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A responsabilidade do discípulo Todos aqueles que são chamados por Cristo, respondem à vocação não apenas com palavras, mas, com atos e verdade. Toda a vocação supõe uma missão. Foi assim no Antigo Testamento, é assim no Novo Testamento e na vida da Igreja. A liturgia de hoje centra-se precisamete na responsabilidade do discípulo. Aquele que aceitou uma chamada tem que ser fiel à missão que lhe é confiada. A fidelidade, porém, tem condições. Moisés, na leitura do Deuteronômio, promete ao povo que virão profetas para continuar a sua missão. Repete-o várias vezes para que o povo tenha consciência de que Deus nunca o deixa só (1ª leitura). Aquele, porém, que é escolhido para discípulo, deve ter um coração purificado, liberto de espíritos impuros. É neste contexto que Jesus aparece no Evangelho de Marcos a expulsar demônios, purificando aqueles que acabam por ser seus discípulos (Evangelho). Finalmente, são Paulo estabelece as exigências da consagração, referindo expressamente a radical entrega ao projeto de Deus (2ª leitura). No conjunto dos textos percebe-se que o discípulo é escolhido, é purificado e vive em total consagração. 1. A escolha de Deus No caminho do deserto, à procura da Terra Prometida, o Povo de Deus sente imensas dificuldades. Sabe que não realizará o projeto de libertação sem a presença protetora de Deus que o fez sair do Egito. Por isso interpela muitas vezes Moisés. Este sente a necessidade de falar com Deus na intimidade, e é, depois, que pode dizer ao povo que Deus lhes enviará um profeta para os acompanhar até à Terra da Promessa. Se este texto pode revelar a vinda do Messias, ele é sobretudo a afirmação de que os discípulos nunca estão sós, são sempre acompanhados por Deus. Se era assim no caminho do deserto, é assim para o cristão no decurso da sua vida. Quaisquer que sejam as dificuldades do caminho, o Senhor Deus que escolheu o discípulo acompanhá-lo-à sempre ao longo da vida. 2. Tempos de purificação O Evangelho de S. Marcos levanta duas questões, aliás essenciais para o discípulo. A primeira, o ensino de Jesus na sinagoga de Cafarnaum, o que revela que Jesus traz uma Boa Nova de salvação para todos. Todos se admiravam da verdade das suas palavras. O discípulo é convidado a aceitar esta Boa Nova. A segunda, a libertação de um homem que tinha um espírito impuro. No tempo de Jesus era freqüente afirmar-se que alguns doentes tinham uma possessão diabólica. O caso do homem na sinagoga de Cafarnaum foi motivo para Jesus exercer o seu poder sobre os demônios. Jesus disse: “Cala-te e sai desse homem” (Mc. 1,25). Aconteceu então, que o demônio ao sair do corpo daquele homem afirmou que Jesus era o Filho de Deus. Os demônios reconheceram, mais cedo que os humanos, a divindade de Jesus. Neste Evangelho Marcos convida o discípulo a purificar-se do mal e a aceitar incondicionalmente a Boa Nova do Reino de Deus. 3. A consagração do discípulo Numa página do Evangelho, Jesus dissera que ninguém pode servir a dois senhores, a Deus e ao dinheiro. Nesta Carta de Paulo, o Apóstolo é ainda mais radical ao dizer que o discípulo tem que se consagrar totalmente ao anuncio da Palavra de Deus e ao serviço dos irmãos. O discípulo consagra-se na totalidade, para não ter o coração dividido, assim pode entregar-se sem fronteiras à missão que o Senhor lhe quer confiar. monsenhor Vitor Feytor Pinto “Revista de liturgia diária” |
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Neste quarto domingo do tempo comum, a liturgia nos apresenta a missão evangelizadora do profeta como mensageiro que fala aos homens em nome de Deus em total fidelidade à Palavra do Senhor que lhe foi confiada (1ª leitura). No caso de Jesus. Ele é muito mais do que um profeta, pois não fala em nome de Alguém e sim em nome próprio e como “quem tem autoridade” (evangelho). É com esta mesma autoridade que Paulo, em nome do Senhor,dá a sua orientação sobre questões delicadas da vida pessoal (2ª leitura) procurando o bem das primeiras comunidades cristãs. 1ª leitura: Deuteronômio 18,15-20 O texto faz referência a uma convicção profunda e muito antiga do povo de Israel no sentido de que Deus fala através dos seus intermediários, os profetas. O profeta tem duas características: por um lado, ele é escolhido por Deus e, por outro, está próximo do povo (”Do meio dos irmãos deles, eu farei surgir para eles um profeta como você”). Ao mesmo tempo, o profeta fala com autoridade dada por Deus (”Vou colocar minhas palavras em sua boca, e ele dirá para eles tudo o que eu lhe mandar”). Na prática, porém, pode resultar difícil distinguir entre o verdadeiro e o falso profeta, dependendo dele apresentar a Palavra de Deus como ela é ou se a manipular, apresentando como palavra divina aquilo que não é mais do que a palavra dele mesmo. Para garantir que o povo de Deus siga a verdade e pertença exclusivamente ao Senhor, existirão pessoas como Moisés, que orientarão a comunidade na construção de uma sociedade de acordo com o projeto de Deus de forma que seja preservada a dignidade e o valor de cada ser humano, além do direito à vida, numa comunidade onde seja valorizado por aquilo que ele é e não pelo que tem. Só assim uma sociedade pode dizer que “leva a Lei de Deus no coração”. 2ª leitura: 1ª Coríntios 7,32-35 Para a Igreja primitiva o fim do mundo e a manifestação final e gloriosa de Jesus eram iminentes. A comunidade, preocupada por opiniões contrárias ao matrimonio, se pergunta se seria melhor não casar-se. Para Paulo o importante é que cada pessoa da comunidade cristã se sinta à vontade e motivada para servir (“Eu gostaria que vocês estivessem livres de preocupações”). É dentro deste contexto que podemos compreender os conselhos referentes ao matrimônio, ao celibato e à virgindade que Paulo dá, como dom total da própria vida ao Senhor, como maneira de empenhar-se totalmente no testemunho do Evangelho. Jesus já destacava a grandeza do celibato na consagração radical a Deus e ao Reino, embora sem o impor a seus discípulos (Mateus 19,10-12), como São Paulo nada impõe também (“Digo isso para o bem de vocês, não para armar uma cilada”) embora o aconselhe se isto ajuda alguém a “permanecer sem distração junto ao Senhor”. Evangelho: Marcos 1,21-28 O evangelista Marcos procura determinar o tempo e o lugar exato deste primeiro milagre de Jesus: era sábado (o Dia do Senhor) e foi realizado na sinagoga (o lugar de oração e de experiência religiosa). A Boa Notícia, anunciada por Jesus, estava se espalhando e, certamente, o melhor dia e lugar para torná-la conhecida eram o sábado e a sinagoga onde podia ser proclamada abertamente para todos. Jesus falava e agia convidando a vivenciar o amor gratuito e incondicional do Pai, mostrando a diferença entre cumprir a vontade de Deus e o seguimento dos preceitos humanos e normas interesseiras dos dirigentes do povo. Era este ”ensinamento novo, dado com autoridade” que, certamente, incomodava o doutores da Lei. A autoridade de Jesus, porém, é posta a prova não pelos líderes religiosos, mas por um homem “possuído por um espírito mau”. No tempo de Jesus, o povo acreditava que os desequilíbrios psíquicos, as atitudes destrutivas, as doenças mentais, eram causadas pelos maus espíritos, uma espécie de poder exterior que os possuía. O homem “possuído”, de que fala o evangelho, devia ser uma destas pessoas doentes. Na sua confusão mental, reconhece o valor do ensinamento de Jesus (“Eu sei quem tu és: tu és o Santo de Deus!”), mas, ao mesmo tempo, ele se mostra totalmente influenciado pela mentalidade dos inimigos de Jesus que temiam seu ensinamento porque questionava suas práticas e costumes (“Que queres de nós, Jesus Nazareno? Vieste para nos destruir?”). Marcos não diz exatamente o que Jesus estava ensinando, mas, pelo modo como Ele cura e acalma o homem («Cale-se, e saia dele!»), sugere que o ensinamento com autoridade estava orientado para a libertação de tudo aquilo que escraviza e aliena o ser humano, impedindo-o de pensar e de agir por si mesmo como acontece com as ideologias, a propaganda em massa, os meios de comunicação social e os sistemas políticos. Outros pensam pelas pessoas e as levam a agir conforme seus interesses. O primeiro milagre de Jesus é fazer aquele homem voltar à consciência e à liberdade. Só assim, poderá estar livre para segui-lo. É a forma que Jesus tem de interpretar as Escrituras, numa visão superior à cultura religiosa dos doutores da Lei. Era lógico que todos se admirassem e perguntassem quem era aquele homem. A PALAVRA DE DEUS NA VIDA Ao longo da História da Salvação, diversos profetas foram servindo de porta-vozes de Deus, confirmando a Palavra que anunciavam com a própria vida, até a chegada de Jesus que é a própria Palavra de Deus feita carne (”E a Palavra se fez homem e habitou entre nós. E nós contemplamos a sua glória: glória do Filho único do Pai, cheio de amor e fidelidade” - João 1,14). Ele falava publicamente, de forma diferente à dos mestres de Israel, apresentando o caminho da Salvação e acompanhando sua palavra com sinais milagrosos que o acreditavam como o Cristo (o Ungido de Deus). Analisando a cura do homem “possuído por um espírito mau”, podemos pensar que a possibilidade de ficarmos possuídos por um “espírito mau” (algo que vem de fora de nós) é pouco provável. O que pode acontecer é estarmos possuídos pelo nosso próprio “espírito mau” (que vem do nosso interior). O pior “espírito mau” que pode tomar conta de nós é termos uma atitude ambivalente que consiste em reconhecer Jesus (“Eu sei quem tu és: tu és o Santo de Deus!”) e, ao mesmo tempo, não permitir que a mensagem d'Ele mexa em nossa vida do jeito que ela está organizada (“Que queres de nós, Jesus Nazareno? Vieste para nos destruir?”) Pode ser que não digamos isso explicitamente, como o endemoninhado do evangelho, mas se a nossa vida estiver organizada dependendo de um sistema social injusto, lucrando à custa do nosso semelhante, participando da corrupção generalizada, fazendo parte dos mecanismos que oprimem o trabalhador, usando a manipulação e a mentira no relacionamento interpessoal, fazendo caso omisso da ética e da moral em nosso comportamento pessoal... mesmo que nos apresentemos como pessoas que acreditam em Deus e nos digamos “muito católicos”, mesmo que participemos da igreja e, aparentemente, sejamos pessoas “religiosas”, estaremos dizendo ao Senhor. “Teu Evangelho é muito lindo (em teoria) mas não estamos dispostos a aplicá-lo (na prática) porque destruiria nosso modo de vida”. Esta é a forma mais comum de resistir ao Evangelho, hoje. Não frontalmente, mas “fazendo corpo mole”; dizendo que somos religiosos, sim, mas não “somos fanáticos”; mostrando que a religião que professamos, na prática, é outra coisa. É desse “espírito mau” que precisamos ser “exorcizados” com a palavra firme de Jesus («Cale-se, e saia dele!») mesmo que tenhamos que sofrer (“Então o espírito mau sacudiu o homem com violência, deu um grande grito e saiu dele”) para mudar radicalmente a nossa vida. PENSANDO BEM... Se nem Deus tira a nossa liberdade, quem é o demônio para “possuir” ninguém e tirar a liberdade dele? O mal que praticamos é pelo mau uso que fazemos da nossa liberdade. Se jogarmos a culpa nas costas do demônio não será porque estamos “possuídos” por compromissos espúrios e não queremos nos converter? Essa é a grande questão. Para livrar-nos desses “maus espíritos” não precisamos ir atrás de exorcistas. Basta querer mudar de vida. Com a graça de Deus, que nunca nos falta, certamente o conseguiremos. padre C. Madrigal |
