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Epístola (1Cor. 7,32-35) No domingo anterior vimos como Paulo fala do matrimônio, aclarando serem lícitas as duas opções: casar ou optar por ficar solteiro. Porém, afirma que esta última opção é preferível do ponto de vista religioso. As razões estão nestes versículos que constituem a epístola deste domingo.
A PREOCCUPAÇÃO DO SOLTEIRO. Quero, pois, que estejais despreocupados: o não casado preocupa-se das coisas do Senhor; como agradar ao Senhor (32). DESPREOCUPADOS. Além deste versículo encontramos unicamente esta palavra em Mt. 28,14: E, se isto chegar a ser ouvido pelo presidente, nós o persuadiremos, e vos poremos em segurança, dirão os chefes sacerdotais aos soldados que guardavam o sepulcro ao calar suas bocas com dinheiro: Não vos preocupeis se a vossa falta de disciplina chegar aos ouvidos de Pilatos. Esse é o verdadeiro sentido da palavra: estar apreensivo e inquieto, agitado ou perturbado. A causa da perturbação é o matrimônio. Quem não tem mulher e filhos está livre das inquietudes que os familiares causam e só atende ao serviço de Deus, sendo esta a única preocupação de sua vida. Paulo o declara com poucas, mas gráficas palavras: só se preocupa em agradar ao Senhor. Com esta conclusão, Paulo declara duas premissas importantes, tanto para a vida de um casado como para a vida dedicada a Deus: Primeiro, a finalidade é agradar ao cônjuge, sem o qual o matrimônio seria um uso egoísta do mesmo. E a segunda, que todo serviço religioso, e o que poderíamos chamar a liturgia diária da vida, é um agradar a Deus para que este possa dizer como disse de Jesus no batismo: nele tenho minhas complacências.
AS DIFERENÇAS. Mas o casado, preocupa-se das coisas do mundo: como agradar à mulher (33). Está dividido. A mulher e a virgem, a não casada, preocupa-se das coisas do Senhor a fim de ser imaculada tanto no corpo como no espírito. A casada, porém, preocupa-se das coisas do mundo: como agradar o marido (33). PREOCUPA-SE presente de merimnaö com o significado de estar ansioso, preocupado, como em Mt. 6,25: Por isso vos digo: Não andeis cuidadosos quanto à vossa vida, pelo que haveis de comer ou pelo que haveis de beber; nem quanto ao vosso corpo, pelo que haveis de vestir. Ou como em 1Cor. 12,25: Para que não haja divisão no corpo, mas antes tenham os membros igual cuidado uns dos outros. Porém é evidente que o significado deste versículo é o mesmo que em Fp. 4,6: Não estejais inquietos por coisa alguma. Paulo faz uma distinção entre coisas do mundo e o serviço do Senhor. O caso mais semelhante é o de Marta a quem Jesus teve que repreender: Marta, porém andava distraída em muitos serviços; e, aproximando-se, disse: Senhor, não se te dá de que minha irmã me deixe servir só? (Lc. 10,40). Como vemos pelas palavras de Jesus em Mt. 6,25, AS COISAS DO MUNDO são a comida, a bebida e o vestido, tudo para conservar a vida e agasalhar o corpo. Mas se casado, a mulher é também causa de preocupações. Segundo Paulo ela é carne e ossos do marido como lemos no Gn 1, 23-24 e que ele cita em Ef. 5,31: Por isso deixará o homem seu pai e sua mãe, e se unirá a sua mulher; e serão dois numa carne. Logicamente, o esposo está dividido entre o agrado à mulher e o serviço a Deus. Neste momento, Paulo passa para a mulher e em primeiro lugar propõe a preocupação da não casada a que é ainda VIRGEM não tendo marido, preocupa-se das coisas do Senhor, assim como a viúva. Não toda mulher que perdeu o marido é considerada viúva, segundo Paulo, mas as de uma idade marcada de, pelo menos, 60 anos (1Tm. 5,9) e logicamente deve ser cuidada pelos filhos ou netos (1Tm. 5,4) que eram os que deveriam cuidar dos avós. Logo a verdadeira viúva devia estar livre de toda incumbência e assim ser semelhante a uma virgem. Na época de Paulo as mulheres eram donas de casa e não eram necessários os avós para cuidarem dos netos; mas antes, estes cuidavam dos avós. Assim, as verdadeiras viúvas eram consideradas como virgens, sem outra preocupação que os deveres religiosos. Portanto, livres de outra preocupação, elas estavam unidas ao serviço de Deus, como eram as mulheres que acompanhavam Jesus e o serviam (Lc. 8,2). A elas pede Paulo que se mantenham IMACULADAS, propriamente sagradas, coisa a Deus consagrada que não deve ser tratada como comum, mas com o respeito que merece uma pessoa dedicada ao serviço de Deus. E Paulo acrescenta tanto no corpo [alude à virgindade] como no espírito, ou seja, sem intenção de matrimônio. Este é o melhor elogio da virgindade como superior ao estado matrimonial. E isso, tendo em conta que a doutrina dos rabinos da época era tudo o contrário: Deus tinha abençoado o matrimônio, como diz o Gênesis em 1,28: E Deus os abençoou, e Deus lhes disse: Frutificai e multiplicai-vos, e enchei a terra. Porém, foi Jesus quem substituiu esta bênção especial por um depoimento evangélico: Há eunucos que se castraram a si mesmos, por causa do reino dos céus (Mt. 19,12). Finalmente, Paulo repete, com respeito à mulher, o que no versículo anterior afirmou dos homens solteiros: A casada preocupa-se das coisas do mundo: como agradar o marido.
A FORÇA DO TESTEMUNHO. Portanto digo isto, conveniente para vós mesmos: não para lançar-vos uma cilada, mas (como coisa) honorável e devota ao Senhor, sem distração (35). CONVENIENTE benéfico, vantajoso, útil, lucrativo e como substantivo, proveito. Um exemplo é 1 Cor 10, 33 em que Paulo fala eu em tudo agrado a todos, não buscando o meu próprio proveito, mas o de muitos, para que assim se possam salvar. CILADA propriamente significa laço e sai unicamente neste versículo. Lançar um laço a alguém é o mesmo que obrigar a gente a fazer uma coisa ou escravizá-la de modo a forçá-la a obedecer. Paulo não obriga a ninguém a ser celibatário, mas apresenta o celibato como coisa HONORÁVEL digna de honra como era José de Arimateia: senador honrado, que também esperava o reino de Deus (Mc. 15,43). E DEVOTA é um apax e não existe outro caso no NT que possa nos dar o sentido bíblico da palavra. Derivada de eu [bom] e prosedros [sentado próximo de] o seu significado é o de estar devotado, que modernamente traduzem como estando para vos unirdes ao Senhor. A tradução direta seria assíduo e por isso termina o apóstolo falando sem distração alguma. Outra tradução: ao trato do Senhor sem preocupações. Conclusão: a pessoa que tem o ministério de ser de alguma maneira apóstolo ou seguidor do Senhor deve escolher o celibato. É a forma mais perfeita de agradar o Senhor. Assim o tem feito a Igreja após o Concílio de Elvira (305) e Niceia (325), pondo limitações ao matrimônio de clérigos, até que finalmente Gregório VII em 1074 ordena que todo sacerdote deve ser celibatário; para finalmente, no Concílio I de Latrão decretar que os matrimônios dos clérigos não são válidos. Evangelho (Mc. 1,21-28) - Lugar paralelo: Lc. 4,33-37 O poder contra os demônios. São dois os ensinamentos que podemos extrair do evangelho de hoje. E ambos têm como raiz a pessoa de Jesus e sua autoridade. O primeiro é sobre a sua palavra: autêntica no sentido de diferente dos ensinamentos humanos e com a força de um mandato muito mais do que uma doutrina peculiar ou nova. O segundo é que ele era o único, na época, que podia confirmar suas asseverações com fatos extraordinários que serviam de sinal divino que confirmava sua atuação. Mas vamos explicar as palavras chaves do evangelho em particular.
A SINAGOGA. Então, entraram em Cafarnaum e, imediatamente, aos sábados, tendo entrado na sinagoga ensinava (21). CAFARNAUM: Foi à cidade, centro do ministério de Jesus onde foi morar, situada à beira mar, nos confins de Zabulon e Neftali (Mt. 4,13). Segundo João, depois do sucesso das bodas de Caná desceram a Cafarnaum, ele, sua mãe, seus irmãos e seus discípulos; e ali ficaram alguns dias (Jo 2,12). Foi chamada a própria cidade (Mt. 9,1). Hoje não sabemos com absoluta certeza a localização exata da cidade, como temos escrito nos comentários do domingo anterior. Dentro de Cafarnaum estava a casa de Pedro na qual Jesus residia como hóspede (Mc. 1,29). SINAGOGA: é uma palavra grega que literalmente significa convocação ou assembleia. Para os judeus, era o lugar onde se celebrava o culto religioso aos sábados. Era o substituto de Casa de Deus. A sinagoga começou a existir na Babilônia nos tempos do exílio como substituto do serviço do templo ou talvez para suprir uma necessidade dos exilados de se reencontrarem para matar suas saudades (ver Salmo 137). Foi introduzida por Esdras na Palestina e logo se difundiu por toda a Eretz Israel [terra de Israel]. A palavra hebraica que traduz sinagogé é Knesset. Com o domínio da língua latina, sinagoga entrou em todas as línguas modernas. Antes de tudo, a sinagoga é uma casa de oração e por isso é traduzida como Beit Knesset [casa de reunião] Beit Tefilá [casa das rezas] Beit Midrash [casa de estudo]. Desde o século I dC há notícias de sinagogas nos lugares onde existiam judeus, até mesmo fora da Palestina, como nos diz o livro dos Atos (At. 15,21). Também se reuniam no segundo e quinto dia da semana para ouvir a leitura das Escrituras. Os homens tomavam assentos separados das mulheres. As bênçãos iniciais: Um dos membros da sinagoga é quem fazia oração: Barehú et Adonai hamevorah [Bendizei ao Senhor que é Bendito]. E todos respondiam: Bendito seja o Senhor que é bendito para sempre. O dirigente: Bendito seja o Senhor que é bendito para sempre. Bendito és tu, nosso Deus, rei do universo que nos escolhestes entre todos os povos, e que nos destes a Torah. Bendito és tu Javé Deus, por nos teres dado a Torah. A primeira parte consistia principalmente na leitura de Dt. 6,4-9; 11,16-21; Nm. 15,37-41 e em repetir algumas, ou todas as dezoito orações ou bênçãos, já em uso nos tempos de Jesus e das quais temos um exemplo em 2Mc. 1,24-29, que começa: Senhor, Senhor Deus, criador de todas as coisas, temível e forte, justo e misericordioso, o único rei e o único bom, o único generoso e o único justo, todo-poderoso e eterno, que salvas Israel de todo mal, que fizestes de nossos pais teus escolhidos e os santificastes. Sob a palavra oração encontramos a Tefilá [prece] e também a chamada Amida [de pé, porque era recitada nessa posição]. Finalmente a Shemoné Esré ou as dezoito Bênçãos, foram ordenadas pelos homens que constituíam a Grande Assembleia e logo algumas outras adicionadas após a destruição do templo. Uma delas é a bênção contra os Minim [hereges ou sectários], inserida pelo rabino Gamaliel, em Jabne, contra os cristãos, no final do século primeiro. As três primeiras bênçãos eram para louvar o Criador do céu e da terra como o Deus dos patriarcas em sua onipotência e santidade. Seguem doze bênçãos, com caráter de súplica, pela santificação do nome de Deus, pelo conhecimento derivado da Torah, pela conversão e renovação da vida, pela remissão dos pecados, a salvaguarda das calamidades, cura das dores, por um ano frutífero, pela liberação do povo, e aí entrava a aniquilação dos apóstatas e heréticos [os cristãos], por Israel, Jerusalém, Sião e o templo, e o advento do Messias. Após pedir que a oração fosse atendida, dava-se opção aos desejos particulares. As duas últimas bênçãos eram de ação de graças pelos benefícios obtidos, terminando: Impõe tua paz sobre teu povo Israel e abençoa a todos. Louvado sejas tu, Yahveh, que crias a paz! Eram as BERAHOT que começavam com baruk ata Adonai [louvado seja o Senhor]. O povo ficava de pé durante as orações e todas as pessoas presentes diziam “Amém” quando terminavam. A segunda parte consistia na leitura da lei, feita por diversos assistentes, cada um dos quais lia um parágrafo alternadamente, correspondente a 3 ou 4 versículos atuais. O principal leitor era chamado Ba’al al Koré, e o número de pessoas a ler a mesma, não podia ser inferior a três. Começava e terminava com ação de graças. Seguia-se uma lição dos profetas ou que era lida pelo Maftir [quem conclui] pela mesma pessoa que abria o serviço com a oração. Depois da leitura o leitor ou qualquer outra pessoa presente fazia uma exposição sobre ela. É o que aconteceu em Nazaré, quando da visita de Jesus após sua fama na Galileia (Lc. 4,16-17). O culto terminava com a bênção, pronunciada por um sacerdote, se havia algum presente; e a congregação dizia Amém. Provavelmente era esse momento da leitura dos Neviim, em que Jesus usava a oportunidade da palavra para pregar o advento do Reino. Um pequeno exemplo da pregação de Jesus nas sinagogas é o relato de Lucas acontecido na sinagoga de Nazaré em 4,16-27. Seu comentário estava limitado à explicação das palavras do profeta lido anteriormente. Outro é o discurso ante as multidões explicando as qualidades do Reino à beira do mar e nas montanhas da Galileia.
