O mistério do amor humano

Neste domingo começa na liturgia o tempo comum. Em cada domingo é escolhido um tema essencial para a vida do cristão. A primeira reflexão proposta, evoca o mistério do amor. Pode dizer-se que o amor humano está por compreender. Muitos consideram-no apenas desejo, outros referem-no como sentimento e alguns julgam que só é verdadeiro quando é paixão. Ora, o amor humano podendo ter todos estes elementos, deverá ser muito mais do que isso. O amor tem que ser compromisso. Um pouco à maneira da fé, também o amor é confiança em alguém, é conhecimento de alguém, é compromisso de vida com alguém. As leituras deste domingo convidam a um amor compromisso.

Nas bodas de Caná, ao faltar o vinho, acontecem situações que transformam completamente a relação entre as pessoas. É Maria que se dá conta da falta de vinho, é Jesus que apesar de não ser ainda a sua hora se dispõe a apoiar um casal de noivos em dificuldade, é um servidor surpreendido com a qualidade do vinho que está a ser servido, são todos os convidados que se apercebem que aquele vinho é o melhor. Podia dizer-se que o amor humano reclama atenção aos acontecimentos, capacidade de resolver as dificuldades com a criatividade necessária, compreensão para a importância do tempo na valorização das relações, e, finalmente, a certeza de que a felicidade é possível com o esforço de todos. O mais interessante é que Jesus com este gesto de ternura para com os jovens noivos, revelou aos discípulos, pelo seu primeiro milagre, que Ele era o Filho de Deus.

Se o amor humano numa visão meramente filosófica está na capacidade de fazer feliz o outro (cf. Erich Fromm), o amor com a força do Evangelho gera a presença constante de Deus, “onde estão dois ou três reunidos em meu nome, eu estou no meio deles” (Mt. 18, 20).

Compreende-se que o primeiro tema do tempo comum seja o amor. As famílias, mesmo as cristãs, estão hoje marcadas pelo muito egoísmo, uma enorme quota de amor próprio. É preciso reconhecer a necessidade do amor uno, indivisível, fiel e fecundo. Não é nada fácil na sociedade atual. Daí, o esforço a realizar nas famílias cristãs, para que o amor que vem de Deus seja o fator de união profunda, de comunhão total.

Já o profeta Isaías considera Jerusalém a cidade de Deus, a esposa do Senhor, linguagem do Antigo Testamento que se vê repetida por S. Paulo, ao afirmar a Igreja como esposa de Cristo. É à luz destas imagens que as famílias cristãs podem celebrar o amor que a todos faz felizes.

monsenhor Vitor Feytor Pinto “Revista de liturgia diária”

 
 

"Fazei o que ele vos disser"

Mesmo já situado no tempo comum, dá continuidade à festa da Epifania, pois faz memória do dia em que Jesus começou a revelar sua identidade de Messias-esposo da nova humanidade. Por isso todo o universo é convidado a adorar o Senhor.

Terminado o tempo do Natal, com a festa do Batismo do Senhor, até quarta-feira de cinzas, temos a intercalação de cinco domingos do tempo comum para acompanharmos e vivermos o mistério da revelação do Senhor ao seu povo. O 2º domingo do tempo comum, celebrado hoje, está ainda no contexto da festa do Batismo do Senhor, isto é, o Mistério que hoje celebramos é prolongamento da manifestação de Jesus como Salvador da humanidade.

Neste domingo, estamos em Cana da Galiléia para ver Jesus realizar seu primeiro sinal numa festa de casamento. Nós somos a festa de casamento, os privilegiados, os escolhidos para conhecer e celebrar a intimidade do amor de Deus com a humanidade. Com o Salmo 65/66, somos chamados a adorar o Senhor com todo o universo

Primeira leitura: Isaias 62,1-5

Tudo leva a crer que esta profecia aconteceu no fim do exílio ou nos primeiros anos após o decreto de Ciro no ano 538. Ciro acaba de lançar um decreto autorizando a reconstrução do templo de Jerusalém. A primeira caravana de exilados certamente já partiu da Babilônia em direção a Jerusalém. A esperança e a expectativa desses exilados concretizam-se, pois, em torno do Templo. O profeta sustenta o ânimo dos exilados, expondo-lhes o quadro do extraordinário futuro da cidade.

Depois de tantas desgraças e sofrimentos, e diante das perspectivas de restauração, o profeta sente um impulso irresistível de proclamar estas maravilhas que Deus está realizando em favor de seu povo e da cidade de Jerusalém. Todas as nações ficarão pasmadas ao ver a glória da Cidade de Deus que receberá um nome novo. Ela será como uma jóia nas mãos de Deus.

No versículo 1 o profeta manifesta que já está entrevendo as maravilhas que Deus vai realizar. E por isso ele não se cala, ele vai anunciar e proclamar até que isto aconteça plenamente. Usa aqui também, como em Isaias 61,10, o binômio: salvação e justiça.

Na tentativa de descrever a nova situação, utiliza agora (versículo 3) outra imagem: uma coroa e um diadema. Coroa e diadema, não enquanto símbolos do poder, mas no sentido de jóia preciosa que se torna objeto de admiração e por isso se olha e se acaricia com as mãos.

O versículo 5 continua desenvolvendo a imagem do casamento. Deus, não só vai reconstruir a cidade, mas vai desposá-la com o amor e o entusiasmo com que um jovem desposa uma moça. E tem mais: não é Deus que vai causar a felicidade de Sião, mas é esta que vai fazer a felicidade de Deus. Imagem ousada, mas de profundo sentido teológico. Certamente estamos diante de um antropomorfismo, em que se revela o amor, a delicadeza e todo o apreço que Deus tem pela pessoa e por seu povo. Esta idéia aparece também em Isaias 65,19. Jesus tem expressões semelhantes nas parábolas da ovelha e da moeda perdidas (Lucas 15,7.10). A fonte da felicidade desta futura cidade é a presença de Deus no coração da cidade

A figura do matrimônio é, sem dúvida, a mais ousada que os profetas utilizaram para expressar o amor de Deus para com seu povo. É a forma humana que melhor exprime o amor, a partilha, a identidade e a doação mútua. A Encarnação de Jesus, a Eucaristia e o dom do Espírito Santo realizam e, ao mesmo tempo, ultrapassam infinitamente estas promessas feitas ao povo escolhido pelos profetas.

A Encarnação, na qual Cristo transmite a sua divindade à nossa humanidade, e também na Eucaristia, que prossegue a troca, constituem os movimentos mais ricos desta partilha de amor.

Salmo responsorial 95/96,1-3.7-10

Com o Salmo 95/96, resposta à Palavra de Deus, mesmo sendo um salmo de realeza, é também um hino de louvor. Israel tem por ofício louvar a Deus, e com este louvor leva todos os povos a conhecer a Deus. A eleição de Israel é missionária, seu louvor é testemunho. A ação criadora demonstra o poder de Deus.

O rosto de Deus no Salmo 95/96. O salmista insiste no nome de Deu, merecedor de um canto novo. Por que? Porque é Criador (versículo 5b), o libertador (as "maravilhas" do versículo 3b recordam a saída do Egito) e, sobretudo, o Rei universal. Fala-se muito no seu governo (versículos 10b.13), e três são as características de sua administração universal: retidão (versículo 10b), justiça e fidelidade (13b). Podemos dizer que é o aliado da humanidade, soberano do universo e da história.

O tema da realeza de Jesus está presente em todos os evangelhos. Mateus mostra que Jesus traz uma nova prática da justiça para todos, e isso faz acontecer o reinado de Deus na história. Os contatos de Jesus com os não judeus demonstram que seu Reino não tem fronteiras e que seu projeto é o de um mundo cheio de vida para todos.

Por Ele, bendizemos nosso Deus e nos alegremos. Expressemos também nossa confiança, pois sabemos que Ele virá "julgar a terra inteira" e seu julgamento será justo. Cantemos ao Senhor nosso Deus porque Ele se revela na humanidade de Jesus e se faz presente em nossas vidas.

Segunda leitura: 1 Coríntios 12,4-11

No capítulo 12 de 1 Coríntios, Paulo aborda um novo tema: o problema dos carismas, muito relacionado com as celebrações litúrgicas, das quais começara a tratar no capítulo 11, apontando abusos na ceia, no traje e, agora, no uso dos carismas, cada um buscando sua própria utilidade, seu gosto, sua glória.

"Carisma" para Paulo é um dom ou fervor espiritual, que o Espírito Santo concedia gratuitamente (v. 11) para os membros da comunidade cristã, como expressão visível da presença do Espírito, para o bom funcionamento da Igreja. Jesus havia prometido tais dons antes da Ascensão (Marcos 16,17s) e os Atos dos Apóstolos confirmam o cumprimento desta promessa (Atos 2,4; 6,8; 8,7; 10,45; 21,20). Os cristãos de coríntios se prendiam aos carismas sensacionalistas, como a glossolalia, confundindo-os com certos fenômenos de entrar em êxtase, isto é, arrebatamento que era muito forte no paganismo.

A comunidade carismática de Corinto passa pela tentação do "sincretismo", isto é, misturava elementos do paganismo com o Cristianismo: o mundo pagão exige um "conhecimento" experimental da divindade por meio de transes, de fenômenos de entrar em êxtase e outros "carismas" duvidosos. Aos cristãos, Paulo fala de um conhecimento apoiado na fé. Esta fé cristã é acompanhada de sinais e carismas que os cristãos de Corinto não diferenciam muito bem dos sinais e carismas do paganismo. Na comunidade cristã tinham resquícios, isto é, resíduos do paganismo.

Inicialmente, lembra o Apóstolo nos versículos 4-6 que, se o paganismo com seus vários deuses gozava de carismas de toda espécie, eles eram concedidos por deuses sempre diferentes e se disputavam. Na Igreja, pelo contrário, tudo é uno e unificado pela vida da Santíssima Trindade, quer se trate de graças, de funções comunitárias ou de atividades extraordinárias. Além do mais, os carismas são distribuídos em vista da utilidade de todos, sem excluir ninguém. Esta regra afasta imediatamente os fenômenos da embriaguez pagã ou transes individuais. Já que um único Espírito é a fonte de todos os dons, estes não podem opor-se uns aos outros, nem tão pouco os que deles se beneficiam: se há, pois, oposição entre os carismáticos daquele tempo e de hoje, é que o Espírito não os inspira e seus dons não são os dons de Cristo (versículo 7).

Os versículos 4-6 oferecem um paralelismo perfeito: a diversidade dos carismas corresponde sempre o mesmo princípio divino. Os vários carismas vêm do Espírito Santo (v. 3) e são distribuídos sobre muitos. Entretanto, os "ministérios" são atribuídos ao Senhor Jesus Cristo e as "atividades", a Deus Pai. Contudo, no versículo 7, os carismas são qualificados indistintamente de manifestações do Espírito Santo e, no versículo 11, atribuídos ao mesmo Espírito. É que Pai, Filho Espírito Santo são um só Deus, com um único princípio de ação que é a natureza divina. Os carismas, segundo Paulo, procedem das Três Pessoas da Santíssima Trindade (vs. 4-6), mas são atribuídos de modo particular ao Espírito Santo, princípio de amor e de santidade. O Espírito Santo é um Espírito do "todo", incompreensível aos pagãos que admitiam contradições e disputas entre seus deuses. Dons, ministérios, atividades são a mesma realidade, relacionada com a ação "externa da Trindade, mas, por apropriação, os "carismas", são atribuídos ao Espírito Santo, os "ministérios" a Cristo, Senhor e cabeça da Igreja, e as "atividades" ao Pai, origem do ser e do poder.

Paulo fala de dois carismas da inteligência: a sabedoria e a ciência. O carisma "palavra de sabedoria" seria o dom de penetrar nos mistérios divinos e saber fazer a exposição aos fiéis (1 Coríntios 2,6-16; Hebreus 6,1). "Palavra de ciência" é o carisma de conhecer e expor adequadamente as Escrituras e as verdades cristãs elementares. Vem em seguida a fé, que aqui não indica a virtude teológica, mas a possibilidade de fazer milagres (1 Coríntios 13,2; cf. Marcos 11,19-26), o dom de curar e o dom de fazer milagres, três carismas bem semelhantes. Curar e fazer milagres faz parte da fé. A fé é uma atitude de quem ora e crê, viva e confiantemente, em Deus a ponto de transportar montanhas (13,2) na edificação da Igreja. O "dom das línguas" (glossolalia) consiste não tanto em falar línguas estranhas, mas de emitir em êxtase sons incompreensíveis e palavras incoerentes, só traduzíveis por quem possui o carisma de "interpretação". Seriam palavras dirigidas a Deus - cânticos, preces inspiradas e em êxtase como no pentecostalismo.

A segunda leitura quer expressar que na diversidade de pessoas e de dons, a comunidade forma um só Corpo, no Espírito. A comunidade de Corinto apresentava divisões, preferências, sectarismos e por isso Paulo sublinha que a comunidade cristã é uma unidade que não exclui ninguém e supõe uma diversidade de dons e serviços para a edificação do bem de todos.

Pelo Batismo o Espírito Santo anula distinções raciais, sociais, nacionais, e leva à fé comum e ao reconhecimento de que Jesus Cristo é o nosso Senhor e nós somos irmãos. A unidade não significa uniformidade, mas presume uma complementaridade rica e saudável, onde cada pessoa conserva sua originalidade, seu modo particular de ser, pensar, falar e agir. Cada pessoa tem sua história e uma função própria e especial na construção da comum-unidade. Quem discrimina não tem abertura nenhuma ao Espírito Santo.

Evangelho: João 2,1-22

Estamos ainda no espírito da Epifania, da manifestação de Deus em Jesus. Na liturgia antiga, as festas da Epifania, do Batismo do Senhor e das Bodas de Cana da Galiléia, formavam a tríade da Epifania.

O Evangelho apresenta não só o primeiro milagre de Jesus, mas também o primeiro dos seus "sinais". Em uma festa de casamento, algo tão humano, simples e popular, Jesus inicia os sinais de sua manifestação, da sua Epifania no mundo. Compartilha da alegria dos noivos e a faz sua para dizer que a sua glória é se o noivo da humanidade. João coloca este "sinal" no início do seu Evangelho, porque é uma síntese de tudo o que Jesus fará ao longo de sua missão. Em uma palavra: Ele é o esposo que celebrará as núpcias com a humanidade.

Jesus inicia seu ministério de rabino e de taumaturgo em círculos íntimos, por assim dizer: sua própria cidade, Cafarnaum, sua família ou a dos Apóstolos. Mas nesses primeiros passos ainda discretos, João já entrevê toda a obra de divinização da humanidade e, ao mesmo tempo, o resplandecer do Mistério Pascal.

A transformação da água em vinho a apresentada pelo quarto Evangelho como o "início dos sinais" realizados por Jesus (2,11). Nesta passagem, como aliás através de todo o Evangelho, o termo "sinal" é empregado de uma forma própria de João. Indica os milagres de Jesus. João não se prende ao conteúdo exterior ou material dos acontecimentos. Ele procura o seu significado. Os milagres revelam em João mais claramente que Mateus, Marcos e Lucas o sentido profundo dos atos de Jesus, eles revelam quem Ele é. Assim a cura do cego de nascença (João 9) nos manifesta Jesus como a Luz do mundo (João 9,5: enquanto estou no mundo, eu sou a luz do mundo"), a ressurreição de Lázaro (João 11) nos revela o Cristo como "a ressurreição e a vida" (João 11,25).

Uma das idéias centrais do Evangelho de hoje é o tema da substituição das realidades antigas pelas novas. Este tema das coisas novas está de ponta a ponta no Evangelho de João. Em João 1,14, a tenda da Aliança, lugar privilegiado da presença de Deus no povo eleito, é substituída pela humanidade de Jesus Cristo ("E o Verbo se fez carne e armou sua tenda entre nós e nós vimos a sua glória...). Em João 2,21, o Templo de Jerusalém dá lugar ao novo Templo que é o corpo de Jesus ("Ele, porém, falava do templo do seu corpo"). Em João 4,21-24, o culto em Jerusalém ou no monte Garizim torna-se um culto "em espírito e verdade". Em João 6,49-50, o maná do deserto é substituído pelo "pão descido do céu".

Aqui, as seis talhas de pedra para a purificação dos judeus, "contendo cada uma de duas a três medidas" (João 2,6), representam o Judaísmo. E a enorme quantidade de vinho - 480 a 720 litros - é já no Primeiro Testamento (Amós 9,13-14 e Oséias 14,8) sinal da presença do Messias.

O fato de Maria dizer a Jesus que os convivas não têm mais vinho conclui-se uma preocupação de ordem prática de mulher atenta às minúcias da recepção. Entretanto, isto significa também, no plano simbólico (cf. Isaias 55,1-3 e Joel 2,25-27), que o povo está inebriado com o vinho da felicidade e da sabedoria e se mantém numa atitude de pobres, aguardando a iniciativa de Deus para dar-lhes a felicidade. Jesus distribui, efetivamente, o "bom vinho" desta felicidade prometida para os últimos tempos, sinal da plenitude e da sabedoria que Ele traz ao mundo como esposo da humanidade.

Portanto, a afirmação de Maria: "eles não têm vinho" (2,3) é uma constatação simples e clara da esterilidade ou fim do Judaísmo. E a exclamação do mestre-sala dirigida ao noivo (o Cristo!): "tu guardaste o bom vinho até agora!" (2,10) é uma proclamação da chegada dos tempos messiânicos. Em outras palavras, diante do Cristo, as instituições judaicas perdem o seu sentido. Jesus é agora o único caminho que leva ao Pai. Ele é a manifestação plena e definitiva de Deus entre no meio da humanidade. O versículo 6 ao falar das seis talhas de pedra, traz à tona a necessidade de mudança de uma religião que já não tem um vinho novo para oferecer, principalmente para os mais pobres. Se o Judaísmo fosse pra ser continuado teria que ter 7 talhas de pedra.

O fato de João situar o milagre no "terceiro dia" (v. 1 ; cf. João 11,6-7; 13,33; Lucas 24,7; Oséias 6,2-5) é igualmente uma maneira de referir-se à realização da Páscoa de Cristo, e de chamar a atenção dos cristãos para os fatos de Cana que serão interpretados a partir do Mistério Pascal.

Mas é sobretudo o tema da hora o ponto decisivo deste assunto (versículo 4, cf. João 2,19; 7,30-39; 8,20; 13,1;17,1). A hora indica concretamente a morte do Salvador, morte que O glorifica e glorifica o Pai, porque realiza a salvação do mundo. Podemos mesmo dizer que, a partir de João 7,30, as referências à hora de Jesus indicam aquele momento de sua vida em que será reduzido a total incapacidade, em que não mais fará milagres (cf. João 9,4; 11,9-10; cf. o tema do "elo" em João 18,12,24; 9,40).

Cristo refere-se, pois, ao "sinal" e à hora por excelência, que realizará de sua morte, mas, enquanto espera o acontecimento desta hora, é permitido a Ele apresentar sinais e realizar maravilhas provisórias, assim como eram provisórias as diferentes liberações maravilhosas do Primeiro Testamento.

Tudo acontece numa festa de casamento em uma aldeia que sustenta e unifica um grande número de ações simbólicas. Momento que costuma unir muitas pessoas, o matrimônio é, no Primeiro Testamento, símbolo freqüente do amor do Senhor pela comunidade. No Novo Testamento, é símbolo da união do Messias com a Igreja. O vinho é dom do amor e se anuncia como dom messiânico e símbolo do Espírito Santo.

O uso da palavra "mulher" não é um tratamento ofensivo, mas um costume grego existente na época e significa "senhora". Qual é o papel de Maria nesse casamento? Ela está presente, mas não diz que ela seja uma simples convidada. Sua presença é importante, pois possui autoridade de circular entre os criados e dar-lhes a ordem de obedecer a seu filho Jesus: "Fazei tudo o que ele vos disser" (2,5). Ela sabe o que acontece e tem conhecimento da necessidade do vinho.

A idéia de Cristo seria portanto, esta: posso fazer hoje o milagre proposto; uma hora virá, entretanto, em que meu poder realizará o milagre por excelência, porque passará pelo amor até à morte "E tendo amado os seus que estavam no mundo amou-os até o fim" (João 13,1).

Da Palavra celebrada ao cotidiano da vida

Hoje, nesta liturgia, nós nos reunimos para participar da festa de casamento de Deus com a humanidade, ouvindo a Palavra e rendendo graças por tão grande salvação; repartindo e comendo o pão na refeição que o Senhor nos oferece.

  Fazemos parta da humanidade. Trazemos as marcas do sofrimento, da dor e das lágrimas como o povo na volta do exílio. Muita decepção e abandono invadem nosso coração. Não sabemos o que fazer nem por onde andar. Sentimo-nos pobres, desvalidos e sem forças. Nessa situação de abandono e exílio, Deus se manifesta em nossa assembléia e confirma a palavra dita pela boca de Isaías: "[...] por amor de Jerusalém não descansarei, enquanto não surgir nela à justiça e não se acender nela a salvação [...]. Não mais vão chamar-te abandonada e tua terra não mais será chamada deserta; teu nome será minha Predileta e tua terra será a Bem-casada, pois o Senhor agradou-se de ti e tua terra será desposada." (Isaias 62,1.4).

