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Um louco quer entrar Passou uma lua e logo outra. Jesus continuava conosco em Cafarnaum. Todas as noites, depois do trabalho, nos reuníamos na casa de Pedro para conversar e fazer planos. Cada dia que passava crescia nossa amizade. Ela ia amadurecendo como amadurecem os frutos nos campos da Galiléia ao chegar seu tempo. Num sábado, fomos com Jesus à sinagoga. À porta estava Bartolo, o louco... Bartolo: Rezar a Deus! Rezar a Deus!... Vamooooos!... Vamooooos!... Glori, gori, gori, gori, uuuuuu! Eu quero entrar para rezar a Deus! Eu quero entrar para rezar a Deus!... Gori, gori, gori, uuuuuu!.... Bartolo estava sujo e cheirava a vinho rançoso. Tinha os olhos amarelados e sua voz era como a das cornetas quando assobiam atravessando o céu. Batia palmas e chorava pedindo que o deixassem entrar na sinagoga. Todos em Cafarnaum mexiam com ele... Bartolo: Eu quero entrar!... Gori, gori, gori, gori, uuuuuu!... Pedro: Olhe, Jesus, aí está o Bartolo outra vez, aquele que vimos no mercado outro dia. Jesus: Ah, sim, eu me lembro... Pedro: Maldição de homem, quando resolve encher não há quem agüente! Jesus: E se o deixassem entrar na sinagoga? Não ficaria tranqüilo? Tiago: Mas como vão deixar esse louco entrar aí? É um sujeito perigoso, Jesus. Outro dia deixou uma mulher só de cueiros no meio da rua. Arrancou-lhe a roupa de uma vez só... Pedro: Lembra também aquela vez em que ele quis se afogar no lago?... Tiago: Não sei nem por que o salvaram. Seria melhor se tivesse ido para o fundo! Para que serve um homem assim? Para nada! Depois de conversar um pouco no pátio, todos entramos na sinagoga. A sinagoga era o nosso templo. Ali nos reuníamos todos os sábados para prestar culto a Deus, rezar salmos e pedir ao Senhor dos céus que não se esquecesse de seu povo. As mulheres ficavam de um lado, atrás de uma grade de madeira. Os homens, no centro. Todos olhávamos para o lugar onde estava colocado o Livro Santo da Lei. E aquele lugar olhava para Jerusalém, a cidade santa de Deus. Rabino: “Senhor, quem entrará em tua casa? Quem habitará em teu monte santo? Aquele que não tem mancha, o que é puro, o que tem limpo o seu coração e limpas as suas mãos, o que não suja sua língua com mentiras...” Depois das leituras e orações, um dos homens se levantava para explicar o texto da Escritura que havíamos escutado. Naquele sábado foi a vez de Saul, um velho comerciante do bairro dos artesãos, que não faltava nunca à sinagoga... Saul: Irmãos, ouvimos claramente o que diz o salmo, que para entrar na casa de Deus é preciso ser limpo e puro. Por isso temos que nos lembrar que na casa de Deus não podem entrar os escravos nem os filhos de pais desconhecidos. Tampouco entrarão os leprosos ou os coxos com coxeadura notável. Não podem entrar na casa de Deus as prostitutas nem as adúlteras, nem as mulheres no tempo de suas regras. Somente os limpos, somente os puros. Não podem entrar na casa de Deus os bastardos, as crianças expostas, nem os pastores com reconhecida fama de ladrões. Tampouco entrarão os castrados, nem os loucos, nem os endemoniados. O salmo diz claramente: o que não tem mancha, esse, somente esse, poderá entrar na casa de Deus... O sermão de Saul era bastante longo e aborrecido. Quando olhei para os lados, vi que Tiago dava cabeçadas e Pedro já estava roncando. Com os outros acontecia o mesmo. Do lado de fora, Bartolo não parava de gritar. Chegou um momento em que seus alaridos encobriram a voz fanhosa de Saul e mal podíamos entender o que dizia o pregador... Uma mulher: Ai, que sujeito mais impertinente este, mande-o calar a boca! Um homem: Mande calar esse louco, Jairo, aqui já não dá para escutar nada! Saul: Como estávamos dizendo, a casa de Deus é somente para os limpos e os puros, para os que estão purificados de alma e corpo e... Pedro: Deixem esse homem entrar para ver se ele se cala de uma vez... Tiago: Cale a boca você, Pedro! Rabino: Esse homem que grita lá fora é um impuro!... Não pode entrar aqui de maneira nenhuma. É o diabo que o envia para que não possamos louvar o Senhor! Mas isso não ficará assim!... Uma mulher: Com esses gritos aqui, não há quem louve ninguém, rabino! Pedro: Eu acredito que se ele entrar ficará tranqüilo. Jesus: Eu também acho. Por que não o deixamos entrar? Rabino: Chega de discussão! Esse homem não está limpo. É um louco que não sabe distinguir a mão direita da esquerda. Como vai conhecer a Deus para louvá-lo? Jesus: Mas Deus sim o conhece! Rabino: Deus só quer em sua presença os homens puros! Um homem: Nisso o rabino tem razão! Jesus: Pois eu creio que Deus quer todo mundo na sua presença. Ele se encarregará depois de limpá-los. Mas nos quer todos juntos... Pedro: Bem falado, Jesus! Deixem o Bartolo entrar! Tiago: Não gaste saliva com esse louco, Jesus. Esse sujeito não vale a pena... E você também não se meta, Pedro! Pedro: Cale a boca, Tiago. O que Jesus disse está muito bem dito... Enquanto estávamos discutindo se o louco Bartolo podia ou não entrar, a porta da sinagoga se abriu, de repente, como se fosse empurrada por um furacão. Rodando como um pião, Bartolo entrou, todo banhado de suor e rindo às gargalhadas... Bartolo: Rá, rá, rá...! Já entrei!... Gori, gori, gori, uuuuuu! As mulheres começaram a gritar e armou-se uma algazarra na sinagoga... Bartolo: Eu quero rezar! Eu quero rezar!... Gori, gori, gori, uuuuuu! Os olhos de Bartolo brilhavam como se tivesse um tição aceso dentro deles... Um homem: Tirem esse louco daqui! Maldição, mas ninguém se atreve? Tiago: Ei, fora daqui!... Fora daqui! Bartolo: Eu quero rezar, eu quero!... Gori, gori! Uma mulher: Mas isso é o cúmulo!... Tragam uma corda para amarrá-lo! Um homem: Que corda coisa nenhuma!... Você, gorducho, me ajude!... Vamos botar fora esse farrapo!... Bartolo: Gori, gori, gori, uuuuuuuuu!... Tiago: Farrapo?... Este desgraçado tem mais força que Sansão! Uma mulher: Pois então cortem o cabelo dele! Um homem: Agarre-o com força, caramba!... Outro homem: Saiam vocês, seus frouxos, deixem ele pra mim!... O ferreiro Julião, que tinha os braços negros e duros como tenazes, agarrou Bartolo pelo cangote e começou a arrastá-lo para a porta... O louco se debatia atirando patadas por todos os lados... Outro homem: Fora daqui, intrometido, pedaço de demônio, fora !!! Jesus: Ei, você, solte esse homem!... Vamos, solte-o, deixe-o já!... Por fim, Jesus conseguiu abrir caminho no meio daquele tumulto de gente... Jesus: Não vê que ele é um pobre coitado?... Solte-o... Vamos, deixem espaço para ele respirar... As pessoas foram se separando um pouco. Bartolo ofegava como um cavalo depois de uma corrida e choramingava com a cabeça pegada ao chão... Rabino: Que ninguém o toque!! Esse homem é um impuro, está manchado!... Separem-se dele! Afastem-se! Eu disse para ninguém tocar nele! Mas Jesus nem fez caso das ameaças do rabino e ficou ali, junto ao louco... Jesus: E por que não posso tocá-lo, rabino? Rabino: Porque é um impuro! E a impureza se pega como sarna! Jesus: Ele não é nenhum impuro. É um pobre homem. Está cansado de que as pessoas se riam dele e o toquem de todos os lugares. Por isso se comporta assim. Mas Deus não quer tocá-lo de sua casa. Jesus se inclinou sobre ele... Jesus: Bartolo... Bartolo, o que acontece?... Está me ouvindo? Então o louco abriu os olhos e encarou Jesus desafiante... Bartolo: Não se meta comigo!... Não se meta comigo!... Jesus: Escute, Bartolo, você quer ficar e rezar com a gente, não é verdade? Bartolo: Eu o conheço!... Você quer me matar!... Eu o conheço! Jesus: Mas, cale-se de uma vez, caramba!... Bartolo: Eu o conheço!... Gori, gori, uuuu! Eu o conheço!! Você é amigo de Deus! Você é amigo de Deus! Jesus: E Deus é seu amigo, Bartolo. Bartolo: Uuuuuu!!! Uuuu!!! Jesus: Vamos, homem, fique calmo... Bartolo chorava e tremia no chão. Jesus se agachou e lhe deu a mão para ajudá-lo a levantar-se... Jesus: Vamos ver, venha comigo, ande... Levante-se... assim... Mas Bartolo, quando já estava de pé, deu um grito muito forte, e caiu sem sentidos... Um homem: Eh, o Bartolo morreu! Pedro: Não se mexe... Jesus, o que aconteceu? O que houve com ele? Uma mulher: Ai, pobrezinho, vejam como ficou! Mais duro que uma vela!... Rabino: Deus o castigou por atrever-se a entrar em sua casa!... Era um homem pecador!... Era um impuro!... Afastem-se dele!... Para trás... para trás... vamos, afastem-se... O louco Bartolo estava estendido no chão, branco como farinha. Não mexia nem um dedo. Jesus: Não está morto, Pedro, que idéia mais maluca!... Pedro: Está morto, sim, Jesus, olhe a cara dele. Esse já se foi para o outro lado. Quando deu aquele grito a alma lhe saiu do corpo. Uma mulher: Bem o que o rabino disse, Deus o matou... Um homem: É isso mesmo. Deus o castigou pelo atrevimento. Jesus: Deus não o castigou e ele não está morto... Jesus se aproximou de Bartolo e o sacudiu... Jesus: Vamos, irmão, levante-se... você já nos pregou um bom susto e temos que continuar rezando... Bartolo!... O louco se levantou do chão. A cor do rosto já lhe havia