O mistério do amor humano

Neste domingo começa na liturgia o tempo comum. Em cada domingo é escolhido um tema essencial para a vida do cristão. A primeira reflexão proposta, evoca o mistério do amor. Pode dizer-se que o amor humano está por compreender. Muitos consideram-no apenas desejo, outros referem-no como sentimento e alguns julgam que só é verdadeiro quando é paixão. Ora, o amor humano podendo ter todos estes elementos, deverá ser muito mais do que isso. O amor tem que ser compromisso. Um pouco à maneira da fé, também o amor é confiança em alguém, é conhecimento de alguém, é compromisso de vida com alguém. As leituras deste domingo convidam a um amor compromisso.

Nas bodas de Caná, ao faltar o vinho, acontecem situações que transformam completamente a relação entre as pessoas. É Maria que se dá conta da falta de vinho, é Jesus que apesar de não ser ainda a sua hora se dispõe a apoiar um casal de noivos em dificuldade, é um servidor surpreendido com a qualidade do vinho que está a ser servido, são todos os convidados que se apercebem que aquele vinho é o melhor. Podia dizer-se que o amor humano reclama atenção aos acontecimentos, capacidade de resolver as dificuldades com a criatividade necessária, compreensão para a importância do tempo na valorização das relações, e, finalmente, a certeza de que a felicidade é possível com o esforço de todos. O mais interessante é que Jesus com este gesto de ternura para com os jovens noivos, revelou aos discípulos, pelo seu primeiro milagre, que Ele era o Filho de Deus.

Se o amor humano numa visão meramente filosófica está na capacidade de fazer feliz o outro (cf. Erich Fromm), o amor com a força do Evangelho gera a presença constante de Deus, “onde estão dois ou três reunidos em meu nome, eu estou no meio deles” (Mt. 18, 20).

Compreende-se que o primeiro tema do tempo comum seja o amor. As famílias, mesmo as cristãs, estão hoje marcadas pelo muito egoísmo, uma enorme quota de amor próprio. É preciso reconhecer a necessidade do amor uno, indivisível, fiel e fecundo. Não é nada fácil na sociedade atual. Daí, o esforço a realizar nas famílias cristãs, para que o amor que vem de Deus seja o fator de união profunda, de comunhão total.

Já o profeta Isaías considera Jerusalém a cidade de Deus, a esposa do Senhor, linguagem do Antigo Testamento que se vê repetida por S. Paulo, ao afirmar a Igreja como esposa de Cristo. É à luz destas imagens que as famílias cristãs podem celebrar o amor que a todos faz felizes.

monsenhor Vitor Feytor Pinto “Revista de liturgia diária”

 
 

O evangelho de João é uma exposição dos diversos sinais com os que Jesus foi se manifestando ao mundo. O primeiro deles, a ser lido neste domingo é o da transformação da água em vinho.

O vinho significa a vida nova, a alegria e a sabedoria que Jesus acrescenta à realidade “aguada” do Antigo Testamento (evangelho). A comparação que Isaías faz do amor de Deus com a união dos esposos no casamento (1ª leitura) a podemos aplicar à experiência de fazermos parte da comunidade cristã como discípulos de Cristo (2ª leitura) formando um só corpo de forma que, como membros que somos uns dos outros, os dons que temos devem ser colocados em comum para constituirmos uma grande família unida apesar da diversidade entre nós, seus membros.

1ª leitura: Isaías 62,1-5

O profeta anuncia, com muita alegria e esperança, o encontro de Deus com seu Povo, simbolizado por Jerusalém. As palavras carregadas de sentimento comparam o amor de Deus pelo seu povo com o casamento de dois jovens esposos (“Como o jovem se casa com uma jovem, o seu criador casará com você; como o esposo que se alegra com a esposa, seu Deus se alegrará com você”).

Depois do exílio, o Povo de Deus não parecerá mais estar “abandonado” e Deus não descansará “enquanto a justiça não surgir... como aurora e... sua salvação não brilhar como lâmpada”. O grande presente de Deus será um país abençoado onde seja possível usufruir dos frutos do trabalho através da partilha e sem qualquer tipo de opressão. Para tanto, será necessário reconhecer que o dono da terra é Deus e a economia da nova sociedade deverá exprimir a gratuidade de Deus fazendo com que o país possa viver numa fartura comunitária da qual todos possam participar.

2ª leitura: 1 Coríntios 12, 4-11

A Santíssima Trindade (Pai, Filho e Espírito Santo) é a base sobre a qual a comunidade cristã se constrói. Cada pessoa na comunidade recebe um dom, ou melhor, ela é um dom para o bem de todos. Por isso, cada um, sendo o que é, fazendo o que pode e colocando-se a serviço dos irmãos como um dom gratuito, estará agindo para o bem da comunidade.

Paulo oferece uma resposta ao problema que existia na comunidade de Corinto a respeito da diversidade dos “carismas” (“dons”, “serviços”, “modos de agir”) os quais se manifestavam de diversas formas, tais como “a palavra de sabedoria”, “a palavra de ciência”, “a fé”, “o dom das curas”, “o poder de fazer milagres”, “a profecia”, “o discernimento dos espíritos”, “o dom de falar em línguas”, “o dom de as interpretar”. Paulo reconhece que “é o mesmo Deus que realiza tudo em todos”, mas aconselha que deve preservar-se, acima de tudo, a unidade nesta diversidade; porque a razão de ser dos “carismas” é servir para “a utilidade de todos”. De não ser assim, produziriam o efeito contrário, ou seja, a divisão na comunidade; e aí já não poderíamos dizer que procedem do “único e mesmo Espírito” e sim da vaidade e da vontade de exibir-se de cada um.

A existência dos carismas é obra do Espírito Santo. Por isso mesmo, em lugar de dividir, sempre tem que promover a unidade na comunidade se realmente forem autênticos.

Evangelho: João 2,1-12

No evangelho deste domingo Jesus aparece, pela primeira vez, tomando a iniciativa (“Foi assim... que Jesus começou seus sinais”) e “manifestando a sua gloria”. Isto num ambiente de descontração e alegria como a festa de um casamento, integrado na vida de parentes e amigos e ouvindo o pedido de Maria, sua mãe.

Para o evangelista João os “milagres” de Jesus são “sinais” que precisam ser compreendidos para viver o que ensinam. O interesse dele não é tanto mostrar que Jesus transformou a água em vinho, mas ensinar que a velha ordem religiosa dos “ritos de purificação dos judeus” (os “seis potes de pedra de uns cem litros cada um” cuja água Ele usa para transformá-la em vinho) vai ser substituída pelo vinho de alegria e da confiança na relação com um Deus que, acima de tudo, é Pai.

O casamento é o símbolo da união de Deus com a humanidade, conforme vimos na 1ª leitura. Esta união se realiza de maneira definitiva na pessoa de Jesus (Deus e Homem). Sem Jesus, a humanidade vive uma festa de casamento “sem vinho”. O elogio que o mestre-sala fez do noivo por causa do vinho novo, na realidade é para Jesus. Ele é quem deu e “guardou o vinho bom até agora”. Na verdade, Ele é o noivo da festa do Reino de Deus que vai começar. Jesus vai substituir a Antiga Aliança fundamentada na Lei de Moisés pela Nova Aliança fundamentada no amor gratuito e fiel. O amor vai substituir a Lei; a alegria da festa vai substituir o temor do castigo. Jesus é o portador do vinho novo. Ele vai inspirar caminhos mais humanos e felizes.

Neste sentido a observação de Maria («Eles não têm mais vinho!») tem um significado muito mais amplo do que aquele de evitar que os noivos passassem vergonha..... Ela estabelece a passagem da Antiga para a Nova Aliança: uma religião não mais fundamentada no medo, mas na alegria de receber o Espírito de Jesus, rompendo com as normas que aprisionam e com a mesquinharia da nossa própria sabedoria.

Este é o espaço no qual nós, cristãos, somos chamado a oferecer ao mundo o vinho do amor e do Espírito de Jesus. A própria Igreja só tem sentido se for “vinho novo” no meio do mundo, se trouxer a luz da verdade e da vida, se der testemunho do amor gratuito, se abrir as portas do mundo para o Espírito do Senhor (de justiça, de amor e de paz). Do contrário ela seria apenas um “casamento sem vinho”.

Palavra de Deus na vida

Maria aparece neste evangelho como estando mais preocupada com as necessidades dos outros do que com as suas próprias. Era apenas convidada. Não precisava preocupar-se com nada. Mas não consegue fechar os olhos diante das dificuldades dos outros (neste caso, dos noivos). Olhando para os noivos, percebe o mesmo que olhando para nós: «Eles não têm mais vinho!». Percebe nossos problemas pessoais e comunitários e sente que estamos desanimados, apressados, sem alegria. Ela pede a Jesus que faça de nossa vida insípida e sem gosto (como a água) um vinho que alegre o coração, que dê sentido à vida e nos faça olhar com otimismo para o futuro.

É bom saber que, apesar das dificuldades, contamos com um Deus que nos ama, temos uma Mãe que percebe nossos problemas e, além disso, nos alimentamos com a Eucaristia através da qual Deus injeta em nossa vida um vinho que nos embriaga para continuar à frente com entusiasmo e sem temor.

A confiança de Maria é impressionante. Ela é capaz de mudar os planos de Jesus apesar de Ele dizer: “Minha hora ainda não chegou”. A sintonia com seu Filho é tal que tem a liberdade de dizer: «Façam o que ele mandar.». E o mais impressionante é que Ele faz o que ela quer! Existe alguém melhor do que Maria para interceder por nós?

Pensando bem...

+ Sem a intervenção de Maria, Jesus não teria transformado a água em vinho. Muitas vezes os milagres precisam da nossa participação. Jesus conta sempre conosco. Estou à disposição de Deus? Sou sensível às necessidades dos outros, como Maria?

+ As últimas palavras que o Evangelho nos transmite de Maria são estas: «Façam o que ele mandar.». São o legado de nossa Mãe. Não poderia ter dito nada melhor e mais profundo. Com certeza, não precisa visitar-nos com “aparições”, para dar-nos novas mensagens. Sua última e definitiva mensagem ai está e com ela nos basta.

Oração

Parece estranho que exista uma festa de casamento onde acabe a cerveja (o vinho).

O normal é que sobre comida e bebida...

Mas o evangelho de João quer comparar nosso mundo com um “casamento sem vinho”:

no qual fazemos festa, mas sem alegria,

chamamo-nos de “irmãos”, mas não temos nada em comum,

falamos que somos todos iguais, mas uns são mais iguais que outros,

queremos todos viver bem, mas muitos não têm o que comer,

achamos que somos livres, mas vivemos escravizados por dentro e por fora.

E aí, no meio, estás Tu, Senhor, tua Mãe e os discípulos!

Também estamos nós, as comunidades cristãs, a Igreja.

Que boa observadora é Maria, tua Mãe!

Representa tantas vozes que descobrem injustiças e carências;

Tantas mulheres que descobrem as chagas sociais e tentam curá-las;

As pessoas que escutam as queixas dos sem voz;

os que percebem a falta do vinho de amor e do Espírito que existe...

Nas famílias, nas pessoas, nas comunidades e na Igreja.

Precisamos escutar tua Mãe dizer: «Façam o que ele mandar.»

E que cada um de nós seja capaz de fazer da vida

uma festa de casamento com “vinho abundante”

conhecendo bem tua vontade, teu Evangelho,

bebendo diariamente do teu Espírito de amor e de vida para todos,

mudando muitas das nossas leis para que a tua vontade se cumpra,

colocando à disposição dos necessitados aquilo que nos sobra...

A começar pelo luxo e pelas coisas supérfluas...

Continuando pelos gastos desnecessários que ofendem quem nada tem,

e terminando pela partilha do trabalho e da mesa fraterna.

(Rufo González Pérez)

padre Ciriaco Madrigal

 
 

"Fazei o que ele vos disser"

Mesmo já situado no tempo comum, dá continuidade à festa da Epifania, pois faz memória do dia em que Jesus começou a revelar sua identidade de Messias-esposo da nova humanidade. Por isso todo o universo é convidado a adorar o Senhor.

Terminado o tempo do Natal, com a festa do Batismo do Senhor, até quarta-feira de cinzas, temos a intercalação de cinco domingos do tempo comum para acompanharmos e vivermos o mistério da revelação do Senhor ao seu povo. O 2º domingo do tempo comum, celebrado hoje, está ainda no contexto da festa do Batismo do Senhor, isto é, o Mistério que hoje celebramos é prolongamento da manifestação de Jesus como Salvador da humanidade.

Neste domingo, estamos em Cana da Galiléia para ver Jesus realizar seu primeiro sinal numa festa de casamento. Nós somos a festa de casamento, os privilegiados, os escolhidos para conhecer e celebrar a intimidade do amor de Deus com a humanidade. Com o Salmo 65/66, somos chamados a adorar o Senhor com todo o universo

Primeira leitura: Isaias 62,1-5

Tudo leva a crer que esta profecia aconteceu no fim do exílio ou nos primeiros anos após o decreto de Ciro no ano 538. Ciro acaba de lançar um decreto autorizando a reconstrução do templo de Jerusalém. A primeira caravana de exilados certamente já partiu da Babilônia em direção a Jerusalém. A esperança e a expectativa desses exilados concretizam-se, pois, em torno do Templo. O profeta sustenta o ânimo dos exilados, expondo-lhes o quadro do extraordinário futuro da cidade.

Depois de tantas desgraças e sofrimentos, e diante das perspectivas de restauração, o profeta sente um impulso irresistível de proclamar estas maravilhas que Deus está realizando em favor de seu povo e da cidade de Jerusalém. Todas as nações ficarão pasmadas ao ver a glória da Cidade de Deus que receberá um nome novo. Ela será como uma jóia nas mãos de Deus.

