3º DOMINGO DO TEMPO COMUM

ano C

 

A homilia de Jesus na sinagoga de Nazaré, primeiro ato da sua “vida pública” no Evangelho segundo Lucas, está resumida em três palavras: “Hoje a Palavra se realiza”. A Bíblia não é um museu nem um repertório de antiguidades. Ela fala hoje e deve realizar-se hoje.

Na leitura pública da Lei de Deus após a volta do exílio, o povo fica atento desde a manhã até o meio-dia; por fim todos se põem a chorar, pois entenderam que o que foi lido falava de sua vida, de sua história e do momento que viviam.

A Bíblia é escrita não para dar informações frias e objetivas ou para deixar documentos para museu ou para arqueólogos, e sim para formar segundo a justiça (2 Tm 3,16). Seu objetivo não é satisfazer a curiosidade dos historiadores, mas reforçar a fé e a prática dos discípulos. Existe para hoje, não para o passado. É como a eucaristia, que faz memória, se realiza e provoca.

1º leitura (Ne. 8,2 - 4a.5-6.8 - 10)

O texto narra uma leitura pública da Lei de Deus. O povo voltou do cativeiro e a vida recomeça na terra de Judá. Novo começo exige renovação da aliança e, portanto, uma leitura solene e oficial da Lei do Senhor.

O povo todo se reúne como uma só pessoa. Mesmo os que não tinham sido levados para o exílio ou seus filhos, todos se consideram repatriados, em busca de – à luz da palavra de Deus – retomar a vida na terra que Deus lhes dera.

O leitor é o sacerdote e escriba Esdras. A experiência do exílio, longe do templo, então destruído, fez que a palavra de Deus se tornasse mais importante do que o culto. A leitura é solene e há tradução ou explicação para todos os que falavam o aramaico e já não entendiam tão bem o hebraico.

Ao final, o povo chora. O que foi lido falou de sua vida, dos últimos acontecimentos, de seus erros, de seus sofrimentos e das novas esperanças que agora eles viviam; tudo estava ali nos textos bíblicos que acabavam de ouvir. Por isso, choraram. Entretanto, voltam para casa felizes e reanimados, pois agora têm a luz da palavra de Deus para iluminar suas vidas.

Salmo 18(19),8 - 10.15

Cantamos no salmo a palavra de Deus, Lei do Senhor. Sua prática se chama “Temor do Senhor”.

2 leitura (1Cor 12,12 - 30)

Continuamos lendo o capítulo 12 da primeira carta aos Coríntios. Paulo já havia insistido em que as diferenças de dons, ministérios e atividades não significam desigualdade, porque tudo deve colaborar para o bem comum.

Talvez alguns ainda não entendam bem o que isso significa e se prendam mais às diferenças, o que leva ao espírito de competição. Paulo usa, então, a comparação do corpo.

Não há ciúme nem espírito de competição entre os diferentes órgãos e membros do nosso corpo. Assim também invejas, ciúmes, vaidades e espírito de competição nunca podem fazer parte da vida cristã.

Evangelho (Lc. 1,1 - 4; 4,14 - 21)

A terceira leitura de hoje une dois trechos do Evangelho segundo Lucas: a introdução, onde ele conta como escreveu o evangelho, depois a leitura da Bíblia em Nazaré e a homilia de Jesus, que declara o objetivo de sua missão.

A Pontifícia Comissão Bíblica publicou, em abril de 1993, um documento sobre a interpretação da Bíblia na Igreja católica. Ali se diz que um dos maiores erros da leitura fundamentalista ou literal da Bíblia é confundir, no caso dos evangelhos, a última etapa – ou seja, os evangelhos como os temos hoje – com a primeira etapa, os fatos e palavras de Jesus que deram origem aos evangelhos. É o grande erro achar que os evangelhos contam tudo exatamente como aconteceu.

Na introdução ao Evangelho segundo Lucas, podemos encontrar estas quatro etapas da formação dos evangelhos:

1. os acontecimentos;

2. as pregações dos apóstolos e discípulos de Jesus;

3. vários escritos menores;

4. os evangelhos atuais, como estão na Bíblia.

Podemos observar: “Muitos tentaram escrever (3ª etapa) a história dos fatos (1ª etapa) assim como nos transmitiram (...) testemunhas oculares (...) ministros da Palavra (...) (2ª etapa) decidi também eu redigir (...) um relato ordenado” (4ª etapa).

O objetivo do evangelho é “para que conheças a solidez do ensinamento que recebeste”. É dar firmeza à fé do Teófilo, quer dizer, do amigo de Deus que cada um de nós pretende ser.

O segundo trecho descreve uma leitura pública da Escritura que, num sábado, Jesus faz durante a celebração da Palavra na comunidade de Nazaré, sua terra. Jesus lê e explica: “Essa passagem da Escritura se realiza hoje, aqui!” A reação é de espanto e, depois, de indignação. As pessoas começam se perguntando se ele não é o conhecido “filho de José” e terminam querendo jogá-lo no precipício. Mas, “passando pelo meio deles, ele seguiu seu caminho”.

Qual é a palavra da Escritura que Jesus aplica a si mesmo? É o programa de seu ano missionário segundo Lucas. O evangelista une duas passagens de Isaías: uma do capítulo 61,1 - 2 (“O Espírito do Senhor está sobre mim, pois ele me consagrou com a unção para anunciar a boa-nova aos pobres, enviou-me para anunciar a libertação aos presos e aos cegos a recuperação da vista”) e outra do capítulo 58,6 (“para dar liberdade aos oprimidos”), voltando por fim a 61,2 (“e proclamar o ano de graça da parte do Senhor”).

Certa vez alguém me perguntou: “Por que a Bíblia fala tanto em ‘evangelizar os pobres’ e não os ricos, que parecem estar mais distantes de Deus e da fé?” A missão de Jesus, resumida nessa citação de Isaías, é exatamente evangelizar, ou seja, levar boa notícia (é o que significa a palavra evangelizar) aos pobres, proclamar o ano da graça ou do agrado de Deus, o jubileu. Nesse ano, segundo Levítico 25,10, quem está preso por causa de dívida recupera a liberdade, quem devia tem suas dívidas perdoadas, quem perdeu suas terras, seu meio de vida, volta para a antiga propriedade. Isso não é boa notícia para os pobres? Para os ricos talvez não seja tão boa... Mas é a missão de Jesus.

