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CONGADO:ORIGENS E IDENTIDADE |
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Licença, por favor, Identidade brasileira, povos Bantus na África. O cristianismo afro no Congo, Irmandades do Rosário, na África e em todo lugar. O aparecimento de Nossa Senhora interpretado Bantos no Brasil candombe Chico rei missa Conga, por fim. LICENÇA, POR FAVOR
Sou um
franciscano holandês chegado ao Brasil em 1967. Quase direto, fui para o vale do
Jequitinhonha, onde encontrei um montão de coisas que não conhecia. Pude
vivenciar alimentos diferentes com farinha de mandioca, alho e pimenta, outras
maneiras de fazer comércio, de curar a espinhela caída e quebranto, coisas que
nunca tinha ouvido falar. É o que cantam os tamborzeiros quando chegam à festa, em Araçuaí, no mês de outubro. E, hoje também, peço licença para falar do assunto: origens e identidade do congado. IDENTIDADE BRASILEIRA
A identidade do congado, antes de
tudo, é brasileira. A partir da África, são 500 anos de história desde a viagem
no Atlântico (calunga), a escravidão, as lutas, os reinados e tudo, até hoje. É
brasileira a identidade do congado. Os irmãos do rosário estão vivos e sua
identidade é dinâmica, mesmo quando pretendem conservar suas tradições,
sabedorias e organização. POVOS BANTUS NA ÁFRICA Na África, os bantus (mais de 500 povos) formam um grupo lingüístico. O termo "bantu" não significa uma cultura. Muito tempo antes dos portugueses chegarem à África, já havia os povos bantus. Atravessaram as densas florestas do centro da África e, isso demorou séculos. Nessa façanha, misturaram-se com outros povos e venceram outros. Forjaram-se reinados, e uma civilização hieraquizada; não uma única cultura e sim muitas. Explicamos a diversidade cultural dos bantus, pela importância dada aos antepassados. Cada grupo étnico bantu tem seus antepassados como ponto de união. É deles que apreenderam a sabedoria dos provérbios; dos antigos receberam as leis para fazer justiça no caso de uma briga de terras ou entre famílias; é deles que aprenderam a religião, a cura das doenças e os instrumentos musicais e todas as outras coisas da vida. Assim, cada grupo, cada clã, cada povo de bantu tem sua cultura própria. Portanto, existe a civilização bantu na África, o grupo lingüístico bantu e muitas culturas bantu. O CRISTIANISMO AFRO NO CONGO Desde que os portugueses chegaram ao Golfo da Guiné, o cristianismo entrou lá e pegou. Em 1533, foi criada a diocese de Cabo Verde e Guiné. Outra diocese fundada no reino do Congo já celebrou os seus 400 anos de existência! Muitos escravos bantos do Brasil já eram cristãos na África. No Golfo da Guiné, a recepção do cristianismo não foi passiva. No reino do Congo, surgiram algumas manifestações afro-católicas. A jovem Beatrice Kimpa Vita liderava um movimento de Sto. Antônio, que africanizava o cristianismo. Ela encarnava santo Antônio e disse que Jesus e muitos santos nasceram no Congo. Beatrice foi condenada pela inquisição e morreu na fogueira, em 1706. [1] Curiosamente, no Brasil, encontramos Luiza Pinta, escrava de Angola e devota de santo Antônio em Sabará (MG), que foi torturada pela inquisição, em Lisboa no ano de 1742. Quem sabe, a Luiza tenha pertencido ao movimento da Beatriz? IRMANDADES DO ROSÁRIO NA ÁFRICA E EM TODO LUGAR Como Nossa Senhora do Rosário entrou na devoção dos negros, em Portugal, na África e no Brasil? Uma lenda contada em todas as irmandades coloca a Senhora do Rosário como sendo a origem do congado. Vamos ver isso com calma.
A irmandade do rosário (dos brancos)
fundada na Alemanha em 1409, chegou a Lisboa em 1478. A mais antiga menção a
uma “Confraria de Nossa Senhora do Rosário dos Homens
Em 1526, já havia na ilha de são Tomé a irmandade dos "Homens Pretos". [2] Outras irmandades do Rosário existem no Congo, na Angola e em Moçambique, desde o séc.XVII. Antes de 1552, já existia no Brasil uma irmandade para os escravos da Guiné, segundo frei Odulfo van der Vat.ofm e outros historiadores. Em 1610, o rei do Congo entrou na irmandade do rosário fundada por frei Lourenço O.P., em Mbanza, capital do Reino do Congo. Entendemos que as irmandades do rosário surgidas no Brasil, não vieram só da Europa, mas também da África. Provavelmente, houve escravos africanos que já vieram para cá irmãos do rosário.
