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Esta hodierna Liturgia é solene e dramática. Altar desnudo cruzes veladas ou retiradas da igreja, nenhum ornamento... Quase não há palavras para exprimir o estupendo mistério que celebramos: o eterno Filho, Deus santo, vivo e verdadeiro, nesta tarde sacratíssima, por nós se entregou ao Pai, em total obediência, até à morte, e morte de cruz! Para contemplar o mistério hoje celebrado, tomemos, então, com temor e tremor, as palavras da Epístola aos Hebreus, que escutamos. “Mesmo sendo Filho, aprendeu o que significa a obediência a Deus por aquilo que sofreu”. Eis aqui uma realidade que jamais poderemos compreender totalmente! O Filho eterno, o Filho que viveu sempre na intimidade do Pai, o Filho infinitamente amado pelo Pai, no seu caminho neste mundo, aprendeu a descobrir, cada dia, a vontade do seu Pai e a ela obedecer! Mais ainda: esta obediência lhe custou lágrimas, fê-lo sofrer! Toda a existência do Senhor Jesus foi uma total dedicação ao Pai, uma absoluta entrega, no dia-a-dia, nas pequenas coisas... Jesus foi procurando e descobrindo a vontade do Pai nos acontecimentos, nas pessoas, nas Escrituras... e, pouco a pouco, foi percebendo que esta vontade ia levá-lo à cruz. E ele, nosso Salvador, “com forte clamor e lágrimas”, foi se entregando, se esvaziando, se abandonando... É impressionante pensarmos, mas toda a vida do Filho de Deus neste mundo foi uma busca pobre e obediente da vontade do Pai, entre clamor e lágrimas. Vemo-lo de modo dramático no Horto da Agonia: “Abba! Ó Pai!Tudo é possível para ti: afasta de mim este cálice; porém não o que eu quero, mas o que tu queres!” (Mc 14,36). Para o Senhor, como para nós, a vontade do Pai tantas vezes pareceu enigmática, e ele teve que discerni-la e descobri-la entre trevas densas e dolorosas! Mas, ao fim, como é comovente a entrega total do Cristo: “Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito!” (Lc 23,46). Em tuas mãos, meu querido Pai, eu me coloco, eu me abandono! Para nós, o Filho é modelo e caminho de amor ao Pai! Ser cristão é entregar-se ao Senhor Deus como ele se entregou! E esta entrega total ao Pai foi por nós: “Cristo por nós se fez obediente até Pa morte e morte de cruz” (Fl 2,8). “Mas, na consumação de sua vida, tornou-se causa de salvação eterna para todos os que lhe obedecem”. Isto é, tornado perfeito na obediência, consumando toda a sua existência humana de modo amoroso e total, entregando-se ao Pai por nós, ele se tornou causa da nossa salvação! Vede, irmãos: não se oferece mais ao Pai sacrifícios de vítimas irracionais e impessoais! Agora é o próprio Cordeiro santo e imaculado que, com todo amor do seu coração, com toda dedicação de sua alma, se oferece livremente por nós todos! Por isso ele “tornou-se causa de salvação eterna para todos os que lhe obedecem”, isto é, desde que nós entremos na sua obediência e dela participemos na nossa vida! Eia, irmãos no Senhor! Entremos nessa obediência bendita e amorosa do nosso Senhor: façamos de nossa vida uma entrega total ao Pai com Jesus: entrega de nossos atos, de nossos pensamentos, de nossos afetos, de nossos negócios, de nossa vida familiar e profissional, de nossas decisões e escolhas, de nossas relações humanas... Tudo, absolutamente tudo, ofereçamos ao Pai com Jesus e por Jesus e entraremos na salvação que Jesus nos trouxe por sua cruz! Não esqueçamos: nesta santíssima Sexta-feira da Paixão, somos convidados a não somente contemplar, admirados, a obediência total do Filho querido ao Pai amado, mas também somos interpelados a participar na nossa vida dessa mesma obediência! É assim que Cristo é causa de salvação para nós! Senhor Jesus, que o teu sublime exemplo de amor ao Pai e a nós, nos comova e converta o coração, tire-nos da preguiça espiritual e de uma vida cristã morna e tíbia! Senhor, obrigados por tão grande prova de amor a nós e ao mundo todo! Obrigados por tuas dores, obrigados por tua cruz, obrigados por tua morte e por tua sepultura! Nós vos adoramos, Senhor Jesus Cristo, e vos bendizemos, porque pela vossa santa cruz remistes o mundo! dom Henrique Soares da Costa |
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O conteúdo é claríssimo. Um inocente que sofre, deixando de lado a doutrina da retribuição que considera o sofrimento como conseqüência do pecado; enquanto que os culpados são respeitados. É mais surpreendente ainda que o humilhado triunfe e que um morto continue vivendo. O mesmo texto proclama que se trata de algo inaudito. A biografia do servo se apresenta de uma maneira resumida: nascimento e crescimento, sofrimento e paixão, condenação e morte, sepultura e glorificação. Os que narram os acontecimentos participam deles; são transformadores e dão conta desta transformação. Deus confirma a mensagem com seu oráculo. Anula o juízo humano declarando inocente seu servo. Este sofrimento do inocente servirá para a conversão dos demais. Sua vida, paixão e morte foram como uma intercessão pelos demais e o Senhor o escutou. O triunfo do Servo é a realização do plano do Senhor. Se depois de ler o texto nos perguntamos: quem é esta personagem que sofre até a morte e segue vivo? Quem nos recorda? Sem dúvida que a figura se parece a Moisés, ou a Josias, talvez Jeconias, o desterrado, ou o profeta Jeremias. Alguns pensam que é o mesmo servo dos cânticos precedentes, outros que é o profeta Isaias II, outros o identificam com o povo judeu ou uma parte dele. Uma coisa sim é evidente. Jesus, o Messias, quis modelar sua vida de acordo com o servo de Isaias 53. Cristo tinha muito clara a idéia que Ele deveria sofrer e morrer e estes eram elementos de sua missão redentora. Sua identificação com o servo de Javé, em Marcos 14 e seus paralelos, sacrificado por todos, é evidente. O Filho do Homem vem cumprir sua missão de Servo de Javé. A partir de qual momento Cristo é reconhecido como Servo de Javé? Desde seu Batismo. Em São João também aparece muito a idéia da identificação de Cristo com o Servo. Então não é uma identificação posterior introduzida pela comunidade cristã, mas anterior. É possível que o autor não tivesse compreendido o significado completo e total, talvez não pensou em Cristo, mas sim em um personagem posterior que faria a intercessão total. O Servo de Javé é uma personalidade corporativa. É Cristo que atua pessoalmente e sua atuação repercute em toda a comunidade. O salmo 30 (31): trata-se de um salmo de suplica e uma ação de graças. Em meio à angustia, o salmista mescla os gritos de socorro com as expressões de confiança porque está seguro de que o Senhor é sua rocha e sua fortaleza. Esta confiança do salmista no momento da prova nos convida a invocar em nós esse mesmo sentimento, seguros de que Deus escutará nossas suplicas. No quarto e quinto capítulos da carta aos Hebreus, o autor apresenta Jesus como Sumo Sacerdote, não somente como o responsável do sacrifício, como era no Antigo Testamento, mas como o homem cheio de misericórdia, que assumiu todos os sofrimentos do ser humano até a morte, de tal maneira que se converteu em modelo para todos os homens. Sua vida esteve sempre condicionada à vontade do Pai, ainda que no sofrimento. A este sumo sacerdote, podemos nos aproximar com liberdade, sem medo, porque em seu trono abunda a graça e por sua misericórdia conseguiremos o apoio necessário. Cristo foi chamado por Deus da mesma forma que Aarão e segundo a ordem de Melquisedec, mas já não como um sacerdote para oferecer o sacrifício e as oblações, porque ele mesmo é a vitima. É um novo tipo de sacerdote que proporciona a salvação a quantos se aproximam dele e sua grande tarefa é conduzir-nos ao Pai. A narrativa da Paixão, no Evangelho de João, apresenta-nos a imagem de Jesus que o evangelista quis forjar através de todo seu evangelho: um Jesus que é a revelação do Pai, ao mesmo tempo que nele se revela a plenitude do amor. Ainda que pendente na cruz, sua vida e sua morte é uma vitória, porque "tudo está consumado" como era da vontade do Pai. As orações comunitárias que a liturgia nos propõe expressam os sentimentos que movem a comunidade cristã. A universalidade desta oração inclui ainda as pessoas que não pertencem à Igreja e que não crêem em Deus. A morte de Jesus é uma proposta para que todos unidos participemos realmente da nova história que surge da cruz vitoriosa. Reflexão para hoje A morte tem sido o grande mistério que preocupa o homem através de toda sua história. Porque ainda que este pretenda negar todas as verdades, entretanto, há uma que sempre o persegue e nunca pode rechaçar: a realidade da morte. Nem sequer os ateus mais convictos se atreveram a negar que eles também vão morrer. Para o pagão, a morte era uma tragédia; não se tinha idéias claras sobre o além, por isso que se admitia uma existência "além da tumba", dita existência estava rodeada de escuridão e enigmas. Ademais, nem todos admitiam uma vida depois da morte, porque esta era um desaparecer total, o fim de todas as esperanças, a frustração de todos os anseios. Os próprios judeus aceitavam a ressurreição, mas a projetam para o fim da história. Para os discípulos, a situação era desoladora. Eles esperavam um Messias terreno que revivesse as glórias do reinado de Davi e Salomão e é aqui que suas ilusões se desvaneceram como espuma. Essa sensação de desalento está claramente expressada em um dos discípulos de Emaús: "Nós esperávamos que ele resgataria Israel; mas já fazem três dias que tudo isso ocorreu". A morte de Jesus foi um acontecimento trágico; seus inimigos conseguiram o que queriam: tirá-lo do meio; os fariseus, porque