4º DOMINGO DE QUARESMA

ano C

 

Nas leituras de hoje há um convite para a celebração e para a reconciliação. Nesse convite está implícita a necessidade de mudarmos nossa visão sobre Deus e, consequentemente, nossa relação com ele. Deus não é como o faraó do Egito e nós não devemos manter com ele uma relação interesseira, mas de amor gratuito e filial. Somente à luz desse novo olhar para Deus é que se poderá compreender o modo pelo qual ele atua na história. Enquanto pensarmos que somos justos, faremos mau julgamento das pessoas que não seguem nossos padrões religiosos. Agindo assim, seremos incapazes de sentir a necessidade de reconciliação com Deus e com o próximo.

Evangelho (Lc. 15,1 - 3.11 - 32)

Celebraram o retorno do filho à casa paterna

Em Lc 15 está a chave de interpretação da obra de Jesus: Deus sai à busca do perdido. Os vv. 1-3, que são introdutórios, apresentam o contexto e a motivação das parábolas. Os cobradores de impostos e os pecadores se aproximam de Jesus para ouvi-lo, enquanto os fariseus e os escribas criticam a atitude de Jesus, que toma refeição com os pecadores. Sabe-se que participar da mesma mesa significa comungar das ideias e do estilo de vida. Ao partilhar a refeição com os pecadores, Jesus põe em jogo sua reputação de homem de Deus. Mas as parábolas que ele contará vão contrapor-se às murmurações dos seus adversários, mostrando a ação do Pai que se reflete na atuação de Jesus.

O texto se divide em duas cenas: o filho mais jovem (15,11 - 24) e o filho mais velho (15,25 - 32). Estas são unidas pela ação do pai, o protagonista de todo o relato. O ponto central é o encontro com o pai, comentado pelo refrão que sela toda a cena: “Este meu filho estava morto e tornou a viver, estava perdido e foi encontrado” (15,24).

Os vv. 11-16 narram a situação do filho mais novo. Sua emancipação e o desperdício de sua herança. A herança não significa exatamente bens materiais, mas tudo o que sustenta a vida. O filho mais novo se distancia, rompe com o pai; vai para uma terra longínqua, dissipa os bens e, finalmente, chega a uma situação desumana, pois cuidar dos porcos é o nível mais baixo que um judeu poderia descer em sua dignidade. Fato mais agravante é não poder alimentar-se sequer da ração destinada a esses animais.

Os vv. 17-21 narram o processo de retorno à casa paterna. Inicialmente, com a tomada de consciência sobre a vida digna que poderia ter na casa do pai como empregado. A lembrança da fartura é contraposta à sua situação de fome e miséria. Num primeiro momento, é a fome que o impele a voltar para casa. Mas, sabedor de seu erro, reconhece que não é digno de ser acolhido como filho. Por fim, recordando-se da bondade do pai, que não maltratava seus empregados, retorna em busca de pão. O pai, ao avistá-lo, corre-lhe ao encontro, movido de compaixão, envolve-o num abraço e cobre-o de beijos – ou seja, acolhe-o com o filho amado. Ordena aos empregados que tragam roupa nova, joia e sandália, para que o filho seja restituído em sua dignidade filial. Em seguida, exige que se celebre o retorno à vida. É a alegria pelo pecador que foi convertido, pelo perdido que foi encontrado. Aqui se justifica a atitude de Jesus em partilhar a refeição com os pecadores.

Nos vv. 25-32 entra em cena o filho mais velho. Este se ressente porque o pai acolheu o filho mais novo sem reservas. O ressentimento o leva a manter-se fora, a não comungar com a atitude paterna, e por isso até critica o pai. Este sai ao encontro desse filho também e suplica-lhe que entre, pois é necessário alegrar-se e festejar o retorno do filho mais jovem. Contudo, o filho mais velho está enciumado porque não mantém com o pai uma relação afetiva, mas, sim, serviçal.

A narrativa termina com um convite para celebrar o retorno do pecador arrependido. Jesus mostra que o Pai sai à busca dos perdidos e festeja porque são resgatados. Essa era também a atitude de Jesus e deve ser a nossa.

I leitura (Js. 5,9a.10 - 12)

Reconciliaram-se com o Senhor celebrando a Páscoa

Embora o Senhor tenha sido sempre fiel, a aliança ficou parcialmente interrompida por causa da desobediência daqueles que saíram do Egito. Conforme o versículo 9, a entrada na terra prometida faz que Deus remova definitivamente a vergonha do povo. Considerando a expressão “opróbrio dos egípcios”, os mestres judeus interpretam que os egípcios escarneciam dos hebreus peregrinos no deserto, duvidando que Deus lhes cumprisse a promessa.

A Páscoa não havia sido celebrada no deserto. Agora, nova geração de hebreus reconcilia-se com Deus, retomando a aliança e o projeto divino. A celebração da Páscoa na terra prometida é renovação da aliança e reinaugura o processo histórico salvífico para o povo de Deus. Na festa da Páscoa, os hebreus celebram, principalmente, a gratuidade do Senhor, que os amou e os libertou da escravidão, os alimentou e lhes deu uma terra onde pudessem viver com dignidade.

Portanto, o texto enfatiza esse novo começo, essa nova etapa na vida e na história de Israel que implicava uma ruptura com a desobediência do deserto. A celebração da Páscoa atualiza, ritualmente, a libertação da escravidão, mas também serve para fazer memória da história, aprender com os erros e solidificar a fidelidade a Deus.

Além de enfatizar a reconciliação na celebração da Páscoa, o texto ressalta que os hebreus comeram do produto da terra e depois disso o maná cessou (vv. 11b e 12a). Esse detalhe mostra uma mudança. O povo passou do maná providenciado durante a peregrinação no deserto para o alimento que era fruto da terra. Assim como o maná, o fruto da terra é símbolo da provisão generosa de Deus, agora de forma diferente, porque a etapa histórica também é diferente.

Os hebreus estavam na terra da qual Deus havia dito que manava leite e mel, e a palavra de Deus se cumpria agora que provavam dos frutos dessa terra fértil, onde poderiam viver com dignidade. O povo confirmava a generosidade do Senhor e o total cumprimento de suas promessas.

A posse da terra prometida exigia um povo renovado, distinto do que estava no Egito, com um estilo alternativo de viver, como uma nova humanidade. Era a consolidação das relações entre Deus e seu povo e a afirmação da identidade de povo de Deus. Por isso era necessário celebrar.

II leitura (2 Cor 5,17 - 21)

Somos embaixadores da reconciliação

A reconciliação descrita nesse capítulo exige uma vida nova e diferente. Os vv. 16-21 ressaltam que o começo dessa vida nova é marcado pelo modo como julgamos os outros. A sociedade atual avalia as pessoas pela aparência, pela cultura, pela inteligência, pelas posses e por sua habilidade em manipular as circunstâncias. No âmbito religioso, há a tendência de julgar os menos engajados ou os desengajados da Igreja como “pessoas do mundo” e de má conduta.

Paulo declara enfaticamente que a perspectiva da qual o cristão vê todas as coisas deve ser a mesma de Jesus. O apóstolo é credenciado para afirmar isso porque houve um tempo em que ele julgou erroneamente os seguidores do Messias.

Os vv. 17-19 salientam que em Cristo todas as coisas são velhas e agora tudo é novo, e isso ocorre por causa da graça de Deus, que reconciliou o mundo inteiro consigo. Estar “em Cristo” (v. 17a) representa uma relação íntima, e Paulo a expressa com o termo “nova criatura” (v. 17b). Falar de nova criação era a maneira usual com que se descrevia um prosélito judeu (alguém que se convertia ao judaísmo). Esse conceito adquiriu um sentido mais profundo. Os cristãos são novas criaturas porque, “em Cristo”, são pessoas renascidas com atitudes novas por meio de um espírito novo.

Por Cristo, Deus criou uma nova humanidade; tudo vem de Deus, ele é o autor da salvação. O impacto da obra redentora de Deus é a reconciliação (v. 18). O verdadeiro significado da reconciliação é que Deus tomou a iniciativa de perdoar o ser humano por seus crimes, faltas, hostilidade, rebelião e pecado. A iniciativa foi sempre de Deus.

Na reconciliação, o perdão é essencial. Deus não considerou nossas transgressões (v. 19b), mas tomou a iniciativa de perdoar. Quando alguém experimenta a reconciliação com Deus, é natural que queira reconciliar-se com seu semelhante. Além disso, Deus “nos deu o ministério da reconciliação” (v. 18c). Somos portadores e agentes com a obrigação de realizar a reconciliação entre a humanidade e Deus; consequentemente, a reconciliação se torna possível e necessária entre os seres humanos.

Deus pôs em nossas mãos a palavra de reconciliação e espera que sejamos seus mensageiros (v. 19c). A reconciliação não é iniciativa nossa, mas é algo que Deus realizou por meio de Cristo (v. 20). O Senhor pôs de lado tudo aquilo que significava distanciamento a fim de proclamar a paz entre o Criador e a criatura. O evangelho é boa notícia, a reconciliação realizada por Deus merece e deve ser proclamada à humanidade inteira.

Paulo nos leva ao ápice do ministério cristão com a declaração de que “somos embaixadores de Cristo” (v. 20a). O papel do embaixador é singular porque está credenciado pela autoridade que o enviou. Deus nos delega como embaixadores para a obra reconciliadora.

Aíla Luzia Pinheiro Andrade, nj

 

Este domingo hodierno marca como que o início de uma segunda parte da Quaresma. Primeiramente é chamado “Domingo Laetare”, isto é “domingo alegra-te”, porque, no Missal, a antífona de entrada traz as palavras do Profeta Isaías: “Alegra-te, Jerusalém! Reuni-vos, vós todos que a amais; vós que estais tristes, exultai de alegria! Saciai-vos com a abundância de suas consolações!” Um tom de júbilo na sobriedade quaresmal! É que já estamos às portas “das festas que se aproximam”. A Igreja é essa Jerusalém, convidada a reunir seus filhos na alegria, pela abundância das consolações que a Páscoa nos traz! Este tom de júbilo aparece nas flores que são colocadas hoje na igreja e na cor rosa dos paramentos do celebrante.

Depois deste domingo, o tom da Quaresma muda. A partir de amanhã, até a Semana Santa, todos os evangelhos da missa serão de são João. Isto porque o quarto Evangelho é, todo ele, como um processo entre os judeus e Jesus: os judeus levarão Jesus ao tribunal de Pilatos. Este condena-lo-á, mas Deus haverá de absolvê-lo e ressuscitá-lo! A partir de amanhã também, a ênfase da Palavra de Deus que ouviremos na missa da cada dia, deixa de ser a conversão, a penitência, a oração e a esmola, para ser o Cristo no mistério de sua entrega de amor, de sua angústia, ante a paixão e morte que se aproximam.

Em todo caso, não esqueçamos: a Quaresma conduz à Páscoa. A primeira leitura da missa no-lo recorda ao nos falar da chegada dos israelitas à Terra Prometida. Eles celebraram a Páscoa ao partirem do Egito e, agora, chegando à Terra Santa, celebram-na novamente. Aí, então, o maná deixou de cair do céu. Coragem, também nós: estamos a caminho: nossa Terra Prometida é Cristo, nossa Páscoa é Cristo, nosso maná é Cristo! Ele, para nós, é, simplesmente, tudo! Estão chegando os dias solenes de celebração de sua Páscoa!

Quanto à liturgia da Palavra, chama-nos atenção hoje a parábola do filho pródigo. Por que está ela aí, na Quaresma? Recordemos como Lucas começa: “Naquele tempo, os publicanos e pecadores aproximavam-se de Jesus para escutá-lo. Os fariseus, porém, e os escribas criticavam Jesus. ‘Este homem acolhe os pecadores e faz refeição com eles’”. Então: de um lado, os pecadores, miseráveis sem esperança ante Deus e ante os homens, que, agora, cheios de esperança nova e alegria, aproximam-se de Jesus, que se mostra tão misericordioso e compassivo. Do outro lado, os homens de religião, os praticantes, que sentem como que ciúme e recriminam duramente a Jesus! É para estes que Jesus conta a parábola, para explicar-lhes que o seu modo de agir, ao receber os pecadores, é o modo de agir de Deus!

Quem é o Pai da parábola? É o Deus de Israel, o Pai de Jesus. Quem é o filho mais novo? São os pecadores e publicanos. Este filho sem juízo deixou o Pai, largou tudo, pensando poder ser feliz por si mesmo, longe de Deus, procurando uma liberdade que não passava de ilusão. Como ele termina? Longe do Pai, sozinho, humilhado e maltrapilho, sem poder nem mesmo comer lavagem de porcos - recordemos que, para os judeus, os porcos são animais impuros! Mas, no seu pecado, na sua loucura e na sua miséria, esse jovem é sincero e generoso: caiu em si, reconheceu que o Pai é bom (como ele nunca tinha parado para perceber), reconheceu também que era culpado, que fora ingrato... e teve coragem de voltar: confiou no amor do Pai. Cheio de humildade, ele queria ser tratado ao menos como um empregado! Esse moço tem muito a nos ensinar: a capacidade de reconhecer as próprias culpas, a maturidade de não jogar a responsabilidade nos outros, a coragem de arrepender-se, a disposição de voltar, confiando no amor do Pai! Para cada filho que volta assim, o Pai prepara uma festa (a Páscoa) e o novilho cevado (o próprio Cristo, cordeiro de Deus) e um banquete (a eucaristia) e a melhor veste (a veste alva do batismo, cuja graça é renovada na Reconciliação).

E o filho mais velho, quem é? São os escribas e fariseus, são os que pensam que estão em ordem com o Pai e não lhe devem nada, são os que se acham no direito de pensar que são melhores que os demais e, por isso, merecem a salvação. O filho mais velho nunca amou de verdade o Pai: trabalhou com ele, nunca saiu do lado dele, mas fazendo conta de tudo, jamais se sentindo íntimo do Pai, de tudo foi fazendo conta para, um dia, cobrar a fatura: “Eu trabalho para ti a tantos anos, jamais desobedeci qualquer ordem tua. E tu nunca me deste um cabrito para eu festejar com meus amigos” O filho nunca compreendera que tudo quanto era do Pai era seu... porque nunca amara o Pai de verdade: agia de modo legalista, exterior, fazendo conta de tudo... E, agora, rancoroso, não aceitava entrar na festa do Pai, no coração do Pai, no amor do Pai, para festejar com o Pai a vida do irmão! O Pai insiste para que entre... mas, os escribas e os fariseus não quiseram entrar na festa do Pai, que Jesus veio celebrar neste mundo...

Quem somos nós, nesta parábola? Somos o filho mais novo e somos também o mais velho! Somos, às vezes, loucos, como o mais jovem, e duros e egoístas, como o mais velho. Pedimos perdão como o mais novo, e negamos a misericórdia, como o mais velho. Queremos entrar na festa do Pai como o mais novo, e, às vezes, temos raiva da bondade de Deus para com os pecadores, como o mais velho! Convertamo-nos!

São Paulo nos ensinou na Epístola que, em Cristo, Deus reconciliou o mundo com ele e fez de nós, criaturas novas. O mundo velho, marcado pelo pecado, desapareceu. Em nome de Cristo, Paulo pediu – e eu vos suplico também: “Deixai-vos reconciliar com Deus! Aquele que não cometeu nenhum pecado, Deus o fez pecado por nós, para que nele nos tornemos justiça de Deus!”

Alegremo-nos, pois! Cuidemos de entrar na festa do Pai, que Cristo veio trazer: peçamos perdão a Deus, demos perdão aos irmãos! “Como o Senhor vos perdoou e acolheu, perdoai e acolhei vossos irmãos!” Deixemos que Cristo nos renove, ele que é Deus bendito pelos séculos.

 dom Henrique Soares da Costa

 

1º leitura: Josué 5,9a.10 - 12

A PÁSCOA NA TERRA PROMETIDA

O livro de Josué não pretende contar os fatos como eles sucederam. Procura, sim, jogar luzes nos acontecimentos catastróficos, detectar as raízes do mal e apresentar soluções com mudanças radicais. Foi destinado aos exilados da Babilônia, a fim de que tomassem consciência e percebessem porque havia uma situação de explorados e sem terra, para mostrar que Israel se comportou injustamente.

Este livro narra, na primeira parte, a posse da terra prometida (1 - 12). Na segunda descreve a distribuição da terra entre as tribos (13 - 21) e no fim descreve o fim da carreira de Josué.

Os israelitas já haviam atravessado o Jordão e se preparavam para conquistar a terra. Antes disso Josué promoveu a circuncisão de todos os hebreus. O objetivo era selar a identidade de Israel enquanto povo da Aliança. Era um sinal da maturidade do povo. A circuncisão era o sinal da ruptura com o opressor, o começo de um novo estilo de vida baseado na fraternidade e na liberdade. Era o fim do vexame. Moisés havia morrido. Agora quem comandava era Josué. Os israelitas traziam consigo a Arca da Aliança e chegaram a Gálgada, onde celebraram a Páscoa depois da circuncisão. Começaram a comer os frutos da terra e deixaram o maná. O deserto havia terminado para eles.

Os hebreus deram àquele lugar o nome de Gálgada, em hebraico “Gallôti”, que significa tirar, ou “Gulah”, que significa exilar. Portanto, este lugar não é geográfico, mas teológico, onde todos os sistemas de escravidão são removidos para assumir comportamentos fraternos e maduros. Finalmente a promessa se cumpre, as pessoas não comem mais o maná, mas o pão do grão da terra. Acabou o caminho do deserto, feito de provações, endurecimento do povo e muita paciência de Deus.

