|
A FAMÍLIA DO ALCOOLISTA Se você tem um amigo, um familiar, um colega de trabalho que é dependente de álcool, você tem o que fazer! O alcoolismo acaba sendo uma armadilha para o dependente e também para a família, para o trabalho e para a comunidade onde o dependente vive. Mas você pode tentar desarmar esta armadilha! QUEM É FAMÍLIA ? A primeira idéia que nos vem a mente quando falamos em família é: casal heterossexual, com dois filhos, um animal de estimação, o homem como chefe da família e a mulher como dona de casa. Quando temos esta estrutura, torna-se fácil definir a família. Mas nem sempre isso é real. Por família, devemos entender várias formas de relacionamento com compromisso. Por exemplo: um alcoólatra solteiro que mantém uma relação amigável com a família do vizinho, casais homossexuais, irmãos de criação, entre outros. A família pode ser aquela que tem acesso ao dependente, sem ser necessariamente a família consangüínea. O alcoolismo não é causa, mas sim efeito O alcoolismo é um sintoma que ao surgir, se interpõe entre o indivíduo, a família e outros relacionamentos sociais, influenciando todo curso de vida. Todo sintoma tem uma causa. RELAÇÃO DE CAUSA E EFEITO As causas podem ser as mais variadas possíveis: *Conflitos emocionais ou pessoais; *Dificuldade escolares, sociais e/ou profissionais; *Acréscimo ou perda de um dos membros da família; *Crises familiares; *Consumo de bebida para o controle da ansiedade; *Consumo de bebida para fuga de problemas; *Separações, divórcios ou término de relacionamento amorosos; *Ausência de pais; *Filhos de alcoólatras: aprendizagem de comportamento; *Pressão Social (“Quem não bebe não é macho!”) Embora o sintoma traga sérios prejuízos e desvantagens para a vida do dependente, o alcoolismo tem uma função na vida deste. Podemos dizer que a pessoa “aprendeu a funcionar com o álcool “, seja qual for a causa. Se o álcool é retirado, como o dependente vai funcionar (psicológica e fisicamente)? Fica a questão: “ Como funcionar sem a bebida ?”. Daí a dificuldade de abandonar o hábito de beber, embora a pessoa perceba as conseqüências negativas em sua vida. Mas existem Fatores Protetores que podem evitar a continuação do hábito ou as recaídas: *Boas oportunidades de trabalho; *Boas oportunidades educacionais; *Recursos da Comunidade: serviços sociais, lugares com o número reduzido de traficantes, tratamento clínico e psicológico, grupos de auto-ajuda (AA,NA) , etc; *Família: amor materno e paterno, relacionamento conjugal positivo, moradia definida, bom relacionamento. Nem sempre estes fatores existem simultaneamente. Em alguns casos basta um destes itens para motivar o dependente para tornar-se abstinente. ATENÇÃO: Existem famílias em que ocorre a necessidade de uma pessoa alcoólatra para que ela funcione. Exemplo: “Eu bebo porque você me deixa nervoso.” “Mas eu só fico nervosa quando você bebe.” A família tem um padrão de comunicação que define comportamentos. Em alguns casos, quando o alcoolista “se cura”, alguém pode piorar. TIPOS DE FAMÍLIA Esconder Assumir O alcoolismo é visto como um A família assume desgosto e a família tende a o familiar alcoolista esconder o alcoolista. tentando ajuda-lo.
A família não tem controle sobre o beber do alcoólatra, mas este beber acaba afetando a vida da família. Como mudar esta situação: 1- Aprender o que é Alcoolismo (conceito de dependência, tolerância, síndrome de abstinência e recaídas). 2- Entender o funcionamento da família: Qual é o real papel de cada membro ? 3- Pedir e procurar ajuda: as conseqüências físicas, sociais e emocionais do alcoolismo são difíceis de serem suportadas, principalmente quando os vizinhos começam a comentar, alguns familiares a recriminar o apoio dado, contas a pagar, demissões... Nestes momentos de crise é bom contar com um amigo para desabafar, um terapeuta para orientar ou mesmo a procura da religião para confortar o sofrimento. O alcoolismo não é fraqueza ou falta de moral. Trata-se de uma dependência física e psicológica que controla o comportamento do dependente. MITOS Existem falsas noções sobre alcoolismo. É importante sabermos quais são elas para modificarmos nossos pensamentos e/ou atitudes: 1- “Para quem bebia pinga, uma cerveja não faz mal” Álcool é álcool! Uma cerveja grande eqüivale a uma dose de whisky, pinga ou um copo de vinho. 2- “Se eu tenho emprego, não sou alcoólatra “ O alcoolismo atinge até mesmo grandes executivos, que conseguem desempenhar suas atividades, mas que não excluí o consumo abusivo. O outro lado da moeda são os cargos pequenos , onde o indivíduo necessita tomar pelo menos uma dose antes de trabalhar para evitar as famosas ressacas ou tremedeiras que acabam por prejudicar seu desempenho. 