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"Todos ficavam admirados com o seu ensinamento" Domingo de Jesus em Cafarnaum. Entramos com Jesus na sinagoga de Cafarnaum, testemunhamos a expulsão de um espírito imundo e reconhecemos que Jesus é portador de um ensinamento cheio de autoridade, sinal da sua fidelidade ao projeto do Pai. Neste quarto domingo do tempo comum, na caminhada de Jesus em sua vida pública, vemos o Mestre que ensina com autoridade, isto é, exousia. Autoridade suscita responsabilidade. Jesus deixa claro Seu lugar divino, sendo responsável por revelar a vontade do Pai às pessoas; por isso, o evangelista refere que Ele ensinava como quem tem autoridade. Primeira leitura - Deuteronômio 18,15-20 O capítulo 18 do deuteronômio trata dos direitos dos sacerdotes levíticos (vs. 1-8), das falsas expressões do profetismo (v.s 15-20) e do critério pra distinguir o verdadeiro do falso profeta (vs. 21-22). Esta passagem figura na secção que o Deuteronômio consagra às instituições e aos ministérios do povo eleito. Depois de ter falado sobre os direitos e deveres do rei e dos sacerdotes, passa ele a falar dos profetas Este assunto é introduzido por uma prescrição que proíbe Israel de recorrer à adivinhação, como fazem os pagãos (Deuteronômio 18,9-14). O único meio de conhecer a vontade de Deus, será com efeito o recurso ao profeta (vs. 15-20). A adivinhação, a magia, o espiritismo em suas mais variadas formas atestadas em Canaã, são tentativas humanas de entrar em contato com o sobrenatural, conhecê-lo e, se possível, controlá-lo. Para o Deuteronômio, porém, Deus já fez conhecer a sua vontade, expressa claramente na Aliança do Sinai, da qual Moisés é o intermediário pedido pelo próprio povo (v. 16). O desejo de o homem saber se será ou não feliz, também já foi respondido: Se observar a Lei da Aliança o homem o homem será abençoado e feliz; se a desobedecer, será amaldiçoado. Sem dúvida, o autor escreve numa época em que a realeza e o sacerdócio atravessam uma crise grave e os profetas são os únicos a proclamar a vontade de Deus, o retorno às fontes da Lei e a constituição de um "povo novo" em torno da Palavra. De resto, tem o profeta uma superioridade muito nítida sobre o rei e o sacerdote. Enquanto o rei fica preso a um comportamento político, e o sacerdote se restringe à esfera do culto, o profeta, ao contrário, leva a Palavra de Deus a todas as situações da vida individual e social. Além disso, enquanto o sacerdote e o rei se apóiam sobre uma lei já fixa, o profeta é mais sensível às exigências novas, aos casos ainda não previstos. Seu Deus é o Deus das mudanças pessoas e sociais, um Deus das novidades. Sob este título, é o profeta muito mais o homem profano, isto é, mergulhado na realidade do mundo do que o sacerdote, todo imerso no sagrado. O profeta tem, enfim, o poder de transformar suas palavras em atos. Moisés é verdadeiramente um profeta, o maior de todos eles (cf. Deuteronômio 34,10). Mas Jesus Cristo (Atos 3,33; 7,37) será na realidade o maior de todos os profetas, pois libertará o palavra do sacerdote e do político, para dela fazer a presença ativa de Deus no seio da realidade mais cotidiana. Conseqüentemente, o Deuteronômio vê a instituição profética como uma continuação como o ofício mediador de Moisés. Como Moisés deu a conhecer a vontade divina conhecida na Lei do Sinai, assim o profeta tem a obrigação de tornar conhecida esta mesma vontade ao povo (v. 18). "Porque o Senhor Javé nada faz sem revelar o seu segredo aos profetas seus servos" (Amós 3,7). Mas o profeta apesar de ser "como Moisés", não é um simples repetidor da Lei. Ele é um interprete da Lei, um intermediário entre Deus e o povo que deve vigiar e promover sempre de novo a fidelidade à Aliança. A exemplo de Elias que foi fortalecer sua vocação no Monte Horeb (1 Reis 19,3-18), todo seu profeta busca seu vigor na Aliança do Sinai. Quando em nossos dias, por desejo de obter saúde, alcançar felicidade, sucesso nos negócios, ou por simples curiosidade, muitos cristãos entregam-se a práticas de astrologia, espiritismo, umbanda e outras mistificações, este texto do Deuteronômio ganha uma renovada atualidade. Deus já fez conhecer a sua vontade nos seus mandamentos. Por meio de Jesus Cristo, que ensina com autoridade (cf. Marcos 1,27), traçou o caminho da felicidade nas Bem-Aventuranças do Evangelho. A mensagem de Cristo é sempre de novo atualizada pelos legítimos pastores e pregadores de Sua Igreja. É na vontade de Deus assim expressa que o cristão deve buscar as orientações para sua vida, e não nos falsos tipos de profetismo. Salmo responsorial 94/95,1-2.6-9 É uma mistura de dois tipos. Do início até a metade é um hino de louvor; a segunda metade é uma denúncia profética. Este salmo é um ato litúrgico que a Igreja manda recitar todos os dias no começo da liturgia das Horas como invitatório, recorda-nos que dia após dia, no "hoje" continuamente renovado da nossa vida (cf. v. 8), ressoa a voz do Senhor, nosso "criador", "pastor" (cf. v. 7) e "salvador" (cf. v. 1): vamos à Sua presença com confiança, "Ele é o nosso Deus, e nós somos o seu povo" é a fórmula densa da Aliança. O povo já vive na terra prometida, tem um Templo, parece ter chegado ao lugar do repouso. E, apesar disso, cada dia deve ouvir o chamado de Deus e cumpri-lo, para conservar o dom da terra, onde participa no repouso de Deus. Do contrário, sua infidelidade na terra prometida será como a infidelidade dos pais no deserto. A Carta aos Hebreus nos oferece um comentário cristão deste salmo (Hebreus 3,7-4,11). Todo o tempo do Primeiro Testamento é uma repetição chamada e espera do "hoje" em que o povo poderá entrar no descanso de Deus. Com Cristo chega este "hoje", com sua ressurreição inaugura-se no mundo o repouso de Deus, que descansou quando terminou seu trabalho criador. Este "hoje" de Cristo se oferece a todos: deve-se ouvi-lo e entrar depressa em seu descanso. Mas a vida cristã é de novo um "começo", que temos de manter até o fim, para entrar no repouso definitivo de Cristo em Deus. O rosto de Deus no neste Salmo. Entrar na terra prometida ou conservá-la são questões ligadas à Aliança entre Deus e seu povo. Entrar na terra era conseqüência da fidelidade à Aliança entre Deus; conservar a terra era resultado de uma Aliança mantida ao longo das gerações. Em ambos os casos o tema da Aliança está presente. Entre Deus e o povo há um compromisso de mútua pertença: Ele é o Deus dos hebreus, e o povo é o povo de Deus (v. 7a). A imagem do pastor (v. 7a) também é importante pata descobrir o rosto de Deus neste Salmo. A grande ação de Deus-Pastor foi ter conduzido seu povo para fora do cativeiro egípcio, guiando-o, pelo deserto,, rumo à liberdade e à vida na terra da promessa. Jesus se apresentou como pastor (João 10), conhecedor do íntimo de cada pessoa (João 2,25). Por isso sua voz profética denunciou as injustiças e seus causadores (Mateus 23). Denunciou a religião formalista, de aparências (João 7,21), e, num gesto profético, declarou o fim do Templo de Jerusalém e de sua corrupção, apesar da aparente fachada de lugar sagrado (João 2,13-22). Jesus denunciou as mesmas coisas do salmista-profeta. Como os antepassados do tempo do deserto, alguns grupos da época de Jesus viram, contudo, acreditar. Viram João Batista e Jesus agindo e falando, mas os rejeitaram, ao passo que os cobradores de impostos e prostitutas creram. Por isso, aquele que tem fé não deve fechar seu coração nem seus ouvidos a Deus. Ele, tal qual pastor, encontra, nos momentos difíceis, um caminho para renovar sua Aliança. "Não fecheis o coração; ouvi vosso Deus". Na compreensão hebraica, o coração é o centro das decisões da pessoa humana. Cantando este salmo, pedimos a Deus que nos faça atentos à sua voz, mesmo quando estamos em tempo de liberdade e sofrendo a tentação da acomodação. A cada dia é preciso estarmos atentos á voz do Senhor para conservarmos o dom conquistado e avançarmos na caminhada. Segunda leitura - 1 Coríntios 7,32-35 Todo o capítulo 7, da primeira carta aos Coríntios, é consagrado aos estados de vida de cristão. Paulo falou sucessivamente dos esposos que vivem juntos (1 Coríntios 7,3-5.10) e perguntam o que representa a continência para si; dos esposos que vivem separados por suas crenças (vs. 12-16); dos cristãos que não são casados e, entre eles, das pessoas "virgens", moços e moças (versículos 36-38) e, finalmente, dos celibatários e das viúvas (vs. 39-40). A segunda leitura é tomada, mais uma vez, das "questões práticas", da primeira carta aos Coríntios. Na linha do "relativismo escatológico" (cf. domingo passado), Paulo explica as vantagens do celibato, ao menos, quando assumido com vistas à escatologia. Como o sentido da escatologia é que o Senhor nos encontre ocupado com Sua causa (cf. primeiro domingo do Advento ano B), é melhor ficar com o estado de vida que deixe nosso espírito mais livre para pensar nisso. É um conselho de Paulo, não para truncar nossa liberdade, mas para a libertar mais ainda. Claro, está falando do celibato assumido, não do celibato "levado de carona", como é, muitas vezes, o da nossa instituição eclesiástica; pois, quando não é assumido interiormente, desvia mais a mente da causa do Senhor do que as preocupações matrimoniais. Bem entendido, porém, este celibato, além da liberdade para Deus que proporciona aos que assumem, é também um lembrete para os casados, ajudando-os no meio de suas preocupações, a conservarem, também eles, o sadio relativismo escatológico, que os faz ver o caráter provisório de seu estado e problemas e, sobretudo, o sentido último que deve ser dado a tudo isso. Marcos 1,21-28 Estamos no início do Evangelho de Marcos, logo após o chamamento dos primeiros quatro discípulos, e pela primeira vez e evangelista descreve Jesus enquanto este ensina com autoridade e expulsa um espírito mau. O texto está englobado de referência ao ensinamento novo do Mestre: dele se fala no começo (vs. 21-22) e no fim (v. 27) e, portanto, nada é dito sobre o seu conteúdo. No centro a narração coloca um exorcismo (v.s 23-26). A multidão fica admirada mais pela "nova doutrina ensinada com autoridade" do que pelo poder de Jesus sobre os "espíritos impuros" (v. 27). Depois desse episódio, a fama de Jesus divulga-se extraordinariamente (v. 28). Os vs. 21s.