6º DOMINGO DE PÁSCOA

ano C

 

O livro dos Atos dos Apóstolos nos apresenta novamente a controvérsia dos apóstolos com algumas pessoas do povo: alguns diziam que os incircuncisos não podiam entrar no reino de Deus. A circuncisão era realizada oito dias depois do nascimento do menino. Os apóstolos descartavam a reflexão judaica a respeito da circuncisão. Somente assim eram asseguradas ao menino todas as bênçãos prometidas, por se tornar um dia um membro do povo eleito e por participar da aliança com Deus. Todo varão incircunciso segundo esta tradição, devia ser expulso do povo, da terra judaica, por não ter sido fiel à promessa de Deus (cf. Gn 17, 9-12).

O ato inicial da circuncisão estava carregado – e ainda está – de significado cultural e religioso para o povo judeu. Estava ligado também ao peso histórico-cultural de exclusão das mulheres, as quais não participavam de nenhum rito de iniciação na vida do povo; elas, aliás, não eram consideradas cidadãs.

Para os cristãos, a circuncisão já não é e nem será importante. Este rito e tradição foi perdendo vigência. Já não é necessário realizar ritos externos desconectados da justiça e do amor misericordioso de Deus. No cristianismo homens e mulheres somos iguais, e no batismo adquirimos todos a dignidade de filhos de Deus e membros do corpo de Cristo, que é a Igreja. O importante é realizar uma constante “circuncisão do coração” (cf. Dt 10,16) para que, tanto homens como mulheres, alcancemos a purificação do egoísmo, do ódio, da mentira e de tudo aquilo que nos degenera.

O Apocalipse nos apresenta também uma crítica à tradição judaica excludente. João viu, em suas revelações, a nova Jerusalém que baixava do céu e que era enfeitada para seu esposo, Cristo ressuscitado. Esta nova Jerusalém é a Igreja, triunfante e imaculada, que foi fiel ao Cordeiro e não se deixou levar pelas estruturas que muitas vezes geram a morte. Aqui acontece a crítica do cristianismo ao judaísmo, que se deixou condicionar pelo Templo, no qual os homens e entre esses especialmente os contemplados pela Lei, eram os únicos que podiam relacionar-se com Deus; um Templo que era sinal de exclusão em relação ao povo simples e aos não judeus.

A nova Jerusalém, descrita por João em seu livro, não precisa de templo, porque Deus mesmo estará aí, manifestando sua glória e seu poder no meio dos que lavaram suas roupas no sangue de Cordeiro. Já não haverá exclusão – divisão entre puros e impuros – porque Deus será tudo em todos, sem distinção alguma.

Segundo o evangelista João, Jesus é situado no contexto da última ceia e do grande discurso de despedida. Ele insiste no vínculo fundamental que deve prevalecer sempre entre os discípulos e Jesus: o amor. Judas Tadeu fez uma pergunta a Jesus: “Por que vais mostrar-te a nós e não às pessoas do mundo?” Obviamente Jesus, sua mensagem e seu projeto do reino são para o mundo; porém não se pode esquecer que para João a categoria “mundo” é tudo aquilo que se opõe ao plano ou querer de Deus e, portanto, rejeitado abertamente por Jesus; logo, o sentido que João dá à manifestação de Jesus é uma experiência exclusiva de um reduzido número de pessoas que devem ir adquirindo uma formação tal que cheguem a assimilar seu Mestre e sua proposta, porém com a finalidade de ser luz para o “mundo”; e o primeiro meio que garante a continuidade da pessoa e da obra de Jesus encarnado em uma comunidade a serviço do mundo é o amor. Amor a Jesus e seu projeto, porque aqui se fala necessariamente de Jesus e do reino como uma realidade inseparável.

Jesus sabe que não poderá estar por muito tempo acompanhando seus discípulos; porém também sabe que existe outra forma não necessariamente física de estar com eles. Por isso prepara-os para que aprendam a experimentá-lo, já não como uma realidade material, mas em outra dimensão: como força, luz, consolo e guia, tudo isso para que se mantenham firmes e consigam enfrentar o dia a dia na fidelidade. Promete a eles o Espírito Santo, alma e motor da vida, de seu próprio projeto, para que acompanhe os discípulos e a comunidade.

Finalmente, Jesus concede aos discípulos o dom da paz: “Minha paz vos deixo, minha paz vou dou” (v. 27); testamento espiritual que o discípulo deverá buscar e cultivar como um projeto que permite tornar presente no mundo a vontade do Pai manifestada em Jesus. É que na Sagrada Escritura e no projeto de vida cristã, a paz não se reduz a uma mera ausência de armas e de violência, ao contrário ela envolve a totalidade das dimensões da vida humana e se converte em um compromisso permanente para os seguidores de Jesus.

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No domingo passado, dizíamos que a Igreja é fruto da Páscoa do Senhor, que ela nasceu do lado do Cristo morto e ressuscitado, que ela vive e continua a nascer da água do Batismo e do sangue da Eucaristia, que o Senhor, na sua fidelidade, haverá de levá-la à plenitude, que até lá, a Igreja deve ser sinal vivo do Reino de Deus entre as provações da história e deve viver no amor – herança que o Senhor nos deixou...

No Domingo presente, a Palavra de Deus continua a nos falar da Igreja, dessa Comunidade do Ressuscitado, Comunidade que peregrina já há dois mil anos na história humana, como um povo tão pobre, tão débil, humanamente falando, mas também tão rico e tão forte pela presença do Ressuscitado entre nós.

É ainda o Apocalipse que nos apresenta, de modo belíssimo, a glória da Jerusalém celeste, Esposa do Cordeiro, nossa Mãe católica: “Mostrou-me a Cidade Santa, Jerusalém, descendo do céu, de junto de Deus, brilhando com a glória de Deus” – Esta Jerusalém gloriosa é a Igreja! Ela não nasce do povo, não nasce de um projeto humano; ela nasce do coração do Pai, que, através do Filho Jesus, doador do Espírito, chamou-nos, reuniu-nos, salvou-nos e fez de nós um novo povo, uma nova cidade, uma nova aliança, início de uma nova humanidade. A Igreja é a verdadeira Jerusalém, a verdadeira Cidade de Deus, que desce do céu e que é santificada pelo sangue do Cordeiro e, um dia, será totalmente transfigurada na glória de Deus. Não na sua própria glória, mas na de Deus, aquela glória que já brilha na face do Cristo ressuscitado!

