SÁBADO DE ALELUIA

ano C

 

O Deus da Vida

A Páscoa é a grande festa da nossa fé. Nela proclamamos com júbilo a vitória de Cristo sobre a morte. Dando a vida pelas Suas ovelhas e vencendo definitivamente a morte, Jesus, o Bom Pastor, chama as Suas ovelhas para a ressurreição da vida eterna.

Assim, a ressurreição de Jesus, além de ser o mistério central da nossa fé cristã, constitui também o fundamento da nossa libertação e esperança cristãs: Deus liberta-nos de todas as nossas limitações e da morte para nos introduzir no Reino de vida e de amor sob a chefia de Cristo Jesus, por Quem nos tornámos nova criação e alcançámos a filiação adotiva de Deus.

A fé em Cristo é fonte de libertação porque Jesus salva o homem do pecado, que é sempre origem de todas as escravidões. Mas é, ao mesmo tempo, sinal de que Deus é amigo da vida. Deus não criou o homem para o condenar à morte, mas para que tenha a vida e vida em abundância (Cf. Jo 10,10): «Não foi Deus quem fez a morte, nem Ele se alegra com a perdição dos vivos. (…) Deus criou o homem para ser incorruptível e fê-lo à imagem da sua própria natureza» (Sab 1,13.2, 23).

O dom da Vida

A Liturgia da Palavra desta Vigília proclama o Deus de amor que dá a vida ao criar todas as coisas do nada (1.ª leitura), ao estabelecer uma Aliança com os homens (2.ª leitura), ao libertar o Povo eleito da escravidão do Egito (3.ª Leitura), ao compadecer-Se do povo exilado (4.ª leitura), ao prometer o banquete messiânico (5.ª leitura), ao enviar a Sabedoria como caminho de luz e de paz para o homem (6.ª leitura), ao conceder o Seu perdão misericordioso (7.ª leitura) e ao realizar as Suas promessas, enviando-nos o Messias Salvador que vem libertar-nos do pecado e conceder-nos a vida nova em Deus pela participação no Baptismo (Cf. Rom 6, 3-11 e Mc 16,1-8).

Estas leituras da Palavra de Deus traçam uma síntese de toda a história da salvação oferecida ao homem. Em todas elas sobressai o dom maravilhoso de Deus que é a vida. Daí que a nossa maior alegria, ao longo da nossa existência, seja precisamente o dom gratuito da vida, tanto física como espiritual. Ambas são fruto de um grande amor: o dos nossos pais e o de Deus.

E porque nos sentimos amados por Deus, reconhecemos a Sua presença amorosa em tantas manifestações da convivência humana. Nas brincadeiras das crianças, nos sonhos da juventude, no amor dos esposos, no sorriso dos idosos… em tudo isto há um reflexo da Vida que Ele nos dá. Toda essa força vital brota da vida que é Deus e expressa o amor que Ele nos manifestou em Jesus Cristo, especialmente no mistério pascal: «Fomos sepultados com Ele pelo Batismo na Sua morte, para que, assim como Cristo ressuscitou dos mortos, também nós vivamos uma vida nova» (Rom 6, 4).

Hoje nasce o homem novo, a nova humanidade redimida, com todo o esplendor e beleza com que saiu das mãos do Criador. Ao confessarmos Cristo ressuscitado não dizemos apenas que o túmulo ficou vazio, mas que Ele vive para nos dar vida.

A fecundidade da vida

A Páscoa cristã é, pois, a festa da fé e da vida imortal, é o triunfo da causa de Jesus, é a salvação e libertação do homem. Por tudo isso, e por ser a vitória definitiva sobre a morte, a Páscoa é a grande festa da vida para todo aquele que crê em Jesus ressuscitado.

Mas assim como Cristo veio ao mundo para nos dar a vida, pela Sua morte e ressurreição, assim também nós somos chamados a uma vida espiritualmente fecunda. Tal como na vida de Jesus, em cada um de nós é o amor que irá dar fecundidade à dor, gerando vida através da morte. Sem se dar a si próprio, sem viver com e pelos outros, sem sofrer e alegrar-se com o próximo, numa palavra, sem amar, será impossível a fecundidade pessoal e cristã e incansável a alegria milagrosa da vida nova.

A única maneira de realização humana e o único caminho para a santidade e maturidade cristã é o estilo que Cristo traçou e seguiu, o itinerário do grão de trigo que, se não morrer, fica só, mas se morrer dará muito fruto (Jo 12, 27).

Compartilhar a vida com os demais é uma forma de dar plenitude à nossa existência, e de proclamar a vitória da vida sobre a morte, do amor sobre o egoísmo.

Dos grãos de trigo que morreram na terra nasceram as espigas que foram ceifadas e delas nasceu o Pão que hoje ofereceremos a Deus na mesa eucarística. O próprio Jesus foi o grão de trigo caído e que venceu a morte gerando a vida. Unidos a Ele e aos irmãos, compreenderemos que a comunhão do Corpo do Senhor é também um firme compromisso com a vida e uma participação da felicidade que havemos gozar eternamente.

Que Maria, a Mãe do Ressuscitado, nos aponte o caminho para Jesus Cristo, nosso único Salvador.

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Fala o Santo Padre

«Vislumbramos nesta noite, o amanhecer do dia de Cristo ressuscitado, que inaugura a vida nova.»

1. «Essa noite [...] será de vigia para todos os filhos de Israel, de geração em geração, em honra do Senhor» (Ex 12,42). Celebramos nesta noite santa a Vigília Pascal, a primeira, melhor, «a mãe» de todas as vigílias do ano litúrgico. Nela, como canta repetidamente o Precónio, volta-se a percorrer o caminho da humanidade, desde a criação até o acontecimento culminante da salvação, que é a morte e a ressurreição de Cristo. A luz d’Aquele que «ressuscitou dos mortos como primícias dos que morreram» (1 Cor 15,20) torna «clara como o dia» (cf. Sal 139 [138], 12) esta noite memorável, considerada justamente o «coração» do ano litúrgico. Nesta noite, a Igreja inteira vigia e torna a percorrer, meditando, as etapas significativas da intervenção salvífica de Deus no universo.

