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Evangelho (Jo 8,1 - 11) Ajustar-se à vontade de Deus é praticar a misericórdia Os fariseus querem uma prova concreta para incriminar e prender Jesus. Este retorna ao templo para ensinar a multidão presente naquele lugar. Enquanto ensinava, os fariseus trouxeram-lhe uma mulher surpreendida em adultério e, recorrendo à Lei de Moisés, inquiriram-lhe sobre que sentença daria (v. 6). Naquele tempo, o adultério não era considerado somente a relação sexual. Aquela mulher poderia apenas ter se insinuado para um homem e isso já a identificava como adúltera. Nesse contexto, uma pessoa pode adulterar sozinha (cf. Mt. 5,27; Jesus aplica essa lei também para o homem). Os fariseus põem Jesus à prova, pois, de um lado, não poderia ficar contra a Lei, o que seria um pretexto para acusá-lo de blasfêmia, e, de outro, era de conhecimento público sua misericórdia para com os pecadores. Jesus, de imediato, não responde, parece ignorá-los. Sabe que a preocupação de seus interlocutores, nesse momento, não é saber a vontade de Deus para ajustar-se a ela, mas apenas ter algo concreto para incriminá-lo. Quando insistem, Jesus responde de forma inesperada, modificando o enfoque da questão e os envolvendo no assunto: “Quem dentre vós não tiver pecado atire a primeira pedra”. Nessa reviravolta, Jesus não recusa o juízo de Deus, mas deseja que os fariseus o apliquem primeiramente a si mesmos. E, como o conceito de adultério era muito mais amplo naquela época que nos dias atuais, então os interlocutores já não têm como continuar com a acusação sobre a mulher, visto que também são culpados, ainda que não tenham sido surpreendidos anteriormente. Não tendo como continuar, cada um vai embora, começando pelos mais velhos – os mais prudentes. Assim, Jesus fica a sós com a mulher e lhe dirige a palavra, perguntando se alguém a condenou. Diante da resposta dela, ele afirma que também não a condena. A mulher é despedida de forma imperativa por Jesus, que lhe ordena que não peque mais. Jesus se revela, nesse episódio, como o enviado do alto que mostra o rosto misericordioso de Deus, mas também o seu juízo. A justiça do ser humano é, principalmente, condenatória, diferente do juízo de Deus. A justiça de Deus é feita de perdão e de orientação para a mudança de vida. Na atitude de Jesus para com a mulher pecadora, não se revela apenas a sua identidade messiânica e profética, posta em xeque pelos fariseus, mas manifesta-se, sobretudo, a fé da mulher que confiou no seu juízo e por isso saiu justificada. Também se revela a incredulidade dos que se recusam a enxergar o testemunho de Jesus, o enviado do Pai. 1º leitura (Is. 43,16 - 21) Um povo para louvar o Deus misericordioso O texto descreve o retorno do povo de Deus à terra prometida, depois do exílio na Babilônia, como um grande evento, comparável unicamente à travessia do mar durante a saída do Egito (vv. 16 - 17). Mas, no mesmo texto, Deus promete fazer coisas maiores ainda (vv. 18 - 19). O Senhor fará algo novo, e os eventos salvíficos do passado – embora não devam ser esquecidos, porque a revelação é progressiva – não devem ser lembrados numa perspectiva saudosista. O Deus libertador que abriu um espaço no mar para o povo passar é o mesmo que fará um caminho no deserto. Isso não deve ser tomado ao pé da letra, mas compreendido como atos salvíficos de Deus em favor de seu povo. Abrir um caminho no deserto, em vez de contorná-lo, significa que Deus tem urgência em fazer o povo voltar para a terra de sua herança. As caravanas que saíam da Babilônia em direção a Israel levavam muito tempo contornando o deserto. Deus não se limitará a libertar o seu povo, mas cuidará dele como no passado, fazendo surgir rios no deserto, onde antes tinha feito brotar água da rocha. A repetição ampliada das maravilhas do êxodo do Egito é testemunha de que Deus escolheu e constituiu um povo (v. 20) para o seu louvor (v. 21). Toda a criação é atingida pelos atos salvíficos de Deus em favor do ser humano. Isso é mostrado simbolicamente quando o autor afirma que os animais do deserto agradecem a Deus (v. 20) porque, na sua infinita misericórdia, o Senhor supre a sede do povo durante a viagem de volta à terra prometida. Esse simbolismo do louvor dos animais está em contraposição ao louvor do ser humano endereçado a Deus. Na concepção bíblica, o verdadeiro louvor consistia em um sacrifício de ação de graças (Lv. 7,12) cujo aspecto fundamental era uma conduta reta, ajustada à vontade de Deus (Sl. 50,23). Palavras bonitas endereçadas a Deus, mas unidas a obras injustas, faziam o louvor não ser aceito (Sl. 50,13.23b). 2º leitura (Fl. 3,8 - 14): A vida cristã é ajustar-se a Cristo Paulo dirige-se aos filipenses para exortá-los a configurar suas vidas à de Cristo num perfeito ajustamento à vontade de Deus. Para reforçar suas palavras, o apóstolo usa a própria história de vida. Nos versículos anteriores ao texto da liturgia de hoje, ele faz uma lista de seus títulos dentro do judaísmo. A verdadeira intenção dessa postura do apóstolo é mostrar aos seus destinatários que a sua fé em Jesus Cristo o tinha levado a uma mudança radical de vida e de perspectiva. O encontro com o Ressuscitado o fez considerar de forma totalmente diferente tudo o que antes eram coisas importantes para si. Paulo descobriu que conhecer e agradar a Deus é o mesmo que entregar-se a Cristo, viver como ele viveu e, se necessário for, morrer como ele morreu. Essa é a verdadeira justiça, que vem da fé, e não do legalismo. Depois de ter se dado conta da riqueza que é a verdadeira justiça, ou seja, a configuração da própria vida à de Cristo, o apóstolo se conscientiza que ainda há longo caminho a percorrer, pois ainda não chegou à perfeição, isto é, à maturidade cristã. Contudo, sua união com Cristo o leva a avançar, tendo em vista esse alvo almejado. Essa união inclui uma participação nos sofrimentos de Jesus como parte do processo de maturidade cristã. Sofrimento é algo que todo ser humano sente, mas sofrer unido a Cristo significa ter uma participação também na sua ressurreição. Trata-se de santidade ativa, ajustamento ao que Deus espera do ser humano por meio da configuração a Cristo. Não se trata de esforço para comprar a salvação mediante um relacionamento com Deus baseado na retribuição. Antes, significa uma resposta à salvação, dom de Deus, dada com a própria vida. Trata-se de fazer da própria vida um louvor agradável a Deus Aíla Luzia Pinheiro Andrade, nj |
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(cf. Sl. 42,1s). Chegamos na última semana da Quaresma. Caminhamos nestas cinco semanas volvendo nossos olhares e nossos corações para o apelo do Senhor que nos pede a conversão, o jejum e a esmola como aprimoramento de nosso seguimento de Jesus Cristo, o Redentor. Domingo passado presenciamos a volta do filho pródigo e a sua acolhida pelo Pai Misericordioso. Hoje, por conseguinte, aparece com mais força ainda o quanto Deus está acima do pecado. Eis a base que se chama “conversão”. Mas, quando se fala em conversão, os céticos objetam: “que adianta querer ser melhor do que sou?” E, ainda, os acomodados: “Melhorar a sociedade, para quê?”. Nas três leituras de hoje, encontramos a libertação perpassando toda a reflexão dominical. “Não mais penseis nas coisas anteriores, não mais olheis o passado. Eis que faço nova todas as coisas; já está brotando. Não o enxergais?” (cf. Is. 43,18). Na visão do profeta acontecem um novo paraíso e um novo êxodo ao mesmo tempo, um caminho no deserto e os animais cantando o louvor de Deus: Israel volta do Exílio (cf. Is. 43,19 - 20). O povo proclama o que Deus fez(cf. Is 43, 20): “Quando o Senhor reconduziu os exilados de Sião, parecia um sonho”(cf. Sl. 126). “Eu esqueço o que fica atrás de mim e me estico para acatar o que tenho diante de mim”(cf. Fl. 3,13): reflexão de Paulo, sempre mais próximo da morte – porque ao escrever esta Epístola está no cárcere – e de seu porto desejado. Pois diante dele está Cristo, que o salvou. Atrás dele fica uma vida de fariseu, que ele considera como esterco, porque o afastou da verdadeira justificação em Cristo Jesus. De fato, enquanto era fariseu, Paulo pretendia justificar-se a si mesmo pelas obras da Lei. Só depois que Cristo o “alcançou”, descobriu que a justiça vem de Deus, que, em Cristo, concede sua graça aos que crêem. Para São Paulo conversão é bem outra coisa que voltar a viver decentemente – o bom propósito da Quaresma! É, por conseguinte, deixar Deus estabelecer em sua vida uma nova escala de valores, tendo por centro um crucificado. Neste domingo(cf. Jo 8,1 - 11) seguimos firmes na nossa reflexão sobre o tema da misericórdia divina. A misericórdia de Deus encontra seu ponto alto logo mais na crucificação e ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo, ou seja, no mistério da paixão. Jesus acentua a paternidade divina. Deus nos ama com amor de Pai. E faz dessa revelação do rosto misericordioso do Pai um dos principais temas de sua pregação. Jesus sempre foi misericordioso em suas palavras, em suas atitudes e em sua vida toda. E pediu isso de seus discípulos; que fossem profundamente misericordiosos e complacentes. A misericórdia de Jesus é infinita, ou seja, é igual à misericórdia do Pai que é profunda e absoluta. Observamos que o Evangelho de hoje fala da mulher adúltera que nos remete a Dn. 13: “os anciãos” querem julgar a virtude de uma mulher, enquanto eles mesmos estão cheios de pecado. Porém, a mulher de Dn. 13 era justa. A mulher do Evangelho de hoje, João 8, não era uma mulher justa. Deus não só proteger os justos, mas salva também os pecadores, abrindo-lhes o caminho, para que não voltem a pecar. O contraste, nesta cena, é entre a farsa da “justiça” dos anciãos e a misericórdia de Deus que não condenou a adultera mas pediu que ela seguisse o seu caminho e “não pecasse mais”. O mandamento maior da salvação é o mandamento do amor. Amar a Deus sob todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. Assim a misericórdia nos leva a seguir Jesus de perto e a imitá-lo, porque “Bem-Aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia”(cf. Mt. 5,7). Jesus ensinava com misericórdia e firmeza. Na última semana antes da Paixão Jesus passou as noites no Monte das Oliveiras e os dias no átrio do templo. Jesus ensinava no átrio do Templo. Era de manhã, a hora em que muitos iam ao templo fazer o que hoje chamaríamos da Oração da Manhã. Pouco adiante, o Evangelista diz que ele ensinava com “autoridade”. Um dia antes, entretanto, os fariseus haviam mandado os guardas do templo prender Jesus, mas os guardas tiveram medo da reação do povo. Deve ter havido grande discussão entre os escribas e os fariseus. Nicodemos tomou a defesa de Jesus, achando que não se podia prender ninguém sem antes ouvir a sua doutrina e conhecer o que esta pessoa fazia. E no episódio de hoje os fariseus tentaram confundir a Jesus com o episódio da mulher pega em adultério. A lei determinava que a mulher deveria ser morta. Mas, se Jesus consentisse na morte por apedrejamento, teria problemas com os romanos, que haviam proibido aos judeus de aplicar, baseado em leis religiosas, a pena capital de Lv. 20,10. Se Jesus mandasse ficar livre, quebraria, à vista de todos, a Lei de Moisés e isso seria suficiente para montar-lhe um processo. Mas o Messias, o Salvador, agiu com a unção daqueles que são enviados por Deus: Jesus viera trazer não a condenação, mas a misericórdia; não o perdão jurídico, mas o perdão da consciência; não viera para destruir, mas trazer a vida e a vida plena. Os fariseus e os escribas assemelham-se hoje ao filho mais velho da parábola do filho pródigo. Jesus assemelha-se ao pai misericordioso, que recebe de volta aquele que estava morto e voltou a viver, está nas trevas e viu a luz. Os legalistas queriam aplicar a lei pela lei. Jesus ao contrário veio dar uma nova teleologia para a lei: que é a misericórdia, que encontra em Deus a acolhida e o perdão. Antes de castigar ou de oprimir as pessoas temos que ter consciência de que somos pecadores. Temos que ter a atitude misericordiosa do Pai misericordioso, rezando e acolhendo com carinho e humildade. Jesus acolheu a prostituta. Não aprovou a sua atitude de pecadora pública. Mas a acolheu com misericórdia. Apenas não a condenou, porque sua misericórdia era maior que o pecado dela. Observe-se que, de imediato, Jesus acrescenta: “Eu sou a luz do mundo!” Na primeira leitura(cf. Is. 43,16 - 21) nos é apresentado que Deus realizará uma nova salvação. Deus não obrou só no passado diz o profeta. Como antigamente ele abriu um caminho para o povo que voltava do Egito, assim também abrirá um caminho para os exilados voltarem da Babilônia. Fará um novo início; esqueçam o passado. Até a natureza se colocará a serviço da nova obra de Deus, e o povo o transmitirá às gerações futuras. Na segunda leitura(cf. Fl. 3,8 - 14) somos convidados a nos convertermos e deixarmos levar pela força de Cristo. Na sua conversão, São Paulo abandonou muita coisa, sobretudo a pretensão de se justificar a si mesmo(pelas obras da Lei) E que recebeu São Paulo em troca? O conhecimento, a experiência do Cristo crucificado e ressuscitado. Mesmo assim, sabe que ainda não alcançou a meta. Importa ser constantemente arrebatado pela força de Cristo. Deus não é limitado que fique imobilizado por nosso pecado. Ele passa por cima, escreve-o na areia, como Jesus, no episódio da mulher adultera. A magninimidade de Deus, que se manifesta em Jesus, está em forte contraste com a mesquinhez dos justiceiros que queriam apedrejar a mulher. Estes, sim, estavam presos no seu pecado: por isso, nenhum deles ousou jogar a primeira pedra. Decerto, importa combater o pecado; mas é preciso estar com Deus para salvar o pecador. A justiça considera uma pessoa pelo seu passado, ao passo que o amor a considera pelo seu futuro. E manifestava sua admiração por esta atitude entre os cristãos. A mera justiça fecha as possibilidades da pessoa, ao passo que o amor, a misericórdia, lhe abrem novos horizontes, a fazer reviver. É isso que Deus faz com toda a humanidade. Não quero a morte do pecador mais sim que ele se converta e viva. O gesto de Jesus passar por cima do pecado da adúltera aconteceu com todos os cristãos pelo batismo e se renova tantas vezes, quando dele obtemos o perdão dos pecados. Aceite, meu caro irmão, um convite que façamos na semana derradeira bastante jejum, penitência e esmola para entrarmos radiosos na semana da Paixão, morte e ressurreição. padre Wagner Augusto Portugal |
