5º DOMINGO DE PÁSCOA

ano C

 

A fé em Jesus Cristo ressuscitado nos dá a certeza de sua presença no meio de nós. Ele nos oferece o caminho da plena realização humana, dando-nos o mandamento novo. Pelo amor uns aos outros, revelamos que somos discípulos de Jesus (evangelho). Ele nos amou primeiro, entregou sua vida pelo resgate da dignidade de todos os seres humanos. Essa boa notícia precisa ser acolhida e anunciada com entusiasmo. Todo discípulo é também missionário. O discípulo missionário vive e orienta sua vida comunitariamente (I leitura). Uma comunidade de amor torna-se espaço sagrado, pois aí mora Deus. Toda a humanidade é chamada a viver de modo a respeitar a presença de Deus, que, definitivamente, estabeleceu sua tenda no mundo. Sua presença transforma todas as coisas. A utopia de um novo céu e uma nova terra torna-se realidade (II leitura). Acolher essa verdade implica viver e promover novas relações entre nós, seres humanos, com a natureza e com todo o universo.

Evangelho (Jo 13,31-33a.34-35): O estatuto da nova comunidade

Este texto está situado logo após o relato do lava-pés e do anúncio da traição de Judas. No lava-pés, durante a Ceia, Jesus dá o exemplo do que significa amar. Respeita a liberdade do ser humano, mesmo que isso implique prejuízo da própria vida. Ele a entrega também para o seu traidor. O amor de Jesus não julga, não usa de violência nem condena. O fruto desse seu amor livre e radical consiste na salvação do mundo. Esse amor, puro dom, deve ser entendido e posto em prática por seus discípulos.

A glória de Deus manifesta-se em Jesus, seu Filho encarnado, que realiza em plenitude o projeto do Pai. O amor infinito de Deus é comunicado a toda a humanidade por meio de Jesus. O advérbio “agora” refere-se aos últimos acontecimentos da vida de Jesus. Paradoxalmente, em sua morte manifesta-se sua glória e a do Pai. Em 12,23-24 Jesus anunciara: “É chegada a hora em que será glorificado o Filho do homem. Em verdade, em verdade vos digo: se o grão de trigo que cai na terra não morrer, permanecerá só; mas, se morrer, produzirá muito fruto”. O “agora” (a hora de Jesus) supera o sentido cronológico, para indicar a maneira pela qual Jesus cumpre fielmente a missão a ele confiada pelo Pai. Ambos vivem em total intimidade, ambos são glorificados pela entrega da vida que Jesus faz, livre e conscientemente, em resgate da vida de todos (vv. 31-32).

Ao anunciar aos discípulos a sua partida iminente, Jesus enfatiza o que deve caracterizar a vida da comunidade de fé. O amor que ele manifestou, na fidelidade ao Pai, com todas as suas consequências, deve ser a nota distintiva dos seus seguidores. O novo mandamento do amor é a síntese de toda a Lei da Nova Aliança. Constitui o estatuto que fundamenta a comunidade cristã. É importante prestar atenção na partícula “como”. Amar como Jesus amou é viver cotidianamente a atitude de serviço. Lembremo-nos que esse novo mandamento é formulado no contexto do lava-pés. O amor estende-se também aos inimigos. Mesmo traído por um membro do seu grupo íntimo, Jesus não entra no jogo da vingança, da violência e do ódio. Ele respeita a liberdade alheia e permanece em atitude de amor-serviço. Os discípulos estão convidados a amar como o Mestre.

1º leitura (At. 14,21b-27): O cuidado com a comunidade

O episódio situa-se no contexto da primeira viagem missionária de Paulo e Barnabé. Estão no caminho de volta para Antioquia da Síria, de onde partiram como delegados daquela comunidade cristã. Em cada local por onde passam, os missionários organizam uma Igreja, formada pelas pessoas que aderem à fé em Jesus Cristo. Sempre que possível, visitam as comunidades, para “confirmar o coração dos discípulos, exortando-os a permanecerem na fé”, mesmo no meio de conflitos de toda ordem. Designam “anciãos” (presbíteros), lideranças responsáveis pela animação da comunidade, tendo em vista a fidelidade ao evangelho aí anunciado. Em cada Igreja, estabelecem uma estrutura básica para assegurar a perseverança no caminho de Jesus.

Esse cuidado expresso pelos missionários revela profunda convicção da verdade anunciada, Jesus Cristo, o Salvador. Em vista desse anúncio, enfrentam todo tipo de tribulação. Atentando para a experiência vivida ao longo dessa primeira viagem, Paulo e Barnabé preocupam-se com os novos convertidos, a fim de que se mantenham fiéis à verdade que, de agora em diante, deve governar a vida da comunidade. Os recém-convertidos, certamente, ainda necessitam de uma catequese mais profunda, e, além disso, sua adesão ao novo caminho deve ter provocado incompreensões e até cisões na própria família. Outrossim, num mundo onde proliferavam doutrinas e filosofias diversas, como era o greco-romano, faziam-se necessárias orientações claras para que o evangelho não fosse deturpado ou manipulado.

Viver na fidelidade a Jesus Cristo é como “remar contra a corrente” das ideologias dominantes. A fidelidade à Verdade pode provocar tribulações. O sofrimento, porém, longe de levar ao desânimo, deve tornar o discípulo ainda mais fortalecido em sua opção pelo reino de Deus. Para isso, a oração em comum e a solidariedade fraterna são fundamentais.

2º leitura (Ap. 21,1-5a): Um novo céu e uma nova terra

Este texto tem ligação com os primeiros capítulos do Gênesis. Refere-se a uma nova criação. É o anúncio da era messiânica. A antiga ordem, alicerçada no mal, passará. O mar, morada do dragão da maldade, vai desaparecer. Não se trata, logicamente, do mar físico, mas do símbolo do caos construído pelos que seguem o projeto de Satanás – que, no caso das comunidades do Apocalipse, se refere ao império romano.

Esta nova ordem social – o novo céu e a nova terra – é fruto da intervenção divina. O Criador de todas as coisas, conforme descrito no início do primeiro livro da Bíblia, é também aquele que renova todas as coisas, conforme descreve o último livro. Ambos os relatos não se opõem, mas completam-se. O relato do Gênesis revela o rosto de Deus criador, que convive com suas criaturas e dialoga com o ser humano; do mesmo modo, o Apocalipse resgata essa feliz realidade da presença de Deus que recria e transforma.

A tenda definitiva nesta cidade santa – a Jerusalém nova – relembra a ação de Javé na caminhada do êxodo, conduzindo o povo de Israel para longe da escravidão do império egípcio. Agora, as comunidades cristãs, em meio à violenta opressão do império romano, iluminadas pela manifestação de Deus na tradição judaico-cristã, vislumbram a certeza da libertação definitiva.

O mundo sem males sempre motivou a caminhada do povo de Deus, sobretudo em contextos sociopolíticos caracterizados pelo autoritarismo, pela escravidão e pela exclusão da maioria. A monarquia israelita e os diversos domínios externos (babilônico, persa, grego e romano) são demonstrações mais que suficientes do poder do mal. Apesar de sua força e de suas pretensões, não poderão, porém, impedir a vinda do novo tempo da justiça e da paz. A tradição profética, de maneira especial, levantou continuamente a perspectiva da esperança militante, animando o povo à fidelidade à aliança (cf., por exemplo, Jr 31,31-34 e Is 65,17-25). Mas, sempre que essa fidelidade é rompida, Deus demonstra sua justiça e sua misericórdia, oferecendo gratuitamente a salvação. A expressão máxima da salvação divina revelou-se em seu Filho, Jesus Cristo, o Cordeiro que tira o pecado do mundo.

PISTAS PARA REFLEXÃO

Jesus, antes de formular o estatuto da nova comunidade – o mandamento do amor –, viveu exemplarmente. O lava-pés caracteriza-se como a atitude-síntese de toda a vida de Jesus: ele veio para servir e não para ser servido. Seu testemunho de vida se dá junto à pequena comunidade constituída pelos apóstolos; eles deverão viver esse mandamento como condição para serem reconhecidos como seguidores de Jesus. Como fez o Mestre, os discípulos são chamados à opção radical pelo amor até a extrema fidelidade: dar a vida por quem se ama. Nisso consiste a glória de Deus.

Paulo é um dos que optaram por esse amor radical. Como discípulo missionário, põe-se a serviço da organização e da animação de comunidades cristãs. Participa de uma comunidade concreta – Antioquia da Síria – e é enviado com Barnabé para a missão. Ambos enfrentam todo tipo de conflitos e tribulações, mas não se deixam abater, pois são movidos por profunda convicção de fé. O sofrimento por causa da fidelidade ao evangelho pode ser importante fator que nos faz sair da superficialidade e entender o verdadeiro significado do seguimento de Jesus.

As comunidades do Apocalipse dão seu testemunho de fé e esperança no meio da opressão do império romano. Ligando a realidade com a Sagrada Escritura, professam sua fé na presença permanente e dinâmica de Deus, que fez sua tenda no meio de nós e renova todas as coisas.

Enfrentamos hoje muitos desafios. Também nós, como discípulos missionários de Jesus, somos convidados a manter a fidelidade ao mandamento do amor em forma de solidariedade e apoio mútuo, em serviços concretos a partir da nossa comunidade de fé. A certeza da presença de Deus em nosso meio nos faz colaborar com sua graça na construção de um mundo justo e fraterno.

–Ao refletir sobre o amor como o estatuto da comunidade, podem-se recordar as prioridades pastorais na paróquia, pois são expressões concretas do nosso amor diante dos desafios da realidade em que vivemos...

Celso Loraschi

 

O livro aos Hebreus nos apresenta o êxito missionário de Paulo e Barnabé entre os gentios, pois “Deus havia aberto a porta aos não judeus para que eles pudessem crer” (v. 27). Seu zelo missionário seria fonte dessa propagação do Evangelho que, entendendo-se ao amplo mundo “gentio”, chegaria até nós.

Por sua parte, o vidente de Patmos, alenta a nossa esperança com sua magnífica visão de “um novo céu e uma nova terra” como a grande meta de nossos esforços por transformar a realidade de morte que nos rodeia e redimir o mundo com a envolvente força vital do Ressuscitado. Uma nova realidade de justiça, paz e amor fraterno fará surgir “a nova Jerusalém que descia do céu, de junto de Deus e enfeitada como uma noiva”. É a esperança maravilhosa que podemos enaltecer diante dos catastrofistas de plantão, que nos ameaçam com a destruição inexorável do mundo, baseados em supostas profecias que em nada condizem com as promessas da Nova Aliança, selada por Cristo com sua paixão e seu triunfo sobre a morte. “Esta é a morada de Deus com os homens – diz o entusiasta João -; acampará entre eles. Serão seu povo e Deus estará com eles. Enxugará as lágrimas de seus olhos. Já não haverá morte, nem luto, nem pranto, nem dor. Porque o primeiro mundo passou. O que estava sentado sobre o trono disse: Agora faço o universo novo”.

O Evangelho nos apresenta alguns versículos do grande discurso de despedida de Jesus na noite da Ceia, onde o Mestre entrega seu testamento espiritual aos discípulos: amor como sinal visível da adesão de seus discípulos a ele e da vivencia real e efetiva da fraternidade. O mundo poderá identificar de que comunidade se trata se os discípulos guardam entre si este mandamento do amor. Jesus resgata a Lei, porém coloca-a como meio de cumprimento do amor; quem ama demonstra que está cumprindo com os demais preceitos da Lei. É possível que na comunidade primitiva se estivesse discutindo qual deveria ser o seu destino próprio e inequívoco. Para isso apelam para as mesmas palavras de Jesus. Em um mundo carregado de egoísmo, de invejas, rancores e ódios, a comunidade é chamada a dar testemunho de outra realidade completamente nova e distinta: o testemunho do amor.

Uma das principais causas pelas quais tantos cristãos abandonam a Igreja está justamente na falta de um testemunho muito mais aberto e decidido a respeito do amor. Com muita freqüência nossas comunidades são verdadeiros campos de batalha onde nos enfrentamos uns com os outros; temos dificuldade em reconhecer no outro a imagem de Deus. E isso afeta a fé a boa vontade de muitos crentes.

Por certo, não é que nossas comunidades sejam totalmente alheias ao conflito, não é isso; o conflito é necessário em certa medida, porque a partir dele se pode criar um ambiente de discernimento, de acrisolamento da fé e das convicções mais profundas a respeito do Evangelho; no conflito – levado com respeito e amor cristão mútuo – aprendemos justamente o valor da tolerância, do respeito e da diversidade, e o melhoramento de nossa maneira de entender e praticar o amor.

Do conflito assim entendido, - inevitável onde há mais de uma pessoa -, é possível criar espaço para construir e crescer. Para isso é necessária a fé, a abertura à mudança e, sobretudo, a disposição de deixar-se plenificar da forca viva de Jesus. Somente nessa medida nossa vida humana e cristã vai adquirindo cada vez maior sentido e vai convertendo-se em testemunho autêntico de evangelização.

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AMBIENTE

Estamos na fase final da caminhada histórica do “Messias”. Aproxima-se a “Hora”, o momento em que vai nascer – a partir do testemunho do amor total cumprido na cruz – o Homem Novo e a nova comunidade.

O contexto em que este trecho nos coloca é o de uma ceia, na qual Jesus Se despede dos discípulos e lhes deixa as últimas recomendações. Jesus acabou de lavar os pés aos discípulos (cf. Jo 13,1-20) e de anunciar à comunidade desconcertada a traição de um do grupo (cf. Jo 13,21-30); nesses quadros, está presente o seu amor (que se faz serviço simples e humilde no episódio da lavagem dos pés e que se faz amor que não julga, que não condena, que não limita a liberdade e que se dirige até ao inimigo mortal, na referência a Judas, o traidor). Em seguida, Jesus vai dirigir aos discípulos palavras de despedida; essas suas palavras – resumo coerente de uma vida feita de amor e partilha – soam a testamento final. Trata-se de um momento muito solene; é a altura em que não há tempo nem disposição para “conversa fiada”: aproxima-se o fim e é preciso recordar aos discípulos aquilo que é mesmo fundamental na proposta cristã.

MENSAGEM

O texto divide-se em duas partes. Na primeira parte (vs. 31-32), Jesus interpreta a saída de Judas, que acabou de deixar a sala onde o grupo está reunido, para ir entregar o “mestre” aos seus inimigos. A morte é, portanto, uma realidade bem próxima… Jesus explica, na sequência, que a sua morte na cruz será a manifestação da sua glória e da glória do Pai. O termo grego “doxa” aqui utilizado traduz o hebraico “kabod” que pode entender-se como “riqueza”, “esplendor”. A “riqueza”, o “esplendor” do Pai e de Jesus manifesta-se, portanto, no amor que se dá até ao extremo, até ao dom total. É que a “glória” do Pai e de Jesus não se manifesta no triunfo espetacular ou na violência que aniquila os maus, mas manifesta-se na vida dada, no amor oferecido até ao extremo. A entrega de Jesus na cruz vai manifestar a todos os homens a lógica de Deus e mostrar a todos como Deus é: amor radical, que se faz dom até às últimas consequências.

Na segunda parte (vs. 33a.34-35) temos, então, a apresentação do “mandamento novo”. Começa com a expressão “meus filhos” (vs. 33a) – o que nos coloca num quadro de solene emoção e nos leva ao “testamento” de um pai que, à beira da morte, transmite aos seus filhos a sua sabedoria de vida e aquilo que é verdadeiramente fundamental.

