DITOS DOS PADRES DO DESERTO
Sobre Deus
1.
“Se
o homem não fala a seu coração: “Deus e eu estamos sozinhos no mundo, nunca
encontrará descanso”, dizia o abade Alônio.
2.
Dizia o abade Mios: “Obediência traz obediência. Se alguém obedece a Deus, Deus
lhe obedece”.
3.
“Se
um homem realmente quisesse, um dia apenas, do amanhecer ao anoitecer, lhe seria
suficiente para alcançar a medida da divindade”, dizia o abade Monio.
4.
Disse um ancião: “Ó homem, se quiseres viver segundo a lei de Deus, deves ter
como protetor o próprio autor da lei”
5.
Dizia um ancião: “Se o teu pensamento mora em Deus, a força de Deus mora em ti”.
6.
Disse um ancião: “Nunca dei um passo sem saber onde colocar os pés. Parava para
refletir, sem ceder, até que Deus me tomasse pela mão”.
7.
Um
ancião disse: “Quando um se faz louco pelo Senhor, na mesma proporção o Senhor o
tornará sábio”.
8.
Disse o abade Iperéquio: “Conserva sempre o Reino dos Céus no espírito, e logo o
receberás em herança”.
9.
O
abade Moisés afirmou: “É inútil tudo o que um homem pode pensar a respeito do
que existe debaixo do céu. Somente quem persevera na recordação de Jesus está na
verdade”.
10.
Disse um ancião: O esforço e a solicitude por não pecar têm uma única
finalidade: não afastar de nossa alma a Deus que nela habita”.
11.
Gregório disse: “Que a tua obra seja pura pela presença do Senhor e não pela
exibição”.
12.
Perguntou-se ao nosso santo pai Atanásio, arcebispo de Alexandria: “De que modo
o Filho é igual ao Pai?” Respondeu: “Como a visão nos dois olhos”.
13. Disse um ancião:
“Faço aquilo de que o homem tem necessidade: temer o julgamento divino, odiar o
pecado, amar a virtude, e invocar a Deus sem cessar”
14.
Disse um ancião: “José de Arimatéia tomou o corpo de Jesus e o envolveu
com um sudário limpo e num sepulcro novo, isto é, num homem novo. Que cada um
tenha o máximo cuidado de não pecar, para não ultrajar a Deus que nele habita, e
para não expulsá-lo de sua alma. O maná foi dado a Israel para alimentar-se no
deserto, mas ao verdadeiro Israel foi dado o Corpo de Cristo”.
15.
Dizia um ancião: “Um homem não pode ser bom mesmo se tenha a vontade de sê-lo e
se esforce com todas as suas forças, se Deus não habita nele, pois ninguém é bom
senão Deus”.
16.
Disse um ancião: “Deus habita naquele no qual nada
penetra de estranho”.
17.
Dizia um ancião: “Suporta o opróbrio e a aflição pelo nome de Jesus com
humildade e coração contrito. Revela diante dele a tua fraqueza e ele será tua
força”.
18.
Disse o abade Amun: “Suporta todo homem assim como Deus te suporta”.
19. Disse um ancião:
“Se o homem faz a vontade do Senhor, jamais deixa de ouvir a voz interior”.
20.
O
abade Jacó disse [a um irmão]: “Força teu coração a ir ao Senhor”. E o irmão
disse: “Como, meu pai?” E respondeu-lhe o ancião: “Como Jesus forçou seus
discípulos a entrarem na barca, do mesmo modo força o teu coração a ir ao
Senhor”. 21. Disse o abade João: “Esta palavra está escrita no Evangelho: “Quando Jesus chamou Lázaro para fora do sepulcro, suas mãos e pés estavam amarrados e seu rosto envolvido num pano; Jesus o desatou e o despediu. Nós, portanto, temos as mãos e os pés amarrados e nosso rosto está coberto com um pano obra das mãos do inimigo. Se, portanto, escutamos Jesus, ele nos livrará de tudo isso e nos libertará da escravidão de todos esses maus pensamentos. Então seremos filhos do Senhor, receberemos em herança as promessas e seremos filhos do Reino Eterno”. Sobre a Paz
1.
Os sacerdotes da região visitaram as celas dps monges das redondezas. Num
deles habitava Pastor. O abade Anub se apresentou e disse: “Convidamos esses
sacerdotes para hoje aceitarem, aqui, os dons de Deus, preparando um ágape”.
Pastor, que estava em pé, assim permaneceu por longo tempo, sem responder. O
abade Anub retirou-se, entristecido. Aqueles que estavam sentados ao lado dele,
perguntaram-lhe porque não tinha respondido. “Isso não me pertence”,
respondeu-lhes, “porque já estou morto; um morto não fala. Por isso, não me
considerai como se estivesse no meio de vós”.
2. Alguns irmãos foram
visitar um santo ancião que habitava num local deserto. Encontraram, na
vizinhança, crianças que apascentavam as ovelhas e falavam entre si de modo
enervante. Os irmãos viram o ancião, abriram-lhe seus sentimentos e tiveram
proveito com suas respostas. Depois lhe disseram: “Pai, porque aceitas ao teu
derredor estas crianças e não lhes ordenas de parar com esse barulho?” O ancião
respondeu: “Irmãos, acreditai, há dias em que gostaria de fazer isso, mas me
controlo, dizendo: Se não suporto esses gritos, como poderei suportar uma grande
provação, se Deus permitir que se me apresente? Deste modo, não digo nada, para
habituar-me a suportar tudo aquilo que acontece”.
3. Um irmão perguntou a
um ancião: “Qual é a cultura da alma que produz frutos?” Respondeu o ancião:
“Nisto consiste a cultura da alma: a paz do corpo, muitas preces corporais, não
prestar atenção nos erros dos outros, mas nos seus. Se o homem persevera nisso
tudo, sua alma não demorará a produzir frutos”.
4. Perguntou-se a
uma ancião: “Por que acontece que eu me canso sempre? Porque ainda não conheces
a meta”, respondeu.
