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A sua fama espalhou-se... A palavra Deuteronômio vem de Deuteros = segundo + nomos = lei. É a segunda versão da legislação mosaica. O Deuteronômio foi elaborado a partir de pequenos fragmentos que foram compilados pelo autor ou os autores ao longo de mais de 600 anos. O material que conhecemos teve origem muita diferente. Uma parte pertence à grande tradição oral que a confederação de tribos empregou para regular a aplicação da justiça no interior da comunidade e entre as tribos durante o tempo dos Juízes. Outra parte provem das tradições do reino do Norte, elaborada por grupos que se opunham à monarquia e propunham legislações alternativas para tratar de mudar o despótico governo instalado na Samaria. Outra parte é elaboração de tradições orais do reio do Sul, vigentes nos tempos do rei Josias. Esta diversidade foi reelaborada pelos sacerdotes e sábios depois do desterro até alcançar a forma que conhecemos hoje. O documento teve várias edições nas quais foi sucessivamente ampliado. Insiste na necessidade de viver relações humanas justas. A lei não é, nesse documento, um conjunto de decretos isolados. Cada preceito está em função de defender a vida e a dignidade de cada pessoa na comunidade. A lei expressa a vida íntima da comunidade, a necessidade de que cada pessoa tenha o mínimo para sobreviver e ninguém viva em uma situação de constrangimento e miséria. Deste modo, a lei deixa de ser uma obrigação e passa a ser um “dom” outorgado por Deus a todo o povo. Este dom ou aliança se fundamenta no direito de cada família de possuir o mínimo necessário, isto é, um pedaço de terra onde pudesse cultivar e onde pudesse viver sem ser uma carga para os demais: “Como Javé fez deste país um dom para sue povo, ninguém pode apropriar-se da terra” (Dt. 15,4). Para este autor, a aliança, a lei ou o “dom”, deve ser interiorizada. A convivência no país que Deus deu ao povo peregrino exige uma mudança de mentalidade que se traduz em uma organização social ode o direito divino prevalece sobre todas as instituições. O central deste direito é a justiça entre as pessoas, entendida como fundamento da convivência social.o “O rei deve ser irmão e não se valer de interesses e vantagens pessoais. Este abrir-se generosamente aos outros é o que demonstra a pertença a Javé e o que permite a pertença a este povo”. Nesta mesma linha se situa a promessa acerca do profeta vindouro. Esse profeta é comparado ao Moises. Não vem lembrar ao povo uma ou outra coisa. O profeta vem para indicar qual é o rumo que o povo deve seguir. O profeta se preocupará em manter vivo o Espírito da Lei, tema em que o Deuteronômio insiste, de modo que não se converta em uma mera formalidade, mas que expresse as necessidades vitais da comunidade e de cada ser humano. O Deuteronômio dá inicio a uma tendência que Jesus levará adiante. Para Jesus e em geral para todos os profetas, o fundamental da lei é preservar a dignidade, a intimidade e o valor de cada ser humano, o direito a viver em uma comunidade onde seja valorizado pelo que é e não por aquilo que a pessoa possui. Desse modo, a legislação deixa de ser um preceito que rege alguma coisa em particular, e se converte em expressão das necessidades vitais do ser humano. A isto a Bíblia chama “levar a Lei o coração”. Esta ova maneira de ver a lei é a que aplica Paulo na carta aos coríntios. Ele aconselha, sugere, opina, exorta e admoesta tendo em conta a situação da comunidade, no aspecto social e a situação da pessoa na situação da comunidade. Não impõe critérios rígidos que sufoquem a consciência das pessoas, mas que busca que cada pessoa esteja a vontade com sua situação. A comunidade, preocupada pelas opiniões adversas em relação ao matrimonio, pergunta ao apóstolo Paulo: será preferível não casar? Para Paulo o importante é que cada pessoa da comunidade cristã se sinta a vontade e motivada para servir. Por isso sua mensagem não origina os que estão casados, mas se preocupa pelos judeus e pelos escravos. Os judeus para que ao reneguem sua cultura e tradições, porém que tampouco a imponham aos demais. Aos escravos os anima a não desanimar por sua condição e a buscar uma oportunidade para libertar-se. Desse modo, ninguém pode se sentir nem superior nem interferir aos outros. Todos são iguais porque no interior da comunidade se respeita a diferença. Este é o principio da igualdade. Em todos caso, situações, estados civis, posicionamentos sociais... Paulo insiste na urgência de buscar um caminho para viver a liberdade que Cristo nos deixou e, sendo livres, preparar a irrupção do Reino. O Senhor volta quando a comunidade, já livre das travas sociais, culturais ou ideológicas, dá testemunho de um modo de viver alternativo e libertador. Esta capacidade para discernir cada situação em particular, foi uma das coisas que a multidão mais admirou em Jesus. Enquanto outros mestres e líderes respondiam com exaustivas explicações e citações de códigos, preceitos e doutrinas, Jesus respondia com a verdade simples e singela. Jesus estava interessado na situação particular de cada ser humano: em suas enfermidades, nas idéias que atormentavam as pessoas, nas coisas que impediam as pessoas de serem livres e espontâneas. Este interesse não obedecia a um interesse político subjacente, mas a uma genuína valorização de cada pessoa que encontrava no caminho. Muitos movimentos e grupos mostram interesse pelos indivíduos enquanto estes servem a seus interesses proselitistas, enquanto são seus adeptos, porém, logo que não precisam deles, os ignoram e os marginalizam. Jesus se manifestou abertamente contra este modo de agir e o declarou abertamente: o sábado, ou seja, a lei, os costumes, tudo que foi prescrito está a serviço de cada ser humano e não o contrario. Precisamente, sua luta contra os demônios foi uma luta contra as ideologias instaladas nas sinagogas, que buscavam um messias glorioso, um militar implacável, um reformador religioso. Jesus nunca se identificou com estes propósitos. Por esta razão, intima os “espíritos imundos” ou as ideologias opressoras a guardar silencio e a não tratar de seduzi-lo com falsas aclamações e reconhecimentos. O povo simples reconhecia a luta conta o formalismo da lei e a ideologia que a sustentava. A proposta de Jesus liberta da pesada carga moral, econômica e cultural que supunha cumprir os mais de seis mil preceitos que estavam em vigor para regular todos os aspectos da vida pessoal e comunitária. Muita gente se perguntava: não será este homem o novo legislador? Não será o homem prometido, o novo Moisés? Não será a proposta de Jesus, o Reinado de Deus, a “nova Lei”? Por que suas ações libertadoras e sua luta contra o mal é tão eficaz? Hoje a ossa pergunta é: Temos seguido a proposta de Jesus para que cada ser humano tenha o seu valor inalienável? Cremos que nossa tarefa ou missão, como anunciadores da boa nova, é ajudar a todos os seres humanos a libertarem-se das amarras que não permitem crescer com liberdade e espontaneidade? A boa nova de Jesus tem caráter normativo para mim, ou o consideramos superficialmente como se faz com o noticiário de cada dia? |
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Em Cafarnaum, no sábado, Jesus foi à sinagoga e se pôs a ensinar. Todos ficavam admirados de sua doutrina, pois ele os ensinava como quem possui autoridade e não como os escribas. Havia na sinagoga um homem com um espírito impuro, que gritou: “O que queres de nós, Jesus Nazareno? Vieste para nos destruir? Sei quem tu és: o Santo de Deus!” Mas Jesus o intimou, dizendo: “Cala-te e sai deste homem”. Agitando-o violentamente, o espírito impuro deu um grande grito e saiu. Ficaram todos tão espantados que perguntavam uns aos outros: “O que é isso? Uma doutrina nova, dada com autoridade! Ele manda até nos espíritos impuros e eles lhe obedecem”. E sua fama se espalhou logo por toda parte, em todas as regiões da Galiléia. Comentário Mais uma vez nos reunimos para meditarmos a Palavra de Deus, neste quarto domingo do tempo comum. No evangelho de hoje encontramos Jesus bem no início de sua missão evangelizadora. Na cidade de Cafarnaum, Jesus entra na sinagoga, e se põe a ensinar todos que lá se encontravam. Para tudo existe uma primeira vez. Com Jesus também foi assim, Ele quis experimentar, passo a passo, todas nossas dificuldades. Assumiu a natureza humana com todos seus problemas e limitações. O evangelista ressalta que Jesus ensinava de forma diferente. Os ouvintes ficam admirados, pois Ele fala com autoridade. Não fala só da boca para fora, fala com o coração. Falar com o coração é falar com convicção. Jesus não se limita a repetir as belas palavras usadas pelos doutores da lei. Fala com naturalidade, porém com calor e entusiasmo. Deixa transparecer que conhece o assunto. Esse é o segredo. Essa é a primeira lição que Jesus nos deixa no evangelho de hoje. Precisamos estar preparados para evangelizar. Frases feitas, palavras bonitas, podem até provocar lágrimas momentâneas, mas não convencem nem convertem. Mais dias ou menos dias, as palavras desacompanhadas de exemplos caem no descrédito e no esquecimento. Mais do que falar, é preciso viver o que se diz. Neste evangelho, Marcos não se preocupou em relatar o que Jesus ensina, mas sim, o modo como ensina. Marcos ficou entusiasmado com esse novo método de Jesus que fez até o espírito do mal tremer. Todos os presentes ouviram o próprio demônio testemunhando que ali se encontrava Jesus Nazareno, o Santo de Deus que tinha poderes para destruÍ-lo. Cheio de ódio, tomado pelo medo de ser destronado e de perder o seu poder no mundo, o príncipe do mal tentou discutir com Jesus. Outra lição que aprendemos hoje é como reagir diante da provocação do demônio. Precisamos estar preparados, pois no serviço voltado para o bem, o mal está sempre presente. O evangelizador é um inimigo mortal. Para não perder seus súditos, o demônio usa de artimanhas para atrapalhar e desencorajar. A oração é o escudo protetor, é o remédio que liberta da preguiça e do medo. Neste evangelho Jesus ensina como evangelizar através de novos métodos e com renovado ardor missionário. O novo método de evangelização é falar com o coração, é lutar por justiça e paz, é viver a partilha e a fraternidade. Ardor missionário significa viver o evangelho, viver o amor. Jorge Lorente |