O ENSINO. E se admiravam sobre o seu ensinamento; pois estava ensinando-os como tendo autoridade e não como os escribas (22). A DOUTRINA: O grego didachê, propriamente é doutrina e não método de ensino. Porém a explicação dada na continuação por Marcos, mais parece apontar para o método, pois Jesus tinha uma maneira peculiar de fazê-lo, como quem tem autoridade e não como os escribas, que geralmente só citavam autoridades anteriores com o argumento de magister dixit [o mestre disse]. Jesus se transforma em mestre dos mestres como um novo Moisés que dita leis e proclama verdades com autoridade própria e não apoiada em superiores prestígios. É só abrir Mateus para ver que Jesus começa muitas de suas asseverações com o ouvistes que foi dito ou ensinado, eu, porém, vos digo ou afirmo (Mt. 5,21).
O POSSESSO. E havia na sinagoga deles um homem com um espírito imundo e gritou (23) dizendo: Ah, que a nós e a ti (sic), Jesus Nazareno? Vieste nos destruir? Tenho conhecido quem és tu: o consagrado de(o) Deus (24). Chama a atenção que um possesso estivesse dentro da sinagoga. Por isso os evangélicos traduzem: Não tardou que aparecesse um homem possesso. O possesso diabólico não é admitido no sentido estrito pela versão persa, e hoje é discutido entre os modernos como foi possível que a pessoa que Jesus mandou calar, segundo Marcos, estivesse dentro da sinagoga sendo um possesso. Lucas não deixa dúvida alguma, pois fala de um homem tendo um espírito de demônio imundo (4,33), embora estas palavras possam ser traduzidas como alguém mal intencionado. Houve tempos em que a única história conhecida e a única cosmogonia aceita eram as procedentes dos textos sagrados. Hoje isso não é mais possível, e ambas são consideradas insuficientes e defeituosas. Será que a mesma coisa não está passando com a demonologia? Porque o que antigamente por todos os cientistas ou médicos era atribuído ao demônio ou espíritos do mal, hoje sabemos que são doenças sem intervenção de seres supra-humanos, ou talvez atribuídas a causas paranormais. A questão é se tais fenômenos são totalmente humanos ou se existem a possibilidade e probabilidade de seres superiores intervirem na consciência e vontade humanas. Desde já podemos afirmar que os fenômenos supranaturais positivos, [influência do Espírito Santo, anjos e santos] são possíveis e é uma realidade da qual nenhum cristão duvida, devido a fatos milagrosos, profecias, etc. afirmadas no N T, como os anjos do sepulcro (Lc. 24,4). Como fenômeno que desafia a ciência temos, após as aparições de Guadalupe no México, uma tilma ou manto que avalia a verdade das mesmas. Mas vamos reproduzir, no possível, as ideias da época. No grego clássico existem duas palavras Daimon [= masculino, deus de segunda ordem, ou destino, porque estava particularmente unido ao deus da sorte] e Daimonion [= neutro, era diminutivo, que é o caso dos evangelhos, e que significa ser espiritual superior ao homem , uma espécie de gênio que pode ser bom ou mau, e que geralmente nos evangelhos só designa uma potência do mal]. Há passagens em que espírito impuro e demônio se identificam pelo mesmo evangelista (Mc. 7,25 e 26). Destes textos e outro paralelos, deduzimos que os espíritos impuros e os demônios eram palavras alternativas de um mesmo fenômeno. Mais: toda pessoa que tivesse algum dom, profético ou milagroso e que não fosse atribuído ao Enthusiasmos [=impulso divino] era considerada movida pelo demônio, como o caso de João Batista que não comia nem bebia (Mt. 11,18) ou o próprio Jesus com autoridade sobre os espíritos do mal (Mt. 9,34) que tinha por sua vez demônio (Jo 7,20 e 8,48) ou tinha um espírito impuro (Mc. 3,30). Por isso é que Marcos fala de um homem em espírito impuro [sem falar de possessão] (1,23). E ao falar das diversas curas refere-se a expulsar daimonia, demônios (34 e 39). Na passagem de Lucas, em que Jesus, imediatamente após esta cura do possesso (?) da sinagoga, cura a sogra de Pedro, podemos ler que Jesus repreendeu a febre como se se tratasse de um demônio e esta deixou o corpo da sogra de Simão (Lc 4,38). Em Mateus e Marcos não existe essa ordem, pois Jesus toma a mão da doente e a febre desaparece. Isso nos leva a perguntar: há alguma relação entre doença e demônios? No grego do NT daimonion é preferível sobre daimon e, muitas vezes, será traduzido por espírito impuro ou imundo, de impureza legal por estar unido aos deuses pagãos, que também recebem o apelativo de demônios (Lv. 17,7 e 1Cor. 10,20); era o oposto ao espírito sagrado que toma posse de um indivíduo de modo temporal ou contínuo. Daimon só aparece três vezes nos evangelhos (Mt. 8,31; Mc. 5,12 e Lc. 8,29), sempre no mesmo caso: o de Gerasa ou Gadara, que formavam legião e foram enviados aos porcos. Daimonion aparece 45 vezes. João nos dá uma dica de que daimonion não significa possessão diabólica tal e qual a entendemos hoje, mas um desarranjo mental ou perturbação temporal, tipo loucura ou psicopatia. Vejamos: Os judeus dizem de Jesus que tem demônio e é um herege ou samaritano (Jo 8,48). Jesus se defende, dizendo que não está com demônio. É o que pensavam seus parentes: que perdera o juízo (Mc. 3,21) e que os fariseus traduzem por ter um espírito impuro (Mc. 3,30). Deduzimos de tudo isso que os demônios e as possessões dos mesmos devem ser selecionados muito criteriosamente, porque abrangem casos de loucura, de epilepsia e outras doenças mentais, sem que hoje possamos discernir as mesmas dentro dos relatos evangélicos. OS DEMÔNIOS: como espíritos que habitam lugares desertos, sem água, misturados às bestas selvagens (Mc. 1,13 e Is. 13,21) dos quais Lilit é o representante da noite (Is 34,14) são puro folclore do AT. Os demônios como causadores de toda enfermidade – e isso acontece hoje nas sociedades indígenas primitivas- não existem. Nem toda doença é causada por um espírito maligno (Jo 9,2) e não é através de exorcismos que ela é curada (Mt. 17,21). Hoje, por meio da medicina e da psiquiatria sabemos que doenças físicas ou psicofísicas têm como causa os micróbios, os vírus e até a própria psique alterada do homem. Muitos fenômenos que poderíamos pensar ultrapassarem as forças naturais são entendidos de modo neutro, sem recorrer a seres malignos, explicados por pura parapsicologia, e são denominados paranormais. O que fica do demônio, outrora confundido com deuses pagãos (Dt. 37,12) e com eles identificado (Sl. 96,5; Br. 4,7)? Praticamente nada. Por isso dos 3 fenômenos que a teologia tradicional atribui ao poder do maligno – tentação, obsessão e possessão – esta última está, na prática, totalmente descartada. Sua explicação é dada pela dupla personalidade adquirida pelo esquizofrênico. Como exemplo vou usar um caso acontecido nos meus tempos de seminário com um adolescente. Ele acreditava que era Nossa Senhora, e apareceu um bom dia cantando a Ave Maria de Gounod em falsete. Quando a sua voz engrossou ao cair da tarde, e não podia cantar com voz de mulher, sua personalidade mudou para a de S. José. Logicamente ninguém acreditou numa possessão benéfica de Maria ou José no pobre louco. Mas se no lugar de tomar essas personalidades tivesse babado, gritado e rolado no chão, blasfemando, sem dúvida que muitos diriam ser um possesso e como tal sobre ele deviam ser lançados os exorcismos da Igreja. Pessoalmente me inclino a pensar que a possessão diabólica é mais uma doença chamada esquizofrenia. Mas como homem de ciência deixo a porta aberta a causas sobrenaturais para casos que considero raríssimos, e que em tempos modernos seriam mais fáceis de distinguir das verdadeiras doenças psíquicas. Segundo o pensar comum da época, bíblico e não bíblico, o ar estava cheio de espíritos, assim como o nosso ar está cheio de micróbios e vírus. Esses espíritos podiam ser bons ou maus. Estes últimos, que são os que nos interessam, habitavam os lugares desertos em grande número, sem água (Lc. 11,24). Nos sinópticos, estes espíritos maus eram chamados de espíritos impuros, sujos, akatharta, traduzido por imundos nas bíblias evangélicas (Mc. 1,23). Lucas os chama de maus em 7,21 e 8,2, ou causadores de doenças (8,2). Esses espíritos tinham como chefe Beelzebu (Mt. 12, 24) ou Belial (2Cor. 6,15). Causavam doenças de todo tipo, especialmente as que não tinham uma causa conhecida. Tais eram surdez, acompanhada da correspondente mudez (Mc. 9,17 e Lc. 11,14). A loucura, como no homem de Gérasa (Mc. 9,17), a quem Lucas chama de endemoninhado (8,27). A epilepsia, como no caso da filha da mulher siro-fenícia (Mc. 7,25) em que vemos que no lugar de espírito impuro também os sinópticos usam o termo demônio. A esclerose múltipla como o caso da mulher encurvada que tinha um espírito de doença (Lc. 13,11), atribuído a Satanás (13,16). Resulta estranho que João, no 4o evangelho, nunca fale deles. SATANÁS OU O DIABO: As duas palavras indicam um mesmo personagem, só que o primeiro é de origem semítica e o segundo é a tradução grega. O significado primordial é de Tentador, fiscal ou promotor. Era o anjo caído, a antiga serpente ou dragão do Éden, que se chama diabo ou satanás (Ap. 12,9). É o inimigo frontal de Cristo e que lutará contra o reino, mas será derrotado no final. É um ser pessoal cuja ação se manifesta também através de seres subalternos por meio da tentação (Mc 1,23) e da disseminação do mal (Mt. 13,25). Ele é o adversário do desígnio de Deus sobre a humanidade. No AT mais do que como adversário ele é tratado como anjo da corte divina que desempenha a ação de fiscal ou acusador (Jó 2,1). Sem opor-se diretamente a Deus, desejaria que sua noção de falsa santidade em Jó fosse a que prevalecesse. Em Zc. 3, 1-5 já se torna adversário de Deus. Em Gn. 3,1 vemos como, sob a forma de serpente, uma misteriosa personagem tem um papel importante na introdução do pecado, da doença e da morte. Suas armas são a astúcia e a mentira (Jo 8,44). A essa serpente, a Sabedoria dá o nome de Diabo (2,24). A humanidade, vencida um dia, triunfará de seu adversário (Gn. 3,15). Cristo veio para reduzir à impotência a quem tinha o domínio da morte (Hb. 2,14) e para substituir o reino do maligno pelo reino de Deus (1Cor. 15,24-28 e Cl. 1,13). Os evangelhos apresentam a vida pública de Jesus como uma luta contra Satanás, luta que começa com as tentações do deserto, nas