É o programa de Jesus no Evangelho segundo Lucas: “Hoje essa palavra se realiza”. A preocupação com os pobres percorre todo o Evangelho de Lucas. Jesus não nasce num berço de ouro; seu berço é o cocho de um estábulo. Seu nascimento é anunciado aos pastores, gente pobre e temida, como os ciganos e os sem-terra de hoje. “Hoje nasceu para vós um salvador”: salvador dos pobres, ele será reconhecido na pobreza do berço. As viúvas pobres estão presentes neste evangelho bem mais do que nos outros. As parábolas próprias de Lucas falam do homem sem nome, roubado e caído à beira do caminho; falam dos pobres forçados a entrar para a festa do rei; falam do pobre Lázaro caído à porta do banquete diário do rico e do abismo que os separa aqui e na eternidade.

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O texto de Neemias fala da promulgação da lei feita por Esdras, realizada por volta de 444 a.C. Dois meses após a volta do exílio da Babilônia, acontece uma grande assembleia para a renovação da aliança do Sinai numa solene celebração da Palavra, iniciada ao alvorecer do dia e finalizada ao meio-dia. A partir daí, a leitura da lei passa a ser o centro da celebração.

O Salmo responsorial proclama que a lei de Deus é perfeita, conforto para a alma e que o Senhor é fiel. A lei de Deus dá sabedoria aos simples. Ela é o dom da aliança.

Ela é o Evangelho. É obra do Espírito Santo. Ela é o próprio Deus.

A leitura da primeira carta aos Coríntios lembra a unidade que, pelo batismo, se realiza entre os cristãos. Em Cristo formamos um só corpo, por isso, os diversos membros se complementam. Cada parte do corpo é importante. Nenhuma pode ser desprezada.

Nenhuma pode impor-se ou substituir a outra. Todos os membros da comunidade devem ser colocados no mesmo patamar, pois gozam da mesma dignidade e dos mesmos direitos.

Na primeira parte do Evangelho de hoje, Lucas lembra-nos que narra os fatos e ditos de Jesus de maneira organizada, a partir dos testemunhos recolhidos, para dar sólido fundamento à fé das comunidades. A segunda parte está estruturada em prólogo e começo da vida pública de Jesus.

A liturgia de hoje coloca diante de nós o programa da missão de Jesus. Ele é enviado para dar a Boa-Notícia aos pobres, anunciar a libertação aos presos e oprimidos, iluminar o nosso caminho, proclamar o Ano da Graça do Senhor.

O “hoje” proferido por Jesus é a grande surpresa. A obra libertadora do Messias está acontecendo. Em Jesus cessou a surpresa.

O futuro torna-se presente. A promessa é uma realidade.

A pergunta que fazemos a Jesus, hoje, é esta: o que podemos fazer pelos pobres, abandonados, coxos e aleijados? Há um caminho e há uma resposta? A luz e a resposta estão no retomar o programa de Jesus, anunciado na sinagoga. Jesus, na força do Espírito Santo, nos reveste do seu poder de Ressuscitado para anunciar a Boa-Nova aos pobres: recuperando neles a dignidade, ressuscitando neles a organização e a partilha, dando voz e vez a todos os

setores da sociedade. Em que sentido? Vejamos a sequência:

* proclamando a libertação aos cativos: significa libertar as pessoas de todos os preconceitos, das estruturas injustas, do analfabetismo, dos salários insuficientes e promover a ampla participação de todos nas decisões e na construção da sociedade solidária;

* recuperando a vista aos cegos: quer dizer mostrar a verdade, ensinando a ler e a escrever, a entender as leis, a exigir a aplicação delas, indicando caminhos da superação da miséria, dando sentido à vida na luz do Ressuscitado;

* proclamando o Ano da Graça do Senhor: simboliza anunciar que a vitória do Ressuscitado realiza as promessas do ano sabático, ou seja, terras distribuídas, dívidas perdoadas, presos soltos e liberdade para todos.

Tudo isso os cristãos e suas comunidades podem realizar, porque são ungidos no mesmo Espírito com o qual Jesus foi ungido.

Todos somos ungidos e enviados para continuar e realizar a missão da libertação anunciada por Jesus na sinagoga de Nazaré. Para isso, fazem-se necessários o espírito comunitário, a organização social e a partilha de bens.

Importa nos darmos conta de que, reunidos como comunidade para ouvir a Palavra e dar graças e bendizer o Senhor, recebemos mais uma vez o Espírito que ungiu Jesus e o consagrou como Messias dos pobres, abandonados, estropiados. cegos, coxos e violentados pelo sistema econômico. No Ressuscitado somos agentes e promotores da libertação e do anúncio da Boa-Nova.

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O Evangelho deste domingo é composto por dois excertos: o prólogo, isto é o inicio do livro redigido por Lucas, e o inicio da pregação de Jesus. Colocados um ao lado do outro estes dois textos fazem-nos compreender como a Palavra de Deus se tenha tornado primeiramente Escritura, Bíblia, Livro santo e depois, em cada época — e portanto também para nós hoje — Palavra vivente para a assembléia dos crentes.

Iniciando o seu livro, Lucas dirige-se ao leitor cristão, «amante de Deus» — este é o sentido do nome de Teófilo — e lhe declara a sua intenção: assim como antes dele foi contada a história de Jesus, e o fizeram depois de ter ouvido o testemunho sobre este homem por aqueles que tinham sido cúmplices na sua vida, daqueles que o tinham conhecido, escutado e visto até se tornarem «servos da Palavra», também ele «depois de uma investigação acurada» decidiu escrever uma narração, isto é o Evangelho.