Qual é, portanto, a última palavra de Jesus aos seus, o seu ensinamento fundamental?

“Amai-vos uns aos outros. Como Eu vos amei, vós deveis também amar-vos uns aos outros”. O verbo “agapaô” (“amar”) aqui utilizado define, em João, o amor que faz dom de si, o amor até ao extremo, o amor que não guarda nada para si mas é entrega total e absoluta. O ponto de referência no amor é o próprio Jesus (“como Eu vos tenho amado”); as duas cenas precedentes (lavagem dos pés aos discípulos e despedida de Judas) definem a qualidade desse amor que Jesus pede aos seus: “amar” consiste em acolher, em pôr-se ao serviço dos outros, em dar-lhes dignidade e liberdade pelo amor (lavagem dos pés), e isso sem limites nem discriminação alguma, respeitando absolutamente a liberdade do outro (episódio de Judas). Jesus é a norma, não com palavras, mas com atos; mas agora traduz em palavras os seus atos precedentes, para que os discípulos tenham uma referência.

O amor (igual ao de Jesus) que os discípulos manifestam entre si será visível para todos os homens (vs. 35). Esse será o distintivo da comunidade de Jesus. Os discípulos de Jesus não são os depositários de uma doutrina ou de uma ideologia, ou os observantes de leis, ou os fiéis cumpridores de ritos; mas são aqueles que, pelo amor que partilham, vão ser um sinal vivo do Deus que ama. Pelo amor, eles serão no mundo sinal do Pai.

À ESCUTA DA PALAVRA

“Dou-vos um mandamento novo: que vos ameis uns aos outros. Que bela novidade! Como se fosse Jesus a inventar o amor! Os homens e as mulheres não esperaram que Jesus viesse para saber um pouco o sentido da palavra “amor” e do verbo “amar”! Aliás, o mandamento de “amar o seu próximo como a si mesmo” encontra-se já no livro do Levítico. Então, como compreender esta “novidade”? O próprio Jesus dá-nos a chave: “Como Eu vos amei, amai-vos também uns aos outros”. Só olhando Jesus saberemos como Ele nos amou. A sua própria vida é uma prática desta palavra. E isto vai para além daquilo que, humanamente, podemos fazer. Ele diz-nos para perdoar setenta vezes sete, isto é, sem colocar qualquer limite ao perdão. “Amai os vossos inimigos e rezai pelos vossos perseguidores”… “Pai, perdoai-lhes porque não sabem o que fazem”… São João escreve que “tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até ao fim”, isto é, até à plenitude do amor cuja Fonte é o seu Pai. Sim, a maneira de Jesus nos amar ultrapassa a nossa maneira de amar. Neste sentido, o amor que Ele nos convida a viver entre nós é mesmo novo! Mas há mais! Porque as exigências de um tal amor podem parecer desmedidas, fora do nosso alcance e deixar-nos no desespero: nunca chegaremos aí! Ora, é preciso compreender bem o “como Eu vos amei”. Jesus não nos diz: “Eu amei-vos. Agora, desenrascai-vos, fazei esforço para Me imitar!” Ele diz-nos: “Porque Eu, que vos amo e vos dou o amor infinito do Pai, deixai-vos amar, como uma criança que se deixa tomar nos braços da sua mãe e do seu pai. Vinde até Mim. Aquele que vem até Mim, não o abandonarei. Então, poderei derramar em vós a força do próprio Amor que é Deus. Assim, encontrareis a força para ir para além das capacidades humanas, podereis, dia após dia, aprender a amar-vos como Eu vos amo”. Sim, Senhor, quero ir junto de Ti, porque tens as palavras da vida eterna.

CONCLUSÃO

31-32. A saída de Judas da Ceia para concretizar a prisão de Jesus, dando início à sua Paixão, aparece como o início da sua glorificação. É que a Paixão e a Morte do Senhor não é urna derrota, mas é uma vitória sobre o demónio e o pecado. Por outro lado, se temos em conta que o verbo glorificar, sobretudo na forma médio-passiva, como é este o caso, tem um sentido manifestativo, em vez de "agora foi glorificado..." poderia traduzir-se: "agora é que se revela a glória..." (cf. Jo 12,23; 17,1-5). Sendo assim, o texto indica que na Paixão-Morte-Ressurreição se mostra a glória de Cristo, ao dar, por meio da sua morte, a vida eterna e o Espírito Santo aos que crêem.

      34-35 A lei do amor fraterno não era uma novidade (cf. Lv. 19,18), mas Jesus dá-lhe um sentido e uma medida nova, que não é apenas a medida dum coração humano, mas a do coração de Cristo ("como Eu vos amei"), que entrega a sua vida pela redenção de todos (cf. 1 Jo 4,9-11); segundo conta Tertuliano (Apolog. 39), os primeiros cristãos tomaram tão a sério estas palavras do Senhor, que os pagãos exclamavam admirados: "vede como eles se amam!" (cf. Jo 15, 12.13.17; 1 Jo 2,8; Mt 22,39; Jo 17,23; At 4,32). Por outro lado, "o mandamento novo" sugere a Nova Aliança, pois então a Lei e a Aliança se consideravam duas noções paralelas, atuando Jesus não como um simples intermediário de Deus, à maneira de Moisés, mas com uma autoridade própria e em seu nome próprio, ao dizer: "Eu dou-vos um mandamento...".

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Durante todo o tempo pascal a Igreja nos faz contemplar o Ressuscitado e o fruto da sua obra: o dom do Espírito, a nossa santificação, os sacramentos que nascem do seu lado aberto, a Igreja, sua Esposa, desposada no leito da cruz...

Hoje, precisamente, é para a Igreja, comunidade nascida da morte e ressurreição de Cristo, que a Palavra de Deus orienta o nosso olhar.

Primeiramente, é necessário que se diga sem arrodeios: Cristo sonhou com a Igreja, a amou e fundou-a. A Igreja, portanto, é obra do Cristo, foi por ele fundada e a ele pertence! Ela não se pertence a si mesma, não se pode fundar a si própria, não pode estabelecer ela própria a sua verdade. Tudo nela deve referir-se a Cristo e a ele deve conduzir! Mas, há mais: não é muito preciso, não é muito correto dizer que Cristo “fundou” a Igreja. Não! A fundação da Igreja não terminou ainda: Cristo continua fundando, Cristo funda-a ainda hoje, ainda agora, nesta Eucaristia sagrada! Continuamente, o Cordeiro de pé como que imolado, Cabeça da Igreja que é o seu Corpo, funda, renova, sustenta, santifica, sua dileta Esposa pela Palavra e pelos sacramentos: “Cristo amou a Igreja e se entregou por ela, a fim de purificá-la com o banho da água e santificá-la pela Palavra, para apresentá-la a si mesmo a Igreja, gloriosa, se mancha nem ruga, ou coisa semelhante, mas santa e irrepreensível!” (Ef 5,25-27). São afirmações impressionantes, belas, profundas: (1) Cristo amou a sua Igreja e, por ela, morreu e ressuscitou; (2) pela sua morte e ressurreição, de amor infinito, ele purifica continuamente a sua Igreja, santifica-a totalmente, sem desfalecer. Por isso a Igreja é santa, será sempre santa e não poderá jamais perder tal santidade, apesar das infidelidades de seus membros! (3) Este processo de contínua fundação e santificação da Igreja em Cristo dá-se pelo “banho da água” – símbolo do Batismo e dos sacramentos em geral – e pela “Palavra” – símbolo da pregação do Evangelho. Então, Cristo continua edificando sua Igreja neste mundo pela Palavra e pelos sacramentos, sobretudo o Batismo e a Eucaristia. A Igreja não se pertence: ela é de Cristo! E, como esposa de Cristo, é nossa Mãe: ela nos gerou para Cristo no Batismo, para Cristo ela nos alimenta na Eucaristia e de Cristo ela nos fala na sua pregação! Ela é a nossa Mãe católica, desposada pelo Cordeiro imolado na sua Páscoa, como diz o Apocalipse: “estão para realizar-se as núpcias do Cordeiro e sua Esposa já está pronta: concederam-lhe vestir-se com linho puro, resplandecente!” (19,7s).

Pois bem, esta Igreja, tão amada por Cristo, tão nossa Mãe, deve caminhar neste mundo nas dores de parto. Temos um exemplo disso na primeira leitura da Missa de hoje. Paulo e Barnabé vão animando as comunidades, “encorajando os discípulos ... a permaneceram firmes na fé”, pois “é preciso que passemos por muitos sofrimentos para entrar no Reino de Deus”. Assim caminha o Povo de Deus, Comunidade fundada por Cristo e vivificada pelo seu Espírito: entre as tribulações do mundo e as consolações de Deus. Muitas vezes, a Igreja enfrentará dificuldades por parte de seus inimigos externos – aqueles que a perseguem direta ou veladamente, aqueles que desejam o seu fim e, vendo-a com antipatia, trabalham para difamá-la. Mas, também, muitas vezes, a provação vem de dentro da própria Igreja: das fraquezas de seus membros, dos escândalos provocados pela humana fraqueza daqueles que deveriam dar exemplo de uma vida nova em Cristo Jesus. Se é verdade que isto não fere a santidade da Igreja - porque essa santidade vem de Cristo e não de nós -, por outro lado, é verdade também que nossos escândalos e maus exemplos atrapalham e muito a credibilidade do nosso anúncio do Evangelho e a credibilidade do próprio Evangelho como força que renova a humanidade! Infelizmente, enquanto o mundo for mundo, enquanto a Igreja estiver a caminho, experimentará em si a debilidade de seus membros. Assim, foi no grupo dos Doze, assim, nas comunidades do Novo Testamento, assim é hoje. É interessante que o Evangelho de hoje começa com Judas, o nosso irmão, que traiu o Senhor, saindo do Cenáculo, saindo do grupo dos Doze, saindo da Comunidade: “Depois que Judas saiu do cenáculo”... – são as primeiras palavras do Evangelho... E, no entanto, apesar da fraqueza de Judas e dos Doze, apesar da nossa fraqueza, Jesus continua nos amando e crendo em nós: “Eu vos dou um novo mandamento: amai-vos uns aos outros. Como eu vos amei, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros. Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns pelos outros”. Não tenhamos medo, não desanimemos, não nos escandalizemos: o Senhor está conosco, ama-nos, porque somos o seu rebanho, as suas ovelhas, a sua Igreja. Ama-nos e derramou sobre nós o seu amor e sua força que é o Espírito Santo!

Se agora vivemos entre tribulações e desafios, nossa esperança é firmemente alicerçada em Cristo; nele, venceremos, nele, a Mãe católica, um dia, triunfará, totalmente glorificada e tendo em seu regaço materno toda a humanidade. Ouçamos – é comovente: “Vi um n ovo céu e uma nova terra... O primeiro céu e a primeira terra passaram e o mar já não existe” – o Senhor nos promete um mundo renovado, sem a marca do pecado, simbolizado pelo mar. “Vi a Cidade santa, a nova Jerusalém, que descia do céu, de junto de Deus, vestida qual esposa enfeitada para o seu marido”. - É a Igreja, totalmente renovada pela graça de Cristo, totalmente Esposa, numa eterna aliança de amor, realizada na Páscoa e consumada no fim dos tempos! “Esta é a morada de Deus entre os homens. Deus vai morar no meio deles. Eles serão seu povo, e o próprio Deus estará com eles”. - A Igreja é o “lugar”, o “espaço” onde o Reino acontece visivelmente: Deus, em Cristo, habita no nosso meio e será sempre “Deus-com-eles”, Deus-conosco, Emanuel! “Deus enxugará toda lágrima dos seus olhos. A morte não existirá mais, e não haverá mais luto, nem choro, nem dor, nem morte, porque passou o que havia antes. Aquele que está sentado no trono disse: ‘Eis que eu faço novas todas as coisas’”.

Olhem para mim, olhem-se uns para os outros! Somos a cara da Igreja, o cheiro da Igreja, a fisionomia da Igreja, a fraqueza e a força, a fidelidade e a infidelidade, a glória e a vergonha da Igreja! Tão pobre, tão frágil, tão deste mundo... mas também tão destinada à glória, tão divina, tão santa, tão católica, tão de Cristo! Coragem! Vivamos profundamente nossa vida de Igreja; é o único modo de ser cristão como Cristo sonhou! Soframos as dores e desafios da Igreja agora, para sermos partícipes da vitória que Cristo dará a Igreja na glória! Como diz o Apocalipse, "estas palavras são dignas de fé e verdadeiras”.

 dom Henrique Soares da Costa

 

O Evangelho de hoje não nos deixa a menor dúvida: o que não podemos mais dar ao Cristo em pessoa, podemos Lhe dar amando-nos uns aos outros, na pessoa de nossos irmãos que são seus irmãos. O evangelista na sua carta reitera: “Se alguém diz que ama a Deus, mas odeia o irmão, mente; pois se não ama seu irmão a quem vê, não pode amar a Deus a quem não vê” (1 Jo 4, 20).

O mandamento do amor é um dom e uma novidade. O dom de amar como Ele nos amou e a novidade de poder darmos, nós mesmos, a própria vida”. Viver, amar e obedecer são as três dimensões da água superabundante que brota do “seio do Pai” por meio de Jesus, o Filho Amado e transborda até nós.

Cumprir o mandamento novo é escutar a Palavra que nos transforma de amados em amantes. E como na Bíblia “escutar” nunca é separado do “ver”, veremos tanto melhor quanto mais o que escutarmos nos conduzir. Amaremos tanto melhor quanto mais na luz estiverem os nossos olhos para ver os que necessitam ser amados.

Fez-se noite quando Judas “apenas tomou o bocado” e saiu da ceia sem compartilhar o pão e beber o vinho (Jo 13,30). Aquele que não partilha e se apropria da parte que lhe cabe é o que deixa entrar nele Satanás: “Atrás do bocado, entrou nele Satanás” (Jo 13,27). É Jesus com a sua entrega amorosa que faz nascer o dia desta nova Criação, como na Criação primeira. E nos deixa o Amor como Pessoa; e nos deixa o Amor em sua ausência presente, pois é um Amor que Nele nos tornará presentes, uns aos outros.

Jesus nos pede que sejamos para o mundo frutos do seu Espírito e uma prova da sua presença viva: “O fruto do Espírito é amor, alegria, paz, paciência, amabilidade, bondade, fidelidade, modéstia (...) Se vivemos pelo Espírito, sigamos o Espírito; não sejamos vaidosos, provocadores, invejosos” (Gl. 5, 22.25).

Tudo o que for contrário a isto não é fruto do seu Espírito, mas do espírito de Satanás vivo e atuante na traição daqueles que o servem no ressentimento e no rancor.

Nenhum outro sinal, fora o do amor fraterno, poderá convencer o mundo da verdade e da necessidade da pessoa do Cristo e dos seus ensinamentos. João Crisóstomo pregava: “Os cristãos não teriam convertido o mundo se não tivessem amado tanto”. O amor é um protesto da ternura de Deus contra a indiferença que pode nos devorar e consumir.

Meditemos o que nos exortava frei Bernardo Catão op., em 1965, ecoando os ensinamentos do Vaticano II: “A Igreja em todos os tempos e lugares deverá sempre procurar ser essa comunidade aberta, sem fronteiras, dócil ao Espírito Santo e a serviço dos homens, para levar até os confins da terra o testemunho de Jesus”.

