr. 3, Ofício das Leituras no Natal do Senhor) – assim a Igreja saúda o Menino Jesus nesta noite santa. Depois da espera de séculos, finalmente os olhos humanos puderam ver o Deus feito homem.

Nesta noite chegarão ao presépio muitas pessoas para ver o Divino Infante. Até mesmo Papai Noel chegará para entregar o seu presentinho ao recém-nascido, o Menino Jesus. Claro que sim: estou falando do clássico Papai Noel aos pés do Menino Jesus! Ainda que noutros tempos dediquei-me a falar contra o velhinho bondoso, decidi voltar atrás e reabilitá-lo. Como lemos anteriormente, Cristo reina em todo o universo, e, portanto, naquela manjedoura recebe a homenagem de todos os homens e mulheres. O que tem de mau que também Papai Noel visite o Menino Jesus?

Falando nisso, que pena que eu não publiquei antes o endereço do Papai Noel. Mas talvez você já saiba onde ele mora: lá na Finlândia e o endereço é o seguinte: “FIN – 96930  Article Circle. Rovaniemi – Finlândia”. Pena que eu só consegui o endereço agora e além do mais é o do Papai Noel europeu. Parece que o Papai Noel norte-americano tem outro endereço. Ou será que se trata do mesmo personagem que tem duas residências? Talvez no próximo Natal eu consiga resolver esta dificuldade.

Quanto Papai Noel ficou sabendo que o cartunista alemão Thomas Nast ia dar-lhe, em 1886, um novo visual com aquela roupagem vermelha e detalhes brancos, ficou tão feliz que decidiu visitar o Menino Jesus e mostrar-lhe a roupa com as cores que, de fato, tinham algo que ver com o Natal. O bom velhinho pensou que Jesus ficaria feliz com o vermelho que simbolizaria o martírio de Jesus pela salvação do mundo, o branco da pureza de vida que o Redentor pediria a todos os mortais e o preto do cinturão que representaria, na opinião do mesmo Santa Claus, o tom de renuncia que o seguimento ao Senhor provocaria nos seus discípulos. Papai Noel estava decidido então a visitar o Divino Menino, mas sabia também que o nascimento tinha acontecido há dezoito séculos. O que fazer? Não podia entrar na caravana dos Reis Magos. Porém decidiu visitar os presépios das igrejas e imaginou-se bem perto do Rei Jesus. Quis então oferecer-lhe um presente. Quis também ser representado num presépio que ele mesmo mandou construir na sua casa, na qual ele, Papai Noel, se encontrava ajoelhado aos pés do Menino Jesus.

Logicamente, o bom velhinho não queria oferecer ouro, incenso e mirra. Essas coisas já tinham sido oferecidas pelos Reis do Oriente. Também não queria presentear o Menino Jesus com ovelhas, leite e queijo. Os pastores já o tinham feito. Papai Noel pensou, pensou. Depois de muita reflexão decidiu fazer uma coisa bem simples: continuaria fazendo o que sempre fez. Ele continuaria a dar presentes às crianças e àquelas outras crianças grandes, isto é, àquelas pessoas que apesar da idade continuavam simples, francas, sinceras, humildes e boas. Mas o faria de maneira diferente a partir daquele momento: daria os presentes contemplando em cada pessoa a presença de Jesus. Papai Noel aprendeu a descobrir o rosto de Deus em cada rosto humano. Desta maneira, Papai Noel aprendeu não só a colocar-se anualmente como um personagem em adoração a Deus nos diversos presépios, mas também a ver o rosto do adorável Menino recostado na manjedoura nos outros, nos homens e nas mulheres, nas crianças e nos velhinhos. Neste Natal, ao vê-lo invadindo os nossos presépios para presentear o Menino Jesus lembremo-nos que ele também está dando um presente a cada um de nós vendo em nós o Divino Menino.

Não nos esqueçamos de que neste Natal o mais importante é que consigamos ir até Belém, participar daquela cena entranhável e dar um presente ao Menino Jesus: vejamos o rosto de Deus em cada rosto humano e presenteemos as pessoas com o nosso sorriso, a nossa generosidade e o nosso espírito de partilha. Não nos esquecemos de dar-lhes (não a todos universalmente) um presentinho, desses que as lojas vendem: desta maneira ajudaremos também aqueles que são comerciantes. Contudo, evitemos o espírito de consumismo!

Também Papai Noel resolveu viver, desde 1931, a moderação e a sobriedade. Você sabia? Aconteceu que no ano 31 do século passado a Coca-Cola fez uma grande propaganda com o Papai Noel aproveitando o fato de ele utilizar o vermelho e o branco. A Coca-Cola queria vender o produto também no inverno. Para Papai Noel a ocasião foi ótima: descobriu que não devia beber só a cervejinha do cartunista alemão ou a vodca russa que afasta o gélido inverno dos ossos, mas também podia beber Coca-Cola. A partir daquele ano, Papai Noel nunca mais se embriagou. Não sei se você sabia, mas ele é até membro da Pastoral da Sobriedade. Outra coisa interessante para termos em conta neste Natal: sobriedade!

Visitemos ao Senhor na Missa, nas Escrituras, na Eucaristia e nos belíssimos presépios que foram feitos para que os apreciássemos. Visitemo-lo também nos nossos irmãos e irmãs levando-lhes o presente do amor, do perdão, da paz. Isso sim é Natal!

padre Françoá Costa

 

 

mons. José Maria Pereira

 

 

A Igreja celebra mais um aniversário do Nascimento do Deus Menino. Com os textos da Missa da Vigília recorda-nos que Jesus vem inserir-se na História da família humana. A missa da meia-noite celebra o cumprimento das profecias: Um Menino nasceu para nós! É o Messias, o Salvador tão desejado. A Liturgia da Palavra da Missa da Aurora descreve-nos a resposta dos Pastores. Face ao anúncio do Anjo, eles vão a toda a pressa a Belém. Viram, prestaram homenagem e tornaram-se arautos do Menino recém-nascido. Exultemos de alegria! Cantemos a nossa gratidão, porque Deus manifesta a sua bondade!

Oração coleta: Senhor nosso Deus, que fizestes resplandecer esta santíssima noite com o nascimento de Cristo, verdadeira luz do mundo, concedei-nos que, tendo conhecido na terra o mistério desta luz, possamos gozar no Céu o esplendor da sua glória. Por Nosso Senhor…

Primeira leitura - Isaías 9,1-6

Este belíssimo texto é um trecho do chamado livro do Emanuel (Is. 7–12), onde, em face da iminência de várias guerras, se abrem horizontes de esperança que se projectam em tempos vindouros, muito para além das soluções empíricas e imediatas: é a utopia messiânica de paz e alegria que veio a ter o seu pleno cumprimento com a vinda de Cristo ao mundo. Enquadra-se às mil maravilhas na noite de Natal, em que «uma luz começou a brilhar». Esta luz é o «Menino» (v. 5) que nasce para nós nesta noite, «luz do mundo» (Jo 8,12; 1, 5.9).

4 «Como no dia de Madiã». Referência à grande vitória de Gedeão sobre os madianitas (Jz. 7).

7 O «poder» e a «paz sem fim» serão garantidos para o trono de David pelo Menino de predicados divinos verdadeiramente surpreendentes (v. 5) que, embora expressos em termos semelhantes aos dos soberanos egípcios e assírios, suplantam os predicados de qualquer rei empírico e correspondem ao mistério de Jesus, Deus feito homem.

Segunda leitura - Tito 2,11-14

Este breve texto é tirado da 2ª parte da breve carta a Tito. Depois de lhe ter dado orientações pastorais para a organização da Igreja em Creta (cap. 1), passa a desenvolver o tema das exigências da vida cristã (cap. 2 e 3). Na leitura queremos fazer ressaltar o v. 13, que foi adotado pela liturgia da Missa (final do embolismo) e o v. 14 que é uma síntese da soteriologia paulina.

11 A graça do batismo mete-nos no caminho da «renúncia» (recordem-se as renúncias do ritual do batismo), pois sem renúncia não se pode seguir a Cristo (cf. Lc. 9,23).

13 «Nosso grande Deus e Salvador, Jesus Cristo». É uma das mais categóricas afirmações da divindade de Jesus Cristo em todo o N.T. Com efeito, como no original grego há um só artigo para «Deus e Salvador», estas duas designações, Deus e Salvador, referem-se à mesma pessoa, Jesus Cristo.

14 «Um povo especialmente seu», isto é, a Igreja, povo que Jesus Cristo conquista, não pelo poder das armas, mas pelo resgate do seu sangue redentor. A Igreja é o novo povo de Deus.

Evangelho - Lucas 2,1-14

A narrativa do nascimento do Filho eterno de Deus – nunca houve nem haverá Menino como este! – é deveras encantadora na sua simplicidade. O teólogo Lucas, dotado de génio de historiador nada precisa de inventar, para a sua peculiar teologia. Dispondo provavelmente de não muitos dados, como bom historiador, começa por situar o acontecimento no tempo e no lugar.

