5º DOMINGO DO TEMPO COMUM

ano C

 

Is. 6,1 - 2a.3 - 8 - Sl.137 - 1 Cor. 15,1 - 11 - Lc. 5,1 - 11

Comecemos nossa meditação pelo Evangelho. É comovente: Jesus apertado pela multidão sedenta da palavra de Deus. Ao terminar sua pregação, sentado à barca de Pedro, que é imagem da Igreja, ordena a Simão Pedro e à Igreja de todos os tempos: “Avança para as águas mais profundas!” É a missão que o Senhor nos confia. Confia aos ministros sagrados e confia a todo o povo de Deus, a toda a Igreja, barca de Pedro: “Avança para as águas do mar da vida; ide pelo mundo, em cada época, em cada tempo; pregai o Evangelho!” Atualmente, frente à drescristianização do nosso mundo, esta ordem do Senhor é um desafio acima de nossas forças; e um desafio que chega a amedrontar. A resposta de Pedro deve ser também a nossa: “Mestre, trabalhamos a noite inteira e nada pescamos. Mas, em atenção à tua palavra, vou lançar as redes!” Bendito Pedro, que, na palavra do Senhor, lançou as redes! Bendita a Igreja se fizer o mesmo em cada época da história humana! Benditos nós se, no meio em que vivemos, tivermos a coragem de lançar as redes da pregação do Evangelho! Observemos que aqui são de pouca valia a inteligência e astúcia nossa: “Na tua palavra lançarei as redes!” Só na tua palavra, Senhor, a pregação pode ser realmente eficaz! O Evangelho será sempre pregado na fraqueza, na pobreza, na loucura. E, no entanto, ele será sempre força, riqueza e sabedoria de Deus!

É comovente também a atitude de Simão após a pesca: “Senhor, afasta-te de mim, porque sou pecador!” O Senhor é tão grande (não é Aquele que enchia a terra com a sua glória, na primeira leitura? Aquele que está envolto numa nuvem de fumaça? Aquele que faz o templo tremer?), seus desígnios nos são tão incompreensíveis... somos tão pequenos, tão estultos e frágeis diante dele: “Senhor, afasta-te de mim! Chama alguém melhor!” E, no entanto, este Senhor tão grande quer precisar exatamente de nós, pequenos, pobres, estultos, frágeis. Este Senhor tão imenso, pergunta na primeira leitura: ‘Quem enviarei? Quem irá por nós?” Que mistério tão grande! Como pode Deus querer realmente contar conosco? Como pode o Evangelho depender de verdade da nossa pregação, do nosso testemunho? E, no entanto, é assim! É realmente assim! “Não tenhas medo! De hoje em diante, tu serás pescador de homens!” Eis aqui um mistério que não compreenderemos nunca nessa vida! Creiamos, adoremos, e digamos “sim” ao Senhor que nos chama e nos envia! Envia-nos a todos nós batizados e crismados! Lavou-nos no Batismo, como purificou os lábios de Isaías, e ungiu-nos com o Espírito de força e testemunho na Crisma, para que sejamos mensageiros do seu Evangelho!

Vejamos, finalmente, a atitude de Pedro e de Tiago e João, diante do chamado do Senhor: “Então levaram as barcas para a margem, deixaram tudo e seguiram Jesus”... Nunca mais barcas, nunca mais pescarias, nunca mais a vida de antes... “Deixaram tudo e seguiram Jesus...” É isso que é ser cristão: deixar-se a si, deixar uma vida voltada para si e dobrada sobre si mesmo, para seguir aquele que nos chamou e consagrou para a missão! Então, somos todos chamados e enviados como testemunhas do Senhor!

Mas, há ainda dois outros aspectos importantes na palavra que Deus nos dirigiu hoje. O primeiro: em que consiste o anúncio que devemos fazer ao mundo? São Paulo no-lo diz de modo maravilhoso na segunda leitura: “Transmiti-vos em primeiro lugar, aquilo que eu mesmo tinha recebido, a saber: que Cristo morreu pelos nossos pecados segundo as Escrituras; que foi sepultado; que, ao terceiro dia, ressuscitou, segundo as Escrituras...” Vejamos bem que o anúncio do Evangelho não é simplesmente um anúncio sentimental e vazio sobre Jesus. Não é pregar curas, não é comentar a Bíblia, não é pregar preceitos morais! Isso não seria evangelização, mas charlatanismo, embromação! A pregação do Evangelho tem um conteúdo preciso, recebido da Tradição dos Apóstolos. Estejamos atentos como São Paulo diz: “Transmiti-vos aquilo que eu mesmo tinha recebido...” Paulo não inventa; não prega a si mesmo nem por si mesmo; prega o que recebera na Igreja, prega a fé da Igreja em Jesus. Por isso mesmo, mais tarde, ele vai a Jerusalém para ver Pedro. Vai conferir sua pregação com a de Pedro (Cefas), para ver se não havia corrido em vão! (cf. Gl 2,1-2) E pensemos que Paulo fora chamado diretamente pelo Senhor, de um modo absolutamente original e único! (cf. Gl 1,15-23). Então, para não corrermos em vão, o Evangelho vivido e pregado por nós não pode ser outro que Jesus morto e ressuscitado por nós, nosso único Salvador e Senhor. Mas, Jesus Cristo como é crido, vivido, celebrado e testemunhado pela Igreja. E quando dizemos “Igreja”, não tenham dúvida alguma: estamos nos referindo à Igreja católica, em comunhão com o Sucessor de Pedro e com os Bispos a ele unidos!

Mas, há ainda um segundo aspecto importante: este Jesus que pregamos não é um mito, uma lenda, um sonho! Ele é a mais profunda e verdadeira realidade: o que diz São Paulo sobre o Cristo ressuscitado? “Apareceu a Cefas e, depois aos Doze. Mais tarde, apareceu a mais de quinhentos irmãos, de uma só vez. Destes, a maioria ainda vive... Depois apareceu a Tiago e, depois, apareceu a mim, como a um abortivo”. É comovente o testemunho pessoal do Apóstolo! Ele viu o Senhor ressuscitado, ele é testemunha em primeira pessoa, juntamente com Pedro, em primeiro lugar, juntamente com os Doze e com toda a Igreja (os quinhentos irmãos)! O Evangelho que testemunhamos e anunciamos é uma realidade, é firme como uma rocha!

Que fiquem hoje no nosso coração estes santos e piedosos pensamentos: o Senhor nos chama e envia para a missão; nós realmente somos importantes para a pregação do Evangelho! Este Evangelho é uma Pessoa concreta: é Jesus morto e ressuscitado, nosso Deus e Salvador, tal como é crido e anunciado pela Igreja católica, dentro da legítima e contínua Tradição dos Apóstolos. Que nos resta dizer? Sejamos fiéis a tão grande e tão urgente missão que o Senhor nos confia nos tempos de hoje: “Avança para as águas mais profundas, e lançai as redes para a pesca!” Vem conosco, Senhor Jesus, porque o teu mar é tão vasto e nosso barco, tua Igreja, é tão pequena! Vem conosco e temos certeza que nossas redes não se romperão nem ficarão vazias! Na tua palavra, ensina-nos a lançar as redes!

dom Henrique Soares da Costa

 

Depois de manifestar seu programa – anunciar o ano do verdadeiro jubileu – e ser, então, rejeitado pelos seus conterrâneos, Jesus segue o seu caminho. Agora ensina da barca de Simão e o chama para ser pescador de gente.

Pescar gente não é simplesmente trazer as pessoas para o seu barco, o seu grupo, a sua instituição; é tirar as pessoas do poder da morte. As águas volumosas como o lago, o mar, eram relacionadas ao poder da morte e das forças do mal. O capítulo 21 do livro do Apocalipse, ao falar dos novos céus e nova terra, onde já não existe nem morte, nem luto, nem dor, diz: “o mar já não existe”.

1º leitura (Is 6,1 - 2a.3 - 8)

Isaías nos conta como se sentiu chamado para ser profeta, um mensageiro de Deus. Homem do templo e homem de oração, foi certamente no templo que ele sentiu o apelo de Deus.

Se isso sucedeu, como muitos pensam, no dia da expiação, no momento em que o sumo sacerdote, levando sangue de carneiros e bodes, afastou a cortina para entrar no santuário, certamente Isaías viu a arca da aliança e os querubins que a ladeavam. Com a mente sempre voltada para Deus, foi então que seus pensamentos o conduziram a essa experiência mística.

Javé sentado entre os querubins, lá no alto, nas alturas, sublime. Bastava a orla do seu manto para encher todo o templo, como a nuvem de fumaça, outro sinal da presença de Deus, também enchia o templo. O cântico dos serafins diz que a terra toda – não só o templo – está cheia da glória de Deus. O santuário, o templo e a terra inteira estão repletos da sua glória. Javé é o Deus santo, presente em toda parte, ocupando todos os espaços.

Ver Deus e sua glória é correr grande risco, pois quem vê Deus não pode continuar vivo, como afirmam vários textos do Primeiro Testamento. Isaías acrescenta mais uma razão: tem lábios impuros e vive no meio de gente de lábios impuros. Mas um serafim, anjo do fogo, vem purificar-lhe os lábios com uma brasa tirada do altar, de onde a fumaça dos sacrifícios sobe até Deus.

Vem, em seguida, a vocação. Javé não diz que o escolheu e quer enviá-lo, apenas pergunta a quem há de enviar, quem irá por ele; Isaías, por seu turno, não manifesta qualquer resistência, acode prontamente: “Aqui estou! Envia-me!”.

Salmo 137 (138),1 - 5.7 - 8

O salmo canta a confiança e a segurança que aquele que é chamado pode encontrar em Deus.

2a leitura (1Cor 15,1-11)

Para responder a questões que preocupavam as comunidades de Corinto, Paulo explica por que saiu pregando que um crucificado é o Messias, a esperança da humanidade.

Em Corinto, um grupo de intimistas espiritualistas mais exaltados negava a ressurreição ou não dava importância a ela. Não se sabe se era por influência da filosofia grega – especialmente do platonismo, que não valorizava o corpo, considerando-o prisão da alma – ou se porque, em sua alta espiritualidade, já se achavam ressuscitados e em plena comunhão com Deus. Para uns, bastava a imortalidade da alma, o corpo era desprezível; para outros, a morte nada de novo iria trazer, pois já estavam plenamente realizados, em plena comunhão com Deus.

Seja como for, Paulo lembra a mensagem básica do cristianismo: o Messias Jesus morreu por causa dos nossos pecados, foi sepultado e ressuscitado segundo as Escrituras. Fala de fatos: morte, sepultura, ressurreição. O objetivo foi livrar a humanidade do pecado, e tudo aconteceu em conformidade com as Escrituras.

A sepultura, sem dúvida, confirma a realidade da morte, e a ressurreição significa a intervenção de Deus, que aprova e confirma Jesus como Messias e Senhor. Paulo não fala da ressurreição como um espetáculo nem como o simples devolver a vida a um cadáver. Fala da ressurreição, uma vida nova, como objeto fundamental da pregação e da fé cristã.

As aparições do Ressuscitado que Paulo enumera não são as mesmas que se encontram nos evangelhos, mas, como aquelas, servem para comprovar o fato de que, depois da morte real e verdadeira, Jesus passou a outra esfera de existência. A aparição ao próprio Paulo – terá sido por ocasião de sua conversão ou em outro momento de sua vida? – alinha-se com as outras, embora o apóstolo se considere um feto abortivo.

E é o testemunho de sua dedicação ao trabalho em favor do evangelho que vem atestar o valor de suas experiências do Ressuscitado. Seu encontro pessoal com Jesus ressuscitado trouxe-lhe a força, a graça de Deus, que o fez trabalhar muito mais do que os outros.

Evangelho (Lc 5,1 - 11)

Jesus começa a chamar os apóstolos. Os primeiros são pescadores. Como se trata de pescadores, Jesus os chama em meio a uma pesca.

Nos Evangelhos de Marcos e de Mateus, Jesus, passando pela beira do lago, chama os pescadores Simão e seu irmão André e também os irmãos Tiago e João, convidando-os a se tornar pescadores de gente. Esses vão começar a formar a comunidade de irmãos, a comunidade dos discípulos de Jesus.

Lucas faz diferente. Toma a tradição, também presente em Jo 21, de uma pesca miraculosa e aí mostra Jesus chamando Pedro para ser pescador de gente. Lucas constrói bem a sua história, sem deixar de lado os simbolismos. Porque a multidão o aperta de todos os lados, Jesus sobe à barca de Simão e daí instrui o povo.

Da barca de Simão Pedro, Jesus instrui as multidões. É da barca de Pedro, a Igreja, as comunidades cristãs, que a mensagem de Jesus deve chegar à humanidade toda. Poderíamos nos perguntar: para quê? Após terminar seu ensino, Jesus manda que Simão leve o barco para águas mais profundas.

Na concepção da época, as águas profundas comunicavam-se com a mansão dos mortos, debaixo da terra. Os monstros que habitariam as grandes águas e o perigo dos ventos e das tempestades reforçavam a ideia de o mar ser o mundo da morte e do mal. Pescar significava, então, tirar do poder da morte.

Aos que estavam com Pedro Jesus manda: “Lançai vossas redes para a pesca!”. Todos devem pescar. Todos devem contribuir para salvar a humanidade. Simão deixa de lado sua experiência de pescador e confia na palavra de Jesus. O resultado é a pesca farta. Não é preciso mostrar o significado de tudo isso.

Muito próprio de Lucas é o destaque dado a Pedro. É sua a barca de onde Jesus ensina, é a ele que Jesus manda levar o barco ao mais profundo, é ele quem confia na palavra de Jesus, é ele quem se prostra diante de Jesus, reconhecendo-se pecador (como Isaías na 1ª leitura), é a ele que Jesus faz pescador de gente. De André, seu irmão, nenhuma palavra. Só há pequena alusão aos outros dois irmãos, Tiago e João.

O resultado é que todos deixam os barcos – por hipótese, cheios de peixe (poderiam fazer bons negócios) – e tudo o mais para seguir Jesus. Todos serão pescadores, todos terão a missão de tirar a humanidade do reino da morte. Para isso deixam tudo, não só os peixes, que eram a sua vida até então.

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“Entrai, inclinai-vos e prostai-vos: adoremos o Senhor que nos criou, pois ele é nosso Deus”

Salmo 94,6s

Vamos caminhando adentro do tempo chamado comum ou cotidiano: Deus se realiza na história e nos convida a avançar para as águas mais profundas. Neste quinto domingo do tempo comum nós somos convidados a refletir sobre a nossa vocação cristã, a vocação que Jesus nos convida a sermos pescadores de homens.