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v. 1 - 2 Jesus está em Jerusalém, no final da festa das Tendas, depois de passar a noite no Monte das Oliveiras volta ao templo para ensinar (Lc. 21,37 - 38). O povo vai ao Templo para escutá-lo, Jesus se senta e começa a ensinar: Geralmente é Lucas que diz que Jesus ensinava sentado (4,20; 5,3), João em vez diz que Jesus ensinava ficando de pé (7,28.37). v. 3 - 5 Enquanto Jesus está no templo, os escribas e fariseus, os escribas, são aqueles que interpretam a Lei, aparecem freqüentemente nos evangelhos sinóticos, em vez em João aparece somente aqui. João fala mais dos Judeus e Fariseus, não conhecendo a categoria dos escribas, saduceus e herodianos. Voltando ao nosso texto, os escribas e fariseus apresentam uma mulher adúltera. No coração eles já sabem o que fazer, já decidiram a sentença de morte a esta pobre mulher, mas para ter algo a condenar o Mestre, lhe apresenta, “colocando-a no meio”. A lei mosaica é muito explicita, a adúltera deve morrer, podemos ler o texto de Susana no livro de Daniel 13,1 - 64, Deut. 22,22ss; Lev. 20,10. Sabemos também que a intenção dos acusadores era bem diferente, provar Jesus, se ele absolvia a mulher se colocava contra a Lei, se condenava, se aliava com eles, mas se comprometia com as autoridades romana.No entanto, eles procuravam algo para acusá-lo. vv.6 - 8 Jesus parece insensível a este problema, se curva e escreve no chão com o dedo. O significado deste gesto permanece muito obscuro, ainda não sabemos o que escreveu, provavelmente estava pensando para dar uma resposta correta, mas ele tem pressa em saber a sua opinião e reação e interrogam mais uma vez, então Jesus erguendo-se “porque estava inclinado”, e lhes responde. “Quem dentre vós estiver sem pecado, seja o primeiro a lhe atirar uma pedra” (v.7). Se os acusadores ainda não tinham entendido o gesto de Jesus, a sua resposta lhe constrange a pensar, pois ainda eles não tinham entendido que Jesus “não veio chamar os justos, mais sim os pecadores ao arrependimento” (Lc. 5,32). Jesus se inclina de novo e escreve no chão mais uma vez, deixando a eles a decisão. No livro do profeta Jeremias diz que “o nome dos pecadores eram escritos na terra, porque eles abandonaram a fonte de água viva, o Senhor” (17,13). No discurso da montanha Jesus diz: “Não julgueis para não serdes julgados” (Mt. 7,1; Lc. 6,37). Esta resposta digna do Filho de Deus, pela sua sabedoria, simplicidade e profundidade, faz com que todos eles deixam o local silenciosamente, como nos diz o Salmo 8 “tu o firmaste, qual fortaleza, contra os teus adversários, para reprimir o inimigo e o vingador”. v.9 Eles porém ouvindo... A provocação de Jesus é forte, todos sabem que são pecadores, por isso nenhum deles têm a coragem de atirar a pedra, e um após o outro se afastam, “começando pelos mais velhos” diz o texto. Nos faz pensar a história de Susana, no livro do profeta Daniel, no qual são os dois anciãos que querem seduzi-la e depois acusam-na diante do tribunal. (parece um problema atual, este, no qual muitas mulheres são seduzidas no local de trabalho, constrangidas a calar-se por medo de repressão). No entanto, continua o texto, Jesus levantando os olhos, a mulher estava ainda “lá no meio” sem duvidas não no meio dos seus acusadores, mais no meio dos espectadores que apreciavam para ver o que aconteceria com ela. vv. 10 -11 Jesus que quase não tinha falado, agora se volta verso a mulher, mas não para condená-la, mas para dar vida, ele que “não veio ao mundo para condenar o mundo, mas para salvá-lo” (Jo. 3,17;12,47); “ele o Bom Pastor, que veio a procurar a ovelha perdida” (Lc. 15,4 - 7); “O Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” (Jo 1),. Jesus não interroga o seu passado não porque consente o adultério, mas porque oferece a ela condições de vida nova, Ele o único que poderia condenar, porque sem pecado, prefere absolvê-la. A mulher está ainda lá diante dele esperando a sua sentença de condenação, mas Jesus “que não veio para condenar o mundo” é mensageiro da misericórdia de Deus. Agostinho interpreta bem esta situação: “relicti sunt duo, misera et misericordia”. A misericórdia de Deus é maior do que nossa esperança, quando nos sentimos pecadores, não fechemos as portas ao nosso egoísmo, sabemos que Deus é misericórdia e compaixão e que está sempre de braços abertos a nossa espera, “a misericórdia é a doce piedade de Deus”. www.filhasdaigreja.org |
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Por tudo isso, o profeta Isaías, em nome do Senhor, nos convida a olhar para frente, para o mistério que é maior que qualquer outra ação de Deus: o mistério do Filho em sua paixão, morte e ressurreição: “Não relembreis coisas passadas, não olheis para fatos antigos. Eis que eu farei coisas novas, e que já estão surgindo: acaso não as reconheceis”. Mais que a criação, mais que a travessia do mar Vermelho, mais que a água jorrada da rocha... o Senhor fará algo definitivo! Ele abrirá uma estrada no deserto, fará correr rios em terra seca! Pensemos estas imagens à luz da Páscoa: o Senhor Jesus nos abrirá no deserto da morte – e das mortes da vida – uma estrada de vida, um caminho para o Pai: “Vós me ensinareis o caminho da vida!” O Senhor Jesus fará brotar de seu lado aberto o rio da graça, o rio dos sacramentos, do batismo (água) e da Eucaristia (sangue) que regam e fertilizam a nossa pobre existência! “Eis que eu farei coisas novas!” Nunca esqueçamos que a Páscoa do Senhor – Passagem deste mundo para o Pai, atravessando o tenebroso vale da morte – é também a nossa Páscoa: Passagem pela vida neste mundo, que terminará com Cristo na plenitude do Pai; mas também, já agora, Passagem sempre renovada do pecado para a graça, dos vícios para a virtude, de uma vida centrada em nós mesmos, para uma vida centrada com Cristo em Deus. É este, precisamente, o sentido do Evangelho deste Domingo: a mulher pecadora, renovada pelo perdão do único que poderia condená-la, porque o único Inocente: “Eu não te condeno. Podes ir, e de agora em diante não peques mais”. Diante do Cristo, o Inocente que por nós será entregue e por nós livremente entregar-se-á, como não nos reconhecermos culpados? Como não termos vergonha de julgar e condenar os demais? Como não nos sentirmos amados, acolhidos e perdoados por Aquele que nos lavou com o seu sangue, nos aliviou com suas dores e nos revivificou com a sua Ressurreição? Afinal, quem é essa mulher adúltera? Não é Israel, que se prostituiu? Não é a Igreja, quando nos seus filhos pecadores, trai o Evangelho? Não somos nós, cada um de nós, com nossas infidelidades, covardias e incoerências? Todos pecadores, todos necessitados do perdão, todos perdoados e acolhidos por Aquele que não tem pecado! Pensemos no Senhor Jesus, naquela sua caridade, naquele seu amor, que o levou a entregar-se à morte no seu amor pelo mundo! Pensemos com o comovente pensamento de São Paulo. É um testemunho comovente de um amor apaixonado: “Considero tudo como perda diante da vantagem suprema que consiste em conhecer a Cristo Jesus, meu Senhor”. Conhecer a Cristo significa unir-se a ele, participar de sua experiência, de seu caminho, de seu destino... “Por ele eu perdi tudo. Considero tudo como lixo, para ganhar Cristo e ser encontrado unido a ele... experimentar a força da sua ressurreição, ficar em comunhão com os seus sofrimentos, tornando-me semelhante a ele na sua morte, para ver se alcanço a ressurreição dentre os mortos.” São palavras estupendas! Perder tudo por Cristo, perder-se em Cristo, tudo relativizar por Cristo e em relação a Cristo, ter na vida e fazer da vida uma única paixão: estar unido a Cristo no seu sofrimento e na sua ressurreição, completando em mim o que falta de suas dores e experimentando já agora - e um dia, de modo pleno -, o poder vitorioso da sua Ressurreição. O que São Paulo deseja? Viver na sua vida, na sua carne, nos seus dias, a Páscoa do Senhor. Deseja que seus sofrimentos e desafios estejam unidos aos de Cristo e sejam vividos em Cristo e no amor de Cristo para também experimentar na carne e na vida – na carne da vida! – a vitória de Cristo. Isto é conhecer Jesus Cristo! Não um conhecimento teórico, exterior, mas um conhecimento coração a coração, vida a vida, lágrima a lágrima, vitória a vitória! Este deve – deveria – ser o caminho normal de todo o cristão! Esta é a verdadeira ciência, que transcende qualquer outra ciência; esta, a verdadeira teologia, o verdadeiro conhecimento de nosso Senhor Jesus Cristo! Está próxima a Páscoa, a festa dos cristãos! Nestes dias santíssimos, unamo-nos intimamente ao Senhor Jesus Cristo, deixemos que o Santo Espírito reproduza em nós os seus sentimentos de total confiança no Pai e total entrega amorosa aos irmãos, à humanidade. Sigamos o exemplo do Apóstolo: “Uma coisa eu faço: esquecendo o que ficou para trás, eu me lanço para o que está à frente. Corro direto para a meta, rumo ao prêmio, que do alto, Deus me chama a receber em Cristo Jesus”. Cristo Jesus! Que nome tão doce, que consolo tão grande, que esperança tão certa, que prêmio tão imperecível. A ele – e só a ele – toda a glória e toda a honra! “Nós vos adoramos, Senhor Jesus Cristo, e vos bendizemos, porque pela vossa santa cruz remistes o mundo!” dom Henrique Soares da Costa |
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Estamos em pleno exílio babilônico e o profeta anônimo (Deutero-Isaías por volta do ano 550) procura reanimar as esperanças de retorno à Pátria. Ciro está conseguindo vitórias e mais vitórias sobre os caldeus. O profeta interpreta o fato à luz da fé. O Senhor, Criador, Redentor e Rei de Israel está se servindo do seu servo Ciro para libertar Israel (cf. vv. 14 - 15). Os vv. 16 - 17 são memórias das ações libertadoras de Javé. O v. 16 lembra a passagem pelo Mar Vermelho. O v. 17 alude à destruição do exército do faraó que perseguia os israelitas. O v. 18 curiosamente convida a esquecer o passado. Por quê? Porque o que Javé vai fazer agora é uma coisa nova, muito mais fantástica do que as maravilhas do Êxodo. É aqui no v. 19 e seguintes que o profeta reanima as esperanças dos exilados. Esta coisa nova já começou a acontecer. As conquistas de Ciro são um pré-anúncio. No Êxodo o deserto foi cruel e hostil ao povo. Javé vai abrir uma entrada no deserto e vai fazer correr rios no sertão. Diante dessas maravilhas em favor de Israel até os animais selvagens darão glória a Javé, pois dando água para fazer matar a sede do seu povo Javé favorece toda a criação, renovando a vida. O v. 21 profetiza também o louvor de Israel para com seu criador. As ações de Javé são imprevisíveis. Nesse sentido devemos rezar e alimentar nossas esperanças. Se Javé se serviu de Ciro, não poderia também servir-se do novo governo para restaurar nossas estradas, suscitar vida nas favelas, despertar esperanças para os excluídos? Como poderemos ser instrumentos nas mãos de Deus? 2º leitura - Fl 3,8 - 14 Poderíamos dividir a carta aos filipenses em três bilhetes que mais tarde foram apresentados pela comunidade como se fosse uma só carta. 1) 4,10 - 20 - Bilhete de agradecimento. 2) 1,1 - 3-1a + 4,2 - 7 + 4,21 - 23 - Exortações à unidade e notícias pessoais. 3) 3,1b - 4,1 + 4,8 - 9 - ataques aos falsos doutores. Nosso texto, portanto faz parte do terceiro bilhete. Havia um grupo de cristãos que vinham do judaísmo e queria judaizar o cristianismo. Eles são chamados judaizantes. Eles queriam forçar a comunidade a seguir as leis judaicas. Paulo critica o rito da circuncisão na carne e dá um sentido espiritual à circuncisão. Os judeus-cristãos que ainda se preocupam com a circuncisão são comparados aos pagãos que eram chamados de cães. O ponto de referência da vida do cristão é Cristo e não a Lei de Moisés. Por isso Paulo descreve seu passado irrepreensível segundo a Lei. Mas afirma que, depois que ele conheceu Jesus Cristo, seu passado perdeu o sentido. Pode até ser considerado como uma perda. Nada é maior e mais importante que o conhecimento que agora ele possui de Jesus Cristo. Aliás, diante de Jesus Cristo tudo que ele conquistou antes pode ser considerado como lixo desprezível. O mais importante agora é ganhar Jesus Cristo, mas não com a justiça da Lei e sim pela justiça que vem de Deus através da fé em Jesus Cristo. Paulo agora, dizem os vv. 10 e 11, topa tudo por causa de Jesus Cristo, quer até mesmo enfrentar sofrimento e morte iguais aos de Jesus para alimentar sua esperança e também participar com Jesus da ressurreição dos mortos. Usando a imagem do atleta que corre para alcançar o prêmio, Paulo deixa claro que já foi conquistado por Cristo, mas a perfeição é uma meta que está no fim da corrida. O importante para Paulo não é gloriar-se das conquistas já alcançadas, mas continuar a correr. E para você o que é importante? Entrar em campo ou ser espectador ou, quem sabe, atleta aposentado? EVANGELHO - Jo 8,1 - 11 Jesus está de manhãzinha ensinando no Templo. O Templo se torna símbolo da exclusão de Jesus e de todos os excluídos da sociedade e da religião judaica. Para excluir Jesus os senhores do Templo (fariseus e doutores da lei) condenam uma adúltera que pelo adultério deveria ser excluída, juntamente com o adúltero, não somente da religião, mas até mesmo da vida através de pedradas. Era a Lei. Eles queriam saber a opinião de Jesus (v. 5). Mas para eles a adúltera já está condenada. Eles queriam servir-se dela para condenar também a Jesus (v. 6). Diante da pergunta Jesus se inclina e escreve com o dedo no chão. Depois Jesus se ergue e com voz de quem conhece profundamente as fraquezas humanas, com o coração de quem veio para acolher, perdoar e não condenar, Jesus diz solenemente: "Quem dentre vós não tiver pecado, atire a primeira pedra". Esta frase pulveriza os corações de todos aqueles que ainda não vivem estas sentenças lapidares de Jesus: "Não julgueis e não sereis julgados; não condeneis e não sereis condenados, perdoai e sereis perdoados" (Lc. 6,37). Os pretensos juízes da excluída são incluídos na categoria de réus. E devagar foram saindo conscientes de seus pecados. O texto ainda precisa que os mais velhos saíam primeiro. Sozinhos, Jesus e a mulher começam o diálogo libertador. Jesus se levanta e pergunta: "Mulher, onde estão eles? Ninguém te condenou?". A esta pergunta a mulher provavelmente ergue a cabeça e não vendo ninguém responde admirada: "Ninguém, Senhor!". O círculo opressor que oprimia e queria condenar havia-se desfeito. Entretanto restava diante da mulher uma única pessoa que isenta de todo o pecado poderia condená-la. Só que Jesus ficou não para condenar, mas para absolver, resgatar e salvar. É o coração do Pai misericordioso que fala por Jesus: "Eu também não te condeno. Vai, e de agora em diante não peques mais". Jesus condena o pecado, não o pecador. Como o mundo seria diferente se aprendêssemos a lição de Jesus? dom Emanuel Messias de Oliveira |
