A grandeza e a humildade do Menino-Rei

Isaías anuncia o nascimento de um menino que será o rei através do qual Deus realizará plenamente sua salvação nesta terra. Esse menino é, no Evangelho, Jesus, que, na humildade de seu nascimento, revela a glória de Deus. A segunda leitura apresenta como deve viver o cristão entre o nascimento e a vinda gloriosa do Senhor no fim dos tempos.

1ª leitura (Is 9,1-6)

O texto de Isaías se inicia descrevendo o aparecimento de uma grande luz que elimina as trevas nas quais o povo se encontrava (v. 1).

Essa luz traz grande alegria (v. 2). Os motivos dessa alegria mostram de que luz se trata:

– v. 3: Deus domina o opressor (o rei assírio que dominava o norte de Israel: cf. Is. 8,23).

Lembra-se o “dia de Madiã”, quando as tropas de Gedeão venceram os inimigos à luz de tochas (cf. Jz. 7);

– v. 4: a guerra é eliminada, possivelmente devido ao afastamento do opressor;

– v. 5: nasce um menino que possui poder de governar. Como Deus realizou a dominação do opressor (v. 3), assim a vinda desse menino-rei será dom e obra do Senhor (v. 6).

Esses motivos estão numa gradação, de modo que o ponto alto é o terceiro motivo.

Fala-se de nascimento, mas o menino já recebe o cetro de comando. Trata-se assim, de fato, não de seu nascimento, mas de sua subida ao trono (também no Sl. 2,7, o nascimento indica o momento em que o rei assume o poder). O v. 6 menciona os títulos que o rei recebe e que lhe eram dados durante a cerimônia de sua coroação.

O primeiro título, “conselheiro maravilhoso”, fala do rei como aquele que possui sabedoria, conselho, prudência. A referência à “maravilha” lembra os feitos prodigiosos, as ações do Senhor em favor de Israel, sobretudo aquelas realizadas por ocasião da libertação do Egito (cf. Ex. 15,11). O menino-rei é, assim, alguém que estabelece planos capazes de realizar as maravilhas que Deus quer operar em favor de seu povo. O segundo título, “Deus forte”, indica que, através desse menino, Deus manifestará sua força, que realiza o direito, a justiça e a paz. O título “pai eterno” fala que o rei deverá ser como um pai para o povo (cf. Is. 22,21), e isso deverá ser permanente, durar para sempre. Por fim, “príncipe da paz” indica que, por sua autoridade, ele estabelecerá a tranquilidade política (cf. Is. 39,8), eliminará toda angústia (cf. Is. 38,17) e trará o total bem-estar, que inclui a comunhão com Deus (cf. Is. 27,5).

A obra desse menino-rei será o oposto da obra do opressor: o opressor domina pela força (v. 3), pela violência (v. 4); o menino-rei agirá segundo o direito e a justiça e dominará estabelecendo a paz (v. 6). Como terá fim a opressão do inimigo, assim será perpétuo o reino inaugurado pelo menino: ele instituirá uma paz sem fim (v. 6a), seu trono será estável para sempre (v. 6b). Tudo isso acontecerá em favor do povo: ele nasceu para nós; ele nos foi dado – por Deus.

Deus realizará, assim, através do menino-rei da casa de Davi, uma radical transformação da situação em que vivia o povo.

Evangelho (Lc. 2,1-14)

O Evangelho faz uma releitura do texto de Isaías, apresentando o nascimento de Jesus com solenidade, como o faz o texto de Isaías em relação ao descendente de Davi. Diversas menções preparam o anúncio do nascimento de Jesus e enfatizam esse caráter solene: a menção do decreto do imperador, do censo, do nome do governador, da cidade e da casa de Davi (v. 1-4). Também a menção da glória do Senhor, do anjo e da multidão do exército celeste (v. 13) contribuem para a solenidade do nascimento.

Lucas, como Isaías, dá títulos ao menino esperado. Ele é o Salvador, aquele que traz a salvação escatológica (cf. Lc. 1,69), que liberta de toda ameaça (cf. Lc. 1,71.74s) e comunica a mensagem da salvação (cf. Lc. 1,77), realizando o perdão, a comunhão com Deus (cf. At. 5,31). E é o Cristo Senhor, título de Jesus ressuscitado (cf. Fl. 2,9-11), o Messias que porta o nome de Deus (Adonai, Kýrios, Senhor).

Esses títulos servem para mostrar Jesus como supremo rei (contraposto ao império romano) que realiza totalmente as promessas feitas a Davi.

Alguns elementos são comuns entre o texto de Isaías e o de Lucas:

– em ambos, o menino-rei é motivo de alegria e exultação para o povo (cf. Lc. 2,10; Is 9,2);

– em ambos, aparece a luz como manifestação da glória de Deus que vence os poderes das trevas e do caos (em Lc 2,9, a luz envolve os pastores; em Is. 9,1, brilha sobre o povo);

– a paz chega ao mundo por ocasião da vinda do menino (cf. Lc. 2,14; Is 9,6). Em Lucas, a paz ocorre na terra, e a glória de Deus, nas alturas. Deus é glorificado, e os homens recebem o dom da paz, a total salvação escatológica.

Jesus é o “príncipe da paz” anunciado (Is 9,5). Na proclamação dos anjos, os tempos escatológicos se inauguram.

– O menino é dado para nós (cf. Lc. 2,11: “nasceu para vós um Salvador”; Is. 9,5).

A par das semelhanças, os dois textos apresentam também elementos contrastantes.

O mais central é que o texto de Isaías põe o acento da mensagem no aspecto político (a eliminação dos inimigos de Israel) e na entronização do príncipe da paz. Lucas, ao contrário, acentua o aspecto da pobreza e da humildade de um que é Salvador e Senhor, mas que se manifesta na realidade de uma modesta família de Nazaré. Um recém-nascido que tem por berço uma manjedoura (v. 7) e é anunciado a simples pastores, durante seu trabalho noturno (v. 8-9). Tal comparação indica para o cristão que é necessário saber reconhecer e encontrar Jesus Cristo, o menino-rei, que, apesar de possuir atributos divinos, aparece nas mais escondidas condições da vida cotidiana. Ele deve ser procurado não no esplendoroso, mas nos pequenos, nos sem voz, sem reconhecimento.

2ª leitura (Tt. 2,11-14)

A brevidade da segunda leitura contrasta com a densidade de sua mensagem.

A graça de Deus se manifestou (v. 11).

Não se trata só de um ato de benevolência, de algo que Deus faz; mas de Alguém. A graça que se manifestou é o próprio Jesus. Ele é a graça encarnada, a visibilização tangível do amor infinito e gratuito de Deus, que realiza a salvação de todos.

Embora a salvação seja oferecida gratuitamente, ela instrui o ser humano e o orienta para uma vida que corresponda ao dom oferecido: abandonar a impiedade (que é o contrário da reverência a Deus) e as paixões, os desejos mundanos (que contrariam a santidade de Deus), e viver já aqui uma vida honesta, justa e santa. Tudo isso deve acontecer dentro de uma orientação teologal: para Deus (v. 13).

Não se trata de um moralismo (cumprimento exterior de normas), mas de viver a partir

da graça que se manifestou (o Senhor que se entregou por nós, nos remiu, nos purificou, v. 14) e voltados para o futuro, para sua manifestação gloriosa: “aguardamos a bendita esperança”, que é a “manifestação da glória de nosso grande Deus e Salvador” (v. 13).

Jesus é “nosso grande Deus e Salvador”.

Essa é uma das confissões de fé mais concisas e, simultaneamente, de mais ampla dimensão em todo o Novo Testamento. Ao mesmo tempo, esse Deus que vem na glória é “nossa bendita esperança” (v. 13; cf. 1Tm. 1,1; Cl. 1,27), pois não veio, em sua encarnação, para esmagar o pecador, mas para levá-lo à verdadeira vida.

Entre o Natal e a parúsia, o cristão é chamado a viver uma vida digna, insuflada e moldada pela graça de Deus que se oferece e já se realiza em nós e pela esperança da manifestação final do Senhor.

Com essa mensagem, a segunda leitura esclarece e aprofunda quem é aquele que nasceu em Belém. É o Senhor, o Messias, o Salvador, o nosso grande Deus. Convida-nos, dessa forma, a adorá-lo em sua grandeza que se revela na sua pequenez.

Dicas para reflexão

– Sabemos nós reconhecer Jesus no pequeno, no fraco, naquele que nos incomoda, que não tem títulos?

– Sabemos reconhecer Jesus como nosso grande Deus e Senhor? Ou ele se tornou para nós algo tão corriqueiro que já nem nos damos mais conta de sua divina Pessoa?

– “Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens que Ele ama” (Lc. 2,14). Que relação há entre Deus que é glorificado e a paz que acontece na sociedade humana? Como podemos contribuir para que a paz aconteça na terra?

Maria de Lourdes Corrêa Lima

 

 

As trevas se dissiparam

Durante as quatro semanas do Advento, preparamo-nos para a celebração do Natal do Senhor. Gradativamente, as velas da coroa do Advento foram sendo acesas, simbolizando a nossa fé na chegada da grande Luz que dissipa todas as trevas. Para isso, aceitamos entrar num processo de conversão, eliminando todas as formas de egoísmo que impedem a luz de Deus de brilhar em cada um de nós e em toda a criação. As quatro velas representam a universalidade. Jesus é a Luz do mundo: quem o acolhe não andará nas trevas. A expectativa dessa Luz vem de longo tempo. O profeta Isaías Primeiro já a anunciava no século VIII a.C. Essa Luz é portadora de uma vida nova. Ela vem em forma de menino recém-nascido cujo nome é: “Conselheiro-maravilhoso, Deus-forte, Pai-para-sempre e Príncipe-da-paz”. Conforme o Evangelho de Lucas, Jesus nasce numa manjedoura, num lugar social próprio das pessoas marginalizadas, e é reconhecido primeiramente pelos pastores que velavam nos campos dos arredores de Belém: “A glória do Senhor envolveu-os de luz”. O anúncio que recebem do nascimento do Cristo Senhor vem acompanhado da promessa de “paz na terra às pessoas de boa vontade”. Como ressalta a carta de Paulo a Tito, Jesus é “a graça que Deus manifestou ao mundo para a salvação de todas as pessoas”. O clima litúrgico dessa noite é de extrema alegria e de profunda gratidão pelo amor infinito de Deus revelado por meio do recém-nascido em Belém da Judeia.