5. Num dia, um noviço
resolveu renunciar ao mundo. Disse ao ancião: “Quero ser monge”. O ancião
respondeu: “Não conseguirás”. E o outro: “Conseguirei”. O ancião disse: “Se
realmente queres, vai, renuncia ao mundo e depois vem morar em tua cela”. Ele
foi, doou o que possuía, guardou para si cem moedas e retornou ao ancião. O
ancião lhe disse: “Vai morar em tua cela”. Ele foi. Enquanto lá estava, seus
pensamentos lhe disseram: “A porta está velha e deve ser trocada”. Foi, e disse
ao ancião: “Meus pensamentos me dizem: A porta está velha e deve ser trocada”. O
ancião lhe respondeu: “Ainda não renunciaste ao mundo; vai, renuncia ao mundo e
depois volta aqui”. Ele foi, doou noventa moedas, guardou dez e disse ao
ancião: “ Eis, renunciei ao mundo”. Disse-lhe o ancião: “Vai, habita tua cela”.
Ele foi. Enquanto lá estava, seus pensamentos lhe disseram: O teto é velho e
deve ser refeito”. Dirigiu-se ao ancião: “Meus pensamentos me dizem: o teto é
velho e deve ser refeito”. Disse-lhe o ancião: “Vai, renuncia ao mundo”. O irmão
foi, doou as dez moedas e retornou ao ancião: “Eis: renunciei ao mundo”.
Enquanto estava em sua cela, seus pensamentos lhe disseram: “Tudo é muito velho,
virá um leão e me devorará”. Expôs esses pensamentos ao ancião, que lhe disse:
“Eu gostaria que tudo caísse encima de mim e que um leão viesse devorar-me, para
ser libertado desta vida. Vai, habita tua cela e reza a Deus”.
6. Um ancião tornou-se
bispo. Piedoso e pacífico, não repreendia ninguém, suportando com paciência as
culpas e os pecados de cada um. Acontece que seu ecônomo não administrava
corretamente os negócios da Igreja e alguns vieram reclamar ao bispo: “Por que
não repreendes este ecônomo tão negligente?” O bispo aceitou a repreensão. No
dia seguinte, os acusadores do ecônomo retornaram ao bispo, irritados contra
ele. Advertido, o bispo se escondeu em algum lugar e não o acharam.
Procuraram-no muito tempo, finalmente o descobriram e lhe disseram: “Por que te
escondeste?” Ele respondeu: “Porque aquilo que consegui alcançar em sessenta
anos, à força de pedir a Deus, vós o quereis roubar-me em dois dias”. 7. Dizia um ancião: “Os santos que possuem Deus recebem, como recompensa pela sua impassibilidade, quer as coisas daqui de baixo quer as futuras, pois ambas são de Cristo, e aqueles que possuem a Cristo possuem também seus bens. Aquele que tem o mundo, isto é, as paixões, mesmo se possui o mundo não tem nada a não ser as paixões que o dominam”.
8. Freqüentemente o
abade Agatão dava este conselho ao seu discípulo: “Nunca pegues, para ti, algo
que não gostarias de imediatamente dar a alguém”. 9. Perguntou-se a um velho: “Que significa prestar contas de uma palavra inútil?” Respondeu: “Toda palavra dita a respeito de um objeto material é coisa inútil, pois somente as palavras ditas a respeito da salvação da alma não são inúteis. Por outro lado, é melhor escolher o silêncio total, porque, enquanto dizes o bem, junto vem o mal”. 10. Disse um ancião: “Se tu habitas no deserto como hesicasta. Não te consideres como alguém que faz algo de importante, mas, pelo contrário, considera-te como um cão chutado pela multidão e acorrentado porque mordia e assaltava o povo”. 11. O abade Antônio profetizou ao abade Amun: “Tu terás muito progresso no temor de Deus”. Depois o conduziu para fora da cela e mostrou-lhe uma pedra: “Põe-te a injuriar esta pedra”, disse-lhe, “maltrata-a sem parar”. Quando Amun parou, santo Antônio perguntou-lhe se a pedra respondera alguma coisa. “Não”, disse Amun. “Pois bem! Também tu”, acrescentou o ancião, “deves alcançar esta perfeição e imaginar que ninguém te ofende”.
12. Dizia o abade
Macário: “Essas três coisas são capitais e é bom tê-las presente sem descanso:
em todo momento devemos nos recordar da morte, morrer para todo homem e o
pensamento deve estar constantemente unido a Nosso Senhor. De fato, se a todo
momento não se tem presente a própria morte não se será capaz de morrer para
todo homem; e se não se é capaz de morrer para todo homem, não se será capaz de
estar constantemente diante de Deus”.
13. Disse um ancião:
“Fugi do amor que as coisas perecíveis inspiram, porque esse amor passa e morre
com elas”.
14. Disse um ancião:
“Quando deixo o fuso cair, penso primeiro na morte para depois apanhá-lo
novamente”.
15.
Paisio, o irmão do abade Pastor, contraiu uma amizade particular com um
monge de fora. O abade Pastor não aceitava isso; levantou-se e correu a dizer ao
abade Amona: “Meu irmão Paisio tem uma amizade particular com um e isso não me
dá sossego”. “Abade Pastor, tu ainda estás vivo!”, respondeu Amona. “Retorna à
tua cela e convence-te no coração de que já estás na sepultura há um ano”.
16. Perguntou-se a um
ancião: “Por que tenho medo quando caminho no deserto?”. “Porquer ainda estás
vivo”, respondeu. 17. Dizia ainda o abade Macário: “Luta por todas as mortes. Pela morte do corpo: isso significa que, se não tens a morte do espírito, luta pela morte do corpo. E então a morte do espírito te será dada como lucro. E aquela morte te fará morrer para todo homem e, em seguida, poderás adquirir a capacidade de estar constantemente vivente com Deus no silêncio”. Sobre a Oração
1. Apenas te levantas
após o sono, em primeiro lugar a tua boca renda glória a Deus e entoa cânticos e
salmos; a primeira preocupação que prende o espírito no início do dia, o
espírito passa a moê-la como uma pedra durante todo o dia, seja grão, seja joio.