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“O que significa isso? Um novo ensinamento, dado com autoridade” O evento relatado no texto de hoje demonstra um dos temas básicos do Evangelho de Marcos - e de todos os Evangelhos - o confronto entre o Reino de Deus, concretizado na pessoa e projeto de Jesus, e do mal, expressado, na linguagem e mentalidade daquele tempo, na imagem de um homem doente “possuído por um espírito impuro”. Marcos vai seguindo a caminhada de Jesus, sempre com esta luta como pano de fundo, até o conflito definitivo no Calvário, que leva, não através de milagres, mas da Cruz, até à vitória definitiva na Ressurreição. Tipicamente, Marcos enfatiza que Jesus ensinava - mas, como é costume dele, não nos explicita que Ele ensinava. Ilustra o conteúdo do ensinamento do Mestre relatando uma ação d’Ele - a cura de um homem “possesso”, ou seja, libertando alguém do domínio do mal. Aqui não devemos nos fixar na cosmovisão da época - que tratava toda doença como expressão de um espírito mau – mas, em que o evangelista quer nos mostrar, que na chegada do Evangelho do Reino acontece a libertação verdadeira, onde o mal, o pecado, com todas as suas expressões está derrotado pelo bem. No relato de hoje, com as imagens usadas, os dois poderes estão frente a frente - o bem contra o mal. Na história, o mal, falando através do homem, reclama contra a chegada do bem: “O que queres de nós, Jesus de Nazaré? Vieste para nos destruir?” O mal, mesmo quando disfarçado, nunca aceita a chegada de um projeto alternativo; o poder que aliena e domina nunca aceita um ensinamento ou prática que liberta e conscientiza. Isso continua até hoje - enquanto as Igrejas se limitam a ações paliativas e assistenciais (sem negar o seu valor e urgência) diante do sofrimento das massas, ninguém vai reclamar; mas, quando as atividades eclesiais começam a conscientizar sobre as verdadeiras raízes do sofrimento do povo, as Igrejas e seus agentes são perseguidos. Temos o exemplo hoje de bispos proféticos como dom Erwin Krautler, no Xingú, dos líderes indígenas e indigenistas na região de Dourados - MS e muitos outros. Como dizia o saudoso dom Helder Câmara: “quando eu fazia campanhas em prol dos pobres, me diziam “o senhor é um santo”, mas quando comecei a perguntar por quê existiam tantos pobres, me falaram “o senhor é um comunista!” - e sabemos o quanto o santo dom Helder foi perseguido pelo poder dominador aqui no Brasil. Então o relato nos ensina que com a chegada de Jesus – portanto, também através da ação das comunidades dos seus discípulos/as - algo essencialmente diferente acontece. Marcos sublinha isso pela reação do povo: “O que é isso, um ensinamento novo, dado com autoridade?” A diferença do ensinamento de Jesus não estava tanto no seu conteúdo, pois isso foi profundamente enraizado no Antigo Testamento, mas na sua maneira de ensinar. Ele não dependia de citar autoridades, como faziam os escribas, mas falava a partir da sua própria experiência de Deus, do Deus da vida e não do Deus que estava ofuscado por tantas leis, rituais e discussões legalistas e teológicas. Jesus devolveu ao povo a sua autonomia de consciência, libertou-o da dependência nos escribas, e revelou o verdadeiro rosto de Deus, que é partidário dos sofredores e demonstrou que é vontade de Deus que toda força que aliena, domina e oprime (aqui representada pela força demoníaca) seja derrotada pela mensagem libertadora do Evangelho. Cabe a nós, seus seguidores/as, achar meios para praticar este projeto na nossa situação concreta, não correndo atrás de milagres, de falsos Messias, de uma Teologia de Retribuição ou de Prosperidade, mas seguindo o projeto do Nazareno, construindo uma sociedade, uma economia, uma política de solidariedade, compaixão, justiça e fraternidade. Que essa ação comece no “micro” - na nossa família, comunidade, bairro, e Igreja, pois a opção entre os dois projetos de vida se dá cada dia, em cada opção e ação nossa. |
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Um ensinamento novo? Nós que participamos regularmente da Eucaristia, temos a impressão de conhecer de cor o evangelho. Desde o início da narrativa, nós já pensamos no final. "Nada de novo", dizemos, e já são 2.000 anos que os mesmos textos são proclamados nas assembléias. Os profetas estavam já conformados com a indiferença de seus ouvintes. Moisés já tinha anunciado que Deus faria surgir no meio do povo "jovens profetas". Ele dirá a palavra de Deus, o que Deus tem a dizer ao povo. Deus faz sempre surgir novos profetas, aqueles que foram às Jornadas mundiais da Juventude, aqueles que rezam ou procuram Deus, aqueles que se colocam ao serviço de seus irmãos e irmãs, aqueles que vivem do Evangelho e o proclamam.
E são Paulo convida a fazê-lo de coração.
Consagrando-se plenamente ao compromisso que não é algo
acessório da vida, mas o principal dela: procuremos como
agradar! Agradar ao outro, agradar a Deus. Palavra nova
que não encontraríamos a não ser em são Paulo: procurar
agradar! O que está talvez espontaneamente no fundo de
nosso coração se transforma em uma vocação cristã:
procurar como em nossa vida quotidiana podemos seduzir,
considerando que é Deus quem nos seduz; sedução mútua
torna-se amor mútuo...e isto causa profunda felicidade.
Um ensinamento novo Israel ouviu o que os demônios proclamavam, através de um nome familiar: Jesus de Nazaré é o Filho de Davi. Mas Israel esperava também um profeta, um novo Moisés, maior do que ele, o Profeta por excelência, palavra viva de Deus aos homens. Se Moisés buscava servir "o Santo", Jesus de Nazaré é o Santo. É isto que fundamenta a autoridade e a novidade de sua palavra. E em nossas igrejas, em nossa Igreja, é sempre este ensinamento que ressoa - ou deveria ressoar - "um ensinamento novo dado com autoridade"? Uma autoridade e uma novidade sempre atuais como as palavras que ressoam em cada eucaristia: "isto é o meu corpo", "isto é o meu sangue" e como o convite do Espírito Santo a "permanecer junto do Senhor"? tradução "Prions en Église” |
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Na sinagoga de cafarnaum Toda cidade da Palestina tinha a sua sinagoga. E, às vezes, mais de uma. Na sinagoga, os judeus se reuniam no dia de sábado para prestar culto ao Senhor. Essa reunião se compunha de duas partes. Uma era de oração, outra de leitura da Lei e dos profetas, seguida de oportunas reflexões. Esta parte podia ser feita por um sacerdote, pelo chefe da sinagoga, ou por uma pessoa que ele indicasse. Assim é que vimos Jesus ler Isaías e comentar na sinagoga de Nazaré; e o vemos agora num importante momento, falando na sinagoga de Cafarnaum. Os ouvintes ficaram impressionados com a sabedoria das palavras de Jesus e com o tom de seu discurso. Ele não falava como falavam em geral os escribas. Falava como quem tem autoridade. Sua doutrina era uma doutrina nova, que iluminava com nova claridade os caminhos. Era a novidade do Evangelho que se ia manifestando e que foi crescendo até trazer a nova luz para todos os séculos da História. E aconteceu nesse dia um fato que veio pôr ainda em maior evidência a autoridade de Jesus. O fato é narrado tanto por São Marcos, como também por São Lucas. Havia na Sinagoga um homem possesso do demônio. Por toda a clareza da narração dos dois evangelistas, não se tratava apenas de um homem perturbado nas faculdades mentais, a quem o povo interpretava como possuído pelo espírito maligno. Era realmente ação do demônio. Esse homem começou a gritar, increpando a Jesus: "Que temos nós contigo, Jesus de Nazaré? Vieste para nos perder! Eu te conheço; tu és o Santo de Deus" (Mc. 1,24). E Jesus lhe ordenou: "Cala-te e sai dele" (Ibid. v. 25). E o homem, agitando-se violentamente, deu um grande grito, arrojou-se ao chão e ficou livre. Está acontecendo o que Jesus havia dito aos adversários que o acusavam de expulsar os demônios pelo poder de Belzebu: "Se eu expulso o demônio pelo Espírito de Deus, é sinal de que chegou a vós o reino de Deus" (Mt. 12,28). E a vitória de Cristo sobre o poder do mal, que se vai manifestando. E a certeza de que, por mais que o mal se manifeste na terra de mil maneiras, numa riqueza de criatividade verdadeiramente diabólica, - pornografia, assaltos, seqüestros - a palavra final é a vitória do bem, a vitória de Cristo: "Tende confiança! Eu venci o mundo" (Jo. 16,33). Moisés havia prometido ao povo, em nome de Deus, que sempre haveria em Israel um profeta que falaria em nome do Senhor. Deus poria suas palavras em sua boca, a fim de que ele falasse só aquilo que Deus houvesse comunicado (cf. Dt. 18,15-20). Sempre houve um profeta assim no meio do povo. Mas com o tempo entrou a interpretação de que a promessa de Deus a Moisés não era uma promessa genérica. Tratava-se de um determinado profeta, que viria nos últimos tempos e que, numa palavra, se identificava com o Messias. Jesus é o definitivo profeta. Aquele em quem Deus fala definitivamente. Aliás, é o que está na carta aos hebreus: "Muitas vezes e de muitos modos Deus falou outrora aos Pais pelos profetas; agora, nestes dias, que são os últimos, falou-nos por seu próprio Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, e pelo qual fez os séculos" (Hb. 1,1-2). E cabe à Igreja conservar com fidelidade essa palavra. Jamais concordar com pretensos profetas, a quem Deus não mandou, e que semeiam o joio no meio do trigo, que caiu das mãos do divino Semeador. Felizes dos que continuam a descobrir o permanente sabor de novidade que os homens descobriram quando Jesus Ihes falou na sinagoga de Cafarnaum: Uma doutrina nova! Uma autoridade presente! A autoridade eterna da verdade de Deus! padre Lucas de Paula Almeida, CM |
