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A  PÁTRIA  DE  SANTO  AGOSTINHO

PRÉ-HISTÓRIA AFRICANA

Antigamente, a Europa estava unida à África. De Gibraltar - sul da Espanha - se podia ir a pé até Tânger - norte da África. A costa de uma e outra, assim como a flora e a fauna, não tinham grande diferença.

Tempos depois, no decorrer dos séculos, o mar abriu um caminho através de Gibraltar e, com a mudança que isso supõe, modificou-se o aspecto das terras, deixando de ser frescas e úmidas. O sol foi torrando-as a apareceu o atual deserto do Saara. O litoral continuou sendo fértil. Durante séculos, habitou nestas regiões um povo que, em sua maior parte, tinha olhos azuis, pele e cabelos escuros.

Historicamente não podemos precisar com exatidão quando isso aconteceu, nem quando este povo se assentou nas costas africanas. É muito provável que viessem da Europa pelo Estreito de Gibraltar. Talvez cruzassem pelas ilhas do Oeste da Itália... De qualquer maneira, eles se assentaram de modo permanente no Norte da África. Conservaram suas tradições e sua própria língua, e suportaram a dominação de sucessivas culturas. Este povo tinha o nome de “Berberes”.

Herdaram o nome de Berberes dos Romanos, que deram a algumas tribos um nome genérico, mais ou menos equivalente a “bárbaros”,  embora já os conhecessem com o nome de “Afri” - os africanos - e sua terra se chamava África.

É possível que todos estes povos pertencessem ao mesmo grupo racial. No decorrer dos anos experimentaram profundas mudanças e se misturaram com seus sucessivos conquistadores e povos que chegaram até seu litoral.

Juntamente com os Berberes, existiam os Númidas - no princípio simples nômadas -  e os Mouros, que eram de rosto mais vermelho e escuro. Em todos eles se poderia descobrir as marcas características dos fenícios, gregos, romanos, judeus e outros povos com os quais mantiveram contato. No entanto, apesar de todos os povos conquistadores eles conservaram substancialmente o mesmo caráter até nosso dias.

Não há estudos profundos da língua desse povo, embora se continua falando em muitas partes a dos Berberes de nossos dias. Os filólogos parecem concordar que essa língua pertence à mesma família da língua falada pelos antigos Egípcios.

PÁTRIA DE SANTO AGOSTINHO

Santo Agostinho pertencia a este povo, ou seja, era de raça Berbere. Como estrela refulgente, se levantará no norte da África e contribuirá para engrandecer a Igreja nessa região geográfica, onde o cristianismo era já florescente.

Em seu tempo, a influência dos romanos se fazia sentir mais viva, tanto na língua como no aspecto cultural e religioso.

Se, em todos os povos do norte da África, se pode afirmar que existe uma estreita relação com o meio-ambiente e o tempo dos romanos, temos que confessar que isso é muito mais exato aplicado ao caso concreto de Agostinho. Por isso, o consideramos cidadão romano.

Santo Agostinho viveu quase toda a sua vida na África; somente esteve cinco anos na Itália (Roma e Milão); Tagaste e Hipona são os dois lugares chaves na existência do grande doutor da Igreja universal. A partir da cidade de Hipona, ele se interessa por todas as questões de seu tempo; mantêm relações com o oriente e ocidente. recebe mensageiros da Espanha e Palestina; nunca, porém, sentiu a necessidades de sair de sua pátria, nem para visitar os amigos.

ÁFRICA  ROMANA

Nos finais do século IV depois de Cristo, o norte da África estava completamente submetida à dominação romana. De fato, no ano 146 a.C., os romanos, vencedores em Cartago, organizaram lá a mais antiga de suas províncias de ultramar; depois estenderam mais e mais seus domínios.

Com muita freqüência, estes povos se expressam em grego, que era o melhor meio de ser compreendido em todo o mundo, algo assim como o que acontece com o inglês hoje em dia. Em todas as cidades de alguma importância, e sobretudo em Cartago, o elemento grego tem uma grande influência.

No entanto, não é o grego, mas o latim, a língua da civilização e da literatura da África romana. Aqueles que acreditavam ter uma boa educação se expressavam em latim.

O norte da África era considerado como um dos principais celeiros de Roma. Por isso, foram para lá comerciantes, industriais, importadores e grandes famílias da nobreza romana. Devido a isto, o norte da África vai se latinizando pouco a pouco; debilita-se o elemento nativo e cresce o poder dos conquistadores, ou seja, o progresso da conquista é paralelo ao avanço da romanização.

Quando o cristianismo chega a África, lança suas raízes principalmente entre os latinos, inclusive com maior força que na própria Roma. Tradicionalmente, a Igreja da África é uma Igreja latina.

ÁFRICA  CRISTÃ

Não  se sabe com segurança quando o Evangelho chegou pela primeira vez ao norte da África, pois não existem documentos a respeito disso.

É provável que Cartago e as principais cidades da costa, tivessem escutado logo a mensagem de Cristo pois, já no ano 180, aparecem documentos que nos mostram a Igreja africana com um longo passado e um numerosíssimo grupo de fieis: “No século III, Cipriano era bispo de Cartago (248). Proclamou a colegialidade para lutar contra os cismas ou enfrentar-se passageiramente com Roma (cuja dignidade ele reconhecia) a propósito dos sacramentos. Morreu mártir em 258. O século IV será marcado pela figura do bispo de Hipona, santo Agostinho. Nascido em Tagaste e batizado em Milão em 387, foi ordenado sacerdote e bispo em 394. Sua atividade de pastor e pregador será determinante para a vida das Igrejas da África do norte, que infelizmente desapareceram depois dele” (Imágenes de la fe, nº 160 - pág. 4)

Esta Igreja tem uma característica própria: é urbana e latina, ou seja, desenvolve-se sobretudo nas grandes cidades, pois o elemento nativo não a deixa chegar facilmente até o campo. É latina, enquanto lança suas raízes especialmente entre gente que fala latim, mais que a língua grega. Este fenômeno se explica porque toda a sua força era trazida de Roma, onde o latim era a língua principal.

