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a) É preciso obedecer antes a Deus que aos homens Vimos no Domingo anterior que do lado de dentro da comunidade havia uma verdadeira fraternidade, paz e comunhão de vida, mas que do lado de fora havia os que rejeitavam a comunidade. O texto de hoje mostra a rejeição dos chefes do povo. Do mesmo jeito que mataram o autor da novidade cristã procuram matar também seus pregadores. Os discípulos são levados diante do Sinédrio (= tribunal judeu) porque não obedeceram à ordem de não ensinar em nome de Jesus. Além disso, eles revelam o projeto assassínio dos chefes dos judeus. Pedro e os outros apóstolos deixam um recado bem importante e claro: "É preciso obedecer antes a Deus que aos homens". b) Os diversos papéis diante de Jesus Temos aqui a contraposição da ação de Deus diante da ação dos homens. Qual é a ação dos homens: mataram Jesus com a morte de cruz. Qual é a ação de Deus: ele ressuscitou Jesus e o exaltou, tornando-o Chefe Supremo e Salvador. Qual é a finalidade dessa ação de Deus? É para dar ao povo oportunidade de se arrepender e receber o perdão dos pecados. Qual é a ação dos apóstolos e de nós hoje? Ser juntamente com o Espírito Santo testemunhas de tudo o que aconteceu com Jesus. a) Açoites e libertação Os vv. 40-41 mostram de novo, em primeiro lugar, o anti-projeto das instituições: "Chamaram os apóstolos, mandaram açoitá-los, proibiram que eles falassem no nome de Jesus e soltaram-nos." Querem intimidar os apóstolos, impedir o avanço da Palavra, mas isto é impossível. Em segundo lugar temos a reação dos discípulos. Reação possível apenas àqueles que estão imbuídos do projeto de Jesus, cheios do Espírito Santo e querem identificar-se com Jesus em sua vida e em seu martírio. De fato o v. 41 diz: "Os apóstolos saíram do Conselho, alegres por terem sido considerados dignos de injúrias por causa do santo Nome." Estamos arrependidos de nossos pecados e engajados no projeto de Jesus a tal ponto de suportarmos críticas, insultos e sofrimentos por causa de Jesus e seu projeto? 2º LEITURA - Ap. 5,11-14 a) Qual é o significado das liturgias ou cantos de louvor no Apocalipse? Como lembramos no Domingo passado o Apocalipse quer dar força e coragem, animar na perseverança e incentivar na luta diante das perseguições e agressões do Império perseguidor. Nesse sentido o Apocalipse de S. João apresenta em quase todas as suas páginas um canto de louvor, um canto de vitória de Jesus. As comunidades, mesmo em pleno sofrimento e luta e até enfrentando a morte com Jesus carregam a certeza da vitória e da glória com ele. É assim que o apocalipse reanima a esperança das comunidades perseguidas. b) O que temos no nosso texto No texto de hoje temos uma solene liturgia universal cantando a vitória de Jesus, sua realeza e sua divindade. Essa liturgia começa (vv. 9-12) e termina no céu (v. 14), mas o v. 13 mostra todo o universo, céus, terra e abismos cantando louvores ao Cordeiro imolado. c) Quem canta? O v. 11 cita uma multidão imensa de anjos, os quatro seres vivos e os vinte e quatro anciãos (cf. v. 8). E o v. 13 fala de todas as criaturas do céu, da terra, debaixo da terra e do mar, quer dizer, todos os seres vivos. a) E o que cantavam? Cantam um louvor ao Cordeiro imolado, ou seja, a Jesus morto e ressuscitado. Jesus se tornou o Senhor do universo inteiro. Então a ele e só a ele são feitas sete atribuições (o número sete deve lembrar a perfeição total). Quais são essas atribuições? São o poder, a riqueza, a sabedoria, a força, a honra, a glória e o louvor (v. 12). e) Quem é o Cordeiro imolado É interessante que o v. 13 mostra que a mesma honra, glória e poder que pertencem ao Pai, pertencem também ao Cordeiro para sempre. Quer dizer, Jesus é Deus. O v. 14 ainda confirma tudo com o Amém solene dos Quatro Seres Vivos e com a adoração dos 24 anciãos. f) Termos simbólicos Os 4 seres vivos: simbolizam os 4 anjos que governam o mundo físico, ou a força de Deus que governa e dirige toda a história. O número 4 simboliza a totalidade do mundo criado. Os 24 anciãos simbolizam os santos, ou representantes de Deus do Primeiro Testamento e do Segundo Testamento (12 tribos de Israel + 12 apóstolos), quer dizer, o antigo e o novo povo de Deus. EVANGELHO - Jo. 21,1-19 Vv. 1-14 - Só a presença de Jesus ajuda a superar a crise. Estamos num contexto eucarístico e de missão. A menção do mar de Tiberíades lembra a atividade missionária (pesca = pescadores de homens) no meio dos pagãos (o mar representa o campo de missão entre os gentios). A menção de sete discípulos indica a totalidade a partir do significado simbólico do número sete. A decisão de pescar pode indicar que os discípulos ainda não assumiram o compromisso definitivo com Jesus, pois estão retornando às suas atividades normais. De qualquer maneira se essa decisão é um fato real, esta noite de trabalho foi estéril. Se é um fato simbólico (atividade missionária dos pescadores de homens), a comunidade missionária está em verdadeira crise, pois naquela noite não pescaram nada. Mas é bom lembrar que "à noite" tem conotação negativa e está em contraste com o dia (cf. 9,4-5). Noite simboliza ausência de Jesus ou do Espírito. Sem ele que frutos daria a ação missionária (cf. 15,5)? "Dia" ou "amanhecer" já têm conotação positiva, alude à nova realidade inaugurada pela ressurreição. Mas no princípio os discípulos não estavam tão firmes na fé ("não sabiam que era Jesus"). Mas Jesus manda que eles joguem as redes do lado direito da barca e eles jogaram e aconteceu o milagre. Pegaram uma "multidão" de peixes. Isto indica a fecundidade missionária com a obediência à Palavra de Jesus e a fé na sua presença na caminhada da comunidade. Só o discípulo que Jesus amava reconhece que é Jesus. Hoje também só reconhecemos Jesus aqui ou ali através do amor. Pedro toma duas atitudes "veste a roupa" quer dizer predispõe-se ao serviço (cf. v. 7) e "pula dentro da água", quer dizer está disposto a enfrentar o risco. Na praia os discípulos percebem sinais de amor preparados por Jesus: peixes na brasa e pão. A quantidade de peixes (153 é a totalidade de espécies de peixes para o mundo antigo) significa que a atividade missionária vai atingir a todos os povos. Depois que Jesus convida os discípulos para a "Eucaristia" ninguém mais duvida de sua presença. Isto significa que na comunhão de vida com as pessoas reconhecemos facilmente a presença de Jesus. A pergunta: "Eras tu, Senhor?" vai desaparecendo na medida em que aprendemos a partilhar. Vv. 15-19 - O assunto aqui é a vocação do discípulo. Aqui o centro da atenção é Pedro. Podemos sinteticamente perceber que as condições para seguir Jesus se traduzem em comunhão profunda com Deus e solidariedade com as pessoas, ou seja, em duas palavras: amor-serviço. Jesus pede de Pedro e de cada um de nós um amor incondicional capaz de dar a própria vida como Jesus o fez (= estender as mãos para ser crucificado). Jesus só chama Pedro para o seguir depois que teve a certeza do seu amor incondicional. dom Emanuel Messias de Oliveira |
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É este Jesus vitorioso, que vem ao encontro dos seus às margens do mar da Galiléia; é este Senhor nosso que os apóstolos experimentam no evangelho de hoje. Cada detalhe deste texto de João é cheio de significado. Vejamos: os apóstolos pescam e nada conseguem apanhar... A pescaria é imagem da ação missionária da Igreja. Sem Jesus, estamos sozinhos, sem Jesus a pescaria é estéril, as tentativas são vãs... Sem Jesus, pescamos na noite escura... Mas, pela manhã, Jesus vem ao encontro dos seus. Notemos que os discípulos não conseguem reconhecer o Senhor ressuscitado. Somente quando Cristo se dá a conhecer é que os seus conseguem compreender e experimentar sua presença viva e atuante. E Jesus dá-se a conhecer sempre na Palavra e no Pão partido, na refeição em comum, isto é, na celebração eucarística. É aqui, é agora, nesta Eucaristia sagrada, que o Senhor nos fala e parte o Pão conosco. Toda celebração eucarística é celebração pascal, é encontro com o ressuscitado! Como seria bom que, a cada domingo, revivêssemos esta experiência, esta certeza da presença do Senhor vivo entre nós! Os discípulos ainda não haviam reconhecido Jesus. Este lhes ordenou: “Lançai a rede!” Eles lançaram-na e já “não conseguiam puxá-la para fora, por causa da quantidade de peixes”. Notem: o discípulo amado, diante do sinal, reconhece o Ressuscitado: “É o Senhor!” Mas, é Simão Pedro – sempre ele, o chefe do grupo, o chefe da comunidade dos discípulos, o que comanda a pescaria – faz-se ao mar, para encontrar Jesus. Jesus ordena que arrastem a rede para a terra. Notemos: o barco é um só, como uma só é a Igreja de Cristo; também a rede é uma só, como única é a obra da evangelização; e quem comanda a pescaria é Pedro, sob a ordem de Jesus! E a rede não se rompe, apesar de cheia de 150 peixes grandes. O número é exagerado, significando a plenitude da obra evangelizadora. E, então, Jesus repete, diante dos discípulos, os gestos da Eucaristia: “tomou o pão e distribuiu entre eles”. Depois, três vezes, o Ressuscitado pergunta a Pedro – e pergunta aos sucessores de Pedro, os bispos de Roma, pergunta a João Paulo II: “Simão, filho de João, tu me amas mais do que estes?” Pedro responde que sim, e abandona-se no Senhor: “Senhor, tu sabes tudo; tu sabes que te amo!” Senhor, antes coloquei minha confiança em minhas próprias forças, em meu próprio amor e terminei te traindo... Tu disseste que oravas por mim para que minha fé não desfalecesse, mas fui presunçoso, e contei mais com minhas forças que com tua oração... Mas, agora, te digo: “Tu sabes tudo; tu sabes que te amo”, apesar de minha fraqueza! É naquilo que tu sabes, que tu podes, que tu em mim realizas que te digo: te amo! - E três vezes, Jesus o incumbe, diante dos outros, de uma missão toda particular: “Apascenta as minhas ovelhas!” Que ninguém duvide – a menos que deseje fazer pouco da vontade do Senhor nosso – que Pedro é o primeiro pastor do rebanho de Cristo. O rebanho é de Cristo, o Bom Pastor, e Cristo o confiou a Pedro! Quem não está em comunhão com o sucessor de Pedro, certamente, age de modo contrário ao que Cristo desejou para a sua Igreja e para seus discípulos. Pouco adianta uma bíblia debaixo do braço, se contrariando a Palavra de Deus, se nega a presença real do Cristo na Eucaristia (cf. Jo 6,53-57), o papel materno de Maria Virgem junto a cada discípulo amado do Senhor (cf. Jo 19,25-27), a indissolubilidade do matrimônio (cf. Mc 10,1-12) , a sucessão apostólica e o papel de Pedro e seus sucessores na Igreja de Cristo (cf. Mt 16,13-20)! Estejamos atentos: não é a Pedro super-homem que o Senhor confia a sua Igreja; mas a Pedro frágil, a Pedro que o negou, a Pedro humilhado... a Pedro que pode servir até de pedra de tropeço (cf. Mt 16,23). Pedro é a pedra da Igreja, mas a rocha inabalável é somente Cristo! E Cristo o convida a segui-lo até o martírio, até levantar as mãos na cruz... Assim foi com Pedro, assim com os discípulos, assim, agora, conosco... Não tenhamos medo! É possível que muitas vezes nos sintamos sozinhos, desamparados, pescando numa pescaria estéril de noite escura... Coragem: o Senhor está conosco: é ele quem nos manda à pesca, é ele quem pode encher nossas redes e dá-lhes consistência para que não se rompam, é ele quem nos revela sua presença e nos enche de coragem! Recordemos dos nossos primórdios, da coragem dos santos apóstolos que se sentiam “contentes por terem sido considerados dignos de injúrias por causa do nome de Jesus”. É que eles sabiam por experiência que o Senhor estava vivo, que o Senhor caminhava com eles. Também nós, hoje, podemos escutá-lo nas Escrituras e reconhecê-lo entre nós no pão partido da Eucaristia. É este Jesus que nos envia à pesca, é este Jesus que caminhará sempre com sua Igreja, nossa Mãe católica, até o fim dos tempos! A ele a glória e o louvor, a adoração, a riqueza e a sabedoria, a força e a honra para sempre. Amém. dom Henrique Soares da Costa |