-27s formam uma moldura ("inclusão") ao redor do exorcismo, que constitui o núcleo da narração. Moldura importante, porque mostra que sentido o evangelista quer dar ao exorcismo. Jesus ensina, e isto provoca admiração, pois ensina com autoridade (exousia), e não como os escribas que ensinavam "conforme disse rabi x rabi"... Jesus fala de Deus de início (v. 22). Ora, no versículo 27 aparece que o exorcismo é a confirmação desta exousia (mesmo termo que, em 2,10, é utilizado para perdoar pecados; em 3,15; 6,7, para expulsar demônios; em 11,28ss., para expulsar os vendilhões do Templo de Jerusalém). Este tema da exousia insinua a autoridade divina na atuação de Jesus. É um termo que se relaciona com o mistério de Jesus no Evangelho de Marcos: no Primeiro Testamento, a exousia é dada por Deus ao Filho do Homem (o termo é típico do livro de Daniel; ver especialmente Daniel 7,12.14.26.27). É a exousia escatológica, que põe fim ao reino de Satã e instaura o Reino de Deus. Marcos 1,23-26 não é uma mera história de exorcismo. É uma Epifania de Jesus, isto é, manifestação de Jesus de Nazaré. O povo desconhece a verdadeira dimensão de Jesus e os discípulos reconhecem sua função só a partir de Marcos 8,27. Isto vale também para outras curas (Marcos 8,26, porque, afinal, qualquer doença era vista como uma intervenção do maligno (cf. Jó 1,6-2,10). Considerar a enfermidade como estado abençoado por Deus é uma atitude do Novo Testamento (João 9,1-2; 1 Coríntios 12,9; Tiago 5,14-16). Em relação com isto devemos observar que muitos fenômenos patológicos eram explicados, na Antiguidade, como possessão demoníaca. Aqui, importa que a cura é uma ocasião para se manifestar pela boca do endemoninhado a importância da autoridade de (exousia) de Jesus. Assim, esta história é caracterizada pelo jogo de "luz e sombra" que é típico do Evangelho de Marcos. Jesus é revelado como Messias e Filho de Deus, mas sempre com uma certa reserva, porque, de fato, nem os homens e nem mesmo os discípulos o compreenderam antes de sua Ressurreição. A expulsão de um espírito mau. Assim interpretavam os contemporâneos de Cristo, como em geral os antigos, os casos de doença mental e transtornos neuropsíquicos, como a epilepsia, por exemplo. O termo "endemoninhados" não significa necessariamente possessão diabólica. Pode referir-se a doentes mentais: esquizofrênicos, epilépticos, paranóicos, etc., pois assim explicavam os transtornos psíquicos. Jesus conformou-se com a crença popular. No mundo antigo, tanto entre os judeus como entre os gregos, e também os romanos, admitia-se a existência de dáimones (demônios = divindades) ou espíritos intermediários entre Deus e a matéria. Os romanos chamavam de pitões. Para os gregos estes espírito eram ambivalentes; podiam ser benéficos ou prejudiciais, com inspiração, com inspiração de gênio ou de loucura, de sorte ou de desgraça. Por um lado, para os judeus eram espíritos impuros, hostis ao ser humano, opostos à pureza religiosa e à santidade moral que o serviço de Deus requer. Sua presença detectava-se especialmente nas doenças mentais e psíquicas, tais como a epilepsia e a esquizofrenia. Os "endemoninhados" dos evangelhos eram doentes deste tipo. É preciso compreender que Jesus sujeitou-se à mentalidade judaica do seu tempo, se bem que em outros aspectos discordou, como, por exemplo, a respeito da suposta interdependência de doença física e do pecado. É claro que Marcos não traz uma descrição psicológica daquilo que aconteceu lá na sinagoga de Cafarnaum, e seria despistar a atenção do assunto perder-se em considerações psicológicas do tipo de perguntar qual a enfermidade, como o homem conhecia Jesus etc. Inclusive, é possível que numa mesma narração se combinem traços de vários fatos. A intenção da narração é teológica, querigmática: suscitar admiração por aquele a quem até os demônios obedecem. A quem obedeceriam, senão a Deus? O fundamental aqui é que Cristo veio para libertar a pessoa humana do mal na sua totalidade: do mal moral, que é a escravidão do pecado, e das suas conseqüências que causam desgraças no mal físico, que é a doença, a fome, a pobreza, a violência, a guerra, o terrorismo e a morte. Tudo o que é mal pertence, de alguma maneira, à esfera do pecado e afasta-se dos planos de Deus, que quer o bem dos seus filhos e filhas. Lugar na liturgia A liturgia relaciona o Evangelho deste domingo com a leitura de Deuteronômio 18,15-20. Por esta aproximação destaca-se o caráter profético da atividade de Jesus. Este está sobretudo na exousia, isto é, na sua autoridade. Quem não escuta as palavras que o profeta fala em nome de Deus, Deus lhe pedirás contas! (Deuteronômio 18,15). É, portanto, a revelação da autoridade divina em Jesus Cristo que forma o tema central da liturgia de hoje, e que se deverá comentar especialmente. A partir do Evangelho, pode-se mostrar que a autoridade de Jesus se revela na sua atuação, que é um atestado garantido pelas próprias forças malignas, atestado não apenas para a atuação, mas também para o ensino do qual esta atuação faz parte; pois Jesus ensina por palavras e atos, à maneira dos profetas. Palavra celebrada vivida no cotidiano da vida Somos batizados, confirmados na fé e convocados pelo Senhor a professar nossa fé no mundo, como profetas hoje. É no "hoje" dos fatos da vida que devemos ouvir a voz do Senhor (salmo 94/95,8). Somos a voz que Jesus quer utilizar para anunciar o amor de Deus no mundo. Sabemos que Ele não é autoritário, já que bate à porta e aguarda nossa decisão. Se nos decidimos por Jesus, por Sua proposta, mesmo preocupados com as coisas do mundo, precisamos priorizar nosso testemunho e anunciá-lo com autoridade de cristãos e batizados. Essa é nossa autoridade (exousia) e nossa responsabilidade. O ensinamento de Jesus fascina-nos e ao mesmo tempo causa-nos receio. Quantas vezes, mesmo dentro de nós, surge a pergunta: "Que tens a ver conosco, Jesus Nazareno?", ou mais literalmente: "Que há entre mim e Ti?"; Que pretendes da minha vida?". É como sermos atraídos por Ele irresistivelmente e, ao mesmo tempo, mantermos uma distancia de segurança; desejar a vida plena que Jesus propõe, mas receamos as conseqüências de um relacionamento com Ele e com sua proposta, requer uma dose de loucura ou pelo menos de pura gratuidade. "Aos fiéis leigos são os cristãos que estão incorporados a Cristo pelo batismo, que formam o povo de Deus e participam das funções de Cristo: sacerdote, profeta e rei. Realizam, segundo sua condição, a missão de todo o povo cristão na Igreja e no mundo. São homens da Igreja no coração do mundo, e homens do mundo no coração da Igreja" (Documento de Aparecida, 209). Nos dias de hoje, encontramos inclusive muitas famílias consagradas ao serviço de Deus, priorizando o reino do Senhor antes das coisas do mundo. No testemunho de cada cristão que prioriza as coisas de Deus, fortalecemos nossa missão de sermos sal da terra e luz do mundo, como Jesus declarou. Precisamos, porém, manter o olhar fixo no olhar do Mestre, pois seja qual for a forma na qual vivemos nosso discipulado, somos tentados por inúmeras situações do mundo, como poder, egoísmo, soberba, e isso sim nos divide definitivamente, pois não é coerente com as coisas do Reino de Deus. Queremos e devemos ser reconhecidos como discípulos e discípulas de Jesus, por isso também a omissão ou a fragilidade em nossas opiniões e atitudes diante do desafio de evangelizar nos afastam do chamado do Senhor. A respeito do anúncio missionário da Palavra do Senhor, o profeta Jeremias via essa necessidade no seu tempo, de uma Palavra sem fronteiras: "Ouvi, nações, a palavra do Senhor e anunciai-a nas ilhas mais distantes..." (Jeremias 31,10a). Mesmo que saibamos que sempre haverá o que realizar, fazer a nossa parte, convidar outros para nos acompanhar e partilhar a missão forma a comunidade, tornando-nos Igreja viva no seguimento dos passos do Mestre. Abrir nosso coração à voz de Deus, deixa-nos ser templos de seu Santo Espírito fortalece e dá coragem, anima para que, cada dia, renovemos nosso espírito missionário. A caminhada de todos nós necessita de um grande objetivo, colocado sempre à nossa frente. Precisamos viver, com alegria, nossa missão de discípulos missionários de Jesus Cristo. A celebração litúrgica é uma referência importante para tantas pessoas que vêm se unir aos irmãos, buscando a Palavra de Deus, procurando um espaço de encontro consigo e com o Pai. Cada pessoa presente na assembléia litúrgica pode contribuir para fazer da celebração um lugar de escuta e de ensino com autoridade. PALAVRA SE FAZ CELEBRAÇÃO Grande é a insistência da CNBB, para que as comunidades assumam cada vez mais em suas celebrações os cantos litúrgicos propostos no hinário. Sem querer aqui fazer um tratado sobre a música litúrgica e sua importância, gostaríamos de lembrar um aspecto que, de modo geral e abrangente, nos leva a compreender o que se pretende com essa insistência. Diz um dos estudos da CNBB: "cantar a liturgia e não cantar na liturgia". Isso significa por certo trazer para a celebração e para o seu núcleo vital, isto é, o motivo que celebramos (dizemos mistério celebrado), a música com sua função ritual de evidenciar aquilo que celebramos. De tal modo que, o que ouvimos nas leituras, da mesma forma cantamos na abertura, na comunhão, na aclamação ao evangelho e na apresentação das oferendas. Esses cantos, chamados "próprio do tempo", relacionam-se com o mistério celebrado e o evidenciam musicalmente. O meio do povo, Deus suscita profetas, gente comprometida com a fé, com a comunidade, com o bem comum, com a construção de uma sociedade cada vez mais justa e solidária. Muitas vezes, esses profetas pagam com a própria vida o preço de sua honestidade, coragem e generosidade. Modo de vida animado pelo Espírito de Deus que lhes garante autoridade para denunciar injustiças e conclamar o povo da Aliança a persistir no caminho da fidelidade. Projetando a narrativa do Deuteronômio para um tempo futuro, podemos entender esse profeta prometido como sendo Jesus; todavia, entre Moisés e Jesus, passaram-se mais de 1.200 anos, durante os quais viveram e atuaram todos os grandes profetas, cujos feitos e palavras são narrados na Bíblia. No Evangelho de hoje, vemos Jesus entrar na sinagoga de Cafarnaum, em dia de sábado, praticar a caridade (dentro da mentalidade do seu povo no século I) e ensinar com a autoridade de quem vive para Deus e segundo Deus, sem fanatismo, sem qualquer tipo de fundamentalismo bíblico, mas de acordo com a lei do amor ao próximo, como nos diz a Oração do Dia de hoje: "Concedei-nos, Senhor nosso Deus, adorar-vos de todo coração e amar todas as pessoas com verdadeira caridade". A celebração se constitui o primeiro lugar para realizar este gesto profético de Jesus ensinando com autoridade. É o que diz o canto: "Antes que te formaste dentro do seio de tua mãe". Neste canto, que se baseia em outra passagem do Bíblia (Jeremias 1,1-10 ), que muito bem serve de canto de abertura para a celebração eucarística deste domingo, os pobres e os excluídos são os preferidos de Deus em oposição aos que têm o coração fechado, que sempre arrumam desculpas para não festejar com o grande rei. O canto mostra o que ficou dito no evangelho a respeito do Profeta Jesus: "O que é isto? Um ensinamento novo, dado com autoridade: ele manda até nos espíritos maus, e eles obedecem", invertendo aquele modo de pensar tipicamente humano que valoriza o mais rico, famoso, com saúde, ou importante, trazendo para participar do seu banquete os esquecidos, os coxos, os impuros, os doentes, em suma, os pobres. É essa inversão que se verifica no evangelho e que pode começar, a partir do canto, a se verificar na celebração. Mas para que a mesa da Palavra e da Eucaristia seja realmente dos pobres e dos impuros e para que nela se realize o cumprimento das profecias que inverte a lógica deste mundo, é preciso em primeiro lugar reconhecê-la como nossa. Somos hoje os convidados que aceitaram, os que sofrem, os que choram e os doentes, pobres e impuros ou desqualificados por qualquer preconceito humano. Somos nós, mas também aqueles que ainda estão nas esquinas, ruas, praças, longe da medicina vitimados pela maldade humana, empobrecidos pelo egoísmo e pecado deste mundo, apedrejados pelos rigores moralistas e impiedosos dos mesmos corações que dizem não à mesa da eucaristia. O canto cumprirá a sua função aos nos recordar de outro modo o evangelho, e será tanto mais litúrgico, se nos lembrar o que esta mesa significa para nós e para os outros e que muitos ainda faltam neste banquete, à espera de um convite, para desfrutar os primeiros frutos do Reino. padre Benedito Mazeti |