Esta localidade entre o Jordão e Jericó foi a base para a conquista da terra prometida com Javé e com Saul e tornou-se um grande centro religioso e político.

2º leitura: 2 Coríntios 5,17 - 21

A NOVA CRIATURA: O QUE ERA VELHO PASSOU

Esta carta é dividida em três partes:

01) descrição de incidentes e escândalos na comunidade (1 - 7);

02) organização de uma coleta em benefício dos pobres (8 - 10);

03) apologia de Paulo de si mesmo (10 - 13);

Em Corinto havia falsos missionários que pregavam um Evangelho diferente do de Paulo e buscavam seus próprios interesses. Isto minava a ação de Paulo, pois, além de o ridiculizarem, punham em perigo a essência do Evangelho.

Em vista disso, Paulo escreve aos cristãos desta comunidade para contestar estes missionários exibicionistas e interesseiros, que visavam somente o lucro e a promoção pessoal, fazendo-se sustentar pela comunidade. A pregação deles esvaziava a paixão, morte e ressurreição de Jesus e priorizava a Lei.

Paulo então lhes escreve afirmando que o passado já passou e quem está em Cristo é uma nova criatura. Deus reconciliou a humanidade consigo mediante Jesus Cristo. Paulo enfatiza seu ministério, que é exercido como diaconia, um serviço gratuito. Seu ministério é de reconciliação. Ele é embaixador de Cristo, um representante que age em nome dele, que comunica aquilo que lhe foi confiado. Jesus, que se fez pecado (hamartia), é o reconciliador com sua morte e ressurreição. Ele se fez vítima pelo pecado (hattat) e com sua morte reorganizou o cosmos (Colossenses 1,20).

Evangelho: Lucas 15,1 - 3.11 - 22

A PARÁBOLA DO FILHO PRÓDIGO

Este capítulo é o coração do evangelho de Lucas. Expressa o rosto da misericórdia do Pai. O que deu oportunidade a esta parábola foram os cobradores de impostos e os pecadores que se aproximavam de Jesus. Os fariseus e os doutores da lei contestavam a solidariedade das pessoas em comer com esses pecadores. Outra razão foi também a prática pastoral de Jesus no meio dos pagãos. Os judeus rejeitavam essa práxis.

Na parábola, o Pai é Deus que manifesta todo o seu amor. O filho mais velho é o povo de Israel (os fariseus e os doutores da lei). O filho mais novo representa todos os marginalizados, pobres, cobradores de impostos...

O filho mais novo, num gesto ousado, contrariando as regras do jogo, pede sua parte da herança (a divisão só era feita após a morte do pai). O pai não coloca objeção. Consente, dando a entender que para ele todos os filhos são iguais.

Longe do pai, o filho leva uma vida ambígua. Passa a ser visto a cuidar dos porcos (animais impuros para os judeus) e disputar a comida com eles. Fica em condição humilhante. Nessa condição reconhece o seu erro e resolve voltar. O pai jamais abandonou a idéia de que o filho voltaria. Ao vê-lo enche-se de compaixão. Não deixa que o filho peça para ser tratado como servo, mas manda vesti-lo como hóspede ilustre. Coloca-lhe o anel no dedo, sinal de plenos poderes. Calça-o com sandália, sinal de liberdade adquirida. Mata um boi cevado para festejar a sua recuperação.

O filho mais velho parece bom e não quer aceitar o projeto do pai. Não pauta sua vida no relacionamento pai-filho, mas de patrão-servo. Calunia o irmão de esbanjar os bens com prostitutas. Não admite chamá-lo de irmão, mas o chama de “este seu filho”. O pai tenta a reconciliação. Trata-se de uma verdadeira ressurreição do filho. De fato, por duas vezes o filho disse: “Vou me levantar.” Usa o verbo “anastás”, referência à ressurreição (anastasis), e o pai por duas vezes havia considerado o filho morto.

REFLEXÃO

O centro da parábola não é o filho pródigo, mas a misericórdia do Pai, o seu comportamento, cheio de grande misericórdia em relação aos dois filhos. Na relação com o filho mais jovem, o comportamento do pai é ir ao encontro dele, abraçá-lo e beijá-lo, não deixar que ele confesse os próprios pecados. Ordena que o filho tenha as insígnias de filho, veste, anel e sandálias, e ordena que seja feita uma grande festa.

No relacionamento com o filho mais velho, a misericórdia do pai se exprime na súplica para que participe da festa: ”Você está sempre comigo”.

Jesus é a encarnação humana da misericórdia de Deus. Veio encontrar o pecador, comunicar-lhe a salvação. Come com os pecadores e escandaliza os fariseus e os doutores da lei, que se julgavam justos, sem necessidade de perdão.

O filho pródigo, que se afasta de casa depois de pegar sua herança, volta às costas para o pai e decide fazer sua experiência, mostrar sua autonomia e suficiência. É a figura emblemática do homem moderno, que declara poder viver sem referência a Deus em sua vida.

O pecado é sempre uma negação pessoal do Pai e um desvincular-se dos interesses do Pai. Converter-se, ao contrário, é voltar aos braços do Pai e reconhecer sua filiação (“Irei à casa de meu pai…”).

O pecado do filho mais jovem foi o enjôo da casa do pai, a pretensão de usar bens que não eram dele, fugir da casa paterna, desperdiçar os bens.

O pecado do filho mais velho foi o cansaço da casa paterna. Não fugiu, mas teve pequenez de ânimo.

O filho mais novo dá inicio ao seu processo de conversão tomando consciência do seu pecado e reconhecendo-o. Tem então o desejo de mudar de vida e satisfazer o mal praticado com a confissão do seu pecado e a conseqüente acolhida do perdão do pai.

A mensagem de hoje nos ensina que é preciso sentir necessidade de voltar, de reconhecer os próprios pecados com a confissão e ser acolhido pelo amor de Deus. É preciso festejar, alegrar-se com a alegria que jorra do dom da salvação e da reconciliação do Pai.

Podemos traduzir os sinais do filho pródigo da seguinte maneira:

- “Esbanjou todos os seus bens” - nossos pecados são ruínas para a alma;

- “Carestia” - o vício que nos causa aridez;

- “Colocou-se a serviço” - somos escravos dos nossos sentidos;

- “Fome” - morte espiritual;

- “Levantou-se” - arrependimento, reconciliação;

- “Veste nova” - revestimento da graça;

- “Anel no dedo“ - dignidade recuperada como filho de Deus;

- “Sandálias nos pés” - caminho nas estradas do bem;

- “Banquete”- Eucaristia pascal;

- “Festa, música”- imagem de alegria.

Esta parábola é uma página sublime da literatura bíblica. Seus primeiros destinatários foram os fariseus e os escribas, que criticavam Jesus por tratar bem os pecadores (v.2).

Com esta parábola, Jesus justifica sua atitude. Ele não fazia nada mais que o Pai fazia com os pecadores. Mas Jesus acrescenta uma segunda parte à parábola por causa das atitudes dos fariseus e escribas. O filho mais velho é pessoa perfeita, mas puritana, cumpridora, mas insensível, ser porém sem amor. Sua obediência à Lei precisa do espírito de amor. Pois sem amor nada tem valor (1 Coríntios 13).

Eles têm uma idéia diminuída de Deus, pois Deus é mais compassivo e menos exigente, oferece o perdão a todos. É sempre Deus quem tem a iniciativa da reconciliação.

É no dia-a-dia que nossa conversão vai se manifestar. Talvez não tenhamos grandes pecados, mas podemos lutar contra nosso caráter defeituoso, ser conseqüentes com nossa opção cristã...

Este domingo é tradicionalmente denominado domingo “Laetare” por causa da primeira palavra do intróito: “Regozije-se”. Hoje é permitido que os paramentos do celebrante sejam de cor rosa em vez de roxo e que se enfeite o altar com flores, coisa que não acontece nos outros dias da Quaresma.

A alegria é uma característica essencial do cristão e hoje a Igreja inteira lembra isso. A participação na Quaresma não deve ensombrear nossa alegria interior. Ao contrário, deve fazê-la crescer. Paulo escreve: “Alegrem-se sempre no Senhor” (Filipenses 4,4). Devemos alegrar-nos com a alegria que é sinônimo de júbilo interior, de felicidade que se manifesta também exteriormente.

A sociedade técnica, diz Paulo VI, conseguiu multiplicar as ocasiões de prazer. É muito difícil para ela gerar a alegria, pois a alegria vem de outra fonte, é espiritual. De fato, muitas vezes não faltam o dinheiro, o conforto, a higiene e a segurança material. Apesar disso, o tédio, o mau humor e a tristeza continuam, infelizmente, a ser a sorte de muitos”.

A alegria vem de um coração que se sente amado e também ama, de um coração que se esforça para traduzir esse amor em obras. Só quem se sente amado por Deus pode exprimir este júbilo interior. Paulo diz: “Estou cheio de consolação, transbordo de gozo em nossas tribulações” (2 Coríntios 7,4), e sabemos que a vida dele não foi fácil. Foi açoitado, apedrejado, sofreu naufrágio, expôs-se a diversos perigos, além de passar sede e frio, fazer jejum, enfrentar a nudez... (2 Coríntios 11,24 - 27).

padre José Antonio Bertolin, OSJ

 

“Alegra-te, Jerusalém! Reuni-vos, vós todos que a amais;

vós que estais tristes, exultai de alegria! Saciai-vos com

a abundância de suas consolações”. (cf. Is. 66,10s)

Estamos caminhando na nossa Quaresma. Quarenta dias de penitência, de jejum, de esmola e de conversão. Uma incessante mudança de vida que todos nós somos convidados a colocar em prática em nossa caminhada de fé e de caridade.

Celebramos neste domingo o chamado domingo LAETARE, dia das rosas em Roma e dia de alegria no meio da penitência que dá a nota deste tempo forte de conversão e mudança de vida.

Porque nós devemos fazer penitência? Para nos alegrarmos com a misericórdia e a acolhida que vem de Deus. É o que fala o Evangelho de hoje, a alegria do Pai ao encontrar o filho pródigo, dando-lhe a túnica nova, renovando-o com o anel da realeza, determinando a festa com o novilho e iguarias e, mais do que tudo isso, o anúncio de que aquele que estava no pecado encontrou a graça: “Mas era preciso festejar e alegrar-nos, porque este teu irmão que estava morto e tornou a viver, estava perdido, e foi encontrado”. (cf. Lc 15, 32)

Esta é a missão que cada um de nós é chamado neste domingo: abandonar os paradigmas que oprimem e nos abrirmos para a graça santificante de Deus que nos pede MISERICÓRDIA, PERDÃO, ACOLHIDA, CONCÓRDIA E AMOR. Assim, a penitência que fazemos neste tempo de conversão se transforma em alegria, porque é inspirada como desejo de Deus.

Penitência que desde a antiga aliança era considerada como uma volta para Deus, na busca do rosto sereno e radioso do Senhor da Vida.

A primeira leitura(cf. Js. 5,9a.10 - 12) nos apresenta os israelitas que alimentam-se com pão novo, da Terra Prometida. Entrar na Terra Prometida foi mais do que uma façanha militar; foi a entrada na vocação específica do “povo de Deus”. O tempo anterior era escravidão, vergonha(5,9). Agora começa uma realidade nova, celebrada pelo pão novo (ázimo): os israelitas recebem a pátria prometida aos pais e viverão nela enquanto ficarem fiéis ao Deus da Promessa. Alimentar-se com o trigo de Canaã é um sinal da eficácia da Aliança.

Felizes são os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia! Misericórdia que significa conversão, mudança de vida, abandono do pecado.A morte de Jesus é um ato supremo de misericórdia, completado pelo dom da ressurreição dado a todos. Assim como todos nós precisamos de conversão e penitência, todos precisamos da misericórdia de Deus. E, à imitação de Deus, praticar a misericórdia para com os outros é parte integrante da dimensão humana. Deus é Pai das misericórdias. De nós Jesus exortará: “Felizes os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia!” (Cf. Mt 5,7)

Jesus acolhe os pecadores(cf. Lc. 15,1 - 3.11 - 32). Jesus vai na casa dos pecadores. Jesus conversa com os pecadores. Jesus toma refeição na casa dos pecadores.

Na parábola do filho pródigo há pessoas que estão presentes no teatro da salvação e que devem ser consideradas.

Em primeiro lugar os publicanos. Quem eram os publicanos? Os publicanos eram os cobradores de impostos. Todos deveriam pagar pesados impostos para o Governo que, por conseguinte, os repassava para o Governo Central de Roma. Se pagava impostos sobre terras, animais, plantas, número de filhos, sal usado. Ninguém do povo gostava dos publicanos porque eles eram considerados exploradores e maltratavam o povo de Deus.

Em segundo lugar havia os fariseus. Quem eram os fariseus? Os fariseus eram a elite religiosa de verniz direitista. Estudavam as leis de Moisés e as tradições e procuravam cumprí-las rigorosamente. Os fariseus eram inimigos dos saduceus, classe sacerdotal de Anãs e Caifás que mandarão, mais tarde, Jesus para Pilatos e Herodes. Jesus condenou a atitude moral dos fariseus: estes eram hipócritas, soberbos, exclusivistas, legalistas e exagerados. Viam a lei pela lei e não deixavam fazer uma teleologia da Lei.

A terceira categoria de pessoas que são encontradas no Evangelho são os escribas. Quem eram os escribas? Os escribas eram os doutores da Lei ou legisperitos. Eram os entendidos da lei, ou seja, os advogados do tempo, em questões civis e, particularmente, em questões religiosas. Mais do que homens que interpretavam a Lei e os costumes eram mestres em espiritualidade. Jesus condenou dos escribas o casuísmo, a hipocrisia de seus julgamentos e a vaidade.

Por último temos mais uma classe, os pecadores. Quem eram os pecadores? Os pecadores era a maior classe. Era o povão, o Zé povinho e a Maria. Eram aqueles que não cumpriam o rigorismo da Lei dos Publicanos, dos saduceus, dos Escribas. Mais do que isso os pecadores eram aqueles que tinham uma profissão considerada indigna, como os curtidores de couro, o pastor, o arrieiro, o vendedor ambulante, o jogador de dados, o pescador, etc. Também eram pecadores aqueles que tinham defeitos físicos e os pagãos. E quem freqüentasse a casa ou tomasse refeição com qualquer um destes tidos como pecadores ficariam pecadores como estes.

Jesus escolheu pecadores públicos para serem os seus discípulos, ou seja, os seus preferidos: Pedro e André, Tiago e João. E, mais do que isso, Mateus era publicano, ou seja, cobrador de impostos.

Qual é o critério de Jesus para estar, falar e comer com os pecadores públicos? O critério é o mesmo do pai do filho pródigo: agir com o pobre com misericórdia, com coração generoso, acolhendo as suas misérias, procurando curar seus pecados e doenças espirituais e caminhar para a vida da graça de Deus.

O que é ser misericordioso? É ter um coração voltado para o necessitado. Mais do que isso ser misericordioso é ter um coração necessitado voltado para quem pode socorrê-lo, assim, quando eu, necessitado, volto-me para quem me pode socorrer. Assim deixaremos de sermos egoístas, auto-suficientes, e nos abrir para a misericórdia e a partilha.

A segunda leitura(cf. 2 Cor. 5,17 - 21) nos ajuda a penetrar no sentido das palavras: Estava morto e voltou a viver; o que estava perdido, foi encontrado. A reconciliação em Cristo é uma nova criação. O velho passou, tudo é novo. A vergonha de nosso pecado é apagada. Deus mesmo tornou sacrifício pelo nosso pecado. Seu filho que não conheceu o pecado para que nós fossemos sem pecado. Nestas palavras percebemos um eco da primeira leitura: assim como Israel, no fim do êxodo da escravidão, celebrou, já na Terra Prometida, onde corre leite e mel, a sua passagem com o pão novo, sem o velho fermento, agora tudo é novo em Cristo Senhor.

São Paulo nos apresenta o mistério da reconciliação – Deus nos fez homens novos: Paulo o experimentou em sua própria vida. A “Palavra da reconciliação” modifica radicalmente a condição humana. Somos regenerados, re-criados. O Apóstolo das gentes quer que todos participem desta reconciliação, já que ela custou bastante: Deus fez seu Filho participar da conseqüência do pecado, para que nós participássemos de sua justiça.

Muitos católicos tem a posição do filho mais velho do Evangelho de hoje: tem tudo em casa. Trabalham com afinco, mas não sabem repartir e não sabem perdoar. Isso é uma atitude que deve ser extirpada da vida dos cristãos. O dever de casa de hoje é o seguinte: vamos pensar nesta semana como vamos fazer para tirar o calo da auto-suficiência dos nossos corações.