Sim, o Evangelho é um conto escrito sobre aquilo que Jesus fez e disse; ou melhor, é um contar a narração que Jesus com toda a sua vida fez de Deus. Eis porque nestes breves versículos iniciais se diz muito, nos vem exposto o essencial da nossa fé: «a Deus nunca ninguém o viu, mas Jesus que é o Filho enviado por Ele, contou-nos acerca Dele» cf. Jo 1,18); e que, foi associado à sua vida, ou seja, quem o viu, escutou e tocou, por sua vez nos contou acerca de Jesus (1 Jo 1,1 - 3), que depois alguns homens, os evangelistas, puseram por escrito. Mas isto é o que acontece desde sempre no seio da comunidade dos crentes em Deus, no Antigo e no Novo Testamento, e é o que acontece ainda hoje na igreja…

Um exemplo de tal processo é-nos dado pela segunda parte do excerto de hoje, tirado do quarto capítulo do Evangelho. È-nos narrado a vida dos crentes hebreus no tempo de Jesus: mesma na perdida aldeia de Nazaré no dia de Sábado eles se reuniam na sinagoga para escutar a Palavra de Deus contida na Lei e nos Profetas, livros escritos no passado, qual testemunho de como Deus falou ao seu povo. E eis que Jesus, depois de alguns anos de ausência, regressa á sua aldeia donde é natural, Nazaré, e participa na liturgia da Sinagoga: escuta um texto da Torah, participa no canto responsorial de alguns salmos, depois toca a ele ler a segunda leitura. Recebido o rolo dos Profetas, abre-o e lê o texto previsto para aquele dia, uma passagem do profeta Isaías no qual um profeta anônimo conta a própria vocação: o Espírito de Deus desceu sobre ele e pôs a sua morada nele; com a força que lhe foi dada pelo Espírito este profeta e servo do Senhor foi enviado a levar a boa nova aos pobres, a proclamar a libertação a todos os oprimidos, a pregar o ano da misericórdia do Senhor (Is. 61,1 - 2).

Lido o texto, cabe a Jesus dar a explicação, e ele o faz através de uma «homilia» que resume em poucas palavras: «hoje se cumpriu esta Escritura». Ou: o profeta apresentado por Isaías é o próprio Jesus, a Palavra de Deus testemunhada pelo antigo profeta e escutada por quantos se encontram na sinagoga se realiza exatamente nele! Isto significa que aquela página bíblica constitui o programa da missão de Jesus: eis o que ele fará e dirá, eis a boa noticia, o Evangelho que através dele se realiza… E assim a palavra revelada por Isaías, por ele escrita até tornar-se livro entre os livros da Bíblia, lida na liturgia celebrada em Nazaré, ressoa como Palavra de Deus cumprida em Jesus. Lucas narra pois este acontecimento no evangelho que, lido hoje na assembléia cristã, ressoa como Palavra que pede para ser realizada por cada cristão e por toda a Igreja.

Mas temos nós consciência, aqui e agora, que quando a Palavra de Deus contida na Escritura é proclamada, somos nós, ouvintes, que a devemos realizar? Sabemos que cabe a nós transmitir com a nossa vida a narração de Deus que nos foi dada por Jesus?

Enzo Bianchi - prior de Bose

 

Cantai ao Senhor um canto novo, cantai ao Senhor,

ó terra inteira; esplendor, majestade e beleza brilham

no seu templo santo”. (cf. Sl. 95,1.6)

A liturgia deste terceiro domingo do tempo comum está toda centrada na pessoa e na missão de Nosso Senhor Jesus Cristo. Cristo é apresentado como Aquele que veio para proclamar um tempo novo, marcado pela Libertação (que refletiremos no Evangelho) e pela unidade que nos é brindada pela primeira leitura paulina enviada os Coríntios.

Este domingo salienta a pregação inaugural da vida pública do Senhor Jesus. Lucas narra a atividade de Jesus como uma história escrita por um historiador. Lucas é o evangelista considerado homem da crônica, ou seja, o cronista, aquele que hoje poderia ser considerado o colunista social, aquele que relata as coisas dos homens. Lucas, a seu termo, narra o início da pregação inaugural de Jesus, o Senhor. Lucas vai contando as coisas de Jesus do modo em que a gente possa ter presente e voar no túnel do tempo para estar caminhando com Jesus e degustando de sua vida pública, de seu ensinamento, de sua palavra, de seu ministério.

Lucas colecionou os dados a respeito de Jesus lá pelos anos 80 d.C. para mostrar-lhes melhor quem foi e o que fez Jesus de Nazaré. Como todo bom cronista Lucas imagina Jesus iniciando a sua pregação lá na sua terra, em Nazaré, na reunião de sábado da sinagoga. Os adultos podiam comentar a Lei a partir de um texto profético. Jesus abriu o rolo do profeta Isaías, no texto que fala da missão do mensageiro de Deus para instaurar a verdadeira Justiça e a profunda libertação, pelo fim da opressão e com a finalidade da realização de um ano sabático ou jubilar, para a restituição dos bens alienados, em vistas a um novo início de uma sociedade fraterna, como convém ao povo de Deus.

O Evangelho deste domingo (cf. Lc. 1,1 - 4;4,14 - 21) pode ser dividido em duas partes: a primeira é o prólogo de são Lucas em que o Evangelista garante a solidez das fontes da história de Nosso Senhor Jesus Cristo. A segunda parte do Evangelho nos relata a primeira parte da chamada “perícope de Nazaré”, ou seja, será refletida no domingo próximo. Lucas inicia a vida pública de Jesus com uma pregação em que é evidenciado que Jesus não age como um santo profeta humano, que fala em nome de Deus, mas como alguém que fala como Deus, “com força do Espírito de Deus”.

Lucas diz que Jesus freqüentava a sinagoga aos sábados. Isso demonstra que Jesus era um homem de oração. Junto com a oração Lucas sublinha que Jesus era um homem profundamente misericordioso. Jesus é a encarnação da misericórdia divina, já anunciada no trecho de hoje. Lucas, por fim, anuncia em seu Evangelho a universalizaçao da salvaçào que vem anunciada por Jesus. Jesus não veio para os homens do sistema religioso vigente, para os homens de poder, de posses. Ao contrário, Jesus veio para os pobres, para os excluídos, para aqueles que estão à margem da sociedade. A salvação vem para todos, para todos que aderem ao projeto de vida de Jesus Cristo.

Lucas fala da genealogia e da vida de Jesus: ele ressalta que Jesus tem família, um emprego, amigos, ressalta a geografia, a cultura, a sociedade e de então, e como não poderia deixar de ser, fala da vida dos homens de oração do tempo de Jesus e da própria vida de fé do Senhor.

Lucas demonstra que desde o seu Batismo Jesus é o homem repleto do Espírito Santo de Deus: “O Espírito Santo descerá sobre ti e a força do Altíssimo te cobrirá com sua sombra” (cf. Lc. 1,35).

Jesus inicia a sua vida pública com a fala do v. 18: “O Espírito do Senhor está sobre mim” (v. 18). Lucas sublinha o início da pregação com a ação do Espírito Santo. A salvação trazida por Jesus se mostra como poderosa força do Espírito Santo, que opera nele. A mesma coisa dirá os Atos: “Deus ungiu Jesus de Nazaré com o Espírito Santo e com seu poder, e ele andou fazendo o bem e curando todos os oprimidos pelo diabo, porque Deus estava com ele” (cf. At. 10,38).