Ainda ninguém apresentou nenhuma razão convincente para pôr em dúvida o lugar do nascimento de «Jesus de Nazaré» em Belém (a pari, todo o mundo fala de santo António de Pádua e a verdade é que nasceu em Lisboa!). Por outro lado, as referências do nosso historiador ao tempo não são contaminadas pela sua preocupação teológica de apresentar o nascimento do Salvador, em contraste com o César romano, Augusto, que se ufanava do título de salvador da humanidade. Embora o recenseamento geral na época de Quirino como governador da Síria – que está bem documentado – seja bastante posterior (no ano 6 da era cristã), a verdade é que houve muitos outros censos; Lucas poderia não dispor de dados muito precisos, mas o historiador teólogo não precisava de mais pormenor para que o nascimento de Jesus ficasse enquadrado na História geral. De qualquer modo, a história profana documenta-nos vários recenseamentos a que na época se procedeu; papiros descobertos no Egito falam de censos ali feitos, em que se obrigavam também as mulheres casadas a acompanharem os seus maridos (para se garantir a verdade das declarações), e a apresentarem-se ante o recenseador ou seu delegado para a prestação das declarações tributárias; assim se explica que Maria tivesse de acompanhar a José numa viagem tão incômoda (cerca de 150 Km). Da escassa documentação romana depreende-se que com Quirino se poderia mesmo ter iniciado um recenseamento durante a sua primeira missão (militar, não como governador) na Síria, entre os anos 10 a 6 a. C.. Dado que o nascimento de Jesus se deu uns seis ou sete anos a. C., em virtude do erro cometido por Dionísio, o Exíguo, quando no séc. VI fez as contas para a adopção da era cristã, a época referida por Lucas concorda substancialmente com os dados da história profana.

«César Augusto», o imperador Octávio, que reinou dos anos 27 a.C. a 14 d.C.

«Belém», em hebraico bet-léhem, significa casa do pão; ali nasce o «Pão da vida». Fica a uns 8 Km a sul de Jerusalém. Deduz-se que S. José ali teria a sua origem próxima, ou alguma propriedade ou condomínio. Pensa-se mesmo que ele se teria deslocado da sua Belém natal para Nazaré, participando na campanha de expansão religiosa do judaísmo na Galileia dos Gentios, que já se vinha promovendo desde o século II a. C.; não abundando o trabalho neste pequeno lugar, daqui poderia muito bem ir trabalhar nas obras da importante cidade de Séforis, apenas a 5 Km. a Noroeste de Nazaré.

6 «Enquanto ali se encontravam». O texto deixa ver, como é compreensível, que estiveram em Belém durante algum tempo antes de o Menino nascer. De facto é inverosímil a aventura de empreenderem uma viagem de cerca de 150 Km nas vésperas do parto.

7 «Filho primogênito». Ao chamar-se Jesus «primogênito» não se faz referência a outros filhos que depois a Santíssima Virgem de facto não veio a ter, mas sim aos direitos e deveres do filho varão que uma mãe dava à luz pela primeira vez (pertencia a Deus, tinha que ser resgatado, etc.). Também parece que «primogênito» era uma designação corrente para o primeiro filho independentemente de que fosse o único, segundo se depreende de uma inscrição egípcia da época, encontrada em 1922 perto do Tell-el-Jeduiyeh, onde se diz que uma tal Arsinoe morreu com as dores do parto do seu filho primogênito.

«Manjedoura». A palavra grega, fátnê, também pode significar curral. Seja como for, fica patente a extrema humildade em que quis nascer o Senhor do mundo. Segundo uma tradição que vem do séc. II (são Justino, palestino nascido em Nablus), Jesus nasceu numa gruta natural, já fora de Belém. Ali santa Helena, mãe de Constantino, nos princípios do séc. IV, ergueu uma basílica de cinco naves que, depois de várias modificações, chegou até nós, sendo, por isso, a mais antiga igreja de toda a Cristandade. A confirmar a tradição da gruta, temos vários testemunhos que falam da profanação desta nos tempos do imperador Adriano, que ali erigiu uma estátua de Adónis. Isto confirma que se tratava de um lugar de culto dos primeiros cristãos.

«Hospedaria». A palavra grega, katályma, oferece alguma dificuldade de tradução devido ao facto de tanto poder significar «hospedaria» (o kan que existia em muitas povoações), como «sala de cima» (cf. Lc. 22,11; Mc. 14,14), o aposento superior ao rés-do-chão, que tanto podia servir de salão como de dormitório. É estranho que, em qualquer dos casos, não coubessem mais duas pessoas, dada a boa hospitalidade oriental. Mas, para a hora do parto, não haveria o mínimo de condições de privacidade, por isso se recolhem para uma gruta ou curral. Um relato destes não se inventa, pois não era este o lugar digno para o Messias glorioso que se esperava. É impressionante verificar que para o «Senhor» de toda a Criação não havia na terra um sítio digno!

8 «Pastores». É significativo que os primeiros a quem o Messias se manifesta seja gente desprezada e sem valor aos olhos da sociedade judaica, que os incluía entre os «publicanos e pecadores», pois a sua ignorância religiosa levava-os a constantemente infringirem as inúmeras prescrições legais. O facto de guardarem o gado de noite não significa que não fosse inverno, embora não saibamos nem o dia nem sequer o mês em que Jesus nasceu, o que se compreende, pois então só se celebrava o aniversário natalício dos filhos dos reis e pouco mais. Só tardiamente se começou a celebrar o nascimento de Jesus (em Roma já se celebrava no séc. IV a 25 de dezembro). Ao chegar a noite, os pastores reuniam o gado numa vedação campestre (redil) e eles abrigavam-se da inclemência do tempo nalguma cabana feita de ramos, mesmo durante o inverno.

14 Com o nascimento de Jesus, Deus é glorificado – «glória a Deus» – e advém para os homens a síntese de todos os bens – «a paz». O texto original grego pode ter uma dupla tradução, qual delas a mais rica: «homens de boa vontade» (que possuem boa vontade, segundo a interpretação tradicional), ou «os homens que são objecto de boa vontade» (ou da benevolência divina)». Os textos litúrgicos preferiram a segunda, mais de acordo com a visão universalista de Lucas. Segundo uma variante textual (menos provável) teríamos uma frase com três membros: «glória a Deus…, paz na terra, benevolência divina entre os homens».

Sugestões para a homilia

Vamos a Belém!

«Naquele tempo os pastores diziam entre si: vamos a Belém.»

Irmãos, viajemos no tempo e no espaço. Vamos também nós a Belém. Vinde comigo à cidade de David. Imaginemos estar na presença Maria e José, que fizeram uma caminhada de cerca de cento e cinqüenta quilômetros, distância que separa Nazaré da Galileia de Belém de Judá; distância muito difícil de percorrer, especialmente porque Maria estava prestes a ser mãe. Estive em Belém há pouco tempo. Com as explicações do guia que nos acompanhava vamos meditar no nascimento de Jesus.

Ao chegar a Belém impressiona tristemente o grande muro de arame farpado, os soldados, o posto de controlo. Pensamos que também José e Maria sentiram o peso do decreto imperial de César Augusto. Ontem como hoje, nada fácil a vida em Belém. Apesar de tudo, exultemos de alegria! Estava escrito no Profeta Miqueias: «De ti Belém-Efratá, terra de Judá, a mais pequena das cidades, de ti é que há-de nascer Aquele que reinará sobre Israel». Como bons israelitas, Maria e José certamente conheciam os livros Sagrados, pois eram lidos na Sinagoga. Além disso, a Bíblia apresenta são José como um homem justo, portanto obediente; sendo justo, seria um homem prudente e um pai providente. Como era da linhagem de David, a fim de se recensear, veio com Maria, sua esposa, à sua cidade, onde teria a casa da sua família. As casas da Palestina ainda hoje aproveitam as grutas naturais, como um compartimento cômodo e muito útil. Cómodo porque um pouco climatizado. Protege do muito calor no Verão e do frio por vezes rigoroso do Inverno. Útil porque sendo uma divisão separada do resto da casa, permitia à mãe um certo isolamento para cumprir a Lei de Moisés, após o parto. A mulher era considerada impura devido à perda de sangue, até à cerimónia da purificação no Templo (quarenta dias para o caso dos bebes masculinos). Portanto não estranhemos: era comum o nascimento das crianças nas grutas anexas às casas, que habitualmente não tinham quartos. (Ver nota da bíblia de Jerusalém.)

Descemos à gruta preparada pela natureza para o Criador do Céu e da terra e tocámos o lugar onde está escrito: Aqui nasceu Jesus! Alegremo-nos, pensando na alegria dos pastores entrando na gruta e vendo o sinal dado pelo Anjo: «encontrareis Menino envolto em panos e deitado numa manjedoura.» Alegremo-nos ao ver cumpridas as promessas!

Este nascimento revela uma pobreza comum a mais ou menos todas as famílias do povo bíblico. Jesus, sendo rico fez-se pobre para nos enriquecer com sua pobreza! Fez-se semelhante aos homens, nasce como as crianças pobres do seu tempo e do seu país. Ensinará mais tarde às multidões o caminho da Bem-aventurança eterna para os pobres de espírito, dizendo que é deles o Reino dos Céus!

Um Menino nasceu para nós!