voltado. Parecia muito cansado, mas ria mostrando seus dentes quebrados e sujos... Jesus: Vamos, Bartolo, venha que há um lugar para você entre nós... O louco Bartolo se sentou entre Pedro e eu e cantou e rezou como todos. Desde aquele dia pôde ir à sinagoga, e ao mercado, e à praça. Estava mais tranqüilo. Pouco a pouco fomos compreendendo que aquele homem, de quem todos tínhamos rido e a quem todos tínhamos posto de lado, tinha também um lugar entre nós. Que aquele pobre louco, alvoroçador e sujo, era um irmão nosso. Comentários Nos tempos de Jesus, como durante muitíssimos séculos, na antiguidade, a falta de conhecimentos científicos, a ignorância sobre o funcionamento do corpo humano, fazia com que se atribuísse aos demônios algumas enfermidades. Isso acontecia, sobretudo, com os transtornos psíquicos, as enfermidades mentais, nas quais o modo de agir do enfermo (gritos, falta de controle dos movimentos, ataques...) era o que mais chamava a atenção. Dizer “louco” era o equivalente a dizer endemoniado. E, por isso, era o mesmo que dizer “impuro” (dominado ou possuído por um “espírito impuro”, o diabo). A maioria das religiões antigas consideraram que no mundo há pessoas, coisas, ou ações impuras. Umas e outras “contagiam”. Essa impureza não tem nada a ver com a sujeira exterior. Nem a pureza com a limpeza. Tampouco tem a ver com a moral, “o bom” ou “o mal”. O “impuro” é o que está carregado de forças perigosas e desconhecidas, como o “puro” é o que tem poderes positivos. Quem se aproxima do impuro, não pode aproximar-se de Deus. A pureza-impureza é uma idéia fundamentalmente “religiosa”. Desde os tempos antigos, a religião de Israel havia assinalado esta forma de pensamento mágico e existiam muitas leis sobre pureza que se referiam: a). Ao ato sexual (menstruação e hemorragia eram formas de impureza); b). A morte (um cadáver é impuro) c). Algumas enfermidades (a lepra, a loucura, tornam impuro); d). Alguns alimentos e animais (o abutre, a coruja, o porco eram, entre muitos outros, animais impuros). A maioria dessas leis eram conservadas no livro do Levítico. À medida em que o povo foi evoluindo de uma religião mágica para uma religião de responsabilidades pessoais, essas idéias foram caindo em desuso. No entanto, alguns grupos as observam com todo o rigor, donde advém as longas lavagens ou purificações para fazer-se agradáveis a Deus. Jesus lança por terra esses costumes mágicos e com sua palavra e suas atitudes apaga a fronteira entre o puro e o impuro da velha religião. A boa notícia é que a pureza verdadeira está unicamente no coração do homem e na atitude de justiça que tenha para com seus irmãos. O sinal de Jesus se realiza no interior da sinagoga de Cafarnaum. Uns quinhentos anos antes de Jesus, quando o templo de Jerusalém foi destruído e o povo de Israel foi deportado, os judeus começaram a construir “sinagogas”, casas de oração onde reuniam-se para rezar e ler as Santas Escrituras. Nos tempos de Jesus, embora já houvesse um novo Templo em Jerusalém, existiam muitíssimas sinagogas em todo o país. Em Cafarnaum havia uma pequena, sobre a qual foi construída, quatro séculos depois, outra maior, da qual se conservam ainda hoje ruínas de grande valor histórico. Na sinagoga se reunia todo o povo aos sábados para assistir à oração e escutar o rabino ou qualquer outro patrício que quisesse fazer o comentário dos textos da Escritura que se havia lido. A sinagoga não é o equivalente exato de nossos templos atuais. É um lugar mais familiar, mais popular e mais leigo, já que nela se podia falar livremente, interromper, e não era necessária a presença de nenhum ministro sagrado. O rabino era um mestre-catequista (não sacerdote). Sem querer chegar ao conceito “puro-impuro” dos tempos antigos, muitos enfermos do tipo subnormais, loucos, etc., estão hoje marginalizados da comunidade. Os sadios se safam deles, querem escondê-los como uma vergonha familiar, não se lhes dão oportunidades de reabilitação para que possam contribuir para a sociedade.Eles são, como Bartolo, os novos impuros. O sinal de Jesus neste episódio é sinal de que a casa de Deus, a comunidade cristã, está aberta também para esses homens e mulheres diminuídos. É sinal de Libertação: Deus valoriza e tem para eles um lugar e uma missão. (Marcos 1, 21-28; Lucas 4, 31-37) |
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«Dirigiram-se para Cafarnaum. E já no dia de sábado, Jesus entrou na sinagoga e pôs-se a ensinar. Maravilhavam-se da sua doutrina, porque os ensinava como quem tem autoridade e não como os escribas Ora, na sinagoga deles achava-se um homem possesso de um espírito impuro, que gritou: "Que tens tu conosco, Jesus de Nazaré? Vieste perder-nos? Sei quem és: o Santo de Deus! Mas Jesus intimou-o, dizendo: "Cala-te, sai deste homem!”. O espírito impuro agitou-o violentamente e, dando um grande grito, saiu. Ficaram todos tão admirados, que perguntavam uns aos outros: "Que é isto? Eis um ensinamento novo, e feito com autoridade! Além disso, ele manda até nos espíritos imundos e lhe obedecem!". A sua fama divulgou-se logo por todos os arredores da Galiléia.» (Mc. 1,21-28) Estamos dando os primeiros passos acompanhando a revelação que Jesus faz de si mesmo. O Evangelista Marcos, alguns versículos anteriores a este texto, nos deu a síntese da pregação de Jesus resumida em quatro axiomas: «O tempo está cumprido», «O reino de Deus está perto», «Convertei-vos», «Acreditai no Evangelho». A partir daqui o Evangelista começará a explicitar e aprofundar o sentido de cada uma destas afirmações até chegar, no final da vida de Jesus, a dizer o que significa “crer”, e isto pela boca de um soldado, pagão. Percorramos então o nosso caminho com a disposição de quem se deixa conduzir por alguém, Marcos, que viveu bem de perto a pregação de Pedro e a de Paulo. O primeiro ato de Jesus foi derrotar pessoalmente o poder do maligno no deserto, longe da vida dos homens. A vitória de Jesus antes do início da pregação é reconhecida como o sinal do poder definitivo de Deus sobre o poder do “Enganador” cujo poder se apresenta sempre com mesmas características que consistem num fácil e imediato sucesso a custo exíguo. Sim, porque é também característica do inimigo de Deus apresentar sempre apenas uma parte da verdade, ou seja, ocultar as conseqüências dos atos que fazemos e que não condizem com o equilíbrio e a harmonia com a qual Deus dispôs o mundo e as relações. Por isso é chamado na Escritura de “enganador”. A vitória da verdade, isto é, da “consistência” das palavras e atitudes de Jesus sobre as ilusões oferecidas pelo maligno, é considerado como um sinal escatológico, definitivo e, por isso o Evangelista representa figurativamente os anjos que “servem” Jesus, assim como servem Deus no céu. Mas o deserto não é o mundo dos homens. A batalha que Deus trava com o maligno face a face não é a mesma que pode ser travada no mundo dos homens. Eis então que Jesus dá os seus primeiros passos para enfrentar o maligno no mundo dos homens. Ele não é como João o Batista, que chamava as pessoas longe da própria vida para percorrerem um caminho de purificação. Jesus, ao contrário escolheu ir ao lugar onde o homem está. O trecho anterior do Evangelho (o chamado dos primeiros discípulos, que precede este texto) nos apresenta Jesus que vem até nós, no nosso mundo feito do trabalho humilde, o trabalho de pescadores que desejam sustentar a própria família, mas também estão dispostos a deixar as suas atividades quando uma riqueza maior se apresenta. Sempre Jesus vai até o mundo onde além das atividades comuns e preocupações diárias também existe espaço para a vida espiritual; entra na vida dos homens de bem. Jesus se associa com todas as pessoas que constroem a própria vida na paz do seu dia a dia. Assim, naquele dia de sábado, Jesus foi ali, na Sinagoga, um como todos ouvindo os Escribas -isto é, os peritos em religião- explicar as Escrituras. Eles transmitiam o resultado do trabalho de séculos, realizado por pessoas que perscrutavam com extrema diligência, com minúcias, com precisão cirúrgica, tudo quanto estava contido nos textos Sagrados. Pessoas convictas de que com quanto maior meticulosidade alguém consegue seguir os preceitos de Deus, tanto mais Ele ficará bem disposto, agradado por um comportamento impecável. Mas é bem ali, no interior da “casa de Deus”, na Sinagoga onde se respirava tal mentalidade, que se dava o primeiro conflito com o maligno que está no “mundo dos homens”. Nesta narração há bem mais que um relato, se trata de uma catequese que contêm, como uma antecipação, a figura daquilo que sempre acontecerá em qualquer tempo e lugar aonde chegar o anúncio verdadeiro. Temos a antecipação de todos os conflitos que as pessoas de bem irão travar com o maligno justamente quando querem ouvir a Deus. Aonde chega de verdade o Evangelho ali sempre se dá o maior conflito. Foi isto que o Evangelista viu naquele endemoninhado. Era alguém possuído por um “espírito impuro”, era alguém que freqüentava a Sinagoga, alguém que