Ela é a herança e a realização plena do antigo povo de Israel, ela é a plenitude do povo de Israel, é o Israel da nova aliança. Por isso, “nas suas portas estavam escritos os nomes das doze tribos de Israel”. Mas, a Igreja é mais que Israel: ela é aberta a todos os povos, suas portas são abertas para todos os lados: “havia três portas do lado do oriente, três portas do lado norte, três portas do lado sul e três portas do lado do ocidente”. A nova Jerusalém é católica, é aberta a todos, aberta em todas as direções, pois nela todos os povos, todas as culturas terão abrigo. A Igreja não é simplesmente uma continuação do antigo Israel e a nova aliança não é simplesmente uma continuação da antiga! Não somos judeus! Em Cristo, tudo foi renovado: “Eis que eu faço novas todas as coisas!” (Ap 21,5). Se a Igreja tem nas suas portas os nomes das doze tribos de Israel, tem, por outro lado, como alicerce, o doze apóstolos do Cordeiro: “A muralha da cidade tinha doze alicerces, e sobre eles estavam escritos os nomes dos doze apóstolos do Cordeiro”. Isso aparece muito claramente na primeira leitura da Missa de hoje: os apóstolos, assistidos pelo Espírito Santo, decidiram que os cristãos vindos do paganismo não necessitavam tornarem-se judeus, não precisavam cumprir a Lei de Moisés! Os cristãos não são uma seita judaica! É interessante como os apóstolos, ao tomarem uma decisão tão importante, tinham consciência de que eram assistidos pelo Espírito do Cristo ressuscitado: “Pareceu bem ao Espírito Santo e a nós...” - foi o que eles disseram... o que a Igreja ainda hoje diz, quando os bispos, sucessores dos apóstolos, decidem algo sobre a fé, em comunhão com o Sucessor de Pedro. A Igreja sabe e experimente que o seu Esposo ressuscitado não a abandona; não a abandonará jamais! Recordemos a promessa de Jesus no Evangelho de hoje: “O Paráclito, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, ele vos ensinará tudo e vos recordará o que eu vos tenho dito”. Este Espírito Santo santifica continuamente a Igreja, guia-a, sustenta-a, vivifica-a, orienta-a! Ele é a própria vida do Ressuscitado em nós, seja pessoalmente, seja como comunidade de fé. Por isso Jesus olha para nós e pode dizer com toda verdade e segurança e com toda eficácia: “Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou! Não se perturbe nem se intimide o vosso coração. Ouvistes o que eu vos disse: ‘Vou e voltarei a vós!’” – É verdade: o Ressuscitado permanece conosco na potência do seu Espírito! Não precisamos ter medo, não precisamos nos sentir sozinhos, confusos, abandonados: na potência do Espírito, o Cristo estará sempre conosco!

É por isso que o Autor sagrado afirma ainda: "Não vi nenhum templo na cidade, pois o seu Templo é o próprio Senhor, o Deus Todo-poderoso, e o Cordeiro. A cidade não precisa de sol, nem de luz que a iluminem, pois a glória de Deus é a sua luz e a sua lâmpada é o Cordeiro”. Que imagens, irmãos e irmãs! A Igreja, nova Jerusalém está toda imersa em Deus e no seu Cristo. Ela mesma é templo de Deus no Espírito Santo! Ela vive na luz do Cristo, apesar de caminhar nas trevas deste mundo! Para o mundo, que somente pode enxergar a Igreja na sua realidade exterior, ela é apenas mais uma instituição, entre tantas do mundo. Mas, para nós, que cremos, para nós somos Igreja viva, para nós que dela nascemos e nela vivemos, para nós que nos nutrimos de seus sacramentos, ela é muito mais, ela é este admirável mistério de fé! É isto que queremos dizer quando dizemos: “Creio na Igreja, una, santa, católica e apostólica”. Renovemos nossa fé na Igreja e mergulhemos cada vez mais no seu mistério, pois é aí, é aqui, que podemos viver na nossa vida o mistério e a salvação do Cristo, nosso Deus.

Gostaria de terminar com as palavras de Carlo Carreto:

“Como és contestável para mim, Igreja! E, no entanto, como te amo!

Como me fizeste sofrer! E, no entanto, quanto te devo!

Gostaria de te ver destruída. E, no entanto, tenho necessidade de tua presença.

Deste-me tantos escândalos! E, no entanto, me fizeste compreender a santidade.

Nunca vi nada de mais obscurantista, mais comprometido e mais falso no mundo. Mas também nunca toquei em nada tão puro, tão generoso e tão belo!

Quantas vezes tive vontade de bater em tua cara a porta de minha alma! E quantas vezes orei para um dia morrer em teus braços seguros!

Não, não posso me libertar de ti, porque eu sou tu, mesmo não sendo completamente tu!

Além disso, aonde iria eu? Construiria outra?

Mas não poderia construí-la, senão com os mesmos defeitos, porque são os meus defeitos que levo para dentro dela.

E, se a construísse, seria a minha igreja e não a Igreja de Cristo!

E já estou bastante velho para compreender que não sou melhor que os outros.”

 dom Henrique Soares da Costa

 

Quem ama Jesus ouve sua palavra. Meditada e praticada em comunidade, a Palavra produz muitos e bons frutos. O Espírito Santo, dom de Deus, recorda aos discípulos tudo o que o Mestre ensinou. Uma comunidade que ama é, por excelência, o espaço sagrado, pois nela habita a Trindade. Onde mora Deus, há a verdadeira paz (evangelho). O Espírito Santo também inspira e fortalece os discípulos de Jesus para continuarem sua missão. Como anunciadores da verdade do evangelho, encontram oposições por parte dos que seguem as propostas do mundo. A paz de Deus é diferente da paz que o mundo dá. A paz de Deus não é ausência de conflitos. No dinamismo do Espírito Santo, os seguidores de Jesus precisam encontrar-se, dialogar, discernir e decidir pelo melhor caminho (I leitura). As comunidades cristãs são convidadas a acolher a “nova Jerusalém”, a cidade da paz, que desce do céu, fruto da graça divina e da fidelidade dos que ouvem sua palavra. É a nova humanidade, cujos alicerces se encontram no testemunho dos apóstolos, os quais viram, acolheram e transmitiram a palavra da vida: Jesus Cristo morto e ressuscitado (II leitura). Iluminados e encorajados pelo mesmo Espírito Santo, continuamos a testemunhar a fé em Jesus, reunindo-nos para rezar, para comungar a palavra-eucaristia, para dialogar, discernir e viver o amor, conscientes de que a Trindade fez sua morada no meio de nós.

Evangelho (Jo 14,23-29): Ser humano, morada de Deus

A redação do Evangelho de João se dá ao redor do ano 100. Constitui-se numa reflexão pós-pascal das comunidades joaninas. O texto deste domingo faz parte do discurso de despedida de Jesus junto aos seus discípulos. Percebe-se íntima relação entre Jesus e Moisés. Assim como Moisés fora enviado para guiar o seu povo rumo à terra prometida, Jesus foi enviado por Deus para dar a vida à humanidade. Assim como Deus se manifestou no Êxodo por meio de dez sinais, Jesus realiza sete sinais libertadores. Assim como Deus revelou, por meio de Moisés, os Mandamentos como estatutos para o povo de Israel, Jesus revela o Mandamento do Amor, estatuto do novo povo de Deus, conforme o texto do domingo passado.

