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Em nome da Diocese,
especialmente do Conselho Diocesano de Leigos e da Comissão de Direitos Humanos,
que organizaram este encontro, antes de passar a palavra ao Dr. Márlon Jacinto
Reis, cabe-me algumas breves considerações.
Em primeiro lugar, uma palavra
de agradecimento pela presença de todos os que aqui se encontram, candidatos a
Prefeito dos 46 municípios que compõem o território da Diocese.
A intenção deste encontro é
ressaltar a importância do processo eleitoral. A presença dos candidatos
confirma esta importância, e diante dos eleitores se constitui num marco
positivo de responsabilidade face às próximas eleições municipais.
Desde já, manifesto a esperança
nos resultados positivos que podem advir das reflexões e dos esclarecimentos que
este encontro vai proporcionar, não só aos candidatos mas a todos os cidadãos.
Além de agradecer a presença,
quero particularmente cumprimentar os candidatos, por terem se habilitado a suas
candidaturas, através da inscrição em seus partidos políticos. Ser candidato é
um direito de todo cidadão. Mas às vezes este direito se torna uma obrigação,
difícil de cumprir, diante dos desafios da campanha eleitoral e das dificuldades
em administrar hoje o setor público.
Por isto, em primeiro lugar, aos
candidatos a Diocese quer, de antemão, cumprimentar, e agradecer a contribuição
que estão dando ao processo político com a apresentação de suas candidaturas. E
faz votos de que todos já se sintam recompensados por esta contribuição que
estão dando, independente de qualquer resultado eleitoral.
Mas este encontro, nas intenções
da Diocese, não se limita aos candidatos. Ele é também um convite a todos os
eleitores, para que olhem com interesse a campanha eleitoral, e dela procurem
participar com empenho e responsabilidade.
Pois um dos desafios políticos
mais urgentes em nosso país é a participação da cidadania, não só nos processos
eleitorais, mas no acompanhamento das administrações públicas.
Para uma boa campanha eleitoral,
nada melhor do que contar com candidatos dispostos a expor suas propostas, e
eleitores interessados em discerni-las em vista do seu voto.
Se assim acontecesse de verdade,
estaríamos todos, candidatos e eleitores, livres de outros expedientes usados
para conseguir votos. E' por isto que não existe remédio melhor contra a
corrupção eleitoral do que eleitores conscientes e candidatos que apostam não na
força do dinheiro, mas na força de persuasão de suas propostas administrativas.
Diagnóstico das campanhas
eleitorais
Expostas as intenções do
encontro, o Conselho de Leigos me pediu para sintetizar um breve diagnóstico,
tanto das campanhas eleitorais, como das administrações municipais. Bom seria se
pudéssemos dedicar todo o tempo de hoje ao debate dos desafios administrativos
que os municípios enfrentam hoje. Mas a iminência da campanha eleitoral, que
precisa se pautar pelos ditames da legislação eleitoral, aconselha a limitar
hoje nossa atenção aos aspectos relativos ao cumprimento desta legislação,
inclusive para evitar que algumas iniciativas dos candidatos sejam
caracterizadas como tentativas de corrupção eleitoral, que a legislação agora
pune com severidade.
Pois bem, as referências que
faço, de maneira um pouco genérica, fazem parte do acervo de constatações que
são do conhecimento de todos, e que também são levadas aos ouvidos do Bispo, até
porque o ditado aconselha há muito tempo: “Vá se queixar ao bispo!”.
A ladainha começa pelas
promessas . Tanto é verdade que no imaginário popular o candidato é homem das
promessas. Não é proibido prometer. Inclusive, promessa e compromisso tem a
mesma origem semântica. O problema está nas promessas que comprometem! E que
consistem sobretudo em prometer vantagens pessoais aos eleitores, na prática,
prometer emprego na prefeitura. Este tipo de promessa já inviabilizou muitas
administrações municipais em nossa região, cujas prefeituras acabaram ficando
inchadas de funcionários, muito além do que seria necessário.
Há outros expedientes, que podem
parecer inofensivos, mas que associados ao contexto eleitoral não deixam de ser
ingredientes de corrupção. Entre eles:
- o pagamento de festas . Fica
indisfarçável a conotação eleitoreira de candidatos que ao se aproximar o tempo
da campanha eleitoral se mostram surpreendentemente generosos em patrocinar
churrascos, festinhas de aniversário, ou outros pretextos para almoços e jantas.