Somos os executores testamentários de Jesus no seu legado de amor. Somos e deveremos ser sempre o seu próprio testamento, pois, desde a sua Ressurreição, deveremos ser seus “testemunhos até os confins do mundo” (At 1,8)

Manos da Terna Solidão

 

“Cantai ao Senhor um canto novo, porque ele fez maravilhas;

e revelou sua justiça diante das nações, aleluia!” (cf. Sl 97, 1s).

Estamos caminhando neste tempo espiritual de muita paz e presença constante do Senhor Ressuscitado em nosso Meio: Ele Está no Meio de Nós!”.

Jesus está no meio de nós para “fazer novas todas as coisas”(cf. Ap 21, 5). Novo é uma palavra mágica, que domina a publicidade e os jornais, mas também traduz a esperança que se expressa em numerosas páginas das Sagradas Escrituras. O entendimento do cristianismo é baseado na sucessão da antiga e da nova Aliança, do antigo e do novo Povo de Deus. E, também, na passagem da antiga para a nova vida e na observância de uma nova Lei em vez da antiga observância. Páscoa é o tempo de renovação, de renovação que nos santifica e nos coloca mais próximos de Deus. Assim a liturgia de hoje nos pede e nos coloca diante de um novo céu e uma nova terra, uma nova Jerusalém e uma nova criação. Tudo redimido e recriado pela paixão, morte e ressurreição de Cristo!
A Primeira Leitura(cf. At 14,21-27) nos apresenta a obra de Deus em Paulo e Barnabé. Essa leitura poderia ser considerada como uma conclusão e um relatório da primeira viagem missionária de Paulo. Na viagem de volta, visitam de novo as jovens comunidades e instituem os presbíteros.

O Evangelho de hoje fala do amor fraterno(cf. Jo 13,31-33a.34-35). Daquele amor que Cristo nos legou junto com a instituição da Eucaristia na cerimônia do Lava-pés.

O Evangelho fala da glorificação de Cristo. Se o Filho do homem age de modo a manifestar a glória de Deus, muito logo também Deus dará sua glória ao Filho. Qual é essa glória? A glória era a melhor coroa dos reis, seja pela riqueza que possuíam, seja pelo poder que exerciam ou ainda pelo brilho do reinado. Quando o Salmista canta o ser humano como rei da criação, coloca-o como um ser um “pouco inferior a Deus, coroado de brilho e esplendor, com poder sobre ovelhas e bois, animais selvagens, aves do céu e peixes do mar”(cf. Sl 8,6-9). Mas já o Antigo Testamento observava que essa glória, baseada na posse, no poder, no prestigio, é relativa e passageira: “Não te exasperes, quando alguém se torna rico, quando cresce a glória de sua casa. Ao morrer, nada levará consigo e sua glória não o acompanhará depois da morte(cf. Sl 49,17-18)”.

Quando o demônio tentou Jesus no deserto pela terceira vez, ofereceu “todos os reinos do mundo com sua glória(cf. Mt 4,8)”. Isto é, o diabo ofereceu todas as riquezas, poder e prestígio e fama. A resposta de Jesus manifesta claramente que a verdadeira glória está na adoração e no serviço do Senhor(cf. Mt 4, 10). Esse ensinamento volta muitas vezes nas pregações e nos exemplos de Jesus e, sobretudo, em seu próprio exemplo. Por isso, os pobres e os marginalizados podem dar glória a Deus e serem eles mesmos glorificados, ainda que nada tenham a não ser o desprezo da sociedade.

Jesus viveu a sua paixão e morte da forma mais elevada de glorificar a Deus, porque estava cumprindo à risca a vontade do Pai. João deixa claro que toda a paixão é um caminho de glorificação do Pai, por parte de Jesus; e de Jesus, por parte do Pai. Jesus, portanto, glorifica o Pai, salvando a humanidade com sua morte na Cruz, porque era à vontade do Pai. E o Pai glorifica a fidelidade de Jesus, salvando-o da morte, fazendo-o ressurgir e assentar-se à sua direita.

Como Jesus, os discípulos devem trilhar o mesmo caminho de Jesus. A comunidade eclesial, depois da Páscoa, não tem outra glória a buscar senão a de fazer a vontade do Pai, isto é, salvar a humanidade e fazer acontecer entre nós às alegrias eternas. E essa salvação passa necessariamente pela Cruz. Cada discípulo é convidado a dar ao Pai a mesma glória que Jesus lhe deu. Não em palavras e culto apenas. Mas na doação inteira de si mesmo em benefício de outros. O caminho do Calvário não aconteceu uma única vez com uma só vitima. Repete-se em cada discípulo, que se despoja a si mesmo, assumir a condição de servo de todos, viver solidário com todos, exatamente como fez Jesus. Todas as outras glórias são vãs e passageiras.

A Segunda Leitura(cf. Ap 21,1-5a) nos apresenta a nova criação e a nova Jerusalém. A última palavra sobre a História não é a destruição, mas a restauração da pureza inicial. O mundo embriagado pelo poder e pela cobiça é representado por “Babilônia” que foi destruída(cf. Ap. 18,21-14). Mas Deus permanece conosco: Emanuel. É a nova criação, as núpcias de Deus com seu povo.

O seguimento de Jesus é o seguimento de gratuidade, de generosidade e de amor. O amor tem que ser como Cristo glorificou o Pai, um amor gratuito, que nada pede em troca a não ser a alegria de que o Pai receba essa expressão de amor como glorificação. Não é qualquer gesto caritativo que distingue o cristão nem um amor genérico, que é mais sinônimo de gosto que de entrega.

No amor ensinado por Jesus não há lugar para simpatias e antipatias, que tanto condicionam nossos gestos. A gratuidade é uma virtude rara na sociedade de hoje, tão sensível a pagamentos e recompensas. O amor é generoso e gratuito!

Onde reina o amor, as coisas não ficam como estão. Quem quebra o “status quo”é Deus. É dele que podemos esperar a total novidade. É o que sonha o autor do Apocalipse. No fim da história, ele vê um novo céu e uma nova terra. Não tem mar, moradia do Leviatã. A nova realidade tem uma aparência de uma noiva enfeitada para seu esposo: as núpcias messiânicas. É a moradia de Deus com os homens. É a nova Aliança: eles serão seu povo e ele será seu Deus. É a plenitude do Emanuel, Deus-conosco. É a consolação completa. É tudo o que se pode esperar. É a nova criação.

Quem move a missão é Deus. Missão amorosa. Pelo mandamento novo tudo renova, Cristo e os cristãos gerarão um novo céu e uma nova terra. O desfecho deste movimento deveria acontecer em cada missa: “Ao chegarem, reuniram a Igreja e puseram-se a referir tudo que Deus tinha feito por eles”. Assim devemos também nós recolher as maravilhas de Deus realizadas nos cristãos pela vivência do mandamento novo, apresentando-as como motivo de nossa ação de graças.

Amemos sem amarras, porque Cristo quebrou todas as amarras e retratos falados. Não só amemos com palavras! Coloquemos os mesmos rogos em prática. Amém!

padre Wagner Augusto Portugal

 

Caridade fraterna

“Amai-vos uns aos outros. Como eu vos tenho amado, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros. Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros” (Jo 13,34-35). Talvez um dos propósitos do dia de hoje seja mandar fazer um quadro com essas belas palavras e colocá-lo na nossa sala de estar e, dessa maneira, lê-las frequentemente pedindo a Deus a graça de que a caridade fraterna seja uma realidade na nossa vida. É muito bonito falar do amor ao próximo. Que difícil, porém, é vivê-lo!

É muito importante que não sejamos teóricos no que se refere ao amor ao próximo. O famoso romance de Fiodor Dostoievski, Os irmãos Karamázov, também relata como uma pessoa proclamava o seu amor pela humanidade em geral: “Eu amo a humanidade, mas fico admirado comigo mesmo porque quanto mais amo a humanidade em geral diminui o meu amor às pessoas em particular, ou seja, singularmente, como simples pessoas. Sonhando, com freqüência, fiz propósitos apaixonados de servir à humanidade e, talvez, teria caminhado rumo à cruz pelas pessoas, caso fosse necessário, em algum momento. Não obstante, sou incapaz de viver com outras pessoas durante dois dias seguidos compartindo o mesmo quarto, e sei-o por experiência. Quanto me vejo perto de alguém, percebo que a sua personalidade oprime o meu amor próprio e tira a minha liberdade. Em apenas 24 horas posso chegar a odiar, inclusive a melhor pessoa do mundo: às vezes porque fica muito tempo à mesa, outras porque está gripado e tosse sem cessar”. Ainda que o texto não seja literal, é possível perceber que não é verdadeira caridade a mera possibilidade de amar a humanidade em geral e desprezar o ser humano em particular.

Estamos fartos de discursos humanitários retóricos! Gostaríamos de ver solucionada a situação das pessoas com as quais convivemos: “esse vive num barracão, aquele passa fome, fulano não tem trabalho, o outro está com depressão, os grupos estão divididos na minha paróquia, no meu grupo há uma pessoa que sempre quer destacar-se mais que os outros, há críticas… um desastre!”

Será que os não-católicos conhecem os católicos pelo amor mútuo, pela atenção caridosa, pelo carinho, pela boa educação, pela generosidade e pela disponibilidade? Para saber como se vive a caridade é preciso olhar, em primeiro lugar, para Jesus. A regra, a medida da caridade, é ele: “como eu vos tenho amado, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros”. Como Cristo amou-nos? Rebaixando-se a si mesmo, sofrendo na cruz e derramando todo o seu Sangue por nós, preocupando-se verdadeiramente com os nossos pequenos e grandes problemas etc. Assim deve ser o nosso amor aos irmãos: será preciso dedicar-lhes tempo, escutá-los, dispor-se para ajudá-los quando for preciso, ser agradecidos para com as pessoas, corrigir com fortaleza e gentileza quando necessário, viver as normas da educação e da prudência, ser discretos, compreender-lhes, sorrir também quando não se tem vontade, sacrificar-se discretamente para que os outros passem bons momentos.

E nas paróquias? Quantas rivalidades! Quantos ciúmes! Quanta inveja! Disse alguém que “Cristo mandou que nos amássemos, não que nos amassemos”. Há muitas reuniões, e pouca união! Os problemas na comunidade cristã não são novos, São Paulo escreveu aos Gálatas: “se vos mordeis e vos devorais, vede que não acabeis por vos destruirdes uns aos outros” (Gl 5,15). Porque será que os cristãos às vezes se mordem devorando-se uns aos outros? Pelo mesmo motivo que São Paulo identificou entre os gálatas: eram carnais. O que é necessário para viver a caridade? Deixar-se conduzir pelo Espírito Santo e fazer as obras do Espírito: “caridade, alegria, paz, paciência, afabilidade, bondade, fidelidade, brandura, temperança” (Gl 5,22-23). Hoje é o dia para que renovemos os bons propósitos de viver opere et veritate, com obras e na verdade, a virtude da caridade, não em geral e em abstrato, mas em particular e concretamente: na família, com o pai, com a mãe, com os irmãos, com os amigos, com o patrão, com o empregado, com o meu irmão de comunidade. Não é fácil porque as pessoas têm problemas, dificuldades, às vezes exalam mau olor, falam demasiado (e às vezes com a boca cheia) ou não falam quase nada, faz calor. Poderíamos enumerar mil e uma razões para não viver a caridade, nenhuma delas é conseqüente. Neste mês de maio, Maria Santíssima nos ensinará a viver amor a Deus e ao próximo, de verdade!

padre Françoá Rodrigues Figueiredo Costa

 

UM MANDAMENTO NOVO!

Na liturgia de hoje, uma vez mais, é proposto à nossa reflexão o mistério pascal em toda a sua extensão: desde a presença e influência do Ressuscitado na Igreja até à participação na sua glória.

O Evangelho (Jo 13,31-35) refere-se ao momento em que, após ter anunciado a traição de Judas, Jesus fala da sua glorificação como se se tratasse de uma realidade já presente, vinculada à sua Paixão: “Agora foi glorificado o Filho do Homem, e Deus foi glorificado nele” (Jo 13, 31). O contraste é chocante, mas apenas aparente; na verdade, aceitando ser traído e entregue à morte para a salvação dos homens, Jesus cumpre a missão que recebera do Pai e isto constitui o motivo preciso da sua glorificação.

Jesus continuará no meio de seus discípulos pelo amor com que os amou e que lhes deixa como herança para que vivam nele e o realizem sempre nas suas relações mútuas. “Dou-vos um novo mandamento: Amai-vos uns aos outros. Como eu vos amei, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros” (Jo 13,34). O amor recíproco, ajustado ao amor do Mestre, ou melhor, nascido dele, garante à comunidade cristã a presença de Jesus, da qual é o autêntico sinal. Ao mesmo tempo, é o distintivo dos verdadeiros cristãos: “nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns aos outros” (Jo 13,35). Assim a vida da Igreja começou amparada numa força de coesão e de expansão totalmente nova e dotada de um poder extraordinário, porque fundamentada, não no amor humano que é sempre frágil e falho, mas no amor divino: o amor de Cristo revivido nas relações mútuas dos fiéis.

O amor ao próximo já estava ordenado no Antigo Testamento (cf. Lv. 19,18), e Jesus ratifica-o, dando-lhe o lugar que lhe corresponde no conjunto da Lei: o segundo mandamento. Este é semelhante ao primeiro: amar a Deus com todo o  coração, com toda a alma e com toda a mente (cf. Mt. 22,37-40). Mas Jesus dá ao mandamento do amor fraterno um sentido e um conteúdo novos ao dizer “como Eu vos amei”. O amor ao próximo que se pedia na Antiga Lei alcançava também de algum modo os inimigos (Ex 23, 4-5); a medida do amor cristão não está no coração do homem, mas no coração de Cristo, que entrega a sua vida na Cruz pela redenção de todos (cf. 1Jo 4, 9-11). Nisto consiste a novidade do ensinamento de Jesus, e bem pode dizer o Senhor que é o seu mandamento, expressão da sua última vontade, a cláusula principal de seu testamento.

Não se pode separar o amor ao próximo do amor de Deus: “O maior mandamento da Lei é amar a Deus de todo o coração, e ao próximo como a si mesmo (cf. Mt. 22,37-40). Cristo fez deste mandamento do amor para com o próximo o seu mandamento, e enriqueceu-o com novo significado, identificando-se com os irmãos como objeto da caridade, dizendo: “o que fizestes a um destes meus irmãos mais pequeninos, a Mim o fizestes” (Mt. 25, 40).

Cristo, apesar de ser a própria pureza, a sobriedade, a humildade, não põe como distintivo para os seus seguidores nenhuma destas virtudes, mas a caridade: “O ensinamento e o exemplo do Mestre são claros e precisos. Passados vinte séculos, ainda continua a ser um mandamento novo, porque muito poucos homens se têm preocupado em colocá-lo em prática; os restantes, a maioria, preferem desconhecê-lo. Com um egoísmo exagerado, perguntam: ‘para quê mais complicações? Já me bastam as que tenho com as minhas coisas’. Não é admissível semelhante atitude entre os cristãos. Se professamos essa mesma fé, se ambicionamos verdadeiramente seguir as pegadas, tão nítidas, que os passos de Cristo deixaram na terra, não podemos conformar-nos com evitar aos outros os males que não desejamos para nós mesmos. Isto é muito, mas é muito pouco, quando compreendemos que a medida do nosso amor é definida pelo comportamento de Jesus. Além disso, Ele não nos propõe essa norma de conduta como uma meta distante, como o coroamento de toda uma vida de luta. É – e insisto que deve sê-lo para que o traduzas em propósitos concretos – o ponto de partida, por que Nosso Senhor o indica como sinal prévio: nisto conhecerão que sois Meus discípulos” (Amigos de Deus, nº 223).