estava no meio da assembléia, não era um desconhecido. Até que Jesus ficou calado, ouvindo os Escribas como todos os outros piedosos, esse mesmo homem ficou calado também, ficou no seu canto porque as explicações dos rabinos não atingiam diretamente a soberania do maligno o qual, repito, engana os homens com o falso orgulho de fazer-lhes sentir que estão “servindo a Deus” ao cumprir ao pé da letra todas as regras. Aquele homem, tinha ido à «sinagoga deles» como sempre fazia. Mas o que ele era, o que tinha dentro de si mesmo, o que o atormentava nunca viera à tona. A presença do Evangelho e, melhor, a presença de Jesus, não permitiu que as coisas ficassem escondidas, camufladas. É assim que age Deus com cada um de nós quando entra a fazer parte íntima da nossa existência: o primeiro passo é revelar-nos o que temos dentro, revelar quem realmente somos. Isso, às vezes nos faz gritar, faz com que realmente venha à tona o que nos atormenta e que não nos deixa livres. Enquanto a relação com Deus era feita de deveres, obrigações religiosas, culto etc. o “espírito impuro” não era incomodado. De fato, nenhuma religião consegue tocar tão profundamente o intimo do homem, ali onde nem ele se conhece. A religião é uma série de práticas relativas a Deus; religião pode ser trocada ao “gosto do freguês”; a fé não, não é “religião”; a fé é, acima de tudo o encontro com Deus, com uma pessoa. Se trata de coisas bem diferentes! O termo usado: “espírito impuro”, é de amplo significado, não indica questões morais, nem de rito (como no Levítico). Na mitologia judaica existiam alguns “espíritos impuros” que, segundo a crença popular, se haviam revoltado contra o projeto de Deus e, para que esse projeto não se realizasse, “atormentavam” o homem. Assim sendo podemos bem traduzir do hebraico com: “aquilo que atormenta o homem”. Pois bem, quando o Evangelista escreveu o texto tendo como substrato cultural esta idéia, ao escrever na língua grega, tentou definir ainda mais, e usou um termo que se encontra também na pregação de Paulo () que significa “sem relação com Deus” (1Cor. 7,14). Desse modo temos esclarecido o que “atormenta o homem” e que afligia aquele homem: eram todos aqueles ritos, todas aquelas explicações, todos os preceitos que ainda o haviam deixado sem uma relação com Deus. Isto o afligia, isto o prendia, possivelmente porque ele desejava se encontrar com o verdadeiro rosto de Deus. O espírito impuro tem espaço e sobrevive perfeitamente quando a religião é feita de coisas não envolventes, quando a religiosidade não compromete a nossa vida e se limita a uma série de preceitos, comportamentos etc. É uma água turva onde o mal se camufla muito bem e sobrevive. Quanto menos somos envolvidos com Deus tanto menos “dói” o mal que ainda pode estar em nós; ao contrário, quanto mais perto se faz a pessoa de Jesus para nós, tanto mais “dói” o pecado que ainda insiste nas nossas atitudes. Somente o amor verdadeiro nos dá a consciência do pecado. Quem não ama nem se sente amado não se dá conta da distância que pode existir entre ele e a outra pessoa. Isso apenas porque ele se percebe como o centro de tudo. O que acontece com as pessoas, infelizmente o fazemos também para com Deus. Os peritos em coisas de religião não haviam percebido até então a condição daquele homem. Jesus se fez ouvir. Quando o homem ouviu a voz de Deus nele deflagrou o conflito: a presença do “espírito impuro”, não poderia coexistir com a nova realidade que estava tomando contas do seu coração; afinal, «Qual entendimento pode haver entre Cristo e Beliar?» escreveu Paulo (2Cor. 6,15). Não é possível permanecer ambíguos quando se ouve realmente o que Deus diz; se não acontecer nada também isto significa que não foi “ouvida” a Sua palavra. Jesus falava como «quem tem autoridade» (termo muito rico que não podemos explorar agora), como quem é “autor”, que constrói. Sim, Jesus re-constrói o homem em dia de Sábado, no dia em que Deus fez o homem, para que este possa se re-encontrar com Deus. Esse é o sentido da catequese narrativa de hoje. Jesus refaz o homem com a sua palavra quando esta entra, liberta, preenche todo espaço da nossa alma. Jesus conduz ao seu cumprimento a obra do Pai no dia do Pai, com pessoas bem dispostas e que se deixam envolver. Jesus falava como «quem tem autoridade», não como quem “manda”, se auto-afirma, domina. Não, isto é autoritarismo barato, manifestação de enormes vazios que estão no coração! Autoridade é a capacidade de criar, fazer algo novo. Os Escribas não tinham autoridade, não eram capazes de sair do limite daquela segurança que conduz a repetir sempre a o mesmo ensinamento, que não toca o homem quando é afligido por um “espírito impuro”. A autoridade não se toma, se recebe, é algo que a assembléia, que ouve, reconhece em Jesus. Quando nós tomamos a nossa autoridade, corremos o risco de transformá-la em poder, e isto nem sempre está em linha com o modo de ver de Jesus. Autoridade é discreto serviço ao homem que precisa ser homem em Deus. Certamente não é um caminho fácil a verdadeira liberdade; certamente não é sem esforço que o mal é desenraizado do nosso mundo, da nossa alma. Certamente o grito de sofrimento é grande e nos faz pensar se vale a pena. Quanto durou aquele agito? Por quanto tempo foi sacudido? Quanto tempo a palavra de Deus precisará ainda para desenraizar em mim o que ainda não me deixa ser o que eu sou ao olhar de Deus? Não importa quanto, importa estar aberto, dócil, mesmo num sofrimento agudo. Basta não sentir-se sozinho e começar a desacreditar na autoridade de Jesus. Ele é capaz, sim, de criar em mim a verdadeira liberdade, o faz na minha vida quando, embora na condição do endemoninhado, decido não me fechar mas continuar a buscar, mesmo que isto seja aparentemente árido, como o era para aquele homem; «Buscai e encontrareis, batei e vos será aberto…» dirá um dia o Senhor (Mt. 7,7). padre Carlo |
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Entraram em Cafarnaum. No sábado, Jesus foi à sinagoga e pôs-se a ensinar. Todos ficaram admirados com seu ensinamento, pois ele os ensinava como quem tem autoridade, não como os escribas. Entre eles na sinagoga estava um homem com um espírito impuro; ele gritava: «Que queres de nós, Jesus Nazareno? Vieste para nos destruir? Eu sei quem tu és: o Santo de Deus!». Jesus o repreendeu: «Cala-te, sai dele!».O espírito impuro sacudiu o homem com violência, deu um forte grito e saiu. Todos ficaram admirados e perguntavam uns aos outros: «Que é isto? Um ensinamento novo, e com autoridade: ele dá ordens até aos espíritos impuros, e eles lhe obedecem!». E sua fama se espalhou rapidamente por toda a região da Galileia. «Um ensinamento novo, e com autoridade» Hoje, Cristo dirige-nos o seu grito enérgico, sem dúvidas e com autoridade: «Cala-te, sai dele!» (Mc. 1,25). Disse-o aos espíritos malignos que vivem em nós e que não nos deixam ser livres, tal como Deus nos criou e desejou. Se repararmos, os fundadores das ordens religiosas, a primeira norma que põem quando estabelecem a vida comunitária, é a do silêncio: numa casa onde se tenha que rezar, há-de reinar o silêncio e a contemplação. Como diz o ditado: «O bem não faz ruído; o ruído não faz bem». Por isto, Cristo ordena àquele espírito maligno que se cale, porque a sua obrigação é render-se diante de quem é a palavra, que «se fez carne, e habitou entre nós» (Jo. 1,14). Mas é certo que com a admiração que sentimos diante do Senhor, se pode misturar também um sentimento de suficiência, de tal maneira que cheguemos a pensar tal como Santo Agostinho dizia nas próprias confissões: «Senhor, faz-me casto, mas ainda não». A tentação é a de deixar para mais tarde a própria conversão, porque agora não encaixa com os nossos próprios planos pessoais. O chamamento ao seguimento radical de Jesus Cristo é para o aqui e agora, para tornar possível o seu reino, que irrompe com dificuldade entre nós. Ele conhece a nossa tibieza, sabe que não nos gastamos fortemente na opção do Evangelho, mas que queremos contemporizar, ir tirando, ir vivendo, sem alarido e sem pressa. O mal não pode conviver com o bem. A vida santa não permite o pecado. «Ninguém pode servir a dois senhores; porque odiará um e amará o outro» (Mt. 6,24), disse Jesus Cristo. Refugiemo-nos na árvore sagrada da Cruz e que a sua sombra se projete sobre a nossa vida, e deixemos que seja Ele quem nos conforte, nos faça entender o porquê da nossa existência e nos conceda uma vida digna de Filhos de Deus. rev. d. Jordi CASTELLET i Sala |