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"Cala-te e sai dele!" A primeira bicicleta que ganhei, aos oito anos, tinha duas rodinhas de sustentação para facilitar o equilíbrio no aprendizado, e o futuro ciclista deveria fazer de conta que elas não existiam, para que o treinamento surtisse efeito. Por puro comodismo comecei a me exibir para os familiares, imprimindo velocidade nos pedais e até largando das mãos, para mostrar que estava seguro, mas na verdade colocava toda minha segurança nas rodinhas auxiliares, que não deixavam a bicicleta cair em minhas arrojadas manobras. A turma me olhava com uma pontinha de inveja, quando eu passava “esnobando” com a bicicleta, meus familiares sentiam-se orgulhosos e tudo ia bem até que apareceu um chato, um estraga-prazer de nome Odair, colega de escola, garoto de grande vivacidade e inteligência, que me desafiou. “Ah quero ver você andar sem essas rodinhas aí...!”. Tentei em vão argumentar, que as rodinhas não eram importantes, mas o Odair pegou de brabo e comentou com a turma, que eu não sabia andar coisa nenhuma, e que só estava enganando a todos. Lembro-me que fiquei quase duas semanas de “beiço caído” sem falar com ele, entretanto, com o passar dos dias fui vendo que tinha razão, se não tivesse coragem de tirar as rodinhas auxiliares, nunca iria aprender de verdade, a andar de bicicleta, porque a minha habilidade de ciclista não passava de uma mentira. Essa é exatamente a missão do profeta: denunciar todas as nossas falsas seguranças, mostrando-nos a verdade que tem de ser buscada e cultivada, em nossa relação com Deus e com os irmãos, para que a nossa vida de cristãos não seja uma grande mentira em uma religião só de aparência. No Antigo Testamento os profetas lembravam ao povo a fidelidade à aliança, toda vez que dela se afastavam. A Palavra de Deus manifestada através de Moisés, antes de ser uma norma rígida era um dom, pois oferecia orientações seguras de como viver bem e ser feliz, sob o amparo e a proteção do Deus da Aliança, nesta relação exclusiva e particular “Vós sereis o meu povo e eu serei o Vosso Deus”. Mas os profetas e todos os demais que falaram ao povo em seu nome sofreram muito, foram rejeitados, incompreendidos e até perseguidos e mortos, pois muitos não estavam dispostos a ouvir a Verdade que os faria mudar de vida. O evangelho desse domingo faz uma apresentação solene de um novo, único e verdadeiro profeta que não vem para fazer mais promessas, mas sim para cumpri-las uma a uma. O seu múnus profético se revela na comunidade onde irá realizar um sinal, como prenúncio da sua obra de salvação, que tem na libertação do homem o seu ponto mais alto, naquele sábado na sinagoga, a comunidade conheceu Jesus de Nazaré, o Messias de quem falaram todos os profetas. O seu ensinamento causava admiração, pois ensinava com autoridade e não como os mestres da lei. Ensinar com autoridade não é falar grosso, gritar e dar murros na mesa, como certos pregadores, que gostam de fazer terrorismo religioso, mas é mostrar primeiro a vivência daquilo que se ensina, unir fé e vida, celebrar aquilo que se Crê, é ter uma fé encarnada na história, é sempre falar em nome de Deus. A palavra é libertadora porque gera vida nova, renova o homem por inteiro, Jesus é a palavra viva, o Logus de Deus, o Verbo encarnado no meio dos homens. Para surpresa de todos, na comunidade há um homem possuído por um espírito do mal que conhece Jesus, inclusive manifesta esse conhecimento em palavras bonitas “Sei que tu és o Santo de Deus”, sabe, portanto quem ele é e a que veio, mas não o aceita, não admite que o seu ensinamento interfira no modo de pensar e viver. Parece que Marcos fala às autoridades religiosas do seu tempo, e ao homem da modernidade, que apenas o conhecimento da pessoa de Jesus e sua missão, sem o compromisso de vida com o santo evangelho, jamais vai nos conferir uma fé autêntica. Jesus ornamenta muitos lugares públicos e está em uma correntinha no peito de muita gente, mas falta uma abertura maior para que as atitudes dos que nele dizem professar a fé sejam realmente atitudes de um cristão. O tratamento que Jesus dá ao homem possuído pelo espírito do mal, é de choque – Cala-te e sai dele! Cala-te: porque a palavra que o mal nos propõe é enganosa e mentirosa, traz a morte e não a vida; aprisiona em vez de libertar. O homem da modernidade parece não ter forças para fazer calar tantas vozes mentirosas que seduzem, corrompem, e destrói a dignidade do ser humano, o homem da modernidade se acha importante com o seu conhecimento e o progresso e, entretanto, é totalmente impotente diante das forças do mal, justamente porque não professa uma fé verdadeira e perdeu totalmente a noção do pecado, que contraria a graça de Deus e a sua santa palavra. As Igrejas cristãs devem ter coragem e ousadia, para fazer calar e expulsar tantos “espíritos do mal” que continua a enganar o ser humano, com propostas sedutoras de vida, arrastando muitos para a morte. Ouçamos o apelo dos nossos pastores e sejamos uma igreja mais profética e menos sacramentalista, mais missionária e menos ritualista, fazendo um ensinamento novo, capaz de derrubar as velharias ideológicas escravisadoras, contrárias aos princípios do Reino Novo, que Jesus inaugurou um dia, lá na sinagoga de Nazaré... Quando mostrou quem ele é, e a que veio... diácono José da Cruz |
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Missão: Evangelho e libertação do mal «Deus é médico e é também medicamento!», dizia justamente o santo capuchinho Leopoldo Mandic (1866-1942) aos seus penitentes no confessionário de Santa Cruz em Pádua. Palavras em total sintonia com o trecho evangélico de hoje. Desde o início do seu Evangelho, Marcos apresenta Jesus como uma figura extraordinária em palavras e gestos: um mestre que provoca admiração, porque ensina com autoridade moral (v. 22), isto é, com eficácia; um taumaturgo que com um simples gesto e uma ordem («cala-te, sai») expulsa de um homem um espírito impuro (v. 25-26). Temor, surpresa, fama, admiração, mas também muitas esperanças, são os sentimentos que aquele novo Rabi misterioso, convincente e poderoso, suscita no coração de todos «imediatamente por toda a parte» (v. 28). Dessa forma, toma corpo em Jesus aquele profeta ideal que Deus tinha prometido ao seu povo por meio de Moisés (1ª leitura). Em poucas linhas, Marcos lança as bases para que o catecúmeno – e hoje o cristão – possa fazer um progressivo caminho à descoberta de Cristo, um itinerário de escuta e de procura, caminhando da obscuridade para a luz, para a Páscoa e a missão. O episódio do homem possesso por um espírito impuro, que grita e se contorce, induz a algumas reflexões sobre a existência dos espíritos do mal que, em formas múltiplas e dramáticas, atormentam as pessoas no corpo, na psique e no espírito. É sabido que algumas manifestações atribuídas ao diabo, eram, e são ainda hoje, simplesmente doenças, mesmo se pouco conhecidas. Este fato porém não deve justificar as dúvidas sobre a existência do espírito maligno ou sobre a ação negativa que tal espírito tem sobre as pessoas. Negá-lo seria ingenuidade, que serviria apenas para favorecer a expansão do mal no mundo. Os Evangelhos apresentam-nos numerosos milagres de Cristo sobre pessoas que eram vítimas de males estranhos de natureza psicossomática. A ação sanativa de Jesus abarca a pessoa de modo integral: Ele cura, simultaneamente, o corpo, a psique e a alma. Para fazer frente ao mal, ao destino e às forças negativas em geral, todos os povos fizeram recurso a meios como o espiritismo, a adivinhação, o ocultismo, confiando-se a magos, bruxos, astrólogos, feiticeiros, videntes, adivinhos, horóscopos, etc. Deus tinha já proibido estas práticas ao seu povo (Dt. 18,10-11). Porque se trata, demasiadas vezes, de um obscuro mundo de fraudes, que explora – em troca de choradas compensações econômicas – os receios, a ingenuidade, a credulidade das pessoas, a ignorância sobre Deus, gerando falsas consolações, seguidas rapidamente por frustrações e desespero. Segundo a experiência comum dos missionários que operam em várias partes do mundo, medos e enganos são sinais típicos de paganismo. Mas são realidades que continuam a serpentear entre os cristãos, quando estes não estão totalmente convertidos interiormente: quando não aprenderam, por um lado, a aceitar alguns limites co-naturais à vida humana e, por outro, a confiar na orientação amorosa e providente do Pai da Vida. Freqüentemente alguns resíduos de paganismo continuam a conviver em pessoas crentes, por vezes também em pessoas de vida consagrada. O caminho de conversão é necessário para todos e dura toda a vida, porque cada pessoa humana nasce pagã, isto é, não cristã. O caminho de conversão recomeça com cada pessoa que nasce: de fato, o batismo não é senão o início de um processo de crescimento espiritual. A conversão cristã consiste na progressiva libertação dos medos, dos ídolos e das múltiplas formas de falsidade. Expondo-se sem véus à verdade do Evangelho, cada pessoa faz experiência e dá testemunho da liberdade interior que brota da adesão a Cristo. Os santos são pessoas que, com a graça divina, atingiram um maior grau de libertação das formas de paganismo. De fato, a adesão a Cristo gera liberdade, porque só Ele é a verdade que torna livres (Jo. 8,32; 14,6). (*) A pregação evangelizadora, embora sempre benévola e compreensiva para com as pessoas que erram ou são doentes, deve ser vigorosa e acutilante contra o mal. O fato que o endemoninhado do Evangelho, esteja primeiro tranqüilo na sinagoga e, depois do ensinamento autorizado de Jesus, comece a rebelar-se e a gritar contra Ele (v. 22-24), convida a refletir sobre a força e autenticidade da nossa pregação. Esta não pode ser indulgente ou branda para com o mal, por medo de incomodar, mas deve sacudir as consciências, estimular as pessoas a uma mudança de vida e indicar o caminho que conduz ao encontro verdadeiro com Deus e com os irmãos, na comunidade dos crentes em Cristo. Só assim o anúncio missionário do Evangelho de Jesus exerce o seu poder libertador e salvador: expulsa os demônios, cura as feridas, renova e transforma as pessoas desde dentro.
