|
Católicos e gregos distinguem
entre livros canônicos(também protocanônicos),
deuterocanônicos e apócrifos, referidos aos escritos
sagrados. Os canônicos são todos os aceitos como autênticos sempre,
e dentro do AT também tidos como Escritura, tanto por judeus como
por evangélicos. Os deuterocanônicos (segundo cânon) são livros do
AT tidos como escritura pelos gregos da diáspora e como tais aceitos
na Igreja mas que não formaram o cânon judaico escrito em hebraico e
sim no grego da Septuaginta. Os judeus do concílio de Jâmnia(90DC)
os identificaram como fora do cânon autêntico. O Talmud [=
recopilação das tradições da Mishná (2º lei, ou seja a
não escrita) e Guemará (tradições orais) judaicas] os consideram
como Sefarim Hizonim (livros estranhos). No concílio de Trento em
que definitivamente a 8 de abril de 1546 foi declarada canônica a
Vulgata(= tradução latina usada na Igreja ocidental), esses livros
entraram para formar parte da Escritura, admitida como autêntica
pela Igreja Católica. Os tais foram: Tobias, Judite, Sabedoria de
Salomão, Eclesiástico, Macabeus I e II e partes de livros já
admitidos como canônicos como Baruc, Daniel e Ester. Estes textos e
livros são denominados deuterocanônicos pelos católicos e
recebem o nome de apócrifos pelos evangélicos. Do Novo
Testamento temos como deuterocanônicos a carta aos Hebreus,
atribuída a Paulo, mas escrita após a morte dele, a carta de Tiago,
a segunda de Pedro, II e III de João, a de Judas e o Apocalipse.
Houve dúvidas na antiguidade, mas hoje todos eles estão incluídos
como canônicos na Igreja católica e como tal admitidos na Igreja
Oriental e na maioria dos evangélicos. Isto apesar de que alguns
deles só foram admitidos catolicamente no século V. Um exemplo: a
Bíblia da Sociedade Bíblica do Brasil traz todos eles. Estes livros
são adotados pela maioria das diversas igrejas cristãs.
APÓCRIFOS DO AT
Do AT existem muitos livros
que os judeus denominam apócrifos (escritos ocultos, literalmente)
que outrora chamaram de pseudo-epígrafos (escritos espúrios)
entre os quais a Ascensão de Isaias, a Assunção de Moisés, a Vida de
Adão e Eva, o Testamento dos doze Patriarcas, etc.
APÓCRIFOS DO NT
No vocabulário da Igreja
romana esta palavra tem um significado particular. O primeiro que
usou a palavra foi são Jerônimo (+ 420). Outros os chamam de
antilegoumena (= disputados). Parece que a distinção entre
antilegoumena e apócrifos é que estes últimos foram escritos por
hereges e contêm doutrinas contrárias às da Igreja. Vejamos alguns
exemplos.
A Estichometria de Nicéforo
teve origem em Jerusalém talvez no século IV. Seu nome alude à
quantidade das linhas ( um esticho é um verso de 15-16 sílabas,
escrito numa única linha)e cada escrito tem suas linhas numeradas.
Traz como duvidosos os Apocalises de João, e de Pedro, a Epístola de
Barnabé e o Evangelho segundo os hebreus. Como apócrifos ou
espúrios os chamados períodos de Pedro, João e Tomás, o
evangelho de Tomás, a Dídaque dos apóstolos, as cartas de Clemente,
de Ignácio e de Policarpo e o Pastor de Hermas.
O chamado Decreto Gelasiano
(inícios do século VI)tem uma lista de 61 livros, entre eles os
evangelhos de Pedro, Tiago e Tomás conservados até hoje, e umas
cartas entre Abgar e Jesus que ultimamente tem sido muito
divulgadas.
Também do século VI temos uma
lista de Timóteo, presbítero, de livros de origem maniqueista: O
Evangelho da vida, os Atos dos apóstolos de André, e o Evangelho de
Filipe.
OS EVANGELHOS APÓCRIFOS (século II) - EVANGELHO DOS HEBREUS
A conclusão dos expertos é que
existia na metade do século II e talvez em data anterior que não
ultrapassa a metade do século I. A língua foi o aramáico, escrito em
caracteres hebraicos, segundo são Jerônimo. O autor ou autores eram
judeus-cristãos que se refugiaram em Péla, na margem oriental do
Jordão, hoje identificada com Hirbet Fahil na antiga Decápolis e
situada ao sul das duas cidades de Hipos e Gádara e em frente de
Escitópolis. Embora não seja mencionada na Escritura, é lugar
conhecido desde o século XIV a.C. pelas histórias profanas. Não deve
confundir-se com a Péla de Alexandre Magno da Macedônia, lugar onde
nasceu o conquistador. Pompeio (c 75 a.C. ) formou a federação das
dez cidades ou Decápolis, em cujo território Péla chegou a ser
famosa pelas fontes de sua comarca. Para ela fugiram os cristãos
para evitar as calamidades da destruição de Jerusalém no ano 70,
segundo relato de Eusébio(+ 339). Foi importante núcleo de cristãos,
pois temos listas de seus bispos dos séculos V e VI dC e se
encontraram interessantes vestígios cristãos em suas ruínas: uma
basílica e um mosteiro. Nela se deu a batalha em que os árabes
conquistaram a Palestina dos bizantinos no século VIII. Hoje é uma
miserável aldeia da Jordânia, uma de tantas aldeias árabes como
abundam no Oriente Próximo.