A primeira leitura (cf. Is. 6,1 - 2a.3 - 8) nos apresenta a vocação de Isaías, resumida em uma palavra – prontidão. Ao adorar no Templo, Isaías experimenta a presença do Deus inacessível (6,1 - 4) e toma consciência de sua impureza diante do Sagrado (6,5). Mas Deus o purifica (6,6 - 7), para lhe conferir sua missão, que Isaías prontamente aceita (6,8). Por amor de Deus, terá que dirigir palavras duras ao povo do meio do qual ele é chamado.

Jesus hoje não está na sinagoga. Seu afastamento da sinagoga não significa rompimento, mas alargamento. A sinagoga era sectária, isto é, reservada aos observantes da lei de Moisés. Para o Evangelista São Lucas, Jesus viera trazer uma mentalidade e uma espiritualidade universalista. Assim Lucas coloca Jesus fora da sinagoga pregando em praças, em estradas, nas praias, etc.

Todos os elementos estão presentes no Evangelho de hoje(cf. Lc. 5,1 - 11): a terra, o mar, o céu aberto, a multidão, os indivíduos com seus nomes, a pregação, o trabalho, o fracasso, a confiança, a abundância, a presença do Senhor, a presença de um homem pecador, o medo, a admiração, o tempo presente, o tempo futuro, a partilha do trabalho apostólico e a derrota de Satanás. Jesus não só prega sobre as ondas, isto é, sentado com poder sobre os demônios, mas faz a pesca milagrosa, mostrando poder também nas profundezas, aonde apenas chegava a fantasia popular.

Lucas coloca Jesus escolhendo Pedro para a pregação. Neste episódio Lucas relembra o doce convite de Jesus: “Vamos lançar as redes para as águas mais profundas” (cf. Lc. 5,5). O que significa isso, lançar as redes para as águas mais profundas? Significa que todos nós somos convidados a evangelizar, a evangelizar com renovado ardor missionário em que todos os homens e mulheres devem deixar o seu comodismo e dar testemunho do Senhor Ressuscitado.

Jesus pregou a multidão a Palavra de Deus. A Palavra é o próprio Jesus. Jesus, por iniciativa própria, escolhe alguns para participarem de sua missão. Ninguém é presbítero por vontade própria, mas por chamado e mandato de Nosso Senhor Jesus Cristo. Assim acontece com os religiosos, com as religiosas, com os consagrados e com todos aqueles que se dedicam ao seguimento de Jesus. Jesus escolhe seus discípulos e os envia para “pescadores de homens”. Os escolhidos para a missão eram pescadores. Porão sua experiência humana a serviço de uma missão divina, como Jesus pusera sua divindade a serviço de uma missão humana, na peregrinação neste vale de lágrimas.

O que é ser pescadores de homens? Precisa de santidade? Precisa de ciência? Isso, evidentemente, ajuda e vem com o tempo. Mas as condições para ser pescadores de homens são duas:

1. Uma confiança inabalável em Jesus. Uma confiança como aquela de Pedro, que exausto da pesca, da falta de peixe, confiou em Jesus e a barca transbordou de pesca depois da confiança no Redentor. Confiança que todos nós devemos ter sempre e em todas as circunstâncias, é uma qualidade do apóstolo do Senhor.

2. A segunda condição vem do reconhecimento da divindade de Cristo. Quando Pedro se ajoelha e reconhece a sua pequenez, a sua nulidade, o seu estado de pecador você adere e se abre para a graça santificante de Deus. O discípulo de Jesus não pode ser orgulhoso, ao contrário, deve ser humilde, generoso e amigo. Irmão no meio dos irmãos a serviço da comunidade de fiéis. O apóstolo tem que ter consciência de que a seara não lhe pertence, mas que nela é um trabalhador vocacionado, um servidor. Essa humildade de reconhecer-se, apesar da inteligência, do jeito e da experiência, mero cooperador de Deus, é também condição fundamental para o verdadeiro apostolado. O apóstolo é um prolongamento de Jesus. A palavra pertence a Jesus, mesmo quando pronunciada pelo apóstolo. As mãos eram de Pedro, as redes eram de Pedro, a barca era de Pedro, o trabalho foi de Pedro, mas o milagre foi e é de Jesus. Junto a isso temos que ter na vida de comunidade e de trabalho apostólico a edificação da comunidade, do trabalho coletivo, do trabalho em benefício da comunidade.

A segunda leitura (cf. 1 Cor. 15,1 - 11 ou 15,3 - 8.11) apresenta o Evangelho de Paulo: a Ressurreição de Cristo. Este trecho paulino é a fórmula mais antiga do querigma cristão, o anúncio de Cristo morto e ressuscitado. Paulo inclui-se na lista das testemunhas, pois ele também viu o Senhor glorioso, no caminho de Damasco. Na fé da ressurreição baseia-se toda a esperança da vida cristã. A Segunda Leitura é ligada ao Evangelho na transformação da vocação, ou melhor, o encontro com Cristo opera nas pessoas. Pode-se propor esta idéia para a aplicação pessoal na vida de cada um. Pois não é preciso fazer parte da hierarquia para receber tal vocação transformadora. Transformadora, não só da gente, mas também do mundo em que a gente vive.

Qual é o conteúdo da missão dos apóstolos? A segunda leitura explicita a nossa indagação: o anúncio de Cristo morto e ressuscitado. Olhem só como Paulo, o apostolo dos gentios, assume essa missão com toda a força. Para pescar na empresa de Jesus precisamos de transmitir o que recebemos a seu respeito, a mensagem de sua vida, morte e ressurreição. Esta é o núcleo central do apóstolo, da missão, da pastoral. Mas, para sermos escutados, talvez devamos abordar o assunto por um outro lado, mais próprio da situação das pessoas. De todas as maneiras devemos chegar a comunicar que Jesus por sua vida e morte nos mostrou quem é Deus e qual é o sentido de nossa vida e da nossa história: amou até o fim, dom de vida. Transmitir isso é o que se chama “tradição” cristã, a memória de Cristo que devemos manter viva na história e na comunidade.

Rezemos, pois, para que em cada missa a comunidade crista se sinta convidada a realizar uma intensa experiência de Deus para que, em seguida, participe da missão libertadora de Cristo, Jesus. Daí os momentos de profunda adoração em forma de doxologia, como os pórticos de entrada nas diversas partes da Missa. Assim Jesus nos dirá: “Não tenhais medo. Ide também vós e preparai os corações das pessoas para a minha chegada. Amém!”

padre Wagner Augusto Portugal

 

Primeira leitura: Isaías 6,1 - 2a.3 - 8

VOCAÇÃO DE ISAÍAS

Estamos no ano 739 a.C., ano em que o rei Ozias morreu e Isaías foi chamado para ser profeta. Ele recebeu o seu chamado durante uma celebração no Templo, no momento da cerimônia litúrgica em que se celebrava a realeza de Javé sobre todo o universo, a qual é cantada no Salmo 99. Foi uma celebração histórica, porque ali nasceu a vocação do maior profeta do Antigo Testamento, uma cerimônia que proclamava que só a Deus se deve a realeza, pois só ele é Absoluto. Foi neste contexto, diante do Salmo 99, que o profeta fez sua experiência extraordinária e inaudita de Deus, e isto, tocou-o profundamente.

A primeira experiência de Isaías é de que Javé é o Senhor, o Absoluto da história. Ele está sentado (posição de quem reina) num trono majestoso e elevado. Esse trono é o céu. Ele se estende até a terra, penetrando no santuário do Templo, preenchendo-o com as franjas de suas vestes. Nesta visão, Isaías sente a plenitude de Deus. Ele vê apenas a barra de suas vestes, e já é o suficiente para encher o Templo. Sinal de que Javé não pode ser reduzido aos espaços e às dimensões do Templo. O céu é o lugar onde ele se senta e o Templo o lugar onde apóia seus pés. O profeta sente Deus transcendente presente no meio do seu povo.

A experiência fundamental que Isaías fez de Deus no Templo é a da santidade de Deus, pois a realeza de Deus isolada de sua santidade não tem sentido. Tal santidade se manifesta em sua presença libertadora no meio do seu povo, pois ele ama o direito e a justiça.

Durante a liturgia os anjos cantam o Trisaghion (três vezes Santo), afirmando a transcendência de Deus. Diante desta experiência de Deus, Isaías tem a sensação de que está perdido, toma consciência de sua impureza, ou seja, de que não é digno do culto divino, é um homem de lábios impuros, morando no meio de um povo pecador, de que não é digno de estar na presença divina, sente-se fora de lugar. Mas Deus está presente na história e o torna seu mensageiro, purificando-lhe os lábios com um tição de fogo por meio de um anjo, e assim Isaías sente-se elevado à dignidade de conselheiro do Trono divino. Gozando de tal reputação, Isaías toma consciência de que Deus quer um mensageiro para lhe confiar a difícil tarefa, e assim se coloca responsavelmente à disposição de Deus, aceitando a missão.

Segunda leitura: 1 Coríntios 15,1 - 11

CERTEZA DA RESSURREIÇÃO DE JESUS

Nesta carta Paulo responde a uma série de perguntas dos coríntios e no capítulo 15 responde à última pergunta, explicitando que a Boa Nova se torna salvação para todos que a acolhem.

Em particular, Paulo aborda neste capítulo o tema da Ressurreição de Jesus, visto que a comunidade de Corinto estava dividida sobre esta questão. Alguns não acreditavam em ressurreição, outros acreditavam na imortalidade da alma, mas não na ressurreição. Esta confusão na comunidade fazia com que os cristãos de Corinto perdessem toda a capacidade de ser fermento na sociedade.

Em vista disso, o apóstolo convida a comunidade a se lembrar da catequese fundamental que ele mesmo anunciou e que não foi fruto de especulações filosóficas, mas palavra que conduz à salvação. Sua catequese reporta à tradição que ele recebeu e transmitiu inalterada. Trata-se aqui da própria substância do Evangelho. Tal tradição sobre a ressurreição de Jesus já existia antes de Paulo se tornar apóstolo, por volta do ano 20 após a morte de Jesus. Por isso, Paulo afirma que Jesus morreu, foi sepultado e ressuscitou, aparecendo a muitos. Este é o conteúdo básico de sua catequese. O próprio Jesus apareceu a ele no caminho de Damasco. Portanto, Paulo mostra o coração do mysterium paschale, ou seja, Cristo morto, sepultado, ressuscitado e, depois, manifestado. Este é o primeiro credo da comunidade cristã.

Evangelho: Lucas 5,1 - 11

VOCAÇÃO DOS PRIMEIROS APÓSTOLOS

O evangelista explicita a vocação dos primeiros apóstolos, ligando-a à pesca milagrosa. Nesta narração encontramos condensados vários fatos, dos quais Lucas faz uma leitura teológica. Em primeiro lugar, o lago de Genesaré é o lugar teológico onde Jesus desenvolve suas atividades libertadoras. Ele se encontra à beira do lago apertado pela multidão que tem fome da Palavra. Diante disto, sobe na barca afastando-se um pouco da margem do lago, não para se isolar, mas para poder ver melhor o povo e comunicar-lhe a Palavra de novidade. Então, sentado (atitude de Mestre autorizado), começou a pregar. Lucas não conta o que Jesus pregou, mas o que podia ele ter dito a um povo faminto? Sermões bonitos? Oratória?

Pedro entendeu as palavras do Mestre. Avançou nas águas profundas e lançou a rede. O que teria feito Pedro, especialista em pescaria, voltar a jogar as redes diante da palavra de alguém que nunca havia pescado? Ele, que estava acostumado a comandar? Foi a atenção às palavras de Jesus: “Em atenção às suas palavras...”. A confiança nas palavras do Mestre reverte a situação, pois pescaram tantos peixes que as redes se rompiam.

Diante disto, Pedro reagiu como Isaías, pedindo que o Senhor se afastasse dele porque não era digno.

REFLEXÃO

Existe um fio condutor que une as leituras destes domingos: a experiência de Deus. A experiência de Isaías, Pedro e Paulo mostra que é Deus quem toma a iniciativa, e não o homem. Os três são pecadores e Deus os encontrou em sua história concreta e os transformou. Eles imediatamente se tornaram missionários. Não ficaram estáticos. Isaías viu a glória do Senhor e sentiu-se pecador. Pedro viu o milagre de Jesus e declarou-se pecador. Paulo experimentou o Senhor no caminho de Damasco e sentiu-se o menor de todos.

Na verdade, o que distingue uma pessoa religiosa de uma não religiosa é a experiência de Deus. O homem se relaciona com Deus de modos diferenciados: Isaías numa liturgia no templo, Pedro diante da pesca milagrosa e Paulo no caminho de Damasco. Esta é a sábia pedagogia divina, que personaliza suas intervenções de graças.

As leituras nos apresentam Isaías e Pedro, dois grandes personagens que se sentem indignos e pecadores. Entre eles temos o trait d’union de Paulo, que também se confessa pecador, o último dos apóstolos. Este trio indigno que a liturgia nos apresenta tem uma razão estrutural, ou seja, o ser do homem de Deus não subsiste quando falta o fundamento da humildade. Assim, antes de dizer que somos melhores que os outros devemos pensar mil vezes, senão nos colocaremos no lugar do publicano. Isto não é um exercício acadêmico, mas muito concreto na vida.

Pedro era um pescador veterano, um profissional perito, e sabia bem que não se pesca de dia, mas de noite. Mesmo assim, confiou nas palavras do jovem Rabi, que pedia: “Reme mar adentro e lancem as redes para pescar“, e Pedro respondeu-lhe: “Por causa de sua palavra lançarei as redes” Assim pegaram tantos peixes que as redes se rompiam. A fé foi, portanto, a condição indispensável para a realização do milagre. Diante da admiração de Pedro e de seus companheiros, Jesus os convida: “De agora em diante você será pescador de homens”.

Lucas escreveu a cena da pesca milagrosa a partir da perspectiva pascal da missão da Igreja, e vê na missão dos cristãos a missão de Cristo. Ele faz uma interpretação teológica. Os vocacionados têm uma missão concreta. Pedro “será pescador de homens”. Isaías, depois de ter seus pecados perdoados, irá anunciar em nome de Deus. Paulo foi constituído apóstolo, apesar de ser o menor dos apóstolos, para testemunhar a ressurreição de Cristo.

Com o chamado, os vocacionados sentem-se disponíveis. Isaías diz: “Eis-me aqui, envie-me”. Igualmente Pedro e seus companheiros, deixando tudo, seguiram Jesus. Paulo também foi anunciar o Evangelho de Cristo.

