3º DOMINGO DE PÁSCOA

ano C

 

1º LEITURA - At. 5,27b.32.40b-41

a) É preciso obedecer antes a Deus que aos homens

Vimos no Domingo anterior que do lado de dentro da comunidade havia uma verdadeira fraternidade, paz e comunhão de vida, mas que do lado de fora havia os que rejeitavam a comunidade. O texto de hoje mostra a rejeição dos chefes do povo. Do mesmo jeito que mataram o autor da novidade cristã procuram matar também seus pregadores. Os discípulos são levados diante do Sinédrio (= tribunal judeu) porque não obedeceram à ordem de não ensinar em nome de Jesus. Além disso, eles revelam o projeto assassínio dos chefes dos judeus. Pedro e os outros apóstolos deixam um recado bem importante e claro: "É preciso obedecer antes a Deus que aos homens".

b) Os diversos papéis diante de Jesus

Temos aqui a contraposição da ação de Deus diante da ação dos homens. Qual é a ação dos homens: mataram Jesus com a morte de cruz. Qual é a ação de Deus: ele ressuscitou Jesus e o exaltou, tornando-o Chefe Supremo e Salvador. Qual é a finalidade dessa ação de Deus? É para dar ao povo oportunidade de se arrepender e receber o perdão dos pecados. Qual é a ação dos apóstolos e de nós hoje? Ser juntamente com o Espírito Santo testemunhas de tudo o que aconteceu com Jesus.

a) Açoites e libertação

Os vv. 40-41 mostram de novo, em primeiro lugar, o anti-projeto das instituições: "Chamaram os apóstolos, mandaram açoitá-los, proibiram que eles falassem no nome de Jesus e soltaram-nos." Querem intimidar os apóstolos, impedir o avanço da Palavra, mas isto é impossível. Em segundo lugar temos a reação dos discípulos. Reação possível apenas àqueles que estão imbuídos do projeto de Jesus, cheios do Espírito Santo e querem identificar-se com Jesus em sua vida e em seu martírio. De fato o v. 41 diz: "Os apóstolos saíram do Conselho, alegres por terem sido considerados dignos de injúrias por causa do santo Nome." Estamos arrependidos de nossos pecados e engajados no projeto de Jesus a tal ponto de suportarmos críticas, insultos e sofrimentos por causa de Jesus e seu projeto?

2º LEITURA - Ap. 5,11-14

a) Qual é o significado das liturgias ou cantos de louvor no Apocalipse?

Como lembramos no Domingo passado o Apocalipse quer dar força e coragem, animar na perseverança e incentivar na luta diante das perseguições e agressões do Império perseguidor. Nesse sentido o Apocalipse de S. João apresenta em quase todas as suas páginas um canto de louvor, um canto de vitória de Jesus. As comunidades, mesmo em pleno sofrimento e luta e até enfrentando a morte com Jesus carregam a certeza da vitória e da glória com ele. É assim que o apocalipse reanima a esperança das comunidades perseguidas.

b) O que temos no nosso texto

No texto de hoje temos uma solene liturgia universal cantando a vitória de Jesus, sua realeza e sua divindade. Essa liturgia começa (vv. 9-12) e termina no céu (v. 14), mas o v. 13 mostra todo o universo, céus, terra e abismos cantando louvores ao Cordeiro imolado.

c) Quem canta?

O v. 11 cita uma multidão imensa de anjos, os quatro seres vivos e os vinte e quatro anciãos (cf. v. 8). E o v. 13 fala de todas as criaturas do céu, da terra, debaixo da terra e do mar, quer dizer, todos os seres vivos.

a) E o que cantavam?

Cantam um louvor ao Cordeiro imolado, ou seja, a Jesus morto e ressuscitado. Jesus se tornou o Senhor do universo inteiro. Então a ele e só a ele são feitas sete atribuições (o número sete deve lembrar a perfeição total). Quais são essas atribuições? São o poder, a riqueza, a sabedoria, a força, a honra, a glória e o louvor (v. 12).

e) Quem é o Cordeiro imolado

É interessante que o v. 13 mostra que a mesma honra, glória e poder que pertencem ao Pai, pertencem também ao Cordeiro para sempre. Quer dizer, Jesus é Deus. O v. 14 ainda confirma tudo com o Amém solene dos Quatro Seres Vivos e com a adoração dos 24 anciãos.

f) Termos simbólicos

Os 4 seres vivos: simbolizam os 4 anjos que governam o mundo físico, ou a força de Deus que governa e dirige toda a história. O número 4 simboliza a totalidade do mundo criado. Os 24 anciãos simbolizam os santos, ou representantes de Deus do Primeiro Testamento e do Segundo Testamento (12 tribos de Israel + 12 apóstolos), quer dizer, o antigo e o novo povo de Deus.

EVANGELHO - Jo. 21,1-19

Vv. 1-14 - Só a presença de Jesus ajuda a superar a crise.

Estamos num contexto eucarístico e de missão. A menção do mar de Tiberíades lembra a atividade missionária (pesca = pescadores de homens) no meio dos pagãos (o mar representa o campo de missão entre os gentios). A menção de sete discípulos indica a totalidade a partir do significado simbólico do número sete. A decisão de pescar pode indicar que os discípulos ainda não assumiram o compromisso definitivo com Jesus, pois estão retornando às suas atividades normais. De qualquer maneira se essa decisão é um fato real, esta noite de trabalho foi estéril. Se é um fato simbólico (atividade missionária dos pescadores de homens), a comunidade missionária está em verdadeira crise, pois naquela noite não pescaram nada. Mas é bom lembrar que "à noite" tem conotação negativa e está em contraste com o dia (cf. 9,4-5). Noite simboliza ausência de Jesus ou do Espírito. Sem ele que frutos daria a ação missionária (cf. 15,5)? "Dia" ou "amanhecer" já têm conotação positiva, alude à nova realidade inaugurada pela ressurreição. Mas no princípio os discípulos não estavam tão firmes na fé ("não sabiam que era Jesus"). Mas Jesus manda que eles joguem as redes do lado direito da barca e eles jogaram e aconteceu o milagre. Pegaram uma "multidão" de peixes. Isto indica a fecundidade missionária com a obediência à Palavra de Jesus e a fé na sua presença na caminhada da comunidade. Só o discípulo que Jesus amava reconhece que é Jesus. Hoje também só reconhecemos Jesus aqui ou ali através do amor. Pedro toma duas atitudes "veste a roupa" quer dizer predispõe-se ao serviço (cf. v. 7) e "pula dentro da água", quer dizer está disposto a enfrentar o risco. Na praia os discípulos percebem sinais de amor preparados por Jesus: peixes na brasa e pão. A quantidade de peixes (153 é a totalidade de espécies de peixes para o mundo antigo) significa que a atividade missionária vai atingir a todos os povos. Depois que Jesus convida os discípulos para a "Eucaristia" ninguém mais duvida de sua presença.

Isto significa que na comunhão de vida com as pessoas reconhecemos facilmente a presença de Jesus. A pergunta: "Eras tu, Senhor?" vai desaparecendo na medida em que aprendemos a partilhar.

Vv. 15-19 - O assunto aqui é a vocação do discípulo. Aqui o centro da atenção é Pedro. Podemos sinteticamente perceber que as condições para seguir Jesus se traduzem em comunhão profunda com Deus e solidariedade com as pessoas, ou seja, em duas palavras: amor-serviço. Jesus pede de Pedro e de cada um de nós um amor incondicional capaz de dar a própria vida como Jesus o fez (= estender as mãos para ser crucificado). Jesus só chama Pedro para o seguir depois que teve a certeza do seu amor incondicional.

dom Emanuel Messias de Oliveira

 

A liturgia, neste tempo pascal, concentra nossa atenção naquele que por nós morreu e ressuscitou; na glória que ele agora possui, como Senhor do céu e da terra: “O Cordeiro imolado é digno de receber o poder, a riqueza, a sabedoria e a força, a honra, a glória e o louvor. Ao que está sentado no trono e ao Cordeiro, o louvor e a honra, a glória e o poder para sempre!” Estejamos atentos, porém: afirmar a glória de Cristo, não é algo de folclórico ou triunfalístico, mas é uma proclamação convicta e clara do seu senhorio sobre nós, sobre nossa pobre vida, sobre a vida da Igreja, sobre o mundo e sobre toda a história. A Igreja e cada cristão vivem desta certeza: Jesus ressuscitou dos mortos, é o Vivente, é o Senhor; nós existimos nele e para ele; ele é o referencial último absoluto de nossa existência!

É este Jesus vitorioso, que vem ao encontro dos seus às margens do mar da Galiléia; é este Senhor nosso que os apóstolos experimentam no evangelho de hoje. Cada detalhe deste texto de João é cheio de significado. Vejamos: os apóstolos pescam e nada conseguem apanhar... A pescaria é imagem da ação missionária da Igreja. Sem Jesus, estamos sozinhos, sem Jesus a pescaria é estéril, as tentativas são vãs... Sem Jesus, pescamos na noite escura... Mas, pela manhã, Jesus vem ao encontro dos seus. Notemos que os discípulos não conseguem reconhecer o Senhor ressuscitado. Somente quando Cristo se dá a conhecer é que os seus conseguem compreender e experimentar sua presença viva e atuante. E Jesus dá-se a conhecer sempre na Palavra e no Pão partido, na refeição em comum, isto é, na celebração eucarística. É aqui, é agora, nesta Eucaristia sagrada, que o Senhor nos fala e parte o Pão conosco. Toda celebração eucarística é celebração pascal, é encontro com o ressuscitado! Como seria bom que, a cada domingo, revivêssemos esta experiência, esta certeza da presença do Senhor vivo entre nós!

Os discípulos ainda não haviam reconhecido Jesus. Este lhes ordenou: “Lançai a rede!” Eles lançaram-na e já “não conseguiam puxá-la para fora, por causa da quantidade de peixes”. Notem: o discípulo amado, diante do sinal, reconhece o Ressuscitado: “É o Senhor!” Mas, é Simão Pedro – sempre ele, o chefe do grupo, o chefe da comunidade dos discípulos, o que comanda a pescaria – faz-se ao mar, para encontrar Jesus. Jesus ordena que arrastem a rede para a terra. Notemos: o barco é um só, como uma só é a Igreja de Cristo; também a rede é uma só, como única é a obra da evangelização; e quem comanda a pescaria é Pedro, sob a ordem de Jesus! E a rede não se rompe, apesar de cheia de 150 peixes grandes. O número é exagerado, significando a plenitude da obra evangelizadora. E, então, Jesus repete, diante dos discípulos, os gestos da Eucaristia: “tomou o pão e distribuiu entre eles”.

Depois, três vezes, o Ressuscitado pergunta a Pedro – e pergunta aos sucessores de Pedro, os bispos de Roma, pergunta a João Paulo II: “Simão, filho de João, tu me amas mais do que estes?” Pedro responde que sim, e abandona-se no Senhor: “Senhor, tu sabes tudo; tu sabes que te amo!” Senhor, antes coloquei minha confiança em minhas próprias forças, em meu próprio amor e terminei te traindo... Tu disseste que oravas por mim para que minha fé não desfalecesse, mas fui presunçoso, e contei mais com minhas forças que com tua oração... Mas, agora, te digo: “Tu sabes tudo; tu sabes que te amo”, apesar de minha fraqueza! É naquilo que tu sabes, que tu podes, que tu em mim realizas que te digo: te amo! - E três vezes, Jesus o incumbe, diante dos outros, de uma missão toda particular: “Apascenta as minhas ovelhas!” Que ninguém duvide – a menos que deseje fazer pouco da vontade do Senhor nosso – que Pedro é o primeiro pastor do rebanho de Cristo. O rebanho é de Cristo, o Bom Pastor, e Cristo o confiou a Pedro! Quem não está em comunhão com o sucessor de Pedro, certamente, age de modo contrário ao que Cristo desejou para a sua Igreja e para seus discípulos. Pouco adianta uma bíblia debaixo do braço, se contrariando a Palavra de Deus, se nega a presença real do Cristo na Eucaristia (cf. Jo 6,53-57), o papel materno de Maria Virgem junto a cada discípulo amado do Senhor (cf. Jo 19,25-27), a indissolubilidade do matrimônio (cf. Mc 10,1-12) , a sucessão apostólica e o papel de Pedro e seus sucessores na Igreja de Cristo (cf. Mt 16,13-20)! Estejamos atentos: não é a Pedro super-homem que o Senhor confia a sua Igreja; mas a Pedro frágil, a Pedro que o negou, a Pedro humilhado... a Pedro que pode servir até de pedra de tropeço (cf. Mt 16,23). Pedro é a pedra da Igreja, mas a rocha inabalável é somente Cristo! E Cristo o convida a segui-lo até o martírio, até levantar as mãos na cruz...

Assim foi com Pedro, assim com os discípulos, assim, agora, conosco... Não tenhamos medo! É possível que muitas vezes nos sintamos sozinhos, desamparados, pescando numa pescaria estéril de noite escura... Coragem: o Senhor está conosco: é ele quem nos manda à pesca, é ele quem pode encher nossas redes e dá-lhes consistência para que não se rompam, é ele quem nos revela sua presença e nos enche de coragem! Recordemos dos nossos primórdios, da coragem dos santos apóstolos que se sentiam “contentes por terem sido considerados dignos de injúrias por causa do nome de Jesus”. É que eles sabiam por experiência que o Senhor estava vivo, que o Senhor caminhava com eles. Também nós, hoje, podemos escutá-lo nas Escrituras e reconhecê-lo entre nós no pão partido da Eucaristia. É este Jesus que nos envia à pesca, é este Jesus que caminhará sempre com sua Igreja, nossa Mãe católica, até o fim dos tempos!

A ele a glória e o louvor, a adoração, a riqueza e a sabedoria, a força e a honra para sempre. Amém.

 dom Henrique Soares da Costa

 

O núcleo da mensagem de Jesus era o reino de Deus. Mas a pregação dos apóstolos passou a ter como centro a vida e as palavras de Jesus, pois a partir da sua morte e ressurreição tornou-se inconcebível pensar o reino de Deus sem fazer referência àquele por meio do qual Deus exerce agora seu reinado. A expansão desse reino é inevitável quando se anuncia o evangelho, embora forças contrárias à sua propagação tentem calar seus arautos. Ao final o Cordeiro será vitorioso, triunfando sobre o antirreino.

Evangelho (Jo 21,1-19): Um tipo de morte que glorifica a Deus

O texto narra outra aparição de Jesus e tem como tema principal a missão da Igreja sob a guia do Ressuscitado.

O número sete significa perfeição ou totalidade. Aqui traduz a comunidade perfeita, a que se reúne em torno do banquete (vv. 9-13). Os protagonistas da cena, Pedro e o discípulo amado, são os mesmos que entraram no sepulcro vazio. Novamente, o discípulo amado reconhece o Senhor. É o amor que precede esse reconhecimento. Mas é Pedro, desta vez, que corre ao encontro do Senhor (v. 7). É também ele quem toma a iniciativa de pescar e de trazer para a praia a rede cheia de peixes (v. 11). Assim, entrelaçam-se o reconhecimento do Ressuscitado e o serviço missionário representado pela pesca. Sem esse reconhecimento, o trabalho é estéril (v. 3); somente com Cristo ele se torna fecundo (v. 7). Os 153 peixes grandes simbolizam o grandioso sucesso da missão e seu caráter universal.

A Pedro é confiada a tarefa pastoral na Igreja (vv. 15-17). As três perguntas que Jesus lhe faz sobre se ele o ama correspondem às três negações do apóstolo. Pedro não ousa afirmar que ama o Senhor mais que os outros discípulos. Sua resposta é humilde, pois sabe de sua fraqueza e tem consciência de que sua tarefa é fundada na graça. Jesus pergunta a Pedro considerando sua disponibilidade, e é a partir daí que lhe é confiada a missão.

No v. 18 Jesus apresenta a Pedro a total disponibilidade que o discípulo deve ter para o seguimento. Caminhar com Jesus é assumir também seu destino: o martírio. Dessa forma, o serviço que Pedro assume no pastoreio deve ser feito num total dom de si. Esse dom só é possível para aquele que ama, ainda que não o faça “mais que os outros”. Esse amor incondicional, que o próprio Cristo vivenciou, Pedro aprenderá em sua caminhada. Por enquanto, sua própria entrega foi o reflexo desse amor.

1º leitura (At 5,27b-32.40b-41): Dignos de sofrer pelo nome de Cristo

Os apóstolos foram conduzidos ao sinédrio e o sumo sacerdote os acusou de desobedecerem à proibição de proclamar o nome de Jesus. Em nome da Lei divina, o sinédrio condenou Jesus, e a divulgação da ressurreição deste representava dura acusação contra o tribunal – pois, se Deus ressuscitou o condenado, isso significava que seus juízes eram culpados e este era inocente.

Pedro respondeu que iria obedecer primeiramente a Deus e não a autoridades humanas. Mencionou ainda a assistência do Espírito Santo no encargo de testemunhar tanto a morte quanto a ressurreição de Jesus.

O sinédrio, então, intimou os apóstolos a não falar mais no nome de Jesus. Mandou açoitá-los e soltá-los. A conduta deles após os açoites indica que ficaram felizes por terem sido achados dignos de sofrer por causa do nome de Jesus. As injúrias significavam que eles estavam, de fato, fazendo a vontade de Deus, caso contrário não teriam incomodado ninguém e suas palavras teriam sido bem-aceitas.

2º leitura (Ap 5,11-14): O Cordeiro é digno de louvor e adoração

O capítulo 5 de Apocalipse tem como tema central Jesus Cristo redentor, glorioso e vencedor, que traz em suas mãos os destinos da história. João contempla um número incontável de seres que proclamam a dignidade do Cordeiro. Os sete títulos (poder, riqueza, sabedoria, força, honra, glória e louvor) indicam a plenitude da dignidade e da obra redentora de Cristo e a perfeita glorificação daquele que a realizou.

Nos versículos 13 e 14, o cântico que começou no céu se estende por todos os âmbitos da criação, em exclamações de louvor unidas à liturgia celeste.

PISTAS PARA REFLEXÃO

Destacar as inúmeras dificuldades sofridas por quem está engajado na propagação do reino de Deus na terra. Animar as pessoas – que passam por diversos tipos de sofrimentos e tribulações – a se manter firmes, alicerçadas na fé em que o Cordeiro ressuscitado, vitorioso sobre a morte e o pecado, está presente na vida das comunidades.

Aíla Luzia Pinheiro Andrade, nj

 

Atos dos Apóstolos: 5,27b-32.40b-41

SOMOS TESTEMUNHAS DE QUE DEUS RESSUSCITOU JESUS!

Este texto contém um dos seis discursos missionários dos apóstolos. Esses discursos têm em sua estrutura uma introdução, o anúncio do “kerigma” e um convite à conversão. Eles assumem uma dupla dimensão:

a) Transmitir de forma esquemática o conteúdo da pregação dos apóstolos;

b) Evidenciar que o anúncio do “kerigma” de Jesus morto e ressuscitado é exaltado por Deus e é o verdadeiro elemento propulsor do tempo depois de Jesus, isto é, da Igreja.

Uma das linhas marcantes nos Atos é a perseguição. A pregação dos apóstolos é apresentada com duplo efeito: de uma parte há a acolhida da multidão e de outra a negação e a oposição da classe dominante. Nosso texto mostra a oposição à pregação dos apóstolos. No centro da oposição está a negação ao projeto de Deus realizado em Jesus. Os hebreus, embora muito religiosos, não conseguiram acolher a pessoa de Jesus e seu plano de salvação. Para eles, Jesus não caminhou plenamente segundo a lei de Moisés e as indicações da Sagrada Escritura. Portanto, em nome de Moisés e das Escrituras, os sacerdotes proibiram os apóstolos de difundir a mensagem de Jesus. Mas a pregação dos apóstolos consistiu justamente em anunciar que as Escrituras conduzem a Jesus e que a lei de Moisés encontra a sua plena realização no Evangelho de Jesus. Portanto, a pregação é necessária para anunciar a continuidade entre as Escrituras e o Evangelho de Jesus e para assegurar que as grandes promessas e as grandes expectativas da Bíblia se realizaram no dom de Jesus feito homem. É preciso, portanto, obedecer a este Deus que falou primeiro por meio dos profetas e definitivamente em Jesus. Obedecer aos homens significa interromper esta continuidade do agir de Deus. Significa acreditar num outro projeto de salvação que não é realizável.

Portanto, o conteúdo da pregação evidencia o fato da ressurreição de Jesus, ao qual é preciso obedecer: “É preciso obedecer mais a Deus que aos homens foi um pequeno credo apostólico”. Para Lucas, o objetivo do seu ensinamento é claro: os cristãos coerentes passarão pelas mesmas dificuldades e provações que Jesus passou (prisão, tortura, morte...), em vista do testemunho que têm de dar. Os apóstolos são levados à presença das autoridades para serem julgados como Jesus, as quais usam as mesmas acusações do sistema opressor que matou Jesus (Mateus 27,25). De fato, a pregação dos apóstolos põe às claras as ações do sinédrio que, em vez de favorecer a vida, procuram a morte.

Os apóstolos respondem às acusações buscando na vitória de Jesus sobre a morte o fundamento de suas convicções. Ele é o novo Moisés que inaugurou um novo Êxodo. Eles colocam o primado de Deus acima de tudo, acima de qualquer autoridade ou concessão humana.

O texto se abre com o interrogatório de Pedro e João pelos sumos sacerdotes, os quais lembram a eles a proibição taxativa de não ensinarem em nome de Jesus (Atos dos Apóstolos 4,28). Responsabilizam-nos de terem enchido Jerusalém com suas doutrinas e de acusarem os judeus pela morte de Jesus. Os sumos sacerdotes se negam a pronunciar o nome de Jesus. Ao invés dizem ”aquele nome”, em sinal de desprezo e horror (Jesus escândalo para os judeus – 1Coríntios 1,23; Gálatas 5,11). A resposta de Pedro é categórica: contrapõe-se ao dever de obedecer aos homens, mesmo que estes sejam revestidos de autoridade (1Pedro 2,13s). Eles sentem o dever de proclamar Jesus, pois Deus ressuscitou com sua mão poderosa Jesus morto pelos judeus e o fez chefe e guia de um novo êxodo, ou seja, do caminho para Deus.

O mais velho dos apóstolos, em vez de provocar conversão, suscita indignação e ira. Assim, os apóstolos são castigados e depois libertados com a proibição de pregar em nome de Jesus.

Apocalipse: 5,11-14

A GLORIFICAÇÃO DO CORDEIRO IMOLADO

O autor apresenta um quadro grandioso de todo o cosmos, entendendo que em todas as realidades materiais e espirituais existe um nível hierárquico. Este livro foi escrito para as comunidades perseguidas por causa do testemunho de Cristo. As comunidades sentiam-se incapazes de conhecer os acontecimentos e o sentido da história que vivia.

Em vista disto, João mostra às comunidades que a ressurreição tem o poder de dar sentido à história, simbolizada pelos sete selos lacrados (segundo a mentalidade judaica, a vontade de Deus está como que fechada em um livro, que aberto manifestará o desígnio de salvação e amor para os homens - Daniel 10,21).

A vitória de Jesus é celebrada numa solene liturgia universal que inicia no céu e ecoa por todo o mundo, concluindo-se no céu. Nosso texto explicita a segunda doxologia que é celebrada no céu por um número incontável de anjos que circundam o trono, os seres vivos e os anciãos. O trono simboliza a estabilidade de Deus e o seu projeto. Os seres vivos são símbolos do dinamismo que parte de Deus, repercutindo na história da humanidade, e volta para Deus. Os anciãos são figuras representativas do povo de Deus. Cada comunidade verá neles os irmãos que os precederam no testemunho.

A doxologia atribui a Cristo morto e ressuscitado o poder, a riqueza, a sabedoria, a força, a honra, a glória e o louvor. São sete (número perfeito) atribuições. Aplicar esses atributos a Cristo, como se costumava fazer no Império Romano aos imperadores que eram adorados como deuses, era idolatria para as comunidades cristãs.

Em resumo, o autor coloca uma “Doxologia angélica” nos versículos 11 e 12, onde são atribuídos a Cristo sete títulos de glória que indicam a totalidade dos tesouros divinos, aos quais Cristo teve acesso mediante a sua imolação. O versículo 13 faz menção a uma “Doxologia cósmica”, onde ao coro dos anjos se associam os seres animados e inanimados que habitam o mundo. Esse coro cósmico celebra os louvores do seu Criador e Senhor e do Cordeiro, que com sua glorificação deixou à humanidade e com ela a todo o universo a comunhão com Deus. O Cordeiro participa da glorificação de Deus no mesmo plano de igualdade.

No versículo 14, o autor apresenta a conclusão, onde os quatro seres vivos exprimem com o termo litúrgico judaico e cristão Amém sua confirmação e ratificação solene da dupla doxologia. Os anciãos, com um gesto ritual de prostração adorante, confirmam tudo o que os seres vivos proclamam. É o reconhecimento de que Deus é plenamente fiel. O reconhecimento é acompanhado da prostração e adoração por parte dos anciãos. Este gesto é um convite às comunidades para adorarem somente a Deus.

João 21,1-19

APARIÇÃO NA GALILEIA: APASCENTE AS MINHAS OVELHAS

Este trecho é um epílogo acrescentado posteriormente pelo próprio autor ou por um discípulo. Busca dar resposta à crise de identidade da comunidade em plena missão.

O contexto da perícope é eucarístico. É semelhante a João 6. Começa dizendo o modo como Jesus inicia sua missão, tendo como palco de ação o mar de Tiberíades, nome derivado da cidade que Tibério construiu. João se refere ao mar de Tiberíades e não da Galileia, para indicar que a missão dos discípulos é no meio dos gentios.

Este capítulo é um epílogo acrescentado mais tarde, em resposta à crise de identidade da comunidade em missão. O contexto é de missão da comunidade. João chama o lago de Tiberíades, e não “mar da Galileia”. É intencional, para mostrar que a comunidade (os discípulos) está em plena atividade missionária (pesca) no meio dos gentios (representados pelo lago). O versículo 2 fala dos sete discípulos juntos. O número sete indica a totalidade das nações. Os sete vão pescar liderados por Pedro e têm uma noite infrutífera. Isto indica a crise da comunidade missionária (a pesca indica a ação missionária dos apóstolos). A noite é uma alusão à ausência de Jesus (João 9,4-5; 15,5).

Mas como sair da crise? A resposta vem ao amanhecer. A palavra de Jesus ressuscitado muda a situação. Os apóstolos lançam as redes e apanham grande quantidade de peixes, numa alusão à comunidade que se torna extremamente fecunda.

Identificada a crise da comunidade, Pedro cristaliza suas metas. Ele se veste, o que é uma alusão ao serviço, assim como Jesus pôs o avental para servir (João 13,4), e se joga no mar (disposição de enfrentar os riscos). Pedro fez isto sozinho, porque tinha o dever de se reconciliar com Cristo, a quem havia negado três vezes.

Ao chegarem à praia vêem o amor de Jesus por eles: brasas, peixe e pão, e Jesus lhes pede algo do fruto do seu trabalho. É assim que se estabelece a união entre os homens e Deus. Plenamente reconciliado, Pedro sobe sozinho no barco e arrasta a rede. Esta força lhe veio da coragem de se atirar sozinho nas águas. A quantidade de peixes foi de 153. Segundo são Jerônimo, os zoólogos da época haviam classificado 153 espécies de peixes. O sentido então seria este: a ação da comunidade sob o comando de Jesus é capaz de reunir todos os povos, sem com isso sofrer cisma (a rede não se rompeu).

Jesus toma a iniciativa e convida a comunidade para a Eucaristia. É a refeição na qual estão presentes todos os povos (153 peixes). A partir deste gesto sabem que é Jesus quem está ali.

Neste trecho o amor é o centro das atenções. A condição para seguir Jesus é o amor incondicional, e isto trará conseqüências para a própria vida. Pedro teve que estender as mãos, gesto que os condenados tinham de fazer ao serem crucificados: eles abriam os braços para carregar a parte superior da cruz. “Deixar-se cingir” é uma alusão à corda atada aos que são conduzidos à morte.

Nosso texto tem um sentido alegórico, segundo os Padres da Igreja. Jesus, depois da Páscoa, encontra-se na terra firme da eternidade, enquanto os discípulos se encontram diante das dificuldades e misérias no mar do mundo. Abandonados, eles não podem fazer nada, mas com Jesus pescam todos os homens que Deus destinou para a eternidade. Por isso, Jesus se doa como Deus Salvador, porque o peixe assado é o Cristo crucificado: “Piscis assus, Christus passus” (santo Agostinho).

REFLEXÃO

A liturgia da palavra diz que Jesus já não aparece num domingo, mas num dia comum da semana, dia de trabalho. Indica que a ação do cristão não deve ocorrer somente nas festas, mas todos os dias.

A ação de Pedro, ao dizer: “vou pescar”, é um gesto que fazemos todos os dias de manhã: “Vou trabalhar”. Tomamos o ônibus ou vamos a pé, encontramos as pessoas... Enfrentamos problemas, dificuldades e indiferenças que nos colocam à prova e às vezes até pensamos que Jesus se afastou de nós. Porém a leitura nos mostra que Cristo não nos abandonou.

Esta é a terceira manifestação de Jesus. Na primeira e na segunda, os discípulos estavam fechados no cenáculo. Nesta estão às margens do mar. O mar, com seus perigos, é o símbolo do mundo. Jesus se apresenta às margens deste mar. Sua presença é significativa e consoladora, porque ele traz alimentos: “Sem mim vocês nada podem fazer”. O Ressuscitado continua sendo o Emanuel, aquele que caminha ao nosso lado.

Vimos que os discípulos descobriram sua verdadeira vocação missionária após a ressurreição. Por isso, pregam apesar das proibições do Sinédrio. Assim também nós devemos nos encorajar e proclamar o Evangelho, sem nos deixar abater pelas perseguições.

A certeza da ressurreição ocorre para os apóstolos mediante a experiência do Espírito Santo. Eles haviam voltado à labuta da pesca, mas a aparição de Jesus no Tiberíades com a pesca, a partilha do pão e do peixe, o primado de Pedro e o convite para segui-lo lhes dá um novo alento. A presença de Jesus ressuscitado na Igreja lembra sua vocação missionária e assegura o sucesso e a condição de que o amor a ele é a mola mestre de toda ação.

Apesar das dificuldades (os discípulos tiveram choques com as autoridades), o Reino faz caminho. João contempla o seu cumprimento final e escreve uma palavra de conforto aos irmãos desanimados na fé. Cristo é vencedor e vive na glória do Pai.

A presença de Jesus ressuscitado é sempre motivo de alegria. As mulheres ouviram o anjo anunciar que Jesus havia ressuscitado e correram com grande alegria para dar a notícia (Mateus 28,8). Os dois discípulos de Emaús sentiram o coração arder enquanto caminhavam com Jesus ressuscitado (Lucas 24,32). Quando os discípulos estavam no Cenáculo, a aparição de Jesus foi motivo de tanta alegria que quase não acreditaram que Jesus estava ali em pessoa (Lucas 24,14). Depois da Ascensão, os discípulos voltaram a Jerusalém com grande alegria (Lucas 24,52).

Também nós devemos provar esta alegria para renovar a juventude de nosso espírito, para sentir o dom da filiação divina, para nos sentir como cidadãos dos céus.

Os discípulos deram testemunho de Jesus ressuscitado. Um dos grandes testemunhos que podemos dar de Jesus é nossa oração, pois infelizmente hoje se reza pouco e mal. “Nosso dia começa às 04h30 horas com a meditação, a oração e a missa. Depois vem o trabalho. E hoje assistimos mais de 200.000 pessoas. Às 18h30 horas temos uma hora de oração diante do Santíssimo. Pela manhã ele nos dá força para o dia e à tarde agradecemos o pouco de bem que fizemos” (Madre Teresa de Calcutá).

“Se se reflete sobre a tríplice aparição de Jesus segundo a interpretação semita, existe a manifestação de um fato que fica fora de qualquer dúvida. Então, com a expressão terceira vez fica selada a última certeza sobre a fé na ressurreição de Cristo” (Laepple).

padre José Antonio Bertolin, OSJ

 

Pedro, Tomé, Natanael, Tiago e João e dois outros

Jesus ressuscitado se encontra com sete de seus discípulos nas margens do mar de Tiberíades, na Galileia. O relato nos é feito pelo quarto Evangelho. Na lista dos sete discípulos aparecem em primeiro lugar Pedro, Tomé e Natanael. Quando os evangelistas apresentam os nomes dos apóstolos, costumam colocar em primeiro lugar Pedro, Tiago e João. Aqui aparecem Pedro, Tomé e Natanael.

Quando Jesus estava sendo interrogado na casa de Anás, sogro do sumo sacerdote Caifás, Pedro, que se encontrava do lado de fora, negou Jesus Cristo. Disse duas vezes que não era seu discípulo. Uma negação muito séria porque o importante é ser discípulo de Jesus. E Pedro disse que não era. O outro apóstolo, são Tomé, não acreditou que Jesus tivesse ressuscitado dos mortos. Ele só acreditaria se pudesse tocar nas chagas de Jesus. Natanael era um bom israelita, conhecia bem a Bíblia e esperava a chegada do Messias.

Quando Filipe lhe comunicou que tinha encontrado o Messias, e que era Jesus, filho de José, de Nazaré, Natanael reagiu com força e disse que de Nazaré não podia sair coisa boa. Esses três encabeçam a lista dos que se encontraram com Jesus ressuscitado na beira do lago e comeram o peixe e o pão que Jesus tinha preparado.

A cena continua com uma conversa particular de Jesus com Pedro, uma longa conversa. Estavam andando na praia e Jesus insistiu em saber de Pedro se este o amava, e até mais do que os outros. Com a resposta positiva, dada três vezes, Jesus o confirmou como Pastor de todo o rebanho, isto é, o condutor de todos os discípulos de Jesus no mundo inteiro. Pedro recebeu a função de apascentar os cordeiros e as ovelhas de Jesus porque o amava. Jesus deixou bem claro que na sua Igreja a condição para se ter alguma função é amar. Amar Jesus Cristo é a condição para se ter qualquer cargo na Igreja. Cargos que se obtêm de outra maneira não são legítimos.

A conversa de Jesus e Pedro continua, e Pedro parece incomodado com o discípulo, aquele cujo nome não conhecemos e que é chamado de discípulo amado. Então, Jesus vai dizer a Pedro, que negou ser seu discípulo, que o importante é ser discípulo e seguir Jesus. A última palavra de Jesus a Pedro é: "Segue-me", e isso basta.

O discípulo segue Jesus Cristo. Todos os discípulos seguem Jesus Cristo. Isto é o fundamental para todos. É isto que chamamos em teologia de sacerdócio comum dos fiéis. Todos somos igualmente participantes do único sacerdócio que é o de Cristo. Depois disso vem o sacerdócio ministerial, as funções, os cargos, os títulos, e tudo o que quisermos. O Novo Testamento evita a palavra "sacerdócio". Somente a carta aos Hebreus fala de Cristo como sumo sacerdote. O Novo Testamento prefere falar de seguimento, de discipulado.

Tiago e João são os filhos de Zebedeu. Eles também estavam lá. O evangelista não menciona o nome dos dois irmãos; prefere dizer que são filhos de Zebedeu, seu pai, talvez porque o quarto Evangelho seja fruto da comunidade iniciada pelo apóstolo e evangelista são João.

E há ainda dois outros, sem nome, para que você e eu possamos colocar o nosso nome entre os sete.

cônego Celso Pedro Silva

 

“Aclamai a Deus, toda a terra, cantai a glória de seu nome,

rendei-lhe glória e louvor, aleluia!”. (cf. Sl. 65,1s).

Estamos vivendo este momento maravilhoso do tempo da Páscoa. São cinqüenta dias em que damos glórias e louvores pelo Senhor Jesus que venceu a morte, saindo da mansão dos mortos, e ressuscitando para assentar-se à direita de Deus Pai para proporcionar aos homens pecadores a vida da graça, a vida da plenitude eterna.

A primeira leitura (cf. At. 5,27b-32.40b-41) nos apresenta o Testemunho diante do sumo sacerdote, colocada como a segunda defesa de Pedro diante do Sinédrio. “Importa mais obedecer a Deus do que aos homens”. Trata-se de um resumo do querigma cristão: anúncio do ressuscitado como salvador, pela remissão do pecado, o que supõe a conversão. De fato, na história da Igreja, Pedro aparece como líder e porta-voz. É ele que, diante do Sinédrio, em nome dos outros apóstolos, dirige ao sumo sacerdote a atrevida palavra, que parece ter sido um “slogan” dos primeiros cristãos: “É preciso obedecer antes a Deus do que aos homens”(cf. At. 5,29) e pronuncia mais um testemunho da ressurreição de Cristo, que os chefes judaicos mataram.

A liturgia de hoje tem duas vertentes que devem ser consideradas: o Cordeiro Glorioso e Pedro, pastor e porta-voz do rebanho. A origem destes temas parece diferente, mas sendo a liturgia uma interpretação eclesial dos temas bíblicos, vale a pena interpretar um tema pelo outro. Aparece, por conseguinte, que o Cordeiro do Apocalipse, ou seja, da segunda leitura, deve ser visto como o Cordeiro que guia o Rebanho. Não é um cordeirinho, mas um carneiro. Solidário com o rebanho, o conduz à  vitória. A este Cordeiro vencedor são dados os atributos de Deus: honra, glória, poder e louvor.

Mas todos os fiéis poderiam me perguntar: Por que Jesus é chamado o Cordeiro? A literatura do Apocalipse gosta de indicar pessoas e potências por figuras de animais. Além disso, Jesus foi logo considerado vítima expiatória e vítima pascal, como mostram o evangelho e a primeira carta de João, oriundos do mesmo ambiente que o Apocalipse. Como vítima expiatória, Jesus vence os poderes do pecado, representados, no Apocalipse, por feras. Portanto, o Cordeiro é um vencedor, não pelas armas, mas pela solidariedade com o rebanho, assumindo a morte por suas ovelhas.

Todos nós somos convidados a acreditar e dar testemunho na ressurreição de Jesus. Não uma opção que seja meramente com provas históricas. Mais do que isso a ressurreição só pode ser entendida se vivenciada com absoluta convicção de que Jesus, o vencedor da morte, ressuscitou verdadeiramente. Aleluia!

A ressurreição marca um novo começo da presença histórica de Jesus no mundo. Mas em condições diferentes do tempo de sua vida pública. Os Evangelhos e as Cartas chamam Jesus de “Senhor”. Diante dele, fala Paulo que: “dobre-se todo joelho de quantos há no céu, na terra e no inferno, e toda língua proclame que Jesus Cristo é o Senhor!”(cf. Fl. 2,10-11).

A partir da ressurreição os discípulos passam a se considerarem “servos do Senhor Jesus”. Assim foi Tiago, foi Pedro, foi Paulo e continua sendo os sucessores de Pedro na Sua Cátedra. Assim tem sido o peregrino Bento XVI que lutando contra toda a esperança humana continua servo do Senhor Ressuscitado.

Mas, realmente, o Evangelho de hoje é esplendoroso em significados. Ali estava à beira do Mar Tiberíades um pequeno grupo de discípulos de Jesus. Todos estavam desanimados e se colocaram a pescar. Não estavam preocupados com o anúncio da ressurreição de Jesus e com as coisas de Jesus. Para eles o importante era pescar e pensar em si mesmos. Uma atitude bem humana. De Pedro foi à iniciativa para a Pesca: Vou pescar. Mas, infelizmente, nada pegaram com suas redes.

A pesca de que fala o Evangelho é muito superior: vamos pescar homens e mulheres para o Reino de Deus. Pescar é o iniciar a missão e a atividade apostólica que foi legada por Jesus a seus discípulos.

O fracasso da pesca de Pedro e dos companheiros, embora excelentes conhecedores do mar e dos peixes, não é apenas a conclusão de uma pesca sem êxito, mas a tradução concreta do que Jesus dissera na Última Ceia: “Sem mim nada podeis” (cf. Jo. 15,5).

Ressurreição, tempo novo de Deus para a humanidade e, particularmente, para a comunidade que acreditou que Jesus verdadeiramente ressuscitou para lavar nossos pecados. Com Cristo, por Cristo e em Cristo Jesus nos ensina o caminho a ser trilhado para dilatar o Reino de Deus e para sermos fiel ao mandato e a missão de evangelizadores que todos, batizados, indistintamente, são convidados a se empenharem.

No Evangelho deste domingo (cf. Jo 21,1-19 ou 1-14)  apresenta a aparição do ressuscitado e a vocação de Pedro a guiar o rebanho que lhe confiado pelo Senhor. A Mãe Igreja aparece como barco de Pedro e como pesca milagrosa(cf. Jo 21,1-14), mas somente pela palavra do Senhor Ressuscitado! Em Jo 21,15-19, utilizando a imagem do rebanho São Pedro é instituído Pastor do Rebanho que é o de Cristo. Pedro, e não o discípulo amigo por excelência. Por três vezes – quantas vezes o negou – Pedro tem que confirmar sua afeição ao Senhor, porque a vocação é sempre graça de Deus, de quem chama para o serviço generoso do seguimento de Cristo.

Jesus acentua na sua conversa com Pedro a dimensão do Seu Seguimento. O discípulo não irá à frente do Mestre. Não é próprio do discípulo inventar novidades. Ao discípulo verdadeiro cabe ir atrás do Mestre, pondo os pés nas marcas de seus pés. De tal maneira que, quem vir as pegadas, veja só as de Cristo, que são também nossas, ou as nossas que se identificam com as de Cristo.

Não quero realizar os meus desejos. Tenho que realizar a vontade que Cristo tem para a minha vida. E todos os desejos de Cristo, expressos em seus ensinamentos e em sua vida, trazem sempre um gosto pascal de morte/ressurreição. Assim o desapego. Assim o amor gratuito. Assim o acolhimento, o serviço, a compreensão, o perdão, a misericórdia, a acolhida, a vida de comunidade, o cotidiano de nossa vida que sempre deve ser Páscoa e santidade de vida e de estado.

A praia, cenário onde Jesus dá de comer pão e peixe, nos relembra a instituição da Eucaristia, a abundância das graças que os discípulos passam a ser dispensadores. Assim, as celebrações eucarísticas são força de unidade e refazimento do mistério da Encarnação e da Redenção de Jesus. Até hoje, como agora, a comunidade reúne-se e cresce em torno da refeição eucarística. É nela que “anunciamos sua morte e proclamamos a sua ressurreição!” É na Eucaristia que conseguimos o destino eterno.

A segunda leitura (cf. Ap. 5,11-14) nos ensina que devemos honrar e dar a glória, o louvor e o poder ao Cordeiro de Deus. Como por uma porta, o visionário entrevê os mistérios de Deus: o Cordeiro imolado recebe os atributos do poder decisivo e escatológico. As criaturas que o adoram estão na luz de sua glória: esta é a sua salvação.

Jesus Cristo é o Senhor. Esse é o resumo de nossa fé no Filho de Deus, que morreu e ressuscitou para reinar, para ser a cabeça de todos os poderes, para mandar ou permitir o que quiser. Os cristãos fazem esta profissão de fé: “Creio num só Senhor, Jesus Cristo!”.

Na história da Igreja, Pedro aparece como líder e porta-voz. É ele que, diante do Sinédrio, em nome dos outros apóstolos, dirige ao sumo sacerdote a atrevida palavra, que parece ter sido um slogan dos primeiros cristãos: “É preciso obedecer antes a Deus do que aos homens” (cf. At. 5,29), e pronuncia mais um testemunho da ressurreição de Cristo, que os chefes judeus mataram, conforme nos ensinou a primeira leitura.

Como o Cordeiro, por solidariedade e amor, deu a sua vida em prol do rebanho, assim também o Pastor que recebe seu encargo por seu amor não deixará de dar a sua vida em prol de seu rebanho.

Peçamos, pois, com fé, que possamos viver como cristãos a palavra do Redentor e Salvador. Esta palavra é instancia suprema de nossas vidas. O Senhor ressurgiu e continua a ressuscitar ainda hoje. Ele ressuscita de modo especial na missa. A verdade central da ressurreição de Cristo aí é comemorada e se torna realidade. Vivamos, pois, com fé, esta realidade e peçamos ao Senhor que nos mantenha sempre firmes em seu seguimento. Aleluia!

padre Wagner Augusto Portugal

 

"Prova de amor"

Lançai as redes?

No conjunto das manifestações de Jesus aos discípulos, ouvimos a terceira aparição, agora, não em Jerusalém, mas na Galiléia, num contexto de pesca. São 7 discípulos, significando toda a comunidade. Por que estão na Galiléia? Voltaram à vida que levavam, como pescadores? Esta pesca, como a outra que é narrada em Lucas (5,4-10), é infrutífera... Eles não reconhecem Jesus que pede peixe. Respondem que não pegaram nada. Manda que lancem as redes à direita. Direita não tem conotação política, se bem que, em diversos textos, indique o lado direito como símbolo da boa sorte e do bem estar. Pegaram 153 grandes peixes que é o número, segundo os zoólogos gregos da antiguidade, das espécies de peixe e simbolizam que o evangelho está presente nas 153 nações conhecidas no tempo. Esta é uma das explicações. O anúncio da Ressurreição vai a todos os cantos. João, vendo o milagre, diz: "É o Senhor". Pedro se lança nas águas. Assim que desceram à terra, viram umas brasas, e um peixe colocado sobre elas e pão" (Jo 21,9). Qual é o simbolismo? Não usa os peixes que foram pescados, mas Ele dá o pão e o peixe. Lembremos o textos: "É meu Pai quem vos dá o verdadeiro pão do céu" (Jo 6,32). As muitas nações que acolhem o dom da fé, recebem-no do Cristo Ressuscitado e não do discípulo que dá o testemunho. Depois da Ressurreição, os discípulos não reconhecem Cristo no primeiro momento, pois conhecimento não se faz pelos sentidos, mas pela via da fé.

A força do apóstolo

Podemos notar no Evangelho que existe uma euforia quanto ao resultado da pregação dos discípulos. Imaginemos bem quem eram os apóstolos. Quando são levados ao tribunal, os chefes do povo se espantam com sua firmeza, verificando que eram iletrados e homens do povo (At 4,13). Em pouco tempo os cristãos estão por toda parte. Um autor diz: "Somos de ontem e estamos em todo o mundo". A palavra de João é clara: "É o Senhor!" (Jo 21,7). Os apóstolos são sempre persistentes. A força está em obedecer mais a Deus que aos homens (At 4,29). O mundo quer calar a boca da verdade do Evangelho. Mas a força de Cristo é superior. O discípulo não fala por si. Lança as redes em nome dEle. Jesus já afirmara: "Sem mim nada podeis fazer" (Jo 15,5). A Igreja lança as redes para a pesca e o faz em nome de Jesus, isto é, na pessoa de Jesus. Ele é a força da evangelização.

Obra do amor

A evangelização só é possível se parte de uma opção de amor, mesmo que seja frágil. Jesus pergunta a Pedro se O ama com amor divino (ágape), Pedro responde que ama com amor humano (filia - Isto é mais claro no texto em grego). É com a força da fragilidade que o apóstolo recebe a ordem de guardar o rebanho (Jo 21,15). Jesus pergunta três vezes se O ama. É a reabilitação de Pedro em suas três negações. Cristo ama sempre com amor divino, em totalidade. Conduzir as ovelhas a Cristo, conduz com amor. Na tristeza que sente diz: "Senhor, tu sabes tudo, sabes também que Te amo" (17). Onde está Cristo presente hoje, vivo, ressuscitado? Aquele que amamos está glorioso com o Pai. Cristo é o centro do Universo e a Ele devemos a adoração com todo o universo. Dependemos dEle em tudo o que somos e fazemos. Sem isso a fé é muleta e não nos modifica. Evangelização e governo da Igreja é uma obra de amor. Na celebração dizemos com Pedro. Tu sabes que te amo.

1. A terceira manifestação de Jesus se dá num contexto de pesca, símbolo da pregação da Igreja. Sem terem pescado nada durante toda a noite, Jesus, da praia manda que joguem a rede à direita. Pescam 153 peixes, numero da espécie de peixes e das nações do mundo. A fé fora bem anunciada.

2. Há uma alegria pelo resultado da pregação dos discípulos. Os apóstolos eram gente simples e conseguem tal resultado. Reconhecem que é a presença do Senhor. A força de Cristo é superior ao mundo que quer abafar a verdade. O discípulo não fala por si. Lança as redes em nome dEle.

3. A evangelização só é frutuosa se parte de uma opção de amor, mesmo frágil. Jesus faz três perguntas sobre o amor de Pedro. Pedro sempre responde que ele é frágil. É reabilitação de suas três negações. Nós amamos o Cristo glorioso com o Pai. A Ele devemos a adoração com todo o Universo.

Declaração de amor

A obra de Cristo continua no amor.

Só levaremos em frente a missão de Jesus, se o amarmos com amor total, amor divino, como diz Jesus. Em português não vemos a diferença, mas na língua original o grego, Jesus pergunta se Pedro o ama com amor de Deus. Pedro diz que responde que é com amor frágil, humano. Jesus aceita, mas mostra que ele vai conduzir as ovelhas, o povo de Deus, mesmo na fragilidade.

A pesca significa a missão. Pescaram 153 grandes peixes, lembrando os 153 paises conhecidos no mundo de então.

O discípulo sofre o mesmo sofrimento de Jesus em sua paixão. Sofrer por ele dói, mas dá alegria, pois é a prova de que estamos com ele. Os apóstolos Pedro e João dão o testemunho claro: "É preciso obedecer a Deus antes que aos homens". Eles têm um vigor que admira as autoridades. Quem está unido a Jesus tem o mesmo vigor. Eles têm consciência que Jesus glorificado é o Senhor do mundo. Têm as costas quentes.

Católicos no mundo: 2007 e 2008, assinala o anuário, os católicos no mundo passaram de 1,147 bilhões para 1,166 bilhões, com um aumento de 19 milhões de fiéis, quer dizer, 1,7 por cento.

padre Luiz Carlos de Oliveira

 

"Simão tu me amas ? Segue- me !"

Este relato da aparição de Jesus a seus discípulos, após a Ressurreição, à beira do lago de Tiberíades, destaca que a comunhão de Jesus com seus discípulos continua depois da Páscoa. O colóquio com Pedro deixa entrever que esta comunhão continua sendo sinal do seguimento do Senhor. Com efeito, ele diz ao apóstolo: "... quando fores velho, estenderas as mãos e outro te cingirá e te conduzirá aonde não queres" (Jo 21,18). 0 evangelista, que escreve depois da morte do apóstolo, comenta: "Jesus disse isso para indicar com que espécie de morte Pedro daria glória a Deus". Tendo falado assim, Jesus acrescentou: "Segue-me" (21,19). Eis, portanto, a fórmula decisiva com a qual Jesus acostumava chamar ao discipulado aqueles que Ele escolhia. Mas, aqui, para Pedro se trata de seguir Jesus no caminho do martírio ("estenderás as mãos A tradição relata, de fato, que também Pedro foi crucificado.

A passagem significa também a reabilitação de Pedro mediante o encontro com o Ressuscitado, depois da tríplice negação do Apóstolo, Mas não se trata só de mostrar que Jesus perdoou a Pedro; a cena comporta ainda dois da" dos importantes para a história deste apóstolos: o encargo do ministério pastoral e sua morte no seguimento de Jesus. Pela bondade e poder absoluto, o Ressuscitado confere livremente ao discipulo uma missão de destaque, já contando mesmo com sua falha. Reafirma a profecia de sua morte, mas agora com uma distinção: o discipulo que renunciou a seu orgulho e obstinação, pode e deve segui-lo. O Ressuscitado não só reabilita Pedro, como também faz dele um outro homem, constituído em uma função e seguimento pessoal. Deste modo, a cena de Pedro em Jo 21 revela o novo horizonte que a páscoa cristã criou e cria.

As três perguntas de Jesus: "Simão tu me amas?, estão intimamente relacionadas às três negações. Na terceira resposta de Pedro o "tu sabes" e reforçado com o "tu sabes tudo..." A enfase clara indica que Pedro renuncia por completo à sua certeza pessoal e, humildemente, lança sua confiança só no Senhor. Ao repetir por três vezes a pergunta: "Simão tu me amas?", Jesus não está duvidando de Pedro, mas como Mestre único e verdadeiro, continua a ensinar ao discipulo que o seguimento e constante retomada e que o "Sim, eu te amo" nunca é dado de uma vez para sempre, mas que deve ser dado cada vez de novo. A tristeza de Pedro não e simplesmente vergonha e pesar pelas próprias faltas passadas e pela dúvida que Jesus parece exprimir com a repetida pergunta. E que ele agora sabe o significam do do seguimento e, por isso, já não dispara mais respostas emotivas e imaturas de quem põe sua confiança em si mesmo, O seu pesar e o recolhimento recatado e reverente do discipulo que aprendeu o "peso" do seguimento e, com os pés no chão, so sabe apelar ao conhecimento do coração que Jesus tem, Ele que tudo sabe. O repetido "Tu" ressalta o seu lançar-se confiante em Jesus.

0 tríplice mandato do Senhor: "Apascenta os meus cordeiros!" está indicando que o seguimento tem que ser uma contínua resposta porque a vocação também e um continuo chamado. "más" respostas de Pedro jamais anularam o chamado que o Senhor um dia lhe dirigiu enquanto pescava às margens do lago da Galiléia. O "Vém e segue-me" daquele dia não é um ato pontual no passado, mas continuou a ecoar ao longo da existência de Pedro independentemente de suas respostas boas ou mas. Aliás, no seguimento nunca existe uma resposta suficientemente boa, pois o dom do chamado transcende sempre nossa capacidade de acolhê-lo.

frei Aloísio de Oliveira, OFM conv.

 

Na passagem dos Atos, os apóstolos são indagados diante do sinédrio ou junta suprema dos judeus. Convém refletir sobre o que implica concretamente a fé na ressurreição de Jesus; isto é, o testemunho de que ele continua vivo e agindo, já não fisicamente, mas através da comunidade que assumiu com coragem e valentia o projeto do Reino de seu Mestre. A Ressurreição não precisa de provas históricas e o crente não necessita delas. A prova mais segura e contundente quem a dá é precisamente a comunidade mesma dos crentes, formada ao redor da fé na Ressurreição.

Ligados a ela os cristãos dão testemunho da ressurreição através de uma experiência vital. A vida das pessoas na comunidade passou por uma verdadeira revolução: da total ignorância e incapacidade para compreender Jesus a uma mudança radical. Agora ninguém teme dar testemunho de Jesus vivo e de afirmar que o seu projeto de vida continua na comunidade. Com uma valentia incrível, aqueles que haviam fugido abandonando o Mestre em sua prisão, reforçam agora que vão continuar pregando porque é “preciso obedecer antes a Deus que aos homens”. Esta situação se repetirá inúmeras vezes na história da Igreja, quando a autenticidade da mensagem entra em conflito com os interesses opostos.

Jesus se apresenta aos apóstolos junto ao lago de Tiberíades, em meio às atividades comuns da vida às quais estavam acostumados. Haviam sido chamados por Jesus para serem pescadores de homens, mas depois do suposto fracasso do Mestre, estavam voltando ao seu oficio de sempre. Nesse ambiente familiar é que Jesus se apresenta. E aí que Deus lhes manifesta seu poder e sua glória, através do símbolo da pesca e do alimento.

O ressuscitado os convida a jogar a rede e fazem uma pesca milagrosa. A rede é símbolo da Igreja e da pesca de diferentes pessoas e povos que os seguidores de Jesus deveriam fazer depois desse encontro, ao retomarem o rumo que haviam perdido.

O discípulo, a quem o Senhor mais amava, o reconhece no milagre da abundancia de peixes, e Pedro se sente um nada diante daquele que lhe encomendou uma tarefa específica, mas que deixou de cumprir.

O capítulo 21 do quarto evangelho foi agregado posteriormente. É claro que Jo 20,30-31 era a conclusão original. E é interessante que o capítulo 21 esteja centrado na figura de Pedro. Em todo o evangelho, os grandes protagonistas haviam sido “o discípulo amado”, os discípulos em geral e especialmente as discípulas, e entre elas a mãe de Jesus e Maria Madalena. A figura de Pedro tem relevo secundário: mais ainda,  aparece sempre contraposta e subordinada a do “discípulo amado”. Para João o mais importante é ser discípulo ou discípula. Agora, no capítulo 21, Pedro se afirma como pastor a partir da inquietante e tríplice pergunta de Jesus ressuscitado: “Simão, tu me amas?... Apascente minhas ovelhas”. Pedro é reconhecido como pastor porque agora cumpre a condição de bom discípulo. Durante a Paixão negou três vezes ser discípulo de Jesus. Agora o Senhor lhe pede uma tríplice confissão de seu sincero amor como discípulos.

Antes de ser hierárquica, a Igreja é uma comunidade de discípulos. Na tradição dos evangelhos sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas) é uma igreja fundada e dirigida por 12 apóstolos, chamados também os Doze discípulos. O capítulo 21 de João expressa a harmonização de duas tradições: Pedro é reconhecido como pastor, porém sob a condição de que aceite sua definição fundamental como discípulo. Uma vez reconhecido como pastor, Jesus anuncia o tipo de morte com que glorificaria a Deus: sua crucifixão em Roma. Depois, o Senhor o chama formalmente para ser seu discípulo, dizendo-lhe “segue-me”.

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EPÍSTOLA (Ap. 5,11-14)

O trecho de hoje é parte da abertura do livro selado, pelo cordeiro que rompe os selos. A perícope é a introdução desse cordeiro a quem todos adoram como  Deus que está no trono, e que por ser imolado, é digno de romper os selos, já que por seu sangue remiu todo homem sem distinção de tribo, língua, povo e nação (Ap. 5,9). Esta imagem de Cristo, como cordeiro, é uma das mais frequentes no Apocalipse. Provém, sem dúvida, de Is. 53,7: Como um cordeiro é arrastado ao matadouro, como uma ovelha emudece diante dos tosquiadores e não abre a boca. É também figura do cordeiro pascal de Êx. 12,3-6. Os sete chifres indicam um poder absoluto e os sete olhos de Zc. 4,10 são figuras da onisciência de Deus, pois o número sete é sinal de completa perfeição. Sete os dias em que o mundo foi feito por Deus e tudo era bom, como diz o Gn no capítulo primeiro. O cordeiro é hoje mostrado como o único que pode descobrir os mistérios da vida humana na sua História, passada, presente e futura e é por isso que é aclamado pelos habitantes do céu.

O CÂNTICO: então vi e ouvi voz de muitos anjos ao redor do trono e dos viventes e dos anciões. E milhões e milhões (11) falantes com grande voz: digno é o cordeiro imolado de tomar o poder e riqueza e sabedoria e força e honra e glória e louvor (12).

TRONO derivado do verbo Thraö [sentar-se] é uma cadeira com escabelo para os pés, própria dos reis e magistrados. No AT Ez. 1,26 viu como uma espécie de trono sobre um tablado de safira [pedra preciosa de cor azul] sobre o qual estava sentada uma figura como de homem. Era a manifestação do Senhor em glória e poder. Também Satanás tem o seu trono (Ap. 2,13) e Cristo tem o trono junto ao do Pai (idem 3,21). Esse trono de Deus está nos céus (4,2), reino absoluto, onde a vontade do Pai se cumpre totalmente. Ezequiel descreve a figura divina que representa Jahveh, como uma figura como de homem, sentada sobre o trono, brilhante como metal, como fogo, e ao redor dela, um resplendor como de arco íris. Não era propriamente Deus, o Senhor, como diz Ezequiel, mas a sua glória. João no Apocalipse (4,2-3) a descreve assentada no trono, como semelhante no aspecto a uma pedra de jaspe [variedade de quartzo opaco de diversas cores] e de sardônio [ágata de cor amarela]. Uma glória, [auréola ou arco íris] nimbava o trono com reflexos de esmeralda [pedra preciosa de cor verde]. A figura do sentado no trono é Deus, segundo 7,10: Salvação é do nosso Deus que está sentado no trono. Segundo um targum [comentário em aramaico] o nome de Jahveh [o que é] tem como comentário o triplo o que é, o que era e o que será. O Apocalipse substitui o que será pelo que vem, para implicar a expectativa escatológica de Cristo (1,4; 8), que deveria vir entre nuvens (1,7). Junto ao trono está o cordeiro, e em seu redor, uma série de personagens como anjos, viventes e anciãos. Saindo do trono havia relâmpagos, vozes e trovões, à semelhança do monte Sinai (Ex. 20,18). Na frente do trono estão os sete espíritos, como sete lâmpadas de fogo. Representam o multiforme e completo Espírito Divino que, na dogmática cristã, é a pessoa do Espírito Santo. Ao redor do mesmo, os anjos, os 4 seres viventes e os anciãos.

ANJOS: antes de mais nada temos que falar que todas as criaturas celestes de alguma relevância estão diante do trono, como servidores do que é, do que era e do que será, expressão que é uma maneira de dizer o Eterno, como traduzem os modernos rabinos o nome Jahveh e que vemos em outros tempos substituído por Adonai [meu Senhor]. Entre eles, os anjos, verdadeiros cidadãos e moradores do céu ocupam o primeiro lugar, segundo diz Jesus em Mt. 18,10 e Mt. 24,36. Por isso, fala de muitos e logo na continuação dirá dez milhares e dez milhares e milhares e milhares que, em termos modernos, podemos falar de bilhões e bilhões. De seu número podemos afirmar que Jesus conhecia bem esse número, quando afirma que em sua defesa o Pai pode lhe dar 12 legiões de anjos (Mt. 26,35) quase a metade do número total [28] das legiões que constituíam o exército romano no seu século.

Os VIVENTES na realidade é um ser vivo que pode ser um animal, embora para estes tenhamos o grego Therion [besta]. A maioria traduz animais, seguindo o livro de Ezequiel, cp 1 e 10. Seu número era quatro, assim como os quatro seres vivos que, segundo Ezequiel, rodeavam o trono de Jahveh (Ez. 1,5) e que a Vulgata traduz como animalia. Seu aspecto era de leão, de touro, de homem e de águia (4,7).

Os PRESBÍTEROS em número de 24 que eram como os senadores ou consultores dos reis de antigamente. Os milhões e milhões podem ser também outros seres não nomeados especificamente, como os bem-aventurados que seriam diferentes dos anjos antes nomeados como uma multidão.

O LOUVOR: Todo o drama está disposto para louvar o Cordeiro imolado, que não é outro que Cristo. A ele proclamam digno de tomar o poder e riqueza e sabedoria e força e honra e glória e louvor. São sete atributos que em número coincidem com a perfeição que é devida a todo ser superior que obtém o mando e a autoridade sobre todo o Universo. Este está representado pelos anjos do céu, pelos seres viventes, que são os representantes de todo ser vivo em suas melhores qualidades: o leão, a realeza entre os animais; o touro, a força e preeminência entre o gado; o homem, a sabedoria e como tal rei da criação; e a águia, rainha das aves e a rapidez de movimento. São como os quatro pontos cardinais em que o Universo tem sua base de sustentação. Os presbíteros em número de 24 representam as 24 classes sacerdotais do AT,  ou as 24 horas do dia, ou em duas partes divididos, os 12 patriarcas ou profetas do AT e os doze apóstolos do Senhor aos quais Deus confiou o reino.

O UNIVERSO: e toda criatura que está no céu e na terra e debaixo da terra e sobre o mar, as que existem e as que neles, todas ouvi dizendo ao que está sentado sobre o trono e ao cordeiro: o louvor e a honra e a glória e o poder pelos séculos dos séculos (13). Até este momento, o louvor provinha dos céus mais altos, onde o trono se encontrava. Agora será toda criatura do Universo que entra para formar parte do hino de louvor e da proskinesis correspondente.

CRIATURA o significado é ser feito (logicamente por Deus) como em 1 Tm 4,4: pois toda criatura de Deus é boa. No Apocalipse, Ktisma sai de novo em 8,9 ao falar da terceira parte das criaturas do mar que morreram. Trata-se, pois dos seres vivos criados por Deus, segundo o que diz o Gênesis: Deus criou os animais selvagens… os grandes e os pequenos, segundo a sua espécie (1,25) e viu tudo que havia feito e eis que tudo era bom (1,31). Ou como diz o quarto evangelho: Tudo foi feito por meio dele; e sem ele, nada se fez do que foi feito (1,3). E o evangelista amplia a definição de criatura a todo o âmbito universal com centro na terra; e no céu e no mar e no mundo inferior como rodeando a mesma. Nada do que existe, como mundo animado, está fora de sua visão universalista. Quando fala do mar coloca as criaturas sobre ele, pois o abismo [o profundo do mar] era o mundo de Satanás e este não podia louvar nem a Deus, nem ao cordeiro, objetos da louvação do canto em questão. Tudo o que pode louvar une-se a essa glorificação dada a Deus [o sentado no trono] e ao Cordeiro imolado [Cristo].

O CORDEIRO. A palavra é diminutivo de arén (= cordeiro, que não estava em uso], e é usada 30 vezes no NT, das quais uma única vez em Jo 21,15 quando Jesus pede a Pedro que alimente meus cordeirinhos. Fora deste versículo, todas as demais entradas estão no Apocalipse, como título com que é conhecido o Cristo. Fora destas passagens em Jo 1,29 o Batista chama Jesus de amnos. Esta palavra é a própria para cordeiro, não o diminutivo, e sai 4 vezes no NT: duas em João (1,29 e 1,36) e uma em At. 8,32 e a outra em 1 Pd. 1,19. Arnion é usado pelo autor do Apocalipse precisamente porque quer ressaltar a ideia do cordeiro  ou seh, no sentido geral de rês pequena, pois podia ser um cabrito, distinto do Kebes cordeiro; e de ‘ez cabrito. O cordeiro pascal devia ter menos de um ano e, portanto um cordeirinho (Ex. 12,5). O arnion como vítima pascal deve ser diferenciada dos dois cordeiros sacrificados diariamente em holocausto. Estes recebiam o nome geral de Tamid segundo Ex. 29,38-42. Os dias de lua nova o número de vítimas se multiplicava, assim como nas grandes festividades, especialmente na semana dos tabernáculos. Era holocausto em ação de graças e não pelos pecados. Mas no dia do Pessah (Êx. 12,27) o cordeiro seria imolado e comido e o que não fosse consumado seria através do fogo, de modo que era também uma espécie de holocausto. Porém a verdadeira imolação de Cristo, como cordeiro por o pecado do mundo (Jo 1,29) foi feita na cruz, e seria a réplica única e irrepetível do dia do Yom Kippur, segundo Hb. 9,12; pois foi feita de uma vez e não todos os anos, repetida pelo Sumo Pontífice, como no AT.

O LOUVOR: é um canto de ação de graças e de reconhecimento do poder e sabedoria a quem se rende eternamente as vontades e o acatamento de todo o Universo. Assim será a ida futura e assim deve começar nossa vida na terra.

A ADORAÇÃO: e os quatro viventes diziam: Amém. E os vinte e quatro anciões caíram e  prostraram ao que vive pelos séculos dos séculos (14).

AMÉM: Pode ser traduzido por assim é ou assim será (Ap. 22,29). Sai 13 vezes no texto massorético e 16 no texto grego da septuaginta. Nas doxologias do Kaddish, como oração final nas sinagogas, era a resposta dos fiéis às bênçãos do presidente recitadas após a leitura da Escritura, ou de uma homilia religiosa, nas sinagogas. O significado real é certamente ou em citações: que conste. Popularmente tem o significado de Palavra de Deus. Em serviços religiosos significa estar de acordo com o anteriormente expressado como em 1 Cor. 14,16. Do hebraico passou a todas as línguas e é praticamente uma palavra universal, de modo a ser a mais conhecida das palavras em língua humana. É quase idêntica a palavra amam que significa crer ou fiel, do qual temos um exemplo em Ap. 3,14 em que Cristo é o amém, testemunha fiel. Assim significa certamente ou verdadeiramente, expressão de absoluta verdade e confiança, como em Ap. 22,20. João, no quarto evangelho, a usa repetidamente, amém, amém 25 vezes o que significa com toda certeza.

PROSTRARAM: é a proskinesis como ato de homenagem aos reis que consistia em se ajoelhar, tocando a frente no chão e estendendo os braços em gesto de súplica.

QUE VIVE: Com o sufixo de pelos séculos indica a pessoa do Pai de que anteriormente disse o que é, o que era e o que será, como tradução da palavra Jahveh, o Eterno. Este canto segue ao canto do cordeiro em Apocalipses capítulo 5.

Evangelho (Jo 21,1-19)

APARIÇÃO NA GALILEIA

No relato de hoje, advertimos duas cenas distintas: 1ª) Uma aparição de Jesus a seus discípulos na Galileia. 2ª) Uma conversa particular com Pedro a quem encarrega o mando como pastor de seu novo rebanho. A barca, a pesca, a comida, apontam para a dimensão universal da Igreja constituída por aqueles que Jesus designou como pescadores de homens. É a renovação da missão apostólica começada precisamente no mesmo mar e com os mesmos pescadores. Daí que a conversa com Pedro tenha um objetivo particular como representante dessa mesma missão. Jesus, com a tríplice pergunta, quer reabilitar o apóstolo, covarde diante de um testemunho que podia implicar castigos e penalidades, mas que, uma vez declarado seu amor pelo Mestre, corajosamente o declarará perante as autoridades religiosas dos hebreus e civis dos romanos. A sua morte será como a firma da verdade de sua pregação. Ninguém poderia, diante dos fatos últimos de sua vida, repreendê-lo ou menosprezá-lo pela covardia no pátio da casa de Caifás.

A APARIÇÃO: depois destas (coisas), manifestou-se de novo Jesus aos discípulos, junto ao mar de Tiberíades. Manifestou-se, pois assim (1).

DEPOIS DISTO: o grego meta tauta [depois disto] é mais uma conjunção literária do que cronológica ou histórica. Admite, portanto, outras aparições às quais o evangelista não presta atenção por não considerar importante ou relevante a catequese delas derivada.

MANIFESTOU-SE: O verbo com o qual o evangelista descreve a aparição é FANEPOÖ (= manifestare], cujo significado é manifestar, deixar claro, tornar visível. Esta última acepção é a mais conveniente no trecho de hoje. Jesus se tornou visível junto ao mar de Tiberíades. Segundo Mateus, era o lugar que o anjo apontou às mulheres, como próprio para se manifestar como ressuscitado (Mt. 28,10).

TIBERÍADES: O nome do lago em hebraico é Kinneret ou kinnerot, que, traduzido ao grego, tomou a forma de Gennesaret. A palavra original deriva do nome Kinnor, cítara, devido à forma da sua superfície. No NT seu nome é de mar ou lago de Galileia (Mt. 4,18) ou de Genesaret (Lc. 5,1). No ano 20, Herodes Antipas transformou uma pequena aldeia de nome Rikkat, na capital de seu tetrarcado. Com esse nome de Tiberíades desejava Antipas honrar o imperador reinante, amigo de sua juventude em Roma. Por sua vez, Tibério deriva de Tíber que muitos afirmam ter o significado etrusco de rio-deus. No tempo de Jesus, o mar era conhecido como mar de Tiberíades, uma das quatro cidades santas do judaísmo, [Jerusalém, Hebron, Tiberíades e Safed], pois foi nela que os rabinos se refugiaram após a queda de Jerusalém e redigiram a Mishná e o Talmud. O mar de Tiberíades, segundo a tradução judaica, era um mar de peixes puros, peixes que qualquer pessoa podia pescar com anzol; mas que, com rede, unicamente tinham direito a fazê-lo os descendentes da tribo a quem correspondeu a região, como sorte da divisão territorial da terra prometida.

OS DISCÍPULOS: estavam juntamente Pedro e Tomé, o apelidado Dídimo, e Natanael, o de Caná da Galileia, e os do Zebedeu  e outros dois dos seus discípulos (2).

TOMÉ: o nome do discípulo era Tomé, forma sincopada de To‘am [gêmeo] em grego Thomas de quem sabemos algumas coisas, devido a pena do quarto evangelho, pois os três sinóticos só trazem seu nome na lista dos doze. Pelo quarto evangelho conhecemos algumas características do discípulo: que seu apelido era Dídimo [duplo, ou gêmeo como nome], tradução do To’am hebraico, tudo nos leva a um ambiente greco-hebraico, próprio das cidades do norte da Galileia; de seu espírito forte e resoluto, ao convidar os outros discípulos a seguir Jesus a Jerusalém para morrer com o mestre (Jo. 11,16); que era curioso e queria saber das coisas claras ao pedir na última ceia explicações a Jesus sobre sua partida e o caminho (Jo 15,5), de sua ausência no domingo, quando Jesus se apresentou pela primeira vez ressuscitado (Jo 20,24); de seu ato de fé uma vez que viu e creu no domingo seguinte (Jo 20,26) e agora neste trecho final do evangelho.

NATANAEL: Nathanaël em grego, significa, segundo o hebraico original Dom de Deus. No AT era uma das cabeças de família da tribo de Issacar (Nm. 1,8). No NT é o nome de um discípulo do Senhor, que segundo a tradição se confunde com Bartolomeu, sendo este nome patronímico para indicar o pai, e significando filho de Tolmai. Segundo o quarto evangelho, Natanael era de Caná da Galileia (Jo 21,2). Era amigo do apóstolo Filipe (Jo 1,46) e tinha em pouco caso os nativos de Nazaré. Dele, diz Jesus que era um autêntico israelita sem mentira (Jo 1,47), que o conhecia quando estava sob a figueira, ao que Natanael respondeu declarando Jesus como Messias (Jo 1,49). Ao estarem juntos, significa que Natanael formava parte dos 12, entre os quais também se encontravam outros dois que João não nomeia nesta ocasião. Aqui, a palavra mathetés tem o sentido de apóstolo, indivíduo  do grupo que formava os doze, apontados por Jesus como seus íntimos seguidores. Temos, pois, um total de sete, reunidos em torno de Pedro que se dispõem a pescar, dos quais cinco aparecem com nome próprio. Estavam juntos, provavelmente na casa de Simão Pedro, já que este toma a iniciativa de pescar durante a noite ou muito de madrugada (v. 3).

O CONVITE: diz a eles Simão Pedro: vou pescar. Dizem-lhe: Vamos também nós contigo. Saíram e subiram ao barco de imediato. E naquela noite nada capturaram (3). É Simão Pedro que levado de sua vivacidade, como homem tremendamente ativo, convida a todos a pescar. Saíram, diz João, o que significa que estavam reunidos numa casa, e entraram no barco para pescar. Mas naquela noite nada apanharam. Repete-se o caso da pesca milagrosa de Lucas 5,4+. Alguns intérpretes pensam que ambas as pescarias são redutíveis a uma só.

A PESCA: Chegada já, pois a manhã, apresentou-se Jesus, de pé, na praia (todavia não conheceram os discípulos que é (sic) Jesus)(4). Diz-lhes então Jesus: Moços, não tendes por acaso alguma coisa de comer? Responderam-lhe: Não (5). Ele, pois, lhes disse: Lançai ao lado direito do barco a rede e encontrareis. Lançaram, portanto e já não puderam puxar pela multidão dos peixes (6). A inutilidade dos esforços durante a noite e primeiras luzes do dia [o tempo mais propício para a pesca] vê-se interrompida pela presença na praia de um estranho, a quem não conhecem, mas que ordena lançar a rede à direta do barco. A palavra moços, na realidade, seria meninos, tradução direta de paidia grego, um diminutivo de pais, filho, criança ou servo, que na tradução espanhola é muchachos e ragazzi em italiano. O grego prosfagion significa propriamente um acompanhamento para o pão, geralmente peixe. A vulgata traduz por pulmentarium manjar composto de farinha e legumes cozidos, ou qualquer manjar. Assim se explica como viram as brasas arrumadas sobre as quais estavam os peixes e o pão. Jesus trazia, pois, o pão e esperava que os peixes fossem ofertados pela pesca que estava no ponto de terminar, pois era de manhã cedo que os pescadores do lago traziam suas capturas. A reposta foi Não.

LANÇAI A REDE: era um mandato, ou uma proposta? Vejamos alguns pontos interessantes. Já temos em outra ocasião falado do significado da direita para a cultura judaica da época. A pesca foi tão volumosa que não conseguiram puxar ou arrastar a rede. Esta é descrita com o genérico nome de diktyon. A rede diktyon, era o nome comum que poderia ser diferenciado em amfiblestron (= tarrafa) e sagene (= rede de arrastão). Pela continuação, veremos que parece ser a rede do tipo tarrafa, pois lemos que não podiam puxá-la por causa da multidão dos peixes, que eram grandes em número de 153. E se admiraram de que a rede não estivesse rota. O número indica duas coisas: a primeira, que os pescadores tinham que pagar impostos pelo número de peixes fisgados, logo temos a valoração de um experto, e em segundo lugar o número tinha um sentido cabalístico como veremos no parágrafo correspondente.

É O SENHOR: Diz então o discípulo, aquele que Jesus amava, a Pedro: É o Senhor. Simão, pois, Pedro, tendo ouvido que é o Senhor, cingiu o colete (de pescador), pois estava nu, e lançou-se ao mar (7).

O DISCÍPULO AMADO: o discípulo amado reconheceu no fato extraordinário da pesca a presença de Jesus. Era a segunda vez que semelhante pesca acontecia em suas vidas de calejados pescadores (Lc. 5,4-7). Por isso, disse a Pedro: O senhor é Jesus ressuscitado, pois não poderia ser outro devido ao fato tão extraordinário. Quem era esse discípulo? Há 4 possibilidades: um dos filhos do Zebedeu, ou um dos outros dois discípulos que não são nomeados. Descartados estes últimos, podemos pensar num dos dois irmãos filhos do Zebedeu. E dentre Tiago e João este tem a maior possibilidade porque era o companheiro de Pedro em muitas ocasiões de modo que entre os dois existia uma íntima amizade, como vemos na pergunta final de Pedro em 19,20. Pedro e João serão os dois discípulos que prepararam a Páscoa (Lc. 22,8). E do momento em que pela terceira vez Jesus aparece, estarão unidos como em At. 1,13; curam o paralítico 3,11, e são chamados ao sinédrio após serem presos (4,3,7). Por isso, o mais provável é supor que era João o discípulo amado, também predileto de Pedro como amigo íntimo, que por ser amigo do pontífice abriu as portas a quem, no instante da prisão, não teve medo de lutar; mas que logo caiu, renegando conhecer Jesus diante dos criados. Pedro, também nesta ocasião, não esperou ter no barco os peixes e se cingiu da capa, ou colete (de pescador), pois estava sem a túnica, e se lançou ao mar. Esta é a tradução que pensamos expressa melhor o original grego. Pedro não podia cumprimentar o Senhor nu, ou seja, só com o calção, pois o intercâmbio de saudações era considerado como um rito religioso. Para um judeu vestir só a túnica era estar nu. Já a tradução das duas palavras chave: epenyitês e diazônnymi tem o significado respectivo de casaco de pescador e cingir. Eis, pois, a razão da tradução que temos antes oferecido. Alguns autores traduzem que cingiu o blusão, pois não tinha embaixo outra roupa e assim se atirou ao mar. Nas margens do lago, a terra afunda rapidamente, de modo que Pedro teve que nadar antes de encontrar o chão de areia da praia. Comparando o relato de Lucas da primeira pesca milagrosa com esta de João, vemos como Pedro, uma vez em terra faz a proskinese e se declara homem indigno e pecador. Desta vez, ele se aproxima adiantando-se a seus companheiros.

OS OUTROS DISCÍPULOS: Então os outros discípulos no barquinho, vieram, pois não estavam longe da terra senão como duzentos côvados, puxando a rede dos peixes (8). Ora como desceram na terra, veem brasas preparadas (no chão) e um peixinho sobre elas e pão (9). O trabalho de arrastar a rede com os peixes foi deixado aos outros discípulos, que estavam na barca [pequena nave, segundo o original grego]. Os duzentos côvados eram aproximadamente 100 m de distância da margem, pois o cubitus romano era aproximadamente 532 mm. Mas quando chegaram viram um peixe sobre umas brasas que estavam preparadas (keimenên, ou positas, como se descreve o estado dos panos vazios do sepulcro e que no caso traduzimos por arrumados, Jo 20,6) sobre elas um peixinho superposto, e pão. Provavelmente o pão estava também sobre as brasas, como era costume assá-lo. Jesus tinha preparado o café da manhã de seus discípulos. É quando veem o café preparado, Jesus lhes pede que tragam dos peixinhos (sic) assim pescados. Foi quando Pedro subiu ao barco e arrastou a rede até terra, rede que estava cheia de 153 peixes; e sendo tantos, não se rompeu. Nada diz o evangelista sobre o que Pedro viu, tudo o que demonstra que o evangelista somente narra o que ele próprio viu, sendo, portanto homem diferente do apóstolo Pedro, e só escrevendo como testemunha vidente e não pelo que ouviu, como testemunha de testemunhas.

FALA JESUS: Diz-lhes Jesus: Trazei dos peixinhos que capturastes, agora (10). Subiu Simão Pedro e arrastou a rede sobre a terra, cheia de peixes grandes, 153; e, sendo tais, não se rompeu a rede (11).

CENTO E CINQUENTA E TRÊS: o número é exato, não redondo, e pode significar, na gematria [numerologia hebraica] da época, algum mistério que são Jerônimo explica dizendo que os gregos distinguiam exatamente 153 espécies de peixes, com os quais a captura era símbolo da totalidade da pesca que os discípulos, já como pescadores de homens viriam realizar. Mas esse número de espécies é contestado porque outros apontam números superiores ou inferiores. Uma outra solução é que o número 17 composto do 10 e 7, que simbolizam a perfeição, são pontos que, colocados como lado de um triângulo e multiplicados por 3, dá 51 e como são três lados teremos 153. Sabemos da gematria, ou seja, da representação numérica de letras e frases, tal como o número 666 no Apocalipse 13,18. Mas parece que o número é um claro indício de que o narrador estava lá e sabia bem e narrava corretamente o que tinha presenciado. Esta é a mais correta solução do caso. Por isso, pode ele afirmar que esta era a terceira vez que Jesus apareceu aos discípulos, havendo sido ressuscitado dos mortos. O evangelista era também pescador e sabia que esse número tão grande de grandes peixes tinha necessariamente que ter rompido a rede. Daí que identificá-lo com Lázaro, como sendo o autor do evangelho, seja uma hipótese impossível. O quarto evangelista era um dos doze, um pescador, a quem Jesus distinguia com seu afeto especial: dos três apóstolos de tal forma distinguidos, devemos excluir Pedro, pelo que veremos na continuação. Não era Tiago, pois este estava morto quando o evangelho foi escrito. Logo só fica João, que aliás tem toda a tradição atrás de seu nome.

A REFEIÇÃO: Diz-lhes Jesus: Vinde, comei. Porém ninguém dos discípulos se atrevia a lhe perguntar tu quem és, porque eram conscientes que és o Senhor (12). Vem, pois Jesus e toma o pão e dá a eles e o peixe semelhantemente (13). Esta é a terceira vez que se manifestou Jesus ressuscitado dentre os mortos. Esta já a terceira (vez) se manifestou Jesus a seus discípulos, tendo surgido dos mortos (14). Temos traduzido respeitando os tempos verbais de modo especial que és o Senhor. Não é uma simples asseveração de um fato, mas uma afirmação clara de fé no Ressuscitado, como o novo Senhor de suas vidas. Jesus toma o pão e o peixe e reparte aos seus discípulos, fazendo de sua manifestação uma comida, como tinha dito anteriormente na parábola do banquete, que representava o Reino (Mt. 22,2). E o evangelista termina esta parte do seu evangelho afirmando que era a terceira vez em que Jesus se manifestava uma vez ressuscitado a seus discípulos reunidos. Aqui, discípulo está em sentido restritivo do conjunto dos doze.

PEDRO: Uma vez, portanto tomaram o desjejum, diz Jesus a Simão Pedro: Simão de Jonas me amas mais que estes? Diz-lhe: Sim, Senhor, tu tens conhecimento que te amo. Diz-lhe: alimenta meus cordeirinhos (15). Jesus, após a refeição da manhã, como indica o verbo aristeö grego, se dirige especialmente a Pedro e em três perguntas formais exige do apóstolo uma retificação de suas três negações. As palavras empregadas por Jesus não parecem uma simples escolha literária, mas também uma marcada seleção intencional. Jesus chama Pedro pelo seu nome inicial: Simão de Jonas, como se esse momento e circunstâncias fosse uma citação judicial. Jesus usa o nome real e o sobrenome patronímico do apóstolo. Quem era o pai de Simão? João ou Jonas? Segundo o quarto evangelista era filho de João (1,42 e 21,15-17), segundo o texto grego de Marcos é de Jonas [segundo o texto de Nestlé]. Já Mateus em 16,17 diz ser ele barjona o que significa filho de Jonas. Uma outra questão é que o latim traduz Simon Johannis unicamente no trecho de hoje, ou seja, filho de João, quando no grego temos filho de Jonas, segundo o grego de Nestlé. Efetivamente em duas ocasiões os evangelistas usam o verdadeiro nome oficial do apóstolo: Mateus quando Jesus o coloca como chefe da Igreja e o chama em aramaico como Simão bar Iona (Mt. 16,17) e nesta ocasião também ao revesti-lo com o cuidado pastoral de todo o rebanho, chamando-o Simão Iona. Ionah ou Ionas significa pomba em hebraico e João significa presente de Deus. Mais que estes: o comparativo pode ser traduzido por estes ou estas coisas, ou seja, seu barco, suas redes, seus peixes, seu trabalho. Parece que pela conclusão de toda a perícope devemos pensar nestes, ou seja, os outros discípulos.  Ao verbo agapaö, amar em termos gerais, Pedro responde com o fileö, um amor especial dedicado ao amigo, muito mais que ao senhor. Apapáô expressa um amor mais espiritual, como o que existe entre homem e Deus ou usado para o amor para com os inimigos e filéô o amor entre amigos. Nas respostas, Pedro sempre usa o filéô, mas não parece existir grande diferença entre os dois verbos; pois antes de dar a terceira resposta o evangelista une os dois verbos ao afirmar que Pedro ficou triste por Jesus ter perguntado três vezes se o amava (filéô). O verbo saber (eideö) tem como significado original ver, mas também a Vulgata traduz por scire (saber) como o fazem as línguas vernáculas. A resposta de Jesus traduzida diretamente do grego é: alimenta (Boske) meus cordeirinhos (arnia). Na segunda proposta, no lugar de boske usa poimaine, cujo significado primário é apascentar.

SEGUNDA PERGUNTA: Diz-lhe de novo pela segunda vez: Simão de Jonas. Amas-me? Diz-lhe: Sim, Senhor, Tu conheces que te amo. Diz-lhe: apascenta minhas ovelhas. Comparada esta segunda pergunta e declaração com a primeira, vemos que a pergunta é a mesma, usando os mesmos verbos, agapaö e fileö; mas na resposta de Jesus encontramos duas diferenças: o verbo boskö (alimentar) é substituído por poimainö (apascentar) e o arnia (cordeirinhos) por probata (sheep, gado menor, como ovelhas e cabras). Podemos pensar que as diferenças são unicamente redacionais. Porém creio que as palavras foram escolhidas com sumo cuidado: Boskö para alimentar os cordeirinhos e poimeine para apascentar ou pastorear as ovelhas.

TERCEIRA PERGUNTA: Diz-lhe pela terceira vez: Simão de Jonas amas(fileis) me? Contristou-se Pedro porque lhe disse pela terceira vez amas (fileis) me e lhe disse: Senhor tu percebes todas as coisas tu conheces que te amo (filo). Diz-lhe Jesus: Alimenta minhas ovelhas. (17). Na terceira resposta usa o verbo gignoskö, conhecer, como complemento de eidö. A tradução seria: todas as coisas tu soubeste  (viste), tu conheces que te amo. O emprego do passado indica que Pedro tem consciência de que Jesus está querendo tirar dele tantas respostas afirmativas quantas negações obtiveram os criados na noite em que Jesus esteve em casa de Anás. A cada resposta Jesus acrescenta um pastoreio especial. Como temos narrado anteriormente, os verbos usados boskö e poimainö têm significados parecidos. Boskö é usado na pergunta 1 e 3 e tem como significado fundamental alimentar, e poimainö significa tomar conta, ou guardar. Porém não parece que estes detalhes entrem nos preceitos de Jesus. Os animais que metaforicamente representam os homens a serem pastoreados são cordeirinhos (1) e reses menores como ovelhas e cabras (2 e 3). Na metáfora existe alguma distinção com sentido especial entre cordeirinhos e ovelhas? Provavelmente não. Os três mandatos seguem as três disponibilidades de Pedro, mas poderiam ter sido uma só pergunta e um só mandato; mas, como temos dito, foi um ato premeditado de Jesus para indicar que cada uma das negações tinha um sentido tanto teológico como humano especial. Jesus também sentiu cada uma das negações como um golpe baixo de quem era seu amigo e de quem se esperava mais coragem e amor. Mas existe também uma conclusão óbvia: o amor apaga toda culpa e toda pena de pecados anteriores. Jesus já o havia afirmado quando a pecadora regou com  pranto os seus pés: Seus numerosos pecados são perdoados porque ela demonstrou muito amor (Lc. 7,47). Esta conclusão é suficiente para admitir a existência do pecado e sua permissão pela providência divina. Jesus mesmo dirá, como confirmação desta disposição divina, que há maior alegria por um pecador que se arrepende do que por 99 justos que não necessitam de arrependimento (Lc. 15,17). E esse foi o destino de Jesus: buscar os pecadores (Lc. 5,32). Uma outra conclusão é a de que Pedro é o novo pastor do rebanho de Jesus, seu sucessor e não somente como pastor, mas também como oferenda ao Pai a quem devia dar glória, como Jesus fez com sua morte, exatamente como, na continuação, afirmará profeticamente Jesus.

A PROFECIA: Certamente, certamente te digo: quando eras mais jovem cingias a ti mesmo e andavas onde querias; quando, porém tenhas envelhecido, estenderás tuas mãos e outro te cingirá e te levará onde não queres(18). Isto, portanto disse, significando com que classe de morte dará glória a Deus; e dizendo isso diz-lhe: acompanha-me (19).

 O DESTINO: as palavras certamente, certamente [amém, amém] são o início com o qual Jesus reclama a atenção e propõe uma espécie de juramento em que o narrador empenha sua palavra sobre a verdade do que afirma. A palavra amém tem origem hebraica: era a resposta que os ouvintes davam à oração do dirigente, como confirmação, à semelhança do que fazem os evangélicos após ouvirem um sermão, [amém, aleluia] e significaria assim seja. Mas também temos o amém no início de uma afirmação, exatamente como faz o quarto evangelho, que tem o costume de repetir a palavra, e significa que a declaração equivale a um juramento e traduziríamos por verdadeiramente os asseguro. O destino de Pedro era perder a liberdade de modo a ter que estender as mãos (ou braços); porão um cinto [ou atadura ] ao teu redor e serás levado onde não desejas. E isto na velhice. O evangelista comenta que essa foi a morte com a qual daria Pedro glória a Deus. Significava morte de cruz? Ágabo, o profeta, predisse a Paulo que seria preso (At. 21,11-12), ligando pés e mãos com o cinto do apóstolo. Pelo menos Jesus profetiza a prisão de Pedro e uma morte como consequência da mesma, que nas palavras deste versículo não podemos afirmar seja de cruz. Porém existe uma circunstância que sempre foi admitida como símbolo da cruz: estender os braços. Tendo em conta que o kai grego é tradução do wau hebraico e que este nem sempre é uma conjunção copulativa, poderíamos traduzir: estenderás os braços (= morte de cruz), já que outro te cingirá (ser preso) e te conduzirá onde tu não desejas. Por isso o evangelista dirá que essas palavras seriam sinal da morte com a qual ele daria glória a Deus e o anima a seguí-lo. A glória seria dar a vida em obediência como Jesus declarou: Meu Pai é glorificado quando produzis muito fruto e vos tornais meus discípulos (Jo 15,8). Estas palavras indicam que o evangelista as escreveu, após a morte de Pedro no ano 64 em Roma, no império de Nero. Ao mesmo tempo confirmam as palavras de Jesus: O discípulo não é maior do que seu mestre (Mt. 10,24).

PISTAS

1) Temos aqui um perdão dado, pecado por pecado, e com uma penitência que exige o amor onde antes existia uma apostasia. Se Jesus assim perdoa o pecado gravíssimo de seu apóstolo e o confirma em seu ministério, não se compreende como alguns rigoristas dos primeiros séculos recusaram o perdão aos apóstatas que, levados pela covardia, renegaram sua fé oferecendo incenso aos ídolos.

2) A conduta de Jesus não é unicamente de perdão, mas também de restituição de um ministério do qual Pedro mostrou-se indigno com sua conduta. A conduta dos homens constituídos como pastores não deve ser motivo de tanto escândalo como para desanimar e anular a fé dos crentes.

3) Jesus exige amor tanto dos que quer sejam seus pastores, como também amor dos que um dia quebraram seus vínculos. Um pecador arrependido não é só um desgarrado que volta, mas todo aquele que admite sua maldade e quer voltar ao caminho do amor e da fidelidade.

4) O perdão divino segue o amor humano, que realmente restitui e regenera o pecador. O amor é a base dos que querem ser admitidos como membros da família divina, ou seja, filhos de Deus. Este mundo é uma ocasião de aprender a amar, um amor do qual, como diz S. João da Cruz, seremos julgados no último dia.

padre Ignácio

 

A liturgia deste 3º domingo da Páscoa recorda-nos que a comunidade cristã tem por missão testemunhar e concretizar o projeto libertador que Jesus iniciou; e que Jesus, vivo e ressuscitado, acompanhará sempre a sua Igreja em missão, vivificando-a com a sua presença e orientando-a com a sua Palavra.

A primeira leitura apresenta-nos o testemunho que a comunidade de Jerusalém dá de Jesus ressuscitado. Embora o mundo se oponha ao projeto libertador de Jesus testemunhado pelos discípulos, o cristão deve antes obedecer a Deus do que aos homens.

A segunda leitura apresenta Jesus, o “cordeiro” imolado que venceu a morte e que trouxe aos homens a libertação definitiva; em contexto litúrgico, o autor põe a criação inteira a manifestar diante do “cordeiro” vitorioso a sua alegria e o seu louvor.

O Evangelho apresenta os discípulos em missão, continuando o projeto libertador de Jesus; mas avisa que a ação dos discípulos só será coroada de êxito se eles souberem reconhecer o Ressuscitado junto deles e se deixarem guiar pela sua Palavra.

1º LEITURA – Atos 5,27b-32.40b-41 - AMBIENTE

Entre 2,1 e 8,3, o livro dos Atos apresenta o testemunho da Igreja de Jerusalém acerca de Jesus. Os comentadores costumam chamar aos capítulos 3-5 a “secção do nome”, pois eles incidem no anúncio do “nome” de Jesus (cf. At. 3,6.16;4,7.10.12.30;5,28.41), isto é, do próprio Jesus (o “nome” era uma apelação com que os judeus designavam o próprio Deus; designar Jesus dessa forma equivalia a dizer que Ele era “o Senhor”). Esse anúncio, feito em condições de extrema dificuldade (por causa da oposição dos líderes judeus), é, sobretudo, obra dos apóstolos.

No texto que nos é proposto, apresenta-se o testemunho de Pedro e dos outros apóstolos acerca de Jesus. Presos e miraculosamente libertados (cf. At. 5,17-19), os apóstolos voltaram ao Templo para dar testemunho de Cristo ressuscitado (cf. At. 5,20-25). De novo presos, conduzidos à presença da suprema autoridade religiosa da nação (o sinédrio) e formalmente proibidos de dar testemunho de Jesus, os apóstolos responderam apresentando um resumo do kerigma primitivo.

2º LEITURA – Ap 5,11-14 - AMBIENTE

A segunda parte do livro do Apocalipse (cap. 4-22) apresenta-nos aquilo que poderíamos chamar “uma leitura profética da história”: o autor vai apresentar a história humana numa perspectiva de esperança, demonstrando aos cristãos perseguidos pelo império que não há nada a temer pois a vitória final será de Deus e dos que se mantiverem fiéis aos projetos de Deus.

O texto que nos é proposto faz parte da visão inicial, onde o “profeta” João nos apresenta as personagens centrais que vão intervir na história humana: Deus, transcendente e onipotente, sentado no seu trono, rodeado pelo Povo de Deus e por toda a criação (cf. Ap 4,1-11); depois, o “livro” onde, simbolicamente, está o desígnio de Deus acerca da humanidade (cf. Ap 5,1-4); finalmente, é-nos apresentado “o cordeiro” (Jesus), aquele que detém a totalidade do poder (“sete cornos”) e do conhecimento (“sete olhos”); só ele é digno de ler o livro (ou seja, de revelar, de proclamar, de concretizar para os homens o projecto divino de salvação).

EVANGELHO – Jo 21,1-19 - AMBIENTE

O último capítulo do Evangelho segundo João não faz parte da obra original (a obra original terminava com a conclusão de 20,30-31); é um texto acrescentado posteriormente, que apresenta diferenças de linguagem, de estilo e mesmo de teologia, em relação aos outros vinte capítulos. A sua origem não é clara; no entanto, a existência de alguns traços literários tipicamente joânicos poderia fazer-nos pensar num complemento redigido pelos discípulos do evangelista.

Neste capítulo, já não se referem notícias sobre a vida, a morte ou a ressurreição de Jesus. Os protagonistas são, agora, um grupo de discípulos, dedicados à atividade missionária. O autor descreve a relação que esta “comunidade em missão” tem com Jesus, reflete sobre o lugar de Jesus na atividade missionária da Igreja e assinala quais as condições para que a missão dê frutos.

À ESCUTA DA PALAVRA

Este relato da última manifestação de Jesus ressuscitado aos seus apóstolos une três elementos: uma pesca milagrosa, uma refeição, a “investidura” de Pedro como pastor das ovelhas de Cristo. Este último capítulo do Evangelho de João é importante, porque nos faz voltar para o tempo da Igreja. Este relato da pesca milagrosa está mesmo no final do Evangelho, como que a dizer que as palavras de Jesus a Pedro, no texto de Lc. 5,10, vão realizar-se agora: sem medo, doravante será pescador de homens. E no final do Evangelho de Mateus, Jesus diz para irem a todas as nações e fazer discípulos. No simbolismo dos 153 peixes, João quer dizer que é à totalidade das nações que os apóstolos são enviados. O tempo da missão apostólica começa. A refeição reenvia à refeição eucarística, mesmo se não há vinho. Mas não se faz sempre menção ao vinho. Os discípulos de Emaús reconhecem Jesus apenas na fração do pão. Os primeiros cristãos chamavam à Eucaristia a “fração do pão”. Mas Jesus oferece peixe. Sabemos que este se tornou bem cedo o símbolo de Cristo. Em grego, as primeiras letras da expressão “Jesus, Filho de Deus, Salvador” formam a palavra “peixe” (“ichtus”). Desde então, oferecendo-lhes peixe, Jesus ressuscitado diz aos discípulos que é verdadeiramente com Ele, o Filho de Deus, o único Salvador de todos os homens, que estarão doravante em comunhão, cada vez que partirem o pão eucarístico. Enfim, Jesus sabia bem que a comunidade dos discípulos reunidos à sua volta deveria ter, depois da sua partida, um ponto visível de ligação, de autentificação.

É a missão que Jesus confia a Pedro de ser o servidor e o garante da unidade da sua Igreja, de ser o pastor das suas ovelhas, a Ele, o Cristo. E este serviço só pode ser vivido no máximo amor. Pedro é escolhido, ele que negou três vezes o seu Mestre, para mostrar que, através de todas as fraquezas humanas dos pastores que se sucederão ao longo da história da Igreja, é Jesus que os guiará, o garante na fidelidade no nome do Pai.

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Testemunhas da Ressurreição

Faz parte da nossa identidade cristã ter a certeza de que Cristo Ressuscitado está no meio de nós.

Na primeira leitura (At. 5,27-41) vemos Pedro e os apóstolos diante do sinédrio, o inimigo que levou Jesus à morte. Foram proibidos de falar em nome de Jesus. Porém, fortalecidos pelo Espírito Santo, não temem e não recuam. Responderam: “É preciso obedecer a Deus, antes que aos homens” (At. 29). Pedro repete novamente, com toda a franqueza, o anúncio da Ressurreição: “O Deus de nossos pais ressuscitou Jesus, a quem vós matastes pregando-O na Cruz” (At. 5,30). Acaba de sair da prisão com outros apóstolos, sabe que poderá ter que enfrentar piores dificuldades; mas não tem medo porque colocou já toda a sua confiança no Ressuscitado e compreendeu que tem de segui-Lo nas tribulações. Afirma Pedro: “Nós somos testemunhas destes fatos, nós é o Espírito Santo, que Deus concedeu àqueles que lhe obedecem” (At. 5,3). Aí enfrentam riscos, porém transformam os riscos em realidades a serem submetidas à flagelação, mas tudo suportam com alegria “porque foram considerados dignos de injúrias, por causa do nome de Jesus” (At. 5,41). É este o testemunho que Jesus espera de cada um dos cristãos, um testemunho livre de respeitos humanos e também do medo aos riscos e perigos. A fé intrépida dos crentes convence o mundo, mais do que qualquer outra apologia.

No evangelho (Jo 21,1-19) temos a aparição de Jesus Ressuscitado às margens do mar de Tiberíades. Lá está um grupo de apóstolos, por iniciativa de Pedro, vai pescar, mas nada apanham naquela noite. Ao amanhecer, Jesus encontra-se de pé na praia, sem que os discípulos o reconheçam. Jesus lhes pergunta se têm algo para comer. Não tendo, Jesus lhes disse: “Lançai a rede à direita do barco e achareis”. Sem reconhecê-lo, os discípulos lançam a rede e acontece aquela pesca maravilhosa: Então, é João, o discípulo amado quem reconhece Jesus: “É o Senhor!”

O relato descreve uma cena íntima do Senhor com os seus: “Passa ao lado dos seus apóstolos, junto daquelas almas que se lhe entregaram… E eles não se dão conta disso! Quantas vezes está Cristo, não perto de nós, mas dentro de nós, e temos uma vida tão humana! Recordam o que tinham ouvido tantas vezes dos lábios do Mestre: pescadores de homens!… E compreendem que tudo é possível, porque é Ele quem dirige a pesca. “Então aquele discípulo que Jesus amava disse a Pedro: “É o Senhor!” O amor vê. E de longe. O amor é o primeiro a captar aquela delicadeza. O apóstolo adolescente com o firme carinho que sentia por Jesus, pois amava Cristo com toda a pureza e toda a ternura de um coração que nunca se corrompera, exclamou: É o Senhor! Simão Pedro, mal ouviu dizer que era o Senhor, cingiu a túnica e lançou-se ao mar. Pedro é a fé. E lança-se ao mar, com uma audácia maravilhosa. Com o amor de João e a fé de Pedro, aonde podemos nós chegar!?”(são Josemaria Escrivá, Amigos de Deus, nº 265-266).

No relato que mostra a aparição de Jesus fica refletida a profunda impressão que deve ter causado aos Apóstolos e a recordação íntima que dela guardava são João. Jesus manifesta depois da Ressurreição a mesma delicadeza que antes sempre teve durante a sua vida pública. Usa os meios materiais (brasas, peixes…), que põem em realce o realismo da sua presença e continuam a dar o tom familiar costumado na convivência com os discípulos. Os santos Padres e doutores da Igreja comentaram este episódio, em sentido místico: a barca é a Igreja cuja unidade está simbolizada pela rede que não se rompe; o mar é o mundo; Pedro na barca simboliza a suprema autoridade na Igreja; o número de peixes significa o número dos apóstolos escolhidos. Jesus Cristo tinha prometido a Pedro o primado da Igreja (cf. Mt. 16,16-19). Apesar das três negações do apóstolo durante a Paixão, confere-lhe agora o primado prometido. “Pedro tu me amas?” Três vezes Jesus perguntou, por três vezes Pedro responde:  “Senhor, tu sabes que te amo” A entrega do primado a Pedro foi direta e imediata. O primado é uma graça que é conferida a Pedro e aos seus sucessores, os papas; é um dos elementos fundacionais da Igreja para guardar e proteger a sua unidade. Podemos, depois de dois mil anos, afirmar: ontem Pedro, hoje Bento XVI!

São Pedro seguiu o seu mestre até morrer crucificado, de cabeça para baixo. Pedro e Paulo sofreram o martírio em Roma durante a perseguição de Nero aos cristãos, por volta dos anos 64 e 68.

Jesus termina dizendo: “Segue-me”. Esta palavra evocaria no apóstolo o seu primeiro chamamento (cf. Mt. 4,19) e as condições de entrega absoluta que o Senhor impões aos seus discípulos: “ Se alguém quer vir após Mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz cada dia, e siga-Me” (Lc. 9,23). O próprio Pedro deixa-nos o testemunho de que a exigência da cruz é necessária para todo o cristão: “Pois para isto fostes chamados, já que também Cristo padeceu por vós, dando-vos exemplo, para que sigais os seus passos” (1 Pd. 2,21).

mons. José Maria Pereira

 

É o Senhor!

Aquele discípulo que Jesus amava percebeu e disse: “É o Senhor!” (Jô. 21,7). Além dessa vez, a palavra “Senhor” aparece cinco vezes mais no Evangelho de hoje. Esta palavra nos lembra do nome de Deus no Antigo Testamento. O livro do Êxodo nos relata que Deus apareceu a Moisés e lhe disse: “Eu sou aquele que sou” (Ex. 3,14). Deus é! Poucos capítulos depois aparece consignado num mandamento o respeito que se deve ter pelo nome de Deus: “não pronunciarás o nome de Javé, teu Deus, em prova de falsidade, porque o Senhor não deixa impune aquele que pronuncia o seu nome em favor do erro” (Ex. 20,7). A tradição judaica, numa mescla de respeito e escrúpulo, deixou de pronunciar o santo tetagrama, YHWH, e utilizou “Adonai”, Senhor. Na Sagrada Escritura, Senhor é, por tanto, sinônimo de Deus, do seu nome. Fica claro, por outro lado, que a revelação de Ex. 3,14 indica a transcendência de Deus já que “Aquele que é” nos diz algo do que é Deus, permanecendo, porém, no mais além.

Deus é! Ao contrário, a criatura não é! Apresenta-se assim à nossa inteligência cristã uma doutrina básica, uma distinção de primeira ordem: Deus é, a criatura não é. Deus é tudo, nós não somos nada! Deus é criador, nós somos criaturas e, por tanto, a nossa existência depende totalmente dele. É muito sadio saber quem somos, dessa maneira não iremos por aí vangloriando-nos, cheios de soberba e vaidade. É verdade: nós não somos! Somente depois, num segundo momento podemos afirmar: e o que somos vem de Deus! A nossa dependência de Deus é tal que se por algum momento ele deixasse de pensar em nós e de nos amar, deixaríamos de existir imediatamente. Isso é muito importante: Deus não me ama porque eu sou bom, mas eu sou bom e eu posso ser melhor porque Deus me ama, a minha existência e tudo o que eu tenho depende radicalmente do amor de Deus. Aquele que permanece no mais além se fez presente no mais aquém.

Ele é o Senhor! São João o reconheceu e avisou a Pedro. Depois dessa afirmação, a atitude dos discípulos vai mudando: Pedro se oculta, os discípulos se calam e não ousam perguntar nada a Jesus, ao mesmo tempo a confiança deles no Senhor vai aumentando. Quando nós tivermos mais consciência do senhorio de Deus nas nossas vidas, quando reconhecermos a transcendência de Deus, quando percebermos que ele nos ama com amor eterno, a nossa atitude também será outra. A força do Ressuscitado está se manifestando durante esses dias na Igreja. É uma realidade! Observe um pouco ao seu redor e verá na vida dos seus irmãos as maravilhas da graça. Mas, é verdade, para ver essas coisas, é preciso amar a Deus. Você percebeu que somente são João, esse discípulo apaixonado por Deus, percebeu que era o Senhor? Como não reconhecer a Deus nas encruzilhadas da nossa vida se nós o amamos? Como não viver em sua presença se tudo o que existe nos fala dele? Meu Deus do céu, como ainda somos cegos! Vivemos frequentemente como se Deus não existisse. Estou pensando em tantos cristãos que muitas vezes atuam como se Deus não os visse, como se Deus não se importasse com eles, como se pudessem fugir da sua face adorável.

É o Senhor! Nós o temos também, e principalmente, no sacramento da Eucaristia. Jesus é Deus, o Criador, o Senhor. Quando os sacerdotes e os leigos perceberem de verdade que é o Senhor, muita coisa mudará: as nossas celebrações eucarísticas estarão repletas desse sentimento de presença de Deus, de transcendência de Deus, e da sua proximidade amorosa. Quando isso acontecer, as paróquias serão lugares de adoração de Jesus na Eucaristia, de silencio, de respeito. Quando percebermos de verdade que Jesus está presente na eucaristia verdadeiramente, realmente e substancialmente com o seu Corpo, Sangue, Alma e Divindade, participaremos da santa missa e da Adoração eucarística cuidando também dos detalhes do culto católico, não por escrúpulo, mas por amor: não teremos problema nenhum em adornar dignamente as nossas igrejas, em dourar ou pratear os cálices utilizados na celebração eucarística, em dar ao Senhor um sacrário fisicamente digno dele, em comportar-nos com a “urbanidade da piedade” sabendo que somos filhos amados de Deus e que, por tanto, podemos aproximar-nos com confiança do trono da graça. É o Senhor!

padre Françoá Rodrigues Figueiredo Costa

 

No domingo passado, nós vimos como Jesus fez Tomé crescer na fé. Hoje nós vemos como Jesus faz o grupo dos discípulos (em especial Pedro) crescer na fé e no amor por Ele. Jesus se manifesta aos apóstolos no lago de Tiberíades, e, depois da pesca milagrosa, tem um belo e profundo diálogo com Pedro.

Nós vamos falar sobre a aparência (aparição) de Jesus, embora o termo comumente usado não expresse o verdadeiro significado profundo do evento, pois, na realidade, o que chamamos de "aparência" na língua grega do Novo Testamento é um “fazer-se ver”, um encontro entre pessoas, do qual nasce um reconhecimento, um diálogo, um compromisso; e para que isso aconteça, é necessária a luz da fé, ou seja, não basta a luz da nossa inteligência limitada.

Por isso, diante desta dificuldade, é muito oportuno que cada um antes de tudo peça ao Espírito Santo a luz da fé para reconhecer o Cristo Ressuscitado, o Cristo vivo e presente hoje, o mesmo daquele tempo quando os fatos ocorreram e que o evangelista narra. A dificuldade realmente existiu visto que nem as mulheres nem os discípulos de Emaús e nem mesmo os discípulos que aparecem no texto de hoje puderam reconhecer o Cristo Senhor, a não ser a partir do momento em que ele mostrou "sinais" que iluminaram a mente e o coração deles.

João começa o relato dizendo que: "Jesus apareceu de novo aos discípulos, à beira do mar de Tiberíades (segundo o texto de João, esta é a terceira aparição aos discípulos)..."; o texto cita, um por um, os discípulos que voltaram ao seu trabalho habitual, isto é, de pescadores; voltaram ao trabalho duro, insidioso e muitas vezes ingrato, como novamente o texto mostra: não pescaram nada naquela noite, e assim retornam à margem.

Já tinha amanhecido, e de pé na margem do lago, estava Jesus, mas não puderam reconhecê-lo; na verdade, Jesus apareceu exatamente para iluminar suas mente com os sinais que traziam à memória as experiências que já tinham vivido com o Mestre, o mesmo Jesus Cristo, que agora tornava a se encontrar com eles, depois de ter vencido a morte a fim de que eles o reconhecessem.

E eis o primeiro sinal: uma pesca prodigiosa; aquele desconhecido que estava à beira do mar pede algo para comer, mas os apóstolos voltando de uma pesca inútil, não tinham nada em suas mãos; assim, Jesus os convida a lançar de novo as redes: "Lançai a rede à direita da barca e achareis... lançaram e não conseguiam puxá-la para fora por causa da grande quantidade de peixes”.

Nesse momento um deles se lembrou de ter já vivido aquela experiência e reconheceu que aquele desconhecido se tratava do Mestre; era o discípulo amado, João, iluminado pela fé e a força do amor, e não há outra maneira de encontrar o Cristo Ressuscitado, a não ser através da fé e do amor, um caminho em que parece João correr por primeiro, enquanto Pedro parece vir um pouco mais tarde, embora na realidade, seja a intuição profunda, de quem ama, seja a disponibilidade e a generosidade do serviço, típico de Pedro, são características de quem quer ser discípulo de Cristo.

Há no Evangelho de hoje um outro grande sinal, com o qual Jesus, mais do que fazer-se reconhecer, faz-se encontro, faz-se dom aos seus, lá mesmo em Tiberíades, e é aquele convite a comer algo juntos: "Vinde comer”. Diz a eles e assim repete um dos gestos mais simbólicos e grandes de toda a sua vida terrena: o serviço durantes as refeições e o pão partido no qual oferece o seu corpo em resgate por todos.

À beira do mar, aquele gesto de distribuir o peixe assado na brasa com o pão, se torna silenciosa, viva memória da multiplicação dos pães; mais, se torna um memorial da Última Ceia, na qual o Filho de Deus, já perto da morte, cumpre um gesto de amor extremo, um sinal da sua dedicação total, que é sua verdadeira identidade, a identidade de um Deus que é Dom, e se fez homem para doar a si mesmo.

Os sinais com os quais Jesus Ressuscitado se encontra com os discípulos de modo que estes o reconheçam, são como raios de luz que iluminam e reforçam nossa fé, através de sinais que fortalecem o amor, que por várias razões também pode desaparecer, mas que Cristo espera sempre dos seus, porque a eles ele confiou a missão de evangelizar o mundo, de modo que a salvação chegue a todos os homens.

E nessa continuação, surge então aquele bonito, forte, sugestivo diálogo com Pedro, que conclui o Evangelho deste domingo. Depois de comerem, Jesus perguntou a Simão Pedro: "Simão, filho de João, tu me amas mais do que a estes?". Pedro respondeu: "Sim, Senhor, tu sabes que eu quero bem a você” (tradução correta). Disse: "Apascenta os meus cordeiros." Jesus repetiu essa pergunta três vezes, ele certamente conhecia a generosidade de Pedro e seu amor pelo Mestre, mas ele também sabia da fragilidade e, agora, a lealdade de um pescador a quem tinha confiado a sua Igreja, transformado-o em um pescador de homens. Cristo insiste na pergunta: "Simão, filho de João, tu me amas?", e Simão, certamente ficava pensando na angústia da noite em que havia negado o Senhor, antes do galo cantar três vezes. Negou por medo, mas agora, o encontro com o Senhor Ressuscitado, muda tudo, agora Cristo o transforma e confia-lhe todos os seus irmãos, todos eles veem a luz do mundo e que um homem escolhido por Deus e investido no mesmo ministério de Pedro, confirmará a fé de todos nós a caminho da salvação.

Na verdade, tudo gira em torno das três perguntas de Jesus. Na tradução correta dos verbos gregos usados, Jesus primeiramente pergunta se Pedro é capaz de AMÁ-LO, dar a vida por ele, o que Pedro já tinha prometido antes de negá-lo. Mas Pedro responde dizendo que quer bem ao Senhor, não usa o verbo amar, usa o verbo de querer bem, de que Jesus é importante para ele.

Na segunda vez, Jesus tira “o mais que a estes”. Pedro responde da mesma forma. Já na terceira vez, Jesus pergunta se Pedro pelo menos lhe quer bem. De fato, o amor de Pedro é sincero e verdadeiro. Pedro fica triste porque se dá conta de que seu amor por mais sincero que seja, não corresponde ao que Jesus pede. Por isso, ele diz: Senhor, tu sabes tudo. Tu sabes que há pouco tempo, eu fracassei no meu amor por ti.

Por isso, Jesus diz: segue-me. Caminhe atrás de mim e não na minha frente como quiseste fazer querendo mudar o plano de Deus. Sou eu quem indica a estrada. E Jesus ainda dá um exemplo: quando somos imaturos, jovens, achamos que temos a razão de tudo e que vamos mudar o mundo, somos nós que decidimos como “nos vestimos e pomos o cíngulo na cintura”, mas quando somos velhos, maduros, crescidos no modo de amar, deixaremos de nos cingir a veste, ou seja, amar com um modo de amar que não é o nosso.

Um modo de amar que vem de outro e que nos levará aonde não queremos ir. Como de fato, Pedro que pensava não poder realizar este tipo de amor, conseguiu passar de uma consciência de um amor imaturo para um amor maduro, pra onde Cristo os quis levar a ponto de dar a sua vida por Cristo no martírio.

Por isso, olhemos fixos para Cristo Ressuscitado, e com Pedro, reafirmemos o nosso amor – doação até o fim, pois o amor é realmente um dom inesgotável de si mesmo.

 

O desafio de amar e de ser amado

O Evangelho deste domingo pascal (Jo 21,1-19) dá um estrelato especial a dois atores: o Discípulo Amado e Simão Pedro. Em torno destas duas figuras centrais no IV Evangelho, a comunidade do Discípulo amado que produziu este evangelho lega como herança original as duas veias do amor: o ato de aceitar ser amado e o ato de amar.

O Discípulo Amado encabeça a herança de ser amado, pelo próprio nome. O evangelho não diz as razões de ser assim. Diz apenas os momentos que fixou como revelação da condição de amado: na ceia, ao recostar a cabeça ao lado do Senhor (Jo 13,25), ao pé da cruz quando a Mãe de Jesus lhe é entregue aos cuidados (Jo 19,26-27), ou quando testemunha o traspassamento do lado de Jesus já morto pela lança do soldado (Jo 19,34-35) ou corre primeiro ao sepulcro avisado por Maria Madalena (Jo 20,4) e finalmente quando reconhece por primeiro o Senhor à beira do mar de Tiberíades (Jo 21,7).  Em todas estas ocasiões revela-se uma relação de muita liberdade própria de quem se sente seguro no amor de alguém:

- põe-se do lado,

- expõe-se em momento dramático de solidariedade,

- abraça a herança representada pela mãe de Jesus,

- testemunha a vida que brota do Crucificado,

- corre mais rápido que Pedro ao anúncio de Madalena,

- identifica o Senhor na madrugada.

São momentos de muito relevo na revelação de Jesus aos seus discípulos e discípulas. Só a herança da comunidade do Discípulo Amado oferece estas cenas. Reflete uma caminhada amadurecida na fé e na compreensão do amor.

Por sua vez, Simão Pedro aparece como reiniciando o seu processo de seguimento  interrompido pelo drama da morte, quando Jesus lhe diz: Segue-me (Jo 21,19). Um processo penoso que inclui uma tríplice declaração pública de amor a Jesus, correspondente à negação pública três vezes repetida. Se o IV Evangelho concluísse no cap. 20, a imagem de Simão Pedro não teria sido das melhores. Agora, no entanto, sua figura já bastante conhecida nas Igrejas é resgatada por um ato de misericórdia e de perdão do Ressuscitado, pondo-o definitivamente à frente da sua Igreja.

Uma leitura atenta de 21,15-17 leva a crer que Pedro não ousou responder à altura do que Jesus lhe perguntava sobre se o amava. O grego usa dois verbos semelhantes e de força desigual. Enquanto Jesus pergunta duas vezes usando o verbo agapein, Simão responde com o verbo philein. É como se Jesus perguntasse se amava, e Simão Pedro respondesse que gostava. E Jesus adapta-se ao estágio de Pedro, na última pergunta, perguntando a Pedro com o mesmo verbo de sua resposta. Como se dissesse, tá bom, Pedro, se você gosta de mim, cuide do meu povo. Uma sutileza do redator que revela a profundidade de sua experiência no permanecer com o Senhor, tema constante do IV Evangelho. Pedro sai engrandecido com o  ministério.

O Evangelho termina com um estreito laço de interesse entre os dois figurantes:  Pedro diz a Jesus, tendo se voltado e visto o Discípulo que Jesus amava: e este, Senhor? (Jo 21,20). E o discípulo já não ia à frente de Pedro, como por ocasião da visita ao túmulo, mas o seguia atrás. Uma significativa mudança de posição sem ser uma troca de papéis, mas uma definição entre carisma e poder, para usar um chavão de hoje em dia.

Esta liturgia do 3º domingo da Páscoa poderia ser definida como um pôr à prova o testemunho de duas tendências complementares na maneira de viver a fé. Em ambas, o pólo decisivo do amor. Pouco de sentimento envolvente, como a experiência do amor humano deixado a si mesmo. O que se prova e se testemunha aqui é a solidez de uma experiência que vai de perda em perda até o amadurecimento do amor que é o maior ganho. Assim considera a comunidade do Discípulo Amado ao transmitir-nos esta herança pascal.

A nós, herdeiros e herdeiras de tal experiência exposta no IV Evangelho por quem a viveu, cabe acolhê-la no mesmo espírito com que foi escrita e tentarmos uma superação de relações confinadas em margens estreitas demais em que prevalece o jurídico como norma, na nossa vida comunitária, nas nossas relações eclesiais de carisma e hierarquia, buscando positivamente, no mesmo ímpeto dos primeiros irmãos e irmãs,  a prática de Jesus vivo entre nós como nas origens da nossa fé (I leitura: At 5,27b-32.40b-41), tendo como prioridade o amor-serviço. O Discípulo Amado e Simão Pedro nos representam no Evangelho e nos apontam a direção certa a tomar, cada qual no seu papel.

João Batista Magalhães Sales

 

A leitura que hoje a liturgia nos oferece para a reflexão faz parte de um escrito posterior ao Evangelista, provavelmente anexado por um grupo de discípulos do próprio João. È um trecho que tem como pano de fundo uma comunidade que já compreendeu e aceitou o mistério da morte e ressurreição de Jesus e buscava descobrir sempre mais claramente a sua fisionomia. A intenção é mais meditativa do que narrativa. Tudo se desenvolve em dois pólos, a pesca e a relação entre Jesus Ressuscitado e Pedro. A riqueza deste texto é imensa por isso poderemos pousar a atenção somente sobre alguns aspectos importantes para a nossa fé.

Antes de tudo é preciso ter diante dos olhos a motivação das aparições de Jesus após a Páscoa. Já o vimos em outras ocasiões mas, creio, não seja inconveniente recordar que as aparições não têm caráter demonstrativo, isto é, não visam confirmar, provar a “divindade de Jesus”, isto já era claro e compreensível a quem estivesse com um mínimo de abertura. O problema era maior: uma vez que Jesus havia prometido de permanecer para sempre com os seus, “como” se daria esta presença? Qual seria a relação entre o Senhor ressuscitado, que vive numa outra dimensão e a comunidade cristã que ainda vive na dimensão do tempo? Trata-se de uma série de aparições nas quais Jesus visava educar os fiéis à nova maneira de Ele estar presente e agindo na e com a sua comunidade.  Obviamente percebemos o rico simbolismo que perpassa cada alínea do texto. Tudo nos fala de atos e histórias de Jesus, sentimentos, reações dos discípulos etc. Enfim, num episódio está concentrada toda a história do passado entre Jesus e os seus e, contemporaneamente, a identidade da nova comunidade de fé.

Vejamos como acompanhar a leitura do texto, dentro de nossas condições.

A narração é ambientada ao norte da Palestina, longe dos fatos que se deram em Jerusalém, aliás, quase não parece existir alguma relação com eles. A expressão «depois disso» é puramente redacional, para ligar o texto como resto do Evangelho, mas sem alguma intenção continuativa. Estamos diante de uma comunidade de fé que já se desligou do vínculo com o judaísmo; os fatos de Jerusalém fazem parte da história, mas não condicionam mais a nova comunidade nascida da morte e Ressurreição de Jesus. Esta se afastou da Judéia justamente para reencontrar a própria identidade, a própria característica longe da influência legalista e ritual do judaísmo. A nova comunidade não poderia mais reger-se nos mesmos princípios que sustentavam o judaísmo. Era um momento muito delicado, o momento de buscar a própria identidade, o que não significa renegar o que se é, mas sim buscar no passado os elementos que permitem se projetar para o futuro numa equilibrada continuidade. Assim, como o “bom escriba” que «tira do tesouro de seu coração coisas novas e coisas antigas» (cfr. Mt. 13,52).

O primeiro encontro dos apóstolos com o Ressuscitado, em Jerusalém, se deu em lugar fechado. Símbolo de uma comunidade atemorizada e fragilizada pela grandeza do evento e pelo medo do mundo exterior. Mas o outro encontro com Jesus se deu em outro lugar, aberto, no mundo que já era familiar aos Apóstolos.

Pedro e ou outros tinham voltado ao seu lugar de origem, a Galiléia. Quando os eventos nos sacodem de tal forma que tudo parece ter perdido o sentido, quando a violência esmagadora da irracionalidade parece tomar contas de todo o nosso ser, é absolutamente necessário que dirijamos a nós mesmos aquela série de perguntas que não existem quando as coisas “dão certo”: quem sou eu? Porque estou aqui? Que sentido tem o meu agir?

É preciso saber voltar à origem para lembrarmo-nos quem somos. Sempre, só se pode dar um passo adiante voltando ao essencial, à primeira motivação que nos fez sair do nosso mundo.

Desde as primeiras alíneas da narração temos uma clara indicação de como o Senhor deseja a sua Igreja: os Apóstolos voltaram às suas atividades quotidianas, ao seu dia-dia. Isto significa que a Igreja de Jesus não se abstrai do mundo dos homens e de suas labutas quotidianas, não é “outra coisa” à qual recorrer em determinados momentos, quando, por exemplo, sentimos a necessidade de algo espiritual. Não é um depósito de sentimentos aos quais podemos atingir quando precisamos. A Igreja é um estilo de vida vivido em pessoas verdadeiras, um modo de viver que se confunde com o mundo enquanto este vive a sua vida. A Igreja é o pescador que faz o que sempre fez, mas em tudo isto se encontra com algo que é qualitativamente diferente.

Diversamente da narração das outras aparições de Jesus, desta vez o Autor não usa o termo “aparição”, mas sim “manifestação” (). O significado é bem outro: a aparição pressupõe algo que vem de fora, a manifestação é tornar evidente algo que já existe dentro. Pois bem, o evangelista, assim fazendo, conduz o leitor a contemplar a profunda realidade que dá identidade à Igreja: nós somos o lugar onde, em qualquer circunstância, independentemente do nosso afazer e dos nossos sentimentos, o Ressuscitado escolheu estar presente, para o mundo. O respeito e a consideração que temos, por exemplo, com uma igreja, uma capela, um sacrário, porque não deveríamos tê-los também para os próprios membros da comunidade de fé? Não é esta o lugar privilegiado da presença do Ressuscitado? É nisto que consiste a maravilha que, mais tarde, Paulo chamará «mistério da nossa fé: Cristo em nós» (Col. 1,27). Assim, com esta palavra nova, o evangelista define para sempre a identidade da nova comunidade de fé: a sua diferença não será pelo culto mais ou menos divergente daquele judeu, - a igreja não é uma religião diferente pelo tipo de liturgia - nem pelas atividades fora do comum, como empresas árduas, chamativas, dignas de alta consideração, ela é diferente, única e exclusivamente porque portadora da única presença do Cristo Ressuscitado. Era este mistério que Jesus estava prestes a entregar a Pedro. Mas vejamos os outros passos necessários para tanto.

Como por um re-início da história o grande mistério é preparado simbolicamente. Três anos antes, uma pesca milagrosa foi a resposta de Jesus à fé de Pedro: «por causa da tua palavra lançarei as redes». Uma pesca, abundante, transbordante (Lc. 5,4ss). Agora se verificava de novo um fato semelhante, mais uma pesca milagrosa, mas desta vez serviria a Pedro a à comunidade de fé para indicar como esta poderia agir, qual seria a sua função no grande projeto de salvação. A indicação nos é dada no v. 5 quando Jesus perguntou: «vocês não têm alguma coisa para acompanhar o pão?». Jesus estava oferecendo o seu “pão”, como lugar onde reconhecer sempre a sua presença, como bem intuiu «o discípulo que Jesus amava». Mas, à Sua doação, seria necessário ainda algo para alcançar o resultado que Deus desejou: o resultado do trabalho de Pedro e dos outros, para que se pudesse ter uma “ceia”. O “Pão” precisava de seu “acompanhamento” par se tornar a grande refeição escatológica na qual estariam envolvidas as “153” espécies de peixes (o número corresponde à idéia que o lago de Genezaré tivesse 153 espécies de peixes diferentes). Deus não salva o homem sem o homem e o homem não se salva sem Deus. É uma simples regra que todos conhecemos e experimentamos. À igreja Jesus dava a incumbência de oferecer a possibilidade de um banquete escatológico a todos os “153 peixes”, ou seja à humanidade inteira, para a qual Jesus deu o Seu Pão, sua vida.

Permito-me demorar mais um pouco sobre o mais comovente diálogo que os Evangelhos transitem a respeito da admirável relação entre Jesus e Pedro; um diálogo que dispensa definitivamente qualquer pergunta quanto ao o porquê o Senhor entregou a Simão a sua Igreja.

A ceia-eucaristia, o pão e o peixe reúnem os apóstolos em torno de Jesus, mas somente isto não faz a Igreja; ela não é somente uma comunidade que decide de se reunir em torno de Jesus. Além do ato de se reunir de um grupo, existe um outro laço, próprio, uma relação única e específica do Senhor com Pedro. Ou seja, os dois juntos fazem da Igreja a comunidade de Jesus, tanto a dimensão colegial, quanto a dimensão do vínculo particular (como bem coloca a LG. 20). Esta relação específica de Jesus com Pedro é essencial para entender o que a Igreja é para Jesus; caso contrário corremos o risco de confundi-la com uma qualquer organização, boa, espiritual, mas puramente horizontal. Existe uma específica e única relação do Ressuscitado com Pedro e isto não nasce do desejo e das forças humanas. Para podermos melhor entender, gostaria de considerar as perguntas de Jesus ao apóstolo.

É evidente a relação das três perguntas com as três negações de Pedro; Jesus não estava lançando em seu rosto as negações nem sequer desejava humilhar aquele que sempre foi o primeiro a colocar-se ao Seu lado. Estamos diante do último gesto com o qual se dá brilho a uma pedra preciosa, é isto que Jesus faz para Pedro, o seu presente definitivo e específico.

A primeira: «Pedro, você me ama mais do que estes?». Obviamente Jesus não está se colocando em competição, não está exigindo comparações absurdas.... principalmente quando se trata de amor, afinal, pode ser quantificado o amor? O questionamento é sobre o que Pedro achava de seu amor para com o Senhor. Uma pessoa que se lança primeira, que extrai a espada para defender o Senhor no horto, que desce corajosamente de um barco durante uma tempestade, que lança as redes mesmo que a experiência lhe diga o contrário.... pois bem não é esta uma pessoa que demonstra amor? Amor mais do que tantos outros? É como se Jesus lhe perguntasse: “é assim que você sente o seu amor para comigo?”. Evidentemente Pedro não entendeu imediatamente e, com o ímpeto próprio de seu caráter respondeu algo que lhe parecia obvio, afinal – pensava - isto é o amor! Mas Jesus pediu ao Pescador que desse um passo adiante: retornou com a mesma pergunta dispensando a referência aos outros: «Pedro, você me ama?». A palavra usada possui uma longa história e, em qualquer caso seja usada, sempre pressupõe um amor que “impele” a outro sem fazer exigências. É em relação a este tipo de amor que Jesus lhe perguntava pela segunda vez.

Como se lhe dissesse: “Pedro, você é capaz de olhar para mim de modo absoluto, sem se importar com o que ou outros pensam?”. A resposta de Pedro foi clara, segura também quanto a esta sua disposição.

Mas é na terceira vez que Pedro compreende a amplidão das perguntas do  Senhor. Evidentemente Pedro associou, num momento, toda a sua história, toda a sua maneira de querer demonstrar amor e fidelidade a Jesus com as três negações, e isto só podia resultar num choro de arrependimento e de vergonha. Com demasiada certeza havia afirmado o que de fato era verdadeiro, esquecendo porém, a fragilidade e a incoerência que convivem perfeitamente no coração do homem. A este ponto Pedro remeteu qualquer julgamento sobre o seu amor a Jesus. Em seu último questionamento Jesus havia mudado a palavra, a qual significa amizade. Pois bem, este é o último pedido de Jesus: “pelo menos você será sempre meu amigo?”, “Não obstante teus erros e lágrimas, você está disposto sempre a aceitar a minha amizade?”.

É a pergunta que ainda hoje nos deixa o evangelista: “você está disposto a aceitar a minha amizade, não obstante tudo, em qualquer circunstância?”. É isto que faz da Igreja a comunidade de Jesus.

padre Carlo