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“Jesus chegou a Cafarnaum, entrou na sinagoga e começou a ensinar. Todos se maravilhavam com a sua doutrina, porque ensinava-os com autoridade e não como os escribas.” Jesus quer chegar perto de ti, entrar no teu santuário interior e ensinar-te. Um ensinamento não conforme as instruções do mundo, mas de acordo com a Sua autoridade – capacidade concretizada em ação de unidade. Na primeira leitura Moisés esclarece o Povo de Deus acerca da função e do significado do profetismo. No seio do Povo, e fora dele, surgiam diferentes modos de entender e, inclusive, de servir-se do profetismo. Os interesses dos profetas e as práticas de magia e adivinhação muitas vezes faziam esquecer o verdadeiro papel do profeta. Moisés é claro: o profeta é chamado da comunidade por iniciativa gratuita de Deus (não por decisão humana própria); o profeta anuncia a Palavra de Deus colocada na sua boca (não as suas próprias palavras); o profeta é enviado a anunciar aos homens a Palavra (não a ficar imóvel e acomodado). Aquele que escuta a Palavra do Senhor, e não fecha o seu coração, exulta de alegria e experimenta a autoridade de Deus. No quotidiano, várias são as tentativas e as oportunidades que testam a nossa fidelidade à Palavra vivificante e poderosa de Deus. Assim como o Povo em Meriba se esqueceu da Palavra de Deus, também nós somos tentados a esquecer, relativizar e secundarizar a Palavra nos nossos pensamentos, movimentos e desejos diários. O nosso esquecer, relativizar e secundarizar são os espaços onde as nossas ambigüidades nos transformam em objetos dos sentidos, das fragilidades, das ações dos outros. O Senhor propõe-nos a Sua autoridade e apenas nela seremos sujeitos de unidade. O anúncio de são Paulo, feito à comunidade, surge especialmente atual e interpelante: “tende em vista o que mais convém e aquilo que vos pode unir ao Senhor sem desvios.” O apóstolo propõe aos membros da comunidade uma vida segundo a liberdade que não se sujeita aos desvios e às ambigüidades. O tempo é breve! Aqueles que têm mulher vivam como se não a tivessem; aqueles que choram, como se não chorassem; aqueles que se alegram, como se não se alegrassem; aqueles que compram, como se não possuíssem. Paulo recorda que este mundo termina. (cf. 1Cor. 7) A glória de Deus é imitação de Cristo e essa é a nossa vocação, a ocupação que nos torna felizes (cf. 1Cor. 10,31-11.1). Paulo não desvaloriza o casamento, as dificuldades, as alegrias ou os bens deste mundo! Ao pensar nessas realidades, sabendo da brevidade deste mundo, orienta-as para o essencial. Quantas vezes vivemos preocupados com realidades, ou irrealidades, que apenas nos sufocam ou manietam os outros? O Apóstolo propõe-nos que ocupemos nossos espaços, lugares, pensamentos e vontades com a força vital de Deus: a glória de Deus que nos plenifica e dá a autoridade para o empenho da verdade. A autoridade que Jesus nos oferece não é força, mesmo que legítima, de exercer o poder sobre os outros. O maior é aquele que serve! (Lc. 22,27) Exercer o poder e a autoridade não são a mesma realidade. O NT usa a palavra grega dúnamis para expressar o poder exercido por Deus, Jesus, o Espírito, os anjos, os demônios e os principados e potestades. No NT, os homens em si mesmos nunca são sujeitos dessa forma de poder ou força. Outra palavra no NT expressa a autoridade (exousía) exercida por Deus, Jesus, o Espírito, os anjos e os demônios. Se os homens no NT não são sujeitos de poder (dúnamis), eles recebem de Deus a autoridade (exousía) e nela tornam-se sujeitos sobre doenças e espíritos (Mt. 10,1), bens (At. 5,4) e sentidos (1Cor. 11,10), nunca sobre outros homens. A autoridade que não é poder sobre o outro, mas domínio de si e das coisas, na força da autoridade de Deus. O outro nunca mudará no bem ou no mal apenas se eu quiser! Apenas a autoridade de Deus recebida transforma e vivifica. A autoridade de Deus (exousía) é a ação própria de Deus, a qual se manifesta no poder criativo da Sua Palavra encarnada em Jesus. Uma Palavra recebida e anunciada na comunidade dos Apóstolos que se deixou tomar pela autoridade operativa de Deus. Uma autoridade que é exercício de liberdade no homem em que coloca o seu pensamento, vontade e ação no domínio criativo de Deus (Jo. 10,18). O Deus que nos constitui Seus filhos, não pelo desejo da carne ou do sangue, mas pela Sua autoridade (Jo. 1,12; 17,2). Jesus encontrou na sinagoga um espírito impuro que gritava: “Que tens Tu a ver conosco? Vieste para nos perder?” Um espírito mau e poderoso que manietava e afastava o homem da comunidade, da Lei e de Deus. Um espírito mau e poderoso que reconhece em Jesus o Santo de Deus. Um espírito mau e poderoso assustado defronte a Deus! Esse e outros maus espíritos vagueiam entre Deus e os homens procurando desestruturar e separar a humanidade do seu caminho de unidade. Apenas Deus vence essa força que separa, descaracteriza e destrutura. Jesus venceu o mal e libertou o homem! A autoridade de Jesus une, caracteriza, estrutura o homem. Aquelas forças de mal ainda prevalecem no nosso coração, nas nossas famílias e comunidades: a força do ódio, do egoísmo, da auto-suficiência, do medo, do “em-simesmismo”. Jesus repreende essa força de maldade: “Cala-te e sai do homem.” Jesus quer silenciar com a Sua palavra o mal no mundo. Por isso, gratuitamente te escolheu para anunciares com a vida a Sua Palavra no mundo. Uma missão concretizada na liberdade face ao mal que quer habitar em nós e impedir-nos de ser totalmente amor. Jesus quer-nos livres do pecado e do vício que apenas alimentam a força de mal que, temente de Deus, nos quer falar e controlar. Irmão e irmã: Jesus Cristo, ao assumir a nossa humanidade, venceu com a glória do amor da cruz esse dinamismo de mal. Jesus ressuscitou e tornou-Se Senhor de todas as coisas (Mt. 28,18; Hb. 1,3). Jesus é a autoridade eficaz e operante que quer habitar em nossas mentes, corações e movimentos, pela força do Seu Espírito. Deixa-te tomar pela autoridade vivificante do Espírito Santo, Espírito de amor e Verdade, que te quer tornar senhor no serviço da unidade, senhor no serviço da verdade, senhor no serviço do perdão. Apenas a autoridade de Deus ilumina a profundidade do nosso ser e tornar-nos sábios no bem. Deus, que conhece aquilo que as trevas ocultam (Dn. 2,22), quer-nos realizados e ocupados na verdade. Um caminho que será tanto mais feliz e encantador quanto mais a nossa ação disser: ‘Senhor, envia-me a Tua autoridade para que Ela esteja sempre comigo nos momentos em que mais duvidar e naqueles de especial felicidade, nos momentos de fracasso e naqueles que em melhor Te servir, nos momentos em que chorar e naqueles em que dançar’. frei Bernardo |
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Estamos na quarta semana do tempo comum. Jesus em suas pregações e milagres começa a mostrar porque veio. É sua missão trazer um ensino de poder acompanhado de milagres que comprova o que fala. Assim vemos na primeira leitura uma profecia que Deus iria enviar um profeta que seria como Moisés, mas que o superaria. Certamente eles tiveram que esperar mais de mil anos para que esse profeta aparecesse, mas se cumpriu em Jesus. E esse novo profeta é muito diferente, assusta a todos, pois nunca se viu algo igual. Na primeira leitura vemos a posição de Moisés diante da experiência de Deus. Esta experiência trouxe-lhe um impacto tão grande que teve medo e recusou participar de novo desta manifestação. Percebamos que a experiência de Deus abala, transforma e teroriza quem dela participa. Experimentar Deus é perceber Sua grandeza e nossa ínfima pequenez, isto gera um transtorno em nosso interior ao ponto de nos prostrarmos diante d’Ele e se calar. Certamente devemos desejar ardentemente ter uma experiência profunda com o Senhor e se encantar com Ele. Essa experiência é algo divino, infinito, inebriante, consolador, feliz, completo, mas ao mesmo tempo gera em nós o temor de perceber quem é o nosso Deus. Bem, foi isso que Moisés sentiu naquele encontro, ao ponto de recusar uma nova experiência isto porque Moisés percebeu a grandeza de Deus e foi tomado pelo temor. O temor é perceber, sentir a grandeza de Deus e diante do incomensurável nos dobrarmos até o chão em adoração. É perceber o mistério algo palpável (pela experiência), mas incompreensível em nossa inteligência, assim é Deus. Em todas as suas manifestações deparamos com o mistério. Este como uma grande muralha intransponível que percebemos sua grandeza sentimos que vai ao infinito, tocamos o mistério, mas não conseguimos entender. Assim o mistério é algo incompreensível, mas não ininteligível. Foi isto que Moisés sentiu e que devemos procurar sentir em nossa vida com Deus. Mas Moisés não tinha ainda a graça que temos hoje – a redenção conquistada por Cristo na Cruz e a revelação trazida por Ele. Por isso que Jesus fala “o que os profetas desejaram e vós tendes em vosso meio”. Desta forma, olhando para o mistério concordamos com Paulo de que tudo em nossa vida deve convergir para o Senhor. Somos por Ele configurados em Seu corpo e temos nossa missão, assim devemos ter uma vida consagrada ao Senhor e em todas as fazes de nossa vida devemos procurar servi-lo. Não importa o que fazemos, onde trabalhamos, que estado de vida temos o que devemos fazer é estar plenamente em comunhão com o Senhor e buscar servi-lo na pessoa do próximo. Antonio ComDeus |