2. «Uma noite de vigia em honra do Senhor». Duplo é o significado da solene Vigília Pascal, tão rica de símbolos acompanhados por uma extraordinária abundância de textos bíblicos. Por um lado ela é memória orante das mirabilia Dei, ao relembrar as páginas capitais da Sagrada Escritura, desde a criação ao sacrifício de Isaac, à passagem do Mar Vermelho, à promessa da nova Aliança. Por outro lado, esta sugestiva vigília é expectativa confiante no pleno cumprimento das antigas promessas. A lembrança da obra de Deus culmina na ressurreição de Cristo e se projecta no acontecimento escatológico da parusia.

Vislumbramos assim, nesta noite pascoal, o amanhecer do dia que não tem mais ocaso, o dia de Cristo ressuscitado, que inaugura a vida nova, «os novos céus e a nova terra» (2 Pd 3,13; cf. Is 65,17; 66,22; Ap 21,1).

3. Desde os seus inícios, a comunidade cristã situou a celebração do Batismo no contexto da Vigília Pascal. [...] Deste modo renova-se o prodígio do misterioso renascimento espiritual, actuado pelo Espírito Santo, que incorpora os neo-batizados no povo da nova e definitiva Aliança sancionada pela morte e ressurreição de Cristo. [...]

4. A liturgia também nos convida a todos aqui presentes a renovar as promessas do nosso Baptismo. A nós o Senhor pede para Lhe renovar a expressão da nossa plena docilidade e total dedicação ao serviço do seu Evangelho.

Caríssimos Irmãos e Irmãs! Se às vezes esta missão vos aparecer difícil, recordai as palavras do Ressuscitado: «Eu estarei sempre convosco, até ao fim do mundo» (Mt 28,20). Assim, na certeza da sua presença, não temereis qualquer dificuldade nem obstáculo. A sua Palavra vos iluminará; o seu Corpo e o seu Sangue servirão de alimento e amparo no caminho quotidiano para a eternidade.

Ao lado de cada um de vós permanecerá sempre Maria, como esteve presente entre os Apóstolos amedrontados e desconcertados na hora da prova. E, com a sua fé, Ela vos indicará, para além da noite do mundo, a aurora gloriosa da ressurreição. Amem.

João Paulo II, Roma, Sábado Santo, 10 de Abril de 2004

 

Alegria da Ressurreição

Jesus nos ama e não quer permitir que fiquemos tristes durante muito tempo por causa dos horrendos sofrimentos contemplados na sexta-feira da Paixão. Às vezes, nós também desejamos dar uma notícia o mais rápido possível a alguém porque sabemos que essa comunicação é muito importante. Jesus, depois do sofrimento que passou, também desejava dar a grande notícia aos seus discípulos. Também quer dizer a cada um de nós que ele está vivo! Conta-se que na década dos cinqüenta apareceu pichado no metrô de Nova York a seguinte frase: “Deus morreu. Assinado: Nietzsche.” Mas, no dia seguinte, outra mão pichou em baixo: “Nietzsche morreu. Assinado: Deus”.

É assim mesmo: Buda, Confúcio, Moisés, David etc., foram grandes personagens da história, mas todos morreram e – logicamente – continuam mortos! Cristo, ao contrário, morreu e vive eternamente! São Paulo diz solenemente: “transmiti-vos, em primeiro lugar, aquilo que eu mesmo recebi: Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras. Foi sepultado, ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras. Apareceu a Cefas, e depois aos Doze.” (1 Cor 15,3-5). O apóstolo é consciente de que é portador de uma mensagem muito importante que deve ser transmitida fielmente. A ressurreição do Senhor é tão importante que o Espírito Santo deixará escrito por meio do mesmo S. Paulo que “se Cristo não ressuscitou, ilusória é a vossa fé; ainda estais nos vossos pecados (…). Mas não! Cristo ressuscitou dos mortos” (1 Cor 15,17-20).

Jesus está vivo! Esta é a maravilhosa verdade que a Santa Mãe Igreja proclama há dois mil anos. Jesus está vivo e continua atuando na Igreja e no mundo. A mensagem da Igreja é uma mensagem de vida, de alegria, de exultação. Ainda que algumas vezes a Igreja tenha que falar de aspectos menos positivos é para que se viva em plenitude essa vida que Cristo conquistou para nós. Nós somos o povo da alegria! O mundo foi salvado pelo Ressuscitado! O cristão, apesar de todas as dificuldades no mundo e na vida atual, não se perde na tristeza, leva consigo a alegria da ressurreição.

Por acaso somos utópicos? Vivemos no mundo da fantasia? Será que não percebemos que há guerras, sofrimentos e pobreza por todas as partes? Porque celebrar a alegria da páscoa quando o mundo ao nosso redor parece sumido na tristeza e no desespero? No entanto, um triste a mais, um amargurado a mais – você ou eu –, não resolve o problema do mundo moderno. Se vivermos mergulhados na tristeza, não seremos solução, seremos um triste a mais; em definitiva, um problema a mais. O cristão, pelo contrário, precisa destacar-se pelo seu otimismo, por uma visão de mundo onde cabe a esperança, a alegria, o amor e a unidade entre todos apesar das guerras e divisões. Pela sua visão sobrenatural, que não esquece a natural, o cristão está cheio de paz e de alegria apesar das dificuldades presentes, o seu otimismo levanta os que estão ao seu lado. Perto de um homem de Deus, de uma mulher de Deus, todos devem sentir-se bem!

padre Françoá Rodrigues Figueiredo Costa

 

É uma Noite estupenda, esta Noite! Não há outra, como esta; não poderá haver neste mundo! Esta Noite santíssima, caríssimos, resume e encerra em si, como num ventre fecundo, outras noites.