Assim acontecia realmente entre os cristãos dos primeiros séculos, no meio da sociedade pagã, de modo que, como escreve Tertuliano em fins do século II, todos podiam dizer ao ver a vida daqueles fiéis: “Vede como eles se amam”.

Este amor é o segredo do zelo incansável de Paulo e de Barnabé de que nos fala a primeira leitura (At. 14,20-27).

Na Eucaristia encontramos a força para amar como Jesus nos amou. Pois, “nós amamos porque Ele nos amou primeiro” (1Jo 4,19). Acolhamos a palavra de São Paulo: “Imitai a Deus como filhos queridos, agi com amor, como Cristo vos amou…” (Ef. 5, 2).

mons. José Maria

 

EPÍSTOLA (Ap 21,1-5ª)

A NOVA JERUSALÉM: Depois de ter descrito a ruína de seus inimigos e a desaparição do mundo do pecado, o vidente de Patmos passa a descrever o triunfo da Igreja, numa visão que contrasta com a destruição e humilhação da Babilônia, ou seja, a Roma imperial. A Igreja é a nova Jerusalém que desce do céu, vestida como noiva para esposar o Cordeiro. Terminou a fase terrestre e se inicia o tempo da eternidade. A esperança agora deixa seu turno à realidade eterna e triunfante dos planos divinos. A Jerusalém do AT, material, com seu templo de pedras mortas é substituída pela nova Jerusalém em que os fiéis são as pedras vivas que formam o santuário de Deus na terra. Daí que tenhamos um novo universo: novos céus e nova terra.

NOVOS CÉUS E TERRA: Então vi céu novo e nova terra; pois o primeiro céu e a primeira terra passaram  e o mar já não existe (1). Após o juízo final, em que a morte e o lugar dos mortos [o inferno] foram relegados ao lago de fogo, onde os que não estão escritos no livro da vida foram também lançados, a terra e os céus estão purificados e obedecem ao Senhor do trono completamente. É necessária uma renovação em que o mar, essas águas que eram a base do abismo [o poder das trevas] seja suprimido. Para entender isso, é necessário saber como era o conceito do Universo nos tempos do apóstolo. Na tríplice contextura do mesmo e no primeiro andar, estavam as águas inferiores, das quais, como abismo, era príncipe o senhor do mal, Satanás. No segundo altar está a terra, com os infernos como habitação dos mortos. No andar terceiro ou superior, temos os céus em que também se encontram as águas superiores. O mar, que não só ocupava a parte inferior da terra, mas também era visto na sua superfície e dele brotaram os reinos do mal como animais monstruosos (Dn. 7,3), será suprimido com seu monstro o Leviatã [=enrolado, como serpente], visão do príncipe do mal, Satanás. Era esta a besta marinha criada por Deus no Gn. 1,21, formando parte dos Taninim [=mostros marinhos] em hebraico. De acordo com a lenda, Deus criou o Leviatã como macho e fêmea e logo matou a fêmea, pois do contrário a sorte dos homens seria fatal, já que a geração dos monstros multiplicaria o mal  indefinidamente. A forma externa do Leviatã era como de uma enorme serpente. Em Is. 27,1 lemos: Naquele dia Jahveh castigará com sua espada grande e pesada a serpente Leviatã , que sempre sai fugindo e que é uma serpente astuta, e matará o dragão do mar. Na nova terra não pode existir nada de maldade, tanto espiritual como material. Suprimido o mar, acabará com a serpente do mal.

A JERUSALÉM CELESTE: E eu, João vi a cidade a sagrada Jerusalém nova descendendo da parte de Deus desde o céu, maquiada como noiva adornada para seu homem (2). Agora, já pode substituir a Babilônia, luxuriosa [idólatra em termos alegóricos] a mãe das meretrizes (Ap. 17,5) com a cidade de Jerusalém que sempre teve como Deus, o único. Por isso, a chama de SAGRADA pertencente à divindade, ou divina, muito mais do que santa, como hoje entendemos o sentido desta última palavra. Digna de veneração como era Jerusalém, porque dentro dela está o templo, como diz Mt. 4,5: o diabo o levou para a Cidade Veneranda [eis tën ágian polin]. Mas agora era NOVA,porque a antiga já não existia, o que indica que escreve após a destruição da mesma em tempos de Tito. Não era uma cidade formada por arquitetos e operários humanos, mas DESCENDENDO particípio de presente do verbo Katabainö que significa descer e sua origem, onde foi construída, é o céu, lugar da perfeição, onde não existe ser algum com mancha ou imperfeição. Por isso acrescenta da parte de Deus; e a compara, pela sua beleza, com uma noiva MAQUIADA do verbo etoimazö, que significa preparar e que aponta ao antigo costume de aplainar e reparar os caminhos por onde o rei deveria passar (Mt. 4,3). No caso, a compara com uma noiva adornada para receber seu futuro esposo. Em português, essa preparação é descrita com o verbo maquiar. O texto fala de HOMEM que, se originalmente é homem másculo, é o vocábulo para designar também o esposo ou o noivo, como neste caso.

UM DEUS DE TODOS OS HOMENS: E ouvi grande voz do céu dizendo: Eis a tenda do Deus entre os homens e porá sua tenda entre eles e eles, seus povos, serão; e Ele, o Deus, será entre eles seu Deus (3). A voz do céu significa a voz de Deus, ou simplesmente um oráculo, como o recebido pelos antigos profetas. A voz explica o significado da visão: Já não é a tenda, ou tabernáculo, que no deserto era o símbolo que representava a realidade de Jahveh com seu povo de Israel. Em tempos de Salomão, essa tenda foi modificada pelo novo templo, construído em Jerusalém, donde a glória do Senhor também tomou conta do mesmo, de modo que a nuvem encheu a casa do Senhor de forma que os sacerdotes não puderam permanecer ali, para ministrar, por causa da nuvem; porque a glória do Senhor encheu a casa do Senhor (1 Rs 8,11).

SEUS POVOS está em plural indicando que agora não há um único povo escolhido, mas em geral, são todos os povos os que formam parte do reino de Deus. A tradução segue a ordem das palavras do grego, e talvez fosse melhor dizer: e eles serão seus povos, que o autor, como se fosse um verso paralelo, completa dizendo que ele, Deus, será seu Deus. Ou seja, haverá uma correspondência mútua entre os novos povos e Deus, como súditos de um rei que os defende, os cuida e principalmente os ama.

A FELICIDADE UNIVERSAL: E enxugará o Deus toda lágrima dos olhos deles e a morte na existirá mais; nem luto, nem pranto, nem pena haverá mais, porque as primeiras (coisas) passaram (4).

LÁGRIMA: num sentido metafórico o apóstolo diz que tudo será felicidade e bem-estar. Por isso, retira dessa nova vida, uma nova criação, todo elemento que pudesse escurecer a felicidade dos súditos do eterno rei: lágrimas, em primeiro lugar. A morte, que causa o luto e o pranto, não será causa de lágrimas. Tampouco haverá pena angústia, sofrimento, penalidade, tudo dependendo da morte. Essa morte que pende como espada de Dâmocles de todo ser humano e que leva consigo as penalidades da vida e os sofrimentos que causa nos seres queridos a desaparição do amado e consangüíneo. Os habitantes da nova Jerusalém nunca mais verão a morte dentro dos domínios do novo e eterno reino.

NOVO UNIVERSO: Então disse o sentado no trono: Eis que faço novas todas (as coisas). São palavras de Deus, que é o sentado no trono. É o Jahveh [o Eterno, segundo a tradução dos Rabis de hoje] que de novo usa seu poder criador para fazer ou refazer de novo todas as coisas: um mundo novo, completamente diferente do antigo: sem fim, sem morte e sem dor, nem sofrimento. Hoje, em que novas ideologias querem criar um mundo novo, também de bem-estar universal, vemos que apenas podemos criar esse mundo dentro de nós mesmos e tão imperfeito que, nem corporalmente, nem espiritualmente, podemos falar de verdadeira felicidade, mas de resignação e/ou impotência. O marxismo quer formar um homem novo num mundo totalmente igualitário, mas decepcionante em fraternidade e liberdade. É a utopia da felicidade que promete um mundo feliz sem Deus. Também Jesus promete essa felicidade, aparentemente inalcançável na terra e por isso adianta a formação dum mundo novo: O homem nascido do batismo e da cruz é novo, se vive segundo a sua fé, da liberdade, ou seja, se serve no lugar de mandar; e Jesus promete que, se isso é feito, a felicidade entrará a formar parte de sua vida (Jo 13,17). E será no mundo novo quando esse conselho será a prática total de todos, e o egoísmo humano deixará sua vez ao serviço e liturgia da koinonia celeste [=ministério sacerdotal no céu]. A felicidade será o fruto por Jesus prometido, uma vez que a morte, o último inimigo, seja destruído (1 Cor. 15,26).

Evangelho (Jo 13,31-35)

UM NOVO MANDAMENTO

O discurso de hoje forma parte do extensíssimo sermão da ceia final de Jesus com os doze, dividido em duas partes pelo final do capítulo 14: Levantai-vos! Partamos daqui! Na primeira seção, da qual forma parte o evangelho de hoje, Jesus se despede, deixando um outro acompanhante, o Paráclito, para que não se sintam órfãos. Jesus afirma que a hora final de sua vida, a sua partida,  será de grande glória para Deus, coincidindo com sua própria glorificação, e por isso, ele também será o grande glorificado. Jesus relembra a seus discípulos o maior problema de sua vida: o amor; e por isso, dá a eles um novo mandamento na maneira de traduzir o mesmo: como eu vos tenho amado. Essa maneira nova de amar será o sinal distintivo de seus verdadeiros discípulos e, ao mesmo tempo, também a marca de sua presença invisível, mas real, entre os mesmos. Esse é o verdadeiro espírito que receberiam os que nEle acreditassem (Jo 7,39). O amor a Deus não é diferente do amor que Ele tem por nós, especialmente demonstrado pelo seu Filho como homem. Este amor divino é a marca e modelo de nosso amor humano, amor que devemos uns para com os outros. Realmente é uma novidade que une, pelo amor, Deus e os homens e estes entre si. Esse amor constitui, pois, a base da vida eterna e o fundamento da mesma, nesta vida terrena.

QUANDO JUDAS SAIU: Quando saiu, diz Jesus: Agora foi glorificado o Filho do homem e o (sic) Deus foi glorificado nEle (31).