Por isso, alegres cantamos com o salmista: "Cantai ao Senhor Deus um canto novo, manifestai os seus prodígios entre os povos [...] cantai ao senhor Deus, ó terra inteira. Cantai e bendizei seu santo nome [...]" (Salmo 95/96).

Podemos cantar especialmente esse salmo porque, hoje, Jesus nos torna partícipes do seu milagre, o primeiro sinal, realizado em Cana da Galiléia, em que se celebra o seu casamento com a humanidade e acontece o início da nova relação com Deus, fonte de vida e plenitude.

O sinal de Cana fala do amor conjugal de Deus para com a humanidade, no desejo de contrair com ela uma aliança nupcial. Por isso, o seu amor é fiel, interessado, terno e alegre.

A "glória" de Jesus é a revelação do segredo de sua vida, de sua intimidade oculta aos nossos olhos: a prestação humilde de um serviço do qual possam beneficiar-se todas as pessoas e ter alegria e sustento para a caminhada. Importa, então, reler o Evangelho na perspectiva e na luz da sua presença, como Ressuscitado em nosso meio. A festa das nos convida a melhor concedê-lo nesta festa litúrgica.

O Deus de Jesus não nos é revelado nos templos ou em acontecimentos fantásticos, mas na festa de casamento e acompanhado de amigos. Ele, com sua presença nas bodas, prepara o seu povo numa festa, uma nova aliança. O que agora se apresenta como festa de casamento será uma realidade plena quando chegar a hora, ou seja, trata-se da nova relação de Deus com o seu povo.

Mas como entender o evangelho de hoje na perspectiva litúrgica?

O Evangelho de João recupera duas idéias básicas do Antigo Testamento: aliança e criação. Jesus nas bodas de Cana inaugura a Nova Aliança e dá início à Nova Criação. Nesta festa, tem início a nova humanidade. O fundamento da nova humanidade é a aliança que Jesus, Cordeiro Esposo, realiza com a comunidade. A presença de Jesus em um casamento sem vinho quer significar que ele é o esposo ou noivo da comunidade.

Na Bíblia, o casamento é sinônimo da aliança (cf. Isaias 62,5). Ser infiel à aliança é o mesmo que ser adúltero, prostituir-se.

A aliança antiga caducou, perdeu seu sentido: "Eles não têm vinho" (João 2,3). "Que é a vida do homem se lhe falta o vinho?" (Eclesiástico 31,33). No tempo de Jesus, Israel está à espera do Reino de Deus, o Reino que os profetas descreveram como um banquete preparado com carnes gordas, com iguarias finas, com vinhos antigos e refinados (cf. Isaias 25,6). Este Reino, contudo, parece estar muito distante. E o povo desanimado, triste, abatido como se estivesse celebrando uma festa de casamento sem vinho. Mas por que essa tristeza?

Porque as suas relações com Deus já não são como as da esposa que se sente feliz, pois pode experimentar o carinho do esposo, mas são relações de escrava, forçada a obedecer às ordens e desmandos do senhor. Os guias espirituais reduziram os contatos com Deus ao cumprimento meticuloso de muitas normas e prescrições. Com muitas infrações e transgressões todos se sentiam impuros e culpados. Foram inventados ritos de purificação para os quais era necessário ter muita água, difícil de conseguir naquele meio e naquelas circunstâncias geográficas.

As seis talhas de pedra estão vazias - ainda não chegou até elas a água para as purificações. Logo, impossível de se realizar a purificação.

As bodas de Cana sem vinho representam a situação do povo desiludido e insatisfeito. Revelam a religião baseada no ritualismo e nas obrigações jurídicas.

A mãe de Jesus pode ser Maria, mas também pode indicar a comunidade na qual Jesus nasceu e foi educado. Ainda pode significar as pessoas piedosas que percebem que a atual situação na qual estão vivendo é insustentável. Não recorrem ao mestre-sala, ou seja, aos chefes religiosos que não conseguem realizar uma verdadeira festa, mas a Jesus. Entendem que só ele pode oferecer a água que se transforma em vinho e que traz felicidade para os que a bebem.

A sua hora ainda não chegou, pois está no começo da sua vida pública. A festa já começou, mas atingirá o seu cume quando "chegar a hora" de Jesus, no Calvário; quando ele dará sua vida por amor à esposa; quando, do seu coração transpassado, sairá "sangue e água" (João 19,34). Em Caná, ele só dá um sinal daquilo que há de realizar. Na hora em que passar deste mundo para o Pai (cf. João 13,1), ele dará realmente a água "que jorra para a vida eterna" (João 4,14), água que se transformou em vinho, que comunica alegria.

A Palavra se faz celebração

A vida cristã como leito nupcial

Dom Pedro Casaldáliga, certa vez, escreveu que nas chagas do Ressuscitado se encontram as marcas do "casamento" de Deus com o seu povo. Esta união do divino com o humano, que celebramos a pouco, no ciclo natalino, se desdobra agora para ser cultivada no tempo comum.

A celebração da Eucaristia, por sua vez, permite-nos visualizar e experimentar este "matrimônio" entre Deus e a humanidade, entre o divino e o humano, entre a eternidade e o tempo. A redenção coincide exatamente com este "assumir" de nossa condição, realizada por Deus em Jesus, para que sejamos libertos da morte e de suas conseqüências. Ela se nos é apresentada cada vez que celebramos, conforme reza a oração sobre as oferendas.

Se a eucaristia celebrada é o desdobramento e cultivo desta parceria entro o divino e humano, a vida dos que participam se torna "leito nupcial", ou seja, lugar onde esta relação de amor se manifesta com exuberância. A vida dos cristãos é a vida redimida, sinal de um mundo redimido, de uma história construída em parceria com o Senhor.

As núpcias do Cordeiro

Segundo Francisco Taborda, o convite inserido no missal de Paulo VI, como fruto da reforma litúrgica, no momento da apresentação do pão e vinho para que a assembléia se aproxime da mesa do banquete é: "Felizes os convidados para o banquete das núpcias do Cordeiro"...expressão que foi modificada na versão portuguesa para "ceia do Senhor". As núpcias, que a comunhão sacramental revela e realiza em nós é exatamente a plena união: casamento, do divino com o humano, para que o mundo e a história sejam permanentemente vividos como "Bodas" e antecipação da "hora" de Jesus. Nesse sentido, a Eucaristia faz da vida permanente festa, na qual se rememora a nossa participação na vida de Deus, mediante a comunhão com a pessoa, palavra e ação de seu Filho Jesus - nosso "casamento" com ele, pois ele é o noivo e a comunidade cristã, sua noiva.

Lugar na liturgia do dia

 Como na liturgia antes do Vaticano II, também na liturgia renovada o 2º Domingo do Tempo Comum continua o tema da Epifania, da chegada da Salvação. Nesta temática inserem-se principalmente a primeira leitura e o Evangelho, sendo que a segunda leitura faz parte da "leitura continua" das advertências da 1Coríntios e não participa da temática principal.. A primeira leitura, Isaias 62,1-5, é um anúncio messiânico, utilizando o símbolo das núpcias de Deus com seu povo. Como vimos, é este um dos simbolismos presentes em João 2,1-12 também (Jesus toma o papel do esposo). Parece-nos porém mais oportuno considerar o tema do messianismo num sentido amplo (realização das aspirações de felicidade humana como sinal da Epifania, manifestação de Deus).

Ligando a Palavra com a ação eucarística

A celebração litúrgica é a "hora" de Jesus em nossas vidas. Nele o sinal de Caná torna-se realidade. Acontece a transformação da água em vinho, ou seja, entramos na profunda experiência de comunhão e de aliança.

Para nós que vivemos em meio a tantos desafios e sofrimentos, encontramos na liturgia deste domingo uma luz preciosa: Deus é nosso amigo, o esposo apaixonado. Aquele que nos ama e cuida de nós.

Estar na celebração, participar dela ativamente, ouvindo as leituras, cantando com a comunidade, rendendo graças e comungando no pão e vinho, significa aceitar o casamento que Deus nos oferece. Significa tornar-se sua esposa amada. Significa viver as núpcias do Cordeiro. Por isso, rezamos depois da comunhão: "Penetrai-nos, ó Deus, com o vosso Espírito de caridade, para que vivam unidos no amor os que alimentais com o mesmo pão".

A morte e a ressurreição de Cristo dão início a uma nova comunidade dos homens com Deus. Celebrar a eucaristia representa renovar o gesto que constitui esta comunidade, o povo de Deus e sua Igreja. O vinho, sangue de Cristo, é o sinal do seu amor pela Igreja, vinho que antecipa a festa da nova assembléia que se plenificará nas núpcias eternas; por isso, na oração sobre as oferendas, pedimos que o Senhor atualize a salvação em nossas vidas.

A celebração que realizamos é uma aliança amorosa que fazemos com Deus, em Jesus Cristo, pela qual entramos mais profundamente em comunhão com ele. Cremos que, pela ação do Espírito Santo, que opera a transformação nos sinais do pão e do vinho e na assembléia reunida, Deus realiza em nós a santificação. Faz com que experimentemos o vinho novo da salvação, ajudando-nos a passar do nosso velho modo de viver para uma realidade nova, marcada pela alegria e pela liberdade. Nesse sentido, no Prefácio Comum VI, cantamos as primícias do Espírito, presentes em nossa vida e alegres aguardamos a plenitude da Páscoa, rendendo graças, partilhando e comendo o pão e o vinho eucaristizados.

padre Benedito Mazeti

 
 

Vinho novo

Não sei dizer a razão pela qual faltou o vinho nas Bodas de Cana, talvez a família não tivesse muitos recursos e fez uma festa bem modesta, só para os mais íntimos. Também pode ser que o Encarregado da cozinha, tenha errado no cálculo, ou então, porque havia um número excessivo de “penetras”. Só sei que os convidados das bodas de Canaã ficaram admirados com a qualidade e o sabor inigualável daquele vinho que serviram na última hora, quando muitos já estavam até embriagados. Os discípulos e os que serviam estavam de boca aberta, pois só eles sabiam que todo aquele vinho delicioso fora tirado de seis talhas de barro, cheias de água. Um prodígio promissor para Jesus iniciar seu ministério!

Em Israel muita gente andava descontente com a religião, porque transformaram o Deus da Aliança, tão rico em bondade e misericórdia, em um legislador implacável, alguém frio que passava os dias observando atentamente quem ousava desrespeitar a lei de Moisés. As pessoas iam ao templo ou nas sinagogas com o coração pesado, por medo do que pudesse acontecer, se deixassem de observar alguma das mais de seiscentas leis e prescrições da religião. Existiam para os faltosos a possibilidade de se livrarem da culpa, cumprindo os rituais de purificação feitos com água, mas que também era complicado pois naquele tempo não se tinha a facilidade da água encanada como hoje.

Às vezes a prática da religião se torna um peso quase insuportável, as vezes ao receber um sacramento, ou ao término de alguma celebração, há quem dê um suspiro de alívio “Arre ! já cumpri minha obrigação e estou livre!” para curtir o domingão. Certa ocasião depois da celebração de crisma, um adolescente em frente a igreja dava pulos e esmurrava o ar festejando quando alguém perguntou; “ feliz com a crisma recebida?” . ---Muito feliz --- desabafou o jovem – pois agora não preciso mais vir à igreja e estou livre!

Para ir a uma festa, um dia antes já estamos na expectativa, já para ir à igreja, chegamos na última hora e ás vezes, se a celebração se alongar um pouco, saímos antes da bênção final pois só temos paciência para agüentar a missa por uma hora. Precisamos rever o que está errado, nossas liturgias não podem resumir-se ao “oba-oba” mas temos que lhe dar vivacidade para que as pessoas saiam convencidas da graça de Deus e cheias de coragem para dar testemunho.

Não vale a pena praticar esse tipo de religião meramente cultual ! Nas bodas de canã Jesus, ao transformar a água da purificação em vinho da melhor qualidade, acabou com essa “chatice religiosa” mas muitos ainda hoje insistem em beber desse vinho azedo de uma religião angustiante, que bota freios no ser humano e coloca em seus olhos uma “viseira” para somente enxergar na direção que aponta os dirigentes “iluminados” sendo terminantemente proibido olhar em outra direção.

A verdadeira religião supõe liberdade e uma alegria incontida pelo fato de se tomar conhecimento de que Deus, apaixonado pelo homem, manifestou o seu amor no seu filho Jesus, que ao chegar a sua hora, a hora de mostrar a que veio, em um gesto de loucura aos olhos de muitos, derramou até a última gota do seu sangue na cruz do calvário, para que nós pudéssemos ser felizes e ter uma vida nova como homens livres.

É este o pensamento que deve nortear a nossa relação com Deus no âmbito da Igreja, uma alegria de saber que ele nos ama tanto, que ele só quer o nosso bem em seu sentido mais pleno, um amor que nos ama sem exigir nada, sem cara feia, sem mau humor, sem palavras amargas e sem nenhuma censura – Deus é amor infinito, bondade eterna e misericórdia para sempre! É essa, portanto, a novidade que Jesus traz ao mundo nas bodas de Canã, ele é na verdade o noivo apaixonado pela noiva que é a Igreja, assembléia de todos os que crêem. Uma noiva não muito bela e nem sempre fiel, que às vezes se deixa seduzir por outros “amantes”.

Entendida e aceita essa verdade, a Palavra de Deus celebrada e proclamada em nossas comunidades, é uma carta de amor que ouvimos com o coração aos pinotes, e a eucaristia se transforma em um jantar a luz de velas com Cristo Jesus, o amado de nossa vida , ao sabor do vinho novo da graça santificante que nos salva e liberta. Irradiar este amor a todos com o testemunho de vida, é a única forma de transformar a sociedade e não adianta se buscar outras alternativas, pois somente assim a glória de Cristo será manifestada semeando a fé no coração dos descrentes!

diácono José da Cruz

 
 

1 – O apóstolo Pedro, no livro dos Atos dos Apóstolos (10,34-38), lembra-nos que «Deus ungiu com a força do Espírito Santo a Jesus de Nazaré, que passou fazendo o bem e curando todos os que eram oprimidos pelo demónio, porque Deus estava com Ele».

O Batismo de Jesus marca uma viragem na Sua vida. O nosso batismo há de marcar um tempo novo, de graça e de salvação. Seguindo entre o Povo, Jesus faz-Se batizar, connosco, para que nos batizemos com Ele. Pedro e os demais apóstolos são batizados na morte e na ressurreição de Jesus, Batismo consumado. A partir desta luz que irradia da Páscoa de Jesus, os discípulos seguem-n'O, anunciando-O, levando-O a todo o mundo, testemunhando-O com palavras e com a vida. Assim terá de ser connosco, batizados, novas criaturas, para vivermos de maneira nova, à maneira de Jesus, amando, servindo, dando a vida, transformando a água em vinho novo para a festa da partilha e da comunhão.

Na vida de Jesus, e na liturgia da Igreja, ao batismo segue-se a vida pública. Jesus irrompe pelas aldeias e pelas cidades, pelas montanhas e pelos vales, em terra ou em mar, a anunciar a salvação de Deus, a libertação das pessoas e dos povos, pela misericórdia e pela graça, pelo perdão e pelo amor sem medida, ou melhor, com a medida do amor de Deus.

2 – No atual ciclo de leituras, ano C, aberto com o primeiro domingo do Advento, o evangelista que mais de perto nos acompanha é são Lucas. Porém, aqui e além, a oportunidade de escutar e mastigar outros evangelhos. Hoje a Liturgia da Palavra brinda-nos com o primeiro milagre de Jesus, segundo o evangelista são João, e que ocorre nas Bodas de Caná da Galileia.

À primeira vista, Jesus, como Messias esperado e prometido, passa despercebido. Está na festa como convidado. Maria, a Mãe de Jesus foi convidada e em atenção à Mãe também Jesus e os seus discípulos são convidados.

Jesus não é nenhum bicho de 7 cabeças, estranho, esquisito, extraterrestre. Ele assume-nos por inteiro. E assume-Se como verdadeiro Homem. Sendo Deus é Deus connosco, confunde-Se conosco, encarna, caminha conosco, vive como nós. Não cai do Céu aos trambolhões, nasce de uma Mulher, tem uma família, tem amigos, vai às festas dos familiares, participa nas dores e nas tristezas do seu povo. Não é romantismo, é a vida real de Jesus. Nas Bodas de Caná, Jesus está descontraidamente a festejar. Envolvido. Entre familiares e amigos.

3 – A festa decorre normalmente. Os noivos estão felizes da vida, talvez um pouco ansiosos, falando com uns e com outros, preocupados em que tudo corra bem e todos se sintam felizes. Do mesmo jeito, os seus pais mal apreciam a comida e a bebida para se assegurarem que nada vai faltar aos convidados.

Maria é apresentada como Mãe. As mães sempre desenvolvem uma grande perspicácia: atentas a tudo o que diz respeito aos seus filhos, ao que fazem, ao que dizem, ao que sentem, procurando adivinhar-lhes as preocupações. Muitas vezes alargam esta sensibilidade maternal às outras pessoas. Maria, Mãe de Jesus, tal como o Filho, está festejando. Mas mantém-se atenta. É amiga da família e preocupa-se com que tudo corra bem. Há pessoas assim. Maria é modelo e referência. Apercebe-se antes de todos os outros que o vinho está a faltar.

Diante dos contratempos poderemos bloquear sem saber o que fazer, ou passemos à frente como se não nos dissesse respeito, deixando que outros resolvam. Maria toma a iniciativa e faz o que está ao Seu alcance. Vai ter com Jesus e diz-lhe: «Não têm vinho». Mais que um pedido parece ser um desabafo, isto é, se quiseres podes agir! A oração de Maria não força Deus, mas confia.

A resposta de Jesus – «Mulher, que temos nós com isso?» – sintoniza, num primeiro tempo, com aquilo que pensamos, por que é que nos havemos de intrometer num problema que não criámos e que não nos diz respeito diretamente?

«Ainda não chegou a minha hora». Jesus tem consciência do tempo em que Se manifestará a todos. Ainda não terá chegado a hora! Por vezes também nos acontece. Nós é que sabemos, quando, como, com quem, em que circunstâncias. E ficamos retinentes quando nos dizem que temos de fazer isto ou aquilo. Por casmurrice não fazemos. Também aqui Jesus nos dá uma lição importante, fazendo-nos olhar para Maria, Sua Mãe, que não desiste, dizendo aos serventes, que hoje somos nós: «Fazei tudo o que Ele vos disser». O que pedirmos com fé à Mãe, o Filho não deixará de atender. Ela intercede por nós, porque também nos assume como filhos.

4 – Jesus não demora em justificações ou desculpas. Poderia passar culpas! Quem vai para o mar prepara-se em terra! Se os noivos e as suas famílias marcaram a festa de noivado-compromisso, então deveriam prever o número das pessoas e os dias da festa. Quem não quer ajudar sempre arranja desculpas. Quem se dispõe a ajudar, ajuda quando é preciso ajudar.

Jesus manda os serventes – que hoje somos nós – encher as talhas de água. Seis talhas de pedra destinadas à purificação dos judeus. 600 litros de água transformada em 600 litros de vinho de qualidade.

Os serventes seguem Jesus e fazem o que Ele lhes pede. Jesus conta com eles e connosco: «Tirai agora e levai ao chefe de mesa». Sem saber a origem deste vinho novo, o chefe de mesa prova e fica admirado, dizendo ao noivo: «Toda a gente serve primeiro o vinho bom e, depois de os convidados terem bebido bem, serve o inferior. Mas tu guardaste o vinho bom até agora».

Jesus serve-nos o melhor vinho. Serve-nos a Sua vida por inteiro, cuja abundância já se visualiza neste primeiro milagre. Transforma a água em vinho. Transforma a Sua vida para Se nos dar, no pão e no vinho, com o Seu Corpo e o Seu sangue, em abundância, a abundância do amor.

5 – As promessas de Deus ao Seu povo, anunciadas pelos profetas, começam a realizar-se. Não podemos não ouvir a voz sonante de Isaías. Também aqui se usa a imagem do noivado.

"Por amor de Sião não me calarei, por amor de Jerusalém não terei repouso, enquanto a sua justiça não despontar como a aurora e a sua salvação não resplandecer como facho ardente. Os povos hão de ver a tua justiça e todos os reis a tua glória... Não mais te chamarão «Abandonada», nem à tua terra «Deserta», mas hão de chamar-te «Predileta» e à tua terra «Desposada», porque serás a predileta do Senhor e a tua terra terá um esposo. Tal como o jovem desposa uma virgem, o teu Construtor te desposará; e como a esposa é a alegria do marido, tu serás a alegria do teu Deus".

Deus desposa o Seu povo, permanecendo por perto, não Se afastando mesmo quando é afastado. Os afastamentos trazem a diabolização, as divisões, a conflitualidade nas famílias e nas comunidades. Deus não Se impõe. O "contrato" de casamento é (quase) unilateral. Deus ama primeiro e ama sempre, além do nosso pecado e das nossas infidelidades, além do nosso esfriamento e das nossas hesitações. O olhar de Deus e a Sua mão não se afastam, para não nos perder, para não perder o Seu povo. Deus não desiste. Nunca desiste de nós.

6 – Com Jesus realizam-se as promessas de Deus. A abundância da Sua vinda e da Sua vida leva-nos ao louvor e à ação de graças: "Cantai ao Senhor um cântico novo, cantai ao Senhor, terra inteira, cantai ao Senhor, bendizei o seu nome. Anunciai dia a dia a sua salvação, publicai entre as nações a sua glória, em todos os povos as suas maravilhas".