O Evangelho anuncia os preferidos de Jesus: os pobres, os presos e os cegos. Cabe uma reflexão pessoal: será que nós nos preocupamos com os pobres, com os presos e com os cegos? Será que nós nos preocupamos com os que estão à margem da sociedade. Pobres e excluídos no sentido material, mas, sobretudo, no sentido espiritual, na carência de Deus e da sua fé salvadora. Os presos não somente dos cadeiões, mas os presos aos bens do mundo, a alienação do poder, do ter, do ser, do estar, do fazer, do humilhar. Os cegos da auto-suficiência, da arrogância, da ganância, da falta de fé.

A libertação cantada e encantada pela pena literária de Isaías é realizada por Jesus, o Redentor do gênero humano. Por isso Lucas solenizou o poder e o gesto do início da vida pública de Jesus: enrolou o livro, devolveu-o ao assistente e sentou-se (cf. Lc. 1,20). Agora já não seria mais o livro a dizer as coisas, mas ele, Jesus, o novo Mestre, e o faz como mestre, sentado, isto é, com toda a autoridade, porque não falava apenas com a força profética, mas com a força do “Espírito do Senhor que estava com ele”.

A primeira leitura (cf. Ne. 8,2 - 6.8 - 10) fornece um pouco de cultura bíblica, necessária para imaginar os costumes e sentimentos do judaísmo pós-exílico referentes à leitura da Lei. O episódio é praticamente o protótipo do culto sinagogal e a figura central, Esdras, pode ser considerado como o “pai do judaísmo”(antes do Exílio não se pode falar em judaísmo, no sentido estrito; é só depois do Exílio que o “povo de Deus” se identifica praticamente com a tribo de Judá, única que ficou mais ou menos intacta e livre de contaminação.

Uma mensagem própria traz a segunda leitura (cf. 1 Coríntios 12,12 - 30): a alegoria do corpo e dos membros. É uma alegoria que Paulo aprendeu na escola: pertence plenamente à cultura romana e devia ser conhecida por todos os homens cultos da sociedade helenística. Seja como for, Paulo a aplica à Igreja: nenhum membro do corpo pode dizer a outro que não precisa dele. E, com um sadio naturalismo (que desaparece quando se segue a versão abreviada da leitura), fala também dos membros mais frágeis, que são circundados com cuidados maiores – alusão aos capítulos iniciais da primeira Carta aos Coríntios, onde Paulo critica os partidarismos e ambições que dividem a Igreja de Corinto, lembrando que Deus escolheu o que é fraco e pequeno neste mundo.

Jesus veio para salvar a alma e o corpo, ou seja, toda a pessoa humana. Ainda hoje a Palavra de Deus gera a Igreja, o Corpo de Cristo. Esta palavra transforma-se em dons diversos, conforme o carisma de cada um para a edificação do Corpo de Cristo que a segunda leitura nos ensina. Em cada missa dominical realiza-se o que aconteceu na sinagoga de Nazaré. É Deus que faz a proposta. Estabelece-se o confronto com a Palavra, facilitada pela homilia. E deve seguir-se uma resposta de conversão, de louvor, de ação de graças e de sacrifício.

Nós, o povo de Deus caminhante, a Igreja de Cristo, recriada por Sua Palavra, há de transformar-se em boa-nova de libertação para os pobres e os oprimidos. A Palavra terá como fruto uma evangélica opção preferencial pelos pobres e pelos oprimidos. Despertará e animará o carisma próprio de cada cristão a serviço do bem da nossa comunidade de fiel, tudo com o auxílio e a graça santificante do Espírito de Deus.

Muitos são os dons, inumeráveis são os carismas de nossa fé: tudo na unidade em Cristo para que com Ele uma só Igreja, caminho ordinário de salvação.

padre Wagner Augusto Portugal

 

1º leitura – Ne. 8,2 - 6.8 - 10

Estamos no primeiro dia do sétimo mês do ano 444 (v. 2). O povo que tinha retornado do exílio da babilônia a partir do ano 583 a.C. ainda estava em situação tremendamente difícil. Era tempo de reconstrução e busca de renovação da própria identidade. É em torno da Palavra de Deus que o povo se manteve unido e preservou sua identidade no exílio. Aqui também a Palavra de Deus é o elemento essencial da renovação da vida e preservação da identidade. O povo pede e o livro da Lei é lido. O texto fala do livro da Lei de Moisés. Isto significa os cinco primeiros livros da Bíblia (chamados de Pentateuco) que constituíam a Torá. Mas é provável que por esta ocasião se tenha lido apenas a parte central do livro do Deuteronômio. O que temos aqui é uma belíssima celebração da Palavra com consequências práticas para a comunidade. O que se pode destacar?

1 – A Palavra de Deus é capaz de unir e reunir a comunidade (8,2 - 3)

2 – A Palavra de Deus gera a atenção na comunidade, pois todos querem ouvi-la atentamente (v. 2).

3 – A Palavra de Deus provoca reações iguais em toda a comunidade. Trata-se de uma verdadeira ação litúrgica, onde Deus é adorado (vv. 5 - 6).

4 – A Palavra de Deus é luz para o povo. Esdras e os levitas são os mediadores capazes de atualizar e aplicar a Palavra de Deus à vida do Povo (vv. 8 - 9).

5 – Finalmente a Palavra de Deus leva à partilha dos bens. O povo começa a chorar. Por quê? Seria porque sua vida está distante da Palavra? Seria porque tudo estava por fazer? O certo é que o povo entende que é através da partilha que são colocadas as bases para a construção da nova sociedade. Assim no dia do Senhor o povo reencontrou a força na “alegria do Senhor” e na partilha dos seus bens (vv. 9 - 11).