Por isso, sê sempre o primeiro a jogar o grão, antes que o teu inimigo jogue
joio. 2. Aconteceu um dia que os anciãos se dirigiram ao abade Abraão, o profeta da região. Interrogaram-no a respeito do abade Banê: “Estivemos conversando com o abade Banê a respeito da clausura na qual ele agora se encontra; ele nos disse estas graves palavras: ele julga que toda a ascese e todas as esmolas que fez no passado foram uma profanação”. E o santo velho Abraão respondeu-lhes e disse: “Falou corretamente”. Os anciäos, pelo caminho, lamentaram sua vida, que também fora daquele modo. Mas o abade Abraão lhes disse: “Por que vos afligis? De fato, durante o tempo em que o abade Banê distribuía as esmolas, talvez tenha conseguido alimentar uma vila, uma cidade, um povoado. Mas, agora, é possível a Banê levantar as duas mãos a fim de que o trigo cresça com abundância pelo mundo inteiro. Agora já lhe é possível pedir a Deus que perdoe os pecados de toda essa geração”. E os anciãos, após tê-lo ouvido, se alegraram por existir um suplicante que intercedia por eles.
3.
Um
irmão dirigiu-se a um ancião que morava no Monte Sinai e lhe perguntou: “Pai,
ensina-me como se deve rezar, porque ofendi muito a Deus”. O ancião lhe disse:
“Filhinho, eu, quando rezo falo assim: Senhor, permite-me servir-te como servi a
Satanás e de amar-te como amei o pecado”.
4.
Se és vagaroso para levantar-te de noite para a liturgia,
não alimentes o teu corpo, pois a Escritura diz: “O preguiçoso não deve comer”.
E eu te digo: como no mundo aquele que rouba recebe severa condenação, a mesma
condenação Deus reserva para quem não se levanta para a liturgia, exceto no caso
de doença ou de muito trabalho, pois, tanto do doente como do trabalhador, Deus
exige uma liturgia espiritual, que pode ser oferecida a Deus deixando o corpo de
lado.
5. Dizia abade Evágrio:
“Se te foge a coragem, reza. Reza com temor e tremor, com ardor, sobriedade e
vigilância. Assim deve-se rezar, sobretudo por causa dos nossos inimigos
invisíveis que são malvados e espertos no mal e exatamente neste ponto nos
armarão ciladas”.
6.
O
abade Macário, interrogado sobre o modo de rezar, respondeu: “Não é necessário
falar muito na oração, mas muitas vezes estendamos as mãos e digamos: Senhor,
tem piedade de nós, como tu queres e como tu sabes. Quando tua alma está
angustiada, diz: Socorro! E Deus terá misericórdia de nós, pois sabe o que
precisamos”.
7.
Diziam os anciãos: “A oração é o espelho da alma”.
8.
Um
irmão foi visitar um dos abades da laura de Suca, nas colinas de Jericó e lhe
disse: “Então, Pai, como estás?”. O ancião respondeu: “Mal”. Disse o irmão: “Por
que, Pai?”. Respondeu o ancião: “Porque há trinta anos me conservo de pé diante
de Deus durante a minha oração, e agora me amaldiçoo a mim mesmo, dizendo a
Deus: Não tenhas piedade de todos aqueles que fazem o mal e sejam malditos
aqueles que se afastam de teus mandamentos. E eu, que sou um mentiroso, todo o
dia grito a Deus: Condena a todos aqueles que mentem. E eu, que vivo pensando em
comer, digo: No meio da noite acordei-me para louvar-te. Não tenho,
absolutamente, compunção alguma e digo: Sofri no meu pranto e minhas lágrimas
noite e dia substituíram meu pão. Eu, que tenho no coração pensamentos
perversos, digo a Deus: A meditação de meu coração está sempre diante de ti. E
eu, que nunca jejuo, digo: Meus joelhos estão enfraquecidos por causa de meus
jejuns. E cheio de orgulho e de prazer da carne sinto-me ridículo salmodiando:
Olha minha humildade e meu sofrimento e perdoa-me todos os meus pecados. E eu,
que ainda não estou pronto, digo: Meu coração está pronto, ó Deus. E, numa
palavra, todo o meu Ofício e a minha oração retornam a mim como reprovação e
vergonha”. O irmão disse ao ancião: “Penso, Pai, que Davi disse tudo isso por si
mesmo”. Então o ancião disse, chorando: “Que dizes, irmão? Certamente, se nós
não observamos aquilo que salmodiamos diante de Deus, seremos condenados”.
9.
Se
fazes teu trabalho manual na cela e chega a hora da oração, não digas:
“Terminarei de trançar meu cesto e depois me levantarei”, mas levanta-te logo e
paga a Deus a dívida da oração; do contrário, pouco a pouco cairás no costume de
relaxar na oração e o teu Ofício e a tua alma se tornarão desertos de todo
trabalho espiritual e corporal. Pois é desde o amanhecer que se mostra a tua
vontade.
10.
Dizia um ancião: “Nada faças sem rezar e nunca te arrependerás”.
11.
Dizia o abade
Epifânio: “Conhece-te a ti mesmo e nunca cairás. Dá trabalho à tua alma, isto é,
a oração contínua e o amor de Deus, antes que alguém a leve a maus pensamentos;
e reza para que o espírito do erro se afaste de ti”.
12.
Dizia um ancião: “Assim como uma só boca não pode ao mesmo tempo pronunciar duas
palavras que possam ser reconhecidas e entendidas, do mesmo modo acontece com a
oração impura que o homem proclama diante de Deus”. 13. Perguntam os irmãos: “Qual é a oração pura?” O velho disse: “Aquela que é breve nas palavras e grande nas obras. Pois, se as obras não superam o pedido, nada mais são do que palavras vazias, semente que não dá fruto. Se não fosse assim, por que aconteceria pedirmos sem receber enquanto que a graça superabunda de misericórdia? Um é o modo dos penitentes, o outro é o modo dos humildes; os penitentes são mercenários, os humildes, filhos”. "Foge, Cala, Descansa"
1.
O
abade Pastor dizia: “Quaisquer que sejam teus sofrimentos, a vitória sobre eles
está no silêncio”.
2. Num dia em que os
irmãos estavam reunidos em Scete, alguns anciãos quiseram provar o abade Moisés:
com ar de desprezo perguntaram-lhe: “Por que esta espécie de etíope vem morar no
meio de nós?”. O pai calou-se, ouvindo estas palavras. Retornando à assembléia,
aqueles que o tinham injuriado perguntaram: “Não estás perturbado?”. Ele
respondeu: “Estou, mas não falo nada”.