Fica constrangedor perceber que se abre o mercado, onde o voto dos eleitores
começa a ser leiloado em troca de comida e bebida.
- Patrocínio de formaturas . Com
o agravante de domesticar a consciência política dos estudantes, cuja formação
deveria, exatamente, ser colocada para combater estas práticas.
- Pagamento de combustível . E'
uma prática tão arraigada, que já faz de muitos eleitores, clientes em potencial
de qualquer candidato que se apresente.
- Pagamento das taxas de luz e
de água . Já é triste constatar que a miséria do povo chega a tanto, que há
pessoas sem recursos para pagar estas taxas. Mas fazer delas um instrumento de
vincular o voto, é desvirtuar a verdadeira política, que assim perde a força de
combater as causas desta miséria, pois ela mesma acaba se nutrindo da miséria,
que lhe rende os votos.
- Semelhante ao pagamento de
taxas é o pagamento de prestações atrasadas de casa própria, ou outras
prestações.
- Fornecimento de cestas básica
s. O pior é que estas cestas básicas não se destinam a matar a fome do povo, mas
a matar a fome de voto dos candidatos. Pois o critério para distribuir estas
cestas é o potencial de votos que possuem os destinatários. Quanto mais
eleitores existem na família, mais motivação para distribuir a cesta!
Mas todos estes expedientes são
menos eficazes e diretos do que o mais famoso de todos: a contratação de cabos
eleitorais . Na verdade, o pagamento destes “cabos eleitorais” acaba se tornando
o expediente camuflado da compra do voto de eleitores. Já aconteceu, em eleições
ocorridas recentemente, que um candidato contratou mais de mil e quinhentos
cabos eleitorais nos últimos três dias de campanha. E ficou evidente que sua
vitória se deveu a este fato. Pois a eficácia deste expediente precisa contar
com o elemento surpresa da última hora.
Há candidatos a vereador que
calculam o número mínimo de votos que precisam para se eleger. E equacionam seu
cálculo com a contratação equivalente de tantos “cabos eleitorais”.
E' aí que mais aparece a força
do dinheiro no processo eleitoral. Mas é aí que mais se desvirtua a política.
Pois reduzi-la a um negócio é frustrar sua finalidade essencial de garantir o
bem comum e promover a justiça social.
Como os recursos para estes
expedientes não podem ser declarados, eles requerem a existência de “Caixa 2 ”,
inclusive para escapar ao controle da justiça eleitoral. Esta é outra situação
que agrava o processo de corrupção, pois contraria frontalmente a transparência,
que é o primeiro requisito para amparar a lisura nas administrações públicas.
Tenho a certeza de que todos os
candidatos aqui presentes estão de acordo que o ideal seria se ninguém
precisasse lançar mão destes expedientes, e que esta campanha eleitoral pudesse
se dedicar exclusivamente ao estudo e debate das soluções políticas a serem
encontradas.
Por isto, bom seria se o
encontro de hoje dispensasse todas as outras promessas, e só ficasse com o
compromisso assumido por todos, de evitar estes expedientes, avisando daqui
mesmo a todos os eleitores que desta vez a campanha será diferente!
Diagnóstico das administrações
municipais
Mas a campanha eleitoral é em
vista de assumir a administração municipal. Por isto, é conveniente colocar
aqui, mesmo que muito sucintamente, o que chega aos ouvidos do bispo a respeito
de possíveis desvios que podem acontecer nas administrações municipais.
Começo com uma recomendação que
um ex-prefeito me fez, depois de ter visto de perto o que ocorre na prefeitura:
“diga aos eleitores que não elejam nenhum ladrão, porque na prefeitura, quem
quer roubar, rouba”.
E' triste esta constatação, que
acaba sendo realista, não só por culpa dos prefeitos, mas por culpa de muita
gente que pensa encontrar nos prefeitos pessoas desonestas que se prestam ao
jogo sujo das muitas maracutaias que o ambiente das administrações municipais
proporciona.
Já digo antecipadamente que
espero de todos os candidatos aqui presentes que desmintam na prática a
expectativa destas pessoas.
Mas, para concretizar um pouco
esta descrição genérica, dá para exemplificar, citando algumas situações que se
caracterizam pelo clima de corrupção.