7 – Na segunda leitura, são Paulo lembra-nos que todos somos batizados no mesmo Espírito para formarmos um só povo, vivendo ao serviço uns dos outros, como Jesus que veio para viver connosco, assumindo os nossos sonhos e os nossos pecados, o nosso sofrimento. Cabe-nos, imitando-O, dar a vida pelos nossos irmãos, pelas pessoas que Deus coloca na nossa vida.

Há diversidade de dons espirituais, de ministérios, de operações, mas "é o mesmo Deus que realiza tudo em todos". Com efeito, os dons recebidos e os ministérios assumidos são em ordem ao bem de todos. "É um só e o mesmo Espírito que dá a um o dom da fé, a outro o poder de curar; a um dá o poder de fazer milagres, a outro o de falar em nome de Deus; a um dá o discernimento dos espíritos, a outro o de falar diversas línguas, a outro o dom de as interpretar. Mas é um só e o mesmo Espírito que faz tudo isto, distribuindo os dons a cada um" para o bem comum.

Não nos ensoberbeçamos com os dons recebidos, que nos são "emprestados" para o utilizarmos a favor dos outros, como Jesus Cristo que sendo rico Se fez pobre para nos enriquecer com a Sua pobreza. "Infundi em nós, Senhor, o espírito da vossa caridade, para que vivam unidos num só coração e numa só alma aqueles que saciastes com o mesmo pão do Céu."

 

 

1 – Com o Batismo de Jesus, no último domingo, iniciamos o tempo comum, que será interrompido com a Quaresma e tempo Pascal, e nos levará até o próximo ano litúrgico que sempre inicia com o Advento. É comum ou ordinário, mas não é um tempo vazio ou secundário, é uma oportunidade para o cristão “contemplar de perto, episódio após episódio, toda a vida histórica do seu Senhor, desde o Batismo no Jordão até à Cruz e à Glória da Ressurreição” (dom António Couto).

Depois do Batismo, a liturgia da palavra apresenta-nos Jesus nas bodas de Canaã, na vida comum, no quotidiano das pessoas e das famílias. Assim O veremos em momentos de festa, de alegria e nos momentos de tristeza e luto. Jesus não está acima ou à margem. Está no meio, no centro da vida humana. Vai às margens para trazer para a luz, para a vida, para a felicidade aqueles que se perderam ou estão em vias disso.

Como membro da comunidade, e certamente da família, também vai à festa. Estão todos. sua Mãe. Os discípulos. São José já teria morrido, por isso não está presente. Onde pulsa a vida, Jesus diz presente. E a Sua presença passa a ser notada, ainda que de forma discreta, mas eficiente.

O quadro que nos é apresentado por são João é revelador. Vejamos o texto.

2 – “A certa altura faltou o vinho. Então a Mãe de Jesus disse-Lhe: «Não têm vinho». Jesus respondeu-Lhe: «Mulher, que temos nós com isso? Ainda não chegou a minha hora». Sua Mãe disse aos serventes: «Fazei tudo o que Ele vos disser». Havia ali seis talhas de pedra, destinadas à purificação dos judeus, levando cada uma de duas a três medidas. Disse-lhes Jesus: «Enchei essas talhas de água». Eles encheram-nas até acima. Depois disse-lhes: «Tirai agora e levai ao chefe de mesa». E eles levaram. Quando o chefe de mesa provou a água transformada em vinho, – ele não sabia de onde viera, pois só os serventes, que tinham tirado a água, sabiam – chamou o noivo e disse-lhe: «Toda a gente serve primeiro o vinho bom e, depois de os convidados terem bebido bem, serve o inferior. Mas tu guardaste o vinho bom até agora».

Antes de mais a delicadeza de Maria, Mãe de Jesus. Atenta. Discreta. Interventiva. Recorre a Quem deve recorrer. Confiante, cheia de graça e de fé. Intercede. E não duvida de Jesus, ainda que o Filho a chame a atenção. E dá uma ordem clara – fazei tudo o que Ele vos disser. Também é para nós esta recomendação, sabendo que se fizermos o que Ele nos disser, entramos no Seu caminho de salvação e vida nova.

Jesus faz a Sua parte. Conta conosco. Mais uma experiência para a qual os discípulos estão convocados. O milagre acontece quando damos o melhor de nós mesmos, o que temos, mesmo que seja uma bilha de água. Deus opera a salvação em nós, transforma-nos no mais saboroso e suculento vinho para a festa. Criou-nos sem nós, como diz Santo Agostinho, mas não nos salva sem nós, sem a nossa resposta.

O bom vinho chega com Jesus Cristo. Definitivamente está na nossa vida. Do nosso lado.

3 – O profeta Isaías intui, de forma sublime, a vinda do Messias de Deus, que ora vemos concretizado em Jesus Cristo. Com Ele chegará o tempo de graça e salvação, será restabelecida toda a justiça.

“Os povos hão de ver a tua justiça e todos os reis a tua glória. Receberás um nome novo, que a boca do Senhor designará... Não mais te chamarão «Abandonada», nem à tua terra «Deserta», mas hão de chamar-te «Predileta» e à tua terra «Desposada», porque serás a predileta do Senhor e a tua terra terá um esposo. Tal como o jovem desposa uma virgem, o teu Construtor te desposará; e como a esposa é a alegria do marido, tu serás a alegria do teu Deus”.

Os que são envolvidos por esta LUZ, nova e bela, tornar-se-ão anunciadores, testemunhas, gritando a salvação, transparecendo em Si mesmos a graça que acolhem de Deus, como se reza no salmo: “Anunciai dia a dia a sua salvação, publicai entre as nações a sua glória, em todos os povos as suas maravilhas”.

4 – Cumpre-nos acolher a salvação de Deus, pela fé que professamos, pela esperança que anunciamos, pela caridade que nos aproxima dos outros para neles encontrar a PRESENÇA de Deus. Somos diferentes, é certo, na idade, no tempo, nas qualidades, e nas limitações, no temperamento, no lugar em que nos encontramos, mas o compromisso com Jesus é para todos. Batizados na mesma fé, no mesmo Espírito Santo, com a nossa vida havemos de levar Jesus mais longe, ao coração de cada pessoa que encontramos, nas mais diversas situações e circunstâncias.

Belíssima mensagem do apóstolo, salientando como os dons são concedidos a uns mas a favor de todos: “Há diversidade de dons espirituais, mas o Espírito é o mesmo. Há diversidade de ministérios, mas o Senhor é o mesmo. Há diversidade de operações, mas é o mesmo Deus que realiza tudo em todos. Em cada um se manifestam os dons do Espírito para o bem comum... é um só e o mesmo Espírito que faz tudo isto, distribuindo os dons a cada um conforme Lhe agrada”.

padre Manuel Gonçalves

 
 

Jesus inaugura uma religião de vida

Depois do Natal e da Epifania e, antes de chegar a Quaresma, intercala-se um tempo intermédio na liturgia dos domingos, tirado do Tempo Comum em que se seguem as leituras do ciclo C. Mas, na realidade, este "segundo domingo" foi sempre um domingo de transição que teve como marco os primeiros capítulos do Evangelho de João o qual é lido, normalmente, nos três ciclos, durante o tempo da Quaresma e da Páscoa.

1ª leitura: Isaías (62,1-5)

O enamoramento de Deus partindo da justiça

1. A leitura profética é tirada da terceira parte do livro de Isaías (chamado Trito-Isaías); e o profeta discípulo, o da escola de Isaías em sentido lato, anuncia uma nova Jerusalém, a cidade de Sião, com a linguagem poética do enamoramento e do amor divinos. A grande paixão do profeta Isaías foi Jerusalém, onde estava o templo de Deus ou, por outras palavras, a sua presença mais concreta, de acordo com a teologia dos especialistas. Mas nem sequer a presença de Deus está eternamente garantida num lugar ou numa cidade se os seus habitantes e todos os que a ela querem ir, não sentem a necessidade da justiça como sinal de salvação. Nos profetas, há um aspecto que deve ser salientado e que é a estreita união entre a presença de Deus e a justiça. É evidente que Deus não pode comprometer-se com um povo que não cuida dos insignificantes, dos desgraçados e dos que não têm quase nada. Se a religião é "re-ligar-se" a Deus.

2. Conceitos e palavras fortes são as que podemos ouvir neste belo poema profético (que deve ser lido desde 61,10); amor, justiça, salvação. É como uma descrição da boda de um rei vitorioso com a esposa que, neste caso, é Sião, Jerusalém. A boda, na realidade, é uma vitória, a vitória da justiça. Esta é a sua coroa e o seu triunfo: desposar a amada Jerusalém. Pela mesma razão, falar de uma nova Jerusalém é anunciar uma nova religião, revivida pelo amor eterno de Deus. Jerusalém é a esposa, mas, o que faz uma esposa desposada se, na sua boda, falta o vinho novo do amor? Foi o que sucedeu nas bodas de Caná, em Jerusalém, na religião judaica, até que Jesus intervém, oferecendo o vinho novo do amor divino. Uma religião sem amor é como umas bodas sem amor. E, muitas vezes, habituamo-nos a praticar este tipo de religião: vazia, sem sentido, sem enamoramento.

2ª leitura: 1 epístola aos Coríntios (12,4-11)

Os carismas e o bem comum da comunidade

1. Na passagem da carta aos Coríntios de S. Paulo, que hoje lemos, encontramos a teologia dos carismas na comunidade. Este texto foi elaborado partindo de dois conceitos que se atraem: unidade e diversidade. Há diversidade de carismas, de ministérios e de funções, mas num mesmo Espírito, num mesmo Senhor, num mesmo Deus (aqui reside a unidade). Sobressai, porém, o papel do Espírito como fonte imediata dos carismas, serviços e comportamentos. Não é este o momento para nos fixarmos na diversidade ou até na enumeração e ordem que Paulo estabelece. Poderia ser curioso a ordem e o sentido dos mesmos, mas não é este o momento para fazer uma leitura exegética que, além disso, para maior alcance, deveria ter em conta todo o conjunto de 1Cor 12-14. Talvez os dois últimos carismas -  o de falar línguas (glossolalia) e de as interpretar estivessem no fundo de um problema suscitado na comunidade para além disso, o que perguntaram ao apóstolo. O critério, no entanto, é que, pelo Espírito, os dons especiais que cada um devem estar ao serviço da comunidade cristã.

2. O fenômeno da glossolalia (falar diversas línguas sem as aprender previamente) é extático e tem a ver com alguns elementos deste tipo no mundo helenista, como em Delfos ou as Sibilas. Talvez devêssemos ter em consideração as palavras de K. Barth, que dizia que este tipo de oração poderia chamar-se "expressão do inexprimível". O apóstolo S. Paulo em 1Cor 14, 18, aponta, inclusivamente, que ele próprio é capaz de "falar noutras línguas" e não parece que haja ironia nas suas palavras. Alguns coríntios estavam deslumbrados com este carisma que consideravam dos mais brilhantes e celestes, quase como entrar no divino. Mas quem o pode entender? Tem que haver alguém que o interprete. Paulo não fala com ironia sobre este caso, repetimos, mas o seu critério é decisivo: o bem da comunidade.

3. Estamos perante uma teologia que comprova a vitalidade de uma comunidade cristã onde o Espírito (como o vinho novo da vida) concede a cada um o seu papel ao serviço e benefício dos outros: uns pregam, outros louvam, outros consolam, outros profetizam, outros dedicam-se aos pobres e deserdados; tudo sob o impulso do Espírito de Jesus. Paulo fala-lhes desta maneira, a uma comunidade que não era propriamente um prodígio de unidade, pelo contrário, havia alguns que pretendiam impor-se aos outros, pelo desempenho de funções que poderiam ser consideradas estranhas e onde se procurava mais o prestígio pessoal do que o serviço à comunidade. Estes dons, que não sabem, pois, colocar-se ao serviço de todos, não vêm do Espírito.

Evangelho: João (2,1-11)

Encher a religião de alegria e vida

1. O Evangelho de hoje propõe-nos o relato das bodas de Caná como o primeiro sinal que Jesus faz neste Evangelho e que prenuncia tudo aquilo que Ele vai realizar durante a sua existência. Poderíamos começar por uma descrição quase bucólica de uma festa de casamento, numa aldeia, em contexto da cultura hebraica oriental. Assim o farão muitos pregadores e têm todo o direito disso. Mas o Evangelho de João não se presta às descrições bucólicas ou barrocas. Este é um relato estranho que fala de umas bodas e não se ocupa apenas dos noivos. A noiva nem sequer é mencionada. O noivo só no final para censurar o mestre-sala por ter guardado o vinho bom. A "mãe e seu filho" são os verdadeiros protagonistas. Estes parecem, na verdade, "os noivos" deste acontecimento. Mas a mãe não tem nome. Talvez a discussão exegética se tenha centrado muito nas palavras de Jesus a sua mãe: "Que temos nós a ver com isso?" ou, mais comummente, "que tem isso a ver contigo e comigo?" E o famoso "ainda não chegou a minha hora". O "vinho" torna-se muito importante, pois é mencionado cinco vezes, e porque o vinho tem um significado messiânico. Além disso, o que se passou não é entendido como um milagre, mas como um "sinal" (semeion), o primeiro de seis que serão narrados no Evangelho de João.

2. A força da mensagem do Evangelho deste domingo é a seguinte: Jesus, a palavra da vida no Evangelho de João transforma a água que devia servir para a purificação dos judeus – e isso é muito significativo neste episódio - segundo os rituais da sua religião ancestral, – num vinho de uma qualidade proverbial. A narrativa tem umas conotações muito particulares, na linguagem dos símbolos, da narratologia e da teologia que, resolutamente, temos de inferir. O "terceiro dia" dá que pensar, pois consideramos que é uma expressão mais teológica do que narrativa. O terceiro dia é o da Páscoa cristã, a ressurreição depois da morte. Não é, portanto, um dado estético, mas sim muito significativo. Também há uma expressão ao terceiro dia no Sinai (Ex. 19,11) quando se anuncia que Iavé, a glória de Deus, desceria.

3. A teologia do Evangelho de João quer salientar, simultaneamente, várias coisas que só podem ser compreendidas de acordo com a linguagem não explícita dos sinais. Jesus e sua Mãe chegam por caminhos diferentes a estas bodas; falta vinho numas bodas, o que é inaudito numa celebração deste tipo, porque desprestigia o noivo; a mãe (nunca nos é dito o nome em toda a narrativa nem em todo o Evangelho) e Jesus mantêm um diálogo decisivo quando apenas são uns convidados, e, inclusivamente as talhas de pedra para a purificação (eram seis e não sete), estavam vazias. Há muitos vazios, muitas carências e absurdos nesta celebração de bodas. O "milagre" torna-se presente de uma forma simples: primeiro, através de um diálogo entre a mãe e Jesus; depois pela "palavra" de Jesus que manda encher as talhas de pedra de uns quarenta litros cada uma.

4. Maria atua mais como mãe, como pessoa atenta a uma boda que representa a religião judaica na qual tinha sido educada e tinha educado Jesus. Não é indiferente que seja a mãe a saber que lhes falta vinho. Não é uma boda real nem um milagre "fidedigno" o que aqui nos propomos considerar primeiramente: é uma chamada de atenção para o vazio de uma religião que perdeu o vinho da vida. Quando uma religião serve apenas como ritual repetitivo e não como força criadora da vida, perde a sua glória, o seu ser. Jesus, portanto, perante o pedido de pessoas de confiança, como sua mãe, que se apercebem do vazio existente, antecipa a sua hora, o seu momento decisivo, para oferecer vida a quem a busca de verdade. A sua glória não consiste num milagre exótico, mas em salvar e oferecer vida onde pode dominar o vazio e a morte. Esta será a sua causa, a sua hora e a razão da sua morte no fim da sua vida, tal como o interpreta o Evangelho de João a vida de Jesus de Nazaré. De uma religião nova surgirá uma comunidade nova.

5. Poderíamos fazer uma leitura mariológica deste relato, como muitos fizeram e continuam a fazer. Mesmo o fato de esta narrativa ter sido inserida como o segundo dos "mistérios luminosos" do Rosário de João Paulo II é um indício de que a isso conduz. Mas não devemos exagerar estes aspectos mariológicos que no Evangelho de S. João não se multiplicam, embora contemos com a cena aos pés da Cruz (Jo 19, 26-27) que foi interpretada como a chave da maternidade espiritual de Maria sobre a Igreja. O nosso relato é cristológico, porque nos mostra que os "discípulos acreditaram n'Ele. Isso quer dizer que a mariologia do relato (o papel de Maria nas bodas de Caná) deve estar muito bem integrado na cristologia. No Evangelho de João, Maria pode muito bem representar uma nova comunidade que segue Jesus (como o discípulo amado) e que vê a boda daqueles noivos que ficam sem vinho como uma leitura crítica de um "judaísmo" que combatem os "autores" do Evangelho de João. Daí a resposta de Jesus a sua mãe nesta narrativa se o fizermos com a tradução mais comum: "que tem isso a ver contigo e comigo"? Pode fazer todo o sentido se o evangelista quer marcar as diferenças com um judaísmo que se está a esgotar como religião, porque perdeu o seu horizonte messiânico. Já agora umas perguntas finais: e a nossa religião, que lhe está a acontecer? É profética, transmite vida e alegria?

fray Miguel de Burgos Núñez

tradução de Maria Madalena Carneiro

 
 

As bodas de Caná

Estas bodas, únicas nos Evangelhos, em que se vê a Virgem dispensar a concordância de Jesus e, de algum modo, forçá-l'O para obter d'Ele aquele prodígio que reclama – são um fato extraordinário, se atendermos ao sentido simbólico que contêm.

Não se trata, efetivamente, de contentar os convivas cujo apetite está já satisfeito, regalando-os com um vinho mais saboroso do que aquele que tinha sido servido até àquele momento. Também não se trata do casamento de um homem e de uma mulher cujos nomes nem sequer S. João indica. Trata-se da união entre Deus e a Igreja, das alegrias nupciais de Nosso Senhor e da alma; e não é a água que se transforma em vinho, mas antes o vinho que se transmuta em sangue.

Estas bodas de Caná são apenas um pretexto e um símbolo, porque todos os exegetas estão de acordo quanto a reconhecer nesta cena o símbolo da Eucaristia.

É aceite que o Antigo Testamento prefigura o Novo, mas poderíamos admitir também que certas passagens do Evangelho prefiguram, por sua vez, outras dos mesmos livros? As bodas de Caná são, apenas e realmente, a imagem antecipada da Ceia. O primeiro milagre feito pelo Messias, no início da sua vida pública, anuncia o que Ele realizará na véspera da sua morte.

J-K Huysmans

Marie-dominique moliné, O.P.

 
 

Fazei o que Ele vos disser

O beato João Paulo II disse que “no episódio das bodas de Caná, são João apresenta a primeira intervenção de Maria na vida pública de Jesus e põe em relevo a sua cooperação na missão do Filho”.

 

Versículos de 1 a 5: “Três dias depois, celebravam-se bodas em Caná da Galiléia, e achava-se ali a mãe de Jesus. Também foram convidados Jesus e os seus discípulos. Como viesse a faltar vinho, a mãe de Jesus disse-lhe: Eles já não têm vinho. Respondeu-lhe Jesus: Mulher, isso compete a nós? Minha hora ainda não chegou. Disse, então, sua mãe aos serventes: Fazei o que ele vos disser”.

Nas bodas de Caná a presença de Jesus com seus discípulos, e também a Virgem Maria – O beato João Paulo II disse: “Desde o início da narração, o evangelista avisa que «a mãe de Jesus estava presente» e, como que a querer sugerir que essa presença está na origem do convite dirigido pelos esposos ao próprio Jesus e aos Seus discípulos, acrescenta: «Jesus e os Seus discípulos foram convidados para as bodas».

“Como viesse a faltar vinho, a mãe de Jesus disse-lhe” – “O significado e o papel que assume a presença da Virgem, manifestam-se quando vem a faltar o vinho. Ela, experiente e prudente dona de casa, percebe isso imediatamente e intervém para que não termine a alegria de todos e, principalmente, para socorrer os esposos em dificuldade” (beato João Paulo II)

“Eles já não têm vinho” – O papa Bento XVI disse que “na Terra Santa, festejavam-se as bodas durante uma semana inteira; nelas participava todo o povoado, e portanto consumiam-se grandes quantidades de vinho. Agora os esposos encontram-se em dificuldade, e Maria simplesmente refere tal fato a Jesus. Não lhe pede algo específico, e ainda menos que Jesus exerça o seu poder, realize um milagre, produza vinho. Simplesmente confia a situação a Jesus, deixando-lhe a decisão sobre como agir”.

“Disse, então, sua mãe aos serventes” – O  Beato João Paulo II disse:  “O primeiro dos “sinais” realizado por Jesus –a transformação da água em vinho nas bodas de Caná – mostra-nos precisamente Maria no papel de mestra, quando exorta os servos a cumprirem as disposições de Cristo “(Jo 2,5).

“Fazei o que Ele vos disser” – O Beato João Paulo II disse que “a Mãe de Cristo apresenta-se diante dos homens como porta-voz da vontade do Filho, como quem indica aquelas exigências que devem ser satisfeitas, para que possa manifestar-se o poder salvífico do Messias. Em Caná, graças à intercessão de Maria e à obediência dos servos, Jesus dá início à “sua hora”. Em Caná, Maria aparece como quem acredita em Jesus: a sua fé provoca da parte dele o primeiro “milagre” e contribui para suscitar a fé dos discípulos”.