A vocação cristã se especifica nas diversas vocações, estados de vida e carismas que o Espírito Santo reparte como quer dentro do povo de Deus (Lumen Gentium 39ss). Cada cristão continua recebendo de Deus o chamado ao discipulado, à conversão, ao apostolado nos sacramentos da vida cristã, na proclamação da palavra, nos sinais dos tempos etc. Portanto, o chamado de Cristo não se resume à hierarquia, mas a todos os fiéis onde hoje a missão se encarna e se realiza dinamicamente.

Toda vocação e chamamento é seguido por uma missão, pois toda a experiência de Deus pela vocação à fé tem de passar à ação, em que todos são chamados a ser luz do mundo, sal da terra, fermento na massa, testemunhas da ressurreição de Jesus.

A missão eclesial não é uma prerrogativa da hierarquia, nem algo que se concede ao leigo para suprir a ausência da hierarquia. Surge da condição comum de todo cristão batizado e confirmado pelo Espírito Santo.

Jesus, junto ao mar da Galiléia, prega à multidão de dentro da barca de Pedro. Quando termina a pregação, pede a Pedro que navegue mar adentro, depois de uma noite infrutífera. Pedro e os companheiros deviam estar cansados devido ao trabalho duro. Apesar do cansaço e de a ordem de pescar ter partido de alguém que não era homem do mar e da inoportunidade da hora para essa tarefa e da ausência de peixes, Pedro confia e obedece. “Deus não necessita do nosso trabalho, mas da nossa obediência” (São João Crisóstomo). A fé e a obediência de Pedro lhe renderam peixes abundantes. O fruto da fé talvez seja muito abundante. Pedro nunca pescou tanto como daquela vez.

Jesus contempla naqueles peixes uma pesca que seria muito mais abundante ao longo dos séculos, em que cada discípulo seria um novo pescador. Assim, os discípulos seriam instrumentos de grandes prodígios, apesar de suas misérias pessoais.

Pedro sentiu sua insignificância e seu pecado, porém Jesus lhe tirou todo o temor: “Você será pescador de homens”. Não devemos nunca invocar nossas misérias como pretexto para fugir da missão que Deus nos confia, pois ele nos torna aptos. Por isso, após a pesca, a vida de Pedro passou a ter um objetivo formidável: amar Cristo e ser apóstolo dele. Toda a sua existência seria meio e instrumento para este fim.

Da mesma maneira, Deus pode fazer de cada um de nós instrumento capaz de realizar milagres, e até, se for preciso, dos mais extraordinários, se lutarmos sempre para alcançar a santidade, cada um em seu próprio estado, no mundo e no exercício de sua profissão.

Devemos realizar em nosso próprio ambiente e em nossas condições específicas de vida um trabalho apostólico audacioso, cheio de fé, segundo as palavras de Jesus: “Duc in altum” - “Mar adentro”. Vá para frente com coragem. “Et laxate retia vestra in capturam” e “lança as redes para pescar”. Por isso, como Pedro podemos dizer: “In nomine tuo, laxabo rete” - ”Em teu nome procurarei almas”.

padre José Antonio Bertolin, OSJ

 

Parece que os de Corinto aceitavam uma ressurreição parcial, ou seja, uma sobrevivência da alma, sem o corpo. Esta perícope é, por isso mesmo, tanto mais essencial e importante, porque define a ressurreição como sendo uma ressurreição  corporal, e portanto, rejeita, desde o início, as teorias modernas dos que falam de aparições subjetivas ou internas sem que a visão seja tal que até poderia ser captada por uma máquina fotográfica ou uma câmara de filmar. Dentre os testemunhos, o do próprio Paulo é importante, não só porque temos o escrito de uma testemunha viva, mas porque este escrito é anterior aos evangelhos [23 anos após a morte de Cristo] e até mais completo em certos detalhes, indicando que o número dos que viram o Cristo ressuscitado é tal que não existe depoimento semelhante em toda a história de um fato extraordinário tão unânime e numeroso como este. Paulo viu o Senhor no caminho de Damasco [cerca de 8 anos após a morte de Cristo] e ninguém poderia tirar de sua cabeça a idéia, ou melhor, a fé de que ele viu o Cristo vivo em corpo e alma. Um corpo espiritual, mas corporal e físico. A este corpo apontam os dois relatos de João quando afirma que, estando tudo fechado, Jesus entrou (Jo 20, 19 e 26). Para que o detalhe das portas, se era uma simples visão mais ou menos imaginária? Porém se era um corpo real então o detalhe aumenta o prodígio da aparição, que é, sem dúvida, o que o evangelista deseja realçar. Vejamos os versículos em separado.

A TRANSMISSÃO: Portanto, vos transmito, irmãos, o evangelho que vos anunciei, esse que também recebestes e no qual tendes permanecido (1).

TRANSMITO: O verbo gnörizö é traduzido fielmente pela Vulgata. Lembrar, trazer à memória, recordar, parece um tanto livre e sem de vigor. A tradução inglesa literal fala de reveal [revelar] que se fosse pela primeira vez estaria muito bem escolhido, pois é o sentido que lhe dão os clássicos. Preferimos o transmitir no sentido de comunicar ou propagar uma notícia.

EVANGELHO: Em grego euaggelion palavra que sai 57 vezes nas cartas paulinas, com diferentes adjetivos que a determinam como anúncio: 1) simplesmente evangelho (27), ou anúncio de uma Boa Nova como é a vinda do Reino de Deus, que para Paulo tem conotações de perdão e salvação gratuitos por parte de Deus em seu Filho.- 2) de Cristo , Jesus Cristo, ou Filho de Deus (10 vezes).- 3) de Deus (8 vezes).- 4) próprio de Paulo no sentido de ser dirigido aos gentios com especial cuidado para anular a Torah antiga, evangelho dos incircuncisos (11).- 5) Uma vez evangelho da paz (Ef. 6,15). Qual é a essência deste evangelho? Veremos a solução de imediato nos próximos versículos desta carta. Antes de mais nada,  teremos que afirmar que a base desse evangelho é a Ressurreição de Cristo, testemunhada pelos que foram seus apóstolos, como anunciantes desse fato extraordinário, do qual foram testemunhas. (1 Cor 15,14).

ANUNCIEI: São Três os estágios que levaram à fé aos de Corinto: anúncio por parte de Paulo; recepção submissa por parte dos fieis convertidos, e finalmente perseverança na fé recebida. Nisso podemos ver as características da fé de cada cristão autêntico.

A DOUTRINA: Pelo qual também estais salvos com uma [certa] palavra, com a qual vos evangelizei, se a retendes, a não ser que acreditastes em vão (2).

CERTA PALAVRA: Tini logö; a tradução literal seria certa palavra mas o tis acompanha um nome para indicar o artigo mais ou menos indeterminado como Samareites tis, certo samaritano [=um samaritano sem nome, comum], que indica uma indeterminação, como sendo um uso geral ou comum do nome. No caso, esse evangelho foi anunciado de palavra e poderíamos traduzir salvos pela palavra que vos anunciei.

PALAVRA: logos pode ser traduzido por palavra, discurso, doutrina, razão. A Vulgata usa ratio. Poderíamos traduzir pela doutrina que vos anunciei. Essa salvação depende de manter firme essa doutrina na qual acreditaram os evangelizados, exceto o caso de ser inútil a fé por não acreditar na ressurreição fica fora de nossa fé, como era o caso do romance são Manuel Bueno, Mártir de Unamuno. Tendo o conjunto da perícope atual, a tradução por ele também sois salvos, se retiverdes a  palavra tal como vo-la preguei, a menos que tenhais crido em vão é uma tradução interpretativa legítima, que, embora não seja literal, reflete perfeitamente o pensamento do apóstolo, por vezes algo confuso em sua redação.

A BASE DA FÉ: Principalmente vos entreguei o que também recebi: que Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras (3).

PRINCIPALMENTE: é a tradução de en prötois, uma frase adverbial que é traduzida como first of all [= antes de mais nada], que indica prioridade em ordem mais do que em tempo e lugar.

ENTREGUEI/RECEBI: Esta frase de Paulo é uma confirmação de que não só as Escrituras, mas a tradição é a base da fé que Paulo entrega como a recebeu. Em ordem lógica e cronológica deveríamos falar de receber para transmitir ou entregar. Claro que a última razão que dá valor à tradição é sua conformidade com as Escrituras. Sendo estas um documento escrito, sua interpretação ou manipulação é mais difícil e, portanto tem um valor documental probatório maior que a palavra das testemunhas. Tudo isto Paulo sabe perfeitamente e daí seu empenho em apresentar as testemunhas, variadas e múltiplas em conformidade com as Escrituras. Porém se no campo judicial a palavra das testemunhas [a tradição] é válida, por que no campo religioso não é e se rejeita como palavra de homem e não como testemunha viva de fatos e ditos como é a palavra de Deus? Para que os profetas se os evangelistas e apóstolos dizem tudo? Como interpretá-los caso aconteça dúvida ou incerteza? É uma norma e senso comum que existem várias interpretações e nenhuma delas pode ser verdadeira. É o que acontece com a livre interpretação das escrituras, que, aliás, receberam sua autenticidade não por livre escolha, mas pela aceitação de sua doutrina com a tradicional anunciada pelos apóstolos. Mas vejamos o primeiro artigo de fé desse pequeno credo apostólico, anterior ao credo dos apóstolos, este tardio, anterior ao de Niceia (325), pois aparece em Hipólito em 215 e, em formas similares, em Irineu e Tertuliano; porém, não aparece na Igreja oriental e só com Pirminio (+ 753) encontramos uma forma idêntica à atual que chamamos de Credo breve. O evangelho que Paulo resume neste pequeno credo tem só 3 artigos: morte, sepulcro, ressurreição. Todos eles dizem respeito ao Cristo. O primeiro é a morte. Se Cristo não morreu é inútil pregar a ressurreição.

MORREU: A morte de Jesus é indiretamente assumida como certa, porque foi feita para remissão dos pecados como pagamento/resgate da dívida, e isso recebe o nome de redenção (Mt. 20,28 e Rm. 3,24). Comenta Davic Guzik: Num determinado momento, antes do grito Tudo está consumado, uma terrível mudança espiritual realizou-se: O Pai depôs em seu Filho Jesus toda a culpa e o castigo que nossos pecados mereciam. Ele recebeu toda a ira divina que devia ser arremessada contra nós, daí que Jesus se sentisse pecado e abandonado por Deus (Mt 27,46). Este era o cálice que tinha de beber, como se fosse um inimigo de Deus, o cálice da ira de seu Pai (Is. 51,17) para que nós não tivéssemos que bebê-lo, como está escrito em Jr. 25,15 e Sl. 75,8. assim, lemos em Is. 53,3 - 5: (o meu servo) era desprezado e o mais rejeitado entre os homens; homem de dores e que sabe o que é padecer; e, como um de quem os homens escondem o rosto, era desprezado e dEle não fizemos caso. Certamente Ele tomou sobre si as nossas enfermidades e as nossas dores levou sobre si; e nós O considerávamos por aflito, ferido de Deus e oprimido. Mas ele foi traspassado pelas nossas transgressões e moído pelas nossas iniquidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre Ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados.

ESCRITURAS: Da morte de Jesus está escrito no Salmo 22,15: a língua se me apega ao céu da boca. Assim me deitas no pó da morte. E em Dn 9,26: Depois das sessenta e duas semanas será morto o Ungido [Cristo] do Senhor e já não estará; e o povo de um príncipe que há de vir destruirá a cidade e o santuário. Finalmente em Is. 53,8: por juízo opressor foi arrebatado e de sua linhagem quem dela cogitou? Porquanto foi cortado da terra dos viventes; por causa da transgressão do meu povo, foi Ele ferido.

SEPULTADO E RESSUSCITADO: E que foi sepultado e que ressuscitou no terceiro dia segundo as Escrituras (4).

SEPULTURA: Lemos em Isaías 53,9: Designaram-lhe a sepultura com os perversos; mas com o rico esteve na sua morte porque nunca fez injustiça nem dolo algum se achou em sua boca. O dito do profeta concorda com os fatos que lemos nos evangelistas.

RESSURREIÇÃO: Nas Escrituras temos este versículo que foi citado por Pedro no seu discurso do dia de Pentecostes: Não deixarás a minha alma na morte , nem permitirás que o teu Santo veja a corrupção (Sl. 10,16).

TERCEIRO DIA: Está implícito em não ver a corrupção. Os judeus acreditavam que a alma estava unida ao corpo depois da morte e que no quarto dia quando começava a corrupção se afastava do seu corpo porque para ela era então irreconhecível. A ressurreição não é um adendo, como um postulado ou corolário, mas é a maior prova de Jesus como enviado do Pai e constitui o fundamento da fé. Os atenienses riram de Paulo quando este, deixando a sabedoria humana apela para a ressurreição de Cristo ( At. 17,32). Tanto em Pedro como em Paulo, o tema da ressurreição foi a base dos discursos mais importantes de ambos os apóstolos. A supervivência da alma era crença bastante comum entre os gregos, mas a ressurreição do corpo era um absurdo para os mesmos ambientes culturais.

INÍCIO DAS APARIÇÕES: E que foi visto por Kefas; depois pelos doze (5). Esta é a terceira afirmação dogmática deste credo primitivo que provavelmente era pedido antes do batismo.