A começar pelo fisiologismo
entre o Poder Executivo e o Poder Legislativo . O prefeito precisa resistir à
pretensão da Câmara de tornar-se agenciadora de favorecimentos pessoais, que
acabam consumindo recursos do município que deviam ser destinados a outras
finalidades. E' preciso, certamente, acabar com a troca de favores entre
Executivo e Legislativo. Fiquei estupefato quando um ex-prefeito me contou que
em determinado município de nossa região existe um funcionário da Câmara que
recebe um salário de R$ 9.000,00!
Outra realidade que surpreende é
a abundância de cargos de confiança , cargos em comissão. Também aí vale a pena
citar cifras. Existe um determinado município em que estes cargos chegam a 120!
O contexto das administrações
municipais oferece um leque muito variado de expedientes de corrupção, que mesmo
sendo penoso, é necessário mencioná-lo, até para não dar a impressão que o povo
o desconhece.
Ele vai desde as comissões
obtidas nas compras efetivadas pela Administração, as licitações pré-combinadas
, o desvio de combustível , as vantagens obtidas com os diversos tipos de
transportes. Até a merenda escolar oferece oportunidade para desvios e obtenção
de vantagens pessoais.
E para disfarçar os desvios, o
expediente é fazer a prestação de contas de modo que pareça tudo exato, como
quer o Tribunal de Contas.
Para esta exatidão aparente se
faz uso também de diversos expedientes: notas falsas, notas de firmas fantasmas,
nota clonadas. Parece que o know how da corrupção andou se aperfeiçoando
bastante!
Este é panorama com que se
defrontam hoje não só os candidatos, mas toda a cidadania.
Infelizmente, a crise econômica
leva os administradores públicos a equívocos que nada resolvem. Um deles é o
inchaço das administrações municipais. A Prefeitura não deveria ser uma fonte de
emprego. Bom seria se administração encontrasse caminho para incentivar as
empresas a proporcionarem trabalho para a população.
Fiz questão de conferir ontem
alguns dados, para comparação. Informei-me sobre o número de funcionários do
Município de Tupandi, no Rio Grande do Sul. Ao todo, são 110, sendo que 60 deles
são professores das escolas de nível fundamental, pois o ensino fundamental é
municipalizado. Portanto, que trabalham mesmo na Prefeitura são só 50! O
município tem um orçamento de 7 milhões e 500 mil reais, com uma população de
3.500 habitantes. 70% da renda do município provém da agricultura, com uma
produção anual de 20 milhões de frangos, vindo em seguida a suinocultura e a
produção de leite. Qual foi a política econômica do município? Apoiar os
empreendimentos dos agricultores, fornecendo gratuitamente a terraplanagem, as
telhas e a tela de proteção a quem quisesse implantar uma granja de frangos ou
de suínos. Qual a constatação da Administração? O investimento da prefeitura
retorna em forma de INSS, e as pessoas deixam de procurar emprego fora de casa,
quando constatam que sua empresa familiar rende mais do que o trabalho
assalariado!
Bom seria podermos dedicar hoje
todo o nosso tempo em trocar idéias sobre o desenvolvimento regional, para o
qual as prefeituras são atores indispensáveis. Também para ver a melhor maneira
de contarmos com o funcionamento efetivo dos Conselhos paritários já previstos
em lei. E para trazer ao debate público, de modo permanente, as questões
políticas dos nossos municípios, através da imprensa local, que infelizmente, é
preciso também dizê-lo, às vezes assedia as prefeituras, não para se colocar a
serviço do debate político, mas para pressionar e obter vantagens, chantageando
os administradores públicos com o poder que possui para distorcer os fatos.
Em cima deste panorama, vamos
hoje refletir sobre a campanha eleitoral que está começando nestes dias. Temos o
privilégio de contar com a presença do Dr. Márlon Jacinto Reis, Juiz de Direito
de Balsas, no Maranhão, membro da Comissão Brasileira de Justiça e Paz da CNBB.
Ele é um paladino na batalha pela saneamento ético do processo eleitoral, como
membro e um dos líderes do Movimento Brasileiro contra a Corrupção eleitoral.
Palavras de Dom Demétrio Valentini no encontro com os
candidatos a prefeito dos municípios da Diocese de Jales - 10/07/04
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