No versículo 1 o profeta manifesta que já está entrevendo as maravilhas que Deus vai realizar. E por isso ele não se cala, ele vai anunciar e proclamar até que isto aconteça plenamente. Usa aqui também, como em Isaias 61,10, o binômio: salvação e justiça.

Na tentativa de descrever a nova situação, utiliza agora (versículo 3) outra imagem: uma coroa e um diadema. Coroa e diadema, não enquanto símbolos do poder, mas no sentido de jóia preciosa que se torna objeto de admiração e por isso se olha e se acaricia com as mãos.

O versículo 5 continua desenvolvendo a imagem do casamento. Deus, não só vai reconstruir a cidade, mas vai desposá-la com o amor e o entusiasmo com que um jovem desposa uma moça. E tem mais: não é Deus que vai causar a felicidade de Sião, mas é esta que vai fazer a felicidade de Deus. Imagem ousada, mas de profundo sentido teológico. Certamente estamos diante de um antropomorfismo, em que se revela o amor, a delicadeza e todo o apreço que Deus tem pela pessoa e por seu povo. Esta idéia aparece também em Isaias 65,19. Jesus tem expressões semelhantes nas parábolas da ovelha e da moeda perdidas (Lucas 15,7.10). A fonte da felicidade desta futura cidade é a presença de Deus no coração da cidade

A figura do matrimônio é, sem dúvida, a mais ousada que os profetas utilizaram para expressar o amor de Deus para com seu povo. É a forma humana que melhor exprime o amor, a partilha, a identidade e a doação mútua. A Encarnação de Jesus, a Eucaristia e o dom do Espírito Santo realizam e, ao mesmo tempo, ultrapassam infinitamente estas promessas feitas ao povo escolhido pelos profetas.

A Encarnação, na qual Cristo transmite a sua divindade à nossa humanidade, e também na Eucaristia, que prossegue a troca, constituem os movimentos mais ricos desta partilha de amor.

Salmo responsorial 95/96,1-3.7-10

Com o Salmo 95/96, resposta à Palavra de Deus, mesmo sendo um salmo de realeza, é também um hino de louvor. Israel tem por ofício louvar a Deus, e com este louvor leva todos os povos a conhecer a Deus. A eleição de Israel é missionária, seu louvor é testemunho. A ação criadora demonstra o poder de Deus.

O rosto de Deus no Salmo 95/96. O salmista insiste no nome de Deu, merecedor de um canto novo. Por que? Porque é Criador (versículo 5b), o libertador (as "maravilhas" do versículo 3b recordam a saída do Egito) e, sobretudo, o Rei universal. Fala-se muito no seu governo (versículos 10b.13), e três são as características de sua administração universal: retidão (versículo 10b), justiça e fidelidade (13b). Podemos dizer que é o aliado da humanidade, soberano do universo e da história.

O tema da realeza de Jesus está presente em todos os evangelhos. Mateus mostra que Jesus traz uma nova prática da justiça para todos, e isso faz acontecer o reinado de Deus na história. Os contatos de Jesus com os não judeus demonstram que seu Reino não tem fronteiras e que seu projeto é o de um mundo cheio de vida para todos.

Por Ele, bendizemos nosso Deus e nos alegremos. Expressemos também nossa confiança, pois sabemos que Ele virá "julgar a terra inteira" e seu julgamento será justo. Cantemos ao Senhor nosso Deus porque Ele se revela na humanidade de Jesus e se faz presente em nossas vidas.

Segunda leitura: 1 Coríntios 12,4-11

No capítulo 12 de 1 Coríntios, Paulo aborda um novo tema: o problema dos carismas, muito relacionado com as celebrações litúrgicas, das quais começara a tratar no capítulo 11, apontando abusos na ceia, no traje e, agora, no uso dos carismas, cada um buscando sua própria utilidade, seu gosto, sua glória.

"Carisma" para Paulo é um dom ou fervor espiritual, que o Espírito Santo concedia gratuitamente (v. 11) para os membros da comunidade cristã, como expressão visível da presença do Espírito, para o bom funcionamento da Igreja. Jesus havia prometido tais dons antes da Ascensão (Marcos 16,17s) e os Atos dos Apóstolos confirmam o cumprimento desta promessa (Atos 2,4; 6,8; 8,7; 10,45; 21,20). Os cristãos de coríntios se prendiam aos carismas sensacionalistas, como a glossolalia, confundindo-os com certos fenômenos de entrar em êxtase, isto é, arrebatamento que era muito forte no paganismo.

A comunidade carismática de Corinto passa pela tentação do "sincretismo", isto é, misturava elementos do paganismo com o Cristianismo: o mundo pagão exige um "conhecimento" experimental da divindade por meio de transes, de fenômenos de entrar em êxtase e outros "carismas" duvidosos. Aos cristãos, Paulo fala de um conhecimento apoiado na fé. Esta fé cristã é acompanhada de sinais e carismas que os cristãos de Corinto não diferenciam muito bem dos sinais e carismas do paganismo. Na comunidade cristã tinham resquícios, isto é, resíduos do paganismo.

Inicialmente, lembra o Apóstolo nos versículos 4-6 que, se o paganismo com seus vários deuses gozava de carismas de toda espécie, eles eram concedidos por deuses sempre diferentes e se disputavam. Na Igreja, pelo contrário, tudo é uno e unificado pela vida da Santíssima Trindade, quer se trate de graças, de funções comunitárias ou de atividades extraordinárias. Além do mais, os carismas são distribuídos em vista da utilidade de todos, sem excluir ninguém. Esta regra afasta imediatamente os fenômenos da embriaguez pagã ou transes individuais. Já que um único Espírito é a fonte de todos os dons, estes não podem opor-se uns aos outros, nem tão pouco os que deles se beneficiam: se há, pois, oposição entre os carismáticos daquele tempo e de hoje, é que o Espírito não os inspira e seus dons não são os dons de Cristo (versículo 7).

Os versículos 4-6 oferecem um paralelismo perfeito: a diversidade dos carismas corresponde sempre o mesmo princípio divino. Os vários carismas vêm do Espírito Santo (v. 3) e são distribuídos sobre muitos. Entretanto, os "ministérios" são atribuídos ao Senhor Jesus Cristo e as "atividades", a Deus Pai. Contudo, no versículo 7, os carismas são qualificados indistintamente de manifestações do Espírito Santo e, no versículo 11, atribuídos ao mesmo Espírito. É que Pai, Filho Espírito Santo são um só Deus, com um único princípio de ação que é a natureza divina. Os carismas, segundo Paulo, procedem das Três Pessoas da Santíssima Trindade (vs. 4-6), mas são atribuídos de modo particular ao Espírito Santo, princípio de amor e de santidade. O Espírito Santo é um Espírito do "todo", incompreensível aos pagãos que admitiam contradições e disputas entre seus deuses. Dons, ministérios, atividades são a mesma realidade, relacionada com a ação "externa da Trindade, mas, por apropriação, os "carismas", são atribuídos ao Espírito Santo, os "ministérios" a Cristo, Senhor e cabeça da Igreja, e as "atividades" ao Pai, origem do ser e do poder.

Paulo fala de dois carismas da inteligência: a sabedoria e a ciência. O carisma "palavra de sabedoria" seria o dom de penetrar nos mistérios divinos e saber fazer a exposição aos fiéis (1 Coríntios 2,6-16; Hebreus 6,1). "Palavra de ciência" é o carisma de conhecer e expor adequadamente as Escrituras e as verdades cristãs elementares. Vem em seguida a fé, que aqui não indica a virtude teológica, mas a possibilidade de fazer milagres (1 Coríntios 13,2; cf. Marcos 11,19-26), o dom de curar e o dom de fazer milagres, três carismas bem semelhantes. Curar e fazer milagres faz parte da fé. A fé é uma atitude de quem ora e crê, viva e confiantemente, em Deus a ponto de transportar montanhas (13,2) na edificação da Igreja. O "dom das línguas" (glossolalia) consiste não tanto em falar línguas estranhas, mas de emitir em êxtase sons incompreensíveis e palavras incoerentes, só traduzíveis por quem possui o carisma de "interpretação". Seriam palavras dirigidas a Deus - cânticos, preces inspiradas e em êxtase como no pentecostalismo.

A segunda leitura quer expressar que na diversidade de pessoas e de dons, a comunidade forma um só Corpo, no Espírito. A comunidade de Corinto apresentava divisões, preferências, sectarismos e por isso Paulo sublinha que a comunidade cristã é uma unidade que não exclui ninguém e supõe uma diversidade de dons e serviços para a edificação do bem de todos.

Pelo Batismo o Espírito Santo anula distinções raciais, sociais, nacionais, e leva à fé comum e ao reconhecimento de que Jesus Cristo é o nosso Senhor e nós somos irmãos. A unidade não significa uniformidade, mas presume uma complementaridade rica e saudável, onde cada pessoa conserva sua originalidade, seu modo particular de ser, pensar, falar e agir. Cada pessoa tem sua história e uma função própria e especial na construção da comum-unidade. Quem discrimina não tem abertura nenhuma ao Espírito Santo.

Evangelho: João 2,1-22

Estamos ainda no espírito da Epifania, da manifestação de Deus em Jesus. Na liturgia antiga, as festas da Epifania, do Batismo do Senhor e das Bodas de Cana da Galiléia, formavam a tríade da Epifania.

O Evangelho apresenta não só o primeiro milagre de Jesus, mas também o primeiro dos seus "sinais". Em uma festa de casamento, algo tão humano, simples e popular, Jesus inicia os sinais de sua manifestação, da sua Epifania no mundo. Compartilha da alegria dos noivos e a faz sua para dizer que a sua glória é se o noivo da humanidade. João coloca este "sinal" no início do seu Evangelho, porque é uma síntese de tudo o que Jesus fará ao longo de sua missão. Em uma palavra: Ele é o esposo que celebrará as núpcias com a humanidade.

Jesus inicia seu ministério de rabino e de taumaturgo em círculos íntimos, por assim dizer: sua própria cidade, Cafarnaum, sua família ou a dos Apóstolos. Mas nesses primeiros passos ainda discretos, João já entrevê toda a obra de divinização da humanidade e, ao mesmo tempo, o resplandecer do Mistério Pascal.

A transformação da água em vinho a apresentada pelo quarto Evangelho como o "início dos sinais" realizados por Jesus (2,11). Nesta passagem, como aliás através de todo o Evangelho, o termo "sinal" é empregado de uma forma própria de João. Indica os milagres de Jesus. João não se prende ao conteúdo exterior ou material dos acontecimentos. Ele procura o seu significado. Os milagres revelam em João mais claramente que Mateus, Marcos e Lucas o sentido profundo dos atos de Jesus, eles revelam quem Ele é. Assim a cura do cego de nascença (João 9) nos manifesta Jesus como a Luz do mundo (João 9,5: enquanto estou no mundo, eu sou a luz do mundo"), a ressurreição de Lázaro (João 11) nos revela o Cristo como "a ressurreição e a vida" (João 11,25).

Uma das idéias centrais do Evangelho de hoje é o tema da substituição das realidades antigas pelas novas. Este tema das coisas novas está de ponta a ponta no Evangelho de João. Em João 1,14, a tenda da Aliança, lugar privilegiado da presença de Deus no povo eleito, é substituída pela humanidade de Jesus Cristo ("E o Verbo se fez carne e armou sua tenda entre nós e nós vimos a sua glória...). Em João 2,21, o Templo de Jerusalém dá lugar ao novo Templo que é o corpo de Jesus ("Ele, porém, falava do templo do seu corpo"). Em João 4,21-24, o culto em Jerusalém ou no monte Garizim torna-se um culto "em espírito e verdade". Em João 6,49-50, o maná do deserto é substituído pelo "pão descido do céu".

Aqui, as seis talhas de pedra para a purificação dos judeus, "contendo cada uma de duas a três medidas" (João 2,6), representam o Judaísmo. E a enorme quantidade de vinho - 480 a 720 litros - é já no Primeiro Testamento (Amós 9,13-14 e Oséias 14,8) sinal da presença do Messias.

O fato de Maria dizer a Jesus que os convivas não têm mais vinho conclui-se uma preocupação de ordem prática de mulher atenta às minúcias da recepção. Entretanto, isto significa também, no plano simbólico (cf. Isaias 55,1-3 e Joel 2,25-27), que o povo está inebriado com o vinho da felicidade e da sabedoria e se mantém numa atitude de pobres, aguardando a iniciativa de Deus para dar-lhes a felicidade. Jesus distribui, efetivamente, o "bom vinho" desta felicidade prometida para os últimos tempos, sinal da plenitude e da sabedoria que Ele traz ao mundo como esposo da humanidade.

Portanto, a afirmação de Maria: "eles não têm vinho" (2,3) é uma constatação simples e clara da esterilidade ou fim do Judaísmo. E a exclamação do mestre-sala dirigida ao noivo (o Cristo!): "tu guardaste o bom vinho até agora!" (2,10) é uma proclamação da chegada dos tempos messiânicos. Em outras palavras, diante do Cristo, as instituições judaicas perdem o seu sentido. Jesus é agora o único caminho que leva ao Pai. Ele é a manifestação plena e definitiva de Deus entre no meio da humanidade. O versículo 6 ao falar das seis talhas de pedra, traz à tona a necessidade de mudança de uma religião que já não tem um vinho novo para oferecer, principalmente para os mais pobres. Se o Judaísmo fosse pra ser continuado teria que ter 7 talhas de pedra.

