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Vida secreta dos apóstolos e
apóstolas à luz dos Atos Apócrifos: esse é o título do meu novo livro sobre os
apócrifos. Trata-se de uma publicação inédita em língua portuguesa sobre o
polêmico tema dos apócrifos, que por causa do best-seller Código Da Vinci ganhou
páginas de jornais do mundo inteiro. O termo apócrifo que comumente é traduzido
por falso, mentiroso, refere-se aos textos do cristianismo e judaísmo que não
foram considerados oficiais (canônicos). Encontramos nestes textos informações
exageradas, inverossímeis, mas também verdades preciosas que foram mantidas em
segredo pelo poder hegemônico da Igreja. Os apócrifos não são todos falsos.
Apóstolo é um substantivo grego apóstolos, que traduziu o aramaico saliah, e
significa enviado, mensageiro, aquele que evangeliza ou que propaga uma idéia ou
doutrina. Já discípulo, do latim discipulu, significa aquele que recebe o
ensinamento de alguém, que aprende ou estuda qualquer disciplina. Todo aluno é
um discípulo. Comumente se diz que apóstolo é aquele que foi chamado por Jesus.
Os que vieram depois são discípulos. Esta opinião é controvertida. Não seria o
número 12 apenas uma releitura do fato 12 tribos de Israel? Já São Paulo, que
não conviveu com Jesus, compreende o termo apóstolo de forma ampla, designando
mais a função que um título oficial (1cor 12,28). Ele classifica como apóstolo,
além de si mesmo, a Tiago, o Irmão do Senhor, Barnabé, Andonico, Junias e demais
parentes de Jesus (Gal 1,19; 1 Cor 9,5-6; 15,7; Rom 16,7).
A distinção histórica de apóstolo e discípulo pode ser até importante para o
cristianismo, mas é negativo quando excluiu pessoas do grupo. As mulheres da
primeira hora do cristianismo, por exemplo, são também apóstolas de Jesus. Se
elas não tiveram a função de ensinar, pregar, fundar igrejas, foi porque foram
silenciadas. É o caso de Madalena, Maria, mas também de Tecla e de tantas outras
que nem sequer ficou registrado o nome. Não estaria aí uma questão disputa de
poder no início do cristianismo? Creio que sim.
Contrário a Atos dos Apóstolos da Bíblia, que é mais atos de Paulo e Pedro, Atos
dos Apóstolos Apócrifos contam os atos dos outros apóstolos e apóstolas, dentre
os quais destaco:
Os apóstolos
fundam igrejas e sagram bispos
Atos dos
Apóstolos Apócrifos narra um elemento que já sabíamos, mas que aqui é amplamente
explicitado, o fato dos apóstolos não pouparem esforços, não somente para
batizar os convertidos, mas também para ordenar presbíteros e sagrar bispos para
dirigir as comunidades fundadas por eles. Judas Tadeu e Simão sagraram Abdias
como Bispo da Babilônia, ordenam presbíteros e diáconos para a Igreja da Pérsia.
Os apóstolos eram reconhecidos como lideranças apostólicas de Igrejas locais.
João dirigiu por muitos anos a Igreja de Éfeso. Tiago, o Irmão de Jesus,
presidiu a Igreja de Jerusalém, depois da morte de Jesus. Ele era respeito e
reconhecido com tal pelos outros apóstolos, inclusive por Pedro e Paulo. Jesus
mesmo o indica para estar a serviço dos apóstolos.
Á pregação dos apóstolos muitos reis, juntamente com a sua família, corte real,
exército e súditos a se converterem ao cristianismo. Muitos reis, sabendo da
presença dos apóstolos em seu território, saiam à procura deles e imploram
milagres em favor dos seus familiares e corte real.
A liderança de
Tiago, o irmão do Senhor
Atos Apócrifos
revelam que Tiago, considerado o irmão de Jesus, preside a Igreja de Jerusalém
depois da ascensão de e Jesus e é reconhecido por Clemente de Alexandria, como
Senhor e Bispo dos Bispos. Este fato revela a importância da Igreja de Jerusalém
na pessoa de Tiago. Paulo perseguiu Tiago antes da sua conversão e tentou
dissuadi-lo, posteriormente da oposição do cristianismo a Roma. Os Atos
Apócrifos confirmam a opinião conônica que Pedro é o chefe dos Apóstolos e
discute a questão se Paulo poderia ser chamado de apóstolo. Jesus, após a
ressurreição, diz a Pedro que ele deveria reconhecer Paulo como apóstolo. Isso
demonstra como essa questão era polêmica entre os primeiros seguidores de Jesus.
No entanto, a Igreja é mais paulina que petrina.
As mulheres
apóstolas, virgindade e misognia dos apóstolos
As mulheres em
Atos Apócrifos têm presença marcante na vida dos apóstolos. Elas, mediante o
ensinamento dos apóstolos ou chamamento de Jesus, assumem papel de liderança
apostólica no início do cristianismo, como foi o caso de Tecla, Ifigênia,
Madalena, Maria, a mãe de Jesus, Rainha Eufenissa, Drusiana, Maximiliana,
Migdônia, Trépzia e tantas outras. Filipe pregou juntamente com sua irmã,
Mariane.
Um elemento novo em Atos Apócrifos dos Apóstolos é a insistência como os
apóstolos são apresentados como defensores da castidade e da virgindade. Muitas
mulheres ao aderirem aos ensinamentos dos apóstolos, passam a ter vida em
castidade, virgindade consagrada ou abandonam os maridos. Surpreende o modo como
os fatos são colocados. Até mesmo o apóstolo João, o discípulo amado, é
apresentado como casto e virgem. Por ser virgem, João teria o direito de levar a
Palma ou o Livro de Maria à frente do féretro de Maria, também considerada
virgem. O próprio Jesus, segundo João, lhe teria lhe proibido o matrimônio, para
que ele ficasse mais livre para o apostolado.
Entre os gnósticos, grupo tido como herege pelos poder eclesial hegemônico,
tinha uma ramificação que levava o nome de encratistas. Estes defendiam que a
salvação deveria ser alcançada mediante a virgindade e negação do corpo. Em Atos
de Pedro encontra-se a narrativa da história de sua filha, Petronília, que ficou
paralítica, a pedido de Pedro, para ser impedida de manter relações sexuais. Um
mal horrível, como a paralisia, se justificaria, pelo bem maior que era o de
manter a virgindade. Esse ideal monástico do século II d. C. estava muito
presente entre os cristãos. Atingir o ideal da perfeição significava ser casto,
virgem e vegetariano. O mérito da virgindade era o de alcançar a salvação. Nisso
está o medo da sexualidade da Mulher. Não é a mulher o alvo, mas o que sua
sexualidade geradora de vida representa. Para os homens judeus a mulher tinha
parte com o Sagrado. Controlar o sagrado é controlar a mulher.
Outro elemento importante nos Atos Apócrifos é a aversão dos Apóstolos à
liderança da Mulher, a misognia. Destaca-se o caso de Pedro que rejeitava
Madalena. Mas também tem o caso de André. Um texto apócrifo intitulado A Ordem
Eclesiástica Apostólica, para justificar que a mulher não podia ser ordenada
Padre para distribuir a Eucaristia, conta que Maria Madalena riu na Última Ceia,
quando Jesus disse “Este é meu corpo e meu sangue”. Tertuliano, no século II,
escreve: “Essas mulheres hereges – como são atrevidas! Carecem de modéstia, e
tem a ousadia de ensinar, de discutir, de exorcizar, de curar e, talvez, até de
batizar”. Condenando uma mulher que assume a direção de uma congregação na
África, Tertuliano relembra os preceitos de disciplina eclesiástica para
mulheres, que rezava: “Não é permitido a nenhuma mulher falar na Igreja, nem é
permitido que ensine, ou que batize, ou que ofereça a eucaristia, ou que
pretenda para si uma parte de qualquer atribuição masculina – para não se falar
em qualquer cargo sacerdotal”. No início do cristianismo as mulheres tinham
poder de direção na Igreja, mas depois elas foram descartadas. A pergunta é: Não
foram as mulheres importantes no início do cristianismo para arregimentar
adeptos, mas descartadas quando o cristianismo opta por coligações com Império
Romano?
A negritude em
Atos Apócrifos
Em relação à
negritude, Atos Apócrifos dos Apóstolos relatam que os apóstolos pregaram na
África e que o mal é a raça negra. Assim, Mateus tem contato com a negra
Eufenissa, rainha da Etiópia. Ela reconhece que ele, Mateus, é o apóstolo
enviado por Deus para a salvação dos homens e que ele é discípulo daquele que
ressuscitava os mortos e afastava dos homens todas as enfermidades. Bartolomeu
que desenvolve sua atividade apostólica na Índia, que fica na direção da
Etiópia, é descrito como um homem de cabelos negros e crespos e nariz
retangular. Na Índia, após Bartolomeu ter conseguido acabar com a divindade
local, um anjo do Senhor aparece, faz o sinal da Cruz sobre os restos da estátua
e expulsa o diabo, sob a forma de egípcio. Em outra passagem esta mesma imagem
aparece em forma de um etíope. A estatua era gigante, mais escura que a fuligem,
de rosto afilado com barba grande, cabelos longos até os pés. A identificação do
mal com a raça negra é um modo encontrado para discriminar os povos do Egito e
Etiópia. Em nossos dias, torna-se um desafio a leitura da Bíblia Canônica e
Apócrifa a partir da raça negra.
Para não concluir
As narrativas
apócrifas dos apóstolos são, às vezes, contraditórias, sem uniformidade,
oriundas de várias fontes. Verdades e lendas se misturam nos relatos. Estudar os
apóstolos e apóstolas de Jesus na perspectivas dos apócrifos é um caminho
desafiador. Estes textos nos lembram que apóstolos e apóstolas somos todos nós,
quando difundimos o Reino de Deus. As mulheres da primeira hora do cristianismo
não são menos apostolas que os homens.
frei
Jacir de Freitas Faria, OFM
Jornal Estado de Minas - Pensar, 27/08/2005 - p. 5
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