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Evangelho (Lc. 22,14 - 23,56): Não se faça a minha vontade, Pai, mas sim a tua. A Paixão de Jesus tem sua antecipação profética no relato da Ceia. Chegada a hora de sua saída para o Pai, Jesus põe-se a cear com seus discípulos. Essa última refeição que ele toma com os seus revela-se a prefiguração de sua entrega a Deus e da conclusão de sua missão. Por isso, ela é cheia de significados. A morte de Jesus não é um fracasso, um caminho sem saída, mas inauguração da paz e salvação plena na presença de Deus. É consequência de sua vida, de sua doação plena ao projeto de salvação operado por Deus na história humana. É a manifestação do reino de Deus, ou seja, da justiça e fidelidade. É o cume do anúncio do reino de Deus, proclamado desde a Galileia, o qual foi o programa de toda a sua atuação pública. Por isso, ao dizer “desejei ardentemente”, Jesus quis dar um significado à sua morte iminente. Ela é promessa de restauração da humanidade decaída. Nessa promessa, Jesus associa os discípulos a um gesto retomado do banquete judaico, inserindo os seus no mesmo destino: o destino de alguém que enfrenta a morte na firme esperança de antecipar a realeza de Deus no mundo e na história. Após a ceia, Jesus vai ao monte das Oliveiras e, como de costume, ora ao Pai, princípio e fonte de seu ministério. Ao vislumbrar o destino que o aguarda, Jesus recorre ao Pai. Na agonia, pede que lhe afaste o cálice do sofrimento. Mas mantém-se fiel à vontade de Deus. Não uma vontade desejosa da morte de seu Filho, mas a que revela o amor fontal e fiel de Jesus àquele de quem tudo recebe. Em nome desse amor, Jesus permanece firme até o fim. E, movido por esse amor, enfrenta os que o capturam. É com esse amor e fidelidade filial que Jesus enfrenta a traição de Judas, a negação de Pedro, a dor e a humilhação infligida a ele por aqueles a quem fora enviado: seu povo. No Sinédrio, Jesus é rejeitado de forma definitiva pelos líderes do seu povo. Diante do Sinédrio, o evangelista estabelece a posição e a identidade de Jesus em face da autoridade judaica. A identidade de Jesus é apresentada de forma progressiva: o Cristo (22,67), o Filho do homem, glorificado à direita de Deus (22,69), o Filho de Deus (22,70). Na expressão “Filho de Deus” está presente a profissão de fé cristã. O Filho do homem foi humilhado e menosprezado pela humanidade, mas agora está glorificado por Deus como um messias-rei (cf. Sl. 110,1). Após ser rejeitado pela liderança religiosa, Jesus é submetido ao poder político, que, apesar de estar ciente de sua inocência, o condena. Acusado de rebeldia e subversão, Jesus é entregue à morte. Na obstinação dos sumos sacerdotes, dos magistrados e da multidão em condenar Jesus, transparece a total rejeição ao projeto de Deus realizado no homem de Nazaré. A morte de Jesus situa-se ao final de uma série de infidelidades e rebeliões obstinadas contra o projeto de Deus ao longo da história. No caminho da cruz, Jesus deixa entender que na sua morte violenta se decide o destino do povo de Deus e da humanidade. O julgamento histórico de Deus abater-se-á sobre a cidade de Jerusalém, símbolo da humanidade infiel e rebelde aos apelos dos profetas. Jesus é crucificado entre malfeitores. O que veio para buscar os perdidos encontra-se agora entre eles, partilhando da mesma sorte. E, aqui, revela-se o rosto salvador de Deus. O Libertador de Israel não tira o Messias da cruz nem o livra da vergonha e da violência, contudo permanece fiel ao amor também na situação mais extrema. A inocência de Jesus é reconhecida por um dos criminosos ao seu lado. E este proclama sua total confiança em Jesus. A resposta do Filho de Deus é uma afirmação solene da salvação já hoje, da salvação escatológica que começa no hoje da história humana. Então o pecador arrependido pode escutar a “boa-nova”, o evangelho da salvação, que consiste na comunhão com Jesus no Reino dos justos. É com este último gesto de solidariedade que Jesus dá a salvação a quem crê e se converte. Após sua morte, a ação de Deus é reconhecida pelo centurião, ao proclamar que Jesus era um homem justo. Mas a morte não é o fim e nos lança para o que acontecerá no amanhecer do primeiro dia da semana. 1 leitura (Is. 50,4 - 7): Não foi rebelde nem voltou atrás
O texto mostra que, apesar dos sofrimentos, o Servo está
empenhado em obedecer à vontade divina. Ele está
qualificado para a obra que Deus o destinou a realizar.
Essa qualificação transparece em duas afirmações: 2) Ele tem ouvido de discípulo e toda manhã recebe a instrução vinda de seu contato com Deus. É alguém que está alerta, atento, acordado; é isso que significa a expressão “cada manhã”. Enfim, ter a língua hábil e o ouvido atento constitui o missionário competente, que antes é discípulo dócil. Os versículos 5 e 6 mencionam o sofrimento que é fruto do desempenho do discípulo missionário. Os mesmos versículos asseguram que, apesar das muitas dificuldades, o Servo mantém uma constância destemida e leva a cabo a obra para a qual foi escolhido. O servo não se rebelou, isto é, não voltou atrás em sua missão quando a resposta às suas palavras de consolo aos desanimados foi a perseguição e a violência. Há uma descrição da dor e da vergonha que o Servo passou: foi açoitado, esbofeteado, teve a barba arrancada, foi insultado e cuspido. Naquela época, ter a barba arrancada era um dos maiores graus de dor e de vergonha para o homem oriental. Nenhuma dessas afrontas o fez desistir de sua missão. O texto deixa entrever que o Servo poderia ter evitado esse sofrimento se tivesse voltado atrás na sua missão (v. 5). Várias expressões mostram isso: apresentar as costas, oferecer o queixo, não desviar o rosto. Passar por todo esse sofrimento sem voltar atrás só foi possível porque o Senhor era aliado do Servo. Por causa dessa cumplicidade com o Senhor, o Servo não fracassou em sua missão (v. 7). 2 leitura (Fl. 2,6 - 11): Assumiu a forma de servo e se humilhou, tornando-se obediente Esse texto, um hino litúrgico inserido em um contexto missionário e pastoral, tem em vista a práxis cristã, e não abstrações sobre a essência de Deus. A primeira parte do hino (vv. 9 - 11) se refere à atitude de Jesus, a qual deve ser tomada como exemplo por todos os cristãos. Nesse texto bíblico encontramos um resumo da história da salvação. Jesus foi visto pela maioria dos seus contemporâneos apenas como um homem simples do povo. No entanto, ele pertencia também a outra esfera: era de condição divina (v. 6). Tornou-se humano, como tal viveu e morreu (vv. 7 - 8) e foi exaltado junto a Deus (vv. 9 - 11). A ideia central do texto é que Cristo não quis apoderar-se da divindade ou usurpá-la, mas, sendo de condição divina, estava disposto a renunciar aos privilégios inerentes a ela em favor do ser humano. É para essa atitude de desprendimento pela grandeza divina que Paulo chama a atenção de seus destinatários. Jesus se despojou dos privilégios específicos da natureza divina e adotou a postura de um servo. Essa atitude de serviço e obediência, até mesmo diante do tipo de morte mais vergonhosa em sua época, significa que Cristo não usou as prerrogativas divinas em favor de si mesmo. A disposição para o despojamento em favor do ser humano é o que Paulo está propondo como critério para a vida cristã. Esse Jesus que se humilhou até a morte na cruz, Deus o exaltou e submeteu a ele o universo em todas as suas dimensões. A menção de todos esses aspectos da história da salvação tem por objetivo fazer que os cristãos aprendam a viver com o mesmo desprendimento, consideração pelo ser humano e obediência a Deus que caracterizaram aquele a quem seguem: Jesus Cristo. Aíla Luzia Pinheiro Andrade, nj |
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(1) a entrada solene do Senhor Jesus em Jerusalém para viver sua Passagem do mundo para o Pai e (2) o Mistério de sua Paixão, morte e sepultura. Daí o título deste dia: domingo de Ramos e da Paixão. A procissão é de ramos; a missa é da paixão. Que significa a entrada de Jesus em Jerusalém hoje? Ele é o descendente de Davi, o Filho de Davi e, portanto, o Messias prometido por Deus e esperado por Israel. Por isso o povo grita: “Bendito o Rei, que vem em nome do Senhor!” Jesus é saudado como o Rei de Israel, novo Davi, Messias que chega à Cidade de Davi! E Jesus, de fato, é Rei, é Messias! A festa de hoje é, em certo sentido, uma festa de Cristo Rei, Rei-Messias! É uma festa de exultação! Mas, estejamos atentos: ele entra na Cidade Santa montado não num cavalo, que simboliza poder e força, mas entra num jumentinho, usado pelos pobres nos serviços mais humildes e duros. Isto tem muito a nos dizer: Jesus é o Messias, mas um messias pobre, um messias servo, que “não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida em resgate por muitos” (Mc. 10,45). O seu serviço é um só: “dar a vida em resgate por muitos”. Ele é o Messias-Servo Sofredor, do qual fala o profeta Isaías na primeira leitura da missa de hoje: "Ofereci as costas para me baterem e as faces para me arrancarem a barba; não desviei o rosto de bofetões e cusparadas... Mas o senhor Deus é meu Auxiliador, por isso sei que não serei humilhado". Ele é aquele que tomará sobre si as nossas faltas e será ferido pelas nossas feridas... Pois bem, é com este propósito que Jesus entra em Jerusalém hoje. Quanto a nós, vamos com ele! Os ramos que trazemos nas mãos significam que reconhecemos Jesus como o Messias de Israel, prometido por Deus. Significam também que nos dispomos a segui-lo como o Servo que dá a vida na cruz. Levaremos estes ramos para casa. Devemos guardá-los num lugar visível durante todo o ano, para recordar nosso compromisso de seguir o Cristo num caminho de humildade e despojamento; segui-lo ainda quando não compreendermos bem os desígnios de Deus para nós... Seguir o Cristo, que confia no Pai até a morte e não se cansa de fazer da vida um serviço de amor. Seguir hoje em procissão com os ramos na mão significa proclamar diante do mundo que cremos nesse Jesus fraco, humilde, silencioso, crucificado... loucura para o mundo, mas sabedoria de Deus; fraqueza para o mundo, mas força de Deus! Rejeitemos, então, por amor de Cristo, toda visão de um cristianismo de procura de curas, milagres, solução de problemas... um cristianismo que trai o Evangelho e renega a cruz de nosso Senhor Jesus Cristo... um cristianismo falso, que enche templos e esvazia o escândalo da cruz! Lembremo-nos de Jesus Cristo! “Fiel é esta palavra: se com ele morremos, com ele viveremos. Se com ele sofremos, com ele reinaremos!” (2 Tm. 2,11s). Que tenhamos a coragem de proclamar com a vida e as palavras esse Jesus, porque se nos calarmos “as pedras gritarão”... Para a missa da Paixão do Senhor Com esta Eucaristia, iniciamos a grande semana. Tomemos três frases da Paixão que acabamos de ouvir. Elas são suficientes para inspirar-nos hoje. Primeira palavra: “Desejei ardentemente comer convosco esta Páscoa antes de sofrer”. Esta frase do Senhor, saída do seu coração, é dirigida também a nós; é um convite a celebrarmos sua Páscoa, participando na liturgia desta semana Santa e na vida da todo dia, de suas dores para também participarmos de sua vitória, de sua Ressurreição. Comer com Cristo a santa Páscoa é nos dispor a participar de sua sorte, de seu caminho rumo à cruz e à ressurreição. Nunca esqueçamos: “ele esvaziou-se de si mesmo... fazendo-se obediente até a morte e morte de cruz. Por isso Deus o exaltou acima de tudo”. Este é o caminho pascal de Jesus e nosso. Disponhamo-nos, portanto, a caminhar com ele. Aceitemos o seu convite para comer com ele esta Páscoa sagrada. Participemos ativa e piedosamente dos santos mistérios celebrados nestes dias e estejamos também dispostos a vivê-los na nossa vida. Segunda palavra: “Quem vai me trair é aquele que comigo põe a mão no prato”. Que afirmação tão dolorosa: um de nós, um que come com o Senhor, um que participa da sua Mesa, o entregou! Esta advertência de Jesus deve ser sempre recordada por cada um de nós, que participamos de sua Eucaristia! E que ninguém seja presunçoso como Pedro! Que humildemente nos perguntemos: “Mestre, serei eu?” Traímos Jesus como Judas quando buscamos nossos interesses, nossa lógica, nossas paixões, desprezando Aquele que nos convida a segui-lo.. deixamo-lo, fugimos, buscando as facilidades de uma vida mundana, de valores mundanos, de uma lógica mundana... Seguimo-lo de longe, como Pedro, quando pretendemos ser cristãos sem nos comprometermos com ele, sem por ele a nada renunciarmos, sem nele empenharmos nossa vida! Não o reneguemos como Pedro; não lhe demos o beijo de Judas! Que possamos escutar, um dia, a afirmação do Senhor: “Vós ficastes comigo em minhas provações!” Terceira palavra: “Eu estou no meio de vós como aquele que serve”. Nesta frase do Senhor está o sentido do que celebraremos durante esta santíssima Semana. Ele mesmo disse que veio para servir e dar a vida em resgate da multidão (cf. Mc. 10,45). É assim que ele está em nosso meio: como aquele que dá a vida por nós, que se entrega por amor. Aquilo que ele realizou na sua existência toda, acolhendo, perdoando, curando, restaurando a esperança... isto é, entregando-se a nós e por nós, agora ele vai consumar até a morte e morte de cruz! Acolher esse serviço é reconhecer que Cristo morreu por nós, por nós entregou sua vida... e, assim, ser-lhe grato de todo o coração, como Paulo, que exclamava: “Ele me amou e se entregou por mim” (Gl. 2,20). Sejamos-lhe gratos: vivamos também nós por ele! Caríssimos, estejamos de coração atento para vivenciar, nestes dias sagrados, tão grande mistério! Não recebamos em vão a graça de Deus: que aprendendo os ensinamentos de sua paixão, ressuscitemos com ele em sua glória. dom Henrique Soares da Costa |