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Ensinava como quem tem autoridade Este Evangelho narra a cura de um possesso. O fato aconteceu durante uma reunião do povo na sinagoga. Estamos no começo da vida pública de Jesus e, como pouca gente o conhecia, ele aproveitava as reuniões nas sinagogas para anunciar a realizar a Boa Nova. O povo ficava admirado, porque Jesus falava com autoridade, não como os chefes religiosos, que eram inseguros e falavam sem muita convicção, repetindo opiniões de vários autores, de forma enfadonha. Jesus, ao contrário, transmitia segurança. Para falarmos com autoridade, precisamos ter fé e viver a fé que temos. Assim temos autoridade sobre o mal que está em nós ou nos outros. Jesus curava os doentes que pediam; curava também os que não pediam; e curava até os que o atacavam, como este caso. O homem era "possuído por um espírito mau", isto é, ele se deixava levar pelas forças do mal. Essas pessoas, ou são medíocres, ou praticavam ações más. Essas forças do mal vêm do demônio, ou do mundo pecador, ou de dentro de nós mesmos, devido às consequências do pecado original que carregamos. Quanta gente hoje vive possuída por espírito mau! Ao ouvir Jesus, e perceber que ele podia afastar o mal dos ouvintes, o homem atacou a Jesus, tentando fazer com que ele parasse de falar. Mas deu o contrário, o possesso é que foi curado. Não é o homem mau que Jesus ataca, mas sim o mal que está nele. Entretanto, o homem se contradisse. Pela forma de atacar, ele acabou confessando que Jesus é realmente o Messias: "Que queres de nós, Jesus de Nazaré? Vieste para nos destruir? Eu sei quem tu és: tu és o Santo de Deus". As forças do mal conhecem quem é mais forte que elas, porque agem com a força de Deus, e assim pode destruí-las. Por isso atacam. Mas deu o contrário. Também hoje Deus nos defende, quando somos atacados e até vira ao contrário o ataque, transformando em testemunho a nossa favor e a favor do Reino de Deus. "Cala-te e sai dele". Outras vezes, Jesus curou mudos para que falassem. Não é o homem que Jesus ataca. Jesus o amava. Precisamos saber distinguir entre a pessoa e o mal que está na pessoa. Diariamente nós nos encontramos com as forças que se opõem à verdade e escravizam as pessoas. Essas forças estão reunidas em um só comando: o demônio. Aparentemente cada um faz o mal por sua própria conta. Mas, na realidade, todos os que praticam o mal estão a disposição de um só comando, que é o demônio. Eles procuram dissimular, e gostam quando as pessoas não acreditam na existência deles. Ele age ou diretamente ou através daqueles que ele já conquistou e que criaram as organizações e estruturas do mal. Muitas vezes, ele age também dentro de nós, usando as raízes do pecado original que ficaram em nós. O homem era "possuído por um espírito mau", isto é, ele se deixava levar pelas forças do mal e praticava ações más. Na maioria das vezes o demônio procura dissimular a sua presença e ação e, enquanto ninguém ameaça as suas posições, ele vai tomando conta da sociedade, levando-a à corrupção, à injustiça, à violência e a outros pecado. Quanta gente é possuída pelo espírito mau e não percebe! Esse nosso inimigo não dorme, e vê com antecedência quais as pessoas que podem debilitar o seu império. Assim, essas pessoas começam a agir, o demônio já se levanta e ataca. Por isso que, mal Jesus começava a falar, algum "possesso" já se levantava contra ele, mesmo dentro da casa de oração. Este foi apenas o primeiro enfrentamento de Jesus com o espírito mau. Houve muitos outros, até o dia em que toda a sociedade judaica se levantou e matou o Filho de Deus. Jesus é "o Santo"; ele está acima de todas as forças do mal, as visíveis e as invisíveis. Nós cristãos precisamos desmascarar as maldades escondidas e disfarçadas da sociedade pecadora. Seremos atacados, mas compensa; afinal, Deus estará conosco e a vitória é certa. Mas para isso precisamos ter fé convicta e não ficar inseguros diante das estruturas de pecado e dos homens e mulheres pecadores. Nós apenas emprestamos a nossa voz ao Espírito Santo. "Então o espírito mau sacudiu o homem com violência, deu um grande grito e saiu." O mal não sai das pessoas de graça. Ele dá o troco, fazendo a sua última maldade para a pobre pessoa que, até há pouco, era possuída por ele. Quem tem mais pré-disposição a ser conquistado pelo espírito mau é o medíocre. Este ou esta, quando está em dificuldade, facilmente deixam de lado valores absolutos e que envolvem a vida eterna, como a obediência aos mandamentos. Alguns deixam até a Igreja de Jesus. A nossa missão é desmascarar o mal o mal que está nas pessoas. "Livrai-nos do mal". Certa vez, a rainha de Sabá recebeu uma importante visita em seu palácio: o rei Salomão, considerado na época o homem mais sábio do mundo. A rainha lhe propôs uma espécie de enigma: conduziu-o até um dos aposentos de seu palácio, onde artesãos admiráveis haviam enchido o espaço com flores artificiais. Era como se, num prado maravilhoso, flores das mais variadas espécies e dos mais diferentes aromas oscilassem suavemente ao sabor de uma brisa. A rainha lhe disse: "Uma dessas flores, e apenas uma, é verdadeira. Pode me dizer qual delas?" Salomão olhou atentamente, lançou mão de todos os recursos de sua sensibilidade, mas não conseguiu apontar a flor natural. Então disse à rainha: "Posso abrir uma janela?" Com a permissão, ele abriu, e eis que uma abelha entrou e pousou na única flor que era verdadeira. Freqüentemente acontece de o tentador nos colocar em um dilema, a fim de nos pegar para si. Nessa hora, é só nós rezarmos que Deus entra e encontramos a solução, como Salomão encontrou. Maria Santíssima pisou a cabeça da serpente. Que ela nos ajude, primeiro a não nos deixar levar pelos espíritos maus, depois, a termos uma fé convicta, a fim de sermos um instrumento de Deus na libertação dos que são possuídos pelas forças do mal. Ensinava como quem tem autoridade. padre Queiroz |
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A primeira leitura deste domingo apresenta uma série de normas inspiradas na revelação divina e que regulamentavam o culto, os sacrifícios, as festas, as instituições e a vida social e civil do povo de Deus do Antigo Testamento. O trecho de hoje faz parte deste código e se destina à regulamentação da instituição e do serviço profético. A profecia é um dom de Deus, uma vocação e, consequentemente, um serviço aos demais irmãos. É Deus quem faz surgir os profetas para o seu povo. O profeta sempre será um homem escolhido por Deus, tirado do meio dos irmãos, sem compromissos com ninguém e com nenhuma espécie de poder, para assim poder realizar plenamente a sua vocação, servindo exclusivamente a Deus seu Senhor e ao povo para o qual ele foi enviado. O profeta sempre foi uma espécie de mediador entre Deus e os homens. Por não ter compromissos com ninguém além de Deus, o profeta fala abertamente, denunciando as injustiças, gritando contra a opressão dos pequenos, apontando as falsidades dos corações dos homens, chamando a atenção dos poderosos e convidando todos indistintamente para a conversão, mostrando-lhes a bondade e a misericórdia de Deus. Ele sempre foi uma pessoa incômoda para homens do seu tempo. Como aquilo que ele anuncia ou denuncia é sempre vindo de Deus e revela a sua vontade, ainda que não agrade, deve ser seguido e acolhido com carinho, pois Deus nos pedirá contas de tudo quanto os seus profetas nos anunciam em seu nome. Ainda que estejamos acostumados a pensar que vocação profética é coisa do passado, temos que saber que pelo nosso batismo, todos nos tornamos participantes por direito e por dever da missão sacerdotal, real e profética do Cristo. Pela graça do Espírito Santo que nos foi derramada no batismo, todos fomos colocados em condição de ser estes mensageiros de Deus entre os homens. Todos estamos envolvidos nesta árdua missão e para cumpri-la com dignidade, precisamos ser homens e mulheres de Deus. Não podemos nos comprometer com nenhuma pessoa ou com algum tipo de poder humano, mas permanecer livres de qualquer compromisso para podermos servir somente a Deus e o seu plano salvífico em favor dos homens filhos seus. Temos que ter consciência de que no exercício desta nossa participação na missão profética de Cristo, seremos amados por poucos e odiados por muitos. Seremos mal vistos, mal falados, maltratados e perseguidos. Nada poderá nos assustar ou diminuir a força do nosso testemunho, pois é muito mais seguro permanecer fiel a Deus, do que se comprometer com os homens e seus pecados. Devemos temer somente ao juízo divino que é eterno e absolutamente justo e não àquele dos homens, que é passageiro, limitado, leviano e muitas vezes, completamente injusto. O Evangelho nos apresenta Jesus em pleno exercício de sua missão profética. Ele é o profeta por excelência, pois não somente anuncia, mas realiza o plano do Pai. Ele é o próprio Deus e tudo quanto anuncia, se realiza, pois com Ele chegou a plenitude dos tempos e o momento oportuno para a plena realização de todas as promessas de Deus em favor dos seus filhos. Num dia de sábado, dia dedicado ao Senhor Deus, Jesus entra no templo e começa a ensinar. Ele não se limita a ler as escrituras como qualquer outro homem do seu povo, mas ensina, isto é, interpreta, aplica, dá vida à Palavra de Deus lida no templo, pois tudo o que era lido no templo sob forma de oração e que era apresentado ao povo sob a forma de promessa da parte de Deus, encontrava em Jesus a sua plena realização. Diversamente do que ensinavam os doutores da Lei, o ensinamento de Jesus era oferecido com autoridade e causava a admiração de todos os ouvintes. Jesus não se perdia nos infinitos detalhes que foram criados pelos doutores do templo, mas ensinava o povo a ver com profundidade o que era essencial na Lei, a vontade do Pai, garantia de vida e salvação para todos os filhos de Deus. Tudo aquilo que Jesus anunciava era confirmado pelo Pai. Ele foi o único que em tudo e sempre cumpriu a vontade do Pai, por isto, tudo o que ele anunciava se cumpria. Aquilo que Jesus anunciava era tão verdadeiro e de acordo com o desejo do Pai, que até mesmo o demônio, maior inimigo dos filhos de Deus e do seu Reino, lhe obedecia e ficava completamente impotente. Deste modo de fazer de Jesus, podemos tirar algumas conclusões práticas para a nossa vida de filhos: Jesus já venceu o demônio e todo o mal. Aqueles que são seus, também caminham para isto e um dia, todos terão vencido o demônio, o mal e todas as suas conseqüências. Porém, enquanto estamos no caminho desta vida, seremos sempre tentados pelo demônio que nos quer ver longe do cumprimento da vontade de Deus. As vezes até caímos em suas ciladas, mas temos modos para nos livrarmos delas, como nos ensina Jesus hoje. O caminho mais seguro é escutar a sua Palavra salvífica, seguir o seu Evangelho e, seguindo o seu exemplo, permanecermos fiéis ao Pai em tudo até o fim. No coração de todo aquele que guarda as palavras de Jesus e procura fazer a vontade do Pai, não sobra espaço para a ação do demônio. Com a chegada de Jesus entre nós, chegou-nos a salvação e o mal não tem mais poder sobre os filhos de Deus. Basta que enchamos nossas vidas de Deus, das suas palavras e nenhum mal nos acontecerá. Finalmente, o evangelho de hoje nos traz um forte questionamento a respeito do testemunho que damos da nossa fé em Jesus. O espírito mal que havia possuído aquele homem, reconhece e proclama publicamente que Jesus é o Santo de Deus, o Messias esperado e enviado por Deus. Ao contrário, nós que somos os filhos de Deus e que tudo recebemos Dele, somos acomodados, medrosos e muito fracos no nosso testemunho de Jesus e do seu evangelho. Portanto, hoje devemos nos perguntar com toda sinceridade: o que há em nossos corações que muitas vezes nos faz tão frios e duros, diante de um Deus que é tão bom e misericordioso para conosco? A nossa participação na missão profética do Cristo exige que sejamos anunciadores e incansáveis testemunhas da pessoa e da obra de Jesus, pois Nele realizou-se tudo o que o Pai havia prometido ao longo dos tempos, em favor dos homens, filhos seus. dom Antonio Carlos Rossi Keller |