FOI VISTO: em grego öfthë indica uma visão real e não uma aparição como um fantasma ou um espírito ( ver Mt. 14,26 e Lc. 24,37). Mas como disse Jesus aos doze, na primeira aparição, um espírito não tem carne nem ossos como vedes que eu tenho (Lc. 23,39). De fato, vejamos os relatos das aparições de Jesus. Mt. 28,9: As mulheres aproximando-se abraçaram-lhe os pés e O adoraram. Marcos usa o verbo fainö vir à luz, aparecer (Mc. 16,9). Em Lucas 24,4 o efistëmi dos anjos e o optanomai de Pedro (Lc. 24,34) ou istëmi de 24,37 . Opthomai é ver em todos os sentidos possíveis como em Mateus 5,8 os limpos de coração verão a Deus ou metaforicamente tu verás como foi a resposta a Judas, após este ter-se arrependido (Mt 27,4) ou Lc 3,6 em que toda carne verá a salvação de Deus. Em aoristo e passiva é visto ou apareceu (Lc 22,43). Os relatos da ressurreição são breves resumos em que à exceção de João é mais importante a catequese ou teologia do que a história propriamente dita. Porém, em Paulo, todos coincidem na veracidade de que o Cristo visto é o Cristo morto cujo corpo está vivo agora de modo que a ressurreição é o triunfo sobre a morte. Antes de fazer uma incursão textual em João temos que certificar que a aparição particular a Pedro forma também parte da chamada tradição de Lucas, pois os doze afirmaram aos de Emaús: o Senhor ressuscitou e já apareceu a Simão (Lc. 24,34). João, fiel à sua promessa de unicamente narrar o que tinha visto como testemunha ocular ou diretamente ouvido de quem era testemunha usa os seguintes verbos gregos que comparamos com as traduções latinas: Theöreö em 20,12; oraö em 20,18 e 20,29; istemi estar de pé em 20,19; eidö (20,25; 29 e 21,4) e finalmente faneroö = manifestare em 21,1 e 21,14). Theoreö é ver detalhadamente, ou seja, observar como é o empregado quando as mulheres observaram o sepultamento de Jesus (Mt 27,55). Oraö é olhar com os olhos ou com o entendimento como em Marcos 8,24 vejo os homens como árvores e Olha, que a ninguém digas nada (Mc. 1,41). Realmente o verbo Blepö é olhar com a vista como dirá Jesus porque vendo não veem e ouvindo não ouvem (Mt. 13,13), mas também metaforicamente tem o mesmo sentido que oração: Vede que ninguém vos engane (Mt 24,4). Mas este verbo não sai nas visões da ressurreição. Eidö que além de ver tem o sentido desconhecer. Como ver é vimos o seu astro ao nascer e viemos para adorá-lo (Mt. 2,2) como conhecer, pois vosso Pai celeste sabe que necessitais (Mt. 6,32). Faneroö é manifestar, ou uma verdade como em Mc. 4,22: nada está oculto senão para ser manifesto, ou a aparição de uma pessoa que se torna visível como em Mc. 16,14: apareceu Jesus aos onze quando estavam na mesa. Como vemos, todos os vocábulos empregados têm uma base comum: a visão como manifestação de uma pessoa viva que está presente e com a qual podemos falar e conversar. Nada de visões interiores ou sonhos em vigília. São muitos os que veem e ouvem como para afirmar que existe uma auto-sugestão ou que é uma visão interior. Evidentemente ninguém viu a ressurreição, mas muitos viram o ressuscitado. Entre eles, primeiro e principalmente Simão Pedro, a quem Lucas chama Simão e Paulo Kefas. É o cumprimento da promessa de Jesus na última ceia (Lc. 22,32).

PELOS DOZE: Este encontro com Jesus ressuscitado foi feito em duas etapas, segundo João (20,19 - 23 e 26 - 29), das quais a primeira foi também narrada por Lucas (24,36 - 40) e Marcos (16,14 - 20) e Mateus (28,16 - 20). Como nota curiosa Marcos e Mateus falam dos onze com mais propriedade e a aparição aos onze de Mateus foi feita num monte da Galileia. Estes detalhes servem para esclarecer sobre toda a veracidade dos evangelistas, como se houvesse contradição entre as testemunhas. A história dos tempos de Jesus não era crítica e os evangelistas não pretendiam relatos exatos, mas narrações catequéticas em que podemos ver uma história estereotipada. Uma prova são os dois relatos de Lucas: o final do evangelho e o início dos Atos que parece não terem nada em comum. Paulo, por sua parte, usa o nome comum com que era conhecido o grupo apostólico: os doze, título evidentemente figurativo.

OUTRAS APARIÇÕES: Posteriormente, foi visto por mais de quinhentos irmãos juntos, dos quais a maioria permanece até agora, mas alguns dormiram (6). Esta é uma afirmação paulina da qual não encontramos correspondência nos evangelhos a não ser nos relatos finais de Marcos e Lucas em Atos 1. 3 sobre as aparições dos 40 dias. A razão de ter trazido este testemunho é que ainda na data da epístola a maioria estava viva para testemunhar. Provavelmente era o ano 57, ou seja 23 anos após a morte de Jesus.

DORMIRAM: É uma expressão que os cristãos usavam para a morte.

TIAGO E OS DOZE: Posteriormete foi visto por Tiago depois por todos os apóstolos (7). Não sabemos se esse Tiago é o irmão do Senhor, que é diferente do grupo dos apóstolos, caso seja o de Alfeu (Lc. 6,15) teríamos que um dos dois discípulos de Emaús seria este Tiago ou Cleopás (Lc. 24,18). Logo, de novo, por todos os apóstolos, com o quais Paulo confirma as duas vezes em que apareceu o Senhor aos mesmos, segundo João (20,19 - 23 e 20,26 - 30).

VISÃO DE PAULO: Finalmente, porém, de todos como de um último nascido, foi visto também por mim. (8).

ÚLTIMO NASCIDO: O grego Ektröma é um composto de ek [fora] e tritösko [causar ferida] que pode ser traduzido como nascido fora de tempo, muito mais do que aborto, cuja palavra em grego é melhor traduzida por examblöma. Assim como nascido ultimamente, é traduzido no NASB, e Paulo explicará esse seu nascimento como coisa especial no versículo 9. Já sabemos como Paulo viu o Senhor no caminho de Damasco, através de uma luz que o cegou e que foi narrada três vezes, com alguma diferença de detalhes, no livro dos Atos, capítulos 9,22 e 26.

CONFISSÃO DE PAULO: Pois eu sou o último dos apóstolos que não sou digno de ser chamado apóstolo, porque persegui a Igreja de (o) Deus (9).

Parece que Paulo usa o significado do seu nome, Paulos [pequeno de estatura] para se nomear como o último entre os apóstolos e, além disso, pela razão de ser um perseguidor. Precisamente esta última razão é suficiente para afastar toda sugestão nessa revelação e manifestação divinas.

A GRAÇA QUE FRUTIFICOU: Pois por mercê de Deus sou o que sou; e a mercê dEle, a sobre mim, não foi vazia, mas trabalhei melhor que todos eles, não eu porém, mas a graça de (o) Deus, a comigo (10). A tradução é um tanto esquisita, mas quis que fosse a mais literal possível. Diante desse título de paulos [pequeno] o apóstolo Paulo, que a si mesmo se intitula o mínimo e indigno entre todos os apóstolos, agora eleva um hino à bondade de Deus que se dignou escolhê-lo por pura graça no sentido de um favor imerecido que traduzimos por mercê. Mas também tem Paulo um pouco de vanglória ao afirmar que ele não foi indigno dessa graça, mas cooperou até mais do que os outros, não por ser ele melhor, mas porque a graça de Deus assim o quis. De fato ele adquiriu o Status de Pedro, como apóstolo da Igreja dos gentios, comparado com Pedro como apóstolo da igreja dos judeus (Gl. 2,8).

A FÉ COMUM: Pois, já eu, já eles, assim anunciamos e assim acreditastes (11). E termina Paulo com uma norma que deveria ser o fundamento de toda crença na Igreja: a fé comum anunciada e, portanto, acreditada pelos anunciantes, que constituem o sensus fidelium, o dom profético  de Cristo participado e testemunhado pela massa dos fieis, que não pode falhar na crença e que a aplica integralmente na vida (Lumen Gentium 12).

Evangelho A PESCA MILAGROSA ( Lc. 5,1 - 11)

Este domingo pode ser chamado de domingo da vocação, que brota da palavra de Deus, patente na vocação de Isaías (1ª leitura), de são Paulo (2ª leitura) e dos quatros discípulos de Jesus (evangelho). O evangelho de hoje contem três seções em conexão progressiva: pregação de Jesus; pesca milagrosa e vocação dos quatro primeiros discípulos. Em todos os casos de vocação, vemos que terminam com uma resposta incondicional por parte do vocacionado. O abandono de toda outra ocupação, optando pela missão divina até deixar familiares, como Jesus pretende e fez na sua vida pública, é a resposta humana ao chamado divino. Jesus fundamenta seu convite, de modo especial a Pedro, na captura excepcional de peixes que indica o número de seguidores que eles logo iriam conquistar.

LUGARES PARALELOS: Mateus e Marcos oferecem relatos paralelos a este de Lucas. Porém faltam neles alguns detalhes importantes, sem os quais o chamado dos primeiros discípulos tem um ar de efeito sobrenatural. Lucas, após Jesus se auto-proclamar enviado divino em Nazaré, inicia a vida pública de Jesus, pregando às margens do lago de Genesaré. Lucas, ante o caso singular de serem pescadores, mal vistos como classe no mundo da oikumene (sob o domínio romano), explica sua eleição com detalhes que a justificam. O ensinamento de Jesus, proferido do barco como nova cátedra da qual ensina seu evangelho para não ser esmagado pela multidão, deu lugar a que: sendo o barco de Simão Pedro, será este quem usará a cátedra da qual o Espírito fala à Igreja. A pesca milagrosa identifica simbolicamente pescadores de peixes com seguidores que procuram discípulos e ampliam sua obra em todos os lugares e tempos. Os primeiros cristãos verão no peixe o símbolo mais exato daqueles que desenhavam como peixe e chamavam Iesus Xristós Theou Uiós Soter, com as letras em negrito formando o nome do peixe [IXTHUS]] em grego, que, extensivamente, é lido Jesus Cristo, de Deus Filho, Salvador. Todo Cristão, pelo batismo, está imerso no Espírito como um peixe está na água e pode ser chamado de peixe de Deus. Assim pescadores e peixes, discípulos e conversos, estão intimamente unidos na barca de Pedro e em Jesus que é representado pela figura simbólica do peixe. Existe também um paralelo com Jo 21,4 - 11 relato de especial importância para a vocação de Pedro em que anuncia a grande quantidade de gentios que formariam parte do reino com a captura de grande número de peixes.

À BEIRA MAR: Sucedeu, pois, que ao comprimi-lo a multidão para ouvir a palavra do (sic) Deus, porque Ele estava de pé junto ao lago de Genesaret (1), então viu dois barcos que estavam junto do lago já que os pescadores, tendo descido deles, lavavam as redes (2).

Lucas emprega o egeneto de como carimbo da casa. É a frase típica para começar um novo capítulo ou episódio, sem ligar temporariamente as duas narrações, a anterior e a posterior ao enlace. Ao afirmar que estava comprimido pela multidão diz o mesmo que Marcos em 3, 9, pelo qual  teve que pedir um pequeno barco para se separar do povo que o apertava. Se em Marcos, Jesus pede aos discípulos para que lhe proporcionassem o barco, em Lucas, foi Ele quem viu dois barcos varados na praia, junto ao mar, já que os donos tinham descido deles e estavam limpando as redes.

A CÁTEDRA: Tendo embarcado, pois, num dos barcos, que pertencia a Simão, pediu a ele afastá-lo um pouco da terra e, tendo se assentado, ensinava desde o barco às multidões(3). O fato de ser o barco de Simão indica um detalhe, que dá um sentido verídico aos fatos narrados e um pormenor essencial para a Igreja primitiva. O barco em questão indicava a cátedra, lugar oficioso ou oficial do qual os mestres lecionavam assim como a curul era a cadeira oficial do magistrado da justiça. O afastamento era o suficiente para que as multidões não o comprimissem porque todos desejavam tocá-lo por causa da dynamis [poder] que dEle saia para curar as doenças (Mt. 14,36). Jesus estava de pé junto à margem e era praticamente impossível não ser oprimido ou apertado pela multidão, impedindo que sua voz chegasse a todos os ouvintes. Por isso escolhe geralmente o cimo de um monte (Mt 5,1) ou o portal de uma casa (Mc. 2,2). Aqui, ele escolhe um barco de pesca, que Marcos chama com propriedade ploiarion (barquinho), diminutivo de ploion, barco em geral, ou nave. Alguns manuscritos gregos importantes também usam ploiarion neste relato, com mais propriedade do que ploion. No inglês distinguem entre small ship e ship em geral. Somente Marcos e João fazem distinção entre barquinho e barco. A primeira palavra sai duas vezes em Marcos (3,9 e 4, 36) e 4 vezes em João. O ploion [barco], é usado em todas as ocasiões por Mateus, 12 vezes, e 8 vezes em Lucas. Sem dúvida que estes fatos confirmam que Marcos, discípulo de Pedro, e João, o pescador de Betsaida, são as fontes e até autores dos dois evangelhos a eles atribuídos. Lucas não conhecia a geografia do norte da Palestina e fala de barcos em geral, sem saber que os pequenos botes dos pescadores deveriam ter uma palavra mais apropriada. Talvez por isso haja uma tradução, não muito conforme com o original grego, na segunda parte da vulgata: ploion é barco e ploiarion é barquinho ou bote. A segunda vez a vulgata traduz navícula que não corresponde ao ploion grego, mas ao ploiarion.

O MANDATO: Porém, como cessasse de falar, disse a Simão: conduzi ao profundo e lançai vossas redes para a captura (4). Não sabemos a hora do dia. Talvez fosse ao entardecer, quando Jesus acabou seu sermão, livre de travas legais ou escriturísticas, usando linguagem popular e exemplos para gravar seu ensinamento que geralmente chamamos de parábolas. Jesus teve dois motivos para a pesca que seria espetacular, senão milagrosa. O primeiro era pagar a contribuição de Pedro. O segundo era prepará-lo para obedecer o chamado como pescador de homens. O grego abaixar é traduzido ao latim por estender as redes. Tratava-se de uma rede de arraste.

PEDRO: Então, tendo respondido, Simão disse-lhe: Mestre, durante toda a noite temos nos esforçado; nada apanhamos. Mas sobre tua palavra, abaixarei a rede (5).

PEDRO: Simeão, ou Simão como abreviatura, recebe uma preeminência notável por parte do terceiro evangelista. Na eleição dos apóstolos ele figura em todas as listas em primeiro lugar e Lucas diz que era Simão ao qual deu o nome de Pedro, no qual coincide com Marcos. Mateus dirá Simão a quem chamam Pedro. Simeão significa famoso e Pedro é a tradução latina de petra (rocha em grego) que por sua vez traduz o Kefas aramaico. A barca de Pedro deu lugar a diversos simbolismos: Nave, que como a antiga arca de Noé salva do naufrágio universal. Nave, dirigida com certeza ao porto de salvação. Nave, de onde podemos melhor ouvir a voz do Senhor Jesus, como aconteceu no lago. Nave, transformada em cátedra de verdade pela escolha divina. Simão Pedro sabia perfeitamente que a hora e as circunstâncias não eram propícias. Por isso ele inicia sua resposta com um é inútil, Senhor.

MESTRE: A palavra mestre, tem em grego duas palavras: epistates, que poderíamos traduzir por patrão e didaskalos, cuja tradução é mestre]. Somente em Lucas encontramos o epistates, nesta ocasião muito mais apropriado do que didaskalos. Um outro apelativo com o qual se dirigem a Jesus, especialmente os inimigos, é o de Rabbi. Aqui Pedro trata a Jesus como um superior, um chefe que deve ser obedecido. Epistátes, originalmente com o significado de chefe, patrão (o que é superior ou está por cima) tem também o significado de mestre com poder de mando, com o poder que dá a sabedoria, assim como didáskalos tem o significado de mestre que ensina. Em Lucas, somente os discípulos chamam Jesus de epistátes, porque submetidos ao seu domínio e direção enquanto os outros o chamam de didáskalos.