Jesus desmascarou sua hipocrisia, os sacerdotes porque denunciaram a vício de um culto formalista; os saduceus porque refutou a negação da ressurreição; os ricos porque havia jogado na cara a injustiça de suas atuações; os romanos porque pensavam que era um sedicioso. Jesus morreu abandonado por todos; seus discípulos fugiram, os judeus o desprezavam; o Pai se fez surdo ao seu clamor; essa tarde, na cruz estava o corpo de um justiçado, condenado pela justiça humana e rechaçado pelo seu povo. Parecia que o ódio tinha vencido o amor; o poder sobre a debilidade de um homem, as trevas sobre a luz; a morte sobre a vida. Aquela tarde, quando as trevas caíram sobre o monte Calvário, parecia que tudo estava terminado e os inimigos de Jesus poderiam descansar tranqüilos. Porém, era aqui, no mais profundo dos acontecimentos, que a realidade era distinta. Jesus não era um vencido, mas um triunfador; a morte não o aprisionava, mas o havia libertado de seu abraço mortal; o que parecia o fim se transformou em glória; o que muitos consideravam como o término era o começo de uma nova etapa de salvação. A cruz deixou de ser um instrumento de tortura para se converter em um trono de glória de um novo reino e a coroa de espinhos posta sobre sua cabeça é agora um diadema de honra. Ao morrer, Jesus deu um novo sentido à morte, à vida, à dor. A pergunta desesperada do homem sobre a morte encontrou uma resposta. Mas isto não significa que possamos cruzar os braços e nos contentar com o ensinamento de que a morte de Jesus significou uma mudança na vida da humanidade. Essa mudança deve manifestar-se em nossa experiência porque ele não aceitou sua morte como a resignação de quem se submete a um destino iniludível, mas como quem aceita uma missão de Deus. Por isso, sua morte condena a injustiça dos crimes e assassinatos, mas nos pede para fazer algo contra a injustiça porque não somente condena a exploração dos oprimidos, mas nos pede para melhorar sua situação; a morte de Jesus não somente é a rejeição do abandono das multidões, mas exige que nos aproximemos do desvalido. Sua morte não é somente uma recordação que revivemos a cada ano, mas um chamado para melhorar o mundo, destruir as estruturas do pecado e restabelecer as condições de paz, construir uma sociedade baseada na concórdia, na colaboração e na justiça. Jesus continua morrendo nos nossos bairros marginalizados, nos soldados e guerrilheiros que jazem nas selvas, nos seqüestrados e prisioneiros, nos enfermos e nos ignorantes. A nós cabe fazer com que o grito de desespero de Jesus quando diz: "Pai, por que me abandonastes" se converta no grito de esperança: "Pai, em tuas mãos entrego meu espírito" www.claretianos.com.br |
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“Que a nossa inteligência, iluminada pelo Espírito da Verdade, acolha, com o coração puro e liberto, a glória da cruz que se irradia pelo céu e a terra” (S. Leão Magno). O mesmo santo nos diz que a santa cruz “é fonte de todas as bênçãos e origem de todas as graças. Por ela, os que crêem recebem na sua fraqueza a força; na humilhação, a glória; na morte, a vida”. Cantemos, nós também, a glória da Santa Cruz. A liturgia da sexta-feira santa ao referir-se ao culto à Cruz se expressa dizendo que se trata de uma “solene adoração da santa Cruz”, deixando inclusive a possibilidade de dobrar o joelho diante dela. Penso que essas palavras calaram no coração de mais de um cristão deixando-o pensativo, com maior razão se refletimos naquilo que realizamos: aproximamo-nos da imagem do Cristo crucificado e o beijamos; adoramos a Cristo, a sua Cruz. Na verdade, Cristo e a sua Cruz são identificados nesta liturgia solene de hoje. Duas perguntas: porque adoramos a Cruz? Porque a beijamos? No Brasil, devido a influência de teorias provindas de ambientes evangélicos não é raro encontrar também entre católicos certa desconfiança e aversão pelo culto às imagens. Hoje eu gostaria de conversar com você sobre esse tema sem uma finalidade defensiva, apologética, mas simplesmente observando o que a liturgia da Igreja nos diz no dia de hoje. Tendo em conta que qualquer conseqüência apologética será colateral, quero dialogar especialmente com aqueles católicos que aceitam com toda paz a sua fé celebrada na liturgia de hoje. Nós adoramos a santa Cruz porque ela foi o madeiro no qual o próprio Deus feito homem retirou a maldição do pecado que pesava sobre nós. A cruz era sinal de maldição, suplicio dos culpados e grandes marginais da sociedade. Cristo quis transformar esse sinal de maldição em sinal de benção. Mas, contudo, para entender melhor por que adoramos a Santa Cruz é preciso que compreendamos uma realidade: as coisas contêm um significado. Por exemplo: beijar uma pessoa tem distintos significados quando realizado em diversas circunstâncias. Uma criança que dá um beijo na sua mãe quer significar todo o carinho e agradecimento que sente por ela; duas pessoas que se dão os dois beijinhos sociais quando se conhecem não querem significar mais que o prazer que sentem em conhecer-se e celebrar dessa maneira ritual essa nova relação de amizade que começa; dois namorados que se beijam querem expressar o amor que sentem mutuamente. Há beijos que significam pura sensualidade, outros são exposições das escórias e dos desvios humanos. Enfim, um beijo pode significar muito! No caso do beijo à Santa Cruz, trata-se de um beijo que se pode interpretar em relação a outro beijo, aquele que o sacerdote dá ao altar todos os dias ao começar e ao terminar a Santa Missa: um beijo cheio de amor, de respeito, de admiração. O Altar representa a Cristo como a Cruz também o representa. Como as coisas têm um significado, também é preciso que entendamos esse significado em relação à nossa capacidade de captá-lo e de dar significação aos nossos gestos. Uma pessoa que abre o facebook ou o orkut e vê as fotos dos seus amigos e familiares não começa a pensar se essa foto ocupa 300 KB ou 2 MB, nem nos seus pixels, tampouco na materialidade ou imaterialidade dessa foto em concreto. Ao contrário, ao ver uma determinada foto, a nossa mente se dirige naturalmente à pessoa que a foto representa. Hoje em dia, ainda que as fotos em papel sejam mais incomuns, talvez o leitor se lembre daquele beijo que deu numa foto de alguém querido. Nem passa pela minha mente que você queria dar um beijo à foto em si, tenho certeza que você queria dá-lo à pessoa querida representada por ela. Dessas considerações, podemos concluir que há pelo menos duas maneiras de olhar uma imagem: vê-la simplesmente enquanto imagem, na sua mera materialidade, ou vê-la enquanto significativa de realidades que ela expressa. A mente humana não fica na primeira maneira de ver uma imagem a não ser que esteja fazendo um estudo sobre a qualidade do papel, a tonalidade das cores etc. A mente humana vê a realidade material e, abstraindo totalmente da matéria que tem diante de si, vai diretamente à realidade que ela representa. Trata-se de uma “viagem” que a mente faz desde a imagem à realidade. Sendo assim, quando nós contemplamos umas flores diante do Santíssimo, umas velas acendidas a algum santo, umas toalhas mais vistosas no altar do Senhor, nós não podemos parar na simples materialidade dessas coisas. Deus conhece melhor que nós mesmos como funcionamos. Ele sabe que nós conhecemos e amamos as realidades que não vemos a partir das que vemos. Condescendente com essa nossa maneira de conhecer e de amar é que o Senhor Deus, desde o Antigo Testamento, aborrecendo a idolatria – que consiste em dar às criaturas o lugar que corresponde ao Criador –, foi permitindo pouco a pouco representações materiais de realidades espirituais. Nesse sentido, lembremo-nos dos dois querubins de ouro colocados nas extremidades da Arca da Aliança (Ex. 25,18 - 22), da serpente de bronze (Nm. 21,1 - 10), das várias imagens que Deus permitiu que Salomão pusesse no Templo para adorná-lo (I Re 6,23-35.7,29), daquele signo misterioso de Ezequiel (Ez. 9,1 - 7) etc. No entanto, Deus, apaixonado pelo ser humano, não se contentou em permitir representações materiais das realidades espirituais, mas ele mesmo quis ser visto fisicamente pelo homem, “e o Verbo se fez carne” (Jo 1,14). Quem poderia ir contra a materialidade da religião quando o próprio Deus se fez matéria? Quem ainda poderia ir contra as imagens se Cristo é a imagem perfeita do Pai (cf. Cl 1,13 - 16)? Quem se atreveria a professar um cristianismo puramente espiritual quando Deus quis um sadio materialismo da fé? A pessoa humana é imagem de Deus, compreende através de imagens e as venera, não por causa da sua materialidade, mas porque são expressões das realidades espirituais. Há casos em que essa veneração se identifica com a adoração. Por exemplo, no caso da “solene adoração da santa Cruz”. Não adoramos, no entanto, a materialidade da Cruz, mas tudo o que ela significa: Cristo crucificado nela, nosso único Senhor e Salvador. Esse contato com a Santa Cruz nesta sexta-feira santa deveria fazer com que pensássemos que estamos entrando em contato com o Mistério do Gólgota, estamos beijando o Senhor no ato central da nossa Redenção. Estamos aderindo-nos à Cruz, ao sofrimento, às ignomínias, às afrontas, aos desprezos que Cristo sofre na Cruz. Beijar a Cruz e adorá-la significa entrar em contato com uma realidade muito exigente: pensemos no Cristo sofredor e glorioso e nos submetamos ao seu reinado. Paradoxalmente, esse é um reinado que se manifesta de uma maneira que nos deixa um pouco confusos: um rei lastimado, derrotado, sem coroa a não a ser a de espinhos, sem vestes esplendorosas a não ser o manto de púrpura e de escárnio que depois lhe tiram, sem súditos a não ser Nossa Senhora e outras poucas pessoas que não se envergonharam e permaneceram fiéis. Longe de nós envergonharmo-nos na Cruz do Senhor. Nós sabemos – junto com São Paulo – que Cristo crucificado é sabedoria e força de Deus para nós (cf. 1 Cor. 1,24). Eu convido você a participar da Paixão do Senhor com Nossa Senhora. A dor de Nossa Senhora é a dor de uma mãe pelo seu Filho sofredor. É ao mesmo tempo uma dor oferecida a Deus Pai. Maria Santíssima está serena aos pés da cruz porque ela vê o amor com que o seu Jesus abraça a cruz, ela sabe que é a vontade do Pai. padre Françoá Rodrigues Figueiredo Costa |