O que importa é reconhecer que tudo é dom de Deus. O fato de uma pessoa viver como cristão, fazendo o bem, não pode leva-la a excluir a ninguém. Pelo contrário, somos convidados a participar da festa da bondade de Deus. Esta reconciliação com Deus em Cristo Jesus constitui uma experiência pascal, que deve ser celebrada. E uma vez na paz e na graça de Cristo, praticando o perdão, a misericórdia e a acolhida Deus nos abençoará com grande fartura de bens e de graças espirituais. Assista-nos São José, padroeiro da Igreja Universal, a trilhar neste tempo de quaresma a busca da conversão e da misericórdia.

padre Wagner Augusto Portugal

 

1º leitura – Js. 5,9a.10 - 12

O povo de Deus acaba de chegar na Terra Prometida; eles celebram a chegada com a circuncisão e a Festa da Páscoa:

“Hoje afastei de vós o opróbrio do Egito”. Deve ser uma referência à incircuncisão dos descendentes do povo que foi libertado do Egito, pois o texto anterior fala da circuncisão (cf. vv. 2 - 8) e logo em seguida dá-se ao lugar o nome de Guilgal que etimologicamente se refere à circuncisão. O v. 10 se refere à Páscoa. Como o v. 11 fala dos pães sem fermento, isto significa que a festa da Páscoa e dos pães ázimos já estavam reunidas. O que era a Festa da Páscoa? Antes do êxodo ela servia para os pastores afastarem da família e dos rebanhos os espíritos maus. Isto era feito matando um animal e tingindo a entrada da tenda com o sangue dele. Depois do  êxodo a festa da Páscoa adquire um novo sentido. Torna-se lembrança perpétua do Deus vivo que para libertar o seu povo derrota os opressores e seus ídolos. O que era a festa dos pães sem fermento? Era uma festa que antes só era celebrada pelos agricultores na ocasião da colheita. A finalidade era não misturar o produto da colheita anterior com o produto da nova. O v. 11 diz que comeram pão sem fermento e trigo tostado e só a partir do dia seguinte é que comeram produtos da terra. O v. 12 lembra que a partir desse momento que começaram a comer dos produtos da terra o maná parou de cair. O que era o maná? Era o alimento miraculoso com o qual Deus alimentava seu povo no deserto. Agora ele pára de cair, pois o povo chegou à Terra Prometida e já está comendo dos frutos da terra. “A contraposição entre produtos da terra e maná marca o fim do período do deserto. O maná é uma figura da Eucaristia no sentido de ser o pão do céu e alimento de um povo que ainda está a caminho para a pátria celeste.

Você experimenta ao comungar o sentido libertador da Eucaristia?

2º leitura – 2 Cor 5,17 - 21

Paulo desenvolve aqui o tema da reconciliação. Ele é acusado de não ser apóstolo, pois não conheceu Jesus em sua vida terrestre, não ouviu suas palavras nem participou de suas ações. Por isso não pode ser testemunha do Evangelho. Paulo vai mostrar que o Evangelho não é simples história de Jesus e sim o anúncio de sua morte e ressurreição que reconcilia o homem com Deus e inaugura uma nova era. Conhecer o Cristo segundo as aparências tem pouco valor, pois agora já não o conhecemos assim (v. 16). O importante é a novidade que Deus nos traz: a reconciliação em Cristo. Ele restaurou sua obra corrompida pelo pecado. Se alguém está em Cristo é nova criatura. Isso é que importa.

Deus não levou em conta os pecados dos homens e por meio de Cristo ele reconciliou o mundo consigo. É a Paulo e aos apóstolos que Cristo confiou o ministério da reconciliação. Ele exerce assim a função de embaixador em nome de Cristo e é através dele (de Paulo) que Deus fala, exortando os coríntios à reconciliação.

Trata-se de uma exortação muito séria, pois rejeitar o apóstolo anunciador do evangelho de Cristo morto e ressuscitado é rejeitar a própria mensagem de salvação, é rejeitar a reconciliação com Deus. Por isso o apelo é veemente: “Em nome de Cristo, vos suplicamos: reconciliai-vos com Deus”. O v. 21 significa: Deus fez de Cristo, que não tinha pecado nenhum, “uma pessoa solidária em tudo com a humanidade pecadora, para que por seu intermédio, nos tornássemos justos”, agraciados, reconciliados.

Você se cuida de viver profundamente em paz com Deus, os irmãos e a comunidade?

Evangelho – Lc. 15,1 - 3.11 - 32

O capítulo 15 é o coração do Evangelho de Lucas. São três parábolas de misericórdia, ou parábolas dos três perdidos, a da ovelha perdida, da dracma perdida e do filho perdido. Esta parábola do Filho Pródigo podia ser chamada de parábola dos dois filhos e melhor ainda parábola do Pai misericordioso.

Introdução – Os “justos” e pecadores – vv. 1 - 3

Essa introdução é de fundamental importância. De um lado Jesus e os pecadores. Quem são eles? São pessoas que tinham conduta imoral (adúlteros, mentirosos, prostitutas, etc.) ou exerciam profissões consideradas desonestas ou imorais (cobradores de impostos, pastores, tropeiros, vendedores ambulantes, curtidores). De outro lado os que criticavam a atitude misericordiosa de Jesus: fariseus e doutores da lei, que representavam a classe dominante e se consideravam justos. Jesus conta as parábolas para eles perceberem que a sua atitude é a atitude do Pai.

1a parte – O Pai e o filho mais jovem (vv. 11 - 24)

O filho pede sua parte da herança ao pai e depois parte para bem distante. Pecar é distanciar-se da casa do Pai com experiências desligadas da fonte do amor e da vida. Mas ele acaba na “lama”, cuidando de porcos, animal imundo para os judeus. Nem comida de porcos ele tinha. Reconhece na miséria absoluta que na casa do pai até os empregados têm de tudo. Ensaia sua confissão e decide voltar. Sua esperança é de ser ao menos um empregado. Mas o Pai o aguardava ansioso (v. 20). Vendo-o encheu-se de compaixão e correu ao seu encontro e o restabelece na família com toda a dignidade de filho: o beijo é o sinal do perdão; a veste festiva é para um hóspede de honra; a entrega do anel é a restituição de todos os direitos e plenos poderes na família; os sapatos eram luxo dos homens livres, escravos não usavam. A carne era usada só de vez em quando e matar um bezerro era coisa especial para grandes festas. Naquela casa voltou a alegria: “Trazei um novilho gordo e matai-o, para comermos e festejarmos, pois este meu filho estava morto e tornou a viver; estava perdido e foi encontrado”. E começaram a festa. Mas... e o filho mais velho?

2a parte – O Pai e o filho mais velho (vv. 25 - 32)

O filho mais velho tem todas as qualidades, mas não é capaz de acolher o irmão que volta, nem quer partilhar da alegria do coração do Pai que insiste com amor e ternura para que ele entre para a festa. Gabando-se de sua conduta justa e irrepreensível chega a criticar a atitude do Pai. A parábola termina com o Pai justificando sua conduta misericordiosa. E o filho mais velho entrou ou não entrou na festa? Agora entenderemos os versículos iniciais.

O filho mais novo são todos os pecadores com quem Jesus faz a festa. O filho mais velho são os fariseus e doutores da lei que se consideram justos, mas são incapazes de acolher os irmãos marginalizados e ainda criticavam a atitude de Jesus. E você? Qual a sua postura?

dom Emanuel Messias de Oliveira

 

Nesta Quaresma não podíamos deixar de meditar sobre a parábola do filho pródigo. É o que nos propõe a liturgia para este quarto domingo de Quaresma. Mais que ouvir ou ler uma pregação ao respeito, deve ser meditada com calma. Convém que cada um de nós tome a parábola (Lc. 15,11 - 32), a leia sem pressa e possa usá-la como ponto de partida para um diálogo com Deus de coração a coração.

Porque é tão importante este Evangelho? Pois aqui, Deus revela-nos com clareza extraordinária o seu coração de Pai. Quem diante do mal deste mundo, das suas misérias e pecados, duvide que possa existir um Deus bom, pois “Deus seguramente não permitiria tais coisas” deveria refletir sobre quanto está dito nesta passagem. Um teólogo protestante do século passado, Moltmann, perguntava-se se ainda podíamos falar de Deus depois de Auschwitz. Ele mesmo deu a resposta: “Depois de Auschwitz, somente pode-se falar de Deus”. Pois os campos de concentração mostraram claramente aquilo de que o homem é capaz sem o Senhor.

Sim, quem lê, contempla, medita neste trecho dá-se conta que aqui há um tal amor de Deus pelo homem, que nada é mais urgente, hoje em dia, que reintroduzir Deus em todas as dimensões da nossa vida. O filho mais novo da história é precisamente o que busca evitar. Sente um grande tédio pela casa paterna, ou seja, um grande tédio pelas coisas de Deus. Nunca as entendeu, porque nunca quis abandonar a própria lógica. É como os interlocutores de Cristo durante a sua Paixão. Pilatos pergunta ao Senhor quem é Ele. Cristo não responde. Efetivamente Deus não responde a quem o busca centrado fundamentalmente no interesse próprio. Ou melhor: Deus sempre fala de alguma maneira, sempre responde, mas não o pode ouvir quem só se ouve a si mesmo. Quem sai dos estreitos confins de si mesmo, dos seus esquemas mentais, dos seus conceitos e hábitos demasiado pessoais, descobre, do outro lado da sua porta, um mundo resplandecente, porque através dele, de modo misterioso, precisamente quem resplandece é Deus.

Mas o filho mais novo nunca entendeu essas coisas, não é capaz de apreciar a beleza da vida com o pai. Esse pai, por mais bondoso que seja, é um limite para ele, é uma barreira para tantas coisas divertidas, que vê talvez os amigos realizarem. Por isso, pede a herança. E o mais curioso é que o pai a dá, sem oferecer o “não” rotundo que todos esperaríamos. Mas é que não se importa com o filho?

Este “dar a herança” aparentemente sem grandes resistências, é um episódio que se repetiu inúmeras vezes na história da humanidade. Acontece cada vez que o homem apodera-se da criação, sem qualquer referência ao Criador. Não poderá gozar assim mais da criação? Mas é nestas decisões que começa o que mais tarde originará os Auschwitz, os campos de concentração siberianos, os abortos em massa, as guerras fratricidas, as limpezas étnicas, e, já antes, as quase ilimitadas trafulhices, injustiças e enganos que compõem a vida sobre esta terra. Porque Deus dá tantas facilidades ao homem contemporâneo para “gozar da herança”, para desenvolver a ciência, a economia, a política de forma irresponsável? Diante disso, há quem pense que Deus não pode ser uma realidade pessoal, consciente, inteligente, capaz de amar.

O que não vêm é que é precisamente porque ama o filho, que o pai o deixa sair de casa. Retirar-lhe esta liberdade é destruí-lo, é encerrá-lo numa prisão. Quando Deus criou o homem, fez-lhe esse dom incrível da liberdade e sabia bem o risco implicado. É como quando pais têm um filho. Sabem que esse filho pode tornar-se o inferno da sua vida, pois é livre, mas é preciso amar pouco para não o querer ter. Era tão grande o amor de Deus e o dom da vida que fazia, que estava disposto a sofrer o que fosse necessário para mantê-lo. A história ensinou-nos na cruz, até que ponto Deus foi capaz de amar a liberdade da sua criatura.

Conhecemos o que segue na parábola. A vida corre mal ao filho ingrato, como não podia deixar de ser. Mostrou que não sabia amar. Como lhe podia correr bem a vida? Termina arruinado e deve dedicar-se a cuidar de porcos. Suprema humilhação para um judeu! Chegou ao ponto mais baixo possível. Aqui também a história da humanidade oferece-nos exemplos inesgotáveis. O homem sem Deus chega a uma violência, uma brutalidade, um atropelo à própria dignidade, de que os animais são absolutamente incapazes. Mas no ponto mais baixo chega a luz, às vezes a luz mais forte que se possa imaginar. Não é na cruz, ou seja, no assassínio de Deus, onde brilha mais que nunca o amor de Deus? Não foi em Auschwitz onde brilhou Maximiliano Kolbe, que tomou o lugar de um condenado a morrer de fome e de sede?

Mas é também nestes infernos que o homem cria, onde ele se pode olhar como num espelho: “eis o que me tornei porque não aceitei que Deus habitasse em mim”. Feito para ser templo de Deus, se expulsa o seu Senhor, se proclama a “morte de Deus”, como alguns pensadores do século XIX e XX, ficam abertas as portas para as mais terríveis possibilidades. E é também porque as forças do mal não permanecem ociosas. Certa vez, um jornalista, para burlar-se da crença cristã ao respeito da existência objetiva de forças espirituais malignas, perguntou ao cardeal Lustiger se acreditava no diabo. E quando este respondeu que sim, ainda mais irônico o jornalista gracejou: “Ah, sim? Pois diga-me onde o vê?” Como se somente existisse o que podemos ver e tocar… Pois bem, o cardeal retorquiu: “Sim, eu vi o diabo nas câmaras de gás de Auschwitz”.

Mas o homem não é definitivamente um prisioneiro das forças do mal, porque Deus é misericórdia. Com efeito a misericórdia de Deus é a verdadeira liberdade do homem, o que lhe impede ser um boneco dos seus instintos e dos poderes malignos. Vemos essa misericórdia tocar o coração do filho pródigo, como um raio que vem de Deus e o leva a refletir no meio das suas horas mais sombrias. “Quantos trabalhadores de meu pai têm pão em abundância, e eu aqui a morrer de fome! Vou-me embora, vou ter com meu pai e dizer-lhe: Pai, pequei contra o Céu e contra ti. Já não mereço ser chamado teu filho, mas trata-me como um dos teus trabalhadores”.

Quão pouco conhecia o coração do próprio pai. Não admira que o tivesse abandonado…Como se o pai, ao seu regresso, pensaria em castigos ou em vinganças, como se não fosse capaz de perdoar. A justiça existe e é necessária. O mal que esse filho fez a si mesmo, ele terá de pagá-lo de alguma forma, pois não será fácil, depois de se ter dedicado aos vícios, reaprender a virtude. Existe a necessidade de purificação. Que responsabilidade existiria se nunca ninguém tivesse que pagar pelos próprios erros? E que classe de amor paterno seria este se não chamasse os filhos à responsabilidade? O amor não é real sem a justiça. Mas a misericórdia é largamente superior à justiça num autêntico coração paterno como o de Deus. Neste sentido, a parábola fala por si mesma:

“Disse-lhe o filho: ‘Pai, pequei contra o Céu e contra ti. Já não mereço ser chamado teu filho’. Mas o pai disse aos servos: ‘Trazei depressa a melhor túnica e vesti-lha. Ponde-lhe um anel no dedo e sandálias nos pés. Trazei o vitelo gordo e matai-o. Comamos e festejemos, porque este meu filho estava morto e voltou à vida, estava perdido e foi reencontrado’. E começou a festa”.

Um último comentário. Como sabemos, a história não acaba aqui. Chega o momento da rebelião do filho mais velho. Chega a sua vez. Porquê? Porque se festeja o regresso do mais novo. Mais ainda: não se podia imaginar uma festa maior naquela casa. A prova é que se matou o vitelo gordo. O filho mais velho sentirá algo de inveja, certamente. Mas não é só isso. Há algo mais profundo. Também ele não compreende o coração do pai. O seu coração é fiel, cumpre, obedece, mas tudo é ainda muito exterior. Não chega a uma comunhão com o pai. Não chega ao amor maduro. De fato, em vez de se alegrar com o regresso do irmão mais novo, fica terrivelmente aborrecido ao ponto de já não querer entrar em casa. O filho mais novo abandonara a casa. Agora o filho mais velho fica plantado diante dela sem querer entrar. Bela imagem do que, no fundo, foi a sua vida até este momento.

Podemos ser às vezes um pouco como esse filho mais velho. Fazemos as nossas orações, cumprimos com a missa dominical, damos esmola, ou seja, cumprimos com os dez mandamentos. Mas será que somos como esse pai que vai com beijos ao encontro do filho que o traiu? Da a impressão que esse pai não sabe pensar na própria honra ferida. É como Cristo completamente nu, pregado a uma cruz. Não é indecente que Deus se preste isso? Não é demasiada humilhação? Não está Deus a perder credibilidade? Não. Está simplesmente a dar-nos uma grande lição de amor. A grande lição do amor. Depois disso, como diz São Bernardo, a medida do amor é amar sem medida.

Peçamos muito a Deus a graça de compreender com o coração essas coisas, que são tão afastadas do modo como o mundo entende a vida. Por isso, é tão necessário não se limitar a ler esta parábola, mas meditá-la sem pressa, no silêncio da oração, aí onde Deus nos dá lições magistrais de vida.

padre Antoine Coelho, LC

 

Alegria da misericórdia

Ao ler mais uma vez a parábola do filho pródigo, eu pensava que é verdadeiramente justa a ira de Deus para com os pecadores e que é mais fácil entender a justiça que a misericórdia. Que o leitor não se escandalize com este padre! Vou tentar me explicar. Você assistiu ao filme “Seqüestro do metrô 123”? É um filme de ação dirigido por Tony Scott: quatro homens seqüestram um metrô e um deles à cabeça vai negociando com as autoridades uma quantidade de dinheiro bastante considerável para não continuar matando os reféns. O seqüestrador principal, que parece um autêntico psicopata e sem dúvida um desequilibrado mental, ao negociar por telefone encontra num dos controladores do metrô uma pessoa simpática com quem conversar. Neste diálogo há um momento em que o seqüestrador de alguma maneira acaba professando-se católico. Nesse interessante diálogo, o controlador, ao outro lado da linha, lhe diz que um católico não pode matar, muito menos a pessoas inocentes como aquelas que estavam no metrô, seus reféns. O seqüestrador lhe diz uma frase rotunda, mas verdadeira: “o que o católico sabe é que ninguém é inocente”.