Vede: hoje, nesta Noite, quando tudo era trevas, Deus disse: “Faça-se a luz!” e a luz se fez (cf. Gn. 1,3)! Hoje, quando Isaac estava para entrar na noite da morte, pois nosso Pai Abraão tinha decidido sacrificá-lo a Deus, a luz brilhou e o Senhor disse: “Abraão, não estendas a mão contra o teu filho!” E Isaac viu a luz da vida (cf. Gn 22,12)! Ainda hoje, nesta Noite, Deus, com braço estendido, fez o seu povo atravessar o Mar Vermelho e deixar a escravidão de Faraó, no Egito (cf. Ex. 14,1 - 31). Foi também hoje, nesta noite bendita – nesta mesma Noite! –, que o Pai, derramou seu Espírito Santo sobre o nosso Jesus que estava morto e o arrancou das trevas da morte, fazendo-o passar para a luz da plenitude da vida. Finalmente, numa noite como esta, num hoje como hoje, no meio da noite deste mundo, em plena escuridão da história, o Pai enviará o Cristo ressuscitado, pleno de glória, e brilhará, no meio da noite deste mundo, o Dia eterno, da glória eterna, na plenitude do Reino! E já não haverá mais noite e o Cordeiro imolado e ressuscitado será nosso sol, nosso dia eterno (cf. Ap. 22,5)!

Irmãos amados, todas estas noites que se transformam em dia de luz fulgurante, se resumem e estão presentes misteriosamente nesta Noite de Páscoa! Porque nesta Noite Cristo ressuscitou, todas as noites da história da salvação e todas as noites deste mundo, e todas as noites da nossa vida e do nosso coração, são transformadas em Dia pleno, Dia triunfante, Dia resplendente de glória! Nem todas as palavras do mundo bastariam para exprimir o mistério desta Noite!

Irmãos, Irmãs, se correrdes ao túmulo do Crucificado, tereis uma surpresa: não o encontrareis lá! “Por que estais procurando entre os mortos Aquele que está vivo? Ele não está aqui. Ressuscitou!” Irmãos, crede: no meio desta Noite – só ela viu, só ela sabe a hora! – o nosso Jesus deixou a morte na qual havia entrado na Sexta-feira, e entrou na plenitude da vida do Pai! Irmãos, Irmãs, não procureis Jesus neste mundo: ele partiu, ele ressuscitou, ele está com o Pai, pleno de corpo e de alma! Ele, agora, é nosso eterno Intercessor, nosso Senhor, nosso Deus Vencedor! Mas, não fiqueis tristes, irmãos: ele, que se foi, não nos deixou. Deu-nos o seu Espírito Santo, Aquele mesmo no qual o Pai o ressuscitou. Vós, batizados em Cristo, recebestes o Espírito Santo de Cristo e, agora, tendes a vida do Cristo em vós, que irá crescendo até a vida eterna! No Espírito Santo de Cristo, tendes a vida do Senhor no pão e no vinho, presença real do Cristo morto e ressuscitado! Ele, que se foi, não nos deixou! Na potência do seu Espírito, continua agindo em nós e entre nós!

Irmãos, esta Noite é santa! Toda lágrima, nela, é enxugada; todo pecado, nela, é perdoado; toda morte, nela, é vencida! Irmãos, nosso Jesus ressuscitou, nosso Jesus foi constituído Senhor, nosso Jesus abriu-nos um caminho novo; nosso Jesus deu-nos um novo rumo na vida, uma nova esperança , uma invencível certeza! Irmãos, nesta Noite, a Morte perdeu a guerra, nesta Noite, o Filho de Deus, na sua humanidade igual a nossa, venceu a Morte, arrombou o pântano infernal e abriu-nos o caminho para o Pai! Irmãos, esta é a Noite mais feliz da história humana: é a Noite da Páscoa; Páscoa de Cristo, nossa Páscoa! “Eis agora a Páscoa, nossa festa, em que o real Cordeiro se imolou: marcando nossas portas, nossas almas, com seu divino sangue nos salvou! Ó Noite de alegria verdadeira, que prostra o Faraó e ergue os hebreus, que une de novo ao céu a terra inteira, pondo na treva humana a luz de Deus!”

Irmãos, Cristo ressuscitou! Irmãs, o sepulcro está vazio! Irmãos, Cristo, nosso Caminho, abriu-nos o caminho da vida! Irmãs, vivamos vida nova, porque agora nossa vida tem rumo, sentido e plenitude: na treva humana brilhou em Cristo a luz de Deus! Feliz Páscoa, Irmãos! Cristo ressuscitou, Irmãs! Aleluia!

dom Henrique Soares da Costa

 