Durante os séculos III e IV a Igreja africana era muito forte e o episcopado muito bem organizado. O número dos bispos era realmente numeroso; por exemplo: no ano 220, se reúnem 90 bispos africanos para julgar um colega seu. No ano 256, com são Cipriano à frente, se reúnem 87 bispos para examinar o problema do batismo administrado pelos hereges.

No ano 335 se reúnem, em Cartago, 270 bispos donatistas e, em 394, se reúnem outros 310 na Numidia. No ano 411, numa grande conferência, se reúnem 286 bispos católicos e 297 donatistas (mais adiante veremos algo sobre eles).

Aparentemente, as cifras anteriores não têm muito interesse, mas demonstram que a Igreja africana era muito vigorosa e influente nos tempos de santo Agostinho.

No entanto, nem tudo era cor-de-rosa; trabalhar com as massas populares nunca foi fácil, muito menos na África. Em muitas partes, elas se deixaram vencer pela cultura e o Evangelho. No norte da África, ao contrário, essas massas permaneceram rebeldes a tudo que tinha relação com a cultura romana, inclusive com o Evangelho. Se alguma vez se dobravam, era à força e aparentemente. Quando tinham oportunidade, se rebelavam e voltavam aos antigos ídolos.

Havia, certamente, muitas igrejas e uma multidão de fieis, mas também um cristianismo muito superficial. Dificilmente aceitavam a Cristo e, facilmente, o abandonavam.

A ÁFRICA NOS TEMPOS DE AGOSTINHO

Este caráter do cristianismo africano se manifestou cedo, inclusive com cismas e heresias, como no caso dos “donatistas”, assim chamados devido a seu fundador, o bispo Donato. Como aconteceram estas coisas?

Quando morreu Mensúrio, bispo de Cartago, escolheram como sucessor o bispo Ceciliano. Mas alguns opositores não quiseram reconhece-lo, dentre eles Donato, que era um dos bispos de Numídia. Num concílio que se realizou em Cartago - ano 312 - depuseram Ceciliano. Para ocupar seu lugar escolheram um tal Majorino, ao qual sucedeu o próprio Donato, que organizou muito bem a oposição e deu nome à seita dos donatistas. Ensinavam, entre outras coisas, que os sacramentos administrados por sacerdotes indignos eram inválidos.

O donatismo tem muita importância na história agostiniana porque santo Agostinho, sendo já bispo, lutou contra eles. Santo Agostinho afirmava, por exemplo, que Cristo é o autor dos sacramentos e os sacerdotes e bispos são simples ministros ou canais pelos quais a graça se comunica aos homens. Esta tem sido sempre a doutrina verdadeira da Igreja.

É nesta situação, ou seja, quando a Igreja da África se encontrava dividida, que vem ao mundo Agostinho, na pequena cidade de Tagaste, atual Souk-Ahras, na Numídia.

AS CONFISSÕES DE SANTO AGOSTINHO

Quando se fala de Santo Agostinho, sempre se associa sua vida com o seu famoso livro autobiográfico: as “Confissões”.

Este gênero literário é famoso. Existem confissões filosóficas e confissões piedosas, como também existe uma infinidade de confissões para atrair um público ávido de sensacionalismo. Em qualquer livraria ou banca de revistas, o leitor atual, membro da sociedade de consumo, também encontra este falso alimento para aumentar a onda de erotismo que se estende pelo mundo. E compra este subgênero literário para matar o tempo.

As “Confissões” de santo Agostinho não se parecem com este gênero de literatura fácil que se lê e joga no lixo. Não creia que você vai encontrar relatos impressionantes, cenas escabrosas, como as que se lê em alguma novela, ou algo semelhante ao estilo de uma fotonovela.
Para Agostinho, a palavra “Confissões”, mais que confessar pecados, significa “adorar a Deus”. É um verdadeiro hino de louvor de um coração arrependido. Eis suas própria palavras: ‘Recebe, Senhor, o sacrifício destas confissões, por médio desta língua que me destes e que excitas, para que louve o teu nome... Louve-te minha alma, para que possa chegar a amar-te; que te confesse todas as tuas misericórdias e por elas te louve. Não cessa em teu louvor, nem cala teus louvores, a criação inteira; nem as cala o espírito, que fala pela boca de quem se converte a Ti...’ (Conf. V, 1, 1).

Apesar de narrar seus extravios, seus erros e seus pecados, a intenção é mostrar sua pequenez comparada com a grandeza e a misericórdia de Deus. É mais uma oração dirigida a Deus que um discurso aos homens. Continuamos com suas próprias palavras: ‘Permita-me, no entanto, falar ante tua misericórdia, a mim, que sou pó e cinza; deixa-me falar, pois falo à tua misericórdia e não a um homem escarnecedor que pode rir-se de mim. Talvez apareça risível ante teus olhos, mas Tu te voltarás a mim cheio de misericórdia’ (Conf. I, 6, 7)