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seja o primeiro a atirar-lhe uma pedra. O Evangelho de hoje é um texto relativamente complexo. O texto não se encontrava originalmente no evangelho de João, mas circulou "isolado". De fato, o vocabulário, o estilo e alguns temas são mais apropriados para o evangelho de Lucas. É provável que o texto não tenha sido incorporado nos primeiros tempos e andasse errante devido a uma posição muito rígida da Igreja diante do adultério, que aqui parece mitigada. Jesus é o doador do perdão gratuito de Deus. A mulher é casada ou comprometida, já que não se considerava adultério que um casado adulterasse com uma mulher solteira; a mulher é propriedade do esposo, porém ele podia mover-se com liberdade. Um dúvida é se era casada ou "comprometida", já que a Mishna estabelece estrangulamento para a casada adúltera e apedrejamento para a comprometida; porém, não parece que as leis de Mishna se aplicassem já no NT, e sim mais tarde. A armadilha poderia ser, se Jesus dissesse que deveria ser apedrejada, estaria violando uma proibição romana, se dissesse que não, violaria um mandato da lei de Moisés. Contudo, é mais provável que a cilada fosse: ou não é obediente à lei, ou não é tão misericordioso como diz. O esquema, de qualquer maneira, é semelhante ao da moeda do imposto de César (Mc. 12,13 - 17). A pergunta a respeito sobre o que Jesus escreve também é complexa. O mais simples é pensar que sua atitude é desvencilhar-se de um ardil que queriam aplicar-lhe, porém, alguns crêem que Jesus escreve o texto de Jr. 17,13: "Esperança de Israel, Javé: todos os que te abandonam serão envergonhados, e os que se apartam de ti, na terra serão escritos, por ter abandonado o manancial de águas Javé!". Outros pensam que a insistência em "inclinar" (vv. 6.8) e "incorporar-se" (vv. 7.10), alude simbolicamente a Jesus que se inclina sobre nossa natureza caída pelo pecado para levantar-nos, porém não parece que se faça referencia a isso, já que Jesus se inclina para escrever na terra e não sobre a mulher. Muitas destas leituras, por engenhosas que possam ser, esquecem que Jesus escreve duas vezes, por isso dificilmente se alude a um texto particular. Pessoalmente parece a leitura mais simples é que há um sinal, uma ligeira intenção, de não querer imiscuir-se em uma armadilha. Quando alguém é acusado de morte, as testemunhas são responsáveis em atirar a primeira pedra, com isso ficam comprometidos com essa morte (Lv. 24,10 - 16; Dt. 17,2 - 7); é uma nova maneira de garantir que a testemunha seja verdadeira e não carregue com sangue inocente as costas cujo clamor seria escutado por Deus. A frase "o que não tiver pecados..." pode prestar-se a mal entendidos, como por exemplo rejeitar qualquer capacidade judicial, ou ser libertinos com qualquer tipo de pecado. É preciso notar que, seja qual for a situação, a mulher não está ali porque preocupe seu pecado, mas porque ela é um motivo ou pretexto para armar uma cilada a Jesus. A mulher não interessa. Uma vez que Jesus fica a sós com a mulher, agora sim se dedica a ela; até agora Jesus estava cara a cara com os acusadores. Que a mulher seja culpada não cabe dúvida, e não é tema em questão (não há uma suspeita de falso testemunho, como é o caso de Susana, em Dn. 13), Jesus mesmo sabe que pecou e a convida a não "voltar a pecar". A mulher estava preparada, ao menos narrativamente, para a morte, porém Jesus a despede viva. Propriamente, Jesus não a perdoa, porém não a condena, que é o que estava em jogo no relato: ele veio para salvar e não para condenar. É notável como Jesus encarna a atitude de rejeição ao pecado e amor ao pecador. Isto foi magistralmente expresso por Agostinho que diz, ao ficarem sozinhos Jesus e a mulher: "Somente ficaram os dois: a miserável e a misericórdia". Como não conhecemos o contexto deste relato, é que acrescido ao evangelho, não sabemos as razões pelas quais querem armar uma cilada a Jesus. Porém, dada a semelhança com os acontecimentos finais da vida de Jesus, segundo nos contam os Sinóticos, podemos pensar que o drama já se desencadeava e se pretende por todos os meios encontrar argumentos para um julgamento que já está decidido. Neste sentido, o texto é semelhante ao da moeda do imposto de César. Tampouco é fácil saber exatamente qual é a cilada, porém parece uma tentativa de colocar Jesus na disjuntiva entre ser fiel à lei de Moisés e consentir em que a adúltera seja apedrejada, com isso sua insistência na misericórdia se revela "hipócrita", ou insistir na misericórdia e com isso se manifesta infiel ao mandato de Moisés. Não procuram por Jesus por confiar em seu bom critério ou porque reconhecesse autoridade em sua palavra, ou porque ele pudesse decidir a sorte da mulher. Na realidade, neste drama nem Jesus nem a mulher são importantes. Ambos são rejeitados pelos escribas e fariseus. Jesus, porque buscam armar-lhe uma cilada, a mulher porque é uma simples motivação para esse objetivo. Por isso, porque sua palavra na realidade não importa é que o Senhor se inclina para escrever na terra. Manifesta seu desinteresse pela questão, como eles também a manifestam. Somos tão prontos a julgar e condenar. É tão fácil neste caso! Nada menos que uma adúltera, descoberta em plena infidelidade. É preciso aplicar-lhe o rigor da lei: deve ser apedrejada! De passagem, veremos o quanto de fiel é Jesus à lei. A atitude do Senhor não parece ser muito atenta; quase parece indiferente... Julgar e condenar, em nossas atitudes, muitas vezes dão as mãos, se parecem. Os homens já condenaram, falta que Jesus fale, para que seja condenada também por ele. Sexo? Horror! Para tantos, porém, continua sendo o mais grave e horroroso dos pecados. É certo que muitas vezes nos encontramos com atitudes ou comentários que parecem que o único pecado existente é o pecado sexual. A inveja, a ambição, a falta de solidariedade, a injustiça, a soberba, e tantos outros, parecem não existir na "lista". O sexo é "o" pecado. Essa é, também, a atitude dos acusadores da mulher: foi descoberta em pleno pecado, deve ser apedrejada! "Muito bem, o que não tem pecado, atire a primeira pedra". Casualmente, os primeiros em retirar-se são os anciãos, os que já não têm "esse" pecado. Ainda hoje temos a tendência de julgar e até condenar. Seria quase uma lista sem fim os pecados dos nossos dias, do nosso presente; seria um alista interminável: basta ler quase cada página dos jornais... Quem considera pecado suas opções políticas cujos interesses são voltados somente para si e não estão voltados para a causa dos pobres? Quem considera pecado sua falta de solidariedade com os marginalizados de seu bairro ou região? Quem considera pecado seu isolamento: "não se meta", ou sua falta de compromisso político para que os pecados desapareçam? E, nessa mesma linha: quem não considera um pecado atroz e gravíssimo uma mãe solteira, ou tudo que está relacionado com o sexo? Quem não considera verdadeiramente intolerável toda proximidade com prostitutas...? O texto lido foi comentado por monsenhor Romero em sua célebre última homilia: "Não encontro figura mais bonita que Jesus salvando a dignidade humana, este Jesus que não tem pecado, frente a frente com uma mulher adultera. Fortaleza, porém ternura: a dignidade humana acima de tudo. A Jesus não lhe importavam os detalhes legalistas. Ele ama, veio precisamente para salvar os pecadores. As fontes (do) pecado social (estão) no coração do homem... ninguém quer carregar a culpa mas todos são responsáveis da onda de crimes e violência... a salvação começa arrancando do pecado a cada homem". "Não peques mais". www.claretianos.com.br |
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A liturgia de hoje nos lembra que a Quaresma não é um tempo para atirar pedras, mas para construir a fraternidade. O problema do mal e do pecado não se resolve com o castigo e a intolerância, mas pelo amor e a misericórdia. Na 1ª leitura, Isaías anuncia a libertação do exílio e o retorno a Israel como um novo Êxodo para a Terra Prometida. (Is. 43,16 - 21) Esse "caminho" é imagem de outra libertação, que Deus nos convida a fazer na Quaresma e que também nos levará à Terra Prometida, onde corre a vida nova. - Quais são as escravidões que impedem, hoje, a liberdade e a vida? - O que ainda nos mantém alienados, presos e escravos? Na 2ª leitura são Paulo afirma que a única coisa que lhe interessa é conhecer Jesus Cristo. Tudo o resto é lixo. (Fl. 3,8 - 14) Qual é o lixo que me impede de nascer com Cristo para a vida nova? No Evangelho temos uma comovente cena da vida de Jesus, diante de uma mulher pecadora (Jo. 8,1 - 11) No domingo passado, com a parábola do Filho pródigo, Jesus nos mostrou o amor misericordioso de Deus. Hoje, Ele dá o exemplo, passando das palavras aos fatos... - Jesus ensinava no templo. - Os escribas fiscalizavam o Mestre, buscando pretextos para acusá-lo. Trouxeram uma mulher surpreendida em pecado de adultério e segundo a lei de Moisés tais pessoas deviam ser apedrejadas. Aproveitaram a situação, para deixar o Cristo numa situação embaraçosa: "Mestre, que vamos fazer dessa mulher, perdoá-la ou apedrejá-la, como manda a nossa lei?" - Para os escribas e fariseus, era uma oportunidade para testar a fidelidade de Jesus às exigências da Lei. - Para Jesus, foi uma oportunidade para revelar a atitude de Deus frente ao pecado e ao pecador. - Jesus sabia que era apenas um pretexto para incriminá-lo, por isso não respondeu e ficou rabiscando no chão. Diante da insistência dos acusadores, ele se levantou e os desafiou: "Quem não tiver pecado, atire a primeira pedra..." - E, inclinando-se de novo, continuou a escrever no chão. Não sabemos o que. Segundo uma tradição, Jesus escrevia os pecados de cada um deles. E então aqueles "cumpridores" da lei, envergonhados, foram saindo um a um, começando pelos mais velhos. Só ficaram no pátio do templo a mulher, os discípulos e ele, Jesus. Então Jesus perguntou: "Mulher, ninguém te condenou? Nem eu te condeno... Vai e não peques mais..." A mulher não tinha manifestado nenhum sinal de arrependimento. Assim mesmo, Jesus a convida a seguir um caminho novo de liberdade e paz. Jesus não aprova o pecado, mas não condena a pecadora. Mostra que o importante é a conversão das pessoas, não sua condenação. E ainda hoje, no sacramento da reconciliação, Deus continua nos dizendo: "Teus pecados estão perdoados. Vai em paz e não peques mais." No episódio, Jesus mostra: + Uma imagem de Deus: o rosto misericordioso de Deus. Um Deus que é mais misericórdia, do que justiça. Não quer a morte do pecador, mas a sua plena libertação. A força de Deus não está no castigo, mas no Amor. + Um "NÃO" à hipocrisia fiscalizadora dos escribas, de ontem e de hoje. Ainda hoje a intransigência fala mais forte do que o amor. Mata-se, oprime-se, escraviza-se em nome de Deus. Todos somos pecadores e não temos o direito de condenar, de nos tornar fiscais dos outros. - Nessa caminhada quaresmal, Deus nos convida a despir as roupagens da hipocrisia para vestir as do amor. + Um apelo: não devemos discriminar e condenar a gente caída à beira do caminho. Eles não precisam de juizes... mas de salvadores... * Qual é a nossa atitude, diante dessas pessoas? - A de Cristo? Ele teve "compaixão e compreensão" Ele não aprovou o pecado... mas não condenou a pessoa... "Eu também não te condeno... Vai e não peques mais...” - Ou a dos escribas? (com pedras nas mãos... ou melhor na língua...) * Em Nossas comunidades, há ainda hoje pessoas, que continuam atirando pedras? - Quais seriam as pedras, que ainda hoje continuamos atirando, machucando... e às vezes até destruindo o bom nome delas? - E o que Cristo poderia estar rabiscando hoje, de nós, no chão? Poderíamos enfrentar o desafio de Cristo: "Quem não tiver pecado pode atirar a primeira pedra?" padre Antônio Geraldo Dalla Costa |
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O cenário do Evangelho de hoje é o Templo de Jerusalém, por ocasião da festa das Tendas. Jesus está em Jerusalém e se movimenta entre o monte das Oliveiras e o pátio do Templo. Ambos são lugares simbólicos. Enquanto o monte das Oliveiras evoca o lugar onde Jesus assumiu corajosamente o projeto do Pai, o Templo lembra concentração do poder religioso e a rejeição, por parte das lideranças religiosas, ao projeto da Boa-Nova de Jesus. Na festa das Tendas, o Templo era iluminado por grandes candelabros. Essa celebração era também conhecida como a festa da luz. Jesus, ao amanhecer, já estava no Templo ensinando. "Todo o povo ia a seu encontro". Jesus é a verdadeira luz, o novo sol que, com sua palavra e ação, ilumina as trevas da sociedade e apressa a chegada do dia da libertação da humanidade. Mas, eis que o novo amanhecer é turvado pelas nuvens escuras da trama dos doutores da Lei e dos fariseus que ardilosamente planejam apanhar Jesus numa contradição, a fim de acusá-lo. A cena da mulher adúltera, pega em flagrante, já é conhecida. Os doutores da Lei e os fariseus, de ontem como os de hoje, não cessam de utilizá-la como tocaia para suas vítimas. Eles se consideram superiores à Lei e se servem do aparato legal para legislar em proveito próprio e em prejuízo dos outros. Consideram que o pecado alheio é sempre maior do que o deles. "Mestre essa mulher foi pega em flagrante cometendo adultério [ ... ]. E tu, o que dizes?". Em vez de condená-la, Jesus provoca o julgamento: quem decide segui-lo escolhe a vida; e quem o recusa provoca a própria morte. Diante da pergunta dos doutores da Lei e dos fariseus, parece que Jesus não quer responder. Num gesto lento, ele se inclina e começa escrever com o dedo na terra uma espécie de sentença. Diante da insistência dos acusadores, Jesus levantou-se e disse: "Quem de vocês não tiver pecado atire a primeira pedra". Os papéis se inverteram. Os que se arrogavam no direito de julgar passam da condição de juízes à de réus. Jesus, que veio não para condenar mas para salvar, implode, em pleno Templo, o sistema opressor incapaz de salvar. "Eles foram, saindo um a um, começando pelos mais velhos". A antiga realidade sai de cena para dar lugar à nova ordem inaugurada pelo Filho de Deus. "A mulher continuava ali no meio", mas seus acusadores, com seus propósitos justiceiros, haviam desaparecido. O clima inquisidor cede espaço ao diálogo como oferta de salvação. O Mestre, sem dúvidas, não aprovou o pecado. Em seu entender, não se extirpa o mal eliminando pessoas pecadoras, mas oferecendo oportunidades de vida nova e plena. "Eu também não te condeno. Podes ir, e não peques mais". Jesus tem uma atitude nova diante da pessoa que erra: age com misericórdia. Diferentemente dos doutores da Lei e os fariseus que aplicam a Lei de forma cega, punindo e castigando, Jesus mostra que o importante é a conversão das pessoas, não sua condenação. frei Faustino Paludo, OFM cap. |
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A liturgia deste domingo nos convida mais uma vez a repensarmos as nossas ações. A CFE 2010 nos desafia a revermos a nossa vida a luz do convite:”Não podeis servir a Deus e ao dinheiro!” Também no Evangelho de João, o fato da adultera, nos faz repensar as nossas atitudes, se ligadas aos nossos interesses, egoísmo, rígida observância da lei (=dinheiro) ou ligadas ao agir misericordioso de Deus, que olha em primeiro lugar a pessoa e suas fragilidades. Jesus nos ensina o caminho de seu ministério, um caminho que se concretiza com base na justiça e não pela condenação baseada em alguma moralidade. Por isso, questiona e faz refletir sobre seus ensinamentos. Diz aos seus conterrâneos, que trouxeram uma mulher pega em adultério e que queriam assim ter motivo para acusá-lo, mas a todos nós também: “Quem não tiver pecado seja o primeiro a julgar e a atirar uma pedra”. Ou seja, o Senhor nos convida a acolher o amor e misericórdia de Deus. E essa perpassa qualquer moralidade ou falsa doutrina baseada apenas na lei. Por isso, sente-se livre diante da mulher adúltera e lhe diz: “Ninguém te condenou?” Ela respondeu: “Ninguém, Senhor”. Então Jesus lhe disse: “Eu também não te condeno! Podes ir e de agora em diante não peques mais”. Ao ouvirmos isso, fica sempre uma perguntinha atrás da orelha: será que Jesus admite o pecado? A infidelidade? Vejamos irmãos e irmãs, que somente quem é livre podes dar liberdade ao outro/a como Jesus o fez. É na liberdade que se aprende e apreende os caminhos do amor. Jesus chama atenção para o pecado e não para a pecadora. Eliminar os que erram ou transgrediram a lei, não faz com que a nossa sociedade (o mundo) se tornem melhor, mais justas e solidárias. É preciso mexer na raiz da causa, assim como fez Jesus. Numa sociedade, marcada pela desigualdade religiosa, social e econômica como a sua, não bastava apenas matar a mulher adúltera, por isso, chama atenção de quem queria apedrejá-la. Jesus entra na situação concreta e histórica da mulher, situação sobre a qual pesa a herança do pecado. Esta herança exprime-se, entre outras coisas, no costume que discrimina a mulher em favor do homem e está enraizada também dentro dela. No fim Jesus lhe diz: «não tornes a pecar»; mas, primeiro ele desperta a consciência do pecado nos homens... Jesus parece dizer aos acusadores: esta mulher, com todo o seu pecado, não é talvez também, e antes de tudo, uma confirmação das vossas transgressões, da vossa injustiça «masculina», dos vossos abusos? O pecado está na discriminação, no preconceito de quem se julga melhor dos que outros. Jesus nos convida a reconhecer a misericórdia de Deus, que cria o homem e a mulher para acolher em suas vidas o amor. Por isso, nos diz a primeira leitura retirada do Livro de Isaías: “Não relembreis coisas passadas, não olheis para fatos antigos. Eis que eu farei coisas novas...”. Pois sempre é tempo de lançar-se para o futuro e ter esperança de dias melhores. E para aqueles e aquelas que têm como modelo o Cristo, o Senhor ressuscitado nos lembra São Paulo, na segunda leitura: “Irmãos, eu não julgo já tê-lo alcançado. Uma coisa, porém, eu faço: esquecendo o que fica para trás, eu me lanço para o que está na frente. Corro direto para meta, rumo ao prêmio que, do alto, Deus me chama a receber em Cristo Jesus.” Portanto, não percamos tempo com coisas pequenas, em Jesus se encontra o melhor dos tesouros, por Ele e com Ele é que podemos conquistar e fazer surgir coisas novas baseada no amor e na justiça. Podemos tornar viva e atual a CFE 2010, também nas nossas relações em família e em comunidade, aprendendo a não colocar o nosso ponto de vista e os nossos interesses acima do perdão e da misericórdia, como Jesus nos ensina. Desta maneira, reunidos em torno da mesa eucarística, glorifiquemos o Senhor que nos criou e nos convida a cantar seus louvores. Tânia Regina da Silva |