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A morte pela vida da humanidade Da morte à vida A Paixão de Jesus coloca-nos diante da cruz de Cristo e da cruz dos homens. Não podemos separar a morte do sofrimento. O sofrimento de Jesus e do sofrimento dos homens. Morre o inocente para salvar o pecador. Para tirar o pecado do mundo, o pecado dos Caim de todos os tempos, dos fariseus de ontem e de hoje, pecados de Sodoma e Gomorra multiplicados sob variadíssimas formas, de todos os que atentam contra a vida, a dignidade, os bens e a honra das pessoas. O sofrimento físico e material causado pela fome e a doença, o sofrimento espiritual pela indiferença e fuga de Deus. O pecado de quantos levantam escândalos e impedem o cristão de atingir a vocação à santidade, prerrogativa de todo o batizado. Foi intenso inexprimível este sofrimento. Contudo era um sofrimento salvador. Sofrimento de glorificação. Sofrimento para alegria, para a glorificação. A morte de Cristo é fonte de vida. Sofre nos seus membros e nos pecadores, vive e é glorificado nos santos. Como Ele, devemos dar a vida pelos irmãos. A morte, entrega de amor pela humanidade Jesus sofre em todas as vítimas do crime, onde a Igreja é perseguida, onde faltam operários para a messe… para anunciar a boa nova. O sofrimento e a morte de Jesus não é em vão. É uma graça, uma promessa de vida nova. Por isso a Igreja repete continuamente. Vinde, Senhor Jesus! Na última ceia Jesus ao instituir a Eucaristia, diz aos discípulos que o seu corpo era imolado pela vida do mundo e o seu sangue derramado para remissão dos pecados. É o pão da vida e vinho da salvação. Na Paixão revela-se o dom da bondade e da misericórdia de Deus e o amor que é recordado sempre que se celebra a Eucaristia. São Paulo assim se exprime quando diz: todas as vezes que comerdes este pão e beberdes este cálice, anunciais a morte do Senhor até que Ele venha. 1 Cor 11,26. A vida que surge da morte. Na aclamação da Eucaristia os fiéis na expressão mais viva do mistério da fé exclamam: Anunciamos, Senhor, a vossa morte, proclamamos a vossa ressurreição, Vinde senhor Jesus! Morte anunciada A morte de Cristo, o sacrifício da sua vida, foi repetidas vezes anunciado, desde pequenino, na apresentação no templo, na confissão messiânica de Pedro, na transfiguração, ao falar da porta estreita, na lamentação sobre Jerusalém, nas recomendações aos discípulos sobre o dia do Filho do Homem… Morte, ressurreição e glorificação de Cristo, eis a afirmação da totalidade da Páscoa de Cristo. O momento da transfiguração no alto do monte, a que Jesus chamou três discípulos como testemunhas, acentua e inevitabilidade da morte, logo seguida pela promessa da ressurreição. Então começou a dizer aos discípulos que tinha de sofrer muito e ser morto. E ao terceiro dia havia de ressuscitar. A morte pela vida da humanidade O sofrimento da Paixão foi uma entrega ao Pai como foi, igualmente, entrega à humanidade. Na primeira leitura desta celebração mergulhamos no mistério do sofrimento descrito na visão de Isaías: Tão desfigurado e desprezado, sofreu as nossa enfermidades… tomou sobre si as nossas dores, justificará a muitos e intercede pelos pecadores. Na visão da epístola aos Hebreus tornou-se para todos os que lhe obedecem causa de salvação. Finalmente na leitura da paixão ouvimos que «o seu reino não é deste mundo», entrega-nos Maria como Mãe, desafia-nos para saciar a sua sede e exclama: Tudo está consumado! ORIENTAÇÕES DIVERSAS A liturgia da palavra termina com a oração universal, que se faz do seguinte modo: o diácono, do ambão, diz a exortação com que é indicada a intenção da oração; todos oram em silêncio durante uns momentos; finalmente, o sacerdote, da sua sede, ou, conforme as circunstâncias, do altar, diz, de braços abertos, a oração. Durante todo o tempo da oração universal, os fiéis podem estar de joelhos ou de pé. As Conferências Episcopais podem determinar uma aclamação do povo para antes da oração do sacerdote, ou decidir que se mantenha o tradicional convite do diácono: Flectamus genua – Levate (Ajoelhemos – Levantemo-nos), com um espaço de tempo de oração em silêncio, que todos fazem de joelhos. Em caso de grave necessidade pública, pode o Ordinário do lugar autorizar ou até decretar que se junte uma intenção especial. De entre as orações que se propõem no Missal, é permitido ao sacerdote escolher as que melhor se acomodam às condições locais, respeitando contudo a série de intenções indicadas para a oração universal (cf. Instrução Geral sobre o Missal Romano, n. 46, p. 29). www.presbiteros.com.br |
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Hoje é o único dia do ano litúrgico em que não se celebra a santa Missa. Nós celebramos hoje a chamada Ação Litúrgica com a leitura solene da paixão segundo São João, rezando-se em seguida as orações solenes, prosseguindo com a Adoração da Cruz e, por fim, a Comunhão geral. Portanto, durante do Tríduo Sagrado, a liturgia segue os passos do Senhor Jesus mais cerradamente ainda do que no tempo da Quaresma. O Tríduo Santo é um grande drama, uma grande encenação do sofrimento do Senhor. Por isso, tendo representado a Instituição da Ceia na tarde da quinta-feira, a liturgia não voltará a celebrar a Eucaristia até a noite pascal – assim como Jesus não voltou a celebrá-la até que a celebrasse no Reino de Deus. Assim, neste dia celebra-se uma evocação de sua morte, que não deixa de estar em íntima união com a missa de Quinta-feira Santa, já que o pão consagrado ontem é consumido hoje. Jesus veio para dar a vida e nós lhe demos a morte, sob Pôncio Pilatos! Ali está Jesus morto na Cruz! Esta hora está envolta em mistério, com o Calvário se envolveu nas trevas às três horas da tarde de sexta-feira. Envolta no mistério da maldade humana. Envolta no mistério da bondade de Deus. De um lado a maldade humana que mandou para a Cruz um homem justo. De outro lado à generosidade de Cristo que se fez cordeiro de Deus para tirar os pecados do mundo e nos oferecer a Paz. Maldita morte que se transformou em ressurreição, em vida abundante (cf. Jo 10,10). Jesus rejeitado pelos homens e pelos romanos opressores dos hebreus, num abraço de perdão e de misericórdia nos lega o amor. Jesus morto pelos nossos pecados! Jesus morto para nos salvar! Jesus morto para que todos pudéssemos viver! Jesus, manso e humilde de coração, repete a cada um de nós nesta tarde: “Vinde a mim, aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração e encontrareis o repouso que procurais!”(cf. Mt 11,28-30). Jesus, terno e misericordioso, traído, preso, caluniado, açoitado, inaugurou um novo modelo de recompensa pelas humilhações recebidas: o AMOR. Jesus, carregando a cruz, sendo humilhado, pregado e suspenso no madeiro da Cruz, derrama, de seu lado aberto, por sobre a seca estupidez humana, torrentes de amorosa misericórdia. Porque Deus não é um Deus vingativo, mas sim um Deus clemente e justo, o Santo dos Santos. A traição foi paga com bondade, humildade, amor, perdão, encontro, vida, esperança, enfim, vitória da vida sobre a morte. O Senhor está suspenso e morto no madeiro da Cruz! Cruel estupidez humana! Jesus foi colocado fora do convívio humano! Aquele Galileu, que passou por entre os seus compatriotas, fazendo o bem, curando os doentes, ressuscitando os mortos, anunciando o pecado e reescrevendo a nova e eterna aliança com a lei do amor e da misericórdia, hoje recebe o seu prêmio humano: a Cruz! Aquele que perdoou os pecados e deu a graça santificante, carregando sobre si toda a iniqüidade humana, está morto! A atitude dos cristãos deve ser de temor e tremor diante dos olhos que choram diante do doce mistério da cruz, do mistério de um Cristo morto. O choro, as lágrimas, a desolação diante da morte do Justo. Todos nós, diuturnamente, temos atitudes de traição como Judas e Pedro. Alguns se colocam contra Jesus traindo-o pela busca desenfreada pelo dinheiro. Outros renegam Jesus pelo comodismo. Outros choram desesperadamente como Pedro. Mas, enfim, esperamos de Cristo misericórdia, que nasce de seu lado aberto e generoso. Desta bendita morte, causada pelos nossos pecados, recebemos “graça sobre graça”(cf. Jo 1,16). Aonde se multiplicou o pecado, superabundou a graça, conforme a advertência do Apóstolo dos gentios. Assim, com esperança cristã, a Cruz, de instrumento de suplício e maldição, se transformou em trono da graça divina. A Cruz, de momento de frustração e desespero, tornou-se a nascente de todas as esperanças. Sobretudo da esperança de que o irmão e a irmã se convertam, de que você se lave no sangue do Cordeiro de Deus imolado na Cruz, esperança de que você confesse com todas as veras do coração, como o soldado romano aos pés da Cruz: “Verdadeiramente, este homem Jesus é o Filho de Deus!”.(cf. Mc 15,39). Reviverá com Cristo somente aqueles que reconhecerem que o Crucificado é o Filho de Deus, que se fez homem para nos salvar e nos salvou através dessa morte. Assim ouviremos de Cristo: “Eu sou a ressurreição e a vida! Quem crer em mim, ainda que esteja morto, viverá!”(cf . Jo 11, 25). Somos hoje convidados a aniquilar a maldade e fazer brotar a bondade de Deus, porque Cristo anuncia a vida irrompendo a morte. Somos convocados a acabar com o ódio e inundar as nossas vidas de amor. Apaguemos o desejo de vingança e imprimamos em nossos corações o perdão e a misericórdia. Deixemos de lado o poder e a dominação e façamos de nossas vidas pregoeiros da bondade e da humildade. Tudo isso nós encontramos na Cruz. Nela Cristo humilhou-se até a morte. Nela Cristo foi exaltado. Nela Cristo morreu para dar-nos vida em plenitude, nos dando a salvação. Vivamos a plenitude deste mistério, relembrando as palavras de meu zeloso e santo vigário: “Enquanto o mundo gira a cruz permanece de pé!”. padre Wagner Augusto Portugal |