Excetuando Jesus e Nossa Senhora, ninguém é inocente! Por outro lado, é lógico: ao culpado se aplica uma pena! Isso não é muito difícil de entender. Outro exemplo: já pensou se um dia, num determinado momento, os órgãos da justiça e os policiais, num arrebato de misericórdia, resolvessem soltar todos os presos, muito deles ladrões e assassinos? Tenho certeza que a outra parte da sociedade se levantaria indignada entre protestos e diria que a justiça ficou louca. Produzir-se-ia um medo geral e nem quereríamos sair às ruas. Ficaríamos com a sensação de que a qualquer momento alguém poderia roubar-nos ou matar-nos. Não é muito mais fácil compreender que os presos fiquem na cadeia pagando o que devem? Efetivamente, a justiça é mais compreensível que a misericórdia!

O capítulo quinze do Evangelho segundo São Lucas contêm três parábolas chamadas “da misericórdia”: a ovelha perdida, a moeda perdida e o filho perdido. Tudo perdido! Mas, se invertemos o quadro temos o bom pastor que busca a ovelha, a boa mulher que busca a sua moeda e o bom pai que espera e ama o seu filho pródigo. Tanto o pastor quanto a mulher têm umas atitudes que não são nada comuns, o mesmo diga-se do pai do filho pródigo. Nem naqueles tempos nem hoje em dia se atuaria dessa maneira! Pense comigo: se você fosse um pastor e tivesse cem ovelhas, delas perdesse somente uma, será que deixaria as noventa nove sozinhas, com perigo de perderem-se, para procurar somente aquela desgarrada? Será que é lógico deixar noventa e nove ovelhas sozinhas e procurar somente uma? Eu pelo menos deixaria a pobre ovelha pra lá, não correria o risco de perder noventa e nove ovelhinhas por causa de uma ovelha boba. E se você tivesse dez moedas e perdesse uma, faria como aquela mulher da parábola: acenderia a luz, varreria a casa colocando-a quase de cabeça para baixo para encontrar a única moedinha perdida? Como se não bastasse: convidaria os amigos para dar uma notícia tão efêmera como essa do encontro de uma mísera moeda? Eu pelo menos não atuaria assim!

Por último, no texto do Evangelho de hoje aparece um filho que pede a parte da herança, gasta com prostitutas e depois se apresenta ao seu pai como culpado. O pai, ao encontrá-lo, o festeja, o presenteia e faz uma festa para ele… Esse pai está louco! No fundo, dá vontade de ver esse filho malandro levar uma boa surra do pai. Não sei se você estará de acordo comigo, querido leitor, mas não é difícil entender que um bom pai corrija com fortaleza um erro cometido por um filho seu. Realmente, é mais compreensível que uma só ovelha se perda que correr o risco de perder as noventa e nove; é mais lógico deixar uma moeda pra lá que revirar a casa por uma só moedinha e depois – e isso é o cúmulo – convidar os amigos, fazer uma festa e gastar mais do que vale a moeda encontrada; é mais fácil entender que o pai desse uma bronca naquele filho sem-vergonha. Enfim, é mais fácil compreender a justiça que a misericórdia!

No entanto, a lógica do Evangelho é outra! Sem contrapor a justiça à misericórdia, a parábola nos apresenta um pai que não é o comum dos pais desta terra, mas o pai só pode ser Deus. Alguma vez escutei e disse aquela frase de que “Deus perdoa tudo, o homem perdoa muitas vezes e a natureza não perdoa nunca”. Hoje eu gostaria de defender a primeira parte: Deus perdoa tudo! Isso sim é motivo de grande alegria! Ele é o nosso Pai, cheio de amor para conosco. Nós, culpados e pecadores, cheios de boas intenções e, também, cheios intenções torcidas e más ações, somos os queridos de Deus. Já está justificada a nossa alegria para todo o dia de hoje: Deus é Pai! Eu sou seu filho! Deus é muito bom e os sacerdotes no Sacramento da Penitência têm o Coração de Deus e, por isso, compreendem sempre. Não tenha medo!

padre Françoá Rodrigues Figueiredo Costa

 

NOVA CRIATURA: De modo que se alguém em Cristo (é) nova criatura, as antigas coisas passaram: eis que nasceram todas novas (17). É um texto que deve ser lido após os versículos anteriores: Cristo morreu por todos a fim de que os vivos não vivam para si mesmos, mas para aquele que morreu e ressuscitou por eles (15). Como lógica consequência, somos uma nova criatura. E conhecemos Cristo, não de modo humano, mas através do Espírito que temos recebido do Senhor, como penhor (5). Paulo fala, pois de uma nova ordem de criação em que Cristo é tudo em todos (Cl. 3,11), já que todo cristão é em Cristo nova criatura (17).

CRIATURA: A palavra grega KTISIS (= creatura] significa primeiramente o ato de fundar ou edificar; no caso, criação (Mc. 10,6). Daí o ato de criar. Substitui Ktismas que é o produto desse ato de fundar ou iniciar, ou seja, criatura (Mc. 19,15). A mesma coisa acontece nas epístolas paulinas: Como criação, temos Rm. 1,20: desde a criação do mundo. Como criatura, Rm. 1,25: adoraram e serviram à criatura em lugar do Criador. No versículo atual, falta o verbo ser, próprio de um semitismo, e como o sujeito é tis ou alguém, um indivíduo, teremos que o significado de Ktisis deve ser criatura, como, vemos em Rm 8,39: nem a altura nem a profundidade nem outra criatura. É o homem novo criado segundo Deus, na justiça e na santidade que vêm da verdade (Ef. 4,24).

PASSARAM: O sentido do verbo Parerchomai significa passar ao longo (Mt. 20,30) e, em sentido figurado, esquecer, suprimir, ignorar, não tomar conhecimento, omitir, deixar de existir. É neste sentido, que para Paulo as velhas coisas, ou seja, o AT deixa de existir diante da presença de Cristo. Também o Senhor diz: Todo doutor no reino dos céus é semelhante a um pai de famílias que tira de seu tesouro coisas novas e velhas (Mt. 13,52). Para Paulo, as coisas velhas são as que vêm como tradição de Moisés, especialmente a Torah com seu mandato de circuncisão.

NOVAS TODAS: Parece que é a mesma linguagem que emprega o Apocalipse em 21, 5: Eis que faço novas todas as coisas. Com o rolar da História, tudo envelhece, como sucede com a biologia humana, e só podemos iniciar para renovar. No versículo posterior explicará Paulo como Deus renovou a velha religião mosaica.

Pois todas da parte de Deus (vêm), que nos reconciliou consigo por meio de Jesus Cristo e nos deu o ministério da reconciliação (18).

PARTE DE DEUS: Deus é o principal autor dessa renovação que essencialmente, como temos visto em Ef 4,24, provêm da fidelidade divina que nos reforma por meio da justiça e santidade. Esse trabalho é feito através da RECONCILIAÇÃO. O significado de Katallagës é câmbio (de moedas); o exchange dos ingleses. Também é um reajustamento de contas. No sentido cristão, Deus deixou de lado sua ira contra os pecadores e efetuou um perdão de todas as dívidas [pecados], efetuado de uma vez por Cristo em sua cruz (Rm. 5,10). A palavra sai 4 vezes no NT e unicamente em Paulo. Além das duas vezes nesta perícope, temos Rm 5,11: Por meio dele [Cristo] temos recebido a reconciliação e Rm. 11,15: O afastamento deles [dos judeus] foi a reconciliação do mundo. Do estado de inimizade, pois anulando em seu próprio corpo a Lei, seus mandatos e decretos, Ele formou uma nova humanidade, estabelecendo a paz (Ef. 2,15). Quer dizer, que por meio do sacrifício do seu corpo, Cristo estabeleceu uma nova religião [ligação] com Deus em que não eram necessárias a Torah [Lei escrita] nem a Mishná [lei falada]. Reconciliar é também pagar a dívida que é uma satisfação; e no caso, como é de pecados, podemos chamar de expiação. Como no AT a expiação pelo pecado se fazia através de um sacrifício mediante a morte de uma vítima, tendo o sangue derramado, como símbolo de sua vida em oferenda. O pecado contamina o homem e interrompe sua amizade com Deus. Como a restauração [reconciliação] depende de Deus, o ofendido, este demanda um castigo pela ofensa. Devia ser a morte do ofensor, pois tal é justo castigo do pecado como rebelião contra o Senhor {não comerás..mas o dia em que dela comerdes, tua morte estará marcada (Gn. 2,17). Assim foi o castigo dos anjos rebeldes, cuja vontade de retificar [arrependimento] é impossível por natureza, ao escolher o mal como forma de vida. No homem, imperfeito no conhecimento e débil na vontade, existe a possibilidade  de retratação e arrependimento. Por isso, Deus que é amor, oferece ao pecador um meio de reparação que é o sacrifício, no qual o homem demonstra sua culpa e oferece uma expiação: uma morte no lugar de sua própria morte. As oferendas do AT eram imperfeitas e não perdoavam o pecado em si mesmas. Porém, o Filho do Homem ofereceu-se a ser vítima perfeita, como cordeiro que tira o pecado do mundo (Jo. 1,36). O pagamento é considerado por Paulo como a paga devida para libertar um escravo. No caso, esta paga é o Lytron ou Apolytrösis, cuja tradução é redenção ou libertação. Nota: como vemos, a libertação bíblica nada tem a ver com a Teologia da Libertação.

MINISTÉRIO DA RECONCILAÇÃO: o homem não reconcilia, mas forma parte da reconciliação como ministro, ou servidor da mesma, de duas maneiras:

1) Como pregador do evangelho, que Paulo chama evangelho da paz. Paz com Deus e paz entre os dois povos inimigos: judeus e gentios, ou gregos, como Paulo gosta de dizer (Ef. 2,14); porque ambos formam uma nova família, a de Deus (Ef. 5,18).

2) Como delegado para o perdão, por meio especialmente do sacramento da penitência ou reconciliação, em que os poderes foram recebidos como enviado através da efusão do Espírito que é enviado por Jesus (Jo. 20,21 - 22) em pleno poder após sua ressurreição (Mt. 28,18). Deus escolheu o homem especial, unido a sua divindade, Cristo Jesus, para obter por seu sacrifício a apolytrosis do pecado do mundo; e este escolheu, entre seus apóstolos e os sucessores, os homens para a reconciliação e, fora disso, não existe reconciliação verdadeira porque não é questão só de arrependimento, mas de aceitação do mesmo por Deus, através do Filho e dos filhos que a este último representam. Com esta reflexão, podemos ver a parcialidade dos que afirmam que basta a contrição individual para que o pecado seja perdoado. Precisa-se de um ministro da reconciliação como meio ordinário. E, portanto, Deus não perdoa se a igreja não intervêm e a Igreja não perdoa se a ela não é pedido o perdão.

O RECONCILIADOR: Como Deus era em Cristo o reconciliador do mundo consigo, não imputando-lhes as suas transgressões e pondo em nós a palavra da reconciliação (19). Paulo continua a explicação do que é a verdadeira reconciliação, que provêm como causa efetiva do próprio Deus e não do homem; por isso fala de que a reconciliação estava em Cristo, o verdadeiro reconciliador do mundo com Deus. Este título de RECONCILIADOR é próprio de Cristo, ou Jesus ressuscitado. Pois se Cristo tem o significado de Messias  [ungido], essa unção é definitiva e total em sua atuação entre os homens após o envio do Espírito como afirma João (Jo. 7,39). Em Cristo, Deus condensa o esquema, o autor, os sujeitos, o método e os meios da reconciliação. Como afirmavam os anjos aos pastores, com Jesus nasceu um Salvador, o Cristo Senhor (Lc. 2,11); e, portanto, a paz, produto da reconciliação, entrava de cheio nos planos divinos, que aceitavam os homens como queridos por sua benevolência (Lc. 2,14). Deus amou tanto o  mundo que entregou seu Filho  Único para que todo homem que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna (Jô. 3,16). É Cristo quem, em sua epístola, declara como vítima de expiação por nossos pecados e não somente pelos nossos [de Israel], mas também pelos do mundo inteiro (1Jo. 2,2).

CONSIGO: Esta palavra responde ao grego Eautö que claramente indica quem foi o ofendido [Deus] e quais os  ofensores [os homens]; sendo o pecado, ou desobediência aos mandatos divinos, o motivo e causa da ofensa, pois todos pecaram (Rm. 3,23). Nota: Como comentário extra, fora do texto atual, a única maneira do homem obter algum mérito para que seus pecados sejam perdoados é perdoar: perdoa nossas ofensas assim como nós perdoamos nossos ofensores (Mt. 6,12). Palavras que serão comentadas expressamente pelo Senhor : se perdoardes, vosso Pai celeste também vos perdoará mas se não perdoardes também vosso Pai não vos perdoará (Mt 6, 14). Aqui temos a condição exigida ao homem para que a reconciliação seja cumprida em sua perfeição.

A PALAVRA DA RECONCILIAÇÃO: Essa palavra não é unicamente o anúncio do evangelho, mas a palavra de perdão tal e como oferece a Igreja, em nome de Cristo, no sacramento da reconciliação. Com a sua morte, o pecado do mundo [em termos gerais e absolutos] é perdoado. Com o sacramento, o pecado individual entra dentro dessa reconciliação geral. De modo que todo pecado pode ser perdoado a não ser o cometido contra o Espírito Santo, que é a Pessoa atualmente dirigindo a providência ou economia divina. O Espírito deve ser quem anima nosso ser transformando-o de natural [psikicos] em espiritual (1 Cor. 15,44) para que seja possível a ressurreição. Se a Ele, ao Espírito, não queremos receber, como pode habitar em nós para nos tornar como diz Paulo, justos e santos na verdade? (Ef. 4,24).

EMBAIXADORES: Por meio de Cristo, pois, somos embaixadores: como chamados de Deus, por nosso meio, os rogamos em lugar de Cristo: reconciliai-vos com Deus (20).

EM LUGAR DE:  Yper tem o significado de

1) preposição de lugar como acima sobre através. Não é nosso caso, pois não ocorre desta forma no NT.

2) como por, a causa de. Orai pelos que vos caluniam (Lc. 6,28)

3) em lugar de, em vez de como em 1 Cor. 15,29: batizados en lugar [yper] dos mortos. Ou Cristo morreu em lugar de todos (2 Cor. 5,15). Qual delas é a melhor tradução? Creio que escolher a 3ª é uma escolha que não está fora do pensamento fundamental de Paulo nesta períciope. Máxime que Paulo usa o dia [por meio de] no mesmo parágrafo por nosso meio. Logo a tradução seria em lugar de Cristo ou fazendo as vezes de Cristo somos embaixadores porque estes estão em lugar do Senhor ou rei que os manda. Paulo fala de EMBAIXADORES em plural o que indica que existem vários homens que têm esse ministério, e não é próprio unicamente de Paulo. O embaixador está no lugar do rei com plenos poderes para estabelecer a paz ou a guerra, a reconciliação neste caso. Mais ainda repete de novo Yper Xristou como sendo a voz de Cristo que Paulo seu embaixador usa como procuração  e mandato: Reconciliai-vos com Deus.

A TROCA: Pois àquele, que não conheceu pecado, por nossa causa, fê-lo pecado para nos tornarmos justiça de Deus nele (21). Para poder castigar o próprio Filho, inocente e sem culpa alguma,  Deus o FEZ PECADO. A frase é célebre e propriamente significa que Deus viu nele o pecado de todos os homens, ou o considerou como se todo ele fosse um proscrito, totalmente cheio de pecado, de modo que em Cristo só viu pecado e assim como nEle viu, no batismo, o Filho amado em quem encontro meu agrado (Mt. 3,17), pois cumpria toda justiça ou desejo do Pai, agora só vê nEle a iniquidade e se afasta de tal modo que Cristo sente esse abandono e deve exclamar Meu Deus por que me tens abandonado? (Mt. 27,40). Deus castigou o justo para perdoar o pecador. Assim a justiça encontrou em Cristo o pecado e nos homens a figura do seu Filho como justificados pelo sacrifício da cruz. Isso é o que Paulo pretende dizer com a frase nos tornamos JUSTIÇA nEle [em Cristo]: Para nos tornarmos Justiça de Deus nEle, ou seja, sem pecado por meio de Cristo, ou melhor, porque Cristo está no nosso lugar ante Deus.

 

EVANGELHO

Os três primeiros versículos constituem uma introdução para apontar os interlocutores de Jesus nas três parábolas que ele pronunciou: a ovelha tresmalhada, a moeda  perdida, e o filho pródigo. Das três, hoje encontramos na leitura evangélica a última delas. Em todas encontramos como base  a estima e o amor pelo extraviado do dono dos objetos, ou do pai para com o filho. Tudo natural e normal, dentro dos costumes humanos mais puros e simples de todos os tempos. Jesus não identifica o pecador com o malvado, mas com o desgarrado e perdido que é preciso buscar e acolher e em cujo encontro todos devem se orgulhar e regozijar. Pelo que respeita à parábola de hoje, há um substrato que resultava claro na época e que hoje dificilmente podemos avaliar: os dois filhos representam respectivamente as duas facções em que dividiam os antigos a humanidade: os justos perante a Lei, como eram os bons fariseus, e os pecadores entre os quais necessariamente se incluíam os gentios e parte do ham haaretz [povo da terra] que não mostrava muito interesse nos detalhes da Lei. Autores há que afirmam ser esta parábola o evangelho do evangelho. Explica a atitude verdadeira de Cristo que não é outra que a do próprio Deus, como Pai, não unicamente dos bons, mas também, sem distinção, dos que nós chamamos maus. A infinita bondade do Pai Deus [pai antes do que Deus] explica a existência do mal porque encontra no perdão maior alegria do que pode obter da conduta dos poucos ou muitos bons que não exigiriam sua misericórdia. Esta e não outra é a conclusão real da parábola, embora tenhamos uma outra que reflete a mesquinharia do homem: a inveja e o desgosto provocado no homem justo, ao se ver, no ato do perdão do pecador, como preterido e humilhado.