Natal é festa de grande alegria. Natal é festa de muita luz. Natal é festa da família! Isto tem uma justificação bíblica. O Anjo disse aos pastores: «Anuncio-vos uma grande alegria!» Este anúncio jubiloso continua a ressoar ao longo dos séculos, fazendo «brilhar nas trevas da noite uma grande luz» – dizia o Profeta Isaías. No mesmo texto podemos ler: «Um Menino nasceu para nós, um filho nos foi dado». Frágil como todas as crianças, mas «tem o poder sobre os seus ombros. Ele é o Conselheiro Admirável, o Deus forte! Pai para sempre! O Príncipe da Paz!» Estas palavras tocam o nosso coração e reavivam a nossa fé. Deus promete e cumpre! Na plenitude dos tempos, Deus manifesta claramente o seu amor para conosco. Por isso S. Paulo, meditando no mistério do Natal, podia exclamar: «Caríssimos! Manifestou-se a bondade e a graça de Deus que traz a salvação para todos os homens!» Deixemos entrar no nosso coração a Palavra de Deus! Deixemo-nos iluminar pela luz do Deus Menino!

Irmãos, esta é a noite santa de Natal. Nós não podemos calar o que vimos e ouvimos! Imitemos os pastores! Imitemos S. Paulo! Anunciemos como os Anjos e os pastores esta alegre notícia: hoje nasceu o nosso Salvador. Em todo o mundo gostaríamos que a luz e a paz do Deus Menino transformasse em «noite Feliz, em noite de paz» o viver de todos, com costumamos cantar! Tenhamos confiança! Sejamos testemunhas da Bondade de Deus. Aproveitemos este tempo da solenidade do Natal para difundir a mensagem angélica: Glória a Deus no Céu, paz na terra aos homens!

Fala o Santo Padre

«Deus fez-se pequeno a fim de que pudéssemos compreendê-Lo, acolhê-Lo, amá-Lo.»

Amados irmãos e irmãs!

Acabamos de ouvir no Evangelho a palavra que os Anjos, na Noite santa, disseram aos pastores e que agora a Igreja grita para nós: «Nasceu-vos hoje, na cidade de David, um Salvador, que é o Messias Senhor. Isto vos servirá de sinal: achareis um Menino envolto em panos e deitado numa manjedoura» (Lc 2,11ss). Nada de maravilhoso, nada de extraordinário, nada de magnífico é dado como sinal aos pastores. Verão só um menino envolto em panos que, como todos os meninos, precisa dos cuidados maternos; um menino que nasceu num estábulo e, por isso, não está deitado num berço, mas numa manjedoura. O sinal de Deus é o menino carente de ajuda e pobre. Os pastores, somente com o coração, poderão ver que neste menino tornou-se realidade a promessa do profeta Isaías, que escutamos na primeira leitura: «Um Menino nasceu para nós, um filho nos foi concedido. Tem o poder sobre os ombros» (Is 9,5). A nós também não nos é dado um sinal distinto. O anjo de Deus, mediante a mensagem do Evangelho, nos convida também a encaminhar-nos com o coração para ver o menino que jaz na manjedoura.

O sinal de Deus é a simplicidade. O sinal de Deus é o menino. O sinal de Deus é que Ele faz-se pequeno por nós. Este é o seu modo de reinar. Ele não vem com poder e grandiosidades externas. Ele vem como menino – inerme e necessitado da nossa ajuda. Não nos quer dominar com a força. Tira-nos o medo da sua grandeza. Ele pede o nosso amor: por isto faz-se menino. Nada mais quer de nós senão o nosso amor, mediante o qual aprendemos espontaneamente a entrar nos seus sentimentos, no seu pensamento e na sua vontade – aprendemos a viver com Ele e a praticar com Ele a humildade da renúncia que faz parte da essência do amor. Deus fez-se pequeno a fim de que nós pudéssemos compreendê-Lo, acolhê-Lo, amá-Lo.

Os Padres da Igreja, na sua tradução grega do Antigo Testamento, encontravam uma palavra do profeta Isaías que Paulo também cita para mostrar como os novos caminhos de Deus já tinham sido anunciados no Antigo Testamento. Assim se lia: «Deus tornou breve a sua Palavra, Ele abreviou-a» (Is 10,23; Rom 9,28). Os Padres interpretavam num duplo sentido. O mesmo Filho é a Palavra, o Logos; a Palavra eterna fez-se pequena – tão pequena a ponto de caber numa manjedoura. Fez-se menino, para que a Palavra possa ser compreendida por nós. Assim, Deus nos ensina a amar os pequeninos. Assim nos ensina a amar os frágeis. Deste modo, nos ensina a respeitar as crianças. O menino de Belém dirige o nosso olhar a todas as crianças que sofrem e são abusadas no mundo, os nascidos como não nascidos. Dirige-o a crianças que, como soldados, são introduzidas num mundo de violência; a crianças que são obrigadas a mendigar; a crianças que sofrem a miséria e a fome; a crianças que não experimentam sequer amor. Nelas todas é o menino de Belém que nos interpela; interpela-nos o Deus que se fez pequeno. Rezemos nesta noite, para que o esplendor do amor de Deus acaricie todos estas crianças, e peçamos-lhe que nos ajude a fazer o que podemos para que seja respeitada a dignidade das crianças; para que desponte a luz do amor da qual mais precisa o homem, e não das coisas materiais necessárias para viver.

Com isto chegamos ao segundo significado que os Padres encontraram na frase: «Ele abreviou-a». A Palavra que Deus nos comunica nos livros da Sagrada Escritura, ao longo dos tempos, tornou-se extensa. Extensa e complicada não só para as pessoas simples e analfabetas, mas inclusive muito mais para os entendidos de Sagrada Escritura. […] Jesus «abreviou» a Palavra – fez-nos rever a sua mais profunda simplicidade e unidade. Tudo aquilo que nos ensina a Lei e os profetas está resumido na palavra: «Amarás ao Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com toda a tua mente [...] Amarás a teu próximo como a ti mesmo» (Mt 22,37-40). Está tudo aí – toda a fé se resolve neste único ato de amor que abraça Deus e os homens.

Logo a seguir, porém, surgem as perguntas: como podemos amar Deus com toda a nossa mente, se nos custa encontrá-lo com a nossa capacidade metal? Como amá-Lo com todo o nosso coração e a nossa alma, se este coração consegue entrevê-Lo só de longe e contempla tantas coisas contraditórias no mundo que velam o seu rosto diante de nós? Neste ponto se encontram os dois modos com os quais Deus «abreviou» a sua Palavra. Ele não está mais longe. Não é mais desconhecido. Não é inalcançável para o nosso coração. Fez-se menino por nós e, com isto, dissolveu toda ambigüidade. Fez-se o nosso próximo, restabelecendo também deste modo a imagem do homem que, com freqüência, se nos revela tão pouco amável. Deus, por nós, fez-se dom. Doou-se a si próprio. Perde tempo conosco. Ele, o Eterno que supera o tempo, assumiu o tempo, atraiu a si próprio para o alto o nosso tempo. O Natal veio a ser a festa dos dons para imitar Deus que por nós doou-se a si próprio. Deixemos que o nosso coração, a nossa alma e a nossa mente fiquem tocados por este fato! Entre os inúmeros dons que compramos e recebemos não esqueçamos o verdadeiro dom: de doarmos-nos mutuamente algo de nós próprios! De doarmos-nos mutuamente o nosso tempo. De abrir o nosso tempo para Deus. Assim desvanece-se a agitação. Deste modo brota a alegria, assim se cria a festa. E lembremos nos banquetes festivos destes dias a palavra do Senhor: «Quando deres um banquete, não convides os que, por sua vez, vão retribuir-te, mas convida os que não são convidados por ninguém e não poderão convidar-te» (cf. Lc 14,12-14). Isto também significa precisamente: Quando deres um presente de Natal não o faças só aos que, por sua vez, te fazem presentes, mas fá-lo aos que não o recebem de ninguém e que nada podem retribuir-te. Assim mesmo fez o Senhor: Ele nos convida ao seu banquete de bodas que não podemos retribuir, que só podemos receber com alegria. Imitemos-lo! Amemos a Deus e, por Ele, também ao homem, para depois redescobrir a Deus, a partir dos homens, de um novo modo! […] (Bento XVI, Basílica Vaticana, 24 de dezembro de 2006)

José Roque - Geraldo Morujão - Celebração  Litúrgica

 

 

A liturgia desta noite fala-nos de um Deus que ama os homens; por isso, não os deixa perdidos e abandonados percorrendo caminhos de sofrimento e de morte, mas envia “um menino” para lhes apresentar uma proposta de vida e de liberdade. Esse menino será “a luz” para o povo que andava nas trevas.

A primeira leitura anuncia a chegada de “um menino”, da descendência de Davi, dom de Deus ao seu Povo; esse “menino” eliminará a guerra, o ódio, o sofrimento e inaugurará uma era de alegria, de felicidade e de paz sem fim.

A segunda leitura lembra-nos as razões pelas quais devemos viver uma vida cristã autêntica e comprometida: porque Deus nos ama verdadeiramente; porque este mundo não é a nossa morada permanente e os valores deste mundo são passageiros; porque, comprometidos e identificados com Cristo, devemos realizar as obras d'Ele.

