
|
Venho fazer tua vontade A liturgia clama pela vinda do Salvador: "Derramai, ó céus, lá do alto, o vosso orvalho... Abra-se a terra e produza a salvação" (Is. 44,8). Deus nos deu um Salvador, Jesus. Na oração da missa de hoje pedimos: "Derramai, ó Deus, a vossa graça em nossos corações, para que, conhecendo pela mensagem do Anjo a Encarnação do vosso Filho, cheguemos, por sua Paixão e Cruz, à glória da Ressurreição". Celebramos o único mistério de Cristo que celebra sua Manifestação. O mistério pascal de Cristo acontece em sua amorosa "obediência" à vontade do Pai, como proclama a carta aos Hebreus: "Ao entrar no mundo ele afirmou: Eis-me aqui! Eu vim ó Deus para fazer tua vontade. Graças a esta vontade é que somos santificados" (Hb. 10,5 - 10). Maria participa deste mistério de obediência ao dizer: "Faça-se em mim segundo a tua palavra" (Lc. 1,38). Torna-se cheia do Espírito Santo. A Palavra viva no seio de Maria comunica a Isabel o Espírito que faz exultar o menino João. Ela é a arca da aliança que tem a presença de Deus. Isabel, cheia do Espírito, proclama a bem-aventurança da fé que acontece em Maria: "Bem-aventurada aquela que acreditou, porque será cumprido o que o Senhor lhe prometeu". Em Maria, é toda a humanidade que acolhe o Salvador. Em Isabel, toda humanidade proclama a fé de Maria. A redenção chega a todo o universo por Jesus que nos vem pela Mãe do Senhor. O Espírito que fecundou o seio de Maria e encheu de júbilo Isabel e o menino que estava em seu seio, fecunda sua Igreja na celebração do Natal para que ela, fiel como Maria, possa acolhê-lo e manifestá-lo. Comunidade de amor Não podemos contemplar a cena da visita de Maria a Isabel como uma cena de comadres que se ajudam na gravidez de um menino temporão. A primeira caridade é levar a graça da salvação. A visita é a celebração da efusão do Espírito e da bem-aventurança da fé de Maria, a Filha de Sião, ícone de toda humanidade grávida do Filho de Deus. Em Maria se realiza a profecia de Isaias: "Ele será chamado Emanuel, que quer dizer, Deus conosco" (Is. 7,14 e Mt. 1,23). O gesto amoroso de Maria para com sua prima é uma irrupção do Espírito. Todo gesto de amor que a comunidade dos fieis realiza, será sempre uma presença do Espírito que continua dando a certeza que Deus não nos abandona, como ouvimos em Miquéias (Mq. 5,2). Somos convidados a deixar que o Espírito irrompa em nossa vida, e que nos tornemos dóceis à Palavra divina que traz o Salvador. Como Maria a Igreja diz: "eis a serva do Senhor!" (Lc. 1,38). Neste momento o Espírito Santo gera nela o Filho de Deus. Natal, um mistério de obediência A obediência recebeu uma marca negativa no correr da história. A obediência de Jesus que contemplamos na segunda leitura é a abertura à vontade de Deus. Procurar a vontade de Deus é ser obediente. A vontade de Deus não escraviza ou coíbe os projetos humanos. Ela promove o ser humano, como conduziu Jesus à plena realização do projeto de Deus e se tornou para nós redenção e santificação. Celebrar o Natal é abrir-se e acolher a manifestação da eficaz misericórdia de Deus, como escreve Paulo a Tito (Tt. 2,11). Ela nos ensina a assumir um modo de vida correspondente ao que Cristo ensinou em seu Natal. Pela obediência de Cristo somos santificados; por nossa abertura a Deus vivemos este mistério. 1. A liturgia clama pela vinda do Salvador. O mistério do Natal é o único mistério Pascal de Cristo em sua dimensão de Manifestação que acontece em sua amorosa obediência à vontade do Pai. Maria participa deste mistério com sua obediência: "Faça-se em mim". É repleta do Espírito Santo. A Palavra comunica o Espírito a João. Ela proclama a fé de Maria. A redenção chega ao universo por Jesus que nos vem pela Mãe do Senhor. O mesmo Espírito fecunda a Igreja na celebração do Natal para acolhê-lo e manifestá-lo. 2. A visita de Maria a Isabel não é uma cena de comadres que se ajudam. A primeira caridade é levar a graça da Salvação. A visita é a celebração da efusão do Espírito e da bem-aventurança da fé de Maria, ícone da humanidade grávida do Filho de Deus. Todo gesto de amor é uma irrupção do Espírito que dá a certeza de que Deus não nos abandona. 3. A obediência de Cristo é abertura à vontade de Deus. Procurar a vontade de deus é ser obediente. A obediência não escraviza. Ela liberta e conduz à plena realização do projeto de Deus e se torna santificação. Celebrar o Natal é abrir-se e acolher a manifestação da misericórdia de Deus. Pela obediência de Cristo somos santificados; por nossa abertura a Deus vivemos este mistério. Conversa de mulheres E que conversa boa! Estamos na preparação próxima do Natal. A liturgia faz-nos conhecer melhor aquele que há de vir. Lemos hoje, no evangelho, a visita de Maria a Isabel. Esta visita não se trata só de um gesto natural de alguém que faz a grande caridade de ajudar uma senhora que dá à luz. Maria leva no seio o Salvador que dá o Espírito a João, seu primo. Isabel, cheia do Espírito Santo, proclama a presença de Deus em Maria. Chama-a de Mãe de Deus. O Menino que está no seio de Maria cumpre a vontade do Pai, cumpre a profecia: Ele nascerá em Belém e estabelecerá a paz! As leituras são um grito de júbilo da Igreja que reconhece o Salvador presente em seu seio e no coração de seus filhos. padre Luiz Carlos de Oliveira |
|
As comunidades cristãs, pequeno resto, reúnem-se para celebrar este evento libertador: o nascimento, morte e ressurreição de Jesus, que, em seu corpo, nos santificou e libertou, perdoando nossos pecados. A melhor resposta que podemos dar-lhe, neste tempo de Advento, é esta: “Estamos aqui para fazer a tua vontade” (2º leitura). A comunidade reunida, o pão partilhado, são sinais visíveis de que o mundo novo está começando com os que se comprometem com o reino de Deus. Na celebração sentimos que a realeza de Cristo se traduz na partilha do seu ser com os empobrecidos, criando a paz. Como Isabel, nós também perguntamos: “Como posso merecer que… o meu Senhor me venha visitar?” A proximidade do Deus que se faz pão e palavra de vida nos leva a exultar como João Batista no seio de sua mãe. Deus veio morar entre os empobrecidos. Encarnou-se neles para salvá-los! 1º leitura (Mq. 5,1 - 4a): Surgimento do poder popular Miquéias exerceu sua atividade profética contemporaneamente a Isaías, em Judá. O seu foi um tempo difícil, caracterizado pela corrupção do poder e das lideranças, pela idolatria, que tem nos “porta-vozes palacianos” (profetas a serviço do poder político e econômico) seu ponto de sustentação, e pelo empobrecimento crescente do povo. Nesse tempo, Jerusalém, capital e sede do poder, está para ser tomada pelos inimigos. O capítulo 5 de Miquéias é um clássico da teologia messiânica. Os estudiosos discutem se esse capítulo é da autoria do profeta ou se foi acrescido posteriormente. É mais provável que seja um oráculo – surgido dos meios populares rurais – acrescentado mais tarde. De fato, o trecho fala de um soberano que reina a partir dos pobres, rompendo com a ideologia palaciana central. Esse oráculo messiânico serviu de inspiração para as camadas empobrecidas da sociedade. Embora não saibamos exatamente quando surgiu, é possível perceber nele um texto que critica e anula o tipo de poder que se instalou em Jerusalém, poder que traiu os objetivos da realeza davídica. O oráculo de hoje, portanto, poderia ter surgido das camadas populares às vésperas do exílio, ou do povo pobre que ficou no território durante o exílio, ou, ainda, entre os que, a duras penas, tiveram de reconstruir o país após o exílio. Isso é confirmado pelo fato de o texto hebraico ter sofrido muitos acertos e correções, o que torna impossível, hoje, uma tradução única. O oráculo se inicia privilegiando Belém, uma aldeia do interior, desprezível aos olhos da corte instalada em Jerusalém. Essa localidade, pequena entre as vilas de Judá, será pátria daquele que vai governar Israel (v. 1). A salvação, portanto, não vem da capital e do poder aí instalado; vem da roça, exatamente como no início da monarquia em Israel, quando Deus escolheu Davi, um jovem pastor, para organizar e salvar seu povo. De fato, Belém era a cidade natal de Davi. Deus, portanto, mantém-se fiel à promessa davídica, conservando-lhe um descendente no trono (cf. 2 Sm. 7), mas muda completamente o modo de exercer o poder: será um poder popular, à semelhança do de Davi, em torno do qual se uniram os descontentes e explorados pelo poder absolutizado. O v. 2 fala da restauração do povo. O profeta não acena para a época em que isso vai acontecer. Mostra, simplesmente, dois sinais: o da mulher que dá à luz e a volta dos exilados. Os dois sinais falam de vida nova e de nova sociedade: a mulher que dá à luz (que pode ser entendida em sentido coletivo; seria, então, símbolo de nova sociedade) e o retorno dos exilados vão marcar tempos novos para o povo de Deus. Isso vai ocorrer graças ao soberano que reina a partir dos pobres, instaurando novo modo de exercer o poder. Evocando a memória de Davi, o rei-pastor, o v. 3 descreve as qualidades do poder popular. É poder a serviço do bem e da segurança do povo. Recupera-se, dessa forma, o ideal da realeza em Israel: defesa dos interesses populares mediante a conservação das fronteiras do país e mediante o exercício da justiça em favor dos pobres e oprimidos. Os reis tiranos de Judá (e de Israel) mantinham-se no poder graças à ideologia palaciana de apoio (falsos profetas) e por meio da violência. O novo soberano terá outro tipo de sustentação: a força de Javé e o nome glorioso do Senhor Deus. O Deus libertador (Javé) vai conservar no trono o poder que defende os interesses e reivindicações das massas empobrecidas. O domínio desse rei será total (até os confins da terra) e o povo viverá em segurança. O poder popular vai trazer a plenitude dos bens (paz = shalom) para todo o povo (v. 4a). Evangelho (Lc. 1,39 - 45): A salvação nasce dos pobres Lc. 1,39 - 45 é a seção que costumamos chamar “a visita de Maria a Isabel”. Pertence aos relatos do nascimento e infância de Jesus. A preocupação central de Lucas não é demonstrar como as coisas aconteceram. Ele pretende fazer uma releitura dos fatos à luz do evento da morte-ressurreição de Jesus, a fim de iluminar a caminhada das primeiras comunidades cristãs. Não se trata, pois, de curiosidade histórica, mas de leitura teológica. Com isso, os primeiros cristãos vibravam intensamente com o fato de a salvação nascer dos pobres. A Trindade se revela nos pobres Na anunciação, o anjo informara Maria a respeito da gravidez de Isabel, com a garantia de que nada é impossível para Deus (1,37). Ao declarar-se serva do Senhor (v. 38), Maria concebe Jesus e, como sinal do seu serviço, dirige-se apressadamente à casa de Zacarias, ao encontro de Isabel (vv. 39 - 40). A cena mostra o encontro de duas mães agraciadas com o dom da fecundidade e da vida (Isabel, além de idosa, era estéril; Maria não teve relações com nenhum homem). O trecho mostra também o encontro de duas crianças, o Precursor e o Salvador, sob o dinamismo do Espírito Santo. Jesus fora concebido por obra do Espírito; João Batista exulta no seio de Isabel, que, cheia do Espírito Santo, proclama Maria bendita e bem-aventurada. Bendita porque missionária; bem-aventurada porque crê na palavra do Senhor. Simplesmente discípula, serva do Senhor e servidora do povo. A cena mostra, sobretudo, que a Trindade se revela nos pobres e faz deles sua morada permanente. O Pai havia revelado a Maria o dom feito a Isabel, a marginalizada porque estéril, a que já não tinha esperanças de vida porque idosa e incapaz de conceber; o Espírito revela a Isabel que Maria, a serva do Pai, se tornou “mãe do Senhor” (v. 43). Assim a Trindade entra na casa dos pobres humilhados que esperam a libertação. Nesse sentido, é interessante esclarecer o significado dos nomes das personagens envolvidas na cena: Jesus (= Deus salva); João (= Deus é misericórdia); Zacarias (= Deus se lembrou); Isabel (= Deus é plenitude); Maria (= a amada). Em síntese, os pobres proclamam a misericórdia do Deus que se lembra dos pobres e vem morar com eles porque os ama, trazendo-lhes a plenitude da salvação. b. Deus fecunda a fé As palavras de Isabel a Maria (vv. 42b - 45) se inspiram nos elogios das mulheres libertadoras do Antigo Testamento: Jael (“Que Jael seja bendita entre as mulheres”, Jz. 5,24) e Judite (“Ó filha, bendita sejas para Deus altíssimo, mais que todas as mulheres da terra”, Jt 13,18). Abraão, pai dos que creem, também é bendito (cf. Gn. 12,2 - 3). O v. 42b se inspira, ainda, nas promessas de vida a Israel (“Será bendito o fruto do teu ventre” - Dt. 28,4). Isabel proclama Maria bendita, ou seja, abençoada. Na Bíblia, as pessoas abençoam (benzem ou bendizem) quando descobrem a presença do Deus que salva. Maria é motivo de bênção porque se tornou o lugar privilegiado em que se experimenta Deus. O Antigo Testamento (Isabel e João) abençoa o Novo (Maria e Jesus). O Antigo Testamento reconhece a nova humanidade que está se formando no seio de Maria, o lugar privilegiado em que se experimenta Deus. A expressão de alegria de Isabel ao acolher Maria (“Como posso merecer que a mãe do meu Senhor me venha visitar?”) recorda o espanto de Davi ao acolher a Arca: “Como virá a Arca de Javé para ficar na minha casa?” (2 Sm. 6,9). Com base nesse paralelismo, a mariologia tradicional vê em Maria a arca da nova aliança, por ser ela a mãe do menino chamado Santo, Filho de Deus (Lc. 1,35). A exultação de João no seio de Isabel (v. 44) é a alegria do povo de Deus pela vinda do Messias. Com esse fato, Lucas quis registrar a realização das expectativas messiânicas: a misericórdia de Deus se revela agora em Jesus, que vem para salvar (cf. 1º leitura). O elogio de Isabel a Maria vai além da maternidade física. A bem-aventurança de Maria (v. 45) é ter acreditado que as coisas ditas pelo Senhor iriam se cumprir. Isso está em perfeita sintonia com o Evangelho de Lucas, em que ela aparece como modelo do discípulo. O próprio Jesus afirma haver uma bem-aventurança que supera a da maternidade física: “Felizes, antes, os que ouvem a palavra de Deus e a observam” (cf. 11,27 - 28). Maria, a escrava do Senhor (1,28), merece a bem-aventurança dos ouvintes cristãos aos quais Lucas, em At. 2,18, chama de servos e servas do Senhor. 2º leitura (Hb. 10,5 - 10): Jesus, a oferta que agrada ao Pai e santifica as pessoas O texto de Hebreus foi escrito para “um grupo de cristãos que se acham em grande perigo de rejeitar a fé em Jesus como revelador e portador da salvação. Eles sentem dificuldade em aceitar tanto a forma humilhante e dolorosa da aparição terrestre de Jesus (Hb. 2) como os próprios sofrimentos que estão tendo de suportar por serem cristãos (10,32ss; 12,3ss) e ainda a desilusão de não verem realizada a salvação final (10,36s; 3,14; 6,12). Por outro lado, parece que a religião do Antigo Testamento exerce forte influência nesse grupo. Pode-se supor que sejam judeus convertidos da comunidade cristã de Roma. O escrito é de grande importância no quadro geral do Novo Testamento, pelo fato de apresentar Jesus como aquele que supera a instituição cultual do Antigo Testamento… O único fato salvador a obter uma vez por todas o perdão é o sacrifício de Jesus, que derramou seu sangue e entregou sua vida por nós. Jesus é, portanto, o único mediador entre Deus e os homens. Doravante, ele é o único santuário e sacerdote, e o sacrifício por ele realizado é, daqui por diante, o único agradável a Deus (9,11 - 14)” Os versículos deste domingo pertencem à parte central do texto (5,11 - 10,39), cujo tema é o valor sem igual do sacrifício de Cristo. O autor apresenta a tríplice incapacidade da Lei: 1. Ela possui apenas a sombra dos bens futuros (10,1); 2. O sangue dos sacrifícios que ela prescreve – imolação de touros e bodes – é incapaz de eliminar os pecados do povo; 3. Os sacerdotes que presidem esses sacrifícios são incapazes de eliminar os pecados. Isso deveria ser motivo de consternação e desânimo para a comunidade cristã se Deus não tivesse, em Jesus, apresentado a definitiva novidade libertadora. O texto deste domingo quer mostrar a novidade do único sacrifício de Jesus. O autor se esmera em trazer provas indiscutíveis: o testemunho do Antigo Testamento. Diante da incapacidade dos sacrifícios e oferendas antigos de libertar as pessoas de seus pecados, Deus dá um corpo a Jesus. E é em seu corpo, entregue à morte, que ele realiza a vontade do Pai. A prova escriturária do Antigo Testamento que o autor apresenta é o Salmo 40,6 - 8 (cf. Hb. 10,5 - 8). Esse salmo é uma ação de graças em que o fiel agradece a Deus a libertação obtida gratuitamente. Como, pois, agradecer a Deus? Mediante sacrifícios no Templo? Não. O salmista aponta a novidade da ação de graças: reconhece a salvação gratuita de Deus e, como resposta, entrega-se pessoalmente, disposto a cumprir a vontade divina. O autor aplica esse salmo à missão de Jesus: “Tu não quiseste e não te agradaram sacrifícios, oferendas, holocaustos e sacrifícios pelo pecado. Trata-se de oferendas prescritas pela Lei!” (Hb. 10,8). Jesus, em seu corpo, supera o complexo sistema sacrifical do Antigo Testamento, inaugurando a novidade e a unicidade do seu sacrifício – ele se entrega pessoalmente para remir o povo: “Aqui estou eu para fazer a tua vontade” (v. 9). Pela oferenda do corpo de Jesus Cristo, realizada uma vez para sempre, os cristãos são santificados e recebem o perdão de seus pecados (v. 10). www.paulus.com.br |
|
DE VOCÊ, BELÉM, VAI SAIR O VENCEDOR Miquéias foi um profeta contemporâneo de Isaías em Judá (século VIII a.C.). Tempo difícil contaminado pela corrupção do poder e das lideranças, pela idolatria, com os profetas a serviço da burocracia, tendo nas vozes palacianas o seu ponto de apoio. Tempo de grande empobrecimento do povo. Neste contexto, Jerusalém, capital do poder, estava nas mãos dos inimigos. Este capítulo é um clássico da teologia messiânica. Provavelmente seja um oráculo surgido nos meios rurais e reelaborado no pós-exílio. Portanto, é um acréscimo. Este oráculo serviu de inspiração para os mais pobres, e critica o poder em Jerusalém, que traiu os objetivos da realeza davídica. O oráculo privilegia Belém, aldeia desprezível para a corte instalada em Jerusalém. A salvação vem da periferia, e não do poder instalado. Belém será a pátria daquele que vai governar Israel. A salvação não vem do poder instalado na capital. Deus é fiel à promessa de um descendente davídico (2 Samuel 7). Miquéias não diz quando isso acontecerá, mas indica dois sinais: a) uma mulher que dará à luz; b) a volta dos exilados. Belém de Éfrata e Davi filho de um efrateu (1 Samuel 17,12). Belém, onde não moravam nem mil pessoas substituem a cidade real. O descendente de Davi herdará com justiça, servindo o povo, não como os reis tiranos de Judá e Israel, que mantinham o poder com a ideologia palaciana e a violência. O novo rei será sustentado pela força de Javé. Deus o conservará no trono para defender os oprimidos. Seu domínio será total e fará reinar a plenitude da paz (Shalom). Segunda Leitura: Hebreus 10,5-10 Ó DEUS, EU VENHO PARA FAZER A TUA VONTADE Esta carta foi escrita para o grupo de cristãos que corriam o perigo de rejeitar a fé em Jesus como portador da salvação. Sentiam dificuldade em aceitar a forma humilhante e dolorosa de sua aparição (Hebreus 2), bem como o sofrimento que passavam por serem cristãos (Hebreus 10,32ss; 12,3ss), e sentiam a desilusão de não ver a salvação final realizada (Hebreus 10,36ss; 3,4). Por outro lado, parece que a religião do Antigo Testamento exercia forte influência sobre este grupo. Ele era formado por judeus convertidos à comunidade de Roma. A carta mostra Jesus como aquele que superou o Antigo Testamento, como o único mediador entre Deus e os homens. É uma homilia sobre o sacerdócio de Jesus, que supera o do Levítico. Ele não realizou seu sacrifício no santuário, mas na carne (Hebreus 5,7). O autor apresenta uma tríplice incapacidade da Lei: 01) ela possui apenas as sombras dos bens futuros (Hebreus 10,1); 02) com o sangue do sacrifício e das imolações é impossível eliminar os pecados; 03) os sacerdotes são incapazes de eliminar os pecados. Nosso texto mostra a novidade única do sacrifício de Cristo, apresentando Jesus como cumpridor da vontade de Deus. Jesus pode perdoar os pecados porque se ofereceu como vítima a Deus. Supera com seu corpo o complexo sacrificial do Antigo Testamento, entregando-se pessoalmente para remir o povo. Para explicitar, o autor cita o Salmo 40,7 - 9, que expressa a gratuidade de Deus por ter livrado dos males o rei Davi não com sacrifícios de animais, mas com a obediência à sua vontade. Para os hebreus, este trecho em chave cristológica ou messiânica manifesta a plena adesão de Cristo ao projeto do Pai. O autor toma o tema da tradição deuteronomista, que ensinava que a essência do sacrifício consiste na obediência e não no ritual externo. Por isso, esta novidade trazida por Cristo também deve ser aceita pelo judaísmo. Evangelho: Lucas 1,39 - 45 MARIA VISITA ISABEL O trecho pertence ao relato do Evangelho da Infância de Jesus. Lucas faz uma leitura teológica dos acontecimentos, portanto não é uma curiosidade histórica. Com o “Fiat” (Sim) de Maria, Jesus se encarnou e Maria, após concebê-lo, vai prestar seu serviço à prima Isabel. Isabel é indicada a Maria como sustentáculo de sua fé. Se ela está velha, é estéril e pode ver seu seio reflorir e dar a vida, Maria também pode reconhecer a maternidade simultânea à sua virgindade. Para Deus nada é impossível. Assim, ela reconhece em sua carne o poder do Altíssimo. A cena das duas mães agraciadas com o dom da fecundidade e da vida também mostra o encontro de duas crianças: o precursor e o salvador. Jesus concebido pelo Espírito Santo e João Batista exulta no seio de sua mãe, que cheia do Espírito Santo proclama Maria bem-aventurada. As palavras de Isabel a Maria se inspiram nos elogios das mulheres libertadoras do Antigo Testamento: Jael - “Bendita entre as mulheres seja Jael" (Juízes 5,24), e Judite - “Ó filha, bendita sejas para o Deus Altíssimo, mais que todas as mulheres da terra” (Judite 13,18). Deus mostra sua preferência pelos pequenos. De fato, o nome dos personagens significa: Jesus - Deus salva; João - Deus é misericórdia; Zacarias - Deus se lembrou; Isabel - Deus é plenitude; e Maria - a amada. Isabel proclama Maria bem-aventurada. No Antigo Testamento as pessoas abençoam alguém quando descobrem a presença de Deus nela. Maria é o lugar privilegiado onde Deus é sentido. A alegria de Isabel se manifesta da mesma forma como o espanto de Davi ao acolher a arca (2 Samuel 6,9; 1 Crônicas 15,16), por isso Maria é a Arca da nova Aliança. A exultação de João Batista no seio de Isabel é a alegria do povo de Deus pela vinda do Messias. O elogio de Isabel a Maria vai além de sua maternidade física. Ela é bem-aventurada porque acreditou no Senhor (Lucas 11,27 - 28). A viagem de Maria pelas montanhas de Judá reproduz simbolicamente o percurso da Arca da Aliança de Kiriat-Iearim a Jerusalém. Ambos os percursos se caracterizam por manifestações de alegria que saúdam a vinda da Arca a Jerusalém e a chegada de Maria. Depois da chegada, Davi abençoa o povo em nome do Senhor. Também Isabel abençoa Maria e o fruto do seu ventre. Davi recebe a Arca e exclama: “Como pode o Senhor vir até junto de mim?”. Também Isabel: “Como pode a mãe do meu Senhor vir até mim?”. A Arca permaneceu três meses na casa de Obed-Edom (2 Samuel 6,11). Maria permanece três meses na casa de Isabel (Lucas 1,56). Davi canta um canto de louvor (1 Crônicas 16,8-36). Maria canta o Magnificat. A casa de Isabel ficava a 150 km de Nazaré e a 6 km de Jerusalém. Em Maria a fé é atitude de abertura e disponibilidade incondicional diante de Deus. É serviço pleno ao Filho de Deus e à sua obra redentora (Lumen Gentium 56). É também solicitude maternal por todos os homens. Maria, ao aceitar a mensagem divina, converteu-se em Mãe de Jesus (Lumen Gentium 56). Por sua fé ela é a primeira crente, a primeira discípula do Senhor, a primeira cristã da Igreja. REFLEXÃO Como sempre, neste último domingo do Advento a liturgia nos apresenta a figura de Maria, porque ninguém melhor do que ela pode nos ensinar a preparação para o Natal. Este domingo é tipicamente mariano. A liturgia está centrada em sua exemplaridade no mistério da Visitação. Aquilo que no momento da Anunciação estava escondido na profundidade da obediência da fé se manifesta agora em uma clara, vivificante chama do Espírito. As palavras de Maria ditas à soleira da porta de Isabel constituem uma inspirada profissão de fé na qual a resposta à Palavra da revelação se exprime com a elevação religiosa e poética de todo o seu ser para Deus. O Natal está próximo, e não nos bastam mais os profetas do Antigo e do Novo Testamento que nos acompanharam nos últimos dias para nos introduzir na gruta do mistério de Jesus. Agora a própria Mãe de Jesus está presente. O encontro com Isabel é a expressão daquilo que será a vida de um cristão que aceita a vinda do Redentor em sua vida. Qual é a novidade do cristianismo? A inserção de Deus na história dos homens, superando todas as perspectivas sagradas que mostravam a salvação na mentalidade do tempo e nas tradições. Esta novidade nos é apresentada pelo texto de Hebreus e diz que não são as ofertas e os sacrifícios que agradam a Deus, mas o cumprimento de sua vontade. Miquéias anunciou sete séculos antes que o Messias nascerá em Belém, povoado perdido e desconhecido. Fala-nos que uma mulher dará à luz um menino de modo misterioso. Deus visitou muitas vezes o seu povo no Antigo Testamento para salvar, perdoar, corrigir e punir, porém sua visita primordial é a da encarnação, na qual ele veio pessoalmente através de seu Filho, “para nós, homens, e para nossa salvação...” Jesus visita primeiro Maria, que o acolhe na fé, aceitando o mistério do seu nascimento, abandonando-se completamente em Deus. Por isso ela é bem-aventurada. A fé é a condição da visita de Deus a nós. A fé é a condição indispensável para o Senhor entrar em nossa casa. Na oração de hoje, a Igreja pede ao Pai que “infunda em nosso espírito a sua graça”. Graça que nos ajude a compreender o significado da vinda do Senhor e nos abra o apetite para fazer algo construtivo no mundo. Deus tomou a iniciativa de enviar o seu Filho para salvar o mundo. Mundo envolvido em pecados e sem forças para se livrar deles, que recebe a presença de Deus. O mistério da encarnação foi o primeiro passo do mistério da redenção e da salvação do homem. A paixão e morte de Jesus é o segundo passo deste plano de Deus. Assim, a encarnação de Jesus comportou em toda a vida de Jesus a cruz e o martírio. A ressurreição é o terceiro passo e a certeza da nossa ressurreição. O Natal é a vinda do Filho de Deus até nós, mas nós não o encontraremos se não formos até ele, a exemplo dos pastores, dos magos e acima de tudo de Maria. Como pretendemos viver o nosso Natal? Como uma “grande orgia do Natal” (J. Green, Diario di un anno) ou como um tempo litúrgico que exige de nós uma imitação perfeita do exemplo de Maria? padre José Antonio Bertolin, OSJ |
|
abra-se a terra e brote o Salvador”! (cf. Is 45,8). Estamos, neste domingo, chegando aos umbrais do tempo do Natal. Percorremos todo este itinerário de reflexão e de espera pela vinda do Senhor pela celebração jubilosa do santo e venturoso Natal. A figura litúrgica que vai centrar a celebração de hoje é a mulher grávida. Maria e Isabel se encontram, grávidas e na expectativa de um novo parto da Salvação de Deus. A salvação prometida a Israel está próxima. A chegada do Emanuel, que quer significar Deus conosco, descortina a verdade sobre o Pai. Maria é a portadora viva do Salvador, a arca da nova e eterna aliança, e com alegria proclama o mistério da encarnação que nela se concretizou. Por Maria, Nosso Senhor Jesus Cristo assume a humanidade, ao mesmo tempo que é Deus. O que é o Natal? O Natal é a festa da visita de Jesus que vem estar conosco, que vem visitar a nossa casa, que vem visitar a nossa família, que vem visitar o nosso trabalho, que vem visitar a nossa vida de fé comunitária e eclesial. Agora para receber qualquer visita sempre há uma ingente preparação. A liturgia de hoje nos propõe um roteiro para receber Jesus que vem nos visitar. Lucas (cf. Lc. 1,39 - 45) descortina o encontro entre Maria, uma jovem que traz no ventre Jesus, o Salvador; e Isabel, sua prima velha que concebeu, como Maria, por milagre de Deus, João Batista, o precursor da salvação. História celestial, mas totalmente premiada pela humanidade. Isabel recebe Maria e Jesus que está em seu ventre em exultante alegria. Alegria que contagiou o ventre da Virgem Maria. Tudo isso para que tenhamos a convicção de que a celebração do Natal é uma celebração eminentemente de fé e de esperança cristã. Maria, tomando conhecimento de que sua parenta Isabel, já na velhice iria dar a luz a um menino, notícia recebida do arcanjo, demonstrando que para Deus nada era impossível, não teve respeito humano. Arrumou suas malas, andou numa viagem de 150 km., o que demoraria uns três dias, e foi estar com sua prima Isabel. Qual o significado da visita de Nossa Senhora a sua prima Isabel? Pura e simplesmente para servir a Isabel, já idosa e grávida, nos afazeres domésticos nos últimos três meses de gestação de Isabel. Depois Nossa Senhora serviria de companhia para a sua prima Isabel, bem como estaria ali para demonstrar que a graça e ação de Deus transforma a vida das pessoas e fazem destas pessoas instrumentos da salvação. Isabel elogia a fé no cumprimento das palavras do Senhor. Este espírito de fé – que não dispensa as razões e os sinais da verdade – é uma das condições para bem se receber a chegada de Jesus no Natal. Natal somente se entende com fé. Com espírito de fé, de esperança e de caridade. Assim sendo o Natal de Jesus é antes de tudo um dia de fé na pessoa e na missão divina e salvadora do Redentor Jesus. A primeira dimensão do Natal é a fé em Jesus e em sua missão. E isso fica claro hoje com a exaltação de Isabel para com Nossa Senhora: “Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre!”. Mas a segunda dimensão do Natal é a incessante e radiosa alegria. O Natal é a festa da alegria. Alegria que é anunciada por Isabel, pelo Menino que pula no Seio de Isabel. Mas, porque a alegria? A alegria é fundamental neste momento de recepção de Jesus, como o próprio anjo chama os pastores e anuncia: “uma grande alegria: o nascimento do Cristo Senhor”. (cf. Lc. 2,10 - 11). Isabel enumera as alegrias que celebramos: Jesus se torna carne humana no seio da Virgem Maria; Deus escolheu uma Mulher da terra para ser mãe do seu Divino Filho. O que significa este gesto? Com a escolha de Maria para ser a mãe de Jesus Deus fez uma aliança com toda a humanidade, se uniu a toda a humanidade. Hoje Deus cumpre a promessa da salvação. E como sempre age com superabundante misericórdia: não só estende a mão para salvar-nos, não só assume nossa humanidade, não só passa a morar conosco, mas reparte conosco sua divindade. Fazendo um de nós Jesus torna possível o doce sonho da imortalidade para todos os nascidos de mulher. Isabel prefigura a alegria que hoje nos contagia: tornamo-nos, com o Natal, participantes da natureza divina. Somos “imagem do Deus invisível!”. A terceira dimensão da liturgia de hoje é o respeito pelo mistério de Deus. No encontro entre o mistério divino e o mistério humano na pessoa de Jesus une a nossa fé na vida eterna. Mistério que não precisa ser explicado, mas vivenciado pela nossa fé católica, apostólica e romana. Deus é, sobretudo mistério! Não o alcançamos de muitas maneiras e, ao mesmo tempo, é sempre inacessível em seu ser e em muitos de seus atos. A encarnação de Jesus é um desses atos que, apesar de ter acontecido historicamente, escapa à nossa intelecção. O comportamento de Isabel hoje, diante do mistério da encarnação de Jesus, é o melhor exemplo de como devemos encarar o Natal. Acredita na encarnação de seu Senhor no seio da Virgem Maria, rejubila em sua fé e proclama-a em alta voz. Assim deve ser o grande momento de celebrarmos a espera do Natal. Serviço e grandeza, duas faces inseparáveis do Mistério de Deus cuja manifestação celebramos dentro de poucos dias. Mistério de amor. Claro amor é uma palavra humana. Deus é sempre mais do que conseguimos dizer. Dizem os filósofos que o amor movimenta o mundo, mas é preciso ver de que amor se trata. O amor autêntico recebe sua força da doação e da misericórdia. Num sentido infinitamente superior, se pode dizer isso de Deus também. O que aconteceu em Jesus no-lo revela. Este amor de Deus para os homens ultrapassa o que entendemos pelo amor, mas é um amor verdadeiro, comparável quase com o amor dos esposos, quando autêntico: os céus que fecundam a terra, Deus que cobre uma humilde criatura com sua sombra. A liturgia não tem medo destas imagens. Fecundada pelo orvalho do Céu, a terra se abe para que brote o Salvador. Na primeira leitura (Mq. 5,1 - 4) nos constatamos que de Belém sairá o Salvador de Israel. Miquéias não coloca Jerusalém no centro da profecia, mas Belém, terra de origem de Davi. De sua dinastia deverá um dia brotar o verdadeiro rei de Israel conforme o coração de Deus. A primeira leitura evoca o paradoxo do minúsculo município de Belém, que, porém, é grande por causa de Javé, que cumprirá sua promessa de chamar novamente um “pastor” da casa de Jessé(pai de Davi). A pequena cidade torna-se sinal do plano inicial de Deus(suas origens remontam a tempos antigos – Mq. 5,1). Aqui fica claro não a grandeza segundo os critérios humanos, ao contrário a grandeza da santidade dos pequenos que conta para Deus e se manifesta em Maria. A segunda leitura(Hb. 10,5 - 10) nos fala que “Eis que venho para fazer tua vontade!”. Hebreus compreende a morte de Cristo como a plenificação do culto sacrifical do Antigo Testamento. Todos os antigos sacrifícios prefiguram o sacrifício de Cristo, que nos santifica uma vez para sempre. Interpreta o salmo 40,7 - 9 no sentido da obediência de Jesus para cumprir esta missão, para a salvação de todos nós. Jesus, que vem ao mundo para tornar supérfluos todos os sacrifícios e holocaustos, já que ele mesmo imola de modo insuperável sua existência em prol dos seus irmãos. O Natal está próximo! Nos preparemos! Em cada santa missa tornamo-nos, em Cristo, corpo dado, dispostos a colocar-nos a serviço dos necessitados, a exemplo de Maria. Por Maria, o Senhor nos visita, trazendo a salvação. Motivo de alegria e de ação de graças! Como gesto concreto nesta preparação mais próxima ao Natal, vamos repetir o gesto de Maria, gesto de caminho de salvação. Que cada um de nós visitemos os mais necessitados de nossa comunidade, levando em nós o Cristo, para que também estes irmãos preferidos de Deus exultem de alegria no Senhor. padre Wagner Augusto Portugal |
|
Comecemos nossa meditação com a epístola aos Hebreus, que de modo impressionante nos desvela os sentimentos do Filho eterno do Pai no momento da sua Encarnação: Pai, “Tu não quiseste vítima nem oferenda”, aquelas do Templo, aquelas vítimas simplesmente rituais, “mas formaste-me um corpo”, tu me fizeste humano, deste-me uma natureza humana! Não foram do teu agrado os sacrifícios de animais irracionais, os ritos meramente formais, “por isso eu disse: ‘Eis que eu venho! Eu vim, ó Deus, para fazer a tua vontade’”. Eis o primeiro aspecto que nos é dado hoje meditar! O Filho eterno, igual ao Pai, Deus igual a Deus, luz gerada pela luz, por puro amor, por pura obediência ao Pai que tanto nos amou, dignou-se fazer-se homem! Sem deixar de ser Deus verdadeiro, ele realmente se tornou homem verdadeiro, em tudo igual a nós, menos no pecado. Mas, como pode? Como é possível? Aquele que é a luz, assumiu a escuridão humilde do seio materno; Aquele que abarca o universo, foi abarcado pelo útero de uma Virgem; Aquele que é a Palavra eterna do Pai, passou nove meses no silêncio da gestação! Como pode ser? Num mundo que se contenta com mentirinhas, com fábulas, mitos e lendas, eis uma realidade que nos deixa maravilhados! E tudo isso por nós, para nossa salvação, para nos elevar! Ele veio viver em tudo nossa aventura humana, em tudo, nossas angústias, em tudo, nossas procuras, em tudo, nosso sonho de ser felizes! “É graças a esta vontade que somos santificados pela oferenda do corpo de Jesus Cristo, realizada uma vez por todas!”. O Filho eterno, fazendo-se um de nós, assumindo nosso corpo, isto é, nossa humanidade, nossa história, nossas limitações, foi homem perfeito, perfeitamente dedicado ao Pai, perfeitamente obediente, perfeitamente abandonado nas mãos do Pai, e, assim, nos salvou, mereceu-nos o perdão para a humanidade que Adão havia estragado! Ó Cristo Deus, ó Cristo homem! Bendito sejas, porque te fizeste um de nós! Bendito sejas, porque em tudo viveste como nós, para encher de novo sentido a nossa pobre vida, para iluminar nossas trevas, para nos mostrar o caminho, para em nosso nome seres totalmente obediente ao Pai e, assim, nos fazer também a nós, obedientes como tu! Bendito sejas, hoje e sempre, pelo teu Advento, pelo mistério da tua Encarnação! Tu és a razão da nossa esperança, tu és o fundamento do nosso sorriso, tu és o nosso consolo, tu és a nossa paz! Em ti, Santo Emanuel, cumpriu-se a profecia de Miquéias: “Tu, Belém de Éfrata, pequenina entre os mil povoados de Judá, de tu sairá aquele que dominará em Israel; sua origem vem de tempos remotos, desde os dias da eternidade. Ele não recuará, apascentará com a força do Senhor e com a majestade do nome do Senhor seu Deus... ele estenderá o poder até aos confins da terra, e ele mesmo será a Paz!” Ó Santo Messias, nossa paz, rei eterno! Bendito sejas para sempre porque vieste! Mas, há mais, no Mistério deste 4º domingo! Além do “sim” eterno e divino do Filho que disse “ó Pai, eis que eu venho para fazer tua vontade”, nas montanhas da Galiléia, em Nazaré, um outro “sim” ecoou: o sim de uma criaturazinha frágil, o sim apaixonado e total à proposta inaudita de Deus: “Gabriel, vai dizer Àquele que te enviou que eu sou a Serva, que se faça conforme a tua palavra!” Que mistério tão impenetrável, que inteligência alguma humana poderá compreender plenamente! O sim do Filho eterno somente realizou-se no nosso mundo graças ao sim de uma pobre Virgem de Nazaré! Como pode o Criador depender da criatura? Que mistério tão grande o plano eterno de Deus depender de nós! A Virgem disse sim: sim total, sim sem condições, sim absoluto, sim sem reservas, sim de corpo e alma! E, depois do sim, ela corre para a região montanhosa de Judá, para ver o sinal que o anjo havia dado: a parenta idosa e estéril havia concebido! Como a arca da aliança, contendo as tábuas da Lei, foi transportada para a região montanhosa de Judá (cf. 2 Sm. 6,1 - 8), também Maria, contendo em si Aquele que é a nova Lei, vai para a região de Judá, como Davi admira-se e exclama: “Donde me vem que a arca do meu Senhor fique em minha casa?” (2 Sm. 6,9) Isabel também derrama-se em júbilo admirado: “Donde me vem que a Mãe do meu Senhor venha visitar-me?” Como a arca ficou três meses na casa de Obed-Edom (cf. 2 Sm. 6,11), a Virgem ficou três meses na casa de Isabel! Que projeto admirável de Deus, que sim tão bonito da Virgem! Quanta generosidade, quanta fé, quanta entrega, quanto abandono! Ó Virgem toda santa e toda pura! Obrigado pelo teu sim, obrigado pelo sim que é eco no tempo do sim que o Filho pronunciou na eternidade! Como poderíamos te saudar, ó Toda Santa? Saudamos-te como a Escritura nos ensina: saudamos-te cheia de Graça, saudamos-te Bendita entre as mulheres, saudamos-te Arca da Aliança, saudamos-te Mãe do Senhor, saudamos-te portadora do Salvador, saudamos-te Causa da nossa alegria, saudamos-te Esposa do Espírito, saudamos-te Bendita por ter acreditado! Saudamos-te assim, Mãe de Jesus, e toda a saudação do mundo ainda seria pouca para exprimir a grandeza do teu sim e nossa gratidão pela tua disponibilidade! Ensina-nos, Virgem Maria, a dizer o sim como tu disseste; ensina-nos a tornar nossa vida disponível ao plano do Senhor; ensina-nos a viver em nós a obediência do Filho, como tu viveste! Mas, há ainda um terceiro aspecto do Mistério que é necessário ponderar. É da Belém pequenina entre os mil povoados de Judá que sairá o Dominador de Israel; é de uma Virgem pobre, frágil e humilde que virá o Salvador, aquele que “estenderá o poder até aos confins da terra”. Deus é assim: onde não há vida, onde não há esperança, onde não há grandeza aos olhos do mundo, ele faz a vida brotar, a esperança surgir, a grandeza aparecer! Não é esta uma das maiores lições do Natal? Um Deus que escolhe o caminho da fraqueza, da pobreza, da humildade, da debilidade? Convertamo-nos ao modo de agir de Deus, tão distante dos nossos modos megalomaníacos, dos nossos projetos grandiloqüentes! Para nossa vergonha e confusão, para nossa conversão, é preciso dizer sem medo: Deus não está primeiro no que é forte, mas no que é fraco; Deus não está antes no que é potente, mas no que não pode nada; Deus não está na riqueza, mas na pobreza; Deus não está em cima, mas embaixo; Deus não está com os vencedores, mas com os vencidos; Deus não está com os que riem pelas glórias do mundo, mas com os que choram porque se sentem sós, pisados, humilhados e triturados pela vida! Ó santo Messias, converte-nos pela graça do teu bendito Advento! Converte-nos com as lições do teu Natal! Ajuda-nos a cantar, com a tua Mãe Santíssima, que enches os pobres de bens, que dispersas sem nada os ricos, que exaltas os humilhados e humilhas os soberbos! Ó santo Messias, pelas preces da Toda Santa e de são José, seu castíssimo esposo, pelas preces de todos os santos pobres e humildes do mundo, dá-nos a graça do teu Natal, a certeza da tua presença e a vida eterna. dom Henrique Soares da Costa |
|
O profeta Miquéias viveu e exerceu o seu ministério em Judá, nos séculos VIII - VII a.C.. É originário de um meio campesino e conhece bem os problemas dos pequenos agricultores, vítimas de latifundiários sem escrúpulos. Por outro lado, a sua terra natal (Moreset Gat) está rodeada de fortalezas militares; e a presença nessas fortalezas de militares e de funcionários reais faz com que os habitantes dessa região conheçam um quadro de violência, de roubos, de impostos excessivos, de trabalhos forçados… O mais grave é que os opressores consideram que Deus está do seu lado e invocam as grandes tradições religiosas de Israel para justificar a opressão. O livro de Miquéias começa por descrever (cap. 1 - 3) os graves pecados de Israel e de Judá sublinhando, sobretudo, os pecados sociais, apresentando-os como infidelidade grave aos compromissos assumidos no âmbito da “aliança” e denunciando esta “teologia da opressão”. No entanto, o texto que nos é hoje proposto está integrado na segunda parte do livro (que a maior parte dos comentadores admite não vir de Miquéias, mas sim de um profeta anônimo da época do exílio na Babilônia), onde se apresenta um conjunto de oráculos de salvação, destinados a animar a esperança do Povo (cap. 4 - 5). MENSAGEM O texto que nos é proposto retoma as promessas messiânicas. Num quadro de injustiça e de sofrimento – e, portanto, de frustração e de desânimo – o profeta anuncia a chegada de um personagem, no futuro, que reinará sobre o Povo de Deus. Esse personagem, enviado por Deus, será da descendência davídica, supondo-se, portanto, que poderá restaurar esse tempo de paz, de justiça e de abundância que o Povo de Deus conheceu na época ideal do rei David. A última frase desta leitura (”Ele será a Paz”) define o conteúdo concreto desta esperança: a palavra “shalom” aqui utilizada significa tranquilidade, ausência de violência e de conflito, mas também bem estar, abundância de vida, numa palavra, felicidade plena. ATUALIZAÇÃO A releitura cristã vê nesta promessa de Deus veiculada por Miquéias, uma referência a Jesus, o descendente de David, nascido em Belém. A missão de Jesus não passa, no entanto, pela instauração do trono político de David (um reino que se impõe pela força, pela riqueza, pelas jogadas políticas e diplomáticas), mas sim pela proposta de um reino de paz e de amor no coração dos homens. Os cristãos, seguidores de Jesus, são a comunidade que aceitou o convite para integrar esse “reino” de paz e de amor que Jesus veio propor. É esse o “reino” que nos esforçamos por construir? Somos, verdadeiramente, comprometidos com a causa da paz, preocupamo-nos em eliminar tudo aquilo que destrói a vida ou a dignidade de qualquer homem ou qualquer mulher? Como reagimos diante das injustiças, das arbitrariedades, do sofrimento, da miséria: com conformismo e medo, ou com o espírito profético de membros da comunidade do “reino” de Jesus? A mensagem deste texto faz-nos constatar, também, a presença contínua de Deus na história humana. Apesar do egoísmo e do pecado dos homens, Deus continua a preocupar-se conosco, a querer indicar-nos que caminhos percorrer para encontrar a felicidade. A vinda de Cristo, Aquele que é “a Paz”, insere-se nesta dinâmica. 2º leitura – Hb. 10,5 - 10 - AMBIENTEA “carta aos Hebreus” é um texto anônimo, escrito, provavelmente, pouco antes do ano 70 e destinado a uma comunidade cristã constituída majoritariamente por cristãos vindos do judaísmo. É uma comunidade que já não é de fundação recente e onde o entusiasmo inicial parece ter dado lugar a uma fé “morninha” e pouco comprometida; a perspectiva de novas dificuldades provoca o desânimo; e começa a haver um real perigo de desvios doutrinais. A “carta” é uma apresentação do mistério de Cristo, sublinhando especialmente a dimensão sacerdotal da sua missão. Recorrendo à linguagem litúrgica judaica, o autor apresenta Jesus como o “sumo sacerdote” da nova “aliança”, que faz a mediação entre Deus e os homens. Na sequência, o autor aproveita para refletir sobre a condição cristã que deriva da missão sacerdotal de Cristo: os crentes, postos em relação com o Pai por Cristo sacerdote, são inseridos nesse Povo sacerdotal que é a comunidade cristã e devem fazer da sua vida um contínuo sacrifício de louvor, de ação de graças e de amor. O texto que nos é proposto pertence à terceira parte da carta (Hb. 5,11 - 10,39). Aí, o autor reflete sobre os traços primordiais do sacerdócio de Cristo. MENSAGEM No mundo vétero-testamentário, quem queria celebrar a sua comunhão com Deus, ou manifestar a sua entrega absoluta a Deus, ou obter o perdão dos seus pecados, oferecia em sacrifício um animal, que o sacerdote entregava nas mãos de Jahwéh… No entanto, a inutilidade e a ineficácia destes sacrifícios tinha sido já afirmada pelos profetas (cf. Is. 1,11 - 13; Jr. 6,20; 7,22; Os. 6,6; Am. 5,21 - 25; Mq. 6,6 - 8), porque se tratava de ritos externos, que nem sempre correspondiam a uma atitude sincera do coração do oferente. Pondo na boca de Jesus as palavras de um salmista (cf. Sl. 40,7 - 9), o autor da “carta aos Hebreus” afirma que, no mundo da nova “aliança”, não é já o sacrifício de animais que realiza a comunhão com Deus, a entrega absoluta do crente a Deus, o perdão dos pecados; é a encarnação de Jesus, a entrega total da vida do próprio Cristo, o seu respeito absoluto pelo projeto e pela vontade do Pai que permitem a aproximação e a relação do homem com Deus. Quem quiser descobrir o Pai e aproximar-se d’Ele, olhe para Jesus; porque Jesus ensinou-nos, com a sua obediência ao projeto do Pai, como deve ser essa relação de filiação com Deus. ATUALIZAÇÃO A encarnação de Jesus, o seu “eis-Me aqui, Pai”, correspondem ao projeto de Deus de aproximar os homens de Si, de estabelecer com eles uma relação de filiação e de amor. Nestes dias em que preparamos o Natal, somos convidados a contemplar a ação de um Deus que ama de tal forma os homens que envia ao nosso encontro o Filho, a fim de nos conduzir à comunhão com Ele. O encontro com Deus não é feito a partir de rituais externos (as prendas, a comida, os cânticos, as procissões, as orações, as liturgias solenes, o incenso, os paramentos suntuosos), mas é feito a partir de Cristo, o Filho que entrega a vida, a fim de que o projeto do Pai se torne presente na vida dos homens e de que os homens, aprendendo o amor e a entrega total, aceitem tornar-se “filhos de Deus”. O encontro com Cristo significa aprender com Ele a obediência e a disponibilidade ao projeto de Deus. Como nos situamos, diante desta proposta: contam mais os nossos interesses pessoais (ainda que legítimos), ou o projeto de Deus? Evangelho – Lc 1,39 - 47 - AMBIENTEO texto que nos é proposto faz parte do chamado “Evangelho da infância”. Os estudos atuais falam do “Evangelho da infância” como um gênero literário especial, que se pode chamar “homologese”: é um gênero que não pretende ser um relato fidedigno sobre acontecimentos, mas antes uma catequese destinada a proclamar as realidades salvíficas que a fé prega sobre Jesus (que Ele é o Messias, o Filho de Deus, o Deus conosco). Desenvolve-se em forma de narração e recorre às técnicas do midrash haggádico (uma técnica de leitura e de interpretação do Antigo Testamento usada pelos rabbis judeus na época em que foi escrito o Novo Testamento)A “homologese” utiliza, de preferência, tipologias: fatos e pessoas do Antigo Testamento encontram a sua correspondência em fatos e pessoas do Novo Testamento. Pelo meio, misturam-se elementos apocalípticos (aparições, anjos, sonhos), destinados a fazer avançar a narração e a explicitar as ideias teológicas e a catequese sobre Jesus. É esta mistura de elementos que podemos encontrar no Evangelho de hoje: mais do que uma informação “jornalística” sobre fatos concretos, trata-se de uma catequese sobre Jesus, feita a partir de um conjunto de referências tiradas da mensagem e das promessas do Antigo Testamento. MENSAGEM A primeira referência vai para a indicação de que, à saudação de Maria, o menino (João Batista) saltou de alegria no seio da mãe. Trata-se, evidentemente, de uma indicação teológica: para Lucas, Jesus é o Deus que vem ao encontro dos homens, e que tem uma mensagem de salvação/libertação que concretiza as promessas feitas por Deus aos antepassados; logo, a presença de Jesus provoca a alegria, o estremecimento gozoso de todos aqueles que esperam a concretização das promessas de Deus e que vêem na chegada de Jesus a realização das promessas de um mundo de justiça, de amor, de paz e de felicidade para todos os homens. Através de Jesus, Deus vai oferecer a salvação a todos; e isso provoca um estremecimento incontrolável de alegria, por parte de todos os que anseiam pela concretização das promessas de Deus. Temos, depois, a resposta de Isabel à saudação de Maria: “Bendita és tu entre as mulheres”. Trata-se de palavras que aparecem no “cântico de Débora” (cf. Jz. 5,24) para celebrar Jael, a mulher que, apesar da sua fragilidade, foi o instrumento de Deus para libertar o Povo das mãos de Sísera, o opressor. Maria é, assim, apresentada – apesar da sua fragilidade – como o instrumento de Deus para concretizar a salvação/libertação dos homens. Finalmente, temos a resposta de Maria: “a minha alma enaltece o Senhor…”. A resposta de Maria retoma um salmo de ação de graças (cf. Sl. 34,4), destinado a dar graças a Jahwéh porque protege os humildes e os salva, apesar da prepotência dos opressores. É um salmo de esperança e de confiança, que exalta a preocupação de Deus para com os pobres que são vítimas da injustiça e da opressão. Sugere-se, claramente, que a presença de Jesus, através dessa mulher simples e frágil que é Maria, é um sinal do amor de Deus, preocupado em trazer a libertação a todos os que são vítimas da prepotência e da injustiça dos homens. Com Jesus, chegou esse tempo novo de libertação, de paz e de felicidade anunciado pelos profetas. ATUALIZAÇÃO A presença de Jesus neste mundo é, claramente, a concretização das promessas de salvação e de libertação feitas por Deus ao seu Povo. Com Jesus, anuncia-se a eliminação da opressão, da injustiça, de tudo aquilo que rouba e que limita a vida e a felicidade dos homens. Jesus, ao “nascer” entre nós, tem por missão propor um mundo onde a justiça, os direitos humanos, a dignidade, a vida e a felicidade das pessoas são absolutamente respeitados. Dizer que Jesus, hoje, nasce no nosso mundo significa propor esta mensagem libertadora e salvadora. Nós, que somos no mundo o rosto vivo de Jesus, propomos esta boa notícia? Os pobres, os que sofrem, todos os que são vítimas de opressão e suspiram ansiosamente por um mundo novo encontram no nosso anúncio esta proposta? Esta mensagem libertadora é a nossa proposta fundamental, ou dispersamo-nos em propostas laterais (o dinheiro que a comunidade tem em caixa para construir novas igrejas, a apresentação dos novos paramentos, as “bocas” que atiramos aos nossos opositores na comunidade, as questões de organização), que dizem muito pouco acerca do essencial? O “estremecimento” de alegria de João Batista no seio de Isabel é o sinal de que o mundo espera com ânsia uma proposta verdadeiramente libertadora. Nós, os cristãos, somos verdadeiramente o veículo desta mensagem? A proposta libertadora de Deus para os homens alcança o mundo através da fragilidade de uma mulher (recordar o contexto social de uma sociedade patriarcal, onde a mulher pertence à classe dos que não gozam de todos os direitos civis e religiosos) que aceita dizer “sim” a Deus. É necessário ter consciência de que é através dos nossos limites e da nossa fragilidade que Deus alcança os homens e propõe o seu projeto ao mundo. Maria, após ter conhecimento de que vai acolher Jesus no seu seio, parte ao encontro de Isabel e fica com ela, solidária com ela, até ao nascimento de João. Temos consciência de que acolher Jesus é estar atento às necessidades dos irmãos, partir ao seu encontro, partilhar com eles a nossa amizade e ser solidário com as suas necessidades? |
|
Maria ficou sabendo que sua parenta estava grávida, como também ela estava. Isabel era muito mais velha do que Maria. Maria tinha provavelmente uns 13 anos e Isabel tinha uma idade já avançada para engravidar. Por ser tão jovem e prestativa, Maria decide ir até a casa de Isabel para ajudá-la: para dar-lhe uma mãozinha na arrumação da casa, para preparar o que fosse necessário para o filho de Isabel que estava chegando e para ficar lá um tempo depois do nascimento dele. Elas tinham o privilégio de poder partilhar a alegria de ser ambas as mães que esperavam a chegada do seu primeiro filhinho. Isabel vivia longe, numa cidadezinha sobre as montanhas, mas Maria não se desencoraja pela distância. Começa a viagem e não perde tempo: quer chegar logo; por isso, Lucas enfatiza: “naqueles dias, Maria partiu para a região montanhosa, dirigindo-se, apressadamente, a uma cidade da Judeia”. Finalmente, ela chega na casa de Isabel e Zacarias, entra e antes de qualquer coisa, cumprimenta a parenta. Neste momento, acontece uma coisa muito bela e interessante: “Quando Isabel ouviu a saudação de Maria, a criança pulou no seu ventre e Isabel ficou cheia do Espírito Santo”. A criança, que Isabel traz no ventre, quando ouve a voz de Maria, se mexe, como que para cumprimentar também ele. Isso é interessante quando a gente ouve as mães dizerem como é emocionante sentir a criança se mexer no ventre, chutar... Para uma mãe que ainda não tem a possibilidade de ver o seu filhinho, sentir que o pequenino se mexe é fonte de grande felicidade: quer dizer que está vivo e bem, que cresce e se fortalecendo. Também Isabel se alegra ao sentir seu bebê se mexer no seu ventre. E não só isso: Isabel é iluminada pelo Espírito Santo e compreende que o seu filho ainda não nascido está cumprimentando Maria. É necessário considerar que Maria está apenas no início da sua gravidez, ninguém sabe ainda que ela está grávida (o que depois quando ela voltar com a barriga já grande vai dar muito o que falar): ela não disse a ninguém, nem mesmo a José, o seu prometido em casamento. Mas o Espírito Santo ilumina Isabel, deixando-a capaz de compreender o belíssimo segredo de sua parenta e o diz em alta voz: “Isabel ficou cheia do Espírito Santo e com um grande grito, exclamou: 'Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre!”. Quantas e quantas vezes repetimos também nós esta saudação alegre de Isabel a Maria! Toda vez que rezamos a Ave Maria também nós dizemos: “bendita sois vós entre as mulheres e bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus”. Isabel pronuncia estas palavras com tanto entusiasmo, impelida pelo Espírito Santo, e no curso do tempo os cristãos as escolheram para rezar a Maria, a Mãe de Jesus. Mas, voltemos ao relato evangélico: Isabel tem ainda algo a dizer à Maria: “Como posso merecer que a mãe do meu Senhor me venha visitar? Logo que a tua saudação chegou aos meus ouvidos, a criança pulou de alegria no meu ventre”. E acrescentou: “Bem-aventurada aquela que acreditou, porque será cumprido o que o Senhor lhe prometeu”. Estas palavras de Isabel devem nos encher de entusiasmo, porque também nós podemos saborear a mesma bem-aventurança de Maria, a sua mesma felicidade, porque também nós podemos viver na pura certeza de que o Senhor Deus mantém sempre as suas promessas e é fiel à palavra dada. No fundo, Isabel canta a alegria de quem acredita, de cada homem e de cada mulher que vive na fé, amando o Senhor. Quem acredita no Senhor e na sua Palavra, vive na esperança, na alegria e na paz. Isto vale também para nós, obviamente. Ele manteve e mantém a sua promessa: de fato, o encontramos a cada dia, cada vez que celebramos a Eucaristia e escutamos a sua Palavra. Esta é a nossa fé. O Senhor Jesus é o amigo mais fiel. Dele podemos contar com certeza, sabendo que Ele vem cada vez que o invocamos e não nos deixa nunca sozinhos. Por isso, queremos viver a vida de hoje com o coração cheio de alegria e de esperança: o Senhor está próximo, é Deus conosco. O Senhor é fiel às suas promessas de amizade e de amor.
|
|
É através dos pequenos que a profecia de Miquéias e de outros profetas se realizaram. Jesus, o Filho de Maria, também ele pertence à classe dos pobres, das pessoas insignificantes aos olhos dos homens. Diante dessas verdades reveladas nas Escrituras é bom que nos perguntemos pelo verdadeiro sentido de todos os enfeites de nossas igrejas e casas, das vitrines cheias de supérfluos por ocasião das festas natalinas: isso nos ajuda a fazer a vontade do Pai? Ajuda a cultivar aquele espírito de humildade assumido pelo Salvador ao entrar no mundo, no presépio de Belém? As palavras de Maria e Izabel, inspiradas em palavras de outras personagens do Antigo Testamento, revelam a alegria dos pequenos e pobres pela chegada do Esperado ao mundo e que, com ele teve início o reino de paz anunciado pelos profetas. Através das palavras ditas por Maria e Izabel, o evangelista Lucas quer afirmar que também elas pertencem à categoria dos instrumentos fracos e simples, através dos quais, Deus realiza suas obras de salvação. Através de Maria ele realizou o acontecimento mais extraordinário da história: deu aos homens o seu próprio Filho. Desde que Deus decidiu fazer-se homem, já não estabelece sua morada em construções de pedra, num templo, num lugar sagrado, mas no seio de uma mulher. O Filho de Maria, aquele que ela acolheu em seu seio é o próprio Senhor. A festa do Natal é um convite a acolhermos Jesus em nós como Maria; assumir suas atitudes como programa de vida para nós. O amor é contagioso. Quem ama quer imitar a quem ama. O cristianismo, nesse sentido, não é apenas uma questão de ritos e práticas devocionais, mas “fazer a vontade do Pai”. As práticas devocionais devem ser alimento para a prática da justiça, do respeito e do amor em atos concretos na sociedade e não desculpas, fugas dessas nossas responsabilidades. Nesse sentido, é bonito ver como a presença de Maria, onde quer que chegue provoca uma explosão de alegria: o Batista estremece de felicidade (v. 41). Isabel proclama sua alegria por ter sido visitada pelo Senhor (v. 42). Os pobres exultam porque chegou a hora da própria libertação (v. 46 - 48). E a nossa presença de cristãos nos diversos lugares, no ambiente de trabalho, nas escolas, nos hospitais, nas festas, nos meios políticos, provoca sempre alegria ou é, às vezes, motivo de tristeza e de escândalo? www.diocesedesaomateus.org.br |
|
O profeta Miquéias é contemporâneo do profeta Isaías. A situação política era de corrupção dos líderes; a situação religiosa se caracterizava pela idolatria e, socialmente, a pobreza aumentava. Além de tudo isso ainda havia uma ameaça de invasão às portas de Jerusalém. Mas é provável que este oráculo seja um acréscimo posterior ao profeta. É um oráculo essencialmente voltado para o Messias que deveria chegar. Ele traz as marcas da pregação do futuro Messias com a inversão de valores estabelecidos, mostrando que a salvação vem dos pequenos, vem do povo das periferias, não dos grandes centros da capital. O chefe de Israel virá da humilde Belém, não da orgulhosa Jerusalém. Belém é a cidade de Davi, rei-pastor. Isto significa que o chefe de Israel não terá as características dos antigos opressores do povo, mas será um rei pastor que dará a vida por suas ovelhas. O v. 2º faz alusão ao oráculo messiânico de Is 7,14, onde diz que uma jovem conceberá e dará à luz um filho e seu nome será Emanuel - Deus conosco. Alude também ao retorno do povo que estava exilado na Babilônia. Tudo isto aponta para tempos novos para o povo de Deus. Quais são, em síntese, as características desse novo governo e desse novo rei? * Ele não vai governar com a força opressora dos exércitos, nem através de mentira e falsidade, mas com a força de Javé, com a majestade de seu nome. * Será um governo tranquilo e seguro, pois estenderá seu poder até às extremidades da terra. * Ele próprio será a paz (shalom). Este shalom significa tudo o que o povo precisa, segurança, tranquilidade e plenitude de vida. * Tudo aponta para o novo rei-messias que se realiza na pessoa de Jesus. 2º leitura – Hb. 10,5 - 10 O trecho retorna à idéia central da carta aos hebreus que é apresentar Jesus como único mediador entre Deus e os homens. Através do seu sacrifício ele supera a instituição cultual do Primeiro Testamento, supera e substitui todos os sacrifícios, supera e substitui a instituição sacerdotal. Ele se torna sacrifício, altar e cordeiro. É o único sacerdote mediador entre Deus e os homens. Qual a novidade do trecho de hoje? Ele mostra a novidade do único sacrifício de Jesus. Os sacrifícios antigos não agradavam a Deus e não eram capazes de perdoar os pecados do povo. Por isso, Deus dá um corpo para o sacrifício de expiação dos pecados. O autor cita o Sl 40,6-8 onde o salmista louva a Deus pelas suas intervenções libertadoras e agradece não através de sacrifícios, que não agradam a Deus, mas através da disponibilidade total para fazer a sua vontade: “aqui estou, Senhor, para fazer a tua vontade”. É isto que acontece com Jesus. Ele superou totalmente a lei suprimindo o primeiro culto baseado em prescrições legais e estabelecendo o segundo culto fundamentado na gratuidade da sua doação total. Eis-me aqui para fazer a tua vontade. Realizando a vontade do Pai, Jesus nos santifica através de seu sacrifício na cruz realizado uma vez por todas. Qual é o papel de Jesus na sua salvação? Você tem coragem de dizer e assumir esta frase: “eis-me aqui, Senhor, para fazer a tua vontade”? Evangelho - Lc. 1,39 - 45 Estamos no chamado “Evangelho da infância”, que ocupa os dois primeiros capítulos do Evangelho de Lucas. A intenção não é histórica, mas teológica. Nosso texto fala da visita de Maria a Isabel. Cheia de Deus, Maria se apressa a servir os necessitados, nesse caso, sua parenta Isabel, que estava grávida de seis meses. Esta caridade que o Espírito de Deus-amor provoca em Maria agita a criança no seio de Isabel e de novo o Espírito Santo entra em ação e produz em Isabel revelações maravilhosas sobre Maria. Parece ser o Espírito Santo responsável por estes encontros de amor. No fundo temos o encontro de duas mães agraciadas por Deus: Maria “mãe virgem” e Isabel “mãe estéril”. Temos também o encontro velado de dois filhos benditos: o Precursor: João Batista e o Salvador: Jesus. As palavras inspiradas de Maria são tão bonitas que a Igreja as ajuntou às do anjo Gabriel e compôs a Ave Maria para que todas as gerações, ao menos de católicos, pudessem louvar Maria (cf. 48b). Maria é louvável por ser Mãe de Nosso Senhor e, sobretudo, porque acreditou que todas estas maravilhas que Deus prometeu vão acontecer. dom Emanuel Messias de Oliveira |
|
Neste domingo já bem perto do Natal a Igreja nos convida a preparar nosso coração, olhando um pouco a figura da Mãe do Salvador que nos é sempre modelo de fé e de caridade. Deixemos a Palavra de Deus nos ajudar mais uma vez. Na primeira leitura (Mq 5,1 - 4) encontramos a alegre profecia de Miquéias sobre a vinda do Messias que traria a paz. No tempo do profeta a situação do povo de Israel era terrível: corrupção, violência, ganância dos poderosos, exploração, etc. O rei Ezequias era bom de coração, mas não tinha competência administrativa e era mesmo fraco demais para tempos de crise como aquele. Miquéias então sinaliza que Deus está para intervir, visto que os reis queriam governar o povo sem buscar o auxílio divino. Poderia o profeta estar pensando naquele momento em um rei humano, cheio de sabedoria e força, mas a profecia de Miqueias supera de muito a maneira de pensar humana e mesmo o que o profeta vislumbrara. Aproximadamente setecentos anos depois, encontramos a realização da profecia na “mãe” que deve dará a luz ao Salvador prometido. Esta “mãe” prometida foi Maria de Nazaré e o Rei seu Filho Jesus. Seria útil notar que o “chamado dominador do mundo” nasceria não numa grande e conhecida cidade, nem mesmo em Jerusalém a cidade santa, mas num pequeno e insignificante povoado chamado de Belém! Nos encontramos novamente frente a diferente lógica divina que usa de meios pobres e tidos como insignificantes para realizar suas maravilhas de amor! O Rei prometido “apascentará” com a força de Deus e com a majestade do nome divino. Aqui poderíamos nos perguntar qual é esta força de Deus? Teríamos que concluir que a força divina é seu infinito amor, a final ele mesmo é amor! E quando olhamos para Jesus que cumpre plenamente esta profecia, constatamos que toda sua vida foi manifestação do infinito amor de Deus por todos os homens. Jesus de fato apascentou com amor, ele é o Bom pastor que dá sua vida pelas ovelhas (Jo 10). Este Rei prometido deve estender sua soberania a todos os povos, o que está claro na afirmação de que “estenderá o poder até os confins da terra”. Deste modo já temos uma indicação clara de que, o novo Reino prometido não será propriedade de um único povo ou cultura, mas aberto a todos. É a salvação em sua perspectiva universal, onde todas as raças, povos e culturas são chamadas a se deixarem conduzir por Deus e a construírem a paz. Miquéias profetiza o começo de um novo Reino onde haverá justiça e paz; e ainda afirma que o Rei prometido será ele mesmo a PAZ! É bom lembrar que na linguagem bíblica a “paz” é uma síntese de todos os bens prometidos por Deus a seu povo e uma dos claros sinais da chegada do messias prometido. O profeta Isaias chama o messias justamente de “príncipe da paz” (Is. 9,5 e Sl. 72,2). Nosso texto quer hoje ser mais um grande convite para continuarmos a crescer na esperança! Todos desejamos um mundo melhor, com mais justiça, fraternidade e partilha e por isto devemos centrar nossa esperança em Deus. Muita gente acaba se frustrando, pois coloca sua esperança apenas na lógica deste mundo e quantos fundamentam sua esperança apenas: no poder, no dinheiro, no recurso a pessoas de influência e alguns até mesmo na violência! Nós cristãos devemos colocar nossa esperança em Deus e nos valores fundamentais que Ele nos ensinou em Cristo. Esperamos firmemente que o amor seja o núcleo construtor de um mundo totalmente renovado onde brilhe a justiça e a fraternidade universal? Será que de fato colocamos em Deus nossa esperança? E nossas comunidades são mesmo sinal para todos de que surgiu um mundo novo? Quando não existe um esforço comunitário para amar, perdoar, acolher, não marginalizar e não usar violência estaremos dando um terrível contra-testemunho. Na segunda leitura (Hb. 10,5 - 10) estamos diante da disponibilidade total do Filho de Deus ao entrar na história dos homens. No diálogo com o Pai, o Filho Eterno aponta para o seu programa de vida: fazer a vontade de seu Pai. Mais tarde Jesus afirmará a seus discípulos que seu alimento é fazer a vontade de seu Pai (Jo. 4,31 - 34). O texto nos apresenta o “sim” de Jesus ao entrar neste mundo! Unido ao “SIM” do Verbo Eterno encontraremos o “FIAT” ou “SIM” de Maria que aceita o convite feito pelo anjo para ser a mãe de nosso Redentor. Muitas vezes já refletimos que obedecer é próprio de quem ama, visto que aquele que de fato quer bem a alguém deseja fazer a sua vontade. O Filho de Deus ao se encarnar no seio da puríssima Virgem, por amor ao Pai e aos homens aceita a missão sublime de com a doação de sua vida salvar a humanidade. A encarnação, o nascimento no presépio de Belém, a cruz e a ressurreição fazem parte de um só mistério de amor. Nosso texto recorda os sacrifícios antigos que eram oferecidos no Templo de Jerusalém para a purificação dos pecados. No Antigo Testamento encontramos a regulamentação dos sacrifícios de animais que eram ofertados a Deus. Mas este culto ritual corria o risco de ficar como algo meramente exterior, e neste sentido os profetas muitas vezes se posicionaram contra uma religião de ritos que não levava a transformação da vida (Os. 6,6; Am. 5, 21; Is. 1,11). Nosso texto de hoje afirma claramente que Deus não quer os sacrifícios de animais e que estes são inúteis para o perdão dos pecados! O único sacrifício agradável a Deus e que santifica os homens é o da paixão e morte de Jesus. A ressurreição do Senhor é para nós garantia de que o sacrifício do Filho foi aceito pelo Pai e que a morte e o mal não poderão nunca vencer a vida e o bem! Diz o Filho de Deus ao entrar no mundo “Eis que venho” (Sl. 39,7) e isto se repete para cada um de nós neste tempo do advento onde nos preparamos para fazer memória de seu nascimento. Seria muito bom nos perguntarmos como anda nossa vida religiosa e que tipo de sacrifícios oferecemos a Deus. Também nós corremos o risco de caminhar numa religião meramente exterior de belos cantos, orações e grandiosas celebrações sem que isto tudo nos faça buscar a “vontade de Deus” em nossas vidas pessoais, ou mesmo em nossas comunidades cristãs. Será que procuramos verdadeiramente discernir a “vontade de Deus” e fazer dela o nosso alimento? Um dos melhores caminhos para conhecermos a vontade de Deus é sem dúvida a atenta escuta de sua Palavra. Será que nos exercitamos na chamada “leitura orante” da Bíblia? O evangelho (Lc. 1,39 - 45) nos apresenta um texto muito rico e bem conhecido por todos, a visita de Maria a Santa Isabel. Todo nosso texto está permeado de ligações com o Antigo Testamento, trata-se de uma linguagem profundamente bíblica. Maria dirige-se a casa de Isabel, faz sua saudação e João Batista exulta de alegria no seio de sua mãe Isabel. A saudação usada por todos os judeus e usada por Maria, sem dúvida alguma foi “SHALOM” que significa paz. A paz era o grande dom que indicaria a chegada do Messias (Sl. 71,7 e Is. 9,5). Esta saudação de Maria a Isabel é a solene e grandiosa proclamação de que chegou finalmente o Messias prometido ao mundo! Como Maria, os anjos em Belém irão cantar a “paz de Deus aos homens” no momento do nascimento do Salvador em Belém (Lc. 10,50). Segue-se então a saudação de Isabel a Maria feita, saudação esta usada no Antigo Testamento para duas mulheres: Jael (Jz. 5,24) e Judite (Jt. 13,23) ambas mulheres fortes que aniquilaram os opressores do seu povo. Neste sentido esta saudação já baliza mais uma vez para nós a lógica divina, que de instrumentos fracos e tidos como inúteis Deus faz grandes coisas! E vem então a grande bem-aventurança de Maria, a mulher que tem fé! A bem-aventurança da fé é a primeira no evangelho de Lucas e no evangelho de João aparece no final, quando Jesus diz a Tomé: “Felizes os que crêem ser ter visto” (Jo 20,29). Maria é de fato feliz porque acreditou em Deus, não obstante a todas as provas que passou em sua fé. Às vezes olhamos a figura de Maria muito distante do modo de caminhar das criaturas e achamos que para ela tudo foi fácil, mas não foi bem assim! Ela foi mais que ninguém submetida à prova de fé das aparências contrárias: viu seu filho nascer no tempo e devia crer que era eterno; precisou alimentar e ensinar Jesus menino sem deixar de crer que ele era o Mestre e Senhor; precisou fugir com Jesus para o Egito diante da perseguição de um rei humano e tinha que crer que ele era o Rei dos Reis; e ao pé da cruz mesmo diante da aparente derrota do Filho precisou crer na sua vitória! Maria venceu todas as provas da fé, nunca foi infiel, ela foi a grande mulher que creu e entregou-se nas mãos de Deus. Sem dúvida precisamos ser pessoas de fé, mas não é nada fácil acreditar quando nosso bom senso nos indica um caminho diferente. É preciso coragem para crer que as promessas de Deus se realizarão aos que constroem a paz, aos que perdoam, aos que não procuram vingança, aos que amam e não constroem a morte ao seu redor para seus irmãos. Maria nos ensina que vale a pena confiar na Palavra do Senhor! Poderíamos a esta altura nos indagar seriamente sobre quem nós consideramos felizes ou bem-aventurados. Em geral a nossa sociedade considera feliz quem tem dinheiro, sucesso, poder, quem é famoso e importante. Mas tomemos muito cuidado com este modo de pensar mundano, pois não é este o modo de pensar de Deus! Para Deus poderá ser muito mais feliz aquela pessoa que gastou sua vida fazendo o bem aos irmãos e que depois de anos de trabalho é relegada e até abandonada! Feliz não por ser abandonada, mas por ter feito o bem e não ter sido instrumento de morte! Nosso texto apresenta Maria como a Nova Arca da Aliança e como a Arca Antiga permaneceu numa casa das montanhas da Judéia por três meses (2 Sm. 6,10 - 11), Maria fica com Isabel por igual período de tempo. Ela traz para sua prima o Salvador e isto comunica alegria a todos. O cristão deve levar Deus aos demais, mas este “portar Deus”, este ser “arca da aliança” sempre conduz a alegria como Maria levou exultação e alegria a casa de Isabel. Será que nossa presença cristã de fato leva alegria aos demais? Nossa atuação no mundo, nas escolas, nos hospitais, nos meios de comunicação social, nas comunidades cristãs, nas casas, etc. é motivo de alegria ou de tristeza? Nossas comunidades são transmissoras de alegria ou de medo? Como se comportam diante de nós, os pequenos, os fracos os pecadores, encontram a alegria da acolhida ou o medo da condenação e da rejeição? Só isto bastaria para um longo exame de consciência pessoal e comunitário nesta nossa semana! A ida de Maria a casa de sua prima nos indica um elemento importante na dinâmica de nossa vida cristã, a busca de caminharmos para o irmão. Maria não esperou convites e nem pedidos oficiais, colocou-se “a caminho”, para servir Isabel. Não é possível uma verdadeira vida cristã sem a disponibilidade de se colocar a caminho! Muitas vezes encontramos irmãos que não tem a mínima iniciativa no trabalho pelo Reino, sempre estão sentados esperando a honra de serem convocados ou chamados oficialmente. Um dos motivos de que a criatividade apostólica vai arrefecendo é justamente esta passividade que não dá lugar a atitudes gratuitas e espontâneas para levar o Evangelho aos irmãos. Não é raro percebermos que quanto mais um grupo institucional se estrutura de maneira forte e centralizadora, mais são abafadas as boas iniciativas e se instala o medo da censura e de proibição. Não somos contra as estruturas na vida social ou eclesial, elas são necessárias, mas não podem sufocar o Espírito! Maria é a grande mulher da liberdade e do caminho, e caminhando vai levando Jesus e a alegria a todos! Como ela deveríamos ser também nós e nossas comunidades. E acima de tudo Maria como vimos é a mulher da fé! A fé é adesão e entrega a Deus, aceitação de sua revelação e acima de tudo aceitação do mesmo Deus em nossa vida. Crer na Palavra de Deus, entregar nossa vida apostando nesta Palavra é o caminho da fé. Mas não se trata de um caminho de evidência, ou de certezas cientificamente provadas, é sim o caminho da confiança e muitas vezes da noite escura! Na vida de Maria muitas vezes ele não compreendia bem o que acontecia, mas meditava tudo no seu coração para compreender melhor a vontade de Deus e a sua lógica. Neste sentido entendemos que a fé é um constante crescer, como o foi para a Mãe do Salvador o deve ser para todos e cada um de nós. A fé brota da escuta da Palavra de Deus (Rm. 10,17) e se concretiza no “SIM” dado a esta Palavra. O “SIM” de Jesus e de Maria dados a Deus, são um eterno exemplo para a vida de todos nós. Todos temos necessidade de investir no crescimento de nossa fé e para isto contamos com diversos meios: a oração, a leitura e estudo da Palavra de Deus, os diversos livros, revistas de estudo catequéticos e teológicos que temos a disposição amplamente hoje. Existe um grande pecado de omissão por parte dos cristãos que descuidam de seu crescimento na fé. Como ressentimos em nossa pastoral hodierna de uma formação mais profunda para muitos de nossos leigos. Várias oportunidades de crescimento são oferecidas como: escolas de fé, cursos e aprofundamentos os mais diversos, estudos nas diversas pastorais e movimentos, mas como é triste ver que pouca gente aproveita destes preciosos instrumentos de crescimento espiritual. É claro que também nossa fé encontrará provações, muitas vezes estaremos na escuridão e na penumbra, mas não nos esqueçamos que embora dolorosos estes momentos serão o alimento maior para o crescimento de uma fé verdadeira. Lembro-me que ainda era um noviço quando nosso sábio Mestre nos ensinava que, no início da vida espiritual Deus costuma dar muitas alegrias e consolações. É bem fácil de constatar que para todo o iniciante é gostoso orar, traz paz e serenidade e até alegrias interiores. E ainda afirmava o idoso e experiente Mestre que depois estas consolações passam, pois Deus quer saber se estamos à procura dele ou de nós mesmos. As consolações alegram nosso “eu” e podem acabar nos centrando ainda mais em nosso egoísmo inveterado! As desolações e escuridões interiores nos podem conduzir a uma busca mais autêntica de Deus por Ele mesmo. Comparava então o saudoso padre Boaventura Mansur Guérrios tudo com um doce ou uma bala: no começo Deus dá a vocês uma bala muito gostosa, depois tira a balinha para saberem se buscam a bala ou o próprio Deus. Caro irmão como profetizava Miquéias todos desejamos um mundo novo de muita paz e fraternidade, mas só poderemos construir este mundo pautando nossa vida no cumprimento da divina vontade como refletíamos em nossa segunda leitura. A virtude teologal da fé nos ajuda a discernir o que Deus deseja e os valores fundamentais na construção do Reino de Deus. Por isto que nestes dias nos exercitemos de modo mais profundo na fé, usando os diversos meios que nos ajudam a fazê-la crescer! Natal é tempo de vermos luzes enfeitando nossas casas, ruas e cidades! Mas nunca nos esqueçamos que estas pequenas luzes são pálidos reflexos da verdadeira luz que veio a este mundo Jesus Cristo Senhor nosso (Jo 1,6 - 13). Façamos o propósito de deixar com que Cristo ilumine nossas vidas, para que possamos também ser luz para nossos irmãos. Celebremos este Natal na fé, acolhendo o grande presente do Pai seu Filho Jesus. Infelizes daqueles que celebram esta data sem fé, pois se concentram apenas em presentes materiais, ceias e festas de final de ano, num vazio total de Deus. Muitos celebrarão a festa de aniversário de Jesus sem mesmo lembrarem-se do aniversariante! Que na casa de cada um de nós o Natal seja um verdadeiro encontro de fé, não esqueçamos de orar comunitariamente naquela noite santa! E que este Natal nos confirme e aumente em nós a virtude da esperança, pois Deus caminha sempre conosco! E ainda que nosso Natal seja compromisso em direção ao irmão, de modo especial aos que mais sofrem e precisam de ajuda. Que celebrando o nascimento de Cristo em nosso coração, possibilitemos que nele nasça também a figura de nosso irmão de caminhada! Assim construiremos mundo novo e seremos colaboradores no tão sonhado Reino do amor, da justiça e da paz. padre Antonio Heggendorn (in memorian) |
|
Após o anúncio do anjo, Maria dirigiu-se apressadamente ao encontro de Isabel. Por que Maria teve pressa? O que a faz ir ao encontro de Isabel? Maria sabendo que estava grávida do Filho de Deus se colocou a caminho para estar a serviço de Isabel que já estava grávida há seis meses. Maria sabia da urgência de uma presença junto a Isabel e não mediu esforços. A pressa de Maria era para que a vida que Isabel gerava pudesse ser garantida, pois ela já tinha a idade avançada e necessitava de cuidados. Com o seu sim a Deus, Maria disse sim à vida. A vida tem pressa, cada instante precisa ser bem vivido, por isso olhando para Maria somos chamados e chamadas a olhar as inúmeras situações de risco em que se encontram nossos irmãos e irmãs e principalmente aqueles que estão desamparados, dando passos ao seu encontro. Maria teve pressa para garantir a vida. Hoje a maioria das pessoas tem pressa em acabar com a vida porque não sabem mais o que é a vida, não sabe mais o que é viver. Passamos diante dos outros e não temos “tempo” para dirigir pelo menos um bom-dia. A Terra está gemendo porque temos pressa em tirar dela o que achamos necessário para viver bem segundo os nossos critérios: “quanto mais eu tenho, mais eu vivo bem”. Muitos de nós não nos importamos com a vida do outro, pois quando contribuímos com o aquecimento global estamos colaborando com a aceleração, o “apressamento” do fim da vida. Em muitas partes do Brasil nossos irmãos e irmãs estão sofrendo com as enchentes, com as secas, com a violência... Onde estão as “Marias” que vão apressadamente ao seu encontro? O que estão fazendo nossos governantes por esses irmãos e irmãs? Estamos nos aproximando do Natal, muitas cidades estão gastando muito com enfeites e iluminação de forma exuberante e supérflua. Por que não temos a coragem de exigir melhores formas de gastos do dinheiro público, especialmente para ajudar aqueles que têm pressa do necessário? Talvez a nossa pressa seja outra... É o menino no ventre de Isabel que reconhece o mistério de Deus em Maria; é ele quem aponta o Salvador. Isabel reconhece a benção do Senhor em Maria porque ela acreditou no Senhor, e reconhece também a benção em seu Filho como fruto de Sua promessa. Maria se colocou a serviço, se fez serva porque “acreditou”. Acreditar é condição essencial do discípulo e da discípula, pois a iniciativa, a proposta é sempre de Deus, mas a resposta é nossa. Só responde positivamente ao Deus da vida quem acredita na vida, quem acredita que há sempre uma esperança e não se deixa abater pelas dificuldades que aparecem no caminho. Nos últimos dias ficamos perplexos diante de tantas notícias, dentre elas o suicídio da atriz Leila Lopes, e com ela, de tantos anônimos que buscam o sentido da vida não mais aqui. Por que a pressa em buscar um sentido para sua vida destruindo a própria vida? Acreditar que há um sentido para a vida é acreditar que há um Deus que nos chamou a estarmos aqui e que caminha conosco sempre, em todos os momentos. Quem perde esta centralidade, perde o essencial. A esperança de Deus se dá na história... O fruto do ventre de Maria traz a vida ao mundo, pois como afirma a 1ª leitura, “ele mesmo será a paz”. Nesta leitura há um anúncio da chegada do messias de uma cidade não grandiosa, mas importante para Deus. A 2ª leitura nos apresenta o sentido da vinda de Jesus ao mundo: “eu vim, ó Deus, para fazer tua vontade”. A vontade de Deus é que vivamos plenamente. Preparemo-nos mais uma vez para acolher a presença desse Deus Trindade, que através da doação de seu Filho nos revela seu grande amor por nós. irmã Sueli da Cruz Pereira - DFMI |