A AUDIÊNCIA: Estavam, pois, se  aproximando a Ele todos os publicanos e os pecadores para ouvi-lo (1). Sabemos quem são os PUBLICANOS, dos quais temos falado no III Domingo do advento C. Também em outro comentário temos explicado o significado em Lucas especialmente da palavra PECADOR, que preferimos  traduzir como classe, por gentios no seu plural. Autores evangélicos traduzem por descridos. Nisso vemos duas coisas importantes:

1ª, Que amartolos, sendo um nome não pode ser traduzido por pecador, um adjetivo, como é no caso de Pedro ao se declarar ¨Homem Pecador¨,(= aner amartolos eimi em Lc. 5,8).

2ª, Que os evangelistas identificam o nome amartolos, ou em plural amartoloi, com os gentios como vemos em Lc. 27,4, quando Jesus declara que será entregue nas mãos dos pecadores o que é confirmado por Mt. 26,45 e Mc. 14,41. Vamos acrescentar mais um dado final: Paulo falando de si mesmo dirá aos gálatas: Nós somos por natureza judeus e não pecadores, dos gentios (Gl. 2,15). De fato, os doutores não criticam Jesus por estar com publicanos, que eram os máximos pecadores entre os judeus; mas por tratar e especialmente comer com os gentios ou pagãos, fato que a Mishná proibia. O amartolos não era, pois o Hattá do AT que sai 18 vezes e significava um pecador contumaz que é sujeito ao castigo por causa de suas práticas (Nm. 32,14); mas era o Harel, o incircunciso. No NT a palavra incircunciso sai pela primeira vez em At. 11, em sentido próprio. Pedro tinha entrado na casa de Cornélio, o centurião, e foi censurado, pois entraste na casa de homens que tem prepúcio e comeste com eles¨. Em sentido figurado, o encontramos em At. 7,51, quando Estêvão recrimina os membros do Grande Sinédrio de Jerusalém e os chama de incircuncisos de coração e ouvidos. Paulo fala da circuncisão como condição que alguns punham para entrar no cristianismo, e da incircuncisão. Como amostra temos Ef. 2,11: ¨Acordai-vos que vós éreis antes, as nações na carne, os chamados prepúcio por aqueles que se intitulavam circuncisão na carne, por mãos humanas¨. Estas palavras não saem nos evangelhos. Só a palavra éthnos (= raça, povo) e em plural ta éthne significando as nações fora do judaísmo. Daí que nos vejamos inclinados a traduzir amartolos por pagão ou idólatra. Assim entenderemos melhor a acerba crítica dos fariseus e doutores contra Jesus por comer com pagãos.

OS GENTIOS: A razão de se separar dos gentios ou idólatras, era dupla: evitar qualquer culto idolátrico e desviar-se de impurezas no trato com os mesmos.

1) Do primeiro caso, temos a proibição de vinho, vinagre de vinho, vasos de barro, especialmente os chamados de Adriano, e peles com buraco no coração. Também eram proibidos,  segundo a Mishná, no tratado de Aborá Sadá (idolatria), os alimentos salgados em sal, e os queijos, especialmente da Bitínia. As razões eram as libações sagradas, às quais os vinhos eram submetidos. Para se ter uma ideia, também os judeus tinham suas libações em que o vinho era oferecido, agitando-o em cruz sobre o altar, primeiro na horizontal e logo na vertical. O vinagre, que antes era vinho, tinha logicamente sido oferecido aos deuses ou penates dentro das próprias casas. Os vasos de barro porque estes podiam ser contaminados pelos líquidos, e estava determinado que fossem quebrados, o que logicamente não faziam os gentios. Já se fossem de pedra, isso não acontecia, e por isso as vasilhas para a purificação eram de pedra (Jo 2,6). Os vasos de Adriano, derivados deste imperador por talvez terem seu nome e sua imagem. Peles com buraco no coração porque eram produtos de um sacrifício em que o coração era retirado antes de morrer o animal. E os queijos, porque acostumavam usar leite coalhado de animais mortos. Também nas casas dos gentios se encontravam deuses penates no mínimo, o que proibia a entrada para um judeu como no caso das asherás, árvores em cuja base estava o ídolo correspondente, impedindo de se assentar na sua sombra.

2) No segundo caso, temos as impurezas. As casas dos gentios eram impuras. Quanto tempo deve ter habitado o gentio para ser necessária a prescrição? Quarenta dias (indica uma relação com o fluxo menstrual). As mais importantes entre as impurezas eram as procedentes de mortos e de sangue ou ejaculações como blenorragia ou simples masturbação. Logo são os alimentos. Dentre as primeiras temos a regra das mulheres, que se eram gentias não observavam os períodos de menstruação. O pus dos doentes e os esputos também entravam entre os materiais que acarretavam impurezas, de modo que, como exemplo, citamos a proibição de transitar por uma rua em que houvesse mulheres imbecis (que não entendiam a impureza de sua saliva no tempo de menstruação), samaritanas, ou pagãs. Todos os esputos na cidade serão impuros. Se considerava uma casa impura quando entrava nela um publicano, um gentil ou uma mulher (esta por causa da menstruação). Os alimentos: Sabemos como determinados alimentos eram também impuros como era a carne de porco.

RESULTADO: Os fariseus tinham razão ao criticar Jesus, pois, segundo a Mishná, era praticamente uma imoralidade semelhante trato com os gentios.

FARISEUS E GRAMÁTICOS: E resmungavam os fariseus e os escribas dizendo que este recebe pecadores e come com eles (2).

FARISEU é o nome dado a um grupo de judeus devotos da Torá, surgidos no século 2 a.C. A palavra Fariseu provém do grego pharisaioi, que é uma transliteração do aramaico perishaya que por sua vez corresponde ao hebraico perushim, provavelmente ligado ao hebraico parush que basicamente quer dizer separar, afastar, explicar, esclarecer. Assim, o nome perushim é normalmente interpretado como aqueles que se separaram do resto da população comum para se consagrar ao estudo da Torá e das suas tradições. Todavia, sua separação não envolvia um ascetismo, já que julgavam ser importante o ensino à população das escrituras e das tradições dos pais. A origem mais provável dos perushim é que tenham surgido do grupo religioso judaico chamado hassidim (os piedosos), que apoiaram a revolta dos macabeus (168 - 142 a.C.) contra Antíoco IV Epifânio, rei do Império Selêucida, que incentivou a eliminação de toda cultura não-grega através da assimilação forçada e da proibição de qualquer fé particular. Uma parte da aristocracia da época e dos círculos dos sacerdotes apoiaram as intenções de Antíoco, mas o povo em geral, sob a liderança de Yehudah Makkabi (Judas Macabeu) e sua família revoltou-se. Os judeus conseguiram vencer os exércitos helênicos e estabelecer um reino judaico independente na região entre 142 a.C.- 63 a.C., quando então foram dominados pelos romanos. Durante este período de 142 - 63 a.C., a família dos macabeus estabeleceu-se no poder e iniciou uma nova dinastia real e sacerdotal, dominando tanto o poder secular como o religioso. Isto provocou uma série de crises e divisões dentro da sociedade israelita da época, visto que pela sua origem os Macabeus (também conhecidos pelo nome de família como Asmoneus) não eram da linhagem de Davi, não podendo assim ocupar o trono de Israel, e também não eram da linhagem sacerdotal de Tzadok [ou Sadoch]. Grupos reacionários apareceram dentro da sociedade judaica, tentando restabelecer o seu prestígio e poder, ou pelo menos o que eles consideravam como certo,  segundo a Lei e tradições judaicas. Assim, foi nesta época que provavelmente apareceram:

1) Os tzadokim (saduceus), clamando ser os legítimos descendentes de Tzadok e portanto os legítimos detentores do sumo-sacerdócio e da liderança religiosa em Israel.

2) Os Perushim (fariseus), oriundos dos hassidim que, geralmente, desiludidos com a política, voltaram-se para a vida religiosa e o estudo da Torá, esperando pela vinda do Messias e do reino de Deus.

3) Os Essênios, oriundos provavelmente também dos “Hassidim” e de um grupo de sacerdotes descontentes com a situação, que se afastaram da sociedade judaica em geral e foram viver uma vida de total consagração ao Criador, na região do deserto, a fim de prepararem o caminho para a vinda do Rei Messias. Os fariseus, opositores dos saduceus, criaram uma Lei Oral, em conjunto com a Lei escrita, e foram os criadores da instituição da sinagoga. Com a destruição de Jerusalém em 70 d.C. e a queda do poder dos saduceus, cresceu sua influência dentro da comunidade judaica e se tornaram os precursores do judaísmo rabínico. Os Perushim se agrupavam em “havurot” [de havurah, derivado de habar ou havar, que significa amigo], associações religiosas que tinham os seus líderes e suas assembleias, e que tomavam juntos as suas refeições. Segundo Flávio Josefo, historiador judeu do 1º século d.C., o número de perushim na época, era de pouco mais de seis mil pessoas (Antiguidades Judaicas 17, 2, 4; § 42). Eles estavam intimamente ligados à liderança das sinagogas, ao seu culto e escolas. Eles também participavam como um grupo importante, ainda que minoritário, do Sinédrio, a suprema corte religiosa e política do Judaísmo da época. Muitos dentre os “perushim” tinham a profissão de sofer (escriba), ou seja, a pessoa responsável pela transmissão escrita dos manuscritos e da interpretação dos mesmos. Duas escolas de interpretação religiosa se desenvolveram no seio dos perushim e se tornaram famosas: a escola de Hillel e a escola de Shammai. A escola de Hillel era considerada mais “liberal” na sua interpretação da Lei, enquanto a de Shamai era mais “estrita”. O cristianismo perpetuou através da história uma visão estereotipada dos “perushim” junto aos escribas e saduceus, como os adversários de Jesus, que ataca duramente seu orgulho, sua avareza, sua hipocrisia e, sobretudo, o perigo de crer que a salvação vem da lei. No entanto, os “perushim” eram uma seita de grande influência em Israel devido ao ensino religioso e político. Aceitavam a Torá escrita e as tradições da Torá oral, na unicidade do Criador, na ressurreição dos mortos, em anjos e demônios, no julgamento futuro e na vinda do rei Messias. Eram os principais mestres nas sinagogas, o que os favoreceu como elemento de influência dentro do judaísmo após a destruição do Templo. São precursores por suas filosofias e ideias do judaísmo rabínico. Mas, em tempos de Jesus,  quem eram verdadeiramente os fariseus? Existem três tipos diferentes de fontes históricas para explicar sua origem.

1) A literatura rabínica. Os rabinos dos séculos II ao VI são considerados como sucessores dos fariseus.

2) A segunda fonte são os livros de Flávio Josefo  (37 - 100 d.C.)

3) A terceira são os livros do NT. As conclusões destes últimos escritos parecem estar em contradição com as das primeiras fontes. A conclusão final é de que sabemos menos dos fariseus do que se pensava 40 anos antes. Por isso devemos estudar alguns que a si mesmo se intitularam fariseus e não estudar o grupo como uma coletividade uniforme e monolítica. Os escritos cristãos adoecem de universalizar a todos os fariseus como sendo o grupo dos escribas e tendo como nota característica a rejeição de Jesus. Nem todos eram assim.  Existe uma crescente opinião de não considerar os sábios tanaíticos [os que redataram a Mishná, Toseftá e Midrases haláquicos] como necessariamente fariseus ou discípulos dos mesmos. Expliquemos: Mishná é a escrita da Lei oral, Toseftá são os comentários  suplementares da Mishná e Midrás é o estudo da Torá baseado na interpretação do texto escrito versículo por versículo e até letra por letra. A Halaká trata sobre a lei e preceitos e a Haggadá sobre narrações. Os materiais, logo redigidos por escrito, provém do século I a.C. até a sua escrita no século III d.C. O primeiro indivíduo histórico que podemos considerar propriamente fariseu é um tal Eleazar, figura chave da ruptura entre João Hircano (134 - 104 a.C.) e os fariseus. Durante um banquete oferecido por Hircano para os amigos fariseus só Eleazar pediu que Hircano renunciasse a exercer o Sumo Sacerdócio, por não ser descendente de Sadok. Irritado, Hircano mandou açoitá-lo, mas considerando essa pena leve demais, rompeu com os fariseus, dos quais tinha sido discípulo e se aproximou dos saduceus, seus adversários. Nos evangelhos, os dois fariseus que aparecem com nome próprio, são partidários de Jesus: Simão (Lc. 7,40 - 44) em cuja casa come Jesus. (São também fariseus outros dois hóspedes cujos nomes não são citados, talvez indicando as refeições chamadas havurot). O outro nome é o de Nicodemos que, à noite, visita Jesus (Jo 3,1 - 15) e era membro do Sinédrio (Jô. 7,50 - 52), onde defende a inocência de Jesus antes de ser condenado e que participa do enterro como discípulo (Jô. 19,39). As outras citações, até 90, em que se nomeiam os fariseus, estes últimos são citados em plural. Nos Atos, Lucas menciona dois fariseus: Paulo e seu suposto mestre Gamaliel, este citado em duas ocasiões: 5,34 e 22, 3. Ele e seu filho, Simeão ben Gamaliel, certamente são considerados como fariseus por seus conterrâneos. Gamaliel foi favorável a deixar em liberdade os discípulos de Jesus, pois se verdadeiramente procede de Deus [sua doutrina] correremos o risco de lutar contra Deus. Paulo, o segundo nome dos Atos considerado como fariseu e filho de fariseus (At. 23,6), relata em primeira mão sua filiação em Fp. 3,5 - 6. Ao dizer quanto a Lei fariseu, indica que a interpretação da mesma tinha outros intérpretes, que sabemos eram os saduceus. O próprio Paulo explica como era a interpretação da Lei pelos saduceus, ao escrever: meu excesso de zelo pelas tradições paternas (Gl. 1,14). Parece que esta era a característica da assim chamada seita: a akribeia [precisão] cuidado com a qual a lei era interpretada. No seu discurso perante os judeus amotinados contra ele no templo (At. cap 22), Paulo parece indicar que o verdadeiro fariseu não está contra a fé em Cristo. No concílio de Jerusalém encontramos um grupo de cristãos que tinha sido da seita dos fariseus e que haviam abraçado a fé (At. 15,5). Porém dos evangelhos temos uma noção não muito favorável  dos fariseus, especialmente quando unidos à classe dos escribas.

ESCRIBA: Escriba ou escrivão era a pessoa na Antiguidade que dominava a escrita e a usava para, a mando do regente, redigir as normas do povo daquela região ou de uma determinada religião. Nos livros sagrados para os cristãos e judeus, o termo escriba refere-se aos chamados doutores e mestres (cf. Mateus 22,35; Lucas 5,17), ou seja, homens especializados no estudo e na explicação da lei ou Torá. Embora o termo apareça pela primeira vez no livro de Esdras, sabe-se que tinham grande influência e eram muito considerados pelo povo, tendo existido escribas partidários de diferentes correntes, tais como os fariseus (a maioria), saduceus e essênios.  História A classe começa a atuar ainda nos tempos do Antigo Testamento, em que a figura do profeta perde o seu valor. Já no Novo testamento, é possível verificar que a maioria dos escribas se opõe aos ensinamentos de Jesus (cf. Marcos 14,1; Lucas 22,1), que os critica duramente por causa do seu proceder legalista e hipócrita (cf. Mateus 23,1 - 36; Lucas 11,45 - 52; 10,46 - 47), comparando-a à dos fariseus, pois a corrente farisaica era representava pela maioria dos escribas. Após o desaparecimento do templo de Jerusalém no ano 70, seguido do desaparecimento da figura do sacerdócio judaico, sua influência passaria a ser ainda maior. Figuras de destaque Alguns escribas ficariam famosos, tais como Hillel e Sammai (pouco antes de Jesus Cristo), tendo sido ambos, líderes de tendências opostas na interpretação da lei, liberal o primeiro e rigoroso o segundo. Gamaliel, discípulo de Hillel, foi mestre de Paulo (cf. Atos 22,3), tendo existido também outros escribas simpatizantes dos cristãos. (cf. Atos 5,34). Na condena de Jesus os que influíram não eram os fariseus como seita, mas os escribas junto com os chefes sacerdotais e os anciões que constituíam o Sinédrio de Jerusalém (Mt. 20,18 Mc. 8,31 e Lc. 9,22 com palavras do próprio Jesus). Nos oito impropérios contra os escribas e fariseus de Mateus 23,13 - 29, sempre o escriba está antes do fariseu e o motivo é precisamente sua hipocrisia , falsidade, dobrez, ou fingimento.