O Evangelho apresenta a realização da promessa profética: Jesus, o “menino de Belém”, é o Deus que vem ao encontro dos homens para lhes oferecer - sobretudo aos pobres e marginalizados - a salvação. A proposta que Ele traz não será uma proposta que Deus quer impor pela força; mas será uma proposta que Deus oferece ao homem com ternura e amor.

O povo que andava nas trevas viu uma grande luz

1. Eis que de novo chegou a hora deste maravilhoso acontecimento: completaram-se os dias para Ela dar à luz e teve o seu Filho primogênito, que envolveu em panos e recostou numa manjedoura, por não haver para eles lugar na hospedaria (Lc. 2,6-7). Perguntamo-nos: é acontecimento insólito? Quantas crianças nascem em toda a terra durante 24 horas, enquanto em algumas partes do mundo é dia e noutras é noite! Certamente, cada um desses momentos é alguma coisa de insólito; é cada vez alguma coisa de único - para um pai, e sobretudo para uma mãe - nascer uma criança especialmente se trata da primeira, do filho primogênito.

Aquele momento é sempre coisa grande. Todavia - dado que se realiza continuamente em qualquer lugar do mundo, em todas as horas do dia e da noite o nascimento do homem, no seu aspecto estatístico, é ainda ao mesmo tempo algo de comum e normal.

Também o nascimento de Cristo parece entrar nesta dimensão estatística, tanto mais que a ele se une, segundo a narrativa de São Lucas, a menção dum recenseamento, realizado nas terras governadas pelo imperador romano César Augusto; o evangelista explica que, para a aldeia habitada por Maria e José, a ordem do recenseamento veio do governador da Síria, Querendo.

A tal acontecimento fazemos referência todos os anos, e fazemo-la como hoje, reunindo-nos nesta noite. Ora, se neste acontecimento há alguma coisa de insólito, talvez esteja em não se realizar nas habituais condições humanas, debaixo do teto duma casa, mas num estábulo, que ordinariamente recebe apenas animais. O primeiro berço do Divino Recém-nascido, de fato, é uma manjedoura.

Esta noite, reunimo-nos para fazer companhia ao Menino duma Mulher pobre, nascido num estábulo e deitado numa manjedoura.

2. Certamente nenhum dos habitantes, nem dos recém-chegados, presentes então em Belém, podia pensar que naquele momento e naquele estábulo se estava realizando as palavras do grande Profeta, muitas vezes relidas e continuamente meditadas pelos filhos de Israel.

Isaías escrevera, na verdade, palavras que formam o conteúdo duma grande Expectativa e duma inflexível Esperança:

Multiplicastes a alegria, aumentastes o júbilo. Rejubilam na vossa presença como exultam no tempo da colheita ... É que um menino nasceu para nós, um filho nos foi concedido. Tem o poder sobre os ombros ... o poder será engrandecido numa paz sem fim para o trono de David e seu reinado, a fim de o estabelecer e tornar firme, por meio do direito e da justiça. A partir de agora e por todo o sempre (Is. 9,2.5-6).

3. Nenhum dos presentes em Belém podia pensar que exatamente naquela noite as palavras do grande Profeta estavam se realizando, nem que a profecia estava sendo cumprida num estábulo, habitação ordinária de animais. Isto por não haver para eles (Maria e José) lugar na hospedaria (Lc. 2,7).

4. Contudo há certos elementos, certas alusões nas palavras de Isaías, que já nesta noite parecem realizar-se à letra. Isaías escrevera:

O povo que andava nas trevas viu uma grande luz; aos que habitavam na região tenebrosa resplandeceu uma brilhante luz (Is. 9,2).

Ora, toda Belém e toda a Palestina naquele momento é «região tenebrosa» e os seus habitantes estavam dormindo. Mas fora da cidade - como lemos no Evangelho de Lucas - na mesma região encontravam-se uns pastores, que pernoitavam nos campos, guardando os seus rebanhos durante a noite (Lc. 2, 8). Os pastores são filhos daquele «povo que anda nas trevas» e ao mesmo tempo são os representantes escolhidos para aquele momento, escolhidos «para ver a grande luz». Exatamente isto, na verdade, escreve São Lucas sobre os pastores de Belém: O anjo do Senhor apareceu-lhes e a glória do Senhor refulgiu em volta deles, e tiveram muito medo (Lc. 2, 9).

E da profundidade daquela luz, que lhes vem de Deus, e na profundidade daquele medo, que é a resposta dos corações simples à Luz Divina, chega a voz:

Não temais, pois vos anuncio uma grande alegria ...: Hoje, na cidade de David, nasceu-vos um Salvador que é o Messias Senhor (Lc. 2,10-11).

Estas palavras devem ter produzido grande alegria nos corações daqueles homens simples, educados e alimentados, como todo o Povo de Israel, por uma grande Promessa, na tradição da expectativa do Messias. E justamente diz o Mensageiro que esta alegria será para todo o povo (Lc. 2,10), isto é, exatamente para aquele Povo de Deus, que «andava nas trevas», mas não se cansava de pensar na Promessa.

5. Era necessário, precisamente naquela noite, um Mensageiro que levasse ao estábulo e à manjedoura de Belém a «grande luz» da profecia de Isaías. Era necessária esta luz, era necessária a manifestação da glória  (Tt. 2, 13) - escreve São Paulo -, para se poder ler bem o Sinal: Encontrareis um menino envolto em panos e deitado numa manjedoura (Lc. 2,12). E os pastores de Belém, pessoas simples sem letras, leram muito bem o Sinal. Foram os primeiros, precederam todos aqueles que o leram em seguida e o relêem ainda agora. Foram as primeiras testemunhas do Mistério. Nós, que nesta noite enchemos a Basílica de São Pedro, e todos os que em qualquer lugar estão presentes na Missa da Meia-Noite, aproveitamos o testemunho que eles deram. Não sem motivo é chamada, nalgumas regiões, esta Missa da Meia-Noite, «Missa dos pastores».

6. Recordemo-nos que é a noite do Mistério, embora se pudesse apreciar doutro modo o acontecimento de aparecer a manifestação da glória do nosso grande Deus e Salvador (Tt. 2,13) com o nascimento do Menino, quando Ele passou da Virgem para o mundo, e quando na noite do seu nascimento não teve à disposição um teto de casa sobre a cabeça, mas só uma manjedoura.

Ora, tendo-nos reunido aqui como participantes do primeiro testemunho dado pelos pastores de Belém àquele Mistério, procure-mos refletir a fundo sobre ele.

Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade (Lc. 2,14).

Estas palavras provêm da mesma luz, que brilhou aquela noite no coração dos homens de boa vontade. Deus revê-se nos homens.

Esta noite representa um testemunho particular da divina complacência no homem. Não o criou Deus à sua imagem e semelhança? As imagens e as semelhanças cria-as alguém para ver nelas o reflexo de si mesmo. Por isso, olha para elas com complacência.

Deus não encontrou acaso complacência no homem, se, depois de o criar, o considerou coisa muito boa (Gn. 1,31)?

E eis que em Belém estamos no auge dessa complacência. O que sucedeu então, pode acaso exprimir-se doutro modo?

É possível compreender diversamente o Mistério, pelo qual o Filho de Deus assume a natureza humana e nasce como Criança do seio da Virgem? É possível reler doutro modo este Sinal?

7. E por isto que, na noite do Natal, diversos povos começam um grande cântico. Difunde-se todos os anos, inspirado no mesmo estábulo de Belém. Ressoa nos lábios dos homens de muitas terras e muitas raças. Ressoa o grande cântico da alegria e assume formas diversas. Cantam na Itália, cantam na Polônia, cantam em todas as línguas e nos vários dialetos, em todos os países e continentes.

Os homens, então, despertam; o homem acorda, «pastor do seu destino» (Heidegger).

Deus compraz-se no homem.

Quantas vezes é o Homem esmagado por este destino! Quantas vezes fica prisioneiro dele! Quantas vezes morre de fome, quantas vezes está perto do desespero, quantas vezes é ameaçado na consciência que tem da significação da própria humanidade! Quantas vezes apesar de todas as aparências - está o homem longe de comprazer-se em si mesmo!

Mas hoje ele acorda e ouve o anúncio:

Deus nasce na história humana.

Deus compraz-se no homem,

Deus tornou-se homem,

Deus compraz-se em ti! Amém. (missa da meia noite - homilia de João Paulo II -Natal, 24 de dezembro de 1979)

José Cristo Rey Paredes, CMF

 

 

«Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens do Seu agrado»

Céus, escutai! Terra, ouve com atenção! Que todas as criaturas, e sobretudo o homem, sejam arrebatadas de admiração e irrompam em louvores: «Jesus Cristo, Filho de Deus, nasce em Belém da Judéia». [...] Haverá notícia mais bela a anunciar à terra? [...] Alguma vez se ouviu coisa parecida, alguma vez o mundo soube de alguma coisa semelhante? «Em Belém da Judéia nasce Jesus Cristo, o Filho de Deus.» Tão poucas palavras para exprimir a vinda do Verbo, a Palavra de Deus feita criança, mas que doçura nestas palavras! [...] «Jesus Cristo, o Filho de Deus, nasce em Belém.» Nascimento de uma santidade incomparável: honra do mundo inteiro, exaltação de todos os homens devido ao bem imenso que Ele lhes traz, admiração dos anjos por causa da profundidade deste mistério de uma novidade sem paralelo (cf Ef. 3,10). [...]