(*) «Quem descobriu Cristo deve conduzir outros a Ele. Uma grande alegria não se pode guardar para si. É preciso transmiti-la. Em vastas partes do mundo existe hoje um estranho esquecimento de Deus. Parece que tudo corra igualmente mesmo sem Ele. Mas simultaneamente existe também um sentimento de frustração, de insatisfação de tudo e de todos… E assim juntamente com o esquecimento de Deus há como que um boom do religioso… Não raramente a religião se torna quase um produto de consumo. Escolhe-se aquilo que agrada, e alguns sabem inclusive tirar proveito disso. Mas a religião procurada à maneira de ‘self-service’ no final das contas não nos ajuda. É confortável, mas no momento da crise abandona-nos a nós mesmos. Ajudai os homens a descobrir a verdadeira estrela que nos indica o caminho: Jesus Cristo! Procuremos nós mesmos conhecê-lo sempre melhor para poder de modo convincente conduzir também os outros a Cristo» (Bento XVI - Homilia durante a Jornada mundial da juventude, Colônia, 21.8.2005) |
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Primeira leitura: Dt. 18,15-20 Nosso texto trata do ofício de profeta em Israel. O profeta prometido deve comprometer-se exclusivamente com o projeto de Deus, ser seu porta-voz. Os falsos profetas das religiões vizinhas eram comprometidos com o poder religioso ou o poder político. Estavam a serviço da classe dominante. O texto de hoje faz lembrar o medo que o povo tem do contato direto com a transcendência de Deus. Por causa disso, Deus vai suscitar do meio do povo um profeta semelhante a Moisés, ou seja, íntimo de Deus, forte, corajoso, mediador entre Deus e os homens, o fiel porta-voz de Deus. O povo não deve escutar a voz de falsos profetas e Deus pedirá contas de quem não escutar a mensagem do seu porta-voz. Esta é a responsabilidade do povo. Mas também o profeta terá uma responsabilidade diante de Deus. Se ele falar em nome de outros deuses, ou falar em nome de Deus coisas que ele não mandou, este profeta deverá morrer. O Novo Testamento vê em Jesus a realização deste oráculo sobre o profeta semelhante a Moisés. Jesus é o novo libertador que ensina com autoridade; é aquele que o povo deve hoje escutar. Como a própria Palavra de Deus feita carne, Jesus é o mais fiel porta-voz do Pai. Diante das ameaças do Deuteronômio para os falsos profetas, o que dizer de tantas distorções da mensagem evangélica por parte das seitas e das igrejas eletrônicas? A serviço de quem elas estão? De Deus ou do dinheiro? Seus exorcismos, bênçãos e milagres estão realmente ajudando o povo ou servem claramente para manipulá-lo e aliená-lo de um verdadeiro compromisso político e social! Muitos, consciente ou inconscientemente, estão a serviço das grandes potências, que injetam neles rios de dinheiro para, através de sua pregação alienante, poderem mais facilmente dominar os países do 3° mundo. E nós, pregadores bem intencionados, não precisaríamos também nós de um exame de consciência? Segunda leitura: 1Cor. 7,32-35 Aqui, Paulo está preocupado em justificar a opção pela virgindade, que não era vista com bons olhos no Primeiro Testamento, quando o ideal era casar-se e ter muitos filhos, pois assim o povo de Deus iria crescendo. Para o Segundo Testamento, a virgindade é uma virtude e um dom especial de Deus. O povo de Deus cresce através do anúncio da Palavra. Assim, ficar liberado para servir o Senhor e ser porta-voz de sua mensagem torna-se mais importante que qualquer outra condição, pois o tempo é curto. Conservar a virgindade evita as dificuldades presentes (v. 2b), as tribulações da carne (v. 28) e as preocupações mundanas (v. 33). O texto de hoje deseja aos não-casados poupar-lhes as preocupações do mundo. De certo modo, a pessoa casada está dividida, ‘servindo a dois senhores’. Deve agradar ao Senhor e agradar ao cônjuge. Paulo gostaria que o cristão tivesse a grande chance de agradar apenas ao Senhor e ser, assim, santo no corpo e no espírito, ou seja, ter um coração indivisível. Mas o apóstolo fica com medo de uma má interpretação com sua ênfase na virgindade e termina esclarecendo mais ainda suas motivações: “Isso lhes digo para o seu bem, não para armar uma cilada, mas visando o que é digno, o que lhe permite estar perto do Senhor sem distrações.” A preocupação do apóstolo é o alto grau de santidade que ele deseja para o cristão. Isso não quer dizer que não se possa ser santo no casamento, mas, sem dúvida, é um caminho mais árduo e cheio de justificáveis preocupações terrenas. Evangelho: Marcos 1,21-28 Estamos em uma Sinagoga, em dia de sábado. A sinagoga era lugar de ensinamento e aprendizagem. Lugar da comunhão com a Palavra libertadora. Sábado era o dia sagrado, quando se celebrava a vida e a comunhão com Deus. Curiosamente, ali dentro está uma pessoa distante do sagrado (possuída de um espírito impuro) e distante da vida, pois o endemoninhado é marginalizado por aqueles que ensinam na sinagoga. Era o próprio ensinamento da sinagoga que marginalizava as pessoas. Ali se veiculava o espírito impuro das ideologias dos poderosos, que, para dominar, marginalizam e alienam as pessoas. Jesus entra naquele ambiente e começa a ensinar. Todos se espantam. Seu ensinamento é libertador, tem autoridade, é diferente do ensinamento dos escribas. Ele desmascara e arruína a ideologia dos que dominam e marginalizam. Marcos não mostra o conteúdo do ensinamento de Jesus, mas seu efeito. Marcos registra apenas a prova da autoridade nova com a qual Jesus ensina. A prova é sua prática libertadora. Jesus expulsa o demônio da ideologia opressora que se apossara daquele homem. Ele sabe quem é Jesus: o santo de Deus. Mas Jesus o impede de revelar sua verdadeira identidade. Jesus quer, por enquanto, segredo sobre sua messianidade, pois todos esperavam um Messias político, que libertaria o povo através das armas. O Messianismo de Jesus é de outra ordem. Ele quer restituir a cada ser humano sua verdadeira dignidade. Todos se admiram do gesto de Jesus. Ele não é um curandeiro, um mágico. Ele traz, sim, “um ensinamento novo com autoridade”. Até os espíritos impuros obedecem às suas ordens. E sua fama se espalhou por toda a redondeza da Galiléia. dom Emanuel Messias de Oliveira |
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1 – "Se hoje ouvirdes a voz do Senhor, não fecheis os vossos corações". Respondemos à Palavra de Deus com a mesma Palavra de Deus, através dos salmos. E neste domingo ecoa nos nossos ouvidos esta recomendação: sermos ouvintes a partir do nosso coração. Habitualmente usamos duas palavras para o sentido da audição: ouvir e escutar. O ato de ouvir é comum ao ser humano e a outros seres vivos. Até as plantas ouvem, até as plantas têm necessidade de ser afagadas e de ouvir... Assim, na experiência doméstica de muitos, a constatação que um gato, um cão, um pássaro definham se estiverem muito tempo sem ouvir a voz dos donos. E como saltam euforicamente quando pressentem a proximidade do dono, quando ouvem o rugido da porta de entrada, ou mesmo quando ouvem o barulho do carro que estaciona. E por aqui também vemos como o ouvir mexe com o organismo, mexe também conosco. Como precisamos de ouvir ruído, um carro a passar, uma música, uma voz, alguém a conversar na rua!... ou simplesmente as vozes que saltam da televisão ou da rádio. Todos conhecemos pessoas que não gostam de ver televisão, ou nem prestam atenção ao que passa na rádio, mas que ligam os aparelhos para se sentirem menos sós. Quando a solidão ataca, ouvir uma voz pode ser acalentador! 2 – Escutar é genuinamente humano, é prestar atenção, olhar, obedecer, é colocar-se em atitude de diálogo, de acolhimento não apenas de uma mensagem mas da pessoa que a profere. Quando a Palavra de Deus ressoa nos nossos ouvidos não pode ser apenas um ruído que perturba, mas o próprio Deus que vem habitar-nos, que desce ao nosso íntimo, ao nosso coração. Por vezes é necessário fechar os olhos (e até os ouvidos) para que a palavra de Deus possa dançar nas profundezas da nossa alma. Depois essa dança converter-se-á em alegria e há de brilhar através do nosso olhar, das nossas palavras e dos nossos gestos. O povo de Israel, no seu peregrinar pelo deserto, em diversos momentos, transformou a palavra de Deus em ruído exterior, sem deixar que ela tocasse as suas vidas. Em momentos de desânimo, quando a vida é mais complexa e mais dura, facilmente se esqueceram (e nos esquecemos?) das palavras de Deus, perdendo confiança e entregando-se à murmuração, como que exigindo uma intervenção permanente e milagrosa de Deus. Como se a fé em Deus (e nas Suas promessas) significasse o fim de todos os problemas e a ausência de dificuldades e da necessidade do esforço pessoal e comunitário. O salmo provoca a escuta e a mudança do coração, escutar a partir do interior, a partir da alma, para nos abrirmos ao mistério que nos chega de Deus, que pode transformar o mundo que habitamos. 3 – Na primeira leitura, Deus fala a Moisés e por ele a todo o povo, prometendo-lhe o envio de um profeta que fale em Seu nome, para que o povo não se atemorize na Sua presença. «O Senhor teu Deus fará surgir no meio de ti, de entre os teus irmãos, um profeta como eu; a ele deveis escutar. Foi isto mesmo que pediste ao Senhor teu Deus no Horeb, no dia da assembléia: ‘Não ouvirei jamais a voz do Senhor meu Deus, nem verei este grande fogo, para não morrer’. O Senhor disse-me: ‘Eles têm razão; farei surgir para eles, do meio dos seus irmãos, um profeta como tu. Porei as minhas palavras na sua boca e ele lhes dirá tudo o que Eu lhe ordenar. Se alguém não escutar as minhas palavras que esse profeta disser em meu nome, Eu próprio lhe pedirei contas'». Com efeito, ainda que através do profeta, as palavras de Deus terão a mesma força e a mesma exigência. Deus colocará a sabedoria e as palavras nos seus enviados, para serem como que um esteio entre o povo, na fidelidade aos mandamentos, na procura constante por praticar o bem e a justiça, viver na concórdia e ajudando-se como família. A caminhada do deserto foi demorada e exigiu um grande esforço, não tanto pelas condições adversas, próprias da aridez e da oscilação climática (entre o calor e o frio extremos), mas sobretudo pelos recuos e avanços na vivência dos mandamentos, referência fundamental (e libertadora) para todo o povo. A lei, justa e esclarecida, equilibrada e para todos, é libertadora. Como alguém recorda, é como uma pequena cruz no canto de uma folha em branco, temos todo o espaço para preencher com a nossa escrita, com a nossa vida. Os dois pequenos traços cruzados dizem-nos que podemos escrever, que somos livres para agir, ainda que a folha já tenha uma marca. Se nos concentrarmos nessa marca e nos lamentarmos por a folha já se encontrar iniciada (trazemos já inscritas regras no nosso código genético), esqueceremos rapidamente que há muito mais para viver, alguém nos facilitou o caminho, sabemos por onde iniciar, de onde partir... A cada passo surgem vozes a murmurar e a lamentar-se pela falta de comodidade que teriam no Egito, ainda que não tivessem liberdade (tendo a folha já cheia de traços, sem espaço a preencher) e, naturalmente, a tentação de regressar a hábitos e tradições, próprias de um povo politeísta e bem mais permissivo na moral e nos costumes e pouco exigentes na defesa e valorização da vida humana. 