PECADORES: Como temos explicado em outras ocasiões, provavelmente em Lucas, é a palavra que substitui pagãos ou idólatras. Segundo a Mishná, todo contato com eles era causa de impureza, que constituía o motivo de que Javé se afastasse do homem que a contraia, como de um pesteado ou malvado indigno de convivência. Em lugares paralelos, Mateus une aos pecadores os publicanos, coisa que também faz Lucas em 5,30, em ocasião do banquete oferecido, a raiz da conversão de Levi, e a pergunta foi dirigida aos discípulos de Jesus.

A PARÁBOLA: 1ª PARTE: A DEFESA

OS DOIS FILHOS: Disse pois a eles esta parábola, contando(3): Certo homem tinha dois filhos (11). Então disse o mais novo deles ao pai: Pai, dá-me a parte do patrimônio que me corresponde. O texto evangélico passa por alto as duas parábolas da ovelha tresmalhada e da dracma perdida e se centra na parábola comumente chamada do filho pródigo. Consideramos as circunstâncias que acompanham a saída do filho menor como forma literária e não fundo alegórico, embora tenha uma base verdadeira na vida real.

CERTO HOMEM indica um latifundiário judeu abastado e os dois filhos preparam o ouvinte para a segunda parte da parábola, com a distinção entre as duas condutas, mas com a unicidade do amor do pai, que, como o pastor ou a dona da casa, procura o que estava perdido como objeto primário de sua afanosa angústia.

DIVIDIU A FORTUNA: Segundo costumes ancestrais, o pai podia dispor de seus bens de duas maneiras: Ou por testamento que seria válido na hora de sua morte, ou por meio de doação em vida. Embora esta prática fosse desaconselhada em Ecl 33,19 - 23, parece ser a mais usual na época. A herança do primogênito devia ser o duplo da soma correspondente a seus irmãos (Dt. 21,17), ou seja, dois terços da herança total. Outros falam que o filho menor nesse caso deveria receber  dois nonos do total. O filho recebia unicamente o título de propriedade, enquanto o pai retinha o usufruto dos bens até a sua morte. Se o filho vendia sua parte, o comprador só poderia tomar parte dos bens após a morte do pai, quando o filho vendedor perdia todo direito. A divisão, pois da fortuna ou bens não significa a transferência da propriedade, mas da uma parte da mesma ao filho. Por isso, no final da parábola, o pai atua como verdadeiro proprietário dando ordens aos empregados, mandando matar o melhor terneiro etc.

A FUGA: Assim, após não muitos dias, tendo reunido todas as coisas, o filho mais novo se exilou a uma região distante, e ali dissipou seus bens vivendo desregradamente (13). O  genitivo absoluto de REUNIR TODOS OS BENS significa converter os mesmos em dinheiro vivo. Temos traduzido por EXILAR-SE um verbo que pode ter o significado de emigrar especialmente quando temos que a região almejada é distante. Provavelmente um território da diáspora. Considerava-se que na diáspora havia 4 milhões de judeus e que na Palestina eram um pouco mais de 500 mil. Havia um judeu por cada seis habitantes nesse mundo que se conhece como oikoumene. A emigração era devida não tanto às oportunidades comerciais que oferecia a diáspora, pois os judeus podiam trabalhar no comércio, na banca e como artesãos e  entre os romanos só os escravos o faziam. Segundo os costumes judaicos, o mais jovem teria entre 18 e 20 anos, pois não estava casado e aquela era a idade normal do casamento.

E lá ESBANJOU SUA FORTUNA [substância segundo texto grego que o latino traduz literalmente]. A maneira de fazê-lo foi uma vida dissoluta, que geralmente é associada ao vinho, jogo e mulheres, como um crápula e da qual o irmão dirá foi dissipada com meretrizes.

A FOME: Depois, pois, dele ter esbanjado tudo, surgiu uma forte fome naquela região e ele começou a passar necessidade (14).

A FOME era uma epidemia frequente na antiguidade. Foi a causa pela qual Jacó enviasse seus filhos ao Egito em busca de provisões (Gn. cap 42). Sabemos como Herodes, o Magno, vendeu até sua vasilha de prata para obter trigo num período de fome. Como Paulo trouxe esmolas para Jerusalém para aliviar a fome dos irmãos, provavelmente nos tempos do imperador Cláudio (41 - 54) que foi testemunhada por Josefo em suas antiguidades.

CUIDADOR DE PORCOS: E tendo saído, se associou a um dos cidadãos daquela região e o enviou a seus campos apascentar porcos (15).  O caso é dos mais humilhantes: um jovem judeu, de boa família, se transformando em PORQUEIRO, cuidando de animais que eram considerados entre os mais impuros e degradantes pela Lei (Lv. 11,7). Sabemos da atitude dos sete irmãos aos quais obrigavam a tocar carne de porco ou comer da mesma como outros traduzem (1 Mc. 7,1). A atitude rabínica sobre o cuidador de porcos, está magnificamente expressa nesta imprecação: Maldito o criador de porcos e maldito quem instrui a seu filho na sabedoria grega. Além disso, não poderia santificar o sábado e estava disposto a renegar de sua religião por causa da impureza constante.

A REALIDADE: E desejava encher o seu ventre das glandes [bolotas] que comiam os porcos e ninguém dava a ele ( 16). O único alimento que tinha eram as glandes ou bolotas do carvalho, que os judeus chamavam alimento de bestas. Mas ninguém dava a ele. É um tanto irreal, ou kafkiano como dizem, pensar que ele não pudesse comer de um fruto que naturalmente cai dos carvalhos e é de livre escolha no chão inculto da floresta. É uma maneira exagerada de descrever a fome intensa do jovem da narração parabólica. Ou talvez por considerar essa alimentação de um fruto que não lhe pertencia como um roubo.

O ARREPENDIMENTO: Voltando, pois, em si disse: Quantos jornaleiros do meu pai abundam de pães, porém eu pereço de fome (17).

 VOLTAR EM SI significa em termos bíblicos arrepender-se ou fazer penitência. São duas as causas principais que o incitam ao arrependimento: a diferença entre a comida atual, e o pão abundante. E a outra é a comparação entre ele, um filho e os jornaleiros do campo que percebiam um mínimo de jornal, e não obstante estavam em condições muito melhores. Como ele depois dirá ao pai, quer ser tratado como um desses jornaleiros e não como filho.

O PROPÓSITO: Tendo-me levantado, irei a meu pai e lhe direi: Pai, pequei contra o céu e diante de ti (18). E de modo algum sou digno de ser chamado teu filho, faz-me como um de teus jornaleiros (19).

TENDO-ME LEVANTADO, em aoristo, é uma maneira de falar dos semitas, que sempre estavam sentados nas tendas e era assim que falavam e decidiam seus compromissos. A menção do céu está no lugar de Deus e as duas preposições contra e diante são mera variação literária. De fato o jovem admite seu pecado que sempre tem uma origem na desobediência feita a Deus, e sabe que causou uma grande aflição a seu pai. A frase é uma fórmula estereotipada do AT como em Êxodo 10,16 quando o faraó admite seu erro: Pequei contra Javé e contra vós. Ele tinha perdido todo direito a ser considerado como filho ao receber a herança na vida do pai e não podia pedir ajuda do mesmo. Por isso pede que seja tratado como um dos jornaleiros que trabalhavam no campo do pai. Assim devemos traduzir o faz-me [ou trata-me] como a um de teus jornaleiros.

O ENCONTRO: E tendo-se levantado, veio para seu pai; estando ele ainda longe o viu seu pai e se enterneceu (nas entranhas); e tendo corrido caiu sobre seu colo e o beijou repetidamente (20). A descrição do pai, como se adiantando ao filho antes deste pedir seu perdão, e do sentimento expressado pelo verbo que significa um sentimento profundo que comoveu intimamente seu interior, o verbo correr ao encontro do filho, o abraço antes deste pronunciar uma só palavra e o beijo repetido que seria cumular de beijos, indicam como o pai esperava o filho e estava disposto a esquecer e perdoar. São detalhes que vão além do aspecto puramente literário para descrever o fundo do amor paterno em toda sua intensidade.

A CONFISSÃO: Lhe disse o filho: Pai, pequei contra o céu e diante de ti e em modo algum sou digno de ser chamado teu filho (21). As palavras do filho são calcadas do seu propósito que vimos no parágrafo dos versículos 18 e 19.

REAÇÃO DO PAI: Disse o pai a seus escravos: Trazei a veste, a principal; vesti-o; e dai um anel na mão dele, e calçado nos seus pés(22). E, tendo trazido o terneiro engordado, matai e, comendo, regozijemos (23). A palavra que o latim traduz propriamente por servi, que na época apontava aos escravos, mas que, nas línguas vernáculas, perdeu seu primitivo significado ao confundi-lo com os servos da terra medieval, com o qual se dulcifica o verdadeiro significado. José recebe do faraó como seu grande visir um vestido novo, um anel e um colar de ouro no pescoço (Gn 41,42). A veste chamada estola era um distintivo das classes sociais altas, um vestido longo até os calcanhares, impróprio da túnica dos trabalhadores, curta até as coxas. Era a túnica talar ou estola, o vestido talar próprio dos oficiais e das mulheres, que chegava até os calcanhares, pois talares eram chamadas as asas de que estavam dotadas as sandálias de Mercúrio para melhor correr. Mercúrio era o deus grego do comércio e mensageiro dos outros deuses.  A veste que o pai pede para o filho era a estola primeira ou principal, que alguns traduzem como de festa. Hoje diríamos a melhor de todas. No oriente significa uma distinção especial. Pois não existiam condecorações. O anel não era um adorno, mas um sinal de distinção e de que pertencia a um determinado clã, e era próprio das pessoas distinguidas que com ele assinavam documentos e selavam as cartas ou missivas. E o calçado, sandálias em geral, era próprio dos senhores, pois os escravos, em cuja categoria queria ser contado o filho, andavam descalços. A morte do terneiro, com artigo determinado, indica um dia especial de festa, pois era o animal cevado, ou alimentado especialmente para o engorde, que era reservado para os grandes dias de festa,  como o casamento de um filho, ou o nascimento do primogênito. Ele era a base de um banquete especial, numa sociedade em que a carne não era alimento comum. O pai quer que todos reconheçam no jovem arrependido o filho, anterior a seus desvarios. Restitui-lhe o estado anterior,  como se nada tivesse acontecido. Mais que perdão o pai oferece uma total reabilitação, superando toda expectativa possível. A razão desta conduta a explicará imediatamente no versículo seguinte.

RAZÃO DA ALEGRIA DO PAI: Porque este, o meu filho, estava morto e reviveu; e perdido era e foi encontrado. E começaram a regozijar-se (24). Era a mesma alegria do pastor, da mulher dona-de-casa, por recobrar o que se pensava perdido; mas agora era maior, porque é a alegria do pai que pensava nunca mais volver a ver o filho, pois estava como morto para ele. Era ter um filho vivo, após pensar tê-lo perdido para sempre. E assim, sem mais demora, começaram a gozar da alegria comum. Ao banquete acompanhava a música com coros de palmas e baile dos varões presentes. Este seria o fim da parábola; mas ela tem uma segunda parte também dirigida aos espectadores, fariseus e escribas, não tanto para demonstrar por que Jesus aceitava pecadores, mas para recriminar a conduta deles como totalmente infundada e maldosa por causa da inveja.

2ª parte: A CENSURA

O FILHO MAIOR: Estava, pois, o seu filho, o  maior, no campo e, como voltasse, se aproximou da casa, escutou a música e as danças (25). Então tendo chamado um dos servos dele perguntou que seriam aquelas coisas (26). A jornada de trabalho terminava com a luz do sol, e era quando começava o jantar, a comida principal, e a hora do início dos banquetes. Estes estavam acompanhados de um coro de músicos que dançavam ao som de palmas e pandeiros com uma certa algaravia própria da exaltação sentimental dos orientais. Esta música e gritos ouviu o filho maior no meio do silêncio da entrada da noite, próprio dos tempos antigos. Estranhando, perguntou a causa de tudo isso.

A PERGUNTA: Ele então lhe disse: porque teu irmão veio, e matou teu pai o novilho cevado porque o recebeu saudável (27). O empregado, que o texto grego chama de pais, cujo significado primeiro é menino, infante, filho, e que pode ter frequentemente o significado de criado, servo, especialmente quando o serviço é dentro da casa, responde fielmente à pergunta do seu amo.

INDIGNAÇÃO DO FILHO: Enfureceu-se, portanto e não queria entrar. Por isso o pai dele saiu rogando-lhe (28). Ele, pois, tendo respondido, disse a seu pai: Eis que todos estes anos te sirvo e nunca preteri mandato teu e a mim jamais deste um cabrito para que com meus amigos me regozijasse (29). Quando, pois, este teu filho, o que há devorado teu patrimônio com meretrizes, veio, mataste para ele o novilho cevado (30). A indignação do filho o afasta do banquete, da alegria de ver de novo seu irmão e o obriga a se indispor com a conduta do pai. Ele se nega rotundamente a admitir o irmão, seja qual fosse a atitude deste último e as condições em que se encontrava atualmente. Possivelmente a herança estava no meio dos dois irmãos. O pai teve que sair da casa e lhe dizia com boas palavras, ou seja, lhe rogava. O filho dá razões de peso para demonstrar que sua indignação tinha um motivo realmente forte: Tenho te servido fielmente. E qual tem sido a resposta? Nem um cabritinho me deste para comemorar numa festinha alegre, um dia com meus amigos. E contrasta a conduta do pai com respeito a ele, com a conduta atual com a qual o pai recebe o outro filho, a quem não quer chamar de irmão [este teu filho], como se ele, o irmão correto, não tivesse sido nunca tratado como filho pelo pai. E dá uma razão negativa para ser considerado verdadeiro filho: há devorado teu patrimônio com meretrizes. A conduta do irmão era duplamente vergonhosa: dilapidar o patrimônio do pai e fazê-lo de modo vexatório: com meretrizes, sem cabeça, sem proveito nenhum, como um pervertido. O contraste entre as condutas dos irmãos é evidente. O contraste na conduta do pai para com os dois filhos é palpável. Que espera o pai dele, o filho correto, a não ser a indignação e a repulsa mais justa e mais lógica como resposta?

AS RAZÕES DO PAI: Ele então lhe disse: Filho, tu sempre estás comigo e todas as minhas coisas são tuas (31). Regozijar-se, pois e dançar convém, porque este, o teu irmão, estava morto e reviveu, e perdido estava e foi encontrado (32). O pai começa por usar um nome que indica ternura,  teknon em oposição a  huios. Este último não está unido a um afeto particular, mas indica unicamente o fruto de uma geração paternal. Já teknon é o filho querido, como descendente, como aquele que em si leva a imagem do pai, é o filho a quem se dedica amor e ternura. O pai afirma que não unicamente o bezerro cevado, mas tudo é dele, seu filho preferido. Mas nesse momento e circunstâncias existia uma poderosa razão para uma alegria extraordinária: Teu irmão estava praticamente morto, desaparecido e agora o encontramos de novo vivo e saudável. Não é isto um fato extraordinário e único para comemorarmos do modo mais alegre e festivo possível?

CONCLUSÃO: Era preciso (dei em grego), necessário. Dos três verbos em que o grego indica uma certa obrigação o dei é o mais incisivo, pois indica uma obrigação moral inevitável como quando Jesus afirma que o Filho do homem devia padecer para assim entrar na sua glória (Lc. 24,26). Era, pois, uma obrigação moral iniludível, não só admitir o filho extraviado, mas alegrar-se e recebê-lo com festa grande, porque era como quem recebesse um filho que estava praticamente morto e se salva do último transe.

REFLEXÕES

Jesus conta uma série de parábolas para indicar que sua conduta não está determinada por leis saídas de uma tradição humana (Mt. 15,6), mas pelo mais elementar procedimento que segue à lei natural das coisas. Será a ovelha ou a moeda perdidas, e agora a conduta do pai que tem dois filhos. Nos três casos Jesus entra como figura simbólica que encontra o que estava aparentemente e irremediavelmente perdido e em cuja busca se empenha até conseguir de novo o extraviado. A alegria do encontro supera as dificuldades da busca e é razão suficiente para a exultação do momento (15,32).

OS DOIS FILHOS: O motivo é porque a liberdade, o desejo de viver sem preocupações e com o máximo de desfrute é próprio dos mais novos e as despesas com os vícios de ostentação e luxúria facilmente dilapidam fortunas. Essas coisas não são objeto direto da parábola. A fome e o pastoreio dos porcos servem para destacar o infortúnio do filho rebelde. Jesus salientará a perda do filho como morto, diante do irmão e a nova vida quando encontrado de volta. A restituição do pai, que o trata como filho que nasce de novo, é o importante na parábola. Mas quem são os dois filhos e a que status correspondem eles? Pensamos não existir modelo preciso para afirmar representações específicas nas personagens da parábola. O importante era o retrato que se faz do amor do pai. Mas caso cheguemos a outras conclusões sobre a conduta dos filhos, acreditamos que o início do capítulo pode dar uma pista para a interpretação alegórica de sua identidade e suas respectivas condutas. Por isso é razoável pensar que o maior, obediente desde o nascimento e leal ao pai, é figura dos fariseus e doutores da lei. Em verdade eles eram fiéis à mesma, até nos pequenos detalhes (Mt. 23,23), introduzidos pela tradição. Homens santos que tinham dois grandes defeitos: a sua hipocrisia (Lc. 12,1) e a sua ostentação ou vaidade (Mt 6,1). O filho menor representa o idólatra, o gentio. Era rejeitado e até odiado pelo judeu ortodoxo, porque, como temos visto antes, existia entre as duas raças ou classes um muro de separação, que Jesus destruiu na cruz, acabando com esse ódio secular (Ef. 2,14 - 16). Receber o filho que chamamos pródigo, como verdadeiro, era incompreensível para quem se tinha mantido a vida inteira fiel e observante.