«Jesus Cristo, Filho de Deus, nasce em Belém da Judéia». Vós que estais deitados na poeira, erguei-vos e louvai Deus! Eis o Senhor que chega com a salvação, eis a vinda do Ungido do Senhor, do Seu Messias, ei-Lo que vem na Sua glória. [...] Feliz daquele que se sente atraído por Ele e que «acorre à fragrância dos Seus perfumes» (Ct. 1,4 LXX): ele verá «a glória que lhe vem do Pai como Filho único» (Jo. 1,14).

Vós que estais perdidos, respirai! Jesus vem salvar o que perecera. Vós, os doentes, voltai a ser saudáveis: Cristo vem estender o bálsamo da Sua misericórdia sobre a chaga dos vossos corações. Estremecei de alegria, todos vós que sentis grandes desejos: o Filho de Deus vem a vós para fazer de vós co-herdeiros do Seu Reino (Rm. 8,17). Sim, Senhor, peço-Te, cura-me e ficarei curado; salva-me e serei salvo (Jr. 7,14); glorifica-me e ficarei verdadeiramente na glória. Sim, «que a minha alma bendiga o Senhor e que tudo em mim bendiga o Seu santo nome» (Sl. 102,1). [...] O Filho de Deus faz-Se homem para fazer dos homens filhos de Deus.

são Bernardo

 

 

“Envolveu-O em panos e deitou-O numa manjedoura,

porque não havia lugar para eles na hospedaria” (Lc. 2,7)!

1. O Filho de Deus vem ao mundo e não encontra abrigo, nos palácios e nas hospedarias do seu tempo, nem sequer tem a sorte de nascer em casa própria ou alugada! Na verdade, só por amor, o Deus Altíssimo, podia sujeitar-se ao desconforto de um sem-abrigo! Mas é isto mesmo, a sua nua e crua fragilidade humana, que servirá de sinal, aos pastores, ao grupo social dos «sem-abrigo» daquela época: “encontrareis um Menino recém-nascido, envolto em panos e deitado numa manjedoura” (Lc. 2,12). Ele não se impõe; jamais entra à força, mas, como uma criança, pede para entrar, ser ouvido, acolhido, cuidado com amor!

2. Primeiras testemunhas do nascimento de Cristo, os pastores encontram-se não só diante do Menino Jesus, mas de uma pequena família: mãe, pai e um filho recém-nascido. Sem lugar na hospedaria, Jesus encontra, no calor humano e divino de Maria e José, o seu refúgio mais seguro, a sua verdadeira tenda de abrigo, para “acampar” (Jo. 1,14) no meio de nós! O Filho de Deus entrou na história dos homens através da família! Deste modo consagrou-a como caminho primário e efetivo, do seu encontro com a humanidade. Fez da família, o primeiro abrigo, da vida e do amor!

3. O Natal - dizemo-lo vezes sem conta – é, por excelência, «a festa da família»! Mas não o é tanto, nem sobretudo, porque as famílias se reúnem nesta época, mas primeiramente porque Jesus quis nascer e crescer numa família humana. Por um lado, é uma família como todas e, como tal, é modelo de fidelidade e de perseverança, de silêncio orante e de diálogo paciente, de pureza de coração e de atenção concreta, comunhão de vida e amor! Em suma, é modelo de todos aqueles valores que guardam a família como “abrigo”, que nos guarda a nós. Mas, ao mesmo tempo, a Família de Nazaré é única, é «sagrada», porque absorvida pelo desejo de cumprir a vontade de Deus. Precisamente por isso, ela indica às famílias cristãs, que a luz e a presença do Deus Menino devem guiar e acompanhar a construção da família humana, como “abrigo” sagrado!

4. Sem Deus, sem o influxo e o reflexo do seu amor, a construção desta Casa de abrigo ameaça ruínas (cf. Sal.127,1)! Estas ruínas são hoje as ruínas da fome, disfarçada de bem vestir, e da pobreza súbita ou envergonhada; são as ruínas do crédito mal parado e da usura dos mercados; são as ruínas da ganância bancária e da arrogância das agências de rating; são as ruínas do desemprego, da droga, da injustiça, da corrupção; e são as ruínas mais interiores de cada um, que nos bloqueiam: amarguras, maus humores, individualismos, rupturas e solidões. Ruínas que nos levam a fecharmo-nos sobre nós mesmos, e que não nos deixam ver a luz do Salvador! Mas é tão grande e feliz, tão inaudito, o anúncio deste dia de Natal, que até as ruínas de Jerusalém - dizia-nos o profeta Isaías (Is. 52,9) - são convidadas a entoar gritos de júbilo, a irromper em cânticos de alegria!

5. Neste ano diocesano da família, nesta noite (neste dia) de Natal, a que nos desafiará a ternura deste Menino «sem abrigo», envolto em panos, deitado numa Manjedoura? Ouvíamo-lo há pouco: “ensina-nos a renunciar à impiedade” de uma vida sem Deus, sufocada “pelos desejos mundanos! E a vivermos, no tempo presente, com temperança, justiça e piedade” (Tt. 2,12). O mesmo é dizer, desafia-nos a vivermos com equilíbrio, a ter um Natal, com bem menos, para ter um Natal melhor! Ensina-nos, a vivermos com sobriedade, a vivermos simplesmente, para que outros possam simplesmente viver! É este o verdadeiro espírito do Natal! Não esqueça: «A felicidade vem de dentro de casa. Neste Natal, viva mais a sua Casa», para que seja verdadeiramente Natal, «a festa da família»!

 

 

Isto vos servirá de sinal: encontrareis um Menino

recém-nascido envolto em panos e deitado na manjedoura! (Lc. 2,12)

1. Aí está o primeiro Natal, o verdadeiro Natal, sem os adornos típicos da época, em simplicidade extrema, em humilde pobreza! Um cenário real que, de alguma forma, está forçosamente, de volta à vida de muitas famílias, no contexto da grave crise, que a todos nos toca. Não há aqui, no Natal primeiro, o exagero das prendas, mas o excesso do dom! Não há aqui no Natal original a troca de presentes, mas uma excepcional permuta de dons, entre Deus e a humanidade: Ele dá-nos o que é Seu e toma o que é nosso! Neste sentido, as dificuldades, as incertezas da própria crise económica, podem ser um estímulo, para descobrir o calor da simplicidade, da amizade e da solidariedade, valores típicos do Natal! Despojado dos excessos do consumo, o Natal de 2010 pode converter-se numa oportunidade para acolher, como presente pessoal, a mensagem, que emana do mistério do nascimento de Cristo: a simplicidade e a sobriedade, e a pobreza que é parente da humildade!

2. Na verdade, o Natal mostra-nos que o sinal de Deus é a simplicidade. O sinal de Deus é o Menino! O sinal de Deus é que Ele faz-se pequeno por nós. Este é o seu modo de reinar! Ele não vem com o poder e as grandezas deste mundo. Ele vem como Menino - inerme e necessitado da nossa ajuda. Não nos quer dominar com a força. Tira-nos o medo da sua grandeza! O sinal de Deus é a sua humildade! O sinal de Deus é que Ele faz-Se pequeno; torna-Se Menino; deixa-Se tocar e pede o nosso amor. Nada mais quer de nós, senão o nosso amor, mediante o qual aprenderemos a entrar nos seus sentimentos, no seu pensamento e na sua vontade. Deus fez-se pequeno, a fim de que nós pudéssemos hoje compreendê-Lo, acolhê-Lo, amá-Lo!

3. Quanto desejaríamos nós, um sinal diverso, um sinal imponente e irrefutável do poder de Deus e da sua grandeza! Mas o seu sinal convida-nos à fé e ao amor, e assim nos dá esperança! Este Menino possui o poder e é a Bondade. Convida-nos a tornarmo-nos semelhantes a Ele. E tornamo-nos filhos de Deus, semelhantes a Ele, se nos deixarmos plasmar por este sinal; se aprendermos, nós mesmos, a humildade e, deste modo, a verdadeira grandeza; se “renunciarmos à impiedade e aos desejos mundanos, para vivermos, no tempo presente, com temperança” (Tt.2,11-14), se em vez da violência usarmos as armas da verdade e do amor; se aprendermos a viver com Ele, e a praticar com Ele, a humildade da renúncia e da sobriedade, que faz parte da essência do amor!

4. Vivemos este Natal, como nos refere o bispo do Porto, “entre dificuldades acrescidas na vida econômica e profissional. Mas, quando celebramos o nascimento de Jesus, reforçamos a convicção de que Ele continua conosco, nascendo em cada ato de atenção aos outros. Natal é isso mesmo: presença de Deus no mundo, como uma criança que nasce, um gesto que aproxima, um sorriso que anima: entre familiares que se reúnem, sem esquecer nenhum; entre vizinhos que se saúdam e vencem indiferenças... É também assim que Jesus gosta de ser reconhecido no mundo. Só pode haver Natal na nossa vida, desde que o façamos também na vida dos outros! ” (dom Manuel Clemente, Mensagem para o Natal)

 

 

«Paz na terra aos homens, que Deus ama!»