3.
Um
irmão disse ao abade Pastor: “Segundo teu parecer, se vejo alguma coisa posso
comentá-la?”. Respondeu o ancião: “Quem responde antes de ouvir, comete uma
bobagem e cai na confusão. Portanto, fala se te perguntam; de outro modo, cala”.
4.
Alguns irmãos de Scete quiseram ver o abade Antônio.
Subiram numa barca e nela encontraram um ancião que também queria procurar
Antônio, mas os irmãos não sabiam de nada. Sentados na barca, conversavam a
respeito dos apotegmas dos pais, das Escrituras e de seus trabalhos manuais. O
ancião, por sua vez, permanecia em silêncio. Chegados ao porto, ficaram sabendo
que também o ancião se diriga ao abade. Tendo chegado junto a Antônio, ele lhes
disse: “Vocês encontraram nesse ancião um bom companheiro de viagem. E tu, Pai,
estiveste junto de bons irmãos!”. Respondeu o ancião: “É verdade, mas a casa
deles não tem portas: entra quem quer na estalagem e solta o burro!”. Falava
assim porque os irmãos diziam tudo o que lhes vinha à cabeça.
5.
Quando o abade Arsênio residia em Canope, veio de Roma
para vê-lo uma virgem de família senatorial, muito rica e temente a Deus.
Acolhida pelo arcebispo Teófilo, ela lhe pediu para que insistisse junto ao
ancião a fim de que a recebesse. O arcebispo dirigiu-se ao ancião e lhe disse:
“Uma senhora de família senatorial vem de Roma e deseja ver-te”. Mas o ancião
não quis vê-la. Quando soube da resposta, a senhora fez selar sua cavalgadura e
disse: “Tenho fé que Deus me permitirá vê-lo, pois não vim para ver um homem:
deles existem muitos em nossa cidade. Vim para ver um profeta”. Quando ela
chegou perto da cela do ancião, por uma divina disposição ele se encontrava na
soleira. Vendo-o, a mulher prostrou-se a seus pés. Indignado, ele a ergueu e
fixando-a, falou-lhe: “Pois bem, se queres ver meu rosto, olha!”. Ela, porém,
confusa, não o olhou. Acrescentou o velhinho: “Não querias falas de minhas
obras? A elas tu deves prestar atenção! Por que ousaste fazer uma viagem
semelhante? Não sabes que és uma mulher e que não deves andar por aí? Retornarás
agora a Roma, para contar que viste Arsênio e para fazer do mar uma estrada para
a vinda de outras mulheres?”. “Se é vontade de Deus que eu retorne a Roma”,
respondeu-lhe ela, “não permitirei a nenhuma mulher que venha aqui. Reza por mim
e lembra-te sempre de mim”. Ele respondeu: “Peço a Deus que cancele tua
lembrança de meu coração”. A estas palavras, ela ficou perturbada. E, na viagem
de retorno a Roma, adoeceu. Advertido, o arcebispo foi consolá-la e se informar
sobre sua doença. “Ah”, disse-lhe ela, “como seria melhor se eu não tivesse
estado lá! Eu disse ao velhinho: Lembra-te de mim, e ele me respondeu: “Peço a
Deus de cancelar tua lembrança de meu coração! Morro de dor”. “Não sabes que és
uma mulher”, falou-lhe o arcebispo, “e que o inimigo combate os santos por meio
da mulher? Por isso o velhinho falou-te assim. Mas ele sempre rezará por tua
alma”. Assim ela teve o coração curado e voltou para casa feliz.
6.
O
abade Arsênio, quando ainda estava no palácio imperial, rezou assim: “Senhor,
mostra-me a estrada que conduz à salvação”. Então ouviu uma voz que lhe disse:
“Arsênio, foge do mundo e serás salvo”. Depois de ingressar na vida monástica,
rezou ainda do mesmo modo e ouviu a voz dizer: “Arsênio, foge do mundo, cala e
pratica a hesychia. Estas são as raízes do não-pecar”.
7.
O
arcebispo Teófilo, de feliz memória, num dia, acompanhado por um magistrado,
visitou Arsênio. O arcebispo pediu-lhe uma palavra. O ancião ficou um tempo
calado e depois falou: “Se lhes disser uma palavra, vocês a observarão?”
Prometeram que sim. Então falou o ancião: “Se escutarem dizer: lá está Arsênio,
não o procurem!”.
8.
Disse um ancião: “Deve-se fugir, sem exceção, de todos os obreiros da
iniqüidade, sejam amigos ou parentes, possuam a dignidade de sacerdotes ou de
príncipes; evitar sua companhia nos trará intimidade e amizade com Deus”.
9.
“A que serve agradar aos homens, se ofendo ao Senhor meu Deus?
Testemunha disso é o divino Apóstolo que disse: “Se eu ainda agradar aos homens,
não serei o servo de Cristo”. Rezemos, portanto, ao Senhor, dizendo: Jesus,
nosso Deus, protege-nos de seus louvores e de suas críticas. E nada façamos para
agradar-lhes, pois seus louvores não nos podem fazer entrar no Reino dos Céus,
nem suas críticas têm o poder de impedir-nos de entrar na vida eterna, pois eles
não possuem aquilo que nos faz nela entrar. Sabei, portanto, ó amados, que
devemos prestar contas de toda palavra inútil; fujamos dela como se foge de uma
serpente”.
10.
Num
dia, o abade Arsênio chegou perto de um caniço agitado pelo vento. O ancião
disse aos irmãos: “O que é isso que se move assim?” “São os caniços”,
responderam. “Na verdade, se alguém permanece na paz e ouve o grito de um
passarinho, o seu coração não possui a paz. Pior ainda sois vós, que sois
agitados como esses caniços”.
11.
Disse um ancião: “Para um irmão, é a mesma coisa querer brigar com um adversário
ou com o diabo”.
12.
Disse um ancião: “Sem a vigilância dos lábios, é impossível ao homem progredir
mesmo em uma única virtude; pois, antes das virtudes, está a vigilância dos
lábios”.