quais, após o Gênesis, vemos pela primeira vez um filho de Adão (Lc 3, 38) cara a cara com o diabo (Lc. 4,3). Esta luta terá dois aspectos diferentes: um físico ao vencer Jesus com autoridade o que se acreditava era domínio do mal entre os homens possessos, e outro espiritual no enfrentamento com os judeus incrédulos dos quais reclama falta de lógica e maldade do coração por julgarem como falsa sua missão messiânica, tornados por isso verdadeiros filhos do Diabo (Jo 8,44), os mesmos que o Batista já chamou raça de víboras (Mt. 3,7). Na hora da paixão, Satanás parece vencer (Jo 13,2;27; 14,30 e Lc. 22,3); mas na realidade não tem poder algum sobre Cristo e sua missão messiânica, que se cumprirá por meio de seu sacrifício na cruz, como obra do amor e obediência ao Pai (Jo 14,30-31). O império do mundo pertence agora ao Cristo (Fl. 2,10-11). Porém esta luta entre Cristo e Satanás terá que ser repetida em todo cristão. Por vezes será evidente, como quando Paulo é impedido de ir a Tessalônica (1Ts. 2,18). Satanás semeia o joio (Mt. 13,39) e arranca a semente boa da palavra (Mc. 4,15). Como em Judas, entrará em possessão do anticristo ou anticristos (2Ts. 2,7) que já estão em ação e ocultará sua obra maléfica, revestido de anjo de luz (2Cor. 11,14). As almas simples jamais sentirão sua presença, pois Cristo as protege com seus anjos (Mt. 18,10). Porém as almas santas que têm experimentado a presença de Deus serão tentadas como os discípulos (Lc. 22,31) por meio de dúvidas de fé, orgulho pela sua santidade e desesperação pelos pecados cometidos e dos quais parece nunca se livram. O maligno pode tomar até forma sensível, como diz Teresa de Jesus, como um anjo belo e formoso, mas que traz angústia e dúvidas ao coração. Porque Deus permite que as tentações acompanhem as visões para purificação e mérito dos santos. Satanás, pois, existe: é um personagem maligno, empenhado mais na derrota do bem que no triunfo do mal. Nos tempos modernos ele inspira cantos e através de drogas, ritos e cultos, promove independência e liberdade absolutas, fora de toda obediência, em busca da felicidade total. Mas os resultados são destruição e morte, novos líderes messiânicos [Jim Jones] que levam seus adeptos ao suicídio e aniquilamento. Estes sim são fenômenos que sociólogos, teólogos e pastoralistas deveriam estudar para que a fumaça de Satanás não penetre na Igreja de Deus, em palavras de Paulo VI. Outro problema ao qual não é fácil encontrar solução é por que Deus permite sua atuação que, em certo sentido, converge com a existência do mal no mundo. Esse problema só será resolvido no outro mundo e cada um de nós verá como, em definitivo, o mal provocou um bem maior em nossas vidas como canta a Igreja no hino pascal: Feliz culpa que teve tão grande redentor! É índice de maior amor, amar o que não é digno de ser amado, como é o pecador que volta redimido ao bem! Sem o mal- dirá o filósofo – não pode existir o bem. CONCLUSÕES a) Nos tempos de Jesus: Como temos visto há uma série de doenças que hoje certamente sabemos nada tem a ver com espíritos ou demônios. Logo as palavras dos evangelhos não podem ser tomadas fundamentalmente ao pé da letra. A maioria das doenças curadas por Jesus eram normais, quer dizer, sem intervenção sobrenatural. Autores há que afirmam que todas as doenças atribuídas aos demônios têm uma explicação completamente natural, incluídos fatos hoje chamados paranormais. É uma opinião que não deve ser descartada. Quando Jesus escolhe os 12 é para morar com Ele, para enviá-los a evangelizar e ter autoridade de expulsar demônios (Mc. 3,15). Este fato era de grande importância no seu tempo: A mentalidade judaica era de que os demônios tinham um poder praticamente supremo no mundo, devido à idolatria, e que seriam vencidos pelo poder messiânico (Mt. 12,22-45 e Lc. 11,14-26). Jesus usa esse poder e os inimigos o atribuem ao próprio maligno, o que constitui pecado contra o Espírito Santo, Espírito que Jesus tinha e através do qual imperava nos demônios. b) Tempos atuais: Existem endemoninhados no mundo moderno? Uma grande parte dos pastores protestantes afirma que sim. Escutando suas rádios e vendo seus programas televisivos, abundam os possessos tanto quanto os enfermos de câncer. Pelo contrário, não conheço nenhum Padre católico que afirme tal coisa. Pessoalmente eu tenho conhecido epilépticos, neuróticos e histéricos; mas jamais me deparei com um endemoninhado. É verdade que o munus de exorcista não tem sido eliminado dos ritos católicos. Mas vejamos o testemunho de um deles, José Antônio Fortea, pároco de Na. Sa. de Zulema. É um dos dois exorcistas que existem na Espanha. Ele diz que as influências diabólicas são seis, das quais a mais espetacular é a possessão diabólica e esta é rara. Ele afirma que 95% dos casos são doenças mentais. Dos mais de 600 casos em que o outro exorcista teve que intervir só 4 podiam ser considerados como possessão diabólica. Porém existe uma forma de influência diabólica bastante frequente no Brasil: é o caso dos terreiros e centros espíritas. Invocam espíritos. Evidentemente não são dirigidos pelo Espírito Santo em suas formas múltiplas, logo podemos dizer que são espíritos do mal. Para ver a influência dos terreiros e seus pais de santo me contaram que numa pequena cidade de 3500 habitantes na região do sertão, num dia de propaganda política, um determinado candidato visitou 13 terreiros. Lógico é de se supor que seu oponente visitou outros tantos a ele mais próximos. É dessa forma que o inimigo semeador de joio trabalha sem necessidade de ser descoberto como mal; mas camuflado como bem entre os umbandistas, quimbandistas, macumbeiros e kardecistas. O GRITO DO ENDEMONINHADO: Que entre nós e ti? Lucas usa os mesmos termos: Ah! Que entre nós e ti, Jesus Nazareno? (Lc. 4,34). A interjeição Ea que Lucas introduz antes das palavras que entre nós e ti, é uma interjeição de indignação, de espanto misturado com medo. Talvez fosse melhor traduzir por Ai! É interessante saber que o espírito maligno usa o plural: entre nós. Esse nós abrangeria o espírito e o homem possuído, ou esse nós estava referido a todos os espíritos do mal que Marcos compreende como espíritos imundos? (26). Vemos que o oposto a esse nós é precisamente o tu de Jesus Nazareno. É o mal que encontra o Bem e o rejeita com a repugnância de um proscrito infernal. E nisso encontra sua infelicidade e desesperação. É uma visão terrena do que sucede no inferno. Realiza-se o que Tiago na sua carta diz: Os demônios creem e [por isso] tremem (Tg. 2,19). Interessante também, que o nome completo seja Jesus Nazareno. O sobrenome Nazareno está no lugar do pai [patronímico] e na realidade se José fosse o verdadeiro pai o nome completo de Jesus seria Jesus bar Josef (Jo 1,45). Para melhor designá-lo Filipe dirá a Natanael que esse filho de José era de Nazaré e foi com este topônimo [nome do lugar] que Jesus foi e é conhecido até agora. O diabo admite a conceição virginal de Maria. Esse mesmo título era o que Pilatos colocou na cruz (Jo 19,19). Sobre este nome existem duas acepções gregas: Nazarenos [nazareno], como habitante de Nazaré e Nazôraios que foi o nome com que os cristãos foram conhecidos em primeiro lugar. A primeira voz sai 3 vezes em Marcos e uma em Lucas. A segunda sai 2 em Mateus, 1 em Marcos 2 em Lucas e 3 em João. Sem dúvida que é mais uma questão de nome e não de semântica ou de conceito. O SANTO DE DEUS: Na realidade o ‘agios grego deve ser traduzido por consagrado ou sagrado. Tomando o sentido, traduziríamos, como melhor opção, por o Ungido do [verdadeiro] Deus. Era um título messiânico indiscutível. O demônio sabia quem verdadeiramente era esse homem. Além de Messias, o demônio [ou o espírito esquizofrênico que na hora o dominava] sabia que era filho de Deus? Provavelmente não. Jesus ainda não o tinha manifestado e as tentações no deserto não podem ser tomadas como provas, porque Filho de Deus era um título puramente messiânico. Ficamos, pois, com o suficientemente provado: Tu és o Messias, o Ungido de Deus.
O MANDATO. Então Jesus o repreendeu dizendo: Cala, e sai dele (25). A ordem de Jesus é dupla: cala-te primeiro, e logo sai desse homem. A primeira parte corresponde ao segredo messiânico que Marcos respeita quando Jesus cerca seus milagres e sua pessoa ao título de Messias, de modo que não consentia que os demônios falassem, pois sabiam quem ele era (Mc. 1,34). A segunda é a que produz o milagre que todos viram admirados.
A SAÍDA. O espírito, o imundo o agitou, e havendo gritado com grande som, saiu dele. Et discerpens eum spiritus inmundus et exclamans voce magna exivit ab eo Akathartós é a palavra que os evangélicos traduzem por imundo e os católicos por impuro. O significado próprio é sujo, não limpo. Oposto a ele é o espírito ‘agios [divino] (Mc. 12,36) ou espírito de Deus (Mt. 12,28) com o qual Jesus expulsa o demônio. O espírito imundo é substituído por maligno (Lc. 7,21 e 8,2) ou por espírito de demônio imundo (Lc. 4,37) o espírito de enfermidade (Lc. 13,11). Por vezes esse espírito é descrito pelos efeitos de mudez: espírito mudo de Marcos 9, 17 e 25, o endemoninhado cego (Mt. 9,23) e cego e mudo (Mt. 12,22). Uma outra palavra frequente nos evangelhos [11 vezes] é endemoninhado [daimonizomenos]. Até o quarto evangelho usa a palavra contra Jesus em 10,21. De tudo isso devemos concluir que nem sempre espírito akathartós significava possessão diabólica mas certo tipo de doenças que não tinham explicação fisiológica e mais correspondia a doenças mentais ou psíquicas. Porém, dentro das mesmas, havia algumas que se atribuíam na época a demônios e que poderíamos chamar de verdadeiras possessões malignas, com maior ou menor influência do anjo do mal ou capeta em termos vulgares. As outras eram, apesar do nome de espíritos, doenças do espírito ou mentais. E com um grande grito, chacoalhando-o em convulsão saiu dele. Lucas, no lugar paralelo, diz que o demônio o lançou no meio e saiu sem causar-lhe mal algum. Sem dúvida que essa forma de se despedir indica raiva e desesperação. É o único consolo que terá o diabo ante o triunfo de Jesus: derrotado não poderá fazer o mal como é seu costume. Exatamente como saiu do menino epilético em Marcos 9, 26, narração que para Mateus e Lucas termina com uma cura simples.