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Evangelho (Jo 18,1 - 19,42): Eis o vosso Rei! Nesse texto, temos o relato do julgamento, da condenação e da crucificação de Jesus. O sofrimento de Cristo nos é apresentado à luz da fé no Ressuscitado. Por isso, todo o relato é envolvido pela soberania de Jesus. Desde a prisão até a crucificação, aparece sua profunda liberdade. Tudo o que lhe acontece é resultado de sua “entrega livre e obediente”. O que Jesus disse na última ceia a respeito de sua entrega em favor do ser humano se concretiza agora no processo que culmina com sua morte na cruz. No relato da traição e prisão (18,1 - 11), dá-se início à glorificação de Jesus pela via crucis. O relato é dominado pela liberdade com que Jesus se entrega. Não são seus “inimigos” que o prendem, mas ele próprio que se entrega para ser preso e julgado. Manifesta-se assim a liberdade com que conduz sua vida e o sentido que tem sua morte, pois ninguém poderia pôr-lhe as mãos se ele não se entregasse livremente (cf. 10,17 - 18). Durante o julgamento (18,12 – 19,16) permanece o significado dado aos acontecimentos: a entrega de Jesus. E nessa entrega manifesta-se sua realeza, não no sentido que o mundo conhece, mas como manifestação do dom de si, no amor e na prática da vontade de Deus. Pois a expressão “reino de Deus” significa a soberania da vontade divina sobre a criação e a história. No momento de sua morte, Jesus mostra quanto a vontade de Deus é soberana em sua vida, pois nada o impede de cumpri-la, nem mesmo a tortura da cruz. E a vontade de Deus, em resumo, é o amor. A paixão (19,17 - 42) caracteriza-se como reação do mundo às palavras de Jesus. A rejeição que ele sofreu durante seu ministério encontra, aqui, sua forma definitiva. Deus dá sua resposta ante a recusa do mundo: uma resposta de amor, pois aquele a quem o mundo rejeita é o vencedor. A entrega de Jesus manifesta-se na sua atitude de dirigir-se livremente ao encontro da cruz. Sua hora chegou, a hora de sua exaltação. A crucificação de Jesus também é antecipação do juízo divino. Na cruz, Jesus se torna juiz de seus acusadores. Aqueles a quem foi enviado rejeitam-no. Na cruz realiza-se o juízo escatológico, salvação para os discípulos e condenação para o mundo. Na cena da mãe e do discípulo, o texto mostra em primeiro plano a comunidade messiânica que nasce em torno da cruz. Ambos, mulher e Discípulo Amado, desempenham papéis representativos. A mulher representa a personificação de Sião/Jerusalém (cf. Is 66,7-8; 60,4) e o Discípulo, a comunidade. Na cruz se consuma a missão de Jesus. O “tudo está consumado” não significa que “chegou ao fim”, mas, sim, que “a vontade do Pai foi realizada, em tudo e perfeitamente”. A obra que o Pai confiou ao Filho para levá-la a termo é a revelação do amor: aquele amor que tem sua origem na comunhão entre Pai e Filho e sua realização histórico-eclesial na unidade dos fiéis (17,23). O que celebramos na sexta-feira santa não é a morte de Jesus, mas sua vitória sobre a morte, sobre a violência, sobre a maldade humana, sobre o egoísmo e sobre tudo o que impede o ser humano de aceitar livremente o amor de Deus e sua vontade. Jesus, por sua obediência ao Pai, aceita livremente a paixão e a transforma em dom, em revelação de amor. Toda a vida e obras de Jesus foram um reflexo desse amor obediente. E isso se concretiza aqui na cruz. O cume dessa obediência no amor é atingido no ato de entrega de sua vida na cruz por amor. E nessa entrega o caminho para todo ser humano, o caminho do amor filial, que se concretiza na obediência do amor àquele que é fonte de toda a existência humana. 1º leitura (Is. 52,13 - 53,12): Eis o meu servo! Esse texto se inicia assegurando que o Servo triunfará (v. 13), mesmo que sua extrema humilhação e sofrimentos (v. 14) causem admiração em muitas pessoas. Seu triunfo será tão admirável, que impressionará muitas nações e reis ficarão boquiabertos diante dele. A informação de que as pessoas desviavam o rosto ou o olhar para não vê-lo (53,3) indica que se envergonhavam dele. Contudo, apesar dessa atitude de desprezo, ele é o Servo do Senhor e isso é garantia de seu triunfo sobre as dores.
O texto de Is 53,4-7 constitui um avanço na teologia do
Antigo Testamento, ao introduzir um elemento que é a
aceitação, por parte de Deus, da vida e morte do Servo
como sacrifício expiatório em favor do povo. O texto termina com a mesma nota de vitória com que começou: o Servo triunfará (52,13; 53,12). Contudo, as palavras finais destacam o alcance universal da atividade do Servo, que carrega os pecados de uma multidão. Outro aspecto comum entre o início e o fim da seção é que as palavras são pronunciadas diretamente por Deus. Dessa maneira, Deus corrobora o anúncio profético, antes mesmo que comece e também depois que termina. 2º leitura (Hb. 4,14 - 16; 5,7 - 9): És sacerdote para sempre! O texto nos apresenta o sumo sacerdote superior a todos os demais, que atravessou os céus, entrou na presença de Deus e exerce seu ministério sacerdotal no santuário celeste. Contudo, esse sumo sacerdote, Filho de Deus, também é um ser humano como os demais sem, todavia, pecar. Sendo humano, entende nossas necessidades e fraquezas e por isso é solidário conosco. Enquanto Filho de Deus, recebeu autoridade acima de todos os seres. Por tudo isso o autor bíblico exorta os cristãos à perseverança na fé recebida pela palavra da pregação. O versículo 15 explica a importância da humanidade de Jesus. Ele é capaz de se compadecer de nossas fraquezas porque foi tentado e venceu a tentação. Por isso, pode interceder por nós, para que alcancemos a vitória sobre a tentação, sobre o pecado e sobre a morte. O ministério sacerdotal de Jesus nos dá confiança para nos aproximarmos do trono de Deus. Ele atravessou os céus, como ser humano vitorioso sobre a morte, e por isso nos abriu um caminho para Deus. Além de passar pelas tentações, o nosso sumo sacerdote teve medo da morte e pediu a Deus, com forte clamor e lágrimas, que lhe preservasse a vida – e foi atendido, porque Deus o ressuscitou. Assim, Jesus teve a experiência comum dos seres humanos, a morte. Por isso, é solidário conosco na nossa maior angústia, porque enfrentou o sofrimento e a morte com os mesmos recursos que temos: a oração e a obediência da fé. Ele não buscou uma saída sobrenatural que não está ao nosso alcance. PISTAS PARA REFLEXÃO Chamar a atenção para o paganismo disfarçado de cristianismo, ou seja, para a poluição da fé por elementos nocivos. Não se trata de sincretismo propriamente dito, mas da mistura, e até mesmo da identificação, do cristianismo com aspectos contrários à revelação. Antigamente, os mediadores tinham a função de mostrar ao povo quem realmente era Deus e qual era a vontade divina a respeito do ser humano. Jesus plenificou na própria vida, morte e ressurreição a função desses mediadores. Mesmo assim, de modo mais escandaloso que antes, no cristianismo de hoje há uma “baalização da fé” (uma relação com Baal disfarçada de relação com Deus). A corrupção, a avareza, a ambição e todo tipo de dureza de coração são piores que qualquer sincretismo. Esses elementos são o oposto de tudo que Jesus mostrou – tanto por sua vida quanto por sua morte – sobre a identidade de Deus e do ser humano. Isso se torna mais escandaloso ainda se a liderança religiosa tolerar, apoiar ou até mesmo viver a baalização da fé Aíla Luzia Pinheiro Andrade, nj |