O PAI: Será Deus, ou será Jesus? Cremos que a parábola não pode se transformar numa alegoria em que cada personagem é uma figura simbólica de uma realidade. Por isso, mantenhamos a parábola no seu justo termo e pensemos que o pai é um pai comum que realmente ama seus filhos e sente a perda de um deles de modo a não poder resistir à alegria de encontrá-lo de novo. O pai está na mesma linha que o pastor que encontrou a ovelha desgarrada, que a mulher que achou a moeda perdida. Logicamente podemos pensar numa figura alegórica, o próprio Deus segundo aquilo que se diz: ¨Se vós que sois maus sabeis dar coisas boas aos vossos filhos, quanto mais o vosso Pai que está nos céus dará coisas boas aos que lhas pedem¨ (Mt. 7,11).

PISTAS

1) Jesus defende sua implicação com os ¨pecadores¨(gentios em particular) como parte do perdão que é acolhimento aos mesmos, oferecendo o exemplo do pai que recebe o filho perdoando-o totalmente, como se nada acontecesse ou melhor o encontro fosse com um filho bom. É um perdão sem limites, nem recriminações a uma conduta anterior por mais péssima que tivesse sido, pois é um filho que volta e merece ser amado e acolhido.

2) Jesus mostra o verdadeiro rosto de Deus, o Deus em quem devemos acreditar porque é o Pai  que Jesus amava e que nos revelou como nosso Pai. Na parábola se revela como o amor que deseja salvar o que estava perdido. Ele deixa que o filho se perca. Mas sempre espera a sua volta, para recebê-lo sem recriminar sua conduta anterior.

3) Aparentemente o pai se despreocupa do filho que o abandonou. Porém não é assim. Ele sabe esperar, pois conhece que não pode forçar uma vontade alheia, mas reforçar um arrependimento, uma conversão que brotará do íntimo de uma consciência que finalmente reconhece seu erro e detesta sua conduta anterior. É então que o acolhimento é puro amor: esse dia é festa e júbilo.

4) Perante a opinião comum que pensa que uma vida só é digna se na balança os atos positivos de bem superarem os atos de delinquência e pecados, devemos supor que uma vida é positivamente julgada por Deus quando um ato bom pode nela ser contemplado. O mal não prescreve quando o bem, um ato mesmo solitário de bondade pode desequilibrar a balança do julgamento.

5) Podemos agir de duas maneiras diferentes: Criticando o perdão, resmungando sobre a aparente superioridade do mal que nos rodeia, como faziam os fariseus, ou esperando como o pai para que alguém retorne arrependido, dispostos a acolher como Jesus fez, amando os pecadores embora entregasse sua vida em sacrifício pelo pecado.

padre Ignácio

 

Converter-se parece ser alguma coisa difícil. De fato não é fácil aceitar que estejamos errados, que tenhamos cometido alguma falta ou pecado, reconhecer que o outro tem razão; não é fácil aceitar que alguma coisa deve ser mudada em nossa vida pessoal ou que devemos nos esforçar para mudar sistemas e estruturas que impedem a realização plena do ser humano. No entanto, converter-se ao Senhor nosso Deus não é difícil, por ser Ele quem é.

Todos conhecemos a parábola do filho pródigo no Evangelho de São Lucas. São três personagens em cena: um pai e dois filhos. O filho mais novo é o filho pródigo, isto é, esbanjador. Ele pega a parte da sua herança e sai de casa. Vive uma vida desregrada e, como não tinha mais com que sobreviver, decide voltar para a casa do pai. Inventa uma frase para pedir desculpas e poder ser aceito de volta.

O filho mais velho fica em casa, é trabalhador, ajuda o pai, mas não compreende nem aceita que o pai receba de volta o irmão esbanjador. A atitude do que saiu de casa não foi boa, como não foi boa a atitude do que ficou. Nessa história somente o pai é bom. Ele é a figura de Deus. A gente se lembra do que Jesus disse um dia: "Só Deus é bom". O pai acolhe de braços abertos o filho pródigo. Nem presta atenção à frase decorada que ele tem a lhe dizer para se desculpar.

O pai também se aproxima do filho mais velho, o que ficou em casa, para ajudá-lo a se abrir, a superar a raiva e aceitar tanto o irmão mais novo quanto o pai em sua atitude de acolhida.
 Ninguém precisa ter medo de Deus. Podemos voltar a qualquer momento e a partir de qualquer situação. Nem será preciso inventar desculpas. Basta voltar, estar lá de novo diante d'Ele, que Ele nos acolherá de braços abertos, nos dará roupa nova, fará uma festa. Acolhidos em Cristo, somos uma nova criatura.

Tudo agora é novo. Jesus assumiu a nossa falta. Ele se fez pecado por nós para nos tornarmos justiça de Deus, ensina São Paulo. Podemos nos aproximar com confiança do trono da graça. Ninguém vai ter dificuldade de se encontrar com o Pai. Poderá haver alguma dificuldade no encontro com o irmão. É o irmão que precisa da nossa conversão. Quando nos convertemos a Deus, nós nos convertemos aos outros. Uma vez acolhidos, abraçados, perdoados, nossa atitude para com os outros deverá ser totalmente nova.

Os chefes do mundo, senhores da guerra e donos do dinheiro podem ser tocados por Deus no mais íntimo de suas vidas. Rezamos para que isso aconteça, como já aconteceu, que um poderoso deste mundo seja tocado pela graça de Deus e se converta aos outros. Deus, porém, age pelas causas segundas.

O testemunho cristão da liberdade diante dos bens deste mundo e da tranquilidade de um coração que repousa em Deus é o caminho normal das conversões. O ambicioso deve perceber que é possível ser feliz sem precisar de muita coisa. A Igreja está no mundo como sacramento de salvação. Seu testemunho alegre e despojado, a simplicidade de sua vida e a grandeza de seu coração tornam alegre seu testemunho que diz ao mundo: "Vejam de quanta coisa eu não preciso".

Celso Pedro da Silva

 

Sabemos que em Lucas a misericórdia ocupa um lugar central. É preciso ser misericordioso como o Pai do céu o é (6,3 - 6) e como o "bom samaritano"; assim o ouvinte deve "fazer o mesmo". No capítulo 15, depois de uma apresentação da situação que causa escândalo: "recebe os pecadores e come com eles", Jesus conta três parábolas. A idéia é a mesma nas três, ainda que na última se incorpore um elemento novo ao debate. A idéia principal é a de um objeto querido que se perde: há uma busca e o encontro. O acento recai na alegria que causa o encontro do objeto perdido, seja uma ovelha, uma moeda ou um filho. As duas primeiras, como é freqüente em Lucas, apresenta um par onde se integram um homem e uma mulher: o pastor e a mulher (lembrar o profeta e a profetiza de Lucas 2, 25-38), ou as parábolas da mostarda e do fermento em 13,18-21. A liturgia de hoje omite este "par misto" e se detém, logo na introdução, na assim chamada parábola do "filho pródigo".

Vamos comentar brevemente alguns aspectos desta passagem. Aproximam-se de Jesus, para ouvi-lo, "todos" os publicanos e pecadores. Não precisa muita imaginação para saber que se trata de uma construção artificial. "Todos" deveriam ser muita gente, porém o acento é colocado em destacar que estes grupos de rejeitados escutam da boca de Jesus uma pregação na qual não são excluídos. Muitas vezes se faz referencia, no Terceiro Evangelho, a grupos que "ouvem" a Jesus, porém é evidente que isto não basta, é necessário "colocar em prática" o que se crê (6,47 - 49; vs. 8,11 - 15; 11,28) para ser como uma casa edificada sobre a rocha e não sobre a areia. Ficar somente nas parábolas não basta, pois seria ouvir e não entender 98,10), "ficar na casca" sem ir ao fundo, diferente da "mãe e dos irmãos" que escutam a palavra e a cumprem (8,21). Porém escutar é a primeira atitude, é sinal de reconhecimento como profeta semelhante a Moisés (9,35); logo passará aos seus: quem o escuta, escuta o Filho (10,16). Ouvir é a atitude do discípulo que escolhe a melhor parte (16,29 - 31).

O rico não segue a Jesus ao ouvir suas exigências por não estar disposto a "vender tudo" (18,23). Os adversários não podem desviar-se publicamente de Jesus porque o povo o ouve atento (19,48; cfr. 20,45; 21,38). Podemos dizer, então, que "ouvir" é o primeiro passo do discipulado, e nessa etapa estão "todos os cobradores de impostos e pecadores". Por outra parte, encontramos fariseus e escribas (5,21.30; 6,7; 11,53), olhando "a partir de fora" a Jesus e procuram confrontar suas opiniões e atitudes. Os escribas, por outra parte, quando os encontramos com os sacerdotes é para conspirar contra Jesus, buscando matá-lo. São expressão do que podemos chamar a "ortodoxia" judaica, os fiéis à lei e às tradições e por isso questionem o "heterodoxo", o que não corresponde aos ditames da lei, como é o caso de "receber" os pecadores. Com freqüência em Lucas, os fariseus se escandalizam das atitudes de Jesus diante dos pecadores, e murmuram (diagong_zô). O termo tornou a aparecer em 19,7 uma única vez em Lucas e em todo o Novo Testamento, Jesus se hospeda na casa de Zaqueu e "murmuram": "foi hospedar-se na casa de um homem pecador". A acusação é que Jesus prosdéjetai: aceita favoravelmente, recebe, espera os pecadores e certamente, o que é mais grave, "come com eles".

O tema da alimentação é sumamente importante. O fato de "comer com" marca uma atitude. É a única vez que a encontramos nos evangelhos e se repete em outras partes do NT. ... Um bom judeu só poderia tomar refeição com os puros; alimentar-se com os impuros era tornar-se também impuro. Jesus toma refeição com os pecadores para expressar, de forma evidente, que não veio "chamar os justos, mas os pecadores" (5,32); é uma atitude contrária à religiosidade "tradicional", essa é a questão; Jesus quer mudar a forma de conceber o rosto de Deus, como já foi falado mais de uma vez, quer refazer o Deus da pureza pelo Deus da misericórdia; por isso sua refeição com os pecadores reflete esse Deus que recebe a pecadores e a "todos". Este marco da alimentação de Jesus revela um novo rosto de Deus que ele quer mostrar na parábola.

O movimento da parábola é simples: apresentação dos personagens, atitude do filho menor, atitude do pai diante do filho perdido, atitude do filho mais velho. Como se vê, as três primeiras cenas são paralelas às atitudes do pastor e da mulher diante do objeto perdido, a novidade vê da atitude do filho mais velho. Certamente a parábola reflete a atitude dos fariseus e escribas diante dos pecadores. Não deixa de ser interessante a linguagem da refeição na parábola, o que nos lembra o contexto: "houve fome" (v. 14), desejava comer vagens (v. 16), os empregados do pai "têm pão em abundancia" (v. 17), o pai manda "matar um novilho gordo: comamos e bebamos, vamos fazer uma festa" (v. 23), "nunca me deste um cabrito para uma festa com meus amigos", queixa-se o irmão mais velho (v. 29) e esclarece "este teu filho que gastou todos os teus bens com prostitutas". Como se vê, há um contraste entre os personagens em relação a uma mesma situação: o filho irmão menor. Como em outras parábolas de dois personagens, talvez o título deveria refletir estas duas atitudes mais que remeter ao "filho pródigo".

Por outra parte, ocupa-se em mostrar a queda profunda do filho mais novo com uma série de elementos muito críticos para qualquer judeu: "país distante", "vida libertina/prostitutas", "passar necessidade", "cuidar de porcos", não lhe dão sequer vagens para se alimentar, que é comida preferencialmente de animais (deveria roubá-las?), a ponto de pretender voltar "a seu pai" como um assalariado. É preciso prestar atenção em palavras como "não mereço" (vv. 19.21) e "é bom/convém" (v. 32). Descobrindo sua miséria, o filho parte "de seu pai" (não diz de sua casa, ainda que se suponha "pros" (vv. 18.20), o filho mais velho é quem não entra "em casa" (v. 25). O movimento de partida e regresso do filho é semelhante ao perder-encontrar e mais ainda à morte-ressurreição, com este paralelismo termina a intervenção do pai que volta a repetir-se ao intervir junto ao filho mais velho. O filho mais novo preparou um discurso, porém o pai não lhe permite terminá-lo. O pai transborda em generosidade e iniciativa: não somente corre ao encontro do filho ao vê-lo ao longe, mas lhe devolve a filiação que havia "perdido": isso significa o anel (selo), as sandálias, e a melhor veste, tratamento digno de um hóspede de honra. A alegria do pai fica refletida ainda, na festa por "este meu filho".

O irmão mais velho, que retorna depois de cumprir com suas responsabilidades de filho, não quer ingressar na casa e participar da festa. Novamente o pai sai ao encontro do filho e aí escuta a reprovação. O filho mais velho se recusa a reconhecê-lo como irmão ("esse teu filho"), ao que o pai lhe recorda ("este teu irmão"). O pai não lhe nega a razão pelo fato de o filho mais velho "jamais ter desobedecido a uma ordem"; é um "sempre fiel", alguém que "está sempre com o pai" e tudo que é seu lhe pertence, porém o pai quer ir mais além da dinâmica da justiça: o filho mais novo "não merece", porém "é bom" festejar. A misericórdia supõe adiantar-se em relação aos outros. Os pecadores, por serem tais, não merecem, porém o amor é sempre gratuito e vai mais além dos merecimentos, olha o caído. Os fariseus e escribas são modelos de grupos "sempre fiéis", porém, sua negativa em receber os irmãos que "estavam mortos" e voltam à vida, pode deixá-los do lado de fora da casa e da festa. Os mais velhos também podem sair de casa, se não imitam a atitude do pai, ou podem ingressar e festejar se são capazes de receber os pecadores e comer com eles.

Em nossa vida cristã, costumamos transitar entre caricaturas de Deus; seja pelo que acreditamos, pelo que mostramos ou por aquilo que nos ensinaram. Seja um Deus bonachão, um vingador que a uma falha nossa nos castiga, um distraído ou esquecido das coisas dos humanos aos quais criou "faz tanto tempo", um "pai" autoritário e caprichoso que decide arbitrariamente e não permite discussões na realização de sua vontade. Como é nosso Deus? É importante saber como é o Deus no qual acreditamos, porém mais importante é saber como é o Deus no qual Jesus acreditou e como é o Deus que ele nos revelou. Como sempre, Jesus nos fala de Deus, não somente com palavras, mas também com o agir. Agindo, Jesus nos mostra a verdadeira face de Deus Pai. Hoje Jesus nos conta uma parábola, que nos fala de Deus. É uma parábola que nasce de uma atitude de Jesus. Ela quer nos ensinar que, diante dos irmãos desprezados, podemos agir de duas maneiras diferentes: como Deus, que é também uma obra de Jesus, ou também como os judeus religiosos, os "separados" do resto, os puros. O pecado é o amor-não-praticado e por isso nos distancia de Deus, que é amor; separa-nos da casa paterna. Porém, com seu amor, que continua sendo derramado, e de um modo preferencial pelos pecadores, Deus continua estendendo constantemente sua mão amiga, à espera da volta de seus filhos. Nós, com nossa freqüente caricaturização de Deus, costumamos rejeitar, julgar e condenar os considerados pecadores. Nós, como Jesus, com nossas atitudes também mostramos o Deus no qual acreditamos; porém, diferentemente de Jesus, também mostramos um Deus que em nada se assemelha ao Eterno Buscador de Filhos Perdidos.

O Jesus que ama e prefere os pecadores, e come com eles, não faz outra coisa que conhecer a vontade do Pai e realizá-la concretamente: partilhada sua mesa, seu alimento nos fala claramente de Deus! No comportamento de Jesus se manifesta o comportamento de Deus. Jesus mesmo é parábola vivente de Deus: sua ação se transforma assim em uma revelação. Que Deus, que Igreja, que ser humano revelamos com nossa vida? Com freqüência, como irmãos mais velhos, nos sentimos tão orgulhosos de não ter abandonado a casa do pai, que acreditamos saber mais que o próprio Deus: Deus se torna "injusto" diante da nossa "justiça"; Deus é "de pouco caráter" para nossa imensa sabedoria. Quem sabe, Deus já esteja velho, para dedicar-se à sua tarefa e deveria aposentar-se e deixar-nos.

Diante de tanta gente que rejeita a Igreja ("creio em Deus, mas não na Igreja"); às vezes admitimos: "Deus sim quer a Igreja". É o caso de nos questionar: que Igreja é a que ele quer? Nós mostramos, com nossas atitudes, em que Igreja acreditamos. Esta Igreja, a que eu, você, nós mostramos é a Igreja que Deus quer? Jesus, com sua vida, e até na forma de se alimentar, mostra o verdadeiro rosto de Deis. Talvez devamos, de uma vez por todas assumir nosso papel: deixar nossa atitude de filho mais velho e, já que é tão difícil fazer o papel de Deus, deveríamos assumir o papel de filho mais novo; é hora de voltar para Deus, para enchê-lo de alegria, para participar de sua festa; e, participando de sua alegria comecemos a mostrar o rosto misericordioso deste Deus que está sempre de braços abertos para nos acolher. A mesma cena eucarística é expressão da universalidade do amor de Deus: é alimento para o perdão dos pecados.

