4º DOMINGO DE PÁSCOA

ano C

 

A primeira leitura nos apresenta hoje Paulo e Barnabé em todo o seu apogeu evangelizador. Nela se pode comprovar o processo que vai percorrendo a expansão do Evangelho. Por uma parte, o espaço físico da proclamação da Boa Nova é a sinagoga judaica; o meio é a escritura antiga; a partir desses espaços as promessas são proclamadas e confirmadas com o anúncio da morte e ressurreição de Jesus. Isto quer dizer que os destinatários originais são os israelitas; assim o formula Paulo e o corroboram os demais apóstolos. Há, certamente, acolhida da nova mensagem por parte de muitos, porém também há rejeição até violenta à pregação de Paulo e, antes dele, à pregação de Pedro e dos demais. A rejeição oficial não fica somente em não aceitar a mensagem, mas inclui também a expulsão da sinagoga e as ameaças a quem, sendo judeu, se havia convertido ao novo caminho e pretende participar, por qualquer circunstancia, a sinagoga. Tudo isto serve para oferecer-nos uma idéia das dificuldades que o anúncio do Evangelho teve de enfrentar em suas origens, e a forma como Paulo, chamado com tanta razão “o apóstolo dos gentios”, vai abrindo caminho para que o evangelho de Jesus seja anunciado e conhecido por todo o mundo, sem importar fronteiras, raças ou classes sociais.

Este é outro dos efeitos da ressurreição de Jesus: o conhecimento, por parte de todos os seres humanos, da Boa Notícia do amor de Deus, que em Jesus resgatou toda a humanidade e colocou sob o amparo e a orientação de um só Pai de todos, o Pai de Jesus.

Em consonância com isto, a visão apocalíptica que João descreve na segunda leitura não se limita a um simples sonho nacionalista judeu. A intenção é fazer conhecer a nova idéia de Deus que Jesus revela no Novo Testamento: seu Pai é o Deus Pai de todos os homens e mulheres, sem exceção alguma. Todos são recebidos na nova realidade instaurada pelo Cordeiro, já que nele foram superadas todas as fronteiras construídas pelos humanos para viver separados e divididos. Já não haverá divisão nem rejeição, porque em Jesus Cristo todos fomos recebidos como irmãos. O Cordeiro imolado será o pastor que conduzirá todos os eleitos para as fontes de água viva – vindos de todas as nações – porque assimilaram o projeto do Pai; e aí será onde Deus enxugará suas lágrimas (Ap 7, 17).

Cristo assume as duas funções: a de vítima que se imola e a de Pastor. De forma congruente, o evangelho nos propõe o relato de João no qual Jesus se apresenta como o pastor que cuida de suas ovelhas. Ele anunciou sua missão como o pastor que não somente cuida das ovelhas de seu aprisco, mas também as de outros redis, os não-judaicos (cf Jo 10,16). Jesus é o Pastor universal, que chama inclusive os que não pertencem ao judaísmo para que venham a formar parte do rebanho escatológico, o dos que assumem como ele a esperança do reino de Deus.

A figura mais terna que Jesus adota como pastor é a do que busca a ovelha desgarrada, a perdida, e quando a encontra se alegra, recolhe-a e a leva de volta ao aprisco (cf Lc 15,2-7). Essa sua alegria faz com que homens e mulheres de boa vontade acolham e assumam o seu projeto de vida eterna. Jesus se identifica de forma diametral dos pastores mercenários que ao verem o perigo, simplesmente fogem, abandonando o redil e deixando as ovelhas a mercê de sua própria sorte.

O evangelho reforça também esse efeito tão importante da ressurreição de Jesus que é a paternidade universal de Deus. Os que estavam com Jesus e que o haviam visto agir, são os primeiros chamados a pertencer ao reino que ele proclama e, ao mesmo tempo, estão no dever moral de anunciá-lo aos outros. Esses são os que, diz Jesus, “o pai me deu”; os que entenderam sua proposta e o seguem. Em tal seguimento, não há equívoco nem extravio, porque justamente a palavra de Jesus – que é a palavra do Pai – é o caminho seguro por onde o homem pode alcançar sua máxima plenitude.

Cristo faz um chamado a todos, como supremo Pastor, para que compreendam que ele propõe é essência, uma realidade de unidade e de irmandade que não é possível destruir, já que como a for;a do Espírito podemos todos os batizados transparecer Jesus ressuscitado e ser no mundo instrumento de paz e de unidade. Haverá assim, finalmente, “um só rebanho e um só pastor” (Jo 10,16).

A homilia deste domingo pode ser orientada por algumas dessas opções:

a) Os pastores da Igreja. Nela sempre houve um papel de direção e ou de organização; todos os que exercem algum “ministério” (serviço) são, de alguma forma, “pastores” dos demais. Essa atividade “pastoral”, logicamente, deve tomar como exemplo as características do “bom pastor” Jesus: que não se serve das ovelhas, mas que dá a vida por elas. Basta salientar todas essas características. Este tema pode prolongar-se – se for oportuno – no tema dos ministérios da Igreja: seu estado atual, a possibilidade de mudança, a necessidade de encontrar novas formas, a crise de algumas formas atuais, etc.

b) As vocações ao ministério pastoral. Em muitos países celebra-se a “Jornada mundial de oração pelas vocações”, o que é muito bom, contanto que não se dê a impressão de que as vocações são somente as sacerdotais e à vida religiosa, e se esclareça que “todos temos vocação” e que “todas as vocações são importantes”, também a laical (e muito), e que “para cada um, a melhor vocação é a sua”. Além disso, a pastoral não deve ser identificada como atividade sacerdotal apenas: todos somos chamados a ser “pastores” de outros.

c) Jesus, “o” bom pastor e o pastor universal. De fato, no evangelho de João o tema não é a bondade do pastor Jesus, mas sua veracidade diante de outros “pastores” ou mediadores divinos, que seriam falsos... Algo assim como a “unicidade” de Jesus como salvador. Jesus é o “único pastor de nossas almas”? Não há outro nome no qual possamos ser salvos? (At 4,12). É o tema do pluralismo religioso, e a releitura do cristianismo todo que essa nova visão teológica exige. Não é um tema para qualquer auditório, mas um tema que deveria estar presente na mente de todo o que fala ao povo sobre o bom Pastor Jesus, ainda que não toque no tema explicitamente. A simplicidade e a singeleza não significa dizer muitas coisas que incertas, que já não devemos mais abordar. Quando possível é bom abrir a visão de nossos irmãos e irmãs a respeito da presença e ação salvadora de Deus, para mais além da interpretação estreita de “um só rebanho e um só pastor”.

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O simbolismo do pastor guia do rebanho exprime ideia de autoridade e companheirismo. A autoridade fundamenta-se numa relação afetiva. Há um conhecimento mútuo. É baseando-se nesses aspectos cotidianos da vida pastoril que a Bíblia destaca, primeiramente, Deus como pastor de Israel e, depois, Jesus como pastor de todos os seres humanos.

Evangelho (Jo 10,27-30): Ninguém tira minhas ovelhas do meu rebanho

Neste 4º domingo da Páscoa vemos novamente a temática do pastor e das ovelhas. Jesus é o verdadeiro pastor. Ele conhece as suas ovelhas. Estas escutam sua voz e o seguem. O seguimento só é possível para quem reconhece a voz do Ressuscitado. Os que seguem o Ressuscitado têm a “vida em seu nome”, receberão a vida eterna. Não perecerão, conforme Jesus afirmou no discurso da despedida (Jo 13,12-15).

As ovelhas não podem ser arrebatadas da mão de Jesus porque foi o próprio Pai que lhas deu. E as obras do Filho revelam a vontade do Pai, porque eles constituem uma unidade. É tal unidade a fonte da força de Jesus. E essa força é transmitida aos que recebem a sua vida. Por isso o mundo não pode arrebatar aqueles que são de Jesus.

1º leitura (At 13,14.43-52): Os gentios são as novas ovelhas no aprisco

Uma grande multidão se reuniu para ouvir a palavra de Deus (v. 44). O texto afirma que, vendo a multidão, os adversários de Paulo ficaram cheios de inveja e, insultando-o, se opuseram ao que ele dizia. A menção desse acontecimento tem como objetivo chegar à declaração de que o evangelho foi anunciado primeiro aos judeus; entretanto, já que eles o recusaram, a boa-nova foi levada aos gentios.

A decisão de proclamar o evangelho entre os gentios fundamenta-se numa ordem do Senhor (At 13,47; Is 42,6; 49,6). A resolução de voltar-se para eles propiciou-lhes grande alegria (v. 48). Contudo, os adversários de Paulo não ficaram passivos: valeram-se da simpatia de algumas mulheres de alta posição social, que induziram os magistrados da cidade a expulsar Paulo e Barnabé.

Ao saírem da cidade, os apóstolos realizaram o gesto simbólico de sacudir a poeira dos pés. Antigamente, esse gesto era realizado pelos judeus quando vinham de outras nações para Israel. Como os gentios eram considerados impuros, os judeus, ao entrarem na Terra Santa, sacudiam a poeira das terras estrangeiras que traziam nas sandálias. Ao realizar esse gesto contra os judeus que o perseguiam, Paulo mostrou o contrário, não é a nacionalidade que torna alguém puro ou impuro. Nesse caso a impureza está nos sentimentos invejosos, nas blasfêmias e atitudes dos opositores de Paulo, o que é demonstrado, com o gesto de sacudir as poeira dos pés contra eles.

2º leitura (Ap 7,9.14b-17)

Diante do Cordeiro-pastor há uma multidão vinda de todas as nações

João viu uma multidão incontável, de todas as etnias, diante do trono do Cordeiro. As palmas que traziam nas mãos evocam as que eram usadas na liturgia judaica da festa das Tendas (Lv 23,40) para louvar o Deus de Israel.

As vestes brancas, alvejadas no sangue do Cordeiro (v. 14), significam que os mártires permaneceram puros, não se deixaram contaminar, seja pela idolatria, seja pela apostasia, e por isso sofreram a morte. Por causa de sua fidelidade, agora estão diante do trono do Cordeiro vitorioso, realizando uma liturgia celeste.

Eles nunca mais terão fome, porque lhes foi dado o fruto da árvore da vida. Não sentirão mais sede, pois o Cordeiro-pastor os conduz às fontes de água viva (Ap 7,17; 21,6; Sl 23,1). Nunca serão queimados pelo sol (Is 49,10), porque o sol é o Cordeiro (Ap 21,23; 22,5). Todas essas imagens, em seu conjunto, significam que a perseguição e os sofrimentos não têm a última palavra, não são a realidade última do ser humano.

“Deus enxugará toda lágrima” (Ap 7,17; 21,4; Is 25,8). Essa seção do Apocalipse pode ser vista como uma resposta à oração sacerdotal de Jesus em Jo 17,21, quando orou para que seus discípulos estivessem com ele e vissem sua glória.

PISTAS PARA REFLEXÃO

Pedir à comunidade que ore pelas pessoas que têm derramado muitas lágrimas e seja sensível a elas. Talvez haja pessoas aflitas e atribuladas na comunidade e ninguém toma conhecimento disso. Os discípulos de Jesus têm de estar atentos ao outro. Têm de ir ao “próximo” e lhe dar a garantia de que Deus é solidário com os que estão sob muitas aflições. Insistir que não há ninguém fora do amor de Deus e por isso deve ser evitado qualquer preconceito.

Aíla Luzia Pinheiro Andrade, nj

 

O IV domingo de Páscoa é o domingo do “Bom Pastor”. Depois de ter contemplado três domingos seguidos pelas aparições do ressuscitado, hoje somos chamados a entrar no mistério do Cordeiro imolado que é antes de tudo Pastor. No domingo passado, Jesus convidava Pedro a apascentar o rebanho. O Evangelho de hoje é muito curto, somente quatro versículos, o contexto é aquele da festa da Dedicação do templo de Jerusalém, festa que celebrava a vitória dos Macabeus nos anos 167 – 164 a.C., João sublinha que era inverno (10,22), mais ou menos no mês de dezembro.

A mensagem central deste trecho do Evangelho está nos versos 27-28 “As minhas ovelhas escutam a minha voz, eu as conheço e elas me seguem;.eu lhes dou a vida eterna  e elas jamais perecerão, e ninguém as arrebatarà de minha mão”. Jesus contesta os Judeus que ainda não acreditam nos sinais que ele faz. No v. 24 eles diziam: “Até quando nos manterás em suspensos? Se és o Cristo, dize-nos abertamente”. É uma curiosidade que parece ser motivada por um grande desejo de conhecer a verdade, mas no fundo eles tem intenções malvadas. É a mesma pergunta que é apresentada nos sinóticos durante o processo de Jesus (Lc. 22,67; Mc. 14,61; 15,2; Mt. 27,11).

No ministério de Jesus a Jerusalém, era claro que os seus adversários já armavam algo contra as declarações anteriores de Jesus, já o apresentavam como enviado de Deus (v. 25), por isso eles não fazem parte das suas ovelhas porque não escutam a sua voz. Os sinais que Jesus realiza era sinal da sua identidade messiânica, mas os adversários  não escutavam e não acreditavam porque não se consideravam ovelhas. Para crer em Jesus é necessário aderir à sua vontade que é a vontade do Pai. “Eu e o Pai somos um”(10,39). Jesus exprime a sua profunda unidade com o Pai, por isso, o seu poder se identifica com aquele do Pai. O cristão deve sentir-se seguro nas mãos do Pai que lhes doou o Filho, e como diz na oração Sacerdotal: “Guardei-os e nenhum deles se perderam” (17,12), e ainda “não pedir nenhum dos que me destes” (18,9), porque  a escuta da Palavra que constitui as ovelhas e os faz do homem discípulo do Senhor.

 

Dos Escritos dos Padres da Igreja

Cristo, o Bom Pastor

“Eu sou o bom pastor. E conheço as minhas ovelhas”, isto é, eu as amo “e minhas ovelhas me conhecem”. É como se dissesse claramente: Elas me amam e me seguem. O que não ama a verdade, ainda não o conhece realmente.

Depois de terdes ouvido, irmãos caríssimos, qual é o nosso perigo, considerai também, nas palavras do Senhor, qual é o vosso. Vede se sois suas ovelhas, vede se o conheceis, vede se conheceis a luz da verdade. Se conheceis, quero dizer, não por meio da fé, mas pelo amor. Se conheceis, não somente por vossa crença, mas por vosso comportamento. Pois o mesmo evangelista João, que assim fala, também afirma: “Aquele que diz conhecer a Deus e não guarda seus mandamentos, é mentiroso”.

Por isso em nosso texto, o Senhor acrescenta logo: “Assim como o Pai me conhece e eu conheço o Pai e dou minha vida por minhas ovelhas”. Como se dissesse claramente: a prova de que eu conheço o Pai e sou conhecido pelo Pai é que dou minha vida por minhas ovelhas; isto é este amor pelo qual vou até morrer por minhas ovelhas mostra o quanto amo o Pai.

É dessas ovelhas que diz ainda: “Minhas ovelhas ouvem minha voz e eu as conheço e elas me seguem e lhes dou a vida eterna”. É a respeito delas que fala um pouco acima: “Se alguém entrar por mim, será salvo e entrará e sairá e encontrará pastagens”.

Entrará acolhendo a fé, sairá passando da fé à visão, da crença à contemplação e encontrará pastagens no festim eterno.

Suas ovelhas encontram pastagens, pois quem o segue com um coração simples é nutrido por pastagens sempre verdes. Quais são as pastagens dessas ovelhas, senão as alegrias íntimas de um paraíso sempre verdejante? Sim, as pastagens dos eleitos são a presença da face de Deus. Enquanto sem cessar é contemplada, sem fim o espírito se sacia do alimento da vida.

Procuremos, pois, irmãos caríssimos, essas pastagens, onde nos alegraremos com a assembléia festiva de tais concidadãos. A própria alegria daqueles que as gozam nos convida. Corações ao alto, meus irmãos, que a nossa fé se reanime nas verdades em que ela crê, e inflamem-se nossos desejos pelos bens celestes. Amar assim já é por-se a caminho.

Nenhuma adversidade nos afaste da alegria desta festa íntima, pois, se alguém pretende chegar a determinado lugar, nenhuma dificuldade do caminho diminuirá o seu desejo. Não nos seduza nenhuma prosperidade lisonjeira. Estulto seria o viajante que, detendo-se no caminho a contemplar as risonhas campinas, esquecesse o fim de sua viajem.

(Das homilias sobre o Evangelho de são Gregório Magno, papa.

Hom. 14,3-6; PL 76, 1129-1130)

 

A unidade natural dos fiéis em Deus, encarnação do Verbo e o sacramento da Eucaristia

Realmente o Verbo de fez carne (Jo 1,14) e de fato nós comemos o Verbo feito carne, no alimento do Senhor. Como, então, não julgar que permanece em nós com a sua natureza aquele que, nascendo homem, tornou a natureza da nossa carne inseparável de si mesmo e uniu a natureza da sua carne com a natureza divina, no sacramento que nos comunica a sua carne? Deste modo somos todos uma só coisa: o Pai que está em Cristo e Cristo que está em nós.

Está, pois, em nós por sua carne e nós estamos nele, uma vez que está em Deus, com ele, aquilo que nós somos.

Ele é quem atesta até que ponto estamos nele pelo sacramento da comunhão da carne e do sangue quando afirma: E este mundo já não me vê; mas vós me vereis, porque eu vivo e vós vivereis; porque eu estou em meu Pai e vós em mim e eu em vós (Jo 14,19.20).

Se queria que entendêssemos apenas a união das vontades, por que distinguiu um certo grau e ordem, segundo os quais devia consumar-se a unidade? Certamente para que acreditássemos que, estando ele no Pai pela natureza divina e nós nele por seu nascimento corporal, ele está em nós pela ação misteriosa dos sacramentos.

É como se nos fosse ensinada a unidade perfeita que se realiza pelo Mediador: permanecendo nós nele, ele permanece no Pai e, permanecendo ele no Pai, permanece também em nós. Deste modo, poderemos chegar até à unidade com o Pai, pois ficaremos nele naturalmente, ele que está no Pai naturalmente, segundo o nascimento e que ficará em nós naturalmente.

Quão natural seja em nós esta unidade ele o atestou assim: Quem come minha carne e bebe o meu sangue, permanece em mim e eu nele (Jo 6,56). Ninguém estará nele a não ser aquele em quem ele estiver, uma vez que só tem a carne que ele assumiu quem come de sua carne.

Mais acima já ensinara o sacramento desta perfeita unidade: Assim como o Pai, que vive, me enviou e eu vivo pelo Pai, assim também o que come a minha carne viverá por mim (Jo 6,57). Portanto vive pelo Pai. E do mesmo modo como vive pelo Pai, nós vivemos por sua carne.

Presume-se que toda comparação se adapta à maneira de ser da inteligência, quer dizer: entende-se aquilo de que se trata de acordo com o exemplo que é proposto. Esta é, portanto, a causa de nossa vida: em nós, feitos de carne, temos a Cristo que permanece pela carne; e mediante sua humanidade vivemos daquela vida que ele recebe do Pai.

(Do tratado “sobre a Trindade” de Santo Hilário, bispo - liv. 8,13-16)

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1º LEITURA - At. 13,14.43-52

Estamos em Antioquia da Psídia, na primeira viagem missionária de Paulo. O texto focaliza a reação do povo, judeus e pagãos, diante da Palavra anunciada (vv. 16-42).

Aqui os Atos estão registrando a ruptura com os judeus e o direcionamento da Palavra de Deus aos pagãos que ficam felizes de serem privilegiados. O protagonista, ou seja, o ator principal aqui é a Palavra de Deus que é o anúncio da Boa Nova de Jesus. Vê-se claramente uma dupla reação diante da Palavra: de um lado os judeus, do outro lado os pagãos.

A reação dos judeus e a atitude de Paulo e Barnabé

Num primeiro momento constata-se uma reação positiva de adesão (v. 43). Mas a partir do v. 44 vemos uma reação contrária, negativa, reação de inveja, de protestos e de insultos contra Paulo e Barnabé. Os judeus organizavam através de pessoas mais influentes uma verdadeira perseguição aos pregadores, expulsando-os do território (v. 50; cf. Lc 4,28-29 - o que aconteceu com Jesus acontece também com os apóstolos). Os judeus achavam que a salvação era só para eles. Agora, vendo a Boa Notícia dirigida aos pagãos e a cidade toda voltando-se interessada, reagiram com inveja, crime e violência. Qual foi a atitude de Paulo e Barnabé? Não se abalaram, mas, com ousadia, coragem e intrepidez, mostraram para os judeus o projeto de Deus (vv. 46-47): era através dos judeus que Deus queria chegar aos pagãos, mas, diante da rejeição, a Boa Nova é dirigida diretamente aos pagãos. Os dois missionários, então, com gesto de sacudir a poeira dos pés declaram a ruptura com a sinagoga, quer dizer, com os judeus (v. 51).

A reação dos pagãos

É uma reação completamente oposta. Quando perceberam a chance de salvação, quando ouviram que a Palavra de Deus era para eles, encheram-se de alegria, aceitaram a fé e glorificaram a Palavra do Senhor e a Palavra se difundiu por toda a região.

Qual é hoje o impacto da Palavra de Deus em nossa vida?

2º LEITURA - Ap. 7,9.14b-17

No capítulo 7 o autor do Apocalipse dá uma olhada para trás (vv. 1-8) e outra olhada para a frente (vv. 9-17), mostrando a salvação que Deus traz para todos os que são marcados pela fé. No nosso texto que aponta para o futuro, constatamos no céu uma grande liturgia festiva de louvor e adoração a Deus que está sentado no trono (v. 10) e ao Cordeiro que está no meio do trono (v. 17). Diante das perseguições e tribulações o autor mostra a salvação futura já preparada para os eleitos, os que perseveram na fé.

Quem são os personagens dessa celebração festiva?

Além dos anjos e das figuras simbólicas dos quatro seres vivos e dos vinte e quatro anciãos, João olha e vê uma grande e incontável multidão proveniente de todas as nações, tribos, povos e línguas. Esta multidão imensa esta totalmente excluída da salvação, mas agora vislumbra sua inclusão no Reino. É uma referência aos pagãos do mundo inteiro que ouviram ou ouvirão a palavra e a acolheram ou acolherão. É o nosso povo de Deus que agora sofre, mas já pode contemplar sua vitória antecipada na cruz do Cordeiro imolado. O v. 14 deixa tudo claro: "Estes são os que vieram da grande tribulação. Lavaram e branquearam as suas vestes no sangue do Cordeiro".

Quais são os símbolos da sua vitória?

Eles estão diante do trono e do Cordeiro. Estão vestidos de túnicas brancas. Carregam palmas nas mãos (os generais romanos celebravam suas vitórias com vestes brancas e palmas nas mãos). Servem a Deus dia e noite em seu Templo. Recebem do próprio Deus uma tenda para morar. Não sentirão mais fome, nem sede, nem calor. Serão apascentados e guiados às fontes de água da vida pelo próprio Cordeiro. As lágrimas dos seus olhos serão enxugadas pelo próprio Deus.

Diante dessa janela aberta para o futuro as comunidades perseguidas ganham novo vigor para perseverar, para resistir e lutar. Será que a grande massa dos excluídos hoje tem possibilidade de ouvir esta palavra de conforto e de esperança?

EVANGELHO - Jo 10,27-30

Para ler Jo 10 é preciso ter em mente Jo 9. João 9 é a cura do cego que foi excluído pelos chefes judeus que deveriam acolher o povo marginalizado e conduzi-lo como pastor. Eles são, entretanto, mercenários e ladrões. Jesus é que é o bom pastor, que acolhe suas ovelhas. No final Jesus mostra que os dirigentes judaicos são os verdadeiros cegos fechados em seu legalismo. Eles aprisionaram as ovelhas no Templo e ali as exploram e as oprimem. Mas Jesus veio para conduzi-las para fora, para fazer com elas um novo êxodo libertador. A cena de hoje acontece no Templo. Jesus bom pastor é a porta de libertação de suas ovelhas. Os dirigentes judaicos são mercenários (só trabalham por dinheiro), são ladrões e assaltantes.

O trecho de hoje é curtinho. São apenas quatro versículos. Quais são as afirmações principais? Talvez pudéssemos sintetizá-las na palavra UNIDADE, unidade entre pastor e suas ovelhas e unidade entre o Pai e o Filho. O v. 27 expressa um relacionamento bonito e profundo entre o pastor e suas ovelhas. As ovelhas ouvem e obedecem à voz do pastor. Elas o seguem. Elas têm consciência de que o bom pastor é caminho, verdade e vida. Por sua vez, o pastor conhece profundamente o seu rebanho, conhece cada ovelha pelo nome e trata a cada uma com carinho e ternura como se fosse única. O bom pastor, diz o v. 28, não apenas cuida de suas ovelhas, mas dá a vida por elas, assegura-lhes uma vida definitiva e lhes dá a certeza de que não serão arrancadas por ninguém de suas mãos. A certeza disso está no v. 29: foi o Pai que entregou ao Filho este rebanho e o Pai é maior do que todos. Ninguém é forte como o Pai para ser capaz de tirar de suas mãos as ovelhas. Estar nos braços do Pai é estar nos braços do Filho. A força do amor do Pai está toda no Filho e a força do amor do Filho está toda no Pai, pois na verdade o Pai e o Filho são uma coisa só (v. 30). João revela aqui o grande mistério da unidade entre o Pai e o Filho.

Quais são as características dos dirigentes das comunidades? São as do mercenário ou as do Bom Pastor?

dom Emanuel Messias de Oliveira

 

Uma imagem muito comum neste tempo pascal é aquela do Cordeiro “de pé, como que imolado” (Ap 5,6). Este Cordeiro, eternamente diante do trono do Pai, é o Cristo no seu estado de perpétua imolação e glória, de entrega sacrifical e ao mesmo tempo vitoriosa, por nós. Mas, misteriosamente, este Cordeiro é também Pastor: “O Cordeiro que está no meio do trono será o seu pastor e os conduzirá às fontes da água da vida”. Que imagem impressionante: um cordeiro que é pastor que dá vida às ovelhas. Pois bem, Jesus afirmou: “Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a vida pelas suas ovelhas” (Jo 10,11). Estejamos atentos: este dar a vida possui dois sentidos: primeiro: Cristo nos dá a vida porque morre por nós, por nós entrega sua vida humana: “Eu dou minha vida pelas minhas ovelhas” (Jo 10,15). É, portanto, um pastor que ama profundamente o seu rebanho: “As minhas ovelhas escutam a minha voz, eu as conheço e elas me seguem”. Num segundo sentido, Cristo dá a vida porque transmite às ovelhas a vida divina, a vida eterna, a vida glorificada que ele recebeu do Pai na ressurreição: “Eu dou-lhes a vida eterna e elas jamais se perderão. E ninguém vai arrancá-las de minha mão!” Que afirmações estupendas! Nosso Pastor, que por nós se fez Cordeiro imolado, dá-nos a vida eterna e imperecível, uma vida que nos saciará eternamente! Cristão, compreende: como é grande, como é concreta, como é verdadeira a tua esperança, como é certa a tua herança!

Esta vida, que o Cordeiro-Pastor nos prepara, é para todos, é em abundância. Isto já aparece na primeira leitura: diante da recusa dos judeus como um todo em acolher o Evangelho da salvação em Jesus, o apóstolo volta-se para os pagãos: “Era preciso anunciar a palavra de Deus primeiro a vós, judeus. Mas, como a rejeitais e vos considerais indignos da vida eterna, sabei que vamos dirigir-nos aos pagãos”. E estes, cheios do Espírito Santo, ficaram cheios de alegria. Eis! A salvação que Cristo nos trouxe, com sua morte e ressurreição, com seu mistério pascal, é plena, é total e é para todos!

É com estas idéias e sentimentos no coração que devemos, agora, contemplar a estupenda imagem que o Apocalipse nos apresenta na liturgia de hoje. Toda a humanidade, “uma multidão imensa de gente de todas as nações, tribos, povos e línguas, que ninguém podia contar”... de pé, diante do trono e do Cordeiro”. Pensemos bem! É toda esta humanidade tão sofrida, de vida tão frágil, de esperança tão incerta, que é chamada a este momento tão grandioso: de pé (posição de quem venceu, de quem está vivo) diante do trono de Deus e do Cordeiro, o Cristo nosso Senhor, Aquele que venceu! Observem que nossa esperança nada tem de espírito de seita. A salvação não é para um grupinho de eleitos que excluem os demais farisaicamente! Não! Nunca! Deus quer “que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade” (1Tm 2,4). Os cristãos têm o dever de olhar o mundo com amor benevolente. Nós, amados por Deus em Cristo, não podemos guardar só para nós esse amor e essa salvação: é preciso anunciá-la, comunicá-la, e com um coração bom, benévolo para com o mundo: nunca uma atitude de seita, de acusação, de fechamento! Dizer a verdade, sim; anunciar a verdade, sim; denunciar o erro e o pecado, sim; mas,com uma atitude de amor e respeito, de benignidade, como o coração do Bom Pastor, que deu a vida pelas ovelhas e quis morrer pelo rebanho!

Estes eleitos “trajavam vestes brancas” símbolos da glória, de vida, da pureza e da imortalidade; “traziam palmas na mão”, símbolo da vitória. Quem são eles? “São os que vieram da grande tribulação. Lavaram e alvejaram as suas vestes no sangue do Cordeiro”. Que imagem fantástica! É a multidão dos cristãos de todos os tempos, que perseveraram e vencerão no combate das tribulações desta vida... às vezes, até à morte! Pensemos: somos nós, se formos fiéis no combate do Cristo; somos nós, se perseverarmos e guardarmos a fé e a esperança no Senhor nas lutas e provações desta vida! Estejamos atentos: “lavaram e alvejaram as vestes no sangue do Cordeiro!” Sangue bendito e precioso, que lava, que purifica, que alveja! Nenhum de nós chegará diante do trono limpo por sua própria limpeza, mas sim pelo sangue do Cordeiro que é nosso pastor! “Nunca mais terão fome, nem sede. Nem os molestará o sol, nem algum calor ardente”. Bendito Cordeiro, bendito Pastor, bendito Cristo-Senhor, que nos dá uma vida tão plena! Ele mesmo nos tinha prometido: “Quem vem a mim nunca mais terá fome e quem crê em mim nunca mais terá sede” (Jo 6,35). Bendito Jesus, que é tão fiel! “E o Cordeiro, que está no meio do trono, será seu pastor e os conduzirá às fontes da água da vida”. Aonde nos conduzirá o Pastor? Que lugar é este, com tanta vida e tanto frescor e consolação? Escutem a Palavra: “Aquele que está sentado no trono os abrigará na sua tenda... E Deus enxugará as lágrimas de seus olhos!” Eis, irmãos, aonde o Cristo imolado e ressuscitado nos conduz: à tenda do coração do Pai, para nos aconchegar, para nos consolar, para nos enxugar as lágrimas, para nos dar a vida em abundância: “Meu Pai, que me deu estas ovelhas, é maior que todos, e ninguém pode arrebatá-las da mão do Pai. Eu e o Pai somos uma só coisa!” 

É por isso que a Páscoa de Cristo é também nossa: sua vitória é penhor da nossa, é certeza de nossa esperança agora e plenitude um dia. Vivamos fielmente os combates do presente, deixemo-nos guiar pelo Bom Pastor, lavemos nossas vestes no sangue do Cordeiro e sejamos herdeiros da vida que ele nos prepara. Ele, bendito pelos séculos dos séculos. Amém.

 dom Henrique Soares da Costa

 

Eu e o Pai somos um

Estas palavras de Jesus ocorrem em um discurso mais longo, pronunciado durante a festa da Dedicação, em Jerusalém. Na festa anterior, das Tendas, Jesus já fizera a autoproclamação figurativa: "Eu sou o Bom Pastor". A imagem é bela e permanece guardada nos corações através dos séculos. Embora seja uma imagem rural e mais específica de determinadas regiões, é facilmente compreendida por todos. O proclamar/falar e o conhecer, o ouvir e o seguir, exprimem uma relação de diálogo e acolhida existente entre Jesus e os discípulos. É a palavra e a escuta que estabelecem o diálogo. É o diálogo que leva ao conhecimento e à união de amor, o seguimento. A união de amor na comunidade, com Jesus, significa a integração na vida eterna de Deus. A dupla menção: "Ninguém vai arrancá-las da minha mão", "ninguém pode arrancá-las da mão do Pai [.], que é maior do que todos" indica o pano de fundo do conflito vivenciado pelas comunidades dos discípulos ameaçadas pela sinagoga, no tempo da redação de João. Contudo, para os que creem não há maior garantia. Estamos envolvidos pela vida divina: "Eu e o Pai somos um". Os discípulos de Jesus, desde as primeiras missões, enfrentaram dificuldades semelhantes às do mestre. Assim aconteceu com Paulo e Barnabé, em sua primeira viagem missionária (primeira leitura). Trabalharam arduamente, insistindo junto aos discípulos para que continuassem firmes na graça de Deus, apesar das provocações dos judeus cheios de inveja. Igualmente as comunidades joaninas de Éfeso, no fim do primeiro século, sofriam grandes perseguições (segunda leitura). Elas sofrem a "grande tribulação", mas estarão, dia e noite, diante do trono do Cordeiro, que é o próprio pastor que conduz às fontes de água vivificante.

José Raimundo Oliva

 

“A terra está repleta do amor de Deus; por sua palavra foram feitos os céus, aleluia!”

(cf. Sl. 32, 5s).

A liturgia deste domingo nos fala da grandiosidade do mistério de nossa fé. Somos convidados a refletirmos sobre A VIDA DO BOM PASTOR. O Bom Pastor que conhece as suas ovelhas e as chama pelo nome. Assim, sempre no quarto domingo da Páscoa, somos convidados a refletirmos sobre a figura do Bom Pastor, à luz do Cristo vitorioso, presente e ativo no meio da comunidade dos fiéis, única porta de acesso ao Reino das Bem Aventuranças.

Jesus é o Bom Pastor, por isso Jesus não deixa, em tempo algum, nada faltar para as suas ovelhas. O próprio Senhor prometeu dar ao povo pastores dignos, corajosos, responsáveis, capazes de dar a sua vida em benefício de todos os fiéis. Jesus é apresentado no Evangelho como o BOM PASTOR enviado pelo Pai, para apascentar e pastorear o rebanho: “Eu sou o Bom pastor.... Eu dou a vida pelas ovelhas... nenhuma se perderá!”. Isso significa que o Bom Pastor tem que dar, se necessário, a sua vida pelas ovelhas que conhece e chama pelo nome.

Assim três devem ser as atitudes dos pastores que, seguindo os passos do Sumo Pastor Jesus, devem dar a sua vida pelas suas ovelhas: A ESCUTA, O CONHECIMENTO E O SEGUIMENTO de Cristo.

A primeira leitura hodierna (cf. At. 13,14.43-52) apresenta a pregação de Paulo em Antioquia da Psídia, mas como uma orientação para o mundo pagão. À partir de Pentecostes, o Evangelho inicia seu caminho “até os confins da terra”(cf. At. 1,8). São Paulo se dirige aos judeus na diáspora, mas, diante da rejeição destes, anuncia o Evangelho aos pagãos, o que os judeus consideram como uma traição. Mistério da vocação de Paulo, o fariseu: chamado para levar o Evangelho aos pagãos! Nesse sentido todos nós devemos ser autênticos discípulos-missionários de Jesus Cristo anunciando o Cordeiro de Deus e anunciando esta verdade a todos os povos e a todas as gentes. Quem está instalado em sua “igrejinha”, não gosta de ouvir este apelo evangélico. Assim aconteceu com Paulo e Barnabé, quando foram pregar para os judeus de Antioquia da Psídia (na Turquia). O resultado foi muito bom para os pagãos, pois rejeitados pelos judeus Paulo e Barnabé se dirigiram a eles(Primeira Leitura).

O Bom Pastor deve estar intimamente ligado com o Cristo. Todos nós, especialmente, nossos pastores devem estar intimamente ligados às mãos do Cristo Pastor. Depositemos nossa confiança nas mãos do Bom Pastor que se fez Cordeiro de Deus que tira os pecados da humanidade. E depositando nossa confiança e segurança nas mãos de Deus seremos sempre protegidos pelo Senhor da Vida e da História. Sim, estar na mão de Cristo é estar na mão de Deus, porque “Eu e o Pai somos um(cf. Jo 10, 30)”.

Jesus promete a vida eterna para quem o Seguir e Anunciar e Viver o Seu Evangelho. Para São João, a vida eterna é sim, a vida futura no céu, na plenitude do Reino, mas é também a vida presente, quando vivida na intimidade com Deus.

Todos nós somos convidados hoje a OUVIR A VOZ DE DEUS, CONHECER DE QUEM É A VOZ, SEGUIR QUEM NOS CHAMOU. Esses três passos valem não somente para o caminhar da vocação religiosa ou sacerdotal. Vale, sobremaneira, para a nossa vocação de batizados, para o nosso sacerdócio comum de todos os fiéis que seguem a Cristo e recebem a adesão ao seu Batismo.

Vocação de todos nós: OUVIR A VOZ DE DEUS, CONHECER DE QUEM É A VOZ E SEGUIR QUEM NOS CHAMOU, OU SEJA, JESUS CRISTO MORTO E RESSUSCITADO.

Todos nós somos convidados a estar atento à VOZ DE DEUS. A iniciativa do chamado é sempre de Deus. Costumamos conhecer as pessoas pela voz. Com facilidade distinguimos uma voz da outra. Isso nem sempre acontece com a voz de Deus. Porque ela não se escuta pelos ouvidos, mas pelo coração. Corações para o alto, coração reto, consciência equilibrada e generosa distingue a voz de Deus. Assim todos nos somos convidados a ouvir a voz de Deus com atenção e com unção. Ouvir a voz de Deus com o coração aberto, com toda a nossa inteligência e o nosso ser, para como São Paulo exclamar: “Não sou eu que vivo, é CRISTO QUE VIVE EM MIM!”(cf. Gl. 2,20).

Por conseguinte somos, finalmente, convidados, a seguir Jesus e trilhar o seu caminho que é caminho de salvação.

Deus é “mistério”. Não conseguimos concebê-lo com clareza. Ele é grande demais para que o possamos descrever. É a “instância última” de nossa vida. Mas Jesus o torna acessível, visível. Podemos orientar nossa vida para a instância última graças a Jesus que nos conduz, se a ele nós confiamos. Jesus está unido a Deus que, para nós, ele é a presença de Deus em pessoa. Nele, estamos em Deus. Deus é a pastagem, a felicidade para onde Jesus-Pastor nos conduz.

Na segunda leitura(cf. Ap. 7,9.14b-17), este Pastor é apresentado como sendo o Cordeiro, vítima pascal, que resgata e liberta da escravidão as ovelhas que somos todos nós. Esta imagem vem completar a imagem do pastor. Pois um pastor parece muito chefe. Jesus é também ovelha, igual a nós, porém totalmente consagrada a Deus. Ele nos conduz a Deus, vivendo a nossa própria situação, exceto o pecado. O Cordeiro apascenta as ovelhas. No meio de uma série de catástrofes, o visionário do Apocalipse situa uma visão da assembléia celestial dos justos. O Cordeiro imolado é maior do que as forças negativas que assaltam o mundo. Reúne seu povo de todas as línguas e nações. Os mártires são as primícias do louvor universal ao Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo.

É pelo testemunho dos seus discípulos que Jesus continua a ser o BOM PASTOR no mundo inteiro, para todos os seres humanos. Jesus exerce esta função de modo especial pelos ministros ordenados, bispos, presbíteros e diáconos. Por isso, a Santa Igreja celebra neste domingo o 47o DIA MUNDIAL DE ORAÇÃO PELAS VOCAÇÕES SACERDOTAIS E RELIGIOSAS. Mas todos os cristãos, por seu testemunho, participam do pastoreio universal de Jesus Cristo. Ao mesmo tempo em que somos conduzidos, ouvindo a sua voz, sendo ovelhas, exercemos também a missão de pastores, conduzindo as pessoas até as fontes da vida. Assim Cristo está ressuscitando no mundo. Que este Dia Mundial possa oferecer, uma vez mais, preciosa ocasião para que muitos jovens possam refletir sobre a própria vocação, abrindo-se a ela com simplicidade, confiança e plena disponibilidade. A Virgem Maria, Mãe da Igreja, guarde o mais pequenino gérmen de vocação no coração daqueles que o Senhor chama a segui-lo mais de perto; faça com que se torne uma árvore frondosa, carregada de frutos para o bem da Igreja e de toda a humanidade.

Rezemos para que Deus nos conceda cada dia mais bispos, padres e diáconos configurados com o que Cristo espera de cada um de nós: unção pastoral e novo ardor missionário vivendo aqui e agora a santidade eterna. Aleluia!

padre Wagner Augusto Portugal

 

EPÍSTOLA (Ap. 7,09,14b-17)

Há uma festa no céu, que pode ser comparada à festa dos tabernáculos ou das Sucoth à qual está chamado a participar o povo que representa a Igreja perseguida e que confirmou a fé com seus mártires, durante essa tribulação, que é considerada como grande, por não dizer a máxima, em que os amigos dão a vida fiéis à memória do amigo. Uma outra consequência: a multidão era composta de todas as etnias do mundo, indicando a universalidade da Redenção.

A MULTIDÃO: depois destas coisas vi, e eis que grande multidão que ninguém pode enumerar de toda raça e tribos e povos e línguas, estava de pé diante do trono e diante do Cordeiro, vestidos de estolas brancas e palmas em suas mãos (9). Continua João, o presbítero, com suas visões. Desta vez é a multidão dos mártires, que suportara a grande tribulação, isto é, a perseguição de Domiciano.

RAÇA: a palavra grega é usada como multidão, companhia, tribo, nação, sendo que no AT significava nações pagãs ou gentios, como em Is. 42,1. Paulo no NT usa o termo para designar os cristãos provindo dos gentios, ou do paganismo (Rm. 11,13). E é neste sentido que temos o ethnos do versículo atual. Logicamente, também nos tempos finais do século I, os cristãos e os mártires pertenciam à humanidade sem distinção de nações [como eram os israelitas, nação escolhida], de povos como a distinção dos filhos da tribo de Levi, especialmente escolhida para o serviço divino, povos que no AT era ‘am indicando um conjunto de gente unida por tradição, língua e costumes. Finalmente, línguas que eram sinais de divisão como vemos em Gn. 11,9 em que Deus confundiu as línguas e por isso chamou a torre de Babel, ou confusão. A passagem é uma réplica moderna de Dn. 7,14 em que as pessoas de todos os povos e línguas serviam o Ancião, que representava Jahveh. Estavam de pé diante do TRONO. Era este o assento de Deus, como rei supremo de toda criação e magistrado para julgar toda criatura. Mas junto dele como seu maior representante estava o Cordeiro Imolado; e era aqui que a multidão estava de pé revestida de ESTOLAS que eram os vestidos talares próprios dos oficiais e das mulheres que chegavam até os calcanhares; pois talares eram chamadas as asas de que estavam dotadas, para melhor correr, as sandálias de Mercúrio, o deus grego do comércio e mensageiro dos outros deuses. Oposto da estola, e vestido dos humildes, era o Chiton ao qual todo o mundo tinha direito de modo a ser devolvido antes da noite (Ex. 22,26). Embora não tenhamos no AT uma palavra própria para chiton, o vestido feito para José por Jacob, traduzido por túnica talar na Nova Vulgata latina. Estavam, pois, vestidos em traje de cerimônia. A cor era BRANCA, cor que pode ser brilhante  e que significava a túnica branca dos sacerdotes do AT que de Aarão passariam a seus filhos e que são begedi hakodesh [vestidos sagrados] em Ex. 29,29. Pois segundo Ap. 5,10, fizeste deles [hombres de toda raza, lengua, pueblo y nación].um reino de sacerdotes que reinarão sobre a terra. Ou em 20,6: ditoso e santo quem tem parte na primeira ressurreição: serão sacerdotes de Deus e de seu Cristo com quem reinarão mil anos.

PALMAS de fato foinix é a árvore chamada de palmeira o tamar hebraico e em plural são as palmas ou galhos de palmeira. Há uma passagem evangélica em Jo 13,13, quando o povo tomou ramos de palmeiras no dia de Ramos para sair ao encontro de Jesus como messias. Em Jeremias 10,5 lemos: os ídolos são como espantalhos no palmeiral e em Sl. 92,12: o justo florescerá como a palmeira. Mas principalmente era o símbolo da vitória e do triunfo sobre os inimigos, como era o mundo hostil dos imperadores romanos. Fílon fala da palmeira como symbolon nikës [símbolo de vitória]. Assim os conquistadores usualmente levavam palma em suas mãos. Os gregos se adornavam com coroas de palmas após a vitória nos combates; e os romanos usavam a toga palmata, um vestido talar com figuras de palmas bordadas nele. A medalha que Tito mandou cunhar, após sua conquista de Jerusalém, tinha uma palmeira e uma mulher cativa, sentada na base da mesma, com a inscrição: Judaea capta. Na festa dos tabernáculos, os judeus, na procissão, portavam lulavs, em cuja composição era básico um galho de palmeira (Lv. 23,40). E temos o provérbio: pois se um homem leva um galho de palmeira em sua mão conhecemos que ele é um homem vitorioso (Rabi Bajikra).

QUEM ERAM: e um dos anciãos me disse:estes são os que vem da tribulação, a grande, e lavaram suas estolas e branquearam suas estolas no sangue do Cordeiro (14).

ANCIÃO: a tradição judaica era a que provinha dos anciãos, segundo Mt. 15,2. Eram, pois, extremamente respeitados. Mas principalmente o grupo dos anciãos era uma das três partes em  que estava composto o Sinédrio ou grande tribunal judaico (Mt. 16,21). Eram os anciãos os que presidiam e governavam as igrejas particulares (1 Tm. 5,17). Porém, no Apocalipse, constituíam a corte de honra do trono e do Cordeiro em número de 24, como as horas do dia, ou como as classes sacerdotais do AT. Estavam vestidos de roupas brancas, como sacerdotes, e tinham coroas de ouro na cabeça, como príncipes reais, pois eram os escolhidos da nova classe sacerdotal e real do cordeiro (1Pd 2, 9). Um deles, pois, explica como mestre e intérprete da vontade de Deus (At. 15,22) quem eram os que constituíam a grande multidão.

TRIBULAÇÃO era a grande, ou seja, máxima, segundo o sentir semítico que não tem superlativos e com certeza que se referia à perseguição de Domiciano, ainda presente quando o apóstolo escreve estas linhas.

ESTOLAS era a veste sacerdotal talar [até o calcanhar]; era de linho branco e por isso fala de branquear ou torná-las brancas para o serviço sacerdotal que não é unicamente o sacrifício mas o louvor no santuário, como João vê o espetáculo do céu. Este louvor fora descrito no versículo 12; O louvor e a glória e a sabedoria e as ações de graças e a honra e o poder e a força sejam ao nosso Deus pelos séculos dos séculos. Amém. Parece uma transcrição cristã da grande festa dos Tabernáculos. Como era de preceito, antes de exercer seu ofício sacerdotal, todo sacerdote deveria se purificar e tomar sua estola  branca, recém-lavada. Só que a purificação da água, totalmente externa, é agora substituída pelo sangue do Cordeiro, segundo vemos em Rm. 5,9: justificados pelo seu sangue seremos por ele salvos da ira. Precisamente no batismo, com água representando a Igreja, se dava o mistério de purificação total [justificação] por causa do sangue de Cristo, quem, segundo o Batista, tira o pecado do mundo (Jo 1,29).

A ADORAÇÃO: Por isso estão diante do trono do Deus e adoram-no dia e noite em seu santuário e quem está sentado sobre o trono pôs o tabernáculo sobre eles (15). Com estas palavras está o autor transformando o céu num gigante santuário em que os sacerdotes, os únicos que podem entrar no átrio do naós [santuário] exercem o mais sublime ministério sacerdotal: o louvor e adoração do único Deus, com um holocausto de eterno culto para glória do mesmo. Para isso, como diz o salmo 24,4, deve se ter as mãos limpas e puro o coração.

TABERNÁCULO: na realidade é armou o tabernáculo, que era a tenda da presença divina entre o povo, onde se manifestava por meio da Shekinah [habitação], tudo era anualmente recordado na festa dos tabernáculos. O texto grego fala que Deus [quem está sentado sobre o trono] pôs o tabernáculo, ou seja, sua tenda sobre eles. Como no deserto, Deus será seu Deus e eles serão seu povo (Lv. 26,12).

A FELICIDADE: Não terão fome, nem tampouco terão sede, nem também cairá o sol sobre eles, nem calor algum (16). Claramente temos uma imagem do deserto em que Jahveh alimentou com o maná o povo e com a água de Meriba apagou a sede do mesmo. E como estamos no deserto, o sol não cairá sobre eles e o calor do estio não se deixará sentir. É um ambiente de claro bem-estar corporal, dirigido por Deus, para a felicidade do povo eleito. Sua shekinah, como no deserto, protegia do sol durante o dia como nuvem (Ex. 13,21). A shekinah era como um Chupah, o sólio ou dossel que cobria os esposos no dia das bodas.  E como não haverá noite, daí que não se use outro modelo metafórico para indicar a felicidade dos escolhidos. A revelação do Tabor entra dentro do olhar profético do autor, com as tendas que Pedro queria montar. Esse Pedro que fala em 2 Pd. 1,13, de seu corpo como um tabernáculo.

O PASTOR: Já que o Cordeiro, o do meio do trono, os apascentará e os conduzirá sobre fontes vivas de águas e Deus enxugará toda lágrima (17).

APASCENTARÁ: seguindo a alegoria do deserto, Moisés é substituído pelo Cordeiro, que sabemos é Jesus, como degolado, ou seja, Cristo. Agora ele se transforma em pastor e como tal, seu principal ofício é conduzir as ovelhas para as nascentes de água, que serão puras.

FONTES VIVAS: a palavra Zösas é o particípio de presente do verbo Zaö [viver] cuja tradução seria viventes, ou melhor, vivas. Os antigos israelitas distinguiam entre águas de poço e águas vivas de manancial. Jesus mesmo disse à samaritana: aquele que beber da água que eu lhe der, nunca mais terá sede, pois a água que eu lhe der se tornará uma fonte que jorrará para a vida eterna (Jo 4,15). Eram as águas que a Escritura chama rios de águas vivas (Jo 7,38). Sem dúvida que o autor do quarto evangelho, aqui também como autor,  desenvolve a festa dos tabernáculos em que o oitavo dia significava o primeiro dia  da nova semana da eternidade. Semana que não tem fim. Era o dia mais gozoso da festa. Divididos os sacerdotes em três grupos, o grupo do Sumo sacerdote saia pela porta conhecida como porta da água e ia ao estanque de Siloé que significa suave corrente de águas. Lá, o Sumo Sacerdote, com uma jarra de ouro, tirava a água conhecida como águas vivas. Seu ajudante tinha uma jarra de prata com vinho e juntos, marchavam ao templo, O segundo grupo tinha cortado salgueiros que eram levados em procissão e entravam pela porta oriental. No templo se uniam ambos os grupos, os sacerdotes que agitavam árvores de Salgueiro e os que acompanhavam os dois jarros de líquido. Assim entravam no santuário onde esperava o terceiro grupo que tinha preparado o altar. O vinho e a água eram derramados nos cantos do altar e logo, com os salgueiros, os sacerdotes do turno correspondente formavam uma cabana com a qual cobriam o altar. O povo cantava o grande Hillel [salmos 113 e 114] em que o hosanna [vem, salva] era repetido, ao mesmo tempo que os sacerdotes agitavam os salgueiros, rodeando o altar sete vezes. Este era o maior dia de festa em Israel. Como vemos, temos suficientes elementos para uma alegoria da festa do dia eterno no reino dos céus onde a cabana do cordeiro cobria seus eleitos.

LÁGRIMA : é o que Is. 25,8 profetiza: Tragará a morte para sempre e assim enxugará Deus as lágrimas de todos os rostos e tirará de toda a terra o opróbio do seu povo.

Evangelho Jo 10,27-30

AS VERDADEIRAS OVELHAS

Os quatro versículos do domingo atual pertencem a um discurso de Jesus pronunciado durante a festa da Dedicação no pórtico de Salomão (Jo 10,23), resguardado do vento invernal por ser o único fechado do lado do oriente de onde provinha o vento frio nessa época (novembro – dezembro). Poucos meses antes, na festa das Tendas, (sukoth) ou tabernáculos (Jo 7,2), Jesus tinha pronunciado duas parábolas que indicavam sua função perante o povo de Israel: Ele era a porta (Jo 10,7) e ele era o pastor verdadeiro de um rebanho que se supunha ser o povo escolhido por descendência (Jo 10,11). Mas, nesta ocasião, os judeus, formando um círculo como se fossem discípulos do novo Mestre, dirigem-lhe duas perguntas importantes: És tu Messias? És tu Filho de Deus? (sic no grego). São as mesmas perguntas que servirão para condená-lo no Sinédrio, presidido por Caifás. A primeira foi clara e especificamente perguntada (Jo, 10,24). A segunda será implicitamente introduzida no versículo 33. Na resposta à primeira das mesmas, Jesus declara ironicamente que não vê nos seus interrogadores suas ovelhas; e com isso reclama da sinceridade dos mesmos de ouvirem uma voz que deveriam escutar como a voz verdadeira do pastor (27). Com esta afirmação se inicia o evangelho de hoje, onde encontramos a conclusão da parábola do bom pastor. O evangelho destaca a comunhão de vida entre Cristo e seus seguidores, sua ovelhas. Duas são as disposições fundamentais para entrar dentro do seu domínio e receber a vida plena e eterna como ovelhas fiéis: reconhecer o pastor e escutar a sua voz como único mandato. Como comenta o papa atual é a escuta da Palavra para saber a vontade do Senhor. Como prêmio a esta obediência, Jesus reconhece unicamente essas ovelhas e lhes dá a vida eterna de modo a viver uma vida sem fim, sem que nada nem ninguém possa arrebatá-las das mãos do pastor porque ele, não unicamente representa o Pai-Deus, mas é uma mesma coisa com Ele.

AS MINHAS OVELHAS: as ovelhas, as minhas, ouvem a minha voz e eu conheço as mesmas e me seguem (27). Jesus claramente esclarece que existem dois tipos de ouvintes: os que constituem ou formarão parte de seu rebanho (suas ovelhas) e os que vendo suas obras, os sinais, que dirá o evangelista, fecham seus ouvidos à voz de quem deveria ser seu pastor e por isso se desgarram de seu rebanho desde o início. Ao afirmar que tem um rebanho a cuidar e pastorear, Jesus se apresenta como Pastor, mas um pastor do qual depende a vida do rebanho. Ele tem como fim a vida dessas ovelhas a ele encomendadas pelo Pai. A própria vida pessoal não é tão importante como a vida do rebanho pelo qual ele dará sua vida (10,11). Porém o tema principal da metáfora do trecho de hoje é a distinção entre o seu rebanho e o grupo dos desgarrados que não querem ou não escutam a voz do verdadeiro e único pastor. Jesus afirma ter um verdadeiro conhecimento de quem são suas ovelhas (a palavra probaton indica gado menor como ovelhas e cabras) e que distingui-las não é difícil, pois são aquelas que escutam sua voz. É por isso que os judeus sentados à sua frente, aparentemente como discípulos, não formam parte de seu rebanho. Não vieram para escutar a sua voz mas para interrogar sobre seu ministério como pastor. Quem hoje lê os evangelhos buscando outra coisa que não seja a voz do Pastor, não pode ser chamado discípulo de Cristo, mas estudioso da história das religiões, crítico radical do evangelho, ou político que se serve de uma propaganda emprestada, na qual ele nem acredita nem conforma sua vida, mas dela extrai seus interesses. Tal é a atitude que reduz Jesus a um subversivo, ou sua mensagem como dirigida unicamente aos operários contra os donos do capital, em nome da evangelização dos pobres. A voz deve ser escutada com humildade e obediência em todas as suas partes, sem omitir parágrafos, considerados duros, como aconteceu em Cafarnaum (Jo 6,60). O seguimento de Cristo é a melhor prova de que suas palavras não foram voz, mas mandato que traz como consequência uma vida nova. Por isso, dirá Jesus: dou-lhes a vida eterna ou vida sem fim.

VIDA ETERNA: Já que eu dou-lhes vida sem fim, e de modo que não pereçam para sempre; e ninguém as arrebatará de minha mão (28).

ZOÉ AIÔNIOS (vita aeterna em latim) é o termo usado várias vezes pelo evangelista. Vamos explicar o significado começando pelo aiônios. A palavra tem sua origem em aion derivado de aiei ou aei de significado sempre, inalterado. No inglês seria o everlasting, que dura sempre, ou perpétuo. Sem fim, seria talvez a melhor tradução, preferida à eterna, usada nas línguas vernáculas latinas. Zoé derivada de Zaô, estar vivo, não teria conotação especial de não estar acompanhada pelo adjetivo que a qualifica e determina. É, portanto, uma vida especial em que a qualidade tem tanta importância como a duração. Nos evangelhos temos várias citações sobre a vida eterna: João a define como constituída pelo conhecimento do único Deus verdadeiro e daquele que foi por Ele enviado, Jesus Cristo (Jo 17,3). Este versículo é um parêntese do evangelista que segue a invocação de Jesus pedindo o poder para dar a vida eterna a todos os que foram a Ele confiados pelo Pai. Esse conhecimento, em sentido bíblico, de ser tanto intelectual como amoroso, só será perfeito no além, mas é antecipado neste mundo, mediante a fé e a união com Cristo: Quem crê no Filho tem a vida eterna. Quem recusa crer no filho não verá a vida. Pelo contrário, a ira de Deus permanece sobre ele (Jo 3,36). Já que Jesus assegura: Quem escuta minhas palavras e crê em quem me enviou tem vida eterna e não será condenado, pois passou da morte para a vida (Jo 5,24). Porque ninguém conhece o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar (Mt. 11,27). Os evangelhos falam de conhecimento ginosko (são João), ou melhor, de reconhecimento epiginosko (Mateus) não no sentido de volver a conhecer, mas de admitir e entender plenamente o que estamos vendo ou sentindo. São Tomás dirá que a bem-aventurança consistirá em contemplar a essência divina como visão beatífica, ou seja, como contemplação-causa de nossa felicidade; porque algo disso terão também os proscritos em certo grado, mas como visão oposta, causante de temor, dos quais se pode afirmar o que dizia o apóstolo Tiago dos demônios: que também acreditam mas tremem (Tg. 2,19). Muito se fala de que Deus castiga, mas na realidade, Ele se mostra como é, bondade e verdade, que os condenados rejeitaram durante sua vida; e agora se contemplam tão distantes que não aguentam essa visão ou conhecimento intelectual puro e direto. Contava uma pessoa que teve uma visão da presença do anjo do mal e sentiu tal perturbação interior como presença mórbida do mal que seu corpo tremia de temor e sobressalto. Pois bem, o que aquela pessoa sentiu diante da presença do Mal, os condenados sentirão diante da presença do Bem. Acostumados a escolher-se a si mesmos em puro egoísmo de paixões e orgulho, o amor e a bondade divina, agora manifestados como inalcançáveis, serão seu maior tormento, porque serão causa de se ver representados como opostos frontalmente ao que eles escolheram e viveram. Todos nós sabemos o quanto é desagradável a presença de uma pessoa com a qual tivemos uma duríssima discussão ou foi motivo de uma morte de um familiar. Por isso, a presença divina, que será motivo de felicidade para os que não rejeitaram o bem e a verdade, será motivo de profunda mágoa e rejeição para os que sempre optaram pela mentira e a maldade como fontes de sua vida. O mal dos outros, que eles escolheram como bem próprio, será agora visto como MAL em si mesmo que eles escolherão definitivamente, sabendo que é BEM para os outros e mal para eles mesmos. Tornar-se-ão PECADO não para remi-lo, como Jesus nos outros (2 Cor. 5,21) mas para ver em si mesmos a justiça divina que, como dizem almas místicas, é terrível quando é vista sem ter como sombra a sua misericórdia (Hb. 10,31). E os salvados por Jesus, as suas ovelhas, possuirão a verdadeira vida definitiva, ou seja, viver plenamente a bondade humana sem mistura de êrro nem transgressão, ao contrário da vivência dos proscritos, que experimentarão a mentira e a desobediência como fundamento de sua vida que o Apocalipse chama, com propriedade, segunda morte (Ap. 21,8) já que Paulo dirá que o salário do pecado é a morte, e a graça de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor (Rm. 6,23). A angústia de Jesus e a tristeza do Getsêmani, eles a experimentarão, não como redenção, mas como desesperação. Pois a (verdadeira) vida era a luz dos homens, já que o que foi feito nele era a vida (Jo. 1,4). Por isso, a fé, que é entrega e submissão à verdade divina em Jesus, claramente manifestada pelas obras extraordinárias de sua vida pública, é a resposta à luz que veio aos seus e estes, em seu conjunto, não a receberam (1,11).

DOU A ELES: Jesus, pastor, não é unicamente o guia, mas o que outorga a vida de suas ovelhas, de modo a que não possam perecer para sempre. E é tal a autoridade e poder de Jesus, que ninguém poderá arrebatar de sua mão as ovelhas que lhe seguem.

O PAI: O meu Pai, que me deu é maior do que todos (todas as coisas) e ninguém pode arrebatar da mão do meu Pai (29).

O MEU PAI: é uma afirmação verdadeiramente de um valor teológico indubitável. O artigo e o adjetivo possessivo determinam de um modo muito particular tanto o Pai como o Filho. Exclui a paternidade de origem de outros homens ou criaturas e a fixa em Jesus de modo particular.

O MAIOR DE TODOS: Há duas interpretações diferentes:

1ª) Meu Pai que me deu é maior do que todos.

2ª) Pelo que respeita a meu Pai, o que me deu é maior do que todas as coisas. Neste ponto a Vulgata opta pela segunda, pelo fato de que traduz o meizon [comparativo de megas = grande] neutro [e não o meizôn, como outros manuscritos no masculino],  pelo neutro maius [não maior masculino], que se refere ao objeto dado. A primeira está em conformidade com o versículo anterior que afirma que ninguém tem poder para arrebatar essas ovelhas dele, e aduz como razões, duas absolutamente essenciais: 1ª) São gado que o Pai encomendou e 2ª) O poder do mesmo é superior a qualquer força oposta, pois não existe maior. A segunda opção é também a preferida pela tradução evangélica RA: Aquilo que meu Pai me deu é maior do que tudo. A segunda hipótese realça o valor que para ele têm as ovelhas como máximo bem a ele encomendado pelo Pai. Cremos que a primeira hipótese é a mais correta, pois até o final deste versículo adapta-se melhor à mesma: Por isso ninguém as poderá arrebatar da mão do meu Pai. A vontade do Pai é que não se percam essas ovelhas, mas que sejam ressuscitadas no último dia (Jo. 6,39).

SOMOS UM: Eu e o Pai uma só coisa somos (30). O grego “em” é neutro de modo que deveríamos traduzir eu e o Pai somos uma única coisa. Este texto serviu como chave para as controvérsias trinitárias dos primeiros séculos do cristianismo. Por uma parte, os sabelianos ou monarquistas viram nele a identidade total do Filho com o Pai, de modo que não havia distinção, e por outra parte, os arianos só encontravam nele a união de vontades e não de substância. Um comentarista, seguindo santo Agostinho escreve: Pela palavra somos, fica refutado Sabélio e pela palavra um, acontece o mesmo com Ário.

PISTAS

1) Se em versículos anteriores, Jesus se afirma como porta única e pastor verdadeiro, agora nos encontramos com uma definição que demarca suas ovelhas, separando-as daquelas do rebanho que não é o seu próprio. Quem são elas? São as que escutam sua voz e o obedecem. Mas esta voz está determinada pelos evangelhos, que a conservam escrita, e pela tradição, que a preserva transmitida.

2) A incumbência do pastor é cuidar delas, de modo que não pereçam, nem sejam arrebatadas do rebanho por mãos estranhas e tenham a vida eterna. Qual é, pois, no dia de hoje, a base da segurança de estarmos no verdadeiro rebanho, ou de sermos verdadeiras ovelhas, já que sempre existiram heresias de separação (2 Pd. 2,1)? Dado que a Escritura é tão diversa e erroneamente interpretada (2 Pd. 3,16) mais do que o escrito em si é a interpretação que avalia o sentido da palavra. Portanto essa interpretação não pode ser deixada ao gosto e arbítrio pessoal (2 Pd. 1,20) mas feita por aqueles a quem Jesus declara: Quem a vós ouve é a mim que ouve (Lc. 10,16) Por isso, o magistério universal constitui a base da segurança de que nós escutamos a verdadeira voz do Senhor Jesus.

3) A vida eterna da qual Jesus fala e que não explica aqui, é o oposto à morte eterna. Como Jesus e o Pai são um, assim os discípulos devem ser um também (Jo 17,11) entre si e com Jesus. Para essa unidade, a melhor ascese (= prática) é se desprender do que egoisticamente procuramos, começando a repartir nossa riqueza, tanto material como espiritual, com os que são mais pobres. Isso que os pais fazem com seus filhos, deve ser feito com todos, pois todos somos irmãos em Cristo e filhos de Deus. O exame de consciência que realizamos é falho demais; pois sempre nos detemos no mal que causamos. Devemos nos interrogar pelo bem que não compartimos; pois há maior mal que causar inveja ou deixar famintos a quem poderíamos saciar? Então veremos a raiz do mal que dentro de nós existe e veremos como nossas vidas são bastante deficientes e pecadoras. Olhar pelo bem que devemos realizar é sentire cum Christo, é abundar em suas riquezas disponíveis, é aprender a amar que, em definitivo, é entrega e sacrifício. É perder a vida para encontrar a eternidade (Mc. 8,35); porque se a verdadeira vida consiste, com diz Paulo, na fé, na esperança e no amor (1 Cor. 13,13) é este, que não perece, que a determina na eternidade (ibidem 13,8).

Padre Ignácio

 

Escutar no silêncio

“Vejam se vocês são as suas ovelhas, vejam se o conhecem”. Assim exortava são Gregório Magno numa homilia. Depois o mesmo papa e santo continuava dizendo que há duas maneiras de conhecer: pela fé e pelo amor, pela inteligência iluminada pela fé e pelo coração aquecido pela caridade.

O conhecimento que vem da fé diz respeito a verdades como a existência de um só Deus em três Pessoas realmente distintas: Pai e Filho e Espírito Santo; a encarnação do Filho de Deus, ou seja, o fato do Filho, a segunda Pessoa da Santíssima Trindade, ter se tornado homem por obra do Espírito Santo nas entranhas puríssimas da Virgem Maria para a nossa salvação; a vinda gloriosa de Jesus Cristo na consumação dos tempos, chamada parusia; entre outras verdades. Mais a fé não é só um conhecimento intelectual, em primeiro lugar ela é uma entrega amorosa de todo nosso ser a Deus porque ele se mostra como é, Amor, porque a sua Palavra arrebatou o nosso coração, porque percebemos que não podemos ser felizes longe dele. A fé e o amor são virtudes que vão, portanto, juntas.

No entanto, enquanto o conhecimento que vem da fé se encontra mais relacionado com a nossa inteligência, o conhecimento que vem do amor eleva a nossa vontade, o nosso querer. Humanamente falando, quando nós sentimos alguma simpatia por uma determinada pessoa é muito mais fácil conhecê-la e saber por intuição aquilo que ela deseja. Uma mãe, por exemplo, sem estudar medicina, é capaz de detectar uma dor de ouvido do seu filhinho de poucos meses que não fala e apenas chora. As mães têm um amor que intui, elas sabem que quando a criança chora ou quer comer ou mamar ou tem alguma dor. Nós também, quando amamos a Deus, temos-lhe simpatia, sabemos por co-naturalidade o que ele quer de nós, qual é a sua vontade para a nossa vida. Nós também intuímos aquilo que Deus quer que façamos.

Agora podemos voltar às palavras de são Gregório: será que nós somos, de fato, as suas ovelhas? Nós escutamos na passagem do Evangelho de hoje: “As minhas ovelhas ouvem a minha voz, eu as conheço e elas me seguem” (Jo 10,27). Jesus Cristo, Bom Pastor, conhece a cada um de nós pelo nome, ele sabe o que há de mais íntimo em cada um de nós e que nem nós mesmos chegamos a conhecer. O conhecimento que Jesus tem de cada um de nós é perfeito. Nós, ao contrário, não o conhecemos perfeitamente. O que fazer? Ouvir a voz do Pastor e segui-lo!

É preciso ouvir! Mas, há tanto barulho ao nosso redor! Por outro lado, por mais que admiremos o silêncio, quando temos oportunidade de fazer um pouco de silêncio, fazemo-lo com música. Que pena! Há pessoas que não podem estar sequer cinco minutos em silêncio. Você já observou como algumas pessoas ficam inquietas quando o sacerdote guarda uns minutinhos de silêncio depois da proclamação do Evangelho ou depois da homilia, outras não sabem o que fazer na ação de graças depois da comunhão caso não haja um canto. O silêncio às vezes parece que nos incomoda! Outra coisa: você já notou que às vezes numa discussão todo mundo está de acordo, mas não se entendem? Finalmente, quando chega alguém e diz que todos estão dizendo a mesma coisa e que a única diferença está na ordem dos fatores, então talvez alguns percebam que o problema é que eles não se escutavam.

Nós queremos seguir o Senhor e fazer a sua vontade. Não a realizaremos, porém, se não o escutarmos atenciosamente. Como? Com alguns propósitos concretos: escutar atentamente as leituras da Missa e a homilia, ler a Sagrada Escritura procurando entendê-la, evitar tanto barulho quando possível, fazer uns minutinhos de oração mental todos os dias. A oração mental não é nenhum bicho de sete cabeças, basta ler um trecho do Evangelho, por exemplo, e depois ficar uns minutinhos em silêncio conversando com Deus: pense naquela passagem, imagine-a, converse com Jesus sobre a cena do Evangelho, sobre a sua vida e a dos seus amigos, escute-o já que ele nos fala nesses momentos. Uma outra coisa: se soubermos escutar, também descobriremos a voz de Deus nas circunstâncias mais ordinárias da nossa vida: você vai ver como ele vai pedir que a sua ajuda para animar aquele companheiro de trabalho que está triste, para conversar um pouco com aquela pessoa que ninguém dá atenção, para sorrir para aquela outra que parece que está sempre amargurada. Esse conhecimento vem da fé e do amor; efetivamente, a fé atua pela caridade (cf. Gl. 5,6).

padre Françoá Rodrigues Figueiredo Costa

 

...e o pastor montava guarda

“O rebanho descansava e o pastor montava guarda.

O rebanho dormia e o pastor montava guarda.

Choveu sobre o rebanho e o pastor montava guarda.

Ventou sobre o rebanho e o pastor montava guarda.

O sol apareceu e o pastor montava guarda.

O rebanho mudou de pastagem e o pastor montava guarda.

O rebanho baliu atemorizado e o pastor montava guarda.

O rebanho foi atacado e o pastor montava guarda.

O rebanho voltou a respirar tranqüilo porque o pastor montava guarda”.

Ao debruçarmos sobre as leituras deste domingo sentimos os nossos corações jubilosos e somos convidados a glorificarmos o Senhor pela voz do salmista que diz: “Sabei que o Senhor, só ele, é Deus, nós somos seu povo e seu rebanho”. Algo que nos é confirmado por Jesus no evangelho de João: “as minhas ovelhas escutam a minha voz, eu as conheço e elas me seguem”. Jesus está no templo, centro do poder político e religioso daquele tempo, durante a festa da Dedicação e pronuncia um discurso utilizando a bela imagem do “Bom Pastor”, muito familiar naquela região.

Entretanto, lendo essas palavras ditas por Jesus coloco-me a refletir, uma relação assim exige muito intimidade, entrosamento entre Jesus e seu rebanho e aí, pergunto-me: como se cria tal envolvimento entre o discípulo e o mestre? O próprio Jesus me responde: “Eu dou-lhe a vida eterna e elas jamais se perderão”. Nossa! Como são fortes essas palavras de Jesus, seu pastoreio é conhecido a partir de sua doação e ação. A imagem do “Bom Pastor” torna-se um desafio e uma “puxada de orelha” para os chefes do seu povo, cujas atitudes eram bem diferentes, preocupados em enriquecer e em cultivar seus próprios interesses, “explorando viúvas e órfãos” e não com a justiça. Seu ministério passa pelo serviço e não pelos privilégios como temos presenciado em nossa realidade tanto eclesial como social.

Infelizmente, aqueles que foram eleitos para ajudar o povo a viver melhor acabam o aniquilando pela dominação, pelo desrespeito, pela corrupção, negando-lhe ter acesso aos bens básicos de sobrevivência como experienciamos na dor daqueles e daquelas que perderam tudo nas últimas chuvas que atingiram a cidade do Rio de Janeiro e outras capitais do nosso país. Com que descaso vive nossa população, falta-lhe o pão, a saúde e a educação... são como ovelhas sem pastor. Todavia, João nos revela que Jesus é o Bom Pastor, pois conhece e convive no meio de seu povo, com suas ovelhas. Experienciando suas dores e dissabores diante de uma sociedade marcada pela opressão e pela injustiça. E com elas cria uma grande intimidade. Pois convive junto de seu rebanho, percebendo suas angústias e necessidades. Desta maneira, fica junto, caminha, conhece, vai ao encontro, escuta e indica a reconstrução de sua esperança.

Contudo, devido sua ousadia incomoda, cria conflito, principalmente com aqueles que se sentiram incomodados com sua atitude. Algo que também será vivido por Paulo e Barnabé como nos revela a primeira leitura. Porém, não serão eles (o poder político e religioso) a dar a última palavra. Jesus vence a morte e ressuscita. Sua vitória constituirá a força e coragem que nos manterem de pé diante do trono do cordeiro e “nunca mais terão fome ou sede” nos diz a segunda leitura (Apocalipse de são João).

Portanto, querido irmãos e irmãos olhando para Jesus possamos aprender com Ele a prática do nosso pastoreio e desenvolver em nós a verdadeira ética do cuidado da vida em todos os sentidos: social, político e religioso e assim, desenvolvermos uma economia mais solidária, em que a compaixão e ternura sejam a intenção primeira, acima do lucro e do poder dominação.

Por outro lado, a atitude de Jesus nos aponta o caminho, uma pedagogia para sermos verdadeiros pastores e pastoras. Conhecimento da realidade que nos cerca, escuta das dores e lamento do povo, caminhar junto e ao lado, principalmente, dos pobres e excluídos. Então, despertar no coração de nossa gente a confiança e a esperança.

Tânia Regina da Silva

 

O BOM PASTOR

A experiência pascal fez com que as comunidades cristãs sentissem Jesus Ressuscitado como Cordeiro, Senhor, Rei, Pedra angular, Filho do Homem, Luz, Servo, Porta, entre outros. Hoje, Ele vem ao nosso encontro e é acolhido pela comunidade reunida sob o título de Bom Pastor, uma denominação muito apreciada pelas comunidades cristãs de todos os tempos.

O quarto domingo da Páscoa é conhecido como o "domingo do Bom Pastor". A liturgia, memorial da Morte e da Ressurreição do Senhor, o apresenta como o "verdadeiro pastor" que doou a vida pelo rebanho. Os acontecimentos de Jerusalém desorientaram e dispersaram os discípulos, que ficaram como ovelhas sem pastor. A ressurreição e a percepção de que Jesus está vivo reúne e congrega os dispersos, formando comunidades. É o pastor que reúne suas ovelhas num único rebanho.

A imagem do Bom Pastor que o evangelista Lucas transmite à comunidade é a do Mestre carregando com ternura em seus ombros uma ovelhinha ferida. Sim! Jesus é o Bom Pastor que busca a ovelha que se desgarrou (Lc. 15,4-8). Por sua vez, o Evangelho de João, inspirando-se na figura de Davi pastor (1 Sm. 17,34ss), apresenta o Bom Pastor como um personagem enérgico, forte e decidido que luta contra tudo o que possa prejudicar o rebanho. Associado a essa imagem, Jesus é o Bom Pastor por não temer o conflito, a ponto de entregar a própria vida pelo rebanho... "Eu dou a vida pelas ovelhas" (Jo. 10,15b).

Entre o pastor e as ovelhas, há uma íntima sintonia de vida. "Minhas ovelhas ouvem a minha voz, eu as conheço, e elas me seguem". A proximidade caracteriza a convivência entre pastor e rebanho. Percorrem os mesmos caminhos, enfrentam os mesmos perigos e partilham da mesma vida. O pastor é solidário com seu rebanho até as últimas conseqüências. O amor do Bom Pastor é gratuito e incondicional. "O Bom Pastor dá a vida por suas ovelhas" (Jo 10,11).

O critério e a exigência para alguém se tornar membro do rebanho de Jesus, o Bom Pastor, consistem em "escutar sua voz" e acolher seu chamado. Hoje, a palavra do Bom Pastor ecoa em meio à multiplicidade de apelos e de mensagens enganosas dos "pseudo-pastores" que prometem vida, conforto, prosperidade econômica, felicidade fácil aos que os seguirem. É preciso apurar os ouvidos para identificar a voz do Bom Pastor. Escutar sua voz e seguir seus passos requer afinidade, íntima comunhão. "Eu as conheço!"

Na linguagem típica do Evangelista João, o "escutar" se entrelaça com o "ver". Vendo, as pessoas tomam maior consciência da presença do Cristo Ressuscitado. Todavia, é por meio da escuta da palavra que percebem o sentido da presença e dos acontecimentos que envolvem a pessoa de Jesus. Assim, tanto o ver quanto o escutar são igualmente reveladores e, por essas duas atitudes, aprofunda-se o dom da fé. Jesus não se limita a proclamar a palavra do Pai. Sua pessoa e seu agir revelam o Pai. "O Pai e eu somos um". Portanto, quem escuta a Palavra e vê Jesus escuta e vê o Pai. Palavras, obras e gestos revelam a íntima unidade que existe entre Jesus e o Pai.

frei Faustino Paludo, OFMCap

 

SEGUROS NOS BRAÇOS DO PASTOR

O Evangelho deste domingo nos propõe uma imagem que Jesus utilizava frequentemente para definir a relação entre ele e quem o segue, quem o conhece profundamente. A imagem é a do pastor e das ovelhas, onde ele é o pastor e nós todos que O ENCONTRAMOS e O SEGUIMOS somos o rebanho que ele guia.

Mas por que Jesus usa exatamente esta imagem e não outra?

Basta recordar a parábola da ovelhinha perdida ou ainda a passagem quando Jesus diz que é o Bom Pastor que nunca abandonará as suas ovelhas como faria facilmente um mercenário?! Em todas estas circunstâncias, Jesus falava tendo diante de si pessoas que sabiam perfeitamente que tipo de cansaço e dedicação se requer para guiar um rebanho de ovelhas! Entre as pessoas que o escutavam, de fato, havia pastores e naquele tempo, o rebanho representava tudo para o pastor, porque era a única fonte de renda, de sobrevivência.

Durante a noite, os pastores tinham que proteger as ovelhas dos animais selvagens como os lobos, as raposas, e os ladrões que tentavam roubá-las; durante o dia, tinham que conduzir o rebanho a boas pastagens, a fim de que pudessem crescer e alimentar-se com abundância. É uma imagem que era bastante conhecida e difundida naquela época.

Mas para nós que quase nos desligamos do mundo rural, talvez seja difícil entender a relação que liga um pastor a seu rebanho. Talvez no melhor dos casos, poderíamos compreender um pouco quando em casa temos um cachorro ou um gato de estimação, dos quais cuidamos com carinho e que nos fazem companhia, mas a diferença é que eles não são essenciais para a nossa sobrevivência. Seria uma pena perdê-los, mas diferentemente dos pastores do tempo de Jesus que dependia das suas ovelhas para se sustentar, continuaríamos a viver normalmente.

Falando exatamente da imagem que nos oferece o Evangelho de João, é bom refletir também sobre o significado depreciativo às vezes damos à ovelha. A ovelha normalmente é descrita como sem caráter, como animais que seguem o patrão sem entender, enfim, muito tolas. Para piorar, as expressões mais em voga com o termo “ovelha” sempre assumem um significado ofensivo: é considerada uma ovelha uma pessoa rebelde: “ovelha negra”; ou uma pessoa que é sem iniciativa, um maria-vai-com-as-outras. Um rebanho de ovelhas é visto como uma massa anônima onde a personalidade de cada uma desaparece.

Na verdade, a ovelha é um animal dócil. Mas o aspecto que Jesus sublinha não é somente a docilidade destes animais. As ovelhas, não são predadoras, não caçam e não têm mecanismos de defesa como os outros animais; para crescer e se defender, confiam unicamente no seu pastor, para o qual recordamos são o bem mais precioso! Também embora sejam mansas e dóceis, as ovelhas sabem identificar aquele que pode salvá-las e que é disposto a vigiar durante a noite inteira para protegê-las dos perigos, aquele que está disposto a caminhar quilômetros para buscar pastagens melhores.

O bom pastor conhece cada uma de suas ovelhas, elas não são anônimas; ele se preocupa por cada uma delas, conta-as quando retornam ao curral a fim de que nenhuma se perca e se for o caso, deixa as outras para buscar aquela perdida.

O homem de hoje se sente sempre mais deprimido e frustrado como pessoa. O que o deprime, sobretudo, é a violência, a brutalidade da vida, a exploração dos pobres por parte dos ricos, a manipulação política da opinião pública com a finalidade de ganhar poder. O homem se sente só, contra todos e tudo, abandonado, perdido... como ovelha sem pastor.

A figura de Jesus como Bom Pastor inverte tudo isto. Jesus Pastor instaura uma relação pessoal com cada um de nós, relação de amor, de afeto; uma relação onde não é possível naufragar no anonimato. Ele nos conhece, nós o conhecemos. Sentimos a presença dele perto de nós em cada instante da nossa vida, interessado com amor na nossa aventura humana. Nós somos as ovelhas enfermas, cansadas, abandonadas, objeto para sempre da sua promessa e da sua bem-aventurança: “elas jamais se perderão”. Por nós, ele está disposto a dar a sua vida.

É um amor que se manifesta sob a forma de proteção: “ninguém vai arrancá-las de minha mão. Meu Pai, que me deu estas ovelhas, é maior que todos, e ninguém pode arrebatá-las da mão do Pai”. Estamos seguros nos braços de Jesus e ele, para que nos sintamos ainda mais protegidos, nos põe nas mãos do Pai. Estamos seguros nos braços do Bom Pastor, que nos conduz com amor. Somos chamados por Deus pelo nosso verdadeiro nome, assim como só Deus pode nos chamar: com a voz única de um Deus apaixonado pela sua criatura. As ovelhas podem escutar a sua voz, porque ele, obviamente, as chama. A voz expressa um apelo, caracterizado por um timbre pessoal que chama a uma pessoa em particular, a qual reconhece pela voz de quem a chama.

Portanto, Jesus não quer nos ofender comparando-nos à ovelhas, mas indicar as qualidades necessárias para permanecer na amizade com Ele: escutá-lo para poder reconhecer a sua voz, confiar nele e segui-lo seguros que nos conduzirá onde haverá o melhor para que nós tenhamos vida em plenitude!

 

Primeira leitura: Atos dos Apóstolos 13,14.43-52

EU O DESIGNEI PARA LEVAR A SALVAÇÃO ATÉ OS CONFINS DA TERRA

Esta perícope assinala um episódio chave do ministério de Paulo e da primeira difusão do cristianismo entre os pagãos: inicia-se a efetiva universalização da Igreja. Faz parte da primeira viagem missionária de Paulo e Barnabé depois de terem pregado em Chipre e convertido o procônsul Sérgio Paulo. Chegam em Perge e dali vão para a Antioquia da Pisídia. No sábado seguinte, Paulo fez seu primeiro discurso na Sinagoga. Foi um discurso solene. Nosso texto não relata o discurso, mas fala da opção de Paulo de se dirigir aos pagãos que o acolhem com entusiasmo.

Paulo anuncia o Evangelho aos judeus, primeiros depositários das promessas. Devido à Diáspora, eles estavam espalhados por todo o Império Romano, e tinham sinagogas nos lugares importantes. O discurso de Paulo teve um duplo efeito:

01) imediato e positivo, com a conversão de muitos judeus e simpatizantes pagãos, os prosélitos;

02) negativo, acontecido na semana seguinte com a reação dos judeus que tinham inveja de Paulo e Barnabé. Esta inveja fez com que ambos se dirigissem aos pagãos. Foi uma virada decisiva na pregação de Paulo e diante da atitude invejosa dos judeus se dá a alegria dos pagãos que abraçam a fé. Os judeus tinham inveja porque Paulo e Barnabé concorriam no proselitismo.

O texto manifesta a teologia lucana da universalidade da salvação, pois também os pagãos são chamados a fazer parte das promessas de Israel. É a primeira vez nos Atos que Paulo se dirige aos pagãos. Nas etapas seguintes, Paulo falará aos pagãos em Icônio, Tessalônica, Corinto, Éfeso e Roma. Por isso, o que fez em Antioquia constituiu uma espécie de protótipo da sua missão. Lucas lembra a mesma estratégia de Jesus, que rompeu com os judeus.

Na verdade, a negação dos judeus ao Evangelho não foi total. Muitos o aceitaram (Atos dos Apóstolos 2,41-47; 4,4; 6,1-7; 18,11; 28,24). Os judeus invejavam Paulo e Barnabé não porque perdiam judeus para o cristianismo, mas porque o cristianismo pregava a salvação para todos, sem exigir deles a observância da Lei, tirando deste povo o privilégio que sempre foi sua glória e o distinguia dos demais povos.

Para Lucas, a negação dos judeus não deve bloquear a obra da salvação para todos, já que Israel havia sido apontado como luz para as nações (Isaías 49,6).

O entusiasmo dos pagãos, a difusão surpreendente da Palavra, a alegria dos missionários na perseguição, o gesto de sacudir o pó dos pés indicam momentos felizes da obra missionária.

Os missionários não se intimidaram com as injúrias dos judeus. Ao contrário, encheram-se de ousadia (paresia) e revelaram o projeto de Deus sem temor.

Segunda leitura: Apocalipse 7,9.11-17

VI UMA GRANDE MULTIDÃO QUE NINGUÉM PODIA CONTAR

O texto faz parte da seção do Apocalipse que está sob o sinal dos sete selos que o Cordeiro pode romper, ele que é a chave para cumprir os desígnios de Deus. Antes da abertura do sétimo selo, João apresenta uma visão dupla: na terra, onde o povo de Deus se reúne no número perfeito de 144 mil, e no céu, onde se contempla a assembléia de todos os eleitos.

O texto, portanto, encerra a seção dos selos (Apocalipse 6,1-7.17). A abertura dos quatros primeiros selos mostra como é a humanidade, marcada pela ambição, violência, política e exploração econômica. No quinto selo, os mártires clamam por justiça e a abertura do sexto selo provoca a chegada do grande dia da ira (Apocalipse 6,17) e a intervenção do Cordeiro como resposta aos mártires. O grande dia da ira será terrificante e encerra o capítulo sexto com a pergunta: “Quem poderá ficar de pé?”.

O autor procura responder à pergunta abrindo uma janela para o presente e outra para o futuro, mostrando uma grande e festiva celebração no céu, da qual tomam parte pessoas de todas as tribos e nações, povos e línguas. João convida os cristãos em grande tribulação a contemplar a meta final de sua perseguição: uma grande e festiva liturgia em honra ao Cordeiro, numa atmosfera de alegria e triunfo. É a festa da multidão imensa reunida de todas as partes do mundo para participar da glória de Cristo, Cordeiro imolado e exaltado no Paraíso. Esta multidão estava de pé diante do trono, atitude que indica a vitória e o serviço ao rei, portanto a Deus. Tem as vestes brancas, que indicam o triunfo, cor que denota a vitória de Cristo ressuscitado. Tem palmas nas mãos, que indicam sinal de vitória (os generais romanos celebravam as vitórias de pé e com palmas nas mãos).

Quem são esses vitoriosos? De onde vieram? Qual foi sua vitória? Um ancião responde: “Estes são os que vieram da grande tribulação, que lavaram e alvejaram suas roupas no sangue do Cordeiro” (v.14). Tribulação significa resistência ativa às perseguições (alusão às perseguições de Nero e Dioclesiano; cf. Marcos 13,19; 2Tessalonicenses 2,10.12). São os que resistiram às injustiças, embora tenham morrido de forma violenta. O sangue do Cordeiro purifica suas vestes. É a eficácia do sacrifício de Cristo expiando os pecados. Pelo sangue do Cordeiro imolado e ressuscitado (1,5; 3,6.9; 12,11) foram libertados dos pecados e constituídos como povo de Deus (5,10; 20,6).

Evangelho: João 10,27-30

AS MINHAS OVELHAS OUVEM A MINHA VOZ

Este capítulo continua a temática do capítulo 9, que relata a cura do cego de nascença, evidenciando quem são os verdadeiros cegos: a instituição judaica, com seu aparato legal e seus articuladores políticos hostis a Jesus.

O episódio relatado neste capítulo se desenrola no Templo. É o epílogo do capítulo ambientado na festa dos Tabernáculos, na qual Jesus é apresentado diante dos chefes como o bom Pastor que conhece suas ovelhas e é conhecido por elas.

O contexto: são os últimos dias de Jesus na terra, quando os judeus procuravam motivos para matá-lo. Era durante a festa da Dedicação, celebrada em meados de dezembro. Nesta festa se comemorava a purificação do Templo profanado por Antíoco IV nos anos 167 a 164 a.C. Ele colocou uma estátua de Júpiter Olímpico no altar do holocausto. Esta festa também se associava à alegria e aos motivos da Festa das Cabanas. A leitura do capítulo 34 de Ezequiel naquela ocasião ofereceu a Jesus a oportunidade de se apresentar como bom Pastor que dá a vida por suas ovelhas. A festa da Dedicação (Hannukah) durava oito dias e na ocasião Jesus se encontrava nos Pórticos de Salomão.

Para João o cristão deve acolher Jesus, obedecer-lhe e aceitar a sua guia. Este é o primeiro sinal de que lhe pertence. Escutá-lo implica em que Jesus o conheça, ou seja, ame-o pessoalmente, e dispor-se a segui-lo, ser sua ovelha, aderir ao seu projeto. O resultado é a vida eterna com Deus. Assim se cumpre a vontade de Jesus de doar a sua vida para que todos possam ter a vida eterna. Jesus garante que não é um ladrão que veio trazer a ruína (João 10,10), nem um mercenário (João 10,12). À sua frente está o Pai, dono das ovelhas, que as confiou a ele para vigiá-las.

REFLEXÃO

Este é o domingo do bom Pastor, um título que não é romântico, mas algo denso de significado teológico e de implicações espirituais que merecem nossa reflexão. É o domingo dedicado às vocações.

Jesus é o bom Pastor que nos conduz para a vida eterna. Certamente a imagem do bom Pastor não é mais percebida em sua eficácia em nossa sociedade industrializada, mas é uma imagem muito antiga para exprimir, mesmo fora do mundo bíblico, a solicitude que um governante deve ter.

Nas antigas inscrições assírio-babilônicas e egípcias o rei era apresentado como Pastor e esta imagem era muito mais clara para os descendentes de Davi (Jeremias 23,4; Ezequiel 34).

Jesus se coloca como aquele que defende as ovelhas dos lobos com a força de Deus. Ele e o Pai são um e entre as ovelhas e o pastor existe um relacionamento de amor. Ele conhece as ovelhas e estas ouvem a sua voz. Jesus é o Cordeiro a quem devemos a vida por nos guiar à fonte da vida eterna, o Cordeiro que derramou seu sangue para expiar nossos pecados. Ele, o Servo sofredor, carregou nossos pecados.

Escutar a voz do Pastor implica a disposição de se deixar guiar por ele, ter diante dos olhos as indicações do Pastor, cuja voz ressoa de muitas maneiras (Palavra, santos, sacerdotes...).

O seguimento é, portanto, uma adesão prática, efetiva e real às indicações do pastor, sobretudo quando se tem a tentação de deixar-se guiar por outros guias.

O discurso de Pedro tem todas as conotações das homilias primitivas. É o anúncio do “kerigma”, o mistério pascal do Cristo morto, ressuscitado, elevado à glória e constituído Senhor de todas as coisas. Este anúncio foi dirigido a todos, mas muitos o rejeitaram, enquanto os pagãos e os gentios o aceitaram.

Este mesmo convite é feito a nós hoje. Somos convidados a abrir o coração e as portas de nossa vida a Deus que nos fala, convidando-nos a segui-lo, a escutar sua voz.

O discurso de Pedro na Pisídia não é o testemunho mais famoso por sua grandeza, mas talvez um dos mais explícitos, embora apresentado num quadro de humildade, mesmo porque Pisídia não era uma cidade importante e brilhante.

Jesus como bom Pastor exerce uma atividade ininterrupta de governo e direção em sua Igreja e, portanto, sobre nós. Ele guia e nutre seus fiéis com sua Palavra, o magistério, seu corpo e sangue e nos dá o seu Espírito.

Por surpreendente que possa parecer, o ministério de Jesus limitou-se quase que exclusivamente ao mundo judaico (Mateus 15,24). Por que a evangelização não se voltou aos pagãos desde o início? Por que ela, durante um certo tempo, limitou-se aos hebreus? A oferta da salvação foi oferecida primeiramente aos hebreus, porque a eles fora destinada havia milênios, porque este povo fora escolhido por Deus como ponte para o mundo pagão. “De Sião sairá a Lei e de Jerusalém a Palavra do Senhor” (Isaías 2,3). Por isso, no princípio, Paulo adotou o método de ir primeiro aos judeus (Atos dos Apóstolos 13,5-14; 14,1; 16,3; 17,2-10.17; 18,4-19; 19,8) e os apóstolos anunciaram primeiro aos judeus.

A mensagem do Evangelho de hoje é que Jesus é a fonte de vida para aqueles que o seguem. Para isso é preciso conhecê-lo como Pastor e ouvir sua voz. Os Atos dos Apóstolos aludem muitas vezes ao Messias como Bom Pastor que alimentará, regerá e governará o povo de Deus abandonado. Estas profecias se cumpriram em Jesus. Por isso, os primeiros cristãos manifestam uma grande predileção pela imagem do bom Pastor, atestada em inúmeras pinturas murais, relevos, desenhos em epitáfios, mosaicos e esculturas, nas catacumbas e nos veneráveis edifícios da Antigüidade.

padre José Antonio Bertolin, OSJ

 

Jesus é o Bom Pastor - João 10,27-30

O quarto domingo da Páscoa é dedicado à figura do Bom Pastor, que é para a Igreja primitiva a expressão do amor universal pelos homens. Estes, como ovelhas, pertencem ao pastor que as guarda com cuidado.

Reconhecendo a Sua voz, os homens seguem ao Senhor com fidelidade, aceitando o Evangelho e escutando a voz da Igreja - padres, bispos, papa - e todas as vozes ouvidas e traduzidas em vida e em obra.

A passagem do Evangelho do 4º domingo da Páscoa se passa em Jerusalém, por ocasião da festa da Dedicação que recorda a consagração do templo como o lugar onde se encontra Deus. Durante esta festa, faz-se a reflexão da passagem de Ezequiel, capítulo 34, onde Deus adverte sobre os maus pastores, aqueles que não cuidam bem de suas ovelhas, e por essa razão Jesus usa, em sua pregação, a figura do pastor: “Eu sou o Bom Pastor: conheço minhas ovelhas e elas me conhecem”.

Jesus divide a opinião das autoridades. Por um lado O acham louco, mas por outro ficam intrigados com os milagres que Ele realiza, e O questionam pedindo que diga abertamente se é o Messias. Jesus, então, fala claramente de sua unidade com o Pai, e suas palavras só são compreendidas por suas ovelhas. E, sob a acusação de blasfêmia, as autoridades tentam apedrejá-Lo.

Aquele que conduz as ovelhas é chamado de pastor. Jesus é o Bom Pastor, aquele que conduz e dá a vida por suas ovelhas. Todos os que ouvirem a Sua voz e O seguirem, participarão da mesma vida que Ele vive junto ao Pai. Fazer parte do rebanho de Cristo não é um privilégio dado a alguns, mas um dom oferecido a todos os homens que O aceitam. A confiança que Jesus tem no amor que O une ao Pai, Lhe dá a certeza que suas ovelhas jamais serão tiradas de suas mãos.

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O Pastor que dá a Vida

A liturgia do 4º domingo da Páscoa é marcada pelo Evangelho do Bom Pastor (Jo. 10,27-30). Diz Jesus: “Minhas ovelhas escutam a minha voz, eu as conheço e elas me seguem. Eu dou-lhes a vida eterna e elas jamais se perderão. E ninguém vai arrancá-las de minha mão”.

Pastor é aquele que vai à frente do rebanho para indicar o caminho, que conduz às pastagens e às nascentes de água.

Jesus, o Bom Pastor, é digno de fé. “Meu Pai, que me deu tudo, é maior que todos e ninguém pode arrebatá-las da mão do Pai. Eu e o Pai somos um” (Jo. 10,29-30). O Evangelho do Bom Pastor nos comunica alegria, paz, serenidade. O cristão pode proclamar jubiloso: “O Senhor é meu pastor, nada me falta” (Sl. 22). O maligno poderá até rodear ao derredor de nós, como alertou São Pedro (1Pd. 5,8), mas nada poderá contra aquele que Deus ama como sua ovelha predileta. Aí podemos dizer como São Paulo: “Se Deus é por nós, quem estará contra nós” (Rm. 8,31). Continua São Paulo: “E nós sabemos que Deus coopera em tudo para o bem daqueles que o amam…” (Rm. 8,28).

Quando São Pedro, no meio das primeiras perseguições aos cristãos, lhes escreveu para firmá-los na fé, recordou-lhes o que Cristo sofreu por eles: “Por suas chagas fostes curados, pois éreis como ovelhas desgarradas; mas agora retornastes ao Pastor e guarda de vossas almas” (1Pd 2, 24-25). Por isso, a Igreja inteira se enche de júbilo pela ressurreição de Jesus Cristo e pede a Deus Pai que o débil rebanho de seu Filho tenha parte na admirável vitória de seu Pastor.

Os primeiros cristãos manifestaram uma entranhada predileção pela imagem do Bom Pastor, testemunhada em inúmeras pinturas murais, relevos, desenhos em epitáfios, mosaicos e esculturas, nas catacumbas e nos mais veneráveis edifícios da Antiguidade. A liturgia deste domingo convida-nos a meditar na misericordiosa ternura do nosso Salvador, para que reconheçamos os direitos que Ele adquiriu sobre cada um de nós com a Sua morte. É também uma boa ocasião para considerarmos na nossa oração pessoal o nosso amor pelos bons pastores que o Senhor deixou para nos guiarem e guardarem o seu Nome.

Jesus é o Bom Pastor que dá a vida pelas suas ovelhas. Existe uma terna relação pessoal entre Jesus, o Bom Pastor, e as suas ovelhas: Ele chama cada uma pelo seu nome, caminha à frente delas, e as ovelhas o seguem porque conhecem a sua voz…

Podemos ter confiança! Cristo nos garante: “Eu mesmo dou a vida para elas… E ninguém vai arrancá-las de minhas mãos…”

Peçamos ao Senhor a graça para distinguirmos a voz do Bom Pastor. Para tal, temos que ter um confronto permanente com a Sua Palavra (Bíblia); participação nos Sacramentos, onde se nos comunica a Vida que o Pastor nos oferece; constante vida de oração, onde nos faz conhecer e reconhecer a sua voz.

É pelo testemunho dos seus discípulos que Jesus continua a ser o Bom Pastor no mundo inteiro, para todos os seres humanos. Ele exerce essa função de modo especial pelos ministros ordenados, bispos, padres e diáconos. Por isso, a Igreja neste Domingo reza pelas vocações, e o Papa nos lembra que o testemunho de sacerdotes fiéis a sua missão suscita vocações na Igreja. Diz o santo Padre, Bento XVI: “O testemunho suscita vocações. A fecundidade da proposta vocacional, de fato, depende em primeiro lugar da ação gratuita de Deus, mas, de acordo com a experiência pastoral, é favorecida também pela qualidade e riqueza do testemunho pessoal e comunitário de todos quantos já responderam ao chamado do Senhor no ministério sacerdotal e na vida consagrada. Pois o seu testemunho pode suscitar em outros o desejo de corresponder, por sua vez, com generosidade, ao apelo de Cristo”.

Continua o papa: “Elemento fundamental e reconhecível de toda vocação ao sacerdócio e à consagração é a amizade com Cristo. Jesus vivia em constante união com o Pai… A oração é o primeiro testemunho que suscita vocações.

Outro aspecto da consagração sacerdotal e da vida religiosa é o dom total de si a Deus.

Um terceiro aspecto que não pode faltar ao caracterizar o sacerdote e a pessoa consagrada é o viver a comunhão: “Nisto conhecerão todos que sois os meus discípulos: se vos amardes uns aos outros” (Jo 13, 35).

O próprio existir dos religiosos e das religiosas fala do amor de Cristo, quando esses O seguem com plena liberdade ao Evangelho e com alegria assumem os critérios de valor e comportamento. Tornam-se “sinais de contradição” para o mundo, cuja lógica, muitas vezes, é inspirada no materialismo, no egoísmo e no individualismo.

mons. José Maria

 

MENSAGEM DO SANTO PADRE PARA O 47º DIA MUNDIAL DE ORAÇÃO PELAS VOCAÇÕES

O testemunho suscita vocações.

Veneráveis Irmãos no episcopado e no sacerdócio, amados irmãos e irmãs!

O 47º dia mundial de oração pelas vocações, que será celebrado no IV domingo de Páscoa – domingo do «Bom Pastor» –, a 25 de abril de 2010, oferece-me a oportunidade de propor à vossa reflexão um tema que quadra bem com o ano sacerdotal: O testemunho suscita vocações. De fato, a fecundidade da proposta vocacional depende primariamente da ação gratuita de Deus, mas é favorecida também – como o confirma a experiência pastoral – pela qualidade e riqueza do testemunho pessoal e comunitário de todos aqueles que já responderam ao chamamento do Senhor no ministério sacerdotal e na vida consagrada, pois o seu testemunho pode suscitar noutras pessoas o desejo de, por sua vez, corresponder com generosidade ao apelo de Cristo. Assim, este tema apresenta-se intimamente ligado com a vida e a missão dos sacerdotes e dos consagrados. Por isso, desejo convidar todos aqueles que o Senhor chamou para trabalhar na sua vinha a renovarem a sua fidelidade de resposta, sobretudo neste Ano Sacerdotal que proclamei por ocasião dos 150 anos de falecimento de são João Maria Vianney, o Cura d’Ars, modelo sempre atual de presbítero e pároco.

Já no Antigo Testamento os profetas tinham consciência de que eram chamados a testemunhar com a sua vida aquilo que anunciavam, prontos a enfrentar mesmo a incompreensão, a rejeição, a perseguição. A tarefa, que Deus lhes confiara, envolvia-os completamente, como um «fogo ardente» no coração impossível de conter (cf. Jr. 20,9), e, por isso, estavam prontos a entregar ao Senhor não só a voz, mas todos os elementos da sua vida. Na plenitude dos tempos, será Jesus, o enviado do Pai (cf. Jo 5,36), que, através da sua missão, testemunha o amor de Deus por todos os homens sem distinção, com especial atenção pelos últimos, os pecadores, os marginalizados, os pobres. Jesus é a suprema Testemunha de Deus e da sua ânsia de que todos se salvem. Na aurora dos novos tempos, João Baptista, com uma vida gasta inteiramente para preparar o caminho a Cristo, testemunha que, se cumprem, no Filho de Maria de Nazaré, as promessas de Deus. Quando O vê chegar ao rio Jordão, onde estava a batizar, João indica-O aos seus discípulos como «o cordeiro de Deus, aquele que tira o pecado do mundo» (Jô. 1,29). O seu testemunho é tão fecundo que dois dos seus discípulos, «ouvindo o que ele tinha dito, seguiram Jesus» (Jô. 1,37).

Também a vocação de Pedro, conforme no-la descreve o evangelista João, passa pelo testemunho de seu irmão André; este, após ter encontrado o Mestre e aceite o seu convite para permanecer com Ele, logo sente necessidade de comunicar a Pedro aquilo que descobriu «permanecendo» junto do Senhor: «“Encontramos o Messias” (que quer dizer Cristo). E levou-o a Jesus» (Jô. 1,41-42). O mesmo aconteceu com Natanael – Bartolomeu –, graças ao testemunho de outro discípulo, Filipe, que cheio de alegria lhe comunica a sua grande descoberta: «Acabamos de encontrar Aquele de quem escreveu Moisés na Lei e que os Profetas anunciaram: é Jesus, o filho de José, de Nazaré» (Jô. 1,45). A iniciativa livre e gratuita de Deus cruza-se com a responsabilidade humana daqueles que acolhem o seu convite, e interpela-os para se tornarem, com o próprio testemunho, instrumentos do chamamento divino. O mesmo acontece, ainda hoje, na Igreja: Deus serve-se do testemunho de sacerdotes fiéis à sua missão, para suscitar novas vocações sacerdotais e religiosas para o serviço do seu Povo. Por esta razão, desejo destacar três aspectos da vida do presbítero, que considero essenciais para um testemunho sacerdotal eficaz.

Elemento fundamental e comprovado de toda a vocação ao sacerdócio e à vida consagrada é a amizade com Cristo. Jesus vivia em constante união com o Pai, e isto suscitava nos discípulos o desejo de viverem a mesma experiência, aprendendo d’Ele a comunhão e o diálogo incessante com Deus. Se o sacerdote é o «homem de Deus», que pertence a Deus e ajuda a conhecê-Lo e a amá-Lo, não pode deixar de cultivar uma profunda intimidade com Ele e permanecer no seu amor, reservando tempo para a escuta da sua Palavra. A oração é o primeiro testemunho que suscita vocações. Tal como o apóstolo André comunica ao irmão que conheceu o Mestre, assim também quem quiser ser discípulo e testemunha de Cristo deve tê-Lo «visto» pessoalmente, deve tê-Lo conhecido, deve ter aprendido a amá-Lo e a permanecer com Ele.

Outro aspecto da consagração sacerdotal e da vida religiosa é o dom total de si mesmo a Deus. Escreve o apóstolo João: «Nisto conhecemos o amor: Jesus deu a sua vida por nós, e nós devemos dar a vida pelos nossos irmãos» (1 Jo. 3,16). Com estas palavras, os discípulos são convidados a entrar na mesma lógica de Jesus que, ao longo de toda a sua vida, cumpriu a vontade do Pai até à entrega suprema de Si mesmo na cruz. Manifesta-se aqui a misericórdia de Deus em toda a sua plenitude; amor misericordioso que derrotou as trevas do mal, do pecado e da morte. A figura de Jesus que, na Última Ceia, Se levanta da mesa, depõe o manto, pega numa toalha, ata-a à cintura e Se inclina a lavar os pés aos Apóstolos, exprime o sentido de serviço e doação que caracterizou toda a sua vida, por obediência à vontade do Pai (cf. Jo 13,3-15). No seguimento de Jesus, cada pessoa chamada a uma vida de especial consagração deve esforçar-se por testemunhar o dom total de si mesma a Deus. Daqui brota a capacidade para se dar depois àqueles que a Providência lhe confia no ministério pastoral, com dedicação plena, contínua e fiel, e com a alegria de fazer-se companheiro de viagem de muitos irmãos, a fim de que se abram ao encontro com Cristo e a sua Palavra se torne luz para o seu caminho. A história de cada vocação cruza-se quase sempre com o testemunho de um sacerdote que vive jubilosamente a doação de si mesmo aos irmãos por amor do Reino dos Céus. É que a presença e a palavra de um padre são capazes de despertar interrogações e de conduzir mesmo a decisões definitivas (cf. João Paulo II, Exort. ap. pós-sinodal Pastores dabo vobis, 39).

Um terceiro aspecto que, enfim, não pode deixar de caracterizar o sacerdote e a pessoa consagrada é viver a comunhão. Jesus indicou, como sinal distintivo de quem deseja ser seu discípulo, a profunda comunhão no amor: «É por isto que todos saberão que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros» (Jo 13,35). De modo particular, o sacerdote deve ser um homem de comunhão, aberto a todos, capaz de fazer caminhar unido todo o rebanho que a bondade do Senhor lhe confiou, ajudando a superar divisões, sanar lacerações, aplanar contrastes e incompreensões, perdoar as ofensas. Em julho de 2005, no encontro com o clero de Aosta, afirmei que os jovens, se virem os sacerdotes isolados e tristes, com certeza não se sentirão encorajados a seguir o seu exemplo. Levados a considerar que tal possa ser o futuro de um padre, vêem aumentar a sua hesitação. Torna-se importante, pois, realizar a comunhão de vida, que lhes mostre a beleza de ser sacerdote. Então, o jovem dirá: «Isto pode ser um futuro também para mim, assim pode-se viver» (Insegnamenti, vol. I/2005, 354). O Concílio Vaticano II, referindo-se ao testemunho capaz de suscitar vocações, destaca o exemplo de caridade e de fraterna cooperação que devem oferecer os sacerdotes (cf. Decreto Optatam totius, 2).

Apraz-me recordar o que escreveu o meu venerado predecessor João Paulo II: «A própria vida dos padres, a sua dedicação incondicional ao rebanho de Deus, o seu testemunho de amoroso serviço ao Senhor e à sua Igreja – testemunho assinalado pela opção da cruz acolhida na esperança e na alegria pascal –, a sua concórdia fraterna e o seu zelo pela evangelização do mundo são o primeiro e mais persuasivo fator de fecundidade vocacional» (Pastores dabo vobis, 41). Poder-se-ia afirmar que as vocações sacerdotais nascem do contacto com os sacerdotes, como se fossem uma espécie de patrimônio precioso comunicado com a palavra, o exemplo e a existência inteira.

Isto aplica-se também à vida consagrada. A própria existência dos religiosos e religiosas fala do amor de Cristo, quando O seguem com plena fidelidade ao Evangelho e assumem com alegria os seus critérios de discernimento e conduta. Tornam-se «sinais de contradição» para o mundo, cuja lógica frequentemente é inspirada pelo materialismo, o egoísmo e o individualismo. A sua fidelidade e a força do seu testemunho, porque se deixam conquistar por Deus renunciando a si mesmos, continuam a suscitar no ânimo de muitos jovens o desejo de, por sua vez, seguirem Cristo para sempre, de modo generoso e total. Imitar Cristo casto, pobre e obediente e identificar-se com Ele: eis o ideal da vida consagrada, testemunho do primado absoluto de Deus na vida e na história dos homens.

Fiel à sua vocação, cada presbítero, cada consagrado e cada consagrada transmite a alegria de servir Cristo, e convida todos os cristãos a responderem à vocação universal à santidade. Assim, para se promoverem as vocações específicas ao ministério sacerdotal e à vida consagrada, para se tornar mais forte e incisivo o anúncio vocacional, é indispensável o exemplo daqueles que já disseram o próprio «sim» a Deus e ao projeto de vida que Ele tem para cada um. O testemunho pessoal, feito de opções existenciais e concretas, há-de encorajar, por sua vez, os jovens a tomarem decisões empenhativas que envolvem o próprio futuro. Para ajudá-los, é necessária aquela arte do encontro e do diálogo capaz de os iluminar e acompanhar sobretudo através do exemplo de vida abraçada como vocação. Assim fez o santo Cura d’Ars, que, no contacto permanente com os seus paroquianos, «ensinava sobretudo com o testemunho da vida. Pelo seu exemplo, os fiéis aprendiam a rezar» (Carta de proclamação do ano sacerdotal, 16/06/2009).

Que este dia mundial possa oferecer, uma vez mais, preciosa ocasião para muitos jovens refletirem sobre a própria vocação, abrindo-se a ela com simplicidade, confiança e plena disponibilidade. A Virgem Maria, Mãe da Igreja, guarde o mais pequenino gérmen de vocação no coração daqueles que o Senhor chama a segui-Lo mais de perto; faça com que se torne uma árvore frondosa, carregada de frutos para o bem da Igreja e de toda a humanidade. Por esta intenção rezo, enquanto concedo a todos a Bênção Apostólica.

Vaticano, 13 de novembro de 2009

BENEDICTUS PP. XVI