ADMIRAÇÃO DOS PRESENTES. E se admiraram todos de modo a se questionarem entre eles, dizendo: Que é isto, que doutrina esta, a nova, de modo que com autoridade ordena aos espíritos, os imundos, e lhe obedecem? (27). O assombro dos presentes é duplo: pela doutrina que é nova, sem pretender tirar dela a exposição magistral que também influiria na admiração, pois ele, Jesus, era um simples artesão e não tinha estudos, e logo pela autoridade e comando que tinha dos espíritos imundos que lhe obedeciam. As novidades eram a doutrina e o poder de Jesus. Será o novo mestre da humanidade e o milagre será a confirmação da verdade de sua doutrina, sendo o maior, a sua ressurreição. Por isso dirá Jesus a seus oponentes; Se não acreditais em minhas palavras [e razoamentos] acreditai nas minhas obras (Jo 10,38). Nestes momentos em que a humanidade não sabe distinguir entre a verdade e a falsidade, entre o bem e o mal, existe uma voz que se deixa ouvir com claridade em ambos os problemas: a do Papa, que é o vigário de Cristo. E existem umas obras que podemos ver como divinas: Os milagres que sempre acompanham a vida dos santos dessa Igreja tão universal que chamamos de Católica. Pistas: 1) Existe um livro de Francisco Ansón, intitulado Três milagres para o século XXI, em que descreve a tilma de Guadalupe [México, 1531] o milagre do coxo de Calanda [Virgem do Pilar, 1640], e Fátima [1917]. Recomendo a leitura sem prejuízos e sem paixão. É um livro que produz fortes dúvidas nos agnósticos e certezas incontestáveis entre os crentes. Como sempre, se repete a visão de Simeão: Cristo será sempre sinal de contradição (Lc. 2,34). 2) Vemos como a interpretação dos fatos tem sido totalmente diferente segundo os tempos e os avanços da ciência. Que os curados por Jesus eram doentes, ninguém pode duvidar. Ora, as causas das doenças que não são visíveis diretamente, eram atribuídas a espíritos. Hoje temos outras interpretações mais convincentes e lógicas após os descobrimentos científicos correspondentes. Os fatos são reais, a cura é portentosa. Porque tanto faz seja demônio ou loucura. Ninguém, mesmo nos dias de hoje, cura um esquizofrênico repentinamente. O Milagre não é a cura, mas a falta de tempo para se realizar de modo a responder a um comando de forma imediata. 3) A modéstia de Jesus que quer evitar toda publicidade sobre sua pessoa para centrá-la na doutrina e nos ouvintes, contrasta com a publicidade de certos pregadores modernos que apelam aos fatos prodigiosos para enaltecer suas virtudes ou carismas. É lícito proclamar curas para reunir uma multidão ou devemos proclamar Jesus para anunciar a salvação? 4) No mundo moderno, os fatos que levarão os homens à fé serão as obras de caridade. Jesus já o disse: nisso conhecerão que sois meus discípulos: se permanecerdes em minha palavra (Jo 8,31) e reconhecidos como tais, se tiverdes amor uns pelos outros (Jo 13,35). 5) A impressão de quem estuda a fundo os evangelhos é de que eles formam uma unidade de pensamento que relata uma única vida e que não contradiz o Deus do AT. Não existem contradições ou divergências. E eram quatro os narradores. Tudo o contrário do Al Corão que relata o episódio do bezerro de ouro e também culpa um samaritano pelo mesmo (sura 20,87) ou que um dos filhos de Noé perecesse no dilúvio (sura 11,43). Ou quando admite uma exceção sobre o matrimônio, em favor do profeta. Só se permitem 4 mulheres e a ele se permitem até 12. padre Ignácio |
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Autoridade de Jesus – liberdade do cristão “Jesus entrou na sinagoga e pôs-se a ensinar” (Mc. 1,21). Lemos nas páginas do Evangelho como o Senhor Jesus dá importância à pregação da boa nova: indo de uma cidade a outra para anunciar a sua mensagem e realizando-a com perfeição, com autoridade. As pessoas reconhecem-no: “eis um ensinamento novo, e feito com autoridade; além disso, ele manda até nos espíritos imundos e lhe obedecem!” (Mc. 1,27). Por nossa parte, deveríamos estar muito interessados no que ele nos diz. A formação que vamos recebendo de Cristo através da Igreja tende a fazer-nos homens ou mulheres responsavelmente livres. A nossa liberdade vai sendo educada paulatinamente para que possamos escolher aquelas coisas que nos fazem mais humanos e mais cristãos. Longe, portanto, da autêntica formação a coação e o controle sobre os outros. Não se trata de asfixiar as pessoas para que façam o bem. O importante é ajudá-las a amar o bem, a desfrutar na prática das coisas boas, a ver que somente na realização do bem verdadeiro encontra-se a felicidade. De fato, a autoridade de Jesus não retira a liberdade do cristão, mas a favorece aperfeiçoando-a. Cristo é o Mestre por excelência. Ele, pacientemente, foi formando os discípulos e os apóstolos para uma missão que, sem dúvida, os superava. Não obstante, o Senhor os ensinou a confiar na graça e a lutar decididamente pelas causas que valem a pena e… conseguiram! Os apóstolos não cumpriram a vontade de Deus à força de prescrições legais, mas graças ao fogo do amor de Deus que lhes aquecia o coração e à formação recebida e assumida. Primeiro, o Senhor os fez ativos no amor e, consequentemente, essa caridade tornou-se fecunda através do apostolado que trouxe muitas pessoas ao encontro com o Divino Mestre. Um dos efeitos do ensinamento de Cristo feito com autoridade é a formação da nossa consciência. Neste sentido, o Concílio Vaticano II ofereceu-nos uma definição de enorme beleza: “a consciência é o núcleo secretíssimo e o sacrário do homem, onde ele está sozinho com Deus e onde ressoa a sua voz” (GS. 16). Na consciência ressoa a voz de Deus… É preciso escutá-la! A formação da consciência é um dos requisitos indispensáveis para conseguirmos a perfeição da liberdade. Como se lê no Catecismo da Igreja Católica, “a consciência deve ser educada e o juízo moral, esclarecido. Uma consciência bem formada é reta e verídica. Formula seus julgamentos seguindo a razão, de acordo com o bem verdadeiro querido pela sabedoria do Criador. A educação da consciência é indispensável aos seres humanos submetidos a influência negativas e tentados pelo pecado a preferir seu julgamento próprio e a recusar os ensinamentos autorizados. (…) A educação da consciência garante a liberdade e gera a paz do coração” (Cat. 1783-1784). Deus quer que sejamos os responsáveis pelas nossas próprias ações livres. Mas para que elas fossem verdadeiramente responsáveis e livres, Deus infundiu em nós, por criação, uma luz natural que nos faz agir segundo a reta razão. Contudo, isso não é suficiente! Pela nossa debilidade e pelo pecado, essa luz enfraqueceu-se e, nalguns casos, quase apagou-se. A graça, junto com as virtudes teologais e os dons do Espírito Santo, iluminam e fortalecem de maneira nova o nosso organismo natural tornando mais suave a consecução do fim para o qual fomos criados. Esse fim, que é Deus, torna-se presente em cada um dos fins intermediários que escolhemos diariamente. Estar atentos ao ensinamento de Cristo formará a nossa consciência de maneira eficaz. Mas é preciso conhecer a sua doutrina cada vez mais. E não há como conhecê-la profundamente se não aplicarmos a nossa mente e o nosso coração a ela, especialmente através da leitura da Sagrada Escritura e do Catecismo da Igreja Católica. Mas não é só questão de doutrina, é questão de conhecer o próprio Jesus, a sua Pessoa e a sua obra; é preciso, portanto, tratá-lo na oração, conversar com ele, aprender dos seus gestos e palavras. padre Françoá Costa |
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O demônio, etc. O Evangelho (Mc. 1,21-28) ao narrar a ida de Jesus à sinagoga de cafarnaum, conta que Ele “começou a ensinar” e os seus ouvintes “se maravilhavam… porque ensinava como quem tem autoridade”. Até o espírito impuro, presente num homem, se dá conta da Sua presença e, enquanto grita, não deixa de reconhecer em Jesus “o Santo de Deus.” Ao expulsar o demônio, libertando o possesso, todos ficam maravilhados e dizem: “Que é isto? Eis uma nova doutrina e feita com tal autoridade que até manda nos espíritos impuros, e eles obedecem-lhe”. Desde a chegada de Cristo, o demônio bate em retirada, mas o seu poder é ainda muito grande e “a sua presença torna-se mais forte à medida que o homem e a sociedade se afastam de Deus” (beato papa João Paulo II); devido ao pecado mortal, não poucos homens ficam sujeitos à escravidão do demônio, afastam-se do Reino de Deus para penetrarem no reino das trevas, do mal; convertem-se, em diferentes graus, em instrumento do mal no mundo e ficam submetidos à pior das escravidões. A experiência da ofensa a Deus é uma realidade. E o cristão não demora a descobrir essa profunda marca do mal e a ver o mundo escravizado pelo pecado, ensina a Gaudium et Spes, 13. São Paulo recorda-nos que fomos resgatados por um preço muito alto (1Cor. 7,23) e exorta-nos firmemente a não voltar à escravidão. Ensina são Josemaría Escrivá: “O primeiro requisito para desterrar esse mal é procurar comportar-se com a disposição clara, habitual e atual, de aversão ao pecado. Energicamente, com sinceridade, devemos sentir – no coração e na cabeça – horror ao pecado grave” (Amigos de Deus, 243). O pecado mortal é a pior desgraça que nos pode acontecer. Quando um cristão se deixa conduzir pelo amor, tudo lhe serve para a glória de Deus e para o serviço dos seus irmãos, os homens, e as próprias realidades terrenas são santificadas: o lar, a profissão, o esporte, a política… “Pelo contrário, quando se deixa seduzir pelo demônio, o seu pecado introduz no mundo um princípio de desordem radical, que afasta do seu Criador e é a causa de todos os horrores que se aninham no seu íntimo. Nisto está a maldade do pecado: em que os homens tendo conhecido a Deus não o honraram como Deus nem lhe renderam graças. Pelo contrário, extraviaram-se em seus vãos pensamentos, e se lhes obscureceu o coração insensato… Trocaram a verdade de Deus pela mentira e adoraram e serviram à criatura em lugar do Criador, que é bendito pelos séculos” (Rm. 1,21-25). O pecado – um só pecado – exerce uma misteriosa influência, umas vezes oculta, outras visível e palpável, sobre a família, os amigos, a Igreja e a humanidade inteira. Se um ramo de videira é atacado por uma praga, toda a planta se ressente; se um ramo fica estéril, a videira já não produz o fruto que se esperava dela; além disso, outros ramos podem também secar e morrer. Renovemos hoje o propósito firme de repelir tudo aquilo que possa ser ocasião, mesmo remota, de ofender a Deus: espetáculos, leituras inconvenientes, ambientes em que destoa a presença de um homem ou uma mulher que segue o Senhor de perto… Amemos muito o sacramento da penitência (confissão). Meditemos com freqüência a Paixão de Cristo para entender melhor a maldade do pecado. Os santos recomendaram sempre a confissão freqüente, sincera e contrita, como meio eficaz de combater essas faltas e pecados, e caminho segura de progresso interior. Dizia são Francisco de Sales: “Deves ter sempre verdadeira dor dos pecados que confessas, por leves que sejam, e fazer o firme propósito de emendar-te daí por diante. Há muitos que perdem grandes bens e muito proveito espiritual porque, ao confessarem os pecados veniais como que por costume e só por cumprir, sem pensarem em corrigir-se, permanecem toda a vida carregados deles”. “Oxalá não endureçais os vossos corações quando ouvirdes a sua voz” (Sl. 94,7-8). Peçamos ao Espírito Santo que nos ajude a ter um coração cada vez mais limpo e forte, capaz de cortar o menor laço que nos aprisione, e de se abrir a Deus tal como Ele espera de cada cristão. E, assim seremos capazes de entender e acolher a mensagem de são Paulo que apresenta a beleza e a grandeza do seguimento do Senhor, no celibato. São Paulo, advertindo que os casados, sujeitos aos deveres familiares, não podem entregar-se ao serviço de Deus com a mesma liberdade que os celibatários, louva e aconselha a virgindade que permite ocupar-se nas coisas de Deus com um coração indiviso e sem preocupações (1Cor. 7,32-35). A Virgindade consagrada é uma maneira típica da novidade da resposta, que devem a Deus os seguidores de Cristo e tem, ao mesmo tempo, a função de recordar a todos os crentes que, em todas as coisas, o primeiro lugar pertence a Deus. mons. José Maria Pereira |