13.
Um
ancião dizia: “O silêncio está cheio de vida, mas a morte está escondida na
palavra farta”. 14. O abade Isaías disse: “Prefere calar a falar, pois o silêncio entesoura e o falar dispersa”. Sobre a Humildade
1.
Um
irmão perguntou a um ancião: “A vanglória me atormenta: o que devo fazer?”
Respondeu-lhe o ancião: “Tens razão: foste tu quem fez o céu e a terra”. O
irmão, tocado pelo arrependimento, disse: “Perdoa-me, pois eu não fiz coisa
nenhuma”.
2.
Um
irmão perguntou ao abade Poemen se era melhor viver sozinho ou com o próximo. O
velho respondeu: “Aquele que lamenta sempre e somente a si mesmo, pode viver em
qualquer lugar. Mas, se se glorifica, então não se dará bem em lugar algum”. 3. Um ancião disse: “Não é humilde aquele que se difama a si mesmo, mas aquele que recebe com alegria as injúrias, as afrontas e as críticas do próximo”.
4.
O
abade Pastor disse: “O homem deve incessantemente respirar a humildade e o temor
de Deus do mesmo modo que inala e expele o ar através das narinas”.
5.
Num
dia, o arcebispo Teófilo dirigiu-se ao Monte de Nítria e o abade do Monte
veio-lhe ao encontro. “Pai”, perguntou-lhe o arcebispo, “o que encontraste de
mais vantajoso neste caminho?” Respondeu o ancião: “Acusar-me e repreender-me
sem trégua”. “De fato, não existe outro caminho”, replicou o arcebispo.
6.
O
abade Antônio disse ao abade Pastor: “A grande obra do homem é atirar a culpa
sobre si mesmo diante de Deus e esperar a tentação até o último sopro de sua
vida”.
7.
Um
irmão interrogou o abade Sisoé: “Vejo, examinando-me, que a recordação de Deus
nunca me abandona”. Disse-lhe o ancião: “Não é grande coisa que a tua alma
esteja com Deus. Seria grande se tu tomasses consciência de que és inferior a
todas as criaturas. Este pensamento, unido ao trabalho físico: eis o que corrige
e conduz à humildade”. 8. Um ancião dizia: “Se nós nos aplicamos à humildade, não teremos necessidade de castigo. Muitos males nos vêm por causa do orgulho. De fato, se o anjo de Satanás foi dado ao Apóstolo para castigá-lo, por medo de que ele se levante, com maior razão, a nós que vivemos no orgulho, é o próprio Satanás que nos será dado, para nos importunar até que nos humilhemos”.
9.
O abade Antônio perscrutava a profundidade dos
julgamentos de Deus; e perguntou: “Senhor, por que alguns morrem após uma breve
existência e outros chegam à velhince? Por que para alguns falta tudo e para
outros há extrema abundância de bens? Por que os malvados são ricos e os bons
são atirados na pobreza?” Uma voz respondeu-lhe: “Antônio, cuida de ti mesmo:
estes são os julgamentos de Deus e nada te serve entendê-los.
10.
Disse o abade Evágrio: “O início da salvação é condenar-se a si mesmo”. 11. O abade Moisés disse ao irmão Zacarias: “Diz-me o que devo fazer”. A estas palavras, o outro atirou-se a seus pés, dizendo: “Pai, logo tu me interrogas?” Retrucou o ancião: “Crê, Zacarias, meu filho, eu vi o Espírito Santo descer sobre ti; por isso sou obrigado a interrogar-te”. Então Zacarias tirou o capuz, colocou-o debaixo dos pés e, pisoteando-o, disse: “Se não somos pisoteados desse jeito, não podemos ser monges”.
12.
Certa vez, o abade Teodoro comia com os irmãos. Erguiam os copos com respeito e
sem dizer nada, nem mesmo o costumeiro “Perdoai-me”. Então o abade Teodoro
disse: “Os monges perderam seu título de nobreza: a palavra “Perdoai-me”.
13.
Disse o abade Pastor: “Prostrar-se diante de Deus, não dar-se nenhuma
importância, jogar fora a própria vontade: eis os instrumentos com os quais a
alma pode trabalhar”.
14.
Disse o abade Pastor: “Não dês importância a ti mesmo, mas permanece ligado a
quem se comporta bem”.
15.
O abade Olímpio, de
Scete, era escravo. A cada ano descia a Alexandria para levar seu ganho aos
patrões. Esses vinham ao seu encontro para saudá-lo, mas o ancião colocava água
numa pequena bacia e a apresentava para lavar-lhes os pés. “Não, Pai, não te
incomodes!”, diziam seus patrões. “Eu sei que sou vosso escravo”, respondia, “e
vos agradeço por me deixarem livre para servir a Deus. Em troca, lavarei vossos
pés e recebereis aquilo que lucrei”. Os outros insistiam e, como não queriam
ceder, Olímpio disse-lhes: “Crede-me: se não quereis receber o meu dinheiro,
fico aqui para servir-vos”. Deste modo os patrões, cheios de deferência,
deixaram-no fazer o que queria; e, à sua partida, acompanhavam-no com honra e
davam-lhe o necessário para que em seu lugar distribuísse esmolas. Tudo isso o
tornou célebre em Scete.
16.
Disse o abade Pastor: “Um irmão perguntou ao abade Alônio o que significava
desprezar-se a si mesmo. Respondeu o ancião: “Consiste em rebaixar-se abaixo dos
animais e saber que eles não serão condenados”.”.
17.
Disse o abade Pastor: “A humildade é a terra que o Senhor requisitou para
realizar o sacrifício”.
18.
Um ancião disse: “Por
qualquer provação que te afligir, culpa-te somente a ti mesmo, dizendo:
“Aconteceu-me por minha culpa, por causa de meus pecados” 19. Certa vez, algumas pessoas foram a Tebaide visitar um ancião. Levavam consigo um homem atormentado pelo demônio, para que o ancião o curasse. Após longamente orar, o ancião disse ao demônio: “Retira-te desta criatura de Deus!”. O demônio respondeu: “Retiro-me, mas antes te faço uma pergunta: “Responde-me: quem são os cabritos e quem são as ovelhas?”. Respondeu-lhe o ancião: “Os cabritos, sou eu; quanto às ovelhas, Deus o sabe”. A esta palavras, o demônio urlou: “Retiro-me por causa de tua humildade!”. E logo foi-se embora.