Amados irmãos e irmãs,

No seu discurso de despedida, Jesus anunciou aos discípulos sua morte e ressurreição iminentes, com uma frase misteriosa: «Vou partir, mas voltarei para junto de vós» (Jo 14, 28). Morrer é partir. Embora fique ainda o corpo do morto – este pessoalmente partiu para o desconhecido e não podemos segui-lo (cf. Jo 13, 36). Mas, no caso de Jesus, há uma novidade única que muda o mundo. Na nossa morte, a partida é uma realidade definitiva, não há regresso. Pelo contrário Jesus, falando da sua morte, diz: «Vou partir, mas voltarei para junto de vós». É precisamente partindo que Ele vem. A sua partida inaugura um modo totalmente novo e maior da sua presença. Com a sua morte, Jesus entra no amor do Pai. A sua morte é um acto de amor. O amor, porém, é imortal. Por isso, a sua partida transforma-se numa nova vinda, numa forma de presença mais profunda que não acaba mais. Na sua vida terrena, Jesus, como todos nós, estava ligado às condições externas da existência corpórea: a um certo lugar e a um determinado tempo. A corporeidade coloca limites à nossa existência. Não podemos estar contemporaneamente em dois lugares diferentes. O nosso tempo tende a acabar. E entre o “eu” e o “tu” existe o muro da alteridade. Certamente, no amor, podemos de algum modo entrar na existência do outro. Mas permanece a barreira intransponível de sermos diversos. Pelo contrário, Jesus, que agora fica totalmente transformado por meio do acto de amor, está livre de tais barreiras e limites. É capaz não só de passar através das portas externas fechadas, como narram os Evangelhos (cf. Jo 20, 19), mas pode também passar através da porta interna entre o “eu” e o “tu”, a porta fechada entre o ontem e o hoje, entre o passado e o amanhã. No dia da sua entrada triunfal em Jerusalém, quando um grupo de Gregos veio pedir para O ver, Jesus respondeu com a parábola do grão de trigo que, para dar muito fruto, deve passar através da morte. Predissera assim o seu próprio destino: Ele não queria simplesmente falar então com este ou aquele Grego durante alguns minutos. Através da sua cruz, mediante a sua partida, por meio da sua morte como o grão de trigo chegaria verdadeiramente até junto dos Gregos, de tal modo que estes pudessem vê-Lo e tocá-Lo na fé. A sua partida torna-se uma vinda no modo universal da presença do Ressuscitado, no qual Ele está presente ontem, hoje e para sempre; em que abraça todos os tempos e lugares. Agora pode ultrapassar também o muro da alteridade que separa o “eu” do “tu”. Assim aconteceu com Paulo, que descreve o processo da sua conversão e do seu Baptismo com estas palavras: «Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim» (Gal 2, 20). Por meio da vinda do Ressuscitado, Paulo obteve uma identidade nova. O seu “eu” fechado abriu-se. Agora vive em comunhão com Jesus Cristo, no grande “eu” dos crentes que se tornaram – segundo definição dele – «um em Cristo» (Gal 3, 28).

Queridos amigos, deste modo resulta evidente que as palavras misteriosas de Jesus, no Cenáculo, agora – por meio do Baptismo – se tornam de novo presentes para vós. No Baptismo, o Senhor entra na vossa vida pela porta do vosso coração. Já não estamos um ao lado do outro ou um contra o outro. Ele atravessa todas estas portas. A realidade do Baptismo consiste nisto: Ele, o Ressuscitado, vem; vem até vós e une a sua vida com a vossa conservando-vos dentro do fogo vivo do seu amor. Passais a ser uma unidade: sim, um só com Ele e, deste modo, um só entre vós. Num primeiro momento, isto pode parecer bastante teórico e pouco realista. Mas quanto mais viverdes a vida de baptizados, tanto mais podereis experimentar a verdade desta palavra. As pessoas baptizadas e crentes nunca são verdadeiramente estranhas uma à outra. Podem separar-nos continentes, culturas, estruturas sociais ou mesmo distâncias históricas. Mas, quando nos encontramos, reconhecemo-nos com base no mesmo Senhor, na mesma fé, na mesma esperança e no mesmo amor, que nos formam. Então experimentamos que o fundamento das nossas vidas é o mesmo. Experimentamos que, no mais fundo do nosso íntimo, estamos ancorados à mesma identidade, a partir da qual todas as diferenças exteriores, por maiores que sejam, resultam secundárias. Os crentes nunca são totalmente estranhos um ao outro. Estamos em comunhão por causa da nossa identidade mais profunda: Cristo em nós. Deste modo, a fé é uma força de paz e reconciliação no mundo: fica superada a distância, no Senhor tornamo-nos próximos (cf. Ef 2, 13).

Esta natureza íntima do Baptismo como dom de uma nova identidade é representada pela Igreja através de elementos sensíveis. O elemento fundamental do Baptismo é a água; ao lado desta e em segundo lugar, temos a luz, que, na liturgia da Vigília Pascal, sobressai com grande vigor. Lancemos apenas um olhar sobre estes dois elementos. No capítulo conclusivo da Carta aos Hebreus, encontra-se uma afirmação sobre Cristo, na qual não aparece directamente a água, mas, vista na sua ligação com o Antigo Testamento, deixa transparecer o mistério da água e o seu significado simbólico. Diz o texto: «O Deus da paz fez voltar dos mortos o Pastor grande das ovelhas em virtude do sangue de uma aliança eterna» (cf. 13, 20). Ecoa, nesta frase, um trecho do Livro de Isaías, onde Moisés é designado como o pastor que o Senhor fez sair da água, do mar (cf. 63, 11). Jesus aparece como o novo e definitivo Pastor que leva a cumprimento o que Moisés tinha feito: Ele conduz-nos fora das águas mortíferas do mar, fora das águas da morte. Neste contexto, convém recordar que Moisés tinha sido colocado pela mãe num cesto e deposto no Nilo. Depois, pela providência de Deus, fora tirado para fora da água, trazido da morte à vida, e assim – salvo ele próprio das águas da morte – podia conduzir os outros fazendo-os passar através do mar da morte. Por nós, Jesus desceu às águas obscuras da morte. Mas, em virtude do seu sangue – diz-nos a Carta aos Hebreus – foi feito voltar da morte: o seu amor uniu-se ao do Pai e, assim, da profundidade da morte Ele pôde subir para a vida. Agora eleva-nos a nós da morte para a vida verdadeira. Sim, isto mesmo acontece no Baptismo: Jesus levanta-nos para Ele, atrai-nos para dentro da verdadeira vida. Conduz-nos através do mar frequentemente tão obscuro da história, em cujas confusões e perigos não é raro sentirmo-nos ameaçados de afundar. No Baptismo como que nos toma pela mão, conduz-nos pelo caminho que passa através do Mar Vermelho deste tempo e introduz-nos na vida duradoura, na vida verdadeira e justa. Agarremos bem a sua mão! Suceda o que suceder e implicando mais ou menos connosco, não larguemos a sua mão! Caminharemos então pela via que conduz à vida.