Há, porém, uma novidade radical, sintetizada no texto da liturgia de hoje. É fruto da experiência de fé, ao longo da caminhada das comunidades joaninas, que iluminou a compreensão da pessoa e da proposta de Jesus: ele e o Pai vivem intimamente unidos. O que Jesus diz e faz é a própria expressão de Deus Pai. Jesus e o Pai são UM. A intimidade amorosa entre ambos estende-se às pessoas que praticam o amor. Nelas Deus faz sua morada. O mesmo foi dito do Espírito Santo (v. 17). Então, a pessoa que crê torna-se morada da Trindade. Cumpre-se a antiga promessa da habitação de Javé no meio de seu povo: “Estabelecerei a minha habitação no meio de vós e não vos rejeitarei jamais. Estarei no meio de vós, serei o vosso Deus e vós sereis o meu povo” (Lv 26,11s). Em João, porém, é ainda mais profundo: a habitação divina não se dá apenas “no meio”, mas “dentro”. É uma experiência única e maravilhosa.

A comunidade cristã, portanto, é a expressão viva de Deus-Amor. As pessoas participantes ouvem a sua palavra, que é o próprio Jesus feito carne, presente no meio delas. O Espírito Santo, dom do amor de Deus, recorda todos os ensinamentos de Jesus. Como ouvintes e praticantes da Palavra, unidas na fé e no amor, as comunidades cristãs transformam-se num espaço da paz e da alegria de Deus. O termo “paz”, na Bíblia, expressa a síntese dos bens necessários para uma vida plena, tanto temporais como espirituais.

I leitura (At 15,1-2.22-29): Conflitos fazem parte da caminhada

Após a primeira viagem missionária, Paulo e Barnabé permaneceram algum tempo na comunidade cristã de Antioquia da Síria. Ela se tornou importante centro irradiador da proposta cristã. A experiência que trouxeram da viagem foi partilhada e meditada na comunidade. O principal ponto polêmico levantado por Lucas, neste texto, é a questão da circuncisão. Trata-se de polêmica suscitada por judeu-cristãos que manifestam ainda muita dificuldade de desvencilhar-se da lei judaica como constitutiva da salvação. Alguns deles se deslocam de Jerusalém para Antioquia a fim de pregar a obrigatoriedade da circuncisão como manifestação de fidelidade à Lei de Moisés. A seu ver, somente assim se poderia obter a salvação.

Paulo e Barnabé, missionários junto às nações, não concordam com essa obrigatoriedade, pois a verdadeira fonte de salvação é Jesus Cristo. Com tal convicção dirigem-se à Igreja-mãe, Jerusalém. O conflito é evidente. Para discernir qual o caminho a ser seguido, é convocada uma assembleia. Realizou-se, então, o que é normalmente conhecido por “Concílio de Jerusalém”. Estamos no ano 49.

O relato de Lucas tem a preocupação de mostrar a disposição dos participantes desse “concílio” para salvar a unidade da Igreja. Percebe-se isso, especialmente, pela acolhida mútua e carinhosa entre os representantes da Igreja de Antioquia e os de Jerusalém. A unidade vem junto com a preocupação de inclusão de toda a gente, pois a salvação que Jesus trouxe é para todos os povos. O decreto final determina a abstenção de algumas atitudes que feriam profundamente a fé judaica: das “carnes sacrificadas aos ídolos”, pois isso significaria participar dos cultos pagãos, o que seria um sacrilégio; do “sangue e das carnes sufocadas”, pois o sangue expressa a própria vida, que só a Deus pertence (por isso, ao ser sacrificado, o sangue do animal deveria ser totalmente derramado – cf. Lv 1,5); das “uniões ilegítimas” (cf. Lv 18). Transparece claramente, nas decisões da assembleia, uma estratégia pastoral com o objetivo mais alto: proporcionar a acolhida do evangelho da salvação por todas as culturas.

II leitura (Ap 21,10-14.22-23): A nova humanidade

Os dois últimos capítulos do Apocalipse apontam para a nova criação, em que já não há lugar para a maldade. O texto da liturgia deste domingo relata essa visão utópica que se dá num alto monte. Na tradição judaica, a montanha carrega um significado simbólico de muita importância. Basta lembrar a concessão dos Mandamentos a Moisés e a morte salvadora de Jesus. Também a Jerusalém histórica se situa no monte Sião.

O alto monte contrasta com o deserto para onde o visionário João havia sido levado anteriormente (cf. 17,3). Enquanto o deserto é, simbolicamente, a morada da meretriz, a montanha é o lar da Noiva de Cristo, a nova Jerusalém constituída pelo povo justo. A meretriz representa a “Babilônia”, nome simbólico de Roma, promotora da morte e da destruição. A nova Jerusalém é a cidade perfeita que desce do céu trazendo a própria glória de Deus. A muralha, grossa e alta, tendo os anjos como guardas, está totalmente protegida e segura.

O número doze é articulado no texto como expressão da nova realidade da qual participa o novo povo de Deus. É o número da perfeição teocrática que lembra as doze tribos de Israel, os doze apóstolos e, por extensão, o povo fiel a Jesus Cristo. Esse número cruza-se com o número três, referindo-se quatro vezes às portas abertas para os quatro cantos do mundo. É, portanto, a realidade-síntese de um mundo novo.

A cidade perfeita é dom de Deus. Nela já não há templo, pois toda ela é habitação divina. Essa perspectiva teológica do Apocalipse aponta para a realização plena do desígnio de Deus inaugurada com a vinda de Jesus, o Messias. Ele é o Cordeiro: a lâmpada que ilumina a cidade. A situação da humanidade transformou-se. Seu relacionamento com Deus se dá de forma íntima, perfeita e definitiva. A aliança é plenamente acolhida e vivida com fidelidade.

PISTAS PARA REFLEXÃO

A utopia do “novo céu e da nova terra” exerceu um papel de resistência, de coragem e de perseverança nas comunidades cristãs do Apocalipse. As violentas perseguições pelas quais passaram as pessoas discípulas de Jesus, por causa do testemunho de fé em Jesus Cristo, desafiaram a sua fidelidade. Muitas foram mortas. O seu martírio, porém, é o sinal por excelência que ilumina e confirma o caminho do seguimento de Jesus.

O testemunho dos primeiros cristãos nos interpela profundamente. A fidelidade aos valores evangélicos permanece como caminho para um mundo novo. É neste mundo onde vivemos que Deus deseja estabelecer sua morada. Tudo, então, torna-se sagrado. Quando nossas palavras e nossas ações respeitarem a presença de Deus em cada ser humano, na natureza e em toda a sociedade, o mundo será outro...