LÍNGUA
Segundo são Jerônimo (+ 419), o evangelho estava escrito em
caracteres hebraicos, mas a língua era o aramaico, ainda hoje usado
em remotas aldeias do Líbano. Ele teve um exemplar nas mãos e o
traduziu ao grego e latim.
ORIGEM
São Jerônimo fala dos Nazarenos de Berea(Aleppo) perto do Eufrates.
Ele diz que na biblioteca de Cesareia se conservava o texto em
hebraico e que comumente é chamado de Mateus autêntico, o qual é
afirmado também por são Epifânio (+ 403). Não eram heréticos como os
Ebionitas, a quem também se atribui a autoria deste evangelho, mas
seguiam ainda os ritos judaicos. Orígenes (+ 254) dá a entender que
o tal evangelho não era herético como o dos Doze Apóstolos. A
opinião dos modernos é que constituía um Targum (= tradução livre)
de Mateus. Um exemplo: Há pouco me tomou minha mãe, o Espírito
Santo, por um de meus cabelos e me levou ao monte sublime do Tabor.
Explica-se que chame de mãe ao Espírito Santo porque em hebraico
a palavra Ruah (= Espírito)é feminina.
Uma outra passagem é sobre a parábola dos talentos. Distingue três
servos: Um que tinha procedido de modo a multiplicar o dinheiro. Um
outro que enterrou o mesmo e um terceiro que o dissipou com
meretrizes e flautistas. O primeiro foi bem recebido, o segundo
unicamente admoestado e o terceiro foi jogado no xadrez.
Uma frase que não está nos
evangelhos: Nunca estareis contentes senão quando olhardes a
vosso irmão com amor.
É o evangelho que claramente
narra a aparição a Santiago. Após dar o lençol ao servo do
sacerdote, foi a Tiago e apareceu a ele. Trazei a mesa e o pão,
disse. E na continuação tomou um pouco de pão, abençoou o mesmo,
o partiu e o deu a Tiago, o justo, dizendo: Meu
irmão, come teu pão, porque o Filho do Homem ressuscitou dos mortos.
No Pai nosso, no lugar de pão
de cada dia traz a palavra mahar que significa de amanhã. E fica
assim o versículo: Dá-nos hoje o pão do amanhã ou seja o pão que
nos darás no teu reino.
De Barrabás diz que seu nome
significa Bar-rabban ou seja filho do mestre.
O véu do templo não se rasgou mas foi a arquitrave do mesmo que se
partiu.
Na ressurreição Jesus disse:
não sou um demônio sem corpo no lugar de um fantasma.
Entre os crimes maiores está
ter causado tristeza à alma de teu irmão.
Quando cita o AT usa o texto
hebraico, conhecido e usado por são Jerônimo para a tradução latina
de sua Vulgata, e não o texto dos setenta dos evangelhos canônicos
em geral.
EVANGELHOS HETERODOXOS (séc II)
O evangelho apócrifo antes
estudado era mais ou menos ortodoxo, mas agora vamos estudar algumas
heresias e os evangelhos redigidos para seus adeptos. Antes de
analisar o conteúdo desses evangelhos vamos estudar os primeiros
gnósticos cristãos. Pois é de sua doutrina que se derivam algumas
das afirmações dos ditos evangelhos.
O GNOSTICISMO
É a doutrina da salvação por
meio do conhecimento. Deriva de Gnosis, que é conhecimento e
gnostikós, bom de conhecimento. Tanto o judaísmo como o cristianismo
afirmam que a salvação depende do Supremo Poder, que exige fé e
obediência aos seus mandatos. O gnoticismo a estabelece num
conhecimento quase intuitivo dos mistérios do Universo e em fórmulas
mágicas, expressivas de tal saber e ciência. O gnóstico ( o sábio,
diríamos) por sua ciência especial pertence a uma classe à parte e
superior entre os outros seres: um em mil e dois em quatro mil,
afirmam eles. Podemos definir gnosticismo como nome coletivo para um
grande número de seitas panteístas e eruditas que floresceram desde
tempos anteriores a Cristo até o século V dC. Tomando diversas
noções da filosofia platônica e de doutrinas maniqueístas defendiam
a perversidade da matéria como uma decadência do espírito e
afirmavam que o Universo era uma degeneração da deidade para esperar
a regeneração da matéria num retorno ao Pai-Espírito mediante um
salvador enviado por Deus. Muitos estudiosos porém, asseguram que
não pode existir uma definição comum e abrangente do gnosticismo. Só
podemos afirmar que existem pontos comuns numa série de heresias que
aparecem nos séculos II, III e IV, pretendendo reduzir o
Cristianismo da fé a uma religião de ciência esotérica. Estudaremos
alguns dos principais heresiarcas.