Em segundo lugar, temos o símbolo da luz e do fogo. Gregório de Tours refere o costume, que em diversos lugares se conservou durante muito tempo, de tomar o fogo novo, para a celebração da Vigília Pascal, directamente do sol por meio de um cristal: luz e fogo recebiam-se novamente, por assim dizer, do céu para depois, a partir deles, se acenderem todas as luzes e fogos do ano. Isto é um símbolo do que celebramos na Vigília Pascal. Com a radicalidade do seu amor, no qual se tocaram o coração de Deus e o coração do homem, Jesus tomou verdadeiramente a luz do céu e trouxe-a à terra – a luz da verdade e o fogo do amor que transformam o ser do homem. Ele trouxe a luz, e agora sabemos quem e como é Deus. De igual modo sabemos também como estão as coisas a respeito do homem: o que somos nós e para que fim existimos. Ser baptizados significa que o fogo desta luz desce ao nosso íntimo. Por isso, na Igreja Antiga, o Baptismo era chamado também o Sacramento da Iluminação: a luz de Deus entra em nós; assim nos tornamos nós próprios filhos da luz. Esta luz da verdade que nos aponta o caminho, não deixemos que se apague. Protejamo-la contra todas as forças que pretendem extingui-la para nos lançar novamente na escuridão de Deus e de nós mesmos. De vez em quando a escuridão pode-nos parecer cómoda. Posso esconder-me e passar a minha vida dormindo. Nós, porém, não somos chamados a viver nas trevas, mas na luz. Nas promessas baptismais, por assim dizer acendemos novamente, ano após ano, esta luz: sim, creio que o mundo e a minha vida não provêm do acaso, mas da Razão eterna e do Amor eterno, são criados por Deus omnipotente. Sim, creio que em Jesus Cristo, na sua encarnação, na sua cruz e ressurreição, se manifestou o Rosto de Deus; que, n’Ele, Deus está presente no meio de nós, nos une e conduz para a nossa meta, para o Amor eterno. Sim, creio que o Espírito Santo nos dá a Palavra da verdade e ilumina o nosso coração; creio que, na comunhão da Igreja, nos tornamos todos um só Corpo com o Senhor e, deste modo, vamos ao encontro da ressurreição e da vida eterna. O Senhor deu-nos a luz da verdade. Esta luz é ao mesmo tempo também fogo, força que nos vem de Deus: uma força que não destrói, mas quer transformar os nossos corações, para nos tornarmos verdadeiramente homens de Deus e para que a sua paz se torne operativa neste mundo.

Na Igreja Antiga, havia o costume de o Bispo ou o sacerdote, após  a homilia, exortar os crentes exclamando: “Conversi ad Dominum – agora voltai-vos para o Senhor”. Isto significava, antes de mais, que eles se viravam para o Oriente – na direcção donde nasce o sol como sinal de Cristo que volta, saindo ao seu encontro na celebração da Eucaristia. Nos lugares onde isso, por qualquer razão, não era possível fazer-se, os crentes voltavam-se para a imagem de Cristo na ábside ou para a cruz, a fim de se orientarem interiormente para o Senhor. Com efeito, em última análise era deste facto interior que se tratava: da conversio, de voltar a nossa alma para Jesus Cristo e, n’Ele, para o Deus vivo, para a luz verdadeira. Com isto estava ligada também a outra exclamação, que ainda hoje é dirigida à comunidade cristã, antes do Cânone: “Sursum corda – corações ao alto”, fora de todos os enredos das nossas preocupações, dos nossos desejos, das nossas angústias, do nosso alheamento – ao alto, os vossos corações, o vosso íntimo! Nas duas exclamações, somos de algum modo exortados a uma renovação do nosso Baptismo: Conversi ad Dominum – sempre de novo nos devemos afastar das direcções erradas, em que tão frequentemente nos movemos com o nosso pensar e agir. Sempre de novo nos devemos voltar para Ele, que é o Caminho, a Verdade e a Vida. Sempre de novo nos devemos tornar “convertidos”, com toda a vida voltada para o Senhor. E sempre de novo devemos deixar que o nosso coração seja subtraído à força da gravidade, que o puxa para baixo, e levantá-lo interiormente para o alto: para a verdade e o amor. Nesta hora, agradeçamos ao Senhor, porque Ele, com a força da sua palavra e dos sacramentos sagrados, nos orienta na justa direcção e atrai para o alto o nosso coração. E rezemos-Lhe deste modo: Sim, Senhor, fazei que nos tornemos pessoas pascais, homens e mulheres da luz, repletos do fogo do teu amor. Amen.

papa Bento XVI

 

A vigília pascal começa com a experiência do fogo novo, e a luz deste fogo que vai iluminando pouco a pouco o recinto sagrado. Nossa história foi uma história de trevas e de morte, uma história que parece não encontrar uma saída. Mas da tumba vazia surge a luz, da morte surge o fogo-luz que anuncia que podemos crer na vida, que podemos encontrar o caminho no meio da escuridão, que a morte não é a última palavra para o homem. Pelo fogo novo, acendendo o Círio Pascal, pela lua cheia que ilumina o firmamento nesta noite pascal, podemos experimentar em nossa vida as conseqüências da Ressurreição de Jesus.

As leituras nos conduzem desde a experiência da criação até a tumba vazia, porque Ressurreição é agradecer aos irmãos os dons gratuitos de Deus que rodeiam nossa experiência. É viver como povo de Israel, a experiência da saída da escravidão à liberdade, uma experiência que passa pelo contato com a água do Mar Vermelho e para nós pelas águas batismais; um caminho guiado pela coluna de fogo e pela nuvem que conduz Israel da experiência da morte à vida.

A benção do fogo novo

Em meio às trevas do pecado e da morte, a benção do fogo novo tem como finalidade proporcionar a chama para acender o Círio Pascal, que representa Cristo Ressuscitado. À medida que o Círio avança, o templo vai sendo iluminado, e da chama do Círio se acendem todas as velas dos presentes no templo; dissipam-se as trevas quando se propaga a salvação a partir do Ressuscitado. O Círio Pascal permanecerá todo o ano no templo, como símbolo e memorial da celebração pascal.

A proclamação da Ressurreição

O canto da Aclamação Pascal (Exsultet) é o ponto culminante da liturgia da luz. Nele se proclama a propagação da luz no mundo que dissipa as trevas do pecado, guia os hebreus na saída do Egito, devolve a graça aos homens, a inocência aos pecadores e a alegria aos tristes, expulsa os ódios, prepara a concórdia e dobra o orgulho.