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Toda autoridade vem de Deus. Mas é condividida pela mediação do povo em várias circunstâncias, como a do voto, para a eleição política e da autoridade em outras instituições. Quem é eleito tem de prestar contas aos eleitores e a Deus. Quem não é temente a Deus às vezes procura tapear o povo, roubando a autoridade para se servir do que não é seu. O povo tem o direito de tirar o cargo de quem o trai, pois ele está traindo a autoridade que vem do próprio Deus. O povo tem de saber sobre sua pura mediação por ser instrumento de Deus para eleger seus representantes. O povo tem direito de ver seus impostos aplicados a seu serviço na educação, na saúde, na segurança, na infraestrutura... A lei da “ficha limpa” deveria ser um meio importante para as autoridades competentes respeitarem o voto do povo, a quem devem representá-lo na coisa pública. As próprias autoridades judiciais deveriam também exercer o cargo, sabendo que só cooperam com a justiça quando ajudam o povo a ter realmente justiça em relação aos seus direitos de cidadãos. Não deveriam julgar por interesse político ou baseadas no juridismo ou interpretação literal ou puramente legalista! No texto bíblico vemos narrativa da prática ou do exemplo de Jesus: “Todos ficavam admirados com o seu ensinamento, pois, ensinava como quem tem autoridade, não como os mestres da Lei” (Marcos 1,22). Nem sempre os mestres ensinam com autoridade, como no caso de líderes da época de Jesus. A autoridade tem de ter “moral”, ou seja, caráter, ética, e outros valores de quem sabe realizar o bem, a justiça, a honestidade, servindo realmente a sociedade. Estamos carentes de verdadeiros mestres com essas qualidades. É verdade que os temos e muitos. Mas precisamos muito mais, especialmente no quesito da política. Quanto dinheiro é pago e o resultado é, por vezes, decepcionante! Há quem só queira se eleger ou reeleger, com o uso do clientelismo barato e, até, com a compra do voto. Muitos do povo, também corruptos, vendem seu voto até a preço de pequenos favores de políticos desqualificados eticamente. Como é bom termos pessoas de altivez de caráter, que servem a sociedade com ideal de servir e promover o bem, a partir dos mais deixados de lado na convivência social! O bom político sabe preservar o seu bom nome, através de sua conduta coerente com a altivez de caráter, honestidade e tenacidade na busca do ideal de servir ao bem comum. Ele, com estas qualidades, mesmo com pouco dinheiro faz muito. Ao contrário, não realiza o benefício devido à comunidade que o elegeu. Como é bom termos pessoas de fé religiosa, que não medem esforços para serem como fermento no meio de muitos que só pensam em si e traem a confiança do povo! Jesus era admirado: “E todos ficaram muito espantados e perguntavam uns aos outros: ‘o que é isto? Um ensinamento novo dado com autoridade...” (Marcos 1,27). dom José Alberto Moura
Ter poder e autoridade é ser porta-voz de Deus, que fala e age de modo confiável, conforme era feito pelos profetas no Antigo Testamento bíblico. Jesus é apresentado pelos evangelhos como modelo, com sinais que confirmavam e autenticavam sua palavra. Aproximam-se as novas eleições, momento em que teremos que escolher os próximos dirigentes. Eles devem ser pessoas acessíveis, coerentes e próximos das pessoas. Deverão ser porta-vozes de Deus e do povo, autênticas em relação ao que dizem e fazem. O verdadeiro poder-autoridade é daquele que escuta Deus na consciência e leva em conta as necessidades do povo. É alguém cujas palavras são confirmadas pelos fatos, como o fez Jesus, se identificando com a vontade do Pai, sendo Messias-profeta. O povo via em Jesus o representante fiel de Deus. Ele era diferente dos escribas e fariseus, das falsas autoridades e exploradoras da comunidade. Tinha os poderes de Deus e isto era reconhecido por ser claro e transparente em tudo que fazia. Era confiável. Deus deu poder a todas as pessoas livres. Quem age sem liberdade não agem em nome de Deus e prejudica a comunidade. Aqui está a fonte de responsabilidade no momento das escolhas. É por isto que dizemos que “o voto não tem preço, tem consequências”. O reino da terra deve estar em sintonia com o reino do céu. Os dois têm suas mediações que devem ser trabalhadas por todos nós. Entre elas podemos destacar a administração pública, o uso do poder e da autoridade, a vida de comunidade, de família etc. É muito importante estar preocupado com a causa do reino de Deus, isto é, com a justiça e o bem do povo. As injustiças impedem o exercício da liberdade e dificultam a felicidade. Não podemos perder de vista o sentido último de tudo quanto fazemos. Deus está com quem é autêntico. Isto tem que ser reconhecido pelo povo, seja na hora das escolhas, como também acompanhando e cobrando na hora da administração. É fundamental construir uma sociedade cujo mal seja superado. dom Paulo Mendes Peixoto |
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Jesus ensinava com autoridade O Mestre divino ensinava na sinagoga de Cafarnaum e diz São Marcos que “todos ficavam admirados com o seu ensinamento, pois doutrinava como quem tem autoridade” (Mc. 1,22). É que o Rabi da Galiléia era verdadeiramente o Filho de Deus, possuindo uma competência absoluta. Suas palavras e seus atos sempre estiveram numa concordância plena e admirável. Eis porque podia intimar a satanás a sair de um pobre endemoninhado, dizendo ao espírito mau: “Cala-te e sai dele!”. Seus ensinamentos vêm atravessando os séculos porque ele abeira-se do íntimo dos corações e, por isto, converteu a Zaqueu, iluminou a Nicodemos, encheu do verdadeiro amor a Samaritana. Abriu para seus seguidores horizontes fulgurantes, afiançando uma vida eterna feliz para os que acreditassem na Boa Nova que trouxera do céu. Em todos os temas sobre os quais discorreu ia sempre ao essencial, deixando uma mensagem fulgurante que transformou inúmeros pecadores e através dos tempos continua a iluminar as mentes, conduzindo milhares a uma reformulação total de vida, rumo às rotas da perfeição. Que singeleza, que encantos em suas instruções! Quanta elevação em suas máximas! Que presença de espírito, que subtileza e que certeza em suas respostas! Eis porque sua influência milenar é uma das realidades mais visíveis e gloriosas da História da humanidade, mesmo porque Ele demonstrou sempre uma pedagogia inigualável. Nenhuma literatura da terra, nem mesmo a mais bela, a mais maravilhosa na forma, a mais rica no conteúdo, nunca superou nem sobrepujará jamais o que está compendiado nos Evangelhos que apresentam páginas insuperáveis como a narrativa do Filho Pródigo, o Sermão da Montanha, a imagem do Bom Pastor. Jesus mostrou toda uma revelação do Ser Supremo, irradiou a paz, resolveu os problemas mais difíceis. Cristo instruiu como ninguém jamais falou. Sua palavra poderosa possui uma eficácia maravilhosa sobre aqueles que se abrem à sua luminosidade, revolucionando o mundo espiritual dos que acolhem sua mensagem divina. Cumpre, porém, ao cristão se beneficiar sempre, na prática, da sabedoria de Jesus e de tudo que dela emana. Trata-se de agir em Cristo, permanecendo, vivendo de acordo com a comunicação sublime que trouxe de junto do Pai, que é a fonte desta sua autoridade. Isto significa a necessidade da coerência radical, donde a advertência de São João: “Não amemos por palavras nem com a língua, mas por obras e em verdade. [...] Quem observa seus mandamentos permanece em Deus, e Deus nele; e que ele permanece em nós sabemos por este sinal: pelo espírito que nos concedeu” (1 João 3,18.24). Não basta, realmente, admirar a doutrina de Jesus, mas é preciso ser agradável a ele, praticando o que ele ensinou com procedimentos conseqüentes de uma dileção sincera, esclarecida. O grande drama dentro do cristianismo vem exatamente do fato de que muitos ostentam o nome de cristãos, mas não o são na vivência cotidiana e razão tem o adágio: “ Os atos falam mais do que as palavras”. Somente assim a presença de quem foi batizado no mundo transmite a vida de Cristo que faz seu Corpo Místico crescer na justificação, na santificação. Este é, aliás, o que magnificamente lembrou o papa Bento XVI numa de suas alocuções na jornada da juventude em Sydney: “Enriquecidos dos dons do Espírito vós tereis a força de ir além de qualquer utopia, da precariedade do momento, para oferecer a consistência e a certeza do testemunho cristão”. Isto quer dizer que o discípulo verdadeiro à luz da autoridade do Mestre divino depara a verdade e a unidade interior. O autêntico epígono de Cristo não pretende parecer bom, mas, sim, ser bom em tudo de acordo com o que pregou o Redentor. É deste modo que se vence o relativismo contemporâneo que fragmenta a existência e dispersa as energias, porque muitos querem agradar a Deus e ao mundo, numa tentativa de compatibilizar o sim e o não, numa simbiose impossível, negando-se desta maneira o valor de tudo que o Filho de Deus pregou, seu saber, seu prestígio e o crédito que merece sua autoridade. Esta exige comprometimento absoluto, total, evitando as indecisões perante a aliciação do mal que os meios de comunicação apresentam, como se os formadores de opinião tivessem a mesma sabedoria que Jesus. Grande, portanto, a responsabilidade do cristão, ou seja, mostrar ao mundo com palavras e obras que o Mestre divino é único que pode falar realmente com toda autoridade, por ser Ele a Luz do mundo, o Verbo eterno de Deus e o que não se compatibiliza com seus ensinamentos deve ser taxado de erro pernicioso que lança nas mais profundas trevas e nas mais terríveis desgraças… cônego José Geraldo Vidigal de Carvalho |