4 – Jesus é a palavra encarnada, o medo que os judeus tinham de escutar a voz de Deus, que vinha do alto como um estrondo, chega agora de forma indolor, quase silenciosa, entra na história (quase) anonimamente, não por entre as nuvens, mas a partir do interior da humanidade. A Palavra tem um rosto, é uma Pessoa, faz-Se carne em Jesus Cristo. A Palavra de Deus, mediada pelos profetas, perde por vezes a sua eficácia. Em alguns momentos, o povo distancia-se da palavra de Deus por não lhe reconhecer a força ou simplesmente por faltarem profetas – a Palavra de Deus torna-se inacessível, difícil de compreender pela multiplicação e ruído das palavras. Os escribas e doutores da lei tornaram demasiado complexa a palavra de Deus e, por outro lado, tornaram-na fator de divisão. Esclarecidos, sabiam como contornar a lei ou justificar os seus desvios, com outros preceitos. As pessoas mais simples procuravam cumprir mesmo não entendendo o que se lhes pedia, ou parecendo-lhes excessivo, mas sem terem como argumentar. Com Jesus Cristo, a Palavra volta a plantar-se no coração dos homens e das mulheres. Não nos atemoriza porque podemos escutá-la até no deserto das nossas preocupações, no mais íntimo de nós, até mesmo no silêncio mais profundo. Ele é o Mestre dos Mestres, é a Palavra que Se faz Pessoa e tem palavras de vida eterna. N'Ele as palavras são expressão da Sua intimidade com Deus, refletem o que pensa e a forma como age na relação com o mundo e com as pessoas. "Encontrava-se na sinagoga um homem com um espírito impuro, que começou a gritar: «Que tens Tu a ver conosco, Jesus Nazareno? Vieste para nos perder? Sei quem Tu és: o Santo de Deus». Jesus repreendeu-o, dizendo: «Cala-te e sai desse homem». O espírito impuro, agitando-o violentamente, soltou um forte grito e saiu dele. Ficaram todos tão admirados, que perguntavam uns aos outros: «Que vem a ser isto? Uma nova doutrina, com tal autoridade, que até manda nos espíritos impuros e eles obedecem-Lhe!» E logo a fama de Jesus se divulgou por toda a parte, em toda a região da Galileia". A palavra de Jesus liberta, cura, e desafia-nos à coerência de vida. A autoridade que se Lhe reconhece vem da simplicidade com que fala às multidões e a cada pessoa que encontra. Não fala como estranho, como alguém superior ou mais sábio, mas fala ao coração, com gestos, com autenticidade, de forma simples, mistura-se com o povo, deixa-se tocar, deixa-se arrastar no meio da multidão, vai onde precisam d'Ele, da Sua palavra ou dos seus gestos. Como discípulos deixemo-nos envolver pela Sua presença, pela Sua palavra, agindo sabendo que Ele está conosco, a olhar para nós, a contemplar a nossa vida. padre Manuel Gonçalves |
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Jesus proclama com autorida um ensinamento novo Aquele que nEle crê e se converte, deve anunciá-LO com todo o ardor: profeta é um porta-voz. Com autoridade de seus ensinamentos, Jesus veio libertar a humanidade e decreta o final do reinado do mal. A liturgia nos apresenta esse Cristo que realiza, por meio de palavra e gestos, Sua autoridade de verdadeiro Mestre, realçando seu caráter profético de vida e ação, numa alusão aos patriarcas e profetas. Profeta é uma pessoa de Deus que fala e faz o que Deus deseja revelar com autoridade divina e vencer as forças do mal. O povo vê nele algo superior aos mestres da lei e autoridades religiosas e, embora incrédulo, crê em Sua autoridade e espalha a boa notícia: Ele é o Filho de Deus feito homem, O libertador, O Mestre que tem uma doutrina segura e dá testemunho do que vive. Ele bate a nossa porta. Primeira leitura: Deuteronômio 18,15-20. Farei surgir um profeta e porei as minhas palavras na sua boca. O texto se refere ao papel e significado do profetismo. Deus nos apresenta a figura do profeta, o anunciador de suas palavras e de realizar sinais, como fez na aliança do Sinai. Moisés, o mediador entre Deus, que faz conhecer sua vontade, e Seu Povo, deixa ao Povo testamento espiritual que lembra os hebreus dos compromissos com Jahwéh. A missão do profeta, como alguém escolhido por Deus e que viva no meio dos homens, é ser Sua Palavra que perenize fidelidade à aliança. O fundamento teológico é da existência de um só Deus, que deve ser adorado por todo o Povo num único local de culto, Jerusalém. Jahwéh elegeu Israel como o Povo para essa aliança. O fenômeno profético, comum entre os povos e normalmente ligado a adivinhações e coisas do gênero, fez com que a catequese do autor discernisse com critérios o falso do verdadeiro, colocando Moisés como o protótipo do verdadeiro. A iniciativa de escolhê-lo foi de Deus. Na vocação de Moisés está Deus que o enviou em missão a seus irmãos. O profeta transmite Sua mensagem que deve ser ouvida e seguida. O próprio Deus pedirá contas de quem fechar seu coração às mensagens recebidas. A vocação profética é um dom de Deus que o torna instrumento a agir com fidelidade e humildade na comunidade eclesial. A missão profética do batizado é o serviço de Deus e ser protagonista de Seus ensinamentos, cumprindo uma missão, sem esquemas pessoais, interesseiros e egoístas. Segunda leitura: 1 Corintos 7,32-35. A virgem preocupa-se com os interesses do Senhor, para ser santa. O texto é um ensinamento de como viver a alegre disponibilidade a serviço do Reino junto aos irmãos. É um convite a repensar prioridades sem deixar que realidades transitórias se tornem o imperativo da vida que transtorne nossa relação com Deus e o irmão. A comunidade de Corintos, pela diversidade filosófica contraditória existente, tinha uma perspectiva diversa do sentido da vida, sobre a forma de realização completa e ser feliz, conforme o evangelho. Tratava-se da questão da ética sexual: casamento x celibato. Paulo prega o equilíbrio, face aos exageros. Condena a desordem sexual, defende o matrimônio e elogia o celibato, a virgindade. Afirma, para este fim, que o Senhor nada preceitua, mas recomenda ao casado, fidelidade e, ao celibatário, que se mantenha. O cristão, ao fazer suas opções, deve lembrar que o tempo é breve. A vida casta consagrada, sinal de desprendimento, está mais disponível às coisas de Deus e dos irmãos. O casado vive a família e seu sustento, o mundo. Ambos os estados de vida fazem parte da vida humana. O que importa é viver a fidelidade na vida real, voltada para a vida em e para Deus. O essencial para o cristão é o bem maior, o amor a Cristo e ao irmão, nessa vida peregrina rumo à casa Paterna. Evangelho: Marcos 1,21-28 Ensinava-os com autoridade de Mestre. Preso João Batista, Jesus volta para Cafarnaum, na Galiléia, de onde irradia seu ministério por meio de ensinamentos e ação salvadora, como o Messias, o consagrado de Deus. O texto mostra como Jesus, o Filho de Deus, cumprindo o projeto misericordioso do Pai, por suas palavras e ações solidárias, renova e transforma em homens livres aqueles que vivem prisioneiros do egoísmo, do pecado e da morte. Diante dessa força divina o espírito impuro, símbolo do poder opressor, retrocede e se afasta: “Que queres de nós, Jesus Nazareno? Tu és o Santo de Deus”. “Cala-te e sai dele!” Intima Jesus. Como seguidores e profetas do Senhor, escutar a Boa Nova que traz vida e salvação para os oprimidos, doentes e marginalizados, devemos ser sinais do céu para nossos irmãos na comunidade, na Palavra e na eucaristia. Marcos deseja a descoberta de Jesus como o Messias que proclama o Reino de Deus. Com suas palavras catequéticas nos convida a ouvir as revelações de Jesus e seguir Seu anúncio, fazendo de nós Seus discípulos que abraçam Sua proposta salvadora a dizer como Pedro: “Tu és o Messias”. A cena acontece em Cafarnaum, onde Jesus inicia Seu ministério, como o verdadeiro Messias libertador, cercado pelos primeiros discípulos. Imaginemos Jesus, um simples judeu, entrando na sinagoga onde acontece uma liturgia sabática com ações próprias como leituras, cânticos e bênçãos. Ele, ao comentar alguma leitura, faz suas alusões, fugindo do comum dos escribas, causa “frenesi” aos participantes, maravilhados com suas palavras ditas com autoridade e firmeza. Um homem com um espírito impuro aparece em cena. Para o Judeu uma pessoa com doenças tinha origem desses espíritos e, por isso, considerada impura e afastada da comunidade. Só Deus podia curá-la. Jesus com proposta libertadora veio curar os doentes e pecadores. A ação da cura do homem possuído de espíritos maus se constitui na prova da proposta libertadora, vinda de Deus. Este homem é o protótipo das pessoas excluídas e violentadas pelos poderosos do mundo egoístico e explorador cuja cultura é a auto-satisfação. Deus, porém, não desiste da humanidade, propondo aos homens um projeto de liberdade e de vida plena, capaz de renovar o mundo. A missão do discípulo é continuar a obra de Jesus e assumir a luta pela igualdade. Seguir Jesus é arregaçar as mangas e lutar contra a lógica do mundo que rouba vida e liberdade. |
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Jesus ensina com autoridade libertadora 1ª leitura: Deuteronômio 18,15-20 O anseio de um profeta verdadeiro 1.A primeira leitura é um texto dos chamados programáticos na teologia deuteronomista, uma teologia de inspiração profética, que haveria de dar como fruto uma reforma no tempo do rei Josias (621 a.C.), porque o livro do Deuteronômio serviu de apoio aos israelitas piedosos que, deslocados para Judá depois de 721 a.C., trariam as suas melhores tradições religiosas. Estes iriam influenciar num certo círculo profético que colocava a sua mente e o seu coração numa vida mais de acordo com a Aliança que Deus fez com Moisés em benefício do povo. Embora atualmente certos aspectos nos pareçam tradicionais, naquela altura eram verdadeiramente renovadores face aos círculos do poder religioso, social e político. 2. Este texto fala-nos da comunicação direta com Deus e da transmissão da sua Palavra. Nele se apresenta Moisés como mediador, mas anuncia um profeta definitivo que levará à plenitude essa comunicação com Deus. É um texto que se tornou muito sugestivo e dele sempre se valeram quase sempre os que esperavam muito mais da religião de Israel. O “profeta” não está definido e apresenta-se como verdadeira alternativa ao próprio Moisés. Não está definido o profeta, porque é uma missão de muita envergadura. Os cristãos, de uma forma muito particular, aplicá-lo-ão a Jesus. Para muitos autores o texto da sinagoga de Nazaré de Lc. 4,16ss. tem qualquer coisa dele, embora seja outro texto de Is. 61,1-2 que o sustenta realmente. 3.Israel sempre suspirou por esse profeta definitivo, escatológico, mas não soube vê-lo no momento adequado. É um texto que deve ser encarado como a grande alternativa aos magos, adivinhos, vaticinadores, etc. O profeta não é esse tipo de homens, nem desempenha essa função, como muitas vezes erroneamente se interpretou. A sua sintonia com Deus radica em saber escutar as suas palavras no mais profundo do seu ser, e de reconhecer a sua marca na história dos homens. É verdade que houve profetas verdadeiros e profetas falsos, mas o povo soube distinguir perfeitamente entre uns e outros. 2ª leitura: 1 Coríntios 7,32-35 Para se dedicar às coisas do Senhor 1. A segunda leitura é um texto que continua a tratar das preocupações deste mundo, como no domingo passado. Membros da comunidade de Corinto puseram a Paulo algumas questões e ele teve de responder a casos individuais: que sentido tem a virgindade? E não casar, relativamente ao matrimônio? (7,1-40). O que é melhor para um cristão ou uma cristã? No contexto do que significava o celibato e o desprezo pela mulher numa cidade com fama de libertina, como era Corinto, não se pode evitar a hora de valorizar o conjunto. 2. Eleger o celibato com o objetivo de ser mais livre para as coisas do Senhor: pregação, compromisso, comunitário… não deve significar um grau de perfeição ou um desvio desmesurado da vida cristã. Paulo fala partindo da sua experiência pessoal: se tivesse sido casado não poderia ter trabalhado da mesma maneira na pregação e na fundação de comunidades, com deslocações e, inclusive, com perseguições por causa do anúncio do Reino… Mas a sua experiência pessoal e intransmissível não pode ser modelo legítimo mais do que para aqueles ou aquelas que querem dedicar-se com absoluta liberdade a esta causa. Fora disso, é possível e necessário, dedicar-se ao Senhor e ao Reino no âmbito da vida familiar, mas não seria legítimo abandonar aquelas obrigações que no texto se chamam “do mundo” e que devemos entender como as coisas peremptórias da vida de cada dia. E, entre elas, agradar ao marido ou à esposa e aos filhos. 