1. «Paz na terra aos homens, que Deus ama»! (Lc. 2,14). Este é o feliz anúncio, entoado pelos anjos quando, há mais de 2000 anos, nasceu Jesus Cristo. Ouvimo-lo ressoar, nos nossos corações, sentimo-lo vibrar na alma, de modo único e jubiloso, nesta noite santa de Natal. É este o Evangelho da Paz, que nos chega da gruta de Belém. Esta é a mensagem que vos queremos, mostrar e oferecer, no dom e no rosto de um Menino: Deus ama todos os homens e mulheres da terra, e dá-lhes a esperança de um tempo novo, um tempo de graça e de paz! O amor de Deus, pelos Homens é-nos revelado, vê-se estampado na ternura e na graça deste Menino, «o Verbo que se fez Carne» (Jo. 1,14). É Cristo o fundamento da Paz Universal, da fraternidade entre os Homens. Pois no Filho Único de Deus, cada um redescobre a sua dignidade de filho do Único Pai, e por conseqüência, a sua condição de irmão de todos os homens.

Acolhida no mais íntimo do coração, essa filiação divina, reconcilia cada um com Deus e consigo mesmo e gera aquela sede de fraternidade, de amor e de paz, que é capaz de afastar do coração do homem toda a tentação da violência e da guerra. O Natal está, desde as origens, e por natureza, indissoluvelmente ligado a esta mensagem de amor e de reconciliação; não por acaso, ano após ano, esta quadra natalícia reinventa, para fiéis e homens de boa vontade, as mais autênticas aspirações da humanidade, que se resumem, no anseio profundo pela Paz.

Jesus, dom de Paz

2. Ao ouvirmos, novamente, o anúncio feito pelos anjos nos céus de Belém (cf. Lc. 2,14), celebramos e vivemos, hoje e aqui, em Eucaristia, no abismo da mesma pobreza e do mesmo escondimento, o mistério da Encarnação, com a certeza de que este Jesus, Deus feito Homem, «é, de fato, a nossa paz» (Ef.2, 14). Jesus é um Dom de paz, oferecido a todos os homens, desde os pastores aos Magos, para os de perto e para os de longe. Desceu do Céu à Terra, para restabelecer a íntima comunhão do divino com o humano, despertando na humanidade, a altíssima vocação de ser uma única família de irmãos.

A Paz de uma única família humana

3. Neste Natal, iluminados pelo esplendor da glória de Deus, que se reflete no rosto de Cristo, a todos declaramos, uma vez mais, que a Paz é possível! Apesar de uma humanidade ferida pelo pecado do ódio e da violência, está aberta, no Presépio de Belém, a porta de uma casa comum, de uma humanidade nova, chamada por Deus, a comer do mesmo pão, a formar uma única família de irmãos.

Empenhar-se generosamente pela paz

4. A Paz é, desde sempre e também hoje, para a humanidade inteira, a grande expectativa do Natal que celebramos; é a prenda mais desejada. Corresponde a nós crentes, anunciar o evangelho da Paz, renunciando à impiedade de uma vida, sem Deus, abraçando a ternura do Menino, multiplicando gestos de Paz. Demos cara e corpo, vida e movimento, alma e coração, cor e harmonia, à sinfonia da Paz!

Votos de Paz

5. Deste modo, não teremos dúvidas de que a chama luminosa da paz percorrerá a sua estrada, acendendo a alegria, e derramando a luz e a graça no coração dos homens, sobre toda a superfície da terra. Nestes dias, de encontro, de visita à família, aos amigos, dai passos firmes no caminho da Paz. «Como são belos, sobre os montes, os pés do Mensageiro que anuncia a Paz» (Is. 52,7)! Fazei descobrir, para além de todas as fronteiras, rostos de irmãos, rostos de amigos. Possais vós todos, iluminados pelo Príncipe da Paz, ver em cada um e fazer descobrir em todos, rostos de irmãos e rostos de amigos! A todos renovo cordialmente os meus votos natalícios de Paz.

 

 

«Não temais. Anuncio-vos uma grande alegria para todo o povo: Nasceu-vos hoje na cidade de David, um Salvador, que é Cristo, Senhor! (Lc. 2,9-10)

1. A notícia encheu de temor, de maravilha e de espanto, de encanto e de surpresa, os pobres pastores da Judéia. Eles eram afinal “os primeiros convocados”, testemunhas de um acontecimento grande e único, cuja notícia chegaria «aos confins da Terra» (Sal. 97,3: missa do dia). Correram, pressurosos, para o Presépio, escoltados pela multidão do exército celeste. E viram confirmado o sinal: «Um Menino, recém-nascido, envolto em panos e deitado na manjedoura! Quando O viram, começaram a contar o que lhes tinham anunciado sobre Aquele Menino. E todos os que ouviam admiravam-se do que os Pastores diziam» (Lc. 2,16-18: missa de aurora)!

2. As palavras dos pastores, pobre gente e marginal, sem prática religiosa, suscitaram a “admiração” dos ouvintes. Estas palavras soariam hoje a muitos dos nossos gastos ouvidos, como um conto de fadas, a embalar meninos, com palavras de veludo. O quadro antigo do presépio parece-nos hoje mais um idílio, do que um drama. Mais uma poesia generosa de sentimentos, do que um encontro real e comprometedor entre Deus e os homens.

E, talvez por isso, nos resulte cada vez mais incomodo, falar hoje do Presépio, com a velha manjedoura. Falar de um Deus, que não acontece segundo os parâmetros da nossa lógica medida e sabida. Falar de uma Mãe que é Virgem. De uns Anjos que se encontram, pela noite, com os Pastores. De um homem como José, que sacrificou o romance do noivado pela loucura de uma Promessa. Tudo nos soa a um cenário virtual, de lenda ou de mistificação, de que hoje temos mais medo do que temor, em nos abeirarmos.

Mas são realidades que têm tanto de humano, como de divino; desenhadas, é certo, numa linguagem antiga, mas que os mais novos e os mais simples bem e melhor entendem. Deste modo, os evangelhos nos dizem o Natal, como acontecimento, ocorrido em rude pobreza, em surpreendente humildade, em profunda humanidade. E, por isso mesmo, “manifestação da graça de Deus” (Tt. 2,11: missa da noite; Tt. 3,4: missa da aurora), Natal que não nos foi devido, nem merecido, mas que nos foi dado e realizado por Deus, quando, e como Ele próprio quis.

3. O presépio, com o boi e o burro, os Anjos, a Nossa Senhora, o São José e o Menino, os Magos e os camelos, as luzes e a Estrela, é afinal o quadro vivo e real de um “excêntrico mundo”, que, em Belém, regressa finalmente à paz original, ao equilíbrio ecológico, à pureza das coisas, à ternura dos afetos, à beleza do amor, à dádiva presente da vida eterna. E é o Menino, por ser verdadeiro Deus, o centro, o «Verbo», (Jo. 1,1-18: missa do dia) a «Palavra» e o sentido de todas as coisas!

4. Desde aí, desde o Natal do Senhor, tudo muda. Dentro de nós e à nossa volta. E nada mais está perdido. Está tudo salvo, redimido… uma vez que Aquele Jesus, não era um menino qualquer, nem um Deus “feito por medida”. Era Cristo, Senhor (Lc. 2,10)!

Desde então e para sempre, no Menino Jesus, Deus mostra-se amante do nosso mundo, a eternidade abraça e desenlaça o nosso tempo, a nossa humana condição ganha grandeza e dimensão divina. São efeitos extraordinários e revolucionários, ativos e retroativos, do Natal de Jesus, que resistem a todos os defeitos do mundo e ao desgaste do tempo e que alcançam todos os imperfeitos humanos, a começar por «aqueles que não O receberam» (Jo. 1,11). O Natal, o dom divino do Menino Deus, não nos é, nem nunca nos será negado, por coisa alguma, por pecado nenhum, por tristeza maior que ela seja. Pois não acontece Natal, por nossas mãos. Mas pelo “dedo de Deus”. E os efeitos daquele “admirável mistério”, pelo qual «o Verbo se fez Carne e habitou entre nós» (Jo. 1,14) são, de todo e para sempre, irreversíveis. Por isso «Não temais. Anuncio-vos uma grande alegria para todo o povo: Nasceu-vos hoje na cidade de David, um Salvador, que é Cristo, Senhor!

5. Nós acreditamos assim. Que o Natal é a festa de Deus que se fez Homem, para fazer, aqui e agora, o que sempre quis de nós: que fôssemos homens autenticamente, filhos seus, irmãos uns dos outros. Só a partir daqui se poderá dizer, sem invocar o santo nome de Deus em vão, tudo o mais, de que é comum falar-se antes e no tempo de Natal. Neste Menino é possível a alegria. NEle o Amor torna-se a Palavra do Sentido. E a Paz, o dom que se faz dever.

Tomai conta do Menino Deus. Sem medo dos afetos. Sem medo do excesso na troca de carícias, de beijos e abraços, dos meninos, com os meninos. E o Menino de Belém tornará reais e atuais os efeitos do seu Natal, no Natal feliz e santo de cada um.