1ª leitura: Is. 9,1-6

O povo viu uma grande luz

O texto de Isaías tem como pano de fundo a situação vivida pelo povo de Israel no final do século VIII a.C. A invasão assíria em 722 a.C. teve como consequência a destruição da Samaria, capital do Reino do norte, e a devastação em várias outras regiões. Muitos habitantes foram levados ao exílio. A situação era de trevas. Porém, o movimento profético de Isaías Primeiro (Is. 1-39) desperta a esperança de um novo tempo: o jugo que pesa sobre o povo será quebrado, a canga colocada em seu pescoço será despedaçada, os calçados e as vestes dos soldados serão queimados... Enfim, a noite vai virar dia; a luz vai brilhar nas trevas, anunciando uma época de paz e alegria para todo o povo.

O anúncio profético refere-se ao restabelecimento de uma sociedade governada por um futuro rei, da descendência de Davi, que segue os princípios do direito e da justiça, assegurando a paz social. A tradição cristã aplica-o ao Messias. Ele vem na forma de um menino, filho do povo da esperança: “Um menino nos nasceu, um filho nos foi dado”. Os atributos a ele conferidos indicam sua identidade e missão: é Conselheiro-maravilhoso, fonte de sabedoria e discernimento; é Deus-forte, defensor dos fracos e resgatador dos seus direitos; é Pai-para-sempre, que zela com carinho pela vida de todos os seus filhos e filhas; é Príncipe-da-paz, aquele que aponta o caminho de superação dos conflitos entre os povos e promove as condições de vida plena para todos.

Esse menino é dom de Deus para a alegria do povo. O menino-luz contrasta com o poder das trevas, provocadas pela ambição e pela violência dos poderosos deste mundo. A fragilidade da criança confunde a força dos exércitos. O jeito de Deus revelar-se na história humana não obedece à lógica dos impérios. É possível relacionar o anúncio do nascimento dessa criança e as esperanças profetizadas a respeito para o contexto do profeta com o início da realização plena dessas esperanças no anúncio feito a Maria de Nazaré.

Evangelho: Lc. 2,1-14

O nascimento do Salvador

A narrativa do nascimento de Jesus obedece a uma intenção teológica. O Messias deveria nascer em Belém, por ser “a cidade de Davi”. Para Belém se dirige o casal José e Maria, em obediência ao decreto do imperador César Augusto, que impôs o recenseamento de todo o povo, cada um em sua cidade. Cumpre-se assim a profecia de Miqueias: “E tu, Belém, tão pequena entre as cidades de Judá, de ti sairá para mim aquele que governará Israel! A sua origem é antiga, desde os tempos remotos...” (Mq. 5,1). No entanto, Lucas ressalta que o ambiente onde se dá o nascimento do Salvador não tem conotação nenhuma com o triunfalismo de um palácio real. O Filho de Deus vem ao mundo numa manjedoura, do mesmo modo que muitas crianças, filhas de pastores e de outras categorias de pessoas marginalizadas. Para elas não havia lugar na cidade, nem mesmo podiam nascer num local adequado de uma casa comum.

O Salvador do mundo esconde-se na figura de um menino pobre (não apresenta nada de poderoso), filho de um casal de trabalhadores anônimos da região da Galileia. Desde o seu nascimento, Jesus solidariza-se com as pessoas exploradas e excluídas pelo sistema oficial de poder. É para essa gente, representada pelos pastores, que é anunciada primeiramente a alegre notícia da chegada de um menino, Deus que se fez carne, nosso redentor.

O anjo anuncia: “Nasceu-vos hoje um salvador, que é o Cristo Senhor!”. O termo “hoje”, para Lucas, tem significado especial. Para além da conotação cronológica, indica o tempo novo que Deus inaugura na história humana. É o tempo da salvação! O sinal é “um recém-nascido envolto em faixas e deitado numa manjedoura”. É o sinal da mudança de valores, subvertendo as expectativas de um Messias poderoso. O novo emerge do lugar social dos marginalizados, dos simples e pequeninos. A eles Deus se dá a conhecer e revela-lhes o seu plano de amor e de salvação. São essas pessoas as protagonistas de um mundo de paz; elas são a mediação da boa notícia do amor e da salvação de Deus.

Os pastores dirigem-se imediatamente a Belém para “ver” o que o Senhor lhes dera a conhecer. Encontram um casal comum dispensando cuidados a um filho recém-nascido. Com os olhos da fé, “veem” o Salvador na figura daquela criança. Entre eles estabelece-se uma relação de confiança e de diálogo sobre o sentido de todos aqueles sinais. Jesus, Maria, José e os pastores, na gruta de Belém, formam uma família de Deus, prenúncio da Igreja cristã.

Toda a criação participa deste “hoje”, tempo propício de paz e de alegria. Céus e terra unem--se para a celebração de “boas-vindas” daquele que os profetas anunciaram: o Messias, Senhor e Salvador do mundo. E Maria “conservava cuidadosamente todos esses acontecimentos e os meditava em seu coração”. De fato, esse mistério de amor de Deus, revelado no nascimento e em toda a vida de Jesus, só pode ser bem entendido com o coração.

2ª leitura: Tt. 2,11-14

A salvação é para todos

Tito foi um dos grandes colaboradores de Paulo na missão evangelizadora. Foi excelente animador de comunidades cristãs do primeiro século; verdadeiro pastor que zelou pela vida e pelo bem-estar de suas ovelhas. A tarefa assumida exige muita dedicação e capacidade de discernimento, a fim de manter e anunciar a “sã doutrina” (Tt. 2,1). A carta que lhe foi enviada visa orientá-lo e fortalecê-lo nessa missão confiada por Paulo.

O texto escolhido para esta noite de Natal reforça o fundamento da fé e a consequente prática cristã. O fundamento é a graça da salvação universal. Jesus, o Filho de Deus, manifestou--se ao mundo e entregou-se a si mesmo pela redenção de toda a humanidade. Portanto, “a graça de Deus se manifestou para a salvação de todas as pessoas”. Partindo desse fundamento, erigi-se todo o edifício da vida cristã. A prática decorrente da fé em Jesus Cristo, salvador do mundo, deve ser de acordo com os seus ensinamentos, a “sã doutrina”. Isso implica “abandonar a impiedade e as paixões mundanas” para “viver neste mundo com autodomínio, justiça e piedade”.

Essas orientações práticas tornam-se importantes também para nós hoje. Ao celebrar o Natal do Senhor, renovamos o compromisso de viver de modo coerente com a fé que nos foi transmitida. Ao proclamar que Jesus é nosso salvador, estamos também manifestando o propósito de viver conforme o seu evangelho. No meio do mundo – a casa que Deus escolheu para morar –, somos convidados a zelar pelas boas obras “com autodomínio, justiça e piedade”.

Pistas para reflexão

- A luz que brilha nas trevas. O povo de Israel, no meio de uma situação de trevas, recebe o anúncio profético do nascimento de um menino que vem restabelecer uma sociedade de paz e de justiça. Será o fim da opressão que pesa sobre os ombros do povo. A figura de um menino aponta para um futuro novo. Deus age na história humana por meio dos pequenos e fracos que nele depositam a confiança... 

- O nascimento do Salvador. Jesus vem ao mundo no lugar social das pessoas excluídas. Desde o seu nascimento, faz-se solidário com todas as pessoas que sofrem as consequências de uma sociedade injusta. O anúncio feito primeiramente aos pastores revela o jeito de Deus manifestar seu plano de amor e de salvação ao mundo: por meio dos simples e pequeninos. A celebração do Natal nos motiva a fazer como os pastores de Belém, pondo-nos a caminho para “ver” Jesus com os olhos da fé e acolhê-lo como nosso Senhor e Salvador; motiva-nos a ser como Maria, conservando cuidadosamente todos esses acontecimentos e meditando-os no coração; motiva-nos a nos relacionar como uma família de Deus, no amor mútuo; motiva-nos a abrir a mente e o coração para acolher a boa notícia de paz na terra... “Hoje” nos nasceu Jesus, o Salvador: cada momento de nossa vida é o “hoje divino”, tempo de graça e de salvação...

- A salvação é para toda a humanidade. Jesus é o Salvador de todos os povos. É o fundamento da fé cristã. Disso decorre nova prática, já não baseada na “impiedade e nas paixões mundanas”, mas no “autodomínio, na piedade e na justiça”. Deste modo, glorificamos a Deus e acolhemos a graça da salvação em Jesus Cristo, mediante uma vida pautada em boas obras...

Celso Loraschi

 

 
 

É noite, noite santa do Natal!

Houve um decreto de César Augusto… Ordenava. um recenseamento… Maria e José foram a Belém… Lá se completaram os dias para o nascimento do filho ela esperava. Ela deu à luz o seu filho primogênito. Ela o enfaixou e colocou na manjedoura…

Natal de uma criança, nascimento do mistério de Deus na terra dos homens, festa no céu e festa na terra, festa dos pequenos e dos simples, festa da pobreza e da bondade, festa das crianças e festa dos que foram convidados a voltar à intimidade de Deus.