No evangelho, Jesus anuncia e garante a presença de Deus Trindade nas pessoas que o amam e ouvem a sua palavra. Desta verdade decorre o nosso compromisso de contemplar cada pessoa como morada de Deus e, portanto, respeitá-la em sua dignidade. Daí decorre também o nosso compromisso de proteger e promover a vida em todas as suas dimensões. Como faz a mãe (hoje se comemora o “dia das mães”) com relação aos seus filhos, amando-os sem discriminação, dando prioridade àquele que mais necessita, somos todos convidados a adotar esse mesmo jeito de amar em nossa comunidade e na sociedade por meio da participação nas pastorais, movimentos, organizações...

Por isso, iluminados pelas atitudes dos primeiros discípulos e missionários, reunimo-nos em comunidade para celebrar, realizar encontros e assembleias para discernir e decidir o que fazer, tendo em vista a vida digna sem exclusão...

–Podem-se valorizar os diversos momentos de reuniões, encontros, celebrações, estudos e assembleias que se realizam na paróquia (e em outros espaços), bem como refletir sobre a importância da participação neles como Igreja viva que somos...

Celso Loraschi

 

“Anunciai com gritos de alegria, proclamai até os extremos da terra: o Senhor libertou o seu povo, aleluia!”. (cf. Is 48,20)

Este domingo vai nos antecipar as meditações próprias do domingo de Pentecostes sobre o Espírito Santo. João chama pelo “Paráclito”, ou seja, pelo “assistente judicial” no processo do cristão com o mundo, pois o “mundo” indiciou o Cristo e seus discípulos diante do Tribunal de Pôncio Pilatos. Nesta situação, precisamos do Advogado que vem de Deus mesmo e que toma o lugar do Cristo, já que seu testemunho vem da mesma fonte, que é o Pai. Graças a este Paráclito a despedida de Jesus não nos coloca numa situação de órfãos. Jesus anuncia para breve seu desaparecimento deste mundo; o mundo não mais o verá. Mas os fiéis o verão, pois eles estão nele, como ele está neles. Tudo isso, com a condição de guardar sua palavra, observar seu mandamento de amor: na prática da caridade, ele fica presente no meio de nós e seu Espírito nos assiste. E o próprio Pai nos ama.

A primeira leitura (cf. At. 15,1-2.22-29) apresenta o Concílio de Jerusalém. Nesse primeiro Concílio é narrada a conversão de Cornélio (cf. At 10), a atividade de Paulo e Barnabé (cf. At 13-14): o delicado problema da jovem Igreja, da admissão dos pagãos, sem que passem pelo judaísmo, ou seja, sem que sejam circuncidados conforme prescrevia a antiga lei judaica. O Concílio dos Apóstolos vê com clareza que não a Lei, mas Cristo é que salva. Todavia, recomenda certas normas práticas para que não sejam feridas as sensibilidades específicas dos cristãos vindos do judaísmo; pois é para a fraternidade que Jesus nos salvou.

Vivemos um clima de despedida de Jesus. Mais do que despedidas, temos presentes vários ensinamentos. Jesus afirma que se manifesta a todos indistintamente e não somente aos apóstolos. Os judeus queriam o Messias político e repleto de politicagem.

Jesus vem na contra-mão. Determina o fim do monopólio e das oligarquias e quer ser o salvador de todos, sem exceção, de todos, pagãos e crentes, de todos os seres humanos.

Jesus hoje nos ensina que a experiência de Deus é a experiência do amor. Do amor em íntima união com Deus, e isso só pode acontecer quando observamos e vivemos na prática os santos Evangelhos.

Hoje o Evangelho(cf. Jo 14,23-29) fala que nós devemos “guardar a Palavra”. O que é “guardar a Palavra”?  Guardar as palavras de Jesus é guardar a Palavra de Deus. Não se trata de coisa decorada, mas vivificada, vivida e colocada em prática. A Bíblia diria: gravada e fincada no coração.

Como está a nossa relação com a Palavra de Deus? Uns se escandalizam com ela. Outros a admiram. Outros, simplesmente, a rejeitam. Outros, ainda, são indiferentes. Muitos tentam adaptar a palavra de Deus. Outros a deturpam escancaradamente. Alguns são infiéis na divulgação e na vivência da Palavra santa.

Graças a Deus muitos vivem e guardam a PALAVRA DE DEUS, não a letra, mas o espírito que vivifica a vida. Deus monta morada e tenda em nosso meio pela vivência de sua palavra que é de salvação.

O que é guardar a palavra de Deus? É pura e simplesmente viver o AMOR E A PARTILHA. Só ama aquele que sabe acolher a Palavra de Deus e colocá-la em prática a serviço da solidariedade, da partilha e da paz!

Deus já havia feito uma aliança com o povo do Antigo Testamento. O Deus do Antigo Testamento é um Deus que dialoga, que fala, que se manifesta, que delega a palavra a outros, que faz dela um ensinamento, uma doutrina, uma lei. É um Deus que se torna vivo e presente pela Palavra da Salvação.

Assim, ontem e hoje, cada profeta recebe a palavra a seu modo, mas há nela sempre um encontro muito pessoal e um comportamento com Deus. A palavra do profeta passa a ser palavra de Deus, ou seja, o profeta fala em nome de Deus.

O profeta sempre transmite um recado de Deus e não uma decisão ou uma reflexão própria: “Ouvi, céus, escuta, terra, porque o Senhor fala: criei filhos e os fiz crescer, mas eles se rebelaram contra mim (cf Is 1,2)”.

Muitas são as outras formas de ser colocada a Palavra de Deus, como por exemplo, ameaça, julgamento e castigo, norma, lei, mandamentos, fidelidade, amor. E,m tudo devemos “deixar viver na observância da palavra de Deus” (cf Sl 119,17).

Palavra de Deus dinâmica, viva e concreta que deve ser vivida com amor e com grande carinho espiritual, em perfeita comunhão com Deus.

A segunda leitura (cf. Ap 21,10-14.22-23) nos apresenta o esplendor da nova Jerusalém. A nova Jerusalém, vista pelo visionário, é, como a Igreja, fundada sobre o alicerce dos Apóstolos e dos Profetas. Ela é totalmente diferente do mundo que conhecemos agora: ela é santa, repleta de presença de Deus e do Cordeiro. A esta realidade deve aspirar a História que fazemos. Por isso, é bom observarmos nessa Leitura os nome das doze tribos de Israel e dos doze Apóstolos, símbolos do novo povo de Deus fundamentado nos apóstolos. A ausência do Templo – uma idéia cara ao Novo Testamento, já que o Cristo substituiu o Templo de Jerusalém pelo seu corpo ressuscitado (cf. Jo 2,18-22). Sua iluminação: a glória de Deus e o Cordeiro, a sua lâmpada. Não se deve explicar muito estas imagens. Importa captar o que elas querem sugerir, num espírito global. É uma cidade que tem doze portas com os nome das doze tribos, para acolhê-las no dia em que elas forem reunidas dos quatro ventos, para existirem na paz messiânica, tendo por centro só e exclusivamente Deus e o cordeiro. É a cidade para viver na presença de Deus e de Cristo. E isto é a paz.