A liturgia da Palavra

As diferentes leituras do Antigo Testamento permitem contemplar, através da história de Israel, como se propagou a luz salvífica desde a criação. Essas leituras nos recordam também que a história da salvação é nossa própria história e exortam ao compromisso de todos e de cada um com esta história.

Na Primeira Leitura, do livro do Gênesis, temos o relato da criação. Toda a criação é obra do amor de Deus Pai que desejou preparar para o homem um lugar belo e adaptado à sua dignidade de imagem de Deus. Ao ser humano corresponde o compromisso de continuar e conservar esta criação.

A Segunda Leitura, também do Gênesis, traz o sacrifício de Isaac. A salvação de Isaac nos coloca diante das exigências da experiência de fé de Abraão: aceitar que somente Deus sabe como dirige a história de salvação. Da mesma maneira que para o povo de Israel, nossa história se fundamenta única e exclusivamente na vontade daquele que livremente dispõe da história e que em virtude desde liberdade deixou Isaac viver.

A Terceira Leitura, tirada do Êxodo, aborda a Passagem do Mar Vermelho. Os israelitas eram escravos no Egito, era um povo submetido a outro povo. Porém, Deus viu a miséria e as penalidades do povo, escutou seus clamores e lhes abriu um caminho de salvação, salvando Israel do poder do Faraó.

Na Quarta Leitura, o profeta Isaias descreve com belas figuras uma vida nova, essa nova criação que Deus Pai levou à plenitude em seu filho Jesus Ressuscitado.

A alegria da comunidade pela ressurreição do Senhor se expressa com o Hino do Glória, hino de ação de graças que o povo entoa ao mesmo tempo em que ressoam os sinos do templo e volta-se a escutar a música. Com o canto dos anjos, estamos confessando que Jesus, o Messias que fora crucificado, segue vivendo porque foi ressuscitado por Deus, que o glorificou para sempre.

Na Carta aos Romanos, o apóstolo Paulo nos ensina que pelo batismo também o cristão passa da morte à vida. Esse mistério pascal de Jesus, mistério de morte e ressurreição é nosso próprio mistério, porque o cristão, mediante o batismo, está morto para o pecado e vivo para Deus. No Cristo Jesus o cristão vive o mistério de Cristo morto e ressuscitado a cada dia nos momentos de tristeza e alegria, de enfermidade e saúde, quando pecamos e quando sentimos que Deus Pai nos acolhe com misericórdia. Vivemos essa realidade especialmente nos sacramentos. Cada sacramento que recebemos é uma atualização do mistério pascal e isto transparece claramente no texto aos Romanos.

No Salmo 117, somente são experimentados sentimentos de gratidão a Deus ao considerarmos sua obra em Jesus Cristo. A pedra angular do Templo de Jerusalém reconstruído foi pedra de escândalo. Agora um universo novo, construído sobre a pedra angular, Cristo, estabeleceu-se no dia que Jesus Ressuscitou.

A narrativa da tumba vazia do Evangelho de Lucas põe na boca dos anjos vestidos de branco o significado da Ressurreição de Jesus para as mulheres que foram ao sepulcro ao amanhecer do primeiro dia da semana, e para todos nós: não podemos buscar Jesus entre os mortos, porque está vivo, no meio de nós. Somente podemos descobrir o rosto de Jesus nas milhares de pessoas que passam pela rua, nas crianças tristes e desnutridas, nas mulheres que necessitam de um pedaço de pão para elas e seus filhos. No homem malcheiroso que está do nosso lado no templo, em todos os homens e mulheres que por diferentes caminhos buscam Jesus. A tumba vazia não é uma prova da ressurreição de Jesus, mas a pergunta que só terá resposta quando se quer viver a experiência de Jesus ressuscitado. Os apóstolos não acreditaram no que as mulheres narraram. Entre os judeus, as mulheres não eram pessoas criveis: "Muita mulher, muita mentira", afirmava-se entre os judeus. Enquanto viveram a experiência de Jesus vivo, Pedro comprova que a tumba está vazia, assombra-se, mas não conseguiu viver a experiência pascal.

A liturgia batismal

Que melhor ocasião para ser incorporados a Cristo e para fazer memória de nossa incorporação a ele que a Vigília Pascal? A Vigília Pascal é também celebração batismal: celebramos os batismos, renovamos as promessas batismais. Nesse momento tempos que ter em mente a melhor explicação do batismo que se possa dar, a que nos oferece o apóstolo Paulo na epístola aos romanos, lida na liturgia da Palavra. São Paulo nos ensina que ser batizado significa passar com Cristo da morte à vida e assinala as conseqüências éticas desta conformação com o destino histórico de Cristo: se fomos mortos com Cristo, já não devemos pecar mais, porque entramos em uma nova vida.

A liturgia eucarística

Com os sentimentos de alegria que nos absorvem, compartilhamos a Eucaristia por meio da qual realizamos o mandamento que recebemos do Senhor de fazer memória dele: "Fazei isso em memória de mim". A recordação que agora fazemos de Jesus, o Senhor, não consiste na pura evocação de uma história perdida no passado. Recordar agora significa para nós fazer a experiência da vida nova: Jesus, ainda que morto, vive para sempre. Jesus, assim ressuscitado, está vivo desde Deus, o Pai, em meio de todo o cosmos. Cada vez que compartilhamos este pão e este cálice, como irmãos, queremos comungar com a vida que ele vive e que ele quer também para todos e para sempre. No hemisfério norte, cenário da vida histórica de Jesus, a primavera chega agora à sua plenitude: estamos no que se chama de equinócio da primavera. A celebração da ressurreição de Jesus tem, portanto o saber da primavera; a água fresca; os brotos presentes nas plantas; o odor de flores de todas as cores. Também a natureza nos quer presentear com a impressão de um mundo no qual começa a germinar a vida nova. A celebração da ressurreição de Jesus tem lugar também no dia da lua cheia: é a festa da luz. Com os cristãos de todos os tempos, queremos ver amanhecer nesta festa um mundo novo, que será real se assumirmos o projeto de Jesus de Nazaré, que é o evangelho. Deus é o fundamento da permanência da vida em meio à morte, mesmo que de uma forma que não conhecemos e inexprimível.