Naquelas paragens havia pastores que passavam  a noite nos campos.  Esses pequenos da face da terra, homens simples, quase sem dentes, com flautas na boca e um bastão na mão, olham e admiram o presépio de um frágil menino. Os anjos dos céus convidam esses homens e verem o presente que o céu nos dá. Os espíritos celestes insistem: encontrareis um recém nascido envolvido em faixas e deitado numa manjedoura.  Um Deus com a corpo  simples das crianças.

Maria, sim, a Mãe Maria, envolve seu filho em panos.  Esse Jesus que nasce num quadro de singeleza e toda beleza é Deus que se torna fragilidade, carência, dependência. Ele vem vestido de criança e procurará os simples da face da terra  para manifestar a ternura do Pai que o enviou.

Isaías havia escrito tão apropriadamente: “Porque nasceu para nós um menino, foi-nos dado um filho. Ele traz nos ombros a faixa da realeza. O nome que lhe foi dado é: conselheiro admirável, Deus forte, pai dos tempos futuro, príncipe da paz”. Mais tarde, bem mais tarde esse menino será envolvido em panos depois de dar sua vida nu no alto da cruz.

Mas hoje é Natal e temos uma vontade louca de dizer a todos que é festa de Deus perto de nós, festa de toda sorte de desarmamento, festas de todos os que conservam o espírito da infância, festa dos  que não deixam de ficar admirados diante de um Deus que faz tantas maravilhas de humildade.

Podemos e devemos dizer-nos uns aos outros: “Boas festas… Hoje nasceu para nós um Menino que foi envolvido por sua mãe em panos e faixas. É Natal!”

frei Almir Ribeiro Guimarães

 
 

Johan Konings "Liturgia dominical"

 
 

O imperador César Augusto requisitou um censo que tinha duas finalidades, recrutar homens para o exército e, nas regiões dominadas por Roma, garantir o pagamento correto dos impostos. Cada cidadão deveria se apresentar em sua cidade natal para o alistamento e é por isso que José e Maria peregrinam de Nazaré, na Galiléia, para Belém, na Judéia, cidade natal de José e terra de seu antepassado Davi, onde ocorre o nascimento de Jesus, o Filho de Deus.

O Messias pobre nasce como líder e salvador na cidade de Davi, o rei que unificou o povo, trazendo-lhe vida, liberdade e paz. Seu nascimento se dá em condições de dificuldade e simplicidade, sendo anunciado pelos “anjos” aos pastores que, na época, eram excluídos por serem pobres e não terem como cumprir as exigências da Lei.

Lucas, em seu relato, mostra o contraste que caracteriza o nascimento de Jesus: o Filho de Deus que era esperado, revestido de poder e glória, nasce fora da cidade, na pobreza de um recanto qualquer de Belém.

A salvação de Deus chegou para todos, mas o relato do nascimento de Jesus mostra que ela começa pelos menos favorecidos, aqueles que vivem em situação de total pobreza, demonstrando a gratuidade de seu Reino, um Reino não de bens materiais, mas de amor, igualdade e fraternidade.

A “boa notícia” dada pelo anjo é dirigida primeiramente aos excluídos, pobres e marginalizados, que seguindo as orientações, vão encontrar o Salvador prometido dentro da própria situação em que vivem. Nesta noite, eles são os primeiros e únicos a verem se cumprir a profecia de Isaías: “O povo que caminha nas trevas viu uma grande luz; e eles experimentaram uma grande alegria”.

O menino pobre que nasce em Belém possui o poder da comunicação que vem de Deus, cuja glória é a sua ação na história que vai concretizar a paz para o povo no meio do qual ele optou nascer.

 
 

A luz nas trevas

1ª leitura: (Is. 9,1-6)

Nascimento de um príncipe, luz para o povo nas trevas – No tempo de Isaías, em 732 a.C., a população da Galileia (Zabulon e Neftali) tinha sido deportada para a Assíria, e sua terra é como as sombras da morte. Mas surge uma luz: o nascimento de um filho real. Ele recebe títulos de inimaginável grandeza, exprimindo a confiança colocada nele. A Galileia oprimida torna-se imagem de toda a humanidade, e aquele em quem ela coloca sua esperança deve ser o Salvador de todos. * 9,1-3 cf. Mt. 4,13-16; Jo. 8,12 ­* 9,5-6 cf. Is. 7,14; Nm. 24,7.17; Zc. 9,9-10.

2ª leitura: (Tt. 2,11-14)

Manifestou-se a graça de Deus – Entre a primeira manifestação da graça de Deus em Jesus e a segunda (no fim do tempo), situam-se o tempo da Igreja e a nossa História. Através de nós, o mundo experimentará algo do carinho de Deus. * 2,11-13 cf. Tt. 3,4; 1Jo. 2,16; 1Tm. 1,11; 2Tm. 1,10 * 2,14 cf. Sl. 130[129],8; Ex. 19,5; Ez. 37,23; 1Pd. 2,9; 3,13.

Evangelho: (Lc. 2,1-14)

Nascimento de Jesus e anúncio aos pastores – As esperanças messiânicas do A.T. oscilavam entre o surgimento de um novo rei davídico e um agir direto de Deus. No menino de Belém realizam-se ambas as expectativas: o Filho de Davi é Filho de Deus. Céu (anjos) e terra (pastores) o adoram. Ele é “o Senhor”, manifesta a glória de Deus e traz ao mundo a paz (cf. 1ª leitura) * cf. 1Sm. 10,1; 16,1-13; Mq. 5,1-4; Lc. 19,38.

 

A tradição litúrgica criou três missas para a festa de Natal: a de meia-noite (missa do galo), a da aurora e a do dia. A missa da noite banha no mistério: a luz que brilha na noite (oração do dia, 1ª leitura); a vinda do rei de justiça que surge qual luz para o povo oprimido (1ª leitura); a mensagem do anjo aos mais humildes, os pastores na fria e longa noite do inverno (evangelho).

Nesta atmosfera de mistério, a liturgia desdobra o anúncio do Natal do Messias e salvador, Jesus, filho de Maria e de José e, sobretudo, filho de Deus. A 1ª leitura lembra o nascimento de um príncipe, no tempo de Isaías (700 a.C.), que significa esperança para o povo abalado pelas invasões assírias. O salmo responsorial comenta que tais fatos são a prova de que Deus governa o mundo com justiça e os povos segundo sua fidelidade.

A 2ª leitura anuncia o tempo de Cristo como o tempo em que se manifesta a graça (amizade) de Deus, transformando a nossa noite em dia e luz.

O centro da celebração é o evangelho: o anúncio do nascimento do Salvador. Maria e José viajam a Belém, cidade de Davi, ancestral de José, para o recenseamento imposto pelo império Romano. A criança nasce num abrigo fora do lugar de hospedagem, que já está cheio. A salvação nasce lá onde menos se espera. As primeiras testemunhas, escolhidas por Deus, são os pastores que vivem em meio aos animais, fora da “sociedade”. A eles se dirige a majestosa mensagem da paz messiânica proclamada pelos coros celestiais: “Glória a Deus nas alturas e na terra paz aos que são do agrado de Deus”.

De acordo com o evangelho de Lucas, a pobreza é o lugar da salvação. Deus se manifesta nas trevas da vida humana em seu Filho, que se assemelha aos mais abandonados. Pois Deus quer tornar-se próximo de todos, a começar pelos que menos contam. É isso que se chama graça (palavra chave da 2ª leitura), graça que se manifesta para todos (Tt. 2,11). Essa graciosa aproximação de Deus realiza-se pelo que Jesus se assemelha aos que são chamados a serem sua própria gente (Tt. 2,14). É o “divino comércio” desta noite, na qual o céu e a terra trocam seus dons, para que possamos participar da filiação divina daquele que assumiu nossa condição humana (oração sobre as oferendas; prefácio de Natal III). Para que esse intercâmbio fosse completo, Deus quis que seu filho assumisse não só a fina flor da sociedade humana, mas suas raízes mais humildes arraigadas na escuridão da terra.

Jesus nasce pobre

Sete séculos antes de Cristo, o povo de Israel andava oprimido pelas ameaças dos assírios, que já tinham deportado parte da sua população. Em meio a essas trevas – anuncia o profeta – aparece uma luz: nasce um novo príncipe, portador das esperanças que seus títulos exprimem: “Conselheiro admirável, Deus forte” (1ª leitura). Em Jesus, o significado deste nascimento recebe sua plenitude. Ele nasce como luz para o povo oprimido. Seu nascimento no meio dos pobres é o sinal que Deus dá aos pastores (gente bem pobre), para mostrar que o Messias veio ao mundo (evangelho). No meio das trevas, eles se encontram envoltos em luz...

Celebramos “a aparição da graça de Deus” em Jesus (2ª leitura). A escolha dos pobres como primeiras testemunhas evidencia a gratuidade: nada de aparato oficial. Nós podemos corresponder a esta graça por uma vida digna e pela viva esperança – que se verifica em nossa prática – da plena manifestação da luz gloriosa de Cristo, quando de sua nova vinda. Quem acolhe Jesus no meio dos pobres não precisa ter medo de sua glória...