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Um espírito impuro dos tempos de hoje Paulo, convida os crentes a repensarem as suas prioridades e a não deixarem que as realidades transitórias sejam impeditivas de um verdadeiro compromisso com o serviço de Deus e dos irmãos. A vida do dia-a-dia vai-nos empurrando em direção aos nossos problemas, questionando as nossas opções, fazendo-nos avançar ou recuar. E questiona sobretudo a dimensão daquilo a que nós chamamos problemas. Por isso, reparemos… Novecentos e sessenta e três milhões de pessoas (963 000 000) vivem situações de fome ou forte privação alimentar, em todo o mundo. E, tudo indica, a tendência é que isto se agrave. São números da FAO. Apesar da abundância de víveres no mundo, mais de 800 milhões de pessoas continuam a ir dormir de estômago vazio; milhares de crianças morrem, a cada dia, devido a conseqüências diretas ou indiretas da fome, da subalimentação crônica. Enquanto as riquezas acumuladas no mundo permitem todo tipo de esperanças, a pergunta é a mesma: é possível acabar com a fome? Seguramente alguns pontos foram marcados na luta contra esse flagelo. No decorrer do século XX, a produção de víveres aumentou a um ritmo mais constante do que o da população mundial, que mais do que duplicou. No entanto, o acesso desigual aos alimentos e aos meios de produção continua a privar milhões de seres humanos do direito mais fundamental, o de uma alimentação sadia e nutritiva. A solução deverá passar pela duplicação da produção de alimentos, o que significa que terá que haver um substancial reforço do apoio à atividade agrícola, um pouco por todo o mundo. É curioso este paradoxo. A agricultura é algo a que, muitas vezes de forma provinciana, se procura «escapar». Não é moderno, não é alegadamente rentável, é demasiado exposto às vicissitudes do clima, é demasiado «subsidio - dependente», dirão alguns. Às vezes, chegamos à conclusão que o nosso foco está descentrado, e verificamos o quão privilegiados somos. Continua a ser difícil arrancar de nós mesmos a carapaça dos pequeninos problemas que muitas vezes criamos. Mas estes outros continuam a alastrar, e a aproximar-se, cada vez mais, de nós todos. Face a estes problemas que afetam muitos milhões de seres humanos, devemos deixar de nos consumirmos nos pequenos problemas que levantamos aqui ou ali, como se nisso estivesse o centro do mundo e da vida. Paulo procura guiar-nos para o essencial e convoca para «o que é digno» para todos nós e mais apela que o essencial «pode unir ao Senhor sem desvios». Os grandes problemas do nosso mundo requerem uma união firme de toda a humanidade, para que se acabe com este escândalo da fome e de todo o gênero de pobreza que ainda consome grande parte da humanidade. E se antes pensávamos que estes problemas, eram só dos outros e distantes, afinal, enganamo-nos, estão aí a tocar já a famílias cada vez mais próximas de nós. padre José Luís Rodrigues |
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Já estamos no final do primeiro mês do ano, foram muitas as palavras e reflexões guiadas pela Palavra de Deus e muito que temos pela frente, porque cada vez que lemos os mesmos textos, a mensagem é atual, isto pode nos ajudar a compreender que se trata da mesma Palavra que nos fala, exortando e abre caminhos de realização e principalmente de encontro com o Senhor. Estar aberto ao Deus que fala é estar aberto a que este mesmo Deus possa atuar na nossa história, para fazer desta mesma história, uma história de salvação. Quando começamos o tempo comum com a festa do Batismo de Jesus, já poderíamos compreender que seria Ele quem nos iria guiar e por tanto, seria o protagonista de todas nossas reflexões. Ao longo da semana sempre é bom ter um tema para que nos ajude a viver e responder com mais responsabilidade, mas são temas que já propõe a própria liturgia a partir das leituras, para facilitar a nossa compreensão e principalmente a nossa resposta ao ter conhecimento do que nos propõe para viver ao longo dos dias. O Reino de Deus que Jesus anunciava, tal como vimos no domingo passado, afirmando que já era o tempo: se trata dele mesmo, este que se manifesta, sobretudo, por meio da Palavra que proclamada ao povo. Estamos hoje no 4º Domingo do Tempo Comum, o evangelho (Mc. 1,21-28) nos apresenta o começo da pregação de Jesus, mas podemos ver que o evangelista nos informa sobre como Jesus fazia para levar esta missão, e acaba dizendo que Jesus tinha uma autoridade profética. Sim, Jesus, andava pelos caminhos da Galileia despertando o entusiasmo do seu povo. A cena que refere esta demonstração profética de Jesus se desenlaça na sinagoga de Carfanaum. As palavras de Jesus provocam assombro entre os ouvintes e indiferença; ao mesmo que tempo que ouvem, já toma posturas: aceitação, admiração ou desprezo. Jesus anuncia um mundo novo e distinto e convida a seguir, ou melhor, fazer uma aventura de ser capazes de transformá-lo. Assim foi como a sua fama se estendeu de forma assombrosa por toda a região circunvizinha, através das suas palavras e gestos sempre acompanhada dos milagres, curas, que indica a sua mensagem de salvação. Pelas curas físicas nos pode levar a considerar a necessidade que todos temos de ser libertos e curados de algum mal interior e também físico. É por isso que muitos acabam demonstrando a sua admiração e se perguntando uns aos outros: “Que é isto? Um ensinamento novo, e com autoridade: ele dá ordens até aos espíritos impuros, e eles lhe obedecem!” (v. 27). A partir este versículo gostaria que cada um dos que participamos desta celebração abríssemos o coração à graça que Jesus veio e vem a trazer-nos, Jesus veio a transmitir aquilo que sempre será novo, porque na sua mensagem não existe uma data de vencimento, porque sempre é atual. Por isso que neste tempo do qual viveu Jesus, o povo já começava a notar alguma coisa diferente que não encontravam nos mestres religiosos. Aqueles que ensinavam uma autoridade fundamentada numa função oficial de interpretar a lei. A autoridade manifestada por Jesus é diferente; porque vem do alto, vem de Deus; isso significa que não se fundamenta em nenhuma tradição; graças ao Pai, Jesus está cheio do Espírito Santo, tal como já citava logo no começo da nossa reflexão, quando Jesus foi batizado. Jesus foi enviado pelo Pai para salvar a todos aqueles que se deixem educar pelas suas palavras e exemplos. Se realmente fazemos caso daquilo que Jesus veio transmitir, significa que sua autoridade toma conta do nosso ser por completo. A autoridade de Jesus está presente porque a sua preocupação está voltada diretamente pela vida das pessoas. Os seus ensinamentos humanizam e ao mesmo tempo libera das correntes da morte que aprisionam o ser humano no seu individualismo. As palavras de Jesus nos convidam a confiar nos braços de Deus. A mensagem de Jesus é a melhor Boa Notícia que aquele homem que nos fala no santo evangelho, a de poder ouvir e tranqüilizar o seu interior tão atormentado. Jesus não saia realizando curas e milagres de qualquer maneira ou pela pressa de se auto-promover diante daqueles que se diziam representantes de Deus. Mas, o que Jesus estava buscando era à saúde integral das pessoas: todos aquelas que se sentiam enfermas, abatidas, humilhadas poderiam experimentar a saúde como signo da aproximação, da segurança e da proteção de um Deus amigo que só deseja que o ser humano tenha vida e salvação. Até agora já deu para perceber que as palavras de Jesus possuem vida por si mesma. Porque Jesus falava com compaixão e conhecimento daquilo que estava expressando, dizia alguma coisa que estava experimentando na própria pele, a partir deste detalhe é por onde a sua autoridade se revelava diante de todos. Por isso que era um saber novo, diferente, e nada que ver com aquele que já fazia tanto tempo estavam ouvindo aquela gente, a ponto de se tornar chato, pesado e cansativo: porque eram palavras frias, apagadas e repetitivas. A palavra de Jesus era viva, eficaz, como um sino que sempre estar tocando no ritmo e no tom das expectativas dos corações adormecidos e doentes tanto da alma como do corpo. Depois de 2012 anos, me pergunto: como estão as nossas as homilias? Será que às vezes as nossas palavras já começam a se desgastar? Hoje necessitamos uma palavra mais voltada pela presença do Espírito Santo e pela experiência pessoal com o Senhor e pela sua Palavra. Para que possa nascer um ensinamento a partir do respeito e do amor as pessoas, gerando esperança e curando feridas que ainda causam muita dor. Meus queridos irmãos, aproximemo-nos do salvador para que seja ele quem nos livre de tudo aquilo que nos impede de amar e servir os irmãos. Tal como ocorreu com Moisés na primeira leitura (Dt. 18,15-20) que anunciava a chegada de um profeta bastante especial que seria um intermediário ou uma ponte entre Deus e os homens, sejamos nós capazes de assumir esta missão de ouvir a Palavra do Senhor que nos convida a dizer alguma coisa nova para aqueles que tanto esperam pelo que professamos como cristão. Na segunda leitura (1Cor. 7,32-35), são Paulo recomenda a todos os membros da comunidade a viver o celibato pelo Reino dos Céus, seguindo o exemplo de Jesus. A partir daqui a vida celibatária começará a ser um carisma (dom) e um testemunho profético peculiar entre as diversas vocações cristãs. padre Lucimar, sf |