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Um ensinamento novo, proclamado com autoridade! Jesus entra na sinagoga e lá encontra um homem com um espírito do mal, que agride ferozmente Jesus, anunciando a sua identidade: “sei que és: és o Santo de Deus”. Jesus manda que se cale porque não precisa que o mal revele sua identidade, demonstrando desse modo que ele não veio ao mundo para ser exorcista - embora exerça essa atividade em muitas ocasiões - mas para ser presença da bondade divina no meio do mundo. Esse é um elemento muito importante, porque destaca a identidade de Jesus, não tanto como exorcista, mas como Mestre. “Ele ensina como quem tem autoridade”, dizia o povo. Ele tem um ensinamento que merece ser ouvido, seguido e vivenciado. Um ensinamento que liberta as pessoas do mal e das impurezas, capaz de calar o mal que fala e contamina a vida humana. Ouvimos no Evangelho que Jesus entra na sinagoga, um local onde os judeus se reúnem para ouvir a Palavra de Deus. Naquele local, onde a Palavra de Deus é proclamada e ouvida, havia um homem tomado pelo mal. Alguns estudiosos da Bíblia dizem que a melhor tradução deveria ser: “um homem contaminado pela impureza”. É um pequeno detalhe que ajuda a considerar nossas reações diante de Jesus, diante da proposta do Evangelho. Tantas vezes vivemos em contato com o Evangelho, com a Palavra de Deus... da mesma forma que aquele homem da sinagoga, um local onde a Palavra de Deus era anunciada, mas essa continuava sem efeito nele porque estava contaminado pela impureza. É um assunto muito sério, porque a impureza nos impede de acolher a Palavra de Deus em nós e nos impede de reagir e de pensar com a mesma mentalidade divina. A impureza na vida humana, especialmente a impureza espiritual, é um impedimento para se aproximar de Deus, para conseguir compreender Deus. Muitas são as fontes da impureza, que impedem aproximar-nos de Deus, acolher em nós o Evangelho e crescer na espiritualidade. Existem muitos textos bíblicos que alertam para essa realidade da contaminação com a impureza do mundo que produz distanciamento das coisas de Deus. Quanto mais alguém dá atenção aos convites do mundo, mais distante de Deus essa pessoa se torna. Embora muitos de nós sequer tenhamos visto neve, podemos comparar a contaminação com a mentalidade do mundo a uma boa de neve. Começa pequena no alto da montanha e, à medida que vai descendo, aumenta seu volume e sua velocidade, tornando-se impossível de ser parada; só pára quando se esfacela e se reduz ao nada. É isso que causa o envolvimento com aquilo que provoca impureza na vida da pessoa. Começa simples, pequeno, com desculpas que posso controlar o que estou fazendo e, num dado momento, está rolando montanha abaixo, cada vez crescendo mais a ponto de um dia se esfacelar no nada. Conhecemos muitas pessoas que vivem esse processo de queda livre na impureza e no afastamento contínuo de Deus. Não adianta conselho, não adianta tentar abrir os olhos para mostrar o fim que o espera; nada adianta. Ao contrário, como o homem da sinagoga, quando se procura ajudar e propor Deus, reage ferozmente e agride, chamando isso tudo de besteira. Infelizmente, essa é a realidade de muitas famílias que convivem com pessoas contaminadas pela impureza do mundo e distantes de Deus. O que causou admiração no povo foi a autoridade de Jesus, tanto no seu ensinamento como na expulsão do mal. Disso surge uma questão: “quem é esse homem?” A resposta: Jesus é alguém que ensina com autoridade e tem poder sobre o mal, sobre a impureza da vida humana. Primeiro o ensinamento, a qualidade de quem ensina com autoridade e, por isso, pode ser chamado de Mestre. Alguém que merece ser admirado, ouvido e, acima de tudo seguido. Alguém que nos ajuda a viver no mundo sem nos deixar contaminar com as coisas do mundo. Alguém que, com seu ensinamento, é capaz de conduzir a vida ao encontro da fonte da vida, que está em Deus. Para quem se propõe seguir Jesus, como refletimos nos Domingos anteriores, o seu ensinamento deixa de ser teoria e se torna luz que orienta e conduz para o bem. É dessa forma que, pouco a pouco, vai se formando uma espiritualidade dentro de nós, quer dizer, um modo de pensar e de agir que impede a contaminação com as impurezas do mundo. Vivemos no mundo, fazemos tudo que todo mundo faz: participamos de festas, torcemos por um time de futebol, trabalhamos, rimos e choramos, discutimos e até brigamos... mas temos uma luz que não permite a contaminação com a impureza: o Evangelho. Quem se ilumina no Evangelho se aproxima de Deus e quem está perto de Deus está bem consigo mesmo, com os outros e com aquilo que faz. Vale a pena, portanto, repetir o refrão do salmo responsorial: “hoje, não fecheis o vosso coração, mas ouvi a voz do Senhor”. padre Edson |
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Sirvo a um Deus vivo que liberta O Senhor Jesus, durante Seu ministério terreno, orou por muitas pessoas perturbadas por espíritos imundos. Muitas vezes, expulsou demônios de pessoas religiosas, frequentadoras das reuniões nas sinagogas, como aquela mulher que havia dezoito anos sofria de paralisia. O espírito de enfermidade foi repreendido e a mulher tornou a andar de forma correta (cf. Lc. 13,10-17). No texto deste 4º domingo do tempo comum, encontramos a narrativa da expulsão de um espírito impuro na sinagoga. É o início de uma série de conflitos de Jesus com o rígido sistema religioso judaico e com sua ideologia de superioridade. O conflito final se dará no confronto com as autoridades máximas no templo de Jerusalém. Na narrativa, há quatro menções ao ensino de Jesus. Com Seu ensinamento novo, Cristo causa admiração por Sua prática libertadora da doutrina legalista, elitista e excludente dos escribas, a qual se apossa dos fiéis como um espírito impuro. Jesus, que a todos ensina por meio de Sua prática, toca os corações com Seu amor misericordioso e acolhedor, expulsando deles aquele espírito impuro e libertando-os. É a mudança que vem pela Palavra libertadora e que orienta para uma nova prática nas comunidades. A libertação é uma necessidade da Igreja, pois todos os que buscam Deus estão à procura de um socorro, seja a cura de uma doença ou enfermidade, seja o livramento de um vício, de uma perturbação, medo, depressão, angústia, ou de qualquer outro mal. Ao entrar em uma igreja, o necessitado precisa encontrar o alívio que veio buscar, ter um verdadeiro encontro com Deus. A beleza do lugar, a liturgia ou qualquer dos atributos da Igreja devem ser coisas a ser contempladas após a libertação. Só os verdadeiramente libertos podem louvar ao Senhor de todo o coração. Não se pode dizer: “Sirvo a um Deus vivo que liberta” e viver perturbado, tendo visões de vultos e a doença como uma constante na vida. É bom lembrar também que todo aquele que busca a bênção de Deus deve crer que Ele existe (cf. Hebreus 11,6), pois “tudo é possível ao que crê” (cf. Mc. 9,23); porém, a Igreja deve crer e aceitar a promessa do Senhor e buscar vivê-la. A expulsão de demônios não é tão somente um ministério como alguns afirmam que seja, trata-se, na verdade, do primeiro passo na obra de libertação, está incluído no “ide e pregai” (cf. Mc. 16,1). É uma ordem e não um pedido ou um ato facultativo a alguns que creem. É uma ordem taxativa. Ordem esta que é cumprida por todos aqueles que estão qualificados no critério “crê em mim”. Temos observado inúmeras pessoas que viviam doentes, tristes, depressivas, oprimidas, serem libertas após a oração da fé. Os espíritos malignos convulsionam, caem por terra, são dominados e finalmente expulsos em nome do Senhor Jesus Cristo. O poder de Deus está onde há pessoas que creem, os demônios se manifestam diante do poder do nome de Jesus. Muitas vezes, mesmo antes da chamada “oração forte” feita com fé e em nome de Jesus, a libertação é necessária porque é certo que os males provêm de espíritos malignos, portanto, expulsos os demônios, o homem pode caminhar para grandes e poderosas bênçãos de Deus, o nosso Pai. padre Bantu Mendonça Katchipwi Sayla |
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Na leitura do Evangelho que acabámos de escutar, são Marcos inicia a vida pública de Jesus sem qualquer rodeio, sem qualquer preliminar para além do chamamento dos discípulos nas margens do lago. Jesus começa a sua vida pública em Cafarnaum indo à sinagoga e ensinando aqueles que ali se tinham reunido. São Marcos não nos dá qualquer indicação, qualquer referência do que Jesus ensinou, do que disse àquele grupo reunido na sinagoga para escutar a leitura da Lei. Apenas foi ali e ensinou, mas com uma sabedoria e uma autoridade que todos ficaram maravilhados. Este debutar público de Jesus em Cafarnaum apresenta contudo, e na sua simplicidade, aquele que vai ser o seu método de ensino e pregação ao longo de toda a sua vida, um método que associa o discurso à ação, que associa a palavra ao gesto. E no acontecimento de Cafarnaum, e face à não apresentação do conteúdo do ensinamento de Jesus, vai ser o gesto o que nos revela aquilo que Jesus tinha ensinado àquela multidão. Diante do gesto e da profundidade do seu significado as palavras podiam ser dispensadas, como foram por São Marcos, pois o gesto dizia tudo. Face ao sábio ensinamento de Jesus, que no Evangelho de São Lucas nos é apresentado quando se encontra entre os doutores do templo aos doze anos de idade, perdido de seus pais que o buscam desesperadamente, um homem com um espírito impuro levantou-se e começou a gritar, “que tens tu a ver conosco, vieste