Reunindo-se em torno do presépio, o povo exprime algo muito importante. Jesus nasceu num estábulo, no meio dos pobres, que foram os primeiros a adorá-lo, porque, para ser o Salvador de todos, tinha que começar pelos mais abandonados. Quem quer ser amigo de todos tem que começar pelos pequenos, pois, se começa com os grandes, nunca chega até os pequenos. A devoção popular do presépio merece valorização e aprofundamento, e não podemos permitir que ela degenere em algo puramente comercial. À luz do presépio, solidariedade com Cristo significa solidariedade com os pobres. Viver uma vida “digna” (de Cristo) não significa elitismo, mas solidariedade em que se manifestam a graça e a bondade de Deus para todos.

padre Jaldemir Vitório

 
 

cônego Celso Pedro da Silva

 
 

José Raimundo Oliva

 
 

“Hoje, a Paz verdadeira desceu-nos do céu; hoje, os céus e a terra espalham doçura; hoje, raiou o dia do novo resgate de eterna alegria, há muito esperado!” – Estas palavras, a Igreja as reza por toda a terra no Ofício das Vigílias desta Noite santa. Mas, por que tanta exultação? Por que tanta luz? Por que tanta doçura, tanta ternura, tanta paz?

Hoje, cumpriu-se as Escrituras: o Dia tão esperado brilhou no meio da noite. Hoje, “o povo, que andava na treva”, a humanidade perdida e confusa, “viu uma grande luz; para os que habitavam nas sombras da morte”, para nós, que temos sempre de lutar contra tantas e tantas mortes, “uma luz resplandeceu!”. Nesta Noite, podemos comemorar, alegrarmo-nos como os que colhem depois do trabalho e do suor do plantio, porque algo inacreditável, algo que parece um sonho, um conto de fadas, nos aconteceu! Escutai, escutai: “Nasceu para nós um Menino, foi-nos dado um Filho; ele traz nos ombros a marca da realeza; o nome que lhe foi dado é: Conselheiro Admirável, Deus Forte, Pai dos tempos futuros, Príncipe da Paz. Grande será o seu reino e a paz não há de ter fim... a partir de agora e por todo sempre!” Eis a graça, a glória, o mistério desta Noite! Por isso a alegria: o Deus fiel cumpriu o que prometera e ultrapassou toda promessa. Nesta Noite tão santa, tão única, tão cheia de frescor, como são comoventes as palavras do Apóstolo na segunda leitura. Olhem o presépio, e escutem, olhem a manjedoura e prestem atenção: “A graça de Deus se manifestou trazendo salvação para todos os homens. Ela nos ensina a abandonar a impiedade e as paixões mundanas e a viver neste mundo com equilíbrio, justiça e piedade”. Olhem o presépio! Olhem o presépio: a graça de Deus é uma criança, o menino que nos foi dado! A graça de Deus está “envolvida em faixas e deitada numa manjedoura”. Que graça pequeninha; que graça tão grande! Que graça tão frágil; que graça tão forte! Quem é tão duro de coração, que não se comova? Quem é tão desumano, que não se emocione? Quem é tão pecador, que não queira aproximar-se de Deus? Quem é tão insensível, que não sinta, nesta Noite, o desejo de amar, o desejo de ser bom, o desejo de paz, o desejo de se deixar abraçar por Deus? “Não tenhais medo!” Quem quer que sejas tu: não temas! Não tenhas receio pelos teus pecados, não te afastes da graça desta Noite por causa das tuas infidelidades! Compreende: hoje, teu Deus vem a ti! Vem a ti a Paz, vem a ti o Perdão, vem a ti a Misericórdia, vem a ti a plenitude do teu coração e o sonho da tua vida! Hoje nasceu para ti, para nós, um Salvador!

Presta bem atenção: porque tu és fraco, ele veio sustentar-te; porque tu és inconstante, ele veio permanecer contigo; porque tu muitas vezes não sabes o caminho, ele se vez visível na nossa carne; porque tu vives em trevas, ele apareceu como luz; porque tu não podes subir a Deus, ele desceu para te elevar! Que amor tão grande, que caridade sem medida! Nesta Noite a Virgem deu à luz o próprio Deus na nossa humanidade mortal!

Por isso a alegria da Igreja, por isso, a exultação! Abramos nosso coração, abramos nossa vida, nossos afetos, nossos sentimentos, nossos projetos para o mistério desta Noite. No século V, são Leão Magno, Papa de Roma, dizia ao povo na noite de hoje: “Hoje, amados filhos, nasceu o nosso Salvador. Alegremo-nos! Não pode haver tristeza no dia em que nasce a vida; uma vida que, dissipando o temor da morte, enche-nos de alegria com a promessa da eternidade. Ninguém está excluído da participação nesta felicidade. Exulte o justo, porque se aproxima da vitória; rejubile o pecador, porque lhe é oferecido o perdão; reanime-se o pagão, porque é chamado à vida!”

Mas, estejamos atentos: porque Aquele que vem como luz no meio da noite, vem pobre, humilde, pequeno, frágil... e somente poderá ser reconhecido se estivermos atentos: atentos aos seus sinais, atentos às coisas pequenas, atentos aos irmãos mais frágeis, atentos ao que no mundo parece a toa, sem valor, sem importância, sem poder... O Menino somente pôde ser encontrado e reconhecido pela pobre Virgem Maria, pelo humilde José, pelos desprezados pastores... Os soberbos, os prepotentes, os esbanjadores, os orgulhosos jamais receberão a graça desta Noite!

Então, ouçamos ainda as palavras do papa são Leão; tomemos o seu apelo para esta Noite: “Toma consciência, ó cristão, da tua dignidade! Não voltes aos erros de antes por um comportamento indigno de tua condição. Lembra de que cabeça e de que corpo és membro. Despojemo-nos, portanto, do velho homem com seus atos; e tendo sido admitidos a participar do nascimento de Cristo, renunciemos às obras da carne!” 

Por tudo isso, concluamos como iniciamos, com as palavras da Liturgia da Igreja: “Hoje, a Paz verdadeira desceu-nos do céu; hoje, os céus e a terra espalham doçura; hoje, raiou o dia do novo resgate de eterna alegria, há muito esperado! Cantai ao Senhor Deus um canto novo; cantai ao Senhor Deus ó terra inteira... na presença do Senhor, pois ele vem!”

Que reine no coração de todos a graça desta noite! Amém.

 

 

“Alegremo-nos todos no Senhor: hoje nasceu o Salvador do mundo, desceu do céu a verdadeira Paz!”

Estamos no meio da noite... Noite! Ela significa escuridão, frio, medo pelo que não se vê, solidão... Noite! Ela é negativa, tão escura quanto o mundo atual, com seu ceticismo, seu cinismo, com seu consumismo, seu ateísmo prático e cada vez mais proclamado aos quatro ventos, com sua barbárie terrorista e abortista... Noite do mundo, com sua auto-suficiência e sua prepotência, com suas famílias destruídas, com sua solidão, com sua imoralidade, com a multidão de seus motéis e suas mentiras, com seu mercado de religiões que alienam em nome de um Deus que liberta... É noite! Estamos no meio dela! Mas, escutai! Escutai: “O povo que andava na escuridão, viu uma grande luz; para os que habitavam nas sombras da morte, uma luz resplandeceu. Fizeste, Senhor, crescer a alegria, e aumentaste a felicidade; todos se regozijam em tua presença! Porque nasceu para nós um Menino, foi-nos dado um filho; ele traz nos ombros a marca da realeza; o nome que lhe foi dado é: Conselheiro admirável, Deus forte, Pai dos tempos futuros, Príncipe da paz. Grande será o seu reino e a paz não há de ter fim... para todo o sempre. O amor zeloso do Senhor dos exércitos há de realizar estas coisas!”

Que palavras impressionantes, encantadoras, consoladoras! Palavras de fogo, de luz, que iluminam a nossa noite e enchem de esperança nosso coração! Dizei: quem é este Menino, esta criança com títulos tão pomposos, com destino tão impressionante, com missão tão encantadora? Certamente vamos encontrá-lo num palácio, coberto de fina seda, de ricos brocados, reclinado num berço de ouro cravejado de preciosas e raríssimas pedrarias, cercado de servos e pajens... Um Menino assim, só pode ser tratado assim! Mas, escutai o Evangelho! Que surpresa tão surpreendente! Escutai sobre o Menino; como nasceu, como veio, como apareceu entre nós: “Naqueles dias, César Augusto, o dono do mundo, o Bush do momento, publicou o recenseamento de toda a terra. Por ser da família e descendência de Davi, José subiu da cidade de Nazaré, na Galiléia, até a Cidade de Davi, chamada Belém, na Judéia, para registrar-se com Maria, sua esposa, que estava grávida. Completaram-se os dias para o parto, e Maria deu à luz o seu filho primogênito. Ela o enfaixou e o colocou no presépio, pois não havia lugar para eles na sala”. Caríssimos, como é possível um tal contra-senso? O Conselheiro admirável, o Deus forte, o Pai dos tempos futuros, o Príncipe da paz, nascido pobre, nascido de pobres, nascido entre os pobres, em circunstâncias tão pobres, tão imprevistas, tão absurdas, tão escandalosamente sem sentido? Como pode, tal loucura de Deus? Tal sabedoria de Deus, que nos desconcerta! Ó Deus, por que ages assim? Por que sempre nos surpreendes? Por que nos confundes? Por que superas e subvertes as nossas expectativas? Por que fazes sempre com que somente possamos te compreender e te reconhecer e te acolher se deixarmos a nossa lógica para abraçar a tua, se formo pequenos o bastante para nos deixar conduzir por ti? Ó Deus surpreendente! Ó Deus de Israel! Ó nosso Deus! Ó Deus que dispersas os homens de coração orgulhoso, depões do trono os poderosos e exaltas os humildes (cf. Lc. 1,51s).