O fato de João situar o milagre no "terceiro dia" (v. 1 ; cf. João 11,6-7; 13,33; Lucas 24,7; Oséias 6,2-5) é igualmente uma maneira de referir-se à realização da Páscoa de Cristo, e de chamar a atenção dos cristãos para os fatos de Cana que serão interpretados a partir do Mistério Pascal.

Mas é sobretudo o tema da hora o ponto decisivo deste assunto (versículo 4, cf. João 2,19; 7,30-39; 8,20; 13,1;17,1). A hora indica concretamente a morte do Salvador, morte que O glorifica e glorifica o Pai, porque realiza a salvação do mundo. Podemos mesmo dizer que, a partir de João 7,30, as referências à hora de Jesus indicam aquele momento de sua vida em que será reduzido a total incapacidade, em que não mais fará milagres (cf. João 9,4; 11,9-10; cf. o tema do "elo" em João 18,12,24; 9,40).

Cristo refere-se, pois, ao "sinal" e à hora por excelência, que realizará de sua morte, mas, enquanto espera o acontecimento desta hora, é permitido a Ele apresentar sinais e realizar maravilhas provisórias, assim como eram provisórias as diferentes liberações maravilhosas do Primeiro Testamento.

Tudo acontece numa festa de casamento em uma aldeia que sustenta e unifica um grande número de ações simbólicas. Momento que costuma unir muitas pessoas, o matrimônio é, no Primeiro Testamento, símbolo freqüente do amor do Senhor pela comunidade. No Novo Testamento, é símbolo da união do Messias com a Igreja. O vinho é dom do amor e se anuncia como dom messiânico e símbolo do Espírito Santo.

O uso da palavra "mulher" não é um tratamento ofensivo, mas um costume grego existente na época e significa "senhora". Qual é o papel de Maria nesse casamento? Ela está presente, mas não diz que ela seja uma simples convidada. Sua presença é importante, pois possui autoridade de circular entre os criados e dar-lhes a ordem de obedecer a seu filho Jesus: "Fazei tudo o que ele vos disser" (2,5). Ela sabe o que acontece e tem conhecimento da necessidade do vinho.

A idéia de Cristo seria portanto, esta: posso fazer hoje o milagre proposto; uma hora virá, entretanto, em que meu poder realizará o milagre por excelência, porque passará pelo amor até à morte "E tendo amado os seus que estavam no mundo amou-os até o fim" (João 13,1).

Da Palavra celebrada ao cotidiano da vida

Hoje, nesta liturgia, nós nos reunimos para participar da festa de casamento de Deus com a humanidade, ouvindo a Palavra e rendendo graças por tão grande salvação; repartindo e comendo o pão na refeição que o Senhor nos oferece.

  Fazemos parta da humanidade. Trazemos as marcas do sofrimento, da dor e das lágrimas como o povo na volta do exílio. Muita decepção e abandono invadem nosso coração. Não sabemos o que fazer nem por onde andar. Sentimo-nos pobres, desvalidos e sem forças. Nessa situação de abandono e exílio, Deus se manifesta em nossa assembléia e confirma a palavra dita pela boca de Isaías: "[...] por amor de Jerusalém não descansarei, enquanto não surgir nela à justiça e não se acender nela a salvação [...]. Não mais vão chamar-te abandonada e tua terra não mais será chamada deserta; teu nome será minha Predileta e tua terra será a Bem-casada, pois o Senhor agradou-se de ti e tua terra será desposada." (Isaias 62,1.4).

Por isso, alegres cantamos com o salmista: "Cantai ao Senhor Deus um canto novo, manifestai os seus prodígios entre os povos [...] cantai ao senhor Deus, ó terra inteira. Cantai e bendizei seu santo nome [...]" (Salmo 95/96).

Podemos cantar especialmente esse salmo porque, hoje, Jesus nos torna partícipes do seu milagre, o primeiro sinal, realizado em Cana da Galiléia, em que se celebra o seu casamento com a humanidade e acontece o início da nova relação com Deus, fonte de vida e plenitude.

O sinal de Cana fala do amor conjugal de Deus para com a humanidade, no desejo de contrair com ela uma aliança nupcial. Por isso, o seu amor é fiel, interessado, terno e alegre.

A "glória" de Jesus é a revelação do segredo de sua vida, de sua intimidade oculta aos nossos olhos: a prestação humilde de um serviço do qual possam beneficiar-se todas as pessoas e ter alegria e sustento para a caminhada. Importa, então, reler o Evangelho na perspectiva e na luz da sua presença, como Ressuscitado em nosso meio. A festa das nos convida a melhor concedê-lo nesta festa litúrgica.

O Deus de Jesus não nos é revelado nos templos ou em acontecimentos fantásticos, mas na festa de casamento e acompanhado de amigos. Ele, com sua presença nas bodas, prepara o seu povo numa festa, uma nova aliança. O que agora se apresenta como festa de casamento será uma realidade plena quando chegar a hora, ou seja, trata-se da nova relação de Deus com o seu povo.

Mas como entender o evangelho de hoje na perspectiva litúrgica?

O Evangelho de João recupera duas idéias básicas do Antigo Testamento: aliança e criação. Jesus nas bodas de Cana inaugura a Nova Aliança e dá início à Nova Criação. Nesta festa, tem início a nova humanidade. O fundamento da nova humanidade é a aliança que Jesus, Cordeiro Esposo, realiza com a comunidade. A presença de Jesus em um casamento sem vinho quer significar que ele é o esposo ou noivo da comunidade.

Na Bíblia, o casamento é sinônimo da aliança (cf. Isaias 62,5). Ser infiel à aliança é o mesmo que ser adúltero, prostituir-se.

A aliança antiga caducou, perdeu seu sentido: "Eles não têm vinho" (João 2,3). "Que é a vida do homem se lhe falta o vinho?" (Eclesiástico 31,33). No tempo de Jesus, Israel está à espera do Reino de Deus, o Reino que os profetas descreveram como um banquete preparado com carnes gordas, com iguarias finas, com vinhos antigos e refinados (cf. Isaias 25,6). Este Reino, contudo, parece estar muito distante. E o povo desanimado, triste, abatido como se estivesse celebrando uma festa de casamento sem vinho. Mas por que essa tristeza?

Porque as suas relações com Deus já não são como as da esposa que se sente feliz, pois pode experimentar o carinho do esposo, mas são relações de escrava, forçada a obedecer às ordens e desmandos do senhor. Os guias espirituais reduziram os contatos com Deus ao cumprimento meticuloso de muitas normas e prescrições. Com muitas infrações e transgressões todos se sentiam impuros e culpados. Foram inventados ritos de purificação para os quais era necessário ter muita água, difícil de conseguir naquele meio e naquelas circunstâncias geográficas.

As seis talhas de pedra estão vazias - ainda não chegou até elas a água para as purificações. Logo, impossível de se realizar a purificação.

As bodas de Cana sem vinho representam a situação do povo desiludido e insatisfeito. Revelam a religião baseada no ritualismo e nas obrigações jurídicas.

A mãe de Jesus pode ser Maria, mas também pode indicar a comunidade na qual Jesus nasceu e foi educado. Ainda pode significar as pessoas piedosas que percebem que a atual situação na qual estão vivendo é insustentável. Não recorrem ao mestre-sala, ou seja, aos chefes religiosos que não conseguem realizar uma verdadeira festa, mas a Jesus. Entendem que só ele pode oferecer a água que se transforma em vinho e que traz felicidade para os que a bebem.

A sua hora ainda não chegou, pois está no começo da sua vida pública. A festa já começou, mas atingirá o seu cume quando "chegar a hora" de Jesus, no Calvário; quando ele dará sua vida por amor à esposa; quando, do seu coração transpassado, sairá "sangue e água" (João 19,34). Em Caná, ele só dá um sinal daquilo que há de realizar. Na hora em que passar deste mundo para o Pai (cf. João 13,1), ele dará realmente a água "que jorra para a vida eterna" (João 4,14), água que se transformou em vinho, que comunica alegria.

A Palavra se faz celebração

A vida cristã como leito nupcial

Dom Pedro Casaldáliga, certa vez, escreveu que nas chagas do Ressuscitado se encontram as marcas do "casamento" de Deus com o seu povo. Esta união do divino com o humano, que celebramos a pouco, no ciclo natalino, se desdobra agora para ser cultivada no tempo comum.

A celebração da Eucaristia, por sua vez, permite-nos visualizar e experimentar este "matrimônio" entre Deus e a humanidade, entre o divino e o humano, entre a eternidade e o tempo. A redenção coincide exatamente com este "assumir" de nossa condição, realizada por Deus em Jesus, para que sejamos libertos da morte e de suas conseqüências. Ela se nos é apresentada cada vez que celebramos, conforme reza a oração sobre as oferendas.

Se a eucaristia celebrada é o desdobramento e cultivo desta parceria entro o divino e humano, a vida dos que participam se torna "leito nupcial", ou seja, lugar onde esta relação de amor se manifesta com exuberância. A vida dos cristãos é a vida redimida, sinal de um mundo redimido, de uma história construída em parceria com o Senhor.

As núpcias do Cordeiro

Segundo Francisco Taborda, o convite inserido no missal de Paulo VI, como fruto da reforma litúrgica, no momento da apresentação do pão e vinho para que a assembléia se aproxime da mesa do banquete é: "Felizes os convidados para o banquete das núpcias do Cordeiro"...expressão que foi modificada na versão portuguesa para "ceia do Senhor". As núpcias, que a comunhão sacramental revela e realiza em nós é exatamente a plena união: casamento, do divino com o humano, para que o mundo e a história sejam permanentemente vividos como "Bodas" e antecipação da "hora" de Jesus. Nesse sentido, a Eucaristia faz da vida permanente festa, na qual se rememora a nossa participação na vida de Deus, mediante a comunhão com a pessoa, palavra e ação de seu Filho Jesus - nosso "casamento" com ele, pois ele é o noivo e a comunidade cristã, sua noiva.

Lugar na liturgia do dia

 Como na liturgia antes do Vaticano II, também na liturgia renovada o 2º Domingo do Tempo Comum continua o tema da Epifania, da chegada da Salvação. Nesta temática inserem-se principalmente a primeira leitura e o Evangelho, sendo que a segunda leitura faz parte da "leitura continua" das advertências da 1Coríntios e não participa da temática principal.. A primeira leitura, Isaias 62,1-5, é um anúncio messiânico, utilizando o símbolo das núpcias de Deus com seu povo. Como vimos, é este um dos simbolismos presentes em João 2,1-12 também (Jesus toma o papel do esposo). Parece-nos porém mais oportuno considerar o tema do messianismo num sentido amplo (realização das aspirações de felicidade humana como sinal da Epifania, manifestação de Deus).

Ligando a Palavra com a ação eucarística

A celebração litúrgica é a "hora" de Jesus em nossas vidas. Nele o sinal de Caná torna-se realidade. Acontece a transformação da água em vinho, ou seja, entramos na profunda experiência de comunhão e de aliança.

Para nós que vivemos em meio a tantos desafios e sofrimentos, encontramos na liturgia deste domingo uma luz preciosa: Deus é nosso amigo, o esposo apaixonado. Aquele que nos ama e cuida de nós.

Estar na celebração, participar dela ativamente, ouvindo as leituras, cantando com a comunidade, rendendo graças e comungando no pão e vinho, significa aceitar o casamento que Deus nos oferece. Significa tornar-se sua esposa amada. Significa viver as núpcias do Cordeiro. Por isso, rezamos depois da comunhão: "Penetrai-nos, ó Deus, com o vosso Espírito de caridade, para que vivam unidos no amor os que alimentais com o mesmo pão".

A morte e a ressurreição de Cristo dão início a uma nova comunidade dos homens com Deus. Celebrar a eucaristia representa renovar o gesto que constitui esta comunidade, o povo de Deus e sua Igreja. O vinho, sangue de Cristo, é o sinal do seu amor pela Igreja, vinho que antecipa a festa da nova assembléia que se plenificará nas núpcias eternas; por isso, na oração sobre as oferendas, pedimos que o Senhor atualize a salvação em nossas vidas.

A celebração que realizamos é uma aliança amorosa que fazemos com Deus, em Jesus Cristo, pela qual entramos mais profundamente em comunhão com ele. Cremos que, pela ação do Espírito Santo, que opera a transformação nos sinais do pão e do vinho e na assembléia reunida, Deus realiza em nós a santificação. Faz com que experimentemos o vinho novo da salvação, ajudando-nos a passar do nosso velho modo de viver para uma realidade nova, marcada pela alegria e pela liberdade. Nesse sentido, no Prefácio Comum VI, cantamos as primícias do Espírito, presentes em nossa vida e alegres aguardamos a plenitude da Páscoa, rendendo graças, partilhando e comendo o pão e o vinho eucaristizados.

padre Benedito Mazeti

 
 

Vinho novo

Não sei dizer a razão pela qual faltou o vinho nas Bodas de Cana, talvez a família não tivesse muitos recursos e fez uma festa bem modesta, só para os mais íntimos. Também pode ser que o Encarregado da cozinha, tenha errado no cálculo, ou então, porque havia um número excessivo de “penetras”. Só sei que os convidados das bodas de Canaã ficaram admirados com a qualidade e o sabor inigualável daquele vinho que serviram na última hora, quando muitos já estavam até embriagados. Os discípulos e os que serviam estavam de boca aberta, pois só eles sabiam que todo aquele vinho delicioso fora tirado de seis talhas de barro, cheias de água. Um prodígio promissor para Jesus iniciar seu ministério!

Em Israel muita gente andava descontente com a religião, porque transformaram o Deus da Aliança, tão rico em bondade e misericórdia, em um legislador implacável, alguém frio que passava os dias observando atentamente quem ousava desrespeitar a lei de Moisés. As pessoas iam ao templo ou nas sinagogas com o coração pesado, por medo do que pudesse acontecer, se deixassem de observar alguma das mais de seiscentas leis e prescrições da religião. Existiam para os faltosos a possibilidade de se livrarem da culpa, cumprindo os rituais de purificação feitos com água, mas que também era complicado pois naquele tempo não se tinha a facilidade da água encanada como hoje.