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No Evangelho deste domingo, nos deparamos com Jesus que, voltando do monte das Oliveiras, ensina no templo. O povo está em volta dele, escutando com atenção seus ensinamentos. Desta vez, os fariseus e os mestres da lei levam até ele uma mulher que foi pega flagrante adultério. A Jesus é posta verdadeiramente uma uma armadilha extraordinária. Uma mulher (não tem nome, os acusadores não a conhecem, é só uma meretriz) que foi pega no flagra. Quanto ao homem que estava com ela, cadê? Nem se fala obviamente, pois se ainda hoje o machismo é forte, naquele tempo era absoluto. A mulher é levada perante um Rabi (Mestre) para que ele se pronuncie. Moisés havia prescrito na lei que mulheres como “aquela” deviam ser apedrejadas, de modo que ficasse claro (principalmente para as mulheres) que é melhor permanecerem fiéis. E aí? Jesus, o que devemos fazer? Qual será a reação de Jesus? É o Sinédrio que a condena à morte, quando a pena de morte é reservada aos romanos. Jesus se declarará contra o opressor? Ou reconhecerá o juízo ilegítimo do Sinédrio? Foi Moisés quem prescreveu: será que Jesus ousará contradizer uma lei divina? Que cilada armaram contra Jesus! Que outra coisa Jesus poderá fazer a não ser concordar com seus adversários? O mal cometido deve ser eliminado! A mulher deve ser apedrejada. Os escribas conhecem bem a lei e pedem a Jesus para aplicá-la. É uma armadilha bem arquitetada: será Jesus legalista? Ou arriscará contradizer Moisés? Tudo é tramado em torno do que Jesus fará com relação aos pecadores, ao povão que estava em volta dele. Se deixar a mulher ser apedrejada, é sinal de que aprova a lei e o comportamento dos seus adversários contra os pecadores; e assim, seu comportamento de desprezo seria desmascarado diante de todo o povo. Mas, nesse caso, onde ficaria a imagem do Pai bondoso que sai ao encontro do filho perdido? Se, pelo contrário, ele não aprovar o querer dos fariseus e acolher a pecadora, estará descumprindo uma lei que é claríssima e também nesse caso, diante do povo se mostraria como alguém que infringe a lei. Todos esperam para ver como Jesus se sairá desta, pois, a pergunta o obriga a tomar uma posição. Temos uma ligeira impressão de que ele parece não saber decidir. Mas com a maior calma do mundo, ele ganha tempo, riscando com o dedo na terra: são segundos eternos de impaciente silêncio. Ele parece não estar nem aí para seus opositores, não lhes dá nenhuma resposta. Estes se encontram muito seguros de si mesmos, enquanto a mulher deveria se encontrar num pavor terrível e o povo muito tenso. Aquele silêncio é o silêncio da espera porque está para surgir uma coisa nova, como nos afirma a primeira leitura: “não relembreis coisas passadas, não olheis para fatos antigos. Eis que farei coisas novas e que já estão surgindo”. Se como insistiam, eis que Jesus se levanta e com sua inteligência impressionante e movido pelo amor que sempre pregava, rompe o silêncio e a sua palavra é como uma espada que se finca com profundidade na consciência, golpeando todo tipo de hipocrisia: “Quem dentre vós não tiver pecado seja o primeiro a atirar-lhe uma pedra”. Era como se perguntasse: como você pode condenar esta mulher enquanto você também é adúltero? Porque todo pecado é um adultério aos olhos de Deus. Os acusadores, aqueles presumidos, queriam negar à adúltera a possibilidade de uma mudança. Com a chuva de pedras que pretendiam realizar, queriam sepultar não só o pecado, mas também a pessoa, o seu passado e o seu futuro. No fundo, Jesus não responde diretamente a pergunta deles. Chama a atenção para um fato importante por eles esquecido: sobre a verdadeira situação deles diante de Deus. Deu um tempo pra eles pensarem, voltando a desenhar com o dedo no chão. O mais interessante aparece aqui. Os fariseus, que nunca aceitam o que Jesus diz, dessa vez se tocam. Nenhum dos que estavam lá teve a coragem de apedrejar a mulher. Se deram conta que todos têm pecado e devem cuidar de superar os seus. Quando Jesus se levanta, percebe que todos foram embora. Só estão ele e a mulher. Também Jesus não condenou a mulher, mas exortou: “de agora em diante não peques mais”. Jesus a absolve, mas recorda-lhe sua nova tarefa. A lei escrita na pedra com as próprias palavras de Deus, incisas a fogo e entregues a Moisés foi traída, servida, submissa a costumes e tradições só humanas e mesquinhas. Sim, esta mulher traiu o marido. Mas o povo de Israel traiu o espírito autêntico da lei. O Filho de Deus agora reescreve sobre a pedra a lei que os homens adaptaram para eles. Todos se calam, agora. É como se Jesus nos dissesse: você têm razão: fulano errou. Faz bem matá-lo, há que ser inflexível para salvar a lei. Você nunca errou, você é perfeito. Parabéns. Portanto, seja o primeiro a lançar a pedra. Jesus faz de conta que fica perplexo. Oxe, onde estão eles? Ele, o único sem pecado, o único que poderia com razão jogar a pedra, não o faz. Pede somente à mulher que recupere a dignidade, de se amar mais. Jesus não justifica, nem condena, convida a elevar o olhar, a ir além, a olhar com o coração a fragilidade do outro e descobrir-se refletindo ela própria. Não, Deus não castiga. A sociedade quer condenar. Todos nos querem condenar, julgar, Deus não. Deus ama e basta. E essa mulher é liberta, salva do apedrejamento, salva agora da sua fragilidade. Não peques mais, admoesta Jesus. A “vida nova” é o tema das três leituras deste domingo. Já o anunciava o profeta Isaías aos exilados da Babilônia prevendo o retorno a Pátria. Para Paulo, a vida nova é uma pessoa, Jesus Cristo, o único tesouro, diante de quem todo o resto é perda e lixo. É Ele a única meta a conquistar correndo com todo esforço. Paulo não sente tal empenho como um peso, mas como uma resposta de amor a Cristo que o conquistou. O gesto bondoso e surpreendente de Jesus para com aquela mulher provoca uma mudança total da situação: antes de tudo, o silêncio desarmante de Jesus, depois aqueles sinais historicamente indecifráveis por terra, e enfim o desafio a lançar a primeira pedra, desmascaram toda a hipocrisia daqueles acusadores legalistas de coração de pedra. Ao final, a mulher e Jesus ficam sozinhos: “a miséria e a misericórdia”, como comenta Santo Agostinho. Jesus fala à mulher: ninguém tinha falado com ela, tinham-na trazido à força com acusações e empurrões. Jesus se dirige a ela não chamando-a com nomes que a desprezam, mas com respeito, reconhecendo a sua dignidade; chama-a de “mulher”. Como Ele costumava chamar sua mãe (Jo 2,4;19,26). Jesus distingue entre ela – a mulher frágil – e o seu erro, que ele porém não aprova: o adultério é e permanece um pecado (Mt 5,32), também no caso de um desejo desonesto (Mt 5,28). Jesus condena o pecado, mas nunca o pecador. Não fica parado no passado, mas reenvia para a vida, reabre o futuro. O núcleo do relato não é o pecado, mas o coração de Deus que ama e quer que nós vivamos. É esta a imagem de Deus – amor que Jesus quer passar: que a mulher experimente que Deus a ama assim como ela é. Deste modo, a mulher se sentindo respeitada, amada, protegida, está em grau de acolher o convite de Jesus de se esforçar para não mais pecar. Deus salva amando. O trecho evangélico constitui uma intensa página de metodologia missionária para o anúncio, a conversão, a educação para a fé e para os valores da vida. O amor gera e regenera a pessoa, torna-a livre; Jesus educa ao amor vivido na liberdade e na gratuidade. Só nestas condições é que conseguiremos entender porque devemos deixar cair das mãos as pedras que queríamos lançar sobre os outros. Que possamos reconhecer a nossa hipocrisia e nos curarmos dela. Ninguém é perfeito, mas lembremos sempre as palavras de Paulo: esquecendo o que fica para trás, eu me lanço para o que está na frente. Corro direto para a meta, rumo ao prêmio que, do alto, Deus me chama a receber em Cristo Jesus.
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Esta expressão é do Evangelho desse domingo: às palavras de Jesus, os escribas e os fariseus “sentindo-se acusados pela própria consciência” retiraram-se (Jô. 8,9). Está claro que tanto a mulher quanto aqueles zelosos custódios da lei de Moisés sentiam-se acusados, quiçá também se viam acusados todos aqueles que vieram para escutar a Jesus e inclusive o homem que cometeu adultério com aquela mulher. A consciência da mulher adúltera a acusava; talvez, no começo, menos por ter pecado contra Deus que pelo fato de ter sido flagrada. Ao encontrar-se com Jesus, aquela mulher foi mudando de atitude: tendo a Jesus diante de si, escrevendo no chão algo desconhecido, numa atitude paciente e acolhedora, a mulher adúltera foi percebendo que estava diante de alguém que a compreendia de verdade. A consciência dos fariseus e escribas também não os deixava em paz, eles tinham a Jesus diante de si, também contavam com a compreensão do Senhor e, no entanto, não se arrependeram. Sentiram-se acusados sem arrependimento. De fato, existem momentos em que podemos sentir-nos acusados sem nenhuma referência a Deus, simplesmente por orgulho e amor próprio. Essa “acusação da consciência” não começa nem termina em Deus. Aproximemo-nos cada vez mais do “do trono da graça, a fim de alcançar misericórdia e achar graça de um auxílio oportuno” (Hb. 4,16), pois faltam poucos dias para que celebremos a Páscoa do Senhor, o acontecimento central da história da humanidade. Nesses dias, estamos procurando receber a graça e a misericórdia no sacramento da confissão. Daí a importância de que nos sintamos acusados no mais íntimo do nosso ser; que a nossa consciência, esse sacrário de Deus donde ele nos fala, se sinta sacudida nesses dias. Não tenho dúvida que o irmão que tem esse texto diante dos olhos nesse exato momento sabe o que é o exame de consciência. Caso me permita, vamos falar um pouco mais dessa prática cristã tão antiga e tão atual. Ao examinar-nos todos os dias, deveríamos pedir ao Senhor que nos ajude a ver as nossas atitudes como ele as vê: os nossos pensamentos, as nossas palavras, os movimentos mais íntimos do nosso coração e todas as nossas ações. Desta maneira, a acusação que a consciência provoca em nós diante duma ação má, começará e terminará em Deus provocando uma espécie de tristeza salutar: “a tristeza segundo Deus produz um arrependimento salutar de que ninguém se arrepende, enquanto a tristeza do mundo produz a morte” (2 Cor. 7,10). O exame de consciência, especialmente para os que começam com essa prática piedosa, poderia reduzir-se a três perguntas. A primeira: o que eu fiz de bom no dia de hoje? Essa pergunta ajuda não só a dar glória a Deus por todo o bem que ele nos fez, mas também a ser otimistas e não ficar pensando que tudo vai mal. Não é falta de humildade reconhecer os nossos talentos e dons se esse reconhecimento vai acompanhado de ação de graças: obrigado, Senhor! Segunda pergunta: o que eu fiz de mal? Neste momento veremos, com calma e dor de amor, que ofendemos o nosso Deus que é amor, que somos ingratos, que pecamos: perdão, Senhor! A terceira pergunta inclui o desejo de alcançar algumas metas na vida espiritual: o que eu posso fazer melhor? Muitas coisas, mas é preciso especificar: amanhã não xingarei, terei mais paciência com o meu patrão, não ficarei olhando as mulheres que passam pela rua, não darei “patadas” nos outros etc. Peça: ajuda-me, Senhor! Termine com um ato de contrição: “Senhor Jesus, Filho de Deus, tende piedade de mim, que sou um pecador.” Amanhã, será um dia melhor. Ah, se você percebeu que precisa se confessar, não perca tempo: peça hoje mesmo o sacramento da confissão. padre Françoá Rodrigues Figueiredo Costa |
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Mas Isaías adverte que isso foi pouco e que, além disso, não devem olhar ter os olhos fixos no passado, mas para as novas obras de Deus. As civilizações humanas são as que, mais cedo ou mais tarde, quando chega o tempo da sua decadência, não podem senão limitar-se a olhar as grandes conquistas de outros tempos, pois as forças e energias humanas terminam por se cansarem. Também é natural que os homens, ao chegarem ao fim das suas vidas, tendam inexoravelmente a deixar que os seus pensamentos sejam prisioneiros do seu passado. Mas Deus revoluciona esta lógica. É o Deus da vida, é o Deus que nunca envelhece e que, por isso, confere a quem o ama uma força inesgotável de esperança. “Olhai”, exclama Isaías, “vou realizar um coisa nova, que já começa a aparecer; não a vedes?” E qual é essa realidade nova? É um caminho, não já através do mar, mas através do deserto, ao longo do qual Deus vai “fazer brotar rios na terra árida”. Para matar a sede. Passar através do mar simbolizava o ser salvado da morte. Os rios de água simbolizam já a vida. Se Deus os tinha salvado da morte, antes, agora pretende dar-lhes a vida. Em que sentido? O Evangelho pode ajudar-nos. Apresentam uma mulher pecadora a Jesus, alguém que foi surpreendido em flagrante delito de adultério e perguntam ao Senhor se a devem apedrejar, seguindo assim a lei de Moisés. Como é possível que a lei de Moisés seja tão dura? Cristo revela-nos a razão profunda noutra passagem do Evangelho, em que se discute se o marido deve ou não repudiar a mulher em certas ocasiões. Cristo responde que não, dado que no início não era assim, mas que, a causa da dureza dos corações, Moisés teve de permitir esta realidade. É esta também, no fundo, a razão pela qual práticas, como o apedrejamento dos pecadores, tinham sido permitidas na lei antiga. Sim, os judeus escaparam da morte e da escravidão do Egito, mas não totalmente, pois a morte ainda tem o seu poder, a causa da dureza do coração. É por esta razão que levam a Cristo a pecadora. Não lhes importa expor esta mulher a uma morte tão selvagem: conta somente o seu propósito de surpreender Jesus numa falta à lei. Essa mulher não é mais que um objeto em suas mãos. Isso é o que significa ter um coração duro. É um coração hermeticamente fechado, no qual o próximo não vive, não tem realmente