para nos perder? Sei quem tu és, o Santo de Deus.” O grito do homem possesso é o enunciado da pregação de Jesus, afinal as palavras que o evangelista não nos quis transmitir. O grito do possesso revela o combate que Jesus tinha anunciado, a luta que se travava entre o bem e o mal, a presença de Deus entre os homens, confessada pelo próprio espírito impuro. Se na experiência do deserto, com as suas tentações, o demônio não tinha a certeza de estar diante do Filho de Deus, do Santo de Deus, agora aqui é claro, pois a batalha já se iniciou, Jesus já se revelou na autoridade e sabedoria com que ensina, uma autoridade muito distante e diferente da dos escribas e doutores da lei. Por isso o espírito impuro afirma com toda a convicção, “eu sei quem tu és”. Este conhecimento da divindade da pessoa de Jesus, pela parte do espírito impuro, é acompanhado do conhecimento do objetivo da sua vida, da razão do mistério da encarnação, ou seja, a vitória sobre o mal e a perdição dos espíritos impuros. Vitória desde já anunciada e prefigurada nessa ordem de Jesus de silêncio e abandono do corpo do homem, prontamente cumprida pelo espírito impuro. Desta forma, e por meio deste relato circunstanciado, ficamos a conhecer as palavras de Jesus, aquele que foi o seu primeiro ensinamento, uma preleção sobre a luta que se trava entre o bem e o mal, entre a verdade e a mentira, e da qual sai vencedor aquele que é o Santo de Deus. São Marcos prossegue o relato deste acontecimento dizendo que todos ficaram muito admirados com o poder de Jesus, com a sua capacidade de se fazer obedecer até pelos espíritos malignos, deixando dessa forma aos seus leitores a oportunidade de também eles se admiraram e de alguma forma perceberem como discípulos, como crentes, que também eles ali estavam implicados. A primeira nota a conservar deste acontecimento e do ensinamento de Jesus é essa consciência de uma luta, de um combate em que todos estamos envolvidos e que dura toda a vida do homem. Há em nós uma oposição entre o bem e o mal, duas forças que se gladiam pela supremacia. Neste sentido não podemos deixar de recordar também as palavras de são Paulo na Primeira Carta aos Coríntios, ou seja, que há circunstâncias do nosso estar no mundo que propiciam a uma tendência para um dos lados, que dificultam o combate pelo bem. São Paulo fala da situação dos casados e dos célibes, mas podemos aplicar o raciocínio a muitas outras dimensões da nossa vida tanto como casados ou solteiros, enquanto situados no mundo. O mundo dificulta-nos o combate. Desta constatação e do acontecimento de Cafarnaum retiramos a segunda nota para a nossa vida como cristãos e discípulos de Jesus, o combate vence-se na medida em que acolhemos aquele que Deus suscitou como profeta entre nós, em que aceitamos partilhar o combate e a vitória já alcançada por Jesus, na medida em que aceitamos que há alguém com poder para silenciar e expulsar os espíritos que nos perturbam, o mal que nos tenta. O acontecimento de Cafarnaum narrado por são Marcos abre-nos assim ao mistério da vida de Jesus que depois se desenvolve em todo o Evangelho, mistério que também é o nosso enquanto situados neste mundo de combate, mas do qual podemos sair vencedores se acolhermos aquele que o espírito impuro declarou o Santo de Deus, o vencedor e libertador de todo o mal. frei José Carlos Lopes Almeida, OP |
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Cala-te e sai dele (Mc. 1,21-28) Em Mc. 1,21-22 diz: “Entraram em Cafarnaum e, logo no sábado, foram à sinagoga. E ali ele ensinava. Estavam espantados com o seu ensinamento, pois ele os ensinava como quem tem autoridade e não como os escribas”. São Jerônimo escreve: “Ao escrever são Marcos o texto de seu Evangelho, não seguiu a ordem da história, porém, guardou a dos mistérios. Daqui que refere como primeiro a santificação dos sábados dizendo: ‘E entram em Cafarnaum”, e: “Quando se reuniam no sábado os escribas, entrou para ensinar na sinagoga. Pelo qual se segue: ‘E entrando aos sábados na sinagoga os ensinava’. A lei mandava celebrar o sábado reunindo-se todos para consagrar-se à leitura. Cristo ensinava argumentando, não adulando como os fariseus. E continua: ‘E se admiravam de sua doutrina, porque os ensinava com autoridade, e não como os escribas’. Ensinava com autoridade, convertendo os homens ao bem e advertindo com penas os que não acreditavam” (Teofilacto), e também: “Os escribas ensinavam também aos povos o que está escrito em Moisés e nos profetas. Porém, Jesus, como Deus e Senhor do mesmo Moisés, com a liberdade de sua vontade acrescenta à lei o que parecia que faltava” (são Beda).
Edições Theologica comenta esse trecho do Evangelho de são Marcos. V. 21. Sinagoga quer dizer reunião, assembléia, comunidade. Assim se chamava – e se chama – o lugar em que os Judeus se reuniam para escutar a leitura da Sagrada Escritura e rezar. Parece que as sinagogas tiveram a sua origem nas reuniões cultuais que celebravam os Judeus cativos na Babilônia, ainda que não se estendessem até mais tarde. No tempo de Nosso Senhor havia-as em todas as cidades e aldeias da Palestina de certa importância; e fora da Palestina, nos lugares onde havia uma comunidade de Judeus suficientemente numerosa. A sinagoga constava principalmente de uma sala retangular, construída de tal forma que os assistentes, sentados, olhassem para Jerusalém. Na sala havia uma tribuna ou estrado onde se lia e se explicava a Sagrada Escritura. V. 22. Aparece aqui como Jesus mostrava a Sua autoridade ao ensinar. Inclusivamente quando tomava como base a Escritura, como no Sermão da Montanha, distinguia-Se dos outros mestres, pois falava em nome próprio: “Mas Eu digo-vos”. O Senhor, na verdade, fala dos mistérios de Deus e das relações entre os homens; explica com simplicidade e com poder, porque fala do que sabe e dá testemunho do que viu (Jo. 3,11). Os escribas ensinavam também ao povo - comenta são Beda - o que está escrito em Moisés e nos Profetas; mas Jesus pregava ao povo como Deus e Senhor do próprio Moisés (cfr In Marci Evangelium expositio, ad loc.). Além disso, primeiro faz e depois diz (At. 1,1) e não é como os escribas que dizem e não fazem (Mt. 23,1-5).
PIB comenta o versículo 21 do capítulo 1 de são Marcos. No tempo de Jesus, quase todas as pequenas vilas tinham sua sinagoga, onde os judeus se reuniam aos sábados para as orações litúrgicas prescritas e para ouvir a leitura e a explicação de trechos da Escritura, tirados da lei e dos profetas. O chefe da sinagoga costumava convidar alguém dos mais versados no conhecimento das Escrituras para que as explicasse. Em Mc. 1,23-28 diz: “Na ocasião, estava na sinagoga deles um homem possuído de um espírito impuro, que gritava dizendo: ‘Que queres de nós, Jesus nazareno? Vieste para arruinar-nos? Sei quem tu és: o Santo de Deus’. Jesus, porém, o conjurou severamente. ‘Cala-te e sai dele’. Então o espírito impuro, sacudindo-o violentamente e soltando grande grito, deixou-o. Todos então se admiraram, perguntando uns aos outros: ‘Que é isto? Um novo ensinamento com autoridade! Até mesmo aos espíritos impuros dá ordens, e eles lhe obedecem!’ Imediatamente a sua fama se espalhou em todo o lugar, em toda a redondeza da Galiléia”. São Beda escreve: “Posto que pela inveja do diabo entrou a morte no mundo, devia realizar a medicina de salvação contra o mesmo autor da morte. Por isso disse: ‘E havia em sua Sinagoga um homem possuído do espírito impuro”, e: “Se chama espírito ao anjo, ao ar e à alma, e também ao Espírito Santo. Assim para que não caiamos no erro por ser um mesmo nome acrescenta impuro, porque é impura a causa da impiedade de seu afastamento de Deus, e porque se mistura em todas as obras impuras e más” (são João Crisóstomo), e também: “Quanta força tem verdadeiramente contra a soberba dos demônios a humildade de Deus, que veio até nós como servo. Isso os demônios também o sabe, porque disseram ao Senhor revestido da debilidade da carne: ‘E exclamou dizendo: Que há entre nós e Tu Jesus Nazareno?’ Nestas palavras se vê claramente que havia neles ciência, mas não caridade” (santo Agostinho, De la ciudad de Dios, lib. 9, cap. 20-21), e ainda: “O demônio dizia que era sua perdição sair do homem, porque os demônios carecem de caridade e julgam que sofrem algum mal quando não perdem aos homens. E segue: ‘Sabemos que Tu és o Santo de Deus” (Teofilacto), e: “É como se dissesse: Tenho posto a atenção em tua vinda, pois não tinha notícia segura e certa da vinda de Deus. Disse-lhe Santo, não como a um de tantos, porque santo era também cada um dos profetas. Disse-lhe que é o único Santo (assim expressa o artigo em grego), e verdadeiramente por temor o reconhece Senhor de tudo” (São João Crisóstomo), e também: “A Verdade não queria o testemunho dos espíritos impuros, e por isso disse: ‘E Jesus o ameaçou dizendo’. Com isso nos dá o saudável ensinamento de que não devemos acreditar nos demônios, ainda que os mesmos anunciem a verdade. E segue: ‘E agitando extraordinariamente o espírito” (Idem.).