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Estamos celebrando o IV domingo do tempo comum. Hoje, a Palavra de Deus garante-nos que Deus não se conforma com os projetos de egoísmo e de morte que desfeiam o mundo e que escravizam os homens e afirma que Ele encontra formas de vir ao encontro dos seus filhos para lhes propor um projeto de liberdade e de vida plena. Primeira leitura: Deuteronômio 18,15-20 Estamos perante um texto verdadeiramente institucional do profetismo em Israel. Moisés não é simplesmente o libertador da escravidão do Egito e o legislador e organizador do povo, mas é tido como o primeiro e o modelo de todos os profetas (cf. Dt. 34,10). O contexto dos vs. 19-22 deixa ver que profeta tem aqui um sentido coletivo; alude-se à permanência do carisma profético ao longo da história do povo. Mas também se pode incluir aqui o próprio Messias, como reconhecia a tradição judaica no tempo de Jesus, concretamente os manuscritos de Qumrã (1 QS 9). O v. 18 é citado textualmente no discurso de Pedro no Templo (At. 3,20-23) e em são João Jesus é chamado «o profeta» (Jo 6,14; 7,40; cf. 1,21.45). Jesus cumpre esta profecia de modo eminente. Segunda leitura: 1 Coríntios 7,32-35 Na continuação do texto do passado Domingo, são Paulo continua a fazer a apologia do celibato por amor do Senhor. Aqui recorre a outro argumento a favor: «aquele que se casou… encontra-se dividido» (v. 34). Mesmo que a pessoa casada ame o seu cônjuge por amor de Deus, com um amor reto e puro, sem mistura de egoísmo, a verdade é que nela se produz uma inevitável divisão afetiva, para além do fato de não dispor de tanto tempo para dedicar só a Deus. São Paulo louva e encarece o celibato por amor do Reino, mas sem o impor (cf. vs. 25-26.38.40). O Magistério da Igreja definiu solenemente a superioridade do celibato apostólico sobre o matrimônio, mas isto não quer dizer que os casados não estejam chamados igualmente à santidade, nem que não possam vir a ser até mais santos do que muitos que vivem o celibato apostólico; o que sucede é que estes arrancam de um escalão mais elevado rumo à santidade – a entrega dum coração indiviso –, embora possa suceder que não cheguem tão alto como muitos casados podem chegar. Convém sublinhar que este ensinamento paulino é original e está ao arrepio da mentalidade da época, nada tendo que ver com o desprezo pelo corpo, pela mulher e pelo matrimônio, próprio do maniqueísmo posterior; a mentalidade da época era avessa à continência e até à castidade em geral; o celibato praticado pelo insignificante grupo dos essênios era um fenômeno isolado e sem qualquer impacto. O apreço de Paulo pela santidade do matrimônio leva-o a propô-lo como imagem da união entre Cristo e a Igreja (cf. 2Cor. 11,2; Ef. 5,21-33). Evangelho: Marcos 1,21-28 O final do texto da leitura evangélica de hoje (v. 27) põe em evidência dois aspectos notáveis: a autoridade de Jesus e o seu poder sobre os demônios. Jesus ensina uma «nova doutrina» – é a novidade do Evangelho – e «com que autoridade!». Não era «como os escribas» (v. 22); de fato, estes limitavam-se a repetir as lições que procediam da tradição rabínica, a lei oral atribuída a Moisés. Jesus não é um repetidor, ainda que frequentemente recorra aos ensinamentos dos mestres de Israel (cf. Strack - Billerbeck), nunca os cita e as suas palavras sempre estão iluminadas por um espírito novo. Nunca apela para os mestres rabínicos e, quando apela para Moisés, atreve-se a acrescentar: «Eu, porém, digo-vos». O outro aspecto é o poder sobre os demônios. Que o demônio existe não se pode pôr em dúvida. Que as doenças eram então atribuídas ao demônio também é verdade. Que todas as vezes que Jesus cura um endemoninhado, o que faz é simplesmente curar algum tipo de doença psíquica era o que em 1.779 escrevia o protestante J. S. Semler e alguns hoje repetem, sem que o possam provar. Recentemente a Igreja católica publicou o ritual dos exorcismos, onde aparecem orações que qualquer pessoa pode rezar para se livrar do demônio e onde estão os exorcismos propriamente ditos que só se podem fazer com autorização da autoridade diocesana e só depois de esgotados todos os recursos humanos de ciência médica. 24-25 - «Eu sei quem Tu és: o Santo de Deus» Não é uma confissão de fé do demônio, mas um expediente para captar o favor de Jesus, que o Evangelista registra para mostrar quem é Jesus. «Cala-te e sai desse homem» é a forma original que Jesus emprega para expulsar demônios, ao invés dos exorcistas tradicionais, que se serviam de várias técnicas complicadas e demoradas; a palavra de Jesus encerra um poder divino, pois para Deus basta dizer, para que se faça o que Ele quer (cf. Gn. 1). Sugestões para a homilia A liturgia da Palavra deste domingo fala-nos da comunicação que Deus estabeleceu com o seu povo, através dos profetas, que falam em seu nome e, por último, do Profeta, Jesus Cristo, a própria Palavra de Deus encarnada. Um Deus próximo A primeira leitura, do livro do Deuteronômio, apresenta-nos Moisés, o pai dos profetas, que anuncia o aparecimento de outro profeta, que surgirá depois dele, numa clara referência a Jesus de Nazaré. O Deus de Israel revela-se, assim, um Deus próximo, capaz de usar a linguagem humana para se dirigir a nós, seu filhos e filhas. Um Deus que liberta O Evangelho narra-nos como Jesus exerceu a sua missão profética junto do povo a quem foi enviado. Solidariza-se com a dinâmica do seu tempo. Entra na sinagoga, o sábado e, no meio da comunidade de culto, começa a ensinar. De tal modo eram eloquentes as suas palavras que conseguiu maravilhar quantos o escutavam. Porém, Jesus afasta-se do modo de ensinar dos mestres de Israel, pois à sua palavra une a ação. Estava ali um homem perturbado, possesso de um espírito impuro, que altercava com Jesus, querendo-o afastar do meio do povo. Jesus, Mestre cheio de autoridade, manifesta o seu poder também nesta ação maravilhosa de serenar o homem perturbado e de lhe criar as condições para escutar os seus ensinamentos, expulsando esse espírito desorientador. Jesus prova-nos que tem força para falar e agir como Deus que é. Este Mestre continua hoje a sua ação no mundo e na Igreja, no meio do seu povo e nas assembléias cristãs. Reconheço o poder de Jesus, Palavra viva de Deus, e deixo-me libertar por Ele de todas as forças que se opõem aos seus ensinamentos? É Jesus o Senhor na minha vida e na minha comunidade? Um Deus que ama sem limites Na segunda leitura, Paulo lança-nos uma provocação sobre o valor da virgindade. No seu tempo, como no nosso, este valor passou a ocupar o último lugar na escala, se é que não desapareceu mesmo no horizonte de muitos dos nossos contemporâneos. Porém, a virgindade por amor do Reino dos Céus continua a ser um sinal profético, que anuncia às pessoas que a nossa pátria definitiva está em Deus e que é possível viver desde aqui e agora o mesmo estilo de vida que todos havemos de viver na eternidade. Trata-se, acima de tudo, de um amor sem limites á imagem do amor de Deus que a todos ama e guarda. Ano paulino Paulo experimentou este amor de Deus sem limites revelado em Jesus, ao ponto de tornar-se o «apóstolo apaixonado» por Cristo. Como ele próprio afirmou, tudo é lixo, a não ser Cristo e Este crucificado (cf. 1 Coríntios 2,2). Tudo o mais só em relação a Ele e por causa d’Ele. Por isso O deseja dar a conhecer e afirma que geme e sente as dores de parto para gerar Cristo nos outros (cf. Gálatas 4,19). Conquistado por Jesus Cristo a caminho de Damasco, vive doravante para Ele, sente o desejo de O anunciar, quer fazê-Lo conhecer mais. Alma e coração em fogo, Paulo vive para Jesus e deseja salvar o maior número possível, a ponto de afirmar: «fiz-me tudo para todos, para salvar alguns» (1 Coríntios 9,22). Audácia, ânsia apostólica que não o deixa sossegado. Colabora de um modo destemido e audacioso no trabalho do Reino, no anúncio de Jesus, no desejo da salvação de todos. Procuremos seguir estes passos de são Paulo, levando a todos, por um novo fervor missionário, o fogo do amor redentor de Deus. Nuno Westwood - Geraldo Morujão |
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A primeira leitura propõe-nos – a partir da figura de Moisés – uma reflexão sobre a experiência profética. O profeta é alguém que Deus escolhe, que Deus chama e que Deus envia para ser a sua “palavra” viva no meio dos homens. Através dos profetas, Deus vem ao encontro dos homens e apresenta-lhes, de forma bem perceptível, as suas propostas. A segunda leitura convida os crentes a repensarem as suas prioridades e a não deixarem que as realidades transitórias sejam impeditivas de um verdadeiro compromisso com o serviço de Deus e dos irmãos. O Evangelho mostra como Jesus, o Filho de Deus, cumprindo o projeto libertador do Pai, pela sua Palavra e pela sua ação, renova e transforma em homens livres todos aqueles que vivem prisioneiros do egoísmo, do pecado e da morte. A profecia do Amor Nosso Deus nos compreende. Sabe que o ser humano não é capaz de resistir à sua Presença infinita, de escutar sua Palavra de fogo, de agüentar seu olhar penetrante. Nosso Deus sabe que -nas condições atuais de nossa existência- um encontro "cara a cara" com Ele seria para nós mortal. Se nossos olhos não podem suportar a luz direta do sol, se nossos tímpanos arrebentam ante um ruído forte, se nossa pele se abrasa na cercania do fogo, como tentar manter-nos ante a ardente Presença de nosso Deus? Como pretender escutar ao vivo sua Voz? É um ídolo esse "deus" do qual alguns presumem estar tão próximo. É um "deus" sem mistério, vulgar, ritualista, que não estremece, nem emociona; que é o recurso fácil de homens e mulheres assim chamados "religiosos". Esse é um "deus" do qual se sabe tudo, cuja vontade se conhece e quem seus devotos se transmitem "ao vivo". O Deus de nossa revelação não é assim. Nosso Deus é o Mistério de todos os mistérios. É o Invisível por excesso de claridade, o Inaudível por excesso de Voz e de Palavra, o Inatingível por excesso de imensidão e Presença. Por isso, bem entendeu sua essência o povo de Israel no Sinai, quando ante sua Presença se sentia morrer! O qual obrigou a Deus a dizer a Moisés: "Têm razão! Suscitarei um profeta entre teus irmãos... porei minhas palavras em sua boca.... Falará em meu nome". Que imensa é a condescendência de Deus! Como sabe abaixar-se, pôr-se à nossa altura, contextualizar-se em nossos limites! O profeta eleito não será um super-homem, nem um extraterrestre, mais "um de nossos irmãos". Ele será a voz de Deus, seu sacramento vivente, sua presença tangível e audível. Nele encontramos a "abreviatura de Deus", com Ele o mistério de Deus está ao nosso alcance. Esse irmão nosso, esse profeta de Deus é JESUS . Assombrava com sua doutrina "do tudo especial", com sua forma de ensinar com autoridade, e não como os escribas e fariseus. Suas palavras e gestos eram eficazes, transformadores. Não era profeta de diagnósticos de morte, mais também de curas e ressurreições. Não pedia coisas impossíveis, senão que lhe seguíssemos e que confiássemos na força milagrosa de seu Espírito. Não era só um detector de demônios, mais um exorcista que os vencia em qualquer circunstância. Compartilhar a missão profética de Jesus é uma honra, um presente concedido a quem se incorpora ao seu Corpo pelo Batismo e a Eucaristia. Também nós podemos ser presença e manifestação acessível de Deus para nossos irmãos e irmãs. Também nós recebemos o dom profético que consiste mais em salvar do que em condenar, mais em fazer viável o caminho que em detectar os obstáculos, mais em anunciar a Graça que em denunciar o pecado. No entanto, somos profetas "sem autoridade" quando exercemos o ministério do "blá-blá-blá", falando por falar e sem ter nada especial que dizer, quando criticamos a sociedade, a Igreja, aos nossos, sem oferecer soluções factíveis e viáveis. O pior, no entanto, é suplantar a Deus. Dizer em seu nome o que Ele não disse. Daí nascem religiões idolátricas, as ditaduras religiosas, as profecias que brotam da violência interior e que geram contextos de profunda amargura. Quem fala em nome de Deus sem o impulso de Deus é um idólatra de si mesmo, um demônio. Por isso, cuidado com a profecia! Não queiramos ser profetas tão facilmente. Proclamemos a Palavra com temor e tremor e não com auto-suficiência. Falemos quando já não podemos encerrar no coração o Fogo. E então deixemos que o Verbo de Deus utilize nossa boca, que o Espírito de Deus gema em nosso ser. Só então seremos profetas do Único profeta! A encíclica primeira do papa Bento XVI me parece como um gemido do coração, como uma mensagem de Graça de um humilde porta-voz da Voz. É um canto ao Amor que todos precisamos para que nossa profecia indique que ali está Deus. O amor condescendente, que se abaixa e que utiliza nossa linguagem é a forma como Deus chega a nós. José Cristo Rey García Paredes |
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A virgindade sempre se dá bem no casamento Na sua "Introdução à vida devota," são Francisco de Sales, doutor da Igreja (1567 - 1623), diz que colocar em prática o Evangelho (o que entendemos por "devoção") é possível e necessário em todas as esferas da vida do batizado, sem exceção: "É um erro, ainda mais, uma heresia, pretender excluir o exercício da devoção do ambiente militar, da oficina dos artesãos, da corte dos príncipes, das casas das pessoas casadas." O santo bispo de Genebra, depois de ter exemplificado alguns estados particulares de vida que corresponde a um modo próprio e legítimo de seguir ao Senhor, conclui: “a devoção não destrói nada quando é sincera, mas antes aperfeiçoa tudo e, quando incompatível com os compromissos de alguém, é definitivamente falsa. " A mensagem é clara: em todas as condições humanas pode-se e deve-se testemunhar Jesus Cristo. Estas palavras nos ajudam a entender a segunda leitura. Paulo, respondendo às perguntas do Coríntios, havia declarado abertamente uma preferência pela virgindade mais do que pelo casamento: "Estás livre de mulher? Não vá buscá-la" (1Cor. 7,27). Ele começou a falar dos dois estados de vida com uma declaração surpreendente, e que certamente não deve ser tomada literalmente: "É bom para o homem não tocar em mulher" (1Cor. 7,1). O apóstolo aqui assume a questão de se é ou não é lícito a um cristão ter relações sexuais ("tocar uma mulher"), ou seja, é preferível para Deus: se casar ou não se casar? Ele já descartou categoricamente a "porneia" (relações pré-matrimoniais), e agora compara a condição das pessoas casadas com aquela das pessoas virgens. A afirmação: "Quem não tem esposa, cuida das coisas do Senhor e do modo de agradar ao Senhor. Quem tem esposa, cuida das coisas do mundo e do modo de agradar à esposa, e fica dividido” (1 Coríntios 7,32-34), não tem a intenção de mortificar o estado conjugal em comparação com a virgindade consagrada. Para Paulo, todos os crentes, homens e mulheres, casados ou não, devem se comprometer a viver o próprio estado de vida como um dom universal de santidade, em Cristo. Claro, aos esposos não faltará as suas específicas "preocupações", com algum esforço para viver em plenitude o relacionamento com o Senhor; mas as relações sexuais são legítimas e santificadoras, desde que nenhum dos cônjuges faça delas um uso egoísta. Neste sentido, a preocupação fundamental dos cônjuges não deve ser aquela de "sim/não" à relação sexual, mas do "sim" à verdade desta diante de Deus E a verdade do relacionamento conjugal é esta: Deus quer que os dois sejam "uma só carne" (Mt. 19,4-6), e que o sejam de modo "virginal", isto é, com pureza de coração e com pureza de amor. Puro é o coração que no dom de si deseja em primeiro lugar, a felicidade do outro, sem instrumentalizar a relação sexual para o próprio prazer; puro é o amor, doado e recebido, que reconhece em Deus a sua Fonte e obedece cada dia a sua vontade e verdade. É "o espírito dos cônjuges que não deve nunca ficar "impuro", sugere Paulo, sabendo bem que a concupiscência da carne, mesmo no casamento, é um pecado grave e tentação do diabo, porque contradiz radicalmente o significado esponsal inscrito pelo Criador no corpo. Voltando agora ao Evangelho, compreendemos que o egoísmo sexual conjugal, mesmo se partilhado, é para o matrimônio uma ruína essencialmente "diabólica" ("diabo" é o outro nome de Satanás, que 'divide'), causa de profunda e dolorosa separação da alma do marido da alma da esposa, até mesmo na união dos seus corpos. Em conclusão, sirvo-me aqui ainda de são Francisco de Sales: seja a devoção daqueles que não são casados, seja daqueles que são casados, são verdadeiras e justas diante de Deus, ainda que, nos dois diferentes estados de vida, igualmente chamados à santidade, cada um, também "nas coisas do mundo" antes de mais nada se preocupe "das coisas do Senhor" (1Cor. 7,32-33), ou seja, é o mesmo que dizer: buscar estar fazendo a Vontade de Deus em todas as suas ações. padre Angelo del Favero |