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O Messias, como Ungido de Javé, é o seu enviado, o seu representante, o encarregado de promulgar seus desígnios. A idéia do Messias e dos tempos messiânicos estava fundada na esperança de que Deus tinha cumprido plenamente as promessas feitas ao povo eleito e à nação, que se sabia eleita por Deus. A chegada do "Messias" (ungido, servo, enviado) e a instauração do reinado de Deus na história e no tempo, e segundo a concepção judaica (humana, não revelada), concebia que Israel iria se vingar dos "pagãos" (a maior parte deles tão religiosos como os próprios israelitas), dos não judeus. A idéia messiânica do Primeiro Testamento está baseada na força político-militar de um enviado de Deus de Israel para dominar a todas as nações da terra e fazer com que Israel se converta em uma nação forte e poderosa, capaz de submeter a todos os povos que não tem Javé por Deus. Como se vê, um messianismo muito humanamente concebido. O Messianismo é uma das heranças que o Segundo Testamento recebe da tradição veterotestamentaria. No tempo do Novo Testamento, o mundo de então era governado por Roma com toda a sua força, riqueza e pretensões; nesse contexto há grupos majoritários que esperam a chegada definitiva do Messias, que os livraria do domínio explorador romano. Todos se aperceberam então da intervenção de Deus na história através de um líder que foi capaz de derrotar o poder imperial e fazer de Jerusalém a grande capital de Israel. No ciclo C da liturgia lemos o relato da Paixão do Senhor, segundo Lucas. Consideremos as característica teológicas que este relato nos apresenta. Lucas, como é sabido, é considerado como o evangelista da misericórdia, o que é o mesmo, como o evangelista que marcou toda a tradição recebido, com o pensamento do amor infinito de Deus que se manifestou em Jesus Cristo. Nenhum dos evangelistas percebeu como ele a sensibilidade do amor do amor do Pai, percebido de maneira especial entre os pobres, entre os que sofrem, entre os marginalizados. Não é difícil constatar no evangelho de Lucas a preocupação de Jesus pelos débeis, pela viúvas, pelos órfãos, pelos pecadores e pelas mulheres. Este mesmo interesse se manifesta na narrativa dos acontecimentos da Paixão do Senhor. Em primeiro lugar, porque todo este relato está sustentado por um conhecimento da alma de Jesus, cuja intimidade nos é desvelada pelo evangelista quando nos deixa ver sua estreita relação como Abba misericordioso, nos momentos de oração (Lc. 22,42), ou quando seu Pai o enaltece em meio ao sofrimento (Lc. 22,43). Em segundo lugar, a cruz aparece em seu relato da Paixão como um verdadeiro sacramento do amor divino: a revelação da misericórdia em meio ao sofrimento. Lucas não coloca sua atenção nos aspectos negativos e cruéis da situação. Sua narrativa omite lembranças ou referencias que aparecem nos outros evangelistas como a flagelação ou a coroação de espinhos, que servem para incriminar os que levaram Jesus à morte. Lucas que nos fazer descobrir o amor do Pai para com seu Filho e para com todos os homens, ainda que estejam em situação de dor. Jesus não aparece abandonado no Calvario (não se cita Zc. 13,6 sobre a dispersão dorebanho): está acompanhado de amigos e conhecidos (Lc. 23,49 em contraposição a Mt. 27,55 - 56 e Mc. 15,40 - 41). E, em vez do grito do Salmo 21, citado por Mateus, opta pela manifestação ilimitada de confiança do Salmo 30, 6: "Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito". À luz de tudo isto, compreende-se o papel desempenhado neste relato da Paixão a atitude do perdão, somente explicável a partir do mistério da misericórdia. Definitivamente, todo o mundo se torna limpo e se insiste nos fatos positivos, somente explicáveis a partir da virtude reconciliadora do sofrimento de Jesus ou da atitude de perdão: o caso de Pilatos (Lc 23,4.13-15.20-22); o do agredido por Pedro, a quem cortou uma orelha e é curado por Jesus (Lc 22,51); a atitude de Pedro (Lc. 2261); a atitude de todos os judeus (Lc 23,34); a atitude do bom ladrão (Lc. 23,39 - 43); do centurião (Lc. 23,47); da reconciliação entre Herodes e Pilatos (Lc 23,6-12). Jesus aparece claramente como o inocente, o justo perseguido. Ainda no processo dos romanos, Pilatos proclama a inocência de Jesus. O centurião também reconhece sua inocência. Somente em Lucas Jesus se dirige com palavras consoladoras às mulheres que de longe o seguiam. Realmente, Lucas é chamado o evangelho das mulheres e da misericórdia com os mais pobre e ignorados, e as mulheres faziam parte da classe marginalizada de Israel. Porém, para Jesus, em todo o evangelho de Lucas, as mulheres fazem parte do discipulado e merecem um tratamento respeitoso. Agora, a caminho do Calvário, a fidelidade das mulheres a seu mestre é reconhecida pelo Senhor. A Paixão e a morte de Jesus são uma verdadeira revelação: a manifestação da misericórdia do Pai. Somente quem compreendeu uma atitude tão comovedora como a que nos traz este evangelho na parábola do pai misericordioso, poderá entender por que o evangelista olhou assim o mistério do sofrimento e da morte de Jesus. Lucas concebeu o relato da Paixão como uma contemplação de Jesus. Por isso este relato é um convite ao leitor-orante a aproximar-se do Senhor, a segui-lo, a carregar a cruz de cada dia (9,23). Na palavra que dirige na cruz ao malfeitor arrependido, esse "hoje"nos remete a Lc. 4,21, quando na sinagoga de Nazaré, Jesus declara que "hoje se cumpriu" a passagem de Is. 61,1 - 2 que acabava de ler. O tempo se cumpriu e ele, que veio para proclamar um ano da graça do Senhor, cumpriu sua missão, pois vai morrer pregado na cruz, porém continuará vivendo no meio de nós. ALGUMAS NOTAS PARA OS LEITORES CRÍTICOS O evangelho de hoje é mais longo do que de costume: lê-se toda a Paixão de Jesus, por isso a homilia deverá ser mais breve. Por outra parte, a homilia deverá enfocar o conjunto da Paixão e seu significado. Também na sexta-feira santa vai ser lida a Paixão, segundo o evangelho de João. E durante toda a semana, o pano de fundo litúrgico-espiritual é este: a paixão e morte de Jesus. É um momento apropriado para levantar alguns critérios críticos a respeito da interpretação da paixão de Jesus e seu significado de conjunto. Se somos cristãos, e se o cristianismo professa a convicção do sentido salvador de Jesus, precisamos ter um "modelo soteriologico" ("soteria" = salvação), ou seja, uma explicação de como Jesus salva a humanidade e em que consiste essa salvação. É claro que isso é o coração da fé cristã. Pois bem, na história houve vários modelos soteriológicos. O modelo que chegou a nós é o que foi elaborado fundamentalmente por Anselmo de Cartebury no século XI, sobre a tradição jurídica do direito romano. O ser humano ofendeu a Deus com o pecado original e com isso forma rompidas as relações entre Deus e a humanidade. Deus foi ofendido em sua dignidade e o ser humano, por sua parte, ficou privado da alegria da relação com Deus e não teria capacidade para superar essa situação, pois por ter ofendido a Deus, não teria capacidade para reparar uma ofensa de caráter infinito. Em sua obra Cur Deus homo? (Por que Deus se fez homem?) Anselmo elabora a teoria da "satisfação penal substitutiva": Jesus morre em substituição da humanidade pecadora culpável para satisfazer com isso a dignidade ofendida de Deus e restabelecer assim as relações com a humanidade. Por uma parte,é preciso notar que esta explicação, vinda a nós de longa tradição, não deixa de ser "uma" explicação, a do século XI em concreto; isto é, não é "a" explicação, e sim "uma" explicação, não a única. Além disso, não está no Novo Testamento: é uma elaboração teológica muito posterior, que assume as categorias e a lógica do direito romano próprio do mundo feudal europeu da alta Idade Média: o direito inapelável e absoluto dos senhores, a servidão dos servos, as obrigações jurídicas relativas à ofensa e à satisfação. É a teologia da "redenção" ("red-emere"), re-comprar o escravo para libertá-lo do seu antigo dono. Esta teologia hoje já insustentável, é, contudo, a que a maior parte dos cristãos, incluindo agentes de pastoral tem ainda hoje em sua consciência, em sua compreensão do cristianismo ou inclusive em seu subconsciente. E para muitos deles "a" explicação maior do mistério cristão, o mistério da "redenção". É preciso lembrar que os modelos soteriológicos, como todo o resto da teologia, não deixam de ser uma linguagem metafórica, e que a metáfora nunca deve ser tomada literal e metafisicamente, sobretudo no segundo sentido do termo ("metá-fora" = mudança, transposição de sentido). As teologias e os modelos soteriológicos se apóiam sobre as lógicas e os símbolos, esses modelos soteriológicos ou em geral, essas teologias aparecem muito defasadas a ponto de serem ininteligíveis e, finalmente, se tornam obsoletas. A visão de Deus como "Senhor" feudal, irritado por uma ofensa do primeiro casal humano... que para aplacar a falta cometida seria necessária a reparação da ofensa por meio da morte cruel e cruenta o seu Filho, é uma imagem de Deus hoje simplesmente insustentável e inaceitável. A simples idéia de um mítico pecado de Adão e Eva teria mudados os planos de Deus, e teria relegado ao afastamento e sumido nas trevas do pecado a toda a humanidade, desde o primeiro casal, durante ilhares e milhares de anos - hoje sabemos que seriam milhões de anos -, até a aparição de Jesus, essa idéia é absolutamente inaceitável para a mentalidade atual. A mesma fórmula jurídica da "satisfação substitutiva" se torna inviável se consideramos os princípios éticos de nossa época. É difícil acreditar em um Deus assim, antes provoca ateísmo. Se este modelo nos parece ultrapassado, não devemos deixar de considerar que tenha havido outros modelos mais adequados. No primeiro milênio a teologia dominante, em foco, não foi a da "satisfação substitutiva", mas a do "resgate": pelo pecado de Adão a humanidade teria ficado "prisioneira do demônio", literalmente sob o seu poder. Segundo santo Irineu de Lion (+ 202) e Orígenes (+ 254) o Diabo teria um direito sobre a humanidade, devido ao pecado de Adão. Juridicamente a humanidade estava sob o seu domínio, lhe pertencia, e Deus "quis agir com justiça inclusive diante do diabo" (Irineu, Adversus Haereses, V, 1,1), ao anular tal direito somente mediante o pagamento de um resgate adequado. Para isso, entregou seu Filho à morte, a fim de libertar a humanidade do domínio "legitimo" do diabo. Santo Agostinho o diz ainda mais explicitamente: Deus decretou "vencer o Diabo, não mediante o poder, mas mediante a justiça" (De Trinitate XIII, 17 e 18). Este modelo de "resgate pago ao Diabo" para resgatar a humanidade, ainda ressoa nas pessoas que tiveram formação cristã. Porém hoje, não só nos parece inaceitável, como também nos parece inimaginável e até grotesco: não podemos aceitar um Diabo, concebido como um contra-poder quase-divino que posto diante de Deus e que mantem a humanidade sob o seu poder, durante milênios, até que seja ressarcido "justamente" por Deus, nada menos que com a morte do seu Filho, um diabo que somente assim será "derrotado pela vitoria de Cristo". Que queremos dizer com isto? Muitas coisas: - que as teologias são metafóricas são metafóricas, não narrativas históricas nem descrições metafísicas; - que as teologias são muitas, variadas, não somente uma... e que quando adotamos uma delas não devemos nunca perder de vista que se trata somente de "uma" teologia, não "da" teologia; - que as teologias são contingentes, não necessárias; - que são elaborações humanas, não revelações divinas baixadas direto do céu e que são construídas com elementos culturais da sociedade na qual foram concebidas; - que são também transitórias, não eternas, e que com o tempo e as mudanças culturais, perdem plausibilidade e até inteligibilidade e podem acabar se tornando inaceitáveis e até descartáveis; - que os agentes de pastoral que atende ao povo de Deus devem estar muito atentos para não prolongar a vida de uma teologia ultrapassada que já não fala de modo adequado às pessoas de hoje; - que podem e devem buscar novas imagens, novos modelos, novas respostas interpretativas da parte de nossa geração atual às perguntas de sempre. A Semana Santa não é o único momento no qual devemos referir-nos à significação da salvação operada por Cristo, mas é uma referencia central da fé cristã e uma ocasião privilegiada para falar da conveniência e revisão de nossos conceitos e esquemas teológicos. www.claretianos.com.br |
