6º DOMINGO DO TEMPO COMUM

ano C

 

A Palavra de Deus, neste domingo é de uma gravidade que chega a ser angustiante! O Senhor nos convida – ou melhor, força-nos – a uma escolha, a que nos decidamos por um modo de viver. E apresenta-nos dois caminhos: o da bênção e o da maldição. Dois caminhos; só dois. Não mais!

Jesus desce da montanha e chega a uma planície, onde encontra seus discípulos – não só os Doze, mas todo discípulo – e uma grande multidão. Ele é o Deus misericordioso que “desce” até a planície de nossa pobre existência, tão emaranhada em tantas vicissitudes e preocupações, em tantos desafios escolhas, em tantas dúvidas e incertezas. Desce para encontrar as pessoas concretas, aquelas que encontramos nas ruas de nossas cidades... E, então, dirige a palavra... não a todos, mas “levantando os olhos para os seus discípulos, disse...” O que ele vai falar, então, é para nós, cristãos, seus discípulos! “Bem-aventurados vós, os pobres... Bem-aventurados vós, que agora tendes fome... Bem-aventurados vós, que agora chorais... Bem-aventurados sereis quando vos odiarem e vos expulsarem... por causa do Filho do Homem...” São palavras misteriosas, desconcertantes, que desmoralizam definitivamente qualquer “teologia” da prosperidade das seitas neo-pentecostais! Palavras que desmascaram como diabólica, satânica essa “teologia” impostora que não tem nada de evangélica! Não há nada mais anti-evangélico e anti-cristão, nada de mais mascarado e satânico que a maldita “teologia” da prosperidade!

Quem são os pobres e aflitos e famintos e perseguidos de que fala Jesus? Pobre, na Bíblia, é todo aquele que se encontra numa situação limite, numa situação de miséria, seja qual for: miséria econômica, social, de saúde, moral, psicológica... Mas, aqui, pobre, concretamente, é o cristão que, por causa do Evangelho, por causa de Jesus, “perdeu-se” na vida, levou a pior, perdeu uma chance de se dar bem, de “salvar” a vida, de ter prestígio, fama, poder... Por isso, Jesus diz aos discípulos: Bem-aventurados vós... meus discípulos, que sois pobres, que chorais, que tendes fome, que sois perseguidos por minha causa! Um exemplo de pobre, segundo estas bem-aventuranças, foi São Paulo: “O que era para mim lucro eu o tive como perda, por amor de Cristo. Mais ainda: tudo eu considero perda, pela excelência do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor. Por ele, eu perdi tudo e tudo tenho como esterco, para ganhar a Cristo e ser achado nele” (Fl. 3,7s). O que perdemos por Cristo? O que estamos dispostos a deixar por Cristo? Até onde? Em que medida? Perguntas angustiantes, desafiadoras! Jesus exige que deixemos até a própria vida: “Se alguém vem a mim e não odeia seu próprio pai e mãe, mulher, filhos, irmãos, irmãs e até a própria vida, não pode ser meu discípulo” (Lc. 14,25ss). Não dá para ser cristão vivendo a vidinha do nosso jeito: cristão maneiro, cristão jeitoso, cristão boa-vida, cristão burguês...

O contrário das bem-aventuranças de hoje, são as maldições: “Ai de vós, ricos... Ai de vós, que agora tendes fartura... Ai de vós, que agora rides... Ai de vós, quando todos vos elogiam...” Quem são esses malditos? “Vós”, ou seja, os discípulos que renegaram o Senhor para salvar a própria pele, para levar uma vida cômoda e acomodada... aqueles que, por um nada, na hora de decidir, não deixam nada, nem se deixam, por Cristo. Para esses, Cristo não passa de um apêndice, de uma crendice, de uma teoria, um idéia abstrata... Desses, Cristo não é o eixo, o caminho, o fundamento da vida... Como é angustiante a possibilidade concreta de estarmos entre esses malditos! O que não tivemos a coragem de perder por Cristo? O que não quisemos deixar por Cristo? O que colocamos acima de Cristo em nossa vida? Ai de vós, porque tudo quanto ganhastes fora de Cristo é efêmero, ilusório, passageiro: “já tendes vossa consolação... passareis fome... tereis luto e lágrimas... assim foram tratados os falsos profetas...” Dizendo de outro modo: a Palavra do Senhor deste hoje pergunta-nos pela veracidade ou não de nosso ser cristãos, de nosso ser discípulos de Jesus! E coloca as coisas de um modo duríssimo, seríssimo! Não dá para enrolar, não dá para escapar!

Eco deste desafio do Senhor Jesus, é a afirmação de Jeremias: “Bendito o homem que confia no Senhor, cuja esperança é o Senhor. É como a árvore plantada junto às águas... não teme a chegada do calor... não sofre míngua em tempo de seca... Maldito o homem que confia no homem e faz consistir sua força na carne humana, enquanto seu coração se afasta do Senhor... ele não vê chegar a floração, vegeta na secura do deserto, em região salobra e desabitada”. Não há como escapar: o Senhor não nos deixa alternativa! É preciso escolher um dos dois modos de viver: abertos para o Senhor ou fechados em nós!

Pensemos bem o que estamos fazendo de nossa existência. Se cremos que Jesus é o Cristo-Deus, aquele que pode nos dar um sentido para a vida já agora e nos pode dar a Vida plena após a morte, então, vale a pena segui-lo! Esta é a questão, será sempre a questão! Nossa vida será salva ou não, terá sentido ou não, será perdida ou não, dependendo de nossa decisão e de nosso comportamento em relação a Jesus! São Paulo deixa isso muito claro na segunda leitura: “Se Cristo não ressuscitou, a vossa fé não tem valor e ainda estais em vossos pecados. Se é para esta vida que pusemos nossa esperança em Cristo, nós somos os mais dignos de pena de todos os homens!” Aqui está a questão: qual a nossa esperança? Cremos, de fato, que nossa vida neste mundo é fermento de eternidade? Cremos que aqui estamos de passagem e que em Cristo é que permanecemos para sempre? Cremos que o Senhor de nossa vida e de nossa morte é Cristo? O Apóstolo coloca as coisas de modo cru e muito realístico. E termina, triunfal: “Mas, na realidade, Cristo ressuscitou dos mortos como primícias dos que morreram!” Por isso Paulo teve a coragem de se fazer pobre, de perder tudo... de viver para Cristo: porque sabia com toda convicção que a vida e a morte somente em Cristo podem encontrar um sentido definitivo: “Ninguém de nós vive e ninguém morre para si mesmo, porque se vivemos é para o Senhor que vivemos, e se morremos é para o Senhor que morremos. Portanto, quer vivamos, quer morramos pertencemos ao Senhor” (Rm. 14,7s).

Bem-aventurado, vós... Ai de vós! Pensemos bem onde nos enquadramos, onde estamos nos colocando, que vida estamos construindo! Recordemos que o mundo não compreenderá nunca a lógica do Cristo... nem mesmo muitos dos que tomam o nome de cristãos. Mas, o que conta é a Palavra do Senhor; e ela é dura, é exigente, nos desmascara e incomoda...

Que a comunhão no seu Corpo e no seu Sangue nos dê a coragem da fé e da generosidade para perder a vida para ganhar a Vida verdadeira, já neste mundo - como paz, certeza, consolação e força... e, após a nossa morte, por toda a eternidade, na feliz ressurreição que o Cristo nos garante e nos concede. A ele, nosso Senhor e Deus, a glória para sempre.

dom Henrique Soares da Costa

 

Bem-aventurados os pobres

Os Evangelhos segundo Mateus e Lucas têm várias falas de Jesus, colhidas, não há quem duvide, de fonte escrita comum, a chamada fonte Q. O grande sermão que recolheu os mais importantes ditos de Jesus sobre a vida e o comportamento do discípulo, tanto em Mateus quanto em Lucas, começa com as bem-aventuranças.

A localização do grande discurso é diferente em um e em outro evangelho. Em Mateus é o Sermão da Montanha, o ensinamento de Jesus semelhante ao da torá, que Moisés trouxe do monte Sinai. É a Nova Lei, e Jesus é novo Moisés.

Em Lucas, o discurso é feito na planície, onde vive a humanidade. Acompanhado pelos doze apóstolos, Jesus desce da montanha, onde havia falado com Deus, e, na baixada, dirige-se a todos os discípulos e à multidão de sofredores a seu lado.

O evangelho deste domingo proclama as bem-aventuranças segundo Lucas. Jesus se dirige diretamente aos discípulos: “Felizes/bem-aventurados sois vós”. Além das bem-aventuranças, ele traz maldições. Insiste numa oposição entre o agora e o depois. Esse depois seria apenas na outra vida, na eternidade, ou já pode acontecer aqui, com a realização plena (“assim na terra como no céu”) do reinado de Deus?

Aos discípulos, que são pobres, não há nenhuma promessa para o futuro; eles não ficarão ricos, tal como serão alimentados os que estão passando fome. Aos pobres discípulos já agora pertence o reinado de Deus. Os que agora passam fome ou estão chorando terão seus problemas resolvidos, sua sorte vai se inverter. Vai se inverter também a sorte dos ricos, dos que vivem rindo e dos já fartos. Que significado daremos hoje a tudo isso?

1º leitura (Jr. 17,5 - 8)

O profeta diz quem é uma pessoa bendita, abençoada, feliz e quem, ao contrário, é infeliz, maldito. Na liturgia de hoje, o texto de Jeremias prepara a leitura do evangelho. Aqui, feliz é quem busca Javé, o SENHOR. Desgraçado ou maldito é quem se apoia somente nas forças humanas.

Usando as mesmas comparações do Salmo 1, Jeremias primeiro fala do maldito. Isso certamente tem que ver com o que foi dito antes (vv. 1-4): crítica ao abandono da fé em Javé para buscar outros deuses, à idolatria, à substituição de Javé, o Deus dos pobres, por outros valores. O castigo será o exílio, com o saque das riquezas, o abandono forçado da sua herança, a terra, e a escravidão em país estrangeiro.

O motivo de tudo é ter afastado Javé do pensamento, do coração, para procurar apoio apenas nas forças humanas. Esquecer-se de Javé é esquecer que ele é a força dos fracos, o Deus que está junto, que se manifesta na nossa história, que ouve o clamor dos oprimidos e desce para libertá-los (Ex 3).

A consequência para quem se esquece de Javé é a perda da confiança em si mesmo e nos recursos próprios e a busca de apoio em forças humanas. Poderá ficar seco, sem forças verdadeiras, como um arbusto no deserto inabitável.

Ao contrário, aquele que confia em Javé, o vencedor do faraó, é feliz, é bendito. O mesmo Javé, Deus dos pequenos, será a sua segurança. E a pessoa estará sempre produzindo seus frutos e vendo os resultados, como árvore plantada à beira da água.

Salmo 1,1-2.3.4.6

O salmo canta os dois caminhos, o do justo e o do malvado.

2º leitura (1Cor. 15,12.16 - 20)

Em Corinto, diziam que não existia ressurreição, ou seja, outra vida com Deus depois da morte. Paulo responde nos versículos do capítulo 15 da primeira carta aos Coríntios que constituem a 2ª leitura de hoje.

Não se sabe com certeza se negavam a ressurreição por influência da filosofia grega – especialmente do platonismo, que não valorizava o corpo, considerado prisão da alma – ou se porque, mais provavelmente, pensavam já estar ressuscitados e em plena comunhão com Deus, por força de sua alta espiritualidade.

De qualquer maneira, a resposta de Paulo é muito clara: a nossa fé se fundamenta na ressurreição de Jesus. A ressurreição significa que Deus confirmou e apoiou Jesus em tudo, especialmente na sua obediência ou coerência até a morte de cruz. Sem a ressurreição, Jesus não passaria de mais um profeta fracassado, como tantos na Palestina daquele tempo. Sem a ressurreição, Deus não teria entrado na história de Jesus e nós ainda estaríamos mergulhados no pecado.

Sem ressurreição, sem vida nova após a morte, quem morreu se perdeu. Sem esperança na vida de ressuscitados, confiar em Jesus como Messias seria a maior de todas as tolices. Assim arremata Paulo o seu raciocínio.

Evangelho (Lc. 6,17.20 - 26)

O grande sermão de Jesus no Evangelho segundo Lucas não ocorre na montanha, mas na planície do dia a dia, com o pé no chão.

Na montanha ele passou a noite em oração e, ao clarear do dia, escolheu os doze apóstolos; agora, ao descer para a planície, encontra os outros discípulos e multidões de sofredores vindas de todas as partes.

O versículo 17, início do texto deste domingo, fala desses outros discípulos e das multidões de israelitas (da Judeia e de Jerusalém) e de não israelitas (de Tiro e Sidônia). Os versículos omitidos (18 e 19) caracterizam melhor quem são essas multidões: doentes e atormentados por espíritos impuros, que procuravam cura.

Essas doenças e tormentos de espíritos impuros (doenças mal conhecidas ou de ordem psicológica) eram consequência da situação miserável em que a maioria da população vivia; da fome, das dívidas e das situações sem perspectiva que atormentavam a quase todos.

A atração exercida por Jesus, a esperança que ele transmitia eram tais, que todos queriam pelo menos tocar nele. As multidões sofredoras que procuram em Jesus uma saída, uma esperança, uma perspectiva melhor para suas vidas são o pano de fundo do que vem a seguir.

Diferentemente do de Mateus, o Evangelho segundo Lucas tem bênçãos e também maldições. Em Mateus são oito bênçãos; aqui, são quatro bênçãos e quatro maldições. Em Mateus, as bênçãos são atribuídas a todos os que praticam o objeto da bênção; aqui, as bênçãos de Jesus se dirigem diretamente aos discípulos e aos sofredores que lhes estão próximos.

Em comum com Mateus, a bênção dos pobres, em Lucas, diz que deles é o reino de Deus (“é”, no presente), enquanto os que choram e os que passam fome, no futuro, serão saciados e consolados. A bênção dos perseguidos, em Mateus, é a mesma dos pobres (o reino de Deus no presente), mas, em Lucas, dirigida diretamente aos discípulos, ela lhes promete apenas a recompensa eterna dos verdadeiros profetas.

Que significado tem o fato de a bênção dos pobres ser o reino de Deus já no presente? Que reino ou reinado de Deus é esse? E esse reinado ou domínio de Deus: a que outro reinado se contrapõe? Ao reinado de César? Ao reinado do dinheiro? O que é próprio e característico do reinado de Deus e em que é diferente, o oposto daquilo que acontece no reinado de César ou do dinheiro? Diante disso, que significado tem o fato de o reinado de Deus pertencer ao pobre (Lc) ou ao pobre por espírito (Mt)? Só o verdadeiro pobre tem condição de realizar o reinado de Deus?

O resultado aparece no futuro: “Vocês dessas multidões que passam fome (realidade tão presente no tempo de Jesus) poderão se saciar; vocês que vivem chorando poderão rir”. O reinado de Deus vai chegar e os pobres é que vão realizar esse mundo diferente; deles “é” o reinado de Deus. Os próprios sofredores serão os sujeitos da transformação, os promotores do reinado de Deus.

Lucas acrescenta também as maldições, no sentido oposto ao das bênçãos: ai dos ricos, dos fartos, dos que vivem rindo, dos aplaudidos por todos. Ai dos vencidos (vae victis), dizia o general vitorioso; ai dos incompetentes, faz eco o deus Mercado. Ai dos competentes, dos que se dão bem neste mundo, desde os ricos até os aplaudidos por todos, diz Jesus.

Vocês ricos, diz Jesus, já receberam seu conforto; agora – parece dizer – nada mais têm a esperar. Vocês que estão fartos vão passar fome; vocês que vivem rindo vão chorar; vocês, aplaudidos por todos, são falsos profetas.

Tudo leva a pensar na recompensa escatológica, a que vem depois desta vida. Mas a referência aos falsos profetas aponta para uma razão mais profunda: o contraste entre o reinado de Deus e o outro reinado. Foi para o reinado deste mundo que o falso profeta contribuiu; por isso é elogiado por todos; por isso Jesus o chama de infeliz.

O maior pobre perseguido e verdadeiro profeta que deu o passo decisivo para construir o reinado de Deus é Jesus. Na eucaristia, celebramos a entrega que ele fez de si mesmo à cruz e também o fruto, o resultado da entrega de si – a mesa comum da humanidade.

PISTAS PARA REFLEXÃO

Uma pessoa feliz, realizada: quase instintivamente a gente pensaria em uma pessoa rica, pelo menos com recursos suficientes e fartos; uma pessoa sempre risonha, que leva a vida sem grandes problemas; além disso, uma pessoa querida, amada por todos, sem inimigos, sem opositores.

Certas Igrejas, como a Universal, divulgam a chamada teologia da prosperidade. Para essa teologia, a prosperidade é sinal da bênção de Deus. Quem é fiel a Deus (no caso, isso diz respeito especificamente ao dízimo) é abençoado, paga as dívidas, prospera, é feliz.

O pensamento de Jesus, no entanto, é completamente outro: abençoado e feliz é o pobre, o perseguido. Os que sofrem na fome e na dor também são felizes porque podem esperar o dia de estarem satisfeitos e sorridentes. Esse dia não deverá ser apenas o dia eterno do céu. Dizer que sim seria fazer da fé uma droga entorpecente para enganar o povo. Esse dia, essa vontade de Deus tem de cumprir-se “aqui na terra como no céu”, como pedimos todos os dias no pai-nosso.