BASÍLIDES (primeira metade do século II)
VIDA
É o mais antigo dos gnósticos alexandrinos, florescendo durante os
reinados de Adriano e Antonino Pio (120-140). Teve um filho Isidoro,
continuador da obra do pai. Basílides inventou profetas que falavam
em seu nome como Barcabbas e Barcof, e ele mesmo se declarou
discípulo de Glaucias, este por sua vez de Simão Pedro. Dizia que
recebia mensagens de Matias, o apóstolo.
DOUTRINA
Só a conhecemos pelos testemunhos de são Ireneu (c 170) de S.
Clemente de Alexandria (208 - 210) e Hipólito de Roma (225). Segundo
Ireneu, Basílides era dualista (dois princípios: o do bem e o do
mal) e emanantista (os seres saem diretamente da divindade por
emanação). Para Hipólito ele era panteísta (tudo é deus) e
evolucionista (a diferença da emanação de um princípio único, o
progresso, por vezes degeneração, se dá por novas qualidades
adquiridas entre as diferentes criaturas). Segundo Ireneu,
Basílides ensinava que a Mente (Nous) foi o primeiro ser que nasceu
do não nascido (eterno?) Pai que receberá o nome de Abrasax, porque,
segundo a gematria, a suma dos números de suas letras é 365, tanto
quanto é o número dos céus ou dos dias do ano. Para Hipólito,
Basílides dirá deste deus único que é como o Pansperma
(semente total, ou melhor todo semente). Da Mente nasceu o Logos
(razão), do Logos a Frônesis (prudência), desta a Sofia (sabedoria)
e a Dínamis (força), e destas últimas, as Virtudes, Principados e
Arcanjos, que são espíritos de alta qualidade e por meio dos quais o
mais alto céu foi feito, que parece recebeu o nome de Plêroma.
Os descendentes dessas potências superiores construíram outros céus
inferiores até o número 365, céus que recebem o nome de Eons,
segundo a interpretação de Ireneu. Esta emanação é uma degeneração
em poder e substância, cada vez mostrando-se mais fraca, com menos
energia. O último céu, que é o mundo dos homens, foi feito da
matéria eterna pelos anjos. Estes últimos o ornaram com todas as
coisas que vemos. Os anjos dividiram entre si os diversos povos e
etnias como se fossem seus chefes. Porém um dos anjos, o mais
poderoso, se tornou o deus dos judeus e como tal quis subjugar
outras nações. A lei foi dada por esse anjo-chefe que livrou os
judeus do faraó. Por isso enfrentou-se as outras potências
angélicas; daí a aversão dos povos contra os judeus. Vendo isso o
Pai, Abrasax, enviou seu primogênito, o Nous (logo chamado Cristo,
mas que tem o nome mágico de Caulacau) para libertar seus crentes do
poder das potências angélicas que tinham construído o mundo. Para os
homens, Cristo parecia um homem que obrava milagres. No momento de
ser crucificado ele trocou seu corpo com o de Simão de Cirene, de
modo que foi este último o morto como Jesus, enquanto o verdadeiro
Jesus, o Cristo, ficou livre sob a figura do Cirineu, até seu
retorno ao Pai. Pelo conhecimento de Cristo as almas são salvas
porém os corpos perecem.
ÉTICA
Parece que discípulos de Basílides admitiram a promiscuidade e a
poligamia. Também uma conduta relaxa com respeito aos idolotitos
(comidas oferecidas aos ídolos) porque deus não se interessa nessas
minudências. De fato Isidoro, o filho, aconselha a livre satisfação
dos desejos carnais para que a alma possa encontrar paz nas suas
preces. Justino, na sua primeira apologia (150-155), sugere que os
crimes de que eram acusados os cristãos como imoralidade e magia
eram propriamente práticas gnósticas, citando como responsáveis
Simão, Menandro e Marcion, coisa que também afirma Ireneu, dizendo
que usavam imagens, e se serviam de conjuros e encantamentos. É
interessante observar como os escritores cristãos rejeitam as
doutrinas gnósticas por não se conformar com a tradição da Igreja,
mas sendo interpretadas individualmente. Isto muitos antes do
concílio de Trento.
VALENTIN OU VALENTINO (circa 150)
HISTÓRIA
Valentino nasceu no Egito,
segundo Epifânio de Salamis ou Constância, a metrópole de Chipre(+
403), Foi educado na ciência helenística em Alexandria. Como outros
hereges, veio à Roma durante o pontificado de Higínio(138-40).e alí
permaneceu até o pontificado de Aniceto(155-166). Seus erros
levaram-no à excomunhão. Por isso fugiu para Chipre, onde, como
professor, morou até sua morte em 160 ou 61. Valentino proclamava
que ele tinha aprendido suas doutrinas de Theodas ou Theudas,
discípulo de S. Paulo, mas evidentemente seu sistema é um amálgama
das mais fantásticas idéias gregas e orientais com pensamentos
cristãos. Especialmente sua filosofia depende de Platão. Dele tomou
o conceito paralelo entre o mundo das idéias(pleroma) e o mundo dos
fenômenos (kenoma).