3- “Mas ele(a) uma boa pessoa!” Ser alcoólatra não é sinônimo de que a pessoa seja um mau caráter. Contudo, quando intoxicada, a pessoa perde a consciência de seus atos, mas não quer dizer que possua uma personalidade má. 4- “Mas nós temos um bom lar” Muitos alcoólatras permanecem com suas famílias por longos anos, mantendo muitas vezes uma família de aparência. 5- “Mas ele(a) não bebe sempre” Beber diariamente não caracteriza o alcoólatra. Uma pessoa que bebe uma dose diária tem um beber social. Se o número de doses for igual ou maior que 21( para homens ) e 14 ( para mulheres ), mesmo que o consumidor beba uma vez por semana, já é um beber abusivo. 6- “Mas ele é tão inteligente que não pode ser um alcoólatra” Esta é uma fala comum entre os patrões quando começam a desconfiar do consumo de álcool de seu funcionário. Lembre-se: Não há relação entre inteligência e alcoolismo. 7- “Ele desempenha seu trabalho brilhantemente e raramente falta” Que bom! Este funcionário ainda não deixou que seu consumo afetasse seu trabalho, mas e depois do expediente? 8- “Mas eu nunca o vi beber” Quando pensamos na figura do alcoólatra, a primeira imagem é o estereótipo do consumidor que não sai do bar. Porém, existem muitos alcoólatras que compram sua bebida e a bebem nos lugares mais inesperados. 9- “Todo alcoólatra é um vagabundo ou beberrão” Não pense que o alcoólatra é apenas aquele que fica jogado na sarjeta. Muitos são pessoas respeitáveis, que têm a aparência bem cuidada. 10- “Mas ele(a) veio de uma boa família” Alcoolismo acontece com qualquer pessoa, independente do nível social, econômico ou de status. 11- “Com a internação ele(a) irá se curar” Na maioria das vezes a internação é vista como “Salvadora da Pátria”, mas para alguns familiares que já passaram por esta experiência , sabem que a afirmação acima nem sempre é verdadeira. Em alguns casos a internação pode ser eficaz quando o dependente está motivado ou quando ele está muito doente. Pensemos: em um ambiente protegido de problemas , pressão social e bebida, com cuidado 24 horas por dia, tornar-se fácil atingir a abstinência. Quando ocorre o retorno para o seu meio de origem : amigos, problemas, bares, bebidas e cobranças continuam a existir. Por tal o tratamento ambulatorial em alguns casos pode ser mais efetivo. 12- “O alcoolismo só atingem os homens” A realidade é que existe mais homens do que mulheres alcoólatras. Contudo, existem mulheres alcoólatras e por ser considerada uma dependência masculina, é esperado que as mulheres escondam sua dependência por vergonha ou culpa. COMO A FAMÍLIA ACABA AGINDO Para amenizar sentimentos ruins ou de pressão social, profissional, escolar e por que não dizer familiar, os parentes acabam atuando de forma a proteger a alcoólatra, isentando-o de seus atos ou diminuindo sua auto-estima. Veja alguns casos: 1- O familiar que presta socorro 24 horas por dia Se o patrão reclama a ausência do funcionário e o familiar dá “desculpas”, fica cômodo para o alcoólatra permanecer escondido e protegido. Uma vez assumido um compromisso a responsabilidade é de quem o assumiu, mas vem o pensamento: “Se o patrão o ver desta forma (ressaca), irá demiti-lo”. Questão: Com o passar do tempo, havendo a diminuição na qualidade do trabalho e aumentando o número de faltas, o patrão não irá demiti-lo? 2- Policiar intensivamente O dependente deve ter consciência de que não deve beber e não somente o familiar. Ilusão pensar que você poderá controlar os hábitos do dependente 25 horas por dia, todos os dias. Acontece um desgaste duplo: o ato de fiscalizar gera ansiedade e nervosismo e consequentemente , a ausência de seus próprios compromissos para ter tempo de fiscalizar. Com o familiar preocupando-se pelo dependente, para que o dependente vai se preocupar ? 3- Perda de controle Os familiares tornam-se tão preocupados em controlar o beber do dependente ou evitar recaídas, que chegam a abandonar suas próprias vidas (lazer, trabalho, estudos...). O beber de forma indireta passa a dominar os pensamentos e ações dos familiares. Lembre-se que esta preocupação tem que ser do dependente e não sua. Por mais que ele esteja despreocupado, você apenas poderá lembrá-lo e ajudá-lo, mas não atuar por ele. 4- Agressão Física Infelizmente ocorrem casos de espancamento e atos de violência com alguns familiares, principalmente esposas e filhos. Quando restam os sinais de agressão é comum filhos deixarem de ir à escola ou esposas evitarem sair de casa por vergonha. Indiretamente estas atitudes omitem os atos do alcoólatras. Violência é crime! Não se esconda e procure ajuda! Você sabe que existe a Delegacia da Mulher e o SOS Criança? 