2º leitura – 1 Cor. 12,12 - 30

Paulo aproveita da metáfora do corpo para falar da unidade social do corpo da Igreja. Assim como o corpo é composto de vários membros e é um só, assim também acontece com Cristo e sua Igreja. A Igreja é o corpo de Cristo. Nós somos os membros do corpo e cada membro é importante e indispensável no corpo social da Igreja. É Cristo, através do seu Espírito, que nos une num só corpo. O pé representa as pessoas que topam fazer as tarefas menos vistosas. O ouvido são as pessoas que procuram mais escutar do que falar. As mãos indicam as pessoas disponíveis, ativas, mais capazes. O olho são as pessoas de intuição mais profunda, que vêem logo o que é melhor para a comunidade. No corpo da Igreja não se pode marginalizar ninguém, nem ninguém pode se sentir auto-suficiente. Nos vv. 22 - 23 Paulo dá um destaque aos membros mais fracos e aparentemente mais desprezíveis. É a opção pelos mais fracos, pelos mais pobres. O importante é a unidade, é a saúde e a eficiência do corpo. É fundamental o cuidado comum, a união de sentimentos, a solidariedade no sofrimento ou na alegria (vv. 25 - 26). Se tivermos que privilegiar alguém na comunidade que esse alguém seja o mais fraco e o mais marginalizado, pois ele é também parte importante e necessária do conjunto. Os vv. 28 - 30 apresentam listas de funções na comunidade, mas em ordem de importância, não para o orgulho de ninguém, mas certamente para ressaltar o essencial diante da ambição de dons vistosos, que no fundo eram secundários para a edificação da comunidade. Em primeiro lugar estão os apóstolos que evangelizam, em segundo os profetas que não são anunciadores do futuro, mas os que falam em nome de Deus; são aqueles que edificam, encorajam, sob inspiração do Espírito. Em último lugar está o falar em línguas, associado à interpretação das mesmas (cf. vv. 28 e 30).

Quem na comunidade são os membros mais fracos que deveríamos revestir de maior honra?

EVANGELHO – Lc. 1,1 - 4;14 - 21

1,1 - 4 – O que Lucas diz nos primeiros versículos do seu evangelho?

- O surgimento de Jesus é realmente um fato histórico, testemunhado por diversas pessoas.

- Muitos já narraram estes acontecimentos realizados por Deus e Lucas também assumiu esse compromisso. Quando Lucas escreveu já havia o evangelho de Marcos como também coleções de milagres, coleções de discursos e coleções de parábolas de Jesus.

- Lucas procura informar-se cuidadosamente de tudo a partir das origens. Ele usou fontes escritas e fontes orais.

- Ele quer escrever tudo, mas de um modo bem ordenado. Não se trata de ordem cronológica, mas de ordem literária e didática.

- Para quem ele escreve? Para o excelentíssimo Teófilo, uma pessoa importante. Teófilo, significa “amigo de Deus”. Então se pode dizer que ele escreveu também para todos os amigos de Deus de todos os tempos, portanto também para nós hoje.

- Para que ele escreveu? Para que os “amigos de Deus” pudessem verificar a solidez dos ensinamentos recebidos.

4,14 - 15 – Síntese da atividade de Jesus - Pelo poder do Espírito, Jesus volta para a Galiléia e atua no meio do povo pobre e marginalizado. O Espírito Santo exerce um papel preponderante nos quatro primeiros capítulos do evangelho de são Lucas, sendo força ativa em Maria, Isabel, Zacarias, Simeão, João Batista, principalmente em Jesus. O início do evangelho de Lucas se destaca como um verdadeiro Pentecostes. No resto do evangelho o Espírito Santo se concentra em Jesus.

4,16 - 21 – O programa libertador de Jesus – Na sinagoga, na terra onde ele tinha sido criado, Nazaré, Jesus lê o trecho do profeta Isaías (Is. 61,1 - 2) que sintetiza seu programa. Jesus se sente ungido pelo Espírito Santo. É uma referência ao seu batismo. Basicamente ele veio para isso:

- Anunciar a Boa Nova aos pobres. Pobres são os que vivem dependentes dos poderosos, explorados por eles, sem poder resistir. Jesus está do lado dos pobres e não dos ricos.

- Proclamar aos cativos a libertação e aos cegos a recuperação da vista, despedir os oprimidos em liberdade. Em síntese, trata-se da libertação dos marginalizados.

- Proclamar o ano de graça (= acolhimento) da parte do Senhor. “Ano de graça” é uma referência ao ano jubilar fixado pela lei. Acontecia de cinquenta em cinquenta anos (cf. Lv. 25,10 - 13). Trata-se de um perdão geral das dívidas, a devolução das terras hipotecadas ou roubadas pela ganância dos latifundiários. O povo podia assim recomeçar uma vida nova. Assim a Boa Nova de Jesus não prevê apenas “a libertação dos marginalizados, mas a sua plena reintegração na sociedade com a recuperação plena de tudo aquilo do qual foram defraudados.”

No v. 21 Jesus diz que esta passagem da Escritura está se realizando hoje para os seus ouvintes. O hoje da salvação é muito frisado por Lucas (cf. 2,11; 3,22; 5,26, etc.). Este programa de Jesus, este ano da graça do Senhor está acontecendo no hoje da caminhada de sua comunidade?

dom Emanuel Messias de Oliveira

 

MEMBROS DE UM CORPO: Ora, assim, como o corpo é um e têm muitos membros, porém os membros de um corpo, sendo muitos, são um só corpo, assim também o Cristo (12 Paulo usa duas alegorias, comparando a Igreja e seus membros com o Cristo total: o templo (1 Cor. 3,16) e esta alegoria se refere ao corpo. Na primeira, visa cada cristão em particular, como templo em que habita o Espírito Santo. Nesta outra alegoria é contemplada a comunidade dos cristãos como um só corpo com Cristo, formando o complemento ou plenitude, como geralmente se traduz a palavra plëroma. A ideia paulina é que, assim como a alma unifica todos os membros de um corpo, assim também o Espírito, recebido no batismo e do qual estamos como possuídos, vivifica e une todos os membros da comunidade num corpo, que é o corpo místico, mas real, do Cristo. A ideia principal é o aspecto do batismo que é a identificação do cristão com Cristo, pois é uma imersão continua no Espírito de Jesus (Rm. 6,3 - 5). O batismo não é uma cerimônia de iniciação para formar parte de uma comunidade eclesial, mas a imersão dentro do Espírito que nos une num só corpo como o espírito vital une os membros para formar um único corpo material. Por isso, dirá Paulo: não vivo eu, mas é Cristo que vive em mim (Gl. 2,20). O próprio Jesus usa a alegoria do sarmento e da videira para afirmar que estamos vivendo da seiva do tronco, que é ele mesmo (Jo 15,5). Mas aqui, para Paulo, o importante é a unidade em que se unificam os membros e a mútua ajuda, sem diferenças de preeminência entre eles. Isso é mais importante quando tratamos dos carismas que parecem dividir e graduar os diversos carismáticos entre si.