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Com este domingo damos início a “grande semana”. Neste dia de festa e alegre, a Igreja faz memória da entrada de Jesus em Jerusalém para completar o mistério da paixão morte e ressurreição. Na liturgia veremos dois aspectos fundamentais da Pascoal: O ingresso messiânico de Jesus em Jerusalém, anúncio e prefiguração do triunfo da sua ressurreição e memória da sua paixão, determinam a vitória sobre o pecado e a morte. Como a multidão que acolhe Jesus a Jerusalém com festa e alegria, reconhecendo-o Messias, também nós hoje façamos esta experiência, não somente como uma lembrança do passado, mas fazendo presente na nossa vida na celebração eucarística, vivendo-a com fé. Neste dia, a Igreja, reconhece a divindade e a messianidade de Jesus. A Igreja participa completamente do drama da Paixão de Cristo, como nos diz o Missal Romano: Meus irmãos e minhas irmãs: durante as cinco semanas da Quaresma preparamos os nossos corações pela oração, pela penitencia e pela caridade. Hoje aqui reunimos e vamos iniciar, com toda a igreja, a celebração da Páscoa de nosso Senhor. Para realizar o mistério de sua morte e ressurreição, Cristo entrou em Jerusalém, sua cidade. Celebremos com fé e piedade a memória desta entrada, sigamos os passos de nosso Salvador para que, associados pela graça á sua cruz, participemos também de sua ressurreição e de sua vida. A reforma litúrgica deu ênfase à procissão com os ramos de oliveiras, é necessário fazer com que não seja somente um gesto supersticioso. A benção dos ramos. É finalizada à procissão, que deve ser expressão sacramental de um povo que partilha com Cristo a sua Paixão e que espera também de participar da sua Ressurreição. Uma breve reflexão do evangelho apesar de ser muito cumprido nos ajuda a entender melhor quanto hoje somos chamados a celebrar. A Paixão, segundo Lucas, é fiel às características do seu Evangelho. Ele apresenta o aspecto misericordioso do rosto de Deus em Jesus, o Profeta por excelência que sobe à Cidade Santa e que é rejeitado. A morte de Jesus é a nova Páscoa. Na primeira visita de Jesus a Jerusalém, quando foi apresentado no Templo, Simeão falando com Maria profetizava a respeito do Menino e dizia: “Eis que este menino foi colocado para a queda e para o soerguimento de muitos em Israel, e como um sinal de contradição. E a ti, uma espada transpassará tua alma! Para que se revelem os pensamentos íntimos de muitos corações”. (Lc. 2,34 - 35). Já no discurso na sinagoga de Nazaré Jesus tinha experimentado a reação do seu povo, quando foi expulso, correndo o perigo até de ser vitima de morte (4,28-29). No cap. 6, Lucas apresenta o programa do verdadeiro cristão. Na Paixão, Jesus o vive realmente, porque ele é o pobre, o faminto, o rejeitado (6,20 - 23). É ele que “oferece a face”; é aquele que não recusa a túnica (6,29). Do cap. 9,51 em diante, começa a sua viagem rumo a Jerusalém: “Quando se completaram os dias de sua assunção, ele tomou resolutamente o caminho d e Jerusalém”, se trata de um evento preparado por Deus e que Jesus, consciente da sua missão se encaminha rumo a sua Páscoa. A Paixão de Jesus, portanto é um evento trágico, esperado e preparado. Mas o leitor de Lc, portanto, cada um de nós, entra neste drama com a certeza que Deus é bom, que é um Pai misericordioso. Algumas características que sublinha a misericórdia e a ternura de Deus no Evangelho Lucano: - Lc. é o único a dizer que enquanto Jesus rezava, “aparece um anjo do céu a confortar-lhe” (22,43); e que o suor é semelhante “a gotas de sangue que caiam por terra” (22,44), sinal da grande angustia desse momento, e da participação de Jesus ao sofrimento até o fim. - Lc. diz a diferença dos outros evangelistas, que o motivo pelo qual os discípulos dormem é a tristeza (22,45), parece quase justificar, mesmo se sabemos que quando somos tristes não conseguimos dormir. - Diz também que Pedro cortou a orelha do servo do Sumo Sacerdote, Jesus imediatamente tocando-lhe o curou (22,50-51). - Jesus não se cansa de manifestar o seu amor, amando os inimigos (6,27 - 28). - Na negação de Pedro, Lc diz que Jesus fixou o olhar em Pedro, sinal de misericórdia e de perdão da parte do Mestre (22,61), olhar que faz lembrar ao discípulo tantos momentos significativos (5,4 - 11; 9,18 -21.28 - 36). - Jesus é sujeito a dois processos: Um religioso e outro civil, passando do sinédrio, Pilatos e a Herodes, depois volta a Pilatos. Deste modo Lc sublinha um fato curioso: “E nesse mesmo dia Herodes e Pilatos ficaram amigos entre si, pois antes eram inimigos” (23,8 - 12). - Lc nos diz ainda que o caminho do Calvário encontra as mulheres que o seguiam “batendo-se no peito e se lamentavam por causa dele”, mas Jesus lhes consola dizendo: “Filhas de Jerusalém, não choreis por mim; chorais antes, por vós mesmas e por vossos filhos” (23,27 - 28). - É também Lc que nos conta do diálogo com os dois ladrões. Com a profissão de fé de um deles e a promessa de Jesus: “Eu te digo, hoje estarás comigo no paraíso” (23,39 - 43). É neste “hoje” que tem o seu fim a mensagem de Lc. É neste “hoje” no qual o cristão funda a sua esperança como diz o nosso Papa João Paulo II no seu documento: “o Jubileu fez-nos sentir que passaram dois mil anos de história sem se atenuar a pujança daquele « hoje » referido pelos anjos, quando anunciaram aos pastores o acontecimento maravilhoso do nascimento de Jesus em Belém: « Hoje, na cidade de David, nasceu-vos um Salvador, que é o Messias, Senhor » (Lc. 2,11). Passaram dois mil anos, mas permanece viva como nunca a proclamação que Jesus fez da sua missão aos conterrâneos na sinagoga de Nazaré, deixando-os atônitos ao aplicar a Si próprio a profecia de Isaías: « Cumpriu-se hoje esta passagem da Escritura, que acabais de ouvir » (Lc. 4,21). Passaram dois mil anos, mas volta sempre, cheio de consolação para os pecadores necessitados de misericórdia — e quem não o é? –, aquele « hoje » da salvação que, na Cruz, abriu as portas do Reino de Deus ao ladrão arrependido: « Em verdade te digo: hoje estarás Comigo no Paraíso » (Lc. 23,43). Tocando-lhe o cura (22,50 - 51)”(NMI 4). www.filhasdaigreja.org |
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Lc. 19,28 - 40; Lc. 22,14 - 23,56 Neste domingo celebramos a Paixão e Morte de nosso Senhor Jesus Cristo, e no próximo, a sua gloriosa Ressurreição. Estamos ainda dentro da Quaresma, que terminará na quinta-feira santa à tarde, quando iniciaremos o Tríduo sacro, o centro de todo o ano litúrgico. Quem pode participar das celebrações apenas nos domingos celebra hoje a morte de Jesus na cruz; e no próximo domingo, a Páscoa da Ressurreição. Quem pode participar todos os dias celebra hoje a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, e sua morte, e dá início à semana santa. Na segunda-feira, a Igreja medita a unção em Betânia; na terça, o anúncio da traição de Judas e da negação de Pedro, e na quarta, a traição de Judas. Quinta-Feira Santa pela manhã, é o dia em que, nas catedrais, são abençoados os óleos para o batismo e para os enfermos, e é consagrado o óleo do crisma. Na parte da tarde, terminando a Quaresma, inicia-se o Tríduo sacro com a celebração da Ceia do Senhor e do Lava-pés. Na sexta-feira se faz a solene ação litúrgica da Paixão e Morte do Senhor. Nesse dia não há missa, assim como no dia seguinte, sábado santo, em que o Senhor repousa no sepulcro. A Vigília pascal já faz parte do dia da Páscoa, por isso é celebrada depois do pôr do sol, terminando antes da aurora do Domingo de Páscoa. Jesus entra em Jerusalém, a sua cidade, porque é lá que se devem realizar todas as profecias e toda a expectativa do povo de Israel, bem como de todas as nações. O impossível se torna real. A partir de Jerusalém é iniciado o grande e definitivo êxodo, aquele que importa de fato, o que parte deste mundo e chega à casa do Pai. A cruz é plantada fora dos muros para que todos tenham acesso a ela e dela façam a ponte da salvação e da libertação. Ninguém mais precisa viver sob a dominação do demônio, do pecado e da morte. O descendente da mulher esmaga a cabeça da serpente, perdoa todas as nossas faltas suprimindo na cruz nosso título de dívida, e vence a morte para sempre. Já não há mais condenação para os que estão em Cristo Jesus. Tendo conhecido nosso Senhor Jesus Cristo, não nos deixemos seduzir nem nos deixemos escravizar por coisa alguma. Na cruz está a vitória. Coloquemo-nos humildemente aos pés da cruz e deixemo-nos lavar com o sangue e a água que jorram do coração do Crucificado. Sentados aos pés da cruz poderíamos meditar sobre a nossa participação em tudo o que está acontecendo. De Maria já se disse que ela guardava em seu coração tudo o que acontecia com Jesus, e meditava. Podemos meditar sobre o pouco conhecimento que temos de tudo o que Jesus fez por nós. No entanto, nossa fé é de uma beleza extraordinária. Ela se alimenta na espiritualidade litúrgica e se torna sempre mais ativa na caridade. Aquele que crê tem no mundo uma presença transformadora. Examinemos as coisas mais simples com o conhecimento que temos do Evangelho e dos ensinamentos que estão no Catecismo. O que significa a Santa Missa que celebramos cada domingo, como alimentamos a nossa vida espiritual na liturgia, onde adquirimos força para atuar na sociedade como consciência crítica de tudo o que vai contra a pessoa humana. Afinal, nós conhecemos a beleza da nossa "religião"? A resposta hoje deve ser dada aos pés da cruz. |
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TERCEIRO CÂNTICO DO SERVO: SOFRIMENTO E CONFIANÇA É um trecho do Dêutero-Isaías conhecido como terceiro Cântico do Servo de Javé. Uma composição amadurecida na amargura do exílio babilônico. Os israelitas aprenderam no sofrimento a esperar e confiar na salvação de Deus. Salvação que não viria das potências, mas através da humilhação. De quem o profeta está falando? São várias as interpretações: 01) Interpretação coletiva - Tratar-se-ia do povo de Israel; 02) Interpretação individual - O Servo Sofredor seria uma pessoa anônima; 03) Interpretação mista - O Servo Sofredor seria ora Israel como um todo, ora um grupo de pessoas, ora uma pessoa só, como por exemplo o próprio Isaías; 04) Interpretação Messiânica - Referir-se-ia a um Messias do futuro ideal. Para os autores do Novo Testamento, este Messias ideal encontrou sua realização em Jesus. O versículo 4 mostra o Servo de Deus como consolador, que traz a confiança de Deus e dá a consolação para quem está desconsolado, desencorajado e abatido. Ele é consolo com seu ensinamento. Os versículos 4 - 6 mostram que ele está em condições de consolar os outros com sua doutrina, porque é o primeiro a escutar a palavra de Deus. Deus mesmo lhe abre os ouvidos para que ele possa aprender como um aluno e transmitir o que ouve. Deus lhe dá proteção. O servo, para não trair a mensagem recebida, dá as costas a quem o torturava (não oferece resistência, oferece a face aos que lhe arrancam o fio da barba). Ter a barba arrancada é sinal de grande humilhação. O servo não esconde o rosto às injurias e aos escarros. (O rosto manifesta os sentimentos e o desejo de alguém). Portanto, este servo é discípulo de Deus. Foi enviado aos sem esperança e Deus está ao seu lado para que possa vencer as provações. 