Às vezes a prática da religião se torna um peso quase insuportável, as vezes ao receber um sacramento, ou ao término de alguma celebração, há quem dê um suspiro de alívio “Arre ! já cumpri minha obrigação e estou livre!” para curtir o domingão. Certa ocasião depois da celebração de crisma, um adolescente em frente a igreja dava pulos e esmurrava o ar festejando quando alguém perguntou; “ feliz com a crisma recebida?” . ---Muito feliz --- desabafou o jovem – pois agora não preciso mais vir à igreja e estou livre!

Para ir a uma festa, um dia antes já estamos na expectativa, já para ir à igreja, chegamos na última hora e ás vezes, se a celebração se alongar um pouco, saímos antes da bênção final pois só temos paciência para agüentar a missa por uma hora. Precisamos rever o que está errado, nossas liturgias não podem resumir-se ao “oba-oba” mas temos que lhe dar vivacidade para que as pessoas saiam convencidas da graça de Deus e cheias de coragem para dar testemunho.

Não vale a pena praticar esse tipo de religião meramente cultual ! Nas bodas de canã Jesus, ao transformar a água da purificação em vinho da melhor qualidade, acabou com essa “chatice religiosa” mas muitos ainda hoje insistem em beber desse vinho azedo de uma religião angustiante, que bota freios no ser humano e coloca em seus olhos uma “viseira” para somente enxergar na direção que aponta os dirigentes “iluminados” sendo terminantemente proibido olhar em outra direção.

A verdadeira religião supõe liberdade e uma alegria incontida pelo fato de se tomar conhecimento de que Deus, apaixonado pelo homem, manifestou o seu amor no seu filho Jesus, que ao chegar a sua hora, a hora de mostrar a que veio, em um gesto de loucura aos olhos de muitos, derramou até a última gota do seu sangue na cruz do calvário, para que nós pudéssemos ser felizes e ter uma vida nova como homens livres.

É este o pensamento que deve nortear a nossa relação com Deus no âmbito da Igreja, uma alegria de saber que ele nos ama tanto, que ele só quer o nosso bem em seu sentido mais pleno, um amor que nos ama sem exigir nada, sem cara feia, sem mau humor, sem palavras amargas e sem nenhuma censura – Deus é amor infinito, bondade eterna e misericórdia para sempre! É essa, portanto, a novidade que Jesus traz ao mundo nas bodas de Canã, ele é na verdade o noivo apaixonado pela noiva que é a Igreja, assembléia de todos os que crêem. Uma noiva não muito bela e nem sempre fiel, que às vezes se deixa seduzir por outros “amantes”.

Entendida e aceita essa verdade, a Palavra de Deus celebrada e proclamada em nossas comunidades, é uma carta de amor que ouvimos com o coração aos pinotes, e a eucaristia se transforma em um jantar a luz de velas com Cristo Jesus, o amado de nossa vida , ao sabor do vinho novo da graça santificante que nos salva e liberta. Irradiar este amor a todos com o testemunho de vida, é a única forma de transformar a sociedade e não adianta se buscar outras alternativas, pois somente assim a glória de Cristo será manifestada semeando a fé no coração dos descrentes!

diácono José da Cruz

 
 

1ª leitura: Is. 62,1-5

Teria Deus abandonado sua esposa Jerusalém por causa da infidelidade do seu povo? Teria Deus anulado a aliança feita outrora com Judá? O abandono total em que Jerusalém estava no pós-exílio suscitava essas perguntas. Mas a resposta é não. Javé não abandonou Jerusalém. O profeta anônimo (o 3o Isaías) vai levantar o moral do povo. Nosso texto, de fato, é visto como um poema nupcial. Javé vai voltar. Ele saiu apenas para executar a justiça contra os que exploram seu povo. Ele não vai se calar, nem terá sossego, enquanto a justiça de Jerusalém não brilhar como a aurora, e a salvação dela como um farol (v. 1). Reis e nações verão sua justiça e sua glória (v. 2). Todos alertarão que Javé está do lado dos sofredores e oprimidos. Com um amor e zelo de esposa, Jerusalém será uma coroa magnífica, um diadema real na mão do seu Deus (v. 3). Essas figuras poéticas traduzem a aparência de Jerusalém vista de longe. Seu nome será trocado de “Desolada” e “Abandonada” para “Minha Delícia” e “Desposada”. Estamos diante de expressões nupciais carregadas de afeto e ternura, pois o amor de Javé é grande para com o seu povo (v. 4). O v. 5 aponta para as delícias da vida a dois, a doação mútua numa lua de mel para mostrar que o perdão de Javé para o seu povo é total e seu amor não perdeu o entusiasmo e o encanto do primeiro amor. Javé está apaixonado por Jerusalém e fará dela o seu encanto diário diante de todas as nações. Nosso relacionamento para com Deus carrega esta sensibilidade do amor de Deus para conosco?

2ª leitura: 1Cor. 12,4-11

Um dos inúmeros problemas da comunidade de Corinto era a questão dos carismas. A comunidade estava valorizando unicamente os carismas vistosos, que causavam impacto como falar em línguas, profetizar, fazer milagres. O importante para muitos da comunidade estava sendo “aparecer” com seus dons extraordinários. Em 14,23 percebemos que havia um tumulto na assembléia, todos querendo falar em línguas ao mesmo tempo. O apóstolo fez uma crítica severa dizendo que alguém de fora poderia achar que o grupo estava louco. Estamos diante de um reducionismo dos dons do Espírito, pois o Espírito é muito maior do que estes simples carismas e seus dons são incontáveis e ninguém pode limitar o Espírito de Deus. O Espírito distribui seus dons conforme sua própria vontade (v. 11) sem discriminação nem privilégios. Os vv. 4-6 dizem que o Espírito é o mesmo diante da diversidade dos dons, o Senhor é o mesmo diante da diversidade dos serviços, o Deus é o mesmo diante dos diferentes modos de agir. Aqui está afirmado que a fonte de tudo é a Trindade-Comunhão. Sem comunhão entre si e comunhão com a Igreja, o grupo carismático é uma mentira religiosa, um contra testemunho do Espírito. O elenco dos carismas é apresentado nos vv. 8-10 e a origem de todos é o mesmo Espírito. O v. 7 salienta a finalidade dos carismas: não é para aparecer, mas para utilidade (edificação cf. 14,5.12) de todos. Por fim devemos observar que os carismas mais ambicionados pela comunidade são colocados em último lugar: a profecia no penúltimo e o dom das línguas em último, como mais insignificantes. Os grupos carismáticos de hoje também precisam saber disso para não repetirem o erro dos corintos que estavam se agarrando ao periférico, no secundário em detrimento do mais essencial. Além disso, esses dois dons, estão submetidos a outros dois carismas de controle: o discernimento dos espíritos para testar a autenticidade da profecia e o carisma da interpretação para que os dons das línguas não seja balbucio inútil, mas sim edificação para a comunidade.

Evangelho: Jo 2,1-11

Este episódio é muito rico e carregado de simbolismo. Jesus está substituindo a antiga aliança por uma nova aliança. O relacionamento entre Deus e o povo de Israel era visto pelos profetas em termos de aliança matrimonial. Vamos fazer um rápido comentário. No 3o dia – expressão técnica que lembra a ressurreição de Jesus. Equivale ao 6o dia da criação, onde o homem é criado. Com sua ressurreição Jesus refaz a criação (cf. Jo. 20,22) para celebrar, não mais no sábado mas nos domingos, (cf. Jo. 20,19), a festa da nova e eterna aliança de Deus com os homens. “A mãe de Jesus estava lá”. O v. 6 diz que estavam lá também seis potes de pedra, representando a antiga aliança (dada em tábuas de pedra – os 10 mandamentos). A mãe de Jesus, portanto, simboliza o Antigo Israel fiel a Deus. De onde vem este simbolismo que a mãe de Jesus representava o Antigo Israel fiel? Vem do paralelismo entre as duas expressões estava lá (para a mãe de Jesus) e estavam lá (para os potes de pedra). Ela pertencia aquele povo da antiga aliança, mas era o resto fiel que vai gerar a Nova Aliança em Jesus Cristo. Enquanto a mãe de Jesus estava lá, Jesus e os discípulos que representam a Nova Aliança foram convidados. “Faltou vinho” e a mãe de Jesus constata isso diante de Jesus. A falta de vinho significa que a Antiga Aliança estava chegando ao fim, estava sem sentido, não produzia mais alegria. Vamos perceber no v. 6 que os potes de pedra que serviam para os ritos de purificação também estavam vazios. Eles simbolizam a Aliança do Sinai feita em tábuas de pedra. Mas tudo agora é um vazio. O v. 4, onde Jesus chama sua mãe de “mulher” mostra mais uma vez o caráter simbólico representativo da mãe de Jesus (cf. Jo 19,26). Jesus mostra a sua mãe que a Antiga Aliança não tem mais razão de ser. Ele vai inaugurar uma Nova Aliança, quando chegar a sua hora. A hora de Jesus se manifesta plenamente no momento da sua morte. Ali também sua glória e a glória do Pai serão plenamente manifestadas. A mãe de Jesus entende que o filho vai antecipar sua hora. Então ela dá uma ordem aos que estavam servindo. A ordem é fazer o que Jesus mandar. Os serventes simbolizam os discípulos de Jesus, os convidados da Nova Aliança, aqueles que fazem a vontade de Jesus. A ordem de Jesus é encher de água os potes vazios e os serventes a cumprem com precisão. Depois, Jesus manda tirar a água e levar ao mestre-sala. Aqui está a maravilha: a água levada é transformada em vinho de ótima qualidade. Interessante! O milagre acontece fora dos potes (cf. v. 9). Isto significa que Jesus não vai remendar a Aliança Antiga, mas substituí-la. Ele traz uma aliança Nova em seu sangue. O vinho simboliza o sangue que será derramado na cruz, onde a Aliança Nova será consumada. Jesus substitui a Lei, dada por Moisés, pelo amor misericordioso, pela graça que ele mesmo traz. (cf. 1,17). Para os profetas, quando viesse o Messias, haveria abundância de vinho. As seis talhas equivaliam mais ou menos a uns 600 litros de vinho. Isto significa que o Messias chegou mesmo, na pessoa de Jesus. Jesus é o esposo da Nova Aliança, do novo povo de Deus. O mestre-sala representa os dirigentes do povo. Percebemos como eles estavam por fora da situação do povo. Eles não cuidavam mais das necessidades do povo. O povo estava carente e abandonado. Mais uma vez lembramos o fim da Aliança Antiga. Jesus começa assim seus sinais. O sinal maior do seu amor misericordioso será a morte na cruz (cf. 15,13). Aqui ele começa a manifestar a sua glória. Na cruz ele manifestará a plenitude da sua glória, atraindo muitos a si.

dom Emanuel Messias de Oliveira

 
 

1 – Com o Batismo de Jesus, no último domingo, iniciamos o tempo comum, que será interrompido com a Quaresma e tempo Pascal, e nos levará até o próximo ano litúrgico que sempre inicia com o Advento. É comum ou ordinário, mas não é um tempo vazio ou secundário, é uma oportunidade para o cristão “contemplar de perto, episódio após episódio, toda a vida histórica do seu Senhor, desde o Batismo no Jordão até à Cruz e à Glória da Ressurreição” (dom António Couto).

Depois do Batismo, a liturgia da palavra apresenta-nos Jesus nas bodas de Canaã, na vida comum, no quotidiano das pessoas e das famílias. Assim O veremos em momentos de festa, de alegria e nos momentos de tristeza e luto. Jesus não está acima ou à margem. Está no meio, no centro da vida humana. Vai às margens para trazer para a luz, para a vida, para a felicidade aqueles que se perderam ou estão em vias disso.

Como membro da comunidade, e certamente da família, também vai à festa. Estão todos. sua Mãe. Os discípulos. São José já teria morrido, por isso não está presente. Onde pulsa a vida, Jesus diz presente. E a Sua presença passa a ser notada, ainda que de forma discreta, mas eficiente.

O quadro que nos é apresentado por São João é revelador. Vejamos o texto.

2 – “A certa altura faltou o vinho. Então a Mãe de Jesus disse-Lhe: «Não têm vinho». Jesus respondeu-Lhe: «Mulher, que temos nós com isso? Ainda não chegou a minha hora». Sua Mãe disse aos serventes: «Fazei tudo o que Ele vos disser». Havia ali seis talhas de pedra, destinadas à purificação dos judeus, levando cada uma de duas a três medidas. Disse-lhes Jesus: «Enchei essas talhas de água». Eles encheram-nas até acima. Depois disse-lhes: «Tirai agora e levai ao chefe de mesa». E eles levaram. Quando o chefe de mesa provou a água transformada em vinho, – ele não sabia de onde viera, pois só os serventes, que tinham tirado a água, sabiam – chamou o noivo e disse-lhe: «Toda a gente serve primeiro o vinho bom e, depois de os convidados terem bebido bem, serve o inferior. Mas tu guardaste o vinho bom até agora».

Antes de mais a delicadeza de Maria, Mãe de Jesus. Atenta. Discreta. Interventiva. Recorre a Quem deve recorrer. Confiante, cheia de graça e de fé. Intercede. E não duvida de Jesus, ainda que o Filho a chame a atenção. E dá uma ordem clara – fazei tudo o que Ele vos disser. Também é para nós esta recomendação, sabendo que se fizermos o que Ele nos disser, entramos no Seu caminho de salvação e vida nova.