Como pode? “Hoje, nasceu para nós o Salvador, o Cristo Senhor!” “Hoje, na cidade de Davi, nasceu para vós o Cristo Senhor!” E, se o quiserdes ver, irmãos e irmãs, se o quiserdes reconhecer, adorá-lo, não vadas ao shopping center, às festas ricas, ao salão dos grandes do mundo! Não! Quereis encontrá-lo? “Isto vos servirá de sinal: encontrareis um recém-nascido envolvido em faixas e deitado numa manjedoura!” E encontrareis também os pobres do mundo, pobres pastores misturados com anjos em festa! Encontrareis o mais vil e o mais nobre de mãos dadas no meio da noite, encontrareis o céu e a terra de mãos dadas, porque Deus veio ao nosso meio, Deus entrou na nossa miséria, Deus se fez um de nós, um como nós! Nesta Noite – Noite bendita, Noite santa, Noite que não dá medo, mas coragem, dissipa a angústia e traz a paz! – nesta Noite “o céu e a terra trocam seus dons”: é-nos dado participar da divindade daquele Menino que tomou para si a nossa humanidade!

Ante tal maravilha, ante tal mistério, ante tanta bondade do nosso Deus, que podemos fazer? Sigamos o conselho do Salmista – nós, e toda a criação: “Cantai ao Senhor Deus um canto novo, cantai ao Senhor Deus, ó terra inteira! Dia após dia anunciai sua salvação! O céu se rejubile e exulte a terra na presença do Senhor, pois ele vem!” Quereis mais? Escutemos o apóstolo: “Caríssimos, a graça de Deus se manifestou nesta noite bendita! Ela nos ensina a abandonar a impiedade e as paixões mundanas e a viver neste mundo com equilíbrio, justiça e piedade”.

Irmãos, irmãs! Quando sairmos da paz desta igreja, encontraremos o mundo ainda envolto nas trevas, numa noite escura, porque não sabe da Luz que brilhou nesta Noite santa. Amanhã, escutaremos ainda falar de atentados, violência, drogas, sensualidade, famílias destruídas, corrupção na política, impiedade. Semana próxima a televisão ainda tentará destruir o Evangelho, as revistas Veja, Época, Isto É, os jornais, ainda tentarão desmoralizar o cristianismo e a Igreja de Cristo... Eles não sabem que a Paz nasceu, eles não viram a Luz brilhar, elas não contemplaram o Menino que nos foi dado... Quanto a nós, saciados pela paz desta Noite santa, aguardemos com total confiança “a feliz esperança e a manifestação final do nosso grande Deus e Salvador, Jesus Cristo. Ele se entregou por nós no presépio e na cruz, para nos resgatar de toda maldade e purificar para si um povo que lhe pertença e que se dedique a praticar o bem!”

Nasceu-nos um Salvador! Alegrai-vos no Senhor! “Glória a Deus no mais alto dos céus, e paz na terra aos homens por ele amados!”

 

 

"A graça de Deus se manifestou trazendo salvação para todos os homens!” Esta palavra da segunda leitura desta Noite santíssima exprime o sentido da festa de hoje.

Vinde, aproximemo-nos do presépio! Para nossa surpresa, encontraremos, envolto em faixas, reclinado na manjedoura, Aquele que é a Graça de Deus feita carne, feita gente, feita um de nós! Que mistério tão grande e tão doce!

Andávamos perdidos, como tantos ainda hoje – cada vez mais, ainda hoje! Não tínhamos um sentido para a vida; éramos presos por nossas paixões, escravos de nossos desejos desencontrados, entregues aos nossos próprios pensamentos, que levam ao nada. Orgulhosos, seguíamos, cada um de nós, suas próprias idéias. Como os pagãos de hoje, pensávamos que éramos livres por fazermos o que queríamos e seguir nossa tênue e obscura luz... E, no entanto, éramos escravos de nós mesmos e de um mundo cego e perverso. Não sabíamos o que fazer com a vida, com a dor, com nossos instintos e tendências, com as feridas da existência; não compreendíamos o sentido do nosso caminho, não conseguíamos vislumbrar a estrada para a verdadeira felicidade e a verdadeira paz. O homem sozinho não consegue se vencer, não consegue se superar, não consegue se libertar... Nossa vida parecia, como a dos pagãos de hoje, uma fiada de futilidades vazias de verdadeira alegria e nosso destino seria a morte, vazia e sem sentido. Ainda hoje, tantos pagãos, nossos amigos e familiares, nossos distantes e nossos próximos, vivem assim! Ainda hoje, há tantas lâmpadas na nossa cidade e tão pouca luz!

Mas, para nós, nesta Noite mil vezes abençoada, “a graça de Deus se manifestou”! Nós vimos a Luz, Aquela que é capaz de iluminar a nossa existência! Jesus – eis o mais doce dos nomes; eis o nome dessa Graça bendita! Vinde, vinde contemplá-lo! Ele veio para nossa salvação! Veio para nos arrancar de nós mesmos, de nosso horizonte fechado e estreito; veio para abrir nosso pensamento, nosso sentimento, nossa vida, abri-los à dimensão do coração de Deus, fazendo-nos felizes e verdadeiramente humanos! Não seremos nós mesmos, não seremos realizados, não seremos livres, a não ser abrindo-nos para ele! Acolhamos a graça e vivamos uma vida nova: “Ela nos ensina a abandonar a impiedade e as paixões mundanas e a viver neste mundo, com equilíbrio, justiça e piedade!” Ele veio, irmãos, porque, sozinhos, não conseguimos encontrar a verdade de nossa vida...

Cada vez mais o mundo cai na treva, no paganismo, na cegueira. Tocamos, mais que nunca, a descristianização, a dissolução da família, a propagação do mal, a desmoralização de toda moral, de toda dignidade, de todo valor verdadeiro, a difusão de um pensamento anti-cristão e contrário aos santos ensinamentos da Igreja de Cristo. Nesta Noite sacratíssima, quantos estão se embriagando, quantos adulterando, quantos, pelas emissoras de televisão, esbaldando-se em uma programação mundana, quantos, nesta Noite esplendorosa e doce, nem sabem que existe uma esperança, um sentido, uma mão de Deus estendida para toda a humanidade. Quantos, amados irmãos, dizendo-se ainda cristãos, vivem no pecado, aplaudem o que condenável pela santa Palavra de Deus, o que é vil aos olhos do Senhor; quantos, que se dizem cristãos e pensam e sentem e vivem como o mundo! Eis que a Graça de Deus, hoje nascida do ventre da Sempre Virgem, convida-nos à conversão, convida-nos a uma séria mudança de modo de viver. Não seremos cegos, se vivermos na sua luz; não seremos perdidos, se seguirmos seus passos; não viveremos na morte, se nos abrirmos para a sua vida!

Bento XVI, nos seus votos de Natal, apresenta-nos uma frase dos sermões de santo Agostinho: “Expergiscere, homo: quia pro te Deus factus est homo” - “Desperta, ó homem, porque por ti Deus se fez homem!" E o bispo de Hipona continuava: "Desperta, tu que dormes, levanta-te dentre os mortos e sobre ti Cristo resplandecerá! Por tua causa, repito, Deus se fez homem. Estarias morto para sempre, se ele não tivesse nascido no tempo. Jamais te liberarias da carne do pecado, se le não tivesse assumido uma  carne semelhante à do pecado. Estarias condenado a uma eterna miséria, se não fosse a sua misericórdia. Não voltarias à vida, se ele não tivesse vindo ao encontro da tua morte. Terias perecido, se ele não te socorresse. Estarias perdido, se ele não viesse salvar-te". Tomemos consciência de tão grande graça! No Menino que repousa no presépio foi-nos dada a força para sair do sono miserável de uma vida medíocre e vazia, de uma existência morna e sem elã. Desperta, ó cristão, porque hoje brilhou para ti a luz! Por ti, o Filho eterno fez-se um de ti! Até onde Deus está disposto a te mostrar o seu amor, a tirar-te de tua vida vazia! “Aquele que deu forma a todas as coisas recebe a forma de escravo; Aquele que era Deus é gerado na carne; eis que ele é envolvido em panos, Aquele que era adorado no firmamento; e eis que repousa numa manjedoura Aquele que reinava no céu” (missal gótico, missa do Natal). Despertemos, caríssimos! Que nossa alegria desta Noite, que a paz que inunda o nosso coração transborde numa vida mais comprometida com o Cristo Jesus! Que nossa existência seja realmente conforme a santidade e a liberdade daquele que hoje nasceu da Virgem Santíssima! “Porque nasceu para nós um menino, foi-nos dado um filho; ele traz nos ombros a marca da realeza; o nome que lhe foi dado é: Conselheiro admirável, Deus forte, Pai dos tempos futuros, Príncipe da paz”.

dom Henrique Soares da Costa

 
 

A liturgia desta noite fala-nos de um Deus que ama os homens; por isso, não os deixa perdidos e abandonados a percorrer caminhos de sofrimento e de morte, mas envia “um menino” para lhes apresentar uma proposta de vida e de liberdade. Esse menino será “a luz” para o povo que andava nas trevas.

A primeira leitura anuncia a chegada de “um menino”, da descendência de David, dom de Deus ao seu Povo; esse “menino” eliminará a guerra, o ódio, o sofrimento e inaugurará uma era de alegria, de felicidade e de paz sem fim.

O Evangelho apresenta a realização da promessa profética: Jesus, o “menino de Belém”, é o Deus que vem ao encontro dos homens para lhes oferecer – sobretudo aos pobres e marginalizados – a salvação. A proposta que Ele traz não será uma proposta que Deus quer impor pela força; mas será uma proposta que Deus oferece ao homem com ternura e amor.

A segunda leitura lembra-nos as razões pelas quais devemos viver uma vida cristã autêntica e comprometida: porque Deus nos ama verdadeiramente; porque este mundo não é a nossa morada permanente e os valores deste mundo são passageiros; porque, comprometidos e identificados com Cristo, devemos realizar as obras d’Ele.