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Com coerência e verdade No Evangelho de S. Marcos que a Liturgia nos oferece para este Domingo, recorre duas vezes a palavra autoridade: “Jesus ensinava com autoridade, e não como os escribas”. “Que vem a ser isto? Uma nova doutrina, com tal autoridade...”. Podemos justamente perguntar: Mas, em que consiste esta autoridade do jovem rabi de Nazaré? É curioso notar que S. Marcos liga esta admiração das pessoas por Jesus não àquilo que ensina, mas ao próprio ato de ensinar. As pessoas ficam pasmadas porque Jesus não ensina como os escribas, que eram os mestres, os especialistas ou intérpretes qualificados da Lei. A autoridade de Jesus não era de tipo “profissional”, porque Ele não tinha freqüentado as escolas rabínicas de Jerusalém e portanto não tinha títulos acadêmicos. E a gente perguntava: “Como é que este conhece as Escrituras, sem ter estudado? Jesus respondeu-lhes: A minha doutrina não é minha, mas daquele que me enviou” (Jo. 7, 15-16). Jesus tem consciência de ser o enviado de Deus e de falar diretamente em seu nome. Não diz como os profetas: “Palavra do Senhor!”, mas fala de própria autoridade, precisamente porque é Ele a Palavra do Senhor. A sua doutrina era sabedoria que vinha do Alto. Jesus falava com autoridade porque Ele vivia o que pregava e pregava o que vivia. Não sofria das esquizofrenias em que muitos de nós caímos. Não havia para Ele divisão entre prática e palavra. Quem fala com autoridade convence, não pela imposição, mas pela credibilidade que é transmitida. Uma coisa é ter autoridade, outra coisa é ser autoritário. Jesus não era autoritário, porque não impunha nada pela força. Não falava como quem estava “por cima”, com orgulho ou arrogância. A sua palavra procedia de um coração manso e humilde. As suas, eram palavras que libertavam, curavam e consolavam, revelando o rosto misericordioso do Pai: “Vinde a mim todos vós que andais cansados e oprimidos e eu vos aliviarei”. Também nós participamos dessa autoridade: “Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra: ide, pois, fazei discípulos de todos os povos....” (Mt. 28, 18). A nossa missão mergulha nesta autoridade de Jesus. Mas a Palavra que eu sou chamado a anunciar só terá efeito no coração das pessoas se for proclamada com a mesma autoridade de Jesus. Quer dizer, se for anunciada com o testemunho da minha vida. Também eu sou chamado a viver e portanto a falar como Ele. Não se trata de poder ou de domínio. É riqueza interior que de mim passa para fora. É coerência de vida entre o meu falar e o meu agir. Se vivo aquilo que anuncio, falarei com autoridade. O que vale não são as palavras, mesmo bonitas, mas sim o testemunho que dá vida e autoridade às palavras que saem da nossa boca. Só isso conquista, chama e converte. Que o Senhor infunda em nós o seu Espírito de sabedoria para que em palavras e obras possamos proclamar a sua vida com coerência e verdade. Darci Vilarinho |
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“O que significa isso? Um novo ensinamento, dado com autoridade” O evento relatado no texto de hoje demonstra um dos temas básicos do Evangelho de Marcos - e de todos os Evangelhos - o confronto entre o Reino de Deus, concretizado na pessoa e projeto de Jesus, e do Mal, expressado na linguagem e mentalidade daquele tempo na imagem de um homem doente “possuído por um espírito impuro”. Marcos vai seguindo a caminhada de Jesus, sempre com esta luta como pano de fundo, até o conflito definitivo no Calvário, que leva, não através de milagres, mas da cruz, até a vitória definitiva na Ressurreição. Tipicamente, Marcos enfatiza que Jesus ensinava - mas, como é costume dele, não nos explicita o que ele ensinava. Mas ilustra o conteúdo do ensinamento do Mestre relatando uma ação d’Ele - a cura de um homem “possesso”, ou seja, libertando alguém do domínio do mal. Aqui não devemos nos fixar na cosmovisão da época - que tratava toda doença como expressão de um espírito mau - mas em que o evangelista quer nos mostrar, que na chegada do Evangelho do Reino, acontece a libertação verdadeira, onde o mal, o pecado, com todas as suas expressões, está derrotado pelo bem. No relato de hoje, com as imagens usadas, os dois poderes estão frente a frente - o bem contra o mal. No texto, o mal, falando através do homem, reclama contra a chegada do bem: “O que queres de nós, Jesus de Nazaré? Vieste para nos destruir?” O mal, mesmo quando disfarçado, nunca aceita a chegada de um projeto alternativo; o poder, que aliena e domina, nunca aceita um ensinamento ou prática que liberta e conscientiza. Isso continua até hoje - enquanto as igrejas se contentam com ações paliativas e assistenciais (sem negar o seu valor e urgência) diante do sofrimento das massas, ninguém vai reclamar; mas, quando as atividades eclesiais começam a conscientizar sobre as verdadeiras raízes do sofrimento do povo, as igrejas e seus agentes são perseguidos. Como dizia o saudoso Dom Helder Câmara: “quando eu fazia campanhas em prol dos pobres, me diziam “o senhor é um santo”, mas quando comecei a perguntar por quê existiam tantos pobres, me falaram “o senhor é um comunista!”- e sabemos o quanto o santo Dom Helder foi perseguido pelo poder dominador aqui no Brasil. Então, o relato nos ensina que com a chegada de Jesus - portanto, também através da ação das comunidades dos seus discípulos/as - algo essencialmente diferente acontece. Marcos sublinha isso pela reação do povo: “O que é isso, um ensinamento novo, dado com autoridade?” A diferença do ensinamento de Jesus não estava tanto no seu conteúdo, pois isso foi profundamente enraizado no Antigo Testamento; mas, na sua maneira de ensinar. Ele não dependia de citar autoridades, como faziam os escribas; mas, falava a partir da sua própria experiência de Deus, do Deus da vida e não do Deus que estava ofuscado por tantas leis e discussões legalistas e teológicas. Jesus devolveu ao povo a sua autonomia de consciência, libertou-o da dependência dos escribas, e revelou o verdadeiro rosto de Deus, que é partidário dos sofredores, demonstrando que é a vontade de Deus que toda força que aliena, domina e oprime (aqui representada pela força demoníaca) seja derrotada pela mensagem libertadora do Evangelho. Cabe a nós, seus seguidores/as, achar meios para praticar este projeto na nossa situação concreta, não correndo atrás de milagres, de falsos Messias, de uma Teologia de Retribuição ou de Prosperidade, mas seguindo o projeto do Nazareno, construindo uma sociedade, uma economia, uma política de solidariedade, compaixão, justiça e fraternidade - manifestação do projeto de Deus para os seus filhos/as. Essa ação começa no “micro” - na nossa família, comunidade, bairro, e Igreja - pois a opção entre os dois projetos de vida se dá a cada dia, em cada opção e ação nossa. padre Tomaz Hughes, SVD
Reflexões bíblico-pastorais a) Depois de Jesus ter chamado os primeiros discípulos, Marcos conta que Ele foi ensinar a uma sinagoga a Cafarnaum. Jesus é um “judeu praticante”, ou seja, participa na assembléia que se reunia ao sábado na sinagoga. Não só ouve, mas participa ativamente. Numa sociedade onde a prática de ira a missa no domingo está em crise, não podemos perder esta oportunidade para recordar a importância de participar no encontro da comunidade, ou seja, na celebração da eucaristia dominical, de preferência, de um modo ativo, consciente, pleno e corresponsável. Todos os que estavam na sinagoga ouviram a pregação de Jesus. “Todos se maravilhavam com a sua doutrina, porque os ensinava com autoridade e não como os escribas”. A assembléia percebe que em Jesus há algo de novo, de diferente, e, sobretudo, algo autêntico: “Que vem a ser isto? Uma nova doutrina, com tal autoridade…”. Falar em nome de Deus não era estranho ao povo de Israel. Ao longo dos séculos, Deus enviou os profetas que falavam em seu nome. Mas, muitas vezes, era necessário certificar a autenticidade da profecia, porque no Antigo Testamento apareceram alguns falsos profetas. Na 1ª leitura do Deuteronômio, Deus anuncia a Moisés que do meio do povo surgirá um profeta idêntico a ele: “Porei as minhas palavras na sua boca e ele lhes dirá tudo o que Eu lhe ordenar”. Mas também faz a seguinte advertência: “Mas se um profeta tiver a ousadia de dizer em meu nome o que não lhe mandei, ou de falar em nome de outros deuses, tal profeta morrerá”. O povo de Israel esperava um Messias, um profeta verdadeiro que anunciasse e trouxesse a salvação em nome de Deus. Com este comentário, o evangelista Marcos apresenta Jesus como o Messias esperado. b) Na sinagoga de Cafarnaum, Jesus cura um homem com um espírito impuro. Há como que uma luta entre Jesus, “o Santo de Deus”, e o espírito impuro. Este milagre é a prova da autoridade de Jesus. As obras (milagres) e as palavras de Jesus são provas da Sua autoridade e motivo de admiração de todos os que estavam na sinagoga. “Os ensinava com autoridade e não como os escribas”. Jesus não era como os escribas que ficavam pelas palavras; as suas obras são sinais da salvação de Deus que anunciava. A pregação de Jesus é feita de palavras e de obras. Assim se certificava esta nova doutrina que, vinda do Pai, Jesus ensinava. Também hoje, a pregação do evangelho de Jesus terá de ser feita por palavras e por obras. Num tempo em que as palavras têm pouco crédito, estão gastas, as pessoas são mais sensíveis ao testemunho que é a melhor maneira de fazer chegar a Boa Nova de Jesus. Hoje, também nós podemos tirar os “espírito imundos” a muita gente. Será necessário que as nossas palavras sejam coerentes com as nossas obras. Aproveitemos a Oração Coleta para orar: “Concedei, Senhor nosso Deus, que Vos adoremos de todo o coração e amemos todos com sincera caridade”. c) Na 2ª leitura, são Paulo continua a dar-nos conselhos para a vida cristã. Sem menosprezar o matrimônio cristão, fundado sobre o amor de Cristo e caminho de santidade, mostra-nos, no entanto, as excelências da vida de celibato: “preocupar-se com as coisas do Senhor, com o modo de agradar ao Senhor”. Cada um é chamado a seguir o Senhor a partir do modo de vida que escolheu e no qual se sente realizado (a sua vocação). Todavia, a vida consagrada é muito importante e necessária na Igreja. Missal Romano, CNBB, SDPL |