O APARECIMENTO DE NOSSA SENHORA INTERPRETADO
A criativa história do aparecimento
de Nossa Senhora do Rosário, fundadora das irmandades dos homens pretos, é
antiga e pertence ao cristianismo banto. Muitos dizem que Nossa Senhora apareceu
no Brasil, poucos dizem que foi na África. Os congadeiros contam que os brancos,
donos de escravos, não conseguiram tirar ela do lugar; o candombe (ou o
moçambique) pelejou e conseguiu. Ela ficou com os negros e aceitou-os como eram:
pobres, escravos sofridos, com seus reinados e tambores. Os brancos foram
passados para trás, nessa história. O candombe repete este tema.
Vejo pessoas dizerem que Nossa Senhora do Rosário, com o rosário na mão, representa Ifá! Considero isso como um terrível equívoco. Como podem negros bantos que não conhecem orixás - e, sim, bacuros, inquices e antepassados, - enxergar Ifá atrás da Mamãe do Rosário? Os congadeiros antigos não ensinam isso não! Os bantos praticam uma imensa fidelidade aos antepassados. É certo tentar descobrir os elementos afro da devoção de N.S.do Rosário. Mas, que seja um elemento bantu! A experiência religiosa dos congadeiros deve ser levada a sério! Volto a afirmar: é difícil entender a espiritualidade vivida pelos congadeiros e perceber como o rosário de Maria os sustenta nas dificuldades na vida? Para mim, isso é sempre um grande mistério, uma coisa que respeito muito. BANTOS NO BRASIL No censo 2000, 50% dos brasileiros declararam ser afro-descendente. Isso mostra a importância do nosso assunto. Ao falar da identidade das irmandades do rosário em Minas - e que também existem em outros estados, - não podemos esquecer que a grande maioria dos escravos que vieram para o Brasil são de origem bantu. A questão bantu é complexa. Isso observamos, por exemplo, na luta pela valorização da identidade negra no Brasil. Ao afirmar a "negritude", muitos afirmam principalmente valores dos iorubas, jejes, quêtos (no Brasil chamados nagôs). Dizem axé (!) e consultam os búzios para saber qual é seu orixá. Ora, o candomblé é respeitável. Conheço e reverencio seus grandes líderes e admiro os cultos nos ilês. Mas, na busca da identidade do congado, não podemos confundir as coisas.
O candombe e o candomblé são
diferentes desde a origem.Os nagôs dos candomblés do Brasil vieram de reinados
situados ao norte do rio Congo.
CANDOMBE O candombe é o que há de mais banto no congado. É um grupo "de raiz". Uma espécie de sociedade fechada na qual reúnem-se negros de Nossa Senhora do Rosário que desejam ser cristãos sem deixar de ser bantos. Sabendo que, deste modo, correm o risco de alguma perseguição, dão-se ao direito de utilizar uma linguagem enigmática e de não revelar o candombe a forasteiros. No candombe são lembrados os antepassados, ali são tocados os tambores antigos e sagrados (Santana, Santaninha e Chama), e Zâmbi (Deus Criador) está com eles. É assim que sobrevivem as manifestações culturais dos bantu-descendentes do Brasil. Os candombeiros guardam bem seus mistérios e não há livros a respeito. Ostumam dizer: "lingua que fala muito, merece faca de sapateiro." Em muitas coisas, o candombe se parece com o jongo e o caxambu. É uma pena que ultimamente vários candombes pararam de tocar. CHICO REI
Do famoso "Chico Rei", a história
oficial não conta muita coisa. Não existem documentos a seu respeito. Há
romances que são inventados. Mas, a história de "Chico Rei" é verdadeira na
medida em que ela representa coisas acontecidas com muitos negros escravos.