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«Jesus repreendeu-o, dizendo: 'Cala-te e sai desse homem'» «A Palavra de Deus é viva e eficaz, mais penetrante que uma espada de dois gumes» (Heb. 4,12). Com estas palavras, o apóstolo mostra toda a grandeza, força e sabedoria da Palavra de Deus aos que procuram a Cristo – a Ele que é a palavra, a força e a sabedoria de Deus. [...] Quando pregamos esta Palavra de Deus, essa pregação dá à palavra exteriormente perceptível a força da Palavra interiormente percebida. Assim, os mortos ressuscitam (Lc. 7,22) e este testemunho faz surgir novos filhos de Abraão (Mt. 3,9). Esta Palavra é, por conseguinte, viva. É viva no coração do Pai, viva nos lábios do pregador, e viva nos corações cheios de fé e de amor. E, porque é uma Palavra viva, não há nenhuma dúvida de que também é eficaz. Ela age com eficácia na criação do mundo, na sua governação e na sua redenção. O que poderá ser mais eficaz ou mais forte do que ela? «Quem poderá contar as obras do Senhor e apregoar todos os Seus louvores?» (Sl. 106,2). A eficácia desta Palavra manifesta-se nas suas obras; manifesta-se também na pregação. Porque ela «não volta sem ter produzido o seu efeito» (Is. 55,11), mas aproveita a todos a quem foi enviada. A Palavra é, por conseguinte, eficaz e mais penetrante que uma espada de dois gumes, quando é recebida com fé e amor. Com efeito, nada é impossível para quem crê, e nada é duro para quem ama. Balduíno de Ford |
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“Que temos contigo, Jesus Nazareno”? Quem não quer um “deus” domesticado, preso e alimentado em gaiolas religiosas, cada uma mais certa de sua segurança doutrinal? Gaiolas de arame, de prata ou de ouro, não importa, têm uma finalidade: impedir os vôos do pássaro livre que chamamos Deus. O pássaro preso chora, achamos que está cantando. Até as crianças sabem que não podem prender Deus sem lhe tirar a beleza essencial que, vista em liberdade, inspira os melhores valores do “éthos divino”, transcendências onde se observam o cuidado, a misericórdia, o respeito e a exigência de dignidade humana para todos os homens e mulheres. Por que a tentação da gente religiosa em forçar e manipular a divindade? Por que eu preciso para minha vida de um “deus” doméstico e domesticado, imagem e semelhança do que fazemos uns com os outros, de acordo com nossas conveniências pessoais, ou institucionais? Voltaire disse, irreverentemente: “Se é verdade que o homem é imagem e semelhança de Deus, é também verdade que (seu) Deus é imagem e semelhança do homem”, referindo-se ao teísmo religioso tão a gosto de tantas lideranças políticas ou religiosas. Chavões muito ouvidos, ultimamente, “encontro tremendo”, “quebra-de-maldição”, “modelo dos 12 (G12)”, “Igreja-com-propósito”, “avivamento-gospel”, “Diante do Trono”, e alguma coisa mais, sempre em torno de números e dados financeiros (arrecada-se bilhões de reais sem impostos, nesse meio...; fundam-se partidos políticos para defender esses interesses “religosos” no Congresso Nacional), refletem essa realidade que invade nossas comunidades. Pior ainda, os outros cristãos, para eles, fora desse movimento, são de crentes de segunda classe. Eles, os envolvidos, constituem uma aristocracia espiritual, não mais “amaldiçoados pelo pecado dos pais, das igrejas e da sociedade”; candidatos à prosperidade física e financeira, quanto à saúde e quanto à conta bancária, “tesouros na terra”, na pedagogia da ganância. Precisamos de Lutero, novamente: indulgências são reintroduzidas para o perdão dos pecados e a salvação da almas. Deuteronômio 18,15-20 A palavra que identifica este livro provém, talvez, do uso encontrado na Bíblia dos Setenta (Septuaginta), escrita em grego (os livros dêuterocanônicos, confundidos com apócrifos, são outra coisa importante, nessa versão de 250 a.C.), mas também das traduções da Bíblia Hebraica (que identifica apenas o início da série de sermões: “... estas palavras”). Deuteros e nomos significam, respectivamente, “segundo(a)” e “lei”. Este livro foi elaborado dentro de um movimento profético de reconstrução religiosa do “javismo”, numa série de compilações documentais ao largo de uns 600 anos, provavelmente. A origem dos materiais é diversa, mas a preservação da “tradição oral” transmitida desde a confederação das tribos de Israel (1250 a.C., aproximadamente) reflete o tempo dos Juízes, antes da monarquia que se instalou por volta de 1050 a.C.. Outra parte provém da “reforma de Josias”, elaborada por sacerdotes fiéis ao javismo, até alcançar a forma que hoje conhecemos, tempo do extermínio dos sacerdotes contaminados com a religião Cananéia. De que tratam os vários sermões do profeta deuteronômico? São mensagens que insistem em fortalecer relações inter-humanas baseadas na justiça; a Lei não é um compêndio de decretos isolados, cada preceito defende a vida e a dignidade de cada pessoa da comunidade; a Lei expressa a vida íntima da comunidade, no sentido de que cada pessoa tenha o mínimo para sobreviver e ninguém viva em situação de opróbrio e miséria (“Não existirá pobres entre vós” - Dt. 15,4-5). A Lei não é uma obrigação, mas uma dádiva orientadora, uma outorga de Yahweh para todo o povo. Envolve terra, moradia, trabalho, responsabilidade social para com os deserdados. O profeta está preocupado com coisas com manter vivo o espírito da Lei, tema recorrente no Deuteronômio. Para que? Para que a Lei não se transforme em formalidade e sim em meio para atender às necessidades vitais da comunidade de fé e de cada ser humano. Marcos 1,21-28 A capacidade de discernir cada situação particular foi uma das coisas que as multidões mais admiravam em Jesus. Enquanto os mestres da religião respondiam com explicações detalhadas, exaustivas, citando códigos, leis, regulamentos, preceitos e doutrinas, Jesus respondia com a verdade simples e cristalina. Estava interessado em cada situação particular do ser humano, especialmente aquelas sobre o tolhimento da liberdade, no tormento do controle das consciências que impediam a espontaneidade da fé. Este interesse não encobria uma ideologia política ou religiosa. Muitos movimentos e grupos religiosos mostram interesse pelo indivíduo enquanto servem como prosélitos de causas materialistas, mercadológicas, sem comunhão (koinonia) e sem diaconia (serviço). Jesus declarou-se abertamente contra a idolatria da letra morta, ou seja: a Lei; contra o sábado e suas exigências cultuais legalistas; contra os costumes, prescrições, que engessam a misericórdia, o cuidado, o serviço ao próximo. Enfim, Jesus se prontificava a combater a religião sem misericórdia e solidariedade. Precisamente por isso, a luta de Jesus contra os demônios (sistemas de pensar) foi uma luta contra as ideologias instaladas nas sinagogas e no Templo. Jesus não se identificou com “propósitos religiosos”, especialmente os de ganhar dinheiro; não aprovou oportunistas e exploradores da credulidade popular, invadidos por “espíritos imundos”. O povo simples se encantava com a ousadia de Jesus expondo à luz do dia a ideologia religiosa reinante, a mesma que sustenta pessoas e grupos até nos dias de hoje, propondo “ajuntar tesouros na terra”. Que faremos, para seguir Jesus? Ouviremos suas propostas ou ouviremos os encantadores de multidões fascinadas com o brilho grosseiro das ideologias de prosperidade, igreja-com-propósito-de-arrecadar-dinheiro-e-poder, avivamento-gospel, e outras modas desse tempo? O caráter normativo do Evangelho há de nos lembrar: o Reino de Deus está diante nós. Aos pobres, desfavorecidos, desgraçados e enganados deste mundo, o Reino é anunciado... e “bem-aventurado é aquele que não se escandalizar com a minha causa” (Lc. 7,23). Expressa-se ai o centro vital da mensagem de Jesus. É esse o sentido que Jesus dará à sua hermenêutica fundamental: preservar a vida, a dignidade das pessoas, a intimidade e liberdade de cada ser humano. Isso significa que Jesus sabia das palavras de Jeremias: “... quando cada um levará a Lei no coração”. A Lei não é uma obrigação, mas uma dádiva orientadora para todo o povo. Envolve terra, moradia, trabalho, responsabilidade social para com os esmagados deste mundo. O seguimento de Jesus envolve a Salvação sem intermediações humanas ou religiosas. pastor Derval Dasilio |
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“Uma nova doutrina e com tal autoridade!” (Mc.1,27) 1. Jesus surpreende, não tanto pelo que ensina, mas pelo modo como ensina: «porque os ensinava com autoridade e não como os escribas» (Mc. 1,22). O que está em causa, não é a matéria de ensino; é sobretudo a viva «impressão» que a pessoa de Jesus, causa nos seus interlocutores! A sua autoridade não lhe vem da idade, nem do curso superior, nem do voto do povo, nem de um lugar de poder! Vem-lhe, afinal, de dentro, vem-lhe da coerência do seu testemunho: Ele diz e faz. Ele faz o que diz. A sua Palavra é eficaz e os seus gestos falam por si! Sem dúvida, “o testemunho da vida é a forma simples e espontânea de irradiar valores e a credencial das palavras que se comunicam”! 2. Aqui está um verdadeiro desafio, para todos os educadores, para padres, pais, padrinhos, catequistas e professores: o de uma autoridade “que é mais do que um poder”. Assim o disse, aliás, um conhecido escriba da praça, o psiquiatra Daniel Sampaio. Num artigo publicado há oito dias (1), dizia ele: “Não se pode educar, ensinar ou dirigir sem autoridade! Um pai recebe um poder legítimo para educar; um professor é investido do poder para ensinar; um chefe democrático é escolhido para dirigir. A autoridade, todavia, é mais do que um poder, permite ir mais além se for legitimada pela dignidade pessoal de quem a exerce”. Há muito o tinham dito os Bispos Portugueses, numa Nota sobre a Educação: “A autoridade do «mestre» em educação, passa mais pelo que ele vive e faz e não só pelo que diz. Educar, como processo de conduzir e alimentar, não é substituir-se ao educando: é caminhar com ele. Nesse caminho comum, os modelos e a palavra testemunhada pela vida têm lugar relevante, mesmo insubstituível”. 3. Fala-se hoje muito de voltar a dar autoridade aos professores, até de penalizar os pais, que são permissivos na educação dos filhos, de investir na autoridade dos agentes de segurança. E a tentação, para repor a ordem na casa, na escola e na sociedade, pode ser a de um novo autoritarismo! Temos de parar para pensar! Todos reconhecemos que “numa sociedade em que os direitos são sempre realçados e onde não é usual falar de deveres, em territórios onde impera o individualismo e o narcisismo, o exercício da autoridade não é fácil”. 4. Todavia, “pais e professores lúcidos sabem que não podem voltar a espancar os mais novos, mas por vezes hesitam no caminho a seguir, deixando instalar a permissividade e o caos, como acontece em muitas casas e em tantas escolas. A pedagogia da submissão acabou, mas a pedagogia da liberdade organizada, tem ainda de fazer o seu caminho. Os adultos que educam ou ensinam, por vezes esquecem como o afeto e a exigência são as armas fundamentais a utilizar junto dos mais novos. Ser exigente sem afeto é introduzir a frieza das regras e dos castigos, onde deveria estar o amor e a compreensão. Ser afetuoso sem exigir, é acolher sem limites e impedir a autonomia e a resistência à frustração. A verdade é que a autoridade, face às crianças, tem de partir de uma base segura de entendimento, onde o mais novo, sinta confiança no mais velho e este esteja disponível para a viagem conjunta que é a construção de uma relação. Os pais com autoridade, sem autoritarismo, são calorosos com os seus filhos e educam com firmeza para a responsabilidade, pois não ignoram que o mais importante é ligar a disciplina ao ensino e ao autocontrolo da criança. Nunca ao medo do castigo, ou ao fantasma da retaliação. Por isso, a educação tem de se preocupar com a formação do caráter dos mais novos, para além do esforço exigido com a melhor aprendizagem dos conteúdos”. 5. Falo daqui a cristãos educadores e a educadores cristãos. E lembro-vos mais uma vez: “Na tradição cristã, o testemunho faz parte essencial do anúncio: o ser é o processo mais eficaz e o suporte didático mais autêntico do aprender a ser. Por isso se aplica a todo o educador cristão, esta máxima de vida: “crê o que lês, ensina o que crês, vive o que ensinas” (Pontifical da Ordenação de Diácono) (1)”. Esta, e não outra, é a verdadeira força da autoridade do educador cristão, que bem sabe que “a educação é coisa do coração e que só Deus é o seu dono!” (1) Cf. Conferência Episcopal Portuguesa, Nota Pastoral, Educação: Direito e dever, n.14