2º leitura: Filipenses 2,6 - 11 A HUMILDADE E A GRANDEZA DE CRISTO Este é um hino cristológico que afirma a preexistência de Cristo. Paulo faz neste hino uma das sínteses fortes de seus escritos. Mostra o projeto de Deus assumido em Cristo, no qual Jesus está em pé de igualdade com Deus. Aborda o tema da “tapenosis phosyre”. A humildade de Jesus é a medida para o relacionamento fraterno. Sendo ele de condição divina, não aspirou às prerrogativas divinas, mas se rebaixou esvaziando-se a si mesmo. Tornou-se homem e solidarizou-se com os homens inclusive na morte, e morte de cruz, a mais infame, com humilhação total. Por isso Deus o exaltou e todas as criaturas devem adorá-lo. Por isso ele é o Senhor de condição divina. Neste hino o autor mostra o comportamento de Cristo, sua escolha para o cumprimento do seu dever. Mesmo sendo de natureza (morphé), que em grego equivale à forma, à condição, ao modo de existir, e apesar de sua condição divina, não foi tratado como Deus. Despojou-se (ekenosen), assumiu um modo de existir oposto, o do homem comum, sendo servo. É o Cristo histórico vivendo no meio de nós, que preferiu o estado de humilhação, de servo. Junto com a "kenosis" vem a "tapenosis", ou seja, a sua humilhação. Sua obediência é voltada para o Pai, num sentido de abandono de si próprio, sem tentar defender-se de seus inimigos. Sua humilhação, morte e cruz é o preço de sua ressurreição, que é o caminho para chegar à direita do Pai e tornar-se Senhor. Evangelho: Lucas 23,1 - 47 PAIXÃO DE NOSSO SENHOR JESUS CRISTO É o capítulo da Paixão do Senhor. Jesus é julgado e condenado pelos chefes de sua nação e tem sua execução confirmada pela autoridade imperial. O processo consiste em três acusações: ele provoca desordem, impede de pagar os impostos às autoridades e se proclama Messias. A reconstrução desses acontecimentos em Lucas, mais que uma exatidão histórica, responde a uma preocupação apologética: justificar os romanos e acentuar a responsabilidade dos judeus. A primeira intenção é ter o salvo-conduto do Império e a segunda é levar Israel a uma reminiscência póstuma. Lucas é o único que relata a presença de Jesus diante de Herodes, assim como é o único que deixa o tetrarca falar em outras circunstâncias (Lucas 3,1; 9,9; 13,31). O silêncio de Jesus é teológico. É a atitude do servo que se humilha sem abrir a boca (Isaías 53,7). Pilatos está preocupado apenas consigo mesmo, ou seja, com a reação das autoridades centrais e de seus súditos. Jesus era só um pretexto incômodo. Sua pessoa não tinha importância. Era uma ocasião para ser amigo dos judeus (v.24). No caminho do Calvário, Jesus está sem forças. Cireneu, que o ajuda a carregar a cruz, é o modelo do discípulo que avança nos caminhos ensangüentados de Jesus. As trevas que invadem a terra com a morte de Cristo lembram a escravidão dos céus, mas também a presença ameaçadora de Deus sobre as nações, como ocorreu sobre o faraó no Egito (Efésios 20,22). O Templo de Jerusalém torna-se uma coisa qualquer (Mateus 23,38). O véu que separava o mundo profano e o fazia sagrado rompeu-se. O povo judeu perdeu o seu prestígio. O novo povo é representado pelo centurião que bate no peito. REFLEXÃO A Paixão é o tema central deste período do ano. A vida e a missão de Jesus foram marcadas pelo sofrimento e pela atitude de obediência à vontade do Pai. Ele confundiu sua vida com a dos pobres, fracos, marginalizados e pecadores, para iniciar com eles uma nova comunidade de amigos, iguais e fraternos. A acusação dos judeus a Pilatos era de certo modo verdadeira (Lucas 23,5). De fato, seus ensinamentos e mensagens eram destinados a transformar a ordem constituída, para criar outra mais humana, no amor, na fraternidade, sem restrição de raças... Por isso o mataram. Ele morreu para recuperar o direito de todos. Com o domingo de Ramos iniciamos os ritos da Semana Santa, com os quais a Igreja faz memória da paixão do Senhor. Mas o rito completo também celebra a entrada solene de Jesus em Jerusalém, entre a aclamação da multidão e a alegria das crianças, que agitam ramos de oliveira e estendem mantos à sua passagem. Portanto, a liturgia de um lado proclama sua entrada triunfal em Jerusalém, e de outro sua paixão e morte. No domingo de Ramos dois elementos estão presentes: a exaltação do Senhor e a sua negação. A multidão que grita “Hosana” cinco dias mais tarde pede a sua crucificação. Este é o mistério do homem diante de Deus. De sua aceitação alegre passa à sua negação. Este farisaísmo está em cada um de nós, que passamos da exaltação religiosa a períodos que excluem Deus do horizonte da vida. O texto de Isaías nos oferece a chave de leitura da Paixão do Senhor, através da figura misteriosa de um personagem enviado por Deus para dar a liberdade não com sua força e violência, mas doando-se em sinal de expiação. Flagelado, ele aceita serenamente o castigo, seguro de sua vitória final. O Servo de Javé encontra sua concretização histórica em Jesus, que se humilhou e esvaziou de sua condição divina, assumindo nossa humanidade e identificando-se com o homem pecador, fazendo a experiência de uma existência alienada de Deus, imersa na miséria e destinada à morte. Mas Deus o exaltou e lhe restituiu a vida gloriosa, fazendo-o Senhor. De Clodereu, avô de Carlos Magno, ao ler a Paixão de Cristo, chorou como uma criança e depois exclamou: “Se eu estivesse lá com meus soldados, aqueles esbirros teriam um final infeliz e eu mesmo teria impedido a morte de Cristo”. Esta é a expressão de um sentimento sincero de muitos de nós, mas a dinâmica da paixão não está ligada tanto a um simples acontecimento da Semana Santa, quanto à continuidade do pecado individual e coletivo. Em Lucas encontramos o itinerário completo que Jesus percorreu. Ele não se encontra despreparado, nem surpreso diante dos sofrimentos, pois já os havia previsto e querido: “Desejei ardentemente comer esta Páscoa com vocês”. A ceia se torna sinal de sua auto-doação a nós: “Este é o meu corpo dado por vocês”. Assim, já na ceia Jesus havia se entregue nas mãos dos inimigos para ser sacrificado. Todavia, Lucas não desdramatiza a Paixão de Jesus. Descreve a dor de sua alma e a angústia de seu coração de Homem-Deus. Jesus é descrito como profundamente humano e, em sua humanidade, inefavelmente divino. Tomado pela angústia da agonia, ele reza incessantemente e seu suor tornou-se como gotas de sangue. Ao descrever a agonia de Jesus, Lucas pretende exprimir seu estado de sofrimento extremo. Todavia, neste clima Jesus vence o medo e o desespero, abandonando-se nas mãos do Pai: “Se queres afasta de mim este cálice”. O aspecto divino da paixão se manifesta em sua experiência dolorosa e angustiante. Outro aspecto da paixão em Lucas é que ela se articula como uma narração envolvente. Na narração aparecem aqueles que o seguem. Um dos temas fundamentais em Lucas é a “sequela Christi”, a partilha da Cruz do Senhor. Por isso, o próprio itinerário para o Calvário se revela profundamente como um convite ao seguimento. Simão de Cirene e as mulheres que o acompanham não são espectadoras indiferentes. Simão carregou a cruz e carregar a cruz significa segui-lo. O povo o acompanhou em atitude de conversão (Lucas 23,27). O centurião romano ficou profundamente impressionado e no fim converteu-se. O bom ladrão o defendeu diante do companheiro de infortúnio que o injuriava: “Lembre-se de mim quando estiver no paraíso”. Acompanhemos Jesus que, como rei humilde, vai ao encontro da morte pelas estradas de Jerusalém. Também nós, com nossos ramos verdes de esperança, o acompanhamos em sua paixão. Lucas descreve o Senhor em sua paixão como o herói do amor, o verdadeiro mártir que se propõe a dar a sua própria vida, que luta até o fim no Getsêmani, que reza continuamente na agonia e perdoa pacientemente os algozes. Jesus sofre e morre por todos nós, e nós às vezes continuamos a fazê-lo sofrer de diferentes modos: um pouco com o coração de Judas que trai, como Pedro que o nega, como Pilatos que o condena, como os chefes dos judeus que o injuriam, como os soldados que o crucificam. Precisamos ser como o Cireneu que carrega a cruz, como o bom ladrão que se arrepende, como José de Arimatéia que o acolhe. Que frutos podemos oferecer nesta Semana Santa? Ser construtores da paz, pois é este o significado do ramo verde que levamos para casa. Participar bem dos mistérios pascais na Semana Santa. Se ainda não a fizemos, fazer uma boa confissão. Procurar ser bons cireneus, ajudar a carregar a cruz do outro no sofrimento, nas dores, na doença, na ignorância, na velhice, na marginalização etc. Só João fala das palmas que serviram para saudar Jesus (João 12,13). Mateus fala de ramos cortados de árvores (Mateus 21,8), assim como Marcos (Marcos 11,8). Lucas não menciona este pormenor. A palma é o sinal característico da vitória dos atletas e guerreiros da antigüidade greco-latina, mas se tornou símbolo do martírio na iconografia cristã. Nas catacumbas é adotada como símbolo da imortalidade, da ascensão espiritual. Para Lung, a palma é símbolo da alma, como referência à entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, que prefigura a ressurreição pascal, com a vitória sobre a morte e sobre o pecado. Segundo os apócrifos, a cruz de Cristo era de oliveira. A oliveira significa força, purificação, cura. Atribui-se também a ela o significado do amor, da honra e da riqueza, já que Salomão havia construído a porta do “Sancta Sanctorum” com batentes de oliveira, cobrindo-a de ouro (1 Reis 6,39). Ângelo Salésio escreveu: “Se eu vejo junto à tua porta uma madeira de oliveira dourada, te chamarei Templo de Deus”. O ingresso de Jesus em Jerusalém é, sobretudo, um ingresso messiânico. A tradição e a fé bíblica colocam nele o cumprimento da palavra e da promessa de Deus. Após seu ministério na Judéia e na Galileia, Jesus entra na cidade santa como Messias, com as prerrogativas que a tradição bíblica lhe atribui: “Filho de Deus”. Na cerimônia litúrgica do domingo de Ramos revivemos dois mistérios: o da glória e o da dor. Mistério de Glória - Para o seu ingresso em Jerusalém, por ocasião de sua última Páscoa, Jesus cuidou de todos os detalhes. Enviou os discípulos para buscar um burrico, recomendando o que deviam dizer ao patrão. À multidão que o acolheu ele transmitiu uma mensagem de paz. Sua cavalgadura não foi a do guerreiro, mas um paciente burrico. Mistério de Dor - Esta semana é chamada Semana da Paixão. Entramos no drama da “Passio Christi”. Lucas relata que Jesus, ao descer do monte das Oliveiras em direção a Jerusalém, “chorou sobre ela”. É o sacrifício de Jesus. “Quem não sacrifica nada não ama, quem sacrifica pouco ama pouco, quem sacrifica tudo ama totalmente” (Monior). As duas primeiras leituras apresentam em termos dramáticos a operação “kenosis” de Jesus: seu rebaixamento, as duas dimensões da divindade. Jesus se torna homem em termos radicais: “Despojou-se assumindo condições de servo”. O profeta Isaías o apresenta como um sub-homem, um verme, que não tem nada de homem, a tal ponto que as pessoas, ao passarem à sua frente, viram o rosto. “Aquele que não conheceu pecado tornou-se pecado”. É a antítese mais substancial que se possa imaginar a respeito da divindade. Jesus não padeceu a morte de maneira passiva, mas a provocou ativamente. “Só a sua pregação explica a sua condenação, só a sua ação ilumina a sua paixão, só o conjunto da sua vida e de suas obras manifesta em que a cruz deste homem inigualável é diferente das inúmeras cruzes que estão presentes na história” (Hans Kung). O sofrimento de Cristo não é apenas o de dois mil anos atrás. Continua hoje diante de nossos olhos nos pobres humilhados, nos marginalizados, drogados, doentes... O caminho do Calvário, que vai do pretório de Pilatos até o Gólgota, passa diante de nossas portas, onde muitas vezes somos espectadores. O mistério pascal representa dois momentos complementares, não cronologicamente separáveis, de um procedimento pelo qual da morte nasce a vida, do sofrimento a alegria, do pecado a novidade da graça, da miséria do homem a vitória de Cristo. Cristo é o antítese desta nova ordem das coisas, da ressurreição universal iniciada na cruz com seu rebaixamento abissal, com sua pobreza radical, para nos indicar o renascimento. “A ressurreição não é só um novo episódio que vem depois da cruz. Ela brota da cruz, é fruto dela. Porque Cristo se empobreceu voluntariamente até a última indigência, que é a cruz” (Tillard). Jesus, ao entrar em Jerusalém como rei messiânico, entra com humildade, em atitude de serviço. É o servo paciente da 1ª leitura de hoje que caminha para a paixão mediante sua auto-humilhação, como nos fala a 2ª leitura. É um caminho paradoxal, pois pelo fracasso ele chega à vitória. Na entrada em Jerusalém, apenas um grupo de discípulos aclamou Jesus, “por todos os milagres que haviam visto” (v.38). Aclamaram-no como rei e Senhor (vv.34 - 38). O relato da Paixão de Lucas, destinado aos não judeus vindos do paganismo, está relacionado com o ministério público de Jesus e com o tempo da Igreja, que era perseguida após a ressurreição. A paixão é vista não como um sadismo absurdo do Pai ou um masoquismo patológico de Jesus, pois nem o Pai nem Jesus queriam o sofrimento, que é uma realidade negativa. Ele ocorreu em virtude de uma finalidade superior, a vontade salvadora de Deus. Houve uma repugnância natural de Jesus diante de seus sofrimentos físicos, como a tortura, a flagelação, a coroação de espinhos, a caminhada até o Calvário e a crucifixão; e diante de seus sofrimentos psíquicos, como a traição de Judas, o preço de resgatar os escravos por sua pessoa, a negação de Pedro, a deserção dos discípulos, a ingratidão do povo, a inveja e o ódio dos chefes religiosos. O motivo de toda essa realidade que Cristo suportou em obediência ao Pai é a nossa salvação. Jesus assumiu a cruz por fidelidade ao Pai e por amor aos homens. Mas o motivo é um só: “por nós e para a nossa salvação”. Na verdade, a preparação do desenlace final de Jesus ocorreu em toda a sua vida, em seu ministério público na Galileia e na Judeia, onde mostrou sua mensagem de amor, de serviço e de pobreza, sua boa nova de salvação aos pobres, seus milagres como sinais do reino de Deus, sua denúncia profética contra religiosos ritualistas e contra o culto vazio do Templo, a proclamação