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Neste sábado não festejamos ainda, propriamente falando, a ressurreição de Jesus. Esta liturgia constitui mais uma preparação para a descoberta do seu túmulo vazio. A ressurreição contém o mistério das nossas vidas. É muito difícil falar dele e encontrar palavras para exprimi-lo. E o inexprimível é o que chamamos de experiência mística.

Nesta noite, o silêncio se impõe e voltamos aos mais antigos sentimentos da humanidade: o reino de suas aspirações e esperanças. Iniciamos esta noite com uma das primeiras descobertas que maravilharam os homens – o fogo – que os nossos ancestrais acreditavam sagrado por ter sido roubado dos deuses.

Durante séculos, a Igreja nos prescreveu em seu ritual que o fogo pascal deveria ser aceso a partir do atrito entre duas pedras cuja fagulha incendiaria os galhos secos e inertes. Hoje, na dessacralização do mundo, acostumamos usar para tanto um isqueiro ou um palito de fósforos.

Mas voltemos à razão litúrgica da fricção das pedras: o maior significado disto, para as existências apáticas e endurecidas, é a de que do inerte sempre poderá surgir uma centelha de vida. Desta forma, outra luz começará a nos envolver e outra chama aquecerá o nosso coração.

Esta noite existe para que saibamos que cada vez que nos sentirmos mergulhados nas trevas – extraviados e transidos de frio – esta imagem do fogo surgido, do encontro das pedras, simbolizará o élan da vida.

Nesta noite, a Igreja quer nos anunciar que não subsiste no mundo nenhuma coisa que esteja definitivamente morta. A Igreja nos faz saber que as trevas são falsas trevas, pois uma faísca de luz, ainda que invisível, nos traz a luz que vai nascer, brilhar e aquecer.

No princípio “as trevas cobriam a face do abismo” e, “quando ainda estava escuro”, Madalena foi ao túmulo, abismo de Jesus. E, nestes dois princípios e momentos, o Espírito paira e tudo está imerso Nele para que, sem medo e com esperança, saibamos que o sopro de Deus sempre se sustenta sobre o abismo aparente do nada. Nesta noite, celebramos para todo o sempre que a morte não tem a última palavra sobre a nossa existência.

O relato da noite pascal nos é feito pelas mulheres, pois a elas é destinado falar da Ressurreição. São elas que tecem em suas entranhas e nas malhas do seu ventre darão à luz aqueles, nos quais a vida pulsa e vibra no seu mais íntimo.

O sábado chegara ao fim e no seu vazio pesava a morte e a desesperança, mas “no primeiro dia da semana”, um dia útil, no qual a vida corriqueira continua, manifesta-se a novidade absoluta que sustenta e dá razão e significado à fé cristã: Jesus vive!

Os homens ainda continuam a ser, mais facilmente, os executores das paixões cruéis e sanguinárias, pois nunca sentiram pulsar, em suas vísceras, a vida gerada que se expande quando concedida, até alcançar a luz que a irradia em travessia e destino.

O evangelista nos diz que Pedro “correu ao túmulo, olhou para dentro e viu apenas os lençóis”. A Igreja do Cristo nasce deste corpo nu de Jesus. A Igreja de Jesus tem que ser uma Igreja desnuda de qualquer idolatria tecida com as tramas dos privilégios e remendada com retalhos unidos por fios de ouro e prata do egoísmo e da indiferença.

A Igreja de Jesus, a comunidade eclesial, nossas vidas, devem nascer de uma túnica sem costura – a túnica do Cristo - símbolo indestrutível de uma unidade que é fruto da Cruz do Senhor que se entregou “para reunir os filhos de Deus dispersos” (Jo 11, 52).

Manos da Terna Solidão

 

A celebração desta noite nos oferece uma perspectiva esplêndida da história. Fala-nos da origem do fogo, da luz, de nosso nascimento na água. Evoca-nos os grandes textos de nossa tradição que relatam a criação, o êxodo, as vozes proféticas que deram senso à história.

Porém, o mais surpreendente acaba se ser proclamada na leitura do evangelho de Lucas. O texto nos comunicou o fenômeno mais surpreendente na história humana: o desaparecimento total do Corpo morto de Jesus.

Em três dias um corpo morto não se dissolve totalmente. A hipótese de um roubo ou profanação da tumba foi desde o princípio descartado. O que aconteceu?

Testemunhas do desaparecimento misterioso do corpo foram somente mulheres: Maria Madalena, Joana, Maria de Santiago e outras. Todas elas discípulas de Jesus que o haviam seguido desde a Galiléia e tinham chegado até o Calvário e assistido a sua execução, embora de longe.

Estas mesmas mulheres queriam ungir o corpo de Jesus, mas quando chegaram de manhã ao sepulcro, o encontraram vazio.

Dois homens com vestidos luminosos - símbolos talvez dos primeiros evangelizadores da Ressurreição, como por exemplo, Paulo em 1 Cor 15 -, lhes anunciam o desaparecimento e a motivo: o corpo morto tinha sido ressuscitado por Deus; tinha assumido uma forma de vida muito superior a anterior, o Espírito de Deus o converteu em portador de vida eterna; mais real que o real! Mais vital que o vivente!

O corpo não desapareceu. Os olhos humanos já não podem perceber tanta densidade ontológica, uma realidade inimaginável, tão divina. Os sentidos colidem com os seus limites. Ante tanta visibilidade e luz, os sentidos se cegam, ante tanta realidade o tato se torna insensível, ante a voz tão esplendida e transformadora, o ódio se torna absolutamente surdo.