DOUTRINA
No pensamento neoplatônico eón é cada uma das potências ou
hipóstases eternas emanadas do Uno, o ser primigênio (Bythos) que
após períodos de silêncio e contemplação originou outros seres por
um processo de emanação. A primeira série de criaturas eram trinta
em número, representando os quinze syzzygios (par) ou pares sexuais
complementares. O primeiro par era o abismo e o silêncio( Ver
Gênesis) Deles derivam mente e verdade, que por sua vez geraram
palavra(logos) e vida(João no prólogo).Pela fraqueza e pecado do 13oeon,
a Sofia (sabedoria), que quis penetrar no abismo, gerou-se uma
grande desordem dentro do pleroma(domínio divino). De um dos eons
inferiores, teve origem o mundo inferior sujeito à matéria. O ser
humano, o mais excelente ser do mundo inferior, participa de ambos
componentes: o psíquico (espiritual) e o hílico (da matéria). A
redenção consiste em liberar o superior, espiritual, da servidão do
inferior (material). Este foi o trabalho e missão de Cristo e do
Espírito Santo.
MARCION (85 - 160 d.C.)
Marcião a figura principal
entre os hereges gnósticos. Dele diz-se que é uma das figuras mais
influentes na História da Igreja e um dos hereges mais combatidos de
todos os tempos. Vamos pois, conhecer sua história, seus postulados,
antes de ver sua influência e os apócrifos escritos na base de sua
heresia.
HISTÓRIA
Nasceu em Sinope, pequena península do Ponto, Ásia Menor, às margens
do mar Negro no ano de 85. Seu pai era bispo cristão da cidade.
Parece que era Nautes ou Nauclerus, dono portanto de um barco. São
Epifânio (escreve 40 anos após sua morte) dirá dele que na sua
juventude fez voto de castidade, mas que ao ter relações com uma
jovem seu pai o expulsou da Igreja. Ele implorou perdão ao seu pai,
mas este recusou e, levado pela vergonha e o desprezo de seus
coetâneos, secretamente deixou Sinope e viajou a Roma. Roma estava
então, sede vacante, após a morte de Higino (140). Dizem que Marcião
era bispo, o que contradiz o relato anterior e foi com esse título
que os seus discípulos o veneraram. Título, aliás, que nenhum dos
seus adversários negou. Imediatamente após a sua chegada em Roma
doou à igreja 200 mil sextércios (7 mil dólares), soma que lhe foi
devolvida após sua ruptura com a Igreja. Esta separação parece
deu-se ao que parece no ano 144 fazendo causa comum com Cerdão,
gnóstico de origem síria, que tinha vindo a Roma em tempos do papa
Higíno (136 - 140). Cerdão opunha o Deus Justo(Jahveh) do AT ao Deus
Bom do NT e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo. É propriamente o que
constituiu o gnosticismo judeu-cristão. Existe uma anedota sobre
Marcião quando da visita em Roma de são Policarpo no ano de 150,
relatada por S. Ireneu: Marcião pergunta a Policarpo se o conhecia.
A resposta do santo foi: “Te conheço como o primogênito de Satanás”.
Tertuliano, que escreve em 207 diz que Marcion se arrependeu e
recebeu como condição de sua readmissão na Igreja trazer de volta
aqueles que ele tinha separado. Sua morte prematura impediu que isso
acontecesse.
DOUTRINA
Nos anos 70 - 140 o número de
seitas dentro da Igreja foi enorme. Basta recordar as dos ebonitas,
satornilos, alobianos, severianos, apotácticos, sacóforos e
hidropasianos entre outras. Quase todas elas tinham como base
intelectual o gnosticismo dualista(dois princípios vitais) e
esotérico ( nem todos os ensinamentos de Jesus foram transmitidos,
mas houve uma tradição oculta, privilegiada a uns poucos
discípulos); e como ética o desprezo da matéria (especialmente do
vinho e do sexo). Muitos afimam que Marcião não foi gnóstico no
sentido verdadeiro da palavra. Para Marcião interessava acabar com o
judaísmo como antecessor do cristianismo, porque o AT era um
escândalo para os crentes e um obstáculo intransponível para os
cultos pagãos por sua dureza e crueldade. Por isso, para remover
estes obstáculos, ele admitia uma deidade secundária para o AT, um
demiurgo que era deus em certo sentido mas não o Supremo Deus: era
justo até o extremo, tinha ótimas qualidades, mas não era o Deus
bom, que foi o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo. Para isso ele
suprimiu todos os textos que eram contrários ao seu dogma. De fato
ele criou um NT consistente num Lucas mutilado e no que ele chamava
de Apostolikon, com dez epístolas paulinas. S. Justino contemporâneo
(+ 165) dirá: Com a ajuda do diabo, Marcião tem contribuído em todos
os países a blasfemar e recusar o Criador de todo o orbe como Deus.