 

 

padre Ausilio Chessa

 

 

É no ambiente do império romano, ao tempo do «divino» César Augusto, com todo o seu poder sobre todos os homens, a ponto de ordenar um recenseamento geral, que para os judeus piedosos constitui uma afronta e uma blasfêmia porque só Deus tem o conhecimento total (cf. revolta referida em Act. 5,37), que o menino anunciado vai nascer. Lucas sublinha o contraste entre o projeto de César Augusto que quer assumir prerrogativas divinas e o projeto de Deus que tinha prometido a David que «um reino sem fim» (2Sm 7; Lc. 1,32), que está a ser realizado através de José, herdeiro obscuro de David, que se submete à ordem de um rei estrangeiro.

O recenseamento exprime o desejo de domínio de um homem que se quer fazer deus, no momento em que Deus se faz homem e manifesta a sua vontade de ser servo de todos.

Este fato político contribui para o cumprimento das velhas esperanças e promessas do Antigo Testamento: a cidade de Belém, o descendente de David. Porém, em contraste com o poder terreno e com as grandes vias da história humana, o menino nasce abandonado e só, quebrando os esquemas humanos de grandeza. Desde o nascimento que Jesus é excluído: nasce fora da hospedaria, porque não há lugar para ele, e morre fora dos muros de Jerusalém, ao lado de condenados. É envolvido em panos e «deposto» numa manjedoura, tal como mais tarde um outro José (de Arimateia) o vai envolver num lençol e «depositar» num túmulo.

É nas trevas da noite que surge a luz inesperada da glória do Senhor. É aos pastores, símbolo de todos os pequenos, pecadores, desprezados, anônimos, os últimos, que é endereçada a mensagem:

«Anuncio-vos», melhor: «Dou-vos a boa nova». É uma alegre notícia para todos os tempos: o «Hoje» da salvação, tão caro a Lucas, ressoou então, como continua a ressoar em todos os tempos. Foi ontem, como é «hoje».

«Nasceu-vos um Salvador, que é o Cristo Senhor, na cidade de David». Trata-se dum anúncio ao estilo do anúncio do nascimento dos «divinos» imperadores, interpretado como manifestação de Deus entre os homens.

O «salvador», título do imperador, atributo exclusivo de Yahweh, é agora dado a um menino que nasceu, e que já sabemos pela anunciação ser «grande, Filho do Altíssimo, santo, Filho de Deus». Ele é o Cristo, o Messias esperado pelo judaísmo, o «Ungido» nascido na cidade de Belém. As esperanças do Antigo Testamento atingem um cume que é inesperado. O que aconteceu vai muito além das expectativas judaicas.

Um terceiro título é dado pelo anjo: «Senhor». No Antigo Testamento, o termo «Senhor» (Kyrios) corresponde ao nome de Deus: YHWH – que os judeus pronunciam Adonay (= senhor, em hebraico).

Lucas é o único autor que une diretamente os dois termos, Cristo e Senhor, como faziam os Salmos de Salomão (18,36) para designar o messias.

E surge o paradoxo fundamental do cristianismo: o sinal dado para o reconhecerem é um menino

envolto em panos e deitado numa manjedoura. O Salvador é um recém-nascido; o Cristo das esperanças messiânicas está envolto em faixas; aquele que é proclamado com o título divino de Senhor encontra-se deitado; a cidade de David é substituída por uma manjedoura. Trata-se, efetivamente, dum sinal muito fraco que só pode ser percebido por meio duma revelação. É um sinal que só o olhar interior da fé poderá discernir, tal como mais tarde será o sinal dum profeta morto e deitado (o mesmo verbo) num sepulcro.

Este acontecimento escondido e longe de tudo e de todos envolve céu e terra. É motivo para cantar um hino a Deus. A glória de Deus veio sobre a terra, o amor infinito de Deus torna-se a paz para a humanidade, porque Deus ama a todos. A benevolência divina repousa agora sobre todos os homens pelo fato de que Deus, encarnando, assume a nossa humanidade e chega a todos aqueles que em Jesus podem descobrir o significado da própria vida de homens.

Até aqui os pastores estão em silêncio. Agora estão resolvidos a «ver» esta palavra-acontecimento que lhes foi dado a conhecer. Os pastores respondem como crentes: encontram o menino e aceitam-no como sinal de Deus; confiam na palavra do anjo e falam dela; glorificam a Deus.

O que se torna eloqüente é o silêncio. Silêncio de José de quem Lucas não refere uma palavra em todo o evangelho. Silêncio de Maria, cujo canto de glória dá lugar à meditação. Silêncio do menino, Palavra eterna de Deus.

«Maria, conservava todas estas coisas, meditando-as no seu coração». Maria não entende tudo desde o início, mas observa, escuta, medita, reflete e, depois da Páscoa irá entender tudo, irá ver claramente o sentido de tudo aquilo que aconteceu. É o processo de crescimento de todo o crente.

O texto encerra com o rito da circuncisão, como qualquer judeu, e a imposição do nome. Mas não é o pai quem escolhe e dá o nome, como fez Zacarias em relação a João. O nome foi escolhido por Deus, o Pai Altíssimo, na linha dos grandes protagonistas da História da Salvação a quem Deus confere o nome

a indicar a função e o destino. Jesus (Yeshua, em hebraico) significa «Yahweh salva». Jesus, Filho de Deus, é o Salvador, mais: Ele é a Salvação, como logo a seguir Simeão irá reconhecer.

padre Franclim Pacheco

 

 

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 padre Tomaz Hughes, SVD

 

 

diácono Miguel A. Teodoro

 

 

diácono Milton Restivo

 

 

mons. Inácio José Schuster

 

 

padre Gilberto Kasper

 

 

Hoje, qual é o sentido do Natal?

Se quisermos escutar as Boas-Notícias dos evangelhos da infância de Jesus, que tipo de alegria extrairemos das comemorações ao redor de nossas comunidades, no interior da sociedade a que pertencemos, em nossa nação e no mundo latino-americano? Poderíamos afirmar sem erro que não é o Natal para a satisfação do consumismo (o marketing já funciona na previsão das vendas: “o Natal deste ano terá um crescimento de 10% em relação ao ano passado...”); do velhinho de barbas brancas e do uniforme vermelho com luvas e gorro protetor para uma neve que não cairá nunca, nas quenturas do nosso verão brasileiro, sem dúvida. Não é pouco, diante da experiência dos pastores de uma fria noite oriental, quando a Natividade do Senhor se apresenta como uma possibilidade extraordinária de transformação das realidades dos homens e das mulheres deste mundo. A resposta dos evangelhos caracteriza “uma luz que avança sobre as trevas, cujo curso fulgurante nada e ninguém pode deter”( Victor Rey, pastor batista do Chile)

O Natal de Jesus de Nazaré é um convite para mergulharmos na realidade que se apresentava ao menino que irrompe do ventre de sua mãe numa estrebaria, um sem-terra, sem-teto, sem-nada, à semelhança das crianças que nascem no terceiro mundo, ou dos que estão mais perto, em nosso país, sob a opressão dos sistemas econômicos; bebês que vêem ao mundo devendo milhares de dólares ao FMI, BID, G-8, segundo as estatísticas da economia em vigor. Debaixo de um decreto cuja intenção primeira era a de mobiliar os meios de arrecadação tributária para conhecer os números, identificar os possíveis devedores de impostos, e assim engordar os cofres de um império cruel, desumano, insensível à miséria dos milhões de oprimidos, despoderados, escravizados aos sistemas econômicos, já apoiados pela religião e pela política de seu país, cabe-nos observar a “luz” que se derrama sobre os “impérios sagrados” da economia mundial: Augusto era considerado “divino”, um deus; alguém que quer ter o poder “sagrado”de controlar, submeter, recolher tributos, taxas de rolamento de empréstimos, de todos os habitantes da terra (oikumene); que, no seu entender de governante mundial, lhe devem e têm que pagar.

Paulo nos oferece a “dinamite” (dynamis tou theou) da qual não se envergonha; João fala da Luz que brilha (phôs), e nenhuma obscuridade religiosa, ou qualquer outro obscurantismo, pode apagar; Lucas fala do Reino, que avança contra o vento e os mares, ainda nos dias dos apóstolos da igreja iniciante. Maria, mãe de Jesus, declara: “o Todo-poderoso (dynatós) fez maravilhas em mim”; o anjo do Senhor lhe diz: “O poder (dynamis) do Altíssimo te cobrirá com sua sombra”, realizando na mulher o que Lhe é de hábito: a fecundidade da vida. E assim nascerá, do ventre de Maria, o grande rei. O filho de Maria durará para sempre, assim como o seu reinado (basileia tou theou). Por isso serão derrubados todos os potentados de tronos de dominação. Para Deus nada é impossível, por isso derrubará os poderosos (dynastas) (Lc. 1,47-52). Não se trata de uma ideologia de igreja de mercado, ou de pentecostalização carismática, que vende emoções baratas, comportamentos extáticos, proporcionando atitudes que funcionam anestesicamente, no enfrentamento da realidade  do mundo presente. Os evangelhos mostram que o nascimento de Jesus representa a possibilidade de superação da violência econômica, social, política, religiosa, que impera em toda parte.