QUANDO SAIU: O sujeito era, sem dúvida, Judas, o traidor. A traição é um baldão que mancha, como nenhum outro motivo, a relação de amizade e estima entre duas pessoas. Judas impedia essa convivência e intimidade que de gozo e alegria se tornava tensamente dificultosa. Jesus esperou  que o traidor saísse para falar abertamente sobre os instantes finais de sua vida. Com isto, Jesus se dirige àqueles a quem pode transmitir, sem travas, suas palavras. Caso não as entendessem na ocasião, elas ficariam gravadas, de modo que constituíssem o testamento de Jesus. Por isso, era interessante que o evangelista falasse da saída: O discurso era para os verdadeiros discípulos. A saída de Judas abria o coração de Jesus de modo que Ele bem podia afirmar que era nessa mesma hora na qual começava seu momento de glória. Glória que se identificava com o amor que recebia de seus discípulos. Amor que era repassado ao Pai. AGORA [nun <3568>em grego]: Jesus estava esperando sua hora que chegaria nestes últimos momentos. Por isso, se despede dos doze. A hora de Jesus era a hora do Filho do Homem. Esta expressão, que basicamente significava uma pessoa humana, era usada na época indicando também o eu pessoal, à semelhança como se diz a gente em português, ou o uno em espanhol. Porém, em Jesus, tem um significado particular: É a expressão usada por Jesus para indicar a parte humana de sua personalidade; ou dito de outra maneira, o homem que formava parte dEle. Ao mesmo tempo é um título messiânico velado, não incluído na tradição judaica. Está tomado de Daniel 7,13-14, em que o novo reino, permanente, está representado pela figura de um homem que procede do céu, de Deus, em oposição aos reinos que brotam do abismo, lugar do maligno. Representa o triunfo do monoteísmo, vinculado a um homem, Jesus, tornado o Cristo, contra o poder politeísta dos reinos dominantes na época, representados pelos reinos pagãos. A HORA tem um significado peculiar. É a hora da prisão, como vemos em Jo 7,30 e 8,30. É também a hora de seu sofrimento em Jo 12,27, previsto como solitário, ao ser abandonado por todos, à exceção do Pai. Em Jo 16,32, é o cálice que Jesus degustará em total abandono, segundo Mt 27, 56. Mas também é a hora em que isso tudo servirá para dar glória ao Pai, tal como está no evangelho de hoje (31) que constitui uma repetição do 12,23. E por buscar unicamente a glória do Pai, também o Filho será, por sua vez, glorificado com a máxima glória, de modo que, perante sua pessoa, se dobre todo joelho [a proskinese como rei dos reis e senhor dos senhores] dos seres celestes, dos terrestres e dos que vivem sob a terra (Fp. 2,10). Assim ele é O Senhor (idem 11). Por isso ele foi constituído Filho de Deus, com poder, pela ressurreição dentre os mortos (Rm. 1,4). Ressurreição que estava prevista após a morte, segundo Rm. 14,9 para se tornar Senhor dos vivos e dos mortos. Em Ef. 1,20-21 Deus o fez sentar à sua direita muito acima de qualquer Principado e Autoridade e Poder e Senhorio. Palavras que se entendem melhor tendo como explicação as filosofias do tempo nas quais, entre Deus e os homens, existiam uma série de eons dominadores das esferas celestes. Como conclusão, podemos afirmar que Jesus deu mais glória a Deus com sua paixão e morte do que com os milagres que realizou. Estes serviram para sinais de sua divindade, mas a paixão e morte eram sinais de sua obediência ao Pai, de ser o verdadeiro Servo de Javé e era precisamente com elas que obteria o senhorio sobre todas as criaturas. GLORIFICADO: A palavra doxazö é traduzida ao latim por clarificatus, que propriamente significa ser manifestado. As traduções vernáculas usam glorificar, magnificar ou exaltar. No ANTIGO TESTAMENTO existem três palavras que podem significar glória no sentido de superioridade, de majestade. A) Se se trata de Javé o significado é de transcendência. A primeira é éder no sentido de superioridade. Javé é poderoso por libertar o povo do Egito e, portanto, glorificado em santidade ou magnificus in sanctitate (Vulgata) em Ex. 15,10. Por isso, sua majestade é conhecida pelos filisteus que falam das mãos destes grandiosos deuses (1 Sm 4,8), já que eles eram politeístas. O nome de Javé é glorioso em poder e majestade: quão magnífico é teu nome (= tua pessoa), pois expuseste nos céus a tua majestade (Sl. 8,1-2). Dessa palavra temos a derivada addir que significa poderoso, nobre, principal, grandioso. O messias era addir (=príncipe) que procedia do povo em Jr. 30,21. Existe uma frase muito interessante, derivada da raiz comum adr. Ela é hadret qadish traduzida por beleza de santidade ou como doxa tou onomatis autou (majestade de seu nome) em grego e na vulgata décor sanctus (Sl. 29,2). A terceira palavra com conotações mais diretas com a divindade é kabod, usada como nome (glória) e como adjetivo (glorioso), que pode ser traduzida por reputação, admiração, reconhecimento. Esta é propriamente a palavra que é traduzida ao grego por doxa, palavra grega que nos clássicos significava boa fama, opinião favorável com respeito a uma pessoa. Logicamente, ao se referir a Javé, a palavra tem o significado de uma manifestação visível, relacionada principalmente com o Tabernáculo: a doxa do Senhor apareceu na nuvem (Ex. 16,10). É a auto-revelação divina que manifesta seu desejo de realizar sua obra ou estar presente (habitar) entre os homens por Ele escolhidos. Temos exemplos desta manifestação no fogo que consumiu o sacrifício de Abraão (Gn. 15,17); na sarça ardente de Moisés (Ex. 3,3-5), porque o lugar sendo santo, os pés deveriam estar descalços como correspondia a um escravo. Glória que rodeou o templo de Salomão na sua inauguração (1 Rs. 8, 10-11). O fogo que consumiu o sacrifício de Elias no monte Carmelo onde pede ao Senhor que manifeste ser Ele o condutor do povo (1 Rs. 18,37-38). A doxa-kabod está, pois relacionada com a santidade (= unicidade e transcendência) de Javé. Em resumo: Doxa identifica-se com a pessoa. B) Ao nível humano, a glória acompanha à pessoa do rei (Mt 6,29). Também a glória era buscada como honra e distinção pelos grandes mestres de Israel (Jo 12, 43). A glória humana é o reconhecimento da superioridade de uma pessoa com respeito a outras de nível inferior. No NOVO TESTAMENTO a doxa do Pai é vista no seu Filho (Jo 1, 14): vimos sua glória, glória como do unigênito que (consistia) na plenitude de misericórdia e de fidelidade. Pois assim parece que deve ser traduzida a frase grega pleres kharitos kai aletheias [cheio de graça e de verdade]. Pois reflete o hesed (bondade, misericórdia, amor),  we emet (firmeza, verdade, fidelidade, veracidade) dos textos hebraicos referidos a Javé-Deus. E em 17,1-5: Pai, é chegada a hora; glorifica teu Filho(…) como lhe conferiste autoridade sobre toda a carne, a fim de que conceda a vida eterna a todos os que lhe deste (…) Eu te glorifiquei na terra consumando a obra que me confiaste. E agora glorifica-me ó Pai contigo mesmo com a glória que eu tive junto de ti antes que houvesse mundo. A Vulgata usa o verbo clarificare que em voz -ativa significa clarificar, tornar célebre. Quando se refere a Deus, a glória divina se manifesta nos seus atributos especiais: poder, sabedoria, fidelidade e misericórdia de modo especial, porque neles se manifesta a unívoca e peculiar unicidade da divindade. Esta glória de Deus se manifesta de modo especial em Jesus (Jo 1,14), como unigênito do Pai. Glória que pela primeira vez manifestou a seus discípulos em Caná da Galileia, quando transformou a água em vinho (Jo 2,11), porque assim revelou, com seu poder, quem realmente ele era. A glória do Filho foi vista de modo especial na transfiguração, quando apareceram envoltos em glória as três figuras, e que a Vulgata traduz in majestate. Mas a glória máxima é o seu triunfo sobre a morte como consequência da sua vitória contra o pecado, por meio de sua obediência até a morte e morte de cruz (Pela qual Deus o sobre-exaltou grandemente) (Fp. 2,9). Em resumo: Sem recorrer às palavras de Paulo, e somente usando expressões de João, a glória que Jesus pede nessa hora é a autoridade sobre a morte, pois o sarx (carne) representa a parte mortal do homem. Essa autoridade lhe dá o poder de dar a vida eterna aos que lhe seguem, vida que ele mesmo tinha, unido ao Pai, como glória antes que o mundo existisse. Chega, pois, o momento em que a obra do Deus único será reconhecida em seu Filho porque este, através de sua humilhante e dolorosa morte, se tornará Triunfador da mesma e Senhor da vida. A sua Ressurreição é a firma do Pai para esta nova etapa, totalmente gloriosa, do Filho. Nota:Temos traduzido um tanto livremente os parágrafos, visando antes as ide.ias do que a literalidade do texto.

A GLÓRIA DIVINA: Se Deus foi glorificado nEle, também (o) Deus O Glorificará em si mesmo e imediatamente O glorificará (32). A glorificação divina feita por meio de Jesus não consistia precisamente, sem descartá-los, nos milagres de Jesus (os semeiai, sinais), mas também e principalmente, na sua paixão e morte em obediência. Jesus não atribuía a si mesmo sua vida e sua obra, mas as declarava oferecidas como obediência ao Pai, como deve ser toda obra e vida cristã. Como resultado desse serviço ao Pai que o constituía Servo de Javé, este se obrigava a glorificar por sua vez o Filho, como diretamente unido ao poder e glória da divindade [em si mesmo], poder de dar vida e ser Senhor da morte e isso seria conhecido de imediato [euthys, ou continuo latino]. A exemplo do Senhor Jesus, nós temos a obrigação de glorificar o Pai. Paulo dirá selados pelo Espírito Santo para o seu louvor e glória (Ef 1,14). Santo Ignácio coloca como objetivo de sua obra Ad majorem Dei gloriam, que são José de Calasanz completará com et pietatis incrementum [aumento do amor filial como tradução direta]. E quando damos maior glória a Deus e demonstramos maior amor filial ao mesmo? São Camilo de Lellis consolava seus moribundos, declarando que a aceitação das dores e da morte era a maior contrição pelos pecados, que serviria para o perdão dos mesmos. É uma visão que se funda tanto nas palavras de um santo como nas verdades evangélicas que acabamos de explicar. Se terminamos a vida oferecendo-a a Deus como e quando Ele quiser, em obediência e submissão, temos a certeza de que Ele nos receberá como Pai e não como Juiz. Assim, entendemos melhor a postura da Igreja que impede encurtar propositadamente a vida [eutanásia ativa] mesmo que essa vida seja aparentemente vegetativa.

NÃO PODEIS ME ACOMPANHAR: Filhinhos! Até pouco convosco estou. Buscar-me-eis e, como disse aos judeus, que onde vou eu vós não podeis vir; por isso vos digo agora (33).

FILHINHOS: Existem em grego três palavras para filho: Teknon é o filho gerado pelos pais. Uios, com um significado mais geral, pois pode se referir até aos filhotes de animais, e Pais que em geral significa criança e, por amplitude, filho ou escravo. A palavra que agora estudamos, um diminutivo de teknon, seria traduzida por filhinhos, com um significado de ternura muito peculiar. Filhos muito amados talvez. Provavelmente era a palavra com a qual os Rabis, considerados verdadeiros pais, se dirigiam àqueles que eram seus discípulos. Jesus usa o teknon [filho] para se dirigir ao paralítico,  afirmando que seus pecados estavam perdoados (Mt. 9,2). Usa o teknoi em plural, referido aos discípulos, para afirmar a dificuldade de um rico entrar no Reino (Mc. 10,24). Mas é a única vez que desta forma, em diminutivo e carinhosamente, aparece nos evangelhos, pronunciada por Jesus pouco antes de sua morte.

UM POUCO: O versículo, um tanto escuro, pode ser completado com 14,19. Um pouco e o mundo não me verá, mas vós me vereis porque eu vivo e vós me vereis. Quer dizer que ele promete se tornar visível após a morte e que a morte dos discípulos não será obstáculo para estar na companhia de Jesus porque também eles estarão vivos após a morte dos mesmos. É a despedida da morte, que para os discípulos não será total e final, como seria para os judeus, seus inimigos, pois promete que os verá [aos apóstolos] após um pouco de tempo. Essa impossibilidade de acompanhar Jesus, este a declara desde o momento atual.

NOVO MANDATO: Mandato novo vos dou: Que vos ameis mutuamente como eu vos amei, para que também vós reciprocamente vos ameis (34). Distinguimos em grego Nomos (= lei, como a mosaica), Dogma (= decreto como os civis) e Entolê (= preceito). João usa aqui entolê indicando que não é uma lei completa, mas um preceito particular, embora seja distintivo para seus discípulos. O velho mandato de amar o próximo como a nós mesmos (Lv. 19,18) é substituído por amar como Jesus amou. Qual a diferença? No amor,  estilo AT do levítico, entre o próximo e meu ego posso optar por mim. Mas com o exemplo do que Jesus fez por todos, especialmente por seus discípulos, o próximo ocupa o lugar preeminente: primeiro ele, logo eu; de modo que a vida deve ser dada por ele, pelo outro. Nisto conhecerão que sois meus discípulos. A identidade do discípulo é a de saber amar como Cristo nos amou. O amor de Jesus se manifesta em duas vertentes:

1) Com respeito a seus amigos: ninguém tem maior amor que o que dá sua vida por seus amigos (Jo 15,13).

2) E por parte dos inimigos: Cristo morreu por nós quando ainda éramos pecadores (Rm. 5,8). Por isso, não existe pecado maior do que a falta de amor entre os discípulos de Cristo.

OS VERDADEIROS DISCÍPULOS: Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos: Se tiverdes amor mútuo(35). Geralmente distinguimos os cristãos, discípulos de Jesus, pela sua profissão de fé: pelo dogma da Encarnação que se apoia na Trindade. Mas isso só basta? Aparentemente, segundo alguns, é suficiente. Nós, os católicos, pensamos com este versículo: os verdadeiros cristãos são os que vivem sua crença centrada no amor, que para ser verdadeiro amor a Deus deve ter como sinal visível o amor ao próximo. Assim o expressa João em sua primeira carta  4,20: Quem não ama seu irmão a quem vê, a Deus, a quem não vê, não pode amar. Paulo mesmo, esse que muitos apresentam como modelo da fé salvífica, afirma que o que vale em Cristo Jesus é a fé atuante através do amor (Gl. 5,6) e que Tiago declara que a fé sem obras está morta em seu isolamento (Tg. 2,17). Porque a verdadeira fé se demonstra pelas obras, como dirá o mesmo apóstolo. E essas obras, que todos podem ver, derivam do mandato novo de Jesus, que implica um amor verdadeiro ao próximo. Na Igreja atual, a única forma de sermos reconhecidos como realidade positiva humana e cristã é a caridade, que se manifesta nas inúmeras obras mantidas pelos membros da mesma. Isso nos diferencia das outras religiões que centram sua fé na salvação individual como parte de um imanentismo egocêntrico.

PISTAS

1) Partimos da palavra glorificar. Que significa nos lábios de Jesus? Não é certamente um louvor externo, devido a uma fama adquirida por fatos meritórios, reconhecidos por todos. A glorificação tem, como meta final, a exaltação sobre toda a obra da criação. Esta é como a base material sobre a qual opera a obra redentora de Jesus, dando-lhe uma vida nova que se prolongará na eternidade para assim ser uma matéria diferente da inerte e mortal que conhecemos. A redenção ou salvação, é entendida como uma nova orientação de toda a natureza (Rm. 8,21) para ter como mestre e chefe o Filho do Homem, Jesus de Nazaré, que passa a ter, como Cristo, a mesma categoria e majestade que a do Javé, Deus de Israel.

2) Porém, antes da glorificação final, como ressurreição e vida nova do Universo, Jesus glorificará o Pai pela obediência estrita, dolorosa e solitária. Como pela desobediência de um, o pecado entrou no mundo,  e os muitos (todos) se tornaram pecadores, assim também, pela obediência de um só (até a morte e morte de cruz) os muitos (todos) se tornarão justificados (Rm 5,17-19). Sua paixão e morte como pecado, mas não como pecador, trouxe sobre si a culpa e a pena do pecado em forma substancial, justificando os verdadeiros pecadores (2 Cor. 5,21). Nesse se tornar pecado está a sua máxima humilhação. Por isso, ele será levantado (glorificado). Primeiro na cruz, que só através da fé o contemplamos como verdadeiramente exaltado, como o contempla o Pai, tornando-se a cruz símbolo de sua exaltação. E logo, na sua ressurreição feito primícias e obra suprema da nova Natureza por ele renovada e revitalizada.

3) O preceito novo: A novidade do mandamento é o novo conceito de amor, não reservado unicamente aos amigos, mas ampliado aos inimigos. Eu, porém vos digo: amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem (Mt. 5,44). Novidade, por estar na linha do mandato recebido do Pai por Jesus de dar a vida como mandato do Pai (Jo 10,18 e 14,31). Dar a vida não somente no momento da cruz, mas desde sua conceição e nascimento, de modo que a vida de Jesus é um ato de obediência ao Pai. Novidade, porque o amor provém da relação com Jesus como modelo da relação com o Pai. Novidade, porque introduz um elemento comparativo e lógico para exigir semelhante amor: Deus nos ama assim, e nós devemos corresponder, porque Paulo afirma: Deus demonstrou seu amor para conosco pelo fato de Cristo ter morrido por nós quando ainda éramos pecadores (Rm 5, 8). Novidade, porque é esse amor que revela se realmente somos discípulos do mestre e não outra forma de adesão e seguimento.

padre Ignácio

 

Primeira leitura: Atos dos Apóstolos 14,21-27

FIM DA PRIMEIRA VIAGEM MISSIONÁRIA DE PAULO E BARNABÉ

O trecho ilustra a conclusão da primeira viagem missionária de Paulo e Barnabé. Eles partiram da Antioquia no ano 45 (Atos dos Apóstolos 13,2; 14,26) e voltaram no ano 49 após quatro anos de peregrinação apostólica. Assim, a Palavra de Deus saiu da Palestina e foi difundida pelas extremidades da terra (Atos dos Apóstolos 1,8).

Derbe é a última etapa da viagem. Daí eles retornam visitando as comunidades já fundadas, para confirmar os cristãos na fé e consolá-los nas perseguições, reforçando-lhes a decisão de optar pelo Cristo. Em Antioquia foram recebidos com alegria e ali falaram das maravilhas operadas por Deus.

Trata-se das primeiras comunidades cristãs que surgiram longe da Palestina, entre os pagãos. Por isso Paulo se preocupa em:

01) exortar os cristãos a ficarem firmes na fé;

02) organizar a comunidade com uma hierarquia e com responsáveis, fazendo com que as comunidades não fiquem acéfalas, mas tenham presbíteros para guiá-las;

03) rezar, jejuar e confiar a Deus as comunidades fundadas.

Lucas usa o termo “thlipsis” (tribulação), que indica sofrimento físico, privações, perda de posição pública... pois tudo isto era a sorte dos que seguiam o Mestre. É necessário passar por tudo isto, pois é a “conditio sine qua non“ para ser cristão.

Os presbíteros, constituídos para as comunidades, formarão depois um importante grupo com os apóstolos na assembléia de Jerusalém (15,2,4,6). Estarão presentes em Jerusalém, Listra, Icônio, Antioquia da Pisídia, Éfeso...