Jesus faz a Sua parte. Conta conosco. Mais uma experiência para a qual os discípulos estão convocados. O milagre acontece quando damos o melhor de nós mesmos, o que temos, mesmo que seja uma bilha de água. Deus opera a salvação em nós, transforma-nos no mais saboroso e suculento vinho para a festa. Criou-nos sem nós, como diz Santo Agostinho, mas não nos salva sem nós, sem a nossa resposta.

O bom vinho chega com Jesus Cristo. Definitivamente está na nossa vida. Do nosso lado.

3 – O profeta Isaías intui, de forma sublime, a vinda do Messias de Deus, que ora vemos concretizado em Jesus Cristo. Com Ele chegará o tempo de graça e salvação, será restabelecida toda a justiça.

“Os povos hão de ver a tua justiça e todos os reis a tua glória. Receberás um nome novo, que a boca do Senhor designará... Não mais te chamarão «Abandonada», nem à tua terra «Deserta», mas hão de chamar-te «Predileta» e à tua terra «Desposada», porque serás a predileta do Senhor e a tua terra terá um esposo. Tal como o jovem desposa uma virgem, o teu Construtor te desposará; e como a esposa é a alegria do marido, tu serás a alegria do teu Deus”.

Os que são envolvidos por esta LUZ, nova e bela, tornar-se-ão anunciadores, testemunhas, gritando a salvação, transparecendo em Si mesmos a graça que acolhem de Deus, como se reza no salmo: “Anunciai dia a dia a sua salvação, publicai entre as nações a sua glória, em todos os povos as suas maravilhas”.

4 – Cumpre-nos acolher a salvação de Deus, pela fé que professamos, pela esperança que anunciamos, pela caridade que nos aproxima dos outros para neles encontrar a PRESENÇA de Deus. Somos diferentes, é certo, na idade, no tempo, nas qualidades, e nas limitações, no temperamento, no lugar em que nos encontramos, mas o compromisso com Jesus é para todos. Batizados na mesma fé, no mesmo Espírito Santo, com a nossa vida havemos de levar Jesus mais longe, ao coração de cada pessoa que encontramos, nas mais diversas situações e circunstâncias.

Belíssima mensagem do apóstolo, salientando como os dons são concedidos a uns mas a favor de todos: “Há diversidade de dons espirituais, mas o Espírito é o mesmo. Há diversidade de ministérios, mas o Senhor é o mesmo. Há diversidade de operações, mas é o mesmo Deus que realiza tudo em todos. Em cada um se manifestam os dons do Espírito para o bem comum... é um só e o mesmo Espírito que faz tudo isto, distribuindo os dons a cada um conforme Lhe agrada”.

padre Manuel Gonçalves

 
 

Jesus inaugura uma religião de vida

Depois do Natal e da Epifania e, antes de chegar a Quaresma, intercala-se um tempo intermédio na liturgia dos domingos, tirado do Tempo Comum em que se seguem as leituras do ciclo C. Mas, na realidade, este "segundo domingo" foi sempre um domingo de transição que teve como marco os primeiros capítulos do Evangelho de João o qual é lido, normalmente, nos três ciclos, durante o tempo da Quaresma e da Páscoa.

1ª leitura: Isaías (62,1-5)

O enamoramento de Deus partindo da justiça

1. A leitura profética é tirada da terceira parte do livro de Isaías (chamado Trito-Isaías); e o profeta discípulo, o da escola de Isaías em sentido lato, anuncia uma nova Jerusalém, a cidade de Sião, com a linguagem poética do enamoramento e do amor divinos. A grande paixão do profeta Isaías foi Jerusalém, onde estava o templo de Deus ou, por outras palavras, a sua presença mais concreta, de acordo com a teologia dos especialistas. Mas nem sequer a presença de Deus está eternamente garantida num lugar ou numa cidade se os seus habitantes e todos os que a ela querem ir, não sentem a necessidade da justiça como sinal de salvação. Nos profetas, há um aspecto que deve ser salientado e que é a estreita união entre a presença de Deus e a justiça. É evidente que Deus não pode comprometer-se com um povo que não cuida dos insignificantes, dos desgraçados e dos que não têm quase nada. Se a religião é "re-ligar-se" a Deus.

2. Conceitos e palavras fortes são as que podemos ouvir neste belo poema profético (que deve ser lido desde 61,10); amor, justiça, salvação. É como uma descrição da boda de um rei vitorioso com a esposa que, neste caso, é Sião, Jerusalém. A boda, na realidade, é uma vitória, a vitória da justiça. Esta é a sua coroa e o seu triunfo: desposar a amada Jerusalém. Pela mesma razão, falar de uma nova Jerusalém é anunciar uma nova religião, revivida pelo amor eterno de Deus. Jerusalém é a esposa, mas, o que faz uma esposa desposada se, na sua boda, falta o vinho novo do amor? Foi o que sucedeu nas bodas de Caná, em Jerusalém, na religião judaica, até que Jesus intervém, oferecendo o vinho novo do amor divino. Uma religião sem amor é como umas bodas sem amor. E, muitas vezes, habituamo-nos a praticar este tipo de religião: vazia, sem sentido, sem enamoramento.

2ª leitura: 1 epístola aos Coríntios (12,4-11)

Os carismas e o bem comum da comunidade

1. Na passagem da carta aos Coríntios de S. Paulo, que hoje lemos, encontramos a teologia dos carismas na comunidade. Este texto foi elaborado partindo de dois conceitos que se atraem: unidade e diversidade. Há diversidade de carismas, de ministérios e de funções, mas num mesmo Espírito, num mesmo Senhor, num mesmo Deus (aqui reside a unidade). Sobressai, porém, o papel do Espírito como fonte imediata dos carismas, serviços e comportamentos. Não é este o momento para nos fixarmos na diversidade ou até na enumeração e ordem que Paulo estabelece. Poderia ser curioso a ordem e o sentido dos mesmos, mas não é este o momento para fazer uma leitura exegética que, além disso, para maior alcance, deveria ter em conta todo o conjunto de 1Cor 12-14. Talvez os dois últimos carismas -  o de falar línguas (glossolalia) e de as interpretar estivessem no fundo de um problema suscitado na comunidade para além disso, o que perguntaram ao apóstolo. O critério, no entanto, é que, pelo Espírito, os dons especiais que cada um devem estar ao serviço da comunidade cristã.

2. O fenômeno da glossolalia (falar diversas línguas sem as aprender previamente) é extático e tem a ver com alguns elementos deste tipo no mundo helenista, como em Delfos ou as Sibilas. Talvez devêssemos ter em consideração as palavras de K. Barth, que dizia que este tipo de oração poderia chamar-se "expressão do inexprimível". O apóstolo S. Paulo em 1Cor 14, 18, aponta, inclusivamente, que ele próprio é capaz de "falar noutras línguas" e não parece que haja ironia nas suas palavras. Alguns coríntios estavam deslumbrados com este carisma que consideravam dos mais brilhantes e celestes, quase como entrar no divino. Mas quem o pode entender? Tem que haver alguém que o interprete. Paulo não fala com ironia sobre este caso, repetimos, mas o seu critério é decisivo: o bem da comunidade.

3. Estamos perante uma teologia que comprova a vitalidade de uma comunidade cristã onde o Espírito (como o vinho novo da vida) concede a cada um o seu papel ao serviço e benefício dos outros: uns pregam, outros louvam, outros consolam, outros profetizam, outros dedicam-se aos pobres e deserdados; tudo sob o impulso do Espírito de Jesus. Paulo fala-lhes desta maneira, a uma comunidade que não era propriamente um prodígio de unidade, pelo contrário, havia alguns que pretendiam impor-se aos outros, pelo desempenho de funções que poderiam ser consideradas estranhas e onde se procurava mais o prestígio pessoal do que o serviço à comunidade. Estes dons, que não sabem, pois, colocar-se ao serviço de todos, não vêm do Espírito.

Evangelho: João (2,1-11)

Encher a religião de alegria e vida

1. O Evangelho de hoje propõe-nos o relato das bodas de Caná como o primeiro sinal que Jesus faz neste Evangelho e que prenuncia tudo aquilo que Ele vai realizar durante a sua existência. Poderíamos começar por uma descrição quase bucólica de uma festa de casamento, numa aldeia, em contexto da cultura hebraica oriental. Assim o farão muitos pregadores e têm todo o direito disso. Mas o Evangelho de João não se presta às descrições bucólicas ou barrocas. Este é um relato estranho que fala de umas bodas e não se ocupa apenas dos noivos. A noiva nem sequer é mencionada. O noivo só no final para censurar o mestre-sala por ter guardado o vinho bom. A "mãe e seu filho" são os verdadeiros protagonistas. Estes parecem, na verdade, "os noivos" deste acontecimento. Mas a mãe não tem nome. Talvez a discussão exegética se tenha centrado muito nas palavras de Jesus a sua mãe: "Que temos nós a ver com isso?" ou, mais comummente, "que tem isso a ver contigo e comigo?" E o famoso "ainda não chegou a minha hora". O "vinho" torna-se muito importante, pois é mencionado cinco vezes, e porque o vinho tem um significado messiânico. Além disso, o que se passou não é entendido como um milagre, mas como um "sinal" (semeion), o primeiro de seis que serão narrados no Evangelho de João.

2. A força da mensagem do Evangelho deste domingo é a seguinte: Jesus, a palavra da vida no Evangelho de João transforma a água que devia servir para a purificação dos judeus – e isso é muito significativo neste episódio - segundo os rituais da sua religião ancestral, – num vinho de uma qualidade proverbial. A narrativa tem umas conotações muito particulares, na linguagem dos símbolos, da narratologia e da teologia que, resolutamente, temos de inferir. O "terceiro dia" dá que pensar, pois consideramos que é uma expressão mais teológica do que narrativa. O terceiro dia é o da Páscoa cristã, a ressurreição depois da morte. Não é, portanto, um dado estético, mas sim muito significativo. Também há uma expressão ao terceiro dia no Sinai (Ex. 19,11) quando se anuncia que Iavé, a glória de Deus, desceria.

3. A teologia do Evangelho de João quer salientar, simultaneamente, várias coisas que só podem ser compreendidas de acordo com a linguagem não explícita dos sinais. Jesus e sua Mãe chegam por caminhos diferentes a estas bodas; falta vinho numas bodas, o que é inaudito numa celebração deste tipo, porque desprestigia o noivo; a mãe (nunca nos é dito o nome em toda a narrativa nem em todo o Evangelho) e Jesus mantêm um diálogo decisivo quando apenas são uns convidados, e, inclusivamente as talhas de pedra para a purificação (eram seis e não sete), estavam vazias. Há muitos vazios, muitas carências e absurdos nesta celebração de bodas. O "milagre" torna-se presente de uma forma simples: primeiro, através de um diálogo entre a mãe e Jesus; depois pela "palavra" de Jesus que manda encher as talhas de pedra de uns quarenta litros cada uma.

4. Maria atua mais como mãe, como pessoa atenta a uma boda que representa a religião judaica na qual tinha sido educada e tinha educado Jesus. Não é indiferente que seja a mãe a saber que lhes falta vinho. Não é uma boda real nem um milagre "fidedigno" o que aqui nos propomos considerar primeiramente: é uma chamada de atenção para o vazio de uma religião que perdeu o vinho da vida. Quando uma religião serve apenas como ritual repetitivo e não como força criadora da vida, perde a sua glória, o seu ser. Jesus, portanto, perante o pedido de pessoas de confiança, como sua mãe, que se apercebem do vazio existente, antecipa a sua hora, o seu momento decisivo, para oferecer vida a quem a busca de verdade. A sua glória não consiste num milagre exótico, mas em salvar e oferecer vida onde pode dominar o vazio e a morte. Esta será a sua causa, a sua hora e a razão da sua morte no fim da sua vida, tal como o interpreta o Evangelho de João a vida de Jesus de Nazaré. De uma religião nova surgirá uma comunidade nova.

5. Poderíamos fazer uma leitura mariológica deste relato, como muitos fizeram e continuam a fazer. Mesmo o fato de esta narrativa ter sido inserida como o segundo dos "mistérios luminosos" do Rosário de João Paulo II é um indício de que a isso conduz. Mas não devemos exagerar estes aspectos mariológicos que no Evangelho de S. João não se multiplicam, embora contemos com a cena aos pés da Cruz (Jo 19, 26-27) que foi interpretada como a chave da maternidade espiritual de Maria sobre a Igreja. O nosso relato é cristológico, porque nos mostra que os "discípulos acreditaram n'Ele. Isso quer dizer que a mariologia do relato (o papel de Maria nas bodas de Caná) deve estar muito bem integrado na cristologia. No Evangelho de João, Maria pode muito bem representar uma nova comunidade que segue Jesus (como o discípulo amado) e que vê a boda daqueles noivos que ficam sem vinho como uma leitura crítica de um "judaísmo" que combatem os "autores" do Evangelho de João. Daí a resposta de Jesus a sua mãe nesta narrativa se o fizermos com a tradução mais comum: "que tem isso a ver contigo e comigo"? Pode fazer todo o sentido se o evangelista quer marcar as diferenças com um judaísmo que se está a esgotar como religião, porque perdeu o seu horizonte messiânico. Já agora umas perguntas finais: e a nossa religião, que lhe está a acontecer? É profética, transmite vida e alegria?

fray Miguel de Burgos Núñez

tradução de Maria Madalena Carneiro

 
 

As bodas de Caná

Estas bodas, únicas nos Evangelhos, em que se vê a Virgem dispensar a concordância de Jesus e, de algum modo, forçá-l'O para obter d'Ele aquele prodígio que reclama – são um fato extraordinário, se atendermos ao sentido simbólico que contêm.