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Nesta celebração, em que revivemos o mistério da Paixão e Morte de Nosso Senhor, queremos acolher a Palavra de Deus como testemunho da verdade que liberta e que dá um sentido ao absurdo da morte de um inocente. Acompanhamos, neste ano, esta celebração em clima de julgamentos e tribunais. Há poucos dias todo o nosso país foi testemunha de um julgamento e todos pudemos acompanhar os desdobramentos da tragédia da morte de uma criança vítima da violência. É com profundo pesar e ao mesmo tempo pedindo a graça da conversão que queremos acompanhar passo a passo o mistério do injusto julgamento do Inocente Jesus Cristo, que veio dar testemunho da verdade como chamado a cada um de nós. Nesta celebração o réu, injustamente condenado à morte se torna juiz de todos nós mas não nos julga para a morte e a condenação eterna, mas para a libertação e para a vida. O mistério da Paixão já vinha sendo profetizado há muitos séculos, quando o Profeta Isaias apresenta o Servo de Javé, o eleito, condenado injustamente à morte... Ao lermos a primeira leitura desta liturgia, poderemos identificar tantos homens e mulheres que tem o rosto do Servo: “nem parecia ser um homem... Não tinha beleza nem atrativos para o olharmos... não tinha aparência que nos agradasse... Era desprezado como o último dos mortais..” Deixemos nesta celebração, que passe diante de nós estes rostos: crianças, jovens, idosos, desempregados, enfermos, dependentes químicos, presidiários, portadores de HIV.. quantos e quantas traduzem em nossos dias estes rostos. Quantos têm morrido nas caladas da noite carregando em seu corpo as marcas do crucificado... Desde o mistério da Paixão, ninguém mais morre sozinho... com cada um morre o Crucificado.. Ele é o “sumo sacerdote que mesmo sendo filho aprendeu o que significa a obediência a Deus por aquilo que ele sofreu..”. Ele é aquele que, procurado na calada da noite por um “destacamento de soldados” não teve medo de dizer “Sou eu”. Ao lermos e meditarmos a narração que João faz do mistério da paixão, alguns elementos nos chamam a atenção. Diante da realidade em que vivemos, destaco para esta reflexão um apenas: o diálogo de Jesus com Pilatos, um diálogo que acontece, segundo a narração num confronto pessoal no qual Pilatos parte da pergunta se Jesus é o Rei dos Judeus. Jesus não teme olhá-lo nos olhos e testemunhar o mistério do Reino: “O meu reino não é deste mundo!” A condição humilde e simples de Jesus é o lugar a partir de onde Ele afirma a verdade de Deus na história, e Ele o faz corajosamente convidando-nos a escutar sua voz: “Eu nasci e vim ao mundo para isto: para dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade escuta a minha voz”. A coerência entre palavra e atitude de Jesus é tão grande que chega a inquietar Pilatos que pergunta: “O que é a verdade?” Ele pergunta mas não quer ouvir a resposta, como tantos de nós hoje... A Verdade, segundo João, é que “A luz veio ao mundo mas o mundo não a acolheu”, a verdade é que homens e mulheres matam o Justo inocente mas Deus que o conhece e ama é capaz de ressuscitá-lo e Ele não se vinga, não mata estes homens e mulheres, mas lhes perdoa e neste fracasso se torna fonte de um novo tempo, luz para um novo começo. Estamos diante do amor que vem ao nosso encontro e nos convida a decidir-nos pela misericórdia e compaixão no lugar da vingança e do ódio; a decidir-nos pela vida que vence a morte passando pela dor da morte; a acreditar que, mesmo diante de situações absurdas e incompreensíveis aos nossos olhos o amor de Deus é mais forte, não condena e faz ressurgir um sentido: o verdadeiro sentido da vida! Que esta celebração faça de cada um e cada uma de nós discípulos e testemunhas da Verdade, sinais do ressuscitado, fonte de esperança num tempo e num mundo que já não crê, não espera e por isso já não vê sentido no amor que nasce de Deus. irmã Luzia Ribeiro Furtado |
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1a. PALAVRA “PAI PERDOAI-LHES PORQUE NÃO SABEM O QUE FAZEM” (Lc 23,34) Jesus no meio do mais atroz sofrimento se dirige não ao Deus de justiça, mas a seu Pai misericordioso. Ao Deus de infinito amor, tão bem apresentado nas parábolas do Evangelista São Lucas, Cristo pede o perdão para seus algozes e para toda humanidade. O verdadeiro motivo do pedido se encontra justamente no amor gratuito e misericordioso do Pai, que perdoa porque ama muito o ser humano. Como a mãe sempre perdoa e desculpa o filho, assim Deus age com bondade para com todos os homens. E Jesus veio com a missão de reconciliar o homem com Deus, não veio para condenar e sim para perdoar. Sem dúvida alguma os homens não sabiam o que estavam fazendo naquele momento. Como ainda hoje muita gente erra e pratica o mal por ignorância. Diante desta atitude de perdão do Senhor, lá no alto da cruz, somos convidados também a perdoar nossos irmãos com amor e generosidade. Mesmo diante de nossos inimigos o Senhor nos propõe: amar, rezar por eles e lhes fazer o bem. Nós sempre temos necessidade do perdão divino, pois somos todos pecadores e sabemos que este perdão está condicionado a nossa abertura em perdoar aos nossos semelhantes, como o afirmamos cada vez que rezamos o Pai Nosso. Agradeçamos a Deus por tantas vezes em que experimentamos em nossas vidas o seu misericordioso e regenerador perdão, e peçamos sempre a força para perdoarmos de coração aos nossos irmãos. Que jamais nenhum de nós seja causa de divisão e ódio, mas sim instrumentos de união e perdão. 2a. PALAVRA: “EM VERDADE TE DIGO, HOJE ESTARÁS COMIGO NO PARAÍSO” (Lc 23,43) Jesus foi crucificado entre dois ladrões, ele é Rei dos ladrões e miseráveis. O povo clama pedindo o sangue do Senhor, e não se importa nem um pouco com os ladrões. Os ladrões olham para Jesus, deviam conhecer sua fama e estavam testemunhando agora seu modo sereno de enfrentar o doloroso suplício da crucificação. Mas vemos aqui dois olhares diferentes diante da mesma realidade, e duas atitudes também muito diferentes: - a atitude de impenitência, por parte do “mau ladrão” que afirma o fracasso de Jesus e blasfemamente desafia que Jesus o salve e salve-se a si mesmo. Estamos aqui diante do coração duro, que se fecha ao sofrimento alheio e egoisticamente só pensa em si. O “mau ladrão” só repete o que escuta das autoridades religiosas judaicas e romanas que desafiavam Cristo a descer da cruz, para dar uma prova cabal de ser o Filho de Deus (Lc 23, 35-37). - a atitude da conversão, por parte do “bom ladrão” que reconhece claramente que Jesus não merece o castigo da Cruz, pois é inocente. O “bom ladrão” no entanto reconhece que praticou o mal em sua vida, e que merecia o castigo que estava recebendo. Aquele homem olhando para Cristo, confia nele e lhe pede que seja por ele lembrado no seu Reino. Agora estamos diante de um coração aberto, que reconhece o próprio erro e busca o caminho da conversão. Certamente o “bom ladrão” teve coragem de buscar no Senhor o perdão, também tocado pela primeira palavra dita por Jesus do alto da Cruz! Aquele pedido de perdão para os homens, feito por Jesus ao Pai, atingiu de cheio o coração daquele pobre pecador e produziu grande efeito. Diante destas atitudes diferentes compreendemos que sempre devemos abrir nosso coração, confiar plenamente no amor divino que é rico em misericórdia. Sempre devemos viver em estado de conversão, procurando melhorar nossa vida pessoal e comunitária. Lembremos que a graça de Deus pode fazer sempre maravilhas num coração que não põe obstáculos a ela. Também nunca podemos deixar de apostar na possibilidade de conversão na vida dos nossos irmãos. Como o “bom ladrão”, por assim dizer foi tão bom ladrão que roubou o céu no último momento de sua vida por pura misericórdia divina, assim Deus é paciente com todos os que erram. Toda pessoa pode mudar, pode reconstruir a vida e não temos o direito de achar que alguém já está definitivamente condenado. Deus tem caminhos misteriosos e sempre procura oferecer seu amor aos homens, até o último momento de suas vidas. A palavra de Jesus ao “bom ladrão” nos apresenta novamente o amor gratuito e misericordioso do Pai. Ao pecador nada é pedido, ele só precisa reconhecer seu erro e pedir perdão confiando na bondade de Deus. Afirma Jesus que “hoje” aquele pobre homem estaria com ele no céu. Notemos bem o uso desta muito significativa e pequena palavra “hoje”. Aquele homem arrependido não precisará voltar a este mundo em sucessivas vidas para descontar os crimes cometidos, e progredir espiritualmente como pensam os espíritas, mas entrará imediatamente no céu. Isto é algo fundamental em nossa fé: somos lavados e perdoados pelo sangue de Cristo, o Cordeiro de Deus, por pura graça divina. 3a. PALAVRA: “MULHER EIS O TEU FILHO” (Jo 19, 26) Jesus foi abandonado por todos os seus amigos e discípulos, mas ao pé da Cruz encontramos a presença: de sua mãe, de Maria mulher de Cléofas, de Maria Madalena e de João o discípulo amado. Ao lado de tantos insultadores, insultada também como a mãe do condenado, está Maria serena e de pé. O Evangelho faz questão de dizer que Maria estava de pé, e mesmo no meio da dor, era aquela mulher forte na fé. Sem dúvida sofre muito em seu materno coração, mas no seu intimo sabe oferecer ao Pai seu sofrimento unido ao de seu amado filho. É a vontade do Pai que leva Nossa Senhora ao pé da cruz, como colaboradora na obra da Redenção realizada por seu Filho. Neste sentido podemos compreender melhor o porque Jesus não chama Maria nem pelo seu nome, e nem de mãe naquele momento, mas de “mulher”. Na vida publica de Jesus como nos narra João Evangelista, Maria é chamada de “mulher” duas vezes: uma no início do seu ministério em Caná da Galiléia (Jo 2,4), e outra vez no final da vida pública de Jesus no alto da cruz nesta sua terceira palavra. João assim nos mostra a vida de Jesus envolta num grande abraço materno, a presença da Mãe no principio e no final. Mas o que significa este modo de chamar Maria de “mulher”? Isto aponta para o chamado proto-evangelho (Gn 3, 15), onde depois do pecado original Deus promete a salvação que viria através da descendência da mulher. Assim como o pecado entrou no mundo por um homem e uma mulher, também a graça e a salvação viriam através de um homem e de uma mulher. Por isto na antiguidade os santos padres chamavam a Cristo de novo Adão e a Maria de a nova Eva. Sem dúvida a salvação vem por Jesus, mas Maria tem parte importante, pois faz sua parte colaborando nesta obra dando seu “sim” ao chamado divino para ser a mãe do Salvador. Em Caná Jesus lembra a sua Mãe que ainda não havia chegado a sua “hora”, e esta “hora” no Evangelho de João é o momento de sua morte redentora. Agora aos pés da cruz Jesus relembra a sua mãe que chegou o momento dela assumir seu papel de intercessora em favor dos homens. Com a morte de Jesus Deus volta a ser o Pai de todos, Jesus o grande irmão dos homens e Maria a mãe da humanidade resgatada. A entrega de Maria como Mãe a João é simbólica, no sentido de que em João estão representados todos os seres humanos. É certo que João levou Maria para sua casa, como todo discípulo de Jesus deve também levar Maria para a casa de seu coração! Maria agora estará também presente, ao pé de cada cruz e do sofrimento de cada pessoa humana, e está será uma presença de força e de esperança na vitória do bem sobre o mal. Ela sempre será invocada como a nossa mãe, a mãe de misericórdia que nos ajuda a atravessar este vale de lágrimas! Mas contemplar Maria ao pé da cruz deve nos levar a um compromisso bem concreto: assumir a nossa tarefa de colaboração na implantação do Reino de Deus, e a sermos sempre presença amorosa diante do sofrimento de nossos irmãos. 