AS REDES: Já temos falado sobre o verbo chalao, laxare, afrouxar ou abaixar, que, tratando-se de redes, implicava numa rede de arrastão.

A PESCA: E tendo feito isto apanharam uma grande quantidade de peixes, pois rompia-se a sua rede (6). O milagre, como provindo de parte de Deus, é de uma abundância assombrosa. Sobraram 12 cestos após todos comerem de forma satisfatória (Mt. 14,22). Também aqui a abundância é notória, de modo que a rede estava a ponto de se romper pela massa enorme da captura.

A AJUDA: Então sinalizaram aos sócios os no outro barco para que chegando, os ajudassem, e vieram e encheram ambos os barcos de modo que se afundavam (7). Segundo alguns comentaristas a narração é um duplicado de João 21,6, a pesca frutífera dirigida por Jesus após a sua ressurreição. O motivo é a tendência a não admitir o milagre ou o sobrenatural nos relatos evangélicos. Porém os detalhes em ambos os relatos são completamente diferentes, embora algumas pessoas e a geografia sejam comuns. Por isso devemos admitir uma cena própria, independente, para o relato de hoje. Esta é a única interpretação verdadeiramente lógica: Jesus quis indicar como sinal, o que devia acontecer com os pescadores de peixes que logo, logo, transformar-se-iam em “captadores de homens vivos”. Essa é a tradução de Zogron grego, capiens latino. A pesca milagrosa de João tem como figura central unicamente um barco. Como protagonistas, pessoas diferentes dos dois irmãos filhos de Jonas. Era o amanhecer, que não condiz com a hora em que Lucas propõe o mandato de Jesus, que seria uma hora próxima ao meio dia ou ao entardecer.

A CONFISSÃO: Tendo, pois, visto, Simão Pedro se prostrou aos joelhos de Jesus, dizendo: Afasta-te de mim porque sou homem pecador, Senhor (8). Porque o pasmo o dominava e a todos os que com ele (estavam) sobre a captura dos peixes que recolheram (9). A primeira coisa que encontramos neste versículo é a fé de Pedro. Bastava contemplar a pesca com o espírito religioso como os pescadores do rio Paraíba no porto de Iguaçu encontraram a imagem da santa que hoje conhecemos como Aparecida. Precisamente, Pedro contempla o fato como uma Epifania, uma demonstração de alguém que é superior, (o epistátes já o indicava) com poderes extraordinários, próprios de uma manifestação divina.  Ele vê o fato como testemunha direta; e imediatamente se enche de estupor e sabe que está diante de um milagre, um dynamis [poder] sobrenatural. E deduz que o milagre é produto do poder e mandato de Jesus, a quem tinha chamado de patrão e que agora chama de Senhor, no sentido transcendental da palavra. É por isso que em espontânea adoração, se prostra para beijar os pés de Jesus, como um escravo fazia com seu amo: é a proskinesis, em que os pés neste caso são substituídos por joelhos, embora alguns manuscritos falem de pés. O importante é que Pedro acompanha sua ação com umas palavras nas quais, não unicamente expressa sua admiração, mas também sua profunda humildade: Sou homem pecador. É o não sou digno, dito com expressão de reconhecimento de sua indignidade. Pecador aqui é um adjetivo, diferente de quando é usado como nome, com o significado de gentio, como na frase de publicanos e pecadores (ver Lc. 7,34). Por isso dirá Paulo: Nós somos judeus de nascimento, não pecadores (descendentes) dos gentios (Gl. 2,15). Sem dúvida que esta disposição de aceitar o mal e o erro dentro da vida como própria responsabilidade, é a melhor disposição para se tornar instrumento da intervenção divina. É o caso de Isaías em 6,5. O testemunho de Pedro não é único. Os colegas e sócios também o confirmam cheios do mesmo estupor que dominava os sentimentos de Simão.

O CHAMADO: Também e de modo semelhante Jacob e João, filhos de Zebedeu, os que eram sócios de Simão. Então Jesus disse a Simão: Não temas desde agora serás captador de homens(10). Com esta introdução o evangelista indica que também os outros discípulos se prostraram diante de Jesus como sendo alguém superior, em contato com a divindade. A proskinese, como o ato de submissão de um súdito a seu rei, ou de um vencido ao vencedor, reconhecendo sua superioridade, não tinha por que ser uma adoração; mas estava unida a uma relação do grande rei com a divindade cujo principal ofício era ser seu representante na terra. Hoje diríamos beijar a mão, como vemos nos atos oficiais ao saudar os monarcas ou com sacerdotes e representantes da autoridade religiosa (ver comentário deste mês, em Epifania).

SIMÃO: A sua nova missão será também uma captura: mas não de peixes numa rede mas de homens vivos na rede mística do evangelho por ele anunciado (Mt. 13,47).

A NOVA PESCA: De agora em diante o pescador terá um novo ofício: apanhará vivos os homens. Essa a tradução literal do texto. Que significa esta metáfora que muda a vida de Pedro e a vida de muitos homens enredados na sua nova rede? É a metáfora que recolhe seres humanos para aumentar o Reino. Jeremias, no capítulos 16, diz como o Senhor recolherá para a volta do exílio através de pescadores e caçadores, os homens. Era um momento de esperança e de atuação direta de Jahweh para bem de seu povo. Também Amós 4,2 usa o simbolismo do peixe fisgado pelos anzóis dos pescadores, neste caso para julgar os malvados. Porém, no nosso caso, Pedro é escolhido para bem dos homens, para congregá-los, salvos da morte (por isso vivos) e preservados para a vida, ao formar parte do Reino como seguidores de Jesus. Evidentemente que os outros discípulos que aqui deixam tudo e se reúnem com Jesus tem o mesmo ofício. Mas é Pedro, sempre singularmente, quem recebe diretamente essa incumbência de modo especial. Um emprego material é substituído por uma missão totalmente espiritual e atemporal.

O SEGUIMENTO: E tendo puxado os barcos sobre a terra, tendo abandonado todas as coisas, o seguiram (11). Assim, tão simplesmente, descreve Lucas a resposta dos primeiros discípulos após esta pesca milagrosa. Sem se despedir dos familiares. Marcos dirá que os filhos de Zebedeu abandonaram o pai com os assalariados (Mc. 1,20). De Pedro nada se diz. Parece que ele era o único dono do barco já que o seu nome está unido como proprietário ao barco. Será o próprio Pedro quem mais tarde argumentará: e nós que temos abandonado tudo e te seguimos, que vamos receber? (Mt. 19,27).

PISTAS

1º) A pesca dos homens para a entrada no Reino segue os grandes traços da pesca milagrosa de hoje. Podemos comparar como trabalhamos inutilmente, confiando em nossos esforços. Mas se confiamos na palavra do Senhor, este será quem definitivamente suscita as pessoas para que elas aceitem a doutrina do evangelho.

2º) Depois de uma pesca milagrosa, Jesus atua favorecendo a ação dos discípulos, aqueles que abandonaram tudo (e aí está a força do êxito). Ao que parece o lago atual (o mundo) não tem peixes, os tempos são os piores, ou as circunstâncias o desaconselham, mas o verdadeiro discípulo só espera a voz do Mestre para começar a trabalhar.

3º) É necessário que toda a Igreja ative sua consciência de missão. Junto com Pedro, também foram chamados outros discípulos. Assistimos a uma venda de igrejas protestantes. A Igreja da Inglaterra, como exemplo, vendeu 1600 templos em menos de quatro décadas. Assistimos a um vazio de jovens nas igrejas católicas da Europa. Mas como afirmava um líder eclesiástico, os resultados não se medem pelos números, mas pela qualidade dos discípulos. O homem põe seu esforço, mas a rede necessária é a palavra, e ela trabalha em silêncio quando os operários dormem.(Mc. 4,26 - 27).

4º) O anúncio sempre deve ser a vitória de Cristo crucificado e ressuscitado: seu triunfo sobre a morte, sobre o mal (Lc. 4,21), sua escolha pelos irremediavelmente perdidos, sua mensagem de salvação aos pecadores que nele encontram a mais ardorosa das acolhidas. Os resultados nem sempre serão visíveis; mas terão um fim escatológico definitivo de salvação, porque o Pai sempre está à espera do filho pródigo.

Pe Ignácio, dos padres escolápios

 

1º LEITURA – Is. 6,1 - 2a.3 - 8

Estamos diante de um texto que descreve a vocação do grande profeta Isaías. Isto acontece no ano de 739 a.C., antes da morte do rei Ozias. Seu chamado a ser profeta do Altíssimo aconteceu numa liturgia no Templo de Jerusalém, quando se celebrava a realeza universal de Deus cantando o salmo 99. O profeta posteriormente tenta no texto de hoje escrever essa sua profunda experiência interior.

a) O que o profeta sente a respeito de Deus?

1 – Deus é o Senhor absoluto da história, ele reina sobre o universo inteiro. Seu trono majestoso e elevado é o céu, mas as franjas das suas vestes invadem o santuário do Templo. Isaías não vê a face de Deus, só a barra de seu manto, mas com isso o profeta já sente a plenitude de Deus e percebe que sua realeza ultrapassa a imensidão do infinito. O céu é apenas o trono de Deus e o Templo o escabelo de seus pés. Isaías sente que a terra inteira está cheia da glória do Senhor.

2 – Deus é Santíssimo – Os serafins proclamavam esta profunda santidade de Deus dizendo: “santo, santo, santo”. Em que consiste esta santidade? “Consiste em sua coerência contínua na história ao lado do seu povo, libertando-o e salvando-o”, com justiça e retidão. Esses sinais de libertação constituem, para aqueles que têm fé, a glória de Deus sobre a terra (v. 3b).

b) O que o profeta sente sobre si mesmo

Diante de tamanha santidade e majestade, Isaías se sente pequeno, pecador e perdido (v. 5). Mas Deus cuida de seus profetas e os capacita para a missão. Aqui vemos Deus, através do seu anjo, purificar o profeta, perdoar-lhe o pecado e enviá-lo em missão para ele transmitir ao povo a experiência que ele acaba de viver.

Interessante que foi através de uma impressionante liturgia que o profeta se sente tocado e é capaz de se comprometer dizendo: “Aqui estou, envia-me”. Nossas liturgias são capazes de suscitar profetas?

2º LEITURA – 1 Cor. 15,1 – 11

Vamos ler do 5º ao 8º domingo comum o capítulo 15 da primeira carta aos Coríntios.

Entre tantos problemas e dúvidas da comunidade de Corinto, um era sobre a ressurreição e é dela que trata o capítulo 15. Paulo afirma que o que ele transmitiu aos coríntios foi o que ele recebeu. Quais são os itens da fé recebida e transmitida? Ele enumera quatro artigos de fé dos apóstolos:

a) Cristo morreu por nossos pecados, quer dizer em nosso favor, em nosso lugar. Isto está conforme as Escrituras tinham anunciado.

b) Ele foi sepultado, quer dizer, o sepulcro constata a morte de Jesus e o fim de sua vida terrena.

c) Ele ressuscitou ao 3 dia. Isto está conforme Jesus tinha anunciado.

d) Ele apareceu a Cefas (Pedro) sozinho e depois aos 12. As aparições querem inaugurar uma nova presença de Cristo no meio de nós.

Paulo continua o texto dizendo que mais tarde Cristo apareceu a mais de 500 irmãos de uma vez; depois apareceu a Tiago e depois aos apóstolos todos juntos. Por último apareceu também a ele, “como a um abortivo”. Como a Bíblia de Jerusalém explica, esta expressão alude ao caráter anormal, violento, “cirúrgico” da vocação de Paulo”. É bom observar no texto a preocupação de que a iniciativa é sempre de Deus, a fé viva como resposta da comunidade primitiva e o impulso a transmitir a experiência vivida (conferir também a 1a leitura). O que transmitimos hoje como conteúdo básico da nossa fé?

EVANGELHO – Lc. 5,1 - 11

No evangelho de hoje Lucas não está preocupado com a crônica dos acontecimentos; sua preocupação é mais teológica do que histórica. Ele condensa aqui vários fatos e mistura sua preocupação fundamental de narrar a vocação de Pedro com a vocação de outros discípulos. Com a pesca milagrosa ele quer mostrar que a missão dos discípulos é um prolongamento da missão de Jesus. Apresenta também duas condições fundamentais para ser discípulo e missionário. Dar atenção especial à Palavra do Mestre e deixar tudo.

A situação do povo e a posição de Jesus.

Lucas, como Marcos, vê a região do lago de Genezaré (= lago de Tiberíades ou mar da Galiléia) como o lugar da atividade libertadora de Jesus. O texto mostra a multidão faminta da Palavra de Deus. Os pescadores com suas redes vazias representam a situação do povo, depois ele sobe na barca para mostrar que compartilha com a frustração do trabalhador, que ganha pouco e às vezes nada. Da barca ele pode encarar o povo de frente com suas faces abatidas e angústias transparentes. Ele se assenta. É a posição de quem ensina. O texto não diz o que Jesus ensinava, mas certamente ele profere palavras de libertação e solidariedade.

b) Simão acredita na palavra do Mestre

Jesus, não era pescador, entretanto ele dá ordens a um mestre em pescaria. Simão, delicadamente, (coisa rara em Pedro) lembra a Jesus que ele e seus companheiros trabalharam a noite inteira. Mas Simão reconhece Jesus como Mestre e Senhor da Palavra da vida (cf. Jo 6,68). Eis a frase importante de Simão Pedro: “Mas, em atenção à tua Palavra, vou lançar as redes”. Diante de Jesus somos todos discípulos, aprendizes. Sua palavra é a palavra da vida, capaz de transformar situações carentes em conforto e alegria. Foi o que aconteceu. Jesus mandou lançar as redes e pescaram como nunca (vv. 4 - 8).

c) Abandono e seguimento

Simão reage como Isaías. Reconhece-se pecador diante da santidade do seu Senhor. Senhor é o título que Jesus recebe depois da ressurreição. A pesca quer simbolizar, na verdade, a grande vitória de Cristo sobre a morte e o resultado da pregação apostólica. A abundância de peixes aponta para a quantidade de futuros convertidos. Como Isaías, Pedro também é acolhido e transformado em mensageiro da Palavra, em pescador de homens. Diante de tudo isso, Pedro e seus companheiros deixaram tudo e seguiram a Jesus.

Que valor estamos dando à Palavra de Deus?