Não se trata, efetivamente, de contentar os convivas cujo apetite está já satisfeito, regalando-os com um vinho mais saboroso do que aquele que tinha sido servido até àquele momento. Também não se trata do casamento de um homem e de uma mulher cujos nomes nem sequer S. João indica. Trata-se da união entre Deus e a Igreja, das alegrias nupciais de Nosso Senhor e da alma; e não é a água que se transforma em vinho, mas antes o vinho que se transmuta em sangue.

Estas bodas de Caná são apenas um pretexto e um símbolo, porque todos os exegetas estão de acordo quanto a reconhecer nesta cena o símbolo da Eucaristia.

É aceite que o Antigo Testamento prefigura o Novo, mas poderíamos admitir também que certas passagens do Evangelho prefiguram, por sua vez, outras dos mesmos livros? As bodas de Caná são, apenas e realmente, a imagem antecipada da Ceia. O primeiro milagre feito pelo Messias, no início da sua vida pública, anuncia o que Ele realizará na véspera da sua morte.

J-K Huysmans

Marie-dominique moliné, O.P.

 
 

Fazei o que Ele vos disser

O beato João Paulo II disse que “no episódio das bodas de Caná, são João apresenta a primeira intervenção de Maria na vida pública de Jesus e põe em relevo a sua cooperação na missão do Filho”.

 

Versículos de 1 a 5: “Três dias depois, celebravam-se bodas em Caná da Galiléia, e achava-se ali a mãe de Jesus. Também foram convidados Jesus e os seus discípulos. Como viesse a faltar vinho, a mãe de Jesus disse-lhe: Eles já não têm vinho. Respondeu-lhe Jesus: Mulher, isso compete a nós? Minha hora ainda não chegou. Disse, então, sua mãe aos serventes: Fazei o que ele vos disser”.

Nas bodas de Caná a presença de Jesus com seus discípulos, e também a Virgem Maria – O beato João Paulo II disse: “Desde o início da narração, o evangelista avisa que «a mãe de Jesus estava presente» e, como que a querer sugerir que essa presença está na origem do convite dirigido pelos esposos ao próprio Jesus e aos Seus discípulos, acrescenta: «Jesus e os Seus discípulos foram convidados para as bodas».

“Como viesse a faltar vinho, a mãe de Jesus disse-lhe” – “O significado e o papel que assume a presença da Virgem, manifestam-se quando vem a faltar o vinho. Ela, experiente e prudente dona de casa, percebe isso imediatamente e intervém para que não termine a alegria de todos e, principalmente, para socorrer os esposos em dificuldade” (beato João Paulo II)

“Eles já não têm vinho” – O papa Bento XVI disse que “na Terra Santa, festejavam-se as bodas durante uma semana inteira; nelas participava todo o povoado, e portanto consumiam-se grandes quantidades de vinho. Agora os esposos encontram-se em dificuldade, e Maria simplesmente refere tal fato a Jesus. Não lhe pede algo específico, e ainda menos que Jesus exerça o seu poder, realize um milagre, produza vinho. Simplesmente confia a situação a Jesus, deixando-lhe a decisão sobre como agir”.

“Disse, então, sua mãe aos serventes” – O  Beato João Paulo II disse:  “O primeiro dos “sinais” realizado por Jesus –a transformação da água em vinho nas bodas de Caná – mostra-nos precisamente Maria no papel de mestra, quando exorta os servos a cumprirem as disposições de Cristo “(Jo 2,5).

“Fazei o que Ele vos disser” – O Beato João Paulo II disse que “a Mãe de Cristo apresenta-se diante dos homens como porta-voz da vontade do Filho, como quem indica aquelas exigências que devem ser satisfeitas, para que possa manifestar-se o poder salvífico do Messias. Em Caná, graças à intercessão de Maria e à obediência dos servos, Jesus dá início à “sua hora”. Em Caná, Maria aparece como quem acredita em Jesus: a sua fé provoca da parte dele o primeiro “milagre” e contribui para suscitar a fé dos discípulos”.

O Catecismo (2618) ensina: “O Evangelho revela-nos como é que Maria ora e intercede na fé: em Caná, a Mãe de Jesus roga a seu Filho pelas necessidades dum banquete de bodas, sinal dum outro banquete, o das bodas do Cordeiro que dá o seu corpo e o seu sangue a pedido da Igreja, sua esposa”.

 

Versículos  de 6 a 10: “Ora, achavam-se ali seis talhas de pedra para as purificações dos judeus, que continham cada qual duas ou três medidas. Jesus ordena-lhes: Enchei as talhas de água. Eles encheram-nas até em cima. Tirai agora , disse-lhes Jesus, e levai ao chefe dos serventes. E levaram. Logo que o chefe dos serventes provou da água tornada vinho, não sabendo de onde era (se bem que o soubessem os serventes, pois tinham tirado a água), chamou o noivo  e disse-lhe: é costume servir primeiro o vinho bom e, depois, quando os convidados já estão quase embriagados, servir o menos bom. Mas tu guardaste o vinho melhor até agora”.

“Jesus ordena-lhes: Enchei as talhas de água” -  O beato João Paulo II disse: “Em todo o caso a sua confiança (de Maria) no Filho é recompensada. Jesus, a Quem ela deixou totalmente a iniciativa, realiza o milagre, reconhecendo a coragem e a docilidade da Mãe: «Disse-lhes Jesus: “Enchei de água essas talhas”; e encheram- nas até à borda» (Jo. 2,7). Também a obediência deles, portanto, contribui para a obtenção do vinho em abundância”.

O sacramento do Matrimônio – “A presença de Jesus em Caná manifesta, além disso, o projeto salvífico de Deus a respeito do matrimônio. Nessa perspectiva, a falta de vinho pode ser interpretada como alusiva à falta de amor que, infelizmente não raro, ameaça a união esponsal. Maria pede a Jesus que intervenha em favor de todos os esposos, pois somente um amor fundado em Deus pode libertar dos perigos da infidelidade, da incompreensão e das divisões”. (padre Bantu Mendonça)

O Catecismo (1613) ensina: “No umbral da sua vida pública, Jesus realiza o seu primeiro sinal –a pedido da sua Mãe – por ocasião duma festa de casamento. A Igreja atribui uma grande importância à presença de Jesus nas bodas de Caná. Ela vê nesse fato a confirmação da bondade do matrimônio e o anúncio de que, doravante, o matrimônio seria um sinal eficaz da presença de Cristo”.

 

Versículo 11: “Este foi o primeiro milagre de Jesus; realizou-o em Caná da Galiléia. Manifestou a sua glória, e os seus discípulos creram nele”.

“Manifestou a sua glória, e os seus discípulos creram nele”-  “Lemos no Evangelho que, diante do vinho novo, diante de Jesus que inaugura o Reino, os discípulos não só continuam uma festa bem alegre (600 litros de ótimo vinho a mais), mas foram ao mais importante, a fé em Jesus” (padre Luiz Carlos de Oliveira)

O papa  Bento XVI disse: “Possa este Ano da Fé tornar cada vez mais firme a relação com Cristo Senhor, dado que só n’Ele temos a certeza para olhar o futuro e a garantia dum amor autêntico e duradouro”.

Conclusão

“ A mudança que o Reino realiza em nós coloca nossa vida a serviço, como Jesus o fez. Serviço de entrega de vida, mas e sobretudo de ser alegria de amor, como lemos no Evangelho. O vinho novo, que é Jesus,  trouxe uma mudança. É como a água que foi colocada em potes vazios e que Jesus transformou em vinho bom, pois a festa de Deus não pode acabar”. (Padre Luiz Carlos de Oliveira)

Jane Amábile

 
 

O Evangelho deste 2º Domingo do Tempo Comum coloca à nossa consideração as bodas de Caná, acontecidas na Galileia. Tanto naquele tempo como agora, as festas são apreciadas por todos, quer seja um casamento, um batizado, um aniversário, a festa do santo padroeiro ou da padroeira da igreja, fim de ano... festas e mais festas... Há algumas festas que ficam gravadas na nossa memória e que com o passar do tempo adquirem um significado cada vez mais profundo, assim como há outras que caem no mais profundo esquecimento porque perderam o seu significado. A festa das bodas de Caná, tal como é descrita no Evangelho de São João (Jo. 2, 1-12), ficou gravada na memória do povo cristão e para alguns revela um sentido profundo.

Para entender esta descoberta progressiva do significado das bodas de Caná, devemos recordar que o Evangelho de João é diferente dos outros Evangelhos. João narra os fatos da vida de Jesus de tal modo que os leitores sejam conduzidos a descobrir neles uma dimensão mais profunda que somente a fé pode perceber. João faz, ao mesmo tempo, uma fotografia e um “Raio-X”. Durante a leitura, é bom prestar muita atenção aos pormenores do texto, sobretudo a duas coisas: 1) – as atitudes e comportamentos das pessoas e 2) – a falta e abundância que aparecem na festa das bodas de Caná.

Contexto para compreender a fotografia e o “Raio-X”

Quando dizemos “fotografia”, indicamos os fatos em si, tal como aparecem diante dos nossos olhos. Quando dizemos “Raio-X”, referimo-nos à dimensão mais profunda, invisível aos olhos, que se encontra nos fatos que só a fé nos faz perceber e no-la revela.

É no modo de descrever os fatos que João faz os “Raios-X” às palavras e aos gestos de Jesus. Mediante estes pormenores e alusões, o evangelista põe em relevo a dimensão simbólica e, fazendo assim, ajuda-nos a penetrar mais profundamente no mistério da pessoa e da mensagem de Jesus. Nas bodas de Caná, na Galileia, opera-se a transformação da água das purificações dos judeus em vinho para a festa das bodas. Vejamos de perto os pormenores com que João descreve a festa de modo que possamos compreender o significado mais profundo deste belo e tão conhecido episódio.

Comentário do texto

João 2, 1-2: Festa das bodas. Jesus está convidado. No Antigo Testamento a festa das bodas era símbolo do amor de Deus para com o seu povo. Era o que todos esperavam no futuro (Os. 2, 21-22; Is. 62, 4-5). E é precisamente numa festa de bodas, junto a uma família e a uma comunidade, que Jesus realiza o seu “primeiro sinal” (Jo. 2, 11). A Mãe de Jesus encontra-se também na festa. Jesus e os seus discípulos foram convidados. Ou seja, a Mãe de Jesus fazia parte da festa. Simboliza o Antigo Testamento. Também Jesus está presente mas com veste de convidado. Ele não faz parte do Antigo Testamento. Com os seus discípulos ele é o Novo Testamento que está a chegar. A Mãe de Jesus ajudará a passar do Antigo para o Novo Testamento.

João 2, 3-5: Jesus e sua Mãe perante a falta de vinho. A Mãe de Jesus reconhece os limites do Antigo Testamento e toma a iniciativa para que se manifeste o Novo Testamento. Aproxima-se de Jesus e diz-lhe: “Não têm vinho”. Aqui aparece tanto a foto como o “Raio-X”. A foto representa a Mãe de Jesus como pessoa atenta aos problemas dos outros de tal modo que se dá conta que a falta de vinho arruinaria a festa. E não só constata o problema mas toma a iniciativa para o resolver. O Raio-X revela a dimensão mais profunda da relação entre o Antigo Testamento (a Mãe de Jesus) e o Novo Testamento (Jesus). A frase “não têm vinho!”, procede do Antigo Testamento e desperta em Jesus a ação que fará nascer o Novo. Jesus diz: “Mulher, que tem isso a ver contigo e comigo?”. Ou seja, qual é o nexo entre o Antigo e o Novo Testamento? “Ainda não chegou a minha hora”. Maria não entende a resposta como uma negação visto que diz aos serventes: “Fazei tudo o que ele vos disser”. Atuando deste modo, Jesus ensina como se passa do Antigo para o Novo Testamento. A hora de Jesus, em que se fará a passagem do Antigo para o Novo Testamento, é a sua paixão, morte e ressurreição. A mudança de água em vinho é a indicação antecipada do Novo, que nascerá a partir da morte e da ressurreição de Jesus.

Pelos fins do século primeiro discutia-se entre os primeiros cristãos acerca da validade do Antigo Testamento. Alguns já não queriam saber nada do Antigo Testamento. Na reunião dos Apóstolos em Jerusalém, São Tiago defendeu a continuidade do uso do Antigo Testamento (Act. 15, 13-21). Na verdade, nos princípios do século segundo, Marcião rejeitou o Antigo Testamento e ficou somente pelos livros do Novo Testamento. Alguns sustentavam, inclusivamente, que depois da vinda do Espírito Santo não se devia recordar mais Jesus de Nazaré, mas falar unicamente de Jesus Ressuscitado. Em nome do Espírito Santo diziam: “Anátema seja Jesus” (1Cor. 12, 3).

João 2, 6: As vasilhas da purificação estão vazias. Trata-se de um pequeno detalhe mas muito significativo. As vasilhas costumavam estar sempre cheias, sobretudo durante uma festa. Aqui estão vazias! Porquê? A observância da lei da pureza, simbolizada pelas seis vasilhas, esgotou todas as suas possibilidades. A antiga lei conseguiu já preparar as pessoas para poder estar em união de graça e de justificação diante de Deus. As vasilhas, a antiga aliança, estão vazias. Já não podem gerar uma vida nova.

João 2, 7-8: Jesus e os serventes. A recomendação da Mãe de Jesus aos serventes é a última grande ordem do Antigo Testamento: “Fazei tudo o que ele vos disser!”. O Antigo Testamento olha já para Jesus. De agora em diante as palavras e os gestos de Jesus marcarão a vida. Jesus chama os serventes e ordena-lhes que encham as seis vasilhas. No total, mais de seiscentos litros! De imediato manda levar ao chefe de mesa. Esta iniciativa de Jesus acontece sem que os donos da festa intervenham. Nem Jesus, nem a Mãe, nem os serventes eram os donos, obviamente. Nenhum deles pediu autorização aos donos. A renovação passa pelas pessoas que não pertencem ao centro do poder.

João 2, 9-10: Descoberta do sinal por parte do dono da casa. O chefe de mesa prova a água transformada em vinho e diz ao esposo: “Toda a gente serve primeiro o vinho melhor e, depois de terem bebido bem, é que serve o pior. Tu, porém, guardaste o melhor vinho até agora!”. O chefe de mesa, o Antigo Testamento, reconhece publicamente que o Novo é melhor! Onde antes estava a água para os ritos de purificação dos judeus, agora há vinho em abundância para a festa. Era muito vinho! Mais de seiscentos litros, e a festa estava quase no fim. Qual é o sentido desta abundância? Que se faz com o vinho que sobra? Estamos a bebê-lo hoje!

João 2, 11-12: Comentário do evangelista. Este é o primeiro sinal. No quarto Evangelho, o primeiro sinal acontece para ajudar na reconstrução da família, da comunidade, para sanar as relações de base entre as pessoas. Seguir-se-ão outros sinais. João não utiliza a palavra milagre, mas a palavra sinal. A palavra sinal indica que as ações de Jesus em favor das pessoas têm um valor profundo, que só se descobre com o “Raio-X” da fé. A pequena comunidade que se formou à volta de Jesus naquela semana, vendo o sinal, estava já capacitada para perceber o significado mais profundo e “acreditou n'Ele”.

Bodas muito esperadas

No Evangelho de João, o começo da vida pública de Jesus acontece numa festa de bodas, momento de muita alegria e de muita esperança. Por isso mesmo, as bodas de Caná têm um significado simbólico muito forte. Na Bíblia, o matrimônio é a imagem utilizada para significar a realização da perfeita união entre Deus e o seu povo. Estas bodas entre Deus e o seu povo eram esperadas desde há muito tempo, mais de oitocentos anos!

Foi o profeta Oseías (por volta do ano 750 antes de Cristo) que, pela primeira vez, representou a esperança destas bodas quando narra a parábola da infidelidade do povo perante as propostas de Yahvé. A monarquia de Israel abandonou Yahvé e a sua misericórdia, conduzindo o povo para o culto de falsos deuses. Mas o profeta, seguro do amor de Deus, diz que o povo será de novo conduzido ao deserto para escutar da parte de Deus a seguinte promessa: “Far-te-ei minha esposa para sempre, far-te-ei minha esposa na justiça e no direito, na benevolência e no amor, e desposar-te-ei na fidelidade e tu reconhecerás o Senhor” (Os. 2, 21-22). Estes esponsais entre Deus e o povo indica que o ideal do êxodo será alcançado (Os. 2, 4-25). Depois de quase cento e cinquenta anos, o profeta Jeremias volta a tomar as palavras de Oseias para denunciar a monarquia de Judá. E diz que Judá terá o mesmo destino de Israel por causa da sua infidelidade (Jer. 2, 2-5; 3, 11-13). Mas também Jeremias olha para a esperança de uns desposórios perfeitos com a seguinte novidade: será a mulher que seduzirá o marido (Jer 31, 22). E apesar da crise geral causada pelo desterro na Babilônia, o povo não perde a esperança de que um dia este desposório realizar-se-á. Yahvé terá compaixão da sua esposa abandonada (Is 54, 1-8). Com o regresso dos desterrados, a “Abandonada” voltará a ser a esposa acolhida com muita alegria (Is 62, 4-5).

Olhando para a Novidade que chega, também João Baptista olha para Jesus, o Esposo esperado (Jo. 3, 29). No ensinamento e nos diálogos com as pessoas, Jesus retoma a parábola de Oseias, o sonho das bodas perfeitas. Ele apresenta-se como o Esposo esperado (Mc. 2, 19). No diálogo com a samaritana, apresenta-se como o verdadeiro Esposo, o sétimo (Jo. 4, 16-17). As comunidades cristãs aceitaram Jesus como o Esposo esperado (2Cor. 11, 2; Ef. 5, 25-31). As bodas de Caná querem demonstrar que Jesus é o verdadeiro Esposo que chega para as tão esperadas bodas, portanto, um vinho gostoso e abundante. Estas bodas definitivas estão descritas com belas imagens no livro do Apocalipse (Ap. 19, 7-8; 21, 1; 22, 5).

A Mãe de Jesus no Evangelho de João

Ainda que não seja chamada com o nome de Maria, a Mãe de Jesus aparece duas vezes no Evangelho de João: no princípio, nas bodas de Caná (Jo. 2, 1-5) e, no final, aos pés da Cruz (Jo. 19, 25-27). Nos dois casos representa o Antigo Testamento que espera a chegada do Novo, e nos dois casos, contribuiu para a chegada do Novo. Maria é o laço entre o que havia antes e o que virá depois. Em Caná, a Mãe de Jesus, símbolo do Antigo Testamento, é aquela que se dá conta dos limites do Antigo Testamento e dá os passos para que possa aparecer o Novo. Aos pés da Cruz, está junto ao “discípulo amado”. O discípulo amado é a comunidade que cresce à volta de Jesus, é o filho que nasce do Antigo Testamento. À petição de Jesus, o filho, o Novo Testamento, recebe a Mãe, o Antigo Testamento, em sua casa. Os dois devem caminhar juntos. Na verdade, o Novo não se entende sem o Antigo. O Novo não terá base, fundamento. E o Antigo sem o Novo seria incompleto: uma árvore sem frutos.

Os sete dias da nova criação

O texto começa: “Ao terceiro dia” (Jo. 2, 1). No capítulo anterior, João repetiu já por três vezes a expressão “No dia seguinte” (Jo. 1, 29.35.43). Fazendo os cálculos, isto apresenta o seguinte esquema: o testemunho de João Baptista acerca de Jesus (Jo. 1, 29) acontece no primeiro dia. “No dia seguinte” (Jo. 1, 29), ou seja, o segundo dia, acontece o baptismo de Jesus (Jo. 1, 29-34). No terceiro dia ocorre o chamamento dos discípulos e de Pedro (Jo. 1, 35-42). No quarto dia, Jesus chama Filipe e Natanael (Jo 1, 43-51). Finalmente, “três dias depois”, isto é, no sétimo dia, ou seja em pleno sábado, acontece o primeiro sinal das bodas de Caná (Jo. 2, 1). Ao longo do Evangelho de João Jesus realizará sete sinais.

João utiliza o esquema da semana para apresentar o começo da atividade de Jesus. O Antigo Testamento serve-se do mesmo esquema para apresentar a criação. Nos primeiros seis dias Deus criou todas as coisas chamando-as pelo seu nome. No sétimo dia descansou e não trabalhou mais (Gen. 1, 1-2, 4). Igualmente Jesus nos seis primeiros dias de atividade chama as pessoas e cria a comunidade, a nova humanidade. No sétimo dia, ou seja, no sábado, Jesus não repousa, mas realiza o seu primeiro sinal. Ao longo dos capítulos seguintes, de 2 a 19 inclusive, realizará seis sinais, sempre ao sábado (Jo. 5, 16; 9, 14). Na manhã da ressurreição, quando Maria Madalena vai ao sepulcro, diz-se: “No primeiro dia da semana” (Jo. 20, 1): é o primeiro dia da nova criação, depois daquele sábado prolongado em que Jesus faz os sete sinais.

Acusado de trabalhar ao sábado, Jesus responde: “Meu Pai sempre trabalha, e também eu trabalho” (Jo. 5, 17). Através da atividade de Jesus entre Caná e a Cruz, o Pai completa o que falta na velha criação, de modo que possa aparecer a nova criação na ressurreição de Jesus.

 
 

Jesus é homem como nós; tem amigos e aceita o convite para ir a um casamento com sua mãe e seus discípulos. Situando Jesus num casamento falido, como o de Caná da Galiléia, o evangelista não faz outra coisa senão mostrar quem é o esposo da humanidade. Portanto, o episódio de Caná deve ser lido em chave simbólica. Nesse sentido, é importante ter presente que:

- com muita frequência, o casamento é, na Bíblia, sinônimo de aliança (1ª leitura). Na linguagem profética, ser infiel à aliança é a mesma coisa que ser adúltero, prostituir-se; - a aliança antiga caducou, não tem mais razão de existir: “Eles não têm mais vinho”.

- o que sustentava a antiga aliança eram os ritos de purificação (as talhas para a purificação estão vazias). Os ritos de purificação não são mais condição para que as comunidades se tornem esposa do Cordeiro.

- Jesus é aquele que inaugura a Nova Aliança, aquele que traz o vinho novo de ótima qualidade, em abundância. O vinho, por sua vez, é símbolo muito forte do amor.

- o vinho que Jesus dá é de ótima qualidade, fazendo esquecer o antigo.

- a abundância de vinho (mais de 600 litros) era o sinal da chegada do Messias, que vai trazer o amor definitivo. Chegou, portanto, a hora de Jesus, que se consumará na cruz, mostrar seu amor sem limites.

- no episódio de Caná ignora-se a presença da noiva. É possível um casamento sem noiva? Onde, pois, está a noiva da Nova Aliança?

A resposta a essa última pergunta pode ser encontrada no próprio texto deste domingo.

É estranho que Jesus se dirija à sua mãe chamando-a “Mulher”. Isso nos leva a crer que “a mãe de Jesus”, no episódio de Caná, é símbolo dos que se conservaram fiéis a Deus, na expectativa da realização das promessas messiânicas. Representa aqueles que aguardam o novo, distanciando-se do antigo modo de encarar a relação Deus-humanidade.

Jesus não veio remendar a aliança antiga, como se pudéssemos sobrepor uma à outra.

O vinho novo não provém das talhas de pedra (que representam a antiga aliança), mas é transformado longe delas. Jesus é o que põe a graça no lugar da Lei. Supera, com isso, uma das mais antigas instituições para inaugurar um novo relacionamento entre Deus e a humanidade, baseado exclusivamente no amor gratuito.

O episódio de Caná marca o início dos sinais de Jesus que têm como finalidade levar a nova humanidade à maturidade da fé e à posse da vida. Dentro do Evangelho de João, Caná é um episódio que encontra seu ponto alto na cruz, a Hora de Jesus, quando manifesta em sinais concretos o que significa a abundância do vinho novo. É lá que ele manifesta seu amor até as últimas consequências.

Na segunda leitura, Paulo esclarece a questão dos carismas. Dava-se valor unicamente àqueles carismas extraordinários capazes de causar impacto nas pessoas: falar em línguas, profetizar, fazer curas e milagres.

Para os coríntios, ter carisma era isso. Paulo mostra que na comunidade, cada um recebe uma manifestação do Espírito para o crescimento e o bem de todos.

 
 

“Fazei tudo o que Ele vos disser”

A narrativa das bodas de Cana que a Liturgia do 2º Domingo Comum (Ano C) nos apresenta é o mistério no qual Jesus, graças à intervenção da Mãe, realiza o primeiro de seus “sinais”, convertendo a água em vinho. Ele manifesta, assim, a sua glória, de forma que os discípulos acreditaram nele.

Procuremos, então, colher o significado que transparece por meio do "sinal" de Caná, seguindo as indicações das frases que explicitam bem o colóquio entre Jesus e Maria.

1. “Estava lá a Mãe de Jesus” - Tinha de estar. Começava a Igreja a lançar os fundamentos da fé. Por isso, tinha de estar lá a Mãe da Igreja, como esteve em Belém e estará no Calvário. Começa Maria a sua missão de intercessora. E também Ela aparece como “sinal”. É apenas a “mulher”, colaboradora de Cristo na obra da redenção para refazer a obra que outra mulher destruiu. A palavra “mulher”, com a qual Jesus se dirige à Mãe nas “horas” solenes e que assinalam o início e o cume da manifestação terrena da sua glória, ilumina-se, então, em toda a sua vastidão e profundidade, revelando plenamente o projeto de Deus para ela.

Maria é a “mulher”, a “nova Eva”, “mãe de todos os viventes”, preanunciada por Deus no jardim do Éden (cf Gn. 3, 15-20): é “a mulher vestida de sol, com a lua sob os pés e sobre a cabeça uma coroa de doze estrelas”, que dá à luz um filho, “destinado a governar todas as nações” (Ap. 12, 1-6). Toda a sua vida e missão começa e termina em Jesus, apressando horas e sinais. A lição que nos ensina é escutar e obedecer: “Fazei tudo o que Ele vos disser”.

2. “Fazei aquilo que ele vos disser” - A figura de Maria sobressai, como a deseja Jesus: inteiramente voltada para Ele, vivendo unicamente para Ele. De fato, são suas as palavras plenas de confiança e de esperança e, por isso mesmo, demandam o silêncio, a renúncia a si mesmo. Mas, visto que o silêncio de Maria é um silêncio de amor, sobre ele Jesus, o Verbo de Deus, pode falar e, visto também que a renúncia de Maria é fruto do amor, esta se torna fecunda. E Jesus cumpre o milagre esperado.

Assim, em Caná, Maria apresenta-se sob a veste da primeira discípula que crê, verdadeira imagem e modelo dos seguidores de Jesus. Endereçando-os para Ele, também os dispõe a deixar-se penetrar pela sua palavra, a fim de se tornarem, tal como ela, instrumentos de salvação. Maria, a mãe de Jesus e a mãe dos seus discípulos, a Mãe da Igreja.

3. “Não têm vinho”. - São palavras que manifestam a solicitude materna de Maria para com as necessidades da humanidade; com uma atitude discreta, mas corajosa e confiante, Ela dirige-se, sem demora, a seu Filho e Senhor, a fim de interceder por quem mais precisa.

Mas essas palavras de Maria revelam o seu amor de mãe a um nível ainda mais profundo. Parecem encerrar a imploração de Israel que aguarda a realização das promessas messiânicas, simbolizadas na imagem bíblica da abundância de vinho. O vinho, que falta em Caná torna-se símbolo da antiga lei que já não basta porque, com Jesus, chegou o tempo da redenção definitiva.

Maria é consciente de tudo isso e faz a Jesus esse pedido, a fim de que o vinho das bodas – que é a plenitude da revelação trazida por Ele – escorra copiosamente e para que aquela festa do amor humano se torne lugar no qual se manifesta o amor divino. As talhas vazias tornam-se fontes de um vinho novo.

Darci Vilarinho

 
 

1º leitura: Isaías 62,1 - 5

Restauração de Jerusalém

O trecho faz parte da composição unitária do profeta anônimo terceiro Isaías. O profeta incentiva a comunidade pós-exílica. Neste período, Jerusalém era uma cidade insignificante, pois Nabucodonosor a havia destruído, levando sua população para o cativeiro. Estamos nos anos 537-521 a.C. Jerusalém é considerada uma viúva desprezada por Javé. O país estava destruído, o que gerou desânimo no povo. Ele se perguntava: será que Deus abandonou o seu povo devido à infidelidade?

O ambiente é o do retorno do exílio em 538 a.C., beneficiado pelo decreto de Ciro. Jerusalém estava destruída, não tinha muros nem templo. O profeta se apresenta como sentinela em seus muros, anunciando a volta do esposo com a mesma ansiedade com que a sentinela espera a aurora. Diz que Javé virá para fazer justiça aos que exploraram seu povo (v. 1). Ele é comparado ao sol e sua volta vitoriosa com a aurora, e com ele chegará a justiça e a vitória (v. 2). Jerusalém será como um diadema entre as mãos do Senhor (v. 3). Ele se posicionará do lado dos fracos. Jerusalém brilhará como uma chama acesa. Javé é considerado como um jovem apaixonado que encontra prazer no amor de sua amada (Oséias 2,21). O profeta afirma assim sua fé inabalável em Javé.

O profeta tem a admiração de todas as nações e reis. Emerge, assim, o tema da salvação universal (Isaías 2,2; 42,6; 49,6). A luz da cidade santa atrairá todos ao monte santo de Sião. Deus imporá um novo nome a Jerusalém, o que exprime um novo relacionamento de amor entre Deus e a cidade santa. O profeta não encontrou termo mais forte que o casamento entre Deus e o seu povo.

2º leitura: 1 Coríntios 12,4 - 11

Diversidade dos dons do espírito

Nos capítulos 12 a 14 desta carta, Paulo aborda o tema das experiências carismáticas vividas pelos cristãos. Já no Antigo Testamento eram atribuídas ao Espírito de Deus manifestações poderosas como previsão do futuro, visões etc. Para o Novo Testamento, os profetas previam o espírito de Deus com seus dons presentes, entre os quais a mudança do coração dos homens (Ezequiel 36,26). Joel previu que o Espírito de Deus seria dado a todo o povo eleito (Joel 3,1; Atos dos Apóstolos 2,14 - 21). Pedro declarou que esta profecia se realizou no Pentecostes. Os próprios Atos dos Apóstolos manifestam a presença ativa do Espírito em diversas ocasiões, como na atividade dos apóstolos e colaboradores para o bem da comunidade.

Nesta carta Paulo se empenha em esclarecer os cristãos para que não façam confusão entre certas experiências estáticas dos pagãos e os dons suscitados pelo Espírito de Cristo para a comunidade. Em nosso texto, Paulo fala que as experiências carismáticas não vêm de um poder oculto, mas têm o Espírito Santo como única fonte. Os carismas não são dados para a distinção de quem os recebe, para se isolar dos outros, mas para o bem da comunidade. Os dons não são méritos dos homens, porque todos vêm da mesma raiz e são dados para o mesmo fim.

A comunidade de Corinto foi fundada na segunda viagem missionária de Paulo (Atos dos Apóstolos 18,1-10). Era formada por gente pobre e vinda do paganismo. Entre eles haviam sido eliminadas as barreiras de sexo e raça. Porém, existia o problema dos carismas, pois alguns só davam importância aos carismas que geravam impacto, como falar em línguas, curar, profetizar. Eram somente dons extraordinários, com o objetivo do enaltecimento. Em vista disto, Paulo os adverte que todos os carismas são importantes, porque vêm do Espírito Santo. Ensina que os carismas não são dons para que aquele que os recebeu se orgulhe, mas para serem colocados a serviço da comunidade.

Corinto havia correspondido à altura à pregação de Paulo, que fez sua primeira experiência de evangelização entre os pagãos. Por isso, esta comunidade estava muito em seu coração: “A nossa carta são vocês, carta escrita em seus corações, conhecida por todos os homens e lida por eles” (2 Coríntios 3,2). Mas, apesar da fidelidade dos coríntios, eles ainda se achavam condicionados pela mentalidade pagã, que provocava desordens, sobretudo nas assembléias. As mulheres, para se auto-afirmarem, não colocavam o véu nas celebrações, que também eram profanadas pela falta de partilha dos alimentos com os pobres. Até os carismas, que deviam exprimir sua presença na comunidade como veículo de amor e união, eram usados individualmente para a busca de emoções espetaculares, ambições e egoísmo. Particularmente o carisma da glossolalia, ou seja, da oração estática, que se exprimia com sons inarticulados, gemidos e gritos. Era difícil avaliar se as pessoas eram movidas pelo impulso do Espírito Santo ou por efeito da exaltação, o que se verificava também entre os pagãos.

Paulo ficou sabendo da situação incômoda e crítica dos coríntios através de cartas, que lhe pediam esclarecimentos sobre os carismas. Membros desta comunidade pensavam que o Espírito se manifestasse com dons extraordinários e quem não os possuísse não tinha o Espírito. Paulo explica que os carismas são muitos e todos os recebem na comunidade. Observa que os carismas são para o bem da comunidade e não para benefício pessoal (cap. 12). Exalta a caridade como dom acima de todos (cap. 13) e explica a hierarquia dos carismas. Exorta os coríntios dizendo que a única finalidade dos carismas é o bem de todos, e assim a vida de cada um que recebe os dons do Espírito Santo se torna uma transferência do dinamismo interior do Espírito, que age profundamente em cada membro do corpo místico de Cristo.

Depois de mostrar a unidade dos carismas, Paulo dá uma lista deles para mostrar sua variedade e diversidade. Inicia com os dons. Dá ao cristão um conhecimento mais alto das verdades divinas (sabedoria) e também o mais ordinário (ciência), sempre para o bem comum.

Evangelho: João 2,1 - 12

Bodas em Caná da Galiléia, com a presença de Jesus e Maria

As bodas de Caná são o primeiro sinal com que Jesus revelou-se. Ele inaugura a nova Aliança trazendo o vinho novo. Os cinco primeiros discípulos não haviam entendido a sua verdadeira identidade. O diálogo com Natanael se conclui com a afirmação: “Verei o céu aberto e o Filho do Homem...” (João 1,51). O milagre de Caná manifestou sua verdadeira glória e teve para os discípulos o valor de uma autêntica Epifania. Este milagre relatado por João não tem semelhante nos sinóticos. São João declara com estas palavras o principal valor teológico deste milagre: “Manifestou a sua glória e os discípulos creram nele”. Com este milagre abriu-se na terra a história da salvação e foi proclamado o início do cumprimento da salvação. O outro motivo teológico proclamado neste acontecimento é que daquele momento em diante Jesus era o único caminho da salvação. A quantidade de seiscentos litros de vinho oferecidos indica a superioridade do caminho da salvação em comparação com o Antigo Testamento.

Este evento ocorreu três dias depois do encontro de Jesus com Natanael em Caná, localidade próxima de Nazaré (6 km.). O vinho era elemento indispensável numa festa. Neste acontecimento, Jesus (elemento cristológico) e Maria (elemento mariológico) são figuras centrais e Maria tem sua parte na cena. Como intercessora ela apressa o milagre. Este é um exemplo da solicitude maternal de Maria, que se mostra sensível às necessidades do próximo.

Com as seis talhas usadas para abluções rituais, Jesus transformou a água em vinho, indicando a superação do ritualismo judaico, exigente e hipócrita. A abundância do vinho faz alusão ao cumprimento das profecias dos bens escatológicos previstos para a vinda do Messias.

REFLEXÃO

As bodas são uma espécie de ícone, de símbolo, para entender a realidade do Deus de Abraão. A imagem do casamento expressa a verdadeira realidade do Deus verdadeiro e misericordioso. Por isso, no AT os profetas manifestavam os sentimentos íntimos de Deus com palavras de um namorado à namorada (1ª leitura).

Com a vinda de Jesus foi inaugurada uma nova fase para a humanidade. A nova Jerusalém, depois da conquista de Davi pelo ano 1000 a.C., tornou-se capital do reino de Judá, centro religioso e político do povo eleito, embora durante alguns séculos tenha tido a concorrência da Samaria, capital do reino do Norte, depois destruída em 721 a.C. Toda a história da salvação gira ao redor de Jerusalém, porque Deus a escolheu para morar nela. Os profetas a negam e ameaçam, mas também a celebram e exaltam como esposa de Javé. Mesmo que seja abandonada por um tempo, é retomada mais tarde com imenso amor (Isaías 54,7). Jerusalém é idealizada para exprimir a intensidade do amor de Deus por seu povo. Seu processo de espiritualização chegou ao ponto mais alto com Paulo e João no Apocalipse, onde ela é identificada com a Igreja (Gálatas 4,24-26).

Jerusalém é muito importante na tradição hebraica: “Dez partes da beleza foram dadas pelo Criador e Jerusalém recebeu nove. Dez partes da sabedoria foram concedidas ao mundo pelo Criador e Jerusalém recebeu nove. Dez partes de sofrimento foram concedidas ao mundo pelo Criador e Jerusalém recebeu nove” (Talmude). Jerusalém está no centro do destino de Israel, por causa da Aliança com Javé.

Jesus estava iniciando seu ministério público e Maria, que sabia que ele era o Messias, pediu-lhe sem exigir, expondo uma necessidade. Parecia que Jesus não ia atendê-la, porém Maria se comportou como se tivesse sido atendida e pediu aos servos: “Façam tudo o que ele lhes mandar” (João 2,5). E o milagre aconteceu por causa de sua intercessão. As petições aos santos são de serviço. As de Maria são de Mãe, daí a sua eficácia. Maria é suplicante onipotente porque o seu filho é Deus e não pode negar-lhe nada. Se ela conseguiu do seu Filho o vinho, que não era tão importante, não haverá de nos socorrer em nossas necessidades?

A leitura do Evangelho relata uma boda celebrada em Caná da Galiléia, onde focaliza como personagens principais não os noivos, mas Jesus e Maria, podemos dizer há neste relato um nível cristológico e mariológico.

A celebração deste domingo continua mostrando a manifestação de Jesus ao mundo: Epifania, Batismo e boda de Caná. No contexto do milagre de Caná manifesta-se a glória de Jesus (v. 11), é a auto-manifestação de Jesus e ao mesmo tempo anúncio do banquete Messiânico do Reino de Deus.

Neste acontecimento houve a decisiva participação de Maria que com sua solicitude material mostra-se sensível à necessidade dos noivos e com isso, demonstra seu poder de intercessão junto a seu Filho que “Por sua maternal caridade cuida dos irmãos do seu Filho, que ainda peregrinam rodeados de perigo e dificuldades, até que sejam conduzidos à feliz pátria” (Lumen Gentium 62).

Maria esteve na boda de Caná, assim como Jesus, certamente porque havia uma amizade ou um parentesco com os noivos. Nesta ocasião era costume as mulheres prepararem tudo para a festa. No decorrer da festa, certamente pelo aumento de número dos convidados veio faltar vinho e Maria sabedora do que seu Filho era o Messias, intercede junto a ele: “Não têm vinho”. Jesus dá-lhe uma resposta evasiva, parecendo que Ele não iria atender ao pedido de sua Mãe, entretanto ela sabe no seu coração que será atendida e diz aos servos: “Fazei tudo o que Ele vos disser”. Maria é Mãe atentíssima a todas as necessidades. Porque o pedido de mãe tem diante de Deus tanta eficácia? Porque suas orações são de mãe, dai sua eficácia e autoridade.

A piedade cristã chamou Maria de Onipotência Suplicante porque seu Filho é Deus e nada lhe pode negar. Portanto, não devemos implorar-lhe com confiança, sabendo que ela nos conseguirá o que mais nos é necessário? Maria é Mediadora entre nós e Deus não como uma estranha, mas na posição de Mãe, consciente de que como tal pode, tem direito de tornar presentes ao Filho as necessidades de seus filhos.

Jesus podia ter realizado o milagre com as talhas vazias, mas não ele as quis até à borda “usque ad summum” porque quis que cooperemos com nossos esforços e com os meios que temos ao alcance.

Os comentaristas calculam que Jesus converteu em vinho uma quantidade que oscila entre 480 a 720 litros, de acordo com as capacidades das seis talhas de pedra. Aqui fica clara a abundância do dom, da mesma forma ficou clara a quantidade do dom na multiplicação dos pães.

O milagre em Caná serviu para os discípulos darem um passo à frente na sua fé incipiente e assim Jesus confirmou-os na fé.

Por fim o evangelista deixa-nos uma pérola de conselho saída da boca de Maria: “Fazei o que Ele vos disser”.

padre José Antonio Bertolin, OSJ