4a PALAVRA: “MEU DEUS, MEU DEUS PORQUE ME ABANDONASTES?” (Mt. 27, 46 e Sl. 22) A morte do Senhor já está bem perto, os seus já o haviam abandonado, as multidões pediam sua morte e a alma de Jesus agora experimenta o abandono do Pai, não sentindo a alegria de sua união com Ele. Estamos diante de um momento supremo de dor interior, quando Jesus se fazendo solidário aos homens, sente a ausência de Deus que é aquele vazio interior que o homem sente como conseqüência do pecado. Esta lição sublime de solidariedade com os que sofrem é eco de toda a vida e ensinamento do Senhor. Ele sempre procurou colocar-se no lugar dos outros, por isto muitas vezes sentia compaixão! Lembremos que ter compaixão não é o mesmo que ter dó de alguém.Ter pena de quem sofre não adianta nada, na maioria das vezes só rebaixa a pessoa, e a confirma em sua dor. Ter compaixão é muito diferente, é procurar se colocar no lugar do outro, e este sentimento sempre conduz a ações concretas de solidariedade, assim viveu o Senhor e assim morreu! Do alto da cátedra da Cruz Jesus nos adverte a sermos solidários com todos os que sofrem, e de modo especialíssimo com os nossos irmãos mais pobres e excluídos. Nunca poderemos ser verdadeiros discípulos de Jesus se temos atitudes de auto-suficiência e de indiferença diante de nossos semelhantes. Ainda diante deste sofrimento Jesus nos dá um grandioso exemplo, o da oração. A quarta palavra de Jesus é tirada do salmo 22 (ou 21) que é uma visão profética dos sofrimentos do Servo de Javé. Jesus mesmo diante do forte sentimento de abandono eleva sua alma ao Pai, lê os acontecimentos que padece como vontade do Pai, e tem confiança na vitória sobre toda forma de mal. Aqui aprendemos com o Senhor que se os sentimentos não são coisas más em si mesmas, eles não podem guiar ou conduzir as nossas opções de vida. O Senhor continua a crer na presença de seu Pai amoroso, mesmo diante das aparências contrárias! Sabe muito bem o que havia ensinado: que o Pai não abandona ninguém. E nestes momentos de angustia interior nos ensina que o melhor caminho é a oração! Uma oração de diálogo com o Pai, e de confiança na sua presença amorosa mesmo na hora do sacrifício e da dor. 5a PALAVRA: “TENHO SEDE” (Jo 19,26) Tudo está em trevas diante do espetáculo de um Deus que morre por amor. Agora Cristo sente sede. A sede física era um dos piores tormentos por que passavam os que eram crucificados, assim era muito natural que o Senhor estivesse com sede! Podemos dizer que muito mais que a sede do corpo, Jesus sentia a sede de estar com o Pai, consumar seu sacrifício, e salvar o ser humano. Esta palavra de Jesus deve também despertar em nós uma verdadeira sede de Deus, a sede do apostolado que ajuda os homens a se encontrarem com Deus Salvador, e a sede de completar em nós o que falta a Paixão de Cristo (Col 1,24) entregando nossa vida pelo bem dos irmãos! Precisamos como o Senhor carregar a nossa cruz e colaborarmos na implantação do Reino de justiça e fraternidade! É sempre necessário que nos libertemos da sempre presente sede de poder, do prazer e ambição, e da sede pelas riquezas! Sem dúvida tudo podemos beber, mas nada sacia plenamente o ser humano que tem uma profunda sede do infinito que é Deus. Lá na beira do poço de Jacó, Jesus dizia a Samaritana que lhe daria uma água que jorra para a vida eterna! Esta água prometida àquela mulher é o próprio Jesus, único caminho que conduz ao Pai e que pode saciar a sede humana do absoluto e da eternidade. Se desejarmos apenas permanecer no que é passageiro e provisório, nunca teremos a humildade de pedir ao Senhor, como a samaritana, esta água que dá vida eterna! Em geral não temos a coragem de negar um copo de água a quem nos pede, não é? (Mt. 25,34.37) Que faremos então diante de Jesus que está com sede? Jesus nos amou de modo gratuito e amor com amor se paga, e ele tem sede de nosso amor! Como era profunda a constatação de São Francisco de Assis que sofria porque “o Amor não é amado!” Nossa resposta de discípulos a esta palavra do Senhor na cruz é amá-lo, e sabemos que o amamos na pessoa de nossos irmãos! Responderemos de modo concreto a sede do Crucificado na medida em que nos empenhamos no serviço a todos os irmãos, mas de modo especial aos que com o Senhor ainda estão crucificados na vida. 6a PALAVRA: “TUDO ESTÁ CONSUMADO” (Jo 19,30) A morte de Jesus para quem não a compreende é um tremendo fracasso, pois esta é a lógica dos homens. Mas neste momento Jesus recordou toda sua vida, pregação e missão. Percebia claramente que revelou de modo verdadeiro a face de seu Pai, o Deus de misericórdia e Amor. Tinha sempre acolhido e ido ao encontro dos rejeitados, incluído os excluídos de seu tempo. O Senhor tinha consciência de que passou toda sua vida somente fazendo o bem, e nunca aceitou a violência como resposta aos problemas sociais ou religiosos. Lembra que questionara uma religião meramente de culto exterior sem uma verdadeira mudança do coração. Recorda-se que traçou como lugar do encontro com Deus, o caminho em direção aos irmãos. Em todas suas palavras e atitudes mostrou a enorme importância do perdão, mesmo aos inimigos. Ensinou de modo especial a seus apóstolos, teve para com eles suma paciência. Revelou a importância da autoridade como serviço, e preveniu o perigo do apego ao poder e a riqueza. Apontou o caminho da entrega da vida para gerar vida aos irmãos. Enfim cumpriu plenamente sua missão, e nele todas as profecias do Antigo Testamento se realizaram. Agora ao dizer que “tudo está consumado” afirma ter cumprido bem sua missão, e realizado tudo o que era da vontade de seu Pai. De fato na vida tudo passa, momentos de alegria e de dor, mas nossa vida imortal não passa, assim como o bem que fazemos também não passará! Esta sexta palavra do Senhor na cátedra sublime da cruz nos convida a pensar em nossa vocação e missão. Será que estamos assumindo e cumprindo bem nossa vocação e a nossa missão? Será que no fim da vida poderemos repetir esta frase de Jesus que tudo fizemos bem como deveríamos ter feito? 7a PALAVRA: “PAI EM TUAS MÃOS ENTREGO O MEU ESPÍRITO” (Lc. 23,46) Jesus já parece um cadáver sem forças e energia, e surpreendentemente seu rosto se cobre de força, e olhando para o céu dá um grande grito: “PAI”. O Senhor morre por amor de modo livre e consciente, porque deseja fazer a vontade de seu Pai. Seu corpo será logo entregue a seus poucos amigos, mas sua alma volta ao Pai de onde viera. Da cruz o Senhor nos ensina a viver e a morrer com dignidade! Morrer confiados na infinita misericórdia de Deus, como o filho nos braços de sua amada mãe. É a confiança depositada unicamente em Deus, não no poder, no prestigio e no dinheiro. De fato se olharmos a vida, muita gente que deposita somente sua esperança no dinheiro e poder, quando enfrenta uma doença mortal não tem como pagar por sua sobrevivência, não é? Jesus volta ao seu Pai, não a um Deus castigador e implacável. É nas mãos do Pai, o mais amoroso dos pais, que o Cristo deposita toda sua vida. Nós também deveríamos colocar nossas vidas nas mãos misericordiosas deste amado Pai Celeste, que sempre nos acolhe e nos ama! Mesmo nos momentos mais duros de nossa peregrinação nesta terra, nunca podemos deixar de olhar e invocar este Pai que jamais nos abandona, e quer nossa felicidade plena. A morte de Jesus é um ato imenso de amor ao seu Pai e a toda a humanidade. Ele obedeceu até a morte, e esta obediência indica o desejo de fazer a vontade do ser amado. Como Jesus somos sempre chamados a uma atitude de obediência a Deus, mas nem sempre somos capazes de responder a este apelo e tornamo-nos desobedientes. Obedecer é próprio de quem ama, e porque falta um verdadeiro amor nosso mundo de hoje está muito carente em obediência. Mais ainda obedecer a Deus é próprio também de quem tem fé, e igualmente porque falta fé em muitos corações, não existe obediência e nem entrega de vida a vontade santíssima de Deus. Jesus morre por amor, é o amor que se imola! Mas em nossa sociedade contemporânea vemos com tristeza que somos mais influenciados pelo egoísmo, e acabamos não aceitando morrer a nosso “eu” para fazermos os irmãos mais felizes! Será que de fato confiamos ao Pai Celeste nosso espírito e nossa vida? ADENDOS: I. COMO INTRODUÇÃO. Dois profetas muito tempo antes da vinda de Cristo apontavam para o povo de Israel como seria a chegada do Messias. De um lado Miquéias (5,1 - 3) mostrava a grandiosa alegria do povo em Belém com o nascimento do Messias, e de outro lado Isaías com seus vários cantos do servo Sofredor afirmava o enorme sofrimento que assumiria o Salvador (Is. 52,13 ss). Aqui estamos realmente diante do mistério da Páscoa, núcleo fundamental de nossa fé: a alegria