1ª leitura – Is. 9,1-6 – AMBIENTE

No livro do profeta Isaías aparece um conjunto de oráculos ditos “messiânicos”, que falam desse mundo de justiça e de paz que Deus, num futuro sem data marcada, vai oferecer ao seu Povo. No entanto, não é seguro se esses textos provêm do profeta, ou se são oráculos posteriores, que o editor final da obra de Isaías enxertou no texto original do profeta… É o caso deste texto que nos é proposto.

Se for de Isaías, o nosso texto pertence, provavelmente, à fase final da vida do profeta… Estamos na época do rei Ezequias, no final do séc. VIII a.C.; o rei, desdenhando as indicações do profeta (para quem as alianças políticas são sintoma de grave infidelidade para com Jahwéh, pois significam colocar a confiança e a esperança nos homens), envia embaixadas ao Egito, à Fenícia e à Babilônia, procurando consolidar uma frente contra a grande potência da época – a Assíria. A resposta de Senaquerib, rei da Assíria, não tarda: tendo vencido, sucessivamente, os membros da coligação, volta-se contra Judá, devasta o país e põe cerco a Jerusalém (701 a.C.). Ezequias tem de submeter-se e fica a pagar um pesado tributo aos assírios.

Desiludido com os reis e com a política, o profeta teria, então, começado a sonhar com um tempo novo, sem guerra nem armas, onde reinam a justiça, o direito e o “temor de Deus”. Este texto pode ser dessa época.

O “menino” aqui referenciado, da descendência de David, pode também estar relacionado com o “Emanuel” de Is 7,14-17. Trata-se, em qualquer caso, de um texto que vai alimentar a esperança messiânica e que vai potenciar o sonho de um futuro novo, de paz e de felicidade para o Povo de Deus.

MENSAGEM

Para descrever a situação de opressão, de frustração, de desespero, de falta de perspectivas, de desconfiança em relação ao futuro em que a comunidade nacional estava mergulhada, o profeta fala de um “povo que andava nas trevas” e que habitava “nas sombras da morte”. O panorama é sombrio e parece não haver saída, pois os reis de Judá já provaram ser incapazes de conduzir o seu Povo em direção à felicidade e à paz.

Mas, de repente, aparece uma “luz”. Essa luz acende a esperança e provoca uma explosão de alegria. Para descrever essa alegria, o profeta utiliza duas imagens extremamente sugestivas: é como quando, no fim das colheitas, toda a gente dança feliz celebrando a abundância dos alimentos; é como quando, após a caçada, os caçadores dividem a presa abundante.

Mas porquê essa alegria e essa felicidade? Porque o jugo da opressão que pesava sobre o Povo foi quebrado e a paz deixou de ser uma miragem para se tornar uma realidade. No quadro que representa a vitória da paz, vemos os símbolos da guerra (o pesado calçado dos guerreiros e as roupas ensangüentadas) a serem destruídos pelo fogo. Quem é que provocou a alegria do Povo, derrotou a opressão, venceu a guerra, restaurou a paz? O autor não o diz claramente; mas ninguém duvida que tudo isso é ação do Deus libertador.

Como foi que Deus instaurou essa nova ordem? Foi através de “um menino”, enviado para restaurar o trono de David e para reinar no direito e na justiça (as palavras “mishpat” e “zedaqa”, utilizadas neste contexto, evocam uma sociedade onde as decisões dos tribunais fundamentam uma reta ordem social, onde os direitos dos pobres e dos oprimidos são respeitados e onde, enfim, há paz). O quádruplo nome desse “menino” evoca títulos de Deus ou qualidades divinas (o título “conselheiro maravilhoso” celebra a capacidade de conceber desígnios prodigiosos e é um atributo de Deus – cf. Is. 25,1; 28,29; o título “Deus forte” é um nome do próprio Jahwéh – cf. Dt. 10,17; Jr. 32,18; Sl. 24,8; o título “príncipe da paz” leva também a Jahwéh aquele que é “a paz” – cf. Is. 11,6-9; Mi 5,4; Zc. 9,10; Sl. 72,3.7). Quanto ao título “Pai eterno”, é um título do rei – cf. 1 Sm 24,12 – e é um título dado ao faraó nas cartas de Tell el-Amarna). Fica, assim, claro que esse “menino” é um dom de Deus ao seu Povo e que, com Ele, Deus residirá no meio do seu Povo, oferecendo-lhe cada dia a justiça, o direito, a paz sem fim.

ATUALIZAÇÃO

• É Jesus, o “menino de Belém”, que dá sentido pleno a esta profecia messiânica de Isaías. Ele é “aquele que veio de Deus” para vencer as trevas e as sombras da morte que ocultavam a esperança e instaurar o mundo novo da justiça, da paz e da felicidade. O nascimento de Jesus que celebramos esta noite significa que, efetivamente, este “Reino” chegou e encarnou no meio dos homens. No entanto: ele é hoje uma realidade instituída, viva, atuante na história humana? Porquê?

• Acolher Jesus, celebrar o seu nascimento, é aceitar esse projeto de justiça e de paz que Ele veio trazer aos homens. Esforçamo-nos por tornar realidade o “Reino de Deus”? Como lidamos com a injustiça, a opressão, a guerra, a violência: com a indiferença de quem sente que não tem nada a ver com isso, ou com a inquietação de quem se sente responsável pela instauração do “Reino de Deus”?

• Em quê, ou em quem coloco eu a minha esperança e a minha segurança? Nos políticos que me prometem tudo e se servem da minha ingenuidade para fins próprios? No dinheiro que se desvaloriza e que não serve para comprar a paz do meu coração? Na situação sólida da minha empresa, que pode desfazer-se diante das próximas convulsões sociais ou durante a próxima crise energética? Isaías diz que só podemos confiar em Deus e nesse “menino” que Ele mandou ao nosso encontro, se quisermos encontrar a “luz” e a paz.

• Reparemos, ainda, no “jeito” de Deus: Ele não se serve da força e do poder para intervir na história e para mudar o mundo; mas é através de um “menino” – símbolo máximo da fragilidade e da dependência – que Deus propõe aos homens o seu projeto de salvação. Temos consciência de que é na simplicidade e na humildade que Deus age no mundo? E nós seguimos os passos de Deus e respeitamos a sua lógica quando queremos propor algo aos nossos irmãos?

2ª leitura – Tito 2,1-14 - AMBIENTE

Tito, o destinatário desta carta, é um cristão convertido por Paulo (cf. Tt. 1,4), que acompanhou o apóstolo em algumas missões importantes (participou, com Paulo, no concílio de Jerusalém – cf. Ga 2,1-2; esteve com ele em Éfeso; por duas vezes, foi enviado a Corinto, a fim de resolver conflitos entre Paulo e essa comunidade – cf. 2 Cor 7,6-7; 8,16-17) e que foi animador da Igreja de Creta (cf. Tt 1,5).

No entanto, esta carta não parece ser de Paulo; parece, antes, ser um texto tardio, surgido quando a preocupação fundamental das comunidades cristãs já não se centrava na vinda iminente do Senhor, mas em definir a conduta dos cristãos no tempo presente. Estamos numa época de certo marasmo, em que os cristãos perderam o entusiasmo inicial e em que muitos aparecem instalados, acomodados numa fé morna e sem grandes exigências. Era preciso recordar os fundamentos da fé e exortar a uma vida cristã exigente e comprometida. Neste contexto, a preocupação fundamental do autor desta carta será apresentar uma série de conselhos práticos que ajudem os cristãos a viver, com coerência e com verdade, a sua fé no meio do mundo.

MENSAGEM

Neste fragmento, verdadeiro centro e coração de toda a carta, o autor tenta dar aos cristãos razões válidas para viver uma vida cristã autêntica e comprometida. Quais são essas razões?

A primeira é o amor (“kharis”) de Deus, que foi oferecido a todos os homens. É esse amor que possibilita a renúncia à impiedade e aos desejos deste mundo e a vivência da temperança, da justiça e da piedade; sendo os destinatários desse amor transformador e renovador, temos de viver uma vida nova e comprometida com o Evangelho.

A segunda é a esperança na manifestação gloriosa de Cristo, que convida os homens a perceber que a terra não é a sua pátria definitiva; quem espera a segunda vinda de Cristo, percebe que só faz sentido olhar para os bens essenciais; consequentemente, desprezará os bens materiais, que só interessam a este mundo.

A terceira é a obra redentora levada a cabo por Cristo. Cristo entregou-Se totalmente, até à morte, para nos salvar do egoísmo, do orgulho, do pecado e para fazer de nós homens novos. Ligados a Ele pelo batismo, tornamo-nos um com Ele e recebemos vida d’Ele… Se estamos ligados a Cristo e se recebemos d’Ele vida, essa vida tem de manifestar-se na nossa existência diária.

ATUALIZAÇÃO

• Temos consciência do amor de Deus e que a encarnação de Jesus é o sinal mais expressivo desse amor por nós? Sendo os destinatários de um tal amor, amamos Deus da mesma maneira? A nossa vida é uma resposta coerente ao amor de Deus – isto é, um compromisso autêntico com Deus e com os seus valores?

• A nossa civilização ocidental institucionalizou e sacralizou uma série de valores efémeros (dinheiro, poder, êxito profissional, “status” social, bens de consumo…) e montou uma máquina de publicidade eficaz para os apresentar como a chave da verdadeira felicidade. No entanto, com frequência esses valores estão em absoluta contradição com os valores do Evangelho… Aprendemos, com Jesus, a ter um olhar crítico sobre os valores que o mundo nos propõe e a confrontar, dia a dia, a nossa vida com os valores do Evangelho?