O Novo Testamento retoma a riqueza do Antigo Testamento no sentido de centrar na pessoa de Jesus de Nazaré, profeta e legislador, juiz e revelação de Deus, pois “A Palavra se fez carne e habitou entre nós!” (cf Jo 1,14).

Há uma fundamental diferença entre a Palavra dos Profetas e a Palavra de Jesus. No Antigo Testamento a Palavra era dirigia ao profeta, que falava em nome de Deus. Cristo, no Novo Testamento, é a palavra de Deus e fala com autoridade divina a ponto de identificar sua pessoa e sua palavra. Acolher a palavra de Deus é aceitar a pessoa de Jesus, crendo e fazendo de sua palavra CAMINHO, VERDADE E VIDA. O discípulo de Jesus não procura os próprios interesses, mas a realização do projeto de Jesus. O projeto de Jesus é a comunhão da criatura com o Criador. Deus se manifesta nessa comunhão, em que não somos meros espectadores, mas participantes: Deus em nós e nós em Deus!

Em miúdos, Deus todo Poderoso se fez tão próximo de nós, fazendo de nós, comunidade crente, o seu espaço de vida e de luz, não podemos deixar de louvá-lo e agradecê-lo por esta maravilha que ele operou.

Um dia os templos materiais desaparecerão: “Não vi nenhum templo nela, pois o seu templo é o Senhor, o Deus todo-poderoso e o Cordeiro”, conforme nos ensina a segunda leitura de hoje retirada do Livro do Apocalipse.

A cidade santa, Jerusalém, que descia do céu, de junto de Deus, com a glória de Deus, representa a Igreja, toda ela impregnada da glória de Deus e do Cordeiro. Verdadeiramente o Cordeiro imolado e glorioso nos mereceu a graça de podermos participar desta maravilhosa realidade. Por isso graças e louvores sejam dadas a todo momento, ao Senhor da Vida e da História, Amém, Aleluia!

Neste espírito de comunhão a Igreja celebra, nestes dias a 48ª. Assembléia Geral da CNBB, em Brasília. Somos todos convidados a nos fazermos “Discípulos e Missionários de Jesus Cristo”. Na busca de um discipulado autêntico, confiemos esta importante reunião dos bispos no Brasil à proteção Materna de Nossa Senhora Aparecida para que sejam encaminhados novo ardor missionário à Igreja no Brasil.

Por fim, sublinhando a importância da maternidade, dom de Deus para a humanidade, queremos desejar a todas as mães que Deus as ilumine na sua doce missão de presentes-presença e as conduzam para que possam viver na dimensão do Céu, a valorização da maternidade e da vida. Amém!

padre Wagner Augusto Portugal

 

1º leitura – At. 15,1-2.22-29

O texto de hoje não descreve o Concílio de Jerusalém (acontecido no ano 49 d.C.), mas apresenta a introdução com a temática do Concílio e o resultado prático através da carta ou decreto apostólico. Temos, portanto a introdução e a conclusão.

Introdução 15,1-2

Homens da Judéia sem autorização apostólica (cf. v. 24) ensinavam em Antioquia a necessidade da circuncisão para serem salvos. Isto para Paulo anulava o Evangelho de Jesus Cristo. Paulo ensinava que os pagãos pela fé são chamados a fazer parte do povo de Deus, e é pela fé, independentemente das obras da Lei, que eles são salvos. As normas da Lei de Moisés caducaram. Estes dois pontos de vista provocaram uma grande agitação e controvérsia entre eles. A solução foi apelar para os apóstolos e presbíteros de Jerusalém.

O decreto apostólico 15,22-29

A reunião conciliar foi bastante agitada (v.7). Nela tomaram a palavra Pedro, Paulo e Barnabé e depois Tiago. As conclusões foram redigidas numa carta e enviadas para Antioquia. Eis os pontos principais:

- Deixa claro que os homens da Judéia que ensinavam a circuncisão perturbando a comunidade não tinham autorização apostólica (v.24).

- Mostra a dignidade e a confiabilidade dos mediadores do conflito (vv. 25-27). Paulo e Barnabé recebem um grande elogio; são considerados "amados" e expuseram suas vidas pelo nome de Nosso Senhor Jesus Cristo. Judas e Silas ficaram encarregados de relatar de viva voz.

Diante dos conflitos e novos desafios pastorais, o Espírito Santo está à frente para orientar as comunidades (v. 28).

- Os apóstolos só exigem o necessário. E fica claro que para se salvar não são necessárias a circuncisão nem a prática da Lei de Moisés. O v. 29 traz as chamadas cláusulas de Tiago que são recomendações transitórias para solucionar certas dificuldades em comunidades mistas de judeus e pagãos para não escandalizar os judeus: comer carnes imoladas aos ídolos, aproveitar o sangue, comer carnes sufocadas que retenham o sangue. Além disso, deveriam abster-se da prostituição ou relações sexuais ilícitas.

2º leitura – Ap. 21,10-14.22-23

"Um anjo leva João, em espírito, a um grande e alto monte". Estar sobre uma montanha é estar mais próximo do céu. A montanha é o lugar onde se experimenta a presença de Deus. Dali ele mostrou para João a cidade Santa, a Jerusalém que descia do céu como um dom divino e vinha com a glória de Deus (vv. 10-11). Ela vinha como esposa, ornada para seu esposo que é o Cordeiro. Aqui o texto a apresenta como puro dom, como conquista do Cordeiro. Em outros lugares sabemos que a nova sociedade se funda a partir do anúncio evangélico e como resultado de sua vivência na luta pela justiça e liberdade. No fundo podemos ver que a cidade santa, chamada de esposa, parece ser a antiga prostituta que sobreviveria às custas do abuso do poder, da exploração, da violência e do derramamento de sangue (cf. cap. 17). De fato os cap. 21-22 descrevem a Jerusalém celeste com traços paralelos com a antiga Babilônia idolátrica: quadrada, atravessada por uma avenida ao longo de um rio com jardins. Se isso é verdade, só pode ter acontecido pela conquista do Cordeiro imolado e pela luta e testemunho dos seus santos. Cabe a nós hoje a tarefa de transformar, com a força do Evangelho, a sociedade prostituída e idólatra em esposa do Cordeiro. Quais são as características da cidade vislumbrada por João? Ela tem o esplendor de Deus (v. 11 = jaspe cristalino, cf. 4,3). É uma sociedade perfeita e aberta a todos os povos (v. 12) (muralha com 12 portas - 3 portas abertas para cada um dos pontos cardeais). A perfeição é indicada pelos números perfeitos: 4 e 3 e o resultado de sua multiplicação que é 12. A perfeição da cidade é também indicada pela perfeição de suas medidas e pela qualidade do material de sua constituição (cf. vv. 15ss). O Templo lugar de encontro com Deus através de diversas mediações foi substituído pelo próprio Deus e do Cordeiro a quem o povo contempla face a face (v. 22). Sol e lua também desapareceram, pois a cidade resplandece com a glória de Deus. Sua lâmpada é o Cordeiro (v. 23).