O Catecismo (2618) ensina: “O Evangelho revela-nos como é que Maria ora e intercede na fé: em Caná, a Mãe de Jesus roga a seu Filho pelas necessidades dum banquete de bodas, sinal dum outro banquete, o das bodas do Cordeiro que dá o seu corpo e o seu sangue a pedido da Igreja, sua esposa”.

 

Versículos  de 6 a 10: “Ora, achavam-se ali seis talhas de pedra para as purificações dos judeus, que continham cada qual duas ou três medidas. Jesus ordena-lhes: Enchei as talhas de água. Eles encheram-nas até em cima. Tirai agora , disse-lhes Jesus, e levai ao chefe dos serventes. E levaram. Logo que o chefe dos serventes provou da água tornada vinho, não sabendo de onde era (se bem que o soubessem os serventes, pois tinham tirado a água), chamou o noivo  e disse-lhe: é costume servir primeiro o vinho bom e, depois, quando os convidados já estão quase embriagados, servir o menos bom. Mas tu guardaste o vinho melhor até agora”.

“Jesus ordena-lhes: Enchei as talhas de água” -  O beato João Paulo II disse: “Em todo o caso a sua confiança (de Maria) no Filho é recompensada. Jesus, a Quem ela deixou totalmente a iniciativa, realiza o milagre, reconhecendo a coragem e a docilidade da Mãe: «Disse-lhes Jesus: “Enchei de água essas talhas”; e encheram- nas até à borda» (Jo. 2,7). Também a obediência deles, portanto, contribui para a obtenção do vinho em abundância”.

O sacramento do Matrimônio – “A presença de Jesus em Caná manifesta, além disso, o projeto salvífico de Deus a respeito do matrimônio. Nessa perspectiva, a falta de vinho pode ser interpretada como alusiva à falta de amor que, infelizmente não raro, ameaça a união esponsal. Maria pede a Jesus que intervenha em favor de todos os esposos, pois somente um amor fundado em Deus pode libertar dos perigos da infidelidade, da incompreensão e das divisões”. (padre Bantu Mendonça)

O Catecismo (1613) ensina: “No umbral da sua vida pública, Jesus realiza o seu primeiro sinal –a pedido da sua Mãe – por ocasião duma festa de casamento. A Igreja atribui uma grande importância à presença de Jesus nas bodas de Caná. Ela vê nesse fato a confirmação da bondade do matrimônio e o anúncio de que, doravante, o matrimônio seria um sinal eficaz da presença de Cristo”.

 

Versículo 11: “Este foi o primeiro milagre de Jesus; realizou-o em Caná da Galiléia. Manifestou a sua glória, e os seus discípulos creram nele”.

“Manifestou a sua glória, e os seus discípulos creram nele”-  “Lemos no Evangelho que, diante do vinho novo, diante de Jesus que inaugura o Reino, os discípulos não só continuam uma festa bem alegre (600 litros de ótimo vinho a mais), mas foram ao mais importante, a fé em Jesus” (padre Luiz Carlos de Oliveira)

O papa  Bento XVI disse: “Possa este Ano da Fé tornar cada vez mais firme a relação com Cristo Senhor, dado que só n’Ele temos a certeza para olhar o futuro e a garantia dum amor autêntico e duradouro”.

Conclusão

“ A mudança que o Reino realiza em nós coloca nossa vida a serviço, como Jesus o fez. Serviço de entrega de vida, mas e sobretudo de ser alegria de amor, como lemos no Evangelho. O vinho novo, que é Jesus,  trouxe uma mudança. É como a água que foi colocada em potes vazios e que Jesus transformou em vinho bom, pois a festa de Deus não pode acabar”. (Padre Luiz Carlos de Oliveira)

Jane Amábile

 
 

O Evangelho deste 2º domingo do tempo comum coloca à nossa consideração as bodas de Caná, acontecidas na Galileia. Tanto naquele tempo como agora, as festas são apreciadas por todos, quer seja um casamento, um batizado, um aniversário, a festa do santo padroeiro ou da padroeira da igreja, fim de ano... festas e mais festas... Há algumas festas que ficam gravadas na nossa memória e que com o passar do tempo adquirem um significado cada vez mais profundo, assim como há outras que caem no mais profundo esquecimento porque perderam o seu significado. A festa das bodas de Caná, tal como é descrita no Evangelho de São João (Jo 2,1-12), ficou gravada na memória do povo cristão e para alguns revela um sentido profundo.

Para entender esta descoberta progressiva do significado das bodas de Caná, devemos recordar que o Evangelho de João é diferente dos outros Evangelhos. João narra os fatos da vida de Jesus de tal modo que os leitores sejam conduzidos a descobrir neles uma dimensão mais profunda que somente a fé pode perceber. João faz, ao mesmo tempo, uma fotografia e um “Raio-X”. Durante a leitura, é bom prestar muita atenção aos pormenores do texto, sobretudo a duas coisas: 1) – as atitudes e comportamentos das pessoas e 2) – a falta e abundância que aparecem na festa das bodas de Caná.

Contexto para compreender a fotografia e o “Raio-X”

Quando dizemos “fotografia”, indicamos os fatos em si, tal como aparecem diante dos nossos olhos. Quando dizemos “Raio-X”, referimo-nos à dimensão mais profunda, invisível aos olhos, que se encontra nos fatos que só a fé nos faz perceber e no-la revela.

É no modo de descrever os fatos que João faz os “Raios-X” às palavras e aos gestos de Jesus. Mediante estes pormenores e alusões, o evangelista põe em relevo a dimensão simbólica e, fazendo assim, ajuda-nos a penetrar mais profundamente no mistério da pessoa e da mensagem de Jesus. Nas bodas de Caná, na Galileia, opera-se a transformação da água das purificações dos judeus em vinho para a festa das bodas. Vejamos de perto os pormenores com que João descreve a festa de modo que possamos compreender o significado mais profundo deste belo e tão conhecido episódio.

Comentário do texto

João 2, 1-2: Festa das bodas. Jesus está convidado.

No Antigo Testamento a festa das bodas era símbolo do amor de Deus para com o seu povo. Era o que todos esperavam no futuro (Os. 2,21-22; Is. 62,4-5). E é precisamente numa festa de bodas, junto a uma família e a uma comunidade, que Jesus realiza o seu “primeiro sinal” (Jo 2,11). A Mãe de Jesus encontra-se também na festa. Jesus e os seus discípulos foram convidados. Ou seja, a Mãe de Jesus fazia parte da festa. Simboliza o Antigo Testamento. Também Jesus está presente mas com veste de convidado. Ele não faz parte do Antigo Testamento. Com os seus discípulos ele é o Novo Testamento que está a chegar. A Mãe de Jesus ajudará a passar do Antigo para o Novo Testamento.

 

João 2, 3-5: Jesus e sua Mãe perante a falta de vinho.

A Mãe de Jesus reconhece os limites do Antigo Testamento e toma a iniciativa para que se manifeste o Novo Testamento. Aproxima-se de Jesus e diz-lhe: “Não têm vinho”. Aqui aparece tanto a foto como o “Raio-X”. A foto representa a Mãe de Jesus como pessoa atenta aos problemas dos outros de tal modo que se dá conta que a falta de vinho arruinaria a festa. E não só constata o problema mas toma a iniciativa para o resolver. O Raio-X revela a dimensão mais profunda da relação entre o Antigo Testamento (a Mãe de Jesus) e o Novo Testamento (Jesus). A frase “não têm vinho!”, procede do Antigo Testamento e desperta em Jesus a ação que fará nascer o Novo. Jesus diz: “Mulher, que tem isso a ver contigo e comigo?”. Ou seja, qual é o nexo entre o Antigo e o Novo Testamento? “Ainda não chegou a minha hora”. Maria não entende a resposta como uma negação visto que diz aos serventes: “Fazei tudo o que ele vos disser”. Atuando deste modo, Jesus ensina como se passa do Antigo para o Novo Testamento. A hora de Jesus, em que se fará a passagem do Antigo para o Novo Testamento, é a sua paixão, morte e ressurreição. A mudança de água em vinho é a indicação antecipada do Novo, que nascerá a partir da morte e da ressurreição de Jesus.

Pelos fins do século primeiro discutia-se entre os primeiros cristãos acerca da validade do Antigo Testamento. Alguns já não queriam saber nada do Antigo Testamento. Na reunião dos Apóstolos em Jerusalém, São Tiago defendeu a continuidade do uso do Antigo Testamento (Act. 15, 13-21). Na verdade, nos princípios do século segundo, Marcião rejeitou o Antigo Testamento e ficou somente pelos livros do Novo Testamento. Alguns sustentavam, inclusivamente, que depois da vinda do Espírito Santo não se devia recordar mais Jesus de Nazaré, mas falar unicamente de Jesus Ressuscitado. Em nome do Espírito Santo diziam: “Anátema seja Jesus” (1Cor. 12,3).

 

João 2,6: As vasilhas da purificação estão vazias.

Trata-se de um pequeno detalhe mas muito significativo. As vasilhas costumavam estar sempre cheias, sobretudo durante uma festa. Aqui estão vazias! Porquê? A observância da lei da pureza, simbolizada pelas seis vasilhas, esgotou todas as suas possibilidades. A antiga lei conseguiu já preparar as pessoas para poder estar em união de graça e de justificação diante de Deus. As vasilhas, a antiga aliança, estão vazias. Já não podem gerar uma vida nova.

 

João 2,7-8: Jesus e os serventes.

A recomendação da Mãe de Jesus aos serventes é a última grande ordem do  Antigo Testamento: “Fazei tudo o que ele  vos disser!”. O Antigo Testamento olha já para Jesus. De agora em diante as palavras e os gestos de Jesus marcarão a vida. Jesus chama os serventes e ordena-lhes que encham as seis vasilhas. No total, mais de seiscentos litros! De imediato manda levar ao chefe de mesa. Esta iniciativa de Jesus acontece sem que os donos da festa intervenham. Nem Jesus, nem a Mãe, nem os serventes eram os donos, obviamente. Nenhum deles pediu autorização aos donos. A renovação passa pelas pessoas que não pertencem ao centro do poder.

 

João 2,9-10: descoberta do sinal por parte do dono da casa.

O chefe de mesa prova a água transformada em vinho e diz ao esposo: “Toda a gente serve primeiro o vinho melhor e, depois de terem bebido bem, é que serve o pior. Tu, porém, guardaste o melhor vinho até agora!”. O chefe de mesa, o Antigo Testamento, reconhece publicamente que o Novo é melhor! Onde antes estava a água para os ritos de purificação dos judeus, agora há vinho em abundância para a festa. Era muito vinho! Mais de seiscentos litros, e a festa estava quase no fim. Qual é o sentido desta abundância? Que se faz com o vinho que sobra? Estamos a bebê-lo hoje!

 

João 2,11-12: comentário do evangelista.

Este é o primeiro sinal. No quarto Evangelho, o primeiro sinal acontece para ajudar na reconstrução da família, da comunidade, para sanar as relações de base entre as pessoas. Seguir-se-ão outros sinais. João não utiliza a palavra milagre, mas a palavra sinal. A palavra sinal indica que as ações de Jesus em favor das pessoas têm um valor profundo, que só se descobre com o “Raio-X” da fé. A pequena comunidade que se formou à volta de Jesus naquela semana, vendo o sinal, estava já capacitada para perceber o significado mais profundo e “acreditou n'Ele”.

Bodas muito esperadas

No Evangelho de João, o começo da vida pública de Jesus acontece numa festa de bodas, momento de muita alegria e de muita esperança. Por isso mesmo, as bodas de Caná têm um significado simbólico muito forte. Na Bíblia, o matrimônio é a imagem utilizada para significar a realização da perfeita união entre Deus e o seu povo. Estas bodas entre Deus e o seu povo eram esperadas desde há muito tempo, mais de oitocentos anos!

Foi o profeta Oseías (por volta do ano 750 antes de Cristo) que, pela primeira vez, representou a esperança destas bodas quando narra a parábola da infidelidade do povo perante as propostas de Yahvé. A monarquia de Israel abandonou Yahvé e a sua misericórdia, conduzindo o povo para o culto de falsos deuses. Mas o profeta, seguro do amor de Deus, diz que o povo será de novo conduzido ao deserto para escutar da parte de Deus a seguinte promessa: “Far-te-ei minha esposa para sempre, far-te-ei minha esposa na justiça e no direito, na benevolência e no amor, e desposar-te-ei na fidelidade e tu reconhecerás o Senhor” (Os. 2,21-22). Estes esponsais entre Deus e o povo indica que o ideal do êxodo será alcançado (Os. 2,4-25). Depois de quase cento e cinquenta anos, o profeta Jeremias volta a tomar as palavras de Oseias para denunciar a monarquia de Judá. E diz que Judá terá o mesmo destino de Israel por causa da sua infidelidade (Jr. 2,2-5; 3,11-13). Mas também Jeremias olha para a esperança de uns desposórios perfeitos com a seguinte novidade: será a mulher que seduzirá o marido (Jer 31, 22). E apesar da crise geral causada pelo desterro na Babilônia, o povo não perde a esperança de que um dia este desposório realizar-se-á. Yahvé terá compaixão da sua esposa abandonada (Is. 54,1-8). Com o regresso dos desterrados, a “Abandonada” voltará a ser a esposa acolhida com muita alegria (Is 62, 4-5).

Olhando para a Novidade que chega, também João Baptista olha para Jesus, o Esposo esperado (Jo 3,29). No ensinamento e nos diálogos com as pessoas, Jesus retoma a parábola de Oseias, o sonho das bodas perfeitas. Ele apresenta-se como o Esposo esperado (Mc. 2,19). No diálogo com a samaritana, apresenta-se como o verdadeiro Esposo, o sétimo (Jo 4,16-17). As comunidades cristãs aceitaram Jesus como o Esposo esperado (2Cor. 11,2; Ef. 5,25-31). As bodas de Caná querem demonstrar que Jesus é o verdadeiro Esposo que chega para as tão esperadas bodas, portanto, um vinho gostoso e abundante. Estas bodas definitivas estão descritas com belas imagens no livro do Apocalipse (Ap. 19,7-8; 21,1; 22,5).

A Mãe de Jesus no Evangelho de João

Ainda que não seja chamada com o nome de Maria, a Mãe de Jesus aparece duas vezes no Evangelho de João: no princípio, nas bodas de Caná (Jo. 2, 1-5) e, no final, aos pés da Cruz (Jo 19,25-27). Nos dois casos representa o Antigo Testamento que espera a chegada do Novo, e nos dois casos, contribuiu para a chegada do Novo. Maria é o laço entre o que havia antes e o que virá depois. Em Caná, a Mãe de Jesus, símbolo do Antigo Testamento, é aquela que se dá conta dos limites do Antigo Testamento e dá os passos para que possa aparecer o Novo. Aos pés da Cruz, está junto ao “discípulo amado”. O discípulo amado é a comunidade que cresce à volta de Jesus, é o filho que nasce do Antigo Testamento. À petição de Jesus, o filho, o Novo Testamento, recebe a Mãe, o Antigo Testamento, em sua casa. Os dois devem caminhar juntos. Na verdade, o Novo não se entende sem o Antigo. O Novo não terá base, fundamento. E o Antigo sem o Novo seria incompleto: uma árvore sem frutos.

Os sete dias da nova criação

O texto começa: “Ao terceiro dia” (Jo 2,1). No capítulo anterior, João repetiu já por três vezes a expressão “No dia seguinte” (Jo 1,29.35.43). Fazendo os cálculos, isto apresenta o seguinte esquema: o testemunho de João Baptista acerca de Jesus (Jo 1,29) acontece no primeiro dia. “No dia seguinte” (Jo 1,29), ou seja, o segundo dia, acontece o baptismo de Jesus (Jo 1,29-34). No terceiro dia ocorre o chamamento dos discípulos e de Pedro (Jo 1,35-42). No quarto dia, Jesus chama Filipe e Natanael (Jo 1,43-51). Finalmente, “três dias depois”, isto é, no sétimo dia, ou seja em pleno sábado, acontece o primeiro sinal das bodas de Caná (Jo. 2, 1). Ao longo do Evangelho de João Jesus realizará sete sinais.

João utiliza o esquema da semana para apresentar o começo da atividade de Jesus. O Antigo Testamento serve-se do mesmo esquema para apresentar a criação. Nos primeiros seis dias Deus criou todas as coisas chamando-as pelo seu nome. No sétimo dia descansou e não trabalhou mais (Gn. 1, 1-2, 4). Igualmente Jesus nos seis primeiros dias de atividade chama as pessoas e cria a comunidade, a nova humanidade. No sétimo dia, ou seja, no sábado, Jesus não repousa, mas realiza o seu primeiro sinal. Ao longo dos capítulos seguintes, de 2 a 19 inclusive, realizará seis sinais, sempre ao sábado (Jo 5,16; 9,14). Na manhã da ressurreição, quando Maria Madalena vai ao sepulcro, diz-se: “No primeiro dia da semana” (Jo 20,1): é o primeiro dia da nova criação, depois daquele sábado prolongado em que Jesus faz os sete sinais.

Acusado de trabalhar ao sábado, Jesus responde: “Meu Pai sempre trabalha, e também eu trabalho” (Jo 5,17). Através da atividade de Jesus entre Caná e a Cruz, o Pai completa o que falta na velha criação, de modo que possa aparecer a nova criação na ressurreição de Jesus.

 
 

Jesus é homem como nós; tem amigos e aceita o convite para ir a um casamento com sua mãe e seus discípulos. Situando Jesus num casamento falido, como o de Caná da Galiléia, o evangelista não faz outra coisa senão mostrar quem é o esposo da humanidade. Portanto, o episódio de Caná deve ser lido em chave simbólica. Nesse sentido, é importante ter presente que:

- com muita frequência, o casamento é, na Bíblia, sinônimo de aliança (1ª leitura). Na linguagem profética, ser infiel à aliança é a mesma coisa que ser adúltero, prostituir-se; - a aliança antiga caducou, não tem mais razão de existir: “Eles não têm mais vinho”.

- o que sustentava a antiga aliança eram os ritos de purificação (as talhas para a purificação estão vazias). Os ritos de purificação não são mais condição para que as comunidades se tornem esposa do Cordeiro.

- Jesus é aquele que inaugura a Nova Aliança, aquele que traz o vinho novo de ótima qualidade, em abundância. O vinho, por sua vez, é símbolo muito forte do amor.

- o vinho que Jesus dá é de ótima qualidade, fazendo esquecer o antigo.

- a abundância de vinho (mais de 600 litros) era o sinal da chegada do Messias, que vai trazer o amor definitivo. Chegou, portanto, a hora de Jesus, que se consumará na cruz, mostrar seu amor sem limites.

- no episódio de Caná ignora-se a presença da noiva. É possível um casamento sem noiva? Onde, pois, está a noiva da Nova Aliança?

A resposta a essa última pergunta pode ser encontrada no próprio texto deste domingo.

É estranho que Jesus se dirija à sua mãe chamando-a “Mulher”. Isso nos leva a crer que “a mãe de Jesus”, no episódio de Caná, é símbolo dos que se conservaram fiéis a Deus, na expectativa da realização das promessas messiânicas. Representa aqueles que aguardam o novo, distanciando-se do antigo modo de encarar a relação Deus-humanidade.

Jesus não veio remendar a aliança antiga, como se pudéssemos sobrepor uma à outra.

O vinho novo não provém das talhas de pedra (que representam a antiga aliança), mas é transformado longe delas. Jesus é o que põe a graça no lugar da Lei. Supera, com isso, uma das mais antigas instituições para inaugurar um novo relacionamento entre Deus e a humanidade, baseado exclusivamente no amor gratuito.

O episódio de Caná marca o início dos sinais de Jesus que têm como finalidade levar a nova humanidade à maturidade da fé e à posse da vida. Dentro do Evangelho de João, Caná é um episódio que encontra seu ponto alto na cruz, a Hora de Jesus, quando manifesta em sinais concretos o que significa a abundância do vinho novo. É lá que ele manifesta seu amor até as últimas consequências.

Na segunda leitura, Paulo esclarece a questão dos carismas. Dava-se valor unicamente àqueles carismas extraordinários capazes de causar impacto nas pessoas: falar em línguas, profetizar, fazer curas e milagres.

Para os coríntios, ter carisma era isso. Paulo mostra que na comunidade, cada um recebe uma manifestação do Espírito para o crescimento e o bem de todos.

 
 

“Fazei tudo o que Ele vos disser”

A narrativa das bodas de Cana que a Liturgia do 2º Domingo Comum (Ano C) nos apresenta é o mistério no qual Jesus, graças à intervenção da Mãe, realiza o primeiro de seus “sinais”, convertendo a água em vinho. Ele manifesta, assim, a sua glória, de forma que os discípulos acreditaram nele.

Procuremos, então, colher o significado que transparece por meio do "sinal" de Caná, seguindo as indicações das frases que explicitam bem o colóquio entre Jesus e Maria.