“Provavelmente Deus não existe. Deixe de preocupar-se e desfrute a vida”! 1. São duas frases publicitárias, a circular em alguns autocarros, pela cidade de Londres. Trata-se de uma grande campanha, a favor do ateísmo, que parece seguir a sua marcha pela Europa dentro e está já a chegar às nossas portas, na vizinha Espanha! Este «provavelmente» deixa no rasto uma mancha de dúvida, que no, mínimo, nos obriga a assumir e a pensar a questão de Deus, como a questão essencial e decisiva da nossa vida. Longe de nos escandalizar, tal “slogan” publicitário pode constituir uma provocação séria à nossa fé! De fato, a suspeita de um Deus, que tolhe e amedronta a vida, é um enorme desafio a «evangelizarmos Deus», a anunciarmos e a mostrarmos com a nossa vida, o verdadeiro rosto do Deus de Jesus Cristo! 2. De fato, bem vistas as coisas, nada de novo debaixo do sol! Esta recusa de Deus, em nome da velha suspeita, de que Ele só serve para complicar a nossa vida, está bem patente no evangelho, quando entra em cena a figura sinistra daquele «homem, com um espírito impuro» (Mc. 1,23). Ao sentir a proximidade de Jesus, e a força libertadora da sua Palavra, reage furioso, com a pergunta: «Que tens tu a ver conosco, Jesus de Nazaré? Vieste para nos perder» (Mc. 1,24)? É bem claro o que está subjacente a tal reação! Como na publicidade já referida, é a ideia feita e imperfeita, de um Deus invejoso da vida e da alegria das pessoas, um Deus que não passa de um “desmancha-prazeres”! Vede: aquele homem não resiste à presença e à proximidade de Jesus! Mas tem medo. Medo que Jesus desarranje a sua vida, medo que Jesus ponha em causa o seu lugar, medo de se comprometer com Jesus. «Sei quem tu és, o Santo de Deus» (Mc. 1,24). Ele bem vê a diferença. E admira Jesus. Ele sabe que Jesus é o Messias, mas não quer mesmo que Jesus se meta com a sua vida: «que tens tu que ver conosco, Jesus de Nazaré» (Mc. 1,24)? 3. Olhai: não representará este homem, cada um de nós? Interroguemos a nossa fé, com esta salutar provocação: “não será que este é o medo de todos nós? Não será que, bem lá no fundo do nosso coração, há este medo de nos abrirmos totalmente a Cristo, medo de deixarmos entrar Cristo totalmente dentro de nós? Medo de que Ele nos tire algo na nossa vida? Não teremos, porventura, medo de renunciar a qualquer coisa de grande, de único, que torna a vida assim tão bela”? Alguns jovens, que pensam consagrar-se, temem, em seus pensamentos: “se deixo Cristo entrar, não me arriscarei, a encontrar-me, depois, na angústia e privado da liberdade”? Não! "Quem deixa entrar Cristo, não perde nada, nada – absolutamente nada daquilo que torna a vida livre, bela e grande! Pelo contrário, só em Jesus Cristo, só na amizade com Ele, é que se abrem de par em par as portas da vida. Só nesta amizade, é que se abrem realmente as grandes potencialidades da condição humana. Só nesta amizade podemos, experimentar aquilo que é belo e o que liberta"! (1) Digo-vos mais: em relação a um qualquer Deus, que entrasse na minha vida, para me tolher, para me humilhar, para me escravizar, também eu seria ateu! 4. Mas, nos cartazes, o mais impressionante é mesmo a segunda parte: "Deixe de preocupar-se e desfrute a vida." Curiosamente, São Paulo dizia-nos o mesmo: «Não queria que andásseis preocupados»! Mas di-lo com um sentido novo. Para o Apóstolo, a adesão, de alma e coração, a Cristo, não é fonte de ocupação e preocupação. Antes, pelo contrário, a melhor maneira de não se preocupar e de poder desfrutar a vida, em todo o seu esplendor e beleza, é entregá-la, de corpo e alma, ao serviço de Cristo. Cristo é o único, que verdadeiramente dá futuro à vida presente e paz verdadeira ao coração inquieto! Paulo sabia do que falava, do que vivia e sentia na pele, naquela liberdade do seu coração, inteiramente consagrado à missão, a ponto de exclamar: «Para mim, viver é Cristo» (Fl. 1,21). 5. Deixemos então que essa voz de Cristo, ecoe e ressoe dentro de nós e cale todos os nossos medos e suspeitas! Escutemos o que a sua voz sussurra ao nosso coração! Em vésperas de mais um «Dia do consagrado», “quero dizer-vos, sobretudo a vós, caros jovens: Não tenhais medo de Cristo! Ele não tira nada, e dá tudo! Quem se dá a Ele, recebe cem vezes mais. Sim, abri, escancarai as portas a Cristo – e encontrareis a verdadeira vida" (2)! E agora o slogan de resposta, para a viagem da vida: “Com certeza, Deus existe e ocupa-se de ti. Por isso, não te preocupes e desfruta da vida que só Ele te dá”! (1) cf. Bento XVI, Homilia para o início do ministério de supremo pastor, 24 de abril de 2005; citada na Festa de acolhimento dos jovens em Colónia, 18 de agosto de 2005 (2) Ibidem.
1. «Que vem a ser isto» (Mc. 1,27)?! Ninguém fica indiferente à presença e à novidade de Jesus. Jesus surpreende e provoca, não apenas pela Palavra que diz, mas pelos gestos que realiza! Deixemo-nos também provocar pelo Evangelho, em qualquer uma das duas cenas que nos apresenta: 2. Na primeira cena, registremos o comentário do evangelista: «Jesus começou a ensinar e todos se maravilhavam com a sua doutrina» (Mc. 1,22). Não se chega a saber, qual o tema, qual o assunto, qual o conteúdo, do seu ensinamento. Pouco importa aqui… Pois Jesus surpreende, não tanto pelo que ensina, mas pelo modo como ensina: «porque os ensinava com autoridade e não como os escribas» (Mc. 1,22). O que está em causa, não é a matéria de ensino; é a «impressão» que a pessoa de Jesus causa nos seus interlocutores. NEle não há desacordo entre o ser, o dizer e o fazer. A sua autoridade vem-lhe, afinal, do testemunho da Verdade. Ele diz e faz. A sua Palavra atua… e os seus gestos falam! 3. Passemos à segunda cena de provocação! Um «homem, com um espírito impuro» (Mc. 1,23), ao sentir a proximidade de Jesus e a força libertadora da sua Palavra, reage furioso, com esta pergunta: «Que tens tu a ver conosco, Jesus de Nazaré? Vieste para nos perder» (Mc. 1,24)? Aquele homem, pese embora o seu fechamento, a sua vida isolada, os seus muitos medos, acaba por não resistir à presença e à proximidade de Jesus, que o provoca, mais pelo que é, do que pelo que diz: «Sei quem tu és. O Santo de Deus»! 4. Creio que poderíamos deduzir do estilo evangelizador de Jesus, uma outra maneira de evangelizar: Evangelizar por provocação: Trata-se simplesmente de assumir e testemunhar, corajosamente a diferença que nos distingue, no seio da cultura dominante, sem precisar de «falar». Dou-vos, em jeito de Decálogo, alguns exemplos mais significativos para os tempos que correm: Dedicar algum tempo da semana à oração; ser fiel à Eucaristia dominical, assumir algum compromisso na comunidade, é uma santa provocação, face a uma cultura que esqueceu o dever e a dívida, para com Deus e para com o próximo! Fazer qualquer coisa pelos outros e trabalhar de graça, em prole dos demais, é uma provocação, não gratuita, ali, onde impera, a lógica comercial, segundo a qual “tempo é dinheiro” e “não há tempo a perder”. Partilhar, com alegria e simplicidade, os bens, espirituais e materiais, é um sinal de contradição, para a chamada cultura do individualismo, cuja aposta é fazer cada um investir em si, em ordem a cada um “ganhar a sua própria vida”. Perdoar as ofensas recebidas, é uma loucura evangélica, que provocará a indignação de uma sociedade, em que a regra de ouro social é vingar-se e “ficar por cima”. Acolher, atender e tratar, com especial atenção e carinho, os mais pequenos, os mais fracos, os mais humildes, os mais pobres, dando o primeiro lugar aos últimos, é uma subversão evangélica dos costumes sociais dominados pelo poder do mais forte; Cultivar o amor e o gosto pela vida, é um desafio urgente, numa cultura que chega ao ponto de transformar a morte, a crueldade e a violência, em divertimento, pervertendo por completo a alegria de viver; Viver a fidelidade no amor, e a castidade, como dom e domínio de si mesmo, salvaguardando sempre a integridade do corpo e do espírito, a sinceridade dos gestos e a autenticidade dos afetos… é uma desavergonhada provocação, à cultura do corpo sacrificado, do corpo reciclado e transformado em objeto ou mercadoria de consumo, numa sexualidade, que é puro divertimento, sem responsabilidade. Assumir pessoalmente a responsabilidade, o pecado e a culpa, quando se erra e se falha, é uma posição incômoda, para uma cultura em que culpa morre solteira ou é simplesmente sujeita a um inquérito rigoroso; Cultivar o silêncio, apreciar o canto do pássaro, ouvir boa música, de modo a reconduzir os sentidos do corpo à luz da consciência e da razão, é uma nota provocatória face a uma cultura fragmentária, onde impera o barulho, a desordem interior e a exaltação caótica dos sentidos; Prezar e apreciar uma vida simples, saudável, capaz de gozar a frescura de um fio de água, o sabor de um naco de pão, a alegria de uma caneca de vinho, é uma ementa picante, para uma cultura da curtição, intoxicada pela coca-cola, pela comida plástica, pelo fumo e pelas bebidas brancas. São afinal estilos «proféticos» de vida, que provocam, que «marcam» mais do que as palavras e funcionam, em contra-corrente, como sinais de contradição; gestos que falam, sementes de Boa Nova, que, pelo seu excesso e diferença, vão transformando o mundo, e fazendo emergir dele o Reino de Deus!
1. “Que tens Tu a ver conosco, Jesus de Nazaré”? É a palavra violenta, de um homem completamente perdido. É o grito de protesto, de um homem acorrentado nos seus próprios males e vícios. Dos pés à cabeça, por dentro e por fora, aquele homem sente tanto a força destruidora do mal, que há muito o corrói, como a força libertadora de Cristo, que ali tão próximo o interpela. Diante da Palavra de Jesus, a única que tem a força de salvação, ele estremece. Sabe bem diante de quem está! «Sei quem tu és: o Santo de Deus» - diz. Mas ainda assim, tenta resistir até ao limite das suas forças. 2. “Que tens tu a ver conosco, Jesus de Nazaré”? Como se perguntasse: «que direito tens Tu de te meteres na minha (na nossa) vida? Porque há-de a tua Palavra incomodar tanto os nossos hábitos? Porque há-de a tua mensagem mudar o curso da nossa História? Porque não deixas a força da tua Palavra tocar apenas os sentimentos íntimos? Porque hás-de falar, de modo a que tudo o que julgávamos importante na nossa vida, se deite a perder»? «Vieste para nos perder»? Vieste para estragar a nossa vida?! Com que direito? Porque não há-de ficar tudo aqui, encerrado nestas quatro paredes da sinagoga? Porque te hás-de meter com os podres da minha vida e com os males da sociedade, de que sou parte e fruto? 3. Que tens tu a ver conosco, Jesus de Nazaré”? A pergunta, de inspiração diabólica, (não é o «vinho» que fala por ele, mas o diabo!) traduz-se hoje de forma mais rebuscada. Como se muitos pensadores da praça protestassem assim: «Que tem a religião a ver com a sociedade»? Que tem a Igreja a ver com o Estado? Que tem a mensagem de Jesus a ver com as nossas virtudes públicas e vícios privados? Que tem o Evangelho, a ver com a política? Que tem Cristo a ver com o mundo? E, quiçá, com medo de perderem a liberdade, a autonomia, a voz própria, alguns defender-se-ão atacando: «deixem a Igreja na sacristia», metam a fé na gaveta dos assuntos particulares de cada um! 4. A estas perguntas insolentes de alguns políticos adolescentes é preciso responder como Jesus: «cala-te». E calam-se os «espíritos deste mundo», quando a nossa palavra «fala alto», quando o nosso testemunho «cala» fundo; quando a nossa presença interpela e incomoda. É preciso que haja, de novo, profetas, jovens e adultos, gente, nova e menos nova, que pelo seu testemunho, fale de Deus ao mundo. São precisos profetas, homens e mulheres, não caídos do céu, nem chegados da Lua, mas tirados do meio dos irmãos. 5. E são profetas que falam com autoridade, no meio dos irmãos: - aqueles que, no meio de uma sociedade que consome o sexo como artigo de primeira necessidade, sabem testemunhar o valor sublime da pureza e da virgindade, a beleza simples da amizade pura, e a linguagem sincera do corpo e dos sentimentos; numa harmonia plena do corpo e do espírito; - aqueles que, no meio de uma sociedade, sufocada pelos interesses do mundo, procuram agradar a Deus, encontrar tempo para Ele, preferindo o silêncio ao barulho, a luz clara da festa ao esconderijo podre dos vícios, a alegria da dádiva ao escândalo da dívida; - aqueles que, no meio de uma cultura da diversão, preferem uma hora na aula de religião e moral, a cinqüenta minutos de vazio e desperdício; mesmo sob o olhar suspeito e, às vezes, ditador, da maioria dos colegas; - aqueles que, no meio de tantas solicitações, escolhem a catequese e a Missa, em detrimento de uma qualquer ocupação de tempos livres; correndo o risco do riso e saboreando o gozo perfeito da liberdade; - aqueles que, no meio da indiferença dos que passam ao lado do grito de protesto dos irmãos, os olham de frente, os tocam e servem sem medo. - aqueles que, no meio deste pântano de fidelidades a prazo e vidas à experiência, se consagram num amor familiar responsável. Que o Senhor faça surgir, do meio dos nossos irmãos, profetas assim. Com autoridade. Que falam alto pelo que são e calam fundo pelo que fazem!