O Pe. Gabriel de Santa Maria Madalena comenta esse trecho da palavra de Deus. Refere Marcos que quando Jesus foi à sinagoga de Cafarnaum e “começou a ensinar”, seus ouvintes “maravilhavam-se... porque ensinava como quem tem autoridade”. Até o espírito imundo presente em um pobre possesso, enquanto grita para impedir Jesus de falar, não pode deixar de reconhecer nele “o Santo de Deus”. Depois, quando o Senhor expulsa do possesso o demônio, o espanto dos presentes se transforma em medo: “Que é isto? Uma doutrina nova, ensinada com autoridade! Manda até nos espíritos imundos, e lhe obedecem!” (Mc. 1,21-28). Ensina Jesus nova doutrina: lembremos, por exemplo, as bem-aventuranças, o mandamento do amor, os conselhos evangélicos; e com nova autoridade: expulsa os demônios sem recorrer a exorcismos, mas com a simples ordem, e, com efeito, imediato. Ele é o Homem novo que renova o mundo exatamente porque é o Homem-Deus. Nele a revelação e a comunhão de Deus com os homens chegam ao máximo.
Dom Duarte Leopoldo comenta Mc. 1,23-28. O demônio possui a alma do pecador e pode também, algumas vezes, possuir-lhe o corpo, a ponto de o fazer agir à sua vontade. O demônio reconhece em Jesus um homem extraordinário, um taumaturgo, um profeta, o Santo de Deus. Se ele diz – Vós sois o Filho de Deus – é tão somente para arrancar ao Salvador o seu segredo. Só no Calvário compreendeu ele perfeitamente que estava destruído o seu império sobre as almas. Foi esse o golpe final. Jesus lhe impõe silêncio, porque não quer ser honrado por um espírito mau e imundo. Ele só quer da sua parte a homenagem da obediência. O demônio, diz São Gregório Magno, costuma tentar mais asperamente aquela alma que está próxima a escapar-se dos seus laços, como maltratou a este pobre homem. Por isso, ninguém desanime na tentação. Quem sabe se é a vitória final que se aproxima com a paz e tranqüilidade da consciência? Admiravam-se os judeus não porque Jesus ensinasse uma doutrina inteiramente nova; mas porque se impunha com império e majestade a quantos ouviam as suas palavras.
Edições Theologica comenta Mc. 1,23-28. Vs. 23-26. Os Evangelhos apresentam vários relatos de curas miraculosas. Entre elas sobressaem as de alguns endemoninhados. A vitória sobre o espírito imundo, nome que se dava correntemente ao demônio, é um sinal claro de que chegou a salvação divina: Jesus, ao vencer o Maligno, revela-Se como o Messias, o Salvador, com um poder superior ao dos demônios: “Agora é que é o julgamento deste mundo. Agora é que o Príncipe deste mundo vai ser lançado fora” (Jo. 12,31). Ao longo do Evangelho torna-se patente a luta contínua e vitoriosa do Senhor contra o demônio. A oposição do demônio a Jesus vai aparecendo cada vez mais clara: é solapada no deserto; manifesta e violenta nos endemoninhados; radical e total na Paixão, que é “a hora e o poder das trevas” (Lc. 22,53). A vitória de Jesus é também cada vez mais patente, até ao triunfo total da Ressurreição. O demônio é chamado imundo - diz São João Crisóstomo - pela sua impiedade e afastamento de Deus, e porque se mistura em toda a obra má e contrária a Deus. Reconhece de alguma maneira a santidade de Cristo, mas este conhecimento não vai acompanhado pela caridade. Além do fato histórico concreto, podemos ver neste endemoninhado os pecadores que se querem converter a Deus, libertando-se da escravidão do demônio e do pecado. A luta pode ser longa, mas terminará com uma vitória: o espírito maligno não pode nada contra Cristo. V. 27. A mesma autoridade que Jesus mostrou no ensino aparece agora nos Seus feitos. Faz só com o Seu querer, sem necessitar de múltiplas invocações e conjuros. As palavras e os atos de Jesus evidenciam algo de superior, um poder divino, que enche de admiração e de temor àqueles que O escutam e observam. Esta primeira impressão manter-se-á até ao fim (Mc. 2,12; 5, 20.42; 7,37; 15,39; Lc. 19,48; Jo. 7,46). Jesus de Nazaré é o Salvador esperado. Ele sabe-o e manifesta-o precisamente nos Seus atos e nas Suas palavras, que constituem uma unidade inseparável segundo os relatos evangélicos (Mc. 1, 38-39; 2,10-11; 4,39). A Revelação faz-se com atos e palavras intimamente unidos entre si. As palavras esclarecem os atos; os fatos confirmam as palavras. Deste modo Jesus vai revelando progressivamente o mistério da Sua Pessoa: primeiro as gentes captam a Sua autoridade excepcional, e os Apóstolos, iluminados pela graça de Deus, reconhecerão depois a raiz última dessa autoridade: “Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo” (Mt. 16, 16).
PIB comenta os versículos 23-26 do capítulo 1 de Marcos. Talvez o demônio reconhece, pela santidade eminente de Jesus, que ele é o Messias. Cheio de ódio e de furor, insurge-se e uiva pelo temor de ser destronado e perder o seu despótico poder sobre o mundo. Jesus não discute com ele, afasta-o.
O padre Francisco Fernández-Carvajal comenta esse trecho da Palavra de Deus. Esse trecho do Santo Evangelho fala-nos da cura de um endemoninhado. A vitória sobre o espírito imundo - isso é o que significa Belial ou Belzebu, nome que a Escritura dá ao demônio - é mais um sinal da chegada do Messias, que vem libertar os homens da sua escravidão mais perigosa: a do demônio e do pecado. Este homem atormentado de Cafarnaum dizia aos gritos: Que há entre ti e nós, Jesus Nazareno? Vieste perder-nos? Conheço-te; és o Santo de Deus! E Jesus mandou-lhe de forma imperativa: Cala-te e sai dele. Todos ficaram estupefatos. João Paulo II ensina que não é de excluir que “em certos casos o espírito maligno chegue a exercer o seu domínio não só sobre as coisas materiais, mas também sobre o corpo do homem, motivo pelo qual se fala de ‘possessões diabólicas’. Nem sempre é fácil distinguir o que há de preternatural nesses casos, nem a Igreja é condescendente ou apóia facilmente a propensão para considerar muitos fatos como intervenções diretas do demônio; mas, em princípio, não se pode negar que, na sua ânsia de fazer mal e de induzir ao mal, Satanás chegue a essa expressão extrema da sua superioridade” (Audiência Geral , 13-08-1986). A possessão diabólica aparece no Evangelho acompanhada normalmente de manifestações patológicas: epilepsia, mudez, surdez... Os possessos perdem freqüentemente o domínio sobre si mesmos, sobre os seus gestos e palavras; há casos em que chegam a tornarem-se instrumentos do demônio. Por isso, os milagres que o Senhor realizou neste campo manifestavam o advento do Reino de Deus e a conseqüente expulsão do diabo dos domínios do Reino: “Agora o príncipe deste mundo será lançado fora” (Jo. 12,31). Quando os setenta e dois discípulos voltaram da sua missão apostólica, cheios de alegria pelos resultados colhidos, disseram a Jesus: “Senhor, até os demônios se nos submetiam em teu nome”. E o Mestre respondeu-lhes: “Vi Satanás cair do céu como um raio” (Lc. 10,17-18). Desde a chegada de Cristo, o demônio bate em retirada, mas o seu poder é ainda muito grande e “a sua presença torna-se mais forte à medida que o homem e a sociedade se afastam de Deus” (João Paulo II); devido ao pecado mortal, não poucos homens ficam sujeitos à escravidão do demônio, afastam-se do Reino de Deus para penetrarem no reino das trevas, do mal; convertem-se, em diferentes graus, em instrumento do mal no mundo e ficam submetidos à pior das escravidões. Devemos permanecer vigilantes para saber identificar e repelir as armadilhas do tentador, que não descansa no seu propósito de fazer-nos mal, já que, a partir do pecado original, ficamos sujeitos às paixões e expostos aos assaltos da concupiscência e do demônio: fomos vendidos como escravos ao pecado. Toda a vida humana, individual e coletiva, se apresenta como luta - luta dramática - entre o bem e o mal, entre a luz e as trevas. Mais ainda: o homem sente-se incapaz de neutralizar com eficácia os ataques do mal por si mesmo, a ponto de sentir-se preso entre grilhões. Por isso devemos dar todo o seu sentido à última das súplicas que Cristo nos ensinou no Pai-Nosso: livrai-nos do mal. Além do fato histórico concreto que o trecho do Evangelho nos relata, podemos ver nesse possesso todo o pecador que quer livrar-se de Satanás e do pecado, pois Jesus não veio libertar-nos “dos povos dominadores, mas do demônio; não da prisão do corpo, mas da malícia da alma” (santo Agostinho, Sermão 48). “Livrai-nos, Senhor, do Mal, do Maligno; não nos deixeis cair em tentação. Fazei, pela vossa infinita misericórdia, que não cedamos perante a infidelidade a que nos seduz aquele que foi infiel desde o começo” (João Paulo II). A experiência da ofensa a Deus é uma realidade. E o cristão não demora a descobrir essa profunda marca do mal e a ver o mundo escravizado pelo pecado. São Paulo recorda-nos que fomos resgatados por um preço muito alto e exorta-nos firmemente a não voltar à escravidão. “O primeiro requisito para desterrar esse mal [...] é procurar comportar-se com a disposição clara, habitual e atual de aversão ao pecado. Energicamente, com sinceridade, devemos sentir - no coração e na cabeça - horror ao pecado grave” (são Josemaría Escrivá, Amigos de Deus, 243). O pecado mortal é a pior desgraça que nos pode acontecer. Quando um cristão se deixa conduzir pelo amor, tudo lhe serve para a glória de Deus e para o serviço dos seus irmãos, os homens, e as próprias realidades terrenas são santificadas: o lar, a profissão, o esporte, a política... Pelo contrário, quando se deixa seduzir pelo demônio, o seu pecado introduz no mundo um princípio de desordem radical, que o afasta do seu Criador e é a causa de todos os horrores que se aninham no seu íntimo. Nisto está a maldade do pecado: em que os homens, “conhecendo a Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças, mas perverteram os seus pensamentos em vaidades, vindo a obscurecer-se o seu coração insensato [...]