e a dor, a morte e a ressurreição. Do sofrimento e do aparente fracasso brotaria a alegria da vida que vence a morte! No fundo é sempre a vitória do bem sobre o mal, a soberania de Deus que garante a vitória do amor! Jesus assume plenamente o projeto do Pai, e de modo livre dá sua vida em resgate de todos os homens. Dizia Isaías que o servo de Javé não tinha mais aparência humana, e de fato Cristo sofreu tanto que foi totalmente desfigurado. Foi castigado e assumiu os crimes da humanidade, e em suas chagas recebemos todos o perdão e a reconciliação. A Paixão e morte de Jesus são o pleno cumprimento das profecias vetero-testamentárias. São Paulo da Cruz, um grande místico com o carisma de fazer memória da paixão de Jesus, aconselhava que todos contemplassem o Crucificado como um LIVRO escrito por fora com dor e por dentro com amor. Na verdade este grande discípulo queria transmitir sua experiência espiritual: Jesus sofreu muito, mas o que o motivou foi o amor. É neste sentido que ele afirma ser a paixão de Jesus um oceano infinito de amor e de dor. Contemplemos agora uma pouco da paixão do Senhor antes de sua crucifixão. - Agonia no Getsêmani: lá Jesus sente toda a angústia diante do que vai lhe acontecer. Tinha pedido aos seus apóstolos mais íntimos que orassem com ele, mas o sono impediu que aqueles discípulos fizessem companhia ao Senhor. Sofre Jesus então uma angústia profunda, até a ponto de suar sangue. Com isto o Senhor assume e redime as angustias humanas, diante de tantas incertezas e problemas. É na oração que responde ao seu Pai, pede que as dores lhe sejam poupadas, mas assume a vontade salvífica do Pai celeste. Como o Senhor, também enfrentamos horas difíceis em que sentimos o abandono dos amigos, e precisamos de fato assumir nosso sacrifício em benefício de nossos irmãos. O Senhor nos convida a confiarmos na vontade do Pai, a nos entregarmos na certeza da vitória do bem sobre o mal. - A traição: Judas que era um apóstolo escolhido por Jesus, vende seu Mestre e Senhor, e além de seu sórdido interesse pelo dinheiro vemos a triste traição de um amor! É sintomático que quando o traidor chega ao horto das Oliveiras, seu sinal de entrega seja um beijo. Afinal o beijo deveria ser sinal de amor, mas na verdade nem sempre o é. Olhando nosso mundo vemos quantos beijos falsos existem por aí, e nem sempre precisam ser beijos físicos, mas pessoas que na frente elogiam os outros e por trás destroem suas vidas com infâmias e calunias. A atitude de Jesus ao receber Judas e ao chamá-lo de “amigo” deve questionar muito a cada um de nós. Jesus estava dando então oportunidade a Judas de arrepender-se. Quem de nós teria esta coragem de chamar um inimigo de amigo, e de lhe dar nova chance? - A condenação: Jesus foi preso a noite, levado ao Sinédrio e lá julgado e condenado pelas autoridades religiosas que já haviam decidido elimina-lo, mas como não tinham este poder visto que os romanos os dominavam, precisavam da autorização civil. No tribunal o Senhor foi condenado por falsas testemunhas o que nos aponta a gravidade de levantar calúnias e mentiras sobre a vida dos irmãos, e as trágicas conseqüências deste comportamento maldoso. Jesus passa então como um joguete de Anás e Caifás, a Pilatos e a Herodes. É interessante notar que Pilatos com medo de se posicionar envia Jesus a Herodes, e diante deste Jesus não pronuncia uma só palavra. Aquele jogo velho de empurra existe ainda até hoje, as pessoas mais pobres são sempre levadas a apelar de um lugar para o outro e ninguém assume responsabilidade: isto ocorre na vida civil e até mesmo infelizmente na vida eclesial. Mesmo Pilatos considerando Jesus inocente o manda para ser flagelado, algo totalmente contrário a qualquer lógica humana. Se Jesus não tem culpa porque castiga-lo? E sabemos que o castigo da flagelação era terrível entre os romanos. Ali Jesus apanha, é cuspido, escarnecido com vestes de rei e coroa de espinhos e depois apresentado ao povo em estado lastimável. Mas o povo, incitado por seus chefes religiosos quer mais sangue, pede a morte. Pilatos lava as mãos de modo totalmente incoerente, visto que poderia libertar Jesus. Jesus agora assume e resgata tantas violências cometidas contra os seres humanos por aquilo que eles não tem culpa. Muitos sofrem de fato por causa dos outros: assim ocorre com o odiondo crime do aborto, que ao matar uma vida humana indefesa, pretende resgatar a dignidade dos pais que cometeram um erro. Na verdade muita gente hoje continua a condenar quem é inocente! - Jesus carrega sua cruz: como o Senhor havia ensinado a seus discípulos lhes dá agora o exemplo, já fatigado pelas dores ele mesmo leva sua cruz com amor para a nossa salvação. É verdade que cai por diversas vezes, e isto é para nós motivo de esperança, pois também nossas quedas nunca serão sinal de estarmos separados definitivamente do amor de Deus. Quando vemos o Senhor levar sua cruz até o Calvário devemos perceber seu grandioso espírito de amor e doação por todos nós. E isso nos conclama a deixar de lado as lamurias e murmurações da vida, quando precisamos nos sacrificar pelo bem dos irmãos. É verdade que Simão Cirineu foi convocado e obrigado a ajudar ao Senhor, quando ele já quase não tinha mais forças. Mas também nós somos hoje chamados a ser “Cirineus” que ajudam nossos irmãos a carregarem suas cruzes. II. DEPOSIÇÃO DA CRUZ (Quando houver a imagem do Crucificado que se possa tirá-lo da cruz, arrancando os cravos). (Olhando para o crucificado) Senhor, estamos arrependidos de nossos erros e pecados, sabemos muito bem que somos limitados e fracos, mas confiamos em vossa infinita misericórdia que nunca nos abandona e sempre nos acolhe com amor. O contemplamos pregado nesta cruz, conseqüência de nossos pecados, e obra de vosso amor por nós e nossa salvação! O vemos ainda de braços pregados neste madeiro, e lembramos que vós sempre estivestes de braços abertos para acolher as pessoas de modo que desejamos agora vos tirar desta cruz. (Coroa de espinhos) Arrancamos agora esta coroa de espinhos que cinge vossa cabeça, e que vos fez sofrer muitíssimo. Ela agora representa para os nossos pecados de pensamento, que nos levaram a ações contra os nossos irmãos. Sabemos que tudo começa em nosso interior, e que muitíssimas vezes fomos capaz de julgar e condenar nossos semelhantes. Ao vos tirar esta coroa de sofrimento, propomos firmemente cuidar de nosso modo de pensar, para deixarmos de lado a lógica meramente humana e assumirmos a lógica de vosso Pai Celestial. (Prego da mão esquerda) Senhor, desejamos tirar este prego de vossa mão esquerda, esta mão que tantas vezes foram impostas sobre os doentes e os sofredores. Queremos atirar bem longe este cravo, e com isto significar nosso compromisso de esforçarmo-nos na prática do bem para com todos. Vemos neste cravo nossas inúmeras omissões que nos fizeram não caminhar como verdadeiros discípulos vosso. (Prego da mão direita) Queremos agora tirar de vossa mão direita este cravo que vos prende ainda ao madeiro da cruz. Esta mão que sempre fazia o bem, que curava e abençoava. Este cravo nos lembra as atitudes de ódio e desamor, que ao invés de abençoar amaldiçoam os homens. Queremos nos comprometer convosco em ser sempre instrumentos de amor e comunhão entre as pessoas. Desejamos ser pessoas que promovem sempre o encontro, e nunca o desencontro dos irmãos. Que vossa mão livre deste madeiro possa voltar a abençoar a todos nós, dando-nos a força do amor verdadeiro. (Prego dos pés) Senhor, finalmente desejamos deixar vossos santos pés livres, estes mesmos pés que o conduziram no caminho do bem e ao encontro de tantas pessoas e na procura da ovelha perdida. Queremos agora atirar bem longe de nossa vida este cravo que simboliza para nós os nossos inúmeros passos no caminho mal. Deixando-vos agora totalmente livre do madeiro desejamos ardentemente que possais caminhar no meio de nós, perdoar nossos pecados, curar nossas enfermidades, abençoar nossa vida, família, comunidade e o mundo inteiro. Vinde Senhor, e caminhai agora em nosso meio dando-nos força e coragem para sermos vossos fiéis discípulos. Já percebemos pela fé a vossa consoladora presença, que estais a nosso lado e continuais a ser “Deus conosco”, o Emanuel. III. FERVORINO DO BEIJO. (Para motivação ao beijo da imagem de Cristo morto) O beijo é sinal e símbolo de amor e afeto, e nós homens sempre pecisamos de sinais para demonstrar o que se passa em nosso interior. Porém o beijo pode também ser falso e sinal de traição! Sabemos que Judas com um beijo entrega Jesus, e este gesto continua ainda presente nos dias atuais. Alguém pode se aproximar da imagem de Jesus, lhe beijar e continuar repetindo aquele fatídico beijo traidor. Desde Judas até hoje uma série de beijos traidores e hipócritas são dados novamente ao Senhor, como por exemplo: aquele que odeia o irmão e diz amar a Deus; a pessoa que nunca busca a Deus numa prática de vida eclesial e só participa de atos religiosos na sexta-feira santa, o famoso cristão cometa; aquele que cria divisão e exclusão na comunidade e etc. Todos nós somos pecadores, e Jesus no caminho da Cruz convocava as mulheres piedosas de Jerusalém a não chorar por ele, mas por elas mesmas e seus filhos! O beijo que depositaremos, deve ser um beijo de gratidão e arrependimento como o foi o beijo de Maria Madalena! Um verdadeiro beijo de lágrimas e contrição pelos nossos pecados. Nosso beijo simbólico de hoje nunca poderá ser como o beijo de Maria a mãe do Senhor, pois ela era totalmente isenta do mal em seu coração. Ao beijarmos a imagem do Senhor procuremos de modo sincero manifestar nossa conversão e arrependimento, mas se pretendemos dar um beijo de Judas é melhor voltarmos para casa sem realizar este ato simbólico de piedade. Não traiamos novamente quem tanto nos amou! padre Antonio Luiz Heggendorn, CP. |