5- Os passivos Apatia não ajuda! O familiar apático tenta se esconder em seu mundo e não se confronta com o beber e suas conseqüências. 6- Os acusadores São aqueles que acreditam que o alcoólatra é o problema da família, tornando responsabilidade do dependente todas as ações dos outros membros da família. L Intensifica o rebaixamento da auto-estima- O dependente se sente o pior dos piores, sem saída para mudar seu conceito. 7- Símbolo da perfeição Tratam-se de familiares que tentam chamar atenção do alcoólatra através de seu comportamento exemplar, comparando-se a este em todo o momento. Também é comum a comparação entre irmãos ou cônjuges. Tal atitude somente contribui para que o dependente se sinta pequeno, sem valor. BUSCANDO SOLUÇÕES A solução ideal seria a “cura do alcoolismo”, mas esta solução depende da motivação do dependente e do familiar. Se o dependente não tem esta motivação, a melhor solução para a família seria efetuar algumas modificações nos comportamentos dos familiares, objetivando a interrupção ou pelo menos dificultar, o curso do alcoolismo. 1- Não atuar pelo alcoólatra É importante a família quebrar o sistema de proteção, atribuindo a responsabilidade dos problemas e conseqüências do beber ao próprio alcoólatra. 2- Pensar mais em você Só podemos ajudar alguém quando estamos bem, caso contrário, como oferecer algo que não temos para dar? O dependente causa um abalo na vida do familiar e este tende a abandonar algumas de suas atividades. Retome-as, cumpra suas responsabilidades e cuide mais de si mesmo. Quando o alcoólatra passa a perceber que você não está mais seguindo o ritmo dele, ele começa apensar: “o que está acontecendo?”. 3- Adquirir conhecimento Informe-se : é importante saber alguns conceitos básicos para poder entender e ajudar o alcoólatra. Por exemplo: nos primeiros dias em que o dependente fica sem beber, é comum um hálito alcoólico, que dá a impressão de consumo, denominada “Hálito de Vinagre. A família se desespera, fiscaliza ou cobra, fato este que pode levar o alcoólatra a beber. Se os familiares tem este tipo de informação, a atitude muda. 4- Conversar Evite falar com o dependente apenas assuntos relacionados ao álcool. Procure mantê-lo interessado e também interessar-se sobre outros aspectos da vida. E, lembre-se: o alcoolismo é conseqüência e não causa. Porém existem pessoas que chegam a um grau de dependência tão elevado, que mal restam outros aspectos de vida para conversar. Nestes casos procure estimular ou mesmo apontar este “vazio” na vida do alcoólatra, tentando ajuda-lo a enxergar o que ele pode fazer para modificar seu futuro. 5- Recaídas Prepare-se! Por mais estabilizada que esteja a situação de abstinência, as recaídas são previstas no processo. Tenha em mente que o voltar a beber pode ser passageiro, principalmente se forem tomadas as medidas adequadas. 6- Limites Seja compreensivo e amigo com firmeza, sabendo definir limites e regras, principalmente sobre sua competência e do dependente. No primeiro momento a reação é de raiva, ódio e explosão! Tente se acalmar e refletir sobre a situação. Não gaste suas energias em falar com uma pessoa intoxicada. Espere os efeitos passarem para haver um diálogo consciente. Neste diálogo, procure colocar o que você espera e até onde você agüenta (seus próprios limites). 7-Aspecto Social Com a abstinência, perde-se ou ocorre uma diminuição no convívio social com os amigos do bar. Daí vem as frustrações: falta de amigos e falta de bebida. Propiciar atividades de lazer ou de convívio familiar para tentar abrandar estas frustrações são importantes. Atividades físicas acabam sendo as mais comuns , mas também pense em passeios, vídeo, cinema, teatro, leitura, visitas a casa de parentes e amigos, buscar filhos na escola, etc. 8- EVITE: Não dar importância ou ignorar os fatos Expulsar de casa Julgar o dependente como o único culpado Policiar intensivamente 9- Procurar ajuda profissional Não se deixe levar pelo sentimento de fracasso. Os profissionais de saúde existem para ajudar tanto o dependente, como o familiar. Em alguns casos é necessário uma atuação técnica e não apenas familiar. Será que não é uma exigência muito grande a família acreditar que deve dar conta de tudo sozinha? 10- Procurar Recursos da Comunidade Existem grupos de Auto-Ajuda (AA e NA), religião e palestra...enfim, tudo que o dependente possa sentir como eficaz para ajudá-lo. ATENÇÃO: Nem sempre o que é melhor para a família, é melhor para o dependente. O principal envolvido precisa estar motivado. Vale ressaltar que estes recursos podem ser utilizados simultaneamente a um tratamento. Não existe um único detentor do saber ou uma forma única de cura. Neliana Buzi Figlie |