Marcião reconhece um outro deus e, porque ele é essencialmente
maior, tem feito coisas muito melhores que o antigo. É o Supremo
Deus, o Bom, o Justo e Íntegro. O Bom Deus é todo amor, enquanto o
deus inferior é dominado por uma furiosa cólera. O criador tem sua
esfera própria e não é oposto ao Bom Deus, como Ormuz(bom) e Arimam(mau),
os dois princípios do maniqueísmo. Mas o Bom Deus, sozinho, é quem
intervêm em favor dos homens e ama mais a misericórdia que o
castigo. Todos os homens são criados pelo demiurgo mas esse deus do
AT escolheu os judeus como próprios e assim se tornou seu Deus.
O NOVO TESTAMENTO
Marcião rejeita as passagens de Lucas sobre o batismo de Jesus nas
quais o Batista anuncia seu messiado. Também repudia a história das
tentações no deserto. Elimina os capítulos I e II por seguirem
tradições hebraicas em demasia: a perícope 4,1 - 3 por sua
referência ao Deuteronômio e 4,16 - 30 do discurso da sinagoga em
que Jesus afirma que seu ministério é completar o Velho Testamento.
Das epístolas paulinas, únicas admitidas, elimina trechos
inconvenientes para sua doutrina, como os capítulos 9 - 11 e todo o
que segue ao 14,23 da epístola aos romanos. Não admite outros livros
do NT. Às vezes interpreta “modo peculiari’ passagens claramente por
todos admitidas. Um exemplo óbvio: no lugar de “venha o teu reino”,
ele traduz “venha o Espírito Santo sobre nós e nos purifique”.
Ao que parece, o reino era um termo errôneo do AT.
MATRIMÔNIO E SEXO
Marcião e seus seguidores eram ascetas rígidos. Pregavam um
rigorismo estrito, negavam o direito ao matrimônio e formulavam
normas muito austeras para o jejum. Durante os séculos II e III
muitos grupos heréticos afirmavam que o matrimônio era satânico e
similar à fornicação. Seus seguidores falavam do corpo como se fosse
um ninho de pecados. É lógico pensar que essa idéia de Marcião sobre
uma abstinência sexual contribuiu muito para a desaparição da seita.
REAÇÃO CRISTÃ
Para os Padres Apostólicos e para as diversas igrejas a eles unidas,
a heresia de Marcião era o desvio mais violento da verdade
apostólica. Ele negava a inspiração do AT e e a continuidade do Deus
Criador com o Deus Salvador, Pai de Jesus. Por isso foi
expulso-excomungado – da Igreja de Roma que devolveu o dinheiro em
144. Com o dinheiro devolvido, Marcião foi capaz de iniciar um
movimento missionário, fundando novas igrejas em todo a margem do
Mediterrâneo. Sua obra continuou durante 150 anos até a metade do
século IV.
RESULTADOS
1o) O estabelecimento de um cânon do NT como foi o de
Muratori (perto do ano 150).Entendendo o cânon como o conjunto de
escritos em que a inspiração está presente, Marcião foi o primeiro a
delimitar seu número a uns poucos, bem determinados. A Igreja então
aceitou como válidos os outros três evangelhos sem que prevalecesse
o critério de distinguir ente o que era AT e o que era revelação
nova do NT. Todos os apóstolos foram admitidos com o mesmo critério.
2o) Admissão do judaísmo dentro do cristianismo como base
fundamental, da qual somos herdeiros. Porém a Igreja compreendeu que
o cristianismo não era uma revelação oposta e separada do judaísmo,
ou que existisse uma contradição total entre o evangelho e a Torá .O
cristianismo era o cumprimento das promessas do judaísmo. Foi
preciso a destruição do mesmo por Tito para os cristãos se tornarem
independentes da antiga lei dos sacrifícios. Paulo vivia e sentia a
história de Israel e o templo continuava para ele como o lugar da
presença de Deus com seu povo. Só que agora era um povo diferente,
que em Cristo tinha fundamento e na cruz alcançava sua máxima
expressão.
3o) Uma maior dependência e valorização da tradição
apostólica, como verdadeira intérprete dos livros inspirados e
autêntica leitura do sentido de suas diversas partes. O conhecimento
secreto , a gnosis de Marcião, encontrou um muro intransponível na
tradição apostólica: o que ela não afirmava não estava em parte
alguma e não era reconhecido como inspirado. Também Valentin
apoiava-se no conhecimento secreto. Mas a Igreja não admitiu outro
conhecimento além do público da tradição apostólica. Qualquer
revelação particular não tem o carimbo da autenticidade que é o
passo prévio para a verdade.
4o) A Igreja sempre se opôs à fornicação e principalmente
ao adultério; mas também afirmou claramente que o matrimônio era
lícito e que o sexo dentro do mesmo era moralmente um ato de amor,
honesto e necessário.