Imaginem, no tempo da escravidão
MISSA CONGA
A missa Conga é uma manifestação
recente. Sempre houve missas nas festas de N. Sra. do Rosário, mas não existiram
manifestações "afro" com tambores dentro das igrejas. Pelo menos, disso não
temos notícia, nem mesmo nos sécs. XVI, XVII e XVIII quando o padroado e a
igreja do Brasil ainda não seguiam o direito canônico da igreja tridentina que
proibia o uso de qualquer tambor na Vejo com muita contrariedade alguns vigários dizerem que o congado pode aparecer na Igreja, mas para cantar as músicas do movimento carismático. Puxa vida... Quando uma vez ao ano, um grupo pobre de congado de N.Sra.do Rosário pede ao vigário da igreja católica - que fez opção pelos pobres, - para celebrar a festa do rosário com reinado, tambores e dança, e o vigário não o permite porque "tem um batizado", ou “vocês chegam sempre atrasados e cantam umas coisas que eu não entendo direito”. Um padre disse: "Eu não vou coroar um homem que não é rei. Isso é palhaçada!" Outro sugere que os congadeiros podem pedir uma intenção na missa e ficar na Igreja igual a todo mundo “para fazer a festa depois, onde quiserem”. Não há mais como entender essas coisas. Os congadeiros são filhos de Deus, são católicos! A igreja não é do padre. Os congadeiros estão na sua igreja! Será possível que, até hoje, o negro para ser um cristão tem de deixar de ser negro. Sempre aprendi que a igreja é o povo. Como, nessa igreja, não há espaço para a memória do sofrimento da escravidão e da África? Nas igrejas do Brasil - católicas, evangélicas, pentecostais - existe uma grande ignorância quanto à história do negro. A experiência religiosa dos escravos e sua expressão cultural não podem ser banidas da igreja. A história não se nega e a identidade não se negocia! Pelejo para entender o que queriam os bispos da America Latina reunidos em Santo Domingo (1992), quando colocaram a inculturação como prioridade pastoral. Segundo o documento final da sua importante conferência episcopal, "uma meta da evangelização inculturada será sempre a salvação de um determinado povo ou grupo humano que fortaleça sua identidade e confie em seu futuro específico, contrapondo-se aos poderes da morte, adotando a perspectiva de Jesus Cristo encarnado, que salvou a vida de todos partindo da fraqueza, da pobreza e da cruz redentora." (No. 243) Existem alguns grupos de congados ligados à umbanda, porque? A partir da segunda metade do séc.XIX, a igreja católica romanizada interditou e até derrubou várias igrejas do rosário para impedir a ação das irmandades dos "homens pretos" ou dos "pardos". Segundo o direito canônico da época, o vigário da paróquia era presidente nato de todas a irmandades e associações religiosas. Isso trouxe choques violentos entre o clero e as irmandades, até então dirigidas por leigos. Diante desta luta pelo poder, o negro atingido passou a pensar assim: "minha história não posso negar!" E deu-se ao direito de celebrar a memória da África e da escravidão onde fosse bem recebido. Foi assim que costumes dos irmãos do rosário se misturaram com costumes dos cultos afro-brasileiros. Tanto as irmandades do rosário, como os terreiros do candomblé e da umbanda foram uma força muito grande para os negros que tiveram suas famílias destruídas pelo sistema da escravidão. No rosário, havia os irmãos e também a "Mamãe do Rosário", além da autoridade do rei e da rainha. Nos terreiros, havia pai-de-santo, mãe-de-santo, filhos-de-santo. Na verdade, irmandades e terreiros eram substitutos da vida familiar, da união que precisavam para viver e para se criarem. CONCLUSÃO Chegamos ao final. Espero que possa ter contribuído para esclarecer algumas coisas que acontecem nas irmandades. Peço desculpas se alguns temas ficaram muito resumidos. Um dia, vi na capital mineira um grupo de moçambique atravessando a avenida. Em meio aos enormes prédios dos bancos e com os ônibus passando barulhentos, parecia um acontecimento insignificante. Mas ouvi eles cantando: "Esses pretos se soubessem, a força que o negro tem, não atoleravam cativeiro de ninguém" frei Francisco van der Poel ofm www.religiosidadepopular.uaivip.com.br/artigos.htm
[1] Cf. VAINFAS, Ronaldo (direção). Dicionário do Brasil Colonial (1500-1808). Rio de Janeiro, Ed.Objetiva, 2000. p.68. [2] BOXER,C.R.. “Race Relations in the Portuguese Colonial Empire, 1415-1825”. Oxford, Clarendon Press, 1963. p.14. Apud: KIDDY, Elizabeth W.. Brotherhoods of Our Lady of the Rosary of the Blacks: Community and Devotion in Minas Gerais, Brazil. Albuquerque, New Mexico, 1998. p.79 |