Quando nos damos conta de que os apetites consumidores invadem nossos pensamentos; que as palavras relativizam os conteúdos da fé que herdamos; que se enfraquecem, debilitam, a força interior que dá autenticidade ao sentido da salvação da qual participamos e propomos solidariamente, como homens e mulheres novos famintos de justiça e sedentos de liberdade em relação aos sistemas escravizantes, dentro das igrejas, das comunidades, sociedade e nação, já começamos a mudar. O equívoco mercantilista começa aqui, na reprodução falseada desse cenário em ricos ambientes climatizados e de impressionante riqueza decorativa, entre cetins, mármores finos, cerâmica de qualidade e os metais cromados, brilhantes, dos shopping centers. A"tapêinosis" (= situação humilde ou de humilhação; "tapeinói" é a condição dos pobres, indigentes, órfãos; refere-se aos que enfrentam fome e opressão, cf. Atos 8,33; no Salmo 82,3-4 [Septuaginta]: os "tapeinói" são os pobres e humilhados na indigência imposta); a"tapêinosis", no Natal dos glutões empanturrados de peru, chester, frutas nobres, nozes, champanhe e finos vinhos; dos poderosos  supermercadistas, também é evocada, porém no sentido romântico-cristão que muitos pregadores também proclamarão nos cultos deste Natal. E para nós, qual é o sentido do Natal? Onde estará a "grande Luz" que ilumina as exclusões, opressões e humilhações que o menino Jesus, filho de Maria, assumiu solidário com os desprotegidos, despoderados, oprimidos, aflitos, desde a infância, nas comemorações e celebrações deste dia?

 

Isaías 9,1-3; 5-6

O poema do Primeiro Isaías é magnífico: sempre brilhará uma grande luz. É alguma coisa com que se sonha, utopia de encantamentos sobre a liberdade e a superação das opressões.  Os profetas sempre são utópicos,  seu realismo está na visão do que se passa e precisa ser transformado. Vêem o que os outros não querem ver. Isaías profere o oráculo onde sua vocação e missão são explicitadas aos destinatários de sua palavra: “escutem com os ouvidos, mas não entendam; olhem com os olhos, mas não compreendam...” (Is 6,9). Mostra a cegueira dos que não querem ver, embora tenham sido avisados e reajam com leviandade e despreocupação (os assírios virão sobre nós!). O povo teve a oportunidade de escolher entre a vida e a morte,  mas preferiu o caminho da morte (cf. Dt. 30,19-20): “comamos e bebamos que amanhã morreremos”. Agora sofrem porque as elites de Israel estão sob a dominação da poderosa Assíria (o Reino do Norte, Israel, caíra sob Teglat-Salazar III em 721a.C; reinava, agora, Senaqueribe, desde 704 a.C.; Judá preparava-se para reagir...e foi uma tragédia!). Isaías é um profeta sensível, de acordo com sua fé Yahweh é um Deus que ama os pobres; que tem carinho por aqueles a quem chama de “meu povo”.  Em nome de Yahweh, Isaías denuncia: “que direito têm vocês de oprimir o meu povo e esmagar os pobres, retirando-lhes a dignidade” (3,15). Exigia justiça, dentro da monarquia davídica, em Judá. As elites se dão à prática da magia, enquanto isso, entregando-se à idolatria do momento.  Os juízes que foram instituídos para defender a causa do fraco, do pobre, da viúva, do órfão, usam esse cargo para oprimir os desamparados.

Debaixo da opressão, portanto, há luz para o povo. O símbolo deste poema é a “luz”. A luz traz vida, faz a semente brotar; a luz traz a salvação, por isso a noite que antecede sua chegada é tão formosa. É dentro dela que se ouve o imperativo: “haja luz”! Por outro lado, a luz é o grande sinal de libertação que o profeta propõe ao povo, em nome de Deus. Libertação que se refere à utopia da justiça: esta é a palavra chave de toda a Escritura Sagrada.  Ela esta escrita em todo coração humano. A justiça traz a paz (shalom = toda forma de bem-estar, social, político, econômico, religioso). A luz sempre evoca a ação criadora de Deus: “faça-se luz sobre as trevas”, sobre todas as escuridões, obscurantismos, impedimentos, muros, paredes, que impedem a liberdade. A tirania do opressor, escondida na escuridão dos interesses humanos, é alcançada pela luz que, com seu foco, atinge os poderes opressores.  A luz é um bem messiânico. Esta luz não se faz presente senão na intervenção de Deus: isto é o “nascimento” da justiça de Deus sobre os empobrecidos da terra.

 

Tito 2,11-14

O texto nos faz relembrar uma liberação experimentada pelo povo de Israel, a liberdade sentida na carne (cf. Dt. 14,2). Agora, algo muito mais grandioso está acontecendo. Sem motivo? Claro que não. Ninguém pode ver a Deus, nem ao Salvador Jesus Cristo, vivendo em impiedade e compartilhando da injustiça reinante (adkia). Não se trata do que a moralidade e o senso comum pretendem, alguma coisa ética ou moral. É algo que tem a ver com um projeto absoluto: a salvação de todos os homens e mulheres.  Esta se inicia com a realidade da encarnação. Tudo se escreve com a mão de Deus, a nova história da humanidade começa com a presença entre nós do Deus Salvador.

 

Lucas 2,1-14 (15-20)

O evangelho da Natalidade do Senhor está colocado em um belo momento. Antes de tudo, a autoridade divina do “César” é questionada.  O dono do maior império econômico do mundo decreta a mobilização dos oprimidos e escravos do mundo de então, debaixo de sua autoridade e poder, para alistarem-se na relação de pagadores compulsórios dos impostos fazendários opressores. Entre os atingidos pela violência do sistema econômico estão os pais de Jesus, que têm de “pôr-se a caminho”.  Lucas sempre usa a expressão: “pôr-se a caminho...”. Os cristãos, inicialmente, eram “os do caminho”. Mas, o que deve realmente chamar nossa atenção é como o “deus” do mundo político-econômico (já que Augusto se considerava divino...) quer realizar o sensoriamento econômico (como nos obrigam, hoje, com o CPF, criado por Delfim Neto quando ministro fazendário da ditadura militar); controlar, submeter, obrigar o contribuinte compulsoriamente, em todo o mundo sob a “pax romana”. Esta definia um mundo altamente hierarquizado em muitas escalas de autoridade, tendo o César no alto da pirâmide, recebendo sua fração, enquanto, no trajeto, as elites do poder se saciavam  na corrupção consentida.

Lucas pretende mostrar que o acontecimento de Belém é um acontecimento de misericórdia e graça (hesed e xáris são a mesma coisa, no Primeiro e Segundo Testamentos), e salvação (soter).  A misericórdia de Deus torna presente o Salvador, o próprio Deus que visita os que não têm liberdade, nem direitos fundamentais, cidadania, em afronta direta ao decreto imperial que acentua a opressão construída sobre a escravidão econômica e a injustiça social. Um grupo de pastores, num segundo momento, sem autoridade; sem credenciais do governo reinante (Quirino), vai se converter em emissários do projeto de salvação da parte de Deus. A intencionalidade kerigmática de Lucas pode ser percebida: Maria, uma jovem mulher pobre, sem poder algum, é escolhida para gerar em seu ventre aquele que seria o Salvador (soter) de seu povo. Mashiah, Christós, Kyrios (Messias, Cristo, Senhor), títulos que identificam uma grandeza superior, acima de todos os poderes deste mundo, irrompendo, no entanto, sem explosões, abalos sísmicos, tempestades, furacões. Ninguém reconheceria um personagem com tais títulos num menino enrolado em faixas, depositado no berço improvisado no cocho. E uma noite comum, de céu limpo e iluminado por estrelas, testemunha a Graça que traz consigo o Deus Salvador.  Nada demais, nenhum fenômeno, apenas o que se vê no cotidiano de todos os povos e nações do mundo. É a ternura de Deus nos cuidados da mãe que reproduz o sentido maternal do Criador: nasceu Jesus!

O símbolo deste poema é a “luz”. A luz traz vida; a luz traz a salvação, por isso a noite que antecede sua chegada é tão formosa. É dentro dela que se ouve o imperativo: “haja luz”! Por outro lado, a luz é o grande sinal de libertação que o profeta propõe ao povo, em nome de Deus. Deus se entrega aos que ama enquanto sua Luz se derrama sobre a escuridão da opressão.  Somos iluminados, podemos vislumbrar a dignidade ferida dos pobres, das “viúvas” e “órfãos” deste mundo; por causa do dom da Graça e da Misericórdia de Deus. “No mundo dos pobres a solidariedade, a força da acolhida, a solidariedade entre homens e mulheres, atinge a todas as pessoas feridas, prejudicadas física, emocional e psicologicamente,  por múltiplas experiências de precariedade, carência, solidão, fracasso, frustração, entre outras situações de desesperança,” segundo a teóloga pentecostal  Elizabeth Salazar. A experiência da Graça é uma experiência de descanso em Deus, de repouso: é o Deus Salvador conosco, agindo para tornar humana a vida de todos os homens e mulheres (Paul Lehmann). Por isso, a festa da Natalidade do Senhor deveria invadir o cotidiano da Igreja, dos homens e das mulheres: Deus tem a palavra final de Salvação!

A glória do Senhor envolveu os pastores em grande Luz!

pastor Derval Dasilio