EVANGELHO DOS EBIONITAS (século II)
INTRODUÇÃO
Desde os primeiros anos do
cristianismo houve heresias. As principais delas derivadas de uma
interpretação filosófica errada e de práticas judaicas
ultrapassadas. À parte os judaizantes, que Paulo tanto combateu,
temos três heresias, nascidas no judaísmo: DOCETAS (ou doketas).
Admitiam que Jesus não era o Cristo mas uma aparência de corpo,
provavelmente guiados pelo gnosticismo de seus fundadores, já que
uma das doutrinas básicas gnósticas é seu maniqueísmo (= dualidade
entre bem e mal) em que a matéria é vista como origem do mal. Daí
provém sua rejeição absoluta à matéria. A segunda é a dos EBIONITAS
judeus-cristãos que na sua rama de heterodoxos admitiam os
princípios gnósticos nos séculos II e III, tendo seu centro em Alepo,
no norte da Síria. Rejeitavam a divindade de Jesus, reduzindo-o a um
demiurgo, entidade que ordena a matéria segundo o exemplar das
idéias, e assim configura os entes (Filosofia platônica). É a
terceira hipóstase detrás do Uno e do Nous segundo Plotino.
Finalmente temos os KASAITAS, também judeus-cristãos que misturam a
gnosis com elementos da astrologia dos caldeus, antigos descendentes
dos sumérios na região baixa da Mesopotâmia.
EVANGELHO
É também chamado de evangelho
dos Doze. É um livro heterodoxo em que os chefes da seita, além de
querer impor os costumes legais judaicos aos cristãos provenientes
do paganismo, rejeitando a divindade de Jesus, usavam seu evangelho
próprio no qual os apóstolos narram os fatos e Mateus escreve essas
narrações. Daí o nome dos DOZE com o qual também é conhecido. O nome
de ebionitas deriva de Ebionim (em grego Ptoxoi, e em latim pauperes
que podemos traduzir por mendigos); refere-se à pobreza que
professavam. Eram vegetarianos e consequentemente modificavam
algumas passagens evangélicas, como aquela em que João, o Batista
(sem citar as lagostas porque eram animais), só comia mel selvagem,
cujo gosto era como pão empapado em azeite.(Mt 3,4 - 7)
Uma outra passagem modificada
ou tergiversada é o acréscimo às palavras do batismo de Jesus: Além
do “Tu és meu Filho amado’, a voz diz: “Eu hoje te gerei”
.Está clara a finalidade da tendência gnóstica de ver em Jesus uma
criatura, não eterna como o Pai. Contra essa heresia foi
precisamente escrito o prólogo de João, o evangelista.
Uma outra passagem
interessante a encontramos em Mt 5,17 quando Jesus afirma que não
veio abolir a lei e acrescentam : “Vim abolir os sacrifícios e se
não deixardes de sacrificar não se afastará de vós a minha ira”.
Pela mesma razão de não comer carne Jesus perguntará: “É que eu
tenho desejado comer CARNE convosco nesta Páscoa? A interrogação
muda completamente o sentido da frase.
Ao comentar: “muitos por
dentro são lobos rapazes” (Mt. 7,15) o evangelho ebionita lamenta
aqueles que vivendo entre riquezas e luxúrias não davam nada aos
pobres e os recrimina porque teriam que dar conta de não ter-se
compadecido daqueles que deviam ter amado como a si mesmos, embora
os vissem sumidos na pobreza.
Como vemos são só algumas
frases heréticas que indicam o evangelho ser seguido em quase a sua
totalidade. Porém tendo seus pontos conflituosos em que a ideologia
substituía a verdade transmitida. Em tempos mais recentes haverá
quem fixe seu pensamento numa frase única para modificar todo um
ensinamento ou toda uma tradição. Em termos morais é como se se
condenasse toda uma vida por um só ato pecaminoso.
HETERODOXIA DO SÉCULO II
Como temos visto Marcião foi a
cabeça de uma heresia que teve grande aceitação no Egito.
Encontramos aí a mesma com o nome de Encratitas. A igreja dos
encratitas separou-se da igreja oficial, chamada Católica, na metade
do século II e até que pode se remontar aos tempos apostólicos, para
se prolongar até o fim do século IV. O nome deriva de um termo grego
que significa comedido ou moderado. Proibiam a carne e o vinho nas
comidas e eram opostos ao matrimônio. Para justificar suas teses
serviam-se das passagens do NT que recomendavam temperança
isolando-as do contexto, interpretando-as unilateralmente e até
alterando-as. São seus apócrifos: os Atos de Paulo, João e Pedro.