3. Muito se falou deste texto, a respeito da mentalidade ascética de Paulo. Desde logo, não podemos dizer que o apóstolo considera a vida celibatária como mais perfeita do que a vida matrimonial, mas chama a atenção para o fato de os que escolhem não se casarem – estamos a falar de cristãs/cristãos que o fazem com a intenção de dedicarem o seu tempo e o seu esforço à causa do Evangelho, já que as pessoas casadas têm de atender às necessidades da família; as suas preocupações com o necessário para uma família são mais fortes. A vida não matrimonial deixa mais liberdade para as obrigações religiosas. No entanto, o que Paulo escreveu na perspectiva de um final que era esperado (é o texto imediatamente anterior), muda radicalmente no nosso mundo e na visão atual do casamento e da família cristã, porque todos os cristãos, casados ou não, estamos chamados a dedicar a nossa vida à causa do reino. Evangelho: Marcos 1,21-28 As boas notícias de Deus “desdemonizam”, quer dizer, libertam. 1. O Evangelho de Marcos apresenta-nos a primeira atuação de Jesus depois de ter chamado os discípulos. Entram em Cafarnaum e depois na sinagoga. Este é um relato que faz parte de um conjunto teológico, formal e literário, conhecido como a “jornada de Cafarnaum, (1,21-3,6)”. O Evangelho de hoje é digno de consideração e de reflexão, porque quase sempre foi lido de uma forma neutral ou não-substantiva. Mas esta cena tem muito de programa no Evangelho de Marcos. Quando em Mc 1, 14-15 se anunciava o tempo novo, é agora, que se vai descrever por que é verdadeiramente novo e qual é o seu alcance. Os personagens são a “gente” e um “endemoninhado”, quer dizer, os simples e os oprimidos. Não teria sentido que tratássemos de identificar a “patologia” deste doente, porque considero que a “patologia”, aliás, psicológica, vem a ser espiritual e teológica e, por isso mesmo, não menos humana. 2. Começa no dia de sábado, dedicado ao descanso para escutar a Palavra de Deus. Devemos reter vários aspectos nesta narrativa: Jesus é convidado a comentar as Escrituras e, desde o começo, os seus ensinamentos provocam a admiração, por toda a segurança com que o que diz. As pessoas reconhecem-Lhe “autoridade” (exousía), quando sabemos que Jesus não se tinha formado aos pés de um rabino, mas que tudo tirava de si próprio, da sua experiência interior. Ele mostra que está em sintonia profética com Deus, e, por isso mesmo, que está a cumprir-se o previsto no texto de Dt 18. Devemos entender que aqui a autoridade tem aquele sentido de força profética que não se pode aprender em escola alguma nem com nenhum mestre da Lei. No princípio e no final do relato, o coro das pessoas torna-se testemunha de algo novo e inaudito. O “exorcismo” como centro da narrativa é a desculpa “histórica” para que as pessoas respirem com a chegada deste profeta à sinagoga.” 3. As pessoas têm a intuição de que não se trata de um comentador aldrabão e inculto de textos da Lei ou dos profetas, mas um verdadeiro criador de boas notícias, com as que se há-de confrontar em todas as situações (em cumprimento de Mc 1,14-15). É verdade que o texto não nos indica o que Jesus dizia, porque, neste caso, o objetivo é realçar a “força” libertadora e salvadora da sua Palavra naquele personagem misterioso que se sente provocado pela explicação que Jesus dá da Escritura. Não sabemos se está a comentar um texto da Torah (da Lei) ou dos profetas, como acontece na narrativa de Lucas, em Nazaré (Lc. 4,16ss). Mas o espírito do relato aponta claramente para o mesmo conteúdo das boas notícias, pelas quais aborda o homem “enfermo”, que estava possesso como sempre tinha acreditado e que o era, como lhe tinham ensinado tradicionalmente os “teólogos” e terapeutas de sempre. 4. A mentalidade da época sobre o possesso deve ser tida em conta na hora de ler e interpretar esta narrativa. A palavra profética de Jesus leva a que daquele homem saiam os seus males, a sua própria mentalidade demoníaca, que a “doutrina” tradicional e a-teológica dos responsáveis da sinagoga lhe tinha provocado. É muito possível que alguns interpretem a capacidade de Jesus para se confrontar como um psicoterapeuta face ao enfermo… mas seria demasiado técnico este assunto. Há um fundo religioso e teológico que não podemos esquecer. Se fosse um doente, estava a pagar alguma falta; era essa a tese tradicional no judaísmo da época. Não era isto suficiente para ser possesso? Portanto, Jesus rompe barreiras: demonstra a falsidade de uma teologia que atribui a Deus o que é dos homens, das suas mentalidades fechadas e anquilosadas no passado e num Deus sem coração. A sua interpretação faz da sinagoga um verdadeiro espaço de liberdade, onde se escutam palavras de vida e não de morte. 5. Neste relato tão especial estão em confronto dois mundos: o do doente e possesso com a sua doutrina e o seu mundo desfeito em mil pedaços e o de Jesus, o profeta que, da parte de Deus, anuncia um tempo novo. Inclusivamente, os doentes resistem a deixar de ser o que eram, ou o que os outros queriam que fossem. A sua vingança é dizer quem é Jesus, o “santo de Deus”, e isto no Evangelho de Marcos é como romper “o segredo messiânico” que só se revelaria no fracasso da cruz (lá o fará um centurião pagão, Mc 15). Mas já aqui se adianta qualquer coisa do triunfo de Jesus. O “endemoninhado”, ao revelar quem era Jesus estava a revelar que era capaz de reconhecer a mão de Deus, como as pessoas, onde os responsáveis e os dirigentes da “palavra” e das coisas de Deus apenas se ocupavam em condenar e privar de dignidade e de liberdade às pessoas. Este, e não outro, é o sentido deste relato que, sem dúvida, tem aspectos históricos da práxis de Jesus de Nazaré. Mas o mais importante são os significados, expressos simbolicamente e não por isso menos reais, para os que acolhem a nova mensagem de Jesus: as boas notícias da parte de Deus, libertam psíquica e espiritualmente fray Miguel de Burgos Núñez tradução de Maria Madalena Carneiro |
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A via do serviço “Todos nós seremos transformados pela vitória de Nosso Senhor Jesus Cristo” A vinda do Messias e a sua vitória se cumprem no serviço. Jesus quer que um espírito de serviço preencha também o coração dos seus discípulos. Ele ensina-nos que a verdadeira grandeza consiste em servir a Deus e o próximo. Cristo dá-nos coragem para descobrir que é aquele para quem servir, é reinar – como dizia um cristão dos primeiros séculos. Se entre nós há uma diversidade de dons, todos formamos um só corpo em Cristo. Nas nossas divisões, cada uma das nossas tradições tem sido favorecida pelo Senhor de certos dons que somos chamados a colocar ao serviço dos outros. O uso da nossa diversidade de dons, no serviço comum da humanidade, torna visível a nossa unidade em Cristo. A ação comum dos cristãos em prol da humanidade, para combater a pobreza e a ignorância, para defender os oprimidos, para favorecer a paz e preservar a vida, para desenvolver as ciências, a cultura e a arte, é uma expressão daquele ecumenismo prático de que a Igreja e o mundo tanto precisam. Imitar Cristo servo é dar testemunho eloquente ao Evangelho, tocando não só os espíritos, mas também os corações. Este serviço comum é um sinal da chegada do Reino de Deus – o Reino do Cristo servo. Conselho pontifical para a promoção da unidade dos cristãos tradução de Maria Madalena Carneiro |
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Pelas leituras que escutamos, sobretudo a primeira e o evangelho, facilmente chegamos à conclusão de que o profeta prometido por Deus a Moisés é o próprio Jesus Cristo. E o Evangelho mostra-nos logo princípio que Jesus não é só mais um profeta mas alguém traz novidade. E é sobre estas duas dimensões de Jesus que gostava de falar hoje. Jesus é mais que um profeta. É um profeta porque vem em nome de Deus e fala em nome de Deus. No Evangelho de João, Jesus fala muitas vezes da sua íntima relação com o Deus. Uma relação filial. Jesus sabe que vem da parte do Pai e que a sua missão é a de reatar as relações perdidas entre Deus e os seres humanos. Mas, quando se diz que é mais que um profeta, é porque Jesus, embora a sua pregação se inscreva naquilo que os profetas pregavam e denunciavam, vem trazer a imagem amorosa de Deus que as suas palavras e ações demonstram. Ou seja, Jesus é o profeta de Deus como mensageiro de uma Boa-Nova mas, ao mesmo tempo é mais que um profeta porque ele próprio é a Boa Nova, o Evangelho encarnado, o revelador de Deus. Não se trata, portanto, de um Deus teológico – um Deus que se “constrói” a partir da revelação – mas sim de um Deus que nunca ninguém viu, na expressão de São João, mas que Jesus veio dar a conhecer. Se quiséssemos diferenciar, de uma maneira mais clara, poderíamos dizer que enquanto os profetas dizem o que o Senhor diz, Jesus vem dizer-nos quem Deus é. Talvez daí venha a admiração das pessoas por Jesus: Que vem a ser isto? Uma nova doutrina, com tal autoridade. A exclamação da multidão em volta de Jesus torna-se para nós, hoje, uma interrogação. Que nova doutrina? Que autoridade? Estas questões colocam-se diante de Jesus, da sua novidade e da sua autoridade nas nossas vidas. A primeira questão é saber que ideia temos de Deus e de Jesus Cristo. Por vezes as nossas concepções deturpadas de Deus, os nossos preconceitos, não nos aproximam de Deus nem levam os outros a aproximarem-se dele. Às vezes chega-se a um ponto tal que achamos que Jesus é que se deve adaptar e ajustar às nossas ideias e não nós os que devemos adaptar e ajustar a Jesus Cristo. Por isso, para que a novidade de Jesus entre na nossa vida temos de nos desprender destas ideias preconcebidas de Deus e aceitar que ele seja, de fato, a grande novidade da nossa vida. A mesma novidade que sentiam os que ouviam Jesus e que contrastava com a ideia de Deus que os fariseus e doutores da Lei ensinavam ao povo. Jesus vem dizer-nos que Deus é gratuidade, misericórdia e amor. Isto contrasta ainda com certas correntes do ateísmo atual que nos ataca com uma ideia de Deus, inimigo do homem: Que tens tu que ver conosco, Jesus de Nazaré? É aqui que entra a resposta de Jesus, a nossa resposta: Deus não é nosso inimigo, Deus está conosco, sentimo-lo na nossa vida e sentimos os efeitos da sua bondade. Claro que, só podemos dizer isto se respondermos de uma forma coerente à pergunta sobre o que é que Jesus tem que ver com a nossa vida. A questão da autoridade. Porque, a nós, cristãos, o que se nos deve colocar como questão não é se somos cristãos tradicionais, se vivemos a nossa fé como uma rotina de domingo ou de feriados religiosos, mas em que é que o Evangelho entra em nossa vida como novidade e com a força de nos mudar, de nos converter. Que o Senhor nos dê o dom de acolher o novo. Jesus, numa outra passagem do Evangelho diz que para vinho novo odres novos. E que a novidade da sua vida abra as portas do nosso coração para acolher a bondade de Deus na nossa vida. frei Filipe, op |