O Deus da misericórdia não ninguém excluído de sua mesa, da mesa da vida; mais ainda, quer convidar especialmente a todos aqueles que são excluídos das mesas dos homens por sua situação social, por sua pobreza, por seu sexo ou por qualquer outro motivo; e vai mais longe, não vê com bons olhos os que acreditam participar de sua mesa, mas excluem de sua mesa os seus irmãos por serem pobres. O Deus que não faz distinção de pessoas, ama diletamente os menos amados. Contudo, muitas vezes tomamos a atitude do irmão mais velho. Quando é que vamos sentar à mesa dos pobres e abandonar nossa tradicional postura de soberba e divisão de "bons cristãos"? Quando é que vamos participar da festa de Deus reconhecendo como irmãos os rejeitados e desprezados? Jesus nos convida à sua mesa, uma mesa na qual mostramos, como em uma parábola, como é o Deus, como é a fraternidade nos quais acreditamos. E vamos mostrar que somos irmãos, que somos filhos, na medida da nossa participação da alegria do pai e do reencontro com os irmãos.

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O pai correu-lhe ao encontro, abraçou-o e cobriu-o de beijos

Chegamos ao IV domingo da Quaresma. Hoje, a liturgia nos indica um dos textos mais belos e mais comentados de todo o Evangelho de Lucas, a saber, o capítulo 15 da obra lucana que narra três parábolas sobre a ilimitada misericórdia de Deus. A parábola do texto de hoje (Lc. 15,1 - 3.11 - 32), mais conhecida como a “parábola do filho pródigo”, será chamada neste comentário de “parábola do pai e de seus dois filhos” visto que veremos que tal título engloba de uma só vez as atitudes das três personagens que juntas nos dão a mensagem completa do trecho evangélico.

Antes de tudo, para compreendermos bem o significado da parábola, é necessário levar em consideração os três primeiros versículos do capítulo (Lc. 15,1 - 3), já que projetam o sentido das três parábolas que se seguem. Assim, sabemos que Lucas quer sublinhar desde o início que Jesus conta estas três parábolas para que os ouvintes (fariseus e mestres da lei) se convençam, de uma vez por todas, que Deus tem um coração transbordante de amor para quem quer que erre, que está sempre pronto a se reconciliar com o ser humano, mesmo quando este aprontou de tudo, e mesmo quando este reconhece, com grande atraso, ter falhado.

Deus é apresentado como um pai que tem um coração maior que o espaço, disposto a acolher e a perdoar com um amor inacreditável, impensável. Por isso, Jesus aparece um pouco indignado e enraivecido com aquele tipo de pessoa que seguindo a linha dos escribas e fariseus, falam sempre de justiça, mas nunca de caridade; falam sempre de punição, mas nunca de perdão; para os que pretendem viver num mundo onde não há espaço para quem erra, enquanto aos olhos do Pai celestial estes presumidos santos não têm misericórdia, perdão, piedade, compaixão. Como deixa bem claro Mateus: “Não são os sãos que precisam de médico, mas os doentes. Portanto, ide e aprendei o que significa “eu quero misericórdia e não sacrifício. Não vim chamar os justos, mas os pecadores” (Mt. 9,12 - 13).

Mas, falando diretamente da terceira parábola (15,11 - 32), a do pai e dos seus dois filhos, podemos dizer que a sua estrutura segue o mesmo movimento das duas parábolas anteriores (15,4 - 10): perca de uma coisa querida (ovelha, moeda, filho), sua busca, o seu re-encontro e a alegria que emerge imediatamente deste re-encontro.

Com relação à figura do filho mais jovem, em torno de quem gira todo o relato e que nos oferece dados para também compreendermos a atitude tanto do pai quanto a do filho mais velho, podemos resumir no seguinte: o filho mais novo cansado de viver sob a custódia do pai, quer ser independente, vivendo um estilo de vida em que só ele é o responsável; e, por isso, se afasta, se entrega aos prazeres e a devassidão, terminando na maior miséria, sem tem o que comer, sem dignidade.

Este filho, completamente independente de qualquer figura superior, representa o pecador, quando não considera a sua relação com o Pai e se afasta dele, vivendo uma vida irresponsável. É a grande ilusão do querer se desligar de nossa própria origem, de poder tomar decisões sem vínculos e sem condicionamentos, pois esta vida “livre” torna-se uma vida humilhante. O jovem alegre se torna escravo do dono dos porcos. Pior, ele chega a desejar a comida dos porcos, humilhação total para um judeu que considera o porco um animal impuro e o pior de tudo, o patrão lhe nega a comida destinada aos porcos. Diante desta situação tão dramática, o único pensamento que lhe dava ânimo era a saudade da casa paterna, onde tinha de tudo, o afeto do pai e o alimento. Por isso, este filho começa a rever suas ideias. Ele não procura justificar seu comportamento passado, nem se desespera com a situação presente. Tem humildade, coragem e confiança de reconhecer que o próprio caminho está errado e decide voltar para o pai. Está pronto para confessar a sua própria culpa. Não pretende nem mesmo ser tratado como um filho, mas como um servo qualquer do seu pai. Este filho representa todos os pecadores, do ladrão arrependido na cruz a cada um de nós.

Agora, entra a figura do pai. Este é nomeado 14 vezes no texto e é a luz que ilumina e dá sentido a cada mínimo particular da parábola, seja ligado ao filho mais novo ou ao mais velho. Mas afinal, o que tem esse pai de tão grandioso para suscitar uma atenção especial por Lucas? É o seu amor imenso, extraordinário, inefável. O amor de Deus para com os pecadores, chega a uma de suas expressões mais altas e tocantes no comportamento do pai para com este filho mais jovem. Um outro pai, talvez reagiria de modo diferente, gritaria, alegaria; este pai não intimida, não inibe nem é violento. Cala-se. Respeita a liberdade de seu filho, mesmo se essa liberdade expõe seu filho amado a tantos perigos imprevisíveis.

Podemos dizer que tudo começa pela espera ansiosa com a volta de seu filho caçula; comovido, corre-lhe ao seu encontro, abraça-o, e o cobre de beijos, perdoa-o, trata-o muito bem, quer fazer uma grande festa para reintegrar seu ser de filho, e lhe comunica através de todo seu afeto, o desejo de que ele volte à vida. O pai é um pai do coração, ele não deixa se levar pala voz da razão, do raciocínio, do cérebro, mas pela voz do coração (Cf. Gn 33,4 e Gn 46,29).

Um momento ulterior em que se vê o enorme afeto do pai pelo filho pródigo nos dá o v.22: evoca o tratamento que o faraó reserva para José em Gn 41,42. Para os antigos, o anel no dedo era sinal de autoridade e de poder em relação a terceiros. O uso das sandálias era uma prerrogativa exclusiva das pessoas livres, só os escravos andavam descalços. Assim, o pai quer dizer que o filho tornou a ser, unido a ele, o chefe da casa; e um indivíduo que não vai servir, não escravo, mas livre.

Outros dados marcantes na atitude do pai são os seguintes: novilho gordo para festejar. O pai não se contenta em apenas acolher o filho, é preciso fazer uma grande festa. Festa essa que também foi citada nas parábolas precedentes, a da ovelha e da moeda perdida. Aqui, há porém um progresso; o pai ordena para prepararem a festa, a festa se celebra realmente, e o pai especifica que era necessário acontecer a festa.

O filho mais velho representa aqueles que permanecem fiéis ao pai e aderem aos seus mandamentos. À primeira vista, aparece como sempre próximo do pai, mas tudo não passa de aparências. Este filho se recusa a participar da alegria do pai. Chama-o de “tu”, cheio de desprezo e frieza, indignado com o comportamento do pai e se sente prejudicado. Contrariamente ao pai, este filho olha só pra o passado. Vê somente o pecado do outro, mas não consegue enxergar quem é o outro. É totalmente indiferente ao fato de que o outro é seu irmão e que tenha voltado pra casa. Também este filho precisa rever seu ponto-de-vista. Enfim, só usa palavras duras, e impiedosas com seu pai, chegando até a mentir: “nunca me deste um cabrito para festejar com meus amigos”. E o pai o desmente: “Filho, tudo o que é meu é teu”. Este filho é cego pelo egoísmo e só pensa em si. Fica com raiva e não entra em casa. Além de insensível, é invejoso e portanto, um ótimo representante dos escribas e fariseus que tinham manifestado a sua reprovação e toda a sua raiva diante dos atos misericordiosos de Jesus com relação aos pecadores.

E aí? Será que pensamos que somos filhos de Deus porque não fazemos “nada de mau”? Ou porque sempre vamos à missa? Ou porque não somos como os outros... mas sentimos o peso de ser “bons cristãos”. Será que somos capazes de nos alegrarmos com o Pai e de abraçar o filho que retorna? Será que ajudamos o Pai nessa incansável busca pelo filho perdido? Vamos para a festa do filho mais novo ou não?

Em seu famosíssimo livro, inspirado na obra “A volta do filho pródigo” do pintor Rembrandt, o padre holandês Henri Nouwen, afirma com muita convicção: “Fui tão profundamente tocado por essa imagem do abraço de dar a vida entre pai e filho porque tudo em mim ansiava ser recebido do mesmo modo que o Filho pródigo foi recebido. Esse encontro passou a ser o começo da minha volta”. Depois, ele se dá conta que nesta imagem, “há reconciliação, mas também há raiva. Há comunhão, mas também distanciamento. Há o brilho cálido da cura, mas também a frieza do olho crítico; há a oferenda da misericórdia, mas também enorme resistência para recebê-la. Não demorou para que eu descobrisse o filho mais velho em mim”.

Poucas vezes, nos sentimos o filho mais novo, e como é bom desfrutar a misericórdia do Pai. Mas, muitas vezes, agimos como o verdadeiro filho mais velho, e temos o exemplo do filho mais novo para termos a humildade em admitirmos que estamos errados e coragem para mudarmos e sermos misericordiosos para com nossos irmãos e irmãs e inclusive para conosco.

 

O quarto domingo da Quaresma é conhecido como Laetare, dia da alegria no meio da penitência, o dia das rosas, onde os cristãos antigos presenteavam-se com as primeiras rosas da primavera.

No Evangelho de hoje os fariseus e mestres da Lei não entendem o conceito e os princípios que regem os ensinamentos de Jesus e por isso criticam suas atitudes com os pobres, pagãos e cobradores de impostos.

Jesus responde a eles com três parábolas: “A ovelha perdida” a partir da realidade do homem, “A moeda perdida” a partir da realidade da mulher e “O filho pródigo”, onde Ele fala não somente do filho que se perdeu, mas do também do filho mais velho que tem dificuldades em aceitá-lo de volta.

A parábola do filho pródigo que Jesus lhes conta é muito conhecida pelos cristãos porque trás a mensagem do amor e do verdadeiro perdão do Pai. Seu foco é a misericórdia de Deus para com os seus filhos que erram e se arrependem. Para os hebreus o filho que abandona o pai está abaixo até dos porcos que têm acesso a alimentação, e ele não. O filho mais novo abandonou sua família, levou seus bens de herança antecipadamente e sua volta era improvável. Ele perde tudo, se arrepende porque está sofrendo, volta pelo mesmo caminho que foi embora e este fato mostra a verdadeira conversão, porque vem ao encontro da fonte primeira de vida que é o Amor. Seu irmão reage como os fariseus e, opostamente ao amor do pai, sente-se traído, não entende a psicologia e a reação da acolhida do filho que havia abandonado o pai e desperdiçado seus bens. O orgulho e o ressentimento não permitem a aceitação da volta do irmão.Mas o pai ama seus filhos igualmente e vai ao encontro dos dois. Ele está feliz com a volta daquele que ele considerava perdido, pois é mais importante ele estar vivo do que qualquer erro ometido, pois agora estava arrependido, assim também como vai amorosamente ao encontro do filho mais velho chamando-o para participar da reunião familiar. Nesta atitude alegre do Pai se encontra o verdadeiro Amor e a necessária misericórdia para a vida dos cristãos. Jesus quer mostrar o nova relação que Deus deseja ter com os homens, uma relação do arrependimento do pecador com a Sua misericórdia.

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O árduo caminho do Êxodo

A liturgia deste domingo quaresmal é uma releitura do Êxodo. Os textos sugerem esta compreensão. Começando com a primeira leitura, do livro de Josué (5,9a.10 - 12), o autor relembra ao povo o que fez Javé:

Hoje tirei de vós o opróbrio do Egito (v.9a).

Esta é uma chave importante em que toda a Liturgia se enquadra perfeitamente. Trata-se da passagem de uma condição (de opressão e de penúria) para outra condição (de liberto e de fartura). O que vem depois da passagem citada é a celebração pascal e o banquete dos frutos da terra prometida.

O salmo responsorial 33 faz uma harmoniosa dobradiça com o Evangelho que será anunciado neste dia: Procurei a Javé e ele me atendeu, e dos meus temores todos me livrou...vosso rosto não ficará envergonhado. Este pobre gritou e Javé ouviu, salvando-o de suas angústias todas. (Sl. 33/34, v.5 - 7).

É um canto de reconhecimento a  Javé que livra dos perigos e acolhe os perseguidos. Na inscrição deste Salmo está dito que foi composto por Davi quando fingiu-se de louco diante de Abimelec, fez-se perseguir por ele e foi embora. Posto na Liturgia, dá um tom de libertação e de acolhimento. Um povo inteiro, representado por Davi, é socorrido por Deus e chamado a uma nova maneira de viver sustentado pelo seu amor:

Provai e vede como Javé é bom, feliz de quem tem nele o seu refúgio (v. 9). Javé resgata a vida dos seus servos, os que nele se abrigam jamais serão castigados (v. 23).

O Evangelho (Lc. 15,1 - 3. 11 - 32), comumente chamado do Filho Pródigo, que de pródigo nada tem, pois gasta o que é de seu pai e não do que é seu, destaca  três personagens que falam a seu modo da mesma coisa: da misericórdia do Pai do Céu.

Começando do filho mais novo, representativo de um fato bem insólito: pede o que é seu ao pai, como a dizer que o pai está por morrer, em outras palavras, desejando a morte do pai. Não era costume dar parte dos bens aos filhos sem que o doador estivesse pra morrer. E ainda menos ao mais novo. Vai longe com o que recebe do pai que não resiste ao pedido. Desperdiça tudo numa vida desenfreada, sem o texto detalhar em que. Perde tudo e vai para onde um judeu jamais pensaria ou desejaria: para o meio dos porcos. Cai em si e a primeira referência no momento da dor é o pai. Uma memória que só vem na dor. Daí, a decisão de voltar. Ensaia um discurso de satisfação frente ao pai. E parte. Cair em si e partir é atitude exodal. Sem medir a travessia do deserto, vai confiante. Quer apenas um espaço de empregado na casa do pai. É seu ponto de vista. Seria este o ponto de vista do pai? É o que Lucas desenvolve a seguir.

O pai vê ao longe. Pois já vivia atento ao menor sinal, é o que a parábola sugere. E toma a atitude que pede seu coração: parte correndo ao encontro do filho. Este ensaia a confissão preparada. Consegue pronunciá-la pela metade. A outra parte é abafada em beijo e abraço do pai. É acobertada pela túnica que ordena vestir-lhe. Calça-lhe sandálias nos pés e orna-o com um anel no dedo. Sinais não-verbais de acolhimento. A festa em seguida, ao sabor de novilho gordo e de músicas, faz ressoar os sentimentos do coração do pai em explosão de alegria pela volta do amado.

Do ponto de vista do pai, tudo está terminado em bem. O reencontro é uma volta à vida de quem estava perdido e morto. É o modo de ser do nosso Deus que Jesus anuncia em toda a sua vida e contradiz a lógica das pessoas tidas por piedosas e fiéis que nunca experimentaram um afastamento tão radical de Deus e portanto nada sabem de sua misericórdia. Dão-se por isto ao direito de julgar. Um Deus assim, só Jesus poderia anunciar.

Agora chega a vez do filho mais velho. Vem das obrigações diárias. Vem do serviço, do trabalho penoso do campo. Parece ficar surpreso com o som das músicas e das danças. Sabendo do motivo, ficou indignado e não queria entrar. Entra em cena o pai suplicante, que entrasse. A resposta é categórica, um misto de reivindicação, queixa, superioridade, revolta e julgamento. O irmão agora é apenas filho do pai. Um discurso de amargurada servidão : faz tanto tempo que sou teu escravo (doúlos). Um discurso bem conhecido na boca de quem ocupa espaços privilegiados: exclui os pródigos.

Nesta Quaresma, convidados a repensar com qual dos três personagens nos identificamos, no momento de ter misericórdia. Vale a pergunta em nível pessoal e eclesial, no nível econômico no sistema que nos é imposto, no nível social como povo novo. Onde cabem os que tudo perderam? Acolhemos ou julgamos? Aceitamos fazer o nosso êxodo, de um sistema que exclui para outro que inclui as massas empobrecidas?

João Batista Magalhães Sales