Como transformar a nós mesmos e a nossa comunidade em esposa do Cordeiro? "Sem mim nada podeis fazer". Mas devemos esperar tudo caindo do céu? E a missão que Cristo nos confiou?

Evangelho - Jo 14,23-29

a) Só o amor transforma

A pergunta de Judas - não o Iscariotes - (v. 22) implica numa manifestação de Jesus como Messias glorioso só na linha política, transformando a sociedade através da violência de um exército imbatível. Jesus responde apontando com a arma do AMOR. O compromisso do amor vai transformar a sociedade. Esse compromisso do amor a Jesus tem três consequências:

- Quem ama a Jesus guarda a sua palavra e sua palavra é a palavra do Pai (v. 24).

- Quem ama a Jesus é amado pelo Pai.

- Quem ama a Jesus se torna habitação de Deus.

Estas três consequências podem ser sintetizadas em uma só: quem ama a Jesus assume com ele o projeto do Pai que é o mesmo projeto do Filho: levar a vida divina a todos, principalmente aos mais excluídos. Não foi para isso que ele foi enviado? Sua vida não foi dada para a transformação do mundo? Quem quiser ser discípulo não deve segui-lo?

b) A ação da parábola (v. 26)

Jesus está se despedindo de seus discípulos, mas a herança que Jesus deixou, seus gestos e ensinamentos não serão esquecidos. Em nome de Jesus ou junto com Jesus, o Pai enviará o Espírito Santo sobre os discípulos. Sua missão não é ensinar novidades, pois Jesus como plenitude da revelação do Pai já ensinou tudo. "Ensinar e recordar tudo" significa trazer à memória dos discípulos o sentido profundo de todas as ações e palavras de Jesus. O Espírito substitui a presença física de Jesus. É sua presença espiritual junto aos discípulos. É mestre e advogado (= Paráclito) para os discípulos. Ele os capacita no discernimento do que constrói e conduz à vida.

c) Jesus se despede tranquilizando os seus discípulos (vv. 27-29)

Diante da tristeza e medo dos discípulos, Jesus lhes transmite paz (= shalom), uma paz que não é ausência de conflitos, mas uma certeza da presença de Deus na vida deles, dando-lhes serenidade e coragem até mesmo diante da morte, na convicção de que o bem triunfa sobre o mal, a vida será restituída para todos aqueles que amam o Filho e fazem a vontade do Pai. Eles não precisam ficar com medo, pelo contrário, eles podem ficar alegres, pois Jesus vai para o Pai a quem ele se submeteu totalmente; por isso ele diz que o Pai é maior do que ele. É preciso apenas que eles tenham um amor confiante, pois, conforme ele disse, ele retornará a eles através de seu Espírito Santo.

O que significa força transformadora do amor? É algo de alienante ou revolucionário?

dom Emanuel Messias de Oliveira

 

Espírito Santo e paz

As primeiras comunidades cristãs iluminadas pela luz da experiência pascal, aos poucos, pelo testemunho dos apóstolos e dos discípulos, foram recordando tudo o que Jesus havia dito antes de sua morte. Movidas pelo Espírito Santo, estas começaram a entender que o "sonho de Jesus" ‑ a nova sociedade ‑ tinha se iniciado pela prática do mandamento do amor e pelo testemunho do amor de Deus à humanidade.

O Evangelho deste domingo faz parte do sermão de despedida. Jesus avisa que, se alguém o ama, vai praticar a sua Palavra, e o Pai também vai amá‑lo, e ambos estabelecerão nessa pessoa a sua morada. Não significa que as duas pessoas da Santíssima Trindade vão invadir o espaço de um determinado indivíduo. Mas que, quem depois de ter escutado a Palavra da Boa‑Nova, recebe a vida de Deus e se torna apto a realizar as mesmas obras de Jesus e do Pai.

A morada de Deus na pessoa, que escuta a Palavra de Jesus, cria uma nova relação entre Deus e o ser humano. No culto da nova aliança, mais que em templos materiais e em altares de pedra, Deus habita de forma íntima e profunda na comunidade de fé e em cada um de seus membros. Jesus, o Pai e o Espírito Santo moram em quem ama a Cristo mediante a escuta e a prática de sua Palavra. A pessoa humana é o templo da presença de Deus. Por isso, na perspectiva da nova aliança e do culto em espírito e verdade, o lugar sagrado por excelência neste mundo é a própria pessoa humana, objeto do amor de Deus, revelado em Cristo, que assumiu a condição humana em comunhão solidária com todos os seres humanos.

Jesus promete aos discípulos enviar o Espírito Santo, pois "ele lhes ensinará todas as coisas e fará vocês lembrarem tudo o que eu lhes disse". É graças à atuação do Espírito Santo enviado pelo Pai que os discípulos poderão compreender o sentido da Palavra e assimilá‑la existencialmente. A missão do Espírito Santo é resumida em dois verbos: ensinar e recordar.

O ensinamento do Paráclito consistirá em reavivar a lembrança das palavras de Jesus. Ensinar tem ainda o sentido de "interpretar" autenticamente a Palavra das Sagradas Escrituras diante de questões complexas, próprias de cada tempo. Jesus tem presente as tensões e os conflitos que o testemunho e o anúncio da Boa‑Nova podem suscitar. Nesses momentos, o Espírito do Pai ensinará a vocês o que falar (cf. Mt. 10,20). Por isso, João chama o Espírito de Advogado.

No curso da história e em meio à diversidade de culturas, o Espírito age nos discípulos para recordar a Palavra de Jesus. Só o Espírito nos permite compreender, aprofundar e assimilar a verdade da Boa‑Nova de Jesus. Sem sua ajuda, ninguém poderá penetrar no íntimo de sua Palavra. O Espírito Santo é o verdadeiro pedagogo da Igreja. Sua ação torna possível a vida em plenitude no amor.

Jesus despede‑se de seus amigos com os augúrios típicos de um israelita: "Eu deixo para vocês a paz, eu lhes dou a minha paz". E acrescenta: "A paz que eu dou para vocês não é a paz que o mundo dá". A paz de Cristo é distinta. A Morte e a Ressurreição, a entrega e a vitória de Jesus, geram paz e alegria. Por isso, nada deve perturbar ou inquietar os discípulos.

frei Faustino Paludo, OFM Cap.

 

Os textos deste domingo nos falam da comunidade querida pelo Ressuscitado. Uma comunidade fundada no amor fraterno numa dinâmica de crescimento que, expandida, possa ser capaz de acolher Deus: “Dilatai-vos no amor!” (2 Cor 6, 13). Cristo não é uma peça de museu e nem a vida oferecida por Ele, de dignidade, de beleza, é apenas uma lembrança ou uma abstração puramente espiritual.