Seus precursores foram os Alobianos, (entre os sármatas, povos
nômades de origem iraniana que se uniram aos escytas e que no século
II a.C. estavam nas margens do mar Negro). Deste grupo parece formar
parte por seu nascimento Marcião. Já nos inícios, o cristianismo
egípcio deu origem a heterodoxos, grandemente influídos pelo
gnosticismo. Somente na segunda metade do século II a igreja egípcia
integrou-se na grande Igreja e esta integração se realizou
fundamentalmente em Alexandria onde no século III destaca a enorme
tarefa de são Clemente e de Orígenes. No restante do país parece que
seguiram sua evolução autônoma com o surgimento de outras correntes
cristãs paralelas de caráter mais ou menos heterodoxo. O fato de que
a língua predominante fosse o copta, (forma evolucionada do antigo
egípcio) frente ao grego dominante em Alexandria, foi um fator que
facilitou esse desenvolvimento,. oposto ao cristianismo oficial que
tinha aceito e assimilado valores urbanos. O copta assume atitudes
ascéticas de ruptura total com o mundo para se dedicar a uma vida de
anakhoresis (separação, fuga, retiro), termo com o qual se designava
um fenômeno político-administrativo formado pela fuga dos
camponeses de sua aldeia de origem a outra, a um templo ou ao
deserto para escapar à opressão fiscal, ao serviço militar ou outras
obrigações. Na época imperial romana está amplamente testemunhada
esta fuga de desarraigados, devedores, bandidos ou descontentes. Era
uma forma de protesto e a única saída que tinham estes
desarraigados. Na anakhoresis cristã (daí vem a palavra anacoreta)
buscam um contato direto com Deus sem nenhum intermediário eclesial,
unicamente tendo como norma a recomendação evangélica. Muitos seguem
as palavras “vende quanto tens e dá aos pobres e vem e segue-me”
como um mandato supremo. O fenômeno foi maciço e o número de monges
anacoretas chegou a se contar por milhares no século IV. Neste
ambiente nasceu esta seita.
EVANGELHO DOS EGÍPCIOS (sec. II)
EVANGELHO
O chamado evangelho dos egípcios nasce dentro desse ambiente. Por
egípcios devemos entender os habitantes da Tebaida e da Líbia e não
os grecofalantes de Alexandria como temos visto antes. É posterior
ao ano 150 mas sem dúvida o mais antigo dos evangelhos apócrifos
heréticos. Suas raízes heterodoxas têm como base os erros
encratistas: condenação do matrimônio; gnósticos sobre a alma,
atribuídas aos naassenos, isto é, dos cultuadores da
serpente (Naas em hebraico quer dizer serpente); trinitários dos
sabelianos.(de Sabelio, heresiarca condenado por Calixto I (217
- 222) que embora não negasse a distinção das pessoas na Trindade, a
reduzia. Esta doutrina recebeu vários nomes como modalismo(o
Filho e o Espírito eram modos de se apresentar a figura do Pai) ou
monarquismo no final do século II(nome dado por Tertuliano),
aos que afirmavam que em Deus não existe mais do que uma pessoa. Na
sua rama adocionista admite que Jesus , puro homem, recebeu
uma parte da divindade no batismo ao ser adotado pelo Pai. O
principal defensor desta heresia foi Paulo de Samosata, bispo de
Antioquia, destituído em 268. O apócrifo evangelho de são Tomé foi
utilizado principalmente pela seita gnóstica dos Naassenos.
EVANGELHO DE TOMÉ (séc II)
DESCOBERTA
Em dezembro de 1945, pero da vila de Nag Hammadi no alto Egito, um
camponês árabe que cavava ao redor de uma grande pedra em busca de
fertilizantes para seus campos, encontrou uma velha ânfora de
cerâmica. Pensava fosse um tesouro escondido; rompeu a jarra com seu
pico e encontrou dentro mais de uma dúzia de códices de papiro
envoltos em couro. Eram textos manuscritos depositados na jarra
provavelmente perto do ano 390 por monges do próximo mosteiro de são
Pacômio para escapar da destruição ordenada pela igreja ortodoxa em
destruição de toda heterodoxia e heresia. Os manuscritos contêm 52
textos correspondentes aos evangelhos gnósticos dos quais a
ortodoxia cristã percebeu ser a mais perigosa e insidiosa das
heresias, incluindo um grande número de escritos gnósticos, que se
pensava fossem destruídos durante as primeiras lutas para definir a
ortodoxia das escrituras. Entre elas estão os evangelhos de Tomé, de
Filipe e o Evangelho da Verdade. Pelas características de linguagem
parece terem origem na Síria numa comunidade judeu-cristã. Parte de
suas logia (= ditos) foram encontrados nos fragmentos de
papiros de Oxyrhynchus datados estes últimos do século III.
LUGAR E TEMPO
O Evangelho de Tomé é da metade do século II como original. O
códice mais antigo (séc. IV) forma parte do grupo de Nag Hammadi,
que como temos explicado foi encontrado em 1945.
CONTEÚDO
Não é um evangelho, pois falta a parte narrativa e sim um conjunto
de logia entre as quais podemos contar algumas parábolas tão breves,
que podem ser contadas como logia. O número das mesmas é de 144 das
quais 21 têm uma correspondência muito próxima nos sinópticos.
Outras parecem-se com as existentes nos dois evangelhos dos Hebreus
e dos Egípcios. A imensa maioria começa com disse Jesus.
AUTOR
Não é Tomé o discípulo incrédulo de que fala o evangelho de João.