IGREJA COMO CORPO: Pois, também num só Espírito, todos nós em um só corpo fomos batizados, já judeus, já grego, já escravos, já nascidos livres, e todos temos bebido num só Espírito (13).

BATIZADOS: Paulo inicia aqui sua argumentação, baseada no batismo, que não é uma pura imersão em água, mas no Espírito. Os Cristãos, pelo batismo, estão imersos no Espírito Divino, assim como os picles estão imersos no vinagre, como diz o médico Lisander ao explicar a palavra baptizo. Somos como peixes imersos na água, mas agora peixes imersos no Espírito. Talvez por isso, Jesus tomou como discípulos pescadores aos quais chamou para serem pescadores de homens. BEBIDO: Se não bastasse o batismo que gera uma nova vida, esta é nutrida pela bebida comum que é o Espírito, como nutriente e não unicamente como meio em que nos encontramos, como peixes na água. De modo que o meio e o alimento é comum, o que sucede com os membros de um corpo único. As diferenças entre os judeus e gregos que constituíam o muro de divisão (Ef. 2,14) religiosa e entre escravos e livres que formavam a divisão sociológica, não têm causa lógica de existir. A unidade em Espírito, que implica a unidade como corpo, prevalece sobre estas divisões que são externas e circunstanciais. Há quem veja na frase temos bebido num só Espírito o sacramento da confirmação ou imposição das mãos que era recebido de imediato após o batismo, na época apostólica e que, mais tarde, foi separado como diferente do batismo. Ver At. 19,3 - 6 em que Paulo impôs as mãos aos neobatizados e começaram a falar em línguas de modo a receberem o Espírito Santo (idem 19,2).

OS MUITOS MEMBROS: Pois também o corpo não é um só membro, mas muitos (14). Paulo retoma a alegoria do corpo e chama a atenção dos leitores para a diversidade dos membros num único corpo. O corpo é a Igreja, ou comunidade dos discípulos de Cristo. Os membros são os fieis que a constituem, diversos em suas individualidades e diferentes em seus carismas, mas que formam um conjunto que é o pléroma [plenitude, integridade] de Cristo, ou o Cristo total (Cl. 2,9). A ideia paulina de pléroma, unida à da soberania de Cristo, cabeça e princípio da Igreja,  aparece em Ef. 1,22 - 23: O Pai pôs todas as coisas debaixo de seus pés, para ser a cabeça sobre todas as coisas; o deu à Igreja a qual é o seu corpo, a plenitude daquele que a tudo enche em todas as coisas. Na morte de Cristo na cruz, morre o mundo velho e nasce um mundo novo que tem como primícia Cristo e que nEle encontra a plenitude da salvação, pois nEle Deus quis tudo centrar, e recapitular nEle todas as coisas, tanto as do céu como as da terra (Ef. 1,10). Até tal ponto está o cristão unido a Cristo que não só é uma união de espírito, mas de carne, porque também a vida de Jesus deve se manifestar em nossa carne mortal (2 Cor 4,16). E assim Paulo pode afirmar: por minha parte, completo em minha carne o que falta às tribulações de Cristo por seu corpo (Cl. 1,24)

UNIDADE ENTRE OS MEMBROS: Se disser o pé: já que não sou mão, não sou do corpo. Não sou para isto, não é do corpo? (15). E se disser o ouvido: já que não sou olho, não sou do corpo, nem por isso não é do corpo (16). Com uma série de exemplos, Paulo argumenta sobre a unidade dos membros e o corpo total e sobre a mútua responsabilidade; elementos menos dignos, ao parecer como pés, comparados com mãos, não devem ser subestimados. Do mesmo modo, compara a orelha com o olho. Vemos que, em todas as comparações, os membros são físicos, materiais, não faculdades como podiam ser ouvido e vista, coisa que não acontece no versículo seguinte, porque os membros são úteis em função de suas operações, atividades e serviços.

DIFERENÇA ENTRE OS MEMBROS: Se todo o corpo olho (é), onde o ouvido? Se todo ouvido, onde o olfato? Efetivamente, um corpo vivo tem membros, porque cada um deles exerce sua função determinada, que não pode ser substituída por outro membro mais ou menos equivalente. Estamos chegando à meta visada pelo apóstolo. Por que tantas divisões entre as faculdades dos cristãos se formamos um só corpo com Cristo? A totalidade só se dá em Cristo. Nós temos em parte a ciência, o conhecimento, e, unicamente quando chegue o que é perfeito, é que essas faculdades desaparecerão (1 Cor 13,9 - 19). Uma outra consideração: temos colocado o verbo é em parêntese porque parece que Paulo, semita de língua materna, não o considera necessário.

A VONTADE DIVINA: Agora, pois, (o) Deus colocou os membros em cada um deles no corpo como quis (18). Seguramente que Paulo fala do corpo da Igreja como corpo místico de Cristo. Os membros são os fieis e cada um deles tem um carisma, um ministério, ou uma atividade própria (1Cor 12, 4-6). Esta distribuição não depende de méritos ou aptidões, mas é a vontade de Deus que olha as necessidades e distribui os seus dons preferindo os homens mais simples e humildes, como escolheu os apóstolos na sua companhia, durante o kerigma na terra.

UM MEMBRO NÃO FAZ UM CORPO: Se, portanto, forem todos um membro só, onde o corpo? (10) Agora, pois, certamente, muitos membros, porém um só corpo (20). O discurso paulino retoma a retórica grega e, através do significado etimológico de corpo, reclama que um membro não pode ser separado como se fosse um corpo; e, por outra parte, como existe um só corpo é necessário que todos os membros pertençam a um só corpo. Cada membro tem alguma coisa a realizar, mas nenhum tem tudo a fazer e ser.

TODOS SÃO NECESSÁRIOS: Por isso, não pode o olho dizer à mão: não tenho necessidade de ti; ou, de novo, a cabeça aos pés: não tenho necessidade de vós (21). Esta é a consequência do versículo anterior: a diversidade é questão da funcionalidade. Mas a união depende de estarem unidos os membros num só corpo e numa só finalidade.