20.
Um
irmão perguntou a um ancião: “Indica-me somente uma coisa para eu guardar, para
que eu viva fazendo isso!”. Disse-lhe o ancião: “Se puderes ser injuriado e
suportar as injúrias, é algo grandioso, que supera todas as virtudes”.
21.
Um
ancião disse: “A terra na qual o Senhor mandou cultivar é a humildade”.
22.
Um
ancião disse: “Conseguiste observar o silêncio? Não creias ter feito um ato de
virtude. Prefere dizer: “Sou indigno de falar”.”
23.
Disse um ancião: “Se o moleiro não cobre os olhos do animal que gira o moinho,
ele se voltará e comerá todo o seu trabalho. Assim, por uma disposição divina,
nós recebemos um véu que nos impede de ver o bem que fazemos, de louvarmo-nos a
nós mesmos e, deste modo, perder nossa recompensa. É pelo mesmo motivo que, de
vez em quando, somos abandonados aos pensamentos impuros e nada vemos além
deles; deste modo nós condenamos os nossos olhos e tais pensamentos são para nós
um véu que cobre o pouco de bem que fazemos. Com efeito, quando o homem se
acusa, não fica sem recompensa”.
24.
Um
irmão disse a um ancião: “Se um irmão me dirige palavras profanas, tu me
permites, Pai, de dizê-lo para não fazer mais?”. Disse-lhe o ancião: “Não”. E o
irmão disse: “Por que?”. Respondeu o ancião: “Porque nem nós somos capazes de
observar isso e é de se temer que, dizendo ao próximo para não fazê-lo,
estejamos nós no perigo de fazê-lo”. Disse o
irmão: “O que, então, se deve fazer?”. Disse-lhe o ancião: “Se soubermos calar,
ao próximo basta o nosso exemplo”.
25.
Perguntou-se a um ancião: “O que é a humildade?”. Ele disse: “É como se o teu
irmão pecar contra ti e tu o perdoares antes que ele te peça desculpas”.
26.
Há
muito tempo um irmão era atormentado pelo demônio da impureza e, apesar de seu
muito esforço, não conseguia livrar-se dele. Uma vez, enquanto participava da
Sinapse, sentiu-se atormentado pela paixão mais do que de costume; decidiu então
vencer as maquinações do demônio e pedir aos irmãos que rezassem por ele nessa
intenção. E, vencendo qualquer vergona, ficou nú diante de todos os irmãos e
mostrou a ação de Satanás: “Rezai por mim, meus pais e irmãos”, disse, “porque
lá se vão quatorze anos que enfrento esse combate”; e imediatamente ficou livre
do combate, graças à humildade que tinha demonstrado. 27. Disse um dos pais: “Os Pais penetravam no interior através da austeridade e nós, se pudermos, entremos no bem através da humildade”.
28.
Dizia sempre um ancião que morava no Egito: “Não há caminho mais curto do que o
caminho da humildade”.
29.
Disse o abade Sisoé:
“Quem trabalha e pensa que fez alguma coisa, recebe aqui sua recompensa”.
30.
Disse um ancião: “A humildade não é um dos pratos do banquete, mas o tempero que
dá sabor a todos os pratos”.
31.
Ouvi contar de um ancião que dizia: “A quem possui a humildade de espírito é
dada uma cobertura para sua moradia e uma tampa para sua marmita”.
32.
Disse o abade Poemen: “A alma não alcança a humildade em nada se tu não lhe
racionares o pão, isto é, se tu não a reduzires a alimentar-se apenas do
necessário”.
33.
Contava-se que um ancião vivia no hesicasmo nas partes planas do país e tinha um
leigo cristão a seu serviço. Aconteceu que o filho deste adoeceu. Por muito
tempo o pai suplicou ao ancião de ir rezar por seu filho e o ancião partiu com
ele. Correndo à frente, o leigo entrou em sua casa e gritou: “Vinde ao encontro
do anacoreta”. Quando o ancião percebeu-os vindo ao seu encontro com as tochas,
teve a idéia de tirar a roupa, entrar no rio e por-se a lavá-la ficando nú.
Quando o servidor o viu. cheio de vergonha disse ao povo: “Ide embora, pois o
ancião perdeu o juízo”. Depois, dirigiu-se a ele e perguntou: “Pai, por que
fizeste isso? Todo dizem: “O ancião está com o demônio no corpo”. Respondeu-lhe
o ancião: “Era exatamente isso que eu queria”.
34.
Por
obra do demônio, o bispo de uma cidade caiu na fornicação. Num dia, quando se
reunia na igreja e ninguém sabia de seu pecado, confessou-se diante do povo e
disse: “Pequei”. Em seguida depôs o pálio sobre o altar e disse: “Não posso mais
ser vosso bispo”. Todos choraram e gritaram: “Que este pecado caia sobre nós,
mas conserva o episcopado”. Ele respondeu: “Se vós quereis que eu conserve o
episcopado, fazei o que eu vos digo”. Mandou fechar as portas da igreja e
deitou-se no chão diante de uma porta lateral e disse: “Aquele que passar sem me
pisar com os pés, não terá parte com Deus”. Fizeram como ele pedia e, quando o
último saiu, veio uma voz do céu e disse: “Por causa de sua grande humildade eu
lhe perdoei o pecado”.
35.
Disse o abade João, discípulo do abade Giacomo: “Meu irmão Macário me disse
enquanto morria: “Duas coisas que fiz neste mundo me atormentam: comprei uma
esteira para um irmão e exigi-lhe energicamente o pagamento e, tecendo, fiz dois
pares de lenços com uma medida um pouco inferior, porque me faltava um pouco de
fio”.
36.