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Não queria que andásseis preocupados Convida-nos a liturgia da Palavra deste IV Domingo do Tempo Comum a tomarmos consciência de que Deus sempre vem ao encontro do homem provocando-o, desafiando-o e libertando-o das forças do mal com a sua Palavra. No entanto, muitas vezes, nós não queremos escutar a Palavra de Deus que nos desinstala e, em tom de desabafo, até podemos deixar sair expressões semelhantes àquela que ouvíamos, no evangelho deste Domingo, o espírito impuro dizer a Jesus: “Que Tens a ver conosco, Jesus Nazareno? Viestes para nos perder?”. Na verdade, a Palavra de Deus obriga-nos a desinstalarmo-nos, a iniciarmos ou a prosseguirmos o caminho de libertação das forças do mal (evangelho deste domingo); a iniciarmos ou a continuarmos o caminho em direção a terra prometida (livro Deuteronómio). Mas, muitas vezes, nós não estamos dispostos a desinstalarmo-nos, a vencermos a rotina. A Palavra de Deus liberta-nos de tantas escravidões e leva-nos até à felicidade plena, mas tudo isto só se realiza se nos deixarmos desinstalar. Assim sendo, a liturgia da Palavra deste Domingo convida-nos a refletir sobre a Palavra de Deus, melhor dizendo, sobre como a Palavra de Deus vem até nós e nos desinstala. A primeira leitura deste domingo é retirada do livro do Deuteronômio. O livro do Deuteronômio é o testamento espiritual de Moisés. Na verdade, Moisés, pressentindo a sua morte, pronuncia, na planície de Moab, às portas da terra prometida, três discursos onde recorda os compromissos do povo para com Deus e exorta o povo à fidelidade à aliança. O texto deste domingo pertence ao segundo discurso, mais precisamente, à parte em que Moisés fala das estruturas de governo do povo de Deus. O tema da leitura do Deuteronômio deste domingo é o profetismo. O profetismo não era um fenômeno exclusivo do povo de Deus. Na verdade, os povos do crescente fértil também conheciam um profetismo que se misturava com fenômenos de adivinhação, êxtase, convulsão e delírios. Assim sendo, surge a necessidade de distinguir entre a verdadeira e a falsa profecia. A leitura do livro do Deuteronômio dá-nos alguns critérios de discernimento entre a verdadeira e a falsa profecia, ao apresentar-nos o quadro do verdadeiro profeta. Na verdade, para os teólogos deuteronomistas o verdadeiro profeta era Moisés. Assim sendo, o verdadeiro profeta, a exemplo de Moisés, é aquele que é chamado por Deus e que anuncia unicamente a Palavra de Deus e não palavras de outros ídolos ou as suas próprias palavras. O verdadeiro profeta é um dom de Deus ao seu povo. O verdadeiro profeta não é aquele que se candidata a ser profeta mas alguém que é chamado por Deus para desempenhar tal missão, independentemente das suas qualidades. Além disto, o verdadeiro profeta não é aquele que apregoa a sua doutrina mas aquele que transmite a mensagem que Deus lhe manda transmitir. O verdadeiro profeta não é aquele que está preocupado em não ferir as susceptibilidades dos seus interlocutores. O verdadeiro profeta não é aquele que busca aplausos pela mensagem transmitida. O verdadeiro profeta é aquele que transmite com fidelidade a mensagem que Deus lhe comunica. Ao comunicar a Palavra de Deus, o profeta deve ser escutado pelo povo. O povo deve ouvir as palavras do profeta como se fosse Deus que estivesse a falar. Não deve endurecer o seu coração (salmo responsorial) diante de Deus que fala por intermédio do seu profeta. Hoje em dia vivemos num mundo onde abundam as palavras. Todo o dia e todos os dias somos bombardeados por palavras, por propostas de felicidade que são apregoadas por tantos falsos profetas. Neste emaranhado de vozes, também ressoa a voz de Jesus, a voz de Deus. Ao ouvirmos esta voz sentimos que ela é bem diferente das outras vozes que ouvimos no nosso mundo. Na verdade, como nos diz o evangelho: “todos se maravilhavam com a sua doutrina, porque os ensinava com autoridade”. Ao ouvirmos as palavras de Jesus que é a Palavra de Deus encarnada sentimos que as suas palavras são bem diferentes das outras palavras que ressoam no mundo. Ajuda-nos a compreender melhor esta realidade, o evangelho deste domingo. Estamos na primeira parte do evangelho de Marcos. Nesta primeira parte que termina no capítulo 8, o evangelista pretende apresentar Jesus como o Messias, o libertador enviado por Deus que anuncia o Reino de Deus. Depois da pregação inicial de Jesus e do chamamento dos quatro primeiros discípulos, o evangelista Marcos apresenta-nos a atividade de Jesus em Cafarnaum. A apresentação da atividade de Jesus em Cafarnaum (o ensinamento de Jesus na sinagoga, a cura do endemoninhado e a cura da sogra de Pedro), da qual o evangelho deste domingo é só uma parte, pretende ser a apresentação do programa de ação de Jesus. Jesus é aquele que vem ao encontro do homem para o libertar de tudo aquilo que lhe rouba a vida. Toda a ação descrita no evangelho deste domingo situa-se na sinagoga de Cafarnaum num dia de sábado. Como qualquer judeu, Jesus, muito provavelmente, vai a sinagoga para aí participar na liturgia sinanogal. Esta liturgia que começava com a profissão de fé deuteronomista (Dt. 6, 4-9) era composta por orações e cânticos, uma leitura do Pentateuco e outra leitura dos Profetas, um comentário e as bênçãos. Podemos depreender que tivessem convidado Jesus, nesse dia, a fazer o comentário às leituras. Aqueles que o escutaram notaram bem a diferença da pregação e do ensinamento de Jesus. Na verdade, “todos se maravilhavam com a sua doutrina, porque os ensinava com autoridade”. Os interlocutores de Jesus notaram bem a diferença entre a pregação de Jesus e a pregação dos escribas, dos estudiosos da escritura de então. Diz-nos o texto que Jesus falava com autoridade. Não com autoritarismo, mas com autoridade. O autoritarismo é quando se pretende impor uma palavra pela força e pela violência. Por sua vez, a autoridade das palavras de Jesus mostram a credibilidade de tais palavras, mostram que as palavras de Jesus são palavras de Deus. A autoridade de Jesus revela-se também nas suas ações, de uma forma muito especial, na cura do endemoninhado que o evangelho deste domingo nos conta. A autoridade das palavras de Jesus é comprovada pelas suas obras. Segundo a mentalidade de então, as doenças eram consideradas como o resultado da apropriação das pessoas por espíritos maus. Tal apropriação levava que os doentes vivessem afastados de Deus e da comunidade, pois as pessoas doentes não podiam cumprir a lei e assim eram consideradas pessoas impuras. O homem sozinho não era capaz de vencer este domínio dos espíritos maus. Só Deus com o seu poder era capaz de vencer os espíritos maus e devolver ao homem a liberdade. Assim sendo, ao narrar-nos o episódio da cura do endemoninhado, o evangelista Marcos está a mostrar-nos que Jesus vem de Deus e traz consigo uma proposta de libertação. A liturgia deste domingo convida-nos a prestar atenção e a escutar a Palavra de Deus. É verdade que está palavra é uma palavra que nos provoca e nos desinstala das nossas comodidades e das nossas certezas adquirias. No entanto, só a Palavra de Deus é uma palavra credível, uma palavra que é capaz de nos libertar de tudo aquilo que nos atrofia e de nos por a caminho da terra prometida. No emaranhado de palavras em que vivemos, ouçamos a Palavra de Deus e deixemo-nos interpelar por ela. padre Nuno Ventura Martins |
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A sinagoga quer dizer reunião, assembléia, comunidade. Assim se chamava – e se chama – o lugar em que os Judeus se reuniam para escutar a leitura da Sagrada Escritura e rezar. No tempo de nosso Senhor havia Sinagogas em todas as cidades e aldeias da Palestina de certa importância; e fora da Palestina nos lugares onde havia uma comunidade de Judeus suficientemente numerosos. A sinagoga constava principalmente de uma sala retangular, construída de tal forma que os assistentes, sentados, olhassem para Jerusalém. Na sala havia uma tribuna onde se lia e se explicava a Sagrada Escritura. Na sinagoga, Jesus mostrava a Sua autoridade ao ensinar. Tomava como base a Escritura, e como no Sermão da Montanha, distinguia-Se dos outros mestres, pois falava em nome próprio: “Mas Eu digo-vos”. O Senhor, na verdade, fala dos mistérios de Deus e das relações entre os homens; explica com simplicidade e com poder, porque fala do que sabe e dá testemunho do que viu. Os escribas ensinavam também ao povo o que está escrito em Moisés e nos profetas; mas Jesus pregava ao povo como Deus e Senhor do próprio Moisés. (cf. são Beda, In Marci Evangelium exposito). Jesus, primeiro faz e depois diz e não é como os escribas que dizem e não fazem. Havia na Sinagoga, um homem possesso, mas Jesus o enfrenta com autoridade. A vitória de Jesus sobre o espírito imundo (demônio) é um sinal claro de que chegou a salvação divina. Jesus, ao vencer o Maligno, revela-Se como o Messias, o Salvador, com um poder superior ao dos demônios. Ao longo do Evangelho torna-se patente a luta contínua e vitoriosa do Senhor contra o demônio. A oposição do demônio a Jesus vai aparecendo, cada vez mais clara: primeiro de forma sutil no deserto; depois se manifesta de forma violenta nos endemoninhados; torna-se radical e total na Paixão, que é “a hora e o poder das trevas” (Lc. 22,53). Mas, a vitória de Jesus é também cada vez mais patente, até ao triunfo total da Ressurreição. São João Crisóstomo († 407) chama o demônio de imundo, devido a sua impiedade e afastamento de Deus, e porque se mistura em toda a obra má e contrária a Deus. Reconhece de alguma maneira a santidade de Cristo, mas este conhecimento não vai acompanhado pela caridade. A luta pode ser longa, mas terminará com uma vitória: o espírito maligno não pode nada contra Cristo. A mesma autoridade que Jesus mostrou no ensino (Mc. 1,22) aparece agora nos seus atos. As palavras e os atos de Jesus evidenciam algo de superior, um poder divino, que enche de admiração e de temor aqueles que O escutam e observam. Jesus de Nazaré é o Salvador esperado. Ele sabe e manifesta-se precisamente nos Seus atos e nas Suas palavras, que constituem uma unidade inseparável segundo os relatos evangélicos. Como ensina o Vaticano II (Dei Verbum,2): “a Revelação faz-se com atos e palavras intimamente unidos entre si. As palavras esclarecem os atos; os fatos confirmam as palavras. Deste modo Jesus vai revelando progressivamente o mistério da Sua pessoa”. Em continuidade a este episódio, o evangelista narra a ida de Jesus, com os discípulos, para a casa de Pedro, que será a base da comunidade em seu convívio e em seu ministério. É a substituição da sinagoga pela igreja doméstica. Bíblia Sagrada, Evangelhos, Edições Theologica, Braga, 1994. |