Estamos partilhando das angústias e sofrimentos do povo?

dom Emanuel Messias de Oliveira

 

1º LEITURA – Is. 6, 1 - 2a.3 - 8

Estamos diante de um texto que descreve a vocação do grande profeta Isaías. Isto acontece no ano de 739 a.C., antes da morte do rei Ozias. Seu chamado a ser profeta do Altíssimo aconteceu numa liturgia no Templo de Jerusalém, quando se celebrava a realeza universal de Deus cantando o salmo 99. O profeta posteriormente tenta no texto de hoje escrever essa sua profunda experiência interior.

a) O que o profeta sente a respeito de Deus?

1 – Deus é o Senhor absoluto da história, ele reina sobre o universo inteiro. Seu trono majestoso e elevado é o céu, mas as franjas das suas vestes invadem o santuário do Templo. Isaías não vê a face de Deus, só a barra de seu manto, mas com isso o profeta já sente a plenitude de Deus e percebe que sua realeza ultrapassa a imensidão do infinito. O céu é apenas o trono de Deus e o Templo o escabelo de seus pés. Isaías sente que a terra inteira está cheia da glória do Senhor.

2 – Deus é Santíssimo – Os serafins proclamavam esta profunda santidade de Deus dizendo: “santo, santo, santo”. Em que consiste esta santidade? “Consiste em sua coerência contínua na história ao lado do seu povo, libertando-o e salvando-o”, com justiça e retidão. Esses sinais de libertação constituem, para aqueles que têm fé, a glória de Deus sobre a terra (v. 3b).

b) O que o profeta sente sobre si mesmo

Diante de tamanha santidade e majestade, Isaías se sente pequeno, pecador e perdido (v. 5). Mas Deus cuida de seus profetas e os capacita para a missão. Aqui vemos Deus, através do seu anjo, purificar o profeta, perdoar-lhe o pecado e enviá-lo em missão para ele transmitir ao povo a experiência que ele acaba de viver.

Interessante que foi através de uma impressionante liturgia que o profeta se sente tocado e é capaz de se comprometer dizendo: “Aqui estou, envia-me”. Nossas liturgias são capazes de suscitar profetas?

2ª LEITURA – 1 Cor. 15,1 - 11

Vamos ler do 5º ao 8º Domingo comum o capítulo 15 da primeira carta aos Coríntios.

Entre tantos problemas e dúvidas da comunidade de Corinto, um era sobre a ressurreição e é dela que trata o capítulo 15. Paulo afirma que o que ele transmitiu aos coríntios foi o que ele recebeu. Quais são os itens da fé recebida e transmitida? Ele enumera quatro artigos de fé dos apóstolos:

a) Cristo morreu por nossos pecados, quer dizer em nosso favor, em nosso lugar. Isto está conforme as Escrituras tinham anunciado.

b) Ele foi sepultado, quer dizer, o sepulcro constata a morte de Jesus e o fim de sua vida terrena.

c) Ele ressuscitou ao 3o dia. Isto está conforme Jesus tinha anunciado.

d) Ele apareceu a Cefas (Pedro) sozinho e depois aos 12. As aparições querem inaugurar uma nova presença de Cristo no meio de nós.

Paulo continua o texto dizendo que mais tarde Cristo apareceu a mais de 500 irmãos de uma vez; depois apareceu a Tiago e depois aos apóstolos todos juntos. Por último apareceu também a ele, “como a um abortivo”. Como a Bíblia de Jerusalém explica, esta expressão alude ao caráter anormal, violento, “cirúrgico” da vocação de Paulo”. É bom observar no texto a preocupação de que a iniciativa é sempre de Deus, a fé viva como resposta da comunidade primitiva e o impulso a transmitir a experiência vivida (conferir também a 1a leitura). O que transmitimos hoje como conteúdo básico da nossa fé?

EVANGELHO – Lc. 5,1 - 11

No evangelho de hoje Lucas não está preocupado com a crônica dos acontecimentos; sua preocupação é mais teológica do que histórica. Ele condensa aqui vários fatos e mistura sua preocupação fundamental de narrar a vocação de Pedro com a vocação de outros discípulos. Com a pesca milagrosa ele quer mostrar que a missão dos discípulos é um prolongamento da missão de Jesus. Apresenta também duas condições fundamentais para ser discípulo e missionário. Dar atenção especial à Palavra do Mestre e deixar tudo.

a) A situação do povo e a posição de Jesus.

Lucas, como Marcos, vê a região do lago de Genezaré (= lago de Tiberíades ou mar da Galiléia) como o lugar da atividade libertadora de Jesus. O texto mostra a multidão faminta da Palavra de Deus. Os pescadores com suas redes vazias representam a situação do povo, depois ele sobe na barca para mostrar que compartilha com a frustração do trabalhador, que ganha pouco e às vezes nada. Da barca ele pode encarar o povo de frente com suas faces abatidas e angústias transparentes. Ele se assenta. É a posição de quem ensina. O texto não diz o que Jesus ensinava, mas certamente ele profere palavras de libertação e solidariedade.

b) Simão acredita na palavra do Mestre

Jesus, não era pescador, entretanto ele dá ordens a um mestre em pescaria. Simão, delicadamente, (coisa rara em Pedro) lembra a Jesus que ele e seus companheiros trabalharam a noite inteira. Mas Simão reconhece Jesus como Mestre e Senhor da Palavra da vida (cf. Jo 6,68). Eis a frase importante de Simão Pedro: “Mas, em atenção à tua Palavra, vou lançar as redes”. Diante de Jesus somos todos discípulos, aprendizes. Sua palavra é a palavra da vida, capaz de transformar situações carentes em conforto e alegria. Foi o que aconteceu. Jesus mandou lançar as redes e pescaram como nunca (vv. 4 - 8).

c) Abandono e seguimento

Simão reage como Isaías. Reconhece-se pecador diante da santidade do seu Senhor. Senhor é o título que Jesus recebe depois da ressurreição. A pesca quer simbolizar, na verdade, a grande vitória de Cristo sobre a morte e o resultado da pregação apostólica. A abundância de peixes aponta para a quantidade de futuros convertidos. Como Isaías, Pedro também é acolhido e transformado em mensageiro da Palavra, em pescador de homens. Diante de tudo isso, Pedro e seus companheiros deixaram tudo e seguiram a Jesus.

Que valor estamos dando à Palavra de Deus? Estamos partilhando das angústias e sofrimentos do povo?

www.arquidiocese-pa.org.br

 

Comecemos nossa meditação pelo Evangelho. É comovente: Jesus apertado pela multidão sedenta da palavra de Deus. Ao terminar sua pregação, sentado à barca de Pedro, que é imagem da Igreja, ordena a Simão Pedro e à Igreja de todos os tempos: “Avança para as águas mais profundas!” É a missão que o Senhor nos confia. Confia aos ministros sagrados e confia a todo o povo de Deus, a toda a Igreja, barca de Pedro: “Avança para as águas do mar da vida; ide pelo mundo, em cada época, em cada tempo; pregai o Evangelho!” Atualmente, frente à drescristianização do nosso mundo, esta ordem do Senhor é um desafio acima de nossas forças; e um desafio que chega a amedrontar. A resposta de Pedro deve ser também a nossa: “Mestre, trabalhamos a noite inteira e nada pescamos. Mas, em atenção à tua palavra, vou lançar as redes!” Bendito Pedro, que, na palavra do Senhor, lançou as redes! Bendita a Igreja se fizer o mesmo em cada época da história humana! Benditos nós se, no meio em que vivemos, tivermos a coragem de lançar as redes da pregação do Evangelho! Observemos que aqui são de pouca valia a inteligência e astúcia nossa: “Na tua palavra lançarei as redes!” Só na tua palavra, Senhor, a pregação pode ser realmente eficaz! O Evangelho será sempre pregado na fraqueza, na pobreza, na loucura. E, no entanto, ele será sempre força, riqueza e sabedoria de Deus!

É comovente também a atitude de Simão após a pesca: “Senhor, afasta-te de mim, porque sou pecador!” O Senhor é tão grande (não é Aquele que enchia a terra com a sua glória, na primeira leitura? Aquele que está envolto numa nuvem de fumaça? Aquele que faz o templo tremer?), seus desígnios nos são tão incompreensíveis... somos tão pequenos, tão estultos e frágeis diante dele: “Senhor, afasta-te de mim! Chama alguém melhor!” E, no entanto, este Senhor tão grande quer precisar exatamente de nós, pequenos, pobres, estultos, frágeis. Este Senhor tão imenso, pergunta na primeira leitura: ‘Quem enviarei? Quem irá por nós?” Que mistério tão grande! Como pode Deus querer realmente contar conosco? Como pode o Evangelho depender de verdade da nossa pregação, do nosso testemunho? E, no entanto, é assim! É realmente assim! “Não tenhas medo! De hoje em diante, tu serás pescador de homens!” Eis aqui um mistério que não compreenderemos nunca nessa vida! Creiamos, adoremos, e digamos “sim” ao Senhor que nos chama e nos envia! Envia-nos a todos nós batizados e crismados! Lavou-nos no Batismo, como purificou os lábios de Isaías, e ungiu-nos com o Espírito de força e testemunho na crisma, para que sejamos mensageiros do seu Evangelho!

Vejamos, finalmente, a atitude de Pedro e de Tiago e João, diante do chamado do Senhor: “Então levaram as barcas para a margem, deixaram tudo e seguiram Jesus”... Nunca mais barcas, nunca mais pescarias, nunca mais a vida de antes... “Deixaram tudo e seguiram Jesus...” É isso que é ser cristão: deixar-se a si, deixar uma vida voltada para si e dobrada sobre si mesmo, para seguir aquele que nos chamou e consagrou para a missão! Então, somos todos chamados e enviados como testemunhas do Senhor!

Mas, há ainda dois outros aspectos importantes na palavra que Deus nos dirigiu hoje. O primeiro: em que consiste o anúncio que devemos fazer ao mundo? São Paulo no-lo diz de modo maravilhoso na segunda leitura: “Transmiti-vos em primeiro lugar, aquilo que eu mesmo tinha recebido, a saber: que Cristo morreu pelos nossos pecados segundo as Escrituras; que foi sepultado; que, ao terceiro dia, ressuscitou, segundo as Escrituras...” Vejamos bem que o anúncio do Evangelho não é simplesmente um anúncio sentimental e vazio sobre Jesus. Não é pregar curas, não é comentar a Bíblia, não é pregar preceitos morais! Isso não seria evangelização, mas charlatanismo, embromação! A pregação do Evangelho tem um conteúdo preciso, recebido da Tradição dos Apóstolos. Estejamos atentos como São Paulo diz: “Transmiti-vos aquilo que eu mesmo tinha recebido...” Paulo não inventa; não prega a si mesmo nem por si mesmo; prega o que recebera na Igreja, prega a fé da Igreja em Jesus. Por isso mesmo, mais tarde, ele vai a Jerusalém para ver Pedro. Vai conferir sua pregação com a de Pedro (Cefas), para ver se não havia corrido em vão! (cf. Gl. 2,1-2) E pensemos que Paulo fora chamado diretamente pelo Senhor, de um modo absolutamente original e único! (cf. Gl. 1,15-23). Então, para não corrermos em vão, o Evangelho vivido e pregado por nós não pode ser outro que Jesus morto e ressuscitado por nós, nosso único Salvador e Senhor. Mas, Jesus Cristo como é crido, vivido, celebrado e testemunhado pela Igreja. E quando dizemos “Igreja”, não tenham dúvida alguma: estamos nos referindo à Igreja católica, em comunhão com o Sucessor de Pedro e com os Bispos a ele unidos!

Mas, há ainda um segundo aspecto importante: este Jesus que pregamos não é um mito, uma lenda, um sonho! Ele é a mais profunda e verdadeira realidade: o que diz São Paulo sobre o Cristo ressuscitado? “Apareceu a Cefas e, depois aos Doze. Mais tarde, apareceu a mais de quinhentos irmãos, de uma só vez. Destes, a maioria ainda vive... Depois apareceu a Tiago e, depois, apareceu a mim, como a um abortivo”. É comovente o testemunho pessoal do Apóstolo! Ele viu o Senhor ressuscitado, ele é testemunha em primeira pessoa, juntamente com Pedro, em primeiro lugar, juntamente com os Doze e com toda a Igreja (os quinhentos irmãos)! O Evangelho que testemunhamos e anunciamos é uma realidade, é firme como uma rocha!

Que fiquem hoje no nosso coração estes santos e piedosos pensamentos: o Senhor nos chama e envia para a missão; nós realmente somos importantes para a pregação do Evangelho! Este Evangelho é uma Pessoa concreta: é Jesus morto e ressuscitado, nosso Deus e Salvador, tal como é crido e anunciado pela Igreja católica, dentro da legítima e contínua Tradição dos Apóstolos. Que nos resta dizer? Sejamos fiéis a tão grande e tão urgente missão que o Senhor nos confia nos tempos de hoje: “Avança para as águas mais profundas, e lançai as redes para a pesca!” Vem conosco, Senhor Jesus, porque o teu mar é tão vasto e nosso barco, tua Igreja, é tão pequena! Vem conosco e temos certeza que nossas redes não se romperão nem ficarão vazias! Na tua palavra, ensina-nos a lançar as redes!

 dom Henrique Soares da Costa

 

CHAMADOS PARA O APOSTOLADO

Unindo a primeira leitura de hoje com o evangelho, encontramo-nos com duas eminentes vocações: a de Isaías, o maior dos profetas, no Antigo Testamento, e a de Simão Pedro, o maior dos apóstolos, no Novo Testamento. É Deus que os chama. Mas as duas vocações são apresentadas em cenários bem diferentes.

Isaías, no Templo, tem uma visão da glória de Deus e do esplendor do seu trono; vê os serafins de seis asas que lhe fazem guarda de honra, cantando: Santo, santo, santo é o senhor Deus dos exércitos; e vê o Templo encher-se de branca fumaça, sinal da presença de Deus. Isaías ficou aterrorizado.

Era crença entre os israelitas que o homem que visse a Deus, morreria imediatamente. Ele teve consciência do homem pecador que era, que tinha os lábios impuros e era solidário com um povo de lábios impuros.

Nisso, um dos serafins toma com uma tenaz, uma brasa do altar e lha aproxima dos lábios, dizendo: "Teu pecado se apagou, tua iniquidade foi expiada"(No ritual da antiga missa - hoje simplificado - o diácono ou sacerdote, antes de proclamar o evangelho, dizia: "Purifica o meu coração e os meus lábios, Deus onipotente, que purificaste com um carvão incandescente os lábios do profeta Isaías. Possa eu de tal modo ser purificado pela graça da tua misericórdia, que seja capaz de anunciar dignamente o teu santo evangelho").