A comunidade fundada em Cristo deve ser um exemplo de paz num mundo sem paz, pois o Espírito de Jesus é um Espírito dilatado em amor. As palavras de Cristo nos garantem que poderemos viver e nos amarmos em seu Espírito, pois Ele mesmo, o mensageiro deste dom, está vivo para sempre. Nós também viveremos eternamente e nos reencontraremos com todos os que amamos e nos amaram porque o amor vem de Deus, é Deus e Jesus é o Emmanuel, o Deus-Conosco.

O papa Bento XVI nos alerta: “A falta de alegria, o escrúpulo atormentado, a estreiteza espiritual são responsáveis pela mais forte refutação do cristianismo. O sentimento de que o cristianismo é contrário à alegria e a impressão de tormento e desconforto é, certamente, uma causa muito mais importante da deserção das igrejas do que todos os problemas teóricos que possa, hoje, colocar a fé cristã”. Não devemos perturbar e nem intimidar ninguém. Não temos o direito de impor nenhum fardo que possa causar tribulação e transtorno aos nossos irmãos. A nossa fé não seria uma fé libertadora, mas uma crispação genitora de medos, angústias, rancores e recalques.

O Apocalipse nos garante não haver templo na Jerusalém Celeste: “Não vi templo na cidade, pois o seu templo é o próprio Senhor, o Deus todo poderoso e o Cordeiro”. E Paulo reitera: “Não sabeis que o vosso corpo é templo do Espírito Santo que recebeis de Deus e reside em vós?” (1 Cor 6, 19). A cidade de Deus não é, como se pensou durante séculos, uma cristandade sociologicamente organizada e toda poderosa, mas é uma dinâmica do Espírito que age e transforma o mundo por meio de nós.

Jesus nos promete e cumpre que receberemos o Espírito Santo – o Defensor que o Pai enviará em Seu nome – e que este Espírito de Vida não será assassinado; que o amor não será sufocado e nem será, de nós, arrebatada a esperança.

Devemos fazer vibrar nossos sentimentos e ações no compasso do sopro e do tato divinos. Um sopro de liberdade e um tato de ternura para que, em comunhão fraterna, sejamos transfigurados em cordas que transmitem os sons de um amor sem limites. Meditemos as palavras de Bento XVI: “Da minha parte, eu gostaria de fazer valer que ser sustentado por um grande amor não é um fardo, são asas e, por esta razão, é belo ser cristão”.

Este é o diferencial do cristianismo: um amor sem limites porque não existe força alguma, de nenhuma instituição social, política ou religiosa, que possa pôr barreiras e impedimentos ao amor de Deus.

Manos da Terna Solidão

 

Através da liturgia deste domingo, continuamos aprofundando do significado da Páscoa. Poderemos encontrar nas palavras de Jesus alguns aspectos da profunda abrangência daquele Evento sem tempo que se prolonga na nossa história e dá sentido novo à nossa existência.

A leitura faz parte de todo um grande discurso com o qual o Evangelista resume os ensinamentos de Jesus quanto à nova dimensão com a qual o Senhor continuará permanecendo junto dos seus. É um discurso “testamento” -como vimos no domingo passado- que visa imprimir na comunidade aquela fisionomia que permitirá que o Evangelho esteja sempre vivo e presente entre os homens no decorrer dos séculos. Obviamente não estava na intenção de Jesus o desejo de perpetuar uma doutrina através das palavras dos Apóstolos, pois todos sabem que as doutrinas subseguem-se uma à outra e não são capazes de mudar o coração do homem. Jesus desejava que fosse perpetuada até o seu retorno aquela mesma experiência de encontro entre Deus e as pessoas, em qualquer das suas condições de vida, que os Apóstolos haviam conhecido e experimentado. Os Apóstolos precisavam ter estampado em seu rosto o rosto do próprio Senhor; em seus atos gravada a mesma mão firme e carinhosa do Salvador. E tudo isto não é uma conquista humana, é dom de Deus e se torna possível somente através da resposta confiante do homem. Assim seria possível para todos os tempos que fosse visível o mesmo Jesus que estava encerrando a sua vida lá na Palestina.

Com certeza o trecho de hoje possui um marco único; é ao mesmo tempo o fim de uma e o início de outra fase do projeto de salvação Deus. Dois fortes indícios nos conduzem a entender assim este texto. O primeiro: Jesus estava dando uma resposta que a Judas Tadeu (o irmão de Tiago) e, de repente, Ele se dirigiu aos discípulos com uma frase surpreendente: «estas coisas eu vos disse enquanto estava ainda convosco». Ora, é realmente estranho o que Jesus dizia, pois Ele estava falando assim enquanto ainda estava junto dos Apóstolos, logo, não justifica que tenha usado um verbo ao passado. Jesus, pela primeira vez falou do dom do Espírito e com esta promessa indicava também qual seria o caminho pelo qual continuaria a outra fase do projeto de salvação. É preciso pegar com cuidado esta afirmação, veremos o seu sentido. Creio que já não haja mais quem queira ainda interpretar as palavras de Jesus fazendo distinções entre a “era do Pai”, a “era do Filho” e a “era do Espírito” (pressupostamente, aquela que vivemos hoje). Sabemos que esta leitura da história da salvação -erroneamente atribuída a Gioacchino da Fiore- foi declarada herética pelo Concílio Lateranense IV em 1215. Vejamos, então, com um pouco de atenção qual o sentido deste modo de falar.

Embora Jesus estivesse ainda falando com os Apóstolos, por outro lado Ele considerava já encerrada a fase da sua missão feita de curas, milagres, ensinamentos e exemplos de vida. A partir da última ceia, desde que havia consignado definitivamente si mesmo à comunidade de fé através do Sacramento do Pão e do Vinho, a Jesus restava consignar si mesmo ao Pai. Era o que estava fazendo. À comunidade com o Sacramento, ao Pai com seu Espírito. Aquela conduta seria como que a antecipação da maneira com a qual os Apóstolos e os fies se encontrariam com o Senhor a partir da Páscoa: por um lado O receberiam sempre presente com o sinal do Sacramento, por outro lado sentiriam com que uma ausência Dele, pois o Senhor estaria com o Pai. Aos discípulos havia entregado o seu Corpo, ao Pai entregaria o seu Espírito: «Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito». Nesta tensão de presença-ausência do Senhor decorrerá a vida da sua comunidade de fé, a nossa vida. É assim que nasce e se desenvolve a virtude cristã da esperança, nesta tensão certa entre o que já possuímos e a perspectiva de algo que desconhecemos.