• É Cristo a nossa referência? É d’Ele que recebemos vida? O seu “jeito” de viver (no amor, na entrega, no dom da vida) foi assumido na nossa vida de todos os dias e na nossa relação com os irmãos que nos rodeiam?

Evangelho – Lc. 2,1-14 – AMBIENTE

Lucas é o evangelista mais preocupado com as referências históricas… O seu Evangelho está cheio de indicações que procuram situar com precisão os acontecimentos… No que diz respeito ao nascimento de Jesus, Lucas apresenta também algumas indicações que pretendem situar o acontecimento numa época e num espaço concreto… Dessa forma, Lucas dá a entender que não estamos diante de um fato lendário, mas de algo perfeitamente integrado na vida e na história dos homens.

Há, no entanto, um problema… Lucas é um cristão de origem grega, que não conhece a Palestina e que tem noções muito básicas da história do Povo de Deus… Por isso, as suas indicações históricas e geográficas são, com alguma frequência, imprecisas e inexatas. Pode ser o caso das indicações fornecidas a propósito do nosso texto, já que não é muito fácil explicá-las.

É duvidoso que Quirino, como governador, tenha ordenado um recenseamento na época em que Jesus nasceu (só por volta do ano 6 d.C. é que ele se tornou governador da Síria, embora possa ter sido “legado” romano na Síria entre 12 e 8 a.C. Pode, realmente, nessa altura, ter ordenado um recenseamento que teve efeitos práticos na Palestina por volta de 6/7 a.C., altura do nascimento de Jesus).

De qualquer forma, convém ter em conta que Lucas não está escrevendo história, mas fazendo teologia e a apresentar uma catequese sobre Jesus, o Filho de Deus que veio ao encontro dos homens para lhes apresentar uma proposta de salvação.

MENSAGEM

A primeira indicação importante vem da referência a Belém como o lugar do nascimento de Jesus… É uma indicação mais teológica do que geográfica: o objetivo do autor é sugerir que Jesus é o Messias, da descendência de David (a família de David era natural de Belém), anunciado pelos profetas (cf. Mq. 5,1). Fica, desta forma, claro que o nascimento de Jesus se integra no plano de salvação que Deus tem para os homens – plano que os profetas anunciaram e cuja realização o Povo de Deus aguardava ansiosamente.

Uma segunda indicação importante resulta do “quadro” do nascimento. Lucas descreve com algum pormenor a pobreza e a simplicidade que rodeiam a vinda ao mundo do libertador dos homens: a falta de lugar na hospedaria, a manjedoura dos animais a fazer de berço, os panos improvisados que envolvem o bebe, a visita dos pastores… É na pobreza, na simplicidade, na fragilidade, que Deus se manifesta aos homens e lhes oferece a salvação. Os esquemas de Deus não se impõem pela força das armas, pelo poder do dinheiro ou pela eficácia de uma boa campanha publicitária; mas Deus escolhe vir ao encontro dos homens na simplicidade, na fraqueza, na ternura de um menino nascido no meio de animais, na absoluta pobreza. É assim que Deus entra na nossa história… É assim a lógica de Deus.

Uma terceira indicação é dada pela referência às “testemunhas” do nascimento: os pastores. Trata-se de gente considerada rude, violenta, marginal, que invadiam com os rebanhos as propriedades alheias e que tinham fama de se apropriar da lã, do leite e das crias do rebanho em benefício próprio. Eram, com frequência, colocados ao lado dos publicanos e dos cobradores de impostos pela rígida moral dos fariseus: uns e outros eram pecadores públicos, incapazes de reparar o mal que tinham feito, tantas eram as pessoas a quem tinham prejudicado. Ora, Lucas coloca, precisamente, esses marginais como as “testemunhas” que acolhem Jesus. O evangelista sugere, desta forma, que é para estes pecadores e marginalizados que Jesus vem; por isso, a chegada de um tal “salvador” é uma “boa notícia”: a partir de agora, os pobres, os débeis, os marginalizados, os pecadores, são convidados a integrar a comunidade dos filhos amados de Deus. Eles vêm ao encontro dessa salvação que Deus lhes oferece, em Jesus, e são convidados a integrar a comunidade da nova aliança, a comunidade do “Reino”.

Uma quarta indicação aparece nos títulos dados a Jesus pelos anjos que anunciam o nascimento: Ele é “o salvador, Cristo Senhor”. O título “salvador” era usado, na época de Lucas, para designar o imperador ou os deuses pagãos; Lucas, ao chamar Jesus desta forma, apresenta-O como a única alternativa possível a todos os absolutos que o homem cria… O título “Cristo” equivale a “Messias”: aplicava-se, no judaísmo palestinense do séc. I, a um rei, da descendência de David, que viria restaurar o reino ideal de justiça e de paz da época davídica; dessa forma, Lucas sugere que o “menino de Belém” é esse rei esperado. O título “Senhor” expressa o caráter transcendente da pessoa de Jesus e o seu domínio sobre a humanidade. Com estes três títulos, a catequese lucana apresenta Jesus aos homens e define o seu papel e a sua missão.

ATUALIZAÇÃO

• O menino de Belém leva-nos a contemplar o incrível amor de um Deus que Se preocupa até ao extremo com a vida e a felicidade dos homens e que envia o próprio Filho ao mundo para apresentar aos homens um projeto de salvação/libertação. Nesse menino de Belém, Deus grita-nos a radicalidade do seu amor por nós.

• O presépio apresenta-nos a lógica de Deus que não é, tantas vezes, igual à lógica dos homens: a salvação de Deus não se manifesta nos encontros internacionais onde os donos do mundo decidem o destino dos homens, nem nos gabinetes ministeriais, nem nos conselhos de administração das multinacionais, nem nos salões onde se concentram as estrelas do jet-set, mas numa gruta de pastores onde brilha a fragilidade, a dependência, a ternura, a simplicidade de um bebé recém-nascido. Qual é a lógica com que abordamos o mundo: a lógica de Deus, ou a lógica dos homens?

• A presença libertadora de Jesus neste mundo é uma “boa notícia” que devia encher de felicidade os pobres, os débeis, os marginalizados e dizer-lhes que Deus os ama, que quer caminhar com eles e que quer oferecer-lhes a salvação. É essa proposta que nós, os seguidores de Jesus, passamos ao mundo? Nós, Igreja, não estaremos demasiado ocupados a discutir questões laterais, esquecendo o essencial – o anúncio libertador aos pobres?

• Jesus – o Jesus da justiça, do amor, da fraternidade e da paz – já nasceu, de forma efetiva, na vida de cada um de nós, nas nossas casas religiosas, nas nossas comunidades cristãs?

P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho

 
 

Francisco Fernández-Carvajal

 

 

Pedro Scherer

 

 

padre Aureliano de Moura Lima, SDN

 

 

Deus, uma criança em nossos braços

Os acontecimentos de nossa história parecem destoar daquilo que se acredita ser o espírito do Natal. Não falam de paz e de amor, mas de morte e de miséria. Além disso, o fracasso, a injustiça ou a enfermidade nos fazem provar o lado escuro da vida. E, no entanto, a Igreja e a tradição cristã continuam nos oferecendo o Natal como uma das festas centrais do ano.

O que essa festa nos oferece é algo muito simples: o nascimento de uma criança. A imagem viva da fraqueza e da impotência. Mas nessa criança está presente o Filho de Deus, o Todo-Poderoso, o Salvador. Esta é a forma genial que tem Deus de nos salvar. Talvez, o único modo possível. Se Deus chegasse com todo o seu poder não teria sido para nos salvar, mas para nos raptar. Deus nos teria feito felizes à força, à maneira daqueles doentes mentais que são mantidos calmos à custa de tranqüilizantes o Deus, exatamente por ser Deus, nos respeita e não invade o nosso território. Deus bate à nossa porta e entra apenas se deixarmos. Por isso, entra em nosso mundo pela porta natural, isto é, como uma criança, apenas mais uma criança. Para reconhecê-lo faz falta fé, simplicidade, sinceridade, abertura de coração, sentir-se pobre e carente de salvação. Nós, que estamos cheios de nós mesmos e nos sentimos fortes com nossas próprias forças e com nosso dinheiro, temos dificuldade para compreender e viver o Natal. Às vezes, até, é um tempo em que nos sentimos mais tristes que o normal. Não o entendemos! Não entendemos que Deus se tenha feito criança.

Na criança de Belém, Deus se torna um de nós, se aproxima de nós. Nessa proximidade reencontramos a esperança. Uma criança é sempre motivo de alegria e de esperança porque é uma vida nova. E a vida é motivo de alegria. Deus, ao fazer-se criança, nos diz que continua acreditando em nós. Deus inteiro encarna-se na fragilidade de uma criança e quer que cuidemos dele. Deus se fia em nós. Não faz falta que deixemos de ser conscientes dos fatos negativos do nosso mundo. Mas agora sabemos que o próprio Deus está entre nós. Confia de tal maneira em nós que se fez pequeno e frágil. Depende dos nossos cuidados. Sem eles, como qualquer criança, não sobreviveria. E é esse o motivo de nossa esperança. Deus continua amando este mundo. Natal é uma ocasião para reafirmarmos a nossa fé. Acreditamos em Deus, acreditamos ser Ele o único Salvador, ainda que a nossa fé seja fraca. Senhor, dai-nos esperança! Senhor, aumentai a nossa fé!

Alguma vez, quando eu me senti fraco, tive a experiência de ser cuidado e amado? Como é que eu me senti naquele momento? Percebo que, de fato, somos crianças nos braços de Deus? Que neste Natal viva a alegria do amor, com o qual Deus me presenteia em Jesus.