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Jesus é nosso Mestre e Senhor Jesus Cristo ainda na Galileia dirigiu-se com seus primeiros discípulos à cidade de Cafarnaum. Era sábado e Jesus entrou na sinagoga para ensinar. Jesus é o Mestre que ensina como alcançar o Reino. Na só na sinagoga, mas em todos os lugares as pessoas admiravam-se de Seus ensinamentos, porque Jesus ensinava com sabedoria e autoridade. O Versículo 22 do Evangelho de são Marcos diz: “Maravilhavam-se da sua doutrina, porque os ensinava como quem tem autoridade e não como os escribas”. O Beato João Paulo II disse: “Jesus ensinou. É esse o testemunho que Ele dá de Si mesmo: “Entretanto, todos os dias estava eu sentado entre vós ensinando no templo” (Mt. 26,55b). É essa também a observação que fazem cheios de admiração os Evangelistas, surpreendidos por O verem ensinar sempre e em qualquer lugar, e fazê-lo duma maneira e com uma autoridade desconhecidas até então”. “O Espírito do Senhor está sobre Mim” (Is. 61,1) A pregação de Jesus é com a força, poder e autoridade do Espírito Santo. O Beato João Paulo II disse: Em Jesus, o ligame Espírito-Palavra atinge o vértice: de fato, Ele é a própria Palavra que Se fez carne «por obra do Espírito Santo». A presença poderosa do Espírito Santo verifica-se na atividade evangelizadora de Jesus. Ele mesmo o ressalta no sermão inaugural na sinagoga de Nazaré (Lc. 4,16-30), aplicando a Si a passagem de Isaías: «O Espírito do Senhor está sobre Mim» (Is. 61,1). Também os discípulos de Jesus seguem o Mestre e pregam o Evangelho pela força do Espírito de Deus: “Ao dirigir-se aos cristãos de Tessalônica, São Paulo afirma: «O nosso Evangelho não vos foi pregado somente com palavras, mas também com poder e com o Espírito Santo» (1Ts. 1,5). A exemplo dos discípulos, é no Espírito Santo que os evangelizadores devem buscar autoridade, força e poder. O Catecismo (1506) diz que Jesus fez com que seus discípulos participassem também ”de seu ministério de compaixão e de cura: “Partindo, eles pregavam que todos se arrependessem. E expulsavam muitos demônios e curavam muitos enfermos, ungindo-os com óleo”. (Mc. 6,12-13) O Beato João Paulo II ensinou-nos: “São Pedro define os apóstolos «aqueles que anunciaram o Evangelho no Espírito Santo» (1Pd. 1,12). Mas o que significa “evangelizar no Espírito Santo”? Sinteticamente, pode-se dizer: significa evangelizar na força, na novidade, na unidade do Espírito Santo. Evangelizar na força do Espírito quer dizer ser investido daquele poder que se manifestou de modo supremo na atividade evangélica de Jesus”. Pelo sopro de Jesus ressuscitado a Igreja recebeu na tarde da Páscoa, o Espírito Santo (Jo. 20,22), e sob esse sopro se desenvolve a vida da Igreja. Diz o documento da Igreja que “o Espírito Santo é o protagonista de toda a missão eclesial”. (Redempt. miss. 21) Santo Ambrósio disse que “a Igreja é esse navio que navega bem neste mundo ao sopro do Espírito Santo com as velas da cruz do Senhor plenamente desfraldadas”. É pela força do Espírito que o Senhor chama a sua Igreja a anunciar o Evangelho a todas às nações. Eis o mandato de Jesus: “Mas descerá sobre vós o Espírito Santo e vos dará força; e sereis minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judéia e Samaria e até os confins do mundo”. (Atos 1, 8) Cinqüenta dias depois da páscoa, Jesus derrama o Espírito Santo em forma de línguas de fogo sobre Maria e os Apóstolos. A Igreja anuncia o Evangelho graças à presença e à força do Espírito Santo. Jesus liberta-nos do mal Dos versículos 23 a 28, a Palavra fala de um homem possuído de um espírito imundo, que aos gritos dizia que Jesus é “o Santo de Deus” (v. 24). Jesus com autoridade disse-lhe: “Cala-te, sai deste homem!” (v. 25). “O espírito imundo agitou-o violentamente e, dando um grande grito, saiu”. (v. 26) Ficaram todos admirados e disseram de Jesus: “…além disso, ele manda até nos espíritos imundos e lhe obedecem!” E diz o versículo 28: “A sua fama divulgou-se logo por todos os arredores da Galileia”. São Basílio de Cesareia disse que com Jesus “o diabo perdeu o seu poder na presença do Espírito Santo”. O Beato João Paulo II disse que “iniciada no deserto, a luta com Satanás prossegue durante toda a vida de Jesus. Uma Sua atividade típica é a do exorcismo, razão por que o povo brada admirado: «Até manda nos espíritos impuros, e eles obedecem-Lhe» (Mc. 1,27). É precisamente «com o Espírito de Deus» que Jesus expulsa os demônios (Mt. 12, 28). Segundo o evangelista Lucas, depois da tentação no deserto, «impelido pelo Espírito, Jesus voltou para a Galileia (…) e ensinava nas sinagogas» (4,14-15). A palavra de Jesus expulsa os demônios, aplaca as tempestades, cura os doentes, perdoa os pecadores, ressuscita os mortos”. A missão de Jesus incluía o exorcismo, porque Ele veio para “…por em liberdade os cativos…” (Lc 4, 19). Não é de se admirar que nos evangelhos são narradas muitas dessas situações durante o exercício da missão salvífica de Jesus. O Papa Bento XVI esclarece-nos: “Jesus não só expulsa os demônios das pessoas, libertando-as da pior escravidão, mas impede que os demônios revelem a sua identidade. E insiste sobre este “segredo”, porque está em jogo o bom êxito da sua própria missão, da qual depende a nossa salvação. Com efeito, sabe que para libertar a humanidade do domínio do pecado, Ele deverá ser sacrificado na cruz como verdadeiro Cordeiro pascal”. Concluímos essa reflexão com o ensinamento do Catecismo (550) da Igreja Católica: “O advento do Reino de Deus é a derrota do reino de Satanás: “Se é pelo Espírito de Deus que eu expulso os demônios, então o Reino de Deus já chegou a vós” (Mt. 12,28). Os exorcismos de Jesus libertam homens do domínio dos demônios. Antecipam a grande vitória de Jesus sobre “o príncipe deste mundo”. Oremos com a Palavra de Deus (Efésios 6,10- 20): “Finalmente, irmãos, fortalecei-vos no Senhor, pelo seu soberano poder. Revesti-vos da armadura de Deus, para que possais resistir às ciladas do demônio. Pois não é contra homens de carne e sangue que temos de lutar, mas contra os principados e potestades, contra os príncipes deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal (espalhadas) nos ares. Tomai, por tanto, a armadura de Deus, para que possais resistir nos dias maus e manter-vos inabaláveis no cumprimento do vosso dever. Ficai alerta, à cintura cingidos com a verdade, o corpo vestido com a couraça da justiça, e os pés calçados de prontidão para anunciar o Evangelho da paz. Sobretudo, embraçai o escudo da fé, com que possais apagar todos os dardos inflamados do Maligno. Tomai, enfim, o capacete da salvação e a espada do Espírito, isto é, a palavra de Deus. Intensificai as vossas invocações e súplicas. Orai em toda circunstância, pelo Espírito, no qual perseverai em intensa vigília de súplica por todos os cristãos. E orai também por mim, para que me seja dado anunciar corajosamente o mistério do Evangelho, do qual eu sou embaixador, prisioneiro. E que eu saiba apregoá-lo publicamente, e com desassombro, como é meu dever!” Jane Amábile |
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O possesso do demônio A liturgia da Palavra deste 4º domingo comum, é uma comunicação da vida e ministério dos Profetas que nem sempre falaram ao jeito do povo, e nem sempre foram bem recebidos pelo povo de Israel, inclusivamente, o maior dos profetas, Jesus Cristo. Jesus propõe a todos aqueles que deram a resposta da fé, comprometendo-se a segui-l’O, um ideal de vida, pelo qual se tornarão perfeitos, como perfeito é o Pai. A história da Salvação é a história de Deus que fala com o Seu Povo e, nesta história, o profetismo mostra-se como uma das linhas de força que percorrem toda a existência de Israel como Povo, e caracterizam a sua experiência religiosa desde o tempo de Moisés. Na 1ª leitura Moisés anuncia ao povo a vinda de um profeta que transmitirá a Palavra do mesmo Deus. Na verdade, no decorrer dos séculos, Deus foi iluminando o Seu povo, através dos profetas, dentro da História da Salvação. Mas como a Promessa de Deus se não tivesse cumprido ainda plenamente, o povo vivia sempre na expectativa. E Moisés continuou a anunciar os profetas: “O Senhor, teu Deus fará surgir para ti, do meio da tua gente, do meio dos teus irmãos, um profeta como eu, que hás-de escutar” (1ª leitura). Jesus é o grande profeta, que fala com autoridade e por Quem Deus visitou o seu povo e a quem devemos ouvir como proclama o salmo responsorial: “Hoje, se escutardes a voz do Senhor, não fecheis os vossos corações”. Só Jesus, com efeito, realizaria a missão do profeta, de modo perfeito e incomparável. Na 2ª leitura são Paulo diz aos Coríntios, e hoje também a cada um de nós, que a vocação da virgindade e do perfeito celibato, que ele também escolheu para ele, é um estado de perfeita e total liberdade para se dedicar ao Reino de Deus. Na sua opinião, a virgindade consagrada é um grande sinal profético. “Quem não é casado preocupa-se com os interesses do Senhor, com a maneira de Lhe agradar” (2ª leitura). Os que recebem, pela ordenação, este «excelente dom da graça», consagrando-se a Deus e aos irmãos, são sinais de bens futuros e antecipam a vinda da ressurreição. Pelo Evangelho de são Marcos nós reconhecemos que Jesus é o profeta anunciado por Moisés. Ele veio para ensinar, com autoridade própria, manifestada por palavras e obras, uma doutrina nova e para dar aos homens a salvação. Mas diz coisas que por vezes as pessoas não gostam de ouvir porque a verdade é dura. Mas os seus milagres, comprovam a sua doutrina e convencem as pessoas: “E ficaram tão assombrados, que perguntavam uns aos outros: «Que vem a ser isto? Uma nova doutrina, e com que autoridade!” (Evangelho). É que Jesus não ensina só a verdade, Ele é a verdade! Jesus é apresentado no Evangelho não só como aquele que encerra historicamente a série dos profetas antigos, mas como o que vem cumprir as promessas, aquele em quem se revela e se realiza o plano de Deus sobre a humanidade. Não se limita, como os escribas e fariseus, a repetir e a recordar a palavra de Deus; “ensina como alguém que tem autoridade” e acompanha as suas palavras com o poder dos seus milagres. A cura do possesso ou endemoninhado torna-se o sinal de um ato profético de uma libertação, da vinda do Reino de Deus, do início do novo povo. O tempo das profecias acabou com o maior de todos os profetas, Cristo, que é o Senhor de todas as profecias. A visão da história humana, segundo a lógica de Deus, é dada pela palavra que ele confiou à comunidade dos homens. Essa palavra não está sepultada num livro fechado; vive numa comunidade; constrói a comunidade que a enriquece e aprofunda. A função do profeta é primariamente uma “crítica”. A Igreja, como realidade humana, está sujeita à tentação de se instalar sobre as conquistas já realizadas, ou de se conformar em lamentações que recaiam sobre os desequilíbrios da sociedade humana e cristã. A tentação de dar às instituições, às expressões religiosas, o caráter de uma coisa definitiva e do sentido do absoluto, existe a cada passo no seu caminho. É fácil considerar adquirido para sempre o que não passa dum simples momento da história; mas a comunidade cristã tem por isso necessidade de uma denúncia crítica, precisamente quando pensa que já é uma testemunha transparente da comunhão com Deus. A denúncia profética não é uma iniciativa da Igreja, mas do Espírito Santo. Os profetas surgem onde menos e quando menos se esperam, porque o Espírito suscita os próprios profetas também para além dos limites sociológicos da Igreja. Não existe só uma profecia dentro da Igreja; a própria comunidade cristã é: ”profecia” diante de toda a comunidade humana: fonte de crítica contra toda a absolutização, ideologia desumanizante ou poder de opressão. Denúncia de racismo, exploração econômica, falta de respeito pela dignidade humana e pela vida. Tudo isto pressupõe uma comunidade em contínua revisão da sua fidelidade à mensagem, para que a sua profecia não seja alienante e um contra tes1temunho. Todo o homem e toda a comunidade humana podem tornar-se profecia, isto é, podem ser instrumento e guia para se atingir o caminho que leva ao cumprimento da História da Salvação. O Catecismo da Igreja católica, tirando partido do domínio do demônio ou espírito do mal sobre nós, diz: 2852 - «Assassino desde o princípio, mentiroso e pai da mentira» (Jo. 8,44), «Satanás, que seduz o Universo inteiro» (Ap. 12,9), foi por ele que o pecado e a morte entraram no mundo. E é pela sua derrota definitiva que toda a Criação será «liberta do pecado e da morte» (MR, Anáfora IV).«Sabemos que ninguém que nasceu de Deus peca, porque o preserva Aquele que foi gerado por Deus, e o Maligno, assim, não o atinge. Sabemos que somos de Deus e que o mundo inteiro está sujeito ao Maligno» (1Jo. 5,18-19). O Senhor, que tirou o vosso pecado e perdoou as vossas faltas, está pronto a proteger-vos e a guardar-vos contra os ardis do Diabo que vos combate, para que o inimigo, que tem o hábito de engendrar a falta, não vos surpreenda. Quem põe a sua confiança em Deus não tem medo do demônio. «Se Deus está por nós, quem contra nós ?» (Rm. 8,13). (santo Ambrósio, Sacr. 5,30). John Nascimento |