OS MAIS NECESSITADOS: Pelo contrário, muito mais são necessários os membros do corpo que parecem mais débeis (22). E os que estimamos serem mais indignos do corpo, a esses de honra mais abundante rodeamos e os indecentes de nós têm mais abundante decência (23). Aqui Paulo faz uma pequena diversão do discurso para revelar que a escolha divina, em certo sentido, segue a nossa própria escolha em prestigiar nossos membros. Primeiro só os membros mais débeis ou enfermos. Logicamente são os que primeiro cuidamos. Logo fala dos menos honrosos como podem ser vísceras e partes inferiores do corpo. Eles são os que recebem os vestidos que mais os protegem e  ocultam a sua nudez. Este parêntese serve para que nos próximos versículos, possa o apóstolo argumentar a favor da escolha e serviço dos membros do corpo de Cristo, feita pela vontade divina, nunca arbitrária, mas sempre dirigida ao bem da comunidade.

OS MENOS NOBRES: Pois os nossos (membros) decentes não têm necessidade; porém o Deus acoplou o corpo ao carente, dando maior honra (24). A única palavra difícil é ACOPLOU, que é a tradução do verbo Sugkerannumi de significado misturar, unir e que, pelo contexto, temos usado acoplar que une os dois significados anteriores. De modo que o significado total da frase é o de que Deus, autor do homem diretamente, como diz o Gênese (2,7), o formou de maneira tal, que deu às partes mais necessitadas a maior proteção e às mais desonradas a maior honra, jogando com carente e abundância.

A AJUDA MÚTUA: Para não existir ruptura no corpo, mas, no mesmo, entre si fossem solícitos os membros (23). Continua Paulo, neste versículo, com a alegoria do corpo/membros e diz o porquê dessa distinção e escolha, ao parecer não conforme os planos sociais da época: é a conservação da unidade que poderia ser rota pela diversidade dos membros. Necessários estes pelas diversas funções, têm como finalidade principal a ajuda mútua, como partes de um todo principal ao que servem e ajudam.

UNIÃO FUNCIONAL: E se um membro padecer, todos os membros compadecem; se for honrado um membro, todos os membros se alegram (26). Finalmente, Paulo encontra essa unidade funcional na dor e na alegria que é comum a todos os membros como partes de uma unidade em que todos são um e único corpo. E termina aqui essa sua consideração da relação entre membros e corpo para iniciar, no versículo seguinte, suas deduções sobre o corpo de Cristo e seus membros, que são os fieis da Igreja.

FIEIS COMO CORPO DE CRISTO: Vós sois o corpo de Cristo e membros em particular. A primeira conclusão da alegoria é que o comparado na alegoria é o corpo de Cristo. Mas não é o Cristo histórico, senão o Cristo vivo nos seus novos membros, que são os fieis da igreja, a qual descreverá como uma forma viva unida, e diversa pela sua atuação dentro da comunidade. A palavra que traz uma pequena dificuldade é em particular, tradução do grego Meros. Esta palavra tem o significado de parte, porção e indivíduo, em respeito a uma comunidade. A frase ek merous tem o significado de individualmente, ou em particular. Traduziríamos, pois, membros, como parte do mesmo.

CARISMAS DIVERSOS: E, certamente, os que colocou (o) Deus na Igreja, em lugar preeminente apóstolos, em segundo profetas, em terceiro mestres, depois poderes, logo carismas de cura, ajudas governos, famílias de línguas (28). Já temos explicado em 12,3 - 6 os diversos carismas. Agora, nesta nova lista, entram alguns ministérios [do ponto de vista sobrenatural dons espirituais] que devemos explicar.

PREEMINENTEMENTE: o Prötos é primeiro em tempo ou lugar, primeiro como categoria, chefe, principal, como adjetivo; e como advérbio, primeiramente ou em lugar preeminente. Ou seja, de todos os membros, o apóstolo era o principal, pois sem eles não haveria testemunho. E a Igreja era fundada sobre o testemunho dos apóstolos. Por isso dirá Pedro, ao escolher o substituto de Judas, que devia ser um homem constituído testemunha de sua ressurreição (de Cristo), que acompanhou Jesus, a começar pelo batismo de João até o dia em que foi arrebatado ao céu (At. 1,21 - 22). Isso dizia seguindo o mandato de Jesus, que promete o Espírito Santo para que sejam suas testemunhas em Jerusalém, em Samaria e até os confins de toda a terra (At. 1,8). E Paulo, não se inclui entre as falsas testemunhas, ao se identificar com as testemunhas da ressurreição do Senhor (1 Cor. 15,15). Quem eram os apóstolos? Em primeiro lugar, os escolhidos por Jesus, ou seja, os doze (Mt 10,2). Logo, os escolhidos pelo Espírito Santo: Matias (At.1,26), Paulo e Barnabé (At. 13,2 e 2 Tm. 1,11). E talvez tenhamos que incluir alguns mais, como Silas, ou o grupo dos setenta e dois (Lc. 10,11). Entende-se que é em nome de Jesus que atua o apóstolo com plenos poderes para ligar e desligar (Mt. 18,18) e para ensinar (Mt. 16,20 e Jô. 14,26). Este ministério tem sua atuação em todos os tempos através da sucessão apostólica, como foi o caso de Timóteo que recebeu o dom [charisma] mediante profecia e imposição das mãos do presbitério (1 Tm 4,14). Nisso se distingue a Igreja Católica dos evangélicos. Estes, sem muita lógica, se temos em conta o texto anteriormente citado, pretendem que os carismas provêm diretamente do Espírito, que os dá como quer e os admitem nos tempos modernos; mas rejeitam os que, como em Timóteo, são concedidos pela imposição das mãos dos presbíteros. A razão é que com os apóstolos terminam não só a revelação, mas também os ministérios.

PROFETAS: Um profeta não é um revelador do futuro, mas uma pessoa que fala em nome de Deus. Tais eram Estêvão (At. 7 ) e Filipe (At .8,4 - 8) com suas quatro filhas (At 21, 9) e, de modo especial, os da Igreja de Antioquia (At. 13,1). Também temos casos de profecia estrita por predizer o futuro, como é o caso de Ágabo (At. 11, 27-28). Paulo coloca a profecia numa categoria superior a todos os demais carismas gratuitos, que ele chama de espirituais (1Cor 14, 1). Como conhecer o verdadeiro profeta? a) Critério negativo: Paulo declara-o em 1 Cor 12. 3: ninguém que fala pelo Espírito de Deus afirma Anátema [= maldito] Jesus. b) Critério positivo: se disseres no teu coração, como conhecerei a palavra que o Senhor não falou? Sabe que quando esse profeta falar em nome do Senhor e a palavra dele não se cumprir, nem suceder como profetizou, esta é palavra que o Senhor não disse (Dt. 18,21 - 22). No mundo atual, temos as profecias de Fátima. Cumpriram-se; e a Igreja admitiu a intervenção divina e bondosa de Maria. Pelo contrário, os adventistas proclamaram o fim do mundo inúmeras vezes e inutilmente. Por que acreditar neles?