Um
irmão interrogou um dos pais a respeito de um pensamento blasfemo: “Pai, minha
alma está oprimida sob um pensamento blasfemo, tem piedade de mim e diz-me de
onde vem e o que devo fazer”. O ancião respondeu: “Este pensamento nos vem
porque falamos, desprezamos e criticamos; ele é sobretudo uma conseqüência do
orgulho, da vontade própria, da negligência na oração, da cólera e da fúria,
coisas todas que são, precisamente, os sinais do orgulho. Realmente, o orgulho
faz-nos entrar nas paixões que enumerei, e delas nasce o pensamento blasfemo. E
se esse pensamento ganha espaço na alma, o demônio da blasfêmia o entrega ao
demônio da impureza. Muitas vezes o leva até à perda dos sentidos, e se o homem
não o reencontra, está perdido”. 37. Perguntou-se ao abade Elias: “Como nos salvaremos nestes tempos?”. Ele respondeu: “Nos salvaremos pelo fato de não nos darmos valor”. Sobre a Custódia da Mente
1.
Dizia o abade Sisoé: “Corrige as inclinações de teu corpo e nada será exigido de
teu coração”.
2.
Um
dia perguntou-se ao abade Agatão: “O que é melhor: a ascese corporal ou a
custódia da mente?”. “Os homens”, repondeu, “são como as árvores; o trabalho
corporal é a folhagem e a custódia da mente é o fruto: ora, todas as árvores que
não dão fruto, está escrito, serão cortadas e lançadas ao fogo. Com relação aos
frutos, portanto, deve-se vigiar o que nos acontece, isto é, guardar nossa
mente. Também temos necessidade da sombra e da beleza da folhagem, que
representam a ascese corporal”. De resto, o abade Agatão era muito dedicado e
infatigável no trabalho; sustentava-se sozinho; assíduo no trabalho manual,
contentava-se com pouco alimento e roupas simples.
3.
Disse um ancião: “Por acaso acreditais que Satanás quer introduzir em vós todos
os pensamentos? Não. É por meio de um únicop pensamento que vence a alma e
espera conduzi-la à perdição. Planta nela esse único pensamento, não necessita
de outro. Portanto, ficai atentos para não demonstrar agrado por um único mau
pensamento”.
4.
Disse um ancião: “Missão do monge é afastar para longe os próprios pensamentos”. 5. Conta-se que nas Celas vivia um ancião de dura ascese. Num dia em que recitava o Ofício, um santo homem veio à sua cela e de fora notou que ele lutava contra os próprios pensamentos. “Até quando”, dizia, “por uma única palavra perderei todo o resto?”. O que estava fora imaginou que estivesse discutindo com alguém: bateu, para entrar e conseguir um acordo entre eles. Entrando, porém, viu que não havia ninguém além do velho. E como tinha liberdade de falar com ele, perguntou: “Pai, com quem discutias?” “Com os meus pensamentos”, repondeu. “Veja: decorei quatorze livros e não ouvi mais nenhuma palavra fora daqui. Quando fui cumprir a obra de Deus, tinha esquecido tudo: somente aquela única, pobre palavra, estava em minha mente no momento de rezar o Ofício. Eis a razão pela qual brigava com meus pensamentos”.
6.
Um
irmão perguntou a um dos pais: “Ficamos contaminados se pensamos coisas
reprováveis?”. Após ter examinado a questão entre si, alguns pais disseram:
“Sim, certamente que nos contaminamos”. Outros, pelo contrário, disseram: “Não,
pois se nos contaminasse seria impossível a salvação, porque nós somos frágeis;
pelo contrário, é possível salvar-se desde que não realizemos corporalmente
aquilo que pensamos”. O irmão que tinha feito a pergunta julgou insatisfatórias
as respostas dadas pelos pais, pois eram discordantes. Dirigiu-se a um ancião
mais experimentado e o consultou sobre este ponto. Respondeu-lhe o ancião:
“Pede-se de cada pessoa que faça aquilo que lhe é possível”. O irmão insistiu:
“Em nome do Senhor, peço-te que me expliques esta palavra”. Disse o velhinho:
“Suponhamos que aqui se encontre um vaso e que é impossível vê-lo sem desejá-lo.
Entram dois irmãos; um alcançou grandes virtudes com a ascese da vida e o outro,
poucas. Se o espírito do monge perfeito fica perturbado ao ver este vaso e se
diz: “Quero tê-lo imediatamente, mas afasta o desejo, não fica contaminado.
Quanto àquele que ainda não atingiu um alto grau de virtude, se deseja esse vaso
e por muito tempo rumina esse pensamento porque o desejo o consome, mas de fato
não o rouba, também ele não se contamina”.
7.
Um
irmão disse ao abade Sisoé: “Por que as minhas paixões não vão embora?”. “Os
instrumentos das paixões estão contigo”, respondeu-lhe, “mas se lhes pagares a
fiança, irão embora”.
8. O abade Geronte de
Petra disse: “Muitos daqueles que são tentados pelos caprichos do corpo não
pecam com o corpo, mas cometem impurezas com o pensamento. E, mesmo conservando
a virgindade do corpo, cometem impureza com sua alma. Portanto, amados meus,
fazei como está escrito: “Cada um guarde seu coração com cuidadosa vigilância”.
9.
Um
irmão perguntou ao abade Arsênio: “O que devo fazer, Pai? Um pensamento me
angustia: como não consigo nem jejuar nem trabalhar, devo ao menos visitar os
doentes. Isso merece recompensa”. O ancião viu aí a semente do diabo: “Adiante”,
repondeu-lhe, “come, bebe, dorme; apenas não sai de tua cela”. Pois sabia que a
fidelidade à cela torna o monge tal como deve ser. Três dias depois, o irmão foi
atingido pela indolência. Tendo encontrado alguma pequena palma, quebrou-a, e no
dia seguinte começou a fazer uma corda. Quando teve fome, disse: “Eis mais
alguma pequena palma: vou terminá-la e depois comerei”. Isso feito, disse ainda:
“Quero ler um pouco, e depois comerei”. E, depois de ter lido: “Recitemos ainda
algum salmo breve, e depois comeremos sem escrúpulos”. E deste modo, com o
auxílio de Deus, pouco a pouco progredia, até tornar-se aquilo que devia ser, e
dominando seus maus pensamentos, venceu-os.
10.