Pedimos, mas o que fazemos para que isso se realize? Há esperança de que venha a se realizar, sim, porque há os pobres, a quem pertence o reinado de Deus. Quem só pensa em si e com os critérios do seu bolso jamais fará alguma coisa pelo reinado de Deus.

Quem tem tudo é infeliz, porque não tem a si mesmo.

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“Sede o rochedo que me abriga, a casa bem defendida que me salva. Sois minha fortaleza e minha rocha; para honra do vosso nome, vós me conduzis e alimentais”.

(cf. Sl 30, 3s).

O tempo comum é uma grande escola de aprendizagem. Na liturgia nós vamos caminhando no cotidiano aprendendo da grande misericórdia de Deus a ternura de nos tornarmos co-partícipes do mistério da salvação.

A reflexão evangélica de hoje nos relembra o trecho do Sermão das Bem-Aventuranças, ou o Sermão da Montanha(cf. Lc. 6,17.20 - 26). Neste Sermão, Cristo, o Filho de Deus, decreta e dá rumos novos da humanidade. Assim, Lucas que narra o seu evangelho acima das tradições judaicas, demonstrando a universalidade da salvação em que as bem-aventuranças são ditas para os apóstolos inicialmente. Os discípulos são para Jesus as futuras colunas da Igreja, os mestres que deverão continuar a proclamar as Bem-Aventuranças. Tanto que o ensinamento das Bem-Aventuranças é coisa que deve ser sempre de novo repetida e sempre de novo proposta como prática de vida. Os Apóstolos, os doze e todos aqueles que entraram sucessivamente em seu lugar, têm como uma de suas maiores obrigações proclamar as Bem-Aventuranças, tais como as proclamou Jesus.

É exatamente sobre o ter que Jesus lança a mão e o pulveriza com maldição. Isso para escândalo de muitos, inclusive de gente piedosa. No Antigo Testamento o ter significava benção divina. Quanto mais riqueza alguém possuísse tanto mais abençoado ser julgava. Ser pobre significava ser desprezado por Deus. E certamente Deus não desprezaria ninguém que não fosse pecador. A dedução era rápida: pobre necessariamente era pecador, ainda que nenhuma mancha lhe pesasse na consciência. Jesus encontrou uma multidão desses pobres, famintos, tristes e odiados. E como ele viera para os últimos da sociedade, ele tomou a defesa dos pobres e excluídos.Os pobres descritos pelo Evangelista Lucas são os indigentes, os que não tem o que comer, os que não tem casa, os que não tem ninguém que lhes socorra e estenda a mão. Mas as Bem-Aventuranças não olham especificamente para uma solução social, político-econômica, mas para a misericórdia de Deus, que ultrapassa as realidades terrenas.

Lucas contrapõe exatamente as Bem-Aventuranças e as maldições: pobre-rico, faminto-farto, triste-sorridente, odiado-aplaudido, dando com isso uma concretude estupenda às palavras de Jesus. E, mais: usa a segunda pessoa do plural, enquanto Mateus usa a terceira, que é indefinida. Usando a segunda pessoa, pode-se imaginar o dedo em riste, apontando para a multidão, apontando para cada um dos seus ouvintes. E Jesus tinha autoridade para fazê-lo não só por ser o Mestre e Senhor, mas também porque ele, antes de ensiná-las, viveu as bem-aventuranças.

A primeira leitura retirada de Jeremias (cf. Jeremias 17,5 - 8) é uma advertência da Liturgia da Igreja para nós: maldito o homem que coloca a sua confiança nos homens: são como os cactos secos no deserto. Por conseguinte, quem confia em Deus é como a árvore frondosa à beira-rio. Com essas frases, critica a atitude do rei Sedecias e de seus conselheiros, que colocavam toda a sua confiança nos pactos políticos que Judá trata de estabelecer com os egípcios, julgando-os bastantes fortes para desviar o perigo dos babilônios. Confiança inútil, como a história tem mostrado. Que esta advertência sirva para cada um de nós. É melhor e sempre bom, unicamente bom, nos colocarmos nas mãos de Deus e deixar os homens, porque em Deus tudo podemos.

A segunda leitura (cf. 1 Cor. 15,12.16 - 20) reforça a mensagem do evangelho: “Se temos esperança em Cristo somente para esta vida – porque colocamos tudo em função desta vida, até o próprio Cristo -, somos os mais lamentáveis de todos os homens” (cf. 1 Cor. 15,19). A leitura fala que a ressurreição é a base da nossa fé. É uma continuação de domingo passado. O escândalo da ressurreição já existia na Grécia do tempo de Paulo. Alguns recusavam a idéia da ressurreição e preferiam ver a vida eterna como uma mera participação mística. Mas Paulo mostra como a ressurreição corporal do Cristo é a base de nossa fé; então a ressurreição existe.

Jesus não é contra os ricos. Tem pena deles. Por isso, os censura e os exorta a uma mudança de mentalidade, que não deixará de ter seus reflexos na estrutura da sociedade. Não é bem verdade que há lugar para os ricos na Igreja. Há lugar para eles, na medida em que se esvaziam de si mesmos e também de seus bens, transformando-os em bens para todos. Há várias maneiras de fazer isso. A gerência da inteligência de uma empresa pode ser um meio melhor do que certas reformas agrárias do passado.

A esperança do reino supera a vida material. É a esperança que se baseia em Cristo ressuscitado conforme nos ensina a segunda leitura: “Se temos esperança em Cristo tão-somente para esta vida, somos os mais lamentáveis de todos!” Aquele que se tornou pobre para nós é que nos enriquece com sua dádiva do amor infinito do Pai, que ele revela no dom da própria vida. O reino de Deus anuncia aos pobres, decerto, começa com a justiça e a fraternidade, mas tem um horizonte que nosso olhar terreno nunca alcança!

Rezemos, pois com fé, para seguirmos o Cristo, o Caminho da Vida, que importa atender ao seu apelo e convite: “Vinde a mim e alimentarmo-nos com seu Corpo santo e seu Sangue Sagrado”. E, mais, a própria oração da coleta é a nossa súplica aos Céus nesta missa: “que Deus nos conceda um coração reto e puro, tão vazio de si mesmo, que Deus possa habitar em nós! Ora, Deus se deixa geralmente representar por gente de condição humilde e orante”...

padre Wagner Augusto Portugal

 

1º leitura – Jr. 17,5 - 8

Este texto atribuído ao profeta Jeremias é uma crítica violenta às tentativas de aliança de Judá com as grandes potências. Judá sempre teve a tentação de confiar nos exércitos estrangeiros ao invés de pôr sua confiança no Senhor. É um fato que conserva sua atualidade. Confiar no homem, em sistemas sociais, políticos ou sócio-econômicos, confiar em partidos, nas forças das armas ou em potências internacionais só gera escravidão. A única dependência que liberta e gera vida é a adesão ao Deus da vida. O nosso texto diz duas coisas seguidas da expressão: “maldito o homem que confia no homem e bendito o homem que confia no Senhor”. É no fundo um comentário de Dt. 30,15 - 19b: “Vê que eu hoje te proponho a vida e a felicidade, a morte e a desgraça (...) Escolhe, pois, a vida, para que vivas, tu e teus descendentes...” O evangelho de hoje vai seguir o mesmo esquema das bem-aventuranças dos pobres, que põem sua confiança em Deus, e das mal-aventuranças dos ricos que confiam em si mesmos.

Como nossos versos comparam o homem que confia no homem e têm seu coração afastado do Senhor? É comparado com os arbustos desfolhados do deserto que não vêem a alegria da floração. Parece que se contentam com a aridez e a secura do ermo. Entretanto, o homem que confia no homem é como a árvore plantada junto às águas. Não lhe falta umidade. Não teme o calor. Está sempre verde e dá fruto mesmo em tempos de seca. Este texto serviu de inspiração para o Sl 1 da liturgia de hoje. Quem confia só em si mesmo torna-se auto-suficiente e ocupa o lugar de Deus que é o único Absoluto. Quem confia só nas pessoas faz delas um ídolo, um absoluto e se torna suas escravas. Nossa confiança deve estar no Deus da vida. Na prática da sua vida em quem você põe sua confiança?

2º leitura – 1 Cor. 15,12.16 - 20

Na comunidade de Corinto alguns negavam a ressurreição dos corpos, não dando assim importância à dignidade do corpo, pois achavam que, quando a pessoa morria, só o espírito é que se destinava à vida eterna. Conformavam-se com a filosofia grega, que só valorizava o espírito em detrimento do corpo. Para eles se Cristo ressuscitou ou não, pouco acrescentava à condição humana. Qual é a colocação de Paulo? Faz parte dos artigos da nossa fé, comum a Paulo, que Cristo morreu e ressuscitou. É isto que os cristãos pregavam e é isto que as Escrituras anunciavam. Como pode então quem tem fé duvidar da ressurreição? Se Cristo ressuscitou é porque os mortos ressuscitam. Por outro lado, se os mortos não ressuscitam, também Cristo não ressuscitou e estamos assim invalidando as Escrituras e as próprias palavras de Cristo. Para Paulo as testemunhas oculares das aparições são a maior prova da ressurreição de Cristo. Quais seriam as consequências da negação da ressurreição de Cristo? Paulo as enumera. Vejamos:

- Nossa fé seria pura ilusão (v. 17).

- A redenção não teria sido realizada, ou seja, todos nós estaríamos ainda mergulhados no nosso pecado sem possibilidade de perdão (v. 17).

- Os que morreram em Cristo estariam perdidos (v. 18).

- Seríamos os mais dignos de compaixão entre todas as pessoas.

Mas na realidade nossa esperança em Cristo não foi colocada só para esta vida, pois Cristo ressuscitou dos mortos como primícias dos que morreram (v. 20). Primícias significam os primeiros frutos de uma árvore que dará muitos frutos, ou os primeiros frutos de uma colheita abundante. A ressurreição de Cristo como primícias dos que morreram significa que todos nós ressuscitaremos depois dele. Em 1Cor 12 Paulo fala que somos membros do corpo ressuscitado de Jesus. Daí o respeito que devemos ter pelo nosso corpo e pelas pessoas, pois fazemos parte do Corpo de Cristo e somos destinados à ressurreição, para vivermos para sempre com ele. É assim que tratamos o nosso corpo e as pessoas?

Evangelho – Lc. 6,17.20 - 26

Em Mt 5-7 temos o Sermão da Montanha. Em Lucas, Jesus desce e pára num lugar plano. Então, temos o Sermão da Planície. Em Mateus, temos apenas as Bem-aventuranças. Em Lucas, temos as bem-aventuranças para os pobres e as mal-aventuranças para os ricos.

Qual é o auditório de Jesus? Muitos dos seus discípulos e uma grande multidão vinda de todas as partes. Provavelmente havia pobres e ricos. Pois Jesus se dirige diretamente primeiro aos pobres, depois aos ricos. Que a preferência de Jesus é pelos pobres e marginalizados está claro em todo o evangelho, e o contraste entre as bem-aventuranças e as mal-aventuranças o confirma.

Quem são os pobres?

Um primeiro ponto a chamar a atenção é que o Reino de Deus é dos pobres, por isso são bem-aventurados ou felizes. Os pobres, são portanto, desde já cidadãos do Reino. Eles já iniciam a nova sociedade que Jesus veio inaugurar. Eles são os que agora passam fome, os que agora choram e os que terão um futuro conflitivo neste mundo. Pois para eles estão reservados da parte dos cidadãos deste mundo o ódio, a expulsão, o insulto e a maldição. Tudo isto porque eles pertencem a Cristo (= o Filho do Homem) e seu Reino. Mas tudo isto deve ser motivo de alegria e exultação, pois esta foi a sorte dos profetas e como os profetas também eles terão uma grande recompensa no céu. É por isso que a segunda parte de cada bem-aventurança assegura uma promessa: sereis saciados, havereis de rir.

Por que os pobres têm de passar por tudo isso?

Porque os ricos deste mundo não querem mudança nas relações sociais. Querem manter seus privilégios, seus status, seus bens. Eles querem dominar e explorar os pobres. Querem acumular tirando do pobre o que lhe pertence. Eles se alegram com o sofrimento dos pobres. Seus antepassados já matavam os profetas que anunciavam uma mudança através da justiça, partilha e solidariedade.

Quem são os ricos?

Eles são infelizes, são mal-aventurados aos olhos de Deus e sua recompensa já está na consolação aqui e agora. Amanhã eles pedirão ao Pai Abraão para deixar Lázaro refrescar a língua deles com uma gota d’água (cf. Lc. 16,24), mas não obterão este favor. Eles são os que agora têm fortuna, os que agora riem, os que agora são elogiados. Eles simbolizam os falsos profetas. Amanhã eles vão passar fome, vão ter luto e lágrimas.

Nós partilhamos das lutas dos pobres para a construção de uma nova sociedade, onde desaparecerão o orgulho e o egoísmo dos ricos e haverá partilha e solidariedade?

dom Emanuel Messias de Oliveira

 

FELIZ É O HOMEM QUE CONFIA NO SENHOR

A mensagem principal da liturgia deste domingo se concentra numa contraposição que encontramos quer na Leitura do profeta Jeremias quer no Salmo como no Evangelho segundo Lucas. Somos convidados a acolher com fé essa Palavra de Deus e a experimentar em nossa vida a verdade profunda que ela contém.

“Maldito o homem que confia no homem e faz consistir sua força na carne humana, enquanto seu coração se afasta do Senhor... Bendito é o homem que confia no Senhor...” (Jr. 17,5 - 8).

“Feliz é todo aquele que não anda conforme os conselhos dos perversos; que não entra no caminho dos malvados nem junto aos zombadores vai sentar-se; mas encontra seu prazer na lei de Deus e a medita dia e noite, sem cessar... eis que tudo o que ele faz vai prosperar... mas bem outra é a sorte dos perversos... a estrada dos maus leva à morte” (Sl. 1).

Quanto ao Evangelho, é o das bem-aventuranças. Enquanto em Mateus, Jesus apresenta oito bem-aventuranças no chamado Sermão da Montanha (Mt. 5,1 - 7,29), Lucas cita apenas quatro no chamado Discurso na planície (Lc. 6,17 - 7,1). Mas em compensação, Lucas reforça estas quatro, contrapondo a cada uma delas uma maldição correspondente, iniciada por um “ai”.

Além disso, enquanto o discurso de Mateus é apresentado de forma indireta e a ênfase cai na pobreza espiritual, Lucas é totalmente direto e acentua a pobreza material: “Bem-aventurados, vocês, os pobres!” Entretanto, trata-se de detalhes que não mudam em nada o essencial da mensagem. Cada um dos evangelistas, a seu modo, apresenta o significado profundo do ensinamento de Jesus como veremos a seguir.

As quatro bem-aventuranças que correspondem em ambos os evangelhos, mostram situações de necessidade (pobreza, fome, choro e perseguição). As outras quatro que Mateus acrescenta dizem respeito a um comportamento positivo (mansidão, misericórdia, pureza, pacificação). Mas, por sua vez, só Lucas mostra que Jesus anuncia quatro “ais” claramente em oposição às bem-aventuranças. E desde já, é bom lembrar que os “ais” de Jesus não são uma sentença de condenação, mas uma lamentação, ele apenas está dizendo: é uma pena que vocês tenham preferido o caminho que não leva a nada.

Como público do seu discurso, Jesus tinha muitos dos seus discípulos, como também uma multidão de judeus e pagãos. Entretanto, olhando diretamente para seus discípulos, Jesus começa a dizer as bem-aventuranças, mostrando com este gesto que tais palavras não valem para todos, mas para aqueles que acolheram o seu chamamento e o estão seguindo, já que para quem ainda não o acolheu, ou seja, para quem vive a vida se matando por dinheiro, fama e poder, as bem-aventuranças soam ridículas, sem nexo e de uma chatice total; pois quem já viu alguém se alegrar por ser odiado, expulso, insultado, amaldiçoado, pobre, faminto?

Mas, Jesus é seguro no que diz: “Bem-aventurados, são vocês, os pobres, porque de vocês é o Reino de Deus” (6,20). E a esta corresponde o “mas ai de vocês, os ricos, porque já têm o seu conforto!”.

O que Jesus quer anunciar é a Boa Notícia de que o Reino de Deus é dos pobres; a verdadeira felicidade se consegue, participando desse reino através da fé e da acolhida a este reino que se traduz em bons frutos. Jesus como Rei é o responsável total pela vida, pela salvação e a felicidade de seus seguidores, e estabelece de forma definitiva o seu reino que está acima de todos os outros reinos, tais como o do dinheiro que com seus aspectos negativos como o consumismo desenfreado, a mesquinhez, a indiferença, a ganância etc prejudicam a felicidade do homem e o levam finalmente à morte.

Jesus oferece uma vida com sentido. Provou no próprio corpo a dor da morte violenta e injusta para que tivéssemos direito a esta herança que é o seu Reino de salvação e de felicidade plena. E somente os pobres estão preparados para acolher este reino, pois são aquelas pessoas conscientes de que as suas próprias forças e os bens materiais não são suficientes nunca para trazer o sentido pleno de suas vidas, para serem felizes. Pelo contrário, sabem que mesmo que não arredem o pé dos seus bens, o cemitério está sempre se aproximando.