 

 

A leitura que ouvimos, tirada da carta do apóstolo são Paulo a Tito, começa solenemente com a palavra «apparuit», que encontramos de novo na leitura da Missa da Aurora: «apparuit – manifestou-se». Esta é uma palavra programática, escolhida pela Igreja para exprimir, resumidamente, a essência do Natal. Antes, os homens tinham falado e criado imagens humanas de Deus, das mais variadas formas; o próprio Deus falara de diversos modos aos homens (cf. Hb. 1,1: leitura da missa do dia). Agora, porém, aconteceu algo mais: Ele manifestou-Se, mostrou-Se, saiu da luz inacessível em que habita. Ele, em pessoa, veio para o meio de nós. Na Igreja antiga, esta era a grande alegria do Natal: Deus manifestou-Se. Já não é apenas uma idéia, nem algo que se há-de intuir a partir das palavras. Ele «manifestou-Se». Mas agora perguntamo-nos: Como Se manifestou? Ele verdadeiramente quem é?

A este respeito, diz a leitura da Missa da Aurora: «Manifestaram-se a bondade de Deus (…) e o seu amor pelos homens» (Tt. 3,4). Para os homens do tempo pré-cristão – que, vendo os horrores e as contradições do mundo, temiam que o próprio Deus não fosse totalmente bom, mas pudesse, sem dúvida, ser também cruel e arbitrário –, esta era uma verdadeira «epifania», a grande luz que se nos manifestou: Deus é pura bondade. Ainda hoje há pessoas que, não conseguindo reconhecer a Deus na fé, se interrogam se a Força última que segura e sustenta o mundo seja verdadeiramente boa, ou então se o mal não seja tão poderoso e primordial como o bem e a beleza que, por breves instantes luminosos, se nos deparam no nosso cosmos. «Manifestaram-se a bondade de Deus (…) e o seu amor pelos homens»: eis a certeza nova e consoladora que nos é dada no Natal.

Na primeira das três leituras desta Missa de Natal, a liturgia cita um texto tirado do livro do Profeta Isaías, que descreve, de forma ainda mais concreta, a epifania que se verificou no Natal: «Um Menino nasceu para nós, um filho nos foi concedido. Tem o poder sobre os ombros, e dão-lhe o seguinte nome: “Conselheiro admirável! Deus valoroso! Pai para sempre! Príncipe da Paz!” O poder será engrandecido numa paz sem fim» (Is. 9,5-6).

Não sabemos se o profeta, ao falar assim, tenha em mente um menino concreto nascido no seu período histórico. Mas isso parece ser impossível. Trata-se do único texto no Antigo Testamento, onde de um menino, de um ser humano, se diz: o seu nome será Deus valoroso, Pai para sempre. Estamos perante uma visão que se estende muito para além daquele momento histórico apontando para algo misterioso, colocado no futuro. Um menino, em toda a sua fragilidade, é Deus valoroso; um menino, em toda a sua indigência e dependência, é Pai para sempre. E isto «numa paz sem fim». Antes, o profeta falara duma espécie de «grande luz» e, a propósito da paz dimanada d’Ele, afirmara que o bastão do opressor, o calçado ruidoso da guerra, toda a veste manchada de sangue seriam lançados ao fogo (cf. Is. 9,1.3-4).

Deus manifestou-Se… como menino. É precisamente assim que Ele Se contrapõe a toda a violência e traz uma mensagem de paz. Neste tempo, em que o mundo está continuamente ameaçado pela violência em tantos lugares e de muitos modos, em que não cessam de reaparecer bastões do opressor e vestes manchadas de sangue, clamamos ao Senhor: Vós, o Deus forte, manifestastes-Vos como menino e mostrastes-Vos a nós como Aquele que nos ama e por meio de quem o amor há-de triunfar.

Fizestes-nos compreender que, unidos convosco, devemos ser artífices de paz. Amamos o vosso ser menino, a vossa não-violência, mas sofremos pelo facto de perdurar no mundo a violência, levando-nos a rezar assim: Demonstrai a vossa força, ó Deus. Fazei que, neste nosso tempo e neste nosso mundo, sejam queimados os bastões do opressor, as vestes manchadas de sangue e o calçado ruidoso da guerra, de tal modo que a vossa paz triunfe neste nosso mundo.

Natal é epifania: a manifestação de Deus e da sua grande luz num menino que nasceu para nós. Nascido no estábulo de Belém, não nos palácios do rei. Em 1223, quando Francisco de Assis celebrou em Greccio o Natal com um boi, um jumento e uma manjedoura cheia de feno, tornou-se visível uma nova dimensão do mistério do Natal. Francisco de Assis designou o Natal como «a festa das festas» – mais do que todas as outras solenidades – e celebrou-a com «solicitude inefável» (2 Celano, 199: Fontes Franciscanas, 787). Beijava, com grande devoção, as imagens do menino e balbuciava-lhes palavras de ternura como se faz com os meninos – refere Tomás de Celano (ibidem).

Para a Igreja antiga, a festa das festas era a Páscoa: na ressurreição, Cristo arrombara as portas da morte, e assim mudou radicalmente o mundo: criara para o homem um lugar no próprio Deus. Pois bem! Francisco não mudou, nem quis mudar, esta hierarquia objetiva das festas, a estrutura interior da fé com o seu centro no mistério pascal. Mas, graças a Francisco e ao seu modo de crer, aconteceu algo de novo: ele descobriu, numa profundidade totalmente nova, a humanidade de Jesus. Este fato de Deus ser homem resultou-lhe evidente ao máximo, no momento em que o Filho de Deus, nascido da Virgem Maria, foi envolvido em panos e colocado numa manjedoura.

A ressurreição pressupõe a encarnação. O Filho de Deus visto como menino, como verdadeiro filho de homem: isto tocou profundamente o coração do Santo de Assis, transformando a fé em amor. «Manifestaram-se a bondade de Deus e o seu amor pelos homens»: esta frase de São Paulo adquiria assim uma profundidade totalmente nova. No menino do estábulo de Belém, pode-se, por assim dizer, tocar Deus e acarinhá-Lo. E o ano litúrgico ganhou assim um segundo centro numa festa que é, antes de mais nada, uma festa do coração.

Tudo isto não tem nada de sentimentalismo. É precisamente na nova experiência da realidade da humanidade de Jesus que se revela o grande mistério da fé. Francisco amava Jesus menino, porque, neste ser menino, tornou-se-lhe clara a humildade de Deus. Deus tornou-Se pobre. O seu Filho nasceu na pobreza do estábulo. No menino Jesus, Deus fez-Se dependente, necessitado do amor de pessoas humanas, reduzido à condição de pedir o seu, o nosso, amor.

Hoje, o Natal tornou-se uma festa dos negócios, cujo fulgor ofuscante esconde o mistério da humildade de Deus, que nos convida à humildade e à simplicidade. Peçamos ao Senhor que nos ajude a alongar o olhar para além das fachadas lampejantes deste tempo a fim de podermos encontrar o menino no estábulo de Belém e, assim, descobrimos a autêntica alegria e a verdadeira luz.

Francisco fazia celebrar a santíssima Eucaristia, sobre a manjedoura que estava colocada entre o boi e o jumento (cf. 1 Celano, 85: Fontes, 469). Depois, sobre esta manjedoura, construiu-se um altar para que, onde outrora os animais comeram o feno, os homens pudessem agora receber, para a salvação da alma e do corpo, a carne do Cordeiro imaculado – Jesus Cristo –, como narra Celano (cf. 1 Celano, 87: Fontes, 471). Na Noite santa de Greccio, Francisco – como diácono que era – cantara, pessoalmente e com voz sonora, o Evangelho do Natal. E toda a celebração parecia uma exultação contínua de alegria, graças aos magníficos cânticos natalícios dos Frades (cf. 1 Celano, 85 e 86: Fontes, 469 e 470). Era precisamente o encontro com a humildade de Deus que se transformava em júbilo: a sua bondade gera a verdadeira festa.

Hoje, quem entra na igreja da Natividade de Jesus em Belém dá-se conta de que o portal de outrora com cinco metros e meio de altura, por onde entravam no edifício os imperadores e os califas, foi em grande parte tapado, tendo ficado apenas uma entrada com metro e meio de altura. Provavelmente isso foi feito com a intenção de proteger melhor a igreja contra eventuais assaltos, mas sobretudo para evitar que se entrasse a cavalo na casa de Deus. Quem deseja entrar no lugar do nascimento de Jesus deve inclinar-se.

Parece-me que nisto se encerra uma verdade mais profunda, pela qual nos queremos deixar tocar nesta noite santa: se quisermos encontrar Deus manifestado como menino, então devemos descer do cavalo da nossa razão «iluminada». Devemos depor as nossas falsas certezas, a nossa soberba intelectual, que nos impede de perceber a proximidade de Deus. Devemos seguir o caminho interior de São Francisco: o caminho rumo àquela extrema simplicidade exterior e interior que torna o coração capaz de ver. D

Devemos inclinar-nos, caminhar espiritualmente por assim dizer a pé, para podermos entrar pelo portal da fé e encontrar o Deus que é diverso dos nossos preconceitos e das nossas opiniões: o Deus que Se esconde na humildade dum menino acabado de nascer.Celebremos assim a liturgia desta Noite santa, renunciando a fixarmo-nos no que é material, mensurável e palpável. Deixemo-nos fazer simples por aquele Deus que Se manifesta ao coração que se tornou simples. E nesta hora rezemos também e sobretudo por todos aqueles que são obrigados a viver o Natal na pobreza, no sofrimento, na condição de emigrante, pedindo que se lhes manifeste a bondade de Deus no seu esplendor, que nos toque a todos, a eles e a nós, aquela bondade que Deus quis, com o nascimento de seu Filho no estábulo, trazer ao mundo.

papa Bento XVI - 24 de dezembro de 2011