Um
irmão, perseguido pelo pensamento de abandonar o mosteiro, abriu-se com seu
abade. Ele respondeu: “Permanece na cela, oferece teu corpo como garantia às
quatro paredes de tua cela. Não te preocupes com aquele pensamento. Que teu
pensamento vá aonde quiser, mas que teu corpo não saia da cela”.
11.
O
abade Amon interrogou o abade Pastor a respeito de pensamentos impuros e vãos
desejos do coração humano. Respondeu o abade: “Um machado pode gloriar-se de
alguma coisa sem aquele que o usa para cortar? Pois bem: não cultives esses
pensamentos e ficarão sem efeito em ti”.
12.
Também o abade José interrogou o abade Pastor a respeito de pensamentos impuros.
Respondeu-lhe o abade Pastor: “Se prendemos uma serpente ou um escorpião num
vaso e depois o tapamos, após certo tempo serão sufocados. A mesma coisa
acontece com os maus pensamentos que o demônio faz germinar em nós; pouco a
pouco serão sufocados pela paciência de quem os teve.
13.
Um
irmão visitou o abade Pastor e lhe disse: “Vêm-me muitos pensamentos e me põem
em perigo”. Então o ancião levou-o a céu aberto e lhe disse: “Estende teu hábito
e dentro dele prende o vento!” O irmão respondeu: “Não posso fazer isso!”.
“Portanto”, respondeu o ancião, “se não podes fazer isso, muito menos podes
impedir o surgimento desses pensamentos; mas, o que podes fazer é
resistir-lhes”.
14.
Um
irmão interrogou um ancião: “O que fazer? Uma multidão de pensamentos me ataca e
não sei como resistir”. Disse o ancião: “Nunca lutes contra todos, mas contra um
só. Porque todos os pensamentos dos monges têm apenas uma cabeça. Portanto, é
necessário examinar qual seja realmente esse único pensamento e qual a sua
natureza, para depois lutar contra ele. Então todos os outros pensamentos
perderão sua força”.
15.
Quando o abade Pastor se preparava para ir ao Ofício, primeiro se sentava, à
parte, por uma meia hora, para desvencilhar-se dos pensamentos. Depois saía.
16.
“A
cada pensamento que aparece”, diziam os velhos, “pergunta: “És dos nossos ou
vens do inimigo?”. E ele será obrigado a confessar-te”.
17.
Disse um ancião: “O esquecimento é a raiz de todos os males”.
18.
Um irmão atormentado pelos maus pensamentos sofria
muito e, pela sua grande humildade, dizia: “Eu, com tais pensamentos, não posso
alcançar a salvação”. Dirigiu-se então a um grande ancião e recomendou-se a suas
orações para que se livrasse desses pensamentos. Disse-lhe o ancião: “Isso não
te serve, meu filho”. Mas ele insistia com veemência. E como o ancião rezou,
Deus livrou o irmão do combate; e imediatamente ele caiu na presunção e no
orgulho. E dirigiu-se ao ancião para pedir-lhe que retornassem os pensamentos e
a humildade que possuía.
19.
Se
és atacado por pensamentos impuros, não os escondas, mas conta-os logo ao teu
diretor espiritual e assim os dominarás. Pois, na medida em que escondemos os
próprios pensamentos, eles se multiplicam e ganham força. Do mesmo modo que uma
serpente sai de sua toca e foge correndo, assim os maus pensamentos, uma vez
denunciados, desaparecem. Como um verme a madeira, assim os maus pensamentos
corróem o coração. Quem manifesta seus pensamentos logo fica curado; quem os
esconde, comete o pecado do orgulho. Pois, se não tens confiança suficiente em
alguém para revelar-lhe tuas lutas, essa é a prova de que não tens humildade. A
quem é humilde todos parecem santos e bons, enquanto que a si mesmo se considera
o único pecador. Por outro lado, se alguém invoca a Deus com todo o coração e
interroga um homem a respeito de seus pensamentos, o homem lhe responde ou, mais
ainda, é Deus que responde como se deve pela mediação do homem, ele que abriu a
boca da burrinha de Balaão, mesmo se o interrogado for indigno e pecador.
20.
Um
irmão perguntou a um ancião: “Que devo fazer, Pai, para combater os pensamentos
que vêm das paixões?”. Ele respondeu: “Invoca o Senhor, para que os olhos de tua
alma enxerguem os socorros que Deus envia ao homem para serem sua defesa e
protegê-lo”.
21.
Um
irmão perguntou a um ancião: “Que devo fazer quando meus pensamentos me
perturbam?”. Ele respondeu: “Diz-lhes: Me dizem respeito? Que devo fazer com
vocês?”. E terás o descanso. Não contes contigo para nada, joga tua vontade
fora, não tenhas nenhuma preocupação, e os pensamentos fugirão para longe de
ti”.
22.
Um
irmão interrogou um ancião e lhe disse: “Que queres que eu faça com esses maus
pensamentos que penetram em meu coração?”. Respondeu-lhe o ancião: “Vê a veste
que guardas no baú e lá esqueces, sem tirá-la nem sacudi-la: vai se perder, não
terá mais nenhuma utilidade para ninguém. Mas, se tu sacodes a veste e
constantemente a vestes, não se estragará, mas se conservará. Assim acontece com
os maus pensamentos, se tu falas deles e os alimentas, eles fincarão sempre mais
a raíz em teu coração, crescerão e não te abandonarão. Se, pelo contrário, tu
não falares deles, em vez de alimentá-los os odiares, morrerão e abandonarão teu
coração”. 23. Falou um ancião a respeito dos pensamentos impuros: “É por negligência que nos os toleramos; porque, se estivéssemos convencidos de que Deus habita em nós, nunca introduziríamos em nós qualquer coisa estranha: o Cristo Senhor, que vive em nós e conosco é testemunha de nossa vida. Por isso, nós que o carregamos e o contemplamos, não devemos distrair-nos mas santificar-nos, porque ele é santo. Firmemo-nos na Rocha, e o rio pode lançar contra nós suas ondas e não haverá nem temor nem queda. Canta a alma tranqüila: “Os que confiam no Senhor, são semelhantes ao monte Sion: nunca será agitado quem habita Jerusalém”.
“Ditos e Feitos dos Pais
do Deserto" |