E os discípulos são assim, deixaram tudo para seguir o Mestre: “Quem de vocês não renunciar a tudo o que tem, não pode ser meu discípulo” (Lc. 14,33). Teve aquele outro caso daquele rapaz rico a quem Jesus disse: “uma coisa ainda lhe falta: venda tudo o que você tem, dê aos pobres e terá um tesouro nos céus; depois, vem e segue-me (Lc. 18,22). Mas o homem ficou muito triste porque era riquíssimo e não queria se desapegar dos seus bens. O que fez Jesus afirmar a famosa frase: “como é difícil para os que têm riquezas entrarem no Reino de Deus”. E deve ser mesmo, não por causa da riqueza em si, mas por causa do apego à riqueza que impede de ver a miséria e a necessidade do outro, como devem existir no atual momento, pessoas que têm muito e dormem tranquilamente, enquanto milhares morrem de fome no Haiti e em muitos outros lugares também.

Assim, Jesus considera o apego aos bens materiais um seriíssimo obstáculo para herdar o Reino de Deus, pois ele não pode concordar com tamanha injustiça, já que a grande riqueza de alguns sempre acontece graças às injustiças que eles cometem, como a corrupção escancarada e um emaranhado de situações injustas que visam somente o lucro como um mau patrão que trata os seus empregados como verdadeiros escravos sem lhes dar nenhum direito.

O lema da Campanha da Fraternidade deste ano que começa na quarta-feira de cinzas é justamente: “vocês não podem servir a Deus e ao Dinheiro” (Mt. 6,24). Dinheiro aqui até aparece com D maiúscula porque realmente aparece como um concorrente contra Deus. Devemos ter uma relação justa e equilibrada com o dinheiro. Viver a vida de modo apenas horizontal, batalhando dia após dia para conseguir coisas nessa vida, é ser constantemente infeliz, é sofrer, é nunca chegar. Esta vida só conhece uma linguagem: a do “mais”. E interessante, sempre está vazia, sempre é mendiga. Por mais que você chegue à posição mais elevada, sempre há uma ilusão e uma insatisfação. Por isso que Jesus pede que busquemos as coisas do alto. A linha vertical que é a do menos. A do ser cada vez menos e menos, a ponto de não ser ninguém. Renunciar ao mundo, sem sair do mundo, mas se reconhecer um nada diante de Deus para que Ele possa encher a ponto de transbordar com a sua graça.

Claro que se eu dou tudo o que tenho, eu fico pobre também. E aí? Como vou viver? O caso de Zaqueu é um exemplo desta relação justa com o dinheiro, onde Jesus elogiou a atitude de Zaqueu de dar aos pobres a metade de seus bens (Lc. 19,1), pois com a outra metade, daria para viver tranquilamente, isto numa época em que não havia bancos, nem aposentadorias, nem seguros, nada disso. Agora pra que uma pessoa quer bilhões de dólares e às vezes nem desfruta desse dinheiro para arrecadar mais um dinheirinho como se fosse viver não sei quantos mil anos? Jesus tem razão, o mais traz insatisfação.

Na verdade, não há texto bíblico melhor para ilustrar o comentário de evangelho de hoje como a parábola do rico e do pobre Lázaro. Nela, aparece o rico, a quem se destina o “ai” de Jesus e que não pode mais esperar por nenhuma consolação. É o rico que vive no conforto, na abundância, no egoísmo, na ganância (Lc. 16,19), é rico, tem fartura, ri e é bajulado (6,24 - 25). Mas esquece de algo fundamental: conhece um pobre homem que reside à sua porta e numa total indiferença e mesquinhez, não lhe dá de comer de modo algum, nem com as migalhas que caem da mesa.

Já Lázaro, pelo contrário, é miserável, enfermo, tem como companheiros os cachorros; em qualquer necessidade sua, confia em Deus e sabe que pode contar com Ele, como fazem ainda hoje milhões de miseráveis que não tem o que comer. Para encurtar a história, depois da morte, Lázaro é levado à felicidade eterna, à plena comunhão com Deus, enquanto o rico se auto-excluiu de tal comunhão.

Mas, enfim, Jesus não condena as riquezas materiais nem os ricos nem os confortos da vida terrena. O que ele quer dizer é que a vida terrena não é tudo. Portanto, ele quer nos dizer que aspirar só aos bens materiais, ao sucesso, ao poder, e principalmente às custas da desgraça alheia, é errado e isso nos deixará infelizes e sem sentido sempre. E isso é uma prova de que ele não é o nosso Deus, mas sim o dinheiro. Essa vida de ganância só deixa o mundo mais injusto. Já as coisas mais elevadas, o amor, a caridade, a partilha dessas riquezas deixaria o mundo mais justo, mais solidário, mais humano.

Perguntas para a meditação:

1.O que significa dizer que Jesus anuncia o Reino de Deus aos pobres?

2.O que a mensagem do Evangelho de hoje diz sobre a sociedade de consumo, do entretenimento, o uso sem controle dos bens materiais, a estrema diferença entre os países ricos e os pobres, e enfim, a nós brasileiros que vivemos no país mais injusto do mundo?

3.Na hora da verdade, que é a morte, o que vai ficar no final de contas, quando eu for privado de todos os meus bens e do uso deles?

 

Primeira leitura: Jeremias 17,5 - 8

MÁXIMAS DE SABEDORIA

Jeremias é o profeta que mais desmascara as seguranças falsas e nestes versículos faz uma crítica às tentativas de aliança de Judá com as potências internacionais da época. Para o profeta, só a dependência de Deus não oprime, todas as demais geram morte.

Quem confia só nos homens é comparado a uma árvore seca do deserto que nunca recebe chuva. Quem confia em Deus é semelhante a uma árvore plantada na torrente, não teme o calor nem a seca, está sempre viçoso.

Segunda leitura: 1 Coríntios 15,12.16 - 20

A RESSURREIÇÃO DE JESUS, GARANTIA DE NOSSA RESSURREIÇÃO

Este capitulo é o primeiro esboço da catequese querigmática de Paulo em relação à ressurreição. É a formulação mais antiga e mais importante do kérigma cristológico: segundo as Escrituras, Cristo morreu por nossos pecados, foi sepultado, ressuscitou ao terceiro dia e apareceu a muitos.

Para a filosofia grega, só o espírito tinha valor, o corpo de nada servia. Esta filosofia havia penetrado e influenciado a comunidade de Corinto. Por isso, os cristãos de Corinto achavam normal que os corpos fossem oprimidos pelos outros e com isso legitimavam a opressão. Muitos não acreditavam na ressurreição. Para Paulo, porém, a ressurreição de Jesus era um fato que podia ser comprovado historicamente, e não só isso: a sua ressurreição era prova de nossa própria ressurreição.

A ressurreição de Jesus podia ser comprovada por testemunhas oculares, e isto fortalecia a fé, pois caso contrário tudo seria ilusão, a redenção não teria acontecido.

A ressurreição de Jesus é o primeiro fruto da grande árvore. Os versículos fazem referência ao rito pelo qual o israelita, ao entrar na terra prometida, enchia o cesto com os primeiros frutos da terra da liberdade e os oferecia a Javé (Deuteronômio 26,1ss). Por isso, Cristo ressuscitado é o fruto maduro de nossa libertação.

Evangelho: Lucas 6,17.20 - 26

AS BEM-AVENTURANÇAS

Para os exegetas, os textos de Mateus e Lucas vêm da mesma fonte: Fonte Q. Contudo, o texto de Lucas é mais original que o de Mateus. Jesus está na planície junto com o povo da roça, vítima dos latifundiários. Jesus olha de frente o problema deste povo que sofre, diante de uma sociedade de poucos privilegiados que tinham tudo.

Esta passagem de Lucas equivale à abertura do Sermão da Montanha de Mateus 5,1ss. Lucas não situa o ensinamento de Jesus na montanha como Mateus, mas na planície. Ele não é dirigido apenas aos discípulos como em Mateus, mas também ao povo. Lucas transmite quatro bem-aventuranças seguidas de quatro ameaças, quase maldições, enquanto Mateus relata oito bem-aventuranças.

Lucas, combinando bênçãos e maldições, menciona oito categorias de pessoas, emparelhadas duas a duas, os pobres que passam fome e os ricos que estão fartos, os que choram e os que riem, os que são perseguidos e os que são aplaudidos.

REFLEXÃO

A tentação da sociedade de hoje, com seu pecado fundamental, é o homem ter fruto. Não existe outro além dele, com a exclusão absoluta de Deus. Gera-se assim o ateísmo prático e teórico. Dai a sentença de Santo Agostinho: “Quod amplius delectat, secundum id operemur necesse est”. - “Necessariamente se age segundo aquilo que faz mais feliz“. É um fato comprovado que cada ser humano quer ser feliz. Em conseqüência, busca a maneira de consegui-lo, conforme o que cada um entende por felicidade: riqueza, prestígio, posição, segurança, domínio, sexo, poder, prazer etc. Jesus, que conhecia bem o coração humano, propõe um caminho de felicidade novo e paradoxal. Suas bem-aventuranças constituem a página mais revolucionária do Evangelho, porque nelas Jesus estabelece uma inversão total dos critérios humanos com respeito à felicidade. “Ele declara feliz quem possui o Reino de Deus já agora e não somente na outra vida. A todos que o mundo têm como infelizes: os pobres e os que têm fome, os que choram e os que sofrem, os misericordiosos que sabem perdoar, os honrados e os limpos de coração, os que trabalham pela paz sem violência, os perseguidos por causa de sua fidelidade a Deus. Ao contrário, proclama infelizes e ameaçados de maldição os que são ricos, estão saciados, riem e são aplaudidos por todos”. Afirmações tão fortes ninguém jamais havia feito. Elas são tão paradoxais que só Jesus, com seu estilo de vida, é a chave para uma interpretação válida, de tal maneira que as bem-aventuranças são o compêndio do Evangelho de Jesus e o anúncio profético do Reino de Deus inaugurado em sua pessoa. São proclamações das atitudes básicas para ser discípulo de Jesus. São uma declaração de princípios, a carta magna para a cidadania evangélica. São o questionário que devemos ter constantemente à nossa frente para nos qualificar como cristãos.

Para muitos, tamanha radicalidade não passa de uma utopia sem a lógica mais elementar. Para outros, é um mero ideal espiritualista inatingível. Contudo, Jesus pronunciou as bem-aventuranças consciente de seu significado e as propôs para todo aquele que quer andar em seu caminho. Quando Jesus as pronunciou, não foi para justificar e perpetuar uma sociedade de pobres, resignados só com a esperança futura. Elas trazem um compromisso pessoal e efetivo com a pobreza e o sofrimento humano, de desprendimento, de opção pela justiça, de compromisso com a paz, o amor, a fraternidade e a solidariedade.

A quarta bem-aventurança que Lucas apresenta alude provavelmente à situação de perseguição de que foram objeto os convertidos do cristianismo a partir da ruptura entre a sinagoga e a jovem Igreja por causa da fidelidade a Cristo.

padre José Antonio Bertolin, OSJ

 

A CARTA MAGNA DO CRISTIANISMO

O Sinai e o Monte das Bem-aventuranças são duas montanhas bem diferentes. Aliás, o Monte das Bem-aventuranças nem é bem uma montanha. É uma suave colina da Galiléia, não muito longe de Cafarnaum, na qual se ergue hoje um simpático santuário octogonal, em memória do Sermão da Montanha lá pronunciado.

No Sinai Deus promulgou a Lei. No Sermão da Montanha Jesus - o Deus-conosco - promulga o Evangelho. No Sinai Deus se manifestou entre nuvens de fumaça, trovões e relâmpagos, e sons estridentes de trombetas. Era a manifestação da majestade de Deus e de seu poder absoluto sobre o universo, como convinha para a mentalidade daquele povo.

No Sermão da Montanha estamos na porta do Evangelho, e o que se ouve é a palavra mansa de Jesus, descendo sobre a multidão reunida em respeitoso silêncio. No Sinai é mais a força de uma lei que se impõe. No Sermão da Montanha é sobretudo um espírito que se anuncia para o mundo novo. Ele foi definido como a carta magna do Cristianismo. Conhecê-Io e assumi-Io é entrar no pensamento de Jesus. E ele começa com as "bem-aventuranças".

São Mateus, na sua lista, traz oito bem-aventuranças, completando-as com uma nona, que é a dos mártires, isto é, a daqueles que dão sua vida ou sofrem uma perseguição por causa da justiça. São Lucas traz quatro bem-aventuranças, que substancialmente correspondem às oito de Mateus. Mas acrescenta depois quatro imprecações, que se dirigem àqueles que vivem um espírito contrário ao espírito das bem-aventuranças .

Além disso, Lucas focaliza o aspecto material do sofrimento: ser pobre, ter fome, ter sede, chorar; ao passo que Mateus apresenta mais o lado espiritual: ser pobre em espírito, Ter fome e sede de justiça, estar aflito. É um pouco a personalidade do evangelista da misericórdia que se percebe em são Lucas; enquanto em são Mateus se procurou matizar e precisar melhor aquela que poderíamos chamar a filosofia do Evangelho".

A primeira bem-aventurança, em ambos os evangelistas, é a dos pobres, assim formulada em são Lucas: "Bem aventurados vós, que sois pobres, porque o reino de Deus é para vós" (Lc. 6,20). E aí está de algum modo a substância de todas as bem- aventuranças. A felicidade não consiste em ser rico, em gozar de todos os bens da terra, em estar livre de todos os sofrimentos, nem em ser aplaudido e triunfar sobre todos. Nosso valor não está no que temos nas mãos, no bolso ou na conta bancária.

O valor está no coração, que não se amarra aos bens da terra e se abre para Deus e nele confia. Já os antigos profetas preludiavam esses ensinamentos de Jesus, como nos faz a Igreja ler em Jeremias, como primeira leitura da Liturgia da Palavra deste VI domingo: "Infeliz o homem que põe sua confiança no homem, e que se apoia a um ser de carne, enquanto seu coração se desvia de Deus. Ele será como o espinheiro no deserto e não conhecerá a felicidade" (Jr. 17,5 - 6). Ao passo que: "Feliz é o homem que pôs sua confiança no Senhor; ele será como a árvore plantada à beira d'água, que lança raízes na direção da corrente" (Ibid., v 8).

O desejo da felicidade está no fundo do coração de cada homem. E Jesus, que veio anunciar a boa nova por excelência, não podia deixar de mostrar aos homens a resposta a esse anseio de felicidade: são exatamente as bem-aventuranças.

Vivê-Ias é ser feliz. Mesmo que isso nos pareça bem contrário a nossas tendências humanas e à filosofia desta sociedade do consumo em que vivemos. AIiás, se quisermos ser sinceros, temos que reconhecer que já vimos muitas vezes em derredor de nós a felicidade brilhando no rosto de pessoas humildes, carentes de tudo, sem nenhuma projeção social, que têm, no entanto, o coração aberto para Deus, que nunca os desampara. Parece que no fundo desse coração ressoa um eco da palavra de Jesus: "Vosso é o Reino dos céus".

padre Lucas de Paula Almeida, CM

 

Os textos de hoje nos falam do confronto existente entre a benção e a maldição. A benção manifesta-se, para a comunidade eclesial, no exato momento em que rompendo a nossa auto-suficiência vamos ao encontro dos mais necessitados ainda que nos custe o dilaceramento do nosso amor próprio. A maldição nos é conferida pelo nosso amesquinhamento contínuo, material e espiritual, que não amando ninguém encontra, cada vez menos, razão de amar. O papa Bento XVI nos alertava: “Se em minha vida negligencio completamente a atenção ao outro, importando-me apenas com ser ‘piedoso’ e cumprir meus ‘deveres religiosos’, então definha também a relação com Deus. Nesse caso, trata-se de uma relação ‘correta’, mas sem amor”.

O Evangelho de hoje nos apresenta quatro bênçãos: para os pobres, para os famintos, para os aflitos e para os perseguidos e quatro maldições: para os ricos, para os favorecidos, para os saciados e para os de “status” social e religioso. Jesus nos chama a uma religião encarnada, uma religião que enfrente, por amor, tudo o que destrói a humanidade, sobretudo a corrida ao dinheiro, ao conforto material e à satisfação imediata.

Para Jesus, os pobres não são somente os despossuídos, mas os que diante do dinheiro não o idolatram ao ponto de investirem as suas vidas para se tornarem ricos. São os que não olham os seus bens com olhos de proprietário, pois para eles, talento e riqueza são meios para servir mais aos outros. São os que conquistaram a riqueza da sabedoria; de saber “que cada qual levará o seu próprio fardo”(Gal. 6,5) e de que viver o momento presente, kairós, confere-nos o máximo de autenticidade possível, pois “O que é, já foi e o que há de ser também já foi, pois Deus está no-instante-que-passa”(Ecl. 3,15).

Não podemos nos tornar inimigos da Igreja de Jesus ao não testemunharmos o seu Evangelho quando, arraigados ao ter, nos fechamos sobre nós mesmos, empobrecendo o que somos e nos afastando dos outros. O cristão que coloca a sua alegria no dinheiro tem um coração pagão.

Jesus sempre nos exorta a saber que existe mais felicidade em dar do que em receber; mais felicidade em servir do que em ser servido. Se nos reduzirmos e nos contentarmos a ser como todo mundo do que nos serviria ser cristãos? Perderíamos a nossa benção para nos convertermos em sal da terra, luz do mundo e fermento na massa e proclamarmos o milagre último do amor, único e insuperável: a ressurreição da carne e a vida eterna.

Meditemos o poema de Manuel Bandeira: “A vida é um milagre. Cada flor, com sua forma, sua cor, seu aroma, cada flor é um milagre. Cada pássaro, com sua plumagem, seu vôo, seu canto, cada pássaro é um milagre. O espaço, infinito, o espaço é um milagre. O tempo, infinito, o tempo é um milagre. A memória é um milagre. A consciência é um milagre. Tudo, menos a morte. Bendita a morte, que é o fim de todos os milagres”

Manos da Terna Solidão

 

Jr. 17,5 - 8; Sl. 1; 1 Cor. 15,12.16 - 20; Lc. 6,17.20 - 26

A nossa fé nos ensina que existe um só Deus, em três pessoas realmente distintas, o Pai, o Filho e o Espírito Santo. É o Mistério da Santíssima Trindade. E nos ensina também que a segunda pessoa divina, o Filho, se encarnou, isto é, tomou a forma humana e veio morar no nosso mundo. É o mistério da Encarnação. Quando dizemos que o Verbo se fez carne e veio morar entre nós, dizemos também que Ele veio para nos salvar. Tudo isto é verdade, mas nos permite continuar com perguntas sobre a missão de Jesus.

O Filho de Deus veio a este mundo com um projeto concreto a ser realizado, ou veio simplesmente para ver como andavam as coisas e foi improvisando respostas para os problemas que iam surgindo?

Na leitura do Evangelho de Lucas, ouvimos que Jesus anunciou o seu projeto na sinagoga de Nazaré no início do seu ministério público: Ele veio para dar uma Boa Notícia aos pobres, devolver a visão aos cegos, libertar os cativos e oprimidos e proclamar um ano da graça do Senhor. Este programa de ação agradou a uns e desagradou a outros, tanto que tentaram matar Jesus. Todos aceitaram com entusiasmo que Jesus quisesse resolver os problemas dos pobres e dos oprimidos, mas não aceitaram ter que renunciar a seus próprios privilégios para que isso pudesse acontecer. Houve uma reação forte contra Jesus. Se Ele tivesse se enganado, ou não tivesse sido bastante claro, poderia ter se corrigido ou mudado de discurso. De fato, não só não o fez como confirmou a razão da sua vinda. Ao proclamar as bem-aventuranças, Jesus reafirma seu projeto missionário para este mundo.

No Evangelho de Lucas, Jesus proclama bem-aventurados os pobres, os famintos e os aflitos, sejam eles quem forem, independentemente de sua adesão a Jesus Cristo. E proclama também bem-aventurados os que aceitaram Jesus e decidiram segui-lo e que por isso são perseguidos e mal falados. Para que não haja dúvidas, o evangelista contrapõe os pobres aos ricos, os famintos aos saciados, os aflitos aos satisfeitos. Em relação aos seguidores de Jesus, contrapõe os que são criticados aos que sempre são elogiados.

A encarnação do Filho revela o coração do nosso Deus. Ninguém nunca viu a Deus, mas o seu Filho se fez um de nós em nosso mundo e os que o viram de perto nos deixaram por escrito nos livros sagrados do Novo Testamento o que d’Ele conheceram. O evangelista São Lucas sabe como as estruturas deste mundo e os bens materiais se tornam com facilidade obstáculos à liberdade do Espírito. O dinheiro mal ganho e o dinheiro mal distribuído são sem dúvida causas de distanciamento e de sofrimento. A obsessão pelos bens materiais empana a visão do ser humano. Perde-se o respeito, multiplica-se a violência.

Jesus olha para os pobres, os famintos e os aflitos e os declara bem-aventurados. O que mais se pode exigir ainda deles? Jesus olha também para o discípulo incompreendido por ter abraçado a missão de Jesus e o declara bem-aventurado.

Não pusemos nossa esperança em Cristo somente para esta vida. Se assim fosse, seríamos dignos de compaixão, escreve São Paulo.

Nossa visão é muito mais ampla e é no quadro da eternidade que vemos as realidades terrestres. Tudo é bom desde que leve à construção do ser humano e da comunidade.

cônego Celso Pedro Silva

 

Diego não conhecia o mar. O pai, que se chamava Tiago, levou-o ao sudeste para que tivesse a alegria de descobrir o mar. Quando chegaram, lá estava o imenso mar por trás daquelas dunas altas, imponente e esplendoroso. O menino ficou mudo de beleza, olhava e não conseguia abarcar toda a grandeza do mar. Depois de alguns minutos, gaguejando e tremendo pediu ao pai: “por favor, me ajuda a olhar”.

Eu acho que deveríamos pedir isso ao Senhor nesse domingo ao escutar as bem-aventuranças: felizes são os pobres, os que têm fome, os que choram, os odiados e perseguidos por causa do Reino; tristes são os ricos, os fartos e os que riem. Há aqui pelo menos uma aparente contradição. Quando vemos tanta fome, injustiça, choro e perseguições; francamente não resulta nada fácil ver que aí, precisamente aí, se encontre a felicidade; os pobres e os injustiçados geralmente não estão felizes por essa situação. Por outro lado, a riqueza, o fausto, a justiça estrita, as gargalhadas das grandes festas tampouco dão a felicidade, muitos ricos são tristes.

Precisamos pedir ao Senhor que nos ajude a olhar, que nos ajude a ver os verdadeiros valores. Onde está a realidade? Platão dizia que a realidade se encontra num suposto mundo das idéias e que nós vemos neste mundo somente um reflexo da autêntica realidade; no pensamento platônico, nós vivemos numa espécie de caverna e vemos apenas as sombras das realidades que se refletem na concavidade da mesma. Eu não diria que Platão tem toda a razão, não obstante é verdade que a realidade mais profunda é a que não se vê. Noutro dia falávamos que profeta é aquela pessoa que foi introduzida na maneira de ver de Deus e que, por isso, sabe quais são os planos do Senhor para a humanidade e para si.

Efetivamente, a solução para a felicidade não é transformar os pobres em ricos e os ricos em pobres, se assim fosse simplesmente estaríamos mudando a perspectiva do quadro, mas não estaríamos mudando a realidade. A Igreja Católica sempre insistiu, diante de posições radicais, na moderação das posturas: a sua missão, a da Igreja, é anunciar o Evangelho e dar os bens sobrenaturais para que todos se salvem. A missão da Igreja, logicamente, não é alheia à sorte do ser humano neste mundo, ela não fica indiferente diante da pobreza, da injustiça e da perseguição. A Igreja quer que todos os homens se salvem e essa salvação deve alcançar a pessoa humana em todas as suas dimensões. Daí a defesa que a mesma Igreja faz de que todos tenham o necessário para passar uma vida digna e sóbria, também materialmente.

Definitivamente, um pobre feliz, um odiado venturoso e um perseguido ditoso só pode ser realidade quando se considera o porquê das coisas segundo o Evangelho: “por causa do Senhor” (cf. Mt 5,11). Diante das adversidades, o discípulo de Cristo, ciente do valor da Cruz para a própria santificação, para o bem da Igreja e de toda a humanidade, terá uma reação sobrenatural porque compreendeu que a cruz faz parte da vida do cristão e quem sem a cruz não se pode ser cristão (cf. 1 Cor 1,17-31). Somente se aceitarmos que a cruz é essencial no cristianismo, entenderemos que os apóstolos estavam contentes ao sofrerem pelo nome de Jesus (cf. At 5,41), que São Paulo padecesse sofrimentos com alegria (cf. 2 Cor 11,16-33), que tantas pessoas souberam entregar-se ao serviço dos outros. Também nos dias de hoje, há tantos bons cristãos que sabem ver: irmãzinhas de caridade nos hospitais, creches e orfanatos; comunidades religiosas que se dedicam a cuidar dos aidéticos e dos leprosos; pais de família sacrificando-se pelas suas famílias sem mentalidade de vítimas; mães verdadeiramente heróicas que trabalham, cuidam da família, da casa, dos filhos, e ainda encontram tempo para dedicar-se a obras assistenciais; jovens cristãos que vivem santamente num ambiente saturado de libertinagem, orgias e avareza; vozes que se levantam contra leis e planos de leis totalmente inumanos (vários aspectos do PNDH-3, por exemplo)… Acaso não são esses os pobres de espírito, os que têm fome da justiça de Deus, os perseguidos por causa do reino de Deus, os que agora choram porque o sacrifício custa (e é normal que custe!)?

Essas pessoas têm olhos para ver, Deus lhes concedeu uma visão clara das coisas. São profetas, são servos de Deus, são felizes.

padre Françoá Rodrigues Figueiredo Costa

 

Se Cristo não ressuscitou a fé nEle não tem sentido. Portanto, a ressurreição total – corpo e alma- é o artigo base de nossa fé. E a visão de Cristo ressuscitado não é uma aparição, mas uma manifestação corporal do que atualmente é o Cristo e que futuramente seremos nós. Pois em Cristo estamos representados como primícias de uma vida futura. Esta passagem é a melhor refutação dos modernos que veem na ressurreição de Cristo uma aparição sem forma corporal, mas interna do ressuscitado.

O ANÚNCIO: Se, pois Cristo é anunciado que ressuscitou dos mortos, como dizem alguns entre vós que não há ressurreição os mortos? (12)

RESSUSCITOU: Paulo usa o verbo Egeirö que propriamente significa levantar-se, erguer-se, como da cama ou de estar dormido; daí, despertar. A ideia é que, de novo, se toma posse das faculdades. A diferença com anastënai é que este se empregava com o surgir das obras e egeirö com o despertar do sono. Propriamente, no grego clássico existe o verbo Anistëmi levantar-se, que tem dois significados: levantar-se, como em Mt 89,9, quando Mateus, ao ouvir as palavras de Jesus, deixou tudo e levantando-se O acompanhou, ou ressuscitar quando o Filho do homem se levanta dos mortos, que anteriormente usa Mateus para dizer que o Batista ressurgiu dentre os mortos (14,2) e Lucas, como comparado a um dos antigos profetas, agora ressuscitado (9,8). É o verbo que usa Marcos para afirmar que a donzela ressurgiu, ou se levantou da cama (5,42). É o verbo das profecias de sua paixão que os discípulos não entendiam o seu significado de ressurgir dentre os mortos (Mc 9,10). By the way, este detalhe indica uma testemunha ocular do fato, que não seria fácil de recordar a não ser como uma viva recordação do sucesso, transcrito pelo evangelista. Anistëmi é o verbo usado por Pedro em seu discurso de Pentecostes  (At 2,24). Verbo que usa João para dizer que os crentes serão ressuscitados no último dia (6, 44), assim como os que comem sua carne e bebem seu sangue (6,54). Marta também crê nessa ressurreição, embora não soubesse que Jesus era ressurreição e vida (Jo 11,24 - 25). Usado frequentemente nos Atos, Paulo só usa o mesmo 4 vezes em suas cartas (Rm 14,9 e 15, 12; Ef. 5,14 e 1 Ts. 4,14).No que diz respeito a Egeirö com o significado de ressurgir dos mortos, temos a demostração dada diante dos enviados pelo Batista: os leprosos curados, os surdos ouvem e os mortos ressurgem (Mt 11,15) que parece dominar os milagres de Jesus, escolhidos nos evangelhos, pois um dos fins dos evangelistas era provar que tudo estava escrito e tudo estava cumprido, para terminar com o consumatus est (Jo 19,30). Este verbo egeirö é o preferido pelo anjo para anunciar às mulheres a ressurreição de Jesus em Mt 28,6 - 7, em Mc 16,6  ou na primeira aparição em 16,7. É também a palavra que Lucas emprega na aparição e anúncio das mulheres (24,6 e 24,34). João o usa em seu evangelho, mas só o usa uma vez após a ressurreição em Jo 21,14, quando o evangelista resume as aparições: esta é a terceira vez que Jesus se manifestou a seus discípulos ressuscitado dos mortos. Em Paulo, a Vulgata traduz como surgere e suscitare dos romanos e do início de 1 Cor 6,14 se traduz em ressurreição em 1Cor 15 nada menos que 12 vezes e só 2 como surgir. Duas vezes Paulo usa a palavra clássica Anastasis nekrön [ressurrectio mortuorum, ressurreição dos mortos] (1Cor 15,13 e 15, 42). Neste sentido, surgir da morte, ou do sono da morte, ou chamar da morte para a vida e ressurgir dos mortos é que Paulo usa o egeirö, que não tem outro fim que uma vida nova, total com corpo e alma neste trecho de 1 Cor 15.

NÃO HÁ RESSURREIÇÃO: Paulo sabia perfeitamente que na filosofia grega de seu tempo [neoplatonismo] a supervivência da alma era crença comum entre os de Corinto. A alma era imortal e como tal sobrevivia ao corpo. Não existia morte para ela. O corpo era que estava morto e dele esperavam nova vida e ressurreição os cristãos, exatamente como Cristo ressuscitou e seu corpo foi visto, assim será com os cristãos que nele puseram toda a sua fé e esperança. De outra forma, toda esta lógica e raciocínio de Paulo seriam inúteis. Os filosofastros de Corinto, negando a ressurreição dos corpos dos mortos, negavam a ressurreição do corpo de Cristo. E Paulo dedica este capítulo a demonstrar que Cristo ressuscitou, porque assim o testemunhava uma grande multidão, tanto especificamente como numericamente.

UMA LÓGICA CONCLUSIVA: Se, portanto, mortos não ressurgem, nem Cristo ressurgiu (16). A epístola evita os versículos 13 a 15 que traduzimos sem comentários: Se não há ressurreição dos mortos, então Cristo não ressuscitou [é o que dizem os modernos ateus ou agnósticos] (13). Se, pois Cristo não ressuscitou é vão o nosso anúncio e é vã a vossa fé [pois a ressurreição de Cristo é a base de ambas as afirmações) (14). Seríamos, pois, encontrados como falsas testemunhas de Deus, porque temos asseverado contra Deus já que ressuscitou o Cristo ao qual ele não ressuscitou, caso de que os mortos não ressuscitassem [os dois testemunhos, o de Deus e o dos apóstolos, estariam em contradição] (15). Vejamos agora a interpretação do versículo 16. Evidentemente, Paulo enfrenta uma filosofia contrária à ressurreição corporal. Segundo a mente ilustrada da época, era impossível a ressurreição de um corpo, já corrupto, pela ordem natural dos fatos. Como recompor instantaneamente um corpo totalmente anulado, do qual só existe um pouco de pó? Uma parte dos fieis de Corinto- provavelmente a mais ilustrada intelectualmente- só pensavam numa vida posterior da alma humana. Entrava dentro de sua filosofia e era socialmente correto. Mas o corpo, considerado na época como um cárcere da alma, para que viver com ele que só trazia dores e sofrimentos  e era temporalmente dirigido à morte? Paulo argumenta com duas razões irrebatíveis: Um fato, e uma explicação. O fato é que um homem ressuscitou:Cristo. A explicação é que o corpo ressuscitado é o mesmo, mas diferente e Paulo usará a figura do trigo semeado como grão e que brota como espiga. Hoje usaríamos a crisálida e a borboleta.

SEM RESSURREIÇÃO NÃO HÁ FÉ: Se, pois Cristo não tem ressurgido, inútil também é vossa fé; ainda estais em vossos pecados (17). É a primeira conclusão negativa, deduzida do fato imaginário da falsa assunção da ressurreição de Cristo. O fato negado, temos que negar as conclusões: a pregação apostólica é privada de verdade e portanto falsa. A fé que vê em Cristo o Deus salvador é despossuida de toda base e consequentemente, também não somos libertos dos pecados e das consequências dos mesmos: a morte e a corrupção (Rm 6,16 e 8,21); pois se por um homem veio a morte, por outro, a ressurreição (1 Cor 15,21).

OS MORTOS EM CRISTO: Portanto, também os que dormiram em Cristo pereceram (18).

Uma outra consequência é a de que os fieis mortos [dormiram em Cristo] pereceram ou se extinguiram, não estão mais vivos. Para Paulo como para os israelitas de seu tempo, uma vida sem corpo é uma vida de sombras, é mais parecida como o sono que com a vigília. Era a vida do Sheol. A comunicação da vida dos sentidos seria impossível e estariam todos eles dominados pelas sombras da morte (Jo,3,5) em que tsalmaveth repetida em salmos 23,4 como sendo o vale da sombra da morte ou seja o sheol, será a matriz estéril da terra que jamais diz basta (Pr 30, 16) ou uma aflição extrema, como a daquele que se rebelou contra Deus (Sl. 107,10 - 14).

CONSEQUÊNCIA NEGATIVA: Pois se nesta vida temos esperança em Cristo só, somos os mais miseráveis de todos os homens (19).

NESTA VIDA: ou seja, na vida que Paulo chama de animal (1 Cor. 2,14) a esperança em Cristo libertador do pecado e da  morte é essencial; pois se a paga do pecado é a morte, a dádiva de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus (Rm. 6,23). O cristão vive da fé, que é o fundamento das coisas futuras que se esperam e não são aparentes (Hb. 11,1); ou como comentam outros, se esperamos felicidade neste mundo somos os mais MISERÁVEIS, eleeinoteros de eleeinos dignos de compaixão, como eram os pobres tolhidos que pediam esmola à beira dos caminhos e nas entradas do templo. Paulo fala dos apóstolos como sendo o lixo do mundo (1 Cor 4,13). Assim era o coitado que recebia toda a sujeira da cidade para aplacar os deuses e era sacrificado após um período curto de prazeres. Em Lm 3, 45 o profeta se queixa de que Javé faz de nós [os israelitas] um rejeito, um refugo no meio dos povos. Não só renunciamos aos prazeres, honras  e lucros do mundo, mas continuamente estamos expostos ao ódio, opróbio e perseguição do mesmo, que será nota característica dos discípulos de Cristo  (Mt 10,17 - 18 e 23,34). Logicamente , caso não haja ressurreição, a esperança no além devia ser substituída pela espectativa do amanhã.

PORÉM O FATO É INDISCUTÍVEL: Agora, porém, Cristo ressurgiu dentre os mortos, tornado-se primícias dos que adormeceram (20). Porém, toda essa suposição era inútil ante o fato de que Cristo tinha ressuscitado dentre os mortos.

PRIMÍCIAS: Em grego Aparchë cujo significado era a oferta dos primeiros frutos que na Setuaginta é traduzida por primeiros frutos. A palavra é própria de Paulo (6 vezes, contra uma em Tiago e outra em Apocalipse). Assim, somos as primícias do Espírito, Epenetos são as primícias dos conversos na Ásia, e Cristo dos surgidos entre os mortos. Logo isso quer dizer que é o primeiro entre os ressuscitados dos mortos, ou dos que adormeceram. Por isso, Paulo afirma duas coisas: que o primeiro em ressuscitar é Cristo, e que sendo o primeiro, haverá outras ressurreições sucessivas, que Paulo pretende como primeiro argumento neste raciocínio. Logo haverá ressurreição e desta ideia depende nossa ulterior e definitiva felicidade.

Evangelho: BEM-AVENTURANÇAS E IMPRECAÇÕES

Antes da eleição dos apóstolos, Jesus passa a noite em oração. O relato continua com o que costuma ser chamado o pequeno inciso até o trecho 8,3. Inicia-se com as bem-aventuranças, nas quais Lucas omite grande parte de Mateus, porque não afetavam os gentios. Lucas apresenta 4 bem-aventuranças e 4 imprecações que anunciam a inversão das situações no fim da vida. Cristo -argumenta um comentarista- não beatifica a pobreza como tal, porque ela é um mal. Como tal, o Deus bom deseja que seja superada. Porém os pobres, pelo fato de estarem nessa difícil circunstância, assim como todo aquele que sofre, será objeto da especial predileção de Deus, como deve ser objeto do amor preferencial da Igreja. Para os pobres temos o lado negativo da pobreza numa citação do AT: Afasta de mim falsidade e mentira, não me dês pobreza nem riqueza. Concede-me o pão necessário. Não seja que, saciado, renegue de ti e diga: Quem é o Senhor? Ou que, sendo pobre, roube e profane o nome de meu Deus. (Pr. 30,8 - 9). Esse é o desejo de todo ser humano correto, evitar a pobreza tanto quanto a extrema riqueza. Porém a vontade de Deus é a de ajudar o pobre para que não tenha a tentação de pecar contra Deus e os homens. Porém a pobreza tem um lado positivo:

1º) Deus manda cuidar dos pobres de modo especial. Assim o podemos ver em Êxodo: Se emprestas dinheiro a alguém de meu povo, pobre, vizinho teu, não serás usurário exigindo interesses. Se tomas em penhor o manto de teu próximo, o devolverás antes da posta do sol, porque esse é o único abrigo com que cobre seu corpo. Senão com que vai dormir? Se recorre a mim, eu o escutarei (Êx. 2,24 - 26). No NT especialmente na epístola de Tiago encontramos estas afirmações: A prática religiosa pura e sem mancha diante de Deus, nosso Pai, consiste em visitar os órfãos e as viúvas em suas tribulações e em se preservar dos vícios do mundo (Tg. 1,27).

2º) Deus tem um amor preferencial para com os pobres. Isso está demonstrado em Isaías 66,2: Aquele em quem fixo meus olhos é o humilde, o de coração contrito, que treme diante de minha palavra. E no NT teremos a carta de Tiago que afirma: A prática religiosa pura e sem mancha diante de Deus, nosso Pai, consiste em visitar os órfãos e as viúvas em suas tribulações e se preservar dos vícios do mundo (Tg 1,27). E ainda afirma: Não escolheu Deus os pobres segundo o mundo para serem ricos na fé e herdeiros do reino que prometeu aos que o amam? (idem 2,5). Pelo que diz respeito aos ricos, Tiago será taxativo: Tendes vivido na terra em delícias e prazeres e tendes engordado para o dia da matança (idem 5,5). O próprio Jesus o declarava na parábola do rico epulário e o pobre Lázaro: Recebestes teus bens durante a vida e Lázaro, porém os males; agora, porém, ele encontra aqui consolo e tu és atormentado (Lc. 16,25). Já o comentário às outras bem-aventuranças será feito em sua respectiva citação. Somente diremos, nesta introdução, que existe uma diferença entre Lucas e Mateus muito notável: Lucas usa a segunda pessoa sem as adições de Mateus, de modo que as palavras de Jesus estão dirigidas a umas pessoas concretas, seus discípulos, que deixaram tudo (20), gente pobre por decisão própria, e, portanto com um alto sentido religioso. Vamos, pois ao comentário, versículo a versículo.

A MULTIDÃO: E tendo descido com eles, pôs-se de pé sobre um lugar plano e a companhia de seus discípulos e a grande multidão do povo de toda a Judeia e de Jerusalém e da costa de Tiro e Sidônia os quais vieram ouvi-lo e serem curados de suas enfermidades (17) e os atormentados por espíritos impuros eram curados (18). Nestes versículos, vemos a moldura do marco em que Jesus vai pronunciar as bem-aventuranças. Se Mateus tem a intenção de mostrar Jesus como um novo Moisés que fala da montanha, anunciando o programa do novo reino, Lucas parece querer mostrar um anúncio universal, pois a multidão é composta de todos os povos, tanto judeus (Judeia e Jerusalém) como gentios (Tiro e Sidônia). Para Mateus, Jesus fala à multidão e aos discípulos indiscriminadamente (5,1) e Lucas dirige as palavras de Jesus, única e exclusivamente, a seus discípulos aos quais olha especialmente (6,20). Mateus escreve para os judeus, adaptando-se aos seus costumes e idiossincrasia, e Lucas para os gentios,  com o espírito de Paulo, que declarava descobrir o mistério escondido durante as gerações precedentes (Ef. 3,4 - 6).

Os POBRES. Então, Ele, elevados seus olhos a seus discípulos dizia: Benditos os pobres porque vosso é o reino de(o) Deus(20). O discurso está dirigido a seus discípulos.

DISCÍPULOS: a palavra grega é Mathetés, aluno ou discípulo. O verbo que dá origem à palavra é Matheö, aprender. Mateus também dirige o discurso aos discípulos. A palavra é mais abrangente que os doze, ou apóstolos, e inclui todos aqueles que de alguma maneira pretendem escutar Jesus e seguir seus ensinamentos como parte principal de suas vidas. A vós que me escutais, dirá no versículo 27. Jesus parece que, nesta época, profeticamente olha para um futuro próximo em que seus seguidores serão todos os que na primeira parte das bem-aventuranças ele anuncia. Por isso dá a eles um motivo de esperança, que a primitiva cristandade não poderia esquecer. É uma constatação da realidade a acontecer no futuro, e, portanto é também um plano divino do que deveria suceder. Por isso, entre as três opções interpretativas deste trecho (promessa de graça, exortação ética e regime de vida da comunidade) optamos pela primeira. Deus está convosco -vem dizer o Mestre - não vos preocupeis nem pela pobreza, nem pela fome, nem pela tristeza, nem pela perseguição. É muito pedir para aqueles que vivem num mundo que busca a riqueza, a saciedade, as festanças e os aplausos. Logicamente os acréscimos de Mateus transformam o que era um simples relato-promessa de graciosa providência divina, em regra de vida comunitária e, portanto em exortação ética de complemento essencial. O uso das chamadas passivas teológicas em que o agente sobre-entendido é o próprio Deus, confirma a escolha que fizemos dessa promessa contínua e providencial de Deus, sobre os que têm como prioridade a escuta evangélica.

BEMAVENTURANÇAS: talvez a tradução do plural do Makários (favorecido pela sorte) seja benditos de Deus ou abençoados por Deus, melhor do que felizes ou ditosos. Na realidade, o Makários grego denota a felicidade interna de uma pessoa determinada. Por isso a fórmula é uma felicitação dada a um determinado sujeito pela sorte que lhe coube. Em hebraico existem dois verbos dos quais se origina o adjetivo bendito ou ditoso, dependendo do sujeito: Barak dirigido a Deus que significa bendito (Eulogemenos em grego) e Ashar do qual o Esher de ditoso, aclamado, para o homem a quem os demais consideram ditoso (makários em grego). Evidentemente, Jesus abençoa o homem e, portanto usou o Esher há-ish (bendito o homem). Em português podemos traduzir tanto feliz como bendito. Creio que esta última fórmula está mais em consonância com o espírito do evangelho, especialmente o de Lucas, pois é um anúncio da graça, do favor divino aos homens por parte de Deus (Lc. 4,19). A razão de preferir bendito como tradução está reforçada pela segunda parte do hemistíquio em que o prêmio está na passiva [a chamada passiva teológica], e sabemos que o sujeito desses verbos é quase sempre Deus. A versão inglesa do King James traduz por Blessed (abençoado). Como nota, podemos dizer que estas felicitações são denominadas pelos expertos como macarismos, palavra inventada ou tomada do grego dos textos originais.

POBRES: a palavra grega Ptochós, significa mendigo no sentido de pobreza material absoluta, e traduziria o Dal hebráico: é um pobre de solenidade, dos que pedem esmolas. A palavra Anaw (plural anawim e daí anawé Jahweh) significa humilde, impotente ou manso. O anawé Jahweh serão os piedosos de Javé. Vejamos como traduzem os setenta alguns textos em que entra o anawin: os humildes experimentam Deus como seu apoio único no Sl. 10,17: “Senhor, atendeste o desejo dos humildes (Penes, grego = que vive do trabalho), tranquilizas seu coração, tens o ouvido atento”. Esperam em Deus e são guiados por Ele no Sl. 37,11:”Os mansos: possuirão a terra, gozarão de uma paz total”. São louvados por serem melhores que os orgulhosos em Provérbios 16,19: “Melhor ser humilde de espírito com os humildes do que repartir o despojo com os soberbos”. Regozijam-se quando Deus é louvado e o buscam (Sl. 69,32 - 33 :”Vejam isso os aflitos (Tapeinos = baixo) e se alegrem; quanto a vós que buscais a Deus, que o vosso coração reviva. Porque Jahweh responde aos necessitados, e não despreza os seus prisioneiros. Isaías 61,1 afirma que para tais pessoas o Ungido do Senhor irá pregar. Lemos no Salmo 76,8 - 9: “Eles têm consciência da aprovação divina e confiam que no eschaton (fim) Deus os salvará, ao levantar-se Elohim para julgar e salvar todos os humildes da terra”. Tenho procurado a tradução grega dos setenta nas diversas citações. No versículo citado, entre parêntesis, está a palavra grega que traduz o anawim correspondente. A tradução que em grego dos setenta traz Ptochós (Is. 61,1) hoje é traduzida por humildes na bíblia ecumênica, na italiana e na versão do King James; por abatidos em Nácar Colunga e atribulados em AV (versão autorizada evangélica). Unicamente a versão oficial espanhola segue o grego dos setenta e traduz pobres. Como temos visto, os tradutores gregos não usam uma única expressão para anaw e portanto não podemos simplesmente afirmar que essa expressão se reduz a pobres materiais, máximo que em grego comum significaria propriamente mendigos. Embora os pobres em geral pareçam ser os abençoados por Deus com a posse do Reino, esses pobres são aqueles aos quais dirige seu olhar [os discípulos] ou pelo menos são o modelo do qual os discípulos devem obter a lição que Jesus oferece nesta primeira bem-aventurança. Parece que o discípulo é visado como aquele que é pobre, no sentido de gente indefesa, humilde, sem proteção, desamparada de todo recurso humano como é a riqueza, o poder, a sabedoria, o prestígio. Reduzir ao pobre econômico a bem-aventurança é um risco exegético que podemos chamar de eiségese [de dentro para fora], ou uma interpretação dirigida por um princípio pessoal, anterior ao texto, o qual é assim iluminado, contrariamente a interpretação objetiva, ou exegética, em que o texto ilumina o intérprete. Isso porque o Ptochós grego [mendigo] não pode ser objeto direto da bênção divina como vimos na introdução e no comentário anterior, e sim o anaw do AT que significa humilde e que os setenta traduzem por Ptochós.

POBRES EM ESPÍRITO: No lugar paralelo, Mateus usa esta expressão que lemos em Pr. 16,19 no original hebraico. Este versículo, traduzido pela AV diz: “Melhor é ser humilde de espírito (praythumos grego, correspondente ao shafal com os humildes) do que repartir o despojo com os soberbos”. É uma consequência do versículo anterior que afirma a soberba preceder à ruína e a altivez do espírito à queda. Voltando ao texto de Lucas das bem-aventuranças, pobres a secas, é a versão do terceiro evangelista. E esta tradução é a que usam comumente todas as versões. São aqueles a quem um autor diz que chamam às portas divinas clamando: Senhor, tende piedade. REINO DE DEUS: Mateus fala do Reino dos céus, expressão própria dos judeus, mas de difícil entendimento pelos gentios, para os quais o Reino de Deus tinha sentido. Dizer que o Reino é deles, significa que encontrarão facilidades para entrar nele. Que receberão o Reino como um privilégio e dom extraordinário, como uma mercê da benevolência divina. É entrar dentro do amor privilegiado de Deus, é o termo escatológico das verdadeiras bem-aventuranças. Podemos partir da pobreza real para a pobreza voluntária que é basicamente a condição para a entrada no Reino, porque não se pode servir a dois senhores. (Mt. 6,24). A História é testemunha de que não unicamente a Ordem dos Templários, mas muitas outras, acabaram por acumular riquezas em demasia e ruíram estrepitosamente.

FAMINTOS E AFLIGIDOS: Abençoados os  famintos  agora, porque sereis saciados. Abençoados os que chorais agora, porque rireis (21).

TENDES FOME AGORA: dirigido a seus discípulos Jesus fala da fome. Como na bem-aventurança anterior o problema não é espiritual mas material. A fome tem sido uma pandemia universal em determinadas épocas. Hoje mesmo, ela é o problema número um em certos países da África, Ásia e América do Sul. Que fome é essa? Mateus fala da fome de justiça, ou seja, de santidade ou honestidade, ou da justiça divina que significa santificação. As expressões de Lucas são universalmente mais humanas do que as de Mateus que são mais bíblicas e próprias das comunidades primitivas cristãs. Lucas omite “ter sede”, com o qual elimina a expressão vetero-testamentária de Isaías em 49,10: Não terão fome nem sede. E 65,13: Certamente os meus servos comerão enquanto vós passareis fome; certamente os meus servos beberão enquanto vós tereis sede.

SEREIS SACIADOS: É uma referência ao banquete escatológico do Reino, como Is. 25,6: Jahweh dos exércitos prepara para todos os povos, sobre esta montanha, um banquete de carnes gordas, um banquete de vinhos finos, de carnes suculentas, de vinhos depurados. Ou Sl. 107,3 - 9: Eles erravam pelo deserto solitário…estavam famintos e sedentos …Ele saciou a garganta sedenta e encheu de bens a garganta faminta. O próprio Lucas fala tematicamente deste assunto em 14, 16 - 24 e promete esse banquete a todos os servos vigilantes (12,37), a quem o amo sentará à mesa, cujo verdadeiro significado é a manumissão do escravo, através do banquete ou ad mesam, de maneira informal. Devemos ter cuidado ao interpretar ao pé da letra palavras que podem ter um significado simbólico porque expressam realidades escatológicas dos últimos tempos, absolutamente finais. Esta bemaventurança constitui a número quatro em Mateus.

CHORAIS AGORA: embora existam vários verbos para chorar, especialmente dakruö (derramar lágrimas), o klaiö deste parágrafo significa chorar a gritos como um menino. O agora indica que a promessa é para os últimos tempos, ou seja, a nova era do novo Reino.

POIS RIREIS: é rara a expressão que em Mateus, no número dois, se traduz por: os que sofrem serão consolados. O choro, assim tão ostensivo, parece ligar esta bemaventurança com a seguinte, ou seja, com a opressão que causa dor e vítimas. Temos que recordar Lc. 2,25 e, portanto esperar a consolação de Israel como libertação dos inimigos. Na escatologia dos tempos de Cristo, não na escatologia final, serão os cristãos perseguidos pelos judeus. É exatamente o que lemos no salmo 126 nos versículos 1 - 2: “Quando o Senhor restaurou a sorte de Sião ( ……) nossa boca se encheu de riso”.

ÓDIO DOS HOMENS. Ditosos sereis quando vos odiarem os homens e quando vos expulsarem e injuriarem e proscreverem  o vosso nome como malvado por causa do Filho do Homem (22). Neste primeiro hemistíquio vemos quatro classes de injúrias, expressas com quatro verbos diferentes: ódio, expulsão, insulto, proscrição. Logicamente estas ofensas têm como causa a pessoa de Jesus  ou o Filho do Homem, de quem são discípulos os assim maltratados. O verbo ESTE indica 2ª pessoa do plural, traduzido por sois. Ainda dirigido aos discípulos, para expressar uma esperança final e, portanto uma bênção divina, que prevalecerá sobre a aparentemente funesta circunstância inicial. Que esperarão dos homens os discípulos de Jesus? Lucas usa quatro verbos assim como Mateus em 5,11. Entre ambos só um é comum: o insulto com oneidizö, traduzido ao latim por maledicere em Mateus, e exprobravere em Lucas, significa insultar num caso e injuriar no outro. Em Lucas é o ódio, o ostracismo (expulsão da sinagoga), o insulto e finalmente, a rejeição da pessoa (do nome no original) como maligna ou infame; tratando-se do nome, indica sua origem semítica ou talvez se refira ao nome de cristão. Na Shemoné Ezré, a oração das dezoito bênçãos, existia uma duodécima bênção contra os sectários, introduzida pelo rabino Gamaliel em Jabné depois da destruição do segundo templo. Esta oração que alguns conhecem como Tefilá (prece) ou Amida (de pé) pela forma de ser realizada, tinha essa maldição contra os cristãos, devido à sua condição de discípulos de Cristo (Filho do Homem). O evangelho apócrifo de Tomás reduz este versículo ao ódio e à perseguição, que aparece no segundo hemistíquio em Mateus.

RAZÃO: essa perseguição é a causa da alegria e do pular de gozo, porque a recompensa, propriamente o salário (misthós), é grande no céu, já que também seus pais fizeram o mesmo com os profetas. Sem dúvida que Lucas escreve este parágrafo, levado pela experiência como discípulo de Paulo, primeiro perseguidor, e logo perseguido ao mesmo tempo, que mostra a morte de Jesus como modelo da morte dos discípulos que seguem a linha dos verdadeiros profetas.

RAZÃO: Ficai alegres nesse dia e exultai, pois eis o vosso prêmio grande no céu: já que, segundo essas coisas, fizeram aos profetas seus pais (23). Com esta frase Jesus iguala os seus discípulos perseguidos com os antigos profetas, que também foram maltratados no seu tempo pelos ancestrais. Com esta declaração Jesus reponde a uma pergunta futura: Como somos perseguidos por aqueles que eram os líderes espirituais de Israel, supostamente dirigidos por Deus para conservar a verdadeira religião? Jesus não responde diretamente a essa pergunta; porém, o exemplo é suficiente para afirmar que a perseguição da parte dos dirigentes religiosos de Israel não indica um juízo divino contrário, mas tudo pelo contrário: os profetas, que eram a verdadeira voz divina, foram perseguidos pelos que a si mesmo se intitulavam representantes de Moisés. Jesus dá o caráter de verdadeiros profetas a todos seus discípulos quando estes forem discriminados e perseguidos. Daí a alegria e a esperança de um prêmio [na realidade salário] por sua atuação diante da perseguição.

AS IMPRECAÇÕES: OUAI é a expressão que inicia cada uma das quatro imprecações ou maldições, em contraposição às bem-aventuranças. A interjeição não é da literatura clássica, mas dos escritos do período romano, possivelmente uma transcrição do romano VAE. Esta interjeição indica mal ou desgraça para os que na sequência, são nomeados na frase ou parágrafo. Estas interjeições precedem no NT os mal-aventurados,  segundo a providência divina, ameaçando-os com angústias, sofrimentos, aflições: São os ricos, os satisfeitos, os não oprimidos pelas preocupações, os que gozam de boa reputação, e que estavam ouvindo nesse momento as palavras de Jesus. A ênfase da recriminação recai sobre a precariedade de sua felicidade atual.

OS RICOS: Porém, ai (desgraçado fim) para vós os ricos porque recebeis vossa consolação (24). Já recebem sua Paráklesis, consolação ou conforto. Do grego podemos afirmar que já retêm em totalidade a felicidade que buscavam. Não terão mais oportunidade, nem maior da que já alcançaram. O grego plousioi indica uma riqueza opulenta, abastada, suficiente para não trabalhar e viver em abundância, como diz a parábola do rico opulento e epulário, em banquetes e vestidos finíssimos (Lc 16, 19). Eles dificilmente entrarão a formar parte do Reino e de sua ditosa bemaventurança (Mt 19, 23): Em verdade vos digo que um rico dificilmente entrará no reino dos céus.

OS FARTOS E OS ALEGRES: Ai para vós, os fartos, porque tereis fome; ai para vós, alegres agora, porque lamentareis e chorareis (25 Como na segunda e terceira bênçãos, estas duas imprecações formam um só versículo.

OS FARTOS: O verbo em particípio perfeito (estar cheio) indica uma plenitude total, uma satisfação completa. A malaventurança está na ordem do Magnificat de Maria em Lucas 1, 53 : Encheu de bens os famintos e despediu vazios os ricos.

OS ALEGRES: Usa Lucas o mesmo verbo (resplandecer de alegria) que no versículo 21. É o riso franco e sonoro. Porque o lamento, como nos dias de luto, será o fim dos tais com o pranto correspondente. É o choro e lamento de Davi por causa da morte de seu filho Absalão (2 Sm. 19,2).

OS APLAUDIDOS: Ai, para vós, quando falarem bem de vós todos os homens; pois, segundo estas coisas, faziam aos falsos profetas os antepassados deles (26). Logicamente é o louvor como ministros da palavra de Deus, não como atores de teatro ou pessoas públicas da política ou das armas. Porque é assim que foram recebidos os falsos profetas que só falavam as coisas que agradavam os ouvintes. Esta imprecação é o oposto da Bem-aventurança do versículo 22. Temos exemplos no AT: O rei de Israel reuniu 400 profetas que alegraram seu ego contra um só que foi contrário a sua vontade de luta. (1 Rs 22,6). Várias vezes Jesus contrapõe o seu evangelho aos tempos pretéritos até afirmar que não se pode consertar um pano velho com um remendo novo (Mt. 9,16).

CONCLUSÃO: Parece que esse início do discurso é uma preparação a seus discípulos de como é a realidade vista pelos olhos divinos, que são, em definitivo, os únicos verdadeiros. É também um chamado à autêntica e decisiva felicidade, contrária ao que os judeus da época esperavam do messiado do Ungido do Senhor. Está na linha do ouvistes, eu, porém vos digo (Mt 5,25). Não são normas de conduta, mas promessas de futuro para os que encontram dificuldades em seguir estritamente o evangelho. Jesus põe diante dos discípulos a alternativa felicidade/desgraça e inverte os valores da sociedade. A uma situação pobreza/riqueza em que Deus está favorecendo os que mais têm no sentido total do termo (ver Mt. 13,12), a nova escolha de Deus é para os que menos têm, pois Ele completará a deficiência com sua abundância. O Rei-Deus escolhe o que o mundo despreza. Como o conto do bêbado que é salvo por um arrependimento final, Deus justifica os que os homens não conseguem amar.

PISTAS

1) Devemos olhar os pobres, os famintos, os atribulados, os excluídos, como os preferidos de Deus. Tratá-los como se fossem os ricos, os abastados, os satisfeitos e os honrados e assim seguiremos as palavras de Jesus, expressão da vontade do Rei-Deus que os escolhe. Não porque sejam melhores eticamente, mas porque essa é sua vontade de mudar o mundo. De fato, se essa fosse também nossa escolha, o mundo que nós chamamos de injusto e estruturalmente pecador, seria bem diferente. A redenção revolucionária teria chegado aonde não chega a política humana, a economia de mercado e a distinção de classes sociais.

2) Segundo os fariseus, Deus está entre os que obedecem as exigências da lei; alguns cristãos afirmam que o encontramos na experiência interna de nossa intimidade; muitos não duvidariam de encontrá-lo na santidade dos ritos sagrados; os mais severos o esperam no juízo final e Teresa de Ávila nos deleita assegurando que se encontra entre as panelas. Sem tirar importância a cada asseveração, deveremos escutar com mais atenção as bem-aventuranças para tirar conclusões pessoais, como seria o amor à pobreza voluntária, uma correta austeridade de vida, uma simplicidade de escolha, excludente de todo luxo e ostentação, e uma aceitação da crítica mordaz e da solidão de critério por não comungar com soluções fáceis e receitas egoístas em matéria como sexo, matrimônio, filhos e ética social e política.

3) A perseguição é a última das bem-aventuranças. Hoje também a Igreja é perseguida, talvez tanto como era no Império Romano. Mas vejamos alguns dados esquecidos pela imprensa porque não são “notícia”: Foram 24 os missionários ou sacerdotes mortos violentamente no ano passado. No Paquistão os cristãos são perseguidos pelo fato de serem cristãos. Na Turquia a perseguição é ideológica e se impede expressar sua fé, marginalizando-os. O cardeal Van Thuan passou onze anos preso , nove dos quais incomunicados no Vietname. O bispo de Foochow, D José Zheng Chagcheng, acaba de morrer. Passou 1/3 de sua vida, 28 anos, na prisão, onde devido a seu testemunho aconteceram algumas conversões. E nessa mesma China tem sido queimados 3 mil templos cristãos, todos os bispos estão ou no cárcere ou detidos sob arresto domiciliar; quatro freiras em Moçambique estão ameaçadas de morte por terem delatado a subtração de órgãos de pessoas vivas, raptadas para tal operação. Subscrevo o que afirma um autor eclesiástico: A corrupção que invade o mundo em quase todos os níveis causa grandes derrotas à verdade e à justiça.

padre Ignácio

 

A verdadeira felicidade

A festa de carnaval é um grande acontecimento na vida do nosso país. Nesta semana, se confrontam as duas realidades da vida humana, a festa mais popular do Brasil e o início do tempo da Quaresma. Não raro, na quarta-feira de cinzas, se cruzam nas ruas os foliões retornando dos bailes com as pessoas devotas indo para as Igrejas.

Os meios de comunicação se unem agora para proclamar: Felizes os que pulam carnaval e gritam até não poder mais! Felizes os que nestes dias gastam muito dinheiro e bebem até perder os sentidos! Felizes os que liberam seus corpos para o prazer e a exploração até esgotarem seus limites!

Outras pessoas caminham na contramão. Passam os dias de carnaval em retiro, meditando no silêncio do seu coração. Permanecem em casa, curtindo a família e economizando muito dinheiro. Repousam tranqüilas e reabastecem as forças espirituais para renovarem suas vidas.

Não pensemos numa religião de carolas e beatas, que desprezam o corpo e se afastam das festas. Jesus, por sinal, gostava dos banquetes e até ganhou fama de beberrão.

Também não pensemos numa religião que despreze as riquezas materiais e que queira transformar o mundo numa favela. A mensagem de Jesus visa a solidariedade entre todas as pessoas.

Tampouco pensemos numa religião de tristeza e de lágrimas. A proposta de Jesus é de felicidade profunda e verdadeira.

O Evangelho, porém, dirá com clareza, em que consiste a verdadeira felicidade e, com igual clareza, o que é a infelicidade.

Já a primeira leitura, a sábia sentença de Jeremias, esclarece o mesmo dilema, colada justamente à mensagem do Evangelho.

Jeremias faz uma maldição e uma bênção. Maldição para quem confia no ser humano, se apóia na fraqueza e afasta seu coração do Senhor. Bênção, ao contrário, para quem confia no Senhor. Maldição é como espinheiro do deserto, ninguém chega perto. Bênção é como árvore frondosa, plantada junto à água, com raízes profundas, tranqüila e acolhedora. Maldição é infrutífera, não vê felicidade, só atrai desgraças. Bênção dá muito fruto, produz verdadeira felicidade, é fonte de bênção para as demais pessoas.

A comparação entre o espinheiro e a árvore frutífera é profunda e esclarecedora. Demonstra o contraste entre a fragilidade de quem confia nas pessoas e a força de quem confia em Deus.

O Evangelho também retoma bênçãos e maldições. Demonstra, de igual forma, o contraste entre quem confia nas riquezas e quem deposita sua confiança nos valores do Reino de Deus.

A página mais famosa dos Evangelhos, denominada bem-aventuranças, hoje é lida na versão de Lucas. São marcantes algumas diferenças teológicas com a versão de Mateus. Enquanto Mateus apresenta, no sermão da montanha, Jesus como o verdadeiro Moisés, que do alto do novo Sinai proclama a Lei definitiva, Lucas faz Jesus descer à planície, e aí se encontrar com a miséria humana, junto ao povo e aos discípulos, onde proclama a Boa Nova. De acordo com nosso evangelista Lucas, Jesus havia subido a montanha e, após uma noite de oração lá no alto, chamara os seus discípulos. Agora desce a montanha e proclama sua mensagem. Em Lucas, além disso, as bênçãos e as maldições são dirigidas diretamente às pessoas, “felizes vós, os pobres” ou “ai de vós, ricos”, diferente de Mateus que afirma “felizes (eles) os pobres no espírito”. Além disso, Lucas declara “felizes vós, os pobres”, simplesmente pobres, sem qualificar “de espírito”. Enfim, Lucas tem quatro bênçãos e quatro maldições, enquanto Mateus transcreve oito bênçãos.

O que chama a atenção, no Evangelho de Lucas, é que as sortes se invertem. Há uma troca de posição entre pessoas ricas e pobres, entre as famintas e as saciadas, entre as que choram e as que riem, entre as insultados e as bem faladas. Também há uma inversão entre um agora e um depois. Quem agora tem fome, depois vai ser saciado. Quem hoje chora, amanhã vai rir. Quem no presente é perseguido, no futuro terá grande recompensa. Mas para pobreza e riqueza a decisão é no presente, não há futuro. O Reino de Deus é dos pobres, no presente, isto é, já pertence a eles. Assim também os ricos, já possuem sua consolação.

A proposta de Jesus, como está claro, propõe outro critério de felicidade. Vale a pena confiar nos bens, nas honrarias, nos prazeres? Tolice! Isso não traz felicidade. Confiar em Deus sim, isso não tem preço.

A segunda leitura, oferece a chave para compreender porque Jesus declara felizes os pobres. Porque a vida não tem seu limite no horizonte humano. Seu verdadeiro sentido está na ressurreição dos mortos. Sendo um valor ilimitado, a vida humana é um valor absoluto, mas não se esgota na morte. O fundamento dessa nossa esperança é a ressurreição de Jesus Cristo. Se Cristo não tivesse ressuscitado, vã seria a nossa fé. Uma vez que Cristo ressuscitou, temos certeza que os mortos também ressuscitam. Por isso, nosso olhar se lança para o infinito.

Valmor da Silva

 

O texto de Jeremias pertence a um pequeno bloco composto por três oráculos de estilo sapiencial (Jr 17,5-8; 17,9-10 e 17,11). Jr 17,5-8 parafraseia o Salmo 1. Apresenta o contraste entre o que confia e busca apoio em "um homem" ou "na carne", e o que confia ou tem seu coração no Senhor. Então o convite é não confiar no outro? Não exatamente. Aqui se entende homem como carne, que significa debilidade e caducidade humana manifestada no egoísmo, na corrupção, etc. Portanto, o convite de Jeremias é não confiar nas autoridades de seu tempo que se fizeram fracas em defender a causa de Deus que são os débeis, e se dedicaram em defender a causa dos poderosos de seu tempo. Nesse sentido, o que confia na carne será estéril, isto é, não produz, não contribui para o crescimento de nada. Por isso é maldito. Ao contrário, o que opta por Deus, será sempre uma fonte de água viva que permite crescer, multiplicar, partilhar e, sobretudo, não deixar nunca de dar fruto.

Todo o capítulo desta carta aos coríntios se refere à ressurreição dos mortos, pelas dúvidas suscitadas na comunidade de Corinto sobre a ressurreição mesma de Cristo. Paulo, através dos "absurdos" - estilo literário típico dos raciocínios rabínicos - aprofunda a questão do impacto transcendental que deve ter a ressurreição de Cristo na vida daquele que crê. A partir de uma negação da ressurreição, Paulo elabora a lista de seus argumentos. Começa com uma pergunta que reflete sua indignação: "Se proclamamos um Messias ressuscitado dentre os mortos, como dizem alguns aí que não há ressurreição dos mortos?" (v. 12).

O primeiro absurdo é negar nossa ressurreição porque nega a ressurreição de Cristo (v. 16). O segundo absurdo é que, ao negar a ressurreição de Cristo, jogamos fora nossa fé e o processo de conversão e experiência cristã suscitada até o momento. Estaríamos diante de uma fé virtual (v. 17). O terceiro absurdo deixa sem esperança os crentes que morreram em Cristo e os que crêem que não morrerão para sempre (v. 18-19). O v. 20 muda os absurdos por uma certeza inegável: Cristo sim ressuscitou e, além disso, é primicia dos que já morreram.

As bem-aventuranças atribuídas aos pobres protagonistas e as mal-aventuranças atribuídas aos ricos, continuam o plano programático de Jesus no evangelho de Lucas.

As bem-aventuranças são uma forma literária conhecida desde o Egito Antigo, Mesopotâmia e Grécia. Em Israel temos vários testemunhos na Bíblia, especialmente na literatura sapiencial e profética. Nos salmos e na literatura sapiencial em geral, considera-se bem aventurada uma pessoa que cumpre fielmente a lei: "Bem aventurado o homem que não freqüenta reuniões de malvados nem segue o caminho dos pecadores... mas lhe agrada a lei do Senhor e a medita de dia e de noite" (Sl. 1,1); "Bem-aventurados os que, sem erro, andam no caminho e caminham segundo a lei do Senhor" (119,1).

As mal-aventuranças ou os "ais" são mais comuns nos profetas, em momentos onde se quer expressar dor, desespero, luto ou lamento por alguma situação que conduz à morte: "Ai dos que dissimulam seus planos e crêem que se escondem de Javé" (Is. 29,15); "ai destes filhos rebeldes, diz Javé, que tramam projetos que não são os meus" (Is. 30,1). Também para chamar a atenção dos que subtraem: "Ai de vós que ajuntais casa com casa, e acrescentais campo a campo, até não ficar lugar nenhum para habitar, senão somente vocês no meio da terra!" (Is 5,8); "Ai dos que decretam estatutos iníquos e os que constantemente escrevem decisões injustas" (Is. 10,1). As bem-aventuranças e maldiçoes de Jesus com relação ao AT têm diferenças fundamentais. Na literatura sapiencial do AT há uma insistência em um comportamento concorde com a lei para poder ser bem aventurado; no evangelho, no entanto, Jesus não exige nenhum comportamento ético determinado, como condição para ser proclamado bem-aventurado. Simplesmente os pobres (anawin), os que choram, os perseguidos... são bem aventurados.

Comparando as bem-aventuranças de Lucas com as de Mateus, encontramos alguns dados interessantes. O lugar do discurso segundo Mateus, é a montanha, com a intenção de reler a figura de Jesus à luz da figura de Moises no Sinai. Segundo Lucas, o local da proclamação é a planície. Muitos o diferenciam chamando-o de "sermão da planície" em contraposição ao "sermão da montanha". Nas primeiras bem-aventuranças, Mateus em uma a mais: "bem-aventurados os pacientes, porque receberão a terra como herança" (Mt 5,5). Enfim, Lucas possui quatro bem-aventuranças que são equivalentes as nove de Mateus. Em Mateus há uma inversão em relação a Lucas, pois aparecem os "famintos" depois dos "aflitos". Em Mateus a redação está na terceira pessoa, enquanto em Lucas todas estão na segunda pessoa. Mateus sublinha atitudes interiores com as quais se deve acolher o Reino, por exemplo, a misericórdia, a justiça, a pureza de coração, enquanto Lucas se preocupa por mostrar a situação real e concreta de pobreza, fome e tristeza.

A bem-aventurança chave é a dos pobres, já que as outras são entendidas em relação a esta. São os pobres que tem fome, os que choram ou são perseguidos. Lucas recorda a promessa do AT de um Deus que age em favor dos oprimidos (Is. 49,9.13), os que têm a Deus como único defensor (Is. 58,6 - 7), os que clamam constantemente a Deus (Sl. 72; 107,41; 113,7-8). Todas estas promessas vão ser cumpridas em Jesus, que definiu, desde o começo, seu programa missionário em favor dos pobres e oprimidos (Lc. 4,16 - 21. Cf. Is. 61,1 - 3).

A última bem-aventurança (vv. 22 - 23) tem como destinatários os cristãos que são perseguidos e excluídos por causa da fé. Sua felicidade não consiste em padecer, mas na consciência de ser chamados a possuir uma "grande recompensa no céu". Deus, então, nos quer pobres? E que tipo de pobreza seria? Os pobres não são bem aventurados por serem pobres, mas porque, assumindo tal condição, pela situação ou por solidariedade, buscam superar essa condição.

A pobreza cristã está ligada à promessa do reino de Deus, isto é, a ter a Deus como rei. Este reinado se converte na maior riqueza, porque é ter Deus ao nosso lado, é ter a certeza de que Deus está aqui, nesta terra de injustiças e desigualdades, encarnado no rosto de cada pobre, convidando-nos a assumir sua causa. A causa é também a causa do Reino. E desfrutaremos do Reino quando não haja mais empobrecidos, carentes de necessidades básicas, e sim "pobres no Senhor", que são todos os que mantêm a riqueza de um povo baseada no amor, na justiça, na fraternidade e na paz. Em outras palavras, "pobres não são os miseráveis, mas os que livremente renunciam a considerar o dinheiro como valor supremo - um ídolo - e optam por construir uma sociedade alternativa que Jesus propõe levar a termo. A proclamação do reino não é efetuada de cima do monte, mas desde a "planície", no mesmo plano em que se encontra a sociedade construída a partir dos falsos valores da riqueza e do poder.

Em Lucas, as bem-aventuranças vão seguidas de quatro "ais" ou maldições contra os ricos. As duas primeiras vão diretamente contra os ricos e satisfeitos por sua indiferença diante da situação dos pobres. As duas últimas se dirigem aos que riem e os que tem boa fama. A contraposição entre ricos e pobres está claramente expressa no Magnificat: "Aos famintos encheu de bens e despediu os ricos de mãos vazias" (Lc. 1,53). E na parábola do pobre Lázaro (Lc. 16,19 - 31). É claro para Lucas que toda confiança posta na riqueza é enganosa (Lc. 12,19).

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Mais uma vez ouviremos as palavras de Jesus na narrativa das bem-aventuranças, agora nos escritos de Lucas, que, embora sejam diferentes da narrativa de Mateus (5, 1-12), ambos salientam as qualidades dos que são considerados “bem-aventurados” e devem existir em todos os cristãos. Lucas é mais categórico do que Mateus, por querer que fique claro que seguir Jesus exige opção pelos pobres e marginalizados, independentemente da sua condição moral, religiosa ou legal, e pelo desligamento da sociedade materialista e consumista, que procura esconder a realidade da opressão e exclusão, anestesiando a consciência.

Em Mateus a proclamação das bem-aventuranças é feita no alto de uma montanha, conhecida como o Sermão da Montanha, enquanto que em Lucas a proclamação é feita em um lugar plano. Mateus destaca nove bem-aventuranças; já no Evangelho de Lucas encontramos apenas quatro e se compararmos os textos dos dois evangelistas encontraremos narrativas diferentes.

Nesse contexto há quem argumente que a versão de Lucas é a verdadeira, achando que Jesus estava julgando os pobres e os famintos do ponto de vista social, prometendo alimento aos subnutridos e ao proletariado no Reino de Deus e que Mateus apenas espiritualizava o que constituía originalmente uma promessa material.

Os pobres são os destinatários das bem-aventuranças, por serem as vítimas dos ricos, poderosos, dos governantes e representantes do povo. A situação dos pobres, dependentes do sistema sócio-econômico estabelecido em nosso país, faz com que eles vivam na insegurança do dia a dia, passando necessidades e vivendo angustiados.

Mas Jesus não só procura confortar os aflitos; Ele também aflige os ricos, acomodados, fechados no egoísmo e na fartura, elogiados e aceitos por uma sociedade injusta, que não é questionada nem incomodada. Àqueles que mantém tal tipo de sociedade, Jesus dirige os quatro “ais” como convite à sua conversão.

Não é ruim ter o suficiente, ter alegria e conforto, mas se torna pecado quando nos fechamos em nosso mundo de auto-suficiência e ficamos insensíveis diante do sofrimento alheio.

Jesus ressuscitou há muitos anos e deixou suas palavras para que a humanidade as compreenda melhor e o mais rápido possível se converta.

As advertências de Jesus na continuação dos Evangelhos de Lucas 6,27 - 49 e 21,25 - 36, no de Mateus 24,29 - 44 e de Marcos 13,24 - 37, nos dá a certeza de sua vinda gloriosa e que está muito próxima. É preciso que isso aconteça para que se cumpram as Escrituras.

Raul Monteiro

 

Sinais de quem é bem aventurado

Tanto Mateus quanto Lucas apresentam as bem-aventuranças como parte do projeto do Reino que Jesus veio anunciar. Existe, no entanto, uma diferença entre Lucas e Mateus. Lucas ao invés de falar de oito bem-aventuranças, como fez Mateus, fala apenas de quatro, e acrescenta mais quatro desventuras para quem não praticar as bem-aventuranças.

É o que podemos ver no evangelho de hoje, de Lucas 6,20-26. Para Lucas, são bem-aventurados os pobres, os que agora passam fome, os que agora choram e os que são odiados; são desventurados os ricos, aqueles que agora têm fartura, aqueles que agora riem e aqueles que querem viver agora de elogios.

No centro das bem-aventuranças de Lucas está a recompensa para os que praticarem as bem-aventuranças: “Alegrai-vos, nesse dia, e exultai pois será grande a vossa recompensa no céu; porque era assim que os antepassados deles tratavam os profetas”. No fim do texto, Lucas diz por que os que se fartam, buscam as honrarias e os elogios são desventurados: “Era assim que os antepassados deles tratavam os falsos profetas”.

O segredo para entender as bem-aventuranças de Lucas está no advérbio de tempo “agora”. Na verdade, para Jesus os nossos atos agora é que nos preparam para herdar o reino dos céus. Lucas não faz outra coisa que não alertar a sua comunidade para traduzir a sua fé em gestos concretos de caridade. É somente assim que o cristão pode manter viva a esperança. Mas Jesus alerta também os cristãos para que aceitem os seus ensinamentos, por mais radicais que eles sejam, pois somente assim eles herdarão o reino dos céus.

Em resumo, o cristão deixa que Jesus transplante em seu coração o seu projeto que quer produzir vida em abundância. Nós nos tornamos pobres como é  pobre Jesus, que se esvazia de sua divindade para assumir e dar sentido à vida do ser humano; nós passamos fome, para poder ajudar aquele que passa fome pelas estradas da vida; nós sofremos com Jesus toda vez que os irmãos são injustiçados, são vítimas da violência, da droga, da separação dos pais, por motivos banais; isso, por si só, já nos fará diferentes do mundo. Vivemos como estrangeiros na pátria comum da humanidade. Mas, mesmo que nos tratem mal, já temos uma pátria definitiva na qual seremos recebidos de braços abertos: o Reino dos céus!

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Na liturgia do VI domingo da tempo comum a Palavra de Deus que nos é proposta leva-nos a refletir sobre o protagonismo que Deus e as suas propostas têm na nossa existência.

A primeira leitura põe frente a frente a auto-suficiência daqueles que prescindem de Deus e escolhem viver à margem das suas propostas, com a atitude dos que escolhem confiar em Deus e entregar-se em suas mãos. O profeta Jeremias avisa que prescindir de Deus é percorrer um caminho de morte e renunciar à felicidade e à vida plenas.

O Evangelho proclama felizes esses que constroem a sua vida à luz dos valores propostos por Deus e infelizes os que preferem o egoísmo, o orgulho e a auto-suficiência. Sugere que os preferidos de Deus são os que vivem na simplicidade, na humildade e na debilidade, mesmo que, à luz dos critérios do mundo, eles sejam desgraçados, marginais, incapazes de fazer ouvir a sua voz diante do trono dos poderosos que presidem aos destinos do mundo.

A segunda leitura, falando da nossa ressurreição - conseqüência da ressurreição de Cristo -, sugere que a nossa vida não pode ser lida exclusivamente à luz dos critérios deste mundo: ela atinge o seu sentido pleno e total quando, pela ressurreição, desabrocharmos para o Homem Novo. Ora, isso só acontecerá se não nos conformarmos com a lógica deste mundo, mas apontarmos a nossa existência para Deus e para a vida plena que Ele tem para nós.

O mundo do revés

Há Igrejas nas quais encontramos placas que recordam o nome dos que doaram os bancos ou contribuíram na construção ou nas obras das reformas.  Em muitas delas, figuram com letras maiores o que doaram mais dinheiro. A ordem de precedência em nossa sociedade, também em nossa igreja, é muito importante. Não é o mesmo um ministro que um diretor geral como não é o mesmo um bispo que um arcebispo ou um cardeal que um diácono. Nosso mundo tem ordem e hierarquia. Uns estão acima e outros estão abaixo. Os que estão acima costumam rir e ter muito mais que os que estão abaixo. A estes lhes tocam chorar e passar mais penúrias. Sempre tem sido assim e parece que sempre será.

Todas as tentativas para mudar esta ordem das coisas têm sido inúteis. A história termina devorando os revolucionários. Como diz o corrido mexicano: “meu pai foi peão de fazendo / e eu revolucionário / meus filhos puseram loja / e meu neto é servidor público.”

Mudar o mundo

Jesus é dos que acha que as coisas podem mudar. Sua experiência de Deus, sua relação profunda com o Abbá, diz-lhe que outro mundo é possível e que vale a pena trabalhar por ele. Daí suas palavras no texto evangélico deste domingo. A primeira parte de seu discurso soa-nos melhor. São as bem-aventuranças: uma série de bênçãos. Já as conhecemos. Falam do amor de Deus aos mais marginalizados, aos mais pobres, aos que lhes tocou a pior parte neste mundo.

O que nos custa aceitar é a segunda parte de seu discurso: as maldições. Como é possível que Jesus pronuncie essas palavras de condenação para os ricos, os que estão saciados, os que riem e os que são reconhecidos pelos demais? Não era necessário. Algum psicólogo talvez nos falasse de um desejo inconfessado de revanche, de vingança, contra aqueles aos que, sem culpa, lhes tocou a parte boa deste mundo. Talvez teria que recordar a Jesus que “os ricos também choram.”

Não há que dar voltas. As palavras de Jesus não se ajustam à nossa forma de pensar. Somos nós os que devemos escutar atenciosamente e com o coração aberto o que Jesus nos diz por mais surpreendente que nos possa ser. Jesus pronuncia bênçãos e maldições. Há uns que são os preferidos de Deus e outros aos que Deus afasta de sua presença. Há que sublinhar que os critérios de Deus são precisamente os opostos aos que usamos habitualmente na Igreja e na sociedade.

O Reino é para todos

Aqueles aos quais se amaldiçoa têm em todo caso uma via de escape. Primeiro deve fazer o esforço de sair de sua cômoda situação para aproximar-se dos preferidos de Deus. Talvez assim possam recolher alguma das migalhas que caem da mesa do banquete do Reino. Porque alguns não têm visto nunca a realidade da pobreza. Entre eles e essa realidade sempre têm estado os vidro escuros de seus carros ou os óculos de sol, que os impedem ver para além do que querem ver.

Mais ainda. Não é impossível que os que se sentem saciados encontrem o pão e o vinho que são o verdadeiro alimento que dá Vida. Mas para isso têm que fazer também algumas renúncias. Têm que chegar a sentir fome e que seja para valer. Têm que deixar de pôr a confiança em seus bens e começar a pôr no Senhor e nada mais que no Senhor, como também nos diz o profeta Jeremias. E abrir a mão e os olhos para compartilhar o que têm com seus irmãos e irmãs, com esses que são os preferidos de Deus – ainda que eles mesmos não o saibam em muitas ocasiões.

Hoje as palavras de Jesus são um golpe em nossas consciências. Onde estamos? Onde queremos estar? Onde encontraremos a verdadeira Vida? Porque Jesus não quer o mundo como está senão ao contrário, como o quer seu Abbá.

Fernando Torres, cmf

 

O anúncio que transforma o mundo: as bem-aventuranças

Com este domingo se inicia a leitura do discurso da "planície", com que Lucas apresenta a nova lei, a vida moral do cristão. No fundo, toda moral natural se pode resumir nesta norma: age segundo aquilo que és. A ação moral está incluída na linha da natureza. Na Bíblia as coisas são diferentes.

A fórmula clássica da lei moral no Antigo Testamento começa assim: "Eu sou o Senhor, teu Deus, que te fiz sair do Egito, da condição de escravo. Não terás outros deuses diante de mim” (Ex 20,2 - 3). Em seguida, Determina os preceitos morais: não matar, não roubar, não cometer adultério. Começa-se com uma declaração de fatos históricos, vistos à luz da fé. Os fatos se referem à libertação do povo da escravidão e à sua constituição em nação livre. Os mandamentos são o corolário dos acontecimentos. No Novo Testamento a fundamentação é análoga; o ensinamento moral está ligado ao anúncio do evangelho. Mas aqui há um fato, um acontecimento histórico preciso do qual deriva o compromisso moral.

A hora zero da experiência humana

No evento-Jesus encontra-se a "hora zero da experiência humana». A hora que exige o ato supremo. Esta situação radicalmente nova, o ingresso do Deus "Santo” na história, se realiza sem a contribuição ou o cálculo humano. Simplesmente por um ato de Deus.

Mas essa situação muda a existência. A relação do homem com Deus, e, conseqüentemente, com os outros homens e com as coisas, é transformada pela raiz.

A hierarquia dos valores é totalmente revolucionada. Cria-se uma situação nova, da qual não é possível escapar. Exige-se uma resposta, o sim ou o não, a fé ou a incredulidade; a aceitação comporta uma "vida nova”. O evento-Jesus é a grande ocasião oferecida aos homens de instaurar um novo tipo de relação com Deus, no qual não é permitido fugir dos grandes compromissos morais, enquanto as possibilidades da vida são ilimitadamente ampliadas.

As bem-aventuranças (evangelho) exprimem a inversão radical na ordem dos valores, que o evento-Jesus realizou. São o "sinal” do evento. Com elas, Lucas proclama a ratificação das promessas messiânicas (bem-aventurados os pobres: Is 61,1ss; Lc 4,18 - 19.21; 7,22; 10,21ss. Bem-aventurados vós que agora chorais...: Is 35,10; Lc 2,25).

Nestes pobres e perseguidos, Lucas vê a Igreja em que vive (At. 14,12; Lc. 11,49 ss.; 12,4 -7.51ss; 21,12 - 19; 22,35 - 38).

Quem responde afirmativamente ao evento-Jesus tem a alegria de sentir-se amado por Deus e inscrito na história da salvação, participando da sorte dos profetas e de Jesus. Os quatro “ai de vós” apresentam a sorte oposta dos que dizem não, dos que não crêem no evangelho e, por isso, não se inserem na história salvífica.

As bem-aventuranças não podem ser separadas da pessoa que as pronunciou. Jesus é o "homem das bem-aventuranças". Os pobres são bem-aventurados e a nossa fé não é vã (1 Cor 15) porque ele ressuscitou (2ª leitura).

As bem-aventuranças, lei ou evangelho?

As bem-aventuranças não são leis, mas evangelho. A lei abandona o homem às próprias forças e o incita a adaptar-se a ela até o extremo. O evangelho, ao contrário, põe o homem diante do dom de Deus e o incita a fazer desse inexprimível dom o fundamento da vida.