de uma lei e religião fundada no Espírito e no amor, assim como toda a série de encontros e discussões com os escribas e os fariseus. Esta é uma síntese das causas ideológicas e históricas que provocaram sua morte. A morte de Cristo não foi uma fatalidade nem um simples erro judicial. Ela não ocorreu por culpa dos protagonistas de seu processo, paixão e crucifixão. Foi resultado da culpa de todos os homens pecadores. Assim, o mistério da Cruz é a revelação do amor máximo de Deus por nós. Os sofrimentos foram o meio para expressar este amor de Deus em Jesus Cristo. Este exemplo de Cristo também pede de nós uma atitude de amor. Amemos também nós a Deus, porque ele nos amou primeiro (1 João 4,19s). Jesus foi o Servo, renunciou ao caminho fácil, suportou a ignomínia (Hebreus 12,2), assumiu nossa humanidade, vestiu-se de humildade, obediência, amor e renúncia. Preferiu nos salvar não com o triunfo e a glória que tinha junto de Deus. Solidarizou-se conosco. Isto exige do cristão os mesmos sentimentos. O clima era propício para receber Jesus em Jerusalém, pois era costume na ocasião as pessoas saírem ao encontro dos grupos de peregrinos mais importantes para fazê-los entrar na cidade com cantos e aclamações. Jesus não manifesta nenhuma oposição aos preparativos de sua chegada em Jerusalém. Ele mesmo escolhe uma cavalgadura, um asno trazido de Betfagé. Na Palestina, o asno havia sido a cavalgadura de personagens importantes desde o tempo de Balaão (Números 22,21s). Assim, Jesus fez sua entrada em Jerusalém montado num burrico, como havia sido profetizado (Zacarias 9,9). Os cantos de aclamação eram messiânicos. No meio da alegria da aclamação, Jesus contemplou o panorama da cidade e chorou (Lucas 19,41), porque viu Jerusalém afundada em seu pecado e em sua cegueira. Jesus se compadeceu da cidade que o rejeitava. Cinco dias depois, aquele Hosana entusiástico se transformaria em um grito furioso: “Crucifica-o”. padre José Antonio Bertolin, OSJ |
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Da gloria à cruz No domingo de Ramos fazemos o caminho que Jesus fez com seus discípulos. A comunidade de Jerusalém celebrava uma liturgia geográfica, isto é, no local onde aconteceram os fatos. Esta prática chegou até nós. Com a procissão de Ramos fazemos memória do acontecimento. Jesus vem a Jerusalém, montado num jumentinho, como rei pacífico, segundo a profecia de Zacarias (Zc. 9,9). O povo aclama Jesus como o “Bendito o que vem em nome do Senhor! Bendito o Reino que vem, o Reino de nosso Pai Davi!” (Mc. 11,9 - 10). Deus cumpre a promessa e toma posse de seu Reino através de seu Messias. Como entender o acontecimento glorioso da entrada na cidade santa e a morte de Cruz? O Rei que é aclamado é o mesmo que é glorificado na cruz. As profecias sobre o Servo Sofredor indicam o caminho que Cristo segue para a redenção ao mundo: “O Senhor abriu-me os ouvidos; ofereci as costas para me baterem e as faces para me arrancarem a barba; não desviei meu rosto dos bofetões e cusparadas” (Is. 50,5 - 6). Paulo explica que a glorificação de Cristo passou pela humilhação: “Humilhou-se a si mesmo, fazendo-se obediente até à morte e morte de cruz” (Fl. 2,8 - 9). Existe um fim maior: “Eu te farei luz das nações, para seres a minha salvação até a extremidade da terra” (Is.49,6). Paulo completa: “Por isso Deus o exaltou e lhe deu o Nome que está acima de todo nome” (Fl. 2,9). Na celebração do Mistério Pascal de Cristo, o Domingo de Ramos é uma síntese do que celebraremos. É também uma indicação de nossa vivência cristã: “Ó Deus, como pela morte do vosso Filho nos destes esperar o que cremos, dai-nos por sua ressurreição, alcançar o que buscamos” (pós-Comunhão). Humilhou-se a si mesmo Paulo entendeu o mistério de Cristo. Certamente podemos dizer que a fé cristã carece de um conhecimento mais profundo de Jesus em seu conteúdo de entrega ao Pai pelo mundo. Paulo nos aprofunda a compreensão do mistério de Cristo. No esvaziamento de si, a ponto de perder toda a aparência de divindade, assume nossa condição humana. E nela, escolhe a condição de escravo obediente até à morte de cruz. Assumiu a condição social, de todas, a inferior. O abandono é total, pois clama na cruz que foi abandonado até pelo próprio Deus. Em seu máximo abaixamento está a manifestação de sua divindade: Por isso Deus o elevou e lhe dá a condição de divindade. Deus o confirma para nós como sendo Deus com Ele. “Jesus Cristo é o Senhor” (Fl. 2,11). Por que fez assim? Para manifestar o amor e atrair ao mesmo amor, como escreve sant´Afonso. Aprender o ensinamento de sua Paixão Celebrar a Paixão do Senhor é assumir a atitude de quem está com Ele em sua Paixão. Ele promete aos seus: “Vós que permanecestes comigo em minhas tentações; também eu disponho para vós o Reino, como o meu Pai o dispôs para mim” (Lc. 22,28 - 29). Lendo sua Paixão nós nos dispomos a retomá-la em nossa vida. Se quisermos glória, temos que aprender dele: “Meu Reino não é deste mundo”; Se quisermos seu Reino, nós o contemplaremos com uma coroa de espinhos e um manto de deboche; Os chefes importantes aparecem com seus ministros; Ele é colocado entre dois ladrões. “Foi contado entre os malfeitores” (Lc. 22,37; Is. 53,12). Se formos despojados como Ele, poderemos fazer nossa profissão de fé, como o centurião pagão: “Este homem, era o Filho de Deus”. 1. Na celebração de Ramos, fazemos como se fazia na Igreja de Jerusalém. Jesus, montado num jumentinho é o rei pacífico. Deus cumpre sua promessa e o povo o aclama como rei: “Bendito o que vem em nome do Senhor”. Deus toma posse de seu Reino através de seu Messias. Como entender a gloriosa entrada e a Paixão? Ele é o Servo que redime e será glorificado. O Domingo de Ramos é uma síntese do que celebraremos. 2. Precisamos ter um conhecimento mais profundo de Cristo. Paulo nos apresenta uma visão importante a partir do esvaziamento de Cristo para realizar a salvação. Assumiu a natureza humana no que havia de menor, o escravo a serviço. Em seu maior abaixamento manifestou sua divindade. Assim fez para atrair ao amor. 3. Estamos com ele em sua Paixão. Celebrando a Paixão tomamos suas atitudes e sentimentos. Passamos pelo desprezo e, depois de despojados como Ele, podemos fazer a profissão de fé, como o centurião: “Este homem era o Filho de Deus”. Trote do burrinho. Jesus entrou em Jerusalém montado num burrico. Não tivemos a sorte nem de estar lá para ver. Ele carregou o peso do mundo. Jesus, entrando na cidade foi acolhido como “aquele que vem em nome do Senhor”, o Messias. Conforme o profeta é o rei pacífico. Poucos dias depois Jesus passa pelas ruas de Jerusalém, onde fora aclamado, com a cruz às costas. Agora é Ele que leva o peso do mundo, mas do mundo do mal. Vai ser coroado como rei das dores. Por suas chagas fomos curados. Pela humilhação da cruz tornou-se o Senhor. Na celebração dos Ramos e da leitura da Paixão, estamos resumindo a Semana Santa. Ele ressuscitará glorioso. www.radioaparecida.com.br |
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Na procissão do Domingo de Ramos, nós nos unimos à multidão de discípulos que, com alegria festiva, acompanhou o Senhor em sua entrada em Jerusalém. Com eles, louvamos o Senhor elevando a voz por todos os prodígios que vimos. Sim, também nós vimos e continuamos vendo os prodígios de Cristo: como ele leva homens e mulheres a renunciarem às comodidades da própria vida para colocar-se totalmente ao serviço dos que sofrem; como dá valor a homens e mulheres para opor-se à violência e à mentira, e dar espaço no mundo à verdade; como, no segredo, ele induz homens e mulheres a fazer o bem aos outros, a suscitar a reconciliação onde havia ódio, a criar a paz onde reinava a inimizade. A procissão é, antes de tudo, um gozoso testemunho que nós oferecemos a Jesus Cristo, aquele que tornou o Rosto de Deus visível, e por quem o coração de Deus se abre a todos nós. No Evangelho de Lucas, a narração do início do cortejo nos arredores de Jerusalém está composta seguindo, em alguns momentos literalmente, o modelo do rito de coroação com que, segundo o Primeiro Livro dos Reis, Salomão foi declarado herdeiro da realeza de Davi (cf. 1 Reis 1,33 - 35). Dessa forma, a procissão dos Ramos é também uma procissão de Cristo Rei: professamos a realeza de Jesus Cristo, reconhecemos Jesus como o Filho de Davi, o verdadeiro Salomão, o Rei da paz e da justiça. Reconhece-lo como Rei significa aceita-lo como quem nos indica o caminho, Aquele de quem nos fiamos e a quem seguimos. Significa aceitar, cada dia, sua palavra como critério válido para a nossa vida. Significa ver n’Ele a autoridade à qual nos submetemos. Nós nos submetemos a Ele porque sua autoridade é a autoridade da verdade. Antes de tudo, a procissão dos Ramos é, como foi naquela ocasião para os discípulos, uma manifestação de alegria, porque podemos conhecer Jesus, porque Ele nos permite ser seus amigos e porque nos deu a chave da vida. Esta alegria, que se encontra na origem, é também expressão do nosso «sim» a Jesus e da nossa disponibilidade para caminhar com Ele até onde ele nos levar. A exortação do início da nossa liturgia interpreta justamente o sentido da procissão, que é também uma representação simbólica do que chamamos de «seguimento de Cristo»: «Peçamos a graça de segui-lo», nós dissemos. A expressão «seguimento de Cristo» é uma descrição de toda a existência cristã em geral. Em que consiste? O que quer dizer concretamente «seguir Cristo»? No início, nos primeiros séculos, o sentido era muito simples e imediato: significa que essas pessoas haviam decidido deixar sua profissão, seus negócios, toda a sua vida para ir com Jesus. Significava empreender uma nova profissão: a de discípulo. O conteúdo fundamental dessa profissão consistia em ir com o mestre, confiar totalmente em seu guia. Dessa forma, o seguimento era algo exterior e ao mesmo tempo muito interior. O aspecto exterior consistia em caminhar detrás de Jesus em suas peregrinações pela Palestina; o interior, na nova orientação da existência, que já não tinha os mesmos pontos de referência nos negócios, na profissão, na vontade pessoal, mas que se abandonava totalmente na vontade do Outro. Colocar-se à disposição havia se convertido na razão de sua vida. A renúncia que isso implicava, o nível de desapego, nós o podemos reconhecer de maneira sumamente clara em algumas cenas dos Evangelhos. Assim fica claro o que significa para nós o seguimento e sua verdadeira essência: trata-se de uma transformação interior da existência. Exige que eu já não me feche no meu eu, considerando minha auto-realização como a razão principal da minha vida. Exige entregar-me livremente ao Outro pela verdade, pelo amor, por Deus, que em Jesus Cristo me precede e me mostra o caminho. Trata-se da decisão fundamental de deixar de considerar a utilidade, o lucro, a carreira e o êxito como o objetivo último da minha vida, para reconhecer, no entanto, como critérios autênticos a verdade e o amor. Trata-se de optar entre viver somente para mim ou entregar-me a algo maior. É preciso levar em consideração que a verdade e o amor não são valores abstratos; em Jesus Cristo eles se converteram em uma Pessoa. Ao segui-lo, eu me coloco ao serviço da verdade e do amor. Ao perder-me, volto a me encontrar.Voltemos à liturgia e à procissão dos Ramos. Nela, a liturgia prevê o canto do salmo 24 (23), que também em Israel era um canto de procissão, utilizado para subir ao monte do templo. O Salmo interpreta a subida interior da que era imagem a subida exterior e nos explica o que significa subir com Cristo: «Quem subirá ao monte do Senhor?», pergunta o salmo, e apresenta duas condições essenciais. Aqueles que sobem e querem chegar verdadeiramente até o cume, até a verdadeira altura, têm de ser pessoas que se perguntam por Deus. Pessoas que escrutam ao seu redor para buscar Deus, para buscar seu Rosto. Queridos jovens amigos, que importante é precisamente isso hoje: não podemos nos deixar levar de um lado para o outro na vida; não podemos nos contentar com o que todos pensam, dizem e fazem. É preciso escrutar e buscar Deus. Não podemos deixar que a pergunta por Deus se dissolva em nossas almas, o desejo do que é maior, o desejo de conhecê-lo, seu Rosto... Esta é outra condição sumamente concreta para a subida: só pode chegar ao lugar santo quem tem as «mãos limpas e o coração puro». Mãos limpas são aquelas que não comentem atos de violência. São mãos que não se sujaram com a corrupção, com os subornos. Coração puro, quando é puro o coração? Um coração é puro quando não finge e não se mancha com a mentira e com a hipocrisia. Um coração que é transparente como a água de um manancial, porque nele não há duplicidade. Um coração é puro quando não se extravia na embriaguez do prazer; um coração cujo amor é autêntico e não uma simples paixão do momento. Mãos limpas e coração puro: se caminhamos com Jesus, subimos e experimentamos as purificações que nos levam verdadeiramente a essa altura à qual o homem está destinado: a amizade com o próprio Deus. O salmo 24 (23), que fala da subida, conclui com uma liturgia de entrada ante a porta do templo: «Levantai, ó portas, os vossos dintéis! Levantai-vos, ó pórticos antigos, para que entre o rei da glória». Na antiga liturgia do domingo de Ramos, o sacerdote, ao chegar ante a igreja, tocava fortemente com a cruz da procissão a porta, que ainda estava fechada e que nesse momento se abria. Era uma bela imagem do mistério do próprio Jesus Cristo que, com o madeiro de sua cruz, com a força do seu amor, tocou, desde o lado do mundo, a porta de Deus; do lado de um mundo que não conseguia ter acesso a Deus. Com a cruz, Jesus abriu totalmente a porta de Deus, a porta entre Deus e os homens. Agora ela está aberta. Mas o Senhor também toca desde o outro lado com a sua cruz: toca as portas do mundo, as portas dos nossos corações, que com tanta freqüência e em tão elevado número estão fechadas para Deus. E nos fala mais ou menos dessa forma: se as provas que Deus te dá de sua existência na criação não conseguirem abrir-te a Ele; se a palavra da Escritura e a mensagem da Igreja te deixam indiferente, então, olha pra mim, que sou o teu Senhor e o teu Deus. Este é o chamado que nesse momento deixamos penetrar o nosso coração. Que o Senhor nos ajude a abrir a porta do coração, a porta do mundo, para que Ele, o Deus vivente, possa vir em seu Filho, ao nosso tempo, chegar à nossa vida. Amém. Bento XVI |