Certamente a comunidade cristã participou da escolha deles (6,5-6), embora a última palavra coubesse aos apóstolos (Tito 1,5) e sobretudo ao Espírito Santo (20,28). A eleição se dava mediante a imposição das mãos.

Segunda leitura: Apocalipse 21,1-5

O NOVO CÉU E A NOVA TERRA

Os capítulos 21 e 22 do Apocalipse formam o último grande ato do grande combate cósmico entre o bem e o mal já apresentado em todo o livro.

O tema central deste trecho é a intervenção definitiva do Cordeiro, que decreta a condenação da Babilônia (a prostituta), a sociedade gananciosa, violenta e opressora, e prepara a vitória da nova Jerusalém (a Esposa), a sociedade plenamente humana pela prática da justiça, da qual o Cordeiro é o centro e a razão de ser,

Nosso texto abre uma nova visão, onde uma nova ordem das coisas é apresentada. Tudo é novo e o mal (simbolizado pelo mar) já não existe. O autor retoma um tema já utilizado na literatura profética: o de Jerusalém como esposa de Javé. Para ele Jerusalém é noiva e desce do céu, de junto de Deus. Está enfeitada (em 19,8b afirma que o linho com que está vestida representa as ações da justiça dos cristãos) e pronta para o seu marido, o Cordeiro (v.2).

A visão expressa a renovação universal trazida por Deus através do Cordeiro. É Deus quem restaura um novo mundo, uma nova humanidade. O novo céu e nova terra (Isaías 65,17) indicam a renovação do povo pela obra do Cordeiro, em que o mundo é transfigurado. Também Paulo fala em Romanos 8,19-22 da renovação de toda a criação, que um dia será libertada da escravidão.

O mar não existirá mais”. O mar, para os hebreus, era como o símbolo do mal, lugar onde vivia Leviatã, o grande monstro. A salvação tem dimensões cósmicas. Na nova terra aparecerá a nova Jerusalém messiânica, a qual será edificada por Deus (“ex Theou”). Não haverá mais necessidade do Templo, pois Javé estará sempre presente, e a Aliança será para sempre.

O próprio Deus (voz que vem do Trono) proclama Jerusalém como a Tenda de Deus. A tenda lembra o tempo em que Israel viveu no deserto, tempo de namoro e intimidade com Deus. Deus estará no meio do seu povo, caminhando com ele. Assim a antiga “sêkinàh”, presença de YHWH no meio do seu povo, torna-se profunda com a encarnação do Messias. Inicia-se uma nova criação, suprimindo o luto, o clamor e a dor (v.4). A nova Jerusalém é resultado do Cristo em nosso meio. Esta renovação universal já havia sido anunciada por Isaías 66,22.

Evangelho: João 13,31-35

EU LHES DOU UM NOVO MANDAMENTO

Este trecho é a conclusão da primeira parte do “livro do adeus”, no qual Jesus apresenta o seu testemunho. Estamos diante de uma síntese da vida de Jesus, na qual Jesus exprime sua relação íntima com o Pai.

O Evangelho de João é dividido em duas grandes partes:

01) Livro dos Sinais (1-12)

02) Livro da Hora ou da Glória (13,20).

A segunda parte se abre com dois monólogos. No primeiro Jesus anuncia sua partida do mundo e sua volta para o Pai. No segundo relata a saída de Judas Iscariotes do Cenáculo, com o início da Paixão e da glorificação do Filho de Deus.

Nosso texto relata a introdução do discurso da despedida, no qual Jesus apresenta o seu testemunho antes de voltar para o Pai.

Os versículos 31-32 insistem na expressão “manifestar a glória”. A glória de Jesus é a revelação do projeto de Deus concretizado em sua humanidade desde o nascimento até a cruz. No Antigo Testamento a glória se manifestava com a presença de Deus revestida de diversas formas sensíveis: na nuvem do deserto (Êxodo 16,7-12), no Sinai (Êxodo 24,15-16), no fogo (Êxodo 24,17), na coluna de fogo que acompanhava o povo pelo deserto (Êxodo 40,38). A glória de Deus enchia o Templo (Êxodo 40,34-35; 1 Reis 8,10-11). Sua glória (“kabod” / ”doxa”) era o reflexo de sua realidade divina.

No Novo Testamento a glória de Deus é o modo como ele se manifesta, sobretudo, em Cristo. Jesus é o pleno de glória (1,14). Para João, a glória de Deus é Jesus humano.

Diante da partida iminente, Jesus se dirige aos discípulos chamando-os de “filhinhos”. É a única vez que Jesus chama seus discípulos com essa expressão, que é sinal de afeto e ternura. Diante da partida de Jesus, resta à comunidade apenas um caminho para estar unida a ele: viver o amor. Este é o estatuto de quem pretende viver unido a ele. A herança que Jesus deixou à comunidade é o mandamento novo. Existem dois tipos de novidade segundo o grego no Novo Testamento: “neós” = é o novo em sentido cronológico, portanto sinônimo de jovem; “kairós” = é o quantitativamente novo. O mandamento de Jesus se apresenta novo no segundo sentido, pelo original ponto de comparação: “Como eu os amei”. De fato, o preceito do amor ao próximo não faltava no Antigo Testamento (Levítico 19,18), mas estava circunscrito ao povo ou à própria religião. Não dizia respeito aos inimigos.

REFLEXÃO

No tempo pascal, a liturgia permanece ancorada no evento da ressurreição de Jesus e nos chama a descobrir o valor deste evento convidando-nos a um empenho efetivo.

Neste domingo, a liturgia nos propõe esta mensagem: a Páscoa é um novo evento que quer renovar todas as coisas, portanto nos envolve e nos impulsiona para a novidade última e definitiva.

Qual é a novidade? É o mandamento novo, que é graça e empenho. Novo porque em Jesus tornou-se compreensível e realizável.

O significado de Jerusalém é multíplice. Geograficamente, é uma cidade antiga da Palestina. Etimologicamente, significa paz. Historicamente, é o lugar para onde Davi transportou a Arca da Aliança a fim de guardá-la e para a qual Salomão, seu filho, construiu o Templo. Tornou-se, assim, o lugar onde Deus marcava encontro com seu povo três vezes por ano: na Páscoa, no Pentecostes e nas Cabanas. Ainda historicamente, é o lugar onde Jesus nasceu, morreu e ressuscitou, subiu aos céus e deu o Espírito Santo à sua Igreja. Mas Jerusalém tem também um significado profético: é a Igreja. Por isso os profetas a descreviam como lugar de reunião de todos os povos, lugar de luz, paz e felicidade; lugar espiritual. Por isso, a nova Jerusalém descrita por João é a Igreja, lugar definitivo de Deus e dos homens.

A Igreja é uma realidade presente na terra que deve ser coroada nos céus, onde será perfeita. Cristo é o fundador dela, para que depois todos tenham a felicidade perfeita (Lumen Gentium 5,7,8).

É uma Igreja terrestre militante, está em progresso e é composta de inúmeras comunidades unidas na fé e na missão.

Paulo e Barnabé percorriam a Ásia Menor anunciando o Evangelho da salvação, fundando comunidades, pregando, jejuando... Mas não estavam sozinhos, pois Deus estava com eles, e assim abriram as portas da fé aos pagãos. Esta tarefa continua mais do que nunca hoje. É preciso abrir as portas da fé a uma sociedade paganizada. É preciso empenhar-se numa nova evangelização, com o testemunho cristão diante do neopaganismo. Uma empreitada que não é impossível, porque o cristão conta com a ajuda de Deus.

Como nos ensina o Evangelho, a conversão do mundo passa sobretudo pelo testemunho do amor: “Nisto todos saberão que vocês são meus discípulos”.

As comunidades de Antioquia e Éfeso não eram uma união de cristãos, mas propulsoras da vida cristã. “De vocês espalhou-se a fama de Cristo” (1Tessalonicenses 1,8), afirmou Paulo em Tessalônica. O mesmo acontece em Antioquia, para onde foram enviados como missionários para a evangelização.

A comunidade cristã não existe por suas doutrinas, ou por aquilo que celebra, embora, tudo isto seja muito importante. A Igreja é feita de cristãos que dão testemunho para todos. Jesus não fundou uma comunidade, mas uma família de filhos de Deus. Ele não chama seus seguidores de discípulos, mas de amigos (João 15,15), de filhos (João 13,13). Para os cristãos, Deus é Pai (João 14,2-6). Portanto, somos irmãos em Cristo. Por isso, o amor fraterno é fundamental para o cristão. Em conseqüência, um homem mutilado em sua fraternidade é uma árvore sem raízes, sem ramos, uma planta estéril.

O cristão deve ter o seu distintivo, que é o amor, assim como se reconhece um time de futebol, um soldado, um aviador, um médico... pelo seu distintivo. É muito pouco para o cristão ser batizado, fazer a primeira comunhão, obedecer ao magistério... Sem amor tudo isso é inútil.

O amor se faz de gestos concretos.

- Frei Diogo de Acalá (1.400-1.449), um dos santos mais populares da Espanha, é representado como um humilde frade franciscano com um molho de chaves na cintura e um cesto nas mãos. Era porteiro do convento (chaves) e benfeitor dos pobres (cesto). A história conta que, quando ainda era pequeno, seus pais haviam colocado para ele um pouco de alimento num cesto. Compadecido de um pobre, ele lhe deu toda a comida, que com fome comeu tudo. Quando seus pais abriram o cesto para verificar se Diogo havia comido tudo, o cesto estava cheio de rosas perfumadas.

- O bem-aventurado Álvaro de Córdoba (1370-1420) era confessor do rei de Castilha. Vivendo num convento de Córdoba, havia sido proibido de levar doentes para o convento dominicano devido ao perigo de contágio de doenças infecciosas. Mas um dia, quando voltava para casa, não conseguiu deixar um leproso à beira da estrada. Pegou-o e envolveu-o em seu manto preto e o carregou para o convento. Quando chegou em casa com aquela carga nas costas, o Superior quis ver o que ele trazia debaixo da capa. O santo abriu o manto e dentro havia uma grande estátua de Jesus crucificado sem a cruz.

Jesus faz o seu testamento como um pai e em sua despedida limita-se ao essencial: manda cumprir o amor fraterno, que traz a sua originalidade, porque antes de tudo o amor que Jesus preceitua é universal, pois é dirigido a todos os homens, inclusive aos inimigos. Além do mais, a medida deste amor não fica no “como você mesmo”, mas no “como eu os tenho amado”. Daí a importância do amor fraterno, que se equipara ao amor a Deus (João 22,34ss). Por isso o sinal distintivo do cristão é o amor. Além do mais, a originalidade do mandamento de Jesus está em seu modelo frontal, ou seja, o amor do Pai ao Filho, assim como no próprio amor prático de Jesus.

A vivência do amor cristão não ocorre porque se pertence a uma comunidade eclesial, mas é antes de tudo o elemento constitutivo dessa comunidade. O distintivo do cristão não é antes de tudo pertencer a uma Igreja ou confissão religiosa com seus dogmas e tradições cultuais e devocionais, dar o dízimo ou esmolas, trazer consigo objetos religiosos. O que nos constitui pessoalmente cristãos é o amor que Deus Pai tem por nós em Cristo e o que nos identifica como tais é o amor de Cristo que comunicamos aos irmãos.

Quem buscasse hoje um cristão, onde deveria encontrá-lo? Na igreja, no culto, na missa? Ou na vivência do amor concreto? O que se espera de alguém que crê em Jesus é que viva e testemunhe o mandamento do amor. No início do cristianismo, os cristãos eram exemplo de amor e de união (Atos dos Apóstolos 4,32ss). Um século e meio mais tarde, segundo Tertuliano (155-220), essa continuava sendo a opinião das pessoas na rua: “Vejam como eles se amam!”. Muitos séculos mais tarde, o poeta hindu Tagore (1861-1941), após uma viagem pela Europa, voltou para a Índia afirmando decepcionado que Jesus deveria ter vivido às margens do rio Gânges, pois sua mensagem de amor e fraternidade teria sido captada com muito mais sensibilidade e muito melhor praticada pelos povos orientais que pelos ocidentais.

padre José Antonio Bertolin, OSJ

 

AMAR COMO JESUS AMOU

O contexto do Evangelho deste V domingo da Páscoa é aquele da Última Ceia. Depois que Jesus anuncia a traição de Judas, este deixa o cenáculo, e, daí em diante, seguem-se a prisão, a condenação e a morte de Jesus. Depois disso, Judas se perde numa grande escuridão a ponto de não encontrar saída, e se desespera.

Jesus, por sua vez, começa a falar de glorificação, de revelação no esplendor da luz. É da morte, pela qual deveria ser destruído, que ele ressurge como luz para o mundo.

Esta luz irradia a hora da despedida, momento difícil para os discípulos. Somente nesta passagem, Jesus se dirige a eles com o diminutivo: “filhinhos”, uma expressão de amor, de cuidado. Até aquele momento, Jesus está com seus discípulos e os protege. Agora, ele terá que morrer. Os discípulos não o seguirão na sua morte nem na sua glória; por isso, Jesus os prepara para este período de separação: “por pouco tempo ainda estou convosco”.

Com o mandamento: “amai-vos uns aos outros. Como eu vos amei, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros”, Jesus mostra aos discípulos o modo como ele continuará a estar presente no meio deles e determina como devem se comportar. Estes devem se orientar pelo amor que receberam de Jesus, e este amor em cada um deve representar para o outro o próprio amor de Jesus, aceitando o outro como ele é, ajudando-o, prestando atenção às suas necessidades, exatamente como fazia Jesus.

A palavra que frequentemente aparece nas leituras bíblicas deste domingo e que constitui o ponto determinante do mandamento de Jesus é o adjetivo “novo”. João diz: “vi um novo céu e uma nova terra... a nova Jerusalém”; o próprio Deus diz: “Eis que eu faço novas todas as coisas”; finalmente, Jesus diz: “vos dou um novo mandamento”.

Mas, enfim, em que consiste a novidade deste mandamento, se este era conhecido desde o AT e por que Jesus o declara como “seu”?

Porque só agora, com ele, este mandamento torna-se possível. Antes, as pessoas se amavam porque eram parentes, aliadas, amigas, membros de uma mesma tribo, isto é, se amavam por alguma coisa que as unia entre si, separando-as de outras pessoas. Agora, é necessário ir mais além: amar quem nos persegue, amar os inimigos, aqueles que não nos amam. Amar o irmão pelo bem dele mesmo e não por aquilo que ele pode me oferecer. É a palavra “próximo” que muda de conteúdo; esta compreende não somente quem está perto, mas qualquer pessoa, a qual, devemos torná-la próxima.

O mandamento de Cristo é novo pelo seu conteúdo, e mais ainda pela sua possibilidade. Jesus viveu o amor até as últimas consequências: até o ponto de nos perdoar e morrer por nós. Amando-nos, Jesus nos redimiu: tornou-nos filhos do mesmo Pai e irmãos, pelo qual devemos e podemos nos amar.

Há um motivo pelo qual cada um de nós, qualquer que seja a sua situação, pode e deve ser amado: o motivo é que somos amados por Deus e ele quer nos salvar. O motivo não é o da aparência: beleza, simpatia, juventude, mas a realidade “nova” criada por Cristo. Por essa razão, este amor novo encontra a sua manifestação mais autêntica não no cumprimentar quem nos cumprimenta, nem no convidar quem nos convida, mas no amar quem tem menos motivos para ser amado: o excluído, e principalmente, o inimigo, porque neste caso é claro que não se ama o irmão por aquilo que ele tem ou pode nos dar, mas somente por aquilo que ele é aos olhos da fé.