. Trocaram a glória do Deus incorruptível pela semelhança da imagem do homem corruptível, de aves, de quadrúpedes e de répteis” (Rm. 1, 21-25). O pecado - um só pecado - exerce uma misteriosa influência, umas vezes oculta, outras visível e palpável, sobre a família, os amigos, a Igreja e a humanidade inteira. Se um ramo de videira é atacado por uma praga, toda a planta se ressente; se um ramo fica estéril, a videira já não produz o fruto que se esperava dela; além disso, outros ramos podem também secar e morrer. Renovemos hoje o propósito firme de repelir tudo aquilo que possa ser ocasião, mesmo remota, de ofender a Deus: espetáculos, leituras inconvenientes, ambientes em que destoa a presença de um homem ou uma mulher que segue o Senhor de perto... Amemos muito o sacramento da Penitência. Meditemos com freqüência a Paixão de Cristo para entender melhor a maldade do pecado. Peçamos a Deus que seja uma realidade nas nossas vidas a sentença popular tão cheia de sentido: “Antes morrer que pecar”. Embora nunca penetremos suficientemente na realidade do mistério da iniqüidade que é o pecado, basta que nos apercebamos da sua profunda malícia para que nunca queiramos colocar o combate espiritual na fronteira entre o grave e o leve, pois o maior perigo está em desprezar a luta nessas escaramuças que calam pouco a pouco na alma, até a tornarem frouxa, quebradiça e indiferente, insensível aos apelos de Deus. Os pecados veniais - que não causam a morte espiritual, como o pecado mortal, mas, pelo desleixo e pela falta de contrição que implicam, são um convite aos pecados graves - produzem esse efeito funesto nas almas que não lutam por evitá-los, e constituem um excelente aliado do demônio. Sem matarem a vida da graça, debilitam-na, tornam mais difícil o exercício da virtude e mal permitem ouvir as insinuações do Espírito Santo. Para lutar eficazmente contra os pecados veniais, o cristão deve começar por encará-los na sua real importância: causam mediocridade espiritual e tibieza, e tornam realmente difícil o caminho da vida interior. Os santos recomendaram sempre a confissão freqüente, sincera e contrita, como meio eficaz de combater essas faltas e pecados, e caminho seguro de progresso interior. É preciso ter sempre verdadeira dor dos pecados que confessa, por leves que sejam - aconselha são Francisco de Sales -, e fazer o firme propósito de emendar-te daí por diante. Há muitos que perdem grandes bens e muito proveito espiritual porque, ao confessarem os pecados veniais como que por costume e só por cumprir, sem pensarem em corrigir-se, permanecem toda vida carregados deles. padre Divino Antônio Lopes FP. |
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Curador Segundo Marcos, a primeira atuação pública de Jesus foi a cura de um homem possuído por um espírito maligno na sinagoga de Cafarnaum. É uma cena de tirar o fôlego, narrada para que, desde o começo, os leitores descubram a força curadora e libertadora de Jesus. É sábado e o povo se encontra reunido na sinagoga para escutar o comentário da Lei explicado pelos escribas. Pela primeira vez, Jesus irá proclamar a Boa Notícia de Deus precisamente no lugar onde se ensina oficialmente ao povo as tradições religiosas de Israel. As pessoas ficam surpresas ao escutá-lo. Têm a impressão de que, até aquele momento, haviam escutado notícias velhas, ditas sem autoridade. Jesus é diferente. Não repete o que ouviu de outros. Fala com autoridade. Anuncia com liberdade e sem medo a um Deus Bom. De repente, um homem “começa a gritar: Vieste para nos destruir?”. Ao escutar a mensagem de Jesus, se sentiu ameaçado. Seu mundo religioso entra em colapso. É-nos dito que está possuído por um “espírito imundo”, hostil a Deus. Que forças estranhas lhe impedem de continuar a escutar Jesus? Que experiências nocivas e perversas lhe bloqueiam o caminho para o Deus Bom que ele anuncia? Jesus não se acovarda. Vê o pobre homem oprimido pelo mal e grita: “Cala-te e sai dele!”. Ordena que se calem essas vozes malignas que não o deixam encontrar-se com Deus nem consigo mesmo. Para recuperar o silêncio que cura o mais profundo do ser humano. O narrador descreve a cura de maneira dramática. Num último esforço para destruí-lo, o espírito “sacudiu o homem com violência, deu um grande grito e saiu”. Jesus conseguiu libertar o homem de sua violência interior. Colocou fim às trevas e ao medo de Deus. De agora em diante, poderá escutar a Boa Notícia de Jesus. Não poucas pessoas vivem em seu interior de falsas imagens de Deus que as fazem viver sem dignidade e sem verdade. Elas sentem Deus não como uma presença amistosa que convida a viver de modo criativo, mas como uma sombra ameaçadora que controla sua existência. Jesus sempre começa a curar, libertando de um Deus opressor. Suas palavras despertam a confiança e fazem desaparecer os medos. Suas parábolas atraem para o amor a Deus, não para a submissão cega à lei. Sua presença faz crescer a liberdade, não as servidões; suscita o amor à vida, não o ressentimento. Jesus cura porque ensina a viver somente da bondade, do perdão e do amor que não exclui ninguém. Cura porque liberta do poder das coisas, do auto engano e da egolatria. NECESSITAMOS DE MESTRES DE VIDA Jesus não foi um profissional especializado em comentar a Bíblia ou interpretar corretamente seu conteúdo. Sua palavra clara, direta, autêntica, tem uma força diferente que o povo sabe captar imediatamente. Não é um discurso aquilo que sai dos lábios de Jesus. Tampouco, uma instrução. Sua palavra é um chamamento, uma mensagem viva que provoca impacto e abre caminho no mais profundo dos corações. O povo fica assombrado “porque não ensina como os mestres da lei, mas com autoridade”. Esta autoridade não está ligada a nenhum título ou poder social. Não provém da doutrina que ensina. A força de sua palavra é ele mesmo, sua pessoa, seu espírito, sua liberdade. Jesus não é “um vendedor de ideologias”, nem um repetidor de lições aprendidas de antemão. É um mestre de vida que coloca o ser humano diante das questões mais decisivas e vitais. Um profeta que ensina a viver. É duro reconhecer que, com frequência, as novas gerações não encontram “mestres de vida” a quem poder escutar. Que autoridade podem ter as palavras dos dirigentes civis ou religiosos se não estão acompanhadas de um testemunho claro de honestidade e responsabilidade pessoal? Nossa sociedade necessita de homens e mulheres que ensinem a arte de abrir os olhos, maravilhar-se diante da vida e interrogar-se com simplicidade pelo sentido último da existência. Mestres que, com seu testemunho pessoal, semeiem inquietude, contagiem vida e ajudem a propor, sinceramente, as interrogações mais profundas do ser humano. Fazem pensar as palavras do escritor anarquista A. Robin, pelo que podem pressagiar para a nossa sociedade: “Suprimir-se-á a fé em nome da luz; depois se suprimirá a luz. Suprimir-se-á a alma em nome da razão; depois se suprimirá a razão. Suprimir-se-á a caridade em nome da justiça; depois se suprimirá a justiça. Suprimir-se-á o espírito de verdade em nome do espírito crítico; depois se suprimirá o espírito crítico”. O evangelho de Jesus não é algo supérfluo e inútil para uma sociedade que corre o risco de seguir tais caminhos. José Antonio Pagola tradução de Telmo José Amaral de Figueiredo |