MESTRES: Temos visto que os apóstolos foram os grandes mestres, como discípulos diretos de Cristo, o Mestre da verdade que só tinha palavras de vida eterna (Jo 6, 68). A Igreja declarou doutores esses mestres das verdades eternas como Atanásio e Ambrósio no século IV. Diante de fenômenos místicos, serão Juan de la Cruz e as mulheres Catarina de Siena com Teresa de Ávila, mestres dos caminhos da oração de contemplação e quietude e, finalmente, os caminhos da infância encontrarão em Teresa de Lisieux a doutora contemporânea. Um total de 33 doutores que a Igreja propõe à nossa consideração como guias seguros do caminho da santidade. A riqueza desses doutores é tal que, segundo um autor, mesmo que não existissem as Escrituras no NT, as místicas doutoras teriam suficientes palavras para as substituir. DUNAMEIS: o grego significa força, poder e logicamente o poder de realizar milagres. É por isso, que dentre as palavras os evangelistas traduzem o milagre por dunamis, como em Mt. 7,22, que o latim traduz por virtus [= força], e que no hebraico era mofet significando coisa maravilhosa, prodígio. Dos apóstolos vemos como continuam confirmando a fé com milagres, que em Paulo são descritos como fatos não comuns, ou extraordinários (At. 19,11).Usa-se também a palavra teras porém só em três ocasiões nos evangelhos (Mt. 24, 4; Mc. 13,22 e Jô. 4,48), e é para desacreditar falsos profetas que produziriam falsos prodígios ou como diz João se não vedes  sinais e prodígios não crereis (4,48). Para o quarto evangelista, eram sinais [semeia] como em 3, 2 quando Nicodemos afirma que são sinais que não podem ser ignorados. Na Igreja moderna, todo santo tem realizado 2 milagres post mortem e muitos tiveram fama de taumaturgos [thauma = admirável e ergon = obra], entre eles fr. Escova, ou são Martin de Porres. CARISMAS DE CURA: Vemos como colocavam os doentes a fim de que à passagem de Pedro, ao menos a sua sombra caísse em algum deles (At. 5,15). É uma incoerência de certos teólogos modernos que, admitindo estes textos da Escritura, logo duvidam dos taumaturgos da idade Média ou Moderna, porque eles não são testemunhas dos milagres na época atual. Como dizia são Bento Cottolengo, Deus se acomoda aos nossos modos de pensar: obra de modo comum com aqueles que dele esperam coisas comuns e racionais e de forma extraordinária com os que dele esperam sua colaboração extraordinária.

AJUDA: o Antilëpsis é ajuda mútua, sendo apax neste versículo e é traduzido como ministério dos diáconos que tomam conta de doentes e pobres. Em 2 Mc. 15,17 encontramos que o Macabeu esperava que Deus viria em seu auxílio. E o latim traduz como socorro ou auxílio. Como vemos, esse dom é dos que poderíamos chamar modo humano, que tem em tempos modernos em Teresa de Calcutá uma expressão bem qualificada.

GOVERNO: o Kubernësis é o dom de saber governar, que também só sai unicamente neste versículo no NT. É também em grande parte um dom, modo humano, em que a eleição comunitária parece ser o totum essencial, mas que a intervenção divina se oculta em seus desígnios através da vontade humana, como aconteceu com os antigos presbíteros e hoje com os bispos da Igreja. Finalmente o dom de Línguas do qual temos dado suficiente notícia no domingo anterior.

CARISMAS INDIVIDUAIS: Por acaso são todos apóstolos ou todos  profetas , ou todos  mestres, ou todos poderes? (29). Ou todos têm carismas de cura ou todos falam línguas ou todos interpretam? (30). Nestes versículos, Paulo toma a alegoria do corpo para indicar que os carismas são como os membros do corpo: individuais e entre si não cambiáveis. A cada fiel é dado um carisma especial, fora de alguns como o próprio Paulo que de si mesmo dirá que tem o dom de línguas em maior degrau que todos os de Corinto (14,18) e que se declara apóstolo, que evangeliza em demonstração do Espírito e do poder de Deus (1 Cor 2,4).

padre Ignácio, dos padres escolápios

 

No ano C o evangelho a ser lido e meditado nos domingos comuns é o terceiro evangelho, atribuído a Lucas. Ao ler detalhadamente o terceiro evangelho, vemos que é fruto de um autor único e bem personalizado. Suas ideias sobre o Reino, o protagonismo das mulheres, a hegemonia da misericórdia como atributo especial de Jesus, o homem escolhido como enviado pelo Pai para salvar o que estava perdido como eram os gentios, a universalidade da mensagem evangélica, são notas características do mesmo. É o evangelho da humanização do divino, assim como o de João é o da divinização do humano. Por isso Lucas inicia seu evangelho com os fatos de uma infância não diferente da de cada ser humano, antes de narrar a missão de evangelizar os mais necessitados entre os humanos e João sobe como teólogo até a divindade onde encontra o Verbo, que se torna homem.

LUCAS: parece que o nome era uma abreviatura de lucanus assim como Silas é de Silanus. Nos dicionários não se encontra a tradução da palavra Loukas, que em grego, como Loukos, significaria Silva. Outros o derivam de Loukios, Lúcio, que significa nascido na aurora. Toda a tradição está conforme em acreditar que o autor, tanto do 3o evangelho como dos Atos, é Lucas, companheiro de Paulo e médico pessoal dele (Cl. 4,14). Como tal, devia ser um ex-escravo, um liberto, pois, no mundo romano, este serviço da medicina era impróprio para os homens livres. Dentre a classe dos Libertos [cidadãos (com plenos direitos, também chamados ingênuos), latinos junianos (com os diretos de jus connubium e jus commercium) e deditícios, (considerados como inimigos vencidos, que não podiam obter nunca a cidadania romana)] é provável que Lucas fosse dos últimos, dos deditícios [de rendidos em latim], dos que não tinham cidadania romana, e que como a palavra latina indica eram os que o amