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Comer as carnes do cordeiro, beber o vinho, compartilhar o pão sem fermento, que deveria recordar, com as ervas amargas, a miséria vivida no Egito, constituíam o ritual que estava acompanhado de benção e recitações dos salmos do Hallel. Na ceia festiva, o ambiente estava impregnado pela recordação alegre e confiante da libertação, que sempre teve uma eficácia esperançosa em épocas difíceis. Nessas circunstancias, Jesus tinha consciência de sua morte e falou dela. Os textos de Marcos 14,25 e Lucas 22,18 constituem uma profecia da morte. Jesus expressa, ante a probabilidade de sua morte, a confiança e a confirmação de sua mensagem do Reino. Não é necessário assinalar que nessa sentença de Jesus havia outras intenções a se levar em conta. É suficiente e fundamental pensar, ao ler esses textos, a intenção escatológica de Jesus, que ele relaciona estreitamente com a convicção da possibilidade de sua morte. Nestas circunstancias, Jesus realizou uma verdadeira interpretação teológica de sua própria morte, em um sentido salvífico, indissoluvelmente ligada com seu projeto de Reio de Deus. E, novamente, neste contexto Jesus estabelece uma profunda relação entre sua morte, assim interpretada, e os elementos da ceia: o pão e o cálice de vinho. Comer o pão e beber o cálice constituem algo completamente compreensível no contexto de uma ceia judaica, mas agora esta ação tem ligação com a interpretação da morte de Jesus, que ele mesmo oferece. Jesus deve ter feito outras coisas e compartilhado outros sentimentos com seus discípulos. Mas a tradição conservou seus sentimentos ligados principalmente com a ação do pão e do cálice. Enquanto a última, não sabemos com segurança se na ceia pascal, nos tempos de Jesus, utilizava-se ou não apenas um cálice em determinado momento, pois todos tinham seus próprios cálices. A tradição cristã recorda, em todo caso, a utilização de somente um cálice como algo característico da ceia do Senhor. As palavras de Jesus que foram conservadas nos ajudam a compreender o sentido do pão e do cálice compartilhados, implicam em uma interpretação salvífica de sua morte, tanto no sentido de expiação e da representação ("morrer por", "para o perdão dos pecados"), como no sentido de uma nova aliança. Jesus, que interpretou assim sua morte e a relacionou intrinsecamente com os dons da ceia, deixou à comunidade de seus discípulos a possibilidade de viver sempre a realidade de uma nova aliança com o Deus salvador, no sentido do Reino definitivo que havia anunciado. A relação entre aliança e Reino já tinha uma tradição importante, mas na ação de Jesus adquiriu uma importância transcendental e original para seus seguidores. Fazei isso em memória de mim . Este mandamento do Senhor é verdadeiramente sagrado para os seguidores de Jesus. A experiência comunitária vivida originalmente pelos discípulos se converte em algo possível para todos os cristãos em todos os tempos. Trata-se de entrar no destino histórico de Jesus, que é a história mesma de Deus, seu Reino, que acontece definitivamente na manifestação suprema do amor. Participar assim no destino do Mestre significa construir, de maneira insuperável, a fraternidade humana. A ceia do Senhor é a assunção, por parte dos cristãos, do que nos une mais profundamente: a vida do Mestre, a história do Filho do Pai na qual também participamos todos como filhos e como irmãos uns dos outros. E a ceia Pascal cristã foi originalmente uma páscoa judaica. Para os cristãos é o modelo de uma celebração eucarística, o modelo da celebração do mistério da Páscoa. Cada um de nós somos os protagonistas da Ceia do Senhor. Quando celebramos hoje uma refeição juntos, temos que fazê-lo com a mentalidade de Jesus, uma refeição que antecipa o reino de Deus, uma comunidade disposta ao serviço que a fortaleça e enriqueça, mas sobretudo uma comunidade de todos os homens, unidos pelo laço mais forte: o amor. A primeira leitura do livro do Êxodo nos fala da passagem da escravidão à liberdade. A Páscoa sempre foi uma festa de libertação, cujas origens remontam aos costumes anteriores à Páscoa judaica. Com efeito, os pastores nômades, antes de empreender sua viagem em busca de melhores pastos para seus rebanhos, na noite de lua cheia mais próxima do equinócio da primavera, sacrificavam um cordeiro ou um cabrito nascido no ano anterior, macho, sem defeito; para que não perdesse sua energia vital; ao comê-lo, não poderia ser partido nenhum osso. Ademais, como estavam em uma região desértica, sem água, o animal não era cozido na água, mas assado no fogo. Com seu sangue, manchavam as entradas de suas tendas para evitar a entrada de espíritos malignos, portadores de enfermidades e desgraças. Como deviam partir antes do amanhecer, comiam com pressa; sandálias calçadas, o bastão na mão e prontos para sair. O sacrifício e a comida tinham como fim assegurar-se da proteção de seus deuses no caminho que iam empreender, onde poderiam encontrar salteadores e outros perigos. Esses mesmos ritos foram adaptados pelos israelitas ao celebrarem a Páscoa; porém com mudança no significado. As portas eram marcadas com o sangue do cordeiro com a finalidade de evitar a entrada do anjo exterminador; o cordeiro não só era imolado, mas também consumido como alimento; desta maneira os comensais se comprometiam ainda mais com o mistério da festa. A Páscoa entre os judeus, unida indissoluvelmente à libertação do Egito, era atualizada na liturgia, quer dizer, fazia-se presente como se eles fossem os protagonistas e, desta maneira, o passado se mantinha vivo e os projetava para o futuro. A menção do sangue nos introduz na plena sacramentalidade do Antigo Testamento e por ele se opera a continuidade entre a Páscoa judaica e a Páscoa cristã. Páscoa é a grande festa da libertação de escravidão e da morte, onde o sangue do cordeiro tem uma função redentora; como o Egito no Antigo Testamento é a terra do pecado, a saída do Egito é uma libertação da escravidão material e do pecado. A Bíblia concebe a salvação à medida que se desenvolve a revelação como salvação do pecado. São Pedro, desenvolvendo essa idéia, nos diz: Fostes resgatados de vosso vão viver segundo a tradição de nossos pais, não com prata ou ouro, mas com o sangue precioso de Cristo, como cordeiro sem defeito nem mancha. O Salmo 115 (116) é um cântico de ação de graças e de confiança no Senhor que libertou o povo da escravidão. Podemos lê-lo em três níveis: o canto do povo de Israel que na liberdade sabe que o Senhor o livrou da escravidão do Egito. Também é o canto de Cristo ressuscitado, que sabe que seu Pai o libertou das cadeias da morte. Mas também é o canto de toda Igreja Cristã, libertada das cadeias do pecado pela Páscoa de seu salvador. A resposta do salmista à libertação, com louvor e sacrifício de ação de graças, parece privilegiar a alegria e o agradecimento do povo cristão, libertado definitivamente do pecado, da morte e da lei, que celebra esta reconciliação na eucaristia, na presença de seu Senhor morto e ressuscitado por ele. Encontramos na segunda leitura, tirada da primeira carta aos Corintos, o mais antigo testemunho da celebração eucarística. Paulo transmite a tradição que recebeu dos discípulos de Jesus, ao mesmo tempo mostra que a eucaristia não é uma celebração que recorda um fato passado, mas sim que está aberta ao futuro, a todos os tempos, porque nela anunciamos a morte do Senhor, a obra salvífica de Deus oferecida a todos, em todas as épocas. A Páscoa judaica tem para os cristãos um novo sentido; como o texto do êxodo narrava a celebração litúrgica judaica, Paulo mostra a celebração litúrgica cristã como um nova páscoa, com o anúncio da libertação sob o sinal do sangue que agora se transformou em pão e vinho. É o mesmo rito da aliança e da reconciliação, com paralelos que permitem compreender a celebração cristã desde o sentido da páscoa judaica: a noite da saída do Egito / a noite da Paixão O cordeiro do êxodo / o cordeiro Pascal Memorial das provas no deserto / memorial do sacrifício de Jesus. Paulo dirige sua atenção sobretudo à assembléia e mostra como uma celebração indigna da Eucaristia desemboca no menosprezo do Corpo Místico de Cristo, constituído pela assembléia e como esta é o símbolo da reunião de todos os homens e mulheres no reino e no Corpo de Cristo. Uma comunidade que está dividida pelo ódio e pelo desprezo aos demais não pode dar testemunho dessa união, além de ser um escândalo. No Evangelho, João mostra que Jesus, antes de partir dessa vida, quis que seus discípulos compreendessem, com um gesto simbólico, o que significa sua missão: o lava-pés é a expressão do compromisso pelo serviço à comunidade. É muito significativo que no lugar em que os evangelhos sinóticos colocam a última ceia, João, sem dizer uma palavra sobre esta ceia, descreve o sinal mais significativo do amor e do serviço, porque quanto chegou a hora, no momento em que sua missão termina, Jesus quer demonstrar seu compromisso definitivo com a humanidade por meio do serviço. O lava-pés era um gesto que na antiguidade mostrava acolhida e hospitalidade; normalmente era feito por um escravo ou uma mulher, a esposa a seu marido, os filhos ou filhas a seu pai, um gesto de deferência ou de consideração excepcional para com os hóspedes. Jesus rompe com a tradição: não pede ajuda. Ele ao mesmo tempo que preside a ceia e está dentro dela, realiza o lava-pés, demonstrando que não há ninguém maior que pudesse ser o primeiro; a comunidade de seus discípulos se conforma na igualdade e na liberdade como fruto do amor; e o Senhor se converte no servidor, porque a verdadeira grandeza não está na honra humana, mas sim no amor que transforma os homens e mulheres na presença de Deus no mundo. Esse gesto é bem compreendido dentro da teologia da encarnação do próprio João e também no sentido da mesma em Paulo. Mas o gesto não aponta simplesmente para a apresentação de uma teologia própria de João, posto que não é difícil encontrar em outra tradição evangélica (sinótica) a mesma inspiração, naturalmente não dramatizada. Por exemplo: em Lucas 22,27, no contexto da ceia, são transmitidas palavras muito significativas de Jesus no mesmo sentido: Eu estou no meio de vós, como quem serve. Por outro lado, o mesmo relato indica que o lava pés é um meio pelo qual os discípulos "tomam parte com" seu Mestre ( Terás parte comigo), o que nos faz compreender que esse gesto pertence ao corpo geral dos preceitos destinados aos discípulos como comunidade cristã, ainda que não seja difícil referi-lo à atitude de quem está associado à missão do Mestre enquanto tal. Estava ceando com seus discípulos, nos diz o evangelista João, quando se levantou da mesa, deixou o manto e, tomando um pano, atou-o à cintura. Minuciosamente nos descreve a cena porque cada um destes detalhes revelam o verdadeiro sentido da ação que Jesus vai executar: o verdadeiro amor se traduz em ações concretas de serviço. Quando se diz que Jesus deixou o manto é como se deixasse sua vida de lado, a vida doada pelos seus amigos. Logo, toma um pano, como o que usavam os serventes, o que é, portanto, um símbolo de serviço. Jesus nega a validade dos valores que o mundo criou; ao colocar-se de joelhos ante seus discípulos, Jesus, Deus entre os homens, destrói a imagem de Deus criada pela religião: Deus recupera seu verdadeiro rosto com o serviço. Deus não atua como um soberano celeste, mas como um servo do homem, porque o Pai que não exerce domínio mas comunica vida e amor, não legitima nenhum poder nem domínio. O que Deus faz pelo homem é levantá-lo ao seu próprio nível; Jesus é o Senhor, mas ao lavar os pés dos seus fazendo-se servidor, oferece a eles a categoria de senhores. Seu serviço, portanto, elimina toda estratificação social, porque na comunidade que ele funda cada um deve ser livre; são todos senhores por serem todos servidores e o amor produz liberdade. Seus discípulos terão a mesma missão: criar comunidades de homens e mulheres iguais e livres, porque o poder que se coloca acima do homem se coloca acima de Deus. Jesus destrói toda pretensão de poder, já que a grandeza e o poderio humanos não são valores aos quais ele renuncia por humildade apenas, mas também por serem injustiças que ele não pode aceitar. Pedro rechaça que o Senhor lhe lave os pés o que indica que este não entendeu a ação de Jesus. Ele pensa em um Messias glorioso, cheio de poder e de riqueza e não admite a igualdade. Ainda não sabe o que significa o amor, pois não deixa que Jesus manifeste a grandeza de seu amor e sua medida: igual ao que eu fiz convosco, fazei também vós. A medida de nosso amor aos demais é a medida que Jesus nos amou e isto que parece impossível, torna-se realidade se nos identificarmos com ele. Deveríamos poder dizer como Paulo: não sou eu quem vive, mas Cristo que vive em mim. Enquanto a seu significado, temos que repetir com o mesmo entusiasmo que este relado do evangelho de São João nos transmite uma mensagem verdadeiramente central da existência de Jesus Cristo: a vida do Mestre foi um testemunho constante da inversão de valores que se deve estabelecer para poder fazer parte do Reino de Deus. Não é o poder, nem a dignidade acidental, nem nenhum outro motivo de dominação o que constitui o segredo da verdadeira sabedoria de Deus. O grande valor que enobrece o homem é ter disposição permanente para servir. Jesus o proclamou, segundo o evangelho de João, por meio de uma parábola que tem força incomparável: o Mestre se converteu em escravo. Uma lógica assim se converte em segredo para edificar um mundo, cuja razão de ser não pode ser revelada senão pelo próprio Deus. Não celebramos a cerimônia do lava-pé simplesmente para recordar um episódio interessante e comovedor da vida de Jesus, mas para reconhecer em uma expressão sacramental a única maneira possível de ser discípulos do Mestre. Também Jesus nos ensinou que há mais alegria em dar que em receber. Também hoje é festa dos ministros da Igreja. É o dia de recordar o espírito do Senhor em serviço. Ele não veio para ser servido, mas para servir. Uma Igreja pobre, que serve, estará sempre próxima dos que aspiram a uma libertação material e espiritual, dos que fizeram o caminho do Êxodo. www.claretianos.com.br |
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Esta é a tarde que faz memória da Ceia Pascal de Jesus. Aquilo que o Senhor realizou durante toda a vida e consumou na cruz - isto é, sua entrega de amor total ao Pai, por nós -, ele quis nos deixar nos gestos, nas palavras e nos símbolos da Ceia que celebrou com os seus. Naquela Mesa santa do Cenáculo, estava já presente, em símbolos e gestos, a entrega amorosa do Calvário. É isto que celebramos neste momento sagrado, momento de saudade, de aconchego e de despedida. Era em família que os judeus celebravam o Banquete pascal... Jesus celebrou com seus discípulos, conosco, sua família: “Tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim,” até o extremo de entregar a vida, pois “não há maior prova de amor que entregar a vida pelos amigos” (Jo 15,13). Hoje, neste final de tarde e início de noite, ele se fez nosso servo, ele lavou nossos pés, porque “não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida em resgate por muitos” (Mc 10,45). Lavando os nossos pés, ele revelou de modo admirável seu desejo de nos servir dando a vida por nossa salvação. Hoje, ele nos deu o novo mandamento: “Se eu, o Senhor e Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros. Dei-vos o exemplo, para que façais a mesma coisa que eu fiz”. Assim fazendo, assim falando, o Senhor nos ordena, por amor a ele, a que nos sirvamos mutuamente, nos amemos mutuamente, nos aceitemos e perdoemos mutuamente, até dar a vida uns pelos outros. Eis nosso testamento, nossa riqueza e também nossa vergonha, porque tantas e tantíssimas vezes descumprimos o desejo do Senhor! Que contemplando o gesto do Senhor, hoje nos demos o perdão. Eu vos peço em nome de Cristo: reconciliai-vos em família, por amor de Cristo; reconciliai-vos na paróquia, nos grupos e movimentos de Igreja, por amor daquele que nos amou assim e nos deu o exemplo! Por Aquele que se deu a nós nesta tarde bendita, perdoemo-nos, acolhamo-nos, amemo-nos! É o único modo, caríssimos, de celebrarmos a Santa Páscoa no domingo próximo e de participarmos hoje desta Ceia bendita! O Senhor - para que tenhamos a força de amar como ele, de confiar amorosamente no Pai como ele, de amar os irmãos como ele -, hoje, ele instituiu o Sacramento do amor, a Eucaristia. Hoje ele deixou-se ficar no Pão e no Vinho transfigurados pelo seu Espírito Santo, como sacramento do seu Corpo e Sangue, imolado e ressuscitado para ser nossa oferta ao Pai, nosso alimento no caminho e nosso penhor de ressurreição e vida eterna. Quanta gratidão, quanto reconhecimento, devem brotar do nosso coração! Seu Corpo por nós imolado, seu Sangue por nós derramado, Jesus por nós entregue – sacramento de um amor eterno, de uma entrega sem fim, de uma presença perene! Comungar hoje do Corpo e do Sangue do Senhor é não somente unir-se a ele, mas estar disposto a ir com ele até a cruz e a morte! Ah, irmãos, não façamos como Pedro, que prometeu, mas não cumpriu e negou o Senhor! “O cálice de bênção que abençoamos não é comunhão com o sangue de Cristo? O pão que partimos não é comunhão com o corpo de Cristo?” (1Cor 10,16). Que grande mistério, esta união de vida e de morte com o nosso Senhor pela Eucaristia! Não reneguemos na vida e nas ações aquele que hoje nos convida à sua mesa e conosco celebra a sua Páscoa! Hoje, para presidir à Eucaristia e ser um sinal do Senhor, mestre e servidor, Cristo, na Ceia, instituiu o sacerdócio ministerial: aqueles que em seu nome e por sua ordem, deverão presidir à Celebração eucarística até que ele volte. Nesta tarde sagrada, rezemos pelo nosso Bispo e pelos nossos sacerdotes, para que sejam dignos de tão grande ministério e o exerçam como Cristo, que não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida! Irmãos e Irmãs caríssimos, guardemos no mais profundo do coração os mistérios desta Missa na Ceia do Senhor. Um amor tão grande, uma entrega tão total deve mover nosso coração, deve nos fazer sentir compungidos, desejosos de abrir nossa vida para o Cristo e realmente caminhar com ele. Tudo, nesta Celebração, respira amor, fala de amor: recordem o cordeiro imolado da primeira leitura - é o Cristo que por nós é imolado; pensem no pão sem fermento que partimos e no cálice da aliança que repartimos, na segunda leitura – é ainda o Cristo que se deixa ficar entre nós e em nós, como alimento e vida nova, plena do Espírito do Pai; recordem o Senhor inclinado, lavando-nos os pés, dando-nos a vida e dizendo a você e a Pedro: “Se eu não te lavar, não terás parte comigo” – é o Senhor na sua pura entrega de amor por nós! Por favor, nestes dias, celebremos estes santos mistérios pascais com piedade, espírito de adoração profunda e profunda gratidão para com Aquele que por nós quis entregar-se às mãos dos malfeitores e sofrer o suplício da cruz. Não fiquemos indiferentes, não sejamos frios: tudo quanto celebraremos foi por nós que o Senhor instituiu e para nossa salvação que realizou! E que pela Páscoa deste 2010, ele se digne conduzir-nos à Páscoa eterna. dom Henrique Soares da Costa |
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Este episódio narrado no Êxodo constitui um dos pontos centrais da história da salvação. Deus intervém de maneira misteriosa para libertar o povo da servidão do Egito. Segundo a mentalidade do tempo, a prosperidade e a segurança de uma nação dependiam da força de seus deuses. O esplendor, a extensão e o poder do Império egípcio exprimiam, portanto, a grandeza de sua divindade. Javé, o Deus que se revelou a Moisés na sarça ardente (Êxodo 3), vem confrontar-se com esses deuses para libertar os descendentes dos patriarcas hebreus reduzidos à escravidão, a trabalhos desumanos, para construir cidades grandiosas para o faraó. A Páscoa era originalmente festa dos pastores que celebravam a primavera e o nascimento das ovelhas. Nesta festa, os pastores derramavam o sangue de cordeiros ao redor do acampamento, a fim de espantar os maus espíritos, que poderiam prejudicar a fecundidade do rebanho. Na ocasião, esses pastores ofereciam a Deus um cordeiro de seu rebanho. Com a saída do Egito, a Páscoa tornou-se a celebração do Êxodo (Êxodo 13,14), traduzida em forma de refeições. Foi associada à festa dos ázimos. Portanto, com a saída do Egito Israel adotou esta festa dos pastores para celebrar o Êxodo, associando-a à festa dos ázimos, que era uma festa agrícola. Porém a festa agrícola só foi celebrada quando Israel tomou Canaã e associada à festa da Páscoa após a reforma de Josias em 622 a.C. O texto que relata a Páscoa dos judeus (Êxodo 12,1-13,16) foi escrito bem mais tarde, alguns séculos depois, num contexto de opressão para Israel, ou seja, durante o exílio na Babilônia. O relator da escola javista e sacerdotal coletou informações das fontes javista e eloísta e elaborou o texto atual, para que viesse responder aos anseios do povo oprimido na Babilônia, provocando assim a libertação do Egito. Nosso texto fala do ritual da Páscoa. Trata-se de um memorial, ou seja, de atualização da libertação do Egito. O texto fala ao coração dos exilados e suscita neles a memória dos feitos de Deus. Neste sentido, o texto oferece algumas indicações. A Páscoa marca o início de um novo tempo de libertação (v.1), e com ela se inicia uma vida nova. É o início da vitória do povo sobre a opressão. Para a inauguração desta nova era requer-se a partilha para que ninguém tenha demais e falte ao outro o que comer (v.4). É uma festa que visa à preservação da vida. O sangue não afugentará mais os maus espíritos, mas servirá de sinal para a perseverança de Israel enquanto povo ameaçado de desaparecer devido à política do opressor. É uma festa de memória histórica que lembra o passado desastroso (as ervas amargas). É celebrada às pressas (os pães sem fermento). Os que nela tomam parte devem estar preparados para uma longa viagem, até chegarem a uma sociedade plenamente humana e fraterna. Segunda leitura: 1 Coríntios 11,23-26 Este é o primeiro escrito do Novo Testamento que fala da Eucaristia. Ela era celebrada em Corinto, numa comunidade que enfrentava problemas e divisões. Os primeiros cristãos, antes de celebrarem a ceia, faziam uma refeição na qual todos punham em comum o que traziam. Era o momento da partilha que precedia a Eucaristia. Neste contexto, em que alguns comiam comodamente o que traziam e os pobres ficavam sem nada, Paulo questiona a comunidade se é possível celebrar a Eucaristia sem a partilha. Não seria comungar a própria condenação? Paulo sublinha o caráter sagrado do banquete comunitário como atualização da ceia do Senhor. Mas como isso podia acontecer se a ceia comunitária (ágape), que tinha o objetivo de favorecer o amor fraterno e a partilha dos bens que cada um trazia, não estava acontecendo? Se os ricos, que dispunham do tempo que quisessem, reuniam-se antes para comer e beber (v.22)? A noite chegava e o pobre, que havia trabalhado o dia todo como descarregador no porto, assim como os escravos, não tinha nada para o ágape e eram marginalizados pelos ricos. Paulo lembra a Eucaristia como um preceito que recebeu do Senhor. Lembra a instituição da ceia na noite em que o Senhor foi traído. A Eucaristia foi instituída numa ceia solene, com o partir e o entregar do pão aos presentes, como se fazia nas refeições judaicas mais solenes. Quando Jesus pronunciou as palavras “Este é o meu corpo“, não pensava na transubstanciação ou empanação, mas em sua morte, em seu corpo entregue aos inimigos. Aceitava perder sua vida para resgatar a vida de todos. O mesmo sentido tinha o vinho. Significava o seu sangue derramado para estabelecer a nova Aliança entre Deus e os homens. A memória (anamnesis) é um termo do calendário litúrgico judaico. Pois os hebreus celebravam a Páscoa como memorial da libertação do Egito, ou seja, como ritualização de um evento do qual dependia a sua salvação. A ceia é um verdadeiro memorial, porque propõe os sinais que Jesus sofreu em sua vida para nos salvar. Participar dela significa reconhecer o valor de sua morte. Evangelho: João 13,1 - 15 JESUS LAVA OS PÉS DOS APÓSTOLOS O lava-pés dá início à segunda parte do Evangelho de João (13-20), denominada por muitos exegetas de “Livro da Glória”, porque Jesus chegou à glorificação nos céus através de sua paixão e morte. Trata-se da última ceia, durante a qual Jesus abriu seu coração aos discípulos, confiando-lhes seu testamento espiritual, contido nos dois “discursos do adeus” (14,15-16) e na oração sacerdotal (v.17). Para João, o lava-pés assume o valor de um gesto profético extremamente significativo, enquanto recapitula o serviço do amor prestado pela humanidade do Verbo, através de seu abaixamento e de sua oblação sacrificial. A última ceia de Jesus antes da festa da Páscoa não assume um caráter pascal como nos sinópticos, pois João nem lembra a instituição da Eucaristia. Segundo a perspectiva teológica jovanéia, Jesus enfrentou o drama da paixão livremente, com perfeita consciência do que estava para lhe acontecer. Ele sabia que chegara sua hora de passar deste mundo ao Pai, ou seja, que aquele era o momento decisivo para fazer a vontade do Pai que o havia predestinado como vítima de expiação pelos pecados do mundo. Sua consciência da morte é caracterizada pelo verbo “oida”, que significa conhecimento adquirido, plena consciência do que se faz. Tomar a refeição juntos é sinal de partilha. Jesus vive este clima familiar com os seus. Na ceia Jesus, consciente de estar concretizando o projeto do Pai, mostra que esse projeto se traduz em ações concretas. Por isso, despoja-se de seu manto (sinal de dignidade) e pega o avental. É o Senhor que se torna servo (Filipenses 2,6-7) e lava os pés dos discípulos. A reação de Pedro era espontânea, mas contradizia radicalmente a missão de Jesus. Em outras palavras, Pedro negava inconscientemente o serviço de Jesus como oferta de sua vida para a salvação dos homens. Sua negação comportava, portanto, a exclusão da herança do Reino. Jesus, intervindo, explicou aos discípulos que eles já estavam puros por sua adesão de fé à palavra. João lembra que o fato acontece “antes da Páscoa”. Não é tanto uma menção cronológica, mas teológico-litúrgica. É a primeira Páscoa cristã. De fato, João não fala da Páscoa “dos judeus”. A Quinta-Feira Santa é a festa do Amor. Na Páscoa hebraica, o povo se reunia para comemorar a libertação da escravidão. Os cristãos, por sua vez, reúnem-se para comemorar a vitória de Jesus sobre o pecado e a morte. A libertação de Moisés não foi completa, a de Cristo sim. A ceia é um sinal de comunhão, amizade e convívio. Sentar-se à mesma mesa e comer o mesmo alimento supõe uma capacidade de acolher o outro, a disponibilidade, o amor recíproco. O ágape é sempre uma provocação para o bem, o amor, a esperança. Não se pode sentar à mesa do Senhor com egoísmo, como faziam os ricos de Corinto. Jesus, no gesto de partir o pão, estava entregando sua vida. O mesmo deve acontecer conosco. A Eucaristia não faz o milagre que esperamos em nossa vida se não quebramos os ídolos do nosso coração, se não damos espaço para a caridade. É preciso sentar à mesa, amar como Jesus amou. Então estaremos seguros de que ele se encontra em nosso meio. O ponto alto deste primeiro dia do Tríduo Pascal é esta missa, em que se celebra, comemora, renova sacramentalmente a ceia do Senhor. Esta celebração exige de nós uma concentração intensa. Foi a primeira missa celebrada na terra, com a instituição da Eucaristia e a ordenação episcopal dos apóstolos. Jesus mandou Pedro e João prepararem o lugar para a Páscoa. Não queria uma sala qualquer, mas um “catalyma”, isto é, uma sala onde viviam os servos, os domésticos, onde havia instrumentos de trabalho. Era um pouco moradia, um pouco armazém. Uma sala simples, exatamente como aquela em que havia nascido em Belém, mas o amigo lhe ofereceu a melhor sala. Jesus nasceu numa estrebaria, mas celebrou a Eucaristia numa sala rica, num cenáculo. Na narração, João enfoca mais o gesto do lava-pés (amou-os até o fim). O mal do mundo hoje é a falta de amor. “Com o amor se pode batizar sem água, crismar sem óleo, absolver sem absolvição, comungar sem hóstia” (Faber). O amor provoca empenho total, dedicação ao próximo, fidelidade ao dever. Nenhum meio de locomoção pode preencher as distâncias entre os homens. O amor pode. A Eucaristia é o ponto alto de toda a vida cristã (Concílio Vaticano II). Jesus tornou-se, na última Ceia, o grande sinal do amor. Esta é a força da Eucaristia. Nós não somos um grupo que se reúne por razões humanitárias, nem por um código de moral, mas ao redor de uma pessoa, Jesus Cristo ressuscitado, presente na Eucaristia, força unificadora da comunidade. Como os discípulos de Emaús desiludidos, céticos e desconfiados, o mundo de hoje só saberá reconhecer Cristo quando os cristãos souberem repartir verdadeiramente o pão. Com a instituição da Eucaristia, Jesus nos dá o sacerdócio da nova Aliança: “Façam isto em memória de mim”. Assim, os presbíteros participam do ofício do único mediador, Jesus Cristo, no qual anunciam a palavra, mas acima de tudo exercem o sagrado ministério no culto eucarístico, e, agindo “in persona Christi” e proclamando o seu mistério, unem as orações dos fiéis ao sacrifício de Cristo, e no sacrifício da missa representam e aplicam, até a vinda do Senhor, o único sacrifício do Novo Testamento (Concílio Vaticano II). Por que devemos freqüentar assiduamente a Eucaristia? A resposta pode ser encontrada na biografia do General de Lamoricière. Depois de converter-se, ele procurava comungar sempre. Certo dia ele disse ao seu pároco: “Creio que não é justo aproveitar muito os dons do Senhor”. O pároco respondeu: “A Eucaristia não é um prêmio. É um meio para chegar ao prêmio”. Celebrar a Eucaristia é atualizar a nova ceia pascal do povo de Deus, como já prefigurava a Páscoa dos hebreus. A missa é o sacrifício de Cristo e da Igreja, ou seja, o oferecimento ao Pai do Corpo e Sangue de Cristo, que tem lugar na oração eucarística, depois da consagração: “Celebrando a memória da morte e ressurreição de vosso Filho, nós vos oferecemos, ó Pai, o pão da vida e o cálice da salvação” (Oração II). João não relata a instituição da Eucaristia. Em seu lugar coloca o lava-pés, gesto que tem relação com a Eucaristia, como sinal que é também do amor e da entrega de Jesus. Jesus fez este gesto motivado por sua passagem para o Pai e pelo amor aos seus. O lava-pés não tem o significado das abluções rituais dos judeus realizadas antes das refeições, nem o detalhe da hospitalidade semita, já que não é feito no início da ceia, mas enquanto ela se desenvolve. Este ofício era tarefa dos escravos, por isso causou a reação de Pedro. O gesto mostra a humilhação de Jesus que, embora sendo Deus, realiza uma ação de serviço. O lava-pés resume toda a vida de Jesus, centralizada no amor ao Pai e aos homens. Explica a existência de Jesus. Sua vida fica toda iluminada. Gesto que está de acordo com seus ensinamentos e exemplos. Gesto que não tem nada de interesseiro, como ocorre com os políticos quando vão beber café nas casas dos pobres em época de eleições, para ter notoriedade e popularidade, contribuindo como detalhes para a fotografia e a urna de votos. Tanto para o gesto da Eucaristia como do lava-pés, Jesus pede continuidade a seus discípulos: “Façam o mesmo” (João 13,15), “façam em minha memória” (1 Coríntios 11,24-25), ou seja, Jesus pede que repitam suas atitudes de amor, serviço, entrega, renúncia, obediência... Dentro desta linha de serviço está o sacerdócio instituído por Cristo junto com a Eucaristia, pois graças ao ministério do sacerdócio o mandato de Cristo se torna presente. Assim temos o sacrifício eucarístico, que é a fonte e o ápice de toda a vida cristã (Lumen Gentium 11,1), a fonte de onde jorra a vida e a força para a Igreja (Sacrosanctum Concilium 10,1). Os cristãos procuraram cumprir o mandato do Senhor de celebrar a ceia em sua memória desde o início: “Os irmãos eram constantes em ouvir o ensinamento dos apóstolos, na vida comum, na fração do pão” (Atos dos Apóstolos 2,42). A cena evangélica de hoje mostra claramente como se deve exercer a autoridade entre os irmãos: como serviço de amor. Jesus disse: “Vocês me chamam Mestre e Senhor, e dizem bem, pois eu sou. Se eu lavei-lhes os pés, vocês também devem lavar os pés uns dos outros. Dei-lhes o exemplo para que façam o mesmo”. A última Ceia foi uma ceia testamentária, uma ceia afetuosa e imensamente triste, uma ceia permeada por um gesto transcendente, mas ao mesmo tempo simples, onde é instaurada para o povo uma nova Aliança com Deus: “Esta é a nova Aliança no meu sangue”. O mandamento de Jesus é o amor (João 13,34). É o mandamento novo. Novo porque o irmão é objeto do amor de Deus. Novo porque o modelo é sempre atual. Novo porque o modo de cumpri-lo será sempre novo. “Como eu os amei”. Novo porque o amor será sempre uma novidade para o homem acostumado à rotina e ao egoísmo. Devemos perguntar-nos se, nos lugares onde a maior parte de nossa vida se desenvolve, as pessoas sabem que somos discípulos de Cristo pela forma amável, compreensiva e acolhedora com que as tratamos. Sabemos pedir desculpas a alguém quando o tratamos mal? Temos manifestações de carinho com os que estão ao nosso lado? Temos cordialidade, estima, palavras animadoras, sorriso, bom humor, preocupação com os problemas dos outros? padre José Antonio Bertolin, OSJ |
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O primeiro versículo do capítulo 13 é uma espécie de síntese de toda a segunda parte do evangelho. Fala-se da Festa da Páscoa, que já não é a “Páscoa dos Judeus” e sim a de Jesus. A palavra “páscoa” significa “passagem”. Jesus vai passar deste mundo para o Pai. É a sua hora, a sua Páscoa. Essa “hora” se caracteriza pelo amor: “Ele, que tinha amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (13,1), ou seja, até as últimas consequências do gesto de amar, até afirmar, na cruz:”Tudo está realizado” (19,30). O que vem a seguir é explicação e aprofundamento do que significa “amar até o fim”. Temos, assim, o episódio do lava-pés. O lava-pés acontece dentro de uma refeição fraterna. No evangelho de João não se trata da Páscoa judaica. É uma simples refeição, símbolo de partilha e da fraternidade que reina entre as pessoas que se amam. Todavia, entre essas pessoas há quem não sintoniza com a fraternidade e a partilha: é Judas Iscariotes, do qual já ouvimos falar que era ladrão. O diabo, ou seja, o desejo e a ganância de ter e de acumular tomou conta dele. Por isso está disposto a trair Jesus. A refeição já começou. Em meio ao jantar, Jesus se levanta, tira o manto, pega a toalha e a amarra na cintura. Pega água e uma bacia, e começa a lavar e a enxugar os pés dos discípulos. Naquele tempo, somente as pessoas livres é que se sentavam para tomar refeição. Jesus, portanto, está agindo consciente e livremente. Tirar o manto significa abrir mão de todo o privilégio ou posição social. Ele se esvazia completamente, e se põe a fazer o que faziam os escravos não-judeus ou as mulheres, pois eram eles que deviam lavar os pés de seus senhores. O evangelho não diz quem foi o primeiro a ter os pés lavados. Isso é sinal de que Jesus não privilegia ninguém. Todos recebem seu amor-serviço de modo igual e imparcial, inclusive o traidor. Entra em cena Simão Pedro. Ele, desde seu primeiro encontro com Jesus, recebe um nome novo (cf. 1,42). Isso significa que Simão Pedro representa aquelas pessoas que seguem a Jesus, mas ainda não se “encontraram”, não acharam sua identidade de discípulo. É por isso que Simão Pedro reage com energia. Ele continua acreditando que é muito normal que numa comunidade alguns sejam senhores e outros sejam servos, os primeiros cheios de direitos e os segundos cheios de deveres. Ele crê piamente numa sociedade de desiguais. Por isso não admite que o Senhor lhe lave os pés. A resposta de Jesus põe Simão Pedro diante de uma opção: na comunidade, não participa do projeto de Jesus aquele que crê e age como se estivesse numa sociedade de desiguais: “Se eu não te lavar, você não terá parte comigo”(13,8). Simão Pedro cede, mas certamente ainda não entendeu o alcance do gesto de Jesus: “Senhor, então podes lavar não só os meus pés, mas até as mãos e a cabeça” (13,9). A questão é esta: Será que Simão Pedro está disposto a solidarizar com Jesus até o fim? A narrativa da paixão irá mostrar que Simão Pedro ficou extremamente frustrado com Jesus. Por isso negará três vezes ser discípulo dele. Depois de lavar os pés dos discípulos, Jesus retoma o manto e senta de novo à mesa, ou seja, volta à condição de pessoa livre. Aqui há um detalhe importante: o evangelho não diz que Jesus tenha tirado a toalha, símbolo do serviço por amor. Temos a impressão de que ele vestiu o manto por cima da toalha. Esse pormenor é muito significativo, pois o serviço de Jesus continuará até a cruz. Pouco antes de morrer, dirá: “Tudo está realizado” (19,30). O lava-pés de Jesus termina na cruz, na entrega da vida por amor. Seu serviço será completo quando der a vida totalmente. O que vem em seguida tem valor de testamento: ”Vocês compreenderam o que acabei de fazer? Vocês dizem que eu sou Mestre e Senhor. E vocês tem razão; eu sou mesmo. Pois bem: eu, que sou Mestre e o Senhor, lavei os seus pés; por isso vocês devem lavar os pés uns dos outros. Eu lhes dei um exemplo: vocês devem fazer a mesma coisa que eu fiz” (13,12 - 15). Há diferença entre Jesus e os discípulos: ele é Mestre e Senhor; eles são seus amigos. Mas essa diferença não é motivo para dominação. O Mestre e Senhor fez-se servo para doar a vida. Como deverão ser os que pretendem segui-lo? Qual deverá ser a prática dos discípulos de Jesus? Jesus garante que a felicidade não está nos títulos, honra, ou posição social que as pessoas ocupam. A felicidade está em descobrir o caminho do serviço que entrega a vida por amor. diácono Miguel A. Teodoro |
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O que nós celebramos hoje é o extremo do amor de Deus de uma maneira condensada. Na verdade, todos esses dias da Semana Santa são intensos em demonstrações do amor de Deus para conosco. A instituição da Eucaristia antecipa o que acontecerá amanhã, já que a Eucaristia é a atualização incruenta (sem derramamento de sangue) do sacrifício de Cristo realizado uma vez por todas na Cruz. Misteriosamente, porém, esse sacrifício é atualizado um dia antes, mostrando-nos assim que não é nenhum problema para o poder de Deus atualizá-lo depois, como acontece em todas as missas celebradas no mundo inteiro. Há coisas que podem ser complicadas, por exemplo pode ser complicado saber quanto é 2+2. Logicamente, uma criança vai dizer que são 4. Mas se você perguntar a um engenheiro, ele poderá dizer que são 3,999989. Um físico diria que são 4,0004 ± 0,0006. Um matemático diria: “espere um pouco que eu já calculo. Mas, já consegui provar que há uma solução”. Um filósofo perguntaria: “o que quer dizer 2+2?”. Um lógico: “defina as características da operação “+” e eu poderei lhe responder”. Um advogado, depois de fechar a porta e a janela, quiçá perguntaria em voz baixa: “quanto você quer que seja o resultado?” O que é a Eucaristia? Um mistério simples e profundo; nada fácil de explicar. Trata-se de um mistério porque não compreendemos tudo a respeito do que a Igreja chama “transubstanciação” – a conversão de toda a substância do pão no Corpo de Cristo e de toda a substância do vinho no Sangue de Cristo –, é ao mesmo tempo um mistério simples: Deus acessível a nós! A Eucaristia é o mistério da complexa simplicidade de Deus! Na solução do problema matemático ficou claro que a única resposta sensata é a da criança. Na presença de tão grande mistério é preciso que tenhamos a fé e a simplicidade da criança: o que é isso? o que é a Eucaristia? Resposta: o Corpo e o Sangue de Cristo. São João é um apóstolo profundamente contemplativo. Ele detém-se a narrar as palavras do Senhor durante a última Ceia; não nos relata a instituição da Eucaristia, os outros três evangelistas já o fizeram. São João, esse discípulo jovem e apaixonado por Deus, lembra-nos que Jesus “tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (Jo 13,1). Esse é o contexto da instituição da Eucaristia, da instituição do sacerdócio, do lava-pés. O amor de Jesus chamou tanto a atenção de João que anos mais tarde dirá aquelas belíssimas palavras que expressam quem é Deus: “Deus é amor” (1 Jo 4,6.16). Quem entendeu e experimentou algo desse amor divino pode dizer com o mesmo apóstolo: “Não há temor no amor; ao contrário, o perfeito amor lança fora o temor, porque o temor implica um castigo e o que teme não chegou à perfeição do amor. Quanto a nós, amemos, porque ele nos amou primeiro” (1 Jo 4,18-19). Como Jesus amou-nos até o fim, até o extremo, amemos-lhe também. Jesus está esperando por você e por mim em cada Sacrário, no Sacrário da sua Paróquia, ele está aí para que dele nos aproximemos, para que possamos com ele dialogar. Ele quer dar-nos o seu amor e quer que nós o amemos também. Nós nem tínhamos pedido que o Senhor provasse o seu amor para conosco, mesmo assim ele o fez: morreu e ressuscitou, deixou-nos a Eucaristia, os demais Sacramentos, a Igreja etc. O Senhor Jesus faz questão de deixar bem claro o que ele quer dizer. No capítulo sexto do evangelho segundo São João, o Senhor diz taxativamente: “Se não comerdes a carne do Filho do Homem e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós” (Jo 6,53). Encontramos um excelente texto paralelo nesta outra passagem de hoje: “Se eu não te lavar [os pés], não terás parte comigo” (Jo 13,8). Essas duas passagens nos mostram a profunda relação que há entre os sacramentos da Eucaristia, da Ordem sagrada e da Reconciliação. O sacerdote é ordenado principalmente para absolver os pecados, consagrar o corpo e o sangue do Senhor e pregar a Palavra de Deus; o ministro ordenado é sempre sacerdote, mas o é especialmente quando absolve e quando consagra. Para comermos o corpo do Senhor e bebermos o seu sangue e para sermos absolvidos dos nossos pecados é necessário que haja um sacerdote ordenado. Como é imenso o amor de Deus! Não apenas quis ficar perto de nós, quis ademais ficar dentro de nós, falando conosco, partilhando a sua vida conosco. Na noite das traições, Jesus quis mostrar a sua fidelidade e o seu amor. Diante da debilidade e da maldade do ser humano, Jesus mostra a sua bondade. Ainda que Judas já tivesse o propósito de traí-lo, Jesus quis tratá-lo amigavelmente. Cristo manterá essa postura para com o traidor até no momento da traição, quando Judas o beijar. Jesus lava também os pés de Judas e gostaria de perdoá-lo. Jesus trata-nos com amizade, quer ser nosso Amigo, Mestre, Médico e Senhor. Nós o permitimos? Voltemos os nossos olhares a Nossa Senhora. Onde Nossa Senhora estava quando Cristo instituiu a Eucaristia? Os santos Evangelhos não nos respondem; eu, porém, penso que ela não estava muito longe, mas ali por perto intuindo no seu coração de mãe que algo grande estava acontecendo, intuindo que essa seria uma noite diferente. Assim como Maria disse “faça-se” no momento da Encarnação, está preparada para dar a mesma resposta neste momento tão difícil. Que ela nos ajude para que, com uma fé gigante, possamos estar bem unidos acompanhando o Senhor em todos os momentos. Através das celebrações da Igreja nós participaremos com Nossa Senhora do Mistério Pascal do Senhor, antecipado e perpetuado nesta celebração de hoje. padre Françoá Rodrigues Figueiredo Costa |
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Qui, pridie quam pro nostra omniumque salute pateretur, hoc est hodie, accepit panem: assim diremos hoje no Cânone da Santa Missa. «Hoc est hodie»: a liturgia de Quinta-feira Santa insere no texto da oração a palavra «hoje», sublinhando deste modo a dignidade particular deste dia. Foi «hoje» que Ele o fez: deu-Se a Si mesmo para sempre no sacramento do seu Corpo e do seu Sangue. Este «hoje» é antes de mais nada o memorial da Páscoa de então. Mas é mais do que isso. Com o Cânone, entramos neste «hoje». O nosso hoje entra em contacto com o seu hoje. Ele faz isto agora. Com a palavra «hoje», a liturgia da Igreja quer induzir-nos a olhar com grande atenção interior para o mistério deste dia, para as palavras com que o mesmo se exprime. Procuremos, pois, escutar de maneira nova a narração da instituição tal como a Igreja, com base na Escritura e contemplando o próprio Senhor, a formulou. A primeira coisa que faz impressão é o fato de a narração da instituição não ser uma frase autônoma, mas começar por um pronome relativo: qui pridie. Este «qui» liga toda a narração à frase anterior da oração: «… se converta para nós no Corpo e Sangue de vosso amado Filho, Nosso Senhor Jesus Cristo». Deste modo, a narração fica unida à oração anterior, ao Cânone inteiro e torna-se ela mesma oração. Não é de modo algum uma simples narração aqui inserida nem se trata de palavras de autoridade, como um todo à parte, que interromperiam mesmo a oração. É oração. E somente na oração se realiza o ato sacerdotal da consagração, que se torna transformação, transubstanciação dos nossos dons de pão e vinho em Corpo e Sangue de Cristo. Rezando neste momento central, a Igreja está em total acordo com o acontecimento no Cenáculo, porque o agir de Jesus é descrito com as palavras: «gratias agens benedixit – dando graças, abençoou-o». Com esta expressão, a liturgia romana dividiu em duas palavras aquilo que, no hebraico é uma palavra só – berakha –, enquanto em grego já aparece em dois termos: eucharistía e eulogía. O Senhor dá graças. Ao agradecermos, reconhecemos que algo é dádiva que provém de outrem. O Senhor agradece e assim restitui a Deus o pão, «fruto da terra e do trabalho do homem», para de novo o receber d’Ele. Agradecer torna-se abençoar. O que foi entregue nas mãos de Deus, volta d’Ele abençoado e transformado. Por isso, a liturgia romana tem razão quando interpreta a nossa prece neste momento sagrado por meio das palavras: «oferecemos», «suplicamos», «pedimos que aceiteis», «que abençoeis estas ofertas». Tudo isto se encerra na palavra «eucharistia». Há outra particularidade na narração da instituição referida no Cânone Romano, que queremos meditar nesta hora. A Igreja orante fixa o olhar nas mãos e nos olhos do Senhor. Quer de certo modo observá-Lo, quer perceber o gesto do seu rezar e do seu agir naquela hora singular, encontrar a figura de Jesus por assim dizer também através dos sentidos. «Ele tomou o pão em suas santas e adoráveis mãos…». Olhamos para aquelas mãos com que Ele curou os homens; mãos com que abençoou as crianças; mãos que impôs sobre as pessoas; mãos que foram cravadas na Cruz e que para sempre conservarão os estigmas como sinais do seu amor pronto a morrer. Agora somos nós encarregados de fazer o que Ele fez: tomar nas mãos o pão para que, através da oração eucarística, seja transformado. Na Ordenação Sacerdotal, as nossas mãos foram ungidas, para que se tornassem mãos de bênção. Nesta hora, rezemos ao Senhor para que as nossas mãos sirvam cada vez mais para levar a salvação, levar a bênção, tornar presente a sua bondade. Depois o Cânone toma, da introdução à Oração Sacerdotal de Jesus (cf. Jo 17,1), as palavras: «Levantando os olhos ao céu, para Vós, Deus, seu Pai todo-poderoso…». O Senhor ensina-nos a levantar os olhos e sobretudo o coração: a levantar o olhar, afastando-o das coisas do mundo; a orientar-nos na oração para Deus e assim nos erguermos. Num hino da Liturgia das Horas, pedimos ao Senhor que guarde os nossos olhos, para que não acolham nem deixem entrar em nós «vanitates» – as vaidades, as nulidades, aquilo que não passa de ilusão. Pedimos que, através dos olhos, não entre em nós o mal, falsificando e manchando assim o nosso ser. Mas queremos rezar principalmente para ter olhos que vejam tudo o que é verdadeiro, esplendoroso e bom; a fim de nos tornarmos capazes de ver a presença de Deus no mundo. Pedimos para vermos o mundo com olhos de amor, com os olhos de Jesus, reconhecendo assim os irmãos e irmãs que precisam de nós, que estão à espera da nossa palavra e da nossa ação. Depois de o ter abençoado, o Senhor parte o pão e distribui-o aos discípulos. Partir o pão é o gesto do pai de família que se preocupa dos seus e lhes dá aquilo de que têm necessidade para a vida. Mas é também o gesto da hospitalidade com que o estrangeiro, o hóspede é acolhido na família sendo-lhe concedido tomar parte na sua vida. Partir-partilhar é unir. Através da partilha, cria-se comunhão. No pão repartido, o Senhor distribui-Se a Si próprio. O gesto de partir alude misteriosamente também à sua morte, ao amor até à morte. Ele distribui-Se a Si mesmo, verdadeiro «pão para a vida do mundo» (cf. Jo 6, 51). O alimento de que o homem, no mais fundo de si mesmo, tem necessidade é a comunhão com o próprio Deus. Dando graças e abençoando, Jesus transforma o pão: já não dá pão terreno, mas a comunhão consigo mesmo. Esta transformação, porém, quer ser o início da transformação do mundo, para que se torne um mundo de ressurreição, um mundo de Deus. Sim, trata-se de transformação: do homem novo e do mundo novo que têm início no pão consagrado, transformado, transubstanciado. Dissemos que partir o pão é um gesto de comunhão, é unir através do partilhar. Deste modo, no próprio gesto já se alude à natureza íntima da Eucaristia: esta é agape, é amor que se tornou corpóreo. Na palavra «agape», compenetram-se os significados de Eucaristia e amor. No gesto de Jesus que parte o pão, o amor que se participa alcançou a sua radicalidade extrema: Jesus deixa-Se fazer em pedaços como pão vivo. No pão distribuído, reconhecemos o mistério do grão de trigo que morre e assim dá fruto. Reconhecemos a nova multiplicação dos pães, que deriva da morte do grão de trigo e continuará até ao fim do mundo. Ao mesmo tempo vemos que a Eucaristia não pode jamais ser apenas uma ação litúrgica; só está completa, quando a agape litúrgica se torna amor no dia a dia. No culto cristão, as duas coisas tornam-se uma só: ser cumulados de graça pelo Senhor no ato cultual e o culto do amor para com o próximo. Nesta hora, peçamos ao Senhor a graça de aprender a viver cada vez melhor o mistério da Eucaristia de tal modo que assim tenha início a transformação do mundo. Depois do pão, Jesus toma o cálice do vinho. O Cânone Romano qualifica o cálice que o Senhor dá aos discípulos como «praeclarus calix» (como cálice sagrado), aludindo assim ao Salmo 23/22, o Salmo que fala de Deus como Pastor poderoso e bom. Lê-se nele: «Diante de mim, preparastes uma mesa, sob o olhar dos meus inimigos… o meu cálice transborda» – calix praeclarus. O Cânone Romano interpreta esta expressão do Salmo como uma profecia, que se realiza na Eucaristia: Sim, o Senhor prepara-nos a mesa no meio das ameaças deste mundo e dá-nos o cálice sagrado – o cálice da grande alegria, da verdadeira festa, pela qual todos anelamos – o cálice cheio do vinho do seu amor. O cálice significa as bodas: agora chegou a «hora», a que de forma misteriosa tinham aludido as bodas de Caná. Sim, a Eucaristia é mais do que um banquete, é uma festa de núpcias. E estas núpcias fundam-se na auto-doação de Deus até à morte. Nas palavras da Última Ceia de Jesus e no Cânone da Igreja, o mistério solene das núpcias esconde-se sob a expressão «novum Testamentum». Este cálice é o novo Testamento, «a nova Aliança no meu Sangue» – assim a frase de Jesus sobre o cálice é referida por Paulo, na segunda leitura de hoje (1 Cor 11, 25). O Cânone Romano acrescenta «da nova e eterna Aliança», para exprimir a indissolubilidade do laço nupcial de Deus com a humanidade. O motivo pelo qual as antigas traduções da Bíblia não falam de Aliança, mas de Testamento, deve-se ao fato de não serem dois contraentes de nível igual que se encontram, mas entra em ação a distância infinita entre Deus e o homem. Aquilo que designamos por nova e antiga Aliança não é um ato acordado entre duas partes iguais, mas dom meramente de Deus que nos deixa em herança o seu amor, nos deixa a Si mesmo. E com certeza Ele, superando toda a distância através deste dom do seu amor, torna-nos depois verdadeiramente seus «parceiros» e realiza-se o mistério nupcial do amor. Para se poder compreender em profundidade o que ali sucede, devemos escutar ainda mais atentamente as palavras da Bíblia e o seu significado originário. Os estudiosos dizem-nos que, nos tempos remotos de que falam as histórias dos Patriarcas de Israel, «ratificar uma aliança» significa «entrar com outros numa ligação assente sobre o sangue, ou seja, acolher o outro na própria federação e assim entrar numa comunhão de direitos um com o outro». Deste modo, cria-se uma consanguinidade real, embora não material. Os parceiros tornam-se de algum modo «irmãos com a mesma carne e os mesmos ossos». A aliança realiza um todo que significa paz. Será possível agora fazermos pelo menos uma ideia do que sucedeu na hora da Última Ceia e que, desde então, se renova sempre que celebramos a Eucaristia? Deus, o Deus vivo estabelece conosco uma comunhão de paz; mais, Ele cria uma «consanguinidade» entre Ele e nós. Através da encarnação de Jesus, através do seu sangue derramado, fomos atraídos para dentro duma consanguinidade muito real com Jesus e, consequentemente, com o próprio Deus. O sangue de Jesus é o seu amor, no qual a vida divina e a humana se tornaram uma só. Peçamos ao Senhor para compreendermos cada vez mais a grandeza deste mistério, a fim de que o mesmo desenvolva de tal modo a sua força transformadora no nosso íntimo que nos tornemos verdadeiramente consanguíneos de Jesus, permeados pela sua paz e desta maneira também em comunhão uns com os outros. Agora, porém, surge ainda uma nova questão. No Cenáculo, Cristo dá aos seus discípulos o seu Corpo e o seu Sangue, isto é, dá-Se a Si mesmo na totalidade da sua pessoa. Mas, como pode fazê-lo? Está ainda fisicamente presente no meio deles, está ali diante deles! Eis a resposta: naquela hora, Jesus realiza aquilo que tinha anteriormente anunciado no discurso do Bom Pastor: «Ninguém me tira a vida, sou Eu que a dou espontaneamente. Tenho o poder de a dar e o de a retomar…» (Jo 10,18). Ninguém Lhe pode tirar a vida: é Ele que por livre decisão a dá. Naquela hora, antecipa a crucifixão e a ressurreição. O que se há-de realizar por assim dizer fisicamente n’Ele, cumpre-o Ele já de antemão na liberdade do seu amor. Ele dá a sua vida e retoma-a na ressurreição, a fim de poder partilhá-la para sempre. Senhor, hoje destes-nos a vossa vida, destes-nos a Vós mesmo. Penetrai-nos com o vosso amor. Fazei-nos viver no vosso «hoje». Tornai-nos instrumentos da vossa paz. Amen. papa Bento XVI |
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Evangelho (Jo 13,1 - 15): Façais assim como eu fiz A cena do lava-pés situa-se na segunda parte do Evangelho de João (13-20), na qual se relata a exaltação de Jesus, sua elevação ao Pai. Nesse bloco, Jesus se dirige aos discípulos (cap. 13 - 17) num longo discurso de despedida. O v. 1 abre a cena da ceia, introduzindo o leitor no contexto em que serão desenvolvidos os discursos de Jesus aos seus. A ceia é realizada antes da festa da Páscoa, ou seja, antes de Jesus passar deste mundo ao Pai. A ceia é dominada pela temática que perpassa por todo o evangelho: amor e fidelidade. Jesus amou os seus e seu amor permanece até o fim. Esse amor será transbordado na entrega definitiva de Jesus na cruz. Na cena do lava-pés, Jesus antecipa, de modo prefigurativo, essa entrega e as suas consequências. Nos vv. 2 - 5, Jesus põe-se a lavar os pés dos seus discípulos. O gesto realizado durante a ceia é muito significativo. Sabemos que cear com alguém significa partilhar de sua vida e ideais. Jesus partilhava com os seus a mesma vida e missão que recebeu do Pai. Sabendo que tudo recebera do Pai, o amor em sua plenitude, e ciente de que sua hora havia chegado, pois estava para voltar ao Pai, Jesus vai mostrar, no gesto do lava-pés, o que significa esse amor pleno recebido do Pai e oferecido aos seus. As normas de conduta relativas à hospedagem determinavam que lavar os pés era uma atividade realizada pelo anfitrião ou pelo seu primogênito (cf. Gn 18,4; Lc 7,44), e não por um escravo, como geralmente se pensa. No Antigo Testamento, o dono da casa lavava os pés do hóspede como gesto de acolhida. E, assim como Abraão acolheu Deus na figura dos três homens que o visitaram (cf. Gn. 18,4), no gesto de lavar os pés, Jesus, o primogênito de Deus, acolhe na casa paterna toda a humanidade. É um sinal profundo em que se revela o rosto do Pai, que ama e acolhe, dando-se de forma definitiva no Filho. Esse gesto fundamenta a vocação da Igreja no mundo. O questionamento de Pedro (vv. 6 - 11) diante daquele gesto denota a falta de disposição do apóstolo para, em nome de Jesus, acolher na Igreja, da qual é chefe, todo ser humano indistintamente. Inicialmente Pedro não compreendeu isso; só depois da ressurreição de Jesus é que o apóstolo entendeu que Jesus queria a acolhida dos gentios na comunidade (At. 10,34). Mas não permitir a Jesus lavar-lhe os pés significa não tomar parte com ele, não ter parte na herança, ou seja, não participar da comunhão com Deus realizada em Jesus Cristo, em sua vida e morte aqui antecipada nesse gesto profético. Os vv. 12 - 15 explicam a atitude de Jesus, oferecem o seu significado. Aqueles que têm parte com Jesus, que partilham de sua vida e missão, não poderão se ausentar do serviço ao outro. Serviço que se traduz no acolhimento do outro, na entrega de si, numa vida de doação e serviço amoroso. Somente ama aquele que entrega a própria vida. E entregar-se vai muito além de simples serviço, mas é dom daquilo que se é e do amor que se tem, dom de si para o outro. 1º leitura (Ex. 12,1-8.11-14): Este será para vós um memorial perpétuo A Páscoa e o êxodo, momentos fundadores de Israel como povo, são inseparáveis. Nesse texto proclamado hoje na liturgia, explicita-se o propósito da primeira Páscoa: a esperança de salvação dos primogênitos e a expectativa de libertação da escravidão. A salvação dos primogênitos significa que a vida das futuras gerações do povo estará assegurada, contrariando os desejos do faraó (Ex. 1,16). Naquela época, era o primogênito quem levava adiante o nome do clã ou da tribo. Sem primogênitos não há futuro para o povo. Somada à salvação dos primogênitos estava a libertação da escravidão, garantia de vida livre e digna para as futuras gerações. Para representar essa dupla ação de Deus, cada família deveria escolher um cordeiro ou cabrito sem defeito, simbolizando a integridade da oferta ao Deus uno e perfeito. Em contraste com outras festas de Israel, a Páscoa era uma festa familiar, pois da família dependia a existência de gerações futuras e livres. O sangue simbolizava a vida (cf. Gn. 9,4; Lv. 17,11), e a última praga, que será narrada após o relato da celebração da primeira Páscoa, consistirá na morte, que ameaçava hebreus e egípcios. Por meio do sangue do cordeiro, símbolo da vida dos ofertantes, marcando a entrada das casas, Deus proibiu a ação da morte contra os hebreus (Ex. 12,22 - 23). O restante do cordeiro era assado e consumido pela família. A carne do animal não era cozida porque isso tomaria muito tempo e esse alimento deveria ser preparado o mais rapidamente possível. A família teria de comê-lo apressadamente, para sair sem perda de tempo. Todos deveriam assimilar a urgência da libertação a ser realizada por Deus. Sandálias nos pés, cajado nas mãos e rins cingidos (v. 11) são aspectos de quem tem pressa para sair em longa viagem. Cingir os rins significa que a túnica estava levantada, com a orla presa no cinto, deixando as pernas livres para correr, trabalhar, lutar numa batalha ou fazer grande viagem. Todos esses simbolismos da celebração da Páscoa dos hebreus visam mostrar que Deus saiu vitorioso contra todos os deuses do Egito (Ex. 12,12) e sobre os maiores inimigos da humanidade representados por esses deuses: a morte e a escravidão. 2º leitura (1 Cor. 11,23 - 26): Fazei isto em memória de mim O texto de Paulo quer enfatizar a recepção de uma tradição viva que teve origem no próprio Cristo. Para o pensamento bíblico do primeiro século da era cristã, os verbos “receber” e “transmitir” refletiam a transmissão de tradições sagradas que procediam de fontes fidedignas. Assim, falando da última ceia de Jesus, Paulo quer deixar os cristãos de sua época cientes de que ele recebeu de fontes seguras as informações sobre esse evento tão importante para a vida cristã. O texto ressalta que Jesus “deu graças”: essa expressão, no idioma em que foi escrita, é eukaristein, de onde deriva o termo eucaristia. A afirmação de que partiu o pão indica a participação de todos os comensais em um mesmo pão partilhado, significando a comunhão entre Cristo e a Igreja. “Isto é meu corpo”, no idioma nativo de Jesus, significa “isto sou eu mesmo”. Quer dizer que o pão fracionado e entregue aos comensais representa a totalidade da vida de Jesus, integralmente oferecida a Deus e à humanidade. Essa oferta de Jesus é que alimenta a Igreja e dá vida a ela enquanto caminha rumo ao reino definitivo. PISTAS PARA REFLEXÃO Que nesta noite de vigília possamos meditar sobre nosso serviço ao outro. Nosso fazer na Igreja está fundamentado na acolhida amorosa do irmão em nossa vida? Deus nos acolheu em Jesus Cristo como Igreja, corpo de Cristo: será que estamos acolhendo a humanidade com o mesmo empenho? Aíla Luzia Pinheiro Andrade, nj |
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Hoje celebramos outra noite, uma noite em que podemos dizer que é Deus que se encontra com o homem, uma noite cheia de acontecimentos e de testemunhas, ao contrário da noite da ressurreição que nenhum homem testemunhou. Esta é a noite da última ceia de Jesus com os discípulos, é a noite da agonia e da oração no jardim das oliveiras, é a noite da traição de Judas, a noite da prisão e a noite da negação de Pedro. Nela e nos vários acontecimentos condensa-se e sintetiza-se a condição humana, a sua fragilidade e infidelidade, o seu afastamento do projecto de Deus, bem como o amor de Deus pelos homens, esse amor levado até ao fim na encarnação e na experiência da morte dolorosa e da solidão face ao destino inexorável. Esta referência à noite não é um mero pormenor temporal, porque no ciclo do tempo é uma realidade importante na economia da salvação. Assim, se para os homens o dia começa com a manhã, passa pelo meio-dia e chega à noite, no cômputo divino o dia começa com a noite, com o princípio da noite e termina na aurora. Vemos isso no momento da criação em que nos é dito que cada dia é criado primeiro pela tarde e só depois vem a manhã. Na narração da instituição da Páscoa, na libertação do Egipto, é também à noite que tudo se inicia, para durante a noite se caminhar e no romper da aurora já a escravidão ter ficado para trás. Há assim uma realidade que se vislumbra no cair da tarde, uma luz que nos ilumina e permite atravessar as trevas da noite e reconhecer a luz maravilhosa do despontar da aurora e do dia. Esta noite em que tudo acontece é também símbolo da noite em que vivemos cada um de nós e a humanidade na sua condição finita, na sua condição pecadora. É a noite das nossas paixões, da nossa violência, do ódio e das infidelidades, da mentira, do sofrimento e dos abandonos, é a noite das nossas lágrimas e da nossa angústia. E é a essa noite que Deus vem em Jesus Cristo e vem com um gesto, com uma atitude, que não podemos jamais esquecer, porque nos foi deixado como mandamento, como forma de vida, o gesto da lavagem dos pés. É um gesto, um acto que estava reservado para os escravos, para os servos dos senhores que recebiam convidados. Antes de se sentarem à mesa o servo lavava os pés daqueles que chegavam. Um gesto de acolhimento e de higiene. Jesus repete este mesmo gesto, toma uma atitude servil e lava os pés aos seus discípulos, mas fá-lo já no meio da refeição, quando a celebração da ceia pascal ia já a meio ou até tinha já terminado na sua forma mais ritual. Desta forma o gesto adquire uma outra dimensão, um outro significado, torna-se de facto um rito, um mandamento, não é um mero gesto higiénico. Através deste acto Jesus sintetiza e assume a sua encarnação, assume como realmente se tinha feito homem para poder servir o homem e servi-lo da forma mais humilde; e indica aos seus discípulos, aos seus amigos, que só poderiam tomar parte com ele, ou seja, só poderiam participar da sua condição divina na medida em que vivessem da mesma forma, assumissem a mesma condição servindo e cuidando uns dos outros. E este cuidado não é uma ideia teórica, uma retórica, bem pelo contrário é uma realidade bastante prática, e por isso Jesus lava os pés de cada um dos discípulos assumindo a própria carga sensual do gesto, que é inevitável, mas que é necessária para que se veja a sua dimensão concreta, palpável, real. O amor exerce-se praticando, vivendo-se através de gestos muito concretos, por vezes assumindo uma condição carnal que é inevitável e até urgente. Não podemos querer cuidar do espírito e da alma se deixamos o corpo por cuidar. Jesus podia ter lavado as mãos aos discípulos, seria mais fácil e poderia ter a mesma carga simbólica, mas ao lavar os pés Jesus mostra uma vez mais como nos veio cuidar e salvar naquilo que temos de mais frágil, de menos decoroso. Os pés são a nossa fragilidade, a nossa possibilidade de cairmos e nos magoarmos, são a nossa condição de infidelidade, são os membros que tantas vezes nos levam para longe dos caminhos de Deus. E Jesus veio cuidar desses pés, veio purificá-los para que o possamos seguir, porque imediatamente terminada a ceia e o seu ensinamento diz aos discípulos, “partamos daqui”. A lavagem dos pés tem esse efeito de nos purificar mas também de nos fortificar para atravessar a noite, a noite tantas vezes sem sentido da nossa existência, da nossa tentativa de seguir o Senhor. Acolhamos esta humildade de Jesus, a sua generosidade de cuidar de nós, mesmo naquilo que menos merecemos, e procuremos viver da mesma forma humilde e disponível aos outros para podermos tomar parte com ele na sua glória. José Carlos Lopes Almeida, op - vitaefratrumordinispraedicatorum.blogspot.com |