3º DOMINGO DE QUARESMA

ano C

 

Deus se faz presente na história por meio de quem aceita o encargo de falar à humanidade em nome dele. O criador do mundo guiou os patriarcas, chamou Moisés para libertar os escravos do Egito e, depois de ter enviado os profetas, revelou-se como Pai de Jesus Cristo, o emissário por excelência, ressuscitado e presente nas comunidades cristãs. A constante presença divina na história nos questiona sobre a acolhida que o ser humano ofereceu a Deus através dos tempos. Crises financeiras, desastres e catástrofes da natureza não são as piores coisas que podem atingir a humanidade. O maior desastre que pode sobrevir à criação inteira é a falta de acolhida a Deus por parte da única criatura capaz de reconhecê-lo e amá-lo. Porque a criatura não tem a existência em si mesma, mas a recebe do único EU SOU. Ao ser humano cabe responder em nome da criação inteira: AQUI ESTOU.

Evangelho (Lc. 13,1 - 9): O Enviado de Deus convida à conversão

Esse texto insere-se numa série de discursos sobre a necessidade de reconhecer os sinais dos tempos. Os sinais são um convite à conversão, pois a missão histórica de Jesus marca o fim da espera e inaugura o tempo da decisão a favor ou contra o enviado de Deus. Duas desgraças públicas daquela época são citadas por Jesus com o intuito de corrigir ideias erradas sobre a ação de Deus.

Jesus mostra a necessidade de uma transformação interior e real dos ouvintes, fazendo-lhes o apelo para não se sentirem justos diante de Deus nem considerarem as vítimas de desastres como pecadores castigados. A admoestação de Jesus visa modificar a mentalidade da época, assegurando que todos são pecadores e, portanto, todos são convidados à conversão. Converter-se significa acolher a presença salvadora de Deus oferecida em Jesus. Rejeitá-la seria algo pior que um desastre.

Hoje, muitos cristãos ainda pensam que o Pai exigiu a morte do Filho como pagamento pelos pecados da humanidade. Contudo, na ressurreição de Jesus, o Pai mostra que está do lado das vítimas e que o fato de sofrer violência ou desastres não significa ser castigado pelos pecados.

O texto prossegue com a parábola da figueira, que vem confirmar esse chamamento à conversão. A imagem da figueira estéril era muito comum na época para indicar o comportamento infiel do povo (cf. Jr. 8,13; Mq. 7,1). Apesar da não produtividade da figueira, ainda há uma última tentativa: esperar mais um ano. Lembremos que a atuação de Jesus inaugura o ano jubilar (Lc. 4,18). Isso significa que, na ação e na palavra de Jesus, nos é oferecida a última oportunidade de conversão, de decisão, pois o julgamento está próximo (Lc. 13,9).

2. I leitura (Ex. 3,1 - 8a.13-15): “EU SOU” me envia a vós para vos tirar da escravidão

Esse texto sobre a vocação de Moisés está dividido em três partes: Deus exigiu que Moisés demonstrasse humildade (3,1 - 6), informou-lhe sobre o propósito divino (3,7 - 10) e assegurou-lhe que a presença divina o acompanharia (vv. 13 - 15).

a) Tira as sandálias (3,1 - 7). Moisés está acomodado, apascentando os rebanhos do sogro, e chega até a Montanha de Deus. O texto mostra que Deus chama o ser humano na vida cotidiana, desde que este se disponha a ir um pouco além da rotina diária. Para tanto, o texto bíblico se utiliza de vários elementos simbólicos. A sarça ardente é representada na liturgia judaica como o candelabro de sete lâmpadas sempre aceso no tabernáculo (hoje nas sinagogas), simbolizando a presença de Deus na criação e na história. Caberia ao judeu nunca deixar faltar o óleo (a fé) para que o ser humano fosse tocado pela presença de Deus.

Moisés viu que a sarça ardia e não se consumia porque não é intenção de Deus destruir as coisas para se fazer notado. O termo hebraico para sarça (seneh) soa parecido com Sinai e quer mostrar como o temível Deus do Sinai, a quem Moisés evita olhar, é alguém que se faz humilde num arbusto do deserto e na vida de qualquer pessoa, por mais insignificante que pense ser.

Deus conhece Moisés, chama-o pelo nome e quer também se dar a conhecer, revelando seu grandioso nome. Ao chamado Moisés respondeu hinneni, que se traduz por “aqui eu estou” ou “aqui eu sou”. Porque somente estando diante de Deus o ser humano encontra a própria identidade. Tira tuas sandálias, ordena o Senhor, despoja-te de tua presunção, porque eu sou um Deus que, sendo grande, se faz pequeno. Deixa teus pés tocarem o pó de onde vieste, para que saibas que tua grandeza vem de Deus e não de ti mesmo.

Deus não se apresentou a Moisés como novo deus, mas como aquele que caminhou com os antepassados ao longo da história. Tratava-se do Deus do pacto, um Deus de amor, porque quem ama se compromete com o ser amado. Israel havia se esquecido de seu Deus – afirma a hermenêutica dos mestres judeus sobre esse texto –, mas Deus não esqueceu seu povo, não rompeu com a aliança feita com os patriarcas e não deixou de acompanhar aqueles a quem amava.

b) O propósito divino (3,7 - 10). O Senhor chama Moisés a uma missão. Dois são os elementos principais desse diálogo:

1) a decisão irrevogável de libertar o povo (v. 8);

2) a escolha de Moisés para ser o instrumento dessa libertação (v. 10).

Os verbos empregados indicam a presença constante de Deus junto ao povo: eu vi, eu ouvi, eu conheço as angústias dele, eu desci, eu te envio. Pela primeira vez Israel é chamado de terra onde corre leite e mel. Essa expressão simboliza tudo que pode estar em contraposição à realidade de escravidão. Mas, se a terra prometida tem donos, isso significa que o dom é também uma conquista. Deus não faz 100%, porque, se assim fosse, ele não teria feito um pacto. O Deus da aliança envolve o ser humano em sua ação salvífica.

c) Um Deus companheiro (3,13 - 15). Depois de saber do propósito de Deus, Moisés tem uma pergunta, que não deriva de abstrações filosóficas, mas tem cunho prático e pastoral: se o povo me perguntar qual é seu nome, o que direi? (v. 13). Nas antigas civilizações, o nome significava a própria pessoa, seu caráter, seus atributos, seu ser. A preocupação de Moisés é como é Deus, qual a atividade dele, qual é sua ação.

Deus responde a Moisés com o verbo hebraico “ser/estar”. Como se encontra em uma ação incompleta, devemos traduzi-lo por “era”, “sou”, “serei”, “estava”, “estou”, “estarei”. O Deus sempre presente e acolhedor do ser humano envia mensageiros para que sua presença possa ser efetiva nos que estão em situação de escravidão, para os que têm a dignidade negada. Deus é o existente e a fonte da existência de todos os seres. Seu nome significa que ele é um mistério e só pode ser visto por meio do ser humano, sua imagem. Por isso qualquer tipo de escravidão é uma ofensa a Deus, pois a imagem de Deus é roubada do ser humano quando a dignidade deste é negada.

O “nome” também significa que Deus será conhecido por meio daquilo que faz, ou seja, de sua ação na criação e na história. Ele já agiu em favor dos patriarcas, e seu nome enfatiza a presença ativa do Senhor no passado, no presente e no futuro. O versículo 12, que não foi lido nesta liturgia, afirma: eu estarei sempre contigo. Ele estará presente e agindo até o fim dos tempos.

II leitura (1Cor. 10,1 - 6.10.12): A rocha que os acompanhava era Cristo

A maior parte da Igreja de Corinto era formada por não judeus. Por isso Paulo se preocupa com a qualidade da vida cristã nessa grande cidade, profundamente marcada pela libertinagem e pelas demais situações de pecado decorrentes da falta de compromisso com o seguimento de Jesus.

O texto proclamado na liturgia de hoje divide-se em duas partes:

a) resumo da narrativa bíblica sobre o período em que o povo viveu no deserto (10,1 - 6);

b) uma advertência contra a falsa segurança religiosa (10,10 - 12).

À maneira dos mestres judeus, Paulo resume e interpreta os acontecimentos da saída do Egito e da peregrinação no deserto. Os principais elementos literários e teológicos são: a nuvem, o mar, o maná e a rocha da qual saiu água (Ex. 13 - 17; Nm. 20,7 - 13). Há um vínculo entre a experiência de Deus que os cristãos têm no presente e a experiência de fé vivida pelos hebreus no passado. Os eventos do passado eram prefigurações do que viria em plenitude com Jesus Cristo. O êxodo do Egito foi o ato salvífico do Antigo Testamento, e a morte e ressurreição de Jesus são o evento salvífico por excelência. Esses acontecimentos não estão desvinculados. A obra redentora de Jesus Cristo é a obra do Pai.

Antes de entrar na terra prometida, Israel enfrentou vários desafios no deserto que mostraram a fragilidade de sua fé, e agora a Igreja deve mostrar a consistência de sua fé. Portanto, a Igreja tem muito que aprender com a história de Israel.

Usando um antigo método judaico de interpretação, Paulo afirma a respeito dos hebreus que saíram do Egito: “todos foram batizados”, “todos comeram”, “todos beberam”. “Todos foram batizados”: ou seja, por meio de Moisés, o libertador enviado por Deus, os hebreus receberam vida nova, deixaram de ser escravos e fizeram uma aliança com Deus. Alguns textos bíblicos aludem ao maná como “o pão do céu” (Sl 105,40). De igual forma, a água que brotou da rocha era um dom de Deus. O maná e a água são descritos como alimentos espirituais porque não eram produtos de Moisés, mas, sim, de Deus.

E, como a água brotada da rocha é mencionada no início (Ex 17,1 - 7) e no fim (Nm. 20,2 - 13) da peregrinação no deserto, os mestres judeus forjaram a interpretação de uma rocha ambulante que acompanhou o povo por 40 anos. Isso não é um absurdo, mas um simbolismo profundamente teológico, visto que em várias passagens Deus é chamado de “rocha” (Dt. 32,4ss). Paulo utiliza a teologia dos mestres judeus para afirmar que a rocha era Cristo.

Os hebreus receberam os benefícios da presença divina, mas nem todos assumiram a responsabilidade com o compromisso da aliança. Seu pecado foi duplo (Nm. 13 - 14): 1) duvidar da presença salvadora, murmurando contra Moisés; 2) confiar nas próprias forças. Paulo usa a narrativa sobre o deserto como uma advertência aos coríntios: o mesmo pode acontecer com eles.

O fato de terem participado do “batismo” em Moisés e provado da comida e bebida espirituais no deserto não garantiu aos hebreus a entrada na terra prometida. Tampouco uma participação mecânica na Igreja, sem um seguimento genuíno de Cristo, será garantia de bem-estar nesta vida e de salvação eterna.

A presunção dos coríntios lhes fez crer que a participação regular nos sacramentos lhes era garantia de ser verdadeiros cristãos. Mas, com uma leitura acurada dos eventos do passado, Paulo procura conscientizá-los desse engano. Os sacramentos revelam a presença de Deus entre nós e nos questionam sobre o tipo de vida cristã que estamos assumindo. Eles não nos foram dados para o conformismo e para a presunção, mas como fonte, cume e critério da práxis cristã.

REFLEXÃO

É oportuno perguntar pelo verdadeiro engajamento na Igreja, sobre a qualidade da vida cristã e sobre o significado mais profundo do seguimento de Jesus e suas implicações na vida cotidiana. Também se deve fazer um convite à acolhida da presença de Deus no outro e à conversão diária. É bom perguntar pelos sinais que mostram a veracidade de nossa fé/fidelidade ou a insensatez de nossa presunção.

Aíla Luzia Pinheiro Andrade, nj

 

O tempo da Quaresma recorda muitas vezes o tempo da travessia do deserto por parte de Israel: tempo de peregrinação, de provação e de purificação. O livro do Deuteronômio recorda isto com palavras muito fortes: “Lembra-te de todo o caminho que o Senhor teu Deus te fez percorrer durante quarenta anos no deserto, a fim de humilhar-te, tentar-te e conhecer o que tinhas no coração. Portanto, reconhece hoje no teu coração que o Senhor teu Deus te educava, como um homem educa seu filho” (Dt 8,2.5). No deserto, portanto, Deus usou as provas pelas quais Israel passou, para revelar ao seu povo aquilo que estava escondido no seu próprio coração, isto é, seu pecado, sua fraqueza, sua infidelidade. Mas, também no deserto, Deus cercou seu povo de carinho e proteção, alimentou-o com o maná e saciou-o com a água do rochedo, guiou-o pela nuvem luminosa de noite e protetora contra o sol de dia... Tempo de noivado e de amor entre Deus e o seu povo, foi o tempo do deserto! Por isso, pensar nessa travessia pelo deserto serve tanto para a nossa preparação para a Páscoa.

Mas, vejamos. Como começou o caminho de Israel deserto a dentro? Começou com a “descida” de Deus para juntinho do seu povo que gemia debaixo de humilhante escravidão: “Eu vi a aflição do meu povo que está no Egito e ouvi o seu clamor por causa da dureza de seus opressores. Sim, conheço os seus sofrimentos. Desci para libertá-lo e fazê-los sair...” Que coisa impressionante: um Deus tão grande, tão santo, o Deus de Israel e, no entanto, é capaz de ver a aflição, ouvir o clamor, conhecer o sofrimento do seu povo, que era ninguém, que não passava de um punhado de escravos! “Eu desci para libertá-lo!” Nosso Deus é um Deus que desce, que vem para junto do pobre que se encontra no monturo! Nosso Deus é um Deus que liberta e salva! E quando Moisés pergunta pelo seu nome, Deus revela-o de dois modos: primeiro apresenta-se como o “o Deus de teus pais, o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó” – isto é, o Deus fiel, o Deus que não esqueceu seus amigos do passado, Abraão, Isaac e Jacó e agora vem em socorro de seus descendentes. Depois, Deus revela o seu nome: “Eu sou aquele que será”. Segundo bons exegetas, assim deve-se traduzir o nome de Deus. Isto é, Deus não revela o seu nome a Moisés! Seu “nome”, na verdade, é um desafio, um convite; quer dizer: “Eu sou o que tu verás quando eu agir! Tu verás quem eu sou à medida que caminhares comigo! Eu sou o que estará sempre contigo!” – O Deus que foi fiel a Abraão, a Isaac e a Jacó é confiável, pode-se apostar a vida nele: Moisés e o povo de Israel haverão de ver! E viram, em tantos momentos da travessia do deserto. Na segunda leitura, São Paulo recorda vários destes acontecimentos: a nuvem e o mar (imagens do Espírito e da água do Batismo), o maná (imagem da Eucaristia), a água que brotou da rocha (imagem do Cristo, de cujo lado traspassado brotou o Espírito). Deus fora todo carinho, todo proteção, todo compaixão e paciência... E, no entanto, Israel tantas vezes duvidou, revoltou-se, murmurou, foi de cerviz dura e infiel!

São Paulo nos previne: “Esses fatos aconteceram para servir de exemplo para nós, a fim de que não desejemos coisas más, como fizeram aqueles no deserto. Não murmureis, como alguns deles murmuraram... Portanto, quem está de pé tome cuidado para não cair”. Nós somos o povo de Deus da Nova Aliança. Como Israel, atravessamos um longo deserto rumo à Terra Prometida, que é a Pátria celeste; e também nós somos sujeitos a tantas tentações, como Israel. O grande pecado do povo de Deus da Antiga Aliança era descrer e murmurar contra Deus. De cabeça dura, Israel teimava em caminhar do seu modo, em fazer do seu jeito, em contar com suas forças e sua lógica. Quantas vezes o povo fez isso! Quantas vezes nós fazemos isso!

Neste santo tempo quaresmal, somos chamados a uma sincera conversão, a mudar nossa lógica, confiando realmente no Senhor e trilhando sinceramente seus caminhos! Estejamos atentos à seríssima advertência que o Senhor Jesus nos faz no Evangelho. Primeiro ele usa dois acontecimentos daqueles dias em Jerusalém para ilustrar a necessidade de conversão urgente: os galileus que Pilatos perversamente mandara matar e misturar seu sangue com o dos animais sacrificados no Templo – um ato de profanação! – e as dezoito pessoas que morreram por conta do desabamento de uma torre em Jerusalém. Jesus pergunta: “Pensais que essas pessoas eram mais pecadoras que as outras?” Não! Os sofrimentos da vida não são castigo pelos pecados! Mas, devem servir de reflexão e de alerta para todos! Há uma desgraça muito pior que qualquer acidente: morrer para Deus, ressecar o coração para o Senhor: “Se não vos converterdes, ireis morrer do mesmo modo!” Depois Jesus ilustra o que ele quer dizer com a parábola da figueira estéril: “Há três anos venho procurando figos nesta figueira e nada encontro!” A figueira da parábola é o povo de Israel que, durante três anos, ouviu a pregação do Senhor e não o acolheu. Mas, e nós, há quantos anos escutamos o Senhor? Que frutos estamos dando? Nesta Quaresma de 2004, como vai o nosso combate espiritual, o nosso caminho de conversão?

Não abusemos da paciência de Deus, não tomemos como desculpa a sua misericórdia para retardar nossa conversão! O Eclesiástico previne severamente: “Não digas: ‘Pequei: o que me aconteceu?’ porque o Senhor é paciente. Não sejas tão seguro do perdão para acumular pecado sobre pecado. Não digas: ‘Sua misericórdia é grande para perdoar meus inúmeros pecados’, porque há nele misericórdia e cólera e sua ira pousará sobre os pecadores. Não demores em voltar para o Senhor e não adies de um dia para o outro, porque, de repente, a cólera do Senhor virá e no dia do castigo perecerás” (Eclo 5,4 - 7)

Caríssimos, eis o tempo de conversão, eis o dia da salvação! Deixemo-nos reconciliar com Deus em Cristo! Convertamo-nos!

 dom Henrique Soares da Costa

 

“Tenho os olhos sempre fitos no Senhor, porque livra os meus

pés da armadilha. Olhai para mim, tende piedade,

pois vivo sozinho e infeliz”. (cf. Sl 24,15s).

Vamos caminhando no nosso retiro de quaresma. No primeiro domingo tratamos das tentações que Cristo sofreu na sua vida pública que são as tentações que cada um de nós é diariamente tentado pelas forças do demônio: o poder, o ter e a vontade de se colocar no lugar de Deus.

No segundo domingo refletimos sobre a transfiguração de Nosso Senhor Jesus Cristo no monte Tabor: todos nós somos convidados a nos retirar para rezar como Jesus para sermos transfigurados. Que brilhe em nossas vidas a luz magnífica de Nosso Senhor Jesus Cristo! Neste domingo nós somos convidados a refletir sobre o fogo que vem de Deus, ou seja, Deus é fogo com nossos pecados, mas tem paciência com a nossa humanidade.

A liturgia de hoje, a metade do tempo da quaresma, nos fala de conversão. O Evangelho de hoje realça a graça de Deus. Lucas é o evangelista da graça, dos pobres e dos pecadores, daqueles que estão à margem da sociedade e da própria comunidade eclesial. Para receber a graça que nos renova devemos estar conscientes de sermos pecadores. Porém, ao mesmo tempo em que tomamos consciência de que somos pecadores, devemos ter diante de nossos olhos a perspectiva da graça e do perdão de Deus, nosso Pai e Pastor.

A primeira leitura(cf. Ex. 3,1 - 8a.13 - 15) que nos apresenta Deus na sarça ardente. Esta perícope é a manifestação de Deus no Horeb e a vocação de Moisés para libertar Israel e concluir a Aliança em seu nome. A revelação a Moisés é interpretada como a continuação da revelação a Abraão, Isac e Jacó. Esta “história da Salvação” completa-se em Cristo, na Nova Aliança.

Deus perdoa nossos pecados, mas quer ver os frutos da penitência, os frutos das boas obras. Deus tem paciência, espera pelo pecador; sua paciência é infinita, mas é limitado o tempo que a criatura humana tem para produzir frutos, porque só nesta vida presente podemos praticar e fazer o bem.

Deus é misericordioso para conosco, mas exige que sejamos misericordiosos para com o próximo. O que adianta receber o perdão de Deus se nós não perdoamos o nosso semelhante. Isso não é cristão! A misericórdia é uma iniciativa de Deus. Nossa primeira resposta é o arrependimento de nossos pecados e nossa resposta em segundo momento é a compreensão para com a fraqueza dos outros. A misericórdia de Deus se transforma em amor para conosco, até o extremo de uma comunhão.

Pilatos, como governador romano, tinha verdadeira antipatia pelos galileus, dos quais desconfiava sempre que estivessem tramando algum motim. Os galileus sempre se revoltavam com razão: eram explorados, eram quase escravizados, pagavam impostos elevadíssimos. Apresentar sacrifícios a Deus no templo era visto por Pilatos como conspiração contra o poder opressor e invasor de Roma. Sacrificar galileus defronte para o Templo era um sacrilégio! Na mentalidade dos galileus se eles fossem mortos na hora em que praticavam o bem, deveriam estar cobertos de pecados. Caso contrário Deus devia tê-los livrado da desgraça. Esta ligação entre castigo e pecado persiste ainda hoje na mentalidade de muitos de nossos irmãos.  Mas é uma visão errada, porque Deus é misericórdia e não castiga o seu povo santo e fiel.

O homem naturalmente é inclinado para o mal e a prática da maldade. A pergunta feita a Jesus no evangelho(cf. Lc. 13,1 - 9) tinha como escopo saber o que Jesus achava da morte violenta era conseqüência do castigo por culpa grave. Jesus não responde sobre a culpabilidade dos mortos, mas recorda que todos somos pecadores e todos precisamos fazer penitência. Quem não faz penitência e não procura a conversão poderá ter uma morte muito pior do que a sorte dos galileus: a morte no fogo do inferno.

A vida humana é efêmera: já dizia o poeta que todos nós devemos passar as nossas existências distribuindo o bem, plantando a caridade e regando a humildade de atitudes, todas estas virtudes que pavimentam uma grande autopista rumo ao céu.

A figura bíblica da figueira é representada pelo povo. A figueira é cada um de nós. O dono da vinha e da figueira é Deus. O cultivador é Jesus. Jesus intercede pelo povo. Pede que Deus tenha paciência com o seu povo, na espera de que o povo e cada um de nós ouça sua palavra, colocando-a em prática, buscando a conversão sincera e a mudança de vida. Jesus quer que nós possamos dar bons frutos. Foi para isso que Jesus se encarnou e nos oferece todas as possibilidades de mudança de vida. Jesus é misericórdia, é perdão, é acolhida, é caridade, é amor.

Duc in altum! Voltemos nossos corações para Deus, o Salvador! Vamos nos abrir a Deus, a Palavra, a conversão, a mudança de vida, a vida plena em Deus. A conversão de que fala Jesus hoje está no centro de sua pregação, desde o início da vida pública: Ele veio para chamar os pobres e os pecadores a conversão.

Todos nós somos pecadores! Todos nós temos que mudar alguma coisa em nossa vida, em nossa caminhada. Todos nós devemos buscar a perfeição em Deus. Conversão que não é um puro ritualismo sacramental! O rito é necessário. Mas do que é rito é à vontade, a intenção que deve ser verdadeira, para valer!

Cristo é como o jardineiro paciente que rega, aduba e poda a planta. Jesus faz isso conosco! Mas Cristo diz que se a figueira não der bons frutos é necessário cortá-la. Que nos afaste esta ameaça do Evangelista se nós não nos convertermos.

A primeira leitura nos fala do Temor de Deus. Assistimos à grandiosa revelação de Deus a Moisés, na sarça ardente. Deus está em fogo inacessível. Deus devora quem dele se aproxima. Deus está aí, com seu poder e sua fidelidade, mas também com sua justiça: na segunda leitura, Paulo nos ensina a lição da história de Israel: eles tinham a promessa, os privilégios, à proteção de Deus. Todos os israelitas experimentaram, no deserto, a mão de Deus que os conduzia. Todos foram saciados com o alimento celestial e aliviaram-se na água do rochedo. Contudo, a maioria deles, por causa de sua dureza de coração, foram rejeitados por Deus. Com vistas ao fim dos tempos e ao Juízo, são Paulo avisa seus leitores para que aprendam a lição: quem pecar e não procurar a conversão não receberá a proteção de Deus.

A segunda leitura da missa deste domingo(cf. 1 Cor. 10,1 - 6.10 - 12) nos apresenta a teologia da história, com as conseqüentes lições do Êxodo. O apóstolo são Paulo tira as lições da história de Israel: a passagem pelo Mar Vermelho, o maná, a água do rochedo, tudo isso aponta o Cristo, o novo Moisés, e os sacramentos que dão sustento ao novo povo de Deus. Mas nem o batismo, nem a Eucaristia garantem a salvação mecanicamente, mas antes exigem do homem a cotidiana resposta da fé, atuante na caridade.

Levemos para a semana que Jesus nos alerta que as catástrofes não devem ser interpretadas como castigos pessoais, mas como apelo à conversão para os sobreviventes das intempéries. Deus concede o tempo necessário para se produzir em frutos de boas obras a misericórdia de Deus. Importa aproveitar a Jesus Misericordioso como tempo propicio que nos dá pistas para a conversão.

Quaresma nos pede intensa oração, redobrada penitência e o gesto concreto de auxílio aos pobres com o jejum e a esmola. Assim iremos purificados para a Páscoa. Assim hoje bem nos cabe a advertência inicial da quarta-feira de cinzas: “Convertei-vos e crede no Evangelho!”

padre Wagner Augusto Portugal

 

Primeira leitura - Êxodo 3,1 - 8a.13 - 15

DEUS REVELA SEU NOME A MOISÉS

O texto se insere na narração das teofanias de Deus a Moisés e da revelação do seu santo nome. Javé se apresenta como aquele que é perenemente fiel. É o Deus dos antepassados: Abraão, Isaac e Jacó, o Deus da Aliança com os patriarcas. É sensível aos sofrimentos do povo, ao qual vê, ouve e conhece, e por isso age (v.8), com o projeto de lhe dar a terra boa. Mas, para concretizar esse projeto, Deus quis precisar de Moisés, para guiar o povo no deserto, fazer através dele a Aliança no Sinai e conduzir o povo à terra prometida.

Este capítulo é conhecido como o capítulo da missão de Moisés e da revelação do nome de Deus como JHWH. Possui um conteúdo muito importante, pois trata do Êxodo, da Aliança e da libertação.

O tema é característico do episódio do chamado e da missão, do qual a Bíblia é muito rica. Neste esquema convergem diversos elementos: Teofania onde Deus aparece, Missão ligada ao chamado, Promessaestarei com você”.

Os sinais que acompanham os chamados espelham o esquema clássico da vocação semelhante à de Gedeão (Juízes 6,1-24), Jeremias (Jeremias 1,4 - 10) e Isaías (Isaías 6,1 - 13). O esquema é: Apresentação de Deus (Êxodo 3.2.6.14), Chamado (Êxodo 3,7 - 10), Objeção de quem foi chamado (Êxodo 3,16), Sinais confirmadores (Êxodo 4,2 - 8).

Javé se apresenta como aquele que é fiel. Ele viu a aflição, a exploração e o clamor do povo. Em hebraico, a palavra “saao” (clamor) é um grito desesperado por justiça. Por isso ele chamou Moisés.

O episódio da sarça ardente mostra a santidade de Deus. Por isso Moisés tira as sandálias, gesto que os islâmicos usam ainda hoje ao entrar numa mesquita. Deus promete um país rico, espaçoso, onde corre leite e mel. Esta terra é descrita num enfoque teológico como “terra prometida” aos pais (Gênesis 15), num enfoque geográfico como “país cananeu, do hitita, do amoreu”... (Êxodo 3,8 - 17) e num enfoque político como “a jóia do mundo” (Daniel 8,9).

Segunda leitura: 1 Coríntios 10,1 - 6.10 - 12

QUEM PENSA ESTAR DE PÉ CUIDE PARA QUE NÃO CAIA

Os capítulos 8 - 10 desta carta abordam os problemas das carnes sacrificadas aos ídolos e vendidas nos açougues das cidades. Comer estas carnes era idolatria ou não? Para alguns mais esclarecidos não, porque os ídolos não existiam mais, mas outros diziam que sim.

Os coríntios formavam uma comunidade composta na maioria por pagãos convertidos. Paulo explica para eles como não cair nos mesmos erros do povo de Israel. Explica que Israel libertado do Egito fez uma experiência da solidariedade de Deus, o qual o protegeu com as nuvens, o fez passar pelo mar Vermelho, o alimentou e lhe saciou a sede. Contudo, este povo não lhe foi fiel. Por isso, a comunidade de Corinto deve estar atenta para não cair no mesmo erro de cobiça, idolatria, fornicação, desconfiança e murmuração. Repetir o erro do passado é criar uma sociedade que tem como parâmetro as opressões dos faraós.

Quanto à polêmica das carnes sacrificadas aos ídolos, Paulo afirma que não há problema em comer carnes sacrificadas, mas a solidariedade deve permanecer, e, portanto, é melhor abster-se da carne para não perder o irmão fraco. O amor é o termômetro da solidariedade.

Evangelho: Lucas 13,1 - 9

PENITÊNCIA: A FIGUEIRA ESTÉRIL

O texto está inserido na viagem de Jesus a Jerusalém, que inicia em Lucas 9,51. Esta viagem é para Lucas um verdadeiro itinerário de libertação.

Neste contexto uma tragédia humana é apresentada. Pilatos quis construir um aqueduto e usou o dinheiro do tesouro do Templo. Provocou a resistência de um grupo de galileus, que foram assassinados quando ofereciam sacrifícios no Templo. A outra tragédia é a queda da torre de Siloé, matando dezoito pessoas. Para a mentalidade dos hebreus, baseada na doutrina da retribuição, supunha-se que as catástrofes fossem castigos de Deus. Segundo aquela mentalidade, pegou-pagou.

Para Jesus, as tragédias humanas não são castigos de Deus. Jesus nega uma relação entre as culpas das pessoas e o seu fim trágico. Todavia, tais eventos devem constituir uma advertência séria e um convite à penitencia. Deus não é vingador, mas amoroso.

Jesus mostra a possibilidade de viver a solidariedade de Deus através da “metánoia”, tendo assim a vida.

A parábola da figueira é uma amostra de como Deus é solidário e paciente. A figueira é uma das árvores mais comuns e generosas da Palestina. Geralmente era plantada no meio das vinhas, que são o símbolo mais eloqüente de Israel, e chega a produzir frutos dez meses seguidos. Na representação da parábola, a figueira é o povo que faz parte da vinha. Quem plantou a figueira e vai procurar frutos é Deus. O agricultor é Jesus. Os três anos representam os anos de pregação de Jesus, depois dos quais são esperados frutos. A sentença do patrão ao não encontrar frutos é severa, mas o agricultor se propõe a adubar a figueira. Assim se exprime a solidariedade de Deus em Jesus.

Neste trecho, Jesus nos convida à conversão, que segundo a palavra hebraica “shûb” significa trocar de estrada e pôr-se no caminho de Deus. É trocar de mentalidade, ter um novo modo de pensar e julgar. É tomar consciência do pecado e afastar-se dele. É um processo na vida e não um momento da vida, renovando sempre a adesão a Deus.

Certa vez perguntaram a Malraux: “O que é preciso para limpar Paris? Ele respondeu: “Quinze minutos, desde que cada um limpe a frente de sua casa”. A conversão do mundo está aí: no esforço comum.

REFLEXÃO

O povo era escravo no Egito. Deus enviou Moisés para libertá-lo e conduzi-lo a Canaã, mas muitos não chegaram à terra prometida. O mesmo pode acontecer com cada um de nós, que também atravessamos o mar Vermelho (Batismo), recebemos o maná (Eucaristia) e também não chegamos à terra prometida, ou seja, à felicidade eterna.

Para que isto não aconteça, escutemos o que Jesus diz no Evangelho. Nos dois exemplos, a matança dos galileus e o desastre com aqueles que construíam a torre de Siloé, todos morreram. Jesus ensina que não existe segurança nenhuma neste mundo. Nossa morte pode chegar a qualquer momento. Jesus convida à conversão para que não se pereça. Aqui, perecer significa escolher o inferno, viver afastado de Deus, sem amor. Para Jesus, conversão (shûb) significa trocar de mentalidade, ter um novo modo de pensar e julgar. É tomar consciência do pecado e afastar-se dele. A conversão é um processo na vida e não um momento da vida. É uma adesão a Deus.

A partir deste domingo, a liturgia se concentra inteiramente no tema da conversão, que é uma resposta adequada à paciência de Deus. Lucas explicita bem na parábola a misericórdia de Deus, tema que ele aprecia bastante. Deus manifesta sua paciência esperando que demos frutos de conversão. Há, porém, maneiras diferentes de viver a urgência da conversão: como ameaça ou como convite libertador. Como ameaça, a iminência do juízo de Deus gera angústia. Como convite libertador, é um chamado estimulante que gera a alegria, porque liberta do peso que nos impede de crescer como pessoas.

Converter-se do quê? Do pecado, mas este não existe em abstrato. O que conta é o agente do pecado, ou seja, a pessoa. Assim, a primeira coisa que devemos mudar em nós é a maneira de pensar, para assimilar os critérios de Jesus e o estilo de sua conduta, tal como o expressou em toda a sua vida e em sua doutrina. Isto está contido nos ensinamentos das bem-aventuranças.

Mudar o interior é penoso para nós porque estamos instalados muito a gosto em nossa mesquinhez e na sombra inútil de nossa figueira frondosa, mas que talvez seja estéril. Temos todas as soluções nas mãos, mas não aplicamos nenhuma para nos renovar e melhorar nosso ambiente. Pois se trata de reformar a nós mesmos e não aos outros.

Converter-se significa dirigir o coração a Deus, estar disposto a usar todos os meios para viver com ele. Afastar da vida todo pecado deliberado. É ter um coração contrito, que conheça suas faltas e pecados e esteja disposto a eliminá-los. É ter uma dor sincera por seus pecados, que se manifesta, sobretudo, na confissão. É procurar novamente o perdão e a força de Deus no sacramento da Reconciliação, para recomeçar. É ter a atitude que Davi teve no Salmo 50.

Uma demonstração clara de nossa vontade de conversão e desprendimento das coisas materiais é a atitude de mortificação que se manifesta em coisas simples do dia-a-dia, como a pontualidade em começar as tarefas e a intensidade com que as realizamos, a convivência com as pessoas que nos propicia ocasiões para mortificar nosso egoísmo e contribuir para criar um clima mais agradável. Mortificações que não mortificam os outros, que nos tornam mais delicados, mais compreensíveis e abertos a todos. Não nos mortificamos quando somos suscetíveis, estamos preocupados apenas conosco, oprimimos os outros, não sabemos privar-nos do supérfluo e às vezes do necessário, ficamos tristes quando as coisas não andam como havíamos previsto. Somos mortificados quando sabemos fazer tudo para todos, para salvar a todos (1 Coríntios 9,22).

Além disso, manifestamos atitudes concretas de conversão com o jejum e a abstinência que fortalece o Espírito, mortifica a carne e sua sensualidade e eleva a alma a Deus, e abate a concupiscência, dando forças para vencer e amortecer as paixões.

A atitude de conversão é fomentar o desejo profundo e eficaz de voltar uma vez mais para Deus, como o filho pródigo, com um retorno mediante a contrição, a conversão do coração, que se traduz no desejo de mudar, na decisão firme de melhorar de vida.

padre José Antonio Bertolin, OSJ

 

O texto do livro do Êxodo nos apresenta a versão mais conhecida da assim chamada vocação de Moisés, que é também a "auto-apresentarão" de Javé. Entre os antigos semitas, o nome de Deus era algo muito significativo. O Deus que se revela tem um nome diferente para o povo. Significa que Deus mudou (mudamos de Deus); este é um Deus que se mostra a partir da história como um Deus que manda os eleitos para que dêem resposta aos clamores comoventes, diante dos quais não pode ficar indiferente.

O que significa o nome de Deus? A resposta não é fácil, pois ela inclui o verbo "ser", "estar": as opiniões mais sólidas são três: "eu sou o que faz ser", o que remete a um Deus criador, ainda que não se entenda a razão de ser dessa confissão de fé nesse momento; o reconhecimento de Deus como criador, parece ser mais tardio, como em Segundo Isaias, no tempo do exílio; "eu sou o que sou" no sentido de ressaltar que Deus existe, enquanto os ídolos não existem (no sentido usado em Os 1,9), uma referencia à aliança, e a "duplicação do nome" destaca a soberania de Deus que "usa de misericórdia com quem usa de misericórdia" (Ex 33.19), isto é: sempre; finalmente, "eu sou o que estarei" (com vocês), É o Deus da presença salvadora, o que acompanha a história. Os dois últimos sentidos parecem ser os mais prováveis: Deus garante sua presença e por isso enfrenta os deuses do Egito: o clamor do povo não pode ficar impune.

O Evangelho situa-se na "viagem a Jerusalém", onde Lucas apresenta muitos textos de sua autoria. Contudo, o relato apresenta certa semelhança na forma com o que vinha sendo dito: em 12,51, também havia perguntado "crêem que..." e a resposta foi "asseguro-lhes que..." concluindo com uma parábola. Neste caso se apresenta abruptamente uma situação histórica, com uma aparente interpretação religiosa. Jesus corrige essa interpretação e inclusive apresenta outra situação semelhante que se prestaria à mesma interpretação. "Não, asseguro-lhes" é a correção que Jesus propõe (VV. 3.5) para a qual apresenta outra parábola (vv. 6 - 9).

O acontecimento histórico nos é desconhecido. Diferentes fatos foram propostos, mas nenhum coincide exatamente com o fato narrado no evangelho. É estranho que Flávio Josefo não o tenha narrado, pois era pouco amigo de Pilatos. Porém este debate supõe um (ou dois) acontecimentos ocorridos realmente. A mistura de sangue dos galileus com o sangue dos sacrifícios faz pensar na festa da Páscoa: nessa festa, Pilatos e os peregrinos - também os da Galileia - se encontravam em Jerusalém, e os leigos participam dos sacrifícios, já que devem levar para sua casa, lugar da celebração, o cordeiro para ser consumido em família. O outro fato afeta 18 pessoas. Se o primeiro é incidental, este é ocasional. No primeiro há um cerimonial, no segundo há um fato casual. O que é comum para ambos são os mortos e a interpretação que os interlocutores de Jesus fazem do fato. Da torre de Siloé sabemos apenas de sua existência, e de sua ampliação. Josefo narra o fato, porém não conta nenhum acidente desse tipo. Não sabemos se Lucas não está pensando ou pode estar relendo a queda de Jerusalém, posterior ao ano 70, porém mais além dos fatos históricos, o importante é a resposta à imagem de Deus que isto supõe.

A opinião teológica clássica estabelece uma estreita relação entre culpabilidade e castigo, daí que os interlocutores pensem que nessas mortes Deus castigou seus pecados; estamos próximos da teologia tradicional da "retribuição", a mesma que é defendida pelos amigos de Jó. Jesus não questiona a culpabilidade dos galileus, porém se nega a apresentar um Deus tão cruel, e prefere mostrar um Deus em diálogo com os homens, um Deus que dê espaço à conversação. " Se vocês não se converterem" coloca os ouvintes no mesmo nível dos galileus e passa a idéia de que "todos são culpáveis". E nos leva a olhar o mundo e os acontecimentos, não como espectadores, mas como atores. Em vv. 2 e 4 coloca-se em paralelo pecadores e devedores; certamente os leitores gregos de Lucas não entendem "dívida" em um sentido também religioso (no Pai nosso, onde de diz "pecados" se dizia "dívidas"), porém por estar em paralelo não precisa explicação e se compreende que aqui a "dívida" deve ser entendida por "culpa". Ao rejeitar a imagem de Deus, Lucas apresenta um divindade menos poderosa e mais misericordiosa, perante um Deus de amor, convida-nos a ter presente que nossa sorte está no perdão de Deus mais que em nossas atitudes.

Nesta perspectiva, Jesus nos apresenta uma parábola. Com freqüência ela foi alegorizada (por exemplo, os três anos fariam referencia à vida pública de Jesus, dado que Lucas nunca fala e parece desconhecer). Sabemos que com muitíssima freqüência Israel é comparado com uma vinha (o exemplo mais evidente é Is 5,1ss, porém Israel também já foi comparado com uma figueira (Jr. 8,13; Os. 9,10; Mi. 7,1). Não é necessário dizer que a videira representa Israel e a figueira representa Jerusalém, provavelmente o uso de ambas as imagens tem como intenção simplesmente reforçar a idéia (Mi. 4,4) e que fique muito claro de quem se está falando, de Israel, e desse modo conduzir à "conversão" (metanoia) que é o centro de toda a unidade. A figueira não somente não dá fruto, mas que ocupa um lugar importante. O dono repete o que sabemos, que foi buscar frutos e não os encontrou, porém acrescenta novos elementos: que faz três anos que repete o mesmo gesto, daí a sua decisão de cortá-la; a destruição é aqui, imagem do juízo. O surpreendente ocorre com a intervenção do vinhateiro (comum na bíblia) ele se ocupará de alimentar e regar a planta e leva o dono a ter uma nova e última esperança, nesse caso um ano. Esta será a última oportunidade da árvore de dar fruto, do contrário será cortada. Como em outras parábola, o final permanece "aberto", não sabemos se a figueira deu ou não o fruto esperado, como não sabemos se o filho mais velho entrou na festa do pai após o regresso do filho mias novo. Como a parábola pretende levar a uma atitude, são nossas atitudes que vão dizer se o final vai ser negativo ou positivo. Os ouvintes, pecadores, tem também sua última oportunidade de dar fruto de conversão para Deus. Os israelitas são convidados, tanto pelos acontecimentos cotidianos, como pela palavra de Jesus, a escutar a voz de Deus que os convida à conversão. E, com eles, também nós.

Jesus nos ensina, no texto de hoje, a aprender a escutar a voz de Deus nos acontecimentos da historia. De fato, seus interlocutores também o faziam, e por isso contam os fatos, porém escutam mal: eles não ouviam o que Deus queria dizer. É verdade que Deus fala, porém é preciso aprender a escutá-lo. Deus não nos diz que os mortos dos referidos acontecimentos drásticos, só eles eram pecadores, porque, de fato todos o são. O que Deus nos diz é que, por sermos todos pecadores, devemos converter-nos e dar frutos de conversão. Os frutos são uma palavra de Deus para esta etapa da história.

A vida da figueira muitas vezes representa na Bíblia o povo de Israel, para que fique claro que se refere a isto, a parábola nos fala de uma figueira plantada em uma vinha. Porém nesses casos o problema, com muita freqüência, são os frutos, ou para ser precisos, os maus frutos ou a falta deles. De que serve uma figueira que não produz frutos? Se não produz frutos reiteradamente, o problema se agrava: não somente não produz fruto, mas acaba ocupando um lugar que poderia ser aproveitado para outra planta. Deus preparou o terreno, fez tudo que era necessário, tomou um tempo prudencial, porém, e os frutos? Deus havia preparado o seu povo com muito carinho. E qual a resposta ao carinho de Deus? O tempo está acabando e a figueira está prestes a ser cortada. Somente a intervenção dos trabalhadores pode postergar o corte por mis um breve tempo.

Vivemos em sociedades chamadas cristãs. "Ocidental e cristã" se dizia, e os frutos foram torturas, desaparições, assassinatos, delações, medo, desesperança... e mais ainda: fome, desocupação, analfabetismo, falta de saúde e moradia, desesperança... e "pelos frutos se conhece a árvore". Hoje muitos que se dizem cristãos continuam vivendo sua fé muito longe dos frutos de amor e de justiça que nos pede o evangelho: participam de mesas de dinheiro, da tirania do mercado, pagam salários "estritamente justos" e precisamente baixos, estão afiliados a partidos que nada tem que ver com a Doutrina Social da Igreja (pode-se ser cristão e neoliberal? Certamente não). E os frutos? Individualismo, fome, pobreza... Assim, por exemplo, vemos que um dos problemas da América Latina para o reconhecimento "oficial" de nossos mártires é que os seus assassinos "eram igualmente cristãos!" Isto é uma verdadeira decepção.

Quantos se dizem cristãos entre nós! Quantos são "cristãos comprometidos", participantes de missas e movimentos!... Porém, também quanto escândalo!

"Meu Deus, quero pedir-te perdão por ter esquecido o mais importante: que és meu Pai; Senhor, nunca mais quero ter medo de ti, sou teu filho e não teu escravo. A partir de hoje em diante quero que estejas comigo. Quero demonstrar-te com fatos, não com meras palavras, que te amo... quero amar-te em cada pessoa que encontrar, porque esta é a tua vontade. Quero sofrer com meus irmãos que estão sem trabalho, quero sentir como minha a angústia de milhares e milhares de aposentados... Faze, Senhor, que a teu exemplo, passe pela vida espalhando o amor" (Carlos Mugica )

Não bastam as palavras. De nada serva uma figueira estéril. Uma figueira deve dar figos já que para isso foi plantada. Um povo redimido por Cristo deve edificar com sua vida (e com sua morte se necessário) um Reino que dê frutos de verdade, de justiça e de paz, de liberdade, de vida e de esperança... Estamos longe, muito longe de consegui-los. É verdade que em muitas comunidades há também frutos muito vivos de solidariedade, de paz, de oração, de justiça e de vida, de celebração e de esperança... e poderíamos multiplicar os frutos que vemos nas comunidades; porém tudo que foi dito antes também é certo. Podemos produzir muitos frutos ainda. Muita vida ainda pode ser colhida e muita alegria há que se festejar.

O continente da violência, da injustiça e da fome reclama frutos dos cristãos. E esses frutos devem ser produzidos na história. Os acontecimentos cotidianos, de dor e de morte, que tão frequentemente vemos na América Latina, são palavra de Deus. Uma palavra que devemos aprender a escutar, devemos compreender para não achar que Deus diz o que não está dizendo. Jesus nos ensina a "dinâmica do fruto" para que aprendamos a reconhecer aí um Deus que continua falando e chamando à conversão, não uma conversão individual e pessoal, mas que dê frutos para os irmãos, para a história e para a vida. E a Quaresma é tempo oportuno para começar a dar frutos.

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1º leitura – Êxodo 3,1 - 8a.13 - 15

a) Apresentação de Javé – o Deus libertador

Moisés foi pastoreando as ovelhas do seu sogro até à montanha de Deus – o Horeb (= Sinai). Ali Deus aparece para Moisés no meio de uma sarça que estava em chamas, mas não se consumia. A experiência de Deus é um mistério que está além da compreensão humana. Este mistério é apresentado aqui como fogo que arde sem se consumir. Deus chama Moisés e se apresenta como Deus de seus antepassados, o Deus que fez aliança com os patriarcas Abraão, Isaac e Jacó. É um Deus sensível e solidário, por isso escutou os clamores do povo no Egito e desceu para libertá-lo. É um Deus fiel às promessas feitas aos patriarcas. Ele vai conduzir o povo a uma terra boa e espaçosa, onde corre leite e mel.

b) Vocação e missão de Moisés e revelação do nome de Deus

“Moisés, Moisés”. “Aqui estou”. Deus chama e Moisés responde. Deus exige respeito e reverência. Moisés, de fato, deve tirar as sandálias, pois ele está pisando em lugar sagrado.

Para que Deus chama Moisés? Para ele ser o seu agente na libertação do povo, por isso Deus vai enviá-lo ao Egito. Moisés, porém, se sente incapaz dessa missão (v. 11). Mas Deus garante sua presença e promete que o povo chegará até o Sinai para prestar-lhe um culto. Em seguida, Deus revela o seu nome: “Eu sou aquele que sou”, para que quando o povo perguntar, Moisés possa responder: “Eu sou envia-me a vós”. “Ele é o mesmo Deus dos seus antepassados, sempre fiel às suas promessas feitas a Abraão de formar dele um numeroso povo e libertá-lo do Egito. E ele quer ser chamado sempre com este nome que está ligado a sua presença e a todo o processo de libertação do povo.

Cada um de nós deve perguntar a si mesmo: Qual é a identidade de Jesus Cristo para mim? Ele me chama para alguma missão?

2º leitura – 1 Cor 10,1 - 6.10 - 12

Esta releitura do Primeiro Testamento quer mostrar que “estes fatos aconteceram como exemplos para nós”. A preocupação do apóstolo é a tentação da comunidade de recair nos erros do passado “a falsa ilusão de estarem seguros e a indigna convicção de já terem atingido a libertação definitiva”. Quais são os fatos que aconteceram como exemplos? A travessia pelo deserto, onde os israelitas eram protegidos pela nuvem de Deus, a travessia do Mar Vermelho, sob a ordem de Moisés. O maná alimento de Deus para todos, a água da rocha. A nuvem e a água do mar lembram para Paulo o batismo que lava, congrega, compromete. No maná e na água da rocha, temos a prefiguração da Eucaristia. E essa rocha que nos acompanhava era Cristo. “Segundo as tradições dos rabinos, a rocha golpeada por Moisés (cf. Nm. 20,1 - 3) seguia os hebreus para providenciar-lhes a água. Essa interpretação é aqui usada para dizer que “Cristo conduz o povo desde os tempos do  xodo” (cf. Bíblia Pastoral). Também para o judaísmo, a sabedoria (que para nós é Cristo) era identificada com a rocha do deserto. O v. 5 nos adverte: “No entanto, a maior parte deles desagradou a Deus e, por isso, caíram mortos no deserto”. Quer dizer, com tantos favores de Deus, tinham tudo para serem ótimos e mesmo assim pecaram. E tudo isso aconteceu como exemplo e instrução para nós que vivemos no fim dos tempos. Fim dos tempos não é proximidade cronológica, mas qualificação existencial do tempo presente, aberto à superação final. O que fazer então? É não fazer o que eles fizeram. Os vv. 6-10 enumeram o que não se deve fazer: cobiças, idolatrias, imoralidades, provocar a Deus, murmurar. Eles cometeram esses erros e foram castigados. Eis a grande advertência final: “portanto, quem julga estar de pé tome cuidado para não cair.” Quer dizer, nunca achemos que somos melhores do que ninguém só porque temos uma vida sacramental, pois fomos feitos do mesmo barro.

Você é consciente de sua fragilidade e sempre confiante?

Evangelho – Lc. 13,1 - 9

As tragédias humanas não são castigos de Deus

Algumas pessoas contam a Jesus a tragédia dos galileus. Pilatos utiliza o tesouro do Templo de Jerusalém para construir um aqueduto. Um grupo de galileus opôs resistência a essa atitude desrespeitosa e arbitrária do procurador. Pilatos reage assassinando-os, enquanto ofereciam sacrifícios no Templo. A esse caso Jesus acrescenta outro, ou seja, a queda da torre de Siloé matando dezoito pessoas. Só que este não é identificado historicamente. Que interpretação os judeus davam a esses fatos? Eles achavam que eram castigos de Deus pelos pecados deles. É a doutrina da retribuição: quem faz o mal deve pagar por ele já nesta vida. Como eles são justos foram poupados.

Uma lição dos fatos

Jesus tira essa idéia errada da cabeça do povo: todos são pecadores, todos têm de se converter. Deus não é vingador. Esses fatos trágicos são falhas humanas (caso de Pilatos) e contingências da vida (queda da torre de Siloé). Entretanto Jesus tira uma lição dos fatos da vida. As vítimas não são mais pecadoras do que os presentes, mas estes acontecimentos podem ser vistos como advertências e convite à conversão. Uma vida de solidariedade no mal leva à ruína total. Uma vida de solidariedade no bem leva à construção do Reino de Deus.

A paciência e generosidade de Deus em Jesus Cristo – parábola da figueira (vv. 6 - 9)

A figueira que simboliza o povo de Israel é uma árvore generosa, pois dá frutos dez meses por ano. Ela estava plantada no meio da vinha que também simboliza Israel. É Deus que a plantou. Só que esta figueira não dá fruto e já faz três anos de espera paciente – paciência de Deus. Três anos podem simbolizar a atividade de Jesus sem resposta produtiva de Israel. Deus se dirige ao agricultor e exige que ele a corte. O agricultor é Jesus. Jesus pede mais um tempo. Vai investir além das expectativas. Vai desdobrar-se de cuidados pela sua figueira: cavar ao redor e adubar! Só que os agricultores sabem que não precisam adubar as figueiras, pois já eram plantadas no meio das vinhas e tratadas com esmero. Este cuidado retrata que a solidariedade, paciência e carinho de Deus chegam às raias do absurdo. Mas fica uma grande pergunta no ar. Será que para nós que somos a figueira não está terminando o ano da culpa? O excesso de carinho e paciência de Deus está encontrando ressonância? Quem sabe estamos abusando da paciência de Deus?

dom Emanuel Messias de Oliveira

 

PACIÊNCIA E MISERICÓRDIA

A conversão constitui o apelo fundamental do tempo da Quaresma, em preparação à Páscoa. A conversão não é algo de adquirido uma vez por todas. Trata-se de um processo fundamental: consiste fundamentalmente em deixar o mal e fazer o bem.

As leituras deste III domingo mostram que, através da história, Deus faz apelos à conversão. A partir dela, Deus exerce a sua misericórdia.

O Deus presente na história do povo de Israel tem pena do seu povo e vai libertá-lo dos opressores (cf. 1ª leitura, Ex. 3,1 - 8. 13 - 15). Paulo lembra que nem todos que foram objeto da ação misericordiosa de Deus na experiência do Êxodo corresponderam à Sua misericórdia. Servem de exemplo, de alerta, para que não façamos o mesmo (2ª leitura, 1 Cor. 10,1 - 6. 10 - 12).

No Evangelho (Lc. 13,1 - 9) Jesus alerta que as catástrofes não devem ser interpretadas como castigos pessoais, mas como apelo de conversão para os sobreviventes. Deus concede o tempo necessário para se produzir em frutos de boas obras. Importa aproveitá-lo como tempo propício, vivendo a conversão.

O Senhor espera frutos da figueira, espera frutos de nossa vida cristã. A parábola põe em relevo a paciência de Deus na espera desses frutos. Ele não quer a morte do pecador, mas que se converta e viva (Ez. 33,11) e, como ensina São Pedro, “usa de paciência convosco, não querendo que alguns pereçam, mas que todos cheguem à conversão” (2 Pd. 3,9). Esta paciência, ou essa clemência divina, não nos pode levar a descuidar os nossos deveres, assumindo uma posição de preguiça e comodidade que tornaria estéril a própria vida. Deus, ainda que seja misericordioso, também é justo, e castigará as faltas de correspondência à Sua graça.

“Mas se vós não vos converterdes, ireis morrer todos do mesmo modo” (Lc. 13,03). Palavras severas, que nos fazem compreender que, com Deus, não se pode brincar; e, no entanto, palavras que procedem do amor de Deus que, por todos os meios, quer a salvação de todas as Suas criaturas. Deus já não fala hoje ao Seu povo por meio de Moisés, mas por meio de Seu Filho Jesus; faz-Se presente, não num silvado que arde sem se consumir, mas no Seu Filho Unigênito que, chamando os homens à penitência, personifica a misericórdia infinita que nunca se consome. Com essa misericórdia, Jesus suplica ao Pai que se prolongue o tempo e espere um pouco mais, até que todos se corrijam; assim como faz o agricultor da parábola, o qual, perante a figueira estéril, diz ao dono: “ Senhor, deixa-a ainda este ano…”. Jesus oferece a todos os homens a Sua graça, vivifica-os com os méritos da Sua Paixão, alimenta-os com o Seu Corpo e Sangue, pede para eles a misericórdia do Pai: que mais poderia fazer? Ao homem corresponde não abusar de tantos benefícios, mas valer-se deles para dar frutos de autêntica vida cristã.

Para ser um autêntico discípulo do Senhor, temos de seguir o seu conselho: “Se alguém quiser vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me” (Mt. 16,24). Não é possível seguir o Senhor sem a Cruz. Carregar a cruz – aceitar a dor e as contrariedades que Deus permite para nossa purificação, cumprir com esforço os deveres próprios, assumir voluntariamente a mortificação cristã – é condição indispensável para seguir o Mestre.

“Que seria de um Evangelho, de um cristianismo sem Cruz, sem dor, sem o sacrifício da dor?, perguntava-se Paulo VI. Seria um Evangelho, um cristianismo sem Redenção, sem Salvação, da qual – devemos reconhecê-lo com plena sinceridade – temos necessidade absoluta. O Senhor salvou-nos por meio da Cruz; com a Sua morte, devolveu-nos  a esperança, o direito à Vida…” Seria um cristianismo desvirtuado que não serviria para alcançar o Céu, pois “o mundo não pode salvar-se senão por meio da Cruz de Cristo”.

O cristão que vive fugindo sistematicamente do sacrifício, que se revolta com a dor, afasta-se também da santidade e da felicidade, que se encontra muito perto da Cruz, muito perto de Cristo Redentor. “Se não te mortificas, nunca serás alma de oração” (Sã Josemaria Escrivá – Caminho, 172). E Santa Teresa ensina: “Pensar que (o Senhor) admite na Sua amizade gente regalada e sem trabalhos é disparate”.

mons. José Maria Pereira

 

Pecado e salvação

Ao ler o Evangelho de hoje, pensei imediatamente na recente tragédia do Haiti, talvez já esquecida por alguns magnatas da sociedade que bem poderiam continuar ajudando a esse pobre país, não só dando-lhes coisas, mas capacitando-lhes para que eles mesmos construam essa nova etapa de sua história. Pensais vós que os haitianos foram maiores pecadores que todos vós por causa dessa tragédia? Eu vos digo que não. Jesus Cristo não quis associar os desastres, as tragédias, as crises econômicas e a morte dos inocentes ao pecado, porém, ao não associá-lo não nega que todos somos pecadores, nem exclui que o pecado sempre leva às tragédias, e a maior delas é estar longe de Deus!

Falar do pecado hoje em dia não está de moda. Em muitos ambientes perdeu-se quase totalmente o sentido do pecado. Os valores outrora desejados já não o são: a honra, a fidelidade, a lealdade à palavra dada, a castidade, o pudor, a sobriedade. Frequentemente o cristão parece ser alguém digno de compaixão: na sociedade atual, desenvolvida, cheia de meios técnicos, com respostas para quase todos os interrogantes, com a ampla possibilidade de desfrutar da vida e dos prazeres, existem ainda alguns que vivem o desprendimento dos bens materiais, a temperança, a honestidade, comprometem a liberdade “para sempre” no casamento ou no sacerdócio! Parece que a crise se aproxima: diante da sorte e aparente felicidade dos que não amam a Deus, realmente vale a pena seguir lutando pela santidade?

Por outro lado, não são esses valores humano-cristãos que explicam o que é o cristianismo no seu sentido mais profundo. A Igreja não foi fundada para oferecer uma ética, uma solução política ou aos problemas sociais. Ela recebeu a salvação de Jesus Cristo e tem como missão fazer com que todas as pessoas participem em Cristo dos bens da casa do Pai: que todos se salvem e cheguem aos céus! O cristianismo retira a auto-suficiência, filha do pecado original, que todo ser humano leva dentro de si. Quando uma pessoa se encontra com Deus e com a beleza de sua graça percebe que é uma criatura e que está afeada pelo pecado. As primeiras atitudes do ser humano diante da divindade são: adoração ao reconhecer-se criatura, silêncio diante da realidade inexpressável contemplada, humilhação de saber-se um pecador feio. Em seguida, o bom Deus infunde confiança e amor em nós ao dizer-nos aquele suave e firme não temais! Chegou a salvação! Eu sou a tua salvação!

O pecado é feio, muito feio! Trata-se de uma realidade sem entidade ao ser a carência da graça, da beleza e da ordem de Deus. O Cura d’Ars dizia que o pecado é “o verdugo de Deus e o assassino da alma” porque é uma ofensa a Deus que mata a vida da alma: um verdadeiro desastre! Santa Teresa de Jesus, que recebeu a graça de ver como é o estado de uma alma em pecado mortal, ficou tão horrorizada que passaria toda a vida em trabalhos e dificuldades para afastar todo e qualquer pecado mortal. E o que é um pecado mortal? É um pensamento, palavra, omissão ou ação que por sua gravidade e ao ser realizados com plena advertência e pleno consentimento ofende gravemente a Deus e retira a vida da graça deixando o pecador espiritualmente morto. Todo pecador é um morto vivo, está em estado de putrefação. Daí o fedor, a feiúra e o estado lastimável da alma em pecado mortal. Parece-lhe um exagero essa maneira de pensar? Na verdade, eu lamento não poder descrever com um realismo ainda maior a desgraça (falta de graça) do pecado mortal!

E os pecados veniais? São aquelas feridas que não nos matam, mas diminuem a nossa saúde de tal maneira que facilitamos a entrada de um vírus mortal a qualquer momento. Hoje em dia está de moda a saúde preventiva: antes que chegue a doença, é preciso cuidar-se fazendo check-up, esportes, indo ao médico periodicamente etc. Seria bom aplicar essa técnica à nossa saúde espiritual. Sempre foi um lugar comum na teologia ascética e mística falar do aborrecimento que devemos ter por qualquer pecado venial deliberado, isto é, não querer realizar nenhum pecado, por venial que seja a sabendas. É impossível não cometer faltas e pecados nesta vida, como disse o Concilio de Trento (sessão VI, cânon 23, ano 1547), a não ser por um especial privilégio da graça de Deus. Sendo assim, é importante que pelo menos não os cometamos deliberadamente. De fato, há pessoas que dizem: “já que isso não é pecado mortal, eu vou fazer”. Quanta falta de amor de Deus há nessa afirmação!? Deus nos salva e nos chama a ser santos, ele nos ama apaixonadamente. Também deseja ser correspondido por nós. Peçamos ao Senhor que aumente o nosso amor, pois quem ama não quer ofende a pessoa amada.

padre Françoá Rodrigues Figueiredo Costa

 

Nesta terceira etapa da caminhada para a Páscoa somos chamados, mais uma vez, a repensar a nossa existência. O tema fundamental da liturgia de hoje é a “conversão”.

Com este tema enlaça-se o da “libertação”: o Deus libertador propõe-nos a transformação em homens novos, livres da escravidão do egoísmo e do pecado, para que em nós se manifeste a vida em plenitude, a vida de Deus.

O Evangelho contém um convite a uma transformação radical da existência, a uma mudança de mentalidade, a um recentrar a vida de forma que Deus e os seus valores passem a ser a nossa prioridade fundamental. Se isso não acontecer, diz Jesus, a nossa vida será cada vez mais controlada pelo egoísmo que leva à morte.

A segunda leitura avisa-nos que o cumprimento de ritos externos e vazios não é importante; o que é importante é a adesão verdadeira a Deus, a vontade de aceitar a sua proposta de salvação e de viver com Ele numa comunhão íntima.

A primeira leitura fala-nos do Deus que não suporta as injustiças e as arbitrariedades e que está sempre presente naqueles que lutam pela libertação. É esse Deus libertador que exige de nós uma luta permanente contra tudo aquilo que nos escraviza e que impede a manifestação da vida plena.

1º leitura – Ex. 3,1-8a.13-15 - AMBIENTE

A primeira parte do livro do Êxodo (Ex. 1 - 18) apresenta-nos um conjunto de “tradições” sobre a libertação do Egipto: narra-se a iniciativa de Jahwéh, que escutou os gemidos dos escravos hebreus e teve compaixão deles (cf. Ex. 2,23 - 24).

O texto que nos é proposto como primeira leitura apresenta-nos o chamamento de Moisés, convidado a ser o rosto visível da libertação que Jahwéh vai levar a cabo.

Algum tempo antes, Moisés deixara o Egipto e encontrara abrigo no deserto do Sinai, depois de ter morto um egípcio que maltratava um hebreu (o caminho do deserto era o caminho normal dos opositores à política do faraó, como o demonstram outras histórias da época que chegaram até nós); acolhido por uma tribo de beduínos, Moisés casou e refez a sua vida, numa experiência de calma e de tranquilidade bem merecidas, após o incidente que lhe arruinara os sonhos de uma carreira no aparelho administrativo egípcio (cf. Ex. 2,11 - 22). Ora, é precisamente nesse oásis de paz que Jahwéh Se revela, desinquieta Moisés e envia-o em missão ao Egipto.

MENSAGEM

A afirmação “Jahwéh tirou Israel do Egito” será a primitiva profissão de fé de Israel. É o facto fundamental da fé israelita. Ora, é essa descoberta que está no centro desta leitura.

O texto que nos é proposto divide-se em duas partes. Na primeira (vs. 1 - 8), temos o relato da vocação de Moisés. O contexto é o das teofanias (manifestações de Deus): o “anjo do Senhor”, o fogo (vs. 2 - 3), a onipotência, a santidade e a majestade de Deus (vs. 4 - 5), a apresentação de Deus, o sentimento de “temor” que o homem experimenta diante do divino (vs. 6); e Deus manifesta-Se para “comprometer” Moisés, enviando-o em missão (vs. 7 - 8) e fazendo dele o instrumento da libertação.

Fica claro que o chamamento de Moisés é uma iniciativa do Deus libertador, apostado em salvar o seu Povo. Deus age na história humana através de homens de coração generoso e disponível, que aceitam os seus desafios.

Na segunda parte (vs. 13 - 15), apresenta-se a revelação do nome de Deus (uma espécie de “sinal” que confirma que Moisés foi chamado por Deus e enviado por Ele em missão): “Eu sou (ou serei) ‘aquele que sou’ (ou que serei)”. Este nome acentua a presença contínua de Deus na vida do seu Povo, uma presença viva, ativa e dinâmica, no presente e no futuro, como libertação e salvação.

Os israelitas descobriram, desta forma, que Jahwéh esteve no meio daquela tentativa humana de libertação e conduziu o processo, de forma a que um povo vítima da opressão passasse a ser livre e feliz. Para a fé de Israel, Jahwéh não ficou de braços cruzados diante da opressão; mas iniciou um longo processo de intervenção na história que se traduziu em libertação e vida para um povo antes condenado à morte.

Para Israel, o Êxodo tornar-se-á, assim, o modelo e paradigma de todas as libertações. A partir desta experiência, Israel descobriu a pedagogia do Deus libertador e soube que Jahwéh está vivo e atuante na história humana, agindo no coração e na vida de todos os que lutam para tornar este mundo melhor. Israel descobriu – e procurou dizer-nos isso também a nós – que, no plano de Deus, aquilo que oprime e destrói os homens não tem lugar; e que sempre que alguém luta para ser livre e feliz, Deus está com essa pessoa e age nela. Na libertação do Egito, os israelitas – e, através deles, toda a humanidade – descobriram a realidade do Deus salvador e libertador.

ATUALIZAÇÃO

·                     A humanidade geme, hoje, num violento esforço de libertação política, cultural e económica: os povos lutam para se libertarem do colonialismo, do imperialismo, das ditaduras; os pobres lutam para se libertarem da miséria, da ignorância, da doença, das estruturas injustas; os marginalizados lutam pelo direito à integração plena na sociedade; os operários lutam pela defesa dos seus direitos e do seu trabalho; as mulheres lutam pela defesa da sua dignidade; os estudantes lutam por um sistema de ensino que os prepare para desempenhar um papel válido na sociedade… Convém termos consciência que, lá onde alguém está a lutar por um mundo mais justo e mais fraterno, aí está Deus – esse Deus que vive com paixão o sofrimento dos explorados e que não fica de braços cruzados diante das injustiças.

·                     Deus age na nossa vida e na nossa história através de homens de boa vontade, que se deixam desafiar por Deus e que aceitam ser seus instrumentos na libertação do mundo. Diante dos sofrimentos dos irmãos e dos desafios de Deus, como respondo: com o comodismo de quem não está para se chatear com os problemas dos outros? Com o egoísmo de quem acha que não é nada consigo? Com a passividade de quem acha que já fez alguma coisa e que agora é a vez dos outros? Ou com uma atitude de profeta, que se deixa interpelar por Deus e aceita colaborar com Ele na construção de um mundo mais justo e mais fraterno?

2º leitura – 1 Cor. 10,1 - 6.10 - 12 - AMBIENTE

No mundo grego, os templos eram os principais matadouros de gado. Os animais eram oferecidos aos deuses e imolados nos templos. Uma parte do animal era queimada e outra parte pertencia aos sacerdotes. No entanto, havia sempre sobras, que o pessoal do templo comercializava. Essas sobras encontravam-se à venda nas bancas dos mercados, eram compradas pela população e entravam na cadeia alimentar. No entanto, tal situação não deixava de suscitar algumas questões aos cristãos: comprar essas carnes e comê-las – como toda a gente fazia – era, de alguma forma, comprometer-se com os cultos idolátricos. Isso era lícito? É essa questão que inquieta os cristãos de Corinto.

A esta questão, Paulo responde em 1 Cor. 8 - 10. Concretamente, a resposta aparece em vinte versículos (cf. 1 Cor. 8,1 - 13 e 10,22 - 29): dado que os ídolos não são nada, comer dessa carne é indiferente. Contudo, deve-se evitar escandalizar os mais débeis: se houver esse perigo, evite-se comer dessa carne.

Paulo aproveita este ponto de partida para um desenvolvimento que vai muito além da questão inicial: comer ou não comer carne imolada aos ídolos não é importante; o importante é não voltar a cair na idolatria e nos vícios anteriores; o importante é esforçar-se seriamente por viver em comunhão com Deus.

MENSAGEM

A título de exemplo, Paulo apresenta a história do Povo de Deus do Antigo Testamento. Os israelitas foram todos conduzidos por Deus (a nuvem), passaram todos pela água libertadora do Mar Vermelho, alimentaram-se todos do mesmo maná e da mesma água do rochedo “que era Cristo” (Paulo inspira-se numa antiga tradição rabínica segundo a qual o rochedo de Nm. 20,8 seguia Israel na sua caminhada pelo deserto; e, para Paulo, este rochedo é o símbolo de Cristo, pré-existente, já presente na caminhada para a liberdade dos hebreus do Antigo Testamento); mas isso não evitou que a maior parte deles ficasse prostrada no deserto, pois o seu coração não estava verdadeiramente com Deus e cederam à tentação dos ídolos.

Assim também os coríntios, embora tenham recebido o batismo e participado da eucaristia, não têm a salvação garantida: não bastam os ritos, não basta a letra.

Apesar do cumprimento das regras, os sacramentos não são mágicos: não significam nada e não realizam nada se não houver uma adesão verdadeira à vontade de Deus.

Aos “fortes” e “auto-suficientes” de Corinto, Paulo recorda: o fundamental, na vivência da fé, não é comer ou não carne imolada aos ídolos; mas é levar uma vida coerente com as exigências de Deus e viver em verdadeira comunhão com Deus.

ATUALIZAÇÃO

·                     O que é essencial na nossa vivência cristã? O cumprimento de ritos externos que nos marcam como cristãos aos olhos do mundo (ou dos nossos superiores)? Ou é uma vida de comunhão com Deus, vivida com coerência e verdade, que depois se transforma em gestos de amor e de partilha com os nossos irmãos? O que é que condiciona as minhas atitudes: o “parecer bem” ou o “ser” de verdade?

·                     Os sacramentos não são ritos mágicos que transformam o homem em pessoa nova, quer ele queira quer não. Eles são a manifestação dessa vida de Deus que nos é gratuitamente oferecida, que nós acolhemos como um dom, que nos transforma e que nos torna “filhos de Deus”. É nessa perspectiva que encaramos os momentos sacramentais em que participamos? É isto que procuramos transmitir quando orientamos encontros de preparação para os sacramentos?

EVANGELHO – Lc. 13,1 - 9 - AMBIENTE

O Evangelho de hoje situa-nos, já, no contexto da “viagem” de Jesus para Jerusalém (cf. Lc. 9,51 - 19,28). Mais do que um caminho geográfico, é um caminho espiritual, que Jesus percorre rodeado pelos discípulos. Durante esse percurso, Jesus prepara-os para que entendam e assumam os valores do Reino (mesmo quando as palavras de Jesus se dirigem às multidões, como é o caso do episódio de hoje, são os discípulos que rodeiam Jesus os primeiros destinatários da mensagem). Pretende-se que, terminada esta caminhada, os discípulos estejam preparados para continuar a obra de Jesus e para levar a sua proposta libertadora a toda a terra.

O texto que hoje nos é proposto apresenta um convite veemente à conversão ao Reino. Destina-se à multidão, em geral, e aos discípulos que rodeiam Jesus, em particular.

MENSAGEM

O texto apresenta duas partes distintas, embora unidas pelo tema da conversão. Na primeira parte (cf. Lc. 13,1 - 5), Jesus cita dois exemplos históricos que, no entanto, não conhecemos com exatidão (assassínio de alguns patriotas judeus por Pilatos e a queda de uma torre perto da piscina de Siloé). Flávio Josefo, o grande historiador judeu do séc. I, narra como Pilatos matou alguns judeus que se haviam revoltado em Jerusalém. Trata-se do exemplo citado por Jesus? Não sabemos. Também não sabemos nada sobre a queda da torre de Siloé que, segundo Jesus, matou dezoito pessoas… Apesar disso, a conclusão que Jesus tira destes dois casos é bastante clara: aqueles que morreram nestes desastres não eram piores do que os que sobreviveram. Refuta, desta forma, a doutrina judaica da retribuição segundo a qual o que era atingido por alguma desgraça era culpado por algum grave pecado. No caso presente, esta doutrina levava à seguinte conclusão: “nós somos justos, porque nos livramos da morte nas circunstâncias nomeadas”. Em contrapartida, Jesus pensa que, diante de Deus, todos os homens precisam de se converter. A última frase do vs. 5 (“se não vos arrependerdes perecereis todos do mesmo modo”) deve ser entendida como um convite à mudança de vida; se ela não ocorrer, quem vencerá é o egoísmo que conduz à morte.

Na segunda parte (cf. Lc. 13,6 - 9), temos a parábola da figueira. Serve para ilustrar as oportunidades que Deus concede para a conversão. O Antigo Testamento tinha utilizado a figueira como símbolo de Israel (cf. Os. 9,10), inclusive como símbolo da sua falta de resposta à aliança (cf. Jer. 8,13) (uma ideia semelhante aparece na alegoria da vinha de Is. 5,1 - 7). Deus espera, portanto, que Israel (a figueira) dê frutos, isto é, aceite converter-se à proposta de salvação que lhe é feita em Jesus; dá-lhe, até, algum tempo (e outra oportunidade), para que essa transformação ocorra. Deus revela, portanto, a sua bondade e a sua paciência; no entanto, não está disposto a esperar indefinidamente, pactuando com a recusa do seu Povo em acolher a salvação. Apesar do tom ameaçador, há no cenário de fundo desta parábola uma nota de esperança:

Jesus confia em que a resposta final de Israel à sua missão seja positiva.

ATUALIZAÇÃO

·                     A proposta principal que Jesus apresenta neste episódio chama-se “conversão” (“metanoia”). Não se trata de penitência externa, ou de um simples arrependimento dos pecados; trata-se de um convite à mudança radical, à reformulação total da vida, da mentalidade, das atitudes, de forma que Deus e os seus valores passem a estar em primeiro lugar. É este caminho a que somos chamados a percorrer neste tempo, a fim de renascermos, com Jesus, para a vida nova do Homem Novo. Concretamente, em que é que a minha mentalidade deve mudar? Quais são os valores a que eu dou prioridade e que me afastam de Deus e das suas propostas?

·                     Essa transformação da nossa existência não pode ser adiada indefinidamente. Temos à nossa disposição um tempo relativamente curto: é necessário aproveitá-lo e deixar que em nós cresça, o mais cedo possível, o Homem Novo. Está em jogo a nossa felicidade, a vida em plenitude… Porquê adiar a sua concretização?

·                     Uma outra proposta convida-nos a cortar definitivamente da nossa mentalidade a ligação direta entre pecado e castigo. Dizer que as coisas boas que nos acontecem são a recompensa de Deus para o nosso bom comportamento e que as coisas más são o castigo para o nosso pecado, equivale a acreditarmos num deus mercantilista e chantagista que, evidentemente, não tem nada a ver com o nosso Deus.

padre Joaquim Garrido – padre Manuel Barbosa – padre Ornelas Carvalho

 

Epístola 1 Cor. 10,1 - 6.10 - 12

INTRODUÇÃO: a história do povo de Israel no deserto é um modelo de como Deus se comporta diante da infidelidade constante do seu povo. Das realidades dos antigos, devemos deduzir que esse mesmo Deus, fiel, mas imutável, atuará do mesmo modo com os novos eleitos, caso sua conduta siga pelos mesmos caminhos que traçaram os antigos escolhidos do Senhor. A conduta humana não é indiferente para um Deus que é retidão e bondade. E seremos nós os que teremos o castigo proporcional a nossa culpa. Portanto, devemos ter cuidado com nossas condutas para não cairmos nos mesmos castigos que marcaram a conduta rebelde dos antigos israelitas.

OS ANCESTRAIS: Não quero, pois, irmãos que ignoreis que nossos pais, todos estavam sob a nuvem e todos através do mar passaram (1). Paulo continua neste trecho de sua carta a falar que o evangelho tem como praxis uma vida não fácil. O evangelho é uma conquista a ser trabalhada dia a dia como era a disciplina dos atletas (9,24 ss). E nesta perícope, Paulo propõe um exemplo do AT que é uma verdadeira advertência para os fiéis de Corinto. Também eles pertenciam a um povo eleito. E alude como tipo do batismo, dois fatos que são semelhantes: a nuvem que os envolvia e a passagem sob o mar que é como o batismo, ao qual foram submetidos para sair como povo de Deus, enquanto os egípcios foram nele sepultados. O batismo cristão era feito por imersão, ou seja, com a água envolvendo o corpo do batizado. A nuvem, segundo Êx. 13,21 guiava os israelitas durante o dia e os iluminava durante a noite. A nuvem representa o Espírito Santo do qual somos revestidos no batismo. E o mar, que, segundo Êx. 14,22, formava um muro à direita e à esquerda enquanto o povo atravessava o mesmo em seco, representa a água em que, por imersão, como era o caso do primitivo batismo, entrava e saia o neófito ao ser rodeado pelas águas.

O ANTIGO BATISMO: e todos foram batizados [submergidos] para Moisés na nuvem e no mar (2). Tomando o significado primário de baptizo é estar imerso ou submergido. Tanto no caso da nuvem como na passagem do mar os israelitas ficaram envoltos [imersos] por ambos os elementos e Paulo considera estes fatos como um batismo em nome de Moisés que era seu chefe ou senhor, no caso. Moisés sendo o salvador fazia tipicamente o papel de Cristo como  libertador e chefe de um povo e assim se pode dizer em sentido lato que esse povo foi batizado em seu nome ou pessoa.

ANTIGA COMUNHÃO: E todos, o mesmo alimento espiritual comeram (3).

ALIMENTO: em grego Bröma é um bocado sólido, a diferença da bebida. Evidentemente se refere ao maná de Êxodo 16,4 - 35. Paulo o chama de ESPIRITUAL porque, segundo a maneira de pensar dos contemporâneos, esse alimento vinha do céu como pão (Jo. 6,31) e porque assim o declarou Jesus. Continuando com a alegoria, temos que o maná e a água representavam a carne e o sangue como bebidas espirituais que são e constituem corpo e sangue de Cristo na Eucaristia. Jesus explicará esta comida e bebida como sendo reais, mas não materialmente interpretadas, pois é o Espírito que vivifica, e as palavras que vos disse são espírito e vida (Jo. 6,63).

A BEBIDA: Pois todos da mesma bebida espiritual beberam, de uma rocha espiritual que (os) acompanhava já que a rocha era o Ungido (4).

BEBIDA: em grego Poma que é também uma bebida espiritual, porque foi uma intervenção divina que tirou água de uma rocha, caso o mais inexplicável do ponto de vista humano e que para Paulo essa rocha era o Ungido, ou o Cristo . Paulo se inspira numa tradição rabínica, segundo a qual, a água que brotou do rochedo no deserto de Kadesh, como água de Meriba, era um rio que os acompanhou (aos israelitas) pelo deserto. Outros dizem que foi a rocha que os acompanhou, da qual se diz que era em forma de uma colmeia ou redonda como uma peneira, que acompanhava o tabernáculo e quando este acampava, ela aparecia e permanecia no átrio do mesmo, para que a água brotasse dela. Talvez se refira à Shekinah [a presença de Jahveh], que foi chamada rocha santa  e Filon disse desta rocha que era a sabedoria de Deus. Poderia ser a pedra onde estavam escritas as leis da Torah? Não parece provável. A rocha, como presença divina dentro do povo, representa o Ungido [Cristo] que, como é frequente em Paulo, assume todas as características de Jahveh, como o novo Deus do novo povo de Israel. (Rm. 9,33 e Ef. 4,8).

DESAGRADO DIVINO: Mas não na maior parte deles agradou-se o Deus, pois ficaram prostrados no deserto (5). Evidentemente, Paulo fala da conduta idolátrica do povo, quando Moisés esteve ausente durante 40 dias, falando com Deus; e os israelitas fabricaram um bezerro de ouro e adoraram o mesmo (Êx. 32). Este é o fato que determinou, junto com a volta dos espias e a revolta do povo (Nm. 13 e 14) a ira de Deus, de modo a jurar que não entraria na terra prometida. E por isso ficaram prostrados Kataströnnymi, na realidade, abatidos, mortos no deserto. No salmo 94 o próprio Jahveh justifica sua ação de rejeição do povo com estas palavras: Não endureçais o vosso coração como em Meriba , como o dia de Massa no deserto, onde vossos pais me desafiaram e me puseram à prova,quando me tinham visto em ação. A razão é o endurecimento mental diante dos prodígios. Talvez, evitando a teimosia e obstinação dos incrédulos diante do milagre, Jesus antes de realizá-lo, exigia a fé dos beneficiados.

MODELO: Porém estas coisas se tornaram modelos para que não fossemos nós cobiçosos das coisas más, como eles cobiçaram (6). Paulo agora reflete sobre os fatos antigos que constituiam a fundação do povo eleito e os traz a tona na nova situação, que é similar, pois o novo povo da nova Aliança está sendo agora formado. Por isso fala de modelo que já temos explicado no versículo 17 de Efésios.

MODELO: o Typos é impressão, imagem, exemplo, padrão, ou molde. Daí temos os tipos de imprensa, por exemplo. E também os ensinamentos próprios de uma religião, modelos a serem copiados e contemplados, que é nosso caso. O exemplo dos israelitas que, de escolhidos, se tornaram rejeitados, por não cumprirem a vontade de Jahveh, devia ser considerado pelos novos escolhidos de Deus que eram os cristãos, com Cristo tomando o lugar de Moisés como líder, sendo a glória do céu a terra prometida da nova Lei.

COBIÇOSOS: o Epithymëtës cobiçoso, de epithymeö, cuja tradução é desejar ansiosamente, cobiçar, ambicionar. Segundo o relato de Números, capítulos 13 e 14, os israelitas ficaram nostálgicos dos alhos e cebolas do Egito (Nm 11,5). A ambição do povo era comer e beber. Nem o maná (Êx 16,35) nem as codornas (Êx 16,13), nem a água brotada da rocha em Meriba foram suficientes para um povo que preferia os alhos e as cebolas, as carnes e os peixes  (Nm 11,4 - 6) do Egito. Para não falar de coisas piores como a idolatria do bezerro (Êx 31,1 - 6), e a fornicação com as mulheres de Moab (Nm. 25,1 - 9). Os cristãos devem evitar semelhantes condutas reprováveis.

A MURMURAÇÃO: Nem murmureis como também alguns deles murmuraram e pereceram pelo destruidor (10).

MURMURAR: goggyzö se diz do arrulho de uma pomba e o murmulho daqueles que conjuram contra alguém ou se queixam das circunstâncias desfavoráveis em que Deus os colocou. Neste caso foi o resmungar de Moisés, rebelando-se contra ele, como diz o livro dos Nm. 16,1 - 31 e 17,6 - 15). E Refere-se, sem dúvida, à rebelião contra Moisés e Araão de Nm. 17,5 - 7. Pereceram pelo DESTRUIDOR: olothreutës, destruidor ou exterminador. Quem era esse exterminador? Provavelmente, é uma expressão que, tomada do anjo descrito em Êx. 13,23, indica um número de mortes súbitas e em poucos dias ou horas, que hoje atribuímos a uma epidemia. Este anjo é explicitamente descrito em Êx 12,23 na morte dos primogênitos dos egípcios; mas não na narração de Nm. 17,6 - 15 após a morte de Coré e seus ásseclas. Também, como anjo do Senhor, temos a morte dos 185 mil assírios que cercavam Jerusalém. Provavelmente o número, como sempre exagerado de mortos,  é devido à contaminação das águas.

ADVERTÊNCIA: Pois todas estas coisas (como) modelos aconteceram para eles. Já que foi escrito para advertência nossa, para os quais os fins dos tempos chegaram (11). Paulo fala tomando como exemplo o fim da maioria de Israel por falta de docilidade aos mandatos do Senhor: se a eles aconteceu, também pode  acontecer conosco. Essa é a conclusão de seu razonamento. Mas ele tem uma prova melhor que o simples raciocínio humano: é a escritura, pois os fatos estavam ESCRITOS no livro dos Números e deles é que Paulo tira a conclusão que lhe parece advertência para os que viveriam nos FINS DOS TEMPOS. Para Paulo, como para todo judeu que se convertesse ao cristianismo, o fim de Jerusalém e do templo era o fim dos tempos, como Mateus claramente deixa a entender na passagem do discurso apocalíptico sobre a ruína de Jerusalém. Além dos discípulos pedirem qual será o sinal de tua vinda, só Mateus fala do fim do mundo (Mt 24,3). Esta expressão não é achada em Marcos 13,4, nem em Lucas 21,6. Os cristãos do seu tempo estavam vivendo o fim dos tempos ou da era antiga para entrar na nova, era independente do templo e de Jerusalém. Nestes novos tempos, cobra realidade tudo quanto tinha acontecido aos antigos judeus que estavam no meio de uma proteção direta de Deus no deserto.

CUIDADO: De modo que quem pensa estar firme veja que não caia (12). É a conclusão de Paulo ao considerar o exemplo dos israelitas: eles tinham tudo, visões, milagres, liderança, mercês e dádivas; mas sua natureza egoísta, seu duro coração (Mt 19,8) prevaleceu e caíramB mortos no deserto. Os de Corinto devem temer também serem rejeitados se eles confiam em si mesmos e desprezam a graça de Deus, que não permitirá que a tentação seja maior que as forças conjuntas do homem e da graça de Deus, como dirá Paulo na sequência, em versículos que não correspondem a esta epístola.

EVANGELHO (Lc 13, 1-9) - AMBIENTE

O CASTIGO – O BEM ESPERADO POR TODOS

Apresentaram-se, pois, alguns, naquele preciso momento, anunciando-lhe o caso sobre alguns galileus dos quais o sangue Pilatos misturou com os dos seus sacrifícios (1). Jesus está na Galileia  e a notícia chega até ele provavelmente por lábios hostis de fariseus, como sempre, para tentá-lo. Pilatos tinha degolado alguns galileus no templo. Anunciam que seu sangue se misturara com o sangue dos seus sacrifícios. Tomada a frase ao pé da letra significa que os soldados da polícia de Pilatos teriam entrado até o pátio dos sacerdotes onde entravam os que sacrificavam animais para compartilhar com os dignatários levíticos o sacrifício pacífico. Parece improvável que os policiais estivessem vestidos como simples judeus. Por outra parte, a frase misturar sangue com sangue é própria do idioma hebraico, de modo que não necessariamente significava ser morto no exato momento da degolação das vítimas do sacrifício. Podemos interpretá-la como sendo mortos dentro do recinto do templo e até dentro de Jerusalém, quando estavam ali por motivo dos rituais de sacrifício a serem feitos no templo. A razão desta reflexão é que o fato não é contado por nenhum outro evangelista ou historiador da época. Não sabemos tampouco o número dos mortos e se não era grande não mereceria uma linha nos relatos contemporâneos. Sabemos que os galileus admiravam e até seguiam Judas, o Gaulonita, ou Judas, o Galileu, do qual fazem menção os Atos 5,37. Ocupou Séforis (Seppori segundo os rabinos = o pássaro), a capital da alta Galileia. Era uma das cinco capitais de província que tinha seu sinédrio particular. No ano 3 d.C. foi conquistada por Judas e seus seguidores, mas reconquistada por Aretas, rei de Petra e aliado de Roma, que a destruiu completamente e vendeu seus habitantes como escravos. Por que notificar o sucesso a Jesus? Seguramente que seria o comentário do dia, como hoje dizemos. Mas a razão principal era saber a opinião política do momento de Jesus: condenaria Pilatos e assim enfrentaria os romanos, aliando-se aos zelotas galileus, como esperavam seus conterrâneos? Ou, pelo contrário, veria na morte dos exaltados um castigo pelos pecados, devidos à sua conduta violenta e revolucionária? Algo disso parece que podemos deduzir das palavras que precedem à perícope de hoje: apresentaram-se alguns, naquele preciso momento (tradução literal), anunciando-lhe o caso sobre alguns galileus.

A RESPOSTA: E repondendo Jesus lhes disse: pensais que aqueles Galileus se tornaram pecadores dentre todos os Galileus porque essas coisas padeceram? (2). Não, vos digo; mas se não vos arrependeis, perecereis do mesmo modo (3). Jesus faz uma reflexão que podemos chamar filosófico-religiosa e universal dessas calamidades: os galileus assim tratados pela severa justiça romana não eram os mais culpados ou pecadores entre os galileus para sofrer semelhante castigo. Esperavam seus interlocutores uma resposta política de condenação do poder romano por sua crueldade, o que Jesus não fez. Pelo contrário, ele acrescentou um novo caso de morte como era o da torre e sobre o qual não tinham pedido sua opinião. Tudo para oferecer uma reflexão sobre o bem e o mal e sobre o castigo pela conduta errada dos assim atingidos pelo funesto acontecimento. A morte, mesmo violenta, não tem como causa última a conduta humana pecaminosa. Esta é a primeira conclusão da resposta de Jesus. Ou seja, os maus nem sempre são punidos imediatamente. A espera é uma das características da bondade divina que podemos chamar de misericórdia. O texto grego usa uma forma incorreta de comparativo tomado diretamente da idiossincrasia semita: Pensais que esses mortos eram pecadores perto de (literalmente) todos os galileus?

A TORRE DE SILOÉ: ou aqueles dezoito sobre os quais caiu a torre em Siloé e matou. Pensais que foram devedores (pecadores) mais do que todos os habitantes em Jerusalém? (4). Não, vos digo; mas se não vos arrependeis, todos da mesma maneira perecereis (5). A arqueologia descobriu restos de uma torre na parte norte oriental perto do lugar onde estava a piscina de Siloé (Jô. 9,7) e a chamada primeira muralha. Não temos nenhuma outra fonte de informação sobre este calamitoso sucesso. Se no caso anterior foi uma decisão humana a causa da morte, neste último caso foi um sucesso natural, não imputável diretamente a mandatos e determinações humanas. O número de vítimas neste caso parece maior e eram praticamente habitantes todos eles de Jerusalém. Do mesmo modo, usa essa forma de comparativo com os soterrados pela torre: Pensais que esses se tornaram DEVEDORES em relação a todos os habitantes de Jerusalém? A palavra devedores indica também um texto original semítico, pois devedor nessa língua era sinônimo de pecador, tal como o vemos no Pai Nosso de Mateus em seu original: perdoa nossas dívidas assim como nós perdoamos nossos devedores (Mt 6,12). Os judeus tinham como coisa certa que os justos (= corretos) eram abençoados por Deus neste mundo e os pecadores castigados com diversas doenças e enfermidades, entre elas a morte, segundo vemos em Jo 9,2 a respeito do cego de nascença. Esta é a base sobre a qual Jesus edifica sua doutrina.

1º ) Os que sofrem calamidades não são mais culpados do que aqueles que aparentemente estão livres das mesmas. Portanto a doença e a morte não são necessariamente produtos do pecado individual ou coletivo.

2º) A necessidade do arrependimento: os dois casos de infortúnio são exemplos do que acontecerá necessariamente a todos os que não se arrependem.

UMA EXPLICAÇÃO: a que pessoas se refere Jesus ao dizer que todos perecerão da mesma maneira? Eram os contemporâneos de Jesus ou somos também nós, os incluídos? Logicamente Jesus fala a seus conterrâneos que são galileus e seus contemporâneos que são os judeus, especialmente os de Jerusalém. Cremos que nessas palavras de Jesus está implícita uma profecia sobre o que aconteceria na Palestina e em Jerusalém na guerra contra os romanos. Somente em Jerusalém mais de 300 mil judeus pereceram no sítio da cidade. E praticamente os que não morreram foram vendidos como escravos. Por isso o arrependimento está na linha do que o Batista pedia com sua proclama: Arrependei-vos porque o reino dos céus está próximo ( Mt 3,2). Ou como Lucas narra,  proclamando um batismo de arrependimento para a remissão dos pecados (Lc 3,3). Por isso Jesus adiciona uma parábola em que explica o que iria acontecer em futuras e próximas datas.

A PARÁBOLA: então lhes dizia esta parábola: Alguém tinha uma figueira plantada na sua vinha e veio procurando fruto nela, e não encontrou (6). Pelo que disse ao podador: eis que três anos venho procurando fruto nesta figueira e não encontro. Corta-a para que, improdutiva, não ocupe a terra (7). Ele, porém, tendo respondido, diz-lhe: Senhor, deixa-a também este ano até que cave ao redor dela e ponha estrume (8). E certamente se der fruto (espera); porém, se não, no futuro a cortarás (9). Era costume plantar figueiras nos vinhedos, sem que isso fosse contrário à lei deuteronômica (22,9): Não semearás a tua vinha com duas espécies de semente, para que não degenere o fruto da semente que semeaste e a messe da vinha. Os rabinos afirmavam que as figueiras não eram sementes e que a lei não se referia a semelhantes árvores, de modo que era comum encontrar tanto figueiras como oliveiras dentro dos campos de videiras. Por outra parte, uma figueira precisava de três anos para dar os primeiros frutos. Daí a espera pedida pelo viticultor para ver se no quarto ano ela ofereceria o fruto esperado. Caso isso não acontecesse podia ser cortada como pedia o dono. Evidentemente a figueira era o povo de Israel. O podador ou vinhateiro, pede mais um ano. Ele sabia como é difícil seguir ao pé da letra os ciclos vitais e pede mais um ano para ver se a figueira era definitivamente estéril ou não. Caso a esterilidade fosse confirmada, concordava com o dono em que não podia ocupar um lugar inútil, pelo improdutivo do mesmo, quando com outra semente daria o fruto esperado.

EXPLICAÇÃO: a pequena comparação é uma parábola ou uma alegoria? Cremos que alguns dos elementos são verdadeiramente alegóricos e que não devemos contentar-nos com a simples moral da história. A parábola está unida à destruição de todos: da mesma forma perecereis (5). É uma profecia ou uma realidade que serve para todos os homens e todas as épocas? Cremos que a primeira opção é a verdadeira. Independentemente de quem seja o podador ou cuidador da vinha, esta é a última oportunidade que Israel tem para aceitar o Messias de paz a ele enviado e que os representantes do povo rejeitarão. Consequentemente, aferrados a um messias guerreiro e rejeitando a paz do verdadeiro, eles cavarão a sua ruína perante o poder romano, que os arrancará da terra num desterro que durará dois mil anos. Perecerão do mesmo modo que os galileus; e as torres da muralha de Jerusalém cairão sobre seus habitantes, como aconteceu na realidade. A penitência exigida é a transformação do modo de pensar, e, portanto de agir, respeito ao problema principal que era o Messias esperado. Os cristãos que acreditaram nas palavras de Jesus, fugiram em tempo e evitaram a fome e a morte que acompanhou a maioria dos judeus.

PISTAS

1) Podemos desses casos particulares extrapolar o nosso pensamento sobre o problema do mal no mundo. As guerras, a violência, os nacionalismos extremos, a miséria, o trânsito, as drogas são causa de morte de muitos que, logicamente, não são culpáveis como são mulheres e crianças de modo especial. Haverá culpados evidentemente. Mas mesmo os últimos merecem uma sorte tão definitiva como é a perda da vida sem retorno? Que dizer da pena de morte? Há alguém que possa se arrogar o direito de matar, mesmo a quem é culpado do mesmo crime? São questões que o mundo moderno responde negativamente.

2) E que dizer dos abortamentos voluntários? É ou não é uma vida humana? Porque a interrupção do embaraço, como eufemisticamente falam os que sentem vergonha em nomear claramente o aborto voluntário, é sobre algo ou alguém completamente inocente. Se é alguém é uma vida humana e os que defendem a injustiça da pena de morte deveriam defender a injustiça do abortamento. E se é algo unicamente, uma coisa, quando é que essa coisa se transforma em ser humano? Se a resposta é não sabemos, como diante de semelhante ignorância nos atrevemos a dizer que ainda não é? E, portanto, tampouco se pode aplicar a dúvida de que talvez não seja, porque pode ser. Há algum caçador que se atreva, sem saber com certeza se o que se move atrás da mota é um animal ou um colega, a atirar porque não distingue com clareza o objeto na sua frente? E caso o morto seja um colega, poderá servir-se dessa incerteza como causa suficiente para justificar o homicídio culposo perante um juiz ou um jurado?   Precisamente hoje que até os agnósticos e ateus estão a favor da defesa da vida, infelizmente são 50 milhões de vidas incipientes (nisso pelo menos todos concordam) descartadas no mundo inteiro, o que, em determinados países de envelhecimento coletivo, se tornaria um desperdício e seria uma loucura social livrar-se de quem poderia renovar a juventude e a vida.

3) Deus está ausente de atos diretos como castigo a pecadores porque também os justos entrariam dentro do programa. Ele prefere que a chuva e o sol beneficiem a todos por igual. Falar em castigo, é não entender o maior atributo divino referente às relações com os homens: a misericórdia, que quer que todos se arrependam e sejam salvos; porque o Filho do homem veio procurar e salvar o que estava perdido (Lc. 19, 11). Paulo dá uma razão para o aparente castigo: Entreguemos tal homem a Satanás para a perda de sua carne a fim de que o espírito seja salvo no dia do Senhor (1 Cor. 5,5).

padre Ignácio

 

Conversão: caminho para Deus

No evangelho de hoje Jesus alerta para a necessidade de conversão que cada pessoa tem, mas nem sempre consegue percebê-la ou admiti-la. É mais fácil olhar os “pecados” dos outros do que reconhecer que nós também nos afastamos de Deus com nossas falhas.

Os galileus que Pilatos havia matado e os dezoito que morreram com a torre de Siloé sobre eles eram considerados pecadores, pois é como se a desgraça acontecida fosse um castigo de Deus. Jesus nos convida a uma mudança de olhar e de mentalidade. O mal não vem de Deus porque ele é essencialmente bom. No entanto, continuamos a nos colocar no lugar de Deus para julgar as faltas que as pessoas cometem e geralmente as condenamos. Jesus nos convida a nos colocarmos na direção de Deus, mudando do caminho que nos afasta dele. Um Deus que consideramos todo-poderoso poderia exterminar a quem quisesse e a qualquer momento, principalmente os pecadores, porém o nosso Deus é todo-poderoso no amor, portanto, está sempre nos dando mais uma chance de voltarmos o nosso coração para Ele para que sejamos como árvores frutíferas. Ele sempre nos dá um “voto de confiança”, pois acredita em nós porque nos ama primeiro. A conversão é um convite pessoal, assim, a resposta também é pessoal, mas para ser vivida em todas as relações.

Quando lemos a história da vida dos Santos, em grande parte, podemos perceber que por mais que fizessem coisas boas, mas se sentiam imperfeitos e indignos de Deus. Quem já se acha santo e perfeito certamente deve olhar para dentro de si mesmo e ver que ainda não alcançou a plenitude e que ainda tem muito a caminhar na sua transformação interior, como nos afirma a segunda leitura: “Quem julga estar de pé tome cuidado para não cair!”.

Hoje nos deparamos com inúmeras situações onde julgamos as pessoas com muita facilidade, principalmente no cotidiano das famílias que não vivem mais segundo nossos critérios (e aqui podemos citar vários exemplos!) e também algumas situações onde o preconceito fala mais alto, por exemplo, quando entra em um ônibus uma pessoa mal vestida ou negra já ficamos apavorados com o medo ser um assaltante. Precisamos olhar cada pessoa como alguém importante para Deus. Além disso, nos deparamos com inúmeras catástrofes em nosso planeta; algumas provocadas pelo próprio ser humano e outras por fenômenos da natureza. Talvez já tenhamos feito a pergunta: “Quem é o culpado por todas as mortes acontecidas no Haiti e no Chile devido aos terremotos?”, ou ainda, “Por que Deus permitiu que isso acontecesse?”. Quando não colocamos a culpa no ser humano por ter se afastado de Deus, culpamos ao próprio Deus por nos ter abandonado. Porém, na primeira leitura temos uma revelação de quem é Deus e de como Ele age em relação ao seu povo: Ele vê a aflição, ouve o clamor, conhece os sofrimentos, desce para libertar das mãos do opressor e os faz sair do Egito enviando Moisés. Diante de tantas catástrofes e acontecimentos, Deus nos chama hoje e nos envia para mostrarmos o seu grande amor para com o povo através de nossos atos de solidariedade, partilha, escuta, proximidade para com aqueles que mais precisam. É esta a conversão que ele pede a cada um de nós para que tenhamos um mundo mais fraterno, justo e centrando em Deus.

irmã Sueli da Cruz Pereira

 

Pilatos era conhecido por todos, por ser um homem insensível à religiosidade dos judeus e manter seu governo por demais severo. A tragédia relatada no Evangelho por Lucas, talvez se refira ao fato de Pilatos utilizar os tesouros do Templo para construir um aqueduto (canal ou galeria, subterrâneo ou à superfície, construído com a finalidade de conduzir água). Incidente que pode também se tratar de uma rebelião dos judeus que Pilatos reprimiu.

As pessoas procuram Jesus para denunciar a injustiça ocorrida durante o sacrifício que os judeus faziam nos cultos durante a Páscoa, no Templo de Jerusalém, quando foram mortos. Ele não toca no nome de Pilatos, mas pede a conversão daqueles que acreditam no castigo ou nos desastres associados ao pecado, pois os acidentes não são castigos divinos, mas um apelo à conversão dos que sobrevivem.

A morte dos homens em Siloé foi causada por um acidente de fato, mas as pessoas achavam que era devido aos pecados cometidos pelos que morreram, e na mentalidade deles as catástrofes eram castigos enviados por Deus aos culpados, baseada na teologia da retribuição (olho por olho, dente por dente).

Jesus explica que os acidentes não indicam a espiritualidade das pessoas, mas que todos serão julgados no juízo final. E pede que se dediquem a uma vida honesta e sem julgamentos, de convertidos na fé. Ele acaba com a idéia de que Deus quer castigar e mostra que Ele não é um Deus vingador, mas o Deus da oferta graciosa.

A figueira simboliza a humanidade que é pecadora, uma das árvores mais comuns e generosas da Palestina, normalmente plantada no meio da vinha. Quem plantou a figueira e vai procurar os frutos é Deus, o agricultor é Jesus. Os três anos podem ser o período de pregação de Jesus, depois do qual se esperava "frutos abundantes". O agricultor (Jesus) se propõe a adubar a figueira e aguardar mais um ano para que dê frutos, porém o povo daquela época sabia que figueiras não precisavam ser adubadas, e isso mostra a infinita dedicação de Jesus à conversão da humanidade.

www.pequeninosdosenhor.com.br

 

Tira as sandálias

A liturgia desse 3o domingo de Quaresma é um forte apelo à conversão. conversão é um longo processo de renovação em que devemos nos desfazer de uma porção de coisas, para tornar possível em nós a "libertação". Devemos tirar as cômodas sandálias que calçamos, para pisar com mais segurança os caminhos sagrados do Senhor...

A 1 leitura narra a vocação de Moisés. (Ex 3,1 - 8.13 - 15)

Inicialmente, Deus se manifesta na sarça ardente e manda tirar as sandálias. Deve pisar o pó de onde veio. Sua grandeza vem de Deus e não de si mesmo.

Depois, confia a Moisés a missão de libertar o seu povo. Assim começa a longa marcha dos hebreus através do deserto. O deserto foi o tempo e o local de uma longa Quaresma, onde Deus purificou o seu povo dos costumes pagãos e o conduziu a uma religião mais pura e à posse da Terra Prometida.

O Êxodo do Povo de Deus é figura do caminho de conversão, que o cristão é chamado a realizar, de modo especial na Quaresma. O Deus libertador exige de nós uma luta permanente contra tudo aquilo que nos escraviza e que impede a manifestação da vida plena.

Na 2a leitura são Paulo recorda os fatos extraordinários realizados por Deus no deserto em favor do seu povo e faz uma advertência contra a falsa segurança religiosa deles: "Todos comeram o mesmo pão espiritual (o maná) beberam todos a mesma bebida espiritual (água do rochedo) Mas nem todos assumiram a Aliança. Por isso foram sepultados no deserto, não entraram na Terra prometida".  (1 Cor 10,1 - 6.1 - 12)

A verdadeira vivência cristã não é apenas a participação regular nos sacramentos, mas uma vida de comunhão com Deus, que se transforma em gestos de amor e partilha com os irmãos.

O Evangelho é um forte apelo à conversão. (Lc. 13,1 - 9)

O Texto fala de dois acontecimentos trágicos daqueles dias: a matança de Pilatos... e a queda da torre de Siloé: 18 mortos.

- Jesus não concorda que a desgraça é sinal do castigo de Deus, pelo contrário, é um apelo de conversão aos sobreviventes: "Vocês pensam que eles eram mais pecadores do que vocês?"

" Se vocês não se converterem, morrerão todos do mesmo modo..."

Rejeitar a ação salvadora de Deus, oferecida em Jesus é pior que um desastre.

+ E com a parábola da figueira estéril, Jesus ilustra a resistência de Israel à conversão e a bondade e a paciência de Deus, disposto a esperar mas não indefinidamente: "Senhor, deixa ainda esse ano.  Vou cavar em volta dela e colocar adubo... Talvez depois disso, venha a dar frutos..."

Esse Servo é Jesus, que pede uma nova chance para seu povo, sabendo que o Pai é bondoso e cheio de amor.

* Conversão não é apenas uma penitência externa, ou um simples arrependimento dos pecados, é um convite à mudança de vida, de mentalidade, de atitudes, de forma que Deus e os seus valores passem a estar em primeiro lugar.

+ Quem é essa figueira?

Somos todos nós, a nossa família, a Igreja, a sociedade. Os frutos são as boas ações, que devemos realizar.

- Há cristãos que foram educados na fé do evangelho.

Receberam dos pais, da escola e da comunidade uma boa educação na fé.

E depois... nenhum fruto...

- Há famílias que têm tudo para ser fermento no meio de outras famílias, para atuar na Igreja e na sociedade, pois receberam muitos talentos. Mas onde estão os frutos?

- Há grupos de cristãos, movimentos e comunidades, que há anos são privilegiados com encontros, celebrações, missas, cursos...

e nada de frutos...

- Há cristãos que até participam assiduamente na igreja, mas nunca se comprometem com pastorais, com grupos de reflexão e outros serviços da comunidade...

São figueiras estéreis que estão tomando o lugar de outras...

Resumindo, a liturgia de hoje é:

- Um forte apelo à conversão, que se manifesta através de boas obras, que correspondem ao amor generoso do Pai. 

- Uma advertência: Deus é paciente e generoso em esperar, mas a espera de Deus tem um limite... Será que não estamos já esgotando a paciência de Deus?

Quais são as sandálias que devemos tirar de nossos pés, para ser possível esse caminho sagrado da Conversão e assim produzir os frutos esperados por Deus?

padre Antônio Geraldo Dalla Costa

 

1º leitura – Is. 6, 1-2a.3-8

Estamos diante de um texto que descreve a vocação do grande profeta Isaías. Isto acontece no ano de 739 a.C., antes da morte do rei Ozias. Seu chamado a ser profeta do Altíssimo aconteceu numa liturgia no Templo de Jerusalém, quando se celebrava a realeza universal de Deus cantando o Salmo 99. O profeta posteriormente tenta no texto de hoje escrever essa sua profunda experiência interior.

a) O que o profeta sente a respeito de Deus?

1 – Deus é o Senhor absoluto da história, ele reina sobre o universo inteiro. Seu trono majestoso e elevado é o céu, mas as franjas das suas vestes invadem o santuário do Templo. Isaías não vê a face de Deus, só a barra de seu manto, mas com isso o profeta já sente a plenitude de Deus e percebe que sua realeza ultrapassa a imensidão do infinito. O céu é apenas o trono de Deus e o Templo o escabelo de seus pés. Isaías sente que a terra inteira está cheia da glória do Senhor.

2 – Deus é Santíssimo – Os serafins proclamavam esta profunda santidade de Deus dizendo: “santo, santo, santo”. Em que consiste esta santidade? “Consiste em sua coerência contínua na história ao lado do seu povo, libertando-o e salvando-o”, com justiça e retidão. Esses sinais de libertação constituem, para aqueles que têm fé, a glória de Deus sobre a terra (v. 3b).

b) O que o profeta sente sobre si mesmo

Diante de tamanha santidade e majestade, Isaías se sente pequeno, pecador e perdido (v. 5). Mas Deus cuida de seus profetas e os capacita para a missão. Aqui vemos Deus, através do seu anjo, purificar o profeta, perdoar-lhe o pecado e enviá-lo em missão para ele transmitir ao povo a experiência que ele acaba de viver.

Interessante que foi através de uma impressionante liturgia que o profeta se sente tocado e é capaz de se comprometer dizendo: “Aqui estou, envia-me”. Nossas liturgias são capazes de suscitar profetas?

2º leitura – 1 Cor. 15,1 - 11

Vamos ler do 5º ao 8º Domingo comum o capítulo 15 da primeira carta aos Coríntios. Entre tantos problemas e dúvidas da comunidade de Corinto, um era sobre a ressurreição e é dela que trata o capítulo 15. Paulo afirma que o que ele transmitiu aos coríntios foi o que ele recebeu. Quais são os itens da fé recebida e transmitida? Ele enumera quatro artigos de fé dos apóstolos:

a) Cristo morreu por nossos pecados, quer dizer em nosso favor, em nosso lugar. Isto está conforme as Escrituras tinham anunciado.

b) Ele foi sepultado, quer dizer, o sepulcro constata a morte de Jesus e o fim de sua vida terrena.

c) Ele ressuscitou ao 3º dia. Isto está conforme Jesus tinha anunciado.

d) Ele apareceu a Cefas (Pedro) sozinho e depois aos 12. As aparições querem inaugurar uma nova presença de Cristo no meio de nós.

Paulo continua o texto dizendo que mais tarde Cristo apareceu a mais de 500 irmãos de uma vez; depois apareceu a Tiago e depois aos apóstolos todos juntos. Por último apareceu também a ele, “como a um abortivo”. Como a Bíblia de Jerusalém explica, esta expressão alude ao caráter anormal, violento, “cirúrgico” da vocação de Paulo”. É bom observar no texto a preocupação de que a iniciativa é sempre de Deus, a fé viva como resposta da comunidade primitiva e o impulso a transmitir a experiência vivida (conferir também a 1 leitura). O que transmitimos hoje como conteúdo básico da nossa fé?

Evangelho – Lc. 5,1 - 11

No evangelho de hoje Lucas não está preocupado com a crônica dos acontecimentos; sua preocupação é mais teológica do que histórica. Ele condensa aqui vários fatos e mistura sua preocupação fundamental de narrar a vocação de Pedro com a vocação de outros discípulos. Com a pesca milagrosa ele quer mostrar que a missão dos discípulos é um prolongamento da missão de Jesus. Apresenta também duas condições fundamentais para ser discípulo e missionário. Dar atenção especial à Palavra do Mestre e deixar tudo.

a) A situação do povo e a posição de Jesus.

Lucas, como Marcos, vê a região do lago de Genezaré (= lago de Tiberíades ou mar da Galiléia) como o lugar da atividade libertadora de Jesus. O texto mostra a multidão faminta da Palavra de Deus. Os pescadores com suas redes vazias representam a situação do povo, depois ele sobe na barca para mostrar que compartilha com a frustração do trabalhador, que ganha pouco e às vezes nada. Da barca ele pode encarar o povo de frente com suas faces abatidas e angústias transparentes. Ele se assenta. É a posição de quem ensina. O texto não diz o que Jesus ensinava, mas certamente ele profere palavras de libertação e solidariedade.

b) Simão acredita na palavra do Mestre

Jesus, não era pescador, entretanto ele dá ordens a um mestre em pescaria. Simão, delicadamente, (coisa rara em Pedro) lembra a Jesus que ele e seus companheiros trabalharam a noite inteira. Mas Simão reconhece Jesus como Mestre e Senhor da Palavra da vida (cf. Jo 6,68). Eis a frase importante de Simão Pedro: “Mas, em atenção à tua Palavra, vou lançar as redes”. Diante de Jesus somos todos discípulos, aprendizes. Sua palavra é a palavra da vida, capaz de transformar situações carentes em conforto e alegria. Foi o que aconteceu. Jesus mandou lançar as redes e pescaram como nunca (vv. 4 - 8).

c) Abandono e seguimento

Simão reage como Isaías. Reconhece-se pecador diante da santidade do seu Senhor. Senhor é o título que Jesus recebe depois da ressurreição. A pesca quer simbolizar, na verdade, a grande vitória de Cristo sobre a morte e o resultado da pregação apostólica. A abundância de peixes aponta para a quantidade de futuros convertidos. Como Isaías, Pedro também é acolhido e transformado em mensageiro da Palavra, em pescador de homens. Diante de tudo isso, Pedro e seus companheiros deixaram tudo e seguiram a Jesus.

Que valor estamos dando à Palavra de Deus? Estamos partilhando das angústias e sofrimentos do povo?

www.arquidiocese-pa.org.br

 

DEUS NÃO CASTIGA E É PACIENTE

Estamos vivendo o terceiro domingo da Quaresma e o Evangelho deste domingo nos faz lembrar as notícias trágicas que diariamente chegam até nós através dos telejornais e tantos outros meios de comunicação: como o terremoto do Haiti que deixou milhares de pessoas na miséria absoluta ou notícias como as enchentes que destroem casas, sem falar na violência de todos os tipos que assola o mundo.

Mas por que tudo isso acontece? O que vem a nossa cabeça quando nos damos conta dessas más notícias? Ficamos chateados, indignados, tristes, chocados, assombrados e nos perguntando o porquê de ter acontecido esta ou aquela situação? Será que nos preocupamos mesmo porque aconteceu este ou aquele fato trágico para alguém, ou ficamos chocados pelo simples fato do medo de que aconteça também conosco? Enfim, amamos o próximo a ponto de nos preocuparmos com ele ou somos insensíveis e indiferentes a ele? Será que no fundo não sentimos um pouco de alegria por que não fomos nós as vítimas? Ou estas coisas já nem chamam mais a nossa atenção porque já nos acostumamos com a quantidade de desgraças que acontecem diariamente? Enfim, Deus castiga ou não castiga o ser humano por seus pecados?

O Evangelho de hoje apresenta uma discussão entre Jesus e algumas pessoas vão até Ele para lhe dar uma notícia de um crime: a notícia dos galileus mortos por Pilatos, enquanto ofereciam seus sacrifícios. Pilatos bem antes da morte de Jesus é apresentado como um governador violento. O massacre deve ter acontecido no templo de Jerusalém, porque só ali era costume a prática de ofertar animais em sacrifício; e, por isso mesmo, além de ser um homicida, ele comete um grande sacrilégio (dentro do Templo).

Além disso, estes informantes de Jesus dão um juízo negativo sobre as pessoas mortas, já que naquele tempo, pensava-se que a morte violenta fosse consequencia de algum pecado. Pensava-se que se alguém morresse assim era porque havia feito algo errado. Segundo a mentalidade do tempo e ainda muito difundida hoje, baseada na doutrina da retribuição, qualquer desgraça era tida como castigo divino devido a um pecado: “Mestre, quem pecou, este ou seus pais para que nascesse cego?” (Jo 9,2). desta forma, pela morte dos galileus, chegava-se à conclusão de que estes eram pecadores e por isso, mereceram a morte como castigo. Mas, no fundo, o que querem saber é qual seria a resposta, a reação de Jesus diante de tudo isso, já que Jesus era um Mestre que ensinava com autoridade.

O interessante é que Jesus aproveita esta situação para passar a sua mensagem de conversão, de mudança de mentalidade. Ele diz a estas pessoas que não devem chegar a falsas conclusões pelo que podem pensar a primeira vista e ainda diz o que elas devem fazer. Assim, Jesus responde primeiramente que a morte violenta não é consequência de um pecado. A salvação é aberta a todos. Todos devem se salvar.

E mais, que os outros que não tinham sido assassinados, não eram culpados, e, por isso, poderiam se sentir “certinhos”, seguros e levarem a vida como bem entendessem. No entanto, Jesus se opõe radicalmente a este modo de pensar e sublinha com força que todos devem se converter. Jesus diz que ninguém tem que pagar nada, ou melhor, todos são culpados, todos têm uma relação equivocada com Deus, todos têm algo de errado, todos devem mudar de vida. Mas essa culpa não traz como consequência que deva acontecer algo de mal na vida. Se acontecer, é porque aconteceu. Se fôssemos acreditar na lógica da retribuição, quantas pessoas deveriam ter tragédias em suas vidas e não têm e vice-versa.

Para facilitar ainda mais a compreensão daquilo que quer transmitir, Jesus acrescenta outro caso, no qual dezoito homens foram mortos em Jerusalém na queda da torre de Siloé. Neste segundo caso, ele se dirige aos habitantes de Jerusalém, ou seja, o que ele adverte vale para todos, sem exceção, todos precisam se converter. Jesus quer abolir a ideia de que Deus castiga. Deus nos ama, Deus quer nos salvar. “Se não vos converterdes, ireis morrer todos do mesmo modo”. Ou seja, Jesus transfere o centro do discurso. Não se ocupa mais com os ausentes, mas com os que estão ali presentes. Jesus diz que não devemos nos preocupar se aquelas pessoas eram ou não culpadas, mas que nós tenhamos um coração que se converte, da necessidade de se converter. As tragédias humanas são um alerta e um convite à aceitação do projeto libertador iniciado por Jesus Cristo. Rejeitar este projeto é rejeitar a vida. Para aceitar este projeto, é necessária uma mudança de mentalidade. Se nós não aceitamos este convite de Jesus, seremos construtores da nossa própria desgraça.

É preciso não tanto preocupar-se com o que está fora, mas com o interior. É preciso alimentar o interior para receber a salvação de Deus. Isso acontece através da conversão. Metanoia em grego significa mudar modo de pensar. Se percebemos que nossa vida está numa direção errada, mudemos o rumo. E a palavra grega metanoia não quer dizer somente mudança de mentalidade, de rota. Mas vai mais além. Não devemos gastar nosso tempo em calcular as coisas com a nossa razão, pois a matemática de Deus é bem diferente da nossa, vejamos com que paciência Ele nos espera através da parábola da figueira.

A parábola da figueira que não dá frutos é uma parábola muito interessante. Com ela, Jesus confirma seu pensamento. A figueira é uma das plantas mais comuns e generosas da Palestina. Geralmente, dá boa sombra e produz frutos durante dez meses por ano. A figueira representa o povo de Israel e não só. Representa todos os que ouvem a Palavra de Deus. Jesus é o Agricultor. Ele plantou a figueira e espera a abundância dos frutos. Não encontrando frutos, o patrão emite uma dura sentença: já que Israel é uma figueira ociosa, não faz sentido que continue a viver. Talvez Lucas estivesse pensando na rejeição do Evangelho praticado pelos chefes religiosos daquele tempo.

No entanto, a grande novidade acontece pela ação do agricultor: ele aduba o terreno: sinal de uma dedicação especial. Os camponeses sabiam que a figueira não tinha necessidade de adubo. Mas, Jesus vai além das expectativas. Aposta no ser humano até onde possa parecer absurdo. Esta é a solidariedade de Deus. Frequentemente, esquecemos o trabalho do Agricultor. Exigimos bons frutos das pessoas como se fôssemos os mais perfeitos em fazer boas obras. O adubo da paciência, ensinado a nós pelo agricultor é a oportunidade que cada pessoa deveria merecer. Jesus nos ensina que a misericórdia divina não conhece limites: pode ser que o próximo ano produza! Uma planta comum se torna para nós símbolo de conversão. Mas, sem a nossa cooperação, tornamos estéril a solidariedade divina. O nosso agricultor espera de nós bons frutos. E estes frutos não são um imposto que devemos pagar pelo direito de existir, mas são a nossa própria realização pessoal, que dá sentido a nossa vida.

Portanto, vamos parar de justificar as desgraças alheias com atitudes orgulhosas para demonstrar a nossa superioridade ou presumida boa consciência. Todos nós precisamos de conversão. À figueira sempre é dada uma nova chance: não temos tempo a perder. O momento é agora. É muito triste olhar pra trás e constatar que temos sido uma figueira que não soube produzir frutos. Se for o caso, é agora o momento de arregaçar as mangas e crer firmemente na paciência do Agricultor.

 

Mais uma vez nos encontramos para meditarmos juntos a Boa Nova da Salvação. Estamos no terceiro domingo da Quaresma e, espero que você não esteja triste. É comum sentirmos tristeza e melancolia nesta época. Parece que a quaresma foi inventada para trazer à tona tristes recordações.

Na verdade, a quaresma é o contrário do que imaginamos. O período de quaresma é extremamente forte e marcante na vida do cristão. A quaresma não tem a menor pretensão de fazer-nos baixar a cabeça e chorar pelos cantos, a morte de Jesus.

Assim como os momentos alegres, as coisas tristes também acontecem. De forma alternada vivemos momentos bons e ruins em nossas vidas. Não existe um período pré-determinado para tristeza e outro para alegria.

No entanto, se tivéssemos que definir qual desses sentimentos deve predominar na quaresma, poderíamos dizer que é a alegria. O coração tem que estar feliz. Ninguém prepara uma grande festa com o coração fechado e triste. Os preparativos para uma festa nos fazem transpirar alegria.

A quaresma deve fazer-nos crescer. É também tempo de penitência, porém a penitência que Jesus se refere não pode ser triste e vazia. Os gestos concretos são os requisitos necessários para preparar dignamente a maior festa do cristianismo: a paixão, morte e, acima de tudo a Ressurreição de Jesus.

Esse é o grande motivo da nossa alegria, Cristo ressuscitou! É nessa verdade que se baseia a nossa fé. Jesus está vivo e nos deixou a certeza da vida eterna. Com Ele e como Ele, também nós poderemos reviver. A Glória Eterna está reservada para quem produzir frutos.

"Se vocês não mudarem de vida e de atitudes, serão tratados do mesmo modo. Se não fizerem penitência, morrerão de modo semelhante". Sem rodeios, sem meias palavras, Jesus deixou bem claro que o futuro depende do modo como vivemos o presente.

Essas Palavras de Jesus são um convite à conversão. Jesus fala da figueira que não produzia frutos e que, durante três anos, nada fez para justificar sua importância. Aparentemente era desnecessária e só servia para ocupar espaço. Um fim muito triste estava a sua espera.

O dono do pomar mandou cortá-la. Seria derrubada e, provavelmente, lançada ao fogo, não fosse a intercessão do agricultor. Importante notar que o agricultor não se limitou a pedir clemência, ele apontou a solução e fez o que era preciso para torná-la produtiva. Cavou e adubou, na esperança de mantê-la viva. Esse agricultor mostrou como deve ser o verdadeiro evangelizador. O seu empenho trouxe salvação para a figueira.

Quantas figueiras nós encontramos em nosso dia-a-dia, improdutivas e predestinadas ao corte. Bastaria cavar ao seu redor e adubar, bastaria regar com a Água Viva para que tudo mudasse. Quaresma é tempo de arar e preparar o terreno. Tempo de cuidar dessa planta que também somos nós e os irmãos!

Quaresma é um período de graça e renovação, é a nova oportunidade para mudarmos os hábitos, mudarmos de vida, crescermos e produzirmos os frutos que o Pai espera poder colher.

Jorge Lorente

 

A resposta de Jesus a estes homens que comentam os acidentes trágicos e a morte de alguns dos habitantes de Jerusalém deixa-nos um pouco perplexos, uma vez que encerra em si uma condenação, uma inevitabilidade, que depois a parábola da figueira elimina do seu âmbito.

Mas se tal acontece, se as palavras de Jesus são duras, isso fica a dever-se à lógica que está subjacente a cada discurso, a lógica de Deus e a lógica do homem que são completamente diferentes.

Para os discípulos que apresentaram a Jesus a morte dos galileus por Pilatos e os que morreram soterrados pela torre de Siloé a lógica utilizada foi a da retribuição, a da condenação linear por causa dos seus maus procedimentos. É a nossa concepção humana mais frequente, a que está mais de acordo com a nossa índole e por isso a que utilizamos para enquadrar as relações de Deus com os homens.

Ainda hoje e passados dois mil anos sobre as palavras de salvação de Jesus continuamos a pensar assim e por isso muitos de nós nos interrogamos sobre o que estaria errado, o que tinham feito de errado aquelas pessoas que morreram nas catástrofes do Haiti, da Madeira e do Chile. Inevitavelmente pensamos sempre em termos de retribuição, de condenação por aquilo que fazemos ou os outros fazem de errado. Estamos ainda na lógica do dente por dente, olho por olho.

Ora a lógica de Deus é diferente, a concepção de Deus das suas relações com os homens é diferente e por isso Jesus diz que todos aqueles que morreram não morreram por serem mais pecadores que os outros. A própria história da salvação mostra-nos como Deus sempre procurou agir assim, como Deus se preocupa com os homens e deixa a porta aberta à conversão, à mudança de vida.

A leitura do livro do Êxodo e o encontro de Moisés com a sarça-ardente é um exemplo disso, Deus quer enviar Moisés ao Egito, um homem foragido daquele mesmo lugar, para libertar o seu povo. Deus ouviu e conhece o sofrimento do povo e não o pode suportar mais. Deus conhece os nossos sofrimentos e também não os suporta, espera no entanto que nos aproximemos da sarça para que nos possa enviar como libertadores, ainda que sejamos também nós foragidos dessa terra e desse povo necessitado de libertação.

Mais tarde, quando o povo atravessa já o deserto e comete o pecado da idolatria e a ira de Deus se inflama, Moisés vai interceder pelo povo e vai mostrar a Deus como tinha sido o seu amor que tinha trazido o povo até ali e portanto não se podia contradizer nesse amor libertador aniquilando-o por causa de uma falta. Deus abre-se à possibilidade da conversão.

Neste sentido a parábola da figueira, que Jesus conta face a esta lógica humana da retribuição, assumindo simbolicamente toda a história da salvação, é por isso muito elucidativa porque o vinhateiro que se oferece para cuidar e adubar a figueira deixa em aberto todas as possibilidades. Ele não presume que dos cuidados nasçam os frutos, talvez possa vir a haver algum fruto, ou seja está aberto a tudo ainda que da sua parte tudo faça para que haja esses frutos esperados e devidos.

A história de Deus com os homens tem sido isso mesmo, não tem sido outra senão a tentativa de que o homem produza algum fruto. Nesse sentido estabeleceu a Aliança com o povo de Israel, escolheu-o para ser seu mensageiro entre todos os povos, enviou-lhe os profetas quando eles foram infiéis e incapazes de cumprir a missão que lhes tinha sido destinada e por fim querendo que de fato todos os homens tivessem acesso à sua salvação enviou-lhes o próprio Filho. Enviou-nos o seu próprio Filho.

De fato Deus quer a nossa vida, a nossa salvação, vem ao nosso encontro, mas deixa-nos a liberdade de o acolhermos e de produzirmos frutos, ele não nos pode forçar a isso, apenas nos aduba e cuida com a sua palavra e o seu amor.

E é nesta nossa resposta, na possibilidade da nossa resposta, que se insere a segunda parte do comentário de Jesus aos acidentes e às mortes, “se não vos converterdes morrereis todos da mesma forma”. Não é que a morte seja querida por Deus, não é que ele se queira vingar das nossas más ações através de uma morte dolorosa ou violenta, bem pelo contrário, essa morte a acontecer acontecerá porque nos integramos, porque assumimos a violência e a morte que é inerente ao próprio pecado e da qual não nos poderemos libertar se não nos voltarmos para Deus, se não abandonarmos o circuito do encerramento violento e mortal. Há uma lógica da morte e da violência no pecado e só abandonando esse pecado escapamos às consequências dessa violência e dessa morte.

Para que tal aconteça temos que ter presentes a advertência de são Paulo aos Coríntios, quem julga estar de pé tome cuidado para não cair, temos que estar vigilantes para não nos deixarmos levar e arrastar por essa lógica e essa violência.

Mas sobretudo e para além da nossa vigilância temos que apoiar-nos e fortalecer-nos na esperança de Deus em nós, nessa esperança que aguarda que depois de todos os cuidados ainda sejamos capazes de produzir algum fruto. Com as nossas limitações é bem possível que não mas com a graça de Deus é bem possível que sim.

Deixemo-nos assim cuidar por Deus e abramo-nos à ação da sua graça em nós dispondo do pouco que temos e somos para que ele faça alguma coisa de nós. Como dizia numa revelação a Santa Faustina tudo o demais é dele apenas a nossa miséria é nossa, ofereçamos-lhe portanto o que é nosso para que o deixe de ser.

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Convite à conversão

O caminho quaresmal que estamos percorrendo nos faz defrontar com o drama do mal no momento em que surpreende o homem, o atordoa, quando cai repentinamente sobre a sua vida sacudindo certezas até então garantidas. Não é o mal previsto que nos assusta, mas o imprevisto. Se existe algo que nos deixa completamente transtornados, é quando o mal improvisamente nos envolve com toda a sua força e, mais ainda, quando descobrimos que não existem razões plausíveis para tanto. Esta situação na maioria dos casos se repercute numa pergunta religiosa. De onde vem o mal? Porque Deus, se é bom, deixa que isto aconteça? Que Deus é este que deixa o mal cair repentinamente sobre a vida de pessoas que não fizeram nada para merecer isto? O mal improviso questiona o coração até o mais íntimo, tanto que se confie, quanto que não se confie em Deus. O fato de que a nossa vida seja improvisamente mudada por um mal, levanta um questionamento existencial que supera a razão e envolve cada elemento da dimensão humana a qual se sente atingida na sua essência. O impacto que o mal provoca sobre o homem é ainda mais evidente quando se considera que a convicção dominante da Escritura é que o homem é «muito bom» essencialmente ou seja, por sua constituição intrínseca. Sendo assim é incompreensível para a pessoa humana tudo quanto rompe a harmonia, o equilíbrio. Assim, o mal é percebido como aquilo que se coloca entre o desejo de ser o que realmente somos e a impossibilidade de realizar o que desejamos. É como uma violência à manifestação da dignidade própria da pessoa humana. É a “não-liberdade para ser o que somos” por fatores que Às vezes independem de nós.

Como o fiel se coloca diante do mal improviso? É um dos temas do Evangelho de hoje. Comecemos uma leitura atenta.

Quando ouvimos a leitura do Evangelho em nossas Igrejas, quase não prestamos atenção às primeiras palavras, pois são sempre iguais e formam quase que uma introdução obrigatória: “Naquele tempo....”. Contudo, desta vez é diferente a interpretação, pois se trata de uma indicação que o Autor dá propositadamente e serve a facilitar a compreensão do nosso trecho. A expressão pode ser traduzida assim: “enquanto isso...”; deste modo ela nos liga às palavras anteriores de Jesus que, naquele momento, se dirigia à multidão ensinando-a a não considerar as coisas somente pelo fenômeno com a qual estas se manifestam. Ele exortava a ver o mundo com olhar diferente, o olhar de quem sabe que é possível intuir (“intus ire” em latim, que significa “ir adentro”) e penetrar uma realidade mais abrangente que está por detrás daquilo que os olhos vêem. O mundo não é somente o mundo que dá para ver, mas também o que não dá para ver. Assim, enquanto Jesus falava sobre isto, algumas pessoas ali presentes se manifestaram apresentando um caso que havia sacudido profundamente Jerusalém. Era freqüente a presença de mal-intencionados que acompanhavam Jesus para sondar e provocar reações capazes de desacreditar suas palavras e atos; é o próprio Lucas que nos dá mais adiante esta informação: «enviaram informantes que fingiam ser pessoas honestas para apanhá-lo em falso» (Lc. 20,20). O fato ao qual aquelas pessoas se referiam não é muito bem documentado, contudo os historiadores parecem concordar que Pilatos, por meio de espiões, tivesse sido informado quanto a uma possível revolta que deveria acontecer perto da festa da Páscoa, assim, quando ele foi informado que um grande grupo de Galileus iria ao Templo para oferecer os sacrifícios prescritos para a páscoa, aproveitou da ocasião para cercar o Templo e matou um numero relevante de Galileus. O número não é certo, mas para ter as dimensões do fato é possível ter um termo de comparação: alguns anos antes, numa ocasião semelhante, Pilatos massacrou cerca de duas mil pessoas que haviam perpetrado um mesmo ato de revolta. Obviamente é impensável que Jesus não estivesse sabendo do ocorrido. A questão, então, deve ser colocada neste sentido: “levantaram a Jesus a questão dos Galileus” (e não “informaram”); qual seria a reação de Jesus? A expectativa era que Ele tomasse posição contra o poder político, porque este poder de fato á um despotismo quando não cumpre a sua missão de serviço às pessoas. E ainda, outros esperavam que Ele endossasse a posição dos Galileus; quem sabe, movido pelo horror de tal massacre e pela compaixão diante da tal sacrifício para uma “causa” Jesus –segundo estes- com certeza se colocaria ao lado dos que “morreram pela pátria”, enaltecendo e transformando a morte deles em mito... pois, é sempre bem-vindo alguém que se imola por uma causa, contanto que seja alcançado o objetivo!

Mas o questionamento ia mais a fundo: como explicar a maldade que alcança tais limites? Como é possível não se revoltar diante de acontecimentos tão humilhantes que atingem não somente o valor da vida e da pessoa em si, mas toda a dimensão religiosa, violando a santidade do Templo, os valores mais profundos de um povo? Como é possível que o homem desrespeite tudo quanto é sagrado, tudo o que é superior ao próprio homem? Afinal, como um homem pretende assumir o lugar de Deus?

É evidente que tais perguntas ainda hoje pairam sobre nós quando nos deparamos com horríveis atos planejados e realizados com demoníaca frieza. Atos que às vezes não estão tão distantes da nossa casa, do nosso passeio, da nossa viagem para o trabalho... Países, povos, escolas onde crianças que nada sabem sobre os problemas dos adultos pagam as conseqüências...

Como era do seu feitio, Jesus não deu o tipo de resposta que as pessoas pretendiam e nem do modo que pretendiam. Isto porque Jesus toca a raiz dos problemas, não suas manifestações. Tanto Pilatos, quanto os Galileus fizeram o mesmo erro, a diferença foi somente que uns eram mais fortes do que outros, mas a lógica era a mesma e esta, para ambos os lados, é inadmissível para Jesus. Nenhum mal justifica outro mal, ao contrário, cada ato de mal que é realizado fortalece em si mesmo a presença do mal no mundo, de qualquer modo este se manifeste. O mal não se derrota com um mal maior, com uma contraposições de forças; o mal se derrota com o seu contrário: o bem. A violência de Pilatos não era diferente à violência dos Galileus, ambos os grupos tinham suas motivações para agir assim; mas são bem estas aparentes justificativas que são rejeitadas por Jesus. Trilhando este caminho o mal permanecerá sempre uma questão não resolvida e objeto de inúteis especulações. O mal se aniquila somente com o seu contrário: o bem. É a lógica nova do Evangelho, a lógica que nos pede de agir como Deus age, com a Sua perfeição: «faz surgir o sol sobre os bons e sobre os maus». È o que entenderam os Santos!

Aproveitando da situação gerada, Jesus tocou mais um aspecto do questionamento sobre o mal. Quando o mal não é provocado por atos diretos do homem, quando este nos sobrevém sob forma de “desgraça”, Deus não tem nada a ver com isto?

O sinistro se refere à queda da torre que protegia a piscina de Siloé, construída por Ezequias (2Cron. 32,30) no lado sul de Jerusalém para o abastecimento da Cidade. A torre caiu. Estamos diante de duas situações com origens diferentes; a primeira é causada pelo homem, a outra à fatalidade. No primeiro caso a responsabilidade do homem é patente, mas quando se trata de desgraças, a pergunta remete diretamente ao comportamento de Deus.

Diante disto conhecemos vários tipos de reações. Há quem atribui a Deus a responsabilidade e, com isto, a culpa do sofrimento. Há quem responde desacreditando na bondade radical de Deus e, conseqüentemente renunciando a qualquer envolvimento com Ele. Há quem, tão marcado pelo absurdo de uma desgraça, se sente tão sozinho que decide estar sozinho para o resto de sua vida, fecha o diálogo consigo mesmo e com a vida, finge que nada existiu e o mundo perde significado. Para alguns, num impasse entre a própria convicção sobre Deus e a experiência de um sofrimento inesperado, surge uma meia alternativa que ele usa como resposta: o que aconteceu é um castigo de Deus! Evidentemente é uma falsa resposta porque exige, por conseqüência, uma busca hipocondríaca de algum possível pecado ou mal cometido; então a pessoa desesperadamente busca (ou inventa) possíveis “erros cometidos”, até no passado, e, se não encontrar chega a procurar culpas, de gerações anteriores, que devem ser descontadas. Sabemos muito bem como este tipo de atitude provoca graves prejuízos para a vida interior, para o equilíbrio emocional, para a harmonia da vida. Quem busca desesperadamente em si, num possível “pecado”, a razão de um sofrimento, freqüentemente procura também nos outros o “erro”, o “pecado”. Isto porque a procura desesperada do pecado a qualquer custo se torna o centro de sua atenção, e passa a vida procurando o que não existe. O Salmo descreve este modo de agir com estas palavras: «É o ímpio que se ilude procurando a sua culpa e detestando-a» (35,3). É uma busca ilusória e “ímpia”, (a palavra significa: “relação com Deus errada”). É uma atitude errada porque somente procura uma razão enquanto conduz a pessoa a renunciar à difícil tarefa de “penetrar” o fato, a fim de encontrar neste o que a mente não tem condições de compreender. Jesus ensinava à multidão a penetrar e descobrir em tudo, mesmo naquilo que é mais incompreensível o mundo que supera o mundo dos homens. Não se trata de procurar uma justificativa que aliena o homem da dureza de seu sofrimento, mas ensina a ter a capacidade de ver além. Isto somente acontece quando no nosso coração existe uma abertura de fundo e esta é que nos conduzirá a Deus.

Mais uma vez, assim como as tentações de Jesus e a de Pedro, aquilo que nos atinge no mais íntimo nos revela quem nos somos. Ora, é diante disto que podemos dar uma resposta, quando sabemos o que temos no fundo de nós mesmos. É isto que nos liberta, não a teimosia de querer dominar tudo mesmo o que nos ultrapassa. Assim, para o homem que sai de si mesmo, que se “converte” –na linguagem Bíblica- a questão não é “saber” a causa dos eventos, (como se isto resolvesse os problemas) mas, o que fazer com situações análogas àquelas que vimos. Numa ocasião semelhante (Jo. 9,1-2), perguntaram a Jesus quem era o culpado quanto à cegueira de um homem, a resposta do Senhor seguiu o mesmo estilo: é inútil trilhar este caminho, a questão é descobrir como se pode encontrar Deus também nestas condições. Aquele que for capaz de sair da primeira tentação verá «a glória de Deus». Esta é fé madura, reflexo de uma autêntica liberdade.

padre Carlo - www.fatima.com.br