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Evangelho (Jo 21,1-19): Um tipo de morte que glorifica a Deus O texto narra outra aparição de Jesus e tem como tema principal a missão da Igreja sob a guia do Ressuscitado. O número sete significa perfeição ou totalidade. Aqui traduz a comunidade perfeita, a que se reúne em torno do banquete (vv. 9-13). Os protagonistas da cena, Pedro e o discípulo amado, são os mesmos que entraram no sepulcro vazio. Novamente, o discípulo amado reconhece o Senhor. É o amor que precede esse reconhecimento. Mas é Pedro, desta vez, que corre ao encontro do Senhor (v. 7). É também ele quem toma a iniciativa de pescar e de trazer para a praia a rede cheia de peixes (v. 11). Assim, entrelaçam-se o reconhecimento do Ressuscitado e o serviço missionário representado pela pesca. Sem esse reconhecimento, o trabalho é estéril (v. 3); somente com Cristo ele se torna fecundo (v. 7). Os 153 peixes grandes simbolizam o grandioso sucesso da missão e seu caráter universal. A Pedro é confiada a tarefa pastoral na Igreja (vv. 15-17). As três perguntas que Jesus lhe faz sobre se ele o ama correspondem às três negações do apóstolo. Pedro não ousa afirmar que ama o Senhor mais que os outros discípulos. Sua resposta é humilde, pois sabe de sua fraqueza e tem consciência de que sua tarefa é fundada na graça. Jesus pergunta a Pedro considerando sua disponibilidade, e é a partir daí que lhe é confiada a missão. No v. 18 Jesus apresenta a Pedro a total disponibilidade que o discípulo deve ter para o seguimento. Caminhar com Jesus é assumir também seu destino: o martírio. Dessa forma, o serviço que Pedro assume no pastoreio deve ser feito num total dom de si. Esse dom só é possível para aquele que ama, ainda que não o faça “mais que os outros”. Esse amor incondicional, que o próprio Cristo vivenciou, Pedro aprenderá em sua caminhada. Por enquanto, sua própria entrega foi o reflexo desse amor. 1º leitura (At 5,27b-32.40b-41): Dignos de sofrer pelo nome de Cristo Os apóstolos foram conduzidos ao sinédrio e o sumo sacerdote os acusou de desobedecerem à proibição de proclamar o nome de Jesus. Em nome da Lei divina, o sinédrio condenou Jesus, e a divulgação da ressurreição deste representava dura acusação contra o tribunal – pois, se Deus ressuscitou o condenado, isso significava que seus juízes eram culpados e este era inocente. Pedro respondeu que iria obedecer primeiramente a Deus e não a autoridades humanas. Mencionou ainda a assistência do Espírito Santo no encargo de testemunhar tanto a morte quanto a ressurreição de Jesus. O sinédrio, então, intimou os apóstolos a não falar mais no nome de Jesus. Mandou açoitá-los e soltá-los. A conduta deles após os açoites indica que ficaram felizes por terem sido achados dignos de sofrer por causa do nome de Jesus. As injúrias significavam que eles estavam, de fato, fazendo a vontade de Deus, caso contrário não teriam incomodado ninguém e suas palavras teriam sido bem-aceitas. 2º leitura (Ap 5,11-14): O Cordeiro é digno de louvor e adoração O capítulo 5 de Apocalipse tem como tema central Jesus Cristo redentor, glorioso e vencedor, que traz em suas mãos os destinos da história. João contempla um número incontável de seres que proclamam a dignidade do Cordeiro. Os sete títulos (poder, riqueza, sabedoria, força, honra, glória e louvor) indicam a plenitude da dignidade e da obra redentora de Cristo e a perfeita glorificação daquele que a realizou. Nos versículos 13 e 14, o cântico que começou no céu se estende por todos os âmbitos da criação, em exclamações de louvor unidas à liturgia celeste. PISTAS PARA REFLEXÃO Destacar as inúmeras dificuldades sofridas por quem está engajado na propagação do reino de Deus na terra. Animar as pessoas – que passam por diversos tipos de sofrimentos e tribulações – a se manter firmes, alicerçadas na fé em que o Cordeiro ressuscitado, vitorioso sobre a morte e o pecado, está presente na vida das comunidades. Aíla Luzia Pinheiro Andrade, nj |
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SOMOS TESTEMUNHAS DE QUE DEUS RESSUSCITOU JESUS! Este texto contém um dos seis discursos missionários dos apóstolos. Esses discursos têm em sua estrutura uma introdução, o anúncio do “kerigma” e um convite à conversão. Eles assumem uma dupla dimensão: a) Transmitir de forma esquemática o conteúdo da pregação dos apóstolos; b) Evidenciar que o anúncio do “kerigma” de Jesus morto e ressuscitado é exaltado por Deus e é o verdadeiro elemento propulsor do tempo depois de Jesus, isto é, da Igreja. Uma das linhas marcantes nos Atos é a perseguição. A pregação dos apóstolos é apresentada com duplo efeito: de uma parte há a acolhida da multidão e de outra a negação e a oposição da classe dominante. Nosso texto mostra a oposição à pregação dos apóstolos. No centro da oposição está a negação ao projeto de Deus realizado em Jesus. Os hebreus, embora muito religiosos, não conseguiram acolher a pessoa de Jesus e seu plano de salvação. Para eles, Jesus não caminhou plenamente segundo a lei de Moisés e as indicações da Sagrada Escritura. Portanto, em nome de Moisés e das Escrituras, os sacerdotes proibiram os apóstolos de difundir a mensagem de Jesus. Mas a pregação dos apóstolos consistiu justamente em anunciar que as Escrituras conduzem a Jesus e que a lei de Moisés encontra a sua plena realização no Evangelho de Jesus. Portanto, a pregação é necessária para anunciar a continuidade entre as Escrituras e o Evangelho de Jesus e para assegurar que as grandes promessas e as grandes expectativas da Bíblia se realizaram no dom de Jesus feito homem. É preciso, portanto, obedecer a este Deus que falou primeiro por meio dos profetas e definitivamente em Jesus. Obedecer aos homens significa interromper esta continuidade do agir de Deus. Significa acreditar num outro projeto de salvação que não é realizável. Portanto, o conteúdo da pregação evidencia o fato da ressurreição de Jesus, ao qual é preciso obedecer: “É preciso obedecer mais a Deus que aos homens foi um pequeno credo apostólico”. Para Lucas, o objetivo do seu ensinamento é claro: os cristãos coerentes passarão pelas mesmas dificuldades e provações que Jesus passou (prisão, tortura, morte...), em vista do testemunho que têm de dar. Os apóstolos são levados à presença das autoridades para serem julgados como Jesus, as quais usam as mesmas acusações do sistema opressor que matou Jesus (Mateus 27,25). De fato, a pregação dos apóstolos põe às claras as ações do sinédrio que, em vez de favorecer a vida, procuram a morte. Os apóstolos respondem às acusações buscando na vitória de Jesus sobre a morte o fundamento de suas convicções. Ele é o novo Moisés que inaugurou um novo Êxodo. Eles colocam o primado de Deus acima de tudo, acima de qualquer autoridade ou concessão humana. O texto se abre com o interrogatório de Pedro e João pelos sumos sacerdotes, os quais lembram a eles a proibição taxativa de não ensinarem em nome de Jesus (Atos dos Apóstolos 4,28). Responsabilizam-nos de terem enchido Jerusalém com suas doutrinas e de acusarem os judeus pela morte de Jesus. Os sumos sacerdotes se negam a pronunciar o nome de Jesus. Ao invés dizem ”aquele nome”, em sinal de desprezo e horror (Jesus escândalo para os judeus – 1Coríntios 1,23; Gálatas 5,11). A resposta de Pedro é categórica: contrapõe-se ao dever de obedecer aos homens, mesmo que estes sejam revestidos de autoridade (1Pedro 2,13s). Eles sentem o dever de proclamar Jesus, pois Deus ressuscitou com sua mão poderosa Jesus morto pelos judeus e o fez chefe e guia de um novo êxodo, ou seja, do caminho para Deus. O mais velho dos apóstolos, em vez de provocar conversão, suscita indignação e ira. Assim, os apóstolos são castigados e depois libertados com a proibição de pregar em nome de Jesus. Apocalipse: 5,11-14 A GLORIFICAÇÃO DO CORDEIRO IMOLADO O autor apresenta um quadro grandioso de todo o cosmos, entendendo que em todas as realidades materiais e espirituais existe um nível hierárquico. Este livro foi escrito para as comunidades perseguidas por causa do testemunho de Cristo. As comunidades sentiam-se incapazes de conhecer os acontecimentos e o sentido da história que vivia. Em vista disto, João mostra às comunidades que a ressurreição tem o poder de dar sentido à história, simbolizada pelos sete selos lacrados (segundo a mentalidade judaica, a vontade de Deus está como que fechada em um livro, que aberto manifestará o desígnio de salvação e amor para os homens - Daniel 10,21). A vitória de Jesus é celebrada numa solene liturgia universal que inicia no céu e ecoa por todo o mundo, concluindo-se no céu. Nosso texto explicita a segunda doxologia que é celebrada no céu por um número incontável de anjos que circundam o trono, os seres vivos e os anciãos. O trono simboliza a estabilidade de Deus e o seu projeto. Os seres vivos são símbolos do dinamismo que parte de Deus, repercutindo na história da humanidade, e volta para Deus. Os anciãos são figuras representativas do povo de Deus. Cada comunidade verá neles os irmãos que os precederam no testemunho. A doxologia atribui a Cristo morto e ressuscitado o poder, a riqueza, a sabedoria, a força, a honra, a glória e o louvor. São sete (número perfeito) atribuições. Aplicar esses atributos a Cristo, como se costumava fazer no Império Romano aos imperadores que eram adorados como deuses, era idolatria para as comunidades cristãs. Em resumo, o autor coloca uma “Doxologia angélica” nos versículos 11 e 12, onde são atribuídos a Cristo sete títulos de glória que indicam a totalidade dos tesouros divinos, aos quais Cristo teve acesso mediante a sua imolação. O versículo 13 faz menção a uma “Doxologia cósmica”, onde ao coro dos anjos se associam os seres animados e inanimados que habitam o mundo. Esse coro cósmico celebra os louvores do seu Criador e Senhor e do Cordeiro, que com sua glorificação deixou à humanidade e com ela a todo o universo a comunhão com Deus. O Cordeiro participa da glorificação de Deus no mesmo plano de igualdade. No versículo 14, o autor apresenta a conclusão, onde os quatro seres vivos exprimem com o termo litúrgico judaico e cristão Amém sua confirmação e ratificação solene da dupla doxologia. Os anciãos, com um gesto ritual de prostração adorante, confirmam tudo o que os seres vivos proclamam. É o reconhecimento de que Deus é plenamente fiel. O reconhecimento é acompanhado da prostração e adoração por parte dos anciãos. Este gesto é um convite às comunidades para adorarem somente a Deus. João 21,1-19 APARIÇÃO NA GALILEIA: APASCENTE AS MINHAS OVELHAS Este trecho é um epílogo acrescentado posteriormente pelo próprio autor ou por um discípulo. Busca dar resposta à crise de identidade da comunidade em plena missão. O contexto da perícope é eucarístico. É semelhante a João 6. Começa dizendo o modo como Jesus inicia sua missão, tendo como palco de ação o mar de Tiberíades, nome derivado da cidade que Tibério construiu. João se refere ao mar de Tiberíades e não da Galileia, para indicar que a missão dos discípulos é no meio dos gentios. Este capítulo é um epílogo acrescentado mais tarde, em resposta à crise de identidade da comunidade em missão. O contexto é de missão da comunidade. João chama o lago de Tiberíades, e não “mar da Galileia”. É intencional, para mostrar que a comunidade (os discípulos) está em plena atividade missionária (pesca) no meio dos gentios (representados pelo lago). O versículo 2 fala dos sete discípulos juntos. O número sete indica a totalidade das nações. Os sete vão pescar liderados por Pedro e têm uma noite infrutífera. Isto indica a crise da comunidade missionária (a pesca indica a ação missionária dos apóstolos). A noite é uma alusão à ausência de Jesus (João 9,4-5; 15,5). Mas como sair da crise? A resposta vem ao amanhecer. A palavra de Jesus ressuscitado muda a situação. Os apóstolos lançam as redes e apanham grande quantidade de peixes, numa alusão à comunidade que se torna extremamente fecunda. Identificada a crise da comunidade, Pedro cristaliza suas metas. Ele se veste, o que é uma alusão ao serviço, assim como Jesus pôs o avental para servir (João 13,4), e se joga no mar (disposição de enfrentar os riscos). Pedro fez isto sozinho, porque tinha o dever de se reconciliar com Cristo, a quem havia negado três vezes. Ao chegarem à praia vêem o amor de Jesus por eles: brasas, peixe e pão, e Jesus lhes pede algo do fruto do seu trabalho. É assim que se estabelece a união entre os homens e Deus. Plenamente reconciliado, Pedro sobe sozinho no barco e arrasta a rede. Esta força lhe veio da coragem de se atirar sozinho nas águas. A quantidade de peixes foi de 153. Segundo são Jerônimo, os zoólogos da época haviam classificado 153 espécies de peixes. O sentido então seria este: a ação da comunidade sob o comando de Jesus é capaz de reunir todos os povos, sem com isso sofrer cisma (a rede não se rompeu). Jesus toma a iniciativa e convida a comunidade para a Eucaristia. É a refeição na qual estão presentes todos os povos (153 peixes). A partir deste gesto sabem que é Jesus quem está ali. Neste trecho o amor é o centro das atenções. A condição para seguir Jesus é o amor incondicional, e isto trará conseqüências para a própria vida. Pedro teve que estender as mãos, gesto que os condenados tinham de fazer ao serem crucificados: eles abriam os braços para carregar a parte superior da cruz. “Deixar-se cingir” é uma alusão à corda atada aos que são conduzidos à morte. Nosso texto tem um sentido alegórico, segundo os Padres da Igreja. Jesus, depois da Páscoa, encontra-se na terra firme da eternidade, enquanto os discípulos se encontram diante das dificuldades e misérias no mar do mundo. Abandonados, eles não podem fazer nada, mas com Jesus pescam todos os homens que Deus destinou para a eternidade. Por isso, Jesus se doa como Deus Salvador, porque o peixe assado é o Cristo crucificado: “Piscis assus, Christus passus” (santo Agostinho). REFLEXÃO A liturgia da palavra diz que Jesus já não aparece num domingo, mas num dia comum da semana, dia de trabalho. Indica que a ação do cristão não deve ocorrer somente nas festas, mas todos os dias. A ação de Pedro, ao dizer: “vou pescar”, é um gesto que fazemos todos os dias de manhã: “Vou trabalhar”. Tomamos o ônibus ou vamos a pé, encontramos as pessoas... Enfrentamos problemas, dificuldades e indiferenças que nos colocam à prova e às vezes até pensamos que Jesus se afastou de nós. Porém a leitura nos mostra que Cristo não nos abandonou. Esta é a terceira manifestação de Jesus. Na primeira e na segunda, os discípulos estavam fechados no cenáculo. Nesta estão às margens do mar. O mar, com seus perigos, é o símbolo do mundo. Jesus se apresenta às margens deste mar. Sua presença é significativa e consoladora, porque ele traz alimentos: “Sem mim vocês nada podem fazer”. O Ressuscitado continua sendo o Emanuel, aquele que caminha ao nosso lado. Vimos que os discípulos descobriram sua verdadeira vocação missionária após a ressurreição. Por isso, pregam apesar das proibições do Sinédrio. Assim também nós devemos nos encorajar e proclamar o Evangelho, sem nos deixar abater pelas perseguições. A certeza da ressurreição ocorre para os apóstolos mediante a experiência do Espírito Santo. Eles haviam voltado à labuta da pesca, mas a aparição de Jesus no Tiberíades com a pesca, a partilha do pão e do peixe, o primado de Pedro e o convite para segui-lo lhes dá um novo alento. A presença de Jesus ressuscitado na Igreja lembra sua vocação missionária e assegura o sucesso e a condição de que o amor a ele é a mola mestre de toda ação. Apesar das dificuldades (os discípulos tiveram choques com as autoridades), o Reino faz caminho. João contempla o seu cumprimento final e escreve uma palavra de conforto aos irmãos desanimados na fé. Cristo é vencedor e vive na glória do Pai. A presença de Jesus ressuscitado é sempre motivo de alegria. As mulheres ouviram o anjo anunciar que Jesus havia ressuscitado e correram com grande alegria para dar a notícia (Mateus 28,8). Os dois discípulos de Emaús sentiram o coração arder enquanto caminhavam com Jesus ressuscitado (Lucas 24,32). Quando os discípulos estavam no Cenáculo, a aparição de Jesus foi motivo de tanta alegria que quase não acreditaram que Jesus estava ali em pessoa (Lucas 24,14). Depois da Ascensão, os discípulos voltaram a Jerusalém com grande alegria (Lucas 24,52). Também nós devemos provar esta alegria para renovar a juventude de nosso espírito, para sentir o dom da filiação divina, para nos sentir como cidadãos dos céus. Os discípulos deram testemunho de Jesus ressuscitado. Um dos grandes testemunhos que podemos dar de Jesus é nossa oração, pois infelizmente hoje se reza pouco e mal. “Nosso dia começa às 04h30 horas com a meditação, a oração e a missa. Depois vem o trabalho. E hoje assistimos mais de 200.000 pessoas. Às 18h30 horas temos uma hora de oração diante do Santíssimo. Pela manhã ele nos dá força para o dia e à tarde agradecemos o pouco de bem que fizemos” (Madre Teresa de Calcutá). “Se se reflete sobre a tríplice aparição de Jesus segundo a interpretação semita, existe a manifestação de um fato que fica fora de qualquer dúvida. Então, com a expressão terceira vez fica selada a última certeza sobre a fé na ressurreição de Cristo” (Laepple). padre José Antonio Bertolin, OSJ |
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Jesus ressuscitado se encontra com sete de seus discípulos nas margens do mar de Tiberíades, na Galileia. O relato nos é feito pelo quarto Evangelho. Na lista dos sete discípulos aparecem em primeiro lugar Pedro, Tomé e Natanael. Quando os evangelistas apresentam os nomes dos apóstolos, costumam colocar em primeiro lugar Pedro, Tiago e João. Aqui aparecem Pedro, Tomé e Natanael. Quando Jesus estava sendo interrogado na casa de Anás, sogro do sumo sacerdote Caifás, Pedro, que se encontrava do lado de fora, negou Jesus Cristo. Disse duas vezes que não era seu discípulo. Uma negação muito séria porque o importante é ser discípulo de Jesus. E Pedro disse que não era. O outro apóstolo, são Tomé, não acreditou que Jesus tivesse ressuscitado dos mortos. Ele só acreditaria se pudesse tocar nas chagas de Jesus. Natanael era um bom israelita, conhecia bem a Bíblia e esperava a chegada do Messias. Quando Filipe lhe comunicou que tinha encontrado o Messias, e que era Jesus, filho de José, de Nazaré, Natanael reagiu com força e disse que de Nazaré não podia sair coisa boa. Esses três encabeçam a lista dos que se encontraram com Jesus ressuscitado na beira do lago e comeram o peixe e o pão que Jesus tinha preparado. A cena continua com uma conversa particular de Jesus com Pedro, uma longa conversa. Estavam andando na praia e Jesus insistiu em saber de Pedro se este o amava, e até mais do que os outros. Com a resposta positiva, dada três vezes, Jesus o confirmou como Pastor de todo o rebanho, isto é, o condutor de todos os discípulos de Jesus no mundo inteiro. Pedro recebeu a função de apascentar os cordeiros e as ovelhas de Jesus porque o amava. Jesus deixou bem claro que na sua Igreja a condição para se ter alguma função é amar. Amar Jesus Cristo é a condição para se ter qualquer cargo na Igreja. Cargos que se obtêm de outra maneira não são legítimos. A conversa de Jesus e Pedro continua, e Pedro parece incomodado com o discípulo, aquele cujo nome não conhecemos e que é chamado de discípulo amado. Então, Jesus vai dizer a Pedro, que negou ser seu discípulo, que o importante é ser discípulo e seguir Jesus. A última palavra de Jesus a Pedro é: "Segue-me", e isso basta. O discípulo segue Jesus Cristo. Todos os discípulos seguem Jesus Cristo. Isto é o fundamental para todos. É isto que chamamos em teologia de sacerdócio comum dos fiéis. Todos somos igualmente participantes do único sacerdócio que é o de Cristo. Depois disso vem o sacerdócio ministerial, as funções, os cargos, os títulos, e tudo o que quisermos. O Novo Testamento evita a palavra "sacerdócio". Somente a carta aos Hebreus fala de Cristo como sumo sacerdote. O Novo Testamento prefere falar de seguimento, de discipulado. Tiago e João são os filhos de Zebedeu. Eles também estavam lá. O evangelista não menciona o nome dos dois irmãos; prefere dizer que são filhos de Zebedeu, seu pai, talvez porque o quarto Evangelho seja fruto da comunidade iniciada pelo apóstolo e evangelista são João. E há ainda dois outros, sem nome, para que você e eu possamos colocar o nosso nome entre os sete. cônego Celso Pedro Silva |
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rendei-lhe glória e louvor, aleluia!”. (cf. Sl. 65,1s). Estamos vivendo este momento maravilhoso do tempo da Páscoa. São cinqüenta dias em que damos glórias e louvores pelo Senhor Jesus que venceu a morte, saindo da mansão dos mortos, e ressuscitando para assentar-se à direita de Deus Pai para proporcionar aos homens pecadores a vida da graça, a vida da plenitude eterna. A primeira leitura (cf. At. 5,27b-32.40b-41) nos apresenta o Testemunho diante do sumo sacerdote, colocada como a segunda defesa de Pedro diante do Sinédrio. “Importa mais obedecer a Deus do que aos homens”. Trata-se de um resumo do querigma cristão: anúncio do ressuscitado como salvador, pela remissão do pecado, o que supõe a conversão. De fato, na história da Igreja, Pedro aparece como líder e porta-voz. É ele que, diante do Sinédrio, em nome dos outros apóstolos, dirige ao sumo sacerdote a atrevida palavra, que parece ter sido um “slogan” dos primeiros cristãos: “É preciso obedecer antes a Deus do que aos homens”(cf. At. 5,29) e pronuncia mais um testemunho da ressurreição de Cristo, que os chefes judaicos mataram. A liturgia de hoje tem duas vertentes que devem ser consideradas: o Cordeiro Glorioso e Pedro, pastor e porta-voz do rebanho. A origem destes temas parece diferente, mas sendo a liturgia uma interpretação eclesial dos temas bíblicos, vale a pena interpretar um tema pelo outro. Aparece, por conseguinte, que o Cordeiro do Apocalipse, ou seja, da segunda leitura, deve ser visto como o Cordeiro que guia o Rebanho. Não é um cordeirinho, mas um carneiro. Solidário com o rebanho, o conduz à vitória. A este Cordeiro vencedor são dados os atributos de Deus: honra, glória, poder e louvor. Mas todos os fiéis poderiam me perguntar: Por que Jesus é chamado o Cordeiro? A literatura do Apocalipse gosta de indicar pessoas e potências por figuras de animais. Além disso, Jesus foi logo considerado vítima expiatória e vítima pascal, como mostram o evangelho e a primeira carta de João, oriundos do mesmo ambiente que o Apocalipse. Como vítima expiatória, Jesus vence os poderes do pecado, representados, no Apocalipse, por feras. Portanto, o Cordeiro é um vencedor, não pelas armas, mas pela solidariedade com o rebanho, assumindo a morte por suas ovelhas. Todos nós somos convidados a acreditar e dar testemunho na ressurreição de Jesus. Não uma opção que seja meramente com provas históricas. Mais do que isso a ressurreição só pode ser entendida se vivenciada com absoluta convicção de que Jesus, o vencedor da morte, ressuscitou verdadeiramente. Aleluia! A ressurreição marca um novo começo da presença histórica de Jesus no mundo. Mas em condições diferentes do tempo de sua vida pública. Os Evangelhos e as Cartas chamam Jesus de “Senhor”. Diante dele, fala Paulo que: “dobre-se todo joelho de quantos há no céu, na terra e no inferno, e toda língua proclame que Jesus Cristo é o Senhor!”(cf. Fl. 2,10-11). A partir da ressurreição os discípulos passam a se considerarem “servos do Senhor Jesus”. Assim foi Tiago, foi Pedro, foi Paulo e continua sendo os sucessores de Pedro na Sua Cátedra. Assim tem sido o peregrino Bento XVI que lutando contra toda a esperança humana continua servo do Senhor Ressuscitado. Mas, realmente, o Evangelho de hoje é esplendoroso em significados. Ali estava à beira do Mar Tiberíades um pequeno grupo de discípulos de Jesus. Todos estavam desanimados e se colocaram a pescar. Não estavam preocupados com o anúncio da ressurreição de Jesus e com as coisas de Jesus. Para eles o importante era pescar e pensar em si mesmos. Uma atitude bem humana. De Pedro foi à iniciativa para a Pesca: Vou pescar. Mas, infelizmente, nada pegaram com suas redes. A pesca de que fala o Evangelho é muito superior: vamos pescar homens e mulheres para o Reino de Deus. Pescar é o iniciar a missão e a atividade apostólica que foi legada por Jesus a seus discípulos. O fracasso da pesca de Pedro e dos companheiros, embora excelentes conhecedores do mar e dos peixes, não é apenas a conclusão de uma pesca sem êxito, mas a tradução concreta do que Jesus dissera na Última Ceia: “Sem mim nada podeis” (cf. Jo. 15,5). Ressurreição, tempo novo de Deus para a humanidade e, particularmente, para a comunidade que acreditou que Jesus verdadeiramente ressuscitou para lavar nossos pecados. Com Cristo, por Cristo e em Cristo Jesus nos ensina o caminho a ser trilhado para dilatar o Reino de Deus e para sermos fiel ao mandato e a missão de evangelizadores que todos, batizados, indistintamente, são convidados a se empenharem. No Evangelho deste domingo (cf. Jo 21,1-19 ou 1-14) apresenta a aparição do ressuscitado e a vocação de Pedro a guiar o rebanho que lhe confiado pelo Senhor. A Mãe Igreja aparece como barco de Pedro e como pesca milagrosa(cf. Jo 21,1-14), mas somente pela palavra do Senhor Ressuscitado! Em Jo 21,15-19, utilizando a imagem do rebanho São Pedro é instituído Pastor do Rebanho que é o de Cristo. Pedro, e não o discípulo amigo por excelência. Por três vezes – quantas vezes o negou – Pedro tem que confirmar sua afeição ao Senhor, porque a vocação é sempre graça de Deus, de quem chama para o serviço generoso do seguimento de Cristo. Jesus acentua na sua conversa com Pedro a dimensão do Seu Seguimento. O discípulo não irá à frente do Mestre. Não é próprio do discípulo inventar novidades. Ao discípulo verdadeiro cabe ir atrás do Mestre, pondo os pés nas marcas de seus pés. De tal maneira que, quem vir as pegadas, veja só as de Cristo, que são também nossas, ou as nossas que se identificam com as de Cristo. Não quero realizar os meus desejos. Tenho que realizar a vontade que Cristo tem para a minha vida. E todos os desejos de Cristo, expressos em seus ensinamentos e em sua vida, trazem sempre um gosto pascal de morte/ressurreição. Assim o desapego. Assim o amor gratuito. Assim o acolhimento, o serviço, a compreensão, o perdão, a misericórdia, a acolhida, a vida de comunidade, o cotidiano de nossa vida que sempre deve ser Páscoa e santidade de vida e de estado. A praia, cenário onde Jesus dá de comer pão e peixe, nos relembra a instituição da Eucaristia, a abundância das graças que os discípulos passam a ser dispensadores. Assim, as celebrações eucarísticas são força de unidade e refazimento do mistério da Encarnação e da Redenção de Jesus. Até hoje, como agora, a comunidade reúne-se e cresce em torno da refeição eucarística. É nela que “anunciamos sua morte e proclamamos a sua ressurreição!” É na Eucaristia que conseguimos o destino eterno. A segunda leitura (cf. Ap. 5,11-14) nos ensina que devemos honrar e dar a glória, o louvor e o poder ao Cordeiro de Deus. Como por uma porta, o visionário entrevê os mistérios de Deus: o Cordeiro imolado recebe os atributos do poder decisivo e escatológico. As criaturas que o adoram estão na luz de sua glória: esta é a sua salvação. Jesus Cristo é o Senhor. Esse é o resumo de nossa fé no Filho de Deus, que morreu e ressuscitou para reinar, para ser a cabeça de todos os poderes, para mandar ou permitir o que quiser. Os cristãos fazem esta profissão de fé: “Creio num só Senhor, Jesus Cristo!”. Na história da Igreja, Pedro aparece como líder e porta-voz. É ele que, diante do Sinédrio, em nome dos outros apóstolos, dirige ao sumo sacerdote a atrevida palavra, que parece ter sido um slogan dos primeiros cristãos: “É preciso obedecer antes a Deus do que aos homens” (cf. At. 5,29), e pronuncia mais um testemunho da ressurreição de Cristo, que os chefes judeus mataram, conforme nos ensinou a primeira leitura. Como o Cordeiro, por solidariedade e amor, deu a sua vida em prol do rebanho, assim também o Pastor que recebe seu encargo por seu amor não deixará de dar a sua vida em prol de seu rebanho. Peçamos, pois, com fé, que possamos viver como cristãos a palavra do Redentor e Salvador. Esta palavra é instancia suprema de nossas vidas. O Senhor ressurgiu e continua a ressuscitar ainda hoje. Ele ressuscita de modo especial na missa. A verdade central da ressurreição de Cristo aí é comemorada e se torna realidade. Vivamos, pois, com fé, esta realidade e peçamos ao Senhor que nos mantenha sempre firmes em seu seguimento. Aleluia! padre Wagner Augusto Portugal |
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Lançai as redes? No conjunto das manifestações de Jesus aos discípulos, ouvimos a terceira aparição, agora, não em Jerusalém, mas na Galiléia, num contexto de pesca. São 7 discípulos, significando toda a comunidade. Por que estão na Galiléia? Voltaram à vida que levavam, como pescadores? Esta pesca, como a outra que é narrada em Lucas (5,4-10), é infrutífera... Eles não reconhecem Jesus que pede peixe. Respondem que não pegaram nada. Manda que lancem as redes à direita. Direita não tem conotação política, se bem que, em diversos textos, indique o lado direito como símbolo da boa sorte e do bem estar. Pegaram 153 grandes peixes que é o número, segundo os zoólogos gregos da antiguidade, das espécies de peixe e simbolizam que o evangelho está presente nas 153 nações conhecidas no tempo. Esta é uma das explicações. O anúncio da Ressurreição vai a todos os cantos. João, vendo o milagre, diz: "É o Senhor". Pedro se lança nas águas. Assim que desceram à terra, viram umas brasas, e um peixe colocado sobre elas e pão" (Jo 21,9). Qual é o simbolismo? Não usa os peixes que foram pescados, mas Ele dá o pão e o peixe. Lembremos o textos: "É meu Pai quem vos dá o verdadeiro pão do céu" (Jo 6,32). As muitas nações que acolhem o dom da fé, recebem-no do Cristo Ressuscitado e não do discípulo que dá o testemunho. Depois da Ressurreição, os discípulos não reconhecem Cristo no primeiro momento, pois conhecimento não se faz pelos sentidos, mas pela via da fé. A força do apóstolo Podemos notar no Evangelho que existe uma euforia quanto ao resultado da pregação dos discípulos. Imaginemos bem quem eram os apóstolos. Quando são levados ao tribunal, os chefes do povo se espantam com sua firmeza, verificando que eram iletrados e homens do povo (At 4,13). Em pouco tempo os cristãos estão por toda parte. Um autor diz: "Somos de ontem e estamos em todo o mundo". A palavra de João é clara: "É o Senhor!" (Jo 21,7). Os apóstolos são sempre persistentes. A força está em obedecer mais a Deus que aos homens (At 4,29). O mundo quer calar a boca da verdade do Evangelho. Mas a força de Cristo é superior. O discípulo não fala por si. Lança as redes em nome dEle. Jesus já afirmara: "Sem mim nada podeis fazer" (Jo 15,5). A Igreja lança as redes para a pesca e o faz em nome de Jesus, isto é, na pessoa de Jesus. Ele é a força da evangelização. Obra do amor A evangelização só é possível se parte de uma opção de amor, mesmo que seja frágil. Jesus pergunta a Pedro se O ama com amor divino (ágape), Pedro responde que ama com amor humano (filia - Isto é mais claro no texto em grego). É com a força da fragilidade que o apóstolo recebe a ordem de guardar o rebanho (Jo 21,15). Jesus pergunta três vezes se O ama. É a reabilitação de Pedro em suas três negações. Cristo ama sempre com amor divino, em totalidade. Conduzir as ovelhas a Cristo, conduz com amor. Na tristeza que sente diz: "Senhor, tu sabes tudo, sabes também que Te amo" (17). Onde está Cristo presente hoje, vivo, ressuscitado? Aquele que amamos está glorioso com o Pai. Cristo é o centro do Universo e a Ele devemos a adoração com todo o universo. Dependemos dEle em tudo o que somos e fazemos. Sem isso a fé é muleta e não nos modifica. Evangelização e governo da Igreja é uma obra de amor. Na celebração dizemos com Pedro. Tu sabes que te amo. 1. A terceira manifestação de Jesus se dá num contexto de pesca, símbolo da pregação da Igreja. Sem terem pescado nada durante toda a noite, Jesus, da praia manda que joguem a rede à direita. Pescam 153 peixes, numero da espécie de peixes e das nações do mundo. A fé fora bem anunciada. 2. Há uma alegria pelo resultado da pregação dos discípulos. Os apóstolos eram gente simples e conseguem tal resultado. Reconhecem que é a presença do Senhor. A força de Cristo é superior ao mundo que quer abafar a verdade. O discípulo não fala por si. Lança as redes em nome dEle. 3. A evangelização só é frutuosa se parte de uma opção de amor, mesmo frágil. Jesus faz três perguntas sobre o amor de Pedro. Pedro sempre responde que ele é frágil. É reabilitação de suas três negações. Nós amamos o Cristo glorioso com o Pai. A Ele devemos a adoração com todo o Universo. Declaração de amor A obra de Cristo continua no amor. Só levaremos em frente a missão de Jesus, se o amarmos com amor total, amor divino, como diz Jesus. Em português não vemos a diferença, mas na língua original o grego, Jesus pergunta se Pedro o ama com amor de Deus. Pedro diz que responde que é com amor frágil, humano. Jesus aceita, mas mostra que ele vai conduzir as ovelhas, o povo de Deus, mesmo na fragilidade. A pesca significa a missão. Pescaram 153 grandes peixes, lembrando os 153 paises conhecidos no mundo de então. O discípulo sofre o mesmo sofrimento de Jesus em sua paixão. Sofrer por ele dói, mas dá alegria, pois é a prova de que estamos com ele. Os apóstolos Pedro e João dão o testemunho claro: "É preciso obedecer a Deus antes que aos homens". Eles têm um vigor que admira as autoridades. Quem está unido a Jesus tem o mesmo vigor. Eles têm consciência que Jesus glorificado é o Senhor do mundo. Têm as costas quentes. Católicos no mundo: 2007 e 2008, assinala o anuário, os católicos no mundo passaram de 1,147 bilhões para 1,166 bilhões, com um aumento de 19 milhões de fiéis, quer dizer, 1,7 por cento. padre Luiz Carlos de Oliveira |
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Este relato da aparição de Jesus a seus discípulos, após a Ressurreição, à beira do lago de Tiberíades, destaca que a comunhão de Jesus com seus discípulos continua depois da Páscoa. O colóquio com Pedro deixa entrever que esta comunhão continua sendo sinal do seguimento do Senhor. Com efeito, ele diz ao apóstolo: "... quando fores velho, estenderas as mãos e outro te cingirá e te conduzirá aonde não queres" (Jo 21,18). 0 evangelista, que escreve depois da morte do apóstolo, comenta: "Jesus disse isso para indicar com que espécie de morte Pedro daria glória a Deus". Tendo falado assim, Jesus acrescentou: "Segue-me" (21,19). Eis, portanto, a fórmula decisiva com a qual Jesus acostumava chamar ao discipulado aqueles que Ele escolhia. Mas, aqui, para Pedro se trata de seguir Jesus no caminho do martírio ("estenderás as mãos A tradição relata, de fato, que também Pedro foi crucificado. A passagem significa também a reabilitação de Pedro mediante o encontro com o Ressuscitado, depois da tríplice negação do Apóstolo, Mas não se trata só de mostrar que Jesus perdoou a Pedro; a cena comporta ainda dois da" dos importantes para a história deste apóstolos: o encargo do ministério pastoral e sua morte no seguimento de Jesus. Pela bondade e poder absoluto, o Ressuscitado confere livremente ao discipulo uma missão de destaque, já contando mesmo com sua falha. Reafirma a profecia de sua morte, mas agora com uma distinção: o discipulo que renunciou a seu orgulho e obstinação, pode e deve segui-lo. O Ressuscitado não só reabilita Pedro, como também faz dele um outro homem, constituído em uma função e seguimento pessoal. Deste modo, a cena de Pedro em Jo 21 revela o novo horizonte que a páscoa cristã criou e cria. As três perguntas de Jesus: "Simão tu me amas?, estão intimamente relacionadas às três negações. Na terceira resposta de Pedro o "tu sabes" e reforçado com o "tu sabes tudo..." A enfase clara indica que Pedro renuncia por completo à sua certeza pessoal e, humildemente, lança sua confiança só no Senhor. Ao repetir por três vezes a pergunta: "Simão tu me amas?", Jesus não está duvidando de Pedro, mas como Mestre único e verdadeiro, continua a ensinar ao discipulo que o seguimento e constante retomada e que o "Sim, eu te amo" nunca é dado de uma vez para sempre, mas que deve ser dado cada vez de novo. A tristeza de Pedro não e simplesmente vergonha e pesar pelas próprias faltas passadas e pela dúvida que Jesus parece exprimir com a repetida pergunta. E que ele agora sabe o significam do do seguimento e, por isso, já não dispara mais respostas emotivas e imaturas de quem põe sua confiança em si mesmo, O seu pesar e o recolhimento recatado e reverente do discipulo que aprendeu o "peso" do seguimento e, com os pés no chão, so sabe apelar ao conhecimento do coração que Jesus tem, Ele que tudo sabe. O repetido "Tu" ressalta o seu lançar-se confiante em Jesus. 0 tríplice mandato do Senhor: "Apascenta os meus cordeiros!" está indicando que o seguimento tem que ser uma contínua resposta porque a vocação também e um continuo chamado. "más" respostas de Pedro jamais anularam o chamado que o Senhor um dia lhe dirigiu enquanto pescava às margens do lago da Galiléia. O "Vém e segue-me" daquele dia não é um ato pontual no passado, mas continuou a ecoar ao longo da existência de Pedro independentemente de suas respostas boas ou mas. Aliás, no seguimento nunca existe uma resposta suficientemente boa, pois o dom do chamado transcende sempre nossa capacidade de acolhê-lo. frei Aloísio de Oliveira, OFM conv. |
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Ligados a ela os cristãos dão testemunho da ressurreição através de uma experiência vital. A vida das pessoas na comunidade passou por uma verdadeira revolução: da total ignorância e incapacidade para compreender Jesus a uma mudança radical. Agora ninguém teme dar testemunho de Jesus vivo e de afirmar que o seu projeto de vida continua na comunidade. Com uma valentia incrível, aqueles que haviam fugido abandonando o Mestre em sua prisão, reforçam agora que vão continuar pregando porque é “preciso obedecer antes a Deus que aos homens”. Esta situação se repetirá inúmeras vezes na história da Igreja, quando a autenticidade da mensagem entra em conflito com os interesses opostos. Jesus se apresenta aos apóstolos junto ao lago de Tiberíades, em meio às atividades comuns da vida às quais estavam acostumados. Haviam sido chamados por Jesus para serem pescadores de homens, mas depois do suposto fracasso do Mestre, estavam voltando ao seu oficio de sempre. Nesse ambiente familiar é que Jesus se apresenta. E aí que Deus lhes manifesta seu poder e sua glória, através do símbolo da pesca e do alimento. O ressuscitado os convida a jogar a rede e fazem uma pesca milagrosa. A rede é símbolo da Igreja e da pesca de diferentes pessoas e povos que os seguidores de Jesus deveriam fazer depois desse encontro, ao retomarem o rumo que haviam perdido. O discípulo, a quem o Senhor mais amava, o reconhece no milagre da abundancia de peixes, e Pedro se sente um nada diante daquele que lhe encomendou uma tarefa específica, mas que deixou de cumprir. O capítulo 21 do quarto evangelho foi agregado posteriormente. É claro que Jo 20,30-31 era a conclusão original. E é interessante que o capítulo 21 esteja centrado na figura de Pedro. Em todo o evangelho, os grandes protagonistas haviam sido “o discípulo amado”, os discípulos em geral e especialmente as discípulas, e entre elas a mãe de Jesus e Maria Madalena. A figura de Pedro tem relevo secundário: mais ainda, aparece sempre contraposta e subordinada a do “discípulo amado”. Para João o mais importante é ser discípulo ou discípula. Agora, no capítulo 21, Pedro se afirma como pastor a partir da inquietante e tríplice pergunta de Jesus ressuscitado: “Simão, tu me amas?... Apascente minhas ovelhas”. Pedro é reconhecido como pastor porque agora cumpre a condição de bom discípulo. Durante a Paixão negou três vezes ser discípulo de Jesus. Agora o Senhor lhe pede uma tríplice confissão de seu sincero amor como discípulos. Antes de ser hierárquica, a Igreja é uma comunidade de discípulos. Na tradição dos evangelhos sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas) é uma igreja fundada e dirigida por 12 apóstolos, chamados também os Doze discípulos. O capítulo 21 de João expressa a harmonização de duas tradições: Pedro é reconhecido como pastor, porém sob a condição de que aceite sua definição fundamental como discípulo. Uma vez reconhecido como pastor, Jesus anuncia o tipo de morte com que glorificaria a Deus: sua crucifixão em Roma. Depois, o Senhor o chama formalmente para ser seu discípulo, dizendo-lhe “segue-me”. www.claretianos.com.br |
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A primeira leitura apresenta-nos o testemunho que a comunidade de Jerusalém dá de Jesus ressuscitado. Embora o mundo se oponha ao projeto libertador de Jesus testemunhado pelos discípulos, o cristão deve antes obedecer a Deus do que aos homens. A segunda leitura apresenta Jesus, o “cordeiro” imolado que venceu a morte e que trouxe aos homens a libertação definitiva; em contexto litúrgico, o autor põe a criação inteira a manifestar diante do “cordeiro” vitorioso a sua alegria e o seu louvor. O Evangelho apresenta os discípulos em missão, continuando o projeto libertador de Jesus; mas avisa que a ação dos discípulos só será coroada de êxito se eles souberem reconhecer o Ressuscitado junto deles e se deixarem guiar pela sua Palavra. 1º LEITURA – Atos 5,27b-32.40b-41 - AMBIENTEEntre 2,1 e 8,3, o livro dos Atos apresenta o testemunho da Igreja de Jerusalém acerca de Jesus. Os comentadores costumam chamar aos capítulos 3-5 a “secção do nome”, pois eles incidem no anúncio do “nome” de Jesus (cf. At. 3,6.16;4,7.10.12.30;5,28.41), isto é, do próprio Jesus (o “nome” era uma apelação com que os judeus designavam o próprio Deus; designar Jesus dessa forma equivalia a dizer que Ele era “o Senhor”). Esse anúncio, feito em condições de extrema dificuldade (por causa da oposição dos líderes judeus), é, sobretudo, obra dos apóstolos. No texto que nos é proposto, apresenta-se o testemunho de Pedro e dos outros apóstolos acerca de Jesus. Presos e miraculosamente libertados (cf. At. 5,17-19), os apóstolos voltaram ao Templo para dar testemunho de Cristo ressuscitado (cf. At. 5,20-25). De novo presos, conduzidos à presença da suprema autoridade religiosa da nação (o sinédrio) e formalmente proibidos de dar testemunho de Jesus, os apóstolos responderam apresentando um resumo do kerigma primitivo. 2º LEITURA – Ap 5,11-14 - AMBIENTEA segunda parte do livro do Apocalipse (cap. 4-22) apresenta-nos aquilo que poderíamos chamar “uma leitura profética da história”: o autor vai apresentar a história humana numa perspectiva de esperança, demonstrando aos cristãos perseguidos pelo império que não há nada a temer pois a vitória final será de Deus e dos que se mantiverem fiéis aos projetos de Deus. O texto que nos é proposto faz parte da visão inicial, onde o “profeta” João nos apresenta as personagens centrais que vão intervir na história humana: Deus, transcendente e onipotente, sentado no seu trono, rodeado pelo Povo de Deus e por toda a criação (cf. Ap 4,1-11); depois, o “livro” onde, simbolicamente, está o desígnio de Deus acerca da humanidade (cf. Ap 5,1-4); finalmente, é-nos apresentado “o cordeiro” (Jesus), aquele que detém a totalidade do poder (“sete cornos”) e do conhecimento (“sete olhos”); só ele é digno de ler o livro (ou seja, de revelar, de proclamar, de concretizar para os homens o projecto divino de salvação). EVANGELHO – Jo 21,1-19 - AMBIENTEO último capítulo do Evangelho segundo João não faz parte da obra original (a obra original terminava com a conclusão de 20,30-31); é um texto acrescentado posteriormente, que apresenta diferenças de linguagem, de estilo e mesmo de teologia, em relação aos outros vinte capítulos. A sua origem não é clara; no entanto, a existência de alguns traços literários tipicamente joânicos poderia fazer-nos pensar num complemento redigido pelos discípulos do evangelista. Neste capítulo, já não se referem notícias sobre a vida, a morte ou a ressurreição de Jesus. Os protagonistas são, agora, um grupo de discípulos, dedicados à atividade missionária. O autor descreve a relação que esta “comunidade em missão” tem com Jesus, reflete sobre o lugar de Jesus na atividade missionária da Igreja e assinala quais as condições para que a missão dê frutos. À ESCUTA DA PALAVRA Este relato da última manifestação de Jesus ressuscitado aos seus apóstolos une três elementos: uma pesca milagrosa, uma refeição, a “investidura” de Pedro como pastor das ovelhas de Cristo. Este último capítulo do Evangelho de João é importante, porque nos faz voltar para o tempo da Igreja. Este relato da pesca milagrosa está mesmo no final do Evangelho, como que a dizer que as palavras de Jesus a Pedro, no texto de Lc. 5,10, vão realizar-se agora: sem medo, doravante será pescador de homens. E no final do Evangelho de Mateus, Jesus diz para irem a todas as nações e fazer discípulos. No simbolismo dos 153 peixes, João quer dizer que é à totalidade das nações que os apóstolos são enviados. O tempo da missão apostólica começa. A refeição reenvia à refeição eucarística, mesmo se não há vinho. Mas não se faz sempre menção ao vinho. Os discípulos de Emaús reconhecem Jesus apenas na fração do pão. Os primeiros cristãos chamavam à Eucaristia a “fração do pão”. Mas Jesus oferece peixe. Sabemos que este se tornou bem cedo o símbolo de Cristo. Em grego, as primeiras letras da expressão “Jesus, Filho de Deus, Salvador” formam a palavra “peixe” (“ichtus”). Desde então, oferecendo-lhes peixe, Jesus ressuscitado diz aos discípulos que é verdadeiramente com Ele, o Filho de Deus, o único Salvador de todos os homens, que estarão doravante em comunhão, cada vez que partirem o pão eucarístico. Enfim, Jesus sabia bem que a comunidade dos discípulos reunidos à sua volta deveria ter, depois da sua partida, um ponto visível de ligação, de autentificação. É a missão que Jesus confia a Pedro de ser o servidor e o garante da unidade da sua Igreja, de ser o pastor das suas ovelhas, a Ele, o Cristo. E este serviço só pode ser vivido no máximo amor. Pedro é escolhido, ele que negou três vezes o seu Mestre, para mostrar que, através de todas as fraquezas humanas dos pastores que se sucederão ao longo da história da Igreja, é Jesus que os guiará, o garante na fidelidade no nome do Pai. www.presbiteros.com.br |
Testemunhas da RessurreiçãoFaz parte da nossa identidade cristã ter a certeza de que Cristo Ressuscitado está no meio de nós. Na primeira leitura (At. 5,27-41) vemos Pedro e os apóstolos diante do sinédrio, o inimigo que levou Jesus à morte. Foram proibidos de falar em nome de Jesus. Porém, fortalecidos pelo Espírito Santo, não temem e não recuam. Responderam: “É preciso obedecer a Deus, antes que aos homens” (At. 29). Pedro repete novamente, com toda a franqueza, o anúncio da Ressurreição: “O Deus de nossos pais ressuscitou Jesus, a quem vós matastes pregando-O na Cruz” (At. 5,30). Acaba de sair da prisão com outros apóstolos, sabe que poderá ter que enfrentar piores dificuldades; mas não tem medo porque colocou já toda a sua confiança no Ressuscitado e compreendeu que tem de segui-Lo nas tribulações. Afirma Pedro: “Nós somos testemunhas destes fatos, nós é o Espírito Santo, que Deus concedeu àqueles que lhe obedecem” (At. 5,3). Aí enfrentam riscos, porém transformam os riscos em realidades a serem submetidas à flagelação, mas tudo suportam com alegria “porque foram considerados dignos de injúrias, por causa do nome de Jesus” (At. 5,41). É este o testemunho que Jesus espera de cada um dos cristãos, um testemunho livre de respeitos humanos e também do medo aos riscos e perigos. A fé intrépida dos crentes convence o mundo, mais do que qualquer outra apologia. No evangelho (Jo 21,1-19) temos a aparição de Jesus Ressuscitado às margens do mar de Tiberíades. Lá está um grupo de apóstolos, por iniciativa de Pedro, vai pescar, mas nada apanham naquela noite. Ao amanhecer, Jesus encontra-se de pé na praia, sem que os discípulos o reconheçam. Jesus lhes pergunta se têm algo para comer. Não tendo, Jesus lhes disse: “Lançai a rede à direita do barco e achareis”. Sem reconhecê-lo, os discípulos lançam a rede e acontece aquela pesca maravilhosa: Então, é João, o discípulo amado quem reconhece Jesus: “É o Senhor!” O relato descreve uma cena íntima do Senhor com os seus: “Passa ao lado dos seus apóstolos, junto daquelas almas que se lhe entregaram… E eles não se dão conta disso! Quantas vezes está Cristo, não perto de nós, mas dentro de nós, e temos uma vida tão humana! Recordam o que tinham ouvido tantas vezes dos lábios do Mestre: pescadores de homens!… E compreendem que tudo é possível, porque é Ele quem dirige a pesca. “Então aquele discípulo que Jesus amava disse a Pedro: “É o Senhor!” O amor vê. E de longe. O amor é o primeiro a captar aquela delicadeza. O apóstolo adolescente com o firme carinho que sentia por Jesus, pois amava Cristo com toda a pureza e toda a ternura de um coração que nunca se corrompera, exclamou: É o Senhor! Simão Pedro, mal ouviu dizer que era o Senhor, cingiu a túnica e lançou-se ao mar. Pedro é a fé. E lança-se ao mar, com uma audácia maravilhosa. Com o amor de João e a fé de Pedro, aonde podemos nós chegar!?”(são Josemaria Escrivá, Amigos de Deus, nº 265-266). No relato que mostra a aparição de Jesus fica refletida a profunda impressão que deve ter causado aos Apóstolos e a recordação íntima que dela guardava são João. Jesus manifesta depois da Ressurreição a mesma delicadeza que antes sempre teve durante a sua vida pública. Usa os meios materiais (brasas, peixes…), que põem em realce o realismo da sua presença e continuam a dar o tom familiar costumado na convivência com os discípulos. Os santos Padres e doutores da Igreja comentaram este episódio, em sentido místico: a barca é a Igreja cuja unidade está simbolizada pela rede que não se rompe; o mar é o mundo; Pedro na barca simboliza a suprema autoridade na Igreja; o número de peixes significa o número dos apóstolos escolhidos. Jesus Cristo tinha prometido a Pedro o primado da Igreja (cf. Mt. 16,16-19). Apesar das três negações do apóstolo durante a Paixão, confere-lhe agora o primado prometido. “Pedro tu me amas?” Três vezes Jesus perguntou, por três vezes Pedro responde: “Senhor, tu sabes que te amo” A entrega do primado a Pedro foi direta e imediata. O primado é uma graça que é conferida a Pedro e aos seus sucessores, os papas; é um dos elementos fundacionais da Igreja para guardar e proteger a sua unidade. Podemos, depois de dois mil anos, afirmar: ontem Pedro, hoje Bento XVI! São Pedro seguiu o seu mestre até morrer crucificado, de cabeça para baixo. Pedro e Paulo sofreram o martírio em Roma durante a perseguição de Nero aos cristãos, por volta dos anos 64 e 68. Jesus termina dizendo: “Segue-me”. Esta palavra evocaria no apóstolo o seu primeiro chamamento (cf. Mt. 4,19) e as condições de entrega absoluta que o Senhor impões aos seus discípulos: “ Se alguém quer vir após Mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz cada dia, e siga-Me” (Lc. 9,23). O próprio Pedro deixa-nos o testemunho de que a exigência da cruz é necessária para todo o cristão: “Pois para isto fostes chamados, já que também Cristo padeceu por vós, dando-vos exemplo, para que sigais os seus passos” (1 Pd. 2,21). mons. José Maria Pereira |
É o Senhor!Aquele discípulo que Jesus amava percebeu e disse: “É o Senhor!” (Jô. 21,7). Além dessa vez, a palavra “Senhor” aparece cinco vezes mais no Evangelho de hoje. Esta palavra nos lembra do nome de Deus no Antigo Testamento. O livro do Êxodo nos relata que Deus apareceu a Moisés e lhe disse: “Eu sou aquele que sou” (Ex. 3,14). Deus é! Poucos capítulos depois aparece consignado num mandamento o respeito que se deve ter pelo nome de Deus: “não pronunciarás o nome de Javé, teu Deus, em prova de falsidade, porque o Senhor não deixa impune aquele que pronuncia o seu nome em favor do erro” (Ex. 20,7). A tradição judaica, numa mescla de respeito e escrúpulo, deixou de pronunciar o santo tetagrama, YHWH, e utilizou “Adonai”, Senhor. Na Sagrada Escritura, Senhor é, por tanto, sinônimo de Deus, do seu nome. Fica claro, por outro lado, que a revelação de Ex. 3,14 indica a transcendência de Deus já que “Aquele que é” nos diz algo do que é Deus, permanecendo, porém, no mais além. Deus é! Ao contrário, a criatura não é! Apresenta-se assim à nossa inteligência cristã uma doutrina básica, uma distinção de primeira ordem: Deus é, a criatura não é. Deus é tudo, nós não somos nada! Deus é criador, nós somos criaturas e, por tanto, a nossa existência depende totalmente dele. É muito sadio saber quem somos, dessa maneira não iremos por aí vangloriando-nos, cheios de soberba e vaidade. É verdade: nós não somos! Somente depois, num segundo momento podemos afirmar: e o que somos vem de Deus! A nossa dependência de Deus é tal que se por algum momento ele deixasse de pensar em nós e de nos amar, deixaríamos de existir imediatamente. Isso é muito importante: Deus não me ama porque eu sou bom, mas eu sou bom e eu posso ser melhor porque Deus me ama, a minha existência e tudo o que eu tenho depende radicalmente do amor de Deus. Aquele que permanece no mais além se fez presente no mais aquém. Ele é o Senhor! São João o reconheceu e avisou a Pedro. Depois dessa afirmação, a atitude dos discípulos vai mudando: Pedro se oculta, os discípulos se calam e não ousam perguntar nada a Jesus, ao mesmo tempo a confiança deles no Senhor vai aumentando. Quando nós tivermos mais consciência do senhorio de Deus nas nossas vidas, quando reconhecermos a transcendência de Deus, quando percebermos que ele nos ama com amor eterno, a nossa atitude também será outra. A força do Ressuscitado está se manifestando durante esses dias na Igreja. É uma realidade! Observe um pouco ao seu redor e verá na vida dos seus irmãos as maravilhas da graça. Mas, é verdade, para ver essas coisas, é preciso amar a Deus. Você percebeu que somente são João, esse discípulo apaixonado por Deus, percebeu que era o Senhor? Como não reconhecer a Deus nas encruzilhadas da nossa vida se nós o amamos? Como não viver em sua presença se tudo o que existe nos fala dele? Meu Deus do céu, como ainda somos cegos! Vivemos frequentemente como se Deus não existisse. Estou pensando em tantos cristãos que muitas vezes atuam como se Deus não os visse, como se Deus não se importasse com eles, como se pudessem fugir da sua face adorável. É o Senhor! Nós o temos também, e principalmente, no sacramento da Eucaristia. Jesus é Deus, o Criador, o Senhor. Quando os sacerdotes e os leigos perceberem de verdade que é o Senhor, muita coisa mudará: as nossas celebrações eucarísticas estarão repletas desse sentimento de presença de Deus, de transcendência de Deus, e da sua proximidade amorosa. Quando isso acontecer, as paróquias serão lugares de adoração de Jesus na Eucaristia, de silencio, de respeito. Quando percebermos de verdade que Jesus está presente na eucaristia verdadeiramente, realmente e substancialmente com o seu Corpo, Sangue, Alma e Divindade, participaremos da santa missa e da Adoração eucarística cuidando também dos detalhes do culto católico, não por escrúpulo, mas por amor: não teremos problema nenhum em adornar dignamente as nossas igrejas, em dourar ou pratear os cálices utilizados na celebração eucarística, em dar ao Senhor um sacrário fisicamente digno dele, em comportar-nos com a “urbanidade da piedade” sabendo que somos filhos amados de Deus e que, por tanto, podemos aproximar-nos com confiança do trono da graça. É o Senhor! padre Françoá Rodrigues Figueiredo Costa |
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No domingo passado, nós vimos como Jesus fez Tomé crescer na fé. Hoje nós vemos como Jesus faz o grupo dos discípulos (em especial Pedro) crescer na fé e no amor por Ele. Jesus se manifesta aos apóstolos no lago de Tiberíades, e, depois da pesca milagrosa, tem um belo e profundo diálogo com Pedro. Nós vamos falar sobre a aparência (aparição) de Jesus, embora o termo comumente usado não expresse o verdadeiro significado profundo do evento, pois, na realidade, o que chamamos de "aparência" na língua grega do Novo Testamento é um “fazer-se ver”, um encontro entre pessoas, do qual nasce um reconhecimento, um diálogo, um compromisso; e para que isso aconteça, é necessária a luz da fé, ou seja, não basta a luz da nossa inteligência limitada. Por isso, diante desta dificuldade, é muito oportuno que cada um antes de tudo peça ao Espírito Santo a luz da fé para reconhecer o Cristo Ressuscitado, o Cristo vivo e presente hoje, o mesmo daquele tempo quando os fatos ocorreram e que o evangelista narra. A dificuldade realmente existiu visto que nem as mulheres nem os discípulos de Emaús e nem mesmo os discípulos que aparecem no texto de hoje puderam reconhecer o Cristo Senhor, a não ser a partir do momento em que ele mostrou "sinais" que iluminaram a mente e o coração deles. João começa o relato dizendo que: "Jesus apareceu de novo aos discípulos, à beira do mar de Tiberíades (segundo o texto de João, esta é a terceira aparição aos discípulos)..."; o texto cita, um por um, os discípulos que voltaram ao seu trabalho habitual, isto é, de pescadores; voltaram ao trabalho duro, insidioso e muitas vezes ingrato, como novamente o texto mostra: não pescaram nada naquela noite, e assim retornam à margem. Já tinha amanhecido, e de pé na margem do lago, estava Jesus, mas não puderam reconhecê-lo; na verdade, Jesus apareceu exatamente para iluminar suas mente com os sinais que traziam à memória as experiências que já tinham vivido com o Mestre, o mesmo Jesus Cristo, que agora tornava a se encontrar com eles, depois de ter vencido a morte a fim de que eles o reconhecessem. E eis o primeiro sinal: uma pesca prodigiosa; aquele desconhecido que estava à beira do mar pede algo para comer, mas os apóstolos voltando de uma pesca inútil, não tinham nada em suas mãos; assim, Jesus os convida a lançar de novo as redes: "Lançai a rede à direita da barca e achareis... lançaram e não conseguiam puxá-la para fora por causa da grande quantidade de peixes”. Nesse momento um deles se lembrou de ter já vivido aquela experiência e reconheceu que aquele desconhecido se tratava do Mestre; era o discípulo amado, João, iluminado pela fé e a força do amor, e não há outra maneira de encontrar o Cristo Ressuscitado, a não ser através da fé e do amor, um caminho em que parece João correr por primeiro, enquanto Pedro parece vir um pouco mais tarde, embora na realidade, seja a intuição profunda, de quem ama, seja a disponibilidade e a generosidade do serviço, típico de Pedro, são características de quem quer ser discípulo de Cristo. Há no Evangelho de hoje um outro grande sinal, com o qual Jesus, mais do que fazer-se reconhecer, faz-se encontro, faz-se dom aos seus, lá mesmo em Tiberíades, e é aquele convite a comer algo juntos: "Vinde comer”. Diz a eles e assim repete um dos gestos mais simbólicos e grandes de toda a sua vida terrena: o serviço durantes as refeições e o pão partido no qual oferece o seu corpo em resgate por todos. À beira do mar, aquele gesto de distribuir o peixe assado na brasa com o pão, se torna silenciosa, viva memória da multiplicação dos pães; mais, se torna um memorial da Última Ceia, na qual o Filho de Deus, já perto da morte, cumpre um gesto de amor extremo, um sinal da sua dedicação total, que é sua verdadeira identidade, a identidade de um Deus que é Dom, e se fez homem para doar a si mesmo. Os sinais com os quais Jesus Ressuscitado se encontra com os discípulos de modo que estes o reconheçam, são como raios de luz que iluminam e reforçam nossa fé, através de sinais que fortalecem o amor, que por várias razões também pode desaparecer, mas que Cristo espera sempre dos seus, porque a eles ele confiou a missão de evangelizar o mundo, de modo que a salvação chegue a todos os homens. E nessa continuação, surge então aquele bonito, forte, sugestivo diálogo com Pedro, que conclui o Evangelho deste domingo. Depois de comerem, Jesus perguntou a Simão Pedro: "Simão, filho de João, tu me amas mais do que a estes?". Pedro respondeu: "Sim, Senhor, tu sabes que eu quero bem a você” (tradução correta). Disse: "Apascenta os meus cordeiros." Jesus repetiu essa pergunta três vezes, ele certamente conhecia a generosidade de Pedro e seu amor pelo Mestre, mas ele também sabia da fragilidade e, agora, a lealdade de um pescador a quem tinha confiado a sua Igreja, transformado-o em um pescador de homens. Cristo insiste na pergunta: "Simão, filho de João, tu me amas?", e Simão, certamente ficava pensando na angústia da noite em que havia negado o Senhor, antes do galo cantar três vezes. Negou por medo, mas agora, o encontro com o Senhor Ressuscitado, muda tudo, agora Cristo o transforma e confia-lhe todos os seus irmãos, todos eles veem a luz do mundo e que um homem escolhido por Deus e investido no mesmo ministério de Pedro, confirmará a fé de todos nós a caminho da salvação. Na verdade, tudo gira em torno das três perguntas de Jesus. Na tradução correta dos verbos gregos usados, Jesus primeiramente pergunta se Pedro é capaz de AMÁ-LO, dar a vida por ele, o que Pedro já tinha prometido antes de negá-lo. Mas Pedro responde dizendo que quer bem ao Senhor, não usa o verbo amar, usa o verbo de querer bem, de que Jesus é importante para ele. Na segunda vez, Jesus tira “o mais que a estes”. Pedro responde da mesma forma. Já na terceira vez, Jesus pergunta se Pedro pelo menos lhe quer bem. De fato, o amor de Pedro é sincero e verdadeiro. Pedro fica triste porque se dá conta de que seu amor por mais sincero que seja, não corresponde ao que Jesus pede. Por isso, ele diz: Senhor, tu sabes tudo. Tu sabes que há pouco tempo, eu fracassei no meu amor por ti. Por isso, Jesus diz: segue-me. Caminhe atrás de mim e não na minha frente como quiseste fazer querendo mudar o plano de Deus. Sou eu quem indica a estrada. E Jesus ainda dá um exemplo: quando somos imaturos, jovens, achamos que temos a razão de tudo e que vamos mudar o mundo, somos nós que decidimos como “nos vestimos e pomos o cíngulo na cintura”, mas quando somos velhos, maduros, crescidos no modo de amar, deixaremos de nos cingir a veste, ou seja, amar com um modo de amar que não é o nosso. Um modo de amar que vem de outro e que nos levará aonde não queremos ir. Como de fato, Pedro que pensava não poder realizar este tipo de amor, conseguiu passar de uma consciência de um amor imaturo para um amor maduro, pra onde Cristo os quis levar a ponto de dar a sua vida por Cristo no martírio. Por isso, olhemos fixos para Cristo Ressuscitado, e com Pedro, reafirmemos o nosso amor – doação até o fim, pois o amor é realmente um dom inesgotável de si mesmo.
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O desafio de amar e de ser amado O Evangelho deste domingo pascal (Jo 21,1-19) dá um estrelato especial a dois atores: o Discípulo Amado e Simão Pedro. Em torno destas duas figuras centrais no IV Evangelho, a comunidade do Discípulo amado que produziu este evangelho lega como herança original as duas veias do amor: o ato de aceitar ser amado e o ato de amar. O Discípulo Amado encabeça a herança de ser amado, pelo próprio nome. O evangelho não diz as razões de ser assim. Diz apenas os momentos que fixou como revelação da condição de amado: na ceia, ao recostar a cabeça ao lado do Senhor (Jo 13,25), ao pé da cruz quando a Mãe de Jesus lhe é entregue aos cuidados (Jo 19,26-27), ou quando testemunha o traspassamento do lado de Jesus já morto pela lança do soldado (Jo 19,34-35) ou corre primeiro ao sepulcro avisado por Maria Madalena (Jo 20,4) e finalmente quando reconhece por primeiro o Senhor à beira do mar de Tiberíades (Jo 21,7). Em todas estas ocasiões revela-se uma relação de muita liberdade própria de quem se sente seguro no amor de alguém: - põe-se do lado, - expõe-se em momento dramático de solidariedade, - abraça a herança representada pela mãe de Jesus, - testemunha a vida que brota do Crucificado, - corre mais rápido que Pedro ao anúncio de Madalena, - identifica o Senhor na madrugada. São momentos de muito relevo na revelação de Jesus aos seus discípulos e discípulas. Só a herança da comunidade do Discípulo Amado oferece estas cenas. Reflete uma caminhada amadurecida na fé e na compreensão do amor. Por sua vez, Simão Pedro aparece como reiniciando o seu processo de seguimento interrompido pelo drama da morte, quando Jesus lhe diz: Segue-me (Jo 21,19). Um processo penoso que inclui uma tríplice declaração pública de amor a Jesus, correspondente à negação pública três vezes repetida. Se o IV Evangelho concluísse no cap. 20, a imagem de Simão Pedro não teria sido das melhores. Agora, no entanto, sua figura já bastante conhecida nas Igrejas é resgatada por um ato de misericórdia e de perdão do Ressuscitado, pondo-o definitivamente à frente da sua Igreja. Uma leitura atenta de 21,15-17 leva a crer que Pedro não ousou responder à altura do que Jesus lhe perguntava sobre se o amava. O grego usa dois verbos semelhantes e de força desigual. Enquanto Jesus pergunta duas vezes usando o verbo agapein, Simão responde com o verbo philein. É como se Jesus perguntasse se amava, e Simão Pedro respondesse que gostava. E Jesus adapta-se ao estágio de Pedro, na última pergunta, perguntando a Pedro com o mesmo verbo de sua resposta. Como se dissesse, tá bom, Pedro, se você gosta de mim, cuide do meu povo. Uma sutileza do redator que revela a profundidade de sua experiência no permanecer com o Senhor, tema constante do IV Evangelho. Pedro sai engrandecido com o ministério. O Evangelho termina com um estreito laço de interesse entre os dois figurantes: Pedro diz a Jesus, tendo se voltado e visto o Discípulo que Jesus amava: e este, Senhor? (Jo 21,20). E o discípulo já não ia à frente de Pedro, como por ocasião da visita ao túmulo, mas o seguia atrás. Uma significativa mudança de posição sem ser uma troca de papéis, mas uma definição entre carisma e poder, para usar um chavão de hoje em dia. Esta liturgia do 3º domingo da Páscoa poderia ser definida como um pôr à prova o testemunho de duas tendências complementares na maneira de viver a fé. Em ambas, o pólo decisivo do amor. Pouco de sentimento envolvente, como a experiência do amor humano deixado a si mesmo. O que se prova e se testemunha aqui é a solidez de uma experiência que vai de perda em perda até o amadurecimento do amor que é o maior ganho. Assim considera a comunidade do Discípulo Amado ao transmitir-nos esta herança pascal. A nós, herdeiros e herdeiras de tal experiência exposta no IV Evangelho por quem a viveu, cabe acolhê-la no mesmo espírito com que foi escrita e tentarmos uma superação de relações confinadas em margens estreitas demais em que prevalece o jurídico como norma, na nossa vida comunitária, nas nossas relações eclesiais de carisma e hierarquia, buscando positivamente, no mesmo ímpeto dos primeiros irmãos e irmãs, a prática de Jesus vivo entre nós como nas origens da nossa fé (I leitura: At 5,27b-32.40b-41), tendo como prioridade o amor-serviço. O Discípulo Amado e Simão Pedro nos representam no Evangelho e nos apontam a direção certa a tomar, cada qual no seu papel. João Batista Magalhães Sales |
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A leitura que hoje a liturgia nos oferece para a reflexão faz parte de um escrito posterior ao Evangelista, provavelmente anexado por um grupo de discípulos do próprio João. È um trecho que tem como pano de fundo uma comunidade que já compreendeu e aceitou o mistério da morte e ressurreição de Jesus e buscava descobrir sempre mais claramente a sua fisionomia. A intenção é mais meditativa do que narrativa. Tudo se desenvolve em dois pólos, a pesca e a relação entre Jesus Ressuscitado e Pedro. A riqueza deste texto é imensa por isso poderemos pousar a atenção somente sobre alguns aspectos importantes para a nossa fé. Antes de tudo é preciso ter diante dos olhos a motivação das aparições de Jesus após a Páscoa. Já o vimos em outras ocasiões mas, creio, não seja inconveniente recordar que as aparições não têm caráter demonstrativo, isto é, não visam confirmar, provar a “divindade de Jesus”, isto já era claro e compreensível a quem estivesse com um mínimo de abertura. O problema era maior: uma vez que Jesus havia prometido de permanecer para sempre com os seus, “como” se daria esta presença? Qual seria a relação entre o Senhor ressuscitado, que vive numa outra dimensão e a comunidade cristã que ainda vive na dimensão do tempo? Trata-se de uma série de aparições nas quais Jesus visava educar os fiéis à nova maneira de Ele estar presente e agindo na e com a sua comunidade. Obviamente percebemos o rico simbolismo que perpassa cada alínea do texto. Tudo nos fala de atos e histórias de Jesus, sentimentos, reações dos discípulos etc. Enfim, num episódio está concentrada toda a história do passado entre Jesus e os seus e, contemporaneamente, a identidade da nova comunidade de fé. Vejamos como acompanhar a leitura do texto, dentro de nossas condições. A narração é ambientada ao norte da Palestina, longe dos fatos que se deram em Jerusalém, aliás, quase não parece existir alguma relação com eles. A expressão «depois disso» é puramente redacional, para ligar o texto como resto do Evangelho, mas sem alguma intenção continuativa. Estamos diante de uma comunidade de fé que já se desligou do vínculo com o judaísmo; os fatos de Jerusalém fazem parte da história, mas não condicionam mais a nova comunidade nascida da morte e Ressurreição de Jesus. Esta se afastou da Judéia justamente para reencontrar a própria identidade, a própria característica longe da influência legalista e ritual do judaísmo. A nova comunidade não poderia mais reger-se nos mesmos princípios que sustentavam o judaísmo. Era um momento muito delicado, o momento de buscar a própria identidade, o que não significa renegar o que se é, mas sim buscar no passado os elementos que permitem se projetar para o futuro numa equilibrada continuidade. Assim, como o “bom escriba” que «tira do tesouro de seu coração coisas novas e coisas antigas» (cfr. Mt. 13,52). O primeiro encontro dos apóstolos com o Ressuscitado, em Jerusalém, se deu em lugar fechado. Símbolo de uma comunidade atemorizada e fragilizada pela grandeza do evento e pelo medo do mundo exterior. Mas o outro encontro com Jesus se deu em outro lugar, aberto, no mundo que já era familiar aos Apóstolos. Pedro e ou outros tinham voltado ao seu lugar de origem, a Galiléia. Quando os eventos nos sacodem de tal forma que tudo parece ter perdido o sentido, quando a violência esmagadora da irracionalidade parece tomar contas de todo o nosso ser, é absolutamente necessário que dirijamos a nós mesmos aquela série de perguntas que não existem quando as coisas “dão certo”: quem sou eu? Porque estou aqui? Que sentido tem o meu agir? É preciso saber voltar à origem para lembrarmo-nos quem somos. Sempre, só se pode dar um passo adiante voltando ao essencial, à primeira motivação que nos fez sair do nosso mundo. Desde as primeiras alíneas da narração temos uma clara indicação de como o Senhor deseja a sua Igreja: os Apóstolos voltaram às suas atividades quotidianas, ao seu dia-dia. Isto significa que a Igreja de Jesus não se abstrai do mundo dos homens e de suas labutas quotidianas, não é “outra coisa” à qual recorrer em determinados momentos, quando, por exemplo, sentimos a necessidade de algo espiritual. Não é um depósito de sentimentos aos quais podemos atingir quando precisamos. A Igreja é um estilo de vida vivido em pessoas verdadeiras, um modo de viver que se confunde com o mundo enquanto este vive a sua vida. A Igreja é o pescador que faz o que sempre fez, mas em tudo isto se encontra com algo que é qualitativamente diferente. Diversamente da narração das outras aparições de Jesus, desta vez o Autor não usa o termo “aparição”, mas sim “manifestação” (). O significado é bem outro: a aparição pressupõe algo que vem de fora, a manifestação é tornar evidente algo que já existe dentro. Pois bem, o evangelista, assim fazendo, conduz o leitor a contemplar a profunda realidade que dá identidade à Igreja: nós somos o lugar onde, em qualquer circunstância, independentemente do nosso afazer e dos nossos sentimentos, o Ressuscitado escolheu estar presente, para o mundo. O respeito e a consideração que temos, por exemplo, com uma igreja, uma capela, um sacrário, porque não deveríamos tê-los também para os próprios membros da comunidade de fé? Não é esta o lugar privilegiado da presença do Ressuscitado? É nisto que consiste a maravilha que, mais tarde, Paulo chamará «mistério da nossa fé: Cristo em nós» (Col. 1,27). Assim, com esta palavra nova, o evangelista define para sempre a identidade da nova comunidade de fé: a sua diferença não será pelo culto mais ou menos divergente daquele judeu, - a igreja não é uma religião diferente pelo tipo de liturgia - nem pelas atividades fora do comum, como empresas árduas, chamativas, dignas de alta consideração, ela é diferente, única e exclusivamente porque portadora da única presença do Cristo Ressuscitado. Era este mistério que Jesus estava prestes a entregar a Pedro. Mas vejamos os outros passos necessários para tanto. Como por um re-início da história o grande mistério é preparado simbolicamente. Três anos antes, uma pesca milagrosa foi a resposta de Jesus à fé de Pedro: «por causa da tua palavra lançarei as redes». Uma pesca, abundante, transbordante (Lc. 5,4ss). Agora se verificava de novo um fato semelhante, mais uma pesca milagrosa, mas desta vez serviria a Pedro a à comunidade de fé para indicar como esta poderia agir, qual seria a sua função no grande projeto de salvação. A indicação nos é dada no v. 5 quando Jesus perguntou: «vocês não têm alguma coisa para acompanhar o pão?». Jesus estava oferecendo o seu “pão”, como lugar onde reconhecer sempre a sua presença, como bem intuiu «o discípulo que Jesus amava». Mas, à Sua doação, seria necessário ainda algo para alcançar o resultado que Deus desejou: o resultado do trabalho de Pedro e dos outros, para que se pudesse ter uma “ceia”. O “Pão” precisava de seu “acompanhamento” par se tornar a grande refeição escatológica na qual estariam envolvidas as “153” espécies de peixes (o número corresponde à idéia que o lago de Genezaré tivesse 153 espécies de peixes diferentes). Deus não salva o homem sem o homem e o homem não se salva sem Deus. É uma simples regra que todos conhecemos e experimentamos. À igreja Jesus dava a incumbência de oferecer a possibilidade de um banquete escatológico a todos os “153 peixes”, ou seja à humanidade inteira, para a qual Jesus deu o Seu Pão, sua vida. Permito-me demorar mais um pouco sobre o mais comovente diálogo que os Evangelhos transitem a respeito da admirável relação entre Jesus e Pedro; um diálogo que dispensa definitivamente qualquer pergunta quanto ao o porquê o Senhor entregou a Simão a sua Igreja. A ceia-eucaristia, o pão e o peixe reúnem os apóstolos em torno de Jesus, mas somente isto não faz a Igreja; ela não é somente uma comunidade que decide de se reunir em torno de Jesus. Além do ato de se reunir de um grupo, existe um outro laço, próprio, uma relação única e específica do Senhor com Pedro. Ou seja, os dois juntos fazem da Igreja a comunidade de Jesus, tanto a dimensão colegial, quanto a dimensão do vínculo particular (como bem coloca a LG. 20). Esta relação específica de Jesus com Pedro é essencial para entender o que a Igreja é para Jesus; caso contrário corremos o risco de confundi-la com uma qualquer organização, boa, espiritual, mas puramente horizontal. Existe uma específica e única relação do Ressuscitado com Pedro e isto não nasce do desejo e das forças humanas. Para podermos melhor entender, gostaria de considerar as perguntas de Jesus ao apóstolo. É evidente a relação das três perguntas com as três negações de Pedro; Jesus não estava lançando em seu rosto as negações nem sequer desejava humilhar aquele que sempre foi o primeiro a colocar-se ao Seu lado. Estamos diante do último gesto com o qual se dá brilho a uma pedra preciosa, é isto que Jesus faz para Pedro, o seu presente definitivo e específico. A primeira: «Pedro, você me ama mais do que estes?». Obviamente Jesus não está se colocando em competição, não está exigindo comparações absurdas.... principalmente quando se trata de amor, afinal, pode ser quantificado o amor? O questionamento é sobre o que Pedro achava de seu amor para com o Senhor. Uma pessoa que se lança primeira, que extrai a espada para defender o Senhor no horto, que desce corajosamente de um barco durante uma tempestade, que lança as redes mesmo que a experiência lhe diga o contrário.... pois bem não é esta uma pessoa que demonstra amor? Amor mais do que tantos outros? É como se Jesus lhe perguntasse: “é assim que você sente o seu amor para comigo?”. Evidentemente Pedro não entendeu imediatamente e, com o ímpeto próprio de seu caráter respondeu algo que lhe parecia obvio, afinal – pensava - isto é o amor! Mas Jesus pediu ao Pescador que desse um passo adiante: retornou com a mesma pergunta dispensando a referência aos outros: «Pedro, você me ama?». A palavra usada possui uma longa história e, em qualquer caso seja usada, sempre pressupõe um amor que “impele” a outro sem fazer exigências. É em relação a este tipo de amor que Jesus lhe perguntava pela segunda vez. Como se lhe dissesse: “Pedro, você é capaz de olhar para mim de modo absoluto, sem se importar com o que ou outros pensam?”. A resposta de Pedro foi clara, segura também quanto a esta sua disposição. Mas é na terceira vez que Pedro compreende a amplidão das perguntas do Senhor. Evidentemente Pedro associou, num momento, toda a sua história, toda a sua maneira de querer demonstrar amor e fidelidade a Jesus com as três negações, e isto só podia resultar num choro de arrependimento e de vergonha. Com demasiada certeza havia afirmado o que de fato era verdadeiro, esquecendo porém, a fragilidade e a incoerência que convivem perfeitamente no coração do homem. A este ponto Pedro remeteu qualquer julgamento sobre o seu amor a Jesus. Em seu último questionamento Jesus havia mudado a palavra, a qual significa amizade. Pois bem, este é o último pedido de Jesus: “pelo menos você será sempre meu amigo?”, “Não obstante teus erros e lágrimas, você está disposto sempre a aceitar a minha amizade?”. É a pergunta que ainda hoje nos deixa o evangelista: “você está disposto a aceitar a minha amizade, não obstante tudo, em qualquer circunstância?”. É isto que faz da Igreja a comunidade de Jesus. padre Carlo |