E ouviu-se aí a voz de Deus: Quem eu hei de enviar? Quem será o mensageiro? E Isaias, colocando-se totalmente nas mãos de Deus, respondeu: "Eis-me aqui, Senhor. Envia-me" (cfr. Is. 6,1 - 8).

Já no Novo Testamento, a vocação de Pedro acontece às margens do Lago de Genesaré, entre os barcos e as redes, no desfecho de uma pesca prodigiosa, quando Jesus - depois de uma noite infrutífera, que frustrara a perícia do grupo de pescadores – lhes encheu os barcos de peixes.

Aí também, Pedro sentiu a grandeza de Deus, Senhor dos peixes e das águas. E sentiu sua pequenez de homem pecador, o que o levou a prostrar-se aos pés de Jesus, dizendo: "afasta-te de mim, Senhor, pois sou homem pecador".

E foi quando Jesus disse a Pedro: "Não tenhas medo: de agora em diante, serás pescador de homens". Essa palavra valeu também para os outros companheiros de Pedro, tanto que todos deixaram as redes e seguiram a Jesus (cf. Lc. 5,1 - 11).

É fácil descobrir que a pesca miraculosa é uma "parábola em ação", pois ela mostra o que vai ser a pregação dos apóstolos, apesar de seus poucos méritos e graças ao poder de Deus que Ihes confirma a força da palavra, até com milagres, quando é preciso (cfr. Mc. 16,20).

Jesus prega de dentro da barca de Pedro. E a Igreja é freqüentemente chamada "a nau de São Pedro". É uma das muitas lições que o Evangelho nos ajuda a tirar da convivência de Jesus com os pescadores do mar da Galiléia. Quantas coisas aconteceram, cheias de lições para a nossa fé, no maravilhoso cenário desse lago!

A vocação dos apóstolos, duas pescas milagrosas, o caminhar sobre as ondas, o dominar a tempestade com a força de uma palavra, o fazer da barca de Pedro o púlpito flutuante, do qual podia ser visto e ouvido por uma grande multidão postada na praia. Divina poesia do Evangelho! Mas poesia sólida, que não nasce apenas de um vôo sentimental da fantasia, mas brota da realidade de fatos cheios de grandeza humana e de divina majestade.

Vale a pena guardar sempre bem viva a imagem de Jesus pregando de dentro da barca de Pedro. É uma lembrança permanente do serviço do magistério de Pedro. Um dos títulos mais belos do papa é o que declara "servidor e sinal da fé para o povo de Deus".

A Igreja se sente feliz e tranqüila ouvindo essa voz, que tem a misteriosa garantia da infalibilidade; dessa infalibilidade que Cristo não 'podia deixar faltar à sua Igreja e que encontra na palavra de Pedro sua sentença de última instância. Realiza-se aquilo do Evangelho: "Simão, rezei por ti, para que tua fé não desfaleça. E tu, uma vez convertido, confirma os teus irmãos" (Lc. 22,32).

padre Lucas de Paula Almeida, CM

 

A vocação de Isaías e de Pedro

A Palavra de Deus nos traz a vocação do profeta Isaías e do apóstolo Pedro. Este chamado - sentido exato da palavra ‘vocação’ - têm muito a nos dizer hoje.

Isaías, no Templo de Jerusalém, faz a experiência da presença do Senhor. Uma presença maravilhosa (‘toda a terra está cheia de sua glória’), uma presença que traz medo. As portas do templo tremem e um sentimento lhe vem: ‘ai de mim, estou perdido; sou um homem de lábios impuros e vi o Senhor’. Maravilhamento e terror. Mas o anjo do Senhor toma uma brasa do altar, toca os lábios de Isaías, purificando-os e eliminando toda a culpa. Assim, ele vai tornar profeta – não um adivinho do futuro – mas aquele que ‘profere’, que fala em nome de Javé.

Pedro, pescador da Galiléia, está em sua barca. Viveu uma noite desanimadora de trabalho sem resultado. O Senhor entra na barca, e dela ensina a multidão. A barca é um símbolo da Igreja, onde a palavra de Jesus é proclamada e ouvida, e de onde a rede é lançada. ‘Avança para águas mais profundas’, ordena Jesus. Nas Escrituras, o mar é um lugar perigoso onde habita o monstro marinho. Perto da margem, há mais segurança. Nas águas mais profundas, há muito mais perigo. ‘Avança para águas mais profundas’, pois é lá que neste momento estão os peixes.

Pedro e seus companheiros realizam uma pescaria extraordinária. E reconhecem um sinal inequívoco da presença de Deus. Muitos séculos depois, pescadores do Rio Paraíba do Sul realizam outra pesca extraordinária e encontram nas redes uma imagem de Nossa Senhora da Conceição. Reconhecem aí a ação de Deus pela intercessão de Maria. Aí nasce a devoção a Nossa Senhora Aparecida. Pedro, diante do maravilhoso, do sinal divino, sente medo e culpa: ‘Senhor, afasta-te de mim, porque sou um pecador’! Mas o Senhor afasta o medo e a culpa e o convoca para uma grande missão: ser ‘pescador de homens’, conquistar pessoas para Deus e para o seu Reino.

Também nós podemos ter momentos fortes em que sentimos a presença de Deus, em que sentimos estar diante do mistério que envolve a nossa vida. Diante dele, também nos maravilhamos e sentimos nossa pequenez, nossa contingência e nossa miséria. Também nós podemos nos sentir pecadores (e quem não é?). E mais que isso: podemos nos autodepreciar, achando que a amizade com Deus não é para nós, que a obra de Deus não nos diz respeito, que Deus jamais vai se servir de nós.

Pois bem, é aí que a vocação de Isaías e de Pedro nos mostra algo muito importante: Deus não nos vê como nós nos vemos. Isaías, de lábios impuros, é purificado e se torna profeta. Pedro, pecador tomado de espanto, torna-se um intrépido apóstolo. O olhar de Deus sobre nós é um olhar de amor, o olhar de quem nos criou, o olhar de quem quer o nosso bem, o olhar de quem é ‘mais íntimo em nós do que o nosso próprio íntimo’. O olhar de Deus é o olhar de quem conhece os nossos talentos, de quem sabe de todo o nosso potencial, de quem percebe a nossa capacidade de fazer o bem. É na fé de quem nos olha com este amor que também nós podemos descobrir a nossa vocação, a nossa missão neste mundo.

Esta vocação, chamado divino, não nos é revelada pela aparição de um anjo, não nos é comunicada por telefone nem por e-mail. Ela é descoberta por quem estiver atento aos sinais de Deus na natureza e na história. Nós somos batizados em nome de Jesus Cristo, sacerdote, profeta e rei. Recebemos no batismo a unção para participarmos de sua missão, para colaborarmos com Pedro e seus companheiros, ‘pescadores de homens’, para que no mundo haja vida em abundância.

Os inimigos da nossa vocação, talvez os maiores, são a culpa e o medo: ‘Afasta-te de mim, Senhor, porque sou pecador’! A culpa alimenta o medo. E a culpa se alimenta de uma visão legalista de Deus, que o torna implacável e opressor. Sobre isto, vale a pena lembrar algo que disse o papa Bento 16. No ano passado, ele deu uma entrevista à televisão alemã, e tratou de sua visita a Espanha. Um dos entrevistadores observou que naquela ocasião o papa não havia falado de temas polêmicos como casamento gay e reprodução humana. Bento 16 respondeu que é preciso começar pelo positivo, não pelo negativo e acrescentou: “o cristianismo não é um conjunto de proibições, mas é uma opção positiva. É muito importante evidenciarmos isto porque esta consciência, hoje, quase desapareceu”.

De fato, na história da Igreja se constata um passado com uma carga enorme de ênfase no pecado, gerando culpa e medo. Um historiador chega a falar da ‘pastoral do medo’, centrada na pregação sobre o pecado e na ameaça da condenação. Ainda hoje, há na Igreja quem interprete a doutrina da maneira mais restritiva e condenatória possível, com obsessão pelo pecado, sobretudo em relação ao sexo. É a pastoral do medo, que às vezes se torna pastoral do terror. Ainda hoje, em muitos ambientes, o catolicismo é visto como um conjunto de proibições: não pode isto, não pode aquilo, não pode aquilo outro, etc...

É preciso mudar. É preciso sair do legalismo asfixiante para religião do amor. Bento 16 apontou um caminho certíssimo. Mas é um longo trabalho para que a Igreja se encaminhe devidamente.

Que a vocação de Isaías e de Pedro nos inspire. O Senhor que nos olha com amor, expulse os nossos medos e temores. Que ele nos faça descobrir a nossa vocação e trilhar o caminho da vida em abundância.

padre Luís Corrêa Lima sj

 

É missão de todos nós.

Deus nos chama: quero ouvir a sua voz!

Estamos no tempo comum, chegando bem perto do tempo da quaresma, onde viveremos as marcas mais significativas de nossa fé, de modo particular, a Ressurreição de Jesus. Segui-Lo significa dar a vida, colocar-se a serviço, desprover-se do poder que distancia e corrompe e apegar-se ao poder que serve e liberta.

A Palavra de Deus neste domingo vem falar do seguimento radical de Jesus. Quando tomados por seu amor e sua missão, nos colocamos a caminho e aprendemos com Ele que é preciso anunciar a vida e que, se unidos a Ele estivermos, poderemos lançar nossas redes apesar do cansaço e da descrença de nosso mundo: com Ele, somos pescadores de gente, de vida, de humanidade, de solidariedade – pescadores do Reino de Deus.

A primeira leitura Is. 6,1 - 2a.3 - 8 – nos fala da vocação do profeta Isaias: Teimoso e resistente ao chamado de Deus como muitos de nós. Muitas vezes ficamos esperando alcançar uma condição de homem/mulher perfeito para anunciar, como se isso fosse possível. “Ai de mim! Pois estou perdido; porque sou um homem de lábios impuros, e habito no meio de um povo de impuros lábios”. Vale aqui o ditado popular que ouvimos por aí: Deus não escolhe os capacitados, mas, capacita os escolhidos.

Todos nós somos chamados a anunciar o Reino de Deus. Quando recebemos o batismo, nossa missão se deu. Como às vezes nos esquecemos dela, ecoa em nossos ouvidos a voz de Deus: quem enviarei? Devemos nos apressar a dizer com voz forte e determinada, como o Profeta Isaias: Eis-me aqui! Envia-me!

Na segunda leitura, 1 Cor. 15,1 - 11 Paulo coloca-se como apóstolo de Jesus e anuncia o Cristo Ressuscitado. Mesmo considerando-se o último dos apóstolos, não se faz de menos qualificado porque entende que é apenas canal da missão – quem opera é o próprio Deus. O que Paulo recebe, passa adiante. vos entreguei o que recebi: que Cristo morreu por nossos pecados, segundo as escrituras, e que foi sepultado, e que ressuscitou”. 

Desta forma, Paulo anuncia que a graça que recebeu de Deus não foi em vão. Como Paulo, somos convidados a dar os frutos que a graça de Deus gera em nós. O mundo de hoje precisa de nossa missão, de nosso compromisso. A palavra de Deus, escrita por Paulo para a missa de hoje, nos é um espinho na carne para nos desinstalar, para nos tirar de nosso comodismo porque é urgente que se anuncie a vida, é urgente que se anuncie o Reino de Deus.

Mesmo diante de nossas fraquezas e contradições, devemos anunciar, abrir a boca e proclamar que Jesus Ressuscitou e está vivo no meio de nós.

O texto do evangelho, Lucas 5,1 - 11nos relata a pesca milagrosa. Para muitos, mais um milagre de Jesus. Numa leitura acurada, a Escritura nos quer falar de envio, de missão. Jesus se aproxima, encontra-se com o povo, conhece seu coração. Diante do desânimo de quem havia pescado a noite inteira sem sucesso, a ordem é expressa: lancem as redes. Quando obedecem à ordem do Mestre, as redes quase se arrebentam diante do sucesso daquela pescaria.

Somos também pescadores: de gente, de vida, de humanidade, de solidariedade – pescadores do Reino de Deus.

Em nossa realidade muitas vezes estéril e obscura, não podemos e nem devemos desanimar. Precisamos falar a todos daquilo que acreditamos e nosso anúncio vem de uma ordem expressa do Mestre: lancem as redes ao mar; lancem as palavras aos corações; lancem seus exemplos de vida nas relações cotidianas.

Reimont Luiz Otoni Santa Bárbara

 

Outro Cristo, o mesmo Cristo!

Este ano sacerdotal é a ocasião para que vibremos, junto com o Santo Padre Bento XVI, em oração pelos sacerdotes, por esses homens valiosos que deixaram tudo e seguiram o Senhor. Eles não se decidiram pelo sacerdócio porque não tinham outra coisa a fazer. Ao contrário, muitos antes de serem padres já tinham inclusive uma profissão, outros tinham as suas namoradas, outros viam um futuro intelectual brilhante diante de si, outros eram de família humilde… homens preciosos e entregues ao Amor de Deus! Os sacerdotes são conscientes de que a felicidade só se encontra no serviço de Deus e pedem insistentemente ao Senhor a graça de serem cada vez mais fiéis, já que o segredo da felicidade é a fidelidade. Os sacerdotes sabem que podem dar às pessoas de hoje o que tanto procuram: o fundamento, o centro e o fim da felicidade humana, que é Jesus Cristo.

Certa vez, João Paulo II perguntou a um jovem se ele já tinha pensado em ser sacerdote. O jovem ficou surpreendido e respondeu que não, o desejo dele era ser pintor. O papa explicou-lhe que sendo sacerdote poderia – ao pregar a Palavra de Deus e celebrar os sacramentos – pintar magistralmente sobre o lenço do seu tempo e apresentar a Deus um quadro maravilhoso. “Apenas terá mudado – disse-lhe o papa – de sala de exposição”. O jovem deixou a pintura para preparar-se para ser padre. Que visão tão positiva do sacerdócio!

Como no Evangelho de hoje, Jesus continua vendo que o povo se comprime ao redor dele para escutar a palavra de Deus. Não é magnífico ver no nosso querido Brasil tanta gente nas nossas igrejas, também nas comunidades evangélicas, querendo ouvir a palavra do Senhor? Graças a Deus, o povo brasileiro tem sede de Deus! Quando se observa outros ambientes, penso especialmente na velha Europa, e se vê o cansaço também em relação às coisas de Deus, entende-se a afirmação de que a nossa América é o Continente da Esperança. E o Brasil com o verde estampado até na bandeira, não fica para trás: País da esperança! Terra de Santa Cruz! Terra de Nossa Senhora Aparecida!