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Toda a vida de Jesus está orientada para este momento supremo. Muito a custo, consegue chegar ofegante e exausto ao topo daquela pequena colina chamada "lugar da caveira", Gólgota. A seguir, estendem-no no chão e começam a pregá-lo no madeiro. Introduzem primeiro os ferros nas mãos, desfibrando-lhe nervos e carne. Depois, é içado até ficar erguido sobre a trave vertical fixada no chão. Por fim, pregam-lhe os pés. Maria, sua mãe contempla a cena. O Senhor está firmemente pregado na Cruz. Tinha esperado por ela durante muitos anos, e naquele dia cumpria-se o seu desejo de redimir os homens. Aquilo que até Ele tinha sido um instrumento infame e desonroso, convertia-se em árvore de vida e escada de glória. Invadia-O uma profunda alegria ao estender os braços sobre a cruz, para que todos soubessem que era assim que teria sempre os braços para os pecadores que d'Ele se aproximassem: abertos. A crucifixão era a execução mais cruel e afrontosa que a antigüidade conhecia. Um cidadão romano não podia ser crucificado. A morte sobrevinha depois de uma longa agonia. Às vezes, os verdugos aceleravam o fim do crucificado quebrando-lhe as pernas. Ainda hoje são muitos os que se negam a aceitar um Deus feito homem que morre num madeiro para salvar-nos: o drama da cruz continua a ser escândalo para os judeus e loucura para os gentios. Mas, afinal, por que tanto padecimento? Tudo o que Cristo padeceu é o preço do nosso resgate. Não se contentou com sofrer alguma coisa: quis esgotar o cálice, para que compreendêssemos a grandeza do seu amor e a baixeza do pecado; para que fôssemos generosos na entrega, na mortificação, no espírito de serviço. Ele quis sofrer tudo isso por você e por mim. E nós, não havemos de saber corresponder? Só o nosso "não querer" pode tornar vã a Paixão de Cristo. www.coracaodemaria.org.br |
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Tudo está consumado, o sofrimento terminou e o espetáculo também. Aos poucos retiram-se os espectadores de lugar reservado e todos os que tinham vindo arrastados pela confusão e pelo desejo mórbido de ver o outro na sua agonia. Ficam apenas os que cumprem o seu serviço e aqueles poucos que muito amam. Junto dos condenados os poucos soldados que guardam ainda os corpos, são os que estão de serviço, e apenas desejam que tudo se despache para poderem voltar a casa. A noite vai caindo com uma força surpreendente e o vento tempestuoso parece querer correr com eles. Junto da cruz de Jesus, sua mãe, a irmã de sua mãe, Maria mulher de Cléofas e Maria Madalena. Três mulheres que estão ali, ainda que afastadas pela soldadesca, desde que tudo começou. E junto delas um jovem, João, o discípulo amado, um amigo, um irmão e agora um filho. É um grupo estranho, pois é um grupo frágil, sem poder e sem força, um grupo inesperado e imprevisível junto de tanta violência e brutalidade. O contraste é gritante. Quando os soldados descem da cruz o corpo de Jesus recebem-no com todo o carinho e cuidado, como se fosse o maior tesouro que existe à face da terra. É necessário sepultá-lo, colocá-lo naquele sepulcro novo que se vislumbra por detrás das costas, mas antes disso há ainda coisas a fazer como limpar o corpo e prestar-lhe as últimas homenagens imagináveis e possíveis face ao momento. Maria, a mãe, segura a cabeça do filho e ternamente limpa-lhe o sangue da coroa de espinhos que lhe colocaram na cabeça. O seu filho, o seu menino, volta aos seus braços, não já cheio de promessas mas com o destino traçado e a missão cumprida. Tudo estava consumado e agora nos seus braços naquele corpo morto acolhe os outros filhos, aqueles que lhe tinham sido entregues em João, naquele jovem tão forte e corajoso. O corpo que segura ternamente nos seus braços já é o corpo dos outros filhos, o corpo da Igreja da qual também ela é filha. Segura também e cuida zelosamente por aquele corpo que será alimento para todos os que acreditarem que ele pode ser alimento de vida. Maria, sua irmã e mulher de Cléofas, ajuda a limpar o corpo. É mais uma daquelas mulheres que tem acompanhado o grupo dos discípulos. Está ali porque necessita certificar-se de tudo para poder contar ao seu marido. São informações preciosas, porque, ainda que o não saiba, quando mais tarde Cléofas se encontrar a caminho de Emaús com um forasteiro desconhecido e reconhecido, serão estas informações que ele poderá apresentar e confrontar para anunciar a verdade do sucedido. Maria certifica-se do corpo morto, do fim dos projectos de uns quantos que acompanharam Jesus na expectativa e na esperança de um poder e uma ascensão social. Maria Madalena limpa os pés de Jesus, esses pés junto dos quais ela tinha sido lançada um dia como pecadora, pés que dizem alguns também beijou e limpou com as suas próprias lágrimas e perfumou com uma exorbitância de perfume puro. Madalena cuida os pés daquele que tanto caminhou para nos resgatar a todos da condição de pecadores, para nos erguer da nossa humilhação. João segura a mão de Jesus, aquela mão que ternamente um dia lhe tinha feito sinal para ir ver onde e como morava, a mão que o tinha chamado para ser discípulo. Segura a mão que poucas horas antes tinha entregue o bocado de pão molhado a Judas, o traidor, a mão que cravada no madeiro se tinha feito fonte para todas as graças, a mão que o afagara quando na ceia da Páscoa repousara sobre aquele peito que agora contempla desfalecido e sem vida. Junto deste grupo uma outra figura estranha, um intruso se assim se pode dizer, um intruso que contempla aquilo que o grupo faz. E mais não pode fazer que contemplar porque séculos os separam. São Domingos contempla esta cena e estas figuras porque a sua Ordem está presente em cada uma destas figuras, elas representam a vida que os seus irmãos são chamados a viver, a vida da contemplação, de oração, do estudo e da pregação. Tudo está ali e tudo é necessário para compreender o mistério, aquele corpo entregue para sepultar e o cuidado que lhe é prestado. Como São Domingos, a sua presença é um convite a isso, contemplemos o mistério que nesta noite se nos apresenta, cheio de sombras e escuridão mas também cheio de amor revelador e iluminador. José Carlos Lopes Almeida, op - vitaefratrumordinispraedicatorum.blogspot.com |
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Eis o homem! É assim que Pilatos apresenta Jesus aos príncipes dos sacerdotes e escribas, à multidão em fúria, àqueles mesmos que o tinham entregue para ser condenado à morte. Sem piedade nem compaixão é apresentado como nunca ninguém o tinha visto, como um verme, esmagado pela violência e a brutalidade dos carrascos. Eis o homem! E eles sabem que é o homem, o mesmo homem que tinham conhecido em criança interrogando-os e ensinando-os no templo, o mesmo homem que tinha mandado o paralítico andar com a sua enxerga num sábado, o mesmo homem que um dia tinha feito um chicote de cordas e num acesso de zelo tinha expulsado os vendilhões do templo, o mesmo homem que eles tinham adquirido por trinta moedas de prata. Mas como estava desfigurado, como estava irreconhecível, sem beleza nem poder para atrair qualquer olhar. Eis o homem! O homem filho e descendente da desobediência de Adão, esse homem desfigurado pela paixão e pelo desejo de querer ser Deus, o homem que não quis ser criatura, o homem que matou o seu irmão por ciúme, que derramou o sangue dos seus irmãos pelo poder e pela vaidade de ser reconhecido, o homem que procura a luz em si mesmo e nas suas forças esquecendo-se como é breve e frágil a sua existência. Eis o homem! O homem desfigurado pelas nossas fraquezas e paixões, pelos nossos desejos de domínio sobre o outro, o homem vendido como mercadoria, explorado até à exaustão, esquecido na solidão dos seus lares ou nas camas do sofrimento. Eis-nos todos ali representados, a nossa condição humana com tudo o que tem de lodo e pó da terra. Eis o Homem! O verdadeiro homem, aquele que estamos chamados a ser, o homem que se reconhece filho de Deus, que sabe a herança que lhe pertence, que sabe quem é e decide sobre a sua vida. Eis o Homem! O homem que diz àquele que se julga com poder sobre a sua vida “não terias poder algum sobre mim se não te tivesse sido dado”, o homem que diz “a minha vida sou eu que a dou não é ninguém que ma tira. Este é o homem, o verdadeiro, aquele que tem poder de dar a sua vida e tomá-la de volta. Eis o Homem! O homem que se sabe Filho de Deus e por isso no momento final pode dizer “Pai nas tuas mãos entrego o meu espírito”, o homem que vive em intimidade com o Pai e Deus e por isso diz aos seus amigos que ele e o Pai são um, vivem em intima comunhão e nada mais querem que todos os homens vivam a mesma comunhão entre si e com eles.
Eis o Homem! O homem que é templo de Deus e por isso
entrega o seu corpo para ser destruído porque passado
três dias esse mesmo templo será reconstruído, será
resgatado da sua condição arruinada e será glorificado.
O corpo que ainda que neste momento esteja a ser
apresentado e trocado como mercadoria, como acontecerá
com tantos outros corpos idolatrados e vendidos, é o
único modo de nos constituirmos como pessoas e nos
relacionarmos com os outros e com o totalmente Outro, é
o verdadeiro e único templo de Deus. José Carlos Lopes Almeida, op - vitaefratrumordinispraedicatorum.blogspot.com |