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Páscoa:
Passagem
Podemos iniciar nossa reflexão com uma breve
definição. Consideremos a Páscoa como uma passagem. Sim! Encontra-se aqui uma
pequena oração indefinida que a princípio suscitará na imaginação do leitor
uma complementação: "De quem? Para onde?". Calma! Vamos por partes.
Páscoa: Passagem no Mar Vermelho (Ex 12); Páscoa: Paixão, morte e ressurreição
de Cristo. Eis as palavras que iluminarão nossa reflexão nestas linhas. Sistematizamos
a Ressurreição cronologicamente em terceiro lugar, porém quando se fala em tempo
da Graça e da Salvação, esta deve ser o ponto de referência que iluminará toda
a experiência de caminhada do povo de Deus até então. A partir da ressurreição
é que os primeiros cristãos interpretaram as passagens do primeiro Testamento
na tentativa otimista de explicar o cumprimento das profecias com a vinda do
messias.
Em Jo 2, 19 Jesus profetiza a reconstrução do templo (seu corpo) em 3 dias após
fazer uma dura crítica à religiosidade de seu tempo que tirava proveito comercial
sobre a ingenuidade do povo que vinha comemorar a Páscoa. Este foi um dos fatos
que aproximou mais ainda da cruz.
É nessa perspectiva que nós cristãos depositamos nossa fé: num corpo crucificado
- escândalo para judeus e insensatez para os gregos, 1Cor 1, 23. Será o cristianismo
uma religião para loucos e suicidas que ignoram a vida terrena e acreditam ser
recompensados após a morte? Absolutamente não! O sangue de corpos que se entregaram
como troféus da fé é a maior demonstração de amor que uma pessoa pode ter para
com o seu próximo.
O mártir cristão espera que seu ato de entrega frutifique aqui na terra a possibilidade
de implantação do Reino de Deus. Esta é a base da propagação do cristianismo,
baseada na narrativa de um corpo sofredor. O protagonista da Semana Santa é
um "moribundo" que retém toda atenção de fiéis durante as novenas,
via-sacras e celebrações.
Atenção esta, que não pode ser descontextualizada. Quando o sofrimento está
presente em nossa vida nos tornamos o centro do mundo, pois, toda nossa preocupação
é em vista de sua superação para o retorno da tranqüilidade. O dente mais esquecido
e insignificante de nossa boca torna-se o centro de nossa existência quando
está doendo. Ou será que não?
Assim deve ser nossa comunidade cristã: o corpo místico do Cristo ressuscitado!
Uma unidade que vai além das limitações que o mundo nos impõe. Isto requer sensibilidade
e audácia para ressuscitarmos os pobres e sofredores (membros) que clamam por
justiça e dignidade (remédio) para melhor viver em sociedade (harmonia corporal).
Neste ano, durante o período da quaresma refletimos sobre os idosos. A Igreja
propôs que nós cristãos tomássemos consciência de um "órgão" de nosso
corpo que precisa de reparo. Quando o idoso é tratado com um peso na sociedade,
estão sendo lhe negados os direitos conquistados durante toda uma vida de luta,
tanto para a criação da família como para o progresso do país. Se esquecermos
nossa história e apagarmos o passado, significa que não temos ponto de referência
para projetarmos o nosso futuro.
Somos cientes das cicatrizes e lembrando da dor que superamos como corpo místico
é que poderemos compreender o verdadeiro sentido da ressurreição nesta Páscoa,
indo além de todo e qualquer sentido consumista suscitado pelas propagandas
de "empresas"que aproveitam-se desta data para obter lucro com a "ingenuidade
das pessoas".
Nosso "mistério" não é (ou não deveria ser) fruto de uma abstração
sentimental que preencha o vazio existencial ainda não atingido pela racionalidade
humana, mas histórico, que nasce da realidade do sofrimento do corpo humano
em vista à passagem para uma vida melhor.
Juliano Peroza
em O Desafio, uma publicação mensal da família salvatoriana brasileira,
edição
de abril/2003.
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