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Uma vez mais a liturgia nos apresenta um dos quatro cantos do servo sofredor. Desta vez é o terceiro canto. Quem é este personagem misterioso? Poderia ser o povo de Israel, uma pessoa anônima, talvez, até mesmo o profeta, ou quem sabe, simbolizaria o Israel messiânico, o Messias futuro! O certo é que o Primeiro Testamento vê claramente em Jesus a realização perfeita dos quatro cantos do Servo de Javé. Jesus é o Servo humilhado pelos homens e exaltado por Deus. A missão do Servo é "mostrar à custa das ofensas recebidas que o amor de Jesus é perene. Os exilados não precisam lamentar o aparente abandono de Javé, pois seu amor é eterno". Qual a atitude de Javé para com o Servo? Dá-lhe a capacidade de falar para levar o conforto ao povo. Abre-lhe os ouvidos para que aprendendo como discípulo possa transmitir ao povo os ensinamentos de Deus. O Servo é um discípulo dócil e aplicado. Javé por fim lhe dá proteção. Quer dizer Javé prepara seu povo para a missão no meio do seu povo. Qual é a atitude do Servo fiel à missão recebida? É uma atitude de impressionante humildade, resignação e entrega total. Ele não oferece resistência àqueles que o torturam (dá as costas); submete-se a uma profunda humilhação deixando-se arrancar a barba, entregando seu rosto aos ultrajes e cuspidas. A ignomínia não derruba o Servo. Ele conserva o seu rosto duro, quer dizer, para manter sua função de fiel discípulo e cumpridor de sua missão de Servo, ele não leva em conta as numerosas ofensas recebidas. Ele tem certeza que o Senhor Deus lhe presta auxílio. Ele tem certeza que não sairá frustrado. Israel é convidado a ter esta esperança e certeza do Servo. Diante de tudo o que aconteceu com Jesus, Servo de Javé e Nosso Senhor, nossa certeza e esperança são inabaláveis. São estes os nossos sentimentos de cristão diante do sofrimento? 2º leitura - Fl. 2,6 - 11 Este hino sintetiza a história de Jesus: o mistério de sua encarnação, morte e glorificação. Vemos primeiro um movimento descendente (vv. 6 - 8). É o gesto radical do Filho, seu mergulho mais profundo nas águas sujas da miséria humana. Jesus assumiu a condição dos mais excluídos: Deixou sua condição divina, seu modo glorioso de vida (v. 6) e praticamente tornou-se um nada (aniquilou-se a si mesmo). É o mistério da encarnação. Por solidariedade com os mais excluídos assumiu a condição de Servo, homem a serviço, homem sofredor (v. 7). O v. 8 refere-se a sua humildade e humilhação, à sua obediência perseverante, uma obediência até à morte e morte violenta, injusta, assassina. Jesus aceitou ser rejeitado, um excluído, o último da sociedade. Os que o excluíram e assassinaram continuam criminosos até hoje representados pelos que se consideram grandes, donos do poder, da política, donos do mundo. Em segundo lugar vemos um movimento ascendente. É a ação do Pai que glorifica o Filho (vv. 9 -11). É uma alusão ao mistério de sua ressurreição e ascensão. Em relação à primeira parte o texto lembra a síntese do mistério cristão anunciado por Jesus: "Quem se humilha será exaltado, quem se exalta será humilhado". O Pai exalta o Filho, glorifica-o, dá-lhe o Nome que está acima de todo o nome, restitui-lhe a condição divina anterior, glorificando também sua humanidade (v. 9). A ele todos, absolutamente todos, devem a honra e a adoração; os que estão nas alturas celestes, os que estão sobre a terra e os que estão debaixo da terra. Todos os seres criados estão submetidos ao nome de Jesus (v. 10). Deus Pai confere a Jesus o nome de "Senhor". É sua identidade de ressuscitado. Jesus, glorificado pelo Pai, tornou-se Senhor de tudo e de todos. Por isso toda a língua, quer dizer, todo mundo deve confessar o senhorio de Jesus para a glória de Deus Pai (v. 11). Com este hino, Paulo nos convida a termos os mesmos sentimentos de Jesus (v. 5): desapego, humildade, obediência e entrega total a serviço dos excluídos. "Quem se humilha será exaltado". Se Deus nos chamasse hoje, estaríamos em condição de sermos exaltados? Evangelho - Lc. 22,14 - 23,56 Vamos seguir o itinerário de Jesus no relato da paixão. Em Jesus se realizará a profecia do Servo sofredor. Ali acontecerá o aniquilamento total do Filho de Deus (Fl. 2,6 - 8). O alto do calvário é o ponto mais baixo que Jesus alcançou no seu mergulho na miséria humana. É o seu encontro solidário com os mais excluídos. Depois do calvário começa o movimento ascendente (Fl 2,8 - 11) daquele que desceu para resgatar os excluídos. Seu êxodo termina na casa do Pai como Senhor glorificado. A paixão começa com a Eucaristia (vv. 14ss), onde Jesus se doa, antecipadamente, no pão e no vinho consagrados. Ali, Jesus anuncia a traição de Judas e ensina que o maior é aquele que serve, que faz o que Jesus está fazendo, que é capaz de doar a própria vida (Fl 2,7-8). Jesus anuncia a traição de Pedro (vv. 31ss) apesar de ter rezado tanto por ele e apesar de sua boa vontade. Jesus tem consciência de sua morte na cruz e diz simbolicamente que a vida cristã é uma luta (vv. 35ss). Em seguida Jesus se dirige para o monte das Oliveiras e se põe a rezar, mas está pronto a realizar a vontade do Pai. Sua oração foi intensa. Jesus estava angustiado. Duas vezes adverte os discípulos a rezarem para não caírem em tentação (vv. 39ss). Os vv. 47-53 narram a traição de Judas e a prisão de Jesus. Em seguida temos o episódio da negação de Pedro na casa do Sumo Sacerdote (vv. 54ss). Jesus começa a realizar nos pormenores a profecia do Servo Sofredor. Pela manhã Jesus foi levado ao tribunal judeu (= Sinédrio), onde ele se revela o Filho de Deus (vv. 63 - 71). Depois é conduzido a Pilatos, onde o enchem de acusações e em seguida a Herodes, mas ali permanece em silêncio (23,1 - 12). Então ele é re-enviado a Pilatos que o declara inocente, mas os judeus pedem a sua morte e Pilatos acaba cedendo (23,13 - 25). Jesus leva sua cruz ao calvário com a ajuda de Nicodemos. Depois Jesus é crucificado e, antes de morrer, perdoa seus algozes e promete o paraíso a um dos dois criminosos que foram crucificados com ele (vv. 36ss). Às 15 horas Jesus morre para a salvação de todos. Representando os povos pagãos um oficial romano reconhece que Jesus era justo. Por fim Jesus é sepultado por José de Arimatéia. Eis o drama do Servo Sofredor e Redentor dos homens. dom Emanuel Messias de Oliveira |
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Irmãos e irmãs. Com o Domingo de Ramos e da Paixão do Senhor, inicia-se a Semana Santa, que os antigos cristãos chamavam Grande Semana. Neste dia, a Igreja celebra dois mistérios bem distintos e complementares: 1. a entrada solene de Jesus em Jerusalém para celebrar sua última e definitiva Páscoa e 2. a sua Paixão e morte. A entrada é celebrada com a bênção dos ramos e a procissão; a paixão e morte é celebrada na missa. Então, não existe uma Missa de Ramos; de ramos é a Procissão; a Missa é da Paixão do Senhor. Isso tem um motivo histórico. Em Roma, não havia uma Semana Santa. Celebrava-se no sexto domingo da Quaresma a Paixão e Morte de Cristo e, no domingo seguinte, a Páscoa do Senhor. Somente no século XI é que a procissão de Ramos, costume nascido em Jerusalém, passado para a Espanha e, depois, para a Gália (atual França), chegou a Roma, entrando na liturgia romana. Deste modo, hoje, relembramos e celebramos a entrada triunfal de Jesus Cristo em Jerusalém, poucos dias antes de sofrer a Paixão, Morte e Ressurreição. Este domingo é chamado assim porque o povo cortou ramos de árvores, ramagens e folhas de palmeiras para cobrir o chão onde Jesus passava montado num jumento. Com folhas de palmeiras nas mãos, o povo o aclamava “Rei dos Judeus”, “Hosana ao Filho de Davi”, “Salve o Messias”... E assim, Jesus entra triunfante em Jerusalém despertando nos sacerdotes e mestres da lei muita inveja, desconfiança, medo de perder o poder. Começa então uma trama para condenar Jesus à morte e morte de cruz. O povo o aclama cheio de alegria e esperança, pois Jesus como o profeta de Nazaré da Galiléia, o Messias, o Libertador, certamente para eles, iria libertá-los da escravidão política e econômica imposta cruelmente pelos romanos naquela época e, religiosa que massacrava a todos com rigores excessivos e absurdos. Mas, essa mesma multidão, poucos dias depois, manipulada pelas autoridades religiosas, o acusaria de impostor, de blasfemador, de falso messias. E incitada pelos sacerdotes e mestres da lei, exigiria de Pôncio Pilatos, governador romano da província, que o condenasse à morte. Por isso, na celebração deste domingo, proclamamos dois evangelhos: o primeiro que narra a entrada festiva de Jesus em Jerusalém fortemente aclamado pelo povo; depois o Evangelho da Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo, onde são relatados os acontecimentos do julgamento de Cristo. Julgamento injusto com testemunhas compradas e com o firme propósito de condená-lo à morte. Antes, porém, da sua condenação, Jesus passa por humilhações, cusparadas, bofetadas, é chicoteado impiedosamente por chicotes romanos que produziam no supliciado, profundos cortes com grande perda de sangue. Só depois de tudo isso que, com palavras é impossível descrever o que Jesus passou por amor a nós, é que Ele foi condenado à morte, pregado numa cruz. O domingo de Ramos pode ser chamado também de “Domingo de Ramos e da Paixão do Senhor”, nele, a liturgia nos relembra e nos convida a celebrar esses acontecimentos da vida de Jesus que se entregou ao Pai como Vítima Perfeita e sem mancha para nos salvar da escravidão do pecado e da morte. Crer nos acontecimentos da Paixão, Morte e Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo, é crer no mistério central da nossa fé, é crer na vida que vence a morte, é vencer o mal, é também ressuscitar com Cristo e, com Ele Vivo e Vitorioso viver eternamente. É proclamar, como nos diz São Paulo: ‘“Jesus Cristo é o Senhor”, para a glória de Deus Pai’ (Fl. 2,11). diácono permanente José da Cruz |