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A liturgia do IV domingo do tempo comum garante-nos que Deus não se conforma com os planos de egoísmo e de morte que desfeiam o mundo e que escravizam os homens (espirito mau) e afirma que Ele encontra formas de vir ao encontro dos seus filhos para lhes dar a liberdade e vida plena (profetas e Jesus). A primeira leitura mostra – a partir da figura de Moisés – uma reflexão sobre a experiência profética. O profeta é alguém que Deus escolhe que Deus chama e que Deus envia para ser a sua “palavra” viva no meio dos homens. Através dos profetas, Deus vem ao encontro dos homens e apresenta-lhes, de forma bem perceptível, o seu plano. A segunda leitura convida os cristãos a repensarem as suas prioridades e a não deixarem que as realidades transitórias sejam impeditivas de um verdadeiro compromisso com o serviço de Deus e dos irmãos. O Evangelho de modo simbólico e real nos situa em um sábado. A comunidade está reunida na sinagoga de Cafarnaum para a liturgia sinagogal. Jesus, recém-chegado à cidade, entra na sinagoga – como qualquer bom judeu – para participar na liturgia sabática. A celebração comunitária começava, normalmente, com a “profissão de fé” (cf. Dt. 6,4-9), a que se seguiam orações, cânticos e duas leituras (uma da Torah e outra dos Profetas); depois, vinha o comentário às leituras e as bênçãos. É provável que Jesus tivesse sido convidado, nesse dia, para comentar as leituras feitas. Fê-lo de uma forma original, diferente dos comentários que as pessoas estavam habituadas a ouvir aos “escribas” (os estudiosos das Escrituras). As pessoas ficaram maravilhadas com as palavras de Jesus, “porque ensinava com autoridade e não como os escribas” (vs. 22). A referência à autoridade das palavras de Jesus pretende afirmar que Ele vem de Deus e traz um plano que tem a marca de Deus. A “autoridade” que se revela nas palavras de Jesus manifesta-se, também, em ações concretas (como se a “autoridade” das palavras tivesse de ser caucionada pela própria ação). Na sequência das palavras ditas por Jesus e que transmitem aos ouvintes um sinal inegável da presença de Deus, aparece em cena “um homem com um espírito impuro”. Os judeus estavam convencidos que todas as doenças eram provocadas por “espíritos maus” que se apropriavam dos homens e os tornavam prisioneiros. As pessoas afetadas por esses males deixavam de cumprir a Lei (as normas corretas de convivência social e religiosa) e ficavam numa situação de “impureza” – isto é, afastadas de Deus e da comunidade. Na perspectiva dos contemporâneos de Jesus, esses “espíritos maus” que afastavam os homens da órbita de Deus tinham um poder absoluto, que os homens não podiam, com as suas frágeis forças, ultrapassar. Acreditava-se que só Deus, com o seu poder e autoridade absolutos, era capaz de vencer os “espíritos maus” e devolver aos homens a vida e a liberdade perdidas. Numa encenação com um singular poder evocador, São Marcos põe o “espírito mau” que domina “um homem” presente na sinagoga, a interpelar violentamente Jesus. Sugere-se, dessa forma, que diante do plano libertador que Jesus veio apresentar, em nome de Deus, os “espíritos maus” responsáveis pelas cadeias que oprimem os homens ficam inquietos, pois sentem que o seu poder sobre a humanidade chegou ao fim. A ação da cura do homem “com um espírito impuro” constitui “a prova provada” de que Jesus traz a libertação que vem de Deus; pela ação de Jesus, Deus vem ao encontro do homem para salvá-lo de tudo aquilo que o impede de ter vida em plenitude. Para São Marcos, este primeiro episódio é uma espécie de apresentação de um programa de ação: Jesus veio ao encontro dos homens para libertá-los de tudo aquilo que os faz prisioneiros e lhes rouba a vida. A libertação que Deus quer oferecer à humanidade está sempre acontecendo. O “homem com um espírito impuro” representa todos os homens de todas as épocas, cujas vidas são controladas por esquemas de egoísmo, de orgulho, de auto-suficiência, de medo, de exploração, de exclusão, de injustiça, de ódio, de violência, de pecado. O Evangelho de hoje garante-nos, porém, que Deus não desistiu da humanidade, que Ele não Se conforma com o fato de os homens trilharem caminhos de escravidão, e que insiste em oferecer a todos a vida plena. André Carlos M. Carvalho |
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Acrescentai à reta fé uma vida reta. «Não estejais, pois, seguros a respeito da vossa fé. Acrescentai à reta fé uma vida reta, de modo a confessardes que Cristo veio na carne, quer testemunhando a verdade com palavras, quer vivendo bem com gestos. Porque se confessais com palavras e negais com gestos, trata-se da fé dos maus, próxima à fé dos demônios. Ouvi-me, caríssimos, ouvi-me, que este meu suor não seja testemunha contra vós. Ouvi-me. O apóstolo Tiago, ao falar sobre a fé e as obras contra os que pensavam que a fé lhes bastasse e não queriam dar-se às boas obras, diz: Tu crês que há um só Deus? Fazes bem! Mas também os demônios crêem isso, e estremecem (Tg. 2, 19). Porventura serão os demônios libertados do fogo eterno por isso: porque crêem e estremecem? Eis o que há pouco ouvistes no Evangelho, disse Pedro: Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo (Mt. 16, 16). Lede, e encontrareis que os demônios também disseram: Eu sei quem tu és: tu és o Santo de Deus (Mc. 1, 24). Contudo, Pedro é louvado, ao passo que o demônio é reprimido. A mesma palavra, mas diversos os fatos significados. Em que se distinguem essas duas confissões de fé? Louva-se o amor, condena-se o temor. Os demônios, com efeito, não diziam, movidos por amor: Tu és o Filho de Deus. Diziam-no com temor, não com amor. Em suma, diziam eles em sua confissão: Que queres de nós, Jesus Nazareno? Vieste para nos destruir? (Mc. 1, 24). Pedro, por sua vez, declarou: Estou pronto para ir contigo até à morte (Lc. 22, 33)». santo Agostinho (In Io. ev. tr. 7, 9) tradução: Luciano Rouanet, OAR |
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Ser ou ter autoridade? O cenário do Evangelho do 4º domingo do Tempo Comum (Mc. 1,21-18) é Cafarnaum, “às margens do mar da Galileia, nos confins de Zabulon e Neftali” (Mt. 4,13-14), para onde Jesus se mudara (Mt 9,1). Cafarnaum, em hebraico Kephar Nachûm, é Aldeia da Consolação, ambiente onde aconteceram muitos episódios de destaque (Mt. 8,5; Mc. 2,1-3; Lc. 7,1-10; Jo 4,46-54). Foi ali que Jesus chamou os seus primeiros discípulos (Mc. 1,16-20), como nos disse o Evangelho do domingo passado. O Evangelho nos apresenta as pessoas admiradas com a autoridade de Jesus (Mc. 1,22; Lc. 4,32): viam que Ele era diferente dos escribas e fariseus. Estes possuíam poder, algo dado por outro ser humano; Jesus era autoridade, qualidade que existe sem a necessidade de um poder humano-social. Autoridade e poder não são a mesma coisa. Autoridade (Exousía, na lingua grega) significa algo que vem de dentro, que procede da essência, da substância mais íntima. É algo que dificilmente se adquire, mas algo com o qual a pessoa já nasce. Uma pessoa pode ter poder e não ter autoridade; outra pode ter autoridade sem ter poder. Jesus não tinha poder, mas autoridade: ele não pertencia à casta sacerdotal, não era escriba nem fariseu; era um carpinteiro, mas sua autoridade excedia em altura, largura e profundidade a de todos os outros profetas e pregadores. A força da autoridade também passa pelo caminho do coração e do afeto, da conquista amorosa. A autoridade nada tem de arrogância ou de autoritarismo, que estão próximos do abuso de poder. A verdadeira autoridade nunca abusa de sua força, pois um (im) possível abuso seria a negação de sua essência. Na primeira leitura (Dt. 18,15-20) há também a questão da autoridade: Moisés diz ao povo que Deus fará surgir no meio deles um outro profeta semelhante ao próprio Moisés, que não mais conduzirá os hebreus e não entrará na Terra Prometida. A respeito desse profeta, Deus afirma: “Porei em sua boca as minhas palavras e ele lhes comunicará tudo o que eu lhe mandar” (Dt. 18,18). Esse substituto de Moisés será Josué, cujo nome “coincidentemente” possui o mesmo significado do nome de Jesus: “Javé é o salvador”. Jesus é a Verdade (Jo 14,6), é a Fonte de toda autoridade, que é o próprio Deus (Mt. 19,11). Portanto, quando dizemos no terceiro parágrafo que a etimologia de autoridade é Ex-ousia, a procedência indicada pelo prefixo “ex” nos remete a Deus, princípio de todas as coisas. Ele é a Substância que impregna todos aqueles e aquelas que guiam os irmãos e irmãs em busca de um mundo melhor, mais justo, fraterno e solidário. padre Ismar Dias de Matos |
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Vencendo o mal O Reino anunciado por Jesus provocou as forças do mal, que reagiram de imediato. Sua pregação desmascarava a malignidade de tudo quanto redundava em escravidão para o ser humano e o impedia de se realizar e ser feliz. Jesus se sabia destinado a libertar os oprimidos e escravizados pelo poder do mal. Evidentemente, o processo de libertação não era fácil. Por um lado, os opressores não queriam abrir mão de suas intenções e métodos. Por outro lado, os oprimidos acabavam por se acostumar à sua situação, já não fazendo mais caso dela. A libertação começava quando o escravo do mal se insurgia contra sua situação, com a ajuda de Jesus. Tratava-se de uma terrível luta interior! Às vezes, se pensava que a presença de Jesus só servisse para perturbar. Ele, porém, não se deixava intimidar. Sua presença purificava o ser humano dos espíritos imundos que o flagelavam e contaminavam. Livres de toda escravidão, os que tinham sido beneficiados por Jesus tornavam-se sinal do poder efetivo do Reino. Toda a vida de Jesus foi perpassada de luta contra as forças do mal. Com sua palavra, ele as desarticulava, fazendo o Reino dar seus frutos na história humana. Jesus não cruzava os braços ao se deparar com quem era vítima do mal e do pecado. Sua presença fazia o dinamismo libertador do Reino entrar em ação. |