O segundo indício é ainda de maior relevo. Jesus anunciava o Espírito que o Pai daria. O Evangelista usa uma palavra específica para nos dizer algo em relação a “quem é” o Espírito que Deus estava prestes a enviar. João distingue entre o «Espírito que Deus dará» do “Espírito de Deus”, que é uma locução própria do Antigo Testamento, isto porque se trata de duas realidades distintas, diferentes ousaria dizer. Trata-se de dois conceitos diversos e o Evangelista faz questão de ressaltar esta diversidade; o Antigo Testamento conhece três maneiras de indicar o Espírito, porém nos lábios de Jesus não está nenhuma delas. No AT o Espírito é visto principalmente ou como uma força propulsora de Jahvé ou como participação à vida, isto é, ao respiro que Deus dá. Nada disso se encontra no vocábulo que está na boca de Jesus. De que “Espírito” Jesus estava falando? Porque o Evangelista encontrou na palavra “Consolador” para expressar o que Jesus estava querendo dizer? Sabemos que a palavra que Jesus usa (Paráclito, do verbo ) pode ser traduzida com “defensor”, “advogado”, contudo não parece aqui ser o contexto certo para tal uso, pois não explica de “quem” o Espírito deve defender o fiel. Deste modo mais oportuno aceitar a leitura de “consolador”, como fizemos; esta abre a belíssimos horizontes. Antes de tudo sabemos que, segundo a tradição profética, “consolar” é a tarefa própria do Messias; assim, por um lado é Deus que vai se dar aos discípulos pelo Espírito, por outro é o mesmo Jesus que continuará “consolando” os seus, não deixando-os sozinhos. Lendo o livro de Isaias, o Profeta anuncia o fim do cativeiro em Babilônia com estas palavras: «Consolai, consolai o meu povo...» -o mesmo vocábulo usado pelo Evangelista para indicar o Espírito- (Is. 40,1). Ora, embora os hebreus não estivessem ainda livres quando o oráculo foi proferido, de fato a libertação já havia começado por um decreto absolutamente inesperado de Dario, rei da Pérsia. Note-se então o paralelismo com Jesus o qual ainda estava falando com os seus, mas já não “estava” mais com eles. “Já e não ainda”, diríamos nós. Note-se a inesperada gratuidade entre os dois eventos; note-se, ainda, que o processo de libertação está em ato, não está encerrado, mas sim começado de modo definitivo. Tudo isto dá realmente um sentido novo à nossa vida de fé.

Voltando ao trecho de Isaías, o Profeta não somente indica que a libertação está em ato, mas prossegue afirmando que esta poderá alcançar a sua plenitude à medida em que as pessoas souberem aderir com confiança e fidelidade às indicações de Deus, à Sua palavra. O homem é, assim, também artífice e responsável pela sua liberdade, conquistada não somente tendo o lume da própria razão como guia, mas também o coração que aprende a aderir a Deus o qual abriu, (como Dario para os Hebreus) uma perspectiva nova, inesperada, gratuita. Ora, com Jesus terminou o tempo da escravidão do homem, mas sua realização plena acontecerá se o discípulo for capaz de guardar a Sua palavra.

O sentido de “guardar” uma palavra é maior do que “obedecer”. Guardar implica afeição para as coisas que uma pessoa diz, e isto acontece somente quando se ama aquele que fala. O amor faz com que a palavra não fique somente em nível de lembrança. Assim, o que Jesus diz respeito ao “Espírito que Deus dará”, é que Ele terá justamente a função de transformar a lembrança em recordação. Lembrar significa simplesmente conservar dados; recordar (conforme a etimologia latina) significa “ter dentro do coração”. Assim, recordar a palavra significa que ela fica gravada no coração do homem e a partir daí, orienta o homem em tudo o que ele vive, em suas decisões, nas suas atitudes diante da vida, em seus afetos e valores mais profundos. O Espírito, neste sentido, é o grande dom que permite ao homem transformar, com amor, a lembrança em vida: «vos recordará tudo o que eu vos tenho dito». É uma Palavra que se faz “carne” na nossa carne. Temos assim um aspecto claro do sentido de “consolar”: é a dimensão de escuta amorosa da palavra que Jesus deixa.

Ao Espírito, Jesus atribui o poder de «ensinar». Evidentemente esta expressão não é sinônimo de memorizar, nem indica um poder quase “mágico” de conhecer coisas estranhas. A palavra significa “gravar, imprimir dentro”. Pois bem, este é o segundo aspecto do Espírito, ou seja: progressivamente, por um caminho lento e fiel, aquelas que poderiam ser somente palavras de Jesus, são gravadas definitivamente na vida do discípulo com o amor, e assim imprimem nele uma marca específica (signum, em latim, do qual: “ensinar”), algo que indica ao mundo, com objetividade, que o coração de quem escuta pertence a Deus, que Deus está no centro de sua vida. As palavras de Jesus não terão sentido de uma doutrina ideológica ou preceitos, mas serão capazes de forjar um estilo realmente alternativo, um estilo de vida que recorda ao homem o infinito, que é a sua vocação.

Um terceiro aspecto, creio, valha a pena considerar. O mesmo verbo que está nos lábios de Jesus, quando fala do «Espírito que Deus dará», o encontramos nos lábios de Moisés, no cântico de liberdade entoado logo após a passagem do mar Vermelho (Ex. 15,13). Isto é muito significativo; a analogia é bem profunda: assim como Moisés, Jesus também colocando-se à total disposição de Deus e dos homens com atitude de confiante serviço, proporcionou a possibilidade de ser livre a qualquer pessoa que o desejar. Em clima de vitória, em clima de festa, no “Cântico de Moisés” o mesmo verbo se encontra na seguinte expressão: «conduziste o teu povo para a tua santa morada». Aqui o verbo “consolar” é usado em seu significado de “conduzir”, e é associado à felicidade que alguém sente quando percebe que Deus age realmente, com providência, com força... age quando tudo parece estar perdido. Significa reconhecer que Deus esteve sempre presente nos atos e situações passadas e que ainda conduz aquele que crê rumo à “santa morada”. Eis então a principal missão que o Espírito irá desempenhar para com a comunidade de fé segundo Jesus: acompanhar, guiar, conduzir em direção à santidade. Passo a passo, dia após dia, com uma ação constante o Espírito de amor levará o homem que o quiser a tocar o âmago mais profundo do amor de Deus, do Seu coração, e ali encontrará a liberdade.

Por último, podemos nos perguntar por quais caminhos o Espírito conduzirá o discípulo à santidade de Deus. Para isto também, vem em nosso auxilio a etimologia da palavra “consolador” (), pois o verbo indica “chamar, chamar para si” e mais, indica “chamar junto”, “convocar”. Sua raiz é a mesma da palavra “Igreja”, comunidade convocada por Deus. Assim sendo o dom do Espírito se evidencia mais como dom “eclesial” do que individual, e consiste num um apelo profundo, que supera a razão; num sentimento de infinita atração, quase uma indistinta insatisfação que o discípulo sente até que não se encontre com o Amado juntamente com toda a sua comunidade. O Consolador é assim a voz de Deus que chama para si, voz que atrai acima de qualquer outra voz. É o sentimento que conduz a alma a dizer com o Cântico: «o meu amado é para mim e eu sou para Ele» (Ct.1,16).

padre Carlo - www.fatima.com.br