Em uma civilização de consumo, em que o dinheiro é o ídolo ao qual se sacrificam o homem e todos os outros valores, em um mundo super industrializado e super seguro, em que não há mais lugar para a liberdade autêntica, só "o homem das bem-aventuranças”, o homem livre das coisas, pode fazer redescobrir a verdadeira face do homem. Jesus louva os pobres que vivem ao mesmo tempo em dois mundos, o presente e o escatológico; ameaça os ricos que vivem em um só mundo, o mundo que escraviza quase inevitavelmente aquele que leva uma vida cômoda. O rico já está tão satisfeito como que possui, que não entra no mais Intimo do próprio ser.

O pobre, entretanto, só possui a solidão, mas a vive com uma coragem que o leva ao íntimo do seu ser, onde é percebido um mundo novo. Assim solitário, ele já partilha das vitórias e revela a proximidade desse novo mundo que caminha com dificuldade, através de sucessos e fracassos, vitórias e traições.

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Bem-aventuranças

O domingo passado nos fez reviver a situação em que Pedro e os outros três pescadores souberam entender a “palavra” que Jesus dizia de um modo completamente diferente do da multidão. Vimos como esta leitura nova e totalmente comprometedora os conduziu a seguir o Senhor e a deixar cada um seus próprios projetos particulares de vida.

Na visão de Lucas, Jesus não age e nem anuncia o Reino sozinho. Ele faz isto junto com e através de uma comunidade de fé. Para outros Evangelistas, como Marcos, o anúncio do Reino e a missão salvadora de Jesus estão centralizados quase que exclusivamente na sua pessoa; a comunidade é como que uma coroa ao agir do Senhor. Para Lucas o anúncio e a obra salvifica têm Jesus como origem, mas a comunidade é co-autora da obra de salvação, pois ela é o lugar privilegiado onde acontece e se transmite a obra do Senhor. De fato, o livro de Atos dos Apóstolos, continuação ideal de seu Evangelho, constantemente evidencia que é o Senhor, ressuscitado, que vive e continua agindo para o homem, mas faz isto através da sua comunidade de fé e sem prescindir dela. Esta primeira consideração nos servirá como preliminar para podermos nos aproximar mais atentamente a este belíssimo texto do Evangelho que chamamos de “Bem-aventuranças”.

O Evangelista diz: «Jesus desceu da montanha com os discípulos». Num texto anterior que está entre a leitura do domingo passado e a de hoje, (Lc. 6,12ss) temos uma fase intermediária entre a decisão de Pedro e as Bem-aventuranças: ao pequeno grupo foram se somando outros seguidores, um grupo de “discípulos” que haviam acompanhado o Senhor. Após uma noite em oração, Jesus escolheu os Doze; a missão de Jesus, portanto, inicia junto com a sua comunidade. Junto com eles desce do monte em direção à multidão. É freqüente em Lucas a mediação dos discípulos em relação à multidão, é como que um prognóstico para a missão da Igreja da qual o Senhor nunca se desligará.

Para um atento leitor da Escritura, não será difícil colher neste trecho, a alusão que reconduz ao início da história da relação entre Jahvé e Israel, ou seja a narração da Aliança estipulada tendo como base a Lei de Moisés (Ex. 19, que aconselho ler se for possível). A analogia é tão evidente que muitos chamaram as “bem-aventuranças” de nova lei que Jesus dá. Mas não é bem assim, é o contrário, pois percebemos em Lucas uma sutil recriminação à Lei usada como meio para alcançar a Deus. A alusão é usada justamente para mostrar que o agir de Jesus no meio dos homens não é uma “lei” e tampouco Ele quer substituir a Lei de Moisés. Trata-se de outra coisa! As diferenças entre os dois trechos são extremamente significativas e nos ajudam a entender melhor a narração de hoje; vejamos algumas.

A proposta de Aliança do monte Sinai começa logo com algumas condições: «se....», «então....». Nada disto encontramos em nosso texto; o que Jesus está apresentando é gratuito e incondicional. É muito restritivo pensar as Bem-aventuranças como uma nova ética ou moral proposta por Jesus. Ele não está pedindo a ninguém de ser miserável, chorar, ter fome... isto não é absolutamente vontade de Deus, ao contrário. Tampouco Jesus quer atenuar o sofrimento das pessoas relegando a solução a um indefinido “amanhã” que aliena da atenção ao drama presente, como se fosse uma fuga.

A presença de Deus no Sinai é acompanhada por fenômenos que assustam, tais como trovões, raios, enfim, um gênero literário próprio que visava recordar ao homem a sua condição ínfima diante de Jahvé; visava recordar o temor reverencial diante do desconhecido. Mas nada disto encontramos no nosso Evangelho, pelo contrário, parece que um clima de serenidade e familiaridade domine o anuncio de Jesus. Com Ele não há lugar para o medo, a distância, a subordinação. Percebemos, aliás, um profundo respeito, diria quase que as bem-aventuranças mostram a satisfação de Jesus que se felicita com os seus interlocutores, pois eles possuem algo tão valioso do qual desconhecem a importância.

Por incrível que pareça, enquanto Moisés falava para o povo “de cima para baixo”, no nosso trecho Jesus é quem olha “de baixo para cima”. Assim nos diz o Evangelista: «E, levantando os olhos para os seus discípulos, disse...». Com a delicadeza e sutileza próprias deste Evangelista, Lucas nos dá imediatamente, como um prelúdio de toda a sua vida, a posição na qual Jesus deseja se colocar diante dos seus. Levantar o olhar em direção de alguém era o gesto típico do servo, gesto próprio do momento em que perguntava ao seu patrão o que devia fazer. Eis, então que este gesto nos introduz no significado central das Bem-aventuranças que acabamos de ler: Jesus oferece a sua vida como serviço àquele homem, pobre, faminto, desesperado que não se fecha na comiseração da sua condição precária mas se aproxima a Ele. É um gesto delicado que por um lado indica  a oferta de Jesus, por outro implica num questionamento sobre a maneira com a qual interpretamos as condições que a vida nos dá. As condições têm seu valor e seu peso, “como” estas são vividas nos dizem quem nós somos e o que temos no fundo do coração. É aqui que o Senhor age. A condição da vida nos ajuda a revelar-nos a nós mesmos para que, se o quisermos,  possamos dirigir o nosso olhar a Jesus com desprendimento e liberdade.

Jesus está pronto a ouvir de nós, não se antecipa; este é um lindo exemplo daquilo que é o verdadeiro serviço: este respeita a dignidade da pessoa à qual se serve. Servir não é dar ou fazer para alguém aquilo que nós achamos que ele precise, mas é oferecer uma relação; uma relação na qual alguém oferece o que possui e, contemporaneamente, pergunta, pergunta ao outro do que ele precisa, como interlocutor digno. Este é o serviço cristão, o resto às vezes é assistencialismo e, às vezes não passa de uma desculpa para não se sentir inútil na vida... Pouco tem a ver com a caridade.

Ao contemplar Jesus neste gesto, na atitude e nos sentimentos sugeridos pelo Salmo (123,2), voltam à memória as palavras que a Liturgia da Sexta Feira Santa coloca na boca de Jesus: “O que mais poderia eu ter feito?”.

Estamos aproximando-nos sempre mais da riqueza deste texto; todavia não podemos deter-nos em cada uma das proposições que compõem esta pequena obra de arte espiritual.

Podemos perguntar: O que Jesus está disposto a dar? Em que consiste o serviço que está oferecendo?

De modo diferente da visão de salvação dada pelos Mandamentos, Jesus, com sua felicitação, expressa que a salvação, isto é, a comunhão com Deus, não se dá pela obediência a uma regra mas acontece por outro processo ou seja pelo caminho de solidariedade que se acontece entre algumas pessoas, identificadas nas bem-aventuranças, e o “Filho do homem”. Nota-se, pois, que Jesus não fala de modo genérico, mas se dirige diretamente a pessoas específicas: «vós». Isto porque Jesus não está dando aqui uma nova moral ou imprimindo um rótulo de comportamento para o discípulo. Ele está simplesmente constatando um fato: a situação em que vivem algumas pessoas, contrariamente a o que acha o “mundo” é condição privilegiada para fazer experiência do que significa “ser salvo”. É a condição mais favorável para descobrir o amor imediato e atento com o qual Jesus envolve o “pobre”; este amor é o início de um progressivo processo de reciprocidade que conduz à comunhão. É preciso, contudo fazer uma ressalva:  a palavra usada aqui para definir os bem-aventurados aos quais de dirige Jesus, pouco tem a ver com inópia, miséria, escassez econômica (mesmo não a excluindo). De fato, na expressão de Jesus: «vós, os pobres» Ele inclui Pedro, Tiago e os outros que, com certeza, não eram pessoas carentes economicamente, pois possuíam barcos próprios e empregados para a sua empresa de pescaria.

A palavra aqui usada, “pobre” , indica a atitude)( psicológica com a qual reage alguém que sofre uma opressão sem ter chance de defesa. Significa literalmente: “aquele que se encolhe por causa do medo”. Obviamente o medo é dado pela percepção da própria insuficiência diante das injustiças, da fragilidade natural, das ofensas mais profundas à dignidade humana, tais como a fome. Pobre, aqui, é aquele ao qual só resta “chorar” porque tudo é inútil para ele, porque não tem mais saída, esperança. Contudo, ao contrário do indigente, que se acomoda com a própria condição, que ostenta a sua miséria, que faz escudo desta para justificar o fato de não procurar uma alternativa, o “pobre” aqui é também “discípulo”, isto é, é aquele que sai da comiseração de si mesmo e segue Jesus, acolhe a Sua oferta de ajuda, aceita o Seu serviço. O “pobre”, então tem amor-próprio e escolhe, mesmo na condição de total insuficiência. Pobre é cada um de nós quando aceita a sua limitação, sabe que precisa de alguém pois, sozinho, não tem como escapar de um beco sem saída de ordem existencial, afetivo ou espiritual, feito de injustiça ou maldade.... É cada um que, diante de tudo isto renuncia à auto-suficiência e se coloca numa atitude de espera ativa e confiante; que escuta e, sem pretender nada, bem no fundo do coração sabe que não será decepcionado.

A este pobre, que se associa a Jesus, Jesus se associa.

Alguns anos mais tarde o Apóstolo Paulo comentará esta atitude que caracterizou a vida do Senhor com palavras lapidárias: «O Senhor Jesus, sendo rico, se fez pobre por amor de vós!» (2Cor. 8,9).

A estes, pobres, Jesus oferece sempre o seu serviço, que é esperança e certeza. A estes revela que a opressão, vivida com Ele e associando-se a Ele, não é vazia, sem sentido, não é só opressão mas, paradoxalmente, é o caminho que gera a verdadeira comunhão com Deus. A condição onde se descobre o amor, a gratuidade e a necessidade de retribuir com o pouco que se possui.

O Senhor não se contentou de revelar esta profunda realidade com palavras abstratas, o fez com toda a sua vida: viveu a recusa, a injustiça, a sua insuficiência diante do enrijecimento de corações empedernidos... Mas não se fechou em si mesmo, interpretou a sua vida como “escuta” da vontade do Pai, e terminou a sua vida com um último ato de confiante entrega: «Pai, em tuas mãos...!»

E Deus não deixou de dar a sua resposta.

padre Carlo

 

As bem-aventuranças (Mt. 5,1 - 12): catequese das primeiras comunidades

Mateus, nos capítulos 5 a 9 pode ser considerado como um livreto, um conjunto de temas articulados e voltados para a catequese das comunidades em Antioquia da Síria.

A finalidade destes capítulos é “mostrar-nos Jesus proclamando com poder, por palavras e atos, que o Reino de Deus está chegando.” (1)

· Os comentaristas do evangelho de Mateus acreditam que o ‘sermão da montanha’ é de fato um resumo de diversas pregações, ou mesmo parte de um ensinamento doutrinal, feito por Jesus ao longo de sua vida pública. As palavras (lógia) foram reunidos num texto aramaico e deste foram traduzidos para o grego em Mateus e Lucas, em conformidade com a teologia de cada evangelista.

· Existe, no caso de Mateus, uma tensão entre afirmar que os cristãos estão em continuidade ao Judaísmo, ou ressaltar a ruptura com o mesmo. Na catequese dos novos convertidos era preciso explicitar o que Jesus havia proposto com suas afirmações sobre o ‘Reino dos Céus’ e simultaneamente oferecer respostas a uma realidade marcada pelo final da guerra romano-judaica.

As bem-aventuranças (Mt 5,1 - 12; par. Lc 6,20 - 26)

Uma chave de leitura: “é a prática da justiça (dikaiosyne) que traduziu a expressão hebraica tsedaqa. O texto nos coloca no interior da polêmica que envolveu a maioria da comunidade cristã siro-palestinense nascente e o judaísmo de estilo farisaico, e também a justiça distributiva romana, onde o sujeito absoluto era o estado romano, no qual o agente era o imperador e seus procuradores, e os que eram alcançados por ela são os cidadãos romanos, ou seja, a minoria da população. A comunidade de Mateus quer responder a ambos os interlocutores. Ou seja, que a justiça é muito mais do que a letra da lei diz, e o que a Pax Romana queria garantir. E seu alvo é todo o povo e não apenas os tidos como cidadãos.” (2)

Como Moisés outrora anunciou do Monte Sinai o evangelho do Deus libertador (os mandamentos e a Torá), Jesus agora anuncia no monte o seu evangelho aos pobres e perseguidos de Israel. A nova Lei é o resgate definitivo de todos os marginalizados.

As portas de entrada para o Reino (3):

1. os pobres em espírito                         1. deles é o Reino dos Céus

2. os mansos                                          2. herdarão a terra

3. os aflitos                                           3. serão consolados

4. os com fome e sede de justiça           4. serão saciados

5. os misericordiosos                              5. obterão misericórdia

6. os de coração limpo                            6. verão a Deus

7. os promotores da paz                          7. serão filhos de Deus

8. os perseguidos por causa da justiça     8. deles é o Reino dos Céus

1) Quem são os pobres em espírito? Lembrem-se de que em Lucas aparece apenas o termo pobre! “É o pobre que tem este mesmo Espírito de Jesus! Não é rico. Nem é pobre com cabeça de rico. Mas é o pobre que diz: “Eu acredito que o mundo será melhor quando o menor que padece acreditar no menor.” (4)

2) Mosconi indica quem são os pobres em espírito: “são os mansos, os sem-terra, que perseveram, que resistem teimosos, sem apelar a vinganças (5,5) assim como Jesus (11,29). Eles irão ter a terra de volta. Pobres de espírito são os puros de coração (5,8), os que tem uma conduta límpida, coerente, de acordo com o projeto de Deus.

São os que têm mãos inocentes, que não se apropriam da vida dos outro, dos bens dos outros, como fazem os poderosos. Pobres de espírito são os que lutam em favor da paz (5,9). Paz é ‘shalom’, é bem-estar total, que exclui toda injustiça, toda opressão, toda violação de direitos. É perdão de dívidas.É amor, é fraternidade, é justiça. É fartura de bens. É a vida plena. Pobres de espírito são os que têm fome e sede de justiça (5,6). É a justiça de Deus, bem diferente da justiça judaica, baseada na observância dos 613 preceitos, ou da justiça do Império Romano, baseada na desigualdade e na divisão da sociedade.” (5)

3) No meio dos pobres existe uma realidade dolorosa, de sofrimento pela ausência do mínimo para se viver, lhes falta terra e consolo. As expressões ‘Mansos e aflitos’ estão diretamente relacionadas ao modo como a vida material na periferia do império romano, bem como na periferia do judaísmo do Templo de Jerusalém.

4) As expressões fome e sede de justiça e misericordiosos, retratam como o império e sua lógica de exclusão rompem os laços de solidariedade comunitária. As comunidades cristãs devem ser uma resposta a esse processo desagregador, restaurando os laços de irmandade, solidariedade e justiça.

5) ‘Coração limpo e promotores da paz”, colocam em questão a prática religiosa, o relacionamento com Deus. Como a religião pode gerar uma racionalidade centrada na defesa da vida humana? A resposta está no projeto do Reino dos Céus, claramente proposto e vivido por Jesus e seu momento religioso e social.

6) Os perseguidos por causa da justiça, sem dúvida se refere aos seguidores de Jesus que entraram em confronto com o administração romana e herodiana (Judéia, Galiléia e Peréia estão sobre o governo de Herodes Antipas). É grande a opressão econômica na Galiléia, pois um quarto da produção agrícola vai diretamente para as tropas romanas.

7) Não há dúvidas de que as bem-aventuranças tem algo de ‘testamento’ de Jesus, de ‘programa para a instalação do Reinado dos Céus’, de convite a que a comunidade cristã seja fiel ao evangelho em todos os campos de sua vida. Há uma profunda esperança e certeza de salvação neste ‘sermão’.

professor William César de Andrade

NOTAS

(1) VVAA. Leitura do Evangelho segundo Mateus. São Paulo: Paulinas, 1982. p. 39.

(2) LOCKMANN, P. “Uma leitura do Sermão do Monte (Mt 5-7) – o sermão do Monte no evangelho de Mateus’, in RIBLA nº 27. p. 48 a 55. A citação, p. 50.

(3) Conforme MESTERS, C., LOPES, M., OROFINO, F. Travessia – quero misericórdia e não sacrifício – círculos bíblicos sobre o Evangelho de Mateus. São Leopoldo: CEBI, 1999. p. 29.

(4) Idem. P. 30.

(5) MOSCONI, L. Evangelho segundo Mateus. 3ª ed. Belo Horizonte: CEBI, 1990. p. 63