1. “Estava lá a Mãe de Jesus” - Tinha de estar. Começava a Igreja a lançar os fundamentos da fé. Por isso, tinha de estar lá a Mãe da Igreja, como esteve em Belém e estará no Calvário. Começa Maria a sua missão de intercessora. E também Ela aparece como “sinal”. É apenas a “mulher”, colaboradora de Cristo na obra da redenção para refazer a obra que outra mulher destruiu. A palavra “mulher”, com a qual Jesus se dirige à Mãe nas “horas” solenes e que assinalam o início e o cume da manifestação terrena da sua glória, ilumina-se, então, em toda a sua vastidão e profundidade, revelando plenamente o projeto de Deus para ela.

Maria é a “mulher”, a “nova Eva”, “mãe de todos os viventes”, preanunciada por Deus no jardim do Éden (cf Gn. 3, 15-20): é “a mulher vestida de sol, com a lua sob os pés e sobre a cabeça uma coroa de doze estrelas”, que dá à luz um filho, “destinado a governar todas as nações” (Ap. 12, 1-6). Toda a sua vida e missão começa e termina em Jesus, apressando horas e sinais. A lição que nos ensina é escutar e obedecer: “Fazei tudo o que Ele vos disser”.

2. “Fazei aquilo que ele vos disser” - A figura de Maria sobressai, como a deseja Jesus: inteiramente voltada para Ele, vivendo unicamente para Ele. De fato, são suas as palavras plenas de confiança e de esperança e, por isso mesmo, demandam o silêncio, a renúncia a si mesmo. Mas, visto que o silêncio de Maria é um silêncio de amor, sobre ele Jesus, o Verbo de Deus, pode falar e, visto também que a renúncia de Maria é fruto do amor, esta se torna fecunda. E Jesus cumpre o milagre esperado.

Assim, em Caná, Maria apresenta-se sob a veste da primeira discípula que crê, verdadeira imagem e modelo dos seguidores de Jesus. Endereçando-os para Ele, também os dispõe a deixar-se penetrar pela sua palavra, a fim de se tornarem, tal como ela, instrumentos de salvação. Maria, a mãe de Jesus e a mãe dos seus discípulos, a Mãe da Igreja.

3. “Não têm vinho”. - São palavras que manifestam a solicitude materna de Maria para com as necessidades da humanidade; com uma atitude discreta, mas corajosa e confiante, Ela dirige-se, sem demora, a seu Filho e Senhor, a fim de interceder por quem mais precisa.

Mas essas palavras de Maria revelam o seu amor de mãe a um nível ainda mais profundo. Parecem encerrar a imploração de Israel que aguarda a realização das promessas messiânicas, simbolizadas na imagem bíblica da abundância de vinho. O vinho, que falta em Caná torna-se símbolo da antiga lei que já não basta porque, com Jesus, chegou o tempo da redenção definitiva.

Maria é consciente de tudo isso e faz a Jesus esse pedido, a fim de que o vinho das bodas – que é a plenitude da revelação trazida por Ele – escorra copiosamente e para que aquela festa do amor humano se torne lugar no qual se manifesta o amor divino. As talhas vazias tornam-se fontes de um vinho novo.

Darci Vilarinho

 
 

“Façam tudo o que ele lhes disser”

A primeira parte do quarto Evangelho é comumente chamada “O livro dos Sinais”, pois o evangelista relata uma série de sete sinais que, passo por passo, revelam quem é Jesus, e qual é a sua missão. Embora algumas bíblias traduzem o termo grego que João usa por “milagre”, a tradução mais acertada é “Sinal”. O primeiro desses sinais aconteceu no contexto das bodas de Caná, o evangelho de hoje. Como todo o Evangelho de João, o relato está carregado de simbolismo, onde pessoas, números e eventos funcionam simbolicamente, para nos levar além da aparência das coisas, numa caminhada de descoberta sobre a pessoa de Jesus.

Um dos temas centrais do quarto evangelho é o da “hora” de Jesus. A “hora” não se refere à cronometria, mas a hora de glorificação de Jesus, por sua morte e ressurreição. Em resposta ao pedido feito por Maria (João nunca se refere a ela pelo nome, mas pelo título “mulher”), usando de uma maneira até estranha este termo para a sua mãe, João quer indicar que Jesus rejeita uma esfera meramente humana de ação para Maria, para reservar para ela um papel muito mais rico, ou seja, o da mãe dos seus discípulos. Maria somente vai aparecer mais uma vez neste evangelho - a pé da cruz, onde ela e o Discípulo Amado assumem um relacionamento de Filho e Mãe. Devemos lembrar que o Discípulo Amado simboliza a comunidade dos discípulos do Senhor, ou seja, nós hoje.

Apesar da nossa tradição piedosa mariana, é importante não reduzir a ação da Maria no texto à de uma incomparável intercessora. Embora seja comum esta interpretação na devoção popular, não se sustenta do ponto de vista exegético. É melhor ver Maria aqui como discípula exemplar, pois embora a resposta de Jesus indique um distanciamento entre a sua expectativa e a visão d’Ele, ela continua com confiança n’Ele e leva outros a acreditar n’Ele.

O simbolismo da água tornada vinho é também importante. Não era qualquer água - era a água da purificação dos judeus. Com esta história, João quer mostrar que doravante os ritos judaicos de purificação estão superados, pois a verdadeira purificação vem através de Jesus. Podemos entender isso como a mudança de uma prática religiosa baseada no medo do pecado, uma prática que excluía muita gente, para uma nova relação entre Deus e a humanidade, a partir de Jesus. Assim, em Cana, Jesus começa a substituir as práticas do judaísmo do Templo, que vai continuar ao longo do Evangelho de João.

A quantia do vinho chama a atenção - 600 litros! O vinho em abundância era símbolo dos tempos messiânicos, e, na tradição rabínica, a chegada do Messias seria marcada por uma colheita abundante de uvas. Assim João quer dizer que a expectativa messiânica se realiza em Jesus. As talhas transbordantes simbolizam a graça abundante que Jesus traz. A figura do mestre-sala é também simbólica, bem como os serventes. Aquele, que devia saber a origem do vinho da festa, não sabia, enquanto estes sim. Assim, o mestre-sala representa os chefes do Templo que não sabiam a origem de Jesus enquanto os servos representam os discípulos que acreditaram n’Ele.

Fazendo comparação entre o vinho antigo e o novo, João quer reconhecer que a Antiga Aliança era boa, mas a Nova a superou. Os ritos e práticas judaicos, ligados à purificação e ao sacrifício, não têm mais sentido, pois uma nova era de relacionamento entre a humanidade e Deus começou em Jesus.

O ponto culminante do relato está em v. 11: “Foi em Caná que Jesus começou os seus sinais, e os seus discípulos acreditaram n’Ele”. A fé deles não é intelectual ou teórica, mas o seguimento concreto do Mestre, na formação de novos relacionamentos de amor. Passo por passo, o autor vai revelando Jesus através de sinais para que nós, os leitores, possamos “acreditar que Jesus é o Messias, o Filho de Deus. E para que, acreditando, tenhamos a vida em seu nome” (Jo 20,31).

padre Tomaz Hughes, SVD

 
 

"Foi assim, que, em Caná da Galileia, Jesus deu início aos seus sinais.

Manifestou a Sua glória e os discípulos acreditaram n´Ele" (Jo. 2,11).

1. Mais do que a abundância do vinho bom, difunde-se, por toda a parte, a alegria da fé, em Jesus Cristo, o Filho de Deus. Ao que tudo indica, e pelo que se vê, Jesus não pretendia, em primeiro lugar, produzir vinho bom, para quem já bebeu bem, e para lá da medida justa. Na abundância do vinho novo, na alegria daquela festa de casamento, Jesus quer sobretudo tocar-nos e inebriar-nos, por dentro. Ele quer, em primeiro lugar, manifestar a Sua glória, isto é, fazer brilhar a paixão amorosa de Deus por nós, a superabundância do seu amor e da sua infinita bondade, para conosco. E, assim, com este primeiro sinal, de excesso, de festa e de maravilha, Jesus chama e provoca a fé dos discípulos! Eles saboreiam em Caná, a presença de Deus no meio do seu Povo, um Deus que nos despoja do que é velho e nos desposa do Seu amor nupcial.

2. Diríamos que o milagre mais profundo de Caná não é a transformação da água em vinho, mas é a fé dos discípulos, a fé, que tudo transforma, tudo cria e recria: ela abre os olhos ao que falta e ao que sobra, ela abre no coração as fontes da alegria; ela abre as mãos vazias à graça de Deus, sem medida. Pela fé, abrimos assim a porta da nossa vida, de todos os dias, à manifestação deste Deus, que, em Cristo, rompe os nossos limites e irrompe pela nossa casa dentro, atravessando o limiar da porta da alegria! Pela fé, chegamos assim ao encontro com Cristo, que vem, até nós, pelas mãos de Maria!

3. Sim, a Mãe de Deus, é aqui a «primeira entre os crentes», Aquela que tudo confia ao Senhor, aquela que se antecipa, a Estrela que vai à frente e conduz os discípulos à fé verdadeira! Maria, Aquela que, um dia, disse ao seu Senhor, «faça-se a Tua vontade», dá-nos agora a mesma senha, dita-nos a mesma palavra-chave, para abrir, todos os dias, nos nossos corações, a porta da fé: «fazei tudo o que Ele vos disser» (Jo. 2,5). Com estas belas palavras, Maria chama-nos, guia-nos e desafia-nos à fé, conduz-nos para o milagre da verdadeira alegria, na escuta fiel da palavra e na obediência às ordens do Senhor.

4. “Fazei o que Ele vos disser” (Jo. 2,5)! Nestes tempos depressivos e de penúria, de pão e água, parece-me ouvir Maria desafiar-nos à fé, como fonte da verdadeira alegria: “Fazei o que Ele vos disser”. Este bom conselho da Mãe podia traduzir-se hoje, em novos imperativos de fé: Acreditai em Jesus Cristo, o Filho de Deus vivo! Acreditai, com uma fé, que outra coisa não é do que amor correspondido! Acreditai, com uma fé, que não é pura teoria da razão, mas existência vivida em transformação! Acreditai, com uma fé, que aceita a vontade de Deus, mesmo quando esta é contrária à vossa! Acreditai assim, no meio das coisas mais humanas, como a vida familiar e o amor conjugal, e então vereis a glória de Deus, a superabundância e o brilho do Seu amor por vós! Acreditai e, onde outros só veem dor e insucesso, fareis a prova do vinho bom, do amor desmedido de Deus, por vós. Acreditai e experimentareis o saboroso vinho da presença discreta de Deus, na vossa vida. Acreditai e então as águas corredias do vosso dia-a-dia, as grandes aflições e as pequenas gotas de alegria, hão de transformar-se no vinho novo, da Sua santa proximidade.

5. Para chegardes a esta fé, abri, em primeiro lugar, a porta da vossa casa, ao Senhor. Quando Ele entrar aí e por aí, preparai-vos, para a inundação, com o vinho novo do evangelho, que dará aos vossos corações uma alegria maior!

 

 

1. Não é o pão, nem a carne, não é o mínimo necessário, que falta nas bodas de Caná! Ali, em pleno banquete nupcial, acaba por faltar o vinho e, com ele, falta o sinal da alegria do coração e da profusão do amor! Enquanto a água corrente, nos remete para o essencial da vida, no seu quotidiano, o vinho, que alegra o coração do Homem, leva-nos a saborear o requinte e o esplendor da criação, a graça da alegria, no tempo da provação! O vinho, que nos inebria, permite-nos, de algum modo, sair de nós mesmos, entrar no êxtase do amor e intuir algo da festa nupcial, que Deus, nos prepara e oferece em seu Filho Jesus Cristo!

2. Ao escolher, como cenário do seu primeiro milagre, umas bodas de casamento, em Caná da Galileia, Jesus dá um claro sinal e marca toda a diferença: Com Ele, está conosco o Noivo, e por isso não há lugar para o jejum, para o luto e para a tristeza! Ele chama-nos para a alegria e para a festa, de uma vida, em aliança e em comunhão com Ele! Sem Jesus, o sangue da nossa alegria “fica passado a água” e a nossa vida perde a sua alma! Com Jesus, entramos pela porta da alegria e a nossa vida chega, com certeza, a conhecer as fontes da vida e do amor em abundância!

3. Frequentemente, faltará também à vida de muitos de nós, e até à vida da Igreja, não tanto o pão de cada dia, mas aquele não sei quê de excesso e de alegria, que dá qualidade à vida, perfume e sabor às coisas de cada dia. Quantos ritos celebrados sem inspiração. Quantas orações, sem graça. Quantos preceitos, sem amor. Tanta letra, sem espírito. Falta-nos, por vezes, aquele não sei quê de paixão, de entusiasmo e de festa interior, para que avance, com confiança, esta frágil barca de canas, que é o nosso coração, ou esta velha barca de Pedro, que é a nossa Igreja! Há, de facto, na nossa vida, e na vida da Igreja, necessidade de qualquer coisa de excessivo, de festivo, de alegre! E essa alegria, faz-nos tanta falta, como o pão de cada dia!

Não vivamos, em Igreja, na tristeza ou na saudade de um certo Cristo, figura ilustre do passado! Afinal somos todos contemporâneos de Jesus. Não somos simples continuadores. Ele está conosco todos os dias, presidindo-nos, precedendo-nos, chamando-nos e enviando-nos, implicando-nos na sua missão. A Igreja é a Esposa de Cristo! Não é a sua viúva! Haja então e sempre a alegria, na nossa fé e na missão!

4. De fato, a fé genuína dá alegria! E essa alegria, de fundo e de verdade, é a melhor correia de transformação e de transmissão da fé, às novas gerações! Se estivermos cansados, se não estivermos entusiasmados, pela profundidade e pela beleza da nossa fé, não podemos verdadeiramente transmiti-la, nem aos vizinhos nem aos filhos, nem às gerações futuras!

A missão 2010, que neste mês anuncia Cristo, através do canto das janeiras, e em Fevereiro mergulhará os jovens nas fontes da alegria, é um desafio a ganhar outras pessoas, para a nossa fé cristã e a arrastar os cristãos, que cederam ao cansaço ou abandonaram a Igreja!

Devemos difundir verdadeiramente a alegria do Evangelho, como Jesus, em Caná, a partir da família, de casa em casa, de coração a coração, de pessoa a pessoa, de crente para crente. É a vós, queridos leigos, que compete levar o fermento do Evangelho à família, ao grupo social, ao meio profissional (AG 21). Está nas vossas mãos «transformar» o estilo pastoral da missão, como da água para o vinho, deixando transbordar do coração, em todos e por toda a parte, a alegria do Evangelho!

5. “Vinho novo, em odres novos” (Mt. 9,17)! Novo tempo, novo anúncio, nova missão! Aprendamos de Maria, em Caná, a envolver a todos, na diversidade de pessoas, dons, ministérios, serviços e carismas! Tornemo-nos pessoas envolvidas e envolventes, para a alegria e o bem de todos. Este é o método fundamental da missão! Que nos guie e nos ajude Maria, nesta Hora. Seja Ela, a estrela da nova evangelização! Seja Ela, a Nossa Senhora de todos os dias, a abrir caminhos de alegria, num ano inteiro de missão!

 

 

1. Seiscentos litros de vinho novo e saboroso, é qualquer coisa de extraordinário. Uma incompreensível abundância. Tal é o excesso da dádiva, que ela se constitui como o “sinal” que provoca o milagre da fé dos discípulos. Na verdade esta abundância, esta “extravagância” é o grande “sinal” de Deus na Sua Criação: Ele esbanja, Ele cria todo o universo, para dar espaço ao Homem. Ele dá-nos a vida, a vida numa incrível abundância! E, então, quando se trata de nos salvar, Deus não tem mãos a medir, não tem meias-medidas, “esbanja-se”, faz se homem, desfaz-se de tudo e até da sua condição divina, dá a própria vida. Para Deus, isso tudo… parece que ainda sabe a pouco, para manifestar quanto Ele nos ama! Esta abundância do vinho é aqui o sinal daquele Amor, que não se põe a contar e a pesar, daquele amor que não mede, nem enumera: um amor, que não reserva para si, que simplesmente Se dá. Nesta abundância desmedida, Jesus permite-nos intuir a magnificência, a grandeza e a inesgotável bondade de Deus, fonte de amor e de alegria!

2. Trata-se, ainda assim, da abundância de vinho. O vinho é o símbolo da superabundância, da qual também temos necessidade. O vinho é o sinal da alegria, da transfiguração da criação. Tira-nos da tristeza e do cansaço do dia a dia, e faz do “estarmos juntos” uma festa. Alarga os sentidos e a alma, solta a língua e abre o coração; e transpõe as barreiras que limitam a nossa existência. Não por acaso, na Tradição da Igreja, o vinho se tornou símbolo da abundância dos dons do Espírito Santo, de que nos falava hoje São Paulo. O milagre do vinho ajuda-nos assim a compreender o que significa receber na fé, o Espírito Santo: uma nova grandeza de coração, uma nova abundância de vida, cheia de alegria e de amor de Deus.

3. Mas dêmos mais um passo: no Evangelho, o vinho está ligado à festa das núpcias. O vinho indica também a grandeza daquilo que acontece no matrimônio: duas pessoas tornam-se uma só, graças ao amor, nelas derramado pelo Criador. Este amor faz do Homem e Mulher, uma só carne. é o Amor que faz o casal. Não é o casal que faz o Amor. É este amor divino que os forma e transforma o seu amor.

4. Há, portanto, uma necessária transformação no amor, sugerida na transformação da água em vinho. Também o amor humano precisa de ser tomado, elevado e transformado, pela graça do Amor de Deus. Todo o amor verdadeiro, se encaminha e se eleva, para a Hora da Cruz, para o dom supremo, como o de Jesus, o Esposo, que nos amou "até ao fim" (Jo. 13,1). Trata-se aí do último e mais alto grau do amor: Pois ninguém tem maior amor do que Aquele que dá a Vida! Como o vinho que inebria, o amor coloca a pessoa em «êxtase»: mas “não no sentido de um instante de inebriamento, mas como saída permanente do coração fechado em si, para a sua libertação, no dom total e definitivo de si mesmo” (DCE 6).

5. «Deus é Amor», constitui o lema do nosso ano pastoral. Seja então este tempo comum, o tempo útil para descobrir e aprofundar o Amor de Deus, derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado. Conheçamos este amor no diálogo com a Palavra e na intimidade da oração. Celebremos a beleza deste amor na eucaristia; vivamos, no concreto, este amor, na prática da caridade. Se chegarmos à descoberta e à experiência deste Amor, então saberemos bem o que é a Vida em abundância, e o que é a alegria de Deus, na nossa vida. Esta é a grande alegria que hoje vos anuncio: Jesus está presente, somos amados por Ele “até mais não” e até ao fim... E isto sim, está estabelecido de uma vez para sempre!

 

 

1. Um casamento em Caná da Galileia. Depois da Estrela de Belém e das águas do Jordão, as bodas de Caná eram, de fato, o cenário ideal, para uma manifestação de amor. Jesus não perde a oportunidade. E, na falta do melhor, - «a certa altura faltou o vinho» -, Ele transforma em alegria a festa que prometia acabar em desolação e tristeza. Para isso só precisava de seis velhas talhas de pedra, dos tempos antigos, cheias de água até cima. Para romper com a pedra pesada do passado e fazer irromper os tempos novos da alegria e da comunhão. Dos homens com Deus e dos Homens entre si.

2. Jesus converte, pois, água em vinho. Que ainda por cima, é bom... e vem quando menos se esperava. Inverte assim a lógica das nossas expectativas e subverte a ordem comum das coisas habituais. Sem Ele, nada feito. E com Ele, nada será como dantes. Ele está primeiro e transforma tudo à sua volta. O que era velho... vai por água a baixo... E chegam os tempos novos há muito prometidos. Chegam por sua iniciativa e pelas suas mãos. Aos noivos e aos convidados, aos discípulos e a sua Mãe, Jesus torna clara a consciência de que dependem, em absoluto, dEle e da sua Hora. «Sem Mim, nada podeis fazer» (Jo. 15,5), disse Ele um dia.

3. Percebemos, pois, que não há «vinho novo» e «vida nova», sem Deus, bem próximo e bem ‘casado’ com a nossa vida. Não há nova evangelização, nem novo milênio da era cristã, sem que Ele esteja primeiro. Sem que a sua graça vá adiante do nosso muito saber e tudo poder. «Há uma tentação que sempre vicia qualquer caminho espiritual e também a ação pastoral: pensar que os resultados dependem da nossa capacidade de agir e programar. É certo que Deus nos pede uma real colaboração com a sua graça, convidando-nos por conseguinte a investir, no serviço pela causa do Reino, todos os nossos recursos de inteligência e de acção; mas ai de nós, se esquecermos que, «sem Cristo, nada podemos fazer»” (N.M.I. 38). Ai dos serventes, nas bodas de Caná, se não fizessem a sua parte e o que Ele dissesse... ou se julgassem poder fazer alguma coisa sem Ele.

4. Por isso, entre as prioridades pastorais da nova evangelização, no novo milênio, João Paulo II refere a Oração (N.M.I. 32;38). A Oração permite-nos viver nesta verdade, de que dependemos em absoluto de Cristo, que está primeiro e, consequentemente, tudo o resto depende da nossa vida interior e da nossa santidade. «Quando tal não acontece, - diz o Papa - não há que admirar-se se os projetos pastorais se destinam ao fracasso e deixam na alma um deprimente sentido de frustração» (Ibidem, 38). João Paulo refere depois outras prioridades: a Eucaristia Dominical (NMI 35-36), para nos fortalecer, no ardor da missão e a Reconciliação (N.M.I. 37), para refazer os laços da nossa comunhão. Entre nós e com Ele.