O mandamento de Cristo é “novo” porque renova, é capaz de mudar a face da terra, de transformar as relações humanas. Como o mundo tem necessidade deste amor? Nos vários problemas que assolam o mundo em que vivemos é natural ficar se lamentando, apontando o dedo sobre qualquer forma de ódio, violência e maldade. Mas isto não serve para nada, apenas para continuarmos no mesmo lugar onde estamos. Acredito firmemente que cada um de nós pode viver e oferecer a este nosso mundo um pouco de amor, gestos de amor, de justiça, de verdade, de paz: se nos unirmos a tantos outros podemos contribuir para a transformação de tantas coisas. Lembremo-nos que seremos conhecidos como discípulos de Jesus pelo nosso amor para com o próximo e a medida deste amor é o modo como ele amou.

 

1º LEITURA - At. 14,21b-27

Este trecho marca o final da Primeira Viagem Missionária de Paulo e Barnabé. Na ida eles foram evangelizando e fundando comunidades. Agora, na volta, eles vêm confirmando a fé dos discípulos, fazendo recomendações, exortações e organizando comunidades. As palavras de exortação a permanecerem na fé assustam um pouco: "É necessário passar por muitos sofrimentos para entrar no Reino de Deus" (v. 22). Jesus fala de "porta estreita". As comunidades eram perseguidas externamente por judeus e pagãos e internamente sofriam também o desejo de colocar em prática a novidade evangélica. Isto era difícil e penoso para quem estava acostumado com os costumes pagãos. O v. 23 faz alusão a um mínimo de organização na comunidade. Um dirigente é indispensável. A palavra presbítero significa mais velho; é alguém mais experiente que é colocado na frente. É importante salientar o ritual da constituição dos presbíteros. Tudo é feito com muita seriedade: com orações, jejuns, recomendações e com a imposição das mãos. O v. 27 salienta a prestação de contas que os missionários fazem à comunidade. Eles saíram encomendados à graça de Deus. É Deus que os acompanha e age através deles com sua força e gratuidade do seu amor. Agora eles contam o que Deus tinha feito com eles e através deles e como Deus tinha aberto a porta da fé aos pagãos. Lucas frisa que é Deus o agente principal na atividade apostólica e missionária.

Como encaramos as tribulações em nossa vida como agentes da Palavra? Temos consciência clara de que é Deus que trabalha em nós?

2º LEITURA - Ap. 21,1-5ª

Aqui vemos a novidade de Deus para as comunidades perseguidas. Lágrimas, luto e morte já não existem mais. É a vitória total, mas vista como dom de Deus. Tudo é recriado, renovado. Uma nova Jerusalém desce do céu vestida de noiva. O v. 1 mostra a visão que João tem de um novo céu, uma nova terra. Desaparecem o primeiro céu e a primeira terra. O mar, como símbolo do mal, devorador de vidas, também desapareceu. Agora só existe o bem, o bonito, a vida. A nova geração baniu a maldição do pecado e da morte. O v. 2 parece uma cerimônia de casamento: a esposa, Jerusalém renovada e santa, desce do céu ao lado do esposo - o próprio Deus. Esta simbologia matrimonial é cara aos profetas e também ocorre no Segundo Testamento. No v. 3 a voz do trono é a grande voz do próprio Deus. Ele declara uma nova aliança sob a imagem da tenda. O namoro íntimo do tempo do deserto é refeito. A imagem da tenda aqui é ampliada para todo o povo de Deus e o próprio Deus habitará na mesma tenda, pois Deus se tornou íntimo do seu povo, numa nova aliança de amor. O v. 14 registra as características do carinho e da ternura de Deus abolindo toda espécie de mal: as lágrimas e o choro que representam a dor, a fadiga, talvez relembrando a maldição original; o luto símbolo da morte e até mesmo a própria morte; tudo que é mal será abolido. É o paraíso projetado por Deus que no início foi destruído pelo pecado. Agora ele terá lugar. Só haverá bênção, só haverá vida.

EVANGELHO - Jo 13,31-33a.34-35

O tema da glória

Os capítulos 13-17 de João são "discursos de despedida", uma espécie de testamento de Jesus. Estamos, portanto, no início destes discursos. Os vv. 31 e 32 trazem o verbo glorificar quatro vezes. Quando Judas sai para entregar Jesus à morte, Jesus fala da glorificação. "Glorificar" para João está ligado a revelar. A glória de Deus e de Jesus é a revelação do seu projeto de vida para todos. Isto vai acontecendo através dos sinais de Jesus (a começar em Caná 2,11) e encontra sua plenitude no maior gesto de amor de Deus para com os homens que é a entrega total de seu Filho na cruz. Um outro termo que nos leva à cruz é o "agora", pois este tem referência direta com a hora (cf. 13,1) de Jesus que se realiza na plenitude no alto do Calvário. O v. 32 faz referência à ressurreição de Jesus operada pelo Pai.

O tema do amor

Os vv. 33-35 tratam do amor. A emoção parece levar Jesus a um carinho maior para com os seus discípulos chamando-os de "filhinhos". O v. 33 é uma alusão ao caminho da cruz. É ali que a revelação do amor acontece plenamente. O novo preceito de Jesus é o preceito do amor. É novo porque está acima da Lei superando-a. É expresso através de uma ordem, mas Jesus quer que essa ordem brote do coração do discípulo do mesmo jeito que brotou no coração do Mestre. No fundo o mandamento é um jeito novo de viver que Jesus ensinou com sua própria vida. Jesus não pede amor para si, mas entre os discípulos o modelo é o amor do próprio Jesus, pois "ninguém tem maior amor do que quem dá a própria vida pelos amigos" (cf. 15,13). Não há outro modo de sermos reconhecidos como discípulos senão através do amor. Todas as práticas de piedade ficam foscas diante do brilho e do colorido do amor.

dom Emanuel Messias de Oliveira

 

A leitura do Evangelho de hoje é ambientada durante a Última Ceia. O Evangelista introduz o evento com estas palavras: «tendo amado os seus, amou-os até o último». Com a doação de seu corpo e de sua vida, com o ato de lavar os pés de todos, inclusive de quem iria traí-lo, Jesus indicava o que Ele entendia por “ultimo”, ou seja, a “ultima” conseqüência do amor sem reservas. Para este “último” estava prestes a convidar todos os que desejassem ser seus discípulos daquele momento em diante. Levando até o limite o seu amor para com os discípulos, paralelamente nos dizia em que consiste amar e amar até o fim. Conhecer até onde vai o amor que Jesus tem para conosco nos permite também julgar até onde vai o nosso amor para com Ele, pois somente quando conhecemos o amor de outro e que conhecemos quanto sabemos amar também. Ver e receber o amor nos coloca no condição obrigatória de fazer uma escolha; nos permite de emitir um julgamento sobre o outro e sobre nós mesmos. Um amor grande é incompatível com uma não-resposta, antes ou depois há uma separação porque o amor necessita de amor. Assim sendo, antes que Jesus pudesse deixar aos seus o próprio testamento, Judas tomou a sua decisão: saiu. Evidentemente não é condizente o acréscimo ao texto que alguns fazem: “saiu do cenáculo”, pois João não se refere a um lugar físico, mas sim a um lugar, um contexto de encontro com Jesus: “saiu da presença de Jesus”. Jesus sempre foi amigo dos pecadores, nunca Jesus recusou algum tipo de pessoa; escolha de “sair” só pode ser uma nossa escolha, é fruto de liberdade.

Foi aqui, nesta Ceia, que Jesus quis deixar como testamento, a síntese de toda a sua vida e o programa –se assim podemos chamá-lo- da comunidade dos seus, ou seja, daqueles que, não obstante tudo decidem de “permanecer”, de não sair. O texto de hoje, então se enquadra perfeitamente no tempo pós-pascal que estamos celebrando, tempo em que a comunidade dos fieis se projeta no mundo como comunidade missionária, portadora do testamento de Jesus.

Jesus não teria outras ocasiões de ver os seus; aquelas seriam as últimas palavras que a comunidade escutaria dos lábios do Nazareno. Sabemos que as últimas vontades de uma pessoa nunca são prolixas, nunca dão muitas explicações, são incisivas e transmitidas de forma a serem gravadas definitivamente no coração de quem escuta. Era o testamento de Jesus. Aquilo que de mais precioso Ele podia deixar. É por isso que procuraremos ler com atenção pelo menos algumas de suas palavras, sempre mantendo vivo e claro dentro do nosso íntimo que estamos diante do testamento de Jesus (mesmo levando em consideração a forma redacional e outros fatores da composição do Evangelho que agora são dispensáveis).

O texto se abre com uma linguagem não tão obvia para nós, palavras complexas que necessitam de um simples esclarecimento. “Glória”, na linguagem bíblica, é quase sempre sinônimo de “manifestação”, de algo que contemporaneamente indica a presença de Deus e, ao mesmo tempo, preserva a sua transcendência. A expressão “Filho do homem” vem do livro de Daniel (cap. 7) e indica um personagem que, por um lado é “semelhante” a tudo o que um homem é, por outro lado sua origem está «nas nuvens», o que significa: no lugar em que Deus está. As palavras de Jesus: «Agora foi glorificado o Filho do Homem, e Deus foi glorificado nele» podem muito bem ser referidas a todo o seu ministério, à pregação, aos milagres, às atitudes de benevolência que o Senhor havia realizado até então; neste sentido significam todo o esforço que Ele fez para manifestar ao mundo, através de suas atitudes, o verdadeiro rosto de Deus, “até o fim”.

Mais emblemática, porém, é a segunda parte da frase: «Deus o glorificará em si mesmo, e o glorificará logo». É possível que Jesus esteja referindo-se à sua paixão, contudo, o leque se abre bem mais se considerarmos o momento em que João escreve. Já haviam passado mais de 50 anos da morte de Jesus e as comunidades cristãs viviam uma vida “alternativa” respeito aos padrões do mundo da época. Sendo assim, é bem possível que o Evangelista recordou e intuiu, nestas palavras, toda a missão da Igreja; entreviu nestas palavras o verdadeiro testamento que Jesus havia deixado, o único parâmetro de referência de toda ação evangelizadora e missionária. A frase indica uma reciprocidade: o Filho, fez da sua vida o lugar da manifestação plena de Deus, do Pai, agora, uma vez que Jesus deixará a sua vida ligada a um contexto histórico, geográfico, temporal, Deus fará a mesma coisa com Ele. Fará conhecer ao mundo “quem” é o Filho, para que todos possam acreditar Nele e assim Nele encontrar aquilo que tanto buscam. Mas, como Deus fará isto? Não o fará através de pressupostas revelações esporádicas, de gestos mirabolantes, demonstrações de poder etc. Não, o fará através da herança que Jesus deixou: uma pequena, frágil, contraditória comunidade. O Pai acolherá esta «semente de mostarda» como o dom que o Filho Lhe fez, o acolherá para si e o transformará em instrumento eficaz através do qual fará conhecer ao mundo o amor do Filho. È uma frágil herança, uma semente que em breve será enriquecida, regada pelo Espírito de “amor-de-reciprocidade”, isto é, daquilo que existe entre o Pai e o Filho; este, e somente este Espírito de “amor-de-reciprocidade” permitirá que o mundo veja realidades que o olhar comum não consegue ver nem a razão explicar.

Deste modo, João vê nas palavras de Jesus qual é o vulto que o Senhor deseja que a sua Igreja tenha. É um desejo tão forte que é equiparado a um “mandamento”. É, no seu coração, como um último, acalorado, apelo ao qual a sua comunidade precisa ser fiel, pois somente assim o Pai conseguirá fazer dela o instrumento vivo que dirá ao mundo, sempre, em que consiste o amor de Jesus.

Precisamos, então, identificar melhor o “mandamento” ao qual Jesus se refere. Em primeiro lugar percebemos que, distinguindo-se da Lei da antiga Aliança, Jesus fala de “mandamento”, enquanto as normas do Decálogo são chamadas: “mandamentos”. A motivação é obvia: para Jesus não importa de que modo o “mandamento” ao qual se refere manifeste, não importam as circunstâncias, pois estas mudam com o mudar das situações, das culturas e das condições de vida. Os “mandamentos” são sujeitos a numerosos fatores que abrem infinitas discussões vinculadas às transformações da própria vida; por exemplo, o mesmo ensinamento é entendido numa época de um modo e numa outra época de outro, e assim por diante. Contudo, o “mandamento” que Jesus deixa é único, pois independe totalmente dos fatores externos; está embasado exclusivamente na opção que nasce de dentro do coração do homem de fé.

Em segundo lugar é possível ver uma outra, profunda, diferença: a língua grega possui dois vocábulos que nós traduzimos com “mandamento” indica a), o primeiro ( “norma”, a regra, a obrigação; o segundo () possui um significado de revelação, que pode ser assim traduzido deste modo: “indicar o caminho para a meta” ( = objetivo, meta). Pois bem, o nosso texto traz a segunda opção. Aquilo que Jesus deixa, então, ressoa como um “dom” («eu vos dou», o verbo , significa fazer um dom), não como uma obrigação. O Senhor revela, doa à sua comunidade ao mesmo tempo o rosto, a lógica, o sentido e a meta da sua existência. Não deixa uma obrigação, não dá um preceito de comportamento ético, pois uma regra que substitui outras regras não muda o coração do homem. Ele deixa uma finalidade nova, uma fisionomia nova; isto sim pode mudar o sentido da vida de alguém.

Em que consiste, então este mandamento?

O texto no-lo indica explicitamente, repetindo três vezes a expressão: «um ao outro». Com certeza esta expressão tinha um forte peso na comunidade cristã primitiva já que a encontramos com extrema freqüência nos escritos do Novo Testamento. Era uma expressão que caracterizava a comunidade, quase um lema. Qual a motivação de tanto valor que lhe era dado? Lendo os Evangelhos nota-se uma estranha diferença entre os Sinóticos e João. Este, diversamente dos outros, nunca fala de um “amor para os inimigos”, ou de amor universal etc. O Evangelista, intencionalmente, se preocupa principalmente com o “amor entre os discípulos”, pois, na opinião dele (que Paulo também acompanha) o que mais pode falar ao mundo sobre o Senhor e o próprio Pai, não são tanto os atos de “bondade” ou caridade que os discípulos cumprem; não é tanto o amor demonstrado aos outros que revela a intimidade de Deus, quanto uma estranha “qualidade” de amor, uma característica específica da vida cristã que é o amor-de-reciprocidade. Isto é, não somente o amor que dá –importante, essencial- mas um amor que é capaz de gerar reciprocidade. Um amor capaz de provocar a vontade de responder com a mesma intensidade ao amor recebido. Este tipo de amor é pressuposto pela expressão ( e semelh.) «uns aos outros» que se encontra tão expressamente nos escritos do Novo Testamento. Deste modo, Jesus deixava à comunidade a fisionomia do rosto que a pode identificar no mundo como algo de realmente “novo” (novo mandamento). Ela é portadora de um desafio, capaz de abrir ao homem perspectivas nunca antes imaginadas.