1. Falar com autoridade... Um pregador de sucesso na sinagoga de Cafarnaum. Em dia de sábado lá entrou Jesus sem a lição estudada, sem as palavras escolhidas, sem o discurso preparado. Do outro lado, os homens do saber, os escribas, especialistas da Escritura. Sabiam de cor as passagens da Lei e dos Profetas, tinham opiniões muito sabidas. Falavam muito, mesmo diante dos olhos já adormecidos da assembleia que fazia o favor de ir bocejando, para dar sinais de Vida. Jesus, ao contrário, começou a ensinar e todos se maravilhavam com a sua doutrina. 2. Ter autoridade para falar... Que vem a ser isto? Onde está o segredo da maravilha que o ensino de Jesus oferecia? Donde lhe vinha tal autoridade? Ele mesmo, Jesus, a sua Pessoa, a sua Vida, eram um ensino. Quer dizer, Jesus falava com os seus gestos, com atos concretos, com a Vida. O seu ensinamento não era teórico. Os escribas comentavam a palavra de Deus e inventavam... mas sem passar pelo coração e pela vida o que diziam de cabeça. Ora Jesus fala com autoridade. Faz o que diz. Mais, faz ao dizer. Jesus diz quem é pelo que é e pelo que faz, mais do que pelo que diz. Numa palavra, toda a sua vida, os seus silêncios, os seus milagres, as suas atitudes, a sua oração, foram um contínuo ensinar. Desse testemunho vivo lhe vinha toda a força, todo o encanto e toda a simplicidade das suas palavras. As suas palavras apenas serviam de chave para a compreensão e o sentido dos seus gestos, do seu ser. Talvez a nossa atenção se tenha fixado mais ainda naquele homem a quem Jesus libertou de um espírito impuro. Porque os gestos falam melhor. Diante de Jesus está um homem, dominado e subjugado por algo que lhe é estranho, o Homem fechado no seu mundo, o Homem impedido de agir e de pensar por si. É o Homem vítima do seu pecado. O Homem prisioneiro do mal, encerrado num círculo de egoísmo, de interesse próprio. Diante do Mestre, vem ao de cima a verdade mais profunda daquele homem. O mal que o domina entra em conflito com a força e a Palavra de Jesus. «Que tens que ver conosco, Jesus de Nazaré, viestes para nos perder»? O primeiro milagre de Jesus é fazer aquele homem voltar à consciência de si mesmo, à liberdade, libertando-o do mal. E o espírito impuro, agitando-o violentamente, soltou um forte grito e saiu dele... Todo este relato da expulsão do espírito impuro serve como sinal visível e eficaz da força da Palavra de Jesus. Quer dizer, a Palavra de Jesus nasce tão de dentro dEle que ao chegar ao coração dos Homens tem a força de os arrancar do mal e de os abrir à liberdade do amor. Portanto, Jesus não só ensina de maneira diferente e ensina coisas novas, como também a sua Palavra é acompanhada de um gesto de libertação. Os gestos de Jesus falam e revelam ser verdade o que Ele diz no seu ensino. 3. E não falar por falar... Porquê, então hoje, se perdeu o encanto da escuta da Palavra? Porque são sem vida as nossas palavras, o nosso ensino? Alguém começa o discurso e mudamos de canal. Vem a Palestra e entretemo-nos a fazer desenhos no papel. Fala o padre e aproveitamos para uns minutos de distração ou para pôr a reza ou o sono em dia. O Pai fala e entretanto o Filho bate a porta. E é preciso dizê-lo: porque embora tenhamos o poder falta-nos a autoridade. A maior parte das vezes falamos por falar, falamos vagamente com medo de pôr o dedo na ferida. Temos telhados de vidro. Por trás das palavras e nas entrelinhas não se esconde nenhuma vida, nem um testemunho, nem uma voz. Neste Ano Internacional da Família, caberia perguntar se a crise de autoridade dos pais não estará nesta falta de testemunho? Como ensinar aos filhos sem uma vida que seja ela mesma um ensino? Não é a nossa «autoridade» que dá força às nossas palavras. É a nossa Vida que dá autoridade às nossas palavras. Bem prega frei Tomás. Mas a esse já ninguém ouve... |
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1) É no profetismo que a experiência religiosa de Israel alcança os níveis mais elevados e a palavra de Deus é transmitida com força incomparável e linguagem entre as mais vigorosas. Em diferentes épocas – além da missão institucional de proclamar e defender a justiça - os profetas anunciam e preparam o caminho para acolher o Messias e na História da Salvação são como faróis que indicam a rota certa conduzindo-nos para o Farol que continua a resplandecer, o “Sol nascente que nos veio visitar” (Lc. 1,78). O profeta deve proclamar e servir a verdade como Deus estabelece: “Porei em sua boca as minhas palavras” (Dt. 18,18), palavras às quais não é possível estar indiferentes: “Não fecheis os corações como em Meriba” (Sl. 94[95],8). Devemos ter presente - como afirma são Gregório Magno - que a profecia tem a função de anunciar o futuro, mas muito antes e muito mais, tem a tarefa de interpretar o presente, manifestando o que e' oculto: prodit oculta. Na situação histórica torna explicito o que na palavra de Deus e' implícito e desvela (denudatur) o coração do homem. Nós que pela palavra de Deus recebemos a grande herança dos profetas, pela graça do Espírito de Cristo somos dignificados pelo múnus (ofício) profético, que nos caracteriza com o munus sacerdotal e regal como discípulos de Cristo. Este múnus profético, quanto mais necessário para ter a devida coragem para difundir o vivo testemunho de Cristo (cfr. Lúmen Gentium 12), recebido no batismo e fortalecido na confirmação, é dado aos apóstolos por Cristo ressuscitado: “Tereis força pelo Espírito Santo que descerá sobre vós, e sereis minhas testemunhas” (At. 1,8). O munus profético é diretamente relacionado com a missão: quanto mais o espírito missionário é enraizado em nós, tanto mais o munus profético nos impulsionará para as multíplices estradas da missão, enriquecido pelos dons do Espírito Santo para interpretar os sinais dos tempos, aos quais não podemos ser indiferentes. 2) O múnus profético de Cristo ressalta em toda a sua missão e é reconhecido em particular em Cafarnaum quando ensina na sinagoga: “Todos ficavam admirados com o seu ensinamento, pois ensinava como quem tem autoridade, não como os mestres da Lei” (Mc. 1,22). A autoridade de Cristo que se impõe é a força da verdade à qual ninguém resiste. É um múnus profético de particular relevância aquele com o qual a própria vida é orientada “para as coisas do Senhor para agradar a Ele” (1Cor. 7,32): as realidades futuras se tornam presentes na terra, encarnadas e preanunciadas, por uma vocação que comporta uma oblação total de si mesmos à maneira de Cristo imolado como Cordeiro na Cruz, do qual os profetas são prefiguração. padre Ausilio Chessa |
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Jesus, com os quatro discípulos que tinha chamado, entrou em Cafarnaum. O evangelista Mateus (5,13) vai, mais tarde, precisar que Jesus se tinha mudado de Nazaré precisamente para aquela cidade junto ao Mar da Galileia, estabelecendo a sua morada em casa de Pedro. Conforme o seu hábito de judeu piedoso, vai à sinagoga em dia de sábado para a oração comunitária e a escuta da Palavra de Deus. Habitualmente é lido um trecho da Lei (Pentateuco) e outro dos Profetas. Qualquer um pode ser escolhido para ler e comentar as leituras, muitas vezes dando preferência a quem está pela primeira vez. Jesus é convidado... Jesus não se limita a referir os comentários, tantas vezes repetidos, que os escribas iam fazendo. Ele ensinava, fazendo um comentário diferente e dando nova perspectiva aos textos da Escritura, o que causou a admiração dos presentes. «Ele ensinava com autoridade e não como os escribas». A presença dum homem com um espírito impuro é paradigmática. Os Atos dos Apóstolos (10,38) resumem a atividade de Jesus: «Como Deus ungiu com o Espírito Santo e com poder a Jesus de Nazaré que passou fazendo o bem e curando todos os que eram oprimidos pelo demônio». Jesus tem o poder do reino que traz consigo não apenas o anúncio da libertação futura mas impele o evangelizador a realizar ações libertadoras em favor do homem. Jesus vem libertar o homem do pecado. Mas também o mal físico e a doença pertencem à esfera do pecado, das coisas não queridas por Deus. Deus e espírito impuro são antagônicos. Onde entra Deus, o mal reconhece-O e reage necessariamente pois quer continuar a sua ação em paz. Até Jesus falar não tinha havido qualquer reação da parte do espírito impuro. Agora sente-se incomodado: «Que (há) entre tu e nós, Jesus Nazareno? Vieste para arruinar-nos?». Jesus não perde tempo com grandes gestos ou palavras, como os exorcistas do seu tempo. Simplesmente ordena: «Cala-te e sai dele», e é obedecido. Este sinal de luta com o mal vem confirmar o ensino de Jesus, é o selo que Ele coloca na sua Palavra para a confirmar. Ensina com uma autoridade a que até o mal está submetido. O Reino de Deus, anunciado por Jesus como próximo (1,15), já está em ação. padre Franclim Pacheco |
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Jesus ensinava como alguém que tem autoridade Entraram em Cafarnaum. No sábado, Jesus foi à sinagoga e pôs-se a ensinar. Todos ficavam admirados com seu ensinamento (Mc. 1,21-22). Sem dúvida, perturbava-os a gravidade das palavras e se surpreendiam com a sublimidade dos preceitos; tal era a força do Mestre que fascinava a muitos, levando-os a grande admiração e persuadindo-os, pelo prazer de escutá-los, a não se afastarem dele ao terminar o discurso. Nem mesmo depois que desceu do monte os ouvintes se afastaram, mas toda a multidão os seguiu, tal amor lhes inspirava a sua doutrina. Porém admiravam mais ainda a sua autoridade. Realmente não falava repetindo palavras de outrem, como os profetas a Moisés, mas por sua própria autoridade. Pois, muitas vezes, ao citar a lei, acrescentava: Eu, porém, vos digo (Mt. 5,22); e, reafirmando o dia do Juízo, mostrava que seria o Juiz, tanto para o castigo como para o prêmio. Por isso, era evidente que ficassem perturbados. Se os escribas que haviam visto seu poder pelas obras investiram contra ele e o expulsaram, como não causariam perplexidade as suas palavras, pronunciadas antes de manifestar o seu poder de modo visível? Contudo, não se escandalizavam: quando o espírito é bom e sábio, aceita facilmente o ensinamento da verdade. Os fariseus levantaram-se contra ele, embora os milagres lhe proclamassem o poder; mas estes, ao contrário, se submetiam a ele e o seguiam, ouvindo-lhe apenas as palavras. O evangelista dizia expressamente: Grandes multidões o acompanhavam (Mt. 8,1). Não só, portanto, alguns dos chefes e escribas, mas todos aqueles nos quais não havia malícia e possuíam um coração sincero. Em todo o Evangelho deparamos sempre com esse tipo de seguidores. Quando o Mestre falava, escutavam-no em silêncio, sem interrompê-lo ou perturbar-lhe o discurso, sem procurar ocasião de apanhá-lo em falso, como faziam os fariseus; e, quando acabava de falar, seguiam-no cheios de admiração. Queria que considerásseis comigo a prudência do Senhor, usando de métodos diversos para a utilidade dos ouvintes: ora passa dos milagres às palavras e ora das palavras aos milagres. De fato, antes de subir ao monte, curara muitos, preparando o caminho para o que ia dizer-lhes. E, terminado seu longo discurso, volta de novo aos milagres, confirmando com fatos as palavras. Pois ele os ensinava como alguém que tem autoridade (Mc 1, 22). E, para que esse modo de ensinar não parecesse pompa ou ostentação, manifesta-se imediatamente pelas obras: cura as doenças como quem tem poder, a fim de que, ao vê-lo realizar tais milagres, já não ficassem perturbados pelos seus ensinamentos. são João Crisóstomo In Matthæum Homilia 25, 1 (Patrologia Grega 57, 327-328) |