5. No início do novo milênio, o Santo Padre, vem-nos assim  recordar que Cristo, o Esposo, está conosco. E que o programa pastoral da Igreja «é novo, já existe e é o mesmo de sempre. É Cristo, que temos de conhecer, amar, imitar, para nEle viver e com Ele transformar a história» (N.M.I. 29). Vamos refletir e aplicar este programa, ao longo dos próximos tempos. Para que as águas inquinadas das nossas vidas habituadas e cansadas...  se convertam em vinho novo de alegria, de  almas e comunidades sempre renovadas.  Maria, “Estrela da nova evangelização”, Mulher e Senhora da Hora dos começos de seu Filho, nas bodas de Caná, nos apareça, agora e sempre, como «aurora luminosa e guia segura do nosso caminho, para Cristo» (N.M.I.58).

 

 

Maria dirige ao seu Filho um pedido em favor dos amigos que se encontram em dificuldade. À primeira vista, isto pode parecer um diálogo totalmente humano entre a Mãe e o Filho e, efetivamente, é um diálogo repleto de profunda humanidade.

Todavia, Maria dirige-se a Jesus não simplesmente como a um homem, contando com a sua fantasia e a sua disponibilidade em socorrer. Ela confia uma necessidade humana ao seu poder a um poder que vai para além da habilidade e da capacidade humanas. E assim, no diálogo com Jesus, vemo-la realmente como Mãe que suplica, que intercede.

Vale a pena mergulhar um pouco mais profundamente na escuta deste trecho evangélico: para compreender melhor Jesus e Maria, mas precisamente para aprender também de Maria a rezar da maneira justa. Maria não dirige um verdadeiro pedido a Jesus, mas diz-lhe somente: "Não têm vinho" (Jo. 2,3).

Na Terra Santa, as bodas festejavam-se durante uma semana inteira; nelas participava todo o povoado, e portanto consumiam-se grandes quantidades de vinho. Agora os esposos encontram-se em dificuldade, e Maria simplesmente refere tal fato a Jesus. Não lhe pede algo específico, e ainda menos que Jesus exerça o seu poder, realize um milagre, produza vinho. Simplesmente confia a situação a Jesus, deixando-lhe a decisão sobre como agir.

Assim, nas palavras simples da Mãe de Jesus identificamos dois elementos:

Por um lado, a sua solicitude carinhosa pelos homens, a atenção materna com que sente a dificuldade do próximo; vemos a sua bondade cordial e a sua disponibilidade a ajudar. Confiamos-lhes as nossas preocupações, as necessidades e as situações de dificuldade. É aqui na Sagrada Escritura que vemos pela primeira vez a bondade da Mãe pronta a ajudar, em quem temos confiança.

Por outro lado, Maria remete tudo ao juízo do Senhor. Em Nazaré, entregou a sua vontade, infundindo-a na vontade de Deus: "Eis a serva do Senhor, faça-me em mim segundo a tua palavra" (Lc. 1,38). Esta é a sua atitude fundamental permanente.

É assim que Ela nos ensina a rezar: não desejar afirmar diante de Deus a nossa vontade e os nossos desejos, por mais importantes que sejam, por mais razoáveis que nos possam parecer, mas levá-los até à sua presença e deixar que Ele decida o que tenciona fazer. De Maria aprendemos a bondade pronta a ajudar, mas também a humildade e a generosidade de aceitar a vontade de Deus, dando-lhe confiança na convicção de que a sua resposta, qualquer que ela venha a ser, será o nosso, o meu verdadeiro bem.

Mas agrada-nos ainda menos aquilo que em seguida, em Caná, Jesus diz a Maria: "Mulher, que tem isso a ver contigo e comigo? Ainda não chegou a minha hora" (Jo 2, 4). Gostaríamos de objetar: tens muito a ver com Ela! Foi Ela quem te deu a carne, o sangue o teu corpo. E não apenas o teu corpo: com o "sim", que brotou das profundidades do seu coração, carregou-te no seu seio e, com amor materno, introduziu-te na vida e ambientou-te no seio da comunidade do povo de Israel. Mas se falamos assim com Jesus, já estamos no bom caminho para compreender a sua resposta. Pois tudo isto deve evocar na nossa memória o fato de que por ocasião da Encarnação de Jesus existem dois diálogos que caminham juntos e se fundamentam um ao outro, tornando-se um só. Em primeiro lugar, há o diálogo que Maria mantém com o Arcanjo Gabriel, no qual Ela diz: "Faça-me em mim segundo a tua palavra" (Lc. 1,38).

Aquilo que mais profundamente têm a ver um com o outro é este dúplice "sim", em cuja coincidência teve lugar a Encarnação. É este ponto da sua profundíssima unidade que o Senhor tem em vista com a sua resposta. É precisamente para ali que remete a sua Mãe. É ali, neste "sim" conjunto à vontade do Pai, que se encontra a solução. Também nós devemos aprender sempre de novo a caminhar rumo a este ponto; é ali que sobressai a resposta às nossas interrogações.

A partir dali, compreendemos agora também a segunda frase da resposta de Jesus: "Ainda não chegou a minha hora". Jesus jamais age exclusivamente sozinho; nunca para agradar os outros. Ele age sempre a partir do Pai, e é precisamente isto que O une a Maria, porque foi ali, nesta unidade de vontade com o Pai, que Ela quis inserir também o seu pedido. Por isso, depois da resposta de Jesus, que parece rejeitar o pedido, surpreendentemente e com simplicidade Ela pode dizer aos servos: "Fazei tudo o que Ele vos disser" (Jo 2,5). Jesus não realiza um prodígio, não brinca com o seu poder numa situação que, em última análise, é totalmente particular. Não, Ele realiza um sinal, mediante o qual anuncia a sua hora, a hora das bodas, a hora da união entre Deus e o homem.

Ele não "produz" simplesmente vinho, mas transforma as bodas humanas numa imagem das núpcias divinas, para as quais o Pai convida através do Filho e nas quais Ele confere a plenitude do bem, representada pela abundância do vinho. As bodas tornam-se imagem daquele momento, em que Jesus leva o seu amor até ao extremo, deixa que o seu corpo seja dilacerado e assim se entrega a Si mesmo a nós para sempre, tornando-se um só conosco união entre Deus e o homem. A hora da Cruz, a hora da qual brota o Sacramento, em que Ele se entrega realmente a nós em carne e sangue, deposita o seu Corpo nas nossas mãos e no nosso coração: esta é a hora das núpcias.

Assim, também a necessidade do momento é resolvida de modo verdadeiramente divino, e o pedido inicial é ultrapassado amplamente. A hora de Jesus ainda não chegou, mas no sinal da transformação da água em vinho, no sinal do dom festivo, Ele antecipa a sua hora já no momento presente.

Santa Mãe de Deus, rogai por nós, como em Caná rogastes pelos esposos! Guiai-nos sempre de novo rumo a Jesus.

 
 

Convidaram a Jesus às bodas

O Evangelho do II domingo do tempo comum é o episódio das bodas de Caná. O que Jesus quis nos dizer ao aceitar participar de uma festa nupcial? Sobretudo, desta maneira honrou, de fato, o casamento entre o homem e a mulher, afirmando, implicitamente, que é algo belo, querido pelo Criador e por Ele abençoado. Mas quis ensinar-nos também outra coisa. Com sua vinda, se realizava no mundo esse noivado místico entre Deus e a humanidade que havia sido prometido através dos profetas, sob o nome de «nova e eterna aliança». Em Caná, símbolo e realidade se encontram: as bodas humanas de dois jovens são a ocasião para falar-nos de outro noivado, aquele entre Cristo e a Igreja, que se cumprirá em «sua hora», na cruz. Se desejarmos descobrir como deveriam ser, segundo a Bíblia, as relações entre o homem e a mulher no matrimônio, devemos olhar como são entre Cristo e a Igreja. Tentemos fazê-lo, seguindo o pensamento de São Paulo sobre o tema, como está expressado em Efésios 5, 25-33. Na origem e centro de todo matrimônio, seguindo esta perspectiva, deve estar o amor: «Maridos, amai vossas mulheres como Cristo amou a Igreja e se entregou por ela». Esta afirmação — que o matrimônio se funda no amor - parece hoje ser algo óbvio. No entanto, só há pouco mais de um século se chegou o reconhecimento disso, e ainda não em todas os lugares. Durante séculos e milênios, o matrimônio era uma transação entre famílias, um modo de promover a conservação do patrimônio ou a mão de obra para o trabalho dos chefes, ou uma obrigação social. Os pais e as famílias eram os protagonistas, não os esposos, que freqüentemente se conheciam só no dia do casamento. Jesus, continua dizendo Paulo no texto dos Efésios, se entregou «a fim de apresentar a si mesmo sua Igreja resplandecente, sem que tenha mancha nem ruga nem coisa parecida». É possível, para um marido humano, imitar, também neste aspecto, o esposo Cristo? Pode tirar as rugas de sua própria esposa? Claro que pode! Há rugas produzidas pelo desamor, por terem sido deixados na solidão. Quem se sente ainda importante para o cônjuge não tem rugas, ou se as tem, são rugas diferentes, que acrescentam, mas diminuem a beleza. E as esposas, o que podem aprender de seu modelo, que é a Igreja? A Igreja se embeleza unicamente para seu esposo, não por agradar os outros. Está orgulhosa e é entusiasta de seu esposo Cristo e não se cansa de fazer-lhe louvores. Traduzido ao plano humano, isso recorda às noivas e às esposas que sua estima e admiração é algo importantíssimo para o noivo ou o marido. Às vezes, para eles é o que mais conta no mundo. Seria grave que lhes faltasse receber jamais uma palavra de elogio por seu trabalho, por sua capacidade organizativa, por seu valor, pela dedicação à família; pelo que diz, se é um homem político; pelo que escreve, se é um escritor; pelo que cria, se é um artista. O amor se alimenta de estima e morre sem ela. Mas existe uma coisa que o modelo divino recorda sobretudo aos esposos: a fidelidade. Deus é fiel, sempre, apesar de tudo. Hoje, esse assunto da fidelidade se converteu em um discurso escabroso que ninguém se atreve a fazer. Contudo, o fator principal da ruptura de muitos casamentos está precisamente aqui, na infidelidade. Há quem o nega, dizendo que o adultério é o efeito, não a causa, das crises matrimoniais. A traição acontece, em outras palavras, porque já não existe nada com o próprio cônjuge. Às vezes isso será inclusive certo; mas muito freqüentemente se trata de um círculo vicioso. Trai-se porque o matrimônio está morto, mas o matrimônio está morto precisamente porque se começou a trair, talvez em um primeiro momento só com o coração. O pior é que com freqüência, quem trai faz recair no outro a culpa de tudo e se coloca no papel de vítima. Mas voltemos ao episódio do Evangelho, porque contém uma esperança para todos os matrimônios humanos, até os melhores. Sucede em todo matrimônio o que ocorreu nas bodas de Caná. Começa no entusiasmo e na alegria (disso o vinho é símbolo); mas este entusiasmo inicial, como o vinho em Caná, com o passar do tempo se consome e chega a faltar. Então se fazem as coisas já não por amor e com alegria, mas por costume. Cai sobre a família, se não se presta atenção, como uma nuvem de monotonia e de tédio. Também destes esposos se deve dizer: «Eles não têm mais vinho!». O relato do Evangelho indica aos cônjuges um caminho para não cair nesta situação ou sair dela se já se está dentro: convidar Jesus para o próprio casamento! Se Ele está presente, sempre se pode pedir que repita o milagre de Caná: transformar a água em vinho. A água do costume, da rotina, da frieza, no vinho de um amor e de uma alegria melhor que a inicial, como era o vinho multiplicado em Caná. «Convidar Jesus para o próprio casamento» significa honrar o Evangelho na própria casa, orar juntos, aproximar-se dos sacramentos, tomar parte na vida da Igreja. Nem sempre os dois cônjuges estão, em sentido religioso, na mesma linha. Talvez um dos dois é crente e o outro não, ou ao menos não com mesma forma. Neste caso, que convide Jesus às bodas aquele dos dois que o conheça, e o faça de maneira - com sua gentileza, o respeito pelo outro, o amor e a coerência de vida - que se converta logo no amigo de ambos. Um «amigo da família»!

Evangelho segundo São João 2, 1-11

Ao terceiro dia, celebrava-se uma boda em Caná da Galileia e a mãe de Jesus estava lá. Jesus e os seus discípulos também foram convidados para a boda. Como viesse a faltar o vinho, a mãe de Jesus disse-lhe: «Não têm vinho!» Jesus respondeu-lhe: «Mulher, que tem isso a ver contigo e comigo? Ainda não chegou a minha hora.» Sua mãe disse aos serventes: «Fazei o que Ele vos disser!» Ora, havia ali seis vasilhas de pedra preparadas para os ritos de purificação dos judeus, com capacidade de duas ou três medidas cada uma. Disse-lhes Jesus: «Enchei as vasilhas de água.» Eles encheram-nas até cima. Então ordenou-lhes: «Tirai agora e levai ao chefe de mesa.» E eles assim fizeram. O chefe de mesa provou a água transformada em vinho, sem saber de onde era se bem que o soubessem os serventes que tinham tirado a água; chamou o noivo e disse-lhe: «Toda a gente serve primeiro o vinho melhor e, depois de terem bebido bem, é que serve o pior. Tu, porém, guardaste o melhor vinho até agora!» Assim, em Caná da Galileia, Jesus realizou o primeiro dos seus sinais miraculosos, com o qual manifestou a sua glória, e os discípulos creram nele.

Celebramos hoje o segundo domingo do tempo comum. O evangelho é do quarto Evangelista João e nos apresenta o famoso episódio das Bodas de Caná. Como foi diversa a reação dos primeiros leitores deste texto e nós que o lemos na Tradição da Igreja dois mil anos depois. Na verdade a nossa tentação é buscar reconstruir com precisão o que realmente pode ter acontecido num vilarejo desconhecido chamado Caná, na baixa Galiléia, e não é esta a mensagem que o Evangelista nos quis transmitir, pelo contrário, ele foi mais profundo, ele estava acostumado com o Antigo Testamento. Quando inesperado, surpreendentemente, surgiu, no cenário da história, Jesus. Como Jesus modificou a história! Até então, o Antigo Testamento todo inteiro era simbolizado na água das continuadas purificações dos Judeus. Inexplicavelmente, na plenitude dos tempos ao enviar Deus Seu Filho à terra, trouxe para nós uma grande festividade. Esta festa constante que durante toda a vida celebramos com o Filho de Deus, Jesus Cristo no meio de nós, vem aqui simbolizada pelo vinho, generoso, gostoso, vinho de qualidade excelente que chegou depois de um longo período de água ou de Antigo Testamento. A única pergunta que faço é esta: Jesus representa para você uma festa? Jesus representa para você um marco na sua história e na sua vida? Jesus modificou o andamento da sua própria existência? Jesus trouxe verdadeiramente alegria para o seu coração e terá trazido também alegria para o coração de sua comunidade, como trouxe alegria para aqueles convivas naquela festa de casamento? Você tem a experiência, ou faz a experiência diária da presença alegre, profunda, satisfatória de Jesus em sua existência? Existência que preenche e supera todos os seus desejos. Jesus realmente é isto para você? Se a resposta for afirmativa, você compreendeu o texto de Caná da Galiléia e você o vive no íntimo do seu coração, porque aquilo que lá se deu continua a se passar com você.

mons. Inácio José Schuster

 

 

«Tu, porém, guardaste o melhor vinho até agora!»

Hino n°18, As Bodas de Caná (a partir da trad. de SC 110, pp. 307ss. rev.)

Enquanto Cristo participava na boda e a multidão dos convivas festejava, faltou-lhes o vinho e a alegria transformou-se em decepção. [...] Vendo isso, a puríssima Maria vem imediatamente dizer ao Filho: «Já não têm mais vinho. Por isso, peço-Te, Meu Filho, mostra que podes tudo, Tu que tudo criaste com sabedoria». Por favor, Virgem venerável, na sequência de que milagres soubeste Tu que o Teu Filho, sem ter vindimado a uva, podia conceder o vinho, se Ele não tinha anteriormente feito milagres? Ensina-nos [...] como disseste a Teu Filho: «Dá-lhes vinho, Tu que tudo criaste com sabedoria». «Eu mesma vi Isabel chamar-me Mãe de Deus antes do parto: depois do parto, Simeão cantou-me e Ana celebrou-me; os magos acorreram ao presépio vindos da Pérsia porque uma estrela anunciava antecipadamente o nascimento; os pastores, com os anjos, faziam-se arautos da alegria e a criação rejubilava com eles. Poderia eu ir procurar maiores milagres do que estes para crer, com base na fé deles, que o meu Filho é Aquele que tudo criou com sabedoria?» [...] Quando Cristo, pelo Seu poder, mudou manifestamente a água em vinho, toda a multidão rejubilou, achando admirável o seu sabor. Hoje, é no banquete da Igreja que todos nós tomamos lugar, porque o vinho é transformado em sangue de Cristo e nós bebemo-lo todos com uma alegria santa, glorificando o grande Esposo. Porque o Esposo verdadeiro e filho de Maria, o Verbo que é deste toda a eternidade, tomou a forma dum escravo e tudo criou com sabedoria. Altíssimo, Santo, Salvador de todos, visto que a tudo presides, guarda sem alteração o vinho que está em nós. Expulsa de nós toda a perversidade, todos os maus pensamentos que tornam aguado o Teu vinho santíssimo. [...] Pelas orações da Santa Virgem Mãe de Deus, liberta-nos da angústia dos pecados que nos oprimem, Deus misericordioso, Tu que tudo criaste com sabedoria.

são Romano, o Melodista

 

 

Fazei tudo o que Ele vos disser

Queridos irmãos e irmãs nós estamos ainda vivendo o mistério do Natal e hoje vemos na liturgia o primeiro milagre de Jesus que Ele faz em um casamento e o Evangelho termina dizendo que Ele manifestou a sua glória e todos creram N’Ele. A Palavra que ouvimos foi Palavra de Salvação e nós nos aproximaremos da eucaristia que é a fonte de onde bebemos tudo para nossa vida cristã, que hoje aconteça esta manifestação da presença de Deus. O profeta Isaías faz uma grande declaração de amor de Deus pelo seu povo, em um tempo em que muitos se sentem desprezados e o Senhor vem dizer que não precisamos mais nos sentir como um povo abandonado. E como precisamos ouvir de Deus isso em um tempo tão difícil em que nesta semana vimos tudo aquilo que aconteceu no Haiti. Deus seja louvado por toda a solidariedade que acontece em meio a tudo isso. Deus está presente onde nós somos capazes de transformar a dor em amor, muitas vezes nós enxergamos somente um quadro na nossa vida, mas Deus quer nos fazer compreender que sua presença é como um fio de ouro que nos leva a uma história de Salvação. Façamos hoje uma profissão de fé neste amor misericordioso de Deus. Talvez alguém pense que o milagre das bodas de Caná fosse inútil porque o Senhor deu bebida àqueles que estavam lá, mas pensemos no gesto de Jesus como um sinal desta união de Deus com a humanidade, neste amor de Deus que desce a terra e vai ao encontro dos homens em auxilio de todas as suas necessidades. Maria também aparece como aquela que pede o auxilio de Deus para nós, pois quantas vezes nossa humanidade perdeu o sabor e Deus sempre tem algo melhor a nós oferecer. Faz-se necessário também a nossa participação para que aconteça, faça-se esta hora de Jesus em nossas vidas. Maria fez uma experiência de fé nesta hora de Deus. Mas qual é a nossa participação? A receita do milagre de Jesus hoje é esta: “Fazei tudo o que Ele vos disser”. Como entender este mundo, os desastres da vida? Fazei tudo o que Ele vos disser! Quem vive a Palavra de Jesus entende o sentido da vida, das coisas boas ou das tristezas. Quando fazemos tudo o que Ele diz, a vida vai ganhar gosto, sentido, valor e você encontrará a estrada da alegria. Para acontecer o milagre do Evangelho de hoje haviam alguns servos, alguns que encheram as talhas de água, na Igreja existem muitos ministérios e a manifestação de Deus acontece assim também, quando usamos os dons que Deus nos deu. Todos tem o seu lugar e ninguém é obrigado a ficar de fora. Hoje nossos seminaristas recebem o Ministérios Sagrados, e eles servirão à Palavra, o Altar, para viverem no seu lugar, a suas vocações no coração da Igreja. Encham as talhas com a água que estiver a disposição de vocês e façam tudo o que Jesus lhes disser e serão felizes. Que Deus vos conceda esta graça de serem fiéis nesta caminhada. Quantas coisas aconteceram na vida de vocês e hoje tudo isso vem a tona e louvo a Deus por vocês estarem aqui hoje. Façam tudo o que eles vos disser!

 

Depois da festa do Batismo do Senhor, tem início o Tempo Comum. Estamos no 2º Domingo do Tempo Comum. Apesar do ciclo C ser o do Evangelista Lucas, neste domingo ainda não o iremos ler, porque neste início do ciclo do tempo comum ainda ressoa a epifania dos últimos domingos e em cada ciclo lê-se alguns extratos do início do evangelho de João. Insiste-se na idéia de que todo o evangelho é a manifestação de Deus aos homens e que terá de ser lido neste contexto. Como segunda leitura que, como sabemos, segue uma ordem independente, antes de chegarmos à Quaresma leremos extratos da segunda parte da 1ª Carta de São Paulo aos Coríntios. O Espírito, a Igreja, a Caridade, a Ressurreição … serão os temas que irão ser apresentados. Nas nossas celebrações, seria bom notar-se que não estamos num tempo litúrgico forte, mas é necessário “visibilizar” muito bem que o que nos reúne em cada domingo é a ressurreição do Senhor que nos dá uma vida nova. “Foi assim que, em Caná da Galileia, Jesus deu início aos seus milagres. Manifestou a sua glória e os discípulos acreditaram n’Ele”. Assim termina o evangelho deste domingo. Estamos na primeira manifestação da glória de Deus em Jesus para despertar a fé dos discípulos. No relato deste domingo, teremos todos os elementos simbólicos que darão significado a tudo o irá acontecer na sua vida. Vejamos alguns desses simbolismos. A imagem do casamento era uma das prediletas dos profetas. A primeira leitura de Isaías destaca-a: “tal como o jovem desposa uma virgem, o teu Construtor te desposará; e como a esposa é a alegria do marido, tu serás a alegria do teu Deus”. A Sagrada Escritura tem como início o “casamento” no paraíso terrestre e encaminha-se para as bodas definitivas entre Deus e o seu povo. Neste contexto simbólico, cheio de ecos da História da Salvação, há que inserir a presença de Jesus nas bodas de Caná e também o fato do vinho se ter acabado. A História da Salvação está a chegar a Jesus, ou seja, ao fim e ao seu cume. Com Jesus, atinge a sua plenitude. Só fica um pequeno resto, do qual Maria é uma imagem insigne que apesar de tudo acredita e confia plenamente na ação salvadora de Deus: “Fazei tudo o que Ele vos disser”, porque Deus nunca abandona o povo que tanto ama. Com elementos simbólicos, como bem se explica a passagem ao Reino que Jesus traz! A água da purificação antiga, com a ação de Jesus, converte-se em vinho para o banquete messiânico. É o melhor vinho, vindo não só da colheita humana, mas também da ação de Deus; por isso, o chefe de mesa não sabe de onde ele vem. Assim, para os convidados ao banquete do Reino a água salvadora do batismo faz com que a vida humana destile o vinho da vida nova. Que belo é o vínculo entre o batismo e o seu fruto vital que só é possível a partir da mesa eucarística! A “hora” ainda não chegou, diz Jesus à sua Mãe, porque só será definitiva na Páscoa. Na vida e na história, a celebração eucarística da Páscoa do Senhor é a hora, onde se antecipa e se prova a salvação definitiva, como em Caná. São Paulo reforça a idéia de que o Espírito de Deus, que torna possível esta ação maravilhosa de Deus e que cria a comunidade eclesial continuamente convidada às bodas messiânicas, é um só, mesmo que se manifeste numa grande e diversa multiplicidade de dons distribuídos “a cada um conforme Lhe agrada”. Esta é a grande riqueza da Igreja e das nossas comunidades: o desafio a fazer a todos é colocar os dons ao serviço da comunidade, pondo-os a render. Que o Espírito nos leve a escutar a Palavra de Deus. Que Maria continuamente interceda por nós diante do Seu Filho. Em cada Eucaristia, colocamo-nos diante do melhor vinho que Deus nos oferece para que o provemos e, assim, vejamos, como o Senhor é bom. É o Espírito de Deus que sempre nos convida.

 

SEGUNDO DOMINGO DO TEMPO COMUM

Jo. 2,1-12 “Façam tudo o que ele lhes disser”

A primeira parte do Quarto Evangelho é comumente chamada “O Livro dos Sinais”, pois o evangelista relata uma série de sete sinais que, passo por passo, revelam quem é Jesus, e qual é a sua missão. Embora algumas bíblias traduzem o termo grego que João usa por “milagre”, a tradução mais acertada é “Sinal”. O primeiro desses sinais aconteceu no contexto das bodas de Caná, o evangelho de hoje. Como todo o Evangelho de João, o relato está carregado de simbolismo, onde pessoas, números e eventos funcionam simbolicamente, para nos levar além da aparência das coisas, numa caminhada de descoberta sobre a pessoa de Jesus. Um dos temas centrais do quarto evangelho é o da “hora” de Jesus. A “hora” não se refere à cronometria, mas a hora de glorificação de Jesus, por sua morte e ressurreição. Em resposta ao pedido feito por Maria (João nunca se refere a ela pelo nome, mas pelo título “mulher”), usando de uma maneira até estranha este termo para a sua mãe, João quer indicar que Jesus rejeita uma esfera meramente humana de ação para Maria, para reservar para ela um papel muito mais rico, ou seja, o da mãe dos seus discípulos. Maria somente vai aparecer mais uma vez neste evangelho – a pé da cruz, onde ela e o Discípulo Amado assumem um relacionamento de Filho e Mãe. Devemos lembrar que o Discípulo Amado simboliza a comunidade dos discípulos do Senhor, ou seja, nós hoje. Apesar da nossa tradição piedosa mariana, é importante não reduzir a ação da Maria no texto à de uma incomparável intercessora. Embora seja comum esta interpretação na devoção popular, não se sustenta do ponto de vista exegético. É melhor ver Maria aqui como discípula exemplar, pois embora a resposta de Jesus indique um distanciamento entre a sua expectativa e a visão d’Ele, ela continua com confiança n’Ele e leva outros a acreditar n’Ele. O simbolismo da água tornada vinho é também importante. Não era qualquer água – era a água da purificação dos judeus. Com esta história, João quer mostrar que doravante os ritos judaicos de purificação estão superados, pois a verdadeira purificação vem através de Jesus. Podemos entender isso como a mudança de uma prática religiosa baseada no medo do pecado, uma prática que excluía muita gente, para uma nova relação entre Deus e a humanidade, a partir de Jesus. Assim, em Cana, Jesus começa a substituir as práticas do judaísmo do Templo, que vai continuar ao longo do Evangelho de João. A quantia do vinho chama a atenção – 600 litros! O vinho em abundância era símbolo dos tempos messiânicos, e, na tradição rabínica, a chegada do Messias seria marcada por uma colheita abundante de uvas. Assim João quer dizer que a expectativa messiânica se realiza em Jesus. As talhas transbordantes simbolizam a graça abundante que Jesus traz. A figura do mestre-sala é também simbólica, bem como os serventes. Aquele, que devia saber a origem do vinho da festa, não sabia, enquanto estes sim. Assim, o mestre-sala representa os chefes do Templo que não sabiam a origem de Jesus enquanto os servos representam os discípulos que acreditaram n’Ele. Fazendo comparação entre o vinho antigo e o novo, João quer reconhecer que a Antiga Aliança era boa, mas a Nova a superou. Os ritos e práticas judaicos, ligados à purificação e ao sacrifício, não têm mais sentido, pois uma nova era de relacionamento entre a humanidade e Deus começou em Jesus. O ponto culminante do relato está em v. 11: “Foi em Caná que Jesus começou os seus sinais, e os seus discípulos acreditaram n’Ele”. A fé deles não é intelectual ou teórica, mas o seguimento concreto do Mestre, na formação de novos relacionamentos de amor. Passo por passo, o autor vai revelando Jesus através de sinais para que nós, os leitores, possamos “acreditar que Jesus é o Messias, o Filho de Deus. E para que, acreditando, tenhamos a vida em seu nome” (Jo. 20,31).

Dom Alberto Taveira Corrêa

 
 

“Para a misericórdia não há hora e nem limites”

O evangelista João descreve o início da vida pública de Jesus, numa festa familiar. Estava ele, sua mãe e seus discípulos no pequeno povoado de Caná da Galileia, para as celebrações de um casamento (cf. Jo 2,1-11), cujos festejos, na cultura judaica, duravam oito dias. De repente, falta vinho. Isto significava o fim da festa, a interrupção das alegrias, a decepção dos convidados e o constrangimento da família dos nubentes.

É Maria, com o coração de mãe solícita, que se dirige ao seu Filho Jesus e propõe a questão. É interessante a resposta de Cristo: “minha hora ainda não chegou”. Que hora seria esta? A de iniciar seus milagres? A de revelar-se como Messias? Alguns exegetas costumam referir-se à hora da Redenção, quando Jesus vai dizer ao Pai na Oração Sacerdotal, rezada na noite anterior à prisão: “minha hora chegou” (Jo 17,1). Certo é que Maria diz aos que estavam servindo: “Fazei tudo o que ele vos disser”. Seis grandes talhas de água são trazidas e o Senhor faz seu primeiro milagre, transformando a água em bom vinho. Eram cerca de 500 litros de vinho que foram suficientes para que a festa continuasse, a alegria perdurasse, o acanhamento tivesse fim. Vê-se que a conversão da água em vinho não foi a única transformação realizada naquele dia.

O fato narrado pela literatura joanina, sempre cheia de significado teológico, tem profundo sentido para o Ano da Misericórdia que estamos vivenciando aos acenos do papa Francisco. O primeiro gesto de misericórdia vem por parte de Maria, a quem a Igreja tem cognominado, há centenas de anos, de Mãe da Misericórdia. Contemplando agora as palavras do Papa que afirma que a misericórdia tem um rosto e que este rosto é Cristo, tal título mariano mais se justifica. O mesmo pode-se dizer, diante do primeiro livro de sua autoria, “O Nome de Deus é Misericórdia”.

À expressão “Ainda não chegou minha hora”, dita pelo Senhor a Maria, é legitimo entrever a atenção de Jesus em atender o pedido de sua mãe misericordiosa, adiantando, de alguma forma, sua hora. Ainda que se possa entender esta expressão no sentido teológico da hora da paixão salvadora, como acima mencionado, certo é que Jesus faz o que lhe pede a Mãe, resultando no primeiro milagre. Assim se realiza de forma maravilhosa o que era esperado confiantemente por ela, aguardado pelos discípulos, pelos serventes, pela família em apuros e pelos convidados. Para se fazer misericórdia não há hora.  A misericórdia não espera. Não se marca o momento para se praticar o bem. E a misericórdia se tornou em vinho de ótimo sabor. A alegria tem novo sentido, quando a misericórdia está presente. A crise vai embora, ao movimento dos gestos misericordiosos.

Neste sentido, vê-se no texto de João que a hora de Jesus e a hora de hora de Maria coincidem. Dirigir-se a ela com o termo ‘Mulher’, não é de forma alguma uma atitude desprezível, mas afirmação explícita a respeito da realização plena e definitiva da palavra misericordiosa de Deus presente no livro do Gêneses, quando promete o Salvador aos primeiros pais. Não o fez Deus sem se referir à mulher. Ao amaldiçoar a serpente, assevera: “porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a dela” (Gn. 2,15).  É uma referência inequívoca à mãe do Redentor, contrapondo Eva culpada pelo pecado, maculada pela ofensa, marcada pela infidelidade, termos estes que traduzem o contrário de qualquer imitação da misericórdia divina, e Maria concebida sem pecado, imaculada pela graça, santa pela amorosa resposta de vida, fiel em todos os momentos, disposta a cumprir sem limites a vontade do Pai, marcada pelo altruísmo, nunca pelo egoísmo, expressões eloquentes da misericórdia que vem do alto. O misericordioso ato salvador de Deus feito plena e inteiramente por Jesus, não acontece sem a presença da Mulher predestinada, escolhida e preservada de toda e qualquer mancha: Maria.

Diante dos fatos de Caná da Galileia, verificamos o que ensina o Papa Francisco: “Os sinais que Jesus realiza, sobretudo para com os pecadores, as pessoas pobres, marginalizadas, doentes e atribuladas, decorrem sob o signo da misericórdia. Tudo nele fala de misericórdia” (MV 7).

A Igreja e cada cristão só se justificam pela capacidade de ser misericordiosos, a toda e qualquer hora, sem reservas, sem limites! Eis o que marca a vida de Jesus na terra desde o início até o fim.

dom Gil Antônio Moreira

 

 
 

O primeiro milagre de Jesus – Na sequência dos domingos anteriores que falaram de manifestações de Deus – Epifania e Batismo – hoje temos uma nova manifestação, no casamento realizado em Caná, onde se encontravam Jesus, sua mãe e alguns dos seus discípulos como convidados. Uma festa tradicional onde não podia faltar boa comida, vinho generoso e muita alegria. Segundo S. João, o único evangelista que narra este acontecimento,deu-se aqui o primeiro milagre de Jesus, por interferência da sua mãe, e manifestou-se a sua glória e os discípulos acreditaram n’Ele. Esta afirmação de divindade e de fé representa, com certeza, a intenção de S. João ao narrar o que aconteceu na boda.

O primeiro sinal de Jesus – Este primeiro “sinal”, como chama João aos milagres de Jesus, revela a simbologia bíblica e teológica da água convertida em vinho: por intercessão de Maria, Jesus adianta a hora da sua glorificação provocando esta mudança que anuncia que, no banquete da nova aliança que Deus nos oferece, abunda a alegria e a felicidade; a festa que daí advém representa o amor misericordioso de Deus para com todas as suas criaturas. Este milagre é extraordinário não só pelo que realiza, mas sobretudo pela riqueza de simbolismo e pela projeção que teve na consciência dos discípulos de Jesus que passaram a reconhecê-lo como seu verdadeiro Mestre.

Nossa Senhora da Alegria –Podia ser assim chamada a Mãe de Jesus, não só porque salva os noivos de uma grande preocupação e vergonha social, senão porque provoca uma onda de alegria e admiração para com o seu Filho neste início da sua missão. O texto mostra a solicitude maternal de Maria que, atenta às necessidades do próximo, se solidariza e faz tudo o que está ao seu alcance para resolver o problema. Não consegue evitar a dificuldade, mas uma mãe intui sempre onde pode estar a solução para os problemas dos próprios filhos, e usa a ternura materna como arma de transformação da realidade. Fazei tudo o que Ele vos disser. O povo cristão, ao longo dos séculos, soube interpretar este poder intercessor de Maria, que a torna mãe de misericórdia.

Oração com Maria – Deus, nosso Pai, obrigado por nos teres dado Maria, a mãe de Jesus, por nossa mãe. Ela é mãe da Igreja em todos os tempos e lugares, mulher de fé e exemplo para todos os que querem ser discípulos do teu Filho. Concede-nos uma experiência de relação filial e que aprendamos a ser construtores de paz e alegria à nossa volta. Amém.

Palavras do papa Francisco – «Escolhida para ser a Mãe do Filho de Deus, Maria foi preparada desde sempre, pelo amor do Pai, para ser Arca da Aliança entre Deus e os homens. Guardou, no seu coração, a misericórdia divina em perfeita sintonia com o seu Filho Jesus. O seu cântico de louvor, no limiar da casa de Isabel, foi dedicado à misericórdia que se estende «de geração em geração» (Lc 1,50). Também nós estávamos presentes naquelas palavras proféticas da Virgem Maria.» (Mv 24).

 
 

A glória do Senhor se manifestou!

A liturgia que hoje celebramos, e que marca a transição do Ciclo do Natal para o Tempo Comum, quer nos ajudar a experimentar a gratuidade do amor de Deus por suas criaturas (Antífona de Comunhão). O evangelho que lemos nos relata o início dos sinais de Jesus (cf. Evangelho, v.11). É importante recordar que os sinais não se bastam em si mesmos, eles sempre apontam e indicam para algo que está além deles. Com o sinal realizado por Jesus, em Caná, essa lógica se perfaz. O narrador nos conta que após este sinal a glória de Deus se manifestou e os discípulos creram nele. A glória de Deus, manifestada ao mundo na Palavra que se fez carne, continua a se revelar ao mundo nas ações e palavras de Jesus. Então, podemos perceber que os sinais que Jesus realiza têm como objetivo revelar e manifestar a glória de Deus, que é o próprio Deus.

Jesus não quer chamar a atenção para si, nem quer ficar famoso e ter prestígio com aquilo que faz. Ele deseja realizar a missão para a qual foi enviado: anunciando a Boa-Nova do Evangelho, reúne um povo para Deus, a fim de que esse povo participe da sua glória (cf. aclamação ao Evangelho). Deus não quer que a sua glória seja manifestada simplesmente para demonstrar o seu poder e majestade em governar o mundo (cf. Oração do dia), ao contrário, Ele deseja que seu povo seja reunido, qual “Minha Predileta”, “Bem-Casada” (cf. I Leitura, v.4), pois esse povo é a alegria de Deus (cf. I Leitura, v.5), e receptor do seu amor. Povo dinâmico e plural, povo ministerial (cf. II Leitura, v.4-5). Cada pessoa é chamada a colocar o seu dom a serviço da comunidade, do bem de todos (cf. II Leitura, v.7), não para evidenciar os seus talentos, mas para, tal como Jesus, revelar ao mundo a glória de Deus, a fim de que mais pessoas acorram à fé no Deus que nos ama e nos dá a sua paz (cf. oração do dia).

 
 

"Alegria nas Bodas de Caná !”.

O capítulo 62 do profeta Isaías faz parte do que se convencionou chamar, na exegese, trito-Isaías. Escrito no período pós-exílico, o texto apresenta a cidade como esposa, depositária de uma promessa de salvação.

O evangelho de João deste domingo está situado na parte do quarto evangelho denominada "livro dos sinais". O nosso relato é, no dizer do narrador, o "princípio" dos sinais (v. 11), o que nos leva a compreender que o sinal de Caná é um evento fundador. Trata-se de uma narração simbólica: ela torna presente algo diferente do que é imediatamente dito e que lhe serve de expressão. Aqui, o símbolo é mais importante que a materialidade dos fatos. O tema geral é o cumprimento por Jesus da promessa do Antigo Testamento de abundância de vinho nos tempos messiânicos (Gn. 49,10-11; Am. 9,13-14). Jesus e seus discípulos são convidados para uma festa de casamento. A mãe de Jesus também estava lá. Falar de festa de bodas é evocar não só a Aliança passada (Noé, Abraão, Moisés), mas a nova, em Jesus, de cuja plenitude todos receberam graça no lugar de graça (cf. Jo. 1,16). A festa humana das bodas serve na tradição bíblica de metáfora para a Aliança de Deus com o seu povo (Os. 2,18-21; Ez. 16,8; Is. 62,3-5). O vinho é dom de Deus para a alegria das pessoas, e sinal de prosperidade (Sl. 104[103],15; cf. Jz. 9,13; Eclo. 31,27-28; Zc. 10,7). É por essa razão que ele será abundante nas "bodas escatológicas" (Am. 9,13; Is 25,6). Em Caná, o vinho oferecido por Jesus é superior ao vinho servido primeiro. Graças à ação de Jesus, a Aliança atinge a perfeição. Por trás das palavras da mãe de Jesus está Israel, que confia na intervenção divina, espera e vê a promessa de salvação realizada. O termo "mulher" evoca Sião, representada na Bíblia com traços de uma mulher, de uma mãe (Is. 49,20-22; 54,1; 66,7-11; Jo. 16,21). Como em nosso relato a noiva não aparece, é a mãe de Jesus que representa Sião, cujo esposo é Deus. Em razão de sua cor, o vinho era tido como o sangue da vinha. Daí ele ter se tornado, como o sangue, símbolo da vida. "Eu vim para que todos tenham vida, e a tenham em abundância", diz o Senhor (Jo. 10,10). A nós, a tarefa de distribuir este vinho da alegria e de oferecer esta vida que é dom.

 
 

Fazei tudo o que ele vos disser

O contexto celebrativo da missa do 2o Domingo do Tempo Comum continua o tema da solenidade da Epifania do Senhor. Isto não é tão evidente na Liturgia Eucarística, quanto é na antífona do cântico evangélico da oração da manhã (laudes) da Epifania, onde se cantam as três epifanias do Senhor: a) na visita dos Magos; b) no Batismo do Senhor; c) nas Bodas de Caná. Este domingo, portanto, tem a finalidade de concluir a trilogia epifânica, pela qual Jesus Cristo manifesta sua presença na terra.

O relato das Bodas de Caná, neste sentido, é o anúncio público da glória de Deus que se manifesta (faz epifania) em Jesus Cristo (Evangelho). Jesus Cristo é a manifestação da glória divina entre nós, a manifestação da coroa da glória na mão de Deus, a manifestação do diadema real nas mãos de Deus, como canta Isaías (1a leitura). Nesta mesma linha de pensamento, podemos cantar com o salmista que a manifestação de Jesus Cristo é o canto novo — a canção nova — que a comunidade dos discípulos do Evangelho cantam a Deus (salmo responsorial). Se Deus manifesta-se entre nós, a vida pessoal e comunitária se transforma em festa e o vinho bom é servido a quem faz aquilo que Jesus Cristo pedir, como aconselha Maria (Evangelho).

Além do contexto epifânico, que convida cada celebrante a viver de modo novo, em clima de festa pela presença do esposo que, na teologia joanina, é Jesus Cristo, (Evangelho), as Bodas de Caná representam também a realização da Nova Aliança entre Deus e seu povo, como profetizava Isaías (1ª leitura). O texto de João inspira-se em vários textos do Antigo Testamento para comparar a Nova Aliança, que acontece em Jesus, a uma festa de casamento. Jesus é o esposo, aquele que celebra com seu povo a Nova Aliança; um novo casamento entre Deus e o seu Povo. É neste mesmo contexto que compreendemos a celebração da Eucaristia: como presença de Jesus Cristo em nossa festa, como celebrante que renova conosco a nova e eterna Aliança. Jesus é aquele que muda o conteúdo purificador das talhas de pedra. Não modificou as talhas nem a finalidade das mesmas; modificou o conteúdo manifestando assim que a purificação para se aproximar de Deus não está mais nas águas das talhas, mas no vinho novo — símbolo de seu Sangue - (Evangelho), servido por Cristo, na festa de sua Eucaristia, como memorial de sua Páscoa.

Diante de tão grande dom para nossas vidas e para nossas comunidades, compreendemos que o convite do salmista não poderia ser outro senão para louvar, admirar-se, agradecer e oferecer a Deus um sacrifício novo e agradável (salmo responsorial), sacrifício purificado e tornado agradável a Deus pelo único e mesmo Espírito Divino, que enriquece a festa da vida com os carismas partilhados para o bem de todos, quando acolhidos não em proveito próprio (2ª leitura). Os antigos padres da Igreja, inclusive, relacionavam os carismas com presentes de casamento que Deus oferece à sua esposa, a Igreja.

 
 

A água transformada em vinho

Ao transformar em vinho a água que enchia as talhas, o Salvador fez duas coisas: forneceu uma bebida aos convidados do casamento e quis dizer que, pelo batismo, os homens iam ficar cheios do Espírito Santo. Aliás, o próprio Senhor o declarou noutro altura ao dizer: “Deita-se o vinho novo em odres novos” (Mt 9,17). Os odres novos significam, com efeito, a pureza do batismo, o vinho a graça do Espírito Santo.

Catecúmenos, prestai uma atenção particular. O vosso espírito, que ignora ainda a Trindade, assemelha-se à água fria. É preciso aquecê-la ao calor do sacramento do batismo, como um vinho, para transformar um líquido pobre e sem valor, em graça preciosa e rica. Como o vinho, adquiramos bom paladar e aroma doce; então, poderemos dizer com o apóstolo Paulo: “Somos para Deus o bom odor de Cristo” (2Cor. 2,15). Antes do seu batismo, o catecúmeno assemelha-se à água que está imóvel, fria e sem cor…, inútil, incapaz de restabelecer as forças. Conservada por muito tempo, a água altera-se, fica estagnada, torna-se fétida… O Senhor disse: “Quem não renascer da água e do Espírito não pode entrar no Reino de Deus” (Jo 3,5).

O fiel batizado é semelhante ao vinho vigoroso e rubro. Todas as coisas da criação se estragam com o tempo, só o vinho melhora ao envelhecer. Ele perde todos os dias a sua aspereza, e adquire um ‘bouquet’ macio, com um rico sabor. De igual modo o cristão, à medida que o tempo passa, perde a aspereza da sua vida pecadora, adquire a sabedoria e a benevolência da Trindade divina.

são Máximo de Turim - CC Sermão 65

 

 

Queridos irmãos e irmãs!

Na primeira leitura, no salmo responsorial e no Evangelho de hoje, três vezes e de três formas diferentes, vemos Maria, a Mãe do Senhor, como uma mulher de oração. Nos Atos dos Apóstolos, nós a encontramos em meio à comunidade dos Apóstolos reunidos no quarto superior, rezando para que o Senhor, agora ascendido ao Pai, realize sua promessa: «Dentro de uns dias sereis batizados com o Espírito Santo» (1,5). Maria lidera a nascente Igreja em oração; ela é, como o fora em pessoa, a Igreja em oração. E assim, com a grande comunidade dos santos e no centro deles, ela permanece inclusive agora diante de Deus intercedendo por nós, pedindo a seu Filho que nos envie seu Espírito mais uma vez sobre a Igreja, e que renove a face da terra.

Nossa resposta a esta leitura é cantar com Maria o grande hino de louvor que ela eleva depois de que Isabel a chama de bem-aventurada por causa de sua fé. É uma oração de ação de graças, de alegria no Senhor, de bênção por suas obras poderosas. O teor deste hino é claro desde suas primeiras palavras: «Minha alma magnífica -- engrandece -- o Senhor».

Engrandecer o Senhor significa dar-lhe um lugar no mundo, em nossas vidas, e permitir-lhe entrar em nosso tempo e em nossa atividade: finalmente, esta é a essência da verdadeira oração. Onde Deus é engrandecido, os homens e mulheres não são diminuídos: há muitos homens e mulheres que se tornaram grandes e o mundo está cheio de sua luz.

Na passagem do Evangelho, Maria pede a seu Filho um favor para uns amigos em necessidade. À primeira vista, isso poderia aparecer com uma conversação inteiramente humana entre uma Mãe e seu Filho e seria, efetivamente, um diálogo rico em humanidade.

Maria não se dirige a Jesus como se fosse um mero homem com cuja habilidade e utilidade ela pode contar. Ela confia uma necessidade humana a seu poder -- a um poder que é mais que capacidade e habilidade humanas. Neste diálogo com Jesus, nós a vemos realmente como uma Mãe que pede, que intercede. Como escutamos na passagem do Evangelho, vale a pena ir um

pouco mais profundamente, não só para entender melhor Jesus e Maria, mas também para aprender de Maria a maneira correta de rezar. Maria realmente não pede algo de Jesus: ela simplesmente o diz: «Eles não têm vinho» (João 2,3). As bodas na Terra Santa eram celebradas durante uma semana inteira; todo o povo participava e, por conseguinte, se consumia muito vinho. O casal de noivos se encontrava em problemas, e Maria simplesmente disse isso a Jesus: Ela não lhe disse o que Ele tem que fazer. Ela não lhe pede nada em particular, e certamente não lhe pede realizar um milagre para fazer vinho. Ela simplesmente o faz conhecer o assunto e o deixa decidir aquilo que deve ser feito. Nas diretas palavras da Mãe de Jesus, portanto, podemos apreciar duas coisas: por um lado, sua carinhosa preocupação pelas pessoas, esse carinho maternal que a faz estar atenta aos problemas dos outros. Vemos sua cordial bondade e sua vontade de ajudar. Esta é a Mãe à qual gerações de pessoas vieram visitar aqui em Altotting. A ela confiamos nossos cuidados, nossas necessidades e nossos problemas. Sua maternal disposição para a ajuda, na qual nós confiamos, aparece aqui pela primeira vez nas Sagradas Escrituras. Mas além deste primeiro aspecto, com o qual estamos todos familiarizados, há outro, que poderíamos ver facilmente: Maria deixa tudo ao juízo de Deus. Em Nazaré, ela entregou sua vontade, submergindo-a na de Deus: «Eis aqui a serva do Senhor, faça-se em mim segundo tua palavra» (Lucas 1,38). E esta continua sendo sua atitude fundamental. Assim é como ela nos ensina a rezar: não para buscar afirmar nossa própria vontade e nossos próprios desejos ante Deus, mas para permitir-lhe que decida aquilo que Ele queira fazer. De Maria nós aprendemos o gosto e disposição para ajudar, mas também aprendemos a humildade e generosidade para aceitar a vontade de Deus, na confiada convicção de que o que for que ele disser como resposta será o melhor para nós.

Se tudo isso nos ajuda a entender a atitude de Maria e suas palavras, ainda achamos difícil entender a resposta de Jesus. Em primeiro lugar, não gostamos da maneira como ele se dirige a ela: «Mulher». Por que não lhe diz «Mãe»? Contudo, este título expressa realmente o lugar de Maria na história da salvação. Assinala o futuro, a hora da crucifixão, quando Jesus lhe dirá: «Mulher, eis aí teu Filho. Filho, eis aí tua mãe» (cf. João 19,26-27). Isso antecipa a hora quando ele fará da mulher, sua Mãe, a Mãe de todos os discípulos. Por outro lado, o título «mulher», recorda o relato da criação de Eva: Adão, rodeado pela criação em toda sua magnificência, experimenta, como ser humano, a solidão. Assim, Eva é criada, e nela Adão encontra a companhia que buscava; e lhe dá o nome de «mulher». No Evangelho de João, dessa forma, Maria representa a nova, a definitiva mulher, a companhia do Redentor, nossa Mãe: o nome, que parecia muito falto de afeto, realmente expressa a grandeza da missão de Maria.

Gostamos menos ainda da outra parte da resposta de Jesus a Maria em Caná: «Mulher, que tenho a ver eu contigo? Ainda não chegou minha hora» (João 2,4). Nós queremos objetar: tu tens muito a ver com ela! Foi Maria que te deu a carne e o sangue, que te deu seu corpo, e não só seu corpo: com seu «sim», que pronunciou desde as profundidades de seu coração, ela te gerou em seu ventre, e com seu amor maternal te deu a vida e te apresentou à comunidade do povo de Israel. Se esta é nossa resposta a Jesus, já vamos por bom caminho para entender a resposta de Jesus. Porque tudo isso deveria fazer-nos recordar que nas Sagradas Escrituras encontramos um paralelismo entre o diálogo de Maria com o Arcanjo Gabriel, no qual diz: «Faça-se em mim segundo a tua palavra» (Lucas 1, 38). Este paralelismo se encontra na carta aos Hebreus que, com palavras tiradas do Salmo 40, nos narra o diálogo entre Pai e Filho - aquele diálogo no qual começa a encarnação. O eterno Filho diz ao Pai: «Tu não queres sacrifícios nem oferecimentos, ao contrário me preparaste um corpo... Eu venho... para fazer, Deus, tua vontade». O «sim» do Filho: «Venho para fazer tua vontade», e o «sim» de Maria: «Faça-se em mim segundo tua palavra» -- este duplo «sim», e desta maneira o Verbo se faz carne em Maria. Neste duplo «sim», a obediência do Filho se faz corpo, Maria lhe doa o corpo. «Que tenho eu contigo, mulher?». Aquilo que no profundo tem que fazer um com a outra, é este duplo «sim», em cuja coincidência se realizou a encarnação. É a este ponto de sua profundíssima unidade que o Senhor olha com sua palavra. Aí, neste comum «sim» à vontade do Pai, se encontra a solução. Devemos encaminhar-nos, também nós, para este ponto; aí encontraremos a resposta às nossas perguntas.

Partindo desde aí, compreendemos também a segunda frase da resposta de Jesus: «Ainda não chegou minha hora». Jesus não atua jamais sozinho, por si mesmo; jamais para agradar os outros. Ele atua sempre partindo do Pai, e é justamente isso que o une a Maria, porque aí, nesta unidade de vontade com o Pai, quis depositar também ela seu pedido, por isso, depois da resposta de Jesus, que parece rejeitar o pedido, ela surpreendentemente pode dizer aos servos com simplicidade: «Fazei o que Ele vos disser». Jesus não faz um prodígio, não brinca com seu poder em um acontecimento totalmente particular. Ele põe em ação um sinal, com o qual anuncia sua hora, a hora das bodas, da união entre Deus e o homem. Ele não «produz» simplesmente vinho, mas transforma as bodas humanas em uma imagem das bodas divinas, às quais o Pai convida imediatamente o Filho e nas quais Ele doa a plenitude do bem. As bodas se convertem em imagem da Cruz, sobre a qual Deus leva seu amor até o extremo, dando-se a si mesmo no Filho em carne e sangue -- no Filho que instituiu o Sacramento, no qual se doa a nós por todos os tempos. Assim, a necessidade é resolvida de forma verdadeiramente divina, e a pergunta inicial, longamente ultrapassada. A hora de Jesus não chegou ainda, mas no sinal da transformação da água em vinho, no sinal do dom festivo, antecipa sua hora já neste momento.

Sua «hora» definitiva será sua volta no final dos tempos. Ele antecipa continuamente esta hora na eucaristia, na qual vem sempre agora. E sempre de novo o faz por intercessão de sua Mãe, por intercessão da Igreja, que o invoca nas orações eucarísticas: «Vem, Senhor Jesus!» No Cânon, a Igreja implora sempre novamente esta antecipação da «hora», pede que venha agora e se doe a nós. Assim, queremos deixar-nos guiar por Maria, pela Mãe das graças de Altotting, pela Mãe de todos os fiéis, para a «hora» de Jesus. Peçamos-lhe o dom de reconhecê-lo e de compreendê-lo cada vez mais. E não deixemos que o recebê-lo seja reduzido só ao momento da Comunhão. Ele permanece presente na Hóstia santa e nos espera continuamente. A adoração do Senhor na Eucaristia encontrou em Altotting, no velho quarto do tesouro, um lugar novo. Maria e Jesus sempre estão juntos: mediante ela, queremos permanecer em diálogo com o Senhor, aprendendo assim a recebê-lo melhor. Santa Mãe de Deus, rogai por nós, como em Caná rogastes pelos esposos! Guiai-nos sempre até Jesus!

Bento XVI - santuário de Altotting

 

 

«Guardaste o vinho bom até agora»

No deserto, Nosso Senhor multiplicou o pão, e em Caná, transformou a água em vinho.

Habituou assim a boca dos homens ao Seu pão e ao Seu vinho, até ao momento em que lhes deu o Seu corpo e o Seu sangue. Fê-los saborear um pão e um vinho transitórios, para fazer crescer neles o desejo do Seu corpo e do Seu sangue vivificantes... Atraiu-nos com coisas agradágeis ao paladar, para nos conduzir àquilo que vivifica plenamente as nossas almas.

Escondeu a doçura no vinho que fez, para mostrar aos convidados que tesouro incomparável se esconde no Seu sangue vivificante.

Como primeiro sinal, deu um vinho agradável aos convidados, para manifestar que o Seu sangue alegraria a todas as nações. Se o vinho intervém, com efeito, em todas as alegrias da terra, da mesma forma todas as libertações se prendem com o mistério do Seu sangue. Ele deu aos convidados de Caná um vinho excelente que transformou os seus espíritos, para lhes mostrar que a doutrina de que os iria abeberar transformaria os seus corações.

Este vinho, que no princípio não era senão água, foi transformado nos cântaros, símbolo dos primeiros mandamentos enviados por Ele com vista à perfeição. A água transformada é a Lei levada ao seu cumprimento. Os convidados da boda beberam o que tinha sido água, mas sem saborearem essa água. Do mesmo modo, quando ouvimos os antigos mandamentos, saboreamo-los, não no seu antigo sabor, mas no novo.

santo Efrém - Diatessarum XII

 

 

 

Fazei tudo que Ele vos disser

 “No terceiro dia, houve um casamento em Caná da Galiléia, e a mãe de Jesus estava lá. Também Jesus e seus discípulos foram convidados para o casamento. Faltando o vinho, a mãe de Jesus lhe disse: “Eles não têm vinho!” Jesus lhe respondeu: “Mulher, que é isso, para mim e para ti? A minha hora ainda não chegou”. Sua mãe disse aos que estavam servindo: “Fazei tudo o que ele vos disser!” Estavam ali seis talhas de pedra, de quase cem litros cada, destinadas às purificações rituais dos judeus. Jesus disse aos que estavam servindo: “Enchei as talhas de água”! E eles as encheram até à borda. Então disse: “Agora, tirai e levai ao encarregado da festa”. E eles levaram. O encarregado da festa provou da água mudada em vinho, sem saber de onde viesse, embora os serventes que tiraram a água o soubessem. Então chamou o noivo e disse-lhe: “Todo o mundo serve primeiro o vinho bom e, quando os convidados já beberam bastante, serve o menos bom. Tu guardaste o vinho bom até agora”. (João 2,1-10)

Só aquilo que nós iniciamos pode não chegar muito longe, mas aquilo que Deus inicia, Ele vai completando e concluindo. Todo início em Deus tem conclusão. Toda promessa é cumprida. O Senhor mexe na nossa vida, independente daquilo que esperamos d’Ele. Temos a mania de querer resolver a vida por nós mesmos. Controlar as coisas e achar que todas elas serão de acordo com nossa vontade. A vontade é algo muito forte dentro de nós, com ela fazemos muitas coisas, mas sem ela terminamos nossa vida cansados, desanimados.

A vontade de Deus quebra nossos protocolos e muda o sentido, a direção de uma vida que se coloca em Suas mãos.

Nossa Senhora é a grande serva de Deus. O povo de Deus precisa aprender a ser servo, precisamos ser servos do Senhor, deixar que a vontade d’Ele se cumpra em nossa vida. Para se começar algo novo é preciso ter coragem de deixar as seguranças para trás. E creia que você não está só; você deixou muitas “seguranças” para trás porque um amor maior o seduziu.

Mas quem é arrisca mais é Deus do que nós, pois Ele, quando nos chama para cumprir e acolher Sua vontade, coloca Seu nome em nossa boca. E se eu fosse Ele não confiaria que esse nome fosse bem protegido por nós, pois num momento de fraqueza e pecado olhamos para trás.

Deus Pai se arrisca todos os dias comigo e com você, pois acredita em nós. E esse fato de o Senhor acreditar em nós, muda o jeito e a forma como nós nos olhamos. E assim nós continuamos o nosso caminho.

 

A Mãe de Jesus está aqui e isso não pode se apagar de nossos corações, isso se chama certeza na fé, algo que não é fácil de ser conquistado. Conquista é luta. Deus, que investe tanto em nós, não nos estragaria nos dando tudo sem luta, sem insistência.

O Senhor insiste conosco e nessa insistência, Ele tem providenciado tudo para nossa vida. E essa Divina Providência nos leva longe e leva tempo.

Deus tem disposto tudo para você, mas não para você gastar com suas prioridades. Todos os dias é preciso confiar, senão colocaremos barreiras nos planos do Senhor. Deus Pai precisa do nosso possível para fazer o impossível. O Senhor nos quer adultos na fé.

Quando perdemos o cuidado de vigiar sempre, corremos o risco de perder tudo. A vida do servo não tem descanso. Não que sejamos inabaláveis, nós nos cansamos, sim. Nós sofremos, envelhecemos, nos gastamos, mas é bom que fiquemos assim na presença de Deus, pois assim nosso coração vai ficando mais novo.

Pior é o coração que vai ficando velho, e para isso não acontecer, Nossa Senhora precisa estar viva dentro dele, da nossa casa, pois a Virgem Maria tem o olhar de mãe. E vê aquilo que ninguém está preocupado. O olhar da mãe é um olhar atento e sabe o que cada filho precisa. Por isso ela viu a necessidade dos noivos nas Bodas de Caná: “Eles não têm vinho”. E muitas vezes é assim que estamos, sem nada. O noivos tinham se preparado, mas o vinho acabou. Muitas vezes esquecemos que nos preparamos, que fizemos nossa parte, mas quando acaba tudo perdemos a memória que existe a Providência de Deus.

Qual a promessa que Deus começou em sua vida que você ainda não viu o final? Nós queremos que aconteça essa promessa em nossa vida e, muitas vezes, temos a impressão de que ela não acontece no tempo que gostaríamos; e se deixamos de vigiar, de orar, corremos o risco de perder tudo, e todo o momento que esperamos para que ela se cumprisse.

A pessoa que não sente que tem o que perder é porque não valoriza aquilo que já conquistou. Muitas vezes, não damos o nosso melhor para Deus, porque não acreditamos que temos o “vinho” em reserva, mas enquanto não darmos tudo, não teremos a consciência de que o Senhor pode nos dar o “vinho novo”.

A Palavra de Deus é clara, mostra aquela mulher de Deus que questiona: “Como se fará isto?” Maria entra em diálogo com o Senhor, faz perguntas a Ele. Nós, da mesma forma, precisamos conversar com Ele.

Como faz falta em nossa vida uma amizade bonita, gratuita e como precisamos de amigos de Deus! Esses amigos de Deus vão falar de nós para Ele. E no momento em que mais precisarmos eles aparecerão, mesmo que seja em lembrança. Lembrar-nos dos momentos bons com os amigos nos faz bem.

Nossa Senhora, que conhece nosso coração de filhos, está atenta ao que falta em nossa casa e pede a Jesus que faça alguma coisa, pois ela sabe que Ele vai fazer o que for preciso.

Nossa Senhora reza pelo servo, reza por você. Gaste sua vida em Deus e fique atento à “festa” à sua volta. A vida em Deus é uma grande festa, não é uma lamúria. Nossa vida é uma grande festa.

Nossa Senhora vem nos ensinar o nosso lugar: somos servos. A Providência de Deus nos fará experimentar o “vinho novo”, mas Deus nos pede que façamos a nossa parte, nos gastemos. Nas bodas de Caná quem eram os servos? Eram os familiares, que corriam atrás de cada detalhe. É no coração da família que Deus nos serve. É o Senhor que faz a diferença, não é o nosso trabalho. Nosso cansaço só é capaz de produzir uma talha d’água, mas não passará de água. O milagre só aconteceu porque aqueles servos encheram as talhas de água até na boca, eles obedeceram. Obedeça que você não vai errar. Pare de questionar sobre o que vai ser feito e para que algo vai ser usado, esse não é problema seu. Sua parte é servir, pior é quando fazemos a coisa pela metade, por preguiça. O Senhor vai transformar aquilo que você trouxe para Ele.

Eu tenho fé e eu a demonstro nas minhas obras. Deus é caprichoso, coloque-se no lugar de servo e dará tudo certo, pois o Senhor derrama, Ele é generoso. Ficar velhinho na presença de Deus vale a pena. Entregue sua vida, entregue seu tempo, aquilo que você tem medo de entregar, seu futuro, seu presente. Pois seu futuro só existe no coração no Deus. Cuide-se se gastando e não se guardando. Seja todo de Deus.

padre André Luna, SCJ

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