Por isso dirá são Cirilo de Jerusalém no fim do século IV: Que
ninguém leia o evangelho de Tomé, pois não é um dos 12 apósotlos mas
um dos três discípulos pérfidos de Manes.
CARÁTER
Embora a maioria dos logia possa ser entendida de modo canônico,
existe um substrato maniqueu. Exemplo a 77: Disse Jesus Eu sou a
luz que está sobre todos eles. Eu sou o universo: o universo surgiu
de mim e tem chegado até mim. Parti um madeiro e ai estou eu,
levantai uma pedra e ai me encontrarei. Outra a 144: Simão
Pedro lhes disse: Que se afaste Mariam de nós, pois as mulheres não
são dignas da vida. Disse Jesus: Olha eu me encarregarei de de
torna-la macho de modo que também ela se transforme em espírito
vivente, idêntico a nós os homens, pois toda mulher que se torne
hpmem entrará no reino do céu.
EVANGELHO DE FILIPE (séc II)
LUGAR E TEMPO
O evangelho teve origem no final do século II e estava no grupo de
códices de Nag Hammadi. O apóstolo Filipe é o preferido pelos
gnósticos para difundir sua doutrina esotérica (oculta e reservada).
CONTEÚDO
São 127 sentenças ao estilo do evangelho de Tomé, espécie de
pensamentos de fundo gnóstico-valentiniano que constituem um
testemunho original da gnosis cristã do século II, especialmente em
seu aspecto soteriológico (salvação por Cristo) O ideal do gnóstico
é a conjunção da imagem (= sêmen espiritual ou alma do pneumático
como elemento feminino) com seu anjo ( elemento masculino), como
corresponde ao matrimônio entre Cristo e o Espírito Santo ou entre o
Salvador e a Sofia interior no plano superior; ou entre Jesus e
Maria Madalena na esfera terrena. Esta união entre sementes
pneumáticas e seus anjos se contrai no sacramento da câmara nupcial
como símbolo dos escolhidos no Pleroma.
OS SACRAMENTOS
São denominados mistéria. Na sentença 68 enumeram-se cinco
sacramentos: batismo, unção, eucaristia, redenção e matrimônio. Não
sabemos qual é o sacramento da redenção que pode ser a unção dos
enfermos ou o sacramento da penitência. De todos os modos vemos como
estes estavam em vigor muito antes de serem desprezados pelos
evangélicos antes de Trento.
EXEMPLOS
52 - Um asno, dando voltas ao redor de uma pedra de moinho caminhou
100 milhas e quando o desataram encontrava-se no mesmo lugar. Há
homens que caminham muito sem adiantar um passo em direção alguma.
Ao terminar o dia não tem visto nem cidades, nem vilas, nem criação
alguma, nem natureza, nem potências, nem anjos. Esforçaram-se em
vão!
53 - A eucaristia é Jesus, pois a este se denomina em siriaco
Pharisata, que quer dizer aquele que está estendido (= crucificado).
pois Jesus veio crucificar o mundo.
55 - A Sofia. Chamada estéril, é a mãe dos anjo, a companheira de
Cristo é a Madalena. O Senhor amava–a mais do que a todos os
discípulos e a beijou na boca...72: Jesus tinha corpo perfeito, uma
carne verdadeira ao ser ressuscitado. Nossa carne não é autêntica
mas uma imagem da verdadeira [contra os modernos que supõem que a
ressurreição é espiritual]. 110: Quem possui o conhecimento (gnosis)
da verdade é livre e quem é livre não peca, pois quem peca é escravo
do pecado.
EVANGELHO DA VIDA
Não é um evangelho nem tampouco logia ou ditos de Jesus mas uma
longa disquisição de fundo gnóstico em que se fala do Pai (o sem
limites e inconcebível), do Todo, do Logos (o primeiro a brotar do
Pai), de Jesus a quem num de seus parágrafos chama de Mãe, e do
Espírito Santo que é o seio do Pai, da Verdade como sendo a boca do
Pai cuja língua é o Espírito Santo. Os espaços são as emanações do
Pai. Cita também o Pleroma e fala dos Eons como coisas conhecidas,
sem explicar os significados das mesmas. Parece que é o filho do Pai
o que aparece em forma de carne. O número 100 significa o Pai. O
Pleroma é o lugar do descanso, mas por outra parte todas as
emanações saídas do pai são Pleromas.É difícil e fatigoso ler
semelhante sermão sem unidade e com numerosas repetições nem sempre
concordantes.
CONCLUSÃO
Os apócrifos praticamente não acrescentam nada aos evangelhos e
parecem ser bem mais comentários gnósticos de verdades evangélicas
misturadas com filosofias neoplatônicas. Não existe uma unidade de
idéias, e a confusão é a base de sua inverosimilitude ou falsidade.
A ortodoxia os combateu com o recurso à tradição
apostólica.Terminamos assim um resumo das heresias e dos evangelhos
não canônicos escritos no século II.
padre Ignácio dos
padres escolápios |