Evidentemente, fazer gestos de amor não é específico do cristão, mas ser capazes de gerar e viver um “amor-de-reciprocidade” isto sim! É, este, o amor que suscita a vontade de doar, de se entregar, de partilhar a vida, mas acima de tudo é o sentimento que faz «carregar os pesos uns dos outros» (Gal. 6,2) não por uma decisão voluntarista de “ajudar” ou “fazer o bem”, mas porque o outro é sentido e percebido como parte de si mesmo. Esta fusão nasce do “amor-de-reciprocidade”, ou seja o mesmo que une essencialmente (porque sem limites) Filho e Pai. É por isso que este amor é capaz de «dar glória», dar a verdadeira glória a Deus. É um ato de constante louvor à Trindade em si mesma, um ato de louvor dado através da vida de simples fieis, que refletem entre si o que o amor é capaz de gerar. O “amor-de-reciprocidade” é aquele que surpreende, pois sempre dá o primeiro passo quando o outro esperaria outro tipo de reação.

Deixemos ecoar em nós as belíssimas palavras da primeira carta de João: «Nisto consiste o amor: não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou e enviou o seu Filho pelos nossos pecados. Se Deus de tal maneira nos amou, devemos nós também amar uns aos outros» (4,10). Esta foi a qualidade do amor de Jesus para conosco, esta revelou ao mundo o Pai, com esta o Pai revelará ao mundo o Filho através da herança que ele deixou, a sua comunidade. Dar o primeiro passo, gerar “amor-de-reciprocidade”, esta é a missão que Jesus deixa e o instrumento privilegiado da evangelização.

padre Carlo

 

O tema fundamental da liturgia deste domingo é o do amor: o que identifica os seguidores de Jesus é a capacidade de amar até ao dom total da vida.

No Evangelho, Jesus despede-Se dos seus discípulos e deixa-lhes em testamento o “mandamento novo”: “amai-vos uns aos outros, como Eu vos amei”. É nessa entrega radical da vida que se cumpre a vocação cristã e que se dá testemunho no mundo do amor materno e paterno de Deus.

Na primeira leitura apresenta-se a vida dessas comunidades cristãs chamadas a viver no amor. No meio das vicissitudes e das crises, são comunidades fraternas, onde os irmãos se ajudam, se fortalecem uns aos outros nas dificuldades, se amam e dão testemunho do amor de Deus. É esse projeto que motiva Paulo e Barnabé e é essa proposta que eles levam, com a generosidade de quem ama, aos confins da Ásia Menor.

A segunda leitura apresenta-nos a meta final para onde caminhamos: o novo céu e a nova terra, a realização da utopia, o rosto final dessa comunidade de chamados a viver no amor.

LEITURA I – Atos 14,21b-27 - AMBIENTE

Vimos, no passado domingo, como o entusiasmo missionário da comunidade cristã de Antioquia da Síria lançou Paulo e Barnabé para a missão e como a Boa Nova de Jesus alcançou, assim, a ilha de Chipre e as costas da Ásia Menor… A leitura de hoje apresenta-nos a conclusão dessa primeira viagem missionária de Paulo e de Barnabé: depois de chegarem a Derbe, voltaram para trás, visitaram as comunidades entretanto fundadas (Listra, Icónio, Antioquia da Pisídia e Perge) e embarcaram de regresso à cidade de onde tinham partido para a missão. Estes sucessos desenrolam-se entre os anos 46 e 49.

MENSAGEM

No texto que nos é proposto, transparecem os traços fundamentais que marcaram a vida e a experiência dos primeiros grupos cristãos: o entusiasmo dos primeiros missionários, que permite afrontar e vencer os perigos e as incomodidades para levar a todos os homens a boa notícia que Cristo veio propor; as palavras de consolação que fortalecem a fé e ajudam a enfrentar as perseguições (vs. 22a); o apoio mútuo (vs. 23b); a oração (vs. 23b.c).

Sobretudo, este texto acentua a ideia de que a missão não foi uma obra puramente humana, mas foi uma obra de Deus. No início da aventura missionária já se havia sugerido que o envio de Paulo e Barnabé não era apenas iniciativa da Igreja de Antioquia, mas uma ação do Espírito (cf. At 13,2-3); foi esse mesmo Espírito que acompanhou e guiou os missionários a cada passo da sua viagem. E aqui repete-se que o autêntico ator da conversão dos pagãos é Deus e não os homens (cf. vs. 27).

Verdadeira novidade no contexto da missão é a instituição de dirigentes ou responsáveis (“anciãos” – em grego, “presbíteros”), que aparecem aqui pela primeira vez fora da Igreja de Jerusalém. Correspondem, provavelmente, aos “conselhos de anciãos” que estavam à frente das comunidades judaicas. Os “Actos” não explicitam as funções exatas destes dirigentes e animadores das Igrejas; mas o discurso de despedida que Paulo faz aos anciãos de Éfeso parece confiar-lhes o cuidado de administrarem, de vigiarem e de defenderem a comunidade face aos perigos internos e externos (cf. Act 20,28-31). Em todo o caso, convém recordar que os ministérios eram algo subordinado dentro da organização e da vida da primitiva comunidade; não eram valores absolutos em si mesmo, mas só existiam e só tinham sentido em função da comunidade.

ATUALIZAÇÃO

·  Como é que vivem as nossas comunidades cristãs? Notamos nelas o mesmo empenho missionário dos inícios? Há partilha fraterna e preocupação em ir ao encontro dos mais débeis, em apoiá-los e ajudá-los a superar as crises e as angústias? São comunidades que se fortalecem com uma vida de oração e de diálogo com Deus?

·  Temos consciência de que por detrás do nosso trabalho e do nosso testemunho está Deus? Temos consciência de que o anúncio do Evangelho não é uma obra nossa, na qual expomos as nossas ideias e a nossa ideologia, mas é obra de Deus? Temos consciência de que não nos pregamos a nós próprios, mas a Cristo?

·  Para aqueles que têm responsabilidades de direção ou de animação das comunidades: a missão que lhes foi confiada não é um privilégio, mas um serviço que está subordinado à construção da própria comunidade. A comunidade não existe para servir quem preside; quem preside é que existe em função da comunidade e do serviço comunitário.

LEITURA II – Ap 21,1-5ª - AMBIENTE

Depois de descrever o confronto entre Deus e as forças do mal e a vitória final de Deus, o autor do “Apocalipse” apresenta o ponto de chegada da história humana: a “nova terra e o novo céu”; aí, os que se mantiveram fiéis ao “cordeiro” (Jesus) encontrarão a vida em plenitude. É o culminar da caminhada da humanidade, a meta última da nossa história.

Esse mundo novo é, simbolicamente, apresentado em dois quadros (cf. Ap 21,1-8 e 21,9-22,5). A leitura que hoje nos é proposta apresenta-nos o primeiro desses quadros (o outro ficará para o próximo domingo). É o quadro do novo céu e da nova terra – um quadro que apresenta a última fase da obra regeneradora de Deus e que aparece já em Is 65,17 e em 66,22. Também se encontra esta imagem abundantemente representada na literatura apocalíptica (cf. Henoch, 45,4-5; 91,16; 4 Esd 7,75), bem como em certos textos do Novo Testamento (cf. Mt 19,28; 2 Pe 3,13).

MENSAGEM

Neste primeiro quadro, o profeta João chama a essa nova realidade nascida da vitória de Deus a “Jerusalém que desce do céu”. Jerusalém é, no universo religioso e cultural do povo bíblico, a cidade santa por excelência, o lugar onde Deus reside, o espaço onde vai irromper e onde se manifestará em definitivo a salvação de Deus. A “nova Jerusalém” é, portanto, o lugar da salvação definitiva, o lugar do encontro definitivo entre Deus e o seu Povo.

No contexto da teologia do Livro do Apocalipse, esta cidade nova, onde encontra guarida o Povo vitorioso dos “santos”, designa a Igreja, vista como comunidade escatológica, transformada e renovada pela ação salvadora e libertadora de Deus na história. Dizer que ela “desce do céu” significa dizer que se trata de uma realidade que vem de Deus e tem origem divina; ela é uma absoluta criação da graça de Deus, dom definitivo de Deus ao seu Povo.

Esta nova realidade instaura, consequentemente, uma nova ordem de coisas e exige que tudo o que é velho seja transformado. O mar, símbolo e resíduo do caos primitivo e das potências hostis a Deus, desaparecerá; a velha terra, cenário da conduta pecadora do homem, vai ser transformada e recriada (vs. 1). A partir daí, tudo será novo, definitivo, acabado, perfeito.

Quando esta realidade irromper, celebrar-se-á o casamento definitivo entre Deus e a humanidade transformada (a “noiva adornada para o esposo”). Na linguagem profética, o casamento é um símbolo privilegiado da aliança. Realiza-se, assim, o ideal da aliança (cf. Jer 31,33-38; Ez 37,27): Deus e o seu Povo consumam a sua história de intimidade e de comunhão; Deus passará a residir de forma permanente e estável no meio do seu Povo, como o noivo que se junta à sua amada e com ela partilha a vida e o amor. A longa história de amor entre Deus e o seu Povo será uma história de amor com um final feliz. Serão definitivamente banidos do horizonte do homem a dor, as lágrimas, o sofrimento e a morte e restarão a alegria, a harmonia e a felicidade sem fim.

ATUALIZAÇÃO

·  O testemunho profético de João garante-nos que não estamos destinados ao fracasso, mas sim à vida plena, ao encontro com Deus, à felicidade sem fim. Esta esperança tem de iluminar a nossa caminhada e dar-nos a coragem de enfrentar os dramas e as crises que dia a dia se nos apresentam.

·  A Igreja de que fazemos parte tem de procurar ser um anúncio dessa comunidade escatológica, uma “noiva” bela e que caminha com amor ao encontro de Deus, o amado. Isto significa que o egoísmo, as divisões, os conflitos, as lutas pelo poder, têm de ser banidos da nossa experiência eclesial: eles são chagas que deturpam o rosto da Igreja e a impedem de dar testemunho do mundo novo que nos espera.

·  É verdade que a instauração plena do “novo céu e da nova terra” só acontecerá quando o mal for vencido em definitivo; mas essa nova realidade pode e deve começar desde já: a ressurreição de Cristo convoca-nos para a renovação das nossas vidas, da nossa comunidade cristã ou religiosa, da sociedade e das suas estruturas, do mundo em que vivemos.

EVANGELHO – Jo 13,31-33a.34-35 - AMBIENTE

Estamos na fase final da caminhada histórica do “Messias”. Aproxima-se a “Hora”, o momento em que vai nascer – a partir do testemunho do amor total cumprido na cruz – o Homem Novo e a nova comunidade.

O contexto em que este trecho nos coloca é o de uma ceia, na qual Jesus Se despede dos discípulos e lhes deixa as últimas recomendações. Jesus acabou de lavar os pés aos discípulos (cf. Jo 13,1-20) e de anunciar à comunidade desconcertada a traição de um do grupo (cf. Jo 13,21-30); nesses quadros, está presente o seu amor (que se faz serviço simples e humilde no episódio da lavagem dos pés e que se faz amor que não julga, que não condena, que não limita a liberdade e que se dirige até ao inimigo mortal, na referência a Judas, o traidor). Em seguida, Jesus vai dirigir aos discípulos palavras de despedida; essas suas palavras – resumo coerente de uma vida feita de amor e partilha – soam a testamento final. Trata-se de um momento muito solene; é a altura em que não há tempo nem disposição para “conversa fiada”: aproxima-se o fim e é preciso recordar aos discípulos aquilo que é mesmo fundamental na proposta cristã.

MENSAGEM

O texto divide-se em duas partes. Na primeira parte (vs. 31-32), Jesus interpreta a saída de Judas, que acabou de deixar a sala onde o grupo está reunido, para ir entregar o “mestre” aos seus inimigos. A morte é, portanto, uma realidade bem próxima… Jesus explica, na sequência, que a sua morte na cruz será a manifestação da sua glória e da glória do Pai. O termo grego “doxa” aqui utilizado traduz o hebraico “kabod” que pode entender-se como “riqueza”, “esplendor”. A “riqueza”, o “esplendor” do Pai e de Jesus manifesta-se, portanto, no amor que se dá até ao extremo, até ao dom total. É que a “glória” do Pai e de Jesus não se manifesta no triunfo espetacular ou na violência que aniquila os maus, mas manifesta-se na vida dada, no amor oferecido até ao extremo. A entrega de Jesus na cruz vai manifestar a todos os homens a lógica de Deus e mostrar a todos como Deus é: amor radical, que se faz dom até às últimas consequências.

Na segunda parte (vs. 33a.34-35) temos, então, a apresentação do “mandamento novo”. Começa com a expressão “meus filhos” (vs. 33a) – o que nos coloca num quadro de solene emoção e nos leva ao “testamento” de um pai que, à beira da morte, transmite aos seus filhos a sua sabedoria de vida e aquilo que é verdadeiramente fundamental.

Qual é, portanto, a última palavra de Jesus aos seus, o seu ensinamento fundamental?

“Amai-vos uns aos outros. Como Eu vos amei, vós deveis também amar-vos uns aos outros”. O verbo “agapaô” (“amar”) aqui utilizado define, em João, o amor que faz dom de si, o amor até ao extremo, o amor que não guarda nada para si mas é entrega total e absoluta. O ponto de referência no amor é o próprio Jesus (“como Eu vos amei”); as duas cenas precedentes (lavagem dos pés aos discípulos e despedida de Judas) definem a qualidade desse amor que Jesus pede aos seus: “amar” consiste em acolher, em pôr-se ao serviço dos outros, em dar-lhes dignidade e liberdade pelo amor (lavagem dos pés), e isso sem limites nem discriminação alguma, respeitando absolutamente a liberdade do outro (episódio de Judas). Jesus é a norma, não com palavras, mas com atos; mas agora traduz em palavras os seus atos precedentes, para que os discípulos tenham uma referência.

O amor (igual ao de Jesus) que os discípulos manifestam entre si será visível para todos os homens (vs. 35). Esse será o distintivo da comunidade de Jesus. Os discípulos de Jesus não são os depositários de uma doutrina ou de uma ideologia, ou os observantes de leis, ou os fiéis cumpridores de ritos; mas são aqueles que, pelo amor que partilham, vão ser um sinal vivo do Deus que ama. Pelo amor, eles serão no mundo sinal do Pai.

ATUALIZAÇÃO

·  A proposta cristã resume-se no amor. É o amor que nos distingue, que nos identifica; quem não aceita o amor, não pode ter qualquer pretensão de integrar a comunidade de Jesus.

·  Falar de amor hoje pode ser equívoco… A palavra “amor” é, tantas vezes, usada para definir comportamentos egoístas, interesseiros, que usam o outro, que fazem mal, que limitam horizontes, que roubam a liberdade… Mas o amor de que Jesus fala é o amor que acolhe, que se faz serviço, que respeita a dignidade e a liberdade do outro, que não discrimina nem marginaliza, que se faz dom total (até à morte) para que o outro tenha mais vida. É este o amor que vivemos e que partilhamos?

·  Por um lado, a comunidade de Jesus tem de testemunhar, com gestos concretos, o amor de Deus; Nos nossos comportamentos e atitudes uns para com os outros, os homens descobrem a presença do amor de Deus no mundo? Amamos mais do que os outros e interessamo-nos mais do que eles pelos pobres e pelos que sofrem?

padre Joaquim Garrido – padre Manuel Barbosa – padre Ornelas Carvalho