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Estamos iniciando a Semana Santa e celebraremos os mistérios de nossa fé: a paixão, a morte e a ressurreição de Jesus Cristo. A Palavra de Deus neste domingo, nos convida a fazer o caminho com Jesus que vai do carregar a Cruz ao Ressuscitar dos mortos. A primeira leitura Is. 50,4 - 7 nos lembra a confiança que o profeta tem em Deus e o quanto é importante afirmar para todo o sempre que Deus não nos abandona. Chamando-nos pelo nome, Deus nos assiste com sua graça e não permite que sejamos enganados e humilhados. Ele é o nosso defensor. Ao Iniciarmos a Semana Santa, devemos olhar para a trajetória de Jesus que o levou à cruz. Neste Domingo de Ramos, a liturgia nos apresenta Jesus que entra solenemente em Jerusalém aclamado pelo povo que o chama de Rei, Filho de Davi e grita aos quatro ventos: “Bendito aquele que vem em nome do senhor, hosana nas alturas“. O Profeta Isaias nos recorda que jamais seremos colocados de lado por Deus que nos orienta, guia e acompanha. “O Senhor Deus é meu Auxiliador,“ (Is. 5,7). A Encarnação de Jesus se deu no silencio da casa de Maria. Seu nascimento se deu no despojamento da gruta de Belém. Sua trajetória da infáncia à vida adulta foi também silenciosa com raros sinais públicos, mas, certamente com muitos sinais de vida plena para o pequeno grupo de Nazaré que com Ele convivia. Quando chega a hora de manifestar-se ao mundo, não o faz com glória e na euforia. Procura o Batismo de João, programa sua missão e a assume, chamando para seus companheiros, homens simples e desprezados de seu tempo, pescadores, cobradores de impostos e outros mais. Sua vida se deu na humildade, e esta foi a sua marca. Posicionou-se claramente para mostrar que o Reino de Deus era de Justiça e de verdade, que era dos pequenos e pobres, que era um tesouro encontrado que valia a pena vender tudo, deixar tudo, abandonar tudo para adquirí-lo. Em momento nenhum apegou-se à condição divina para colocar-se acima dos outros. Em tudo se fez obediente até a morte e morte de cruz. É isso que nos diz a segunda leitura (Fl. 2,6 - 11). “Jesus Cristo, existindo em condição divina, não fez do ser igual a Deus uma usurpação, mas ele esvaziou-se a si mesmo, assumindo a condição de escravo e tornando-se igual aos homens.“ A semana santa nos traz este compromisso e nos convida a esta espiritualidade vivencial: somos homens e mulheres criados por Deus para na humildade, na fraternidade e na firmeza de propósitos contribuirmos com a construção do Reino entre nós. Também é tempo de sabermos qual a nossa estatura, quem somos e o que podemos. Só não podemos nos esquecer que o caminho do Cristo e de seu Reino o levou à cruz e não nos levará ao aplauso e ao sucesso. O Cristo incomodou com sua vida a realidade de seu tempo, e, nós não podemos fazer diferente. A CF nos fez refletir, por exemplo, que há uma outra economia possível, que não podemos dar as mãos a esta economia que exclui muita gente e que tira a oportunidade das pessoas. Há uma outra a ser construída que deve ser uma Economia de Comunhão, uma Economia Solidária, uma Economia de Inclusão. As Igrejas escreveram no texto base, que precisamos rever inclusive os nossos próprios acúmulos. Disse também o que vem sendo repetido há décadas, que não se pode ter uma economia que escraviza as pessoas, que as leva ao consumismo, que as desumaniza, que transforma o dinheiro em deus. “Vós não podeis servir a Deus e ao dinheiro”. Lembremo-nos de Cristo que foi para a Cruz, não porque Deus Pai assim o quisesse (Deus não pode querer a morte de cruz para seu filho, nem a morte das filas dos hospitais, nem a morte da violência no trânsito ou no tráfico, nem a morte por fome, nem a morte por falta de oportunidade). Deus é Pai! Lembremo-nos disso sempre. “Se nós que somos homens queremos o bem para nossos filhos, imaginem Deus que é Pai e que nos ama!” Jesus morreu na cruz porque incomodou a sociedade de seu tempo e fez disso o caminho para nossa salvação. Sua cruz é redentora sim porque assim ele a assumiu. Lembremos da moeda a César: “daí a César o que é de César e a Deus o que é de Deus.” Esta frase é de incômodo e precisa ser repetida hoje. O Ser Humano não existe para servir à Economia. Ela, a Economia é que deve estar a serviço da vida. Isso incomoda ainda hoje e o mundo, de modo especial os pobres preferidos de Deus, esperam uma resposta concreta das igrejas. O Evangelho deste domingo é o da paixão: Mt. 27,11 - 54. Sempre que o tenho à frente dos olhos e do coração, penso que a Cruz pela Cruz não tem o menor sentido, mas, que a Cruz de Jesus é carregada de significados porque é redentora, salvadora, libertadora. Ela não é um acaso. Jesus não foi a ela por engano. Sua vida a construiu. Suas opções o levaram a ela. Penso então que minha cruz não precisa ser em vão. Penso que a cruz trazida pelo abandono, pela fome, pelo analfabetismo, pela falta de moradia, pela exclusão, pela intolerância, pela falta de fé e de comunhão não é e nem nunca foi desejo de Deus que é um Pai amoroso, e penso que esta cruz pode ser carregada de sentido, de significado, pode ser redentora, salvadora, libertadora. BENDITO O QUE VEM EM NOME DO SENHOR" (Mt. 21,9) Reimont Luiz Otoni Santa Bárbara |
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A liturgia do Domingo de Ramos nos ajuda a celebrar dois acontecimentos: por um lado, a entrada de Jesus em Jerusalém, acolhido pelo povo que o aclamava com fé e com alegria; e, por outro, o início da Semana Santa, na qual Jesus realiza a salvação do mundo com o seu amor e o seu sacrifício da Cruz. Eis a razão pela qual neste domingo lemos o comovente relato da Paixão de Jesus segundo Lucas, o qual será novamente proclamado na sexta-feira santa na versão de João. Entrando em Jerusalém, Jesus é acolhido e aclamado pelo povo como Messias, “Bendito o rei, que vem em nome do Senhor! Paz no céu e glória nas alturas!”. É a confissão alegre da nossa fé. A nossa fé é sempre luz, vida, força, alegria. Aquelas pessoas conduzidas a Cristo, talvez inspiradas e mensageiras da verdadeira fé da humanidade que esperava o Messias, encontram Jesus, celebram, o aclamam com ramos de palmeira. Jesus gosta desta acolhida e desta fé, ele mesmo decidiu entrar em Jerusalém não mais a pé, mas montado num jumentinho. Que humildade! Ele é verdadeiramente o Salvador, o Filho de Deus, vindo ao mundo para nos trazer o amor e a misericórdia do Pai. Também nós queremos viver este dia renovando toda a nossa fé, o nosso fervor, o nosso afeto a Jesus. Mas é também um momento de contrastes. Jesus gosta da acolhida, mas sabe que a sua glória acontecerá quando for pregado numa cruz: a sua grandeza é o seu amor infinito, o que o leva a doar a vida por todos. Enquanto o povo o aclama, os inimigos se preparam para capturá-lo a fim de condená-lo à morte. Jesus sabe que vai ao encontro da sua hora, ele veio para isso! E ainda que humanamente sinta uma terrível angústia no horto das oliveiras, ele sabe invocar e cumprir a vontade do Pai, que é o verdadeiro bem para ele e para todos nós. Nesta missa de Ramos, que abre a Semana Santa, combina e muito a leitura do relato da paixão e morte do Senhor. Pois, neste relato se concentra todo o mistério do amor de Deus, do pecado do homem, da salvação que Jesus nos faz merecer. O texto da paixão do Senhor não tem necessidade de ser comentado: é o relato dos fatos através dos quais chegou a cada um de nós a Redenção. Todo o mal, que se realiza sobre a terra, de alguma forma é concentrado naqueles fatos: a violência, a sede de poder, a inveja, a traição dos amigos, a covardia, a bajulação dos poderosos, a maldade, o insulto à dignidade humana, as insinuações, a mentira e todo tipo de maldade que as pessoas cometem, tudo parece estar presente na paixão de Jesus. O paradoxo é que esta dor, este sofrimento foi aceito e este mal foi relevado, tornou-se nas mãos de Deus o instrumento pelo qual ele nos salvou. O amor de Deus venceu este mal e o tornou redenção. Reunir, como faz a celebração de hoje, as duas atitudes da multidão que antes o aclama e depois o condena, nos faz perceber como é fácil esquecer o amor de Deus, deixar-se conduzir pelo pecado, rejeitar o Senhor. Percebemos isto nas pessoas, mas também em Pedro e nos outros apóstolos. O texto da paixão ressalta a traição de Pedro, quando Jesus anuncia durante a ceia e quando Pedro o nega por três vezes diante da serva. Se formos confrontar a traição de Pedro àquela de Judas, vemos que Pedro, depois de ter negado Jesus, caiu num pranto, Judas depois da traição, foi enforcar-se. Pedro teve confiança na misericórdia de Deus, enquanto Judas não, se desesperou. Também cada um de nós, muitas vezes, caímos na tentação, no medo, no egoísmo, no pecado, como Pedro e como Judas. Temos, porém, de seguir o exemplo de Pedro: acreditar em Deus, no seu amor infinito, na sua misericórdia sem limites. O amor de Deus, mostrado na cruz é a nossa plena, contínua e eterna salvação! Mesmo quando pecamos gravemente, e sentirmos o peso do nosso pecado, saibamos que Deus é maior do que o nosso pecado, e veio justamente para “tirar” os nossos pecados, para nos dar alegria e os frutos do seu amor. Que esta mensagem nos ajude a celebrar com profunda fé os sacramentos pascais, a viver a semana santa em união com a paixão de Cristo, fazendo nossos os mesmos sentimentos que existiram em Jesus, e implorando a graça e a força da sua morte e ressurreição para todos nós.
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Neste dia, se entrecruzam as duas tradições litúrgicas que deram origem a esta celebração: a alegre, grandiosa, festiva liturgia da Igreja mãe da cidade santa, que se converte em mímesis, imitação dos que Jesus fez em Jerusalém, e a austera memória - anamnese - da paixão que marcava a liturgia de Roma. Liturgia de Jerusalém e de Roma, juntas em nossa celebração. Com uma evocação que não pode deixar de ser atualizada. Vamos, com o pensamento, a Jerusalém, subimos ao monte das Oliveiras para recalar na capela de Betfagé, que nos lembra o gesto de Jesus, gesto profético, que entra como Rei pacífico, Messias aclamado primeiro e depois condenado, para cumprir em tudo as profecias. Por um momento as pessoas reviveram a esperança de ter já consigo, de forma aberta e sem subterfúgios aquele que vinha em nome do Senhor. Ao menos assim o entenderam os mais simples, os discípulos e as pessoas que acompanharam ao Senhor Jesus, como um Rei. São Lucas não falava de oliveiras nem de palmas, mas de pessoas que iam acarpetando o caminho com suas roupas, como se recebe a um Rei, gente que gritava: 'Bendito o que vem como Rei em nome do Senhor. Paz no céu e glória nas alturas'. Palavras com uma estranha evocação das mesmas que anunciaram o nascimento do Senhor em Belém aos mais humildes. Jerusalém, desde o século IV, no esplendor de sua vida litúrgica celebrada neste momento com uma numerosa procissão. E isto agradou tanto aos peregrinos que o oriente deixou marcada nesta procissão de ramos como umas das mais belas celebrações da Semana Santa. Com a liturgia de Roma, ao contrário, entramos na Paixão e antecipamos a proclamação do mistério, com um grande contraste entre o caminho triunfante do Cristo do domingo de Ramos e o 'via crucis' dos dias santos. Entretanto, são as últimas palavras de Jesus no madeiro a nova semente que deve empurrar o remo evangelizador da Igreja no mundo. 'Pai, em tuas mão eu entrego o meu espírito'. Este é o evangelho, esta a nova notícia, o conteúdo da nova evangelização. Desde um paradoxo este mundo que parece tão autônomo, necessita que lhe seja anunciado o mistério da debilidade de nosso Deus em que se demonstra o cume de seu amor. Como o anunciaram os primeiros cristãos com estas narrações longas e detalhistas da paixão de Jesus. Era o anúncio do amor de um Deus que desce conosco até o abismo do que não tem sentido, do pecado e da morte, do absurdo grito de Jesus em seu abandono e em sua confiança extrema. Era um anúncio ao mundo pagão tanto mais realista quanto mais com ele se poderia medir a força de sua Ressurreição. A liturgia das palmas antecipa neste domingo, chamado de páscoa florida, o triunfo da ressurreição, enquanto que a leitura da Paixão nos convida a entrar conscientemente na Semana Santa da Paixão gloriosa e amorosa de Cristo o Senhor. www.fatima.com.br |
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Nesta narrativa da Paixão, todos os homens se comportam de uma maneira que contradiz a sua vontade. Ninguém faz e nem diz o que realmente pensa. Pedro não quer renegar o seu Mestre, mas o faz por medo de uma empregada; Pilatos lava as mãos e pressionado pelo povo acaba sendo um joguete em suas mãos; Judas o trai por trinta dinheiros, mas pelas suas últimas palavras amaria salvá-Lo: “Pequei, entregando à morte um inocente”(Mt 24, 4). O profeta Isaías exclamava: “Ai dos que tomam as trevas por luz e a luz por trevas”(Is 5, 20). Ainda hoje promovemos louvores e manifestações de massa em que um aglomerado de pessoas, exultando com gritos de euforia, desconsidera que os cristãos conhecem apenas um Rei e Messias: aquele que foi proscrito, rejeitado e crucificado por todos. O Reino de amor, de justiça e de paz continuará infinitamente frágil e ameaçado enquanto consentirmos em nossos corações neste impulso perverso de dominação sobre os mais fracos. Nós cristãos, mais do que os outros, devemos fazer o máximo para aniquilar a miséria atual e futura da humanidade e nos indagarmos: que tipo de existência individual e coletiva queremos, que não se feche na busca vã de uma “felicidade” reduzida à maximização do prazer, do poder, do dinheiro, do corpo ou do conforto? De onde deriva o fato de que as condições de acesso ao bem-estar tenham se transformado em fins tirânicos? Escutemos nosso pastor, o papa Bento XVI: “Por detrás da aparente solidariedade dos modelos de progresso escondeu-se e, com freqüência, ainda se esconde, a vontade de ampliar o âmbito do próprio poder, da própria ideologia e do próprio domínio de mercado. Neste contexto perpetraram-se destruições das antigas estruturas sociais, destruições das forças espirituais e morais. Como se poderia realizar um desenvolvimento social se nos tornamos analfabetos em relação a Deus? As religiões são consideradas como um resíduo arcaico que devemos aniquilar e que nada tem a ver com a verdadeira grandeza do progresso. De fato, uma unidade que seja construída sem Deus ou até contra ele, termina como a experiência da Babilônia: na confusão e na destruição total, no ódio e na opressão de todos contra todos “. Neste domingo de Ramos, sejamos como o jumentinho e desatados de todos os nós que nos prendem, sobretudo, os do escrúpulo, da ignorância e da superstição, não desperdicemos as nossas vidas, mas façamos delas marcos de fraternidade e gratuidade ainda que, como Jesus, o padecimento nos espere a fim de “completar, a favor de seu corpo que é a Igreja, o que falta aos sofrimentos de Cristo (Col. 1,24)”. Manos da Terna Solidão |
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Com o domingo de Ramos, iniciamos a Semana Santa. A entrada triunfal de Jesus em Jerusalém marca o fim daquilo que Jerusalém representava para o Antigo Testamento e assinala o início da nova Jerusalém, a Igreja, que se estenderá por todo o mundo como um sinal universal da futura redenção. Na Igreja primitiva a celebração desse domingo focalizava aspectos diferentes: em Roma, o tema central era a Paixão do Senhor; em Jerusalém, era a Entrada triunfal de Jesus, destacando a Procissão dos ramos. Atualmente, as duas tradições se integram numa única celebração: - por isso, a celebração começa com o rito da bênção dos ramos; - a leitura da entrada triunfal de Jesus em Jerusalém e a procissão; - termina com a celebração da Eucaristia, com a proclamação da Paixão. + Na 1ª parte, nos unimos ao Povo de Jerusalém, que aclama alegre e feliz: "Hosana ao Filho de Davi". O Povo estende seus mantos a Jesus que passa, montado num burrinho, e com entusiasmo o saúda com ramos nas mãos. Os fariseus reclamam dessa agitação "exagerada". E Jesus responde: "Se eles se calarem, as pedras gritarão..." É a entrada do "Príncipe da Paz", que esconde os trágicos acontecimentos da paixão. + A 2ª parte nos introduz na Semana Santa. A 1ª leitura apresenta a missão do "Servo Sofredor", que testemunhou no meio dos povos a Palavra da Salvação. Apesar do sofrimento e da perseguição, o Profeta confiou em Deus e realizou o Plano de Deus. (Is. 50,4 - 7) Os primeiros cristãos viram nesse "Servo" a figura de Jesus. O Salmo tem grande importância: é mencionado por Cristo na Cruz: "Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?" A 2ª leitura é um hino, que apresenta o "despojamento" de Jesus. Humilhou-se até a morte de cruz como o Servo de Javé, mas foi glorificado como Filho de Deus na Ressurreição. (Fl. 2,6 - 11) O Evangelho convida-nos a contemplar a Paixão e Morte de Jesus, segundo a narrativa de são Lucas. (Lc. 22,1 - 49) + O sentido da Paixão e Morte de Jesus: a morte de Jesus deve ser entendida no contexto daquilo que foi a sua vida. Desde cedo, Jesus percebeu que o Pai o chamava a uma missão: anunciar a Boa Nova aos pobres e pôr em liberdade os oprimidos. Para concretizar este projeto, Jesus passou pelos caminhos da Palestina, "fazendo o bem" e anunciando um mundo novo de vida, de liberdade, de paz e de amor para todos. - Ensinou que Deus era amor e não excluía ninguém, nem os pecadores; - ensinou que os pobres e os marginalizados eram os preferidos de Deus; - avisou os “ricos” e os poderosos, de que o egoísmo e o orgulho, só podiam conduzir à morte. O projeto libertador de Jesus entrou em choque com as autoridades, que se sentiram incomodadas com a denúncia de Jesus: não estavam dispostas a renunciar poder, influência, domínio, privilégios. Por isso, prenderam Jesus, julgaram-no, condenaram-no e pregaram-no na cruz. A morte de Jesus é a conseqüência do anúncio do Reino que provocou tensões e resistências. DADOS EXCLUSIVOS DE LUCAS - Só Lucas põe Jesus dizendo: "fazei isto em memória de mim". Não é apenas repetir as palavras de Jesus sobre o Pão e o Vinho, mas também a entrega de Jesus, a doação da vida por Amor. - Apresenta a discussão sobre quem era o "maior". Jesus avisa que o "maior" é aquele que serve. - Apresenta seu exemplo e convoca os discípulos a fazerem o mesmo. - No Jardim das Oliveiras, acentua a fragilidade humana de Jesus. Fala do anjo, do suor de sangue e da submissão total ao projeto do Pai. - Aparece a Bondade e a Misericórdia de Deus em gestos concretos: . Cura do guarda ferido por Pedro... . As Palavras na Cruz: "Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem". . Ao bom ladrão: "Ainda hoje estarás comigo no paraíso". . Preocupa-se com as mulheres que choram sua morte: "Chorai antes... sobre vós... e sobre vossos filhos". - Simão de Cirene carrega a cruz "atrás de Jesus". Modelo do discípulo, que toma a cruz de Jesus e o segue no seu caminho... + Celebrar a Paixão e Morte de Jesus é abismar-se na contemplação de um Deus a quem o amor tornou frágil... Por amor, ele veio ao nosso encontro, assumiu os nossos limites, experimentou a fome, o sono, o cansaço, conheceu a mordedura das tentações, tremeu perante a morte, suou sangue antes de aceitar a vontade do Pai; e, estendido no chão, esmagado contra a terra, traído, abandonado, incompreendido, continuou a amar. Contemplar a Cruz onde se manifesta o amor de Jesus: - Significa assumir a mesma atitude de amor, de entrega e solidarizar-se com os que continuam sendo crucificados... - Significa denunciar tudo o que gera ódio, divisão, medo... - Significa evitar que os homens continuem a crucificar outros homens. - Significa aprender com Jesus a entregar a vida por amor... + Somos convidados a começar a Semana Santa, com um novo ardor... Que o grito de alegria de hoje, não se converta em "crucifica-o", na sexta feira. Que os ramos, que são brotos novos de propósitos santos, não murchem nas mãos e se convertam em ramos secos. Caminhemos até a Páscoa com amor. + Levamos hoje para casa ramos bentos, como lembrança dessa celebração. não devem ser vistos como algo folclórico, como amuletos da sorte ou de proteção contra os perigos, mas algo sagrado, que levamos para casa como um sinal visível do compromisso assumido de seguir Jesus no caminho ao Pai. A presença dos ramos em nossos lares deve ser uma lembrança de que hoje aclamamos a Jesus, como nosso Rei, e que desejamos aclamá-lo durante toda a nossa vida, como nosso Salvador. padre Antônio Geraldo Dalla Costa |
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No contexto da ceia pascal e à mesa - lugar de comunhão e de fraternidade -, ocorrem duas situações de não‑comunhão, atestando que os discípulos ainda não haviam entendido a proposta do Mestre. Judas é excluído do grupo por não formar comunhão. Ele recebe a herança que lhe cabe (um pedaço de pão) e parte para a missão contrária à qual fora convidado. Enquanto o traidor partia para seu destino, no interior da comunidade dos discípulos, arma‑se a disputa pelos primeiros lugares. Jesus adverte que tal atitude não faz parte de uma autêntica comunidade eucarística, memorial da nova Aliança e do banquete do Reino, do qual participará quem for solidário e generoso no serviço. Os discípulos terão que dar continuidade à missão e haverão de passar pela provação da cruz. Advertindo Pedro, Jesus alerta o grupo sobre sua fraqueza humana, a falta de perseverança e o agir em vista dos próprios interesses. No Jardim das Oliveiras, Jesus se entrega à oração confiando ao Pai seus temores e seus medos. Todavia, pede que não se cumpra a própria vontade, mas a dEle. Nessa hora em que mais precisa da solidariedade e do apoio dos amigos de caminhada, os discípulos dormem. Estão completamente desligados da crucial situação pela qual o Mestre está passando. Por conseqüência, na hora da traição e da prisão, todos fogem, abandonando‑o nas mãos dos malvados. Um simples olhar de Jesus denuncia Pedro, que sai e chora amargamente sua queda. O silêncio dói mais que qualquer palavra. Depois de ser preso e torturado pelos inimigos que agem nas sombras da noite, Jesus é acusado de blasfemar contra Deus. Diante da autoridade civil e religiosa, afirma sua identidade de Filho de Deus. O Sinédrio, vencido pelas respostas de Jesus e não encontrando nele matéria que o condenasse, busca motivos políticos para condená‑lo. Jesus é enviado a Pilatos. Este também não encontra causa suficiente para condená‑lo. Diante da falsidade de Herodes, o Mestre se mantém em silêncio. O retorno a Pilatos atesta sua absoluta inocência. Isso intriga ainda mais os chefes do povo, que exigem de Pilatos, a qualquer preço, a condenação de Jesus. O procurador romano, não sabendo o que fazer, lembrou‑se da tradição pascal e propôs a libertação de um prisioneiro, imaginando que Jesus seria preterido pelo povo. Sublevada por seus chefes, a multidão pediu a liberdade do bandido Barrabás e a condenação de Jesus à morte. A caminho do Calvário, completamente esgotado em suas forças, Jesus não consegue carregar a "cruz da humanidade". É ajudado por um trabalhador e consolado pelas mulheres. Crucificado entre dois ladrões e injuriado por seus algozes, nada mais lhe resta. Sua identidade, fama e dignidade já haviam sido roubadas. Suspenso entre o céu e a terra, em um supremo gesto de Rei em favor dos servos, garante ao ladrão arrependido: "Hoje mesmo você estará comigo no Paraíso". Do alto da cruz, o Filho de Deus revela‑se como dom de Salvação. O sol se escurece, e Jesus, inteiramente obediente à vontade divina, faz de si mesmo oferenda perfeita entregando seu espírito ao Pai. O oficial do exército (um pagão), glorificando a Deus, declara: "De fato! Esse homem era justo!". A humanidade reconhece a inocência do justo sentenciado pela injustiça dos homens. E se abre para uma mudança de atitude. frei Faustino Paludo, OFM Cap. |
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Se o sangue de Cristo não se derramasse, o mundo não seria remido Ainda não chegara a sua hora (Jô. 7,30), não a hora em que seria obrigado a morrer, mas consentiria em morrer. Bem sabia quando deveria fazê-lo, pois conhecia todas as profecias a seu respeito, e esperava que se cumprissem todas as coisas preditas para antes de sua paixão, a fim de que, quando fossem realizadas, ela então tivesse início, segundo a ordem (por ele) estabelecida, não por fatalidade. Escutai e constatai vós próprios. Entre as coisas profetizadas a seu respeito, está escrito: Deram-me fel como alimento e ofereceram-me vinagre em minha sede (Sl. 68,22). Sabemos pelo Evangelho como isto se realizou. Primeiro, deram-lhe fel: tomou, provou, cuspiu; depois, pendente na cruz, para que se realizasse o que fora predito, exclamou: Tenho sede; tomaram então uma esponja embebida em vinagre, ataram-na a uma cana, e apresentaram-na ao que pendia na cruz. Ele tomou e disse: Tudo está consumado (cf. Jô. 19,28 - 30). Que significa: Tudo está consumado? Todas as coisas que foram profetizadas antes da minha paixão se realizaram; então, o que ainda faço na terra? Finalmente, depois de ter dito, tudo está consumado, ele, inclinando a cabeça, entregou o espírito (Jô. 19,30). Porventura os ladrões, crucificados ao seu lado, morreram quando quiseram? Estavam presos pelos laços da carne, porque não dominavam sua fraqueza. O Senhor, pelo contrário, quando quis, fez-se carne nas entranhas da Virgem; quando quis, veio ao encontro dos homens; enquanto quis, viveu no meio deles; quando quis, separou-se da carne. Tudo isto por poder e não por necessidade. Esperava, pois, esta hora, não fatal, mas oportuna e querida, para que se realizasse primeiro tudo que devia realizar-se antes de sua paixão. Pois, como podia estar sujeito ao destino, aquele que dissera: Tenho poder de dar a minha vida, e tenho poder de retomá-la; ninguém me pode retirá-la, mas eu a dou por mim mesmo, como tenho o poder de reassumi-la (cf. Jo 10,17 - 18)? Mostrou tal poder quando os judeus o procuravam para prendê-lo: A quem procurais?, perguntou. E eles: Jesus. Respondeu ele: Sou eu. Ouvida esta voz, recuaram e caíram por terra (Jô. 18,4 - 6). Alguém dirá: se nele havia tal poder, por que, quando os judeus o insultavam pendente na cruz e diziam: Se és o Filho de Deus, desce da cruz (Mt. 27,40), não desceu para mostrar o que podia? Adiava a manifestação do seu poder quem ensinava a paciência. Se descesse movido pelas palavras dos inimigos, julgariam que fora vencido pela dor dos insultos. De fato, não desceu, mas permaneceu crucificado, para sair da cruz quando quisesse. Que coisa grande descer da cruz, para quem pôde ressurgir do sepulcro! Compreendamos, pois, recebendo este ensinamento, o poder de nosso Senhor Jesus Cristo então oculto, mas que se manifestará no juízo futuro, do qual foi dito: Deus virá manifestamente, o nosso Deus, e não se calará (cf. Sl. 49,3 vulgata). Que quer dizer não se calará? Que primeiramente se calou. Quando se calou? Quando foi julgado, e realizou então o que fora predito pelo profeta: Como ovelha conduzida ao matadouro, ou cordeiro mudo ante o tosquiador, ele também não abriu a boca (Is. 53,7). Se não quisesse sofrer, não sofreria; se não tivesse sofrido, seu sangue não teria sido derramado; se seu sangue não tivesse sido derramado, o mundo não seria redimido. Demos graças, pois, ao poder de sua divindade e à misericórdia de sua franqueza. Santo Agostinho Tratado sobre o Evangelo de São João Tract. 37,9-10 |