um lugar, e está reduzido ao estado de coisa. Cristo mostra bem qual é a verdadeira origem desta lei, e também o motivo profundo pelo qual o seu coração está duro, quando lhes diz que todo aquele que estiver sem pecado mande a primeira pedra. Esta resposta não é simplesmente uma astúcia de Cristo, para salvar-se de uma situação delicada. Diz-lhes implicitamente aos judeus algo de uma importância fundamental: tu que pecaste tantas vezes, não perdeste o direito à paciência de um Deus, que uma e outra vez espera a tua conversão, e agora não és capaz de ser paciente com esta mulher? A verdadeira lei, a única lei, é atuar com os outros como Deus atua com os homens. Então vemos que esta terrível incapacidade de reconhecer o amor de Deus, o qual é paciente e perdoa aos homens, é a essência da dureza de coração e a razão fundamental pela qual nascem as obras da morte. Quem se sabe amado por Deus, ama. Quem sabe que o fundamento mesmo do universo, de tudo o que existe, me ama, torna-se capaz de amar todos e todas as coisas. E por isso mesmo, quem começa a ver Deus como uma realidade impessoal, uma espécie de energia, está atentando no ponto mais fundamental contra a sua capacidade de amar, de perdoar, de ir sinceramente ao encontro dos outros. Mas voltemos ao texto de Isaías, que nos recorda que a grande obra de Deus será fazer brotar rios de água viva das terras áridas. Perguntávamo-nos em que sentido agora o Senhor pensava dar a vida. Ora bem, sabemos que, na Bíblia, os rios de água são o símbolo do Espírito Santo. Então, o novo grande milagre do Senhor, maior que o anterior, milagre de dar a vida ao povo, não significa outra coisa, que encher do seu amor os corações duros, os corações áridos. Mas sublinhemos bem isso: Deus não quer encher de amor os corações do homem, quer enchê-los do seu amor. Para que o homem deixe de amar fragilmente e finalmente comece a amar divinamente, a amar realmente como filho de Deus. Ou melhor ainda: para que o Espírito Santo ame nele. Quando Cristo murmurará na cruz “tenho sede”, não se referirá a outra coisa senão isso: tem sede de contemplar os corações humanos repletos dessa água viva. Mas de onde vem essa água viva? Qual é a única fonte da mesma para o homem? É Cristo, é somente o seu coração: “Mas ao chegarem a Jesus”, diz São João, “como o viram já morto, não lhe romperam as pernas, mas um dos soldados trespassou-lhe o lado com uma lança e naquele instante saiu sangue e água”. Mas em tudo isso existe um elemento importante de que nos recorda São Paulo e ao qual aludíamos ao início desta homilia. Para receber este dom da água viva em plenitude, devemos olhar para a frente e correr para a frente. O que Deus nos deu até agora é pouco comparado com o que ainda tem reservado. Mas atenção: subir ao encontro com Deus não é uma prova de alpinismo, em que o cansaço vai acumulando-se. Quem se vai aproximando de Deus, tem cada vez mais forças para subir e quem se vai afastando cada vez menos vontade de se acercar. Porquê? Porque as forças não vêm do homem, mas de Deus. No entanto, sempre existirá a tentação de parar, de se dar por satisfeito, de olhar para si e para as conquistas passadas. São Paulo seria talvez a pessoa com mais direito a ter uma atitude deste gênero. Ele que “trabalhou mais que todos”, como nos recorda a carta aos Gálatas. E no entanto, aí está a grandeza de alma deste homem: “não penso, irmãos, que já o tenha conseguido; só penso numa coisa, esquecendo o que fica para trás, lançar-me para a frente, continuar a correr para a meta, em vista do premio a que Deus, lá do alto, me chama em Cristo Jesus” Sim, não importa o que tenhamos feito no passado, seja isso bom ou até mesmo mau, como no caso da mulher pecadora. Deus espera-nos com os braços abertos. Todo um futuro se abre para a mulher pecadora, a qual segundo a justiça humana tinha perdido todo direito a um futuro. Rios de água viva hão de brotar do seu coração árido, se ela for fiel à chamada de Deus, rios que a sua vez hão de saciar a muitos. Que esta seja também a nossa santa ambição nesta vida. padre Antoine Coelho, LC |
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Na segunda leitura (Fl. 3,8 - 14) são Paulo fala da beleza e do encantamento do encontro com Cristo. Paulo, que sacrificou as tradições, a cultura, o sistema de vida que o ligavam ao seu povo, considerando tudo isto como “lixo para ganhar a Cristo” (Fl 3,8), anima os cristãos a renunciarem, com a mesma finalidade, a tudo o que não conduz ao Senhor, a tudo o que se opõe ao Senhor. Este é o caminho para se libertarem completamente do pecado e para se assemelharem progressivamente a Cristo, “na Sua morte, para alcançar a ressurreição dos mortos” (Fl 3,10-11). É um caminho que exige contínuas e novas superações, novas libertações, para obter uma adesão cada vez mais profunda a Cristo. Ninguém pode pensar “ter já chegado à meta”; para conquistar Cristo, tal como o Apóstolo foi conquistado por Cristo Jesus” ( Fl. 3,12). Na linha da reflexão que faz São Paulo, vale tomar o Documento de Aparecida, números 28 e 29: “No encontro com Cristo, queremos expressar a alegria de sermos discípulos do Senhor e de termos sido enviados com o tesouro do Evangelho. Ser cristão não é uma carga, mas um dom: Deus Pai nos abençoou em Jesus Cristo seu Filho, Salvador do mundo” (nº 28). “Conhecer Jesus Cristo é o melhor presente que qualquer pessoa pode receber; tê-Lo encontrado foi o melhor que ocorreu em nossas vidas, fazê-Lo conhecido com nossa palavra e obras é nossa alegria”. No Evangelho (Jo 8,1 - 11) é comovente a cena da mulher adúltera, arrastada até aos pés de Jesus para que Ele faça justiça: “Mestre, esta mulher foi apanhada em flagrante adultério. Na lei, Moisés mandou-nos apedrejar tais mulheres. E Tu, que dizes”? (Jo. 8,14). O Salvador faz uma coisa absolutamente inédita não prevista na lei antiga: não pronunciar qualquer sentença, mas após uma pausa silenciosa, um momento de tensão verdadeiramente emotiva, tanto por parte dos acusadores como da acusada, afirma simplesmente;”Quem dentre vós não tiver pecado, seja o primeiro a atirar-lhe uma pedra” (Jo. 8,7). Todos os homens são pecadores; por isso ninguém tem o direito de se arvorar em juiz dos outros. Só um tem esse direito: o Inocente, o Senhor, mas nem sequer usa dele, preferindo exercer o Seu poder de Salvador: “ Ninguém te condenou?…Também Eu não te condeno. Podes ir e de agora em diante não peques mais” (Jo. 8,10 - 11). Somente Cristo que veio para entregar a Sua vida pela salvação dos pecadores, pode libertar a mulher do seu pecado e dizer-lhe: “não tornes a pecar”. A sua palavra é portadora da graça que nasce do Seu sacrifício. No sacramento da penitência (confissão) renova-se para todos os que crêem, o gesto libertador de Cristo, que concede ao homem a graça para lutar contra o pecado, para “não tornar a pecar”. Aumentando esta passagem, diz Santo Agostinho:”Jesus não viola a Lei, e ao mesmo tempo não quer que se perca o que Ele estava a buscar, porque tinha vindo para salvar o que estava perdido: Vede que resposta tão cheia de justiça, de mansidão e de verdade. Oh verdadeira resposta da Sabedoria! Ouviste-O. Cumpra-se a Lei que seja apedrejada a adúltera. Mas, como podem cumprir a Lei e castigar aquela mulher uns pecadores? Veja-se cada um a si mesmo, entre no seu interior e ponha-se em presença do tribunal do seu coração e da sua consciência, e ver-se-á obrigado a confessar-se pecador. Sofra o castigo aquela pecadora, porém não por mão de pecadores; execute-se a Lei, mas não pelos seus transgressores”. Jesus, que é o Justo, não condena; ao contrário, aqueles, que são pecadores, ditam sentença de morte. A misericórdia infinita de Deus há de mover-nos a ter sempre compaixão daqueles que cometem pecado, porque também nos somos pecadores e necessitamos do perdão de Deus. mons. José Maria Pereira |
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O ADULTÉRIO NO AT: a mulher era considerada uma propriedade do marido, a mais íntima e peculiar. Por isso o adultério mais do que um pecado de luxúria era um pecado contra a propriedade. Considerava-se adultério a comunicação sexual com a esposa ou prometida de outro homem. Não é o mesmo que Zaná referida a relações heterossexuais ilícitas, também como o substantivo Nakriyá que em Provérbios 5,20 significa a relação com uma prostituta. O sétimo Mandamento: Não adulterarás; exige pureza sexual (Ex. 20,14) e apresenta o adultério como um crime repugnante contra Deus em Jó 31,11: ¨Que minha mulher moa a farinha para outros e que se encurvem outros sobre ela é um crime hediondo, delito submetido à punição dos juízes¨.É a ruptura de um contrato feito diante de Deus que constitui uma desonra a Deus, pois coloca a vontade do homem acima da de Deus pois os dois se tornam uma só carne (Gn. 2,24). Em Pr. 2,17 o casamento é uma aliança perante Deus e o adultério é o pior tipo de roubo, pois é o roubo da própria carne, semelhante ao homem que se levanta contra o seu próximo e lhe tira a vida (Dt. 22,26) O adultério torna o adúltero um jumento selvagem (Jr. 5,8). Por isso era passível de morte: Se um homem adulterar com a mulher do seu próximo, serão mortos o adúltero e a adúltera (Lv. 20,10). O método de aplicar a pena capital era queimar a pessoa (Gn 38,24) como Judá queria fazer com sua nora Tamar. Mas depois, a exemplo de Lv. 19,20, o apedrejamento foi o método escolhido, imitando Dt. 22,23 em que no caso de uma virgem desposada e dentro da cidade, o adultério seria punido com o apedrejamento às portas da mesma cidade, eliminando assim o mal de Israel. O adultério é simbolicamente figura da idolatria (Ez. 16,32). APEDREJAMENTO: 1o Na TORÁ: o apedrejamento era sinal de desprezo e gesto de hostilidade, como 2 Sm. 16, 6 em que Semei fica atirando pedras em Davi. Apedrejamento em hebraico é Sakal ou Ragam. Em grego Lithoboleo (= jogar pedras). O rei Acab fez com que Nabot fosse apedrejado até a morte para ficar com sua vinha, dando como motivo a blasfêmia conta Deus e o rei (1 Rs. 21,10). Segundo a Lei, o boi que matasse alguém devia ser apedrejado até a morte (Êx. 21,28). Moisés determina o apedrejamento de quem adorasse outros deuses (Dt. 13,10). O sacrifício dos filhos a Molok era também penado com o apedrejamento (Lv. 20,2). A imoralidade física de uma jovem, tendo relações na casa do pai antes do matrimônio, também era condenada da mesma maneira à morte (Dt. 22,21). Em Josué 7,25 Acã e sua família foram apedrejados por se apropriarem daquilo que estava sob o interdito divino. O apedrejamento era responsabilidade da comunidade no seu todo e se dava sempre fora da cidade, como no caso do blasfemo (1 Rs. 21,10). Um filho desobediente e incorrigível devia ser castigado da mesma forma pela comunidade (Dt. 21,18 - 21). Era para evitar o mal dentro da comunidade e impedir que a mesma fosse castigada por um mal que se considerava gravíssimo por causa da contaminação possível a todo o povo. Era como uma peste que nos tempos modernos se evita com a morte dos afetados. As testemunhas deviam impor as mãos sobre a vítima (Lv. 24, 14) e atirar a primeira pedra (Dt. 17,5 - 7). No código de Hamurabi temos também os mesmos tipos de delitos condenados com a pena máxima. Só que na Mesopotâmia, como no Egito, a falta de pedras, abundante na Palestina, obrigava a outras maneiras de morte, como a fogueira em que o povo podia participar. Parece que nos tempos de Jesus a lapidação era o castigo imposto segundo Ez. 16,37 - 40. 2o A MISHNÁ: admitida a pena de morte pelo adultério, e o homossexualismo, a tradição distingue 4 diferentes penas de morte, apedrejamento, fogueira, estrangulamento e decapitação, e escolhe o apedrejamento para os adúlteros; pena que, segundo alguns doutores, era pior que a morte por fogo. A tradição afirmará que após o apedrejamento, o réu será pendurado; porém o cadáver não poderá ficar no madeiro durante a noite. JESUS MESTRE: o título era o de Rabi (mestre meu) ou em aramaico Rabôni, tal e como Maria de Magdala o chamou (Jo 20,16). Será o Didáskalos grego ou Epistates segundo Lucas, tendo nesta última acepção o significado de Máster inglês. Ou seja, homem com autoridade intelectual e ao mesmo tempo moral de direção. Nós o vemos no evangelho de hoje como um verdadeiro mestre, sentado entre as colunas do pórtico de Salomão no lado oriental do templo. Na última semana de sua vida, já desde o início do dia, Jesus ensinava no templo (Lc. 21,37), tendo como ouvintes principais seus discípulos. E nessas circunstâncias, foi abordado pelos escribas e fariseus que lhe apresentaram uma mulher apanhada no ato do adultério. A ARMADILHA: a pergunta tinha uma resposta clara segundo a Torá e a tradição ou Mishná. Porém existiam umas conclusões que podiam colocar em situação crítica aquele que respondesse legalmente à pergunta solicitada. Caso Jesus desse uma resposta afirmativa, ele seria condenado pela autoridade romana como executor de uma sentença de morte, à qual não tinha direito; e, portanto seria punido como um assassino. Caso sua resposta fosse negativa, Jesus seria condenado como quem despreza a lei pátria e seu desprestígio seria máximo entre os judeus ortodoxos, com uma reputação totalmente negativa que o aniquilava como mestre em Israel. 1º RESPOSTA: Jesus nada responde e se inclina para escrever no chão como quem desenha letras sem sentido, na terra. Ele se desentende de um problema que não é seu e que não tem por que responder, pois ele não tinha testemunhado o adultério e não era juiz no caso, que, como caso de morte, seria o sinédrio quem o julgaria. Eram as testemunhas que deveriam atuar através da denúncia ao juiz e atirando as primeiras pedras, para que o povo respondesse e assim evitar o mal que do contrário, contaminaria todo o povo (Dt. 22,22). É costume entre os árabes fazer traços com o dedo quando o que estão escutando não é de seu interesse. É possível que Jesus atuasse em consonância com esta última suposição. Por isso os acusadores insistem. Uma outra suposição é que ele escreveu os pecados dos acusadores, ou a maldição de Nm. 5,21 correspondente às águas amargas do juízo de ordálio da mulher suspeita; mas parece improvável porque o resultado do caso é a absolvição por ausência de testemunhas. 2A RESPOSTA: para entendê-la, devemos buscar precedentes na tradição e na Lei. Segundo o que temos visto em parágrafos anteriores, as testemunhas eram as primeiras pessoas a atirar as pedras que deviam ser dirigidas ao coração da vítima para acabar de imediato com sua vida. Quem estiver sem pecado entre vós atire a primeira pedra. Segundo a Mishná os homens adúlteros eram na época tantos que se deixou de aplicar a lei das águas amargas. Esta prescrição consistia em misturar cinza com água e dar de beber a mistura à mulher que o marido considerava ciumentamente adúltera, mas que não tinha testemunhas apropriadas, ou uma só testemunha, ou sua palavra única. Antes de dar a bebida o sacerdote escrevia uma maldição que devia ser apagada na água amarga, segundo lemos em Nm. 5,20ss. Caso a mulher fosse culpada a mistura devia produzir inchaço do ventre e esterilidade, definhando seu peito. A resposta de Jesus deixa em primeiro lugar como responsáveis as testemunhas. Ele se ausenta do julgamento e o deixa nas mãos dos acusadores que agora se tornam acusados. Por isso continua escrevendo e desentendendo-se do caso. A RETIRADA: tinham toda a conformidade do Mestre, mas existia uma condição que aparentemente não se cumpriu: O sem pecado entre vós, seja o primeiro a lhe atirar a pedra. Ninguém esperava esta resposta que respeita a lei e não é um mandato, mas um aviso e uma lição. De fato não podemos condenar se somos culpados do mesmo delito. A Jesus lhe atacam com a lei e ele contra-ataca com a consciência, que é a lei suprema para todo homem em particular. Que aconteceu dentro da consciência dos acusadores? Por que começaram a desfilar, a começar pelos mais velhos? Alguns manuscritos, querendo explicar a fuga acrescentam ¨convictos por sua consciência¨. Sêneca dizia da mesma que é o juiz mais rigoroso que podemos encontrar. Os mais velhos foram os primeiros. Efetivamente os jovens são como discos novos em que o pecado inicia seu caminho de vício e rasura com a ação repetitiva a consciência do indivíduo. Os mais velhos não são mais pecadores, mas os que acumulam maior número de pecados. Por outra parte, uma testemunha, para ser verdadeira, devia (segundo a lei) ter uma conduta ilibada, uma palavra acreditada, fora de toda falácia. Não eram as razões e as palavras, mas o peso da pessoa o que dava à testemunha valor e crédito. E uma vez retirados os mais velhos, os jovens nada tinham que fazer. Os mais velhos entenderam por experiência que agora eram eles, as testemunhas, as que passavam de declarantes a juízes e o processo e a condenação estava transferido de Jesus a eles mesmos. Jesus não poderia ser incriminado nem pela relaxação da lei de Moisés, nem pela execução de uma pessoa que a lei romana não permitia na época. Toda a montagem urdida contra Jesus acabava de ruir com a mudança de responsabilidade que de Jesus passará agora às testemunhas acusadoras. Nada havia, pois, a fazer. E numa sociedade em que os presbíteros tinham a voz cantante, os mais novos se encontram sem suporte suficiente para atuar. A morte da adúltera não era o motivo principal da denúncia, pois o que pretendiam era a implicação de Jesus na morte da mesma. Faltando este último, o teatro urdido desmoronava como um castelo de cartas. O PERDÃO: como diz sãoAgostinho, ficaram a sós a miséria e a misericórdia. Se ninguém a condenava Jesus tampouco a condena. A lei divina foi transformada por esta sentença, sempre que o arrependimento seja sincero e o acompanhe o propósito de não pecar mais, o perdão será absoluto. O passado é apagado e o futuro só depende do presente e das disposições do momento. A memória servirá para enaltecer a bondade de Deus que perdoa, sem exigir compensações e reditos pelo passado. PISTAS 1) A sabedoria de Jesus dá um xeque-mate a quem pensava tê-lo enredado em suas redes mortais. E é precisamente por meio de uma consciência, que aparentemente estava inoperante, que os mais velhos reconhecem seu erro e retiram sua denúncia. Como está nossa consciência quando censuramos o próximo pelos mesmos delitos que nós usualmente cometemos? 2) Muitos problemas teriam solução, caso fossem nossos e não pretendêssemos resolver os do próximo. Porque neste os contemplamos para criticá-los e não para ajudá-los. 3) O perdão divino é mais amplo do que nós geralmente acreditamos. Só exige que tenhamos a vontade de não optar mais pelo mal. 4) O pecado dos outros é sempre patente aos nossos olhos e rapidamente formamos um juízo de condenação. O nosso é invisível e dificilmente vemos o mal que causamos. 5) Nem sempre a idade é critério de bondade. Geralmente o bem é uma conquista de uma luta diária e constante. Quando um homem honrado envelhece, ele se torna um ancião; quando um canalha envelhece, ele é apenas um velhaco que já viveu muito (Walther Waeny). padre Ignácio |
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A primeira leitura apresenta-nos o Deus libertador, que acompanha com solicitude e amor a caminhada do seu Povo para a liberdade. Esse “caminho” é o paradigma dessa outra libertação que Deus nos convida a fazer neste tempo de Quaresma e que nos levará à Terra Prometida onde corre a vida nova. A segunda leitura é um desafio a libertar-nos do “lixo” que impede a descoberta do fundamental: a comunhão com Cristo, a identificação com Cristo, princípio da nossa ressurreição. O Evangelho diz-nos que, na perspectiva de Deus, não são o castigo e a intolerância que resolvem o problema do mal e do pecado; só o amor e a misericórdia geram ativamente vida e fazem nascer o homem novo. É esta lógica – a lógica de Deus – que somos convidados a assumir na nossa relação com os irmãos. 1º leitura – Is. 43,16 – 21 - AMBIENTEO Deutero-Isaías (autor deste texto) é um profeta anônimo, da escola de Isaías, que cumpriu a sua missão profética entre os exilados. Estamos no séc. VI a.C., na Babilônia. Os judeus exilados estão frustrados e desorientados, pois a libertação tarda e Deus parece ter-Se esquecido do seu Povo. Sonham com um novo êxodo, no qual Jahwéh Se manifeste, outra vez, como o Deus libertador. Na primeira parte do “livro da consolação” (Is 40-48), o profeta anuncia a iminência da libertação e compara a saída da Babilônia e a volta à Terra Prometida com o êxodo do Egito. É neste contexto que deve ser enquadrada a primeira leitura de hoje. MENSAGEM Este oráculo de salvação começa por recordar a “mãe de todas as libertações” (a libertação da escravidão do Egito). Mas evocar essa realidade não pode ser uma fuga nostálgica para o passado, um repousar inerte na saudade, um refúgio contra o medo do presente (se assim for, esse passado vai obscurecer a perspectiva do Povo, impedindo-o de reconhecer os sinais que já se manifestam e que anunciam um futuro de liberdade e de vida nova)… A lembrança do passado é válida quando alimenta a esperança e prepara para um futuro novo. Na ação libertadora de Deus em favor do Povo oprimido pelo faraó, o judeu crente descobre um padrão: o Deus que assim agiu é o Deus que não tolera a opressão e que está do lado dos oprimidos; por isso, não deixará de Se manifestar em circunstâncias análogas, operando a salvação do Povo escravizado. De facto – diz o profeta – o Deus libertador em quem acreditamos e em quem esperamos não demorará a atuar. Aproxima-se o dia de um novo êxodo, de uma nova libertação. No entanto, esse novo êxodo será algo de grandioso, que eclipsará o antigo êxodo: o Povo libertado percorrerá um caminho fácil no regresso à sua Terra e não conhecerá o desespero da sede e da falta de comida porque Jahwéh vai fazer brotar rios na paisagem desolada do deserto. A atuação de Deus manifestará, de forma clara, o amor e a solicitude de Deus pelo seu Povo. Diante da acção de Jahwéh, o Povo tomará consciência de que é o Povo eleito e dará a resposta adequada: louvará o seu Deus pelos dons recebidos. ATUALIZAÇÃO ♦ O nosso Deus é o Deus libertador, que não Se conforma com qualquer escravidão que roube a vida e a dignidade do homem e que nos pede, permanentemente, que lutemos contra todas as formas de sujeição. Quais são as grandes formas de escravidão que impedem, hoje, a liberdade e a vida? Neste tempo de transformação e de mudança, o que posso eu fazer para que a escravidão e a injustiça não mais destruam a vida dos homens meus irmãos? ♦ A vida cristã é uma caminhada permanente, rumo à Páscoa, rumo à ressurreição. Neste tempo de Quaresma, somos convidados a deixar definitivamente para trás o passado e a aderir à vida nova que Deus nos propõe. Cada Quaresma é um abalo que nos desinstala, que põe em causa o nosso comodismo, que nos convida a olhar para o futuro e a ir além de nós mesmos, na busca do Homem Novo. O que é que, na minha vida, necessita de ser transformado? O que é que ainda me mantém alienado, prisioneiro e escravo? O que é que me impede de imprimir à minha vida um novo dinamismo, de forma que o Homem Novo se manifeste em mim? 2º leitura – Fil. 3,8 – 14 - AMBIENTEA carta aos Filipenses é uma carta “afetuosa e terna” que Paulo escreve da prisão aos seus amigos de Filipos. Os cristãos desta cidade, preocupados com a situação de Paulo, enviaram-lhe dinheiro e um membro da comunidade (Epafrodito), que cuidou de Paulo e o acompanhou na solidão do cárcere. Com o coração cheio de afeto, Paulo agradece aos seus queridos filhos de Filipos; e, por outro lado, avisa-os para que não se deixem levar pelos “cães”, pelos “maus obreiros” (Flp. 3,2) que, em Filipos como em todo o lado, semeiam a dúvida e a confusão. Quem são estes? São ainda esses “judaizantes”, “os da mutilação” (Flp. 3,2), que proclamavam a obrigatoriedade da circuncisão e da obediência à Lei de Moisés. O texto que nos é proposto insere-se nesse discurso de polêmica contra os adversários “judaizantes” (cf. Flp. 3). Paulo pede aos Filipenses que não se deixem enganar por esses falsos pregadores, super-entusiastas, que se apresentam com títulos de glória e que parecem esquecer que só Cristo é importante. MENSAGEM Ao exemplo e à pregação desses “judaizantes”, que alardeiam os mais diversos títulos de glória, Paulo contrapõe o seu próprio exemplo. Ele tem mais razões do que os outros para apresentar títulos (ele que foi circuncidado com oito dias; que é hebreu genuíno, filho de hebreus, da tribo de Benjamim; que foi fariseu e que viveu irrepreensivelmente como filho da Lei – cf. Flp. 3,5 - 6); mas a única coisa que lhe interessa – porque é a única coisa que tem eficácia salvadora – é conhecer Jesus Cristo. É claro que os termos conhecer e conhecimento devem ser aqui entendidos no mais genuíno sentido da tradição bíblica, quer dizer, no sentido de “entrar em comunhão de vida e de destino” com uma pessoa. Aquilo que ele procura agora e que é o fundamental é identificar-se com Cristo, a fim de com Ele ressuscitar para a vida nova. Os Filipenses – e, claro, os crentes de todas as épocas – farão bem em imitar Paulo e esquecer tudo o resto (a circuncisão, os ritos da Lei, os títulos de glória são apenas “prejuízo” ou “lixo” – v. 8). Só a identificação com Cristo, a comunhão de vida e de destino com Cristo é importante; só uma vida vivida na entrega, no dom, no amor que se faz serviço aos outros, ao jeito de Cristo, conduz à ressurreição, à vida nova. Mais um dado importante: Paulo está consciente que partilhar a vida e o destino de Cristo implica um esforço diário, nunca terminado; é, até, possível o fracasso, pois o nosso orgulho e egoísmo estão sempre à espreita e o caminho da entrega e do dom da vida é exigente. Mas é o único caminho possível, o único que faz sentido, para quem descobre a novidade de Cristo se apaixona por ela. Quem quer chegar à vida nova, à ressurreição, tem de seguir esse caminho. ATUALIZAÇÃO ♦ Neste tempo favorável à conversão, é importante revermos aquilo que dá sentido à nossa vida. É possível que detectemos no centro dos nossos interesses algum desse “lixo” de que Paulo fala (interesses materiais e egoístas, preocupações com honras ou com títulos humanos, apostas incondicionais em pessoas ou ideologias…); mas Paulo convida a dar prioridade ao que é importante – a uma vida de comunhão com Cristo, que nos leve a uma identificação com o seu amor, o seu serviço, a sua entrega. Qual é o “lixo” que me impede de nascer, com Cristo, para a vida nova? ♦ É preciso, igualmente, ter consciência de que este caminho de conversão a Cristo é um caminho que está, permanentemente, a fazer-se. O cristão está consciente de que, enquanto caminha neste mundo, “ainda não chegou à meta”. A identificação com Cristo deve ser, pois, um desafio constante, que exige um empenho diário, até chegarmos à meta do Homem Novo. EVANGELHO – Jo 8,1 - 11 - AMBIENTEEsta pequena unidade literária não pertencia, inicialmente, ao Evangelho de João: ela rompe o contexto de Jo. 7 - 8, não possui as características do estilo joânico e o seu conteúdo não se encaixa neste Evangelho (que não se interessa por problemas deste gênero). Além disso, é omitida pela maior parte dos manuscritos antigos; e as referências dos Padres da Igreja a este episódio são muito escassas. Outros manuscritos colocam-no dentro do Evangelho, mas em sítios diversos, por exemplo, no final do mesmo – como fazem algumas versões modernas da Bíblia. Numa série de manuscritos, encontrámo-la no Evangelho de Lucas (após Lc. 21,38), que seria um dos lugares mais adequados, dado o interesse de Lucas em destacar a misericórdia de Jesus. Trata-se de uma tradição independente que, no entanto, foi considerada pela Igreja como inspirada por Deus: não há dúvida que deve ser vista como “Palavra de Deus”. Seja como for, o cenário de fundo coloca-nos frente a uma mulher apanhada a cometer adultério. De acordo com Lv. 20,10 e Dt. 22,22 - 24, a mulher devia ser morta. A Lei deve ser aplicada? É este problema que é apresentado a Jesus. MENSAGEM Temos, portanto, diante de Jesus uma mulher que, de acordo com a Lei, tinha cometido uma falta que merecia a morte. Para os escribas e fariseus, trata-se de uma oportunidade de ouro para testar a ortodoxia de Jesus e a sua fidelidade às exigências da Lei; para Jesus, trata-se de revelar a atitude de Deus frente ao pecado e ao pecador. Apresentada a questão, Jesus não procura branquear o pecado ou desculpabilizar o comportamento da mulher. Ele sabe que o pecado não é um caminho aceitável, pois gera infelicidade e rouba a paz… No entanto, também não aceita pactuar com uma Lei que, em nome de Deus, gera morte. Porque os esquemas de Deus são diferentes dos esquemas da Lei, Jesus fica em silêncio durante uns momentos e escreve no chão, como se pretendesse dar tempo aos participantes da cena para perceber aquilo que estava em causa. Finalmente, convida os acusadores a tomar consciência de que o pecado é uma consequência dos nossos limites e fragilidades e que Deus entende isso: “quem de vós estiver sem pecado, atire a primeira pedra”. E continua a escrever no chão, à espera que os acusadores da mulher interiorizem a lógica de Deus – a lógica da tolerância e da compreensão. Quando os escribas e fariseus se retiram, Jesus nem sequer pergunta à mulher se ela está ou não arrependida: convida-a, apenas, a seguir um caminho novo, de liberdade e de paz (“vai e não tornes a pecar”). A lógica de Deus não é uma lógica de morte, mas uma lógica de vida; a proposta que Deus faz aos homens através de Jesus não passa pela eliminação dos que erram, mas por um convite à vida nova, à conversão, à transformação, à libertação de tudo o que oprime e escraviza; e destruir ou matar em nome de Deus ou em nome de uma qualquer moral é uma ofensa inqualificável a esse Deus da vida e do amor, que apenas quer a realização plena do homem. O episódio põe em relevo, por outro lado, a intransigência e a hipocrisia do homem, sempre disposto a julgar e a condenar… os outros. Jesus denuncia, aqui, a lógica daqueles que se sentem perfeitos e auto-suficientes, sem reconhecerem que estamos todos a caminho e que, enquanto caminhamos, somos imperfeitos e limitados. É preciso reconhecer, com humildade e simplicidade, que necessitamos todos da ajuda do amor e da misericórdia de Deus para chegar à vida plena do Homem Novo. A única atitude que faz sentido, neste esquema, é assumir para com os nossos irmãos a tolerância e a misericórdia que Deus tem para com todos os homens. Na atitude de Jesus, torna-se particularmente evidente a misericórdia de Deus para com todos aqueles que a teologia oficial considerava marginais. Os pecadores públicos, os proscritos, os transgressores notórios da Lei e da moral encontram em Jesus um sinal do Deus que os ama e que lhes diz: “Eu não te condeno”. Sem excluir ninguém, Jesus promoveu os desclassificados, deu-lhes dignidade, tornou-os pessoas, libertou-os, apontou-lhes o caminho da vida nova, da vida plena. A dinâmica de Deus é uma dinâmica de misericórdia, pois só o amor transforma e permite a superação dos limites humanos. É essa a realidade do Reino de Deus. ATUALIZAÇÃO ♦ O nosso Deus – di-lo de forma clara o Evangelho de hoje – funciona na lógica da misericórdia e não na lógica da Lei; Ele não quer a morte daquele que errou, mas a libertação plena do homem. Nesta lógica, só a misericórdia e o amor se encaixam: só eles são capazes de mostrar o sem sentido da escravidão e de soprar a esperança, a ânsia de superação, o desejo de uma vida nova. A força de Deus (essa força que nos projeta para a vida em plenitude) não está no castigo, mas está no amor. ♦ No nosso mundo, o fundamentalismo e a intransigência falam frequentemente mais alto do que o amor: mata-se, oprime-se, escraviza-se em nome de Deus; desacredita-se, calunia-se, em razão de preconceitos; marginaliza-se em nome da moral e dos bons costumes… Esta lógica (bem longe da misericórdia e do amor de Deus) leva-nos a algum lado? A intolerância alguma vez gerou alguma coisa, além de violência, de morte, de lágrimas, de sofrimento? ♦ Quantas vezes nas nossas comunidades cristãs (ou religiosas) a absolutização da lei causa marginalização e sofrimento. Quantas vezes se atiram pedras aos outros, esquecendo os nossos próprios telhados de vidro… Quantas vezes marcamos os outros com o estigma da culpa e queimamos a pessoa em “julgamentos sumários” sem direito a defesa… Esta é a lógica de Deus? O que nos interessa: a libertação do nosso irmão, ou o seu afundamento? ♦ Neste caminho quaresmal, há duas coisas a considerar: Deus desafia-nos à superação de todas as realidades que nos escravizam e sublinha esse desafio com o seu amor e a sua misericórdia; e convida-nos a despir as roupagens da hipocrisia e da intolerância, para vestir as do amor. www.presbiteros.com.br |
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Os biblistas referem que este texto no início não pertenceria ao evangelho de João, estando muito mais próximo, por exemplo, do evangelho de Lucas: o cenário é o templo, o tema é a misericórdia, até os personagens centrais são os mesmos do evangelho da semana passada (de Lucas): os fariseus e os escribas de um lado e Jesus do outro. Fariseus e escribas! Aquilo que caracteriza o espírito farisaico não é tanto o “dizer e não fazer”, mas é sobretudo a apertada vigilância sobre a “pureza” da religião ou, na perspectiva inversa, um cuidado extremo com o perigo das “contaminações”. Enquanto os fariseus eram um “partido”, uma “espiritualidade organizada” ou um “movimento” dentro do judaísmo, os escribas (ou doutores da lei) eram uma espécie de “catequistas”, pessoas que tinham estudado as Escrituras e as ensinavam agora ao povo. Muitos fariseus eram escribas, mas nem todos. De qualquer modo aparecem sempre muito associados “contra” Jesus, os fariseus por defesa contra o perigo de “contaminação” que Jesus representa, os escribas por razões de interpretação das Escrituras e por inveja da “popularidade” de Jesus entre o povo, o que não acontecia com eles (e não acontecia por uma razão muito simples: eles desprezavam o povo simples, por o considerarem ignorante da lei!!!!). Escribas e fariseus! Resulta claro: pese a baixa prática dominical, os nossos templos continuam cheios de pessoas com espírito de “fariseus” e de “escribas”... Curiosamente, nestas discussões, os evangelhos apresentam-nos Jesus sempre argumentando, isto é, fazendo recurso à inteligência, para mostrar as suas razões e desmascarar os erros em que os escribas e os fariseus caem. Mas, no Evangelho de hoje, Jesus não argumenta; se fala alguma coisa com alguém é com o chão! É no chão que escreve... Esta recusa de Jesus em discutir, em argumentar, é porque percebe que esse já não é o campo ético em que se situam os seus adversários; pelo contrário, eles estão já no campo das armadilhas, da má fé. Os biblistas desconhecem o significado do gesto de Jesus escrever no chão. Mas nada impede que seja um gesto de profundo desprezo pela má fé daquela gente: é mais inteligente tentar dialogar com as pedras do chão do que tentar dialogar com eles! A armadilha montada a Jesus é perfeita: ou Jesus trai o povo simples a quem pregava a misericórdia de Deus, ou trai a lei de Moisés que mandara apedrejar as mulheres que cometessem adultério. Se perdoasse, podia ser acusado diante do Sinédrio; se culpasse, diante dos romanos! Mais para mais, eles insistiam: ela tinha sido apanhada em flagrante! É então que Jesus resolve quebrar o silêncio; não para discutir com eles, já vimos; mas para os apanhar também em flagrante estado de pecado! A todos! E um a um, foram-se. Derrotados. Mudos. Mas cada vez mais empedernidos... Afinal, nenhum teve a coragem de aproveitar o momento para se... converter. Arrastada à força para o Templo, a mulher é a única que regressa... livre! santaclaraparoquia.blogspot.com |
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A cena é terrível. A mulher está a ponto de ser linchada. Alguns, dos que se dizem líderes do povo, se fazem de juízes e determinam que deva ser condenada à morte. Deve ser apedrejada. E a multidão está disposta a participar. Ninguém se sentirá culpado. Uma pedra a mais não é o golpe definitivo. É só uma a mais. Depois, uma vez que passe o aumento da adrenalina, quando todos gritam ao mesmo tempo e se sentem fortes e capazes de tudo simplesmente porque estão juntos, se retirarão envergonhados. Apenas uns poucos seguirão convencidos de que fizeram o bem. Os outros preferirão não falar do assunto. Deixaram se levar pela massa sem se dar conta do que fizeram. Podemos estar falando da mulher adúltera, mais também de tantas pessoas que são linchadas ainda hoje em nosso mundo. A força da massa é incontida. E não me refiro só ao linchamento físico, que e terrível. Mais também existe o linchamento verbal, que exclui e marginaliza, que mata quase tanto como o outro. Gostamos de ser juízes A verdade é que nos encanta é ser juízes, jurados e verdugos. Tudo ao mesmo tempo. Sempre estamos preparados para dar nossa opinião sobre o comportamento ou as atitudes deste ou do outro. Olhamos seus olhos e não vemos uma pessoa senão o objeto de nosso julgamento. Sempre temos claro o que teria que fazer. E não nos costumamos a caminhar pelo lado da misericórdia. Nossos julgamentos costumam ser duros e terminam com facilidade na condenação. Hoje Jesus enfrenta uma situação dessas. Porém, sua atitude é diferente. Primeiro de tudo, mantém sua liberdade. Não se alinha com a massa. Não se deixa levar. Não tenta se fazer simpático. Mais busca uma maneira de salvar aquela pessoa. Parece que o que menos importa é que seja culpada ou não. O seu objetivo é salvar não julgar nem muito menos condenar. Consegue deter àqueles exaltados que se sentiam autorizados pela lei de Moisés - teria que recordar que o mesmo Jesus diz em outra passagem do Evangelho há que cumprir essa lei até a última vírgula –. O faz recordando-lhes que o mundo é uma grande comunidade... de pecadores. Na Quaresma esse é um ponto que não devemos esquecer. Todos somos pecadores. Todos somos frágeis. Ninguém é perfeito. Claro que há diferenças entre uns e outros. Mas são de quantidade mais que de qualidade. Ao final, todos estão precisados da misericórdia de Deus. Todos nos necessitamos de uma mão amiga que nos levante do labirinto da miséria em que estamos perdidos. O amor de Deus cria-nos, presenteia-nos a vida e o amor que precisamos para chegar sermos plenamente filhos e filhas de Deus, para chegar a ser livres como Deus nos quer, para chegar a ser pessoas em toda a amplitude da palavra. Jesus salva, não condena Para Jesus o importante não é o pecado. Isso não passa de uma superficialidade. O importante é o que há por debaixo, a verdadeira realidade da pessoa: nosso ser filhos e filhas. Por isso, onde se encontra uma pessoa seu objetivo é a salvar, a dignificar, convidá-la a que viva segundo a dignidade que tem por nascimento, por dom de Deus. Agora podemos entender melhor a primeira leitura e o salmo responsorial. Jesus inaugura uma nova etapa na história do mundo: a etapa da misericórdia. “O Senhor tem estado conosco e estamos alegres”. Não é para menos. Jesus inaugura o Reino e abre-nos possibilidades infinitas de crescimento, de liberdade. Olhamo-nos uns a outros e reconhecemos a presença do Pai em cada um de seus filhos e filhas, por muito perdidos que pareçam. Como diz a primeira leitura, “já está brotando, não o notais?”. Nada é importante em frente ao conhecimento de Cristo que nos faz olhar a realidade de uma maneira nova - segunda leitura - que nos convida a viver como filhos e filhas de Deus. Não somos perfeitos. Estamos a caminho. Mas sabemos que para atingir a meta, para ganhar o prêmio, o caminho é o da misericórdia, da piedade, do carinho, da reconciliação. O caminho é valorizar a pessoa pelo que é e não pelo que parece. Nem sequer pelo que a pessoa tem podido fazer de si mesma, como fruto de seu comportamento. Os filhos e filhas de Deus sempre têm e terão um posto à mesa. Nós não estamos para excluir senão para acolher, receber e acomodar. Fernando Torres, cmf |
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A questão não está no fato de que Moisés tenha promulgado o mandamento, “Não cometerás adultério”, mas no uso e no abuso que os homens fazem dele, pois o que a mulher fez excitou os seus próprios desejos, luxúrias e, aguçando o sadismo reprimido em cada um, conduziu-os a uma atitude defensiva refletida numa punição severa. A Inveja e a repressão, concentradas nas pedras que seriam atiradas, contêm uma dupla simbologia: a violência do desejo que está na razão direta da repressão e a barbárie da luxúria que está na razão direta da Lei, pois todos se acobertam por uma interpretação legal que os torna assassinos inocentes. Naquela manhã, a lei de Moisés é invocada não só para infligir a punição, mas para “experimentar Jesus e ter motivos para acusá-lo”. Jesus continuava em silêncio e nesta situação-limite revela toda a força da sua humanidade. Começa a escrever e faz calar a besta coletiva que morava no coração daqueles homens ensandecidos. É na areia a única vez que Jesus escreve para que o escrito fosse levado pelo vento. E antes que qualquer um se pronunciasse, Jesus ousa dizer: “Quem dentre vós estiver sem pecado, atire a primeira pedra”. Esta frase prodigiosa dispersa a multidão e deixa a sós Jesus e a pecadora que por isso poderiam ser acusados de flagrante delito. Jesus testemunha para esta mulher que na liberdade da sua indulgência não pensava e nem agia como cada um dos puritanos de plantão, pois somente a tolerância nos ensina a sermos responsáveis e solidários e que todo julgamento, sem pensamento e autocrítica, é vão e vil. Jesus, com uma frase, arranca as máscaras e os faz no movimento dos seus corpos, traírem a moral do reprimido/repressor que sempre os habitou: “Ouvindo isso, foram saindo um por um, a começar pelos mais velhos”. No livro do profeta Daniel, podemos avaliar a extensão da maldade que pode atingir um coração malicioso. Dois velhos juízes, conselheiros do povo, ficaram desnorteados com a beleza de Suzana, “perverteram seu coração e desviaram os olhos para não olhar a Deus nem se lembrar de suas justas leis”. Estes guias do povo assediaram-na dizendo: “Nós estamos te desejando, consente e deita-te conosco”. Suzana não concordou e, então, “vieram com a cabeça cheia de planos malvados contra Suzana, a fim de condená-la à morte”. A mulher desta parábola ficara sozinha. Jesus se levanta, fica em pé diante dela, face a face, olho a olho e devolve com este gesto a sua dignidade e honra. Jesus sabe que a partir de agora a vida dela se abre totalmente para o futuro e diz não como uma ordem, mas como uma certeza: “Vá, a partir de agora tu não pecarás mais”. Devemos saber que se formos capazes de atingir o outro no mais fundo a ponto de dizer, com toda a confiança, que a raiz de todo pecado se encontra em nós mesmos, estaremos próximos de Jesus. E entre os dois que, reciprocamente, se tocam, existe o milagre de um mundo a ser descoberto. Resta-nos apenas matar a nossa curiosidade de saber o que escrevera Jesus, com o dedo, no chão do Templo antes que o sopro do vento levasse as palavras. Jesus escrevia, para sempre, a sua condenação a todos os moralistas de plantão que, até hoje, sem nenhuma ética, alimentam a barbárie do mundo, degeneram as instituições e destroem assim a criação de Deus. Fazendo sombra com o silêncio do seu corpo para que os olhos dos fariseus e publicanos não pudessem ler, Ele escreveu: “Os publicanos e as meretrizes vos precedem no Reino do meu Pai” (Mt. 21,31). Por esta razão, Paulo proclamou, inspirado pelo Espírito de Jesus: “Onde proliferou o delito, a graça transbordou”(Rm. 5,20). Manos da Terna Solidão |
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Dia desses, quando o time da nossa cidade somava três derrotas seguidas na competição estadual, um torcedor ferrenho, demonstrando certo desânimo, comentou comigo “Acho que não dá mais, o jeito é lutar para não cair para a divisão inferior, pois o sonho da classificação ficou mais longe...” Quando escrevo essa reflexão, o Tigre, como é chamada a nossa equipe, já somou duas vitórias seguidas e está com a classificação quase assegurada nessa mesma competição. Na nossa vida de Fé, muitas vezes, por causa do desânimo do pecado, nosso e dos outros, paramos de sonhar com o “Céu” e ficamos a vida inteira lutando para não sermos “rebaixados” para o inferno. Será que foi para isso que Deus nos fez? Claro que não! Pois, para quem tem Fé, o “melhor ainda está por vir” e podemos sonhar sim, porque Jesus Cristo, o Filho de Deus acredita em nós, e mais ainda, nos dá condições totais na sua Graça, de alcançarmos a plenitude do Ser, que o Pai criou, á sua imagem e semelhança. Em nossa sociedade, sempre marcada por uma grande hipocrisia, há certas classes sociais que são condenadas previamente enquanto que outras “castas” podem cometer certos delitos, mesmo no campo moral ou ético, pois gozam de certa imunidade. Mas, os mais frágeis, ou os que com nada podem contar, como é o caso dessa “Mulher Adúltera”, ficam expostos ao ridículo e ao moralismo exacerbado de classes sociais elitizadas, e também, de maneira pecaminosa, por algumas categorias religiosas,que as rotulam de “irrecuperáveis”, por outro lado, o sistema parece investir muito mais na construção de novos presídios do que em um projeto sério de ressocialização da população carcerária, e quando se gasta na construção de presídios, é como se dissesse ao delinqüente “Pode cometer crime a vontade, que vamos construir mais presídios”. Os escribas e Fariseus, isso é, a classe dominante e pensante, já havia condenado a mulher pecadora, só queriam aproveitar a ocasião e colocar Jesus contra a parede, para também condená-lo, pois um Mestre verdadeiro, no campo da moral e dos bons costumes, concordaria com a Lei de Moisés, pecou, tinha que pagar, e pagar caro, no caso dos fragilizados, ignorados pela lei, e sem nenhum direito. Eles não acreditavam que aquela mulher pudesse se regenerar, e nem queriam lhe dar uma nova chance, estavam desejosos de mandá-la para o “paredão” e expulsá-la do convívio dos “salvos” e moralmente perfeitos. Uma comunidade verdadeiramente cristã, nunca irá proceder desta forma. Contrariando esse modo preconceituoso de pensar, Jesus de Nazaré, que é o primogênito de toda a criatura, sendo o homem perfeito, e a perfeita imagem e semelhança de Deus, não condena, porque sabe que aquela mulher tem toda possibilidade de se regenerar. Não condenar, não significa concordar com o pecado, fechar os olhos para a ação pecaminosa cometida pela pessoa, ao contrário, Jesus acredita e aposta todas as suas fichas no ser humano, que é capaz de sair da “armadilha” do pecado, e dar a volta por cima, resgatando a sua dignidade perdida, pois, a partir da Encarnação do Senhor, nenhum homem será mais condenado, a Salvação por ele oferecida dá essa possibilidade maravilhosa de recomeçar, de levantar-se da queda e seguir em frente, para alcançar o seu destino glorioso que é a Vida Plena na Casa do Pai. Falta muito, em nossas relações com as pessoas, essa postura de Jesus, que não condena e que sabe perdoar, pois perdão significa uma nova oportunidade, uma nova chance, para a esposa infiel, para o marido que é um traste, para o Filho ou a Filha rebelde, perdido nas drogas, no mundo da marginalidade, para o empregado mau caráter, para o Patrão desonesto, para o corrupto, para a prostituta, há muitos que gritam e imploram por uma nova chance, entretanto, já estão marcados para ser “apedrejados” em praça pública, como aquela mulher. Em nossa sociedade só se investe e se acredita em quem produz em quem é economicamente ativo, em quem tem posses para adquirir bens de consumo, o resto é lixo, e para esse resto não há novas chances ou oportunidades de se reerguer. Voltando a comparação com o time de Futebol, Jesus Cristo é como aquele técnico paciente, empenhado, e até ousado, que quando todos estão contra, e não acreditam em uma “virada” da equipe, ele trabalha nos treinamentos, procura conhecer as deficiências e o potencial de cada atleta e tem sempre palavras de incentivo “Olha, vamos recomeçar, vocês vão conseguir, eu acredito em vocês, estamos juntos nessa, vamos em frente, vocês tem condições de “virar esse jogo”. “Mulher, onde estão os que te acusavam?” Ninguém te condenou, nem eu te condeno,. “Vai e não tornes a pecar”. Isso lembra o meu confessor, no retiro que fizemos recentemente, onde, antes da absolvição, disse-me sorrindo, Jesus está lhe dizendo neste momento “Coragem meu amigo, tente de novo, eu estarei contigo, você vai conseguir”. Esse é o nosso Deus, cheio de misericórdia, que ainda aposta todas as suas fichas no Ser humano, porque o ama apaixonadamente. Não sei se o time de nossa cidade será campeão, certamente é esse o desejo da direção, do seu técnico e da sua torcida. De um modo muito mais intenso, no coração de Deus, manifestado em Jesus, há esse desejo, de que toda a humanidade se salve, para chegar à Vida Plena, Deus acredita em nosso potencial, foi ele que nos deu a sua Graça santificadora e restauradora, só depende de nós....pois diferente das “oportunidades humanas”, sempre tão “manipuladas” a favor de alguém, essa Graça Divina é para todos....Basta querer...”Vá e não tornes a pecar, mostra a tua força, o teu valor, mostra a capacidade que tens, na minha graça, de virar o jogo da sua vida, e deixar que no seu coração, o Bem supremo triunfe!” diácono permanente José da Cruz |
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É um episódio que encontramos apenas no Evangelho de são João, ainda que provavelmente não seja da autoria de João, pois não só usa um vocabulário diferente do resto do texto do Evangelho, como se percebe pela leitura que foi um episódio colocado à força, como que enxertado na continuidade da narração do texto. Os primeiros comentários ao Evangelho de são João, como o de são João Crisóstomo, desconhecem este relato e só com Santo Agostinho é que o vamos encontrar meditado e comentado. Há assim um desconhecimento, ou pelo menos uma certa reticência na sua aceitação, ainda que num texto siríaco do século terceiro como é a Didaskália ele apareça transcrito tal e qual como hoje os encontramos no Evangelho. Isto significa que ainda que o acontecimento se tenha dado, que o texto se tenha redigido, houve uma certa dificuldade na sua aceitação. E a dificuldade prende-se com a natureza do pecado, com o adultério que não só era condenado pela lei de Israel mas que também foi condenado por São Paulo na primeira carta aos Coríntios (1 Cor 6,9). Foi necessária uma certa prática da reconciliação e da penitência, uma reflexão sobre o sucedido para se perceber que a história ia e vai muito para além do adultério da mulher apanhada em flagrante, ela é apenas um motivo para a revelação dos outros adultérios e da verdadeira relação que é pedida. Assim, convém ter em conta que como o autor do texto diz tudo foi preparado como uma armadilha para apanhar Jesus, era ele o objetivo, era ele que queriam apanhar como adultero e por isso não aparece na história o homem que estava com a mulher em flagrante, porque à luz da lei de Moisés tanto um como outro deveriam ser apedrejados até à morte. Era Jesus que eles queriam apanhar, e queriam-no apanhar em flagrante face à lei e face à sua própria palavra. É uma armadilha mortal, porque se Jesus se coloca do lado da lei de Moisés nega toda a sua compaixão, todas as suas palavras e gestos para com aqueles que tinham sido excluídos e eram considerados pecadores. Pelo contrário se não condena a mulher coloca-se contra a lei de Moisés, e como a própria lei estabelecia quem se colocasse contra ela deveria ser apedrejado, porque como a lei era de Deus não tinha nada de injusto. O círculo de morte que estabelecem à volta da mulher apanhada em flagrante envolve assim também Jesus, pois a pena de morte para o crime da mulher como para o crime do crítico da lei era a mesma. Face a isto, a este desafio e a uma questão de vida, porque não era uma questão retórica que estava em jogo, Jesus levanta-se para pronunciar o seu juízo, para dar a resposta que eles pretendiam. E neste aspecto é interessante notar que Jesus se levanta mudando assim como que de plano e condição, deixando a posição humana para hieraticamente assumir a posição de Deus. “Quem não tiver pecados que atire a primeira pedra”. E eles foram saindo, porque de fato tinham pecados, e o primeiro deles era o do próprio adultério, eles tinham sido infiéis a Deus ao arvorarem a própria lei como última resposta, como última realidade. A lei que lhes tinha sido dada como guia e orientação tinha sido idolatrada, tinha sido elevada à condição da própria divindade, esquecendo e subtraindo a misericórdia de Deus espelhada e subjacente à própria lei. Como lhes tinha anunciado o profeta eles tinham cavado cisternas para guardar a água mas as cisternas estavam rotas, os esquemas judiciais falhavam à essência da lei que era a misericórdia de Deus para com eles, para com todos os homens. Abandonando o local fica apenas Jesus e a mulher, a adúltera e o verdadeiro esposo, ficam apenas Deus e a humanidade necessitada de perdão pela idolatria. E na sua misericórdia, dando cumprimento à essência da lei Jesus envia a mulher reconciliada para casa, ela que podia ter também abandonado a cena quando os outros se ausentaram. Porque razão ficou, senão porque no fundo esperava e desejava aquele perdão, o juízo de amor sobre a sua vida desencontrada? Todos nós somos esta mulher porque quase todos os dias adulteramos a nossa condição de cristãos e filhos de Deus sujeitando-nos a outros senhores e a outros esposos, trocamos a felicidade da fidelidade do amor de Deus pelos prazeres momentâneos da nossa auto satisfação e glória. Idolatramos outras leis esquecendo-nos da verdadeira lei de Deus, da lei do amor, e neste aspecto somos também como aqueles fariseus e escribas porque nos nossos ambientes armamos os mesmos círculos de morte com as nossas críticas, as nossas invejas, o nosso azedume e até a nossa competição ou vaidade. Necessitamos por isso ir abandonando esses esquemas, essas armadilhas, e ir deixando-nos ficar cada vez mais junto aos pés de Jesus para receber o seu perdão. E uma vez mais não podemos esquecer que se o juízo é proferido pela divindade, ela mantém-se abaixada na nossa humanidade, ao nosso nível, escrevendo no nosso pó da terra, a fórmula como lhe podemos seguir em fidelidade. Jesus e a mulher adúlteraParecia um dia normal, um dia como tantos outros. No templo, naquela manhã, apenas se ouviam os ruídos normais da preparação para o culto. Jesus tinha vindo até ali e sentado procurava ensinar aqueles que o queriam ouvir naquela manhã. Sem se saber de onde uma multidão de homens irrompe pelos átrios e perturba o silêncio que ainda se respira. Apanharam uma mulher em flagrante adultério e trazem-na a Jesus para que a julgue, para que emita um juízo sobre ela e o pecado em que tinha sido apanhada. É uma armadilha, uma armadilha bem preparada porque sabiam que ele estava ali, sabiam que podiam apanhar a mulher em flagrante e porque querem uma resposta de Jesus que o coloque em questão, que o conduza à morte, às possibilidades de morte que engendraram nos seus espíritos perversos. Contudo Jesus, em lugar de lhes responder directamente à pergunta e à provocação, começa a escrever no chão com o dedo. Podemos pensar que Jesus queria ganhar tempo para obter uma resposta satisfatória, uma resposta a dar-lhes, ou também que não era um assunto dele e portanto distanciava-se com esse silêncio e indiferença. Afinal que tinha ele a ver com aquilo? Teria sido ele o companheiro da mulher apanhada em delito e que eles não apresentavam? Podemos pensar que ao escrever no chão escrevia a sentença que imediatamente proferiria, como faziam os tribunos romanos em qualquer julgamento, que escreviam a sentença antes de ela ser lida em alta voz aos presentes e condenado. A verdade é que não se sabe o que Jesus escrevia, João não nos diz, e por isso desde a antiguidade, santo Agostinho, são Jerónimo e santo Ambrósio, entre outros Padres da Igreja, viram neste gesto uma ação simbólica, semelhante à dos profetas, através da qual Jesus evocava àqueles homens acusadores um versículo do profeta Jeremias: “aqueles que se afastarem de mim serão escritos no pó” (Jer. 17,13), ou então, que “o Senhor perscruta os corações, sonda os rins para dar a cada um segundo a sua conduta” (Jer. 17,10). Jesus recorda assim àqueles homens o julgamento de Deus sobre os pecados de Israel e portanto o seu próprio julgamento. São Tomás de Aquino faz uma leitura mais alegórica deste gesto de Jesus e assim vê nele a diferença da lei antiga com a nova lei. Enquanto que no monte Sinai Deus tinha escrito pelo seu próprio dedo os dez mandamentos nas tábuas de pedra apresentadas por Moisés, agora o filho escreve no pó com o seu próprio dedo. A pedra significava a dureza da lei, da antiga lei, o pó no qual Jesus escreve significa a suavidade e a leveza da nova lei de Jesus Cristo (São Tomás, Comentário ao Evangelho de João 1131). Jesus ao escrever no chão pronuncia uma palavra que não é formalmente um julgamento, um juízo dele sobre eles, mas que inevitavelmente os remete para o tribunal individual da consciência, os remete para o confronto com a verdade. Quem não tiver pecados que atire a primeira pedra, ou seja, considere-se cada um a si mesmo, entre em si mesmo, ascenda ao tribunal da sua consciência, obrigue-se a confessar, pois sabe quem é, porque nenhum dos homens sabe o que é o homem senão o espírito do homem que está nele (1 Cor. 2,11). E um a um começaram a sair, deixando a mulher apenas com Jesus. A armadilha quebrou-se e tanto a mulher como Jesus ficaram livres, ela para receber o perdão de Deus, ele para o poder dar e resgatar aquela mulher da sua condição de pecadora. Também nós, o que há em nós de velho e viciado necessita sair para que se possa operar o perdão. Abandonemo-nos à graça e à misericórdia de Jesus. frei José Carlos Lopes Almeida |
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Mulheres em caminho Recriar o encontro de 15 mulheres do Evangelho com Cristo foi o que fez a escritora e jornalista Marta Nin, no livro Mujeres en camino. - Por que relatar o encontro de 15 mulheres do Evangelho com Jesus? – Em um primeiro momento queria escrever um livro sobre Marta, porque eu também tenho este nome. Quando era jovem, meu nome me parecia muito banal, porque minha geração estava cheia de “Martas”. Um dia, um amigo disse-me que o Evangelho de João dizia: “Jesus amava Marta”. Isso me chegou à alma, porque pensava que não havia nenhuma citação no Evangelho que dizia que Jesus apreciava tanto alguém ao ponto de usar o verbo amar. A partir desse momento, reconciliei-me com meu nome e me aproximei de Marta de Betânia. É a figura de que a tradição exegética fez um estereótipo, junto com Maria: Marta a ativa e Maria a contemplativa. Mas a mim parecia uma figura muito mais rica. Pensei então em escrever um livro que fosse sobre Jesus visto com os olhos de Marta. A inspiração inicial foi essa, mas logo me vieram outras mulheres. A partir daí saíram 15 relatos. – No livro, faz várias vezes referência à gratuidade com que Cristo trata as mulheres. É o ponto que fazia com que elas se colocassem “a caminho”? – Sim. Seguramente, a diferença de Jesus, a novidade do cristianismo, é a gratuidade do amor. É um amor que não discrimina. Jesus, contrariamente ao que ocorria em sua época, ama a todos, de forma igual, sejamos mulheres, prostitutas, leprosos, pecadores... Inclusive parece haver uma predileção pelos que estão mais distantes. Jesus nos convida a esta gratuidade. Nisso Jesus se faz mestre. Precisamente o que Ele prega é o que vive, pois se entrega por todos. Isso é o que cativa: um amor assim muda a vida. E é o que acontece também com estas mulheres. Quando elas fazem a experiência desse amor, não podem seguir como antes. – Além da gratuidade, há alguma outra característica que se repete quando as mulheres se encontram com Jesus? – Seu olhar para elas, o fato de não julgá-las. Isso é muito difícil também, porque humanamente todos temos a tendência de julgar o outro, inclusive a condená-lo, ainda que seja só mentalmente. Jesus não coloca etiquetas. Há que pedir-lhe que nos ajude a não julgar. Mas isso não significa não ter espírito crítico. Ainda que alguém cometa uma ação má, é preciso aproximar-se dessa pessoa, acompanhá-la e amá-la, sem esperar nada em troca. Esse amor é o que desarma. – Ao ler o livro, alguém pode-se sentir identificado com alguma das mulheres, ou com todas... Há alguma de quem se sinta mais próxima? – Todas estas mulheres têm algo de mim. Mas não só estas mulheres, mas todos os personagens do Evangelho, precisamente porque é Palavra Viva. Todas são situações pelas quais passamos. Não iguais de maneira concreta, como a prostituição, ainda que haverá mulheres que passaram por isso. Quando escrevi o relato da prostituta, tentei me colocar em seu papel, sobretudo no desejo de ser amada, que é o desejo de todos. Afinal, só há um amor que preenche para sempre: o amor de Jesus. – Qual foi o relato mais difícil de escrever? – O de Maria, porque me custava colocar em seu papel, já que temia desfigurá-la ou equivocar-me, porque no livro tudo são recriações, mas recriar sobre Maria me exigia muito respeito. Inspirei-me em uma frase de Bento XVI que fala de que Maria é a casa da Palavra de Deus. – Pelo título e conteúdo pode-se pensar que o livro tem uma intenção feminista. É assim? – Não. Queria dar um nome a essas mulheres, porque eu sou mulher e creio que a mulher no início do cristianismo tinha um papel importante, pois Jesus as resgatou da marginalização em que se encontravam em sua época, mas isso logo se foi perdendo. Como a Palavra de Deus foi escrita por homens e transmitida em sua maioria por homens eruditos, a pessoa da mulher ficou um pouco diluída, e isso sim me interessava, mas tentei não fazer uma hermenêutica teológica, pois minha releitura é sobretudo literária e narrativa. www.zenit.org |