"Não está aqui!" os dois mensageiros nos indicam que somente a quem é concedido superar este nível, poderá reconhecê-lo e senti-lo. As mulheres são convidadas a recordar, como a Mãe de Jesus, as palavras do Senhor quando, vindo da Galiléia para Jerusalém lhes falou de sua morte e ressurreição. As discípulas recordaram e creram! Não buscaram Jesus. Creram Nele como vivente.

Os discípulos masculinos, por outro lado, se sobressaltaram ante o anúncio das mulheres. Eles não acreditaram. Pedro iniciou sua busca particular. Estranhou o que viu no sepulcro, porém o corpo de Jesus não estava lá.

Não deixa de ser uma ironia da vida que aqueles a quem - como dizemos - confiou Jesus seu corpo na “Última Ceia”, seja aos que perderam a perspectiva de sua fé; e aquelas a quem - segundo dissemos - Jesus não confiou seu corpo, sejam as que vão embalsamá-lo e depois as mais preocupadas em encontra-Lo, não têm dificuldade em crer em sua presença real embora invisível.

Esta noite celebramos a ressurreição, mas sem aparições. A Ressurreição do Desaparecido.

O excelente relato de São Lucas nesta primeira parte - antes de qualquer aparição do Ressuscitado - nos confronta com a qualidade de nossa fé e confiança. Cremos de verdade na realidade de Jesus e desconfiamos da capacidade de nossos sentidos para detectá-lo? Estamos convencidos de nossa necessidade de um “suplemento de fé”, dados os limites de nossa percepção sensorial. “Vem a fé por suplemento os sentidos completar” (praestet fides supplementum sensuum defectui).

Se nos é concedido crer na Ressurreição, translademos à região da vida; deixemos nossas tumbas e lamentações; não nos preocupemos tanto com os sepulcros. Todo corpo morto tem data de vencimento. Está ameaçado de vida. Deus Pai e seu Espírito estão vigilantes. A qualquer momento dirão a outros corpos aquelas palavras pascais: “Tu és meu filho, minha filha... eu te gerei hoje!”.

É esta noite o momento principal e fundamental da história. Nela somos convidados a entrar no limiar da Páscoa, onde tudo muda de sentido e a Esperança nos acolhe.

José Cristo Rey García Paredes

 

No sábado santo celebramos durante o dia a sepultura do Senhor, e pela noite a grande vigília pascal da ressurreição gloriosa do Senhor, que constituiu o ponto mais de todo o ano litúrgico. Nas leituras bíblicas da vigília pascal temos um resumo de toda a história bíblica desde a criação, passando pelo êxodo e a páscoa do Egito, até culminar na ressurreição de Jesus.

A liturgia da vigília pascal, que começou a celebrar-se na igreja romana em meados do séc. II, tem na sua estrutura atual uma rica simbologia batismal que é o sedimento de muitos séculos de culto cristão. Assim, seguindo a ordem do ritual: o rito do fogo novo, a procissão das velas, o sírio pascal, o preçonio pascal, a benção da água e a fonte batismal.

Esta marcada reprodução batismal da Páscoa recorda-nos que o nosso nascimento para a vida nova com Cristo ressuscitado se realiza pela fé e pelo sacramento do batismo que nos incorpora no mistério pascal de Cristo, isto é, na sua morte e ressurreição. Os dois tempos do batismo na liturgia primitiva: imersão na água e emersão da mesma, simbolizam, respectivamente, a morte para o pecado e a sepultura com Cristo (imersão), e a ressurreição para a vida nova com ele (emersão).

A liturgia batismal mais freqüente hoje em dia, só com a infusão da água, significa simultaneamente a limpeza e perdão dos pecados e a vida nova ou adoção filial por Deus. Ao realizarem-se assim os dois momentos – que são um – de participação na morte e ressurreição de Cristo, isto é, no seu mistério pascal, fica o neófito incorporado nele e no seu corpo social que é a Igreja, a comunidade cristã, o povo de Deus, o povo da nova aliança pelo sangue de Jesus.

A grande festa cristã é a Páscoa da ressurreição. Tanto ;e assim que o mistério pascal é o que celebramos constantemente ao longo de todos os domingos e festas do ano litúrgico e inclusivamente na Eucaristia diária. A vigília pascal com lume novo e a luz do círio, que representam Cristo, expressa alegremente a nossa fé comunitária na libertação do homem envelhecido pelo mal, mediante a criação do homem e mundo novos em Cristo ressuscitado. Deus deu o primeiro passo na ressurreição de Jesus.

Cristo ressuscitado é o novo Adão que restitui ao homem, imagem do Deus da vida, a dignidade perdida pelo pecado. Desde então são possíveis no nosso desprezível mundo a esperança, a liberdade, a alegria e a solidariedade humana, porque Jesus ressuscitado estabelece e consolida o reino de Deus na terra dos homens. Ele possibilita-nos a vida nova de seres regenerados e redimidos do pecado, que é a antiga condição e o fermento estragado. Ao tronco velho da humanidade pecadora, nasceram novos rebentos na primavera que é esta Páscoa florida da ressurreição de Cristo.

A páscoa cristã é o dia em que atuou o Senhor, é a festa da fé e da vida imortal, é o triunfo da causa de Jesus, é a salvação do homem, é o grande êxodo da escravidão do pecado e o começo da grande marcha de libertação da humanidade, que com Cristo caminha na esperança presente e futura. Por tudo isso e por ser a vitória definitiva sobre a morte, a Páscoa é a grande festa da vida para todo o que crê em Cristo ressuscitado.

Mas tudo isso tem um preço para nós: colaborar pessoalmente com a graça e a força do Espírito, morrendo com Cristo para o homem velho. Por isso se nos propõe hoje a conversão total: da mentalidade, coração e conduta, como princípio de uma vida nova. O cristão, ressuscitado com Jesus, deve aspirar aos bens do alto onde está Cristo a varrer da sua vida o pecado, que é o fermento velho da corrupção e da maldade. Só assim seremos a massa nova do pão ázimo pascal.

padre Pacheco - blog.cancaonova.com