No panorama brasileiro onde se percebe uma grande sede de Deus, o ano sacerdotal também vem recordar-nos que a palavra de Deus e as graças sacramentais chegam através dos ministros de Jesus Cristo, os sacerdotes. Eles são homens escolhidos por Deus e constituídos naquelas coisas que se referem a Ele (cf. Hb 5,1). O sacerdote é um varão preparado para dar Deus aos demais. Ele mesmo é consciente da sua própria fraqueza, sabe-se um vaso de barro, mas sabe também que Deus quer utilizar esse pobre vaso, esse pobre instrumento, para derramar as suas graças sobre a humanidade. Quando o padre celebra a Missa, é Cristo quem a celebra; quando o padre absolve, é Cristo quem absolve; quando o padre batiza, é Cristo quem batiza. Ele dá a sua voz, as suas mãos e todo o seu ser a Cristo para que as graças venham sobre os fiéis e sobre toda a humanidade através dele e apesar dele. O sacerdote é um servidor da causa de Deus e, portanto, cada vez que ele celebra os sacramentos, estes acontecem infalivelmente: não importa o estado do sacerdote, ainda que ele esteja em pecado mortal, ele batiza, absolve, consagra. Logicamente, um sacerdote que celebra os sacramentos em pecado mortal comete um grave pecado, mas nem por isso a palavra de Deus e os sacramentos deixam de atuar para o bem de todo o povo de Deus. O “bom Deus”, essa era a expressão que o Cura d’Ars gostava de utilizar para referir-se ao Senhor, cuida do seu povo através dos seus sacerdotes. Como São Pedro, eles são os primeiros a dizer, “Senhor, sou um pecador” (cf. Lc 5,8), mas Jesus lhes diz constantemente: “Eu vos faço pescadores de homens, não temais!” (cf. Lc 5,10).

A vocação sacerdotal pode parecer uma loucura e algumas moças talvez até diriam que é um desperdício de rapazes. Verdadeiramente, a vocação sacerdotal é uma “loucura de amor”. Não se trata de deixar de amar, mas de ser um aristocrata do amor. O coração do sacerdote é grande demais para ser entregue a uma só mulher, daí a necessidade que ele tem de entregar-se a todos num serviço sacrificado e alegre, todos encontram lugar no coração do sacerdote: mulheres, homens, crianças, velhos e velhas, jovens, pobres e ricos. Todos, ao passar pelo coração do padre, chegam ao coração de Deus. Que durante esse Ano sacerdotal amemos mais o sacerdócio de Jesus Cristo e que muitos jovens se deixem contagiar com essa loucura do amor e se decidam a amar o Amor.

padre Françoá Rodrigues Figueiredo Costa

 

As leituras deste quinto domingo do tempo comum apresentam-nos três histórias pessoais, três histórias bem diferentes mas com um denominador comum, o encontro pessoal com Deus. Podemos dizer que estamos perante um itinerário vocacional comum ainda que desenvolvido em três momentos e pessoas diferentes. Três experiências paralelas que são ou podem ser também os nossos itinerários e as nossas experiências.

Nestas histórias, de Isaías, de Paulo e de Pedro encontramo-nos perante a descoberta de Deus, mas de um Deus que é totalmente Outro, de um Deus que não corresponde aos nossos esquemas nem às nossas concepções, um Deus que nos revela como é surpresa e como estamos convidados a assumir também essa surpresa, como estamos convidados a transformar-nos de alguma forma em outros, em pessoas diferentes das que somos.

Na leitura do livro de Isaías encontramos a visão que o profeta tem da liturgia divina, da sua beleza e magnificência, do esplendor que envolve o próprio Deus. Perante tal beleza e esplendor o profeta descobre a sua pequenez, a sua falta de pureza, descobre afinal a distância que o separa do próprio Deus em que acredita, descobre como é um homem de lábios impuros e vive no meio de um povo também impuro de lábios.

Para Isaías, para cada um de nós, para cada homem, e para os homens das histórias das três leituras que escutamos, esta consciência é o primeiro patamar para o encontro transformante com Deus, é a primeira etapa do itinerário vocacional. Não pode haver encontro transformante com Deus se não se descobre esta consciência.

São Paulo sofreu o mesmo processo, ele que tinha sido formado na escola de Gamaliel, que era um judeu zeloso do cumprimento da lei e da vivência de acordo com a sua fé. Quando escreve aos Coríntios, Paulo reconhece que tinha uma imagem e uma concepção de Deus, a imagem dada pela formação doutrinal e intelectual, uma imagem de que ele era senhor, mas que estava muito aquém da realidade de Deus, da experiência que depois pôde fazer a caminho de Damasco quando viu como andava cego fixado naqueles princípios que não eram experienciais mas fruto da tradição.

Foi esta experiência a caminho de Damasco que lhe permitiu perceber como era um abortivo, como estava tão distante do Deus em que dizia acreditar e servir. A caminho de Damasco Paulo percebe quanto Deus era Outro, totalmente Outro. Por isso pode dizer que apesar de todo o trabalho de apostolado, de toda a missão realizada ele era o mais pequeno dos apóstolos. De fato, todo o seu trabalho tinha sido feito pela graça, pela força do Espírito Santo que o tinha transformado, ele era em si mesmo insignificante.

Pedro sofreu também a mesma experiência de se encontrar com um Deus, na pessoa de Jesus Cristo, completamente diferente. Por essa razão pede que o Senhor se afaste dele, uma vez que é pecador. E o pecado de Pedro, o pecado que ele reconhece, prende-se com a sobranceria com que tinha respondido a Jesus quando este lhe mandou que lançasse as redes. Pedro era pescador, homem habituado ao mar e à pesca, como poderiam apanhar alguma coisa depois de uma noite de canseira em vão? E que percebia aquele carpinteiro de pesca e de peixes? Pedro lança as redes na expectativa de um fiasco, mas a rede vem carregada de peixes e então descobre que aquele homem tinha mais conhecimento da pesca e dos peixes que ele, era afinal o criador dos próprios peixes e podia reuni-los em qualquer rede. Pedro faz a experiência das limitações do seu conhecimento e da sua realidade.

Nestas três histórias encontramo-nos perante a realidade de que só face a Deus, só na sua presença descobrimos a nossa miséria e pequenez, o nosso pecado e a distância que nos separa de Deus, da sua santidade e beleza. Perante Deus somos esmagados pela nossa condição, pela nossa própria consciência que nos acusa da distância que nos separa. Nesta situação podemos ficar paralisados, bloqueados, incapazes de fazer alguma coisa porque realmente não há muito a fazer.

Por esta razão e pelas nossas limitações Deus toma a iniciativa e vem ao nosso encontro, parte da sua grandeza para vir ter conosco à nossa pequenez e miséria. Na história de Isaías é o querubim que traz a brasa acesa e purifica os lábios impuros, em Paulo é Ananias que recebe a missão de Deus de ir ao encontro daquele que antes perseguia os cristãos, em Pedro é o convite a não temer o sucedido nem o pecado porque Deus quer fazer dele um pescador de homens.

A experiência do encontro com Deus e da sua santidade transforma-se assim em encontro de chamamento, em encontro de outorga de missão, em encontro vocacional. Abatidos pela grandeza do encontro, no confronto da sua pequenez e miséria com a grandeza e santidade de Deus, Isaías, Paulo e Pedro surgem como novos homens, renascidos para uma nova realidade e vida. Por esta razão é que Saulo se passa a chamar Paulo e Simão se passa a chamar Pedro. Já não são os mesmos e ainda que continuem a ser os mesmos são os mesmos transformados pelo encontro, são outros à semelhança do totalmente Outro com que se confrontaram e perante o qual assumiram as suas limitações.

Podemos interrogar-nos sobre a nossa possibilidade de transformação, sobre a possibilidade de um encontro transformante com Deus na nossa vida e face às nossas misérias e limitações. Mas ao fazê-lo estamos a esquecer-nos que todos os dias essa possibilidade está à nossa disposição, que dentro de pouco ela vai estar ao nosso alcance. A Eucaristia é essa possibilidade real, factual, e se uma brasa trazida pelo querubim pôde purificar os lábios de Isaías quanto mais poder não terá o Corpo e o Sangue de Jesus ressuscitado de que nos alimentamos, esse Corpo e Sangue que nos transforma não só naquilo que somos mas também em outros Cristos vivos sobre a face da terra. E como Cristo não podemos esquecer que temos uma missão, a de resgatar os homens do mundo da mentira e da morte e trazê-los para o reino da luz e da verdade.

Que o Senhor nos possibilite a graça de irmos cumprindo a nossa missão.

 

O primeiro domingo de Lucas inicia um novo tempo no calendário litúrgico bizantino e dá-se após o encerramento das solenidades da festa da Exaltação da Santa Cruz.

O terceiro Evangelista é também autor dos Atos dos Apóstolos. No Evangelho, Lucas relata a vida do Senhor enquanto esteve com seus discípulos ensinando, operando milagres e pregando o Reino de Deus. Nos Atos dos Apóstolos, Lucas relata a vida da Igreja primitiva, uma continuação da missão do Senhor.

Lucas era médico e ocupava uma posição social privilegiada, conhecia muito bem a língua grega e os costumes e tradições helênicas . Há fortes indícios de que acompanhou são Paulo em algumas de suas viagens, pois este refere-se a um “querido médico” que o auxiliava em sua árdua missão (Fl. 24).

Mesmo pertencendo a uma classe social abastada, acentuou em seus escritos as passagens em que Jesus anunciava o Reino aos pobres, aos pecadores, às prostitutas. Este é o Reino anunciado por Jesus e que Lucas transmite através dos seus escritos.

Mas, para anunciar este Reino, esta Boa-Nova, o Senhor necessitou de colaboradores, ou seja, dos seus discípulos. Ele é o iniciador do Reino. É n'Ele que os seres humanos atingem a condição de Filhos e são libertados do pecado. N'Ele os homens se tornam colaboradores de Deus na obra da Salvação. Em torno d'Ele, como Pedra Angular, organiza-se uma comunidade de amor e de serviço missionário. Primeiramente, doze, depois muitos outros.

É de singular importância observarmos que Lucas relata que o Senhor está dentro da barca quando começa a pregar.

Depois da pregação, eis que surgiu um pedido feito ao proprietário do barco: “Avança para as águas mais profundas”. Em meio à uma mescla de admiração, com tons de contestação, diante daquele pedido, no entanto, surgiram palavras de confiança: “Senhor, trabalhamos a noite toda e nada pescamos. Mas por tua palavra, lançarei as redes”. A ordem de Jesus seria cumprida, não porque concluíssem que havia nelas uma razão plausível, mas porque Jesus pediu. “Por tua palavra”, disse Pedro, “lançarei as redes”.

Diante de um pedido de Deus, a razão humana cede seu lugar à obediência e a lógica passa a se orientar não mais por premissas do homem, mas por premissas explicáveis  somente pela fé.

A palavra de Deus está presente no mundo, porém poucos a ouvem e por isso poucos a praticam. Por não se ouvir tais palavras, as redes teimam em permanecer no chão, ou quando são jogadas ao mar, são lançadas em águas rentes.

Nosso Deus é o Deus da profundidade. Ele conhece o coração do homem. Ele sonda nossos caminhos. “Sondas-me, ó Deus, e conheces o meu coração! Prova-me, e conheces os meus sentimentos!. Conheces até o fundo de minha alma” (Sl. 139).

Por isso mesmo, pede que joguemos as redes da pesca nas profundezas, pois lá encontra-se o verdadeiro homem, e é este homem que Deus quer “pescar” em suas redes.

Para lançar as redes em águas mais profundas, é necessário sair da margem e da superfície. Nas margens, as águas são tranqüilas, calmas e não oferecem perigo nenhum. As águas mais profundas estão no mar aberto, longe do litoral, onde rodeia o perigo e a insegurança e  é neste lugar que Jesus pede que façamos a pesca. Os que querem segurança e calmaria, continuarão a sentir a frustração de uma pesca fracassada. Os que se arriscam, “por Tua palavra”, sentirão insegurança, medo por causa das intempéries das águas profundas, porém terão uma dupla satisfação: a de obedecer a Palavra de Deus e se arriscar por ela e a alegria de sentir o peso das redes cheias, pois a pesca foi abundante.

Na superfície, poucos peixes existem, talvez inexistem totalmente. Se quisermos encontrar coerência na obediência da palavra de Deus que prestamos, é preciso sair da superfície e lançar as redes longe dela, para trazer para o Senhor peixes melhores.

Hoje somos convidados a seguir Jesus e nos tornar pescadores de homens para o Reino. Estes homens estarão nos lugares mais escondidos, mais insondáveis, isto é, nas águas mais profundas. Os chamados por Jesus, nos tempos hodiernos, antes de tudo, são convidados a experimentar o convívio com o Senhor, para depois partirem. É desta experiência pessoal com Deus que brota a coragem de se fazer ao largo e pescar longe das calmarias. É por causa dela que, de fato, nos reconheceremos pecadores, mas mesmo assim responderemos positivamente ao chamado que nos é feito, como aconteceu com Pedro, Tiago e João. A experiência pessoal com Jesus fará que tenhamos consciência de outra realidade: para lançarmos as redes em águas mais profundas, teremos necessidade de uma embarcação. É impossível permanecer longe das margens sem se fazer uso delas, ainda mais quando somos chamados a pescar.

O símbolo do barco é forte. A Igreja é este barco. A certeza de estarmos pescando para o Reino é o fato de estarmos cumprindo nossa vocação inseridos nela. Sem o barco ou sem a Igreja, corremos o risco de estar pescando não para Deus, mas para satisfazer nosso próprio ego. A vocação dos primeiros chamados se deu quando Jesus estava sentado no barco e, de dentro dele, lançou o convite para que Pedro, Tiago e João se tornassem pescadores de homens. O que nos credencia, de fato, a sermos vocacionados é a pertença a uma comunidade eclesial. Deus ainda é quem dirige este barco e, dele, ainda lança convites, ainda chama mais pescadores que tenham a coragem e o desprendimento de deixar tudo para segui-Lo.

A palavra grega «Ecclesia» significa assembléia, reunião daqueles que são chamados, convocados. A Igreja é a comunhão dos chamados por Deus a viver no amor. Cada batizado é chamado pelo Senhor a «lançar as redes em águas mais profundas», lançar-se ao largo, sem medo. E, para isso é necessário fazer a experiência do encontro com o Senhor, como fizeram os discípulos, seguir seus passos, sentir sua presença em nossas vidas. Quem faz esta experiência com o Deus-Amor, é imediatamente compelido a uma adesão e a um compromisso de anunciar, de evangelizar.

padre Paulus Tamanini

Fontes consultadas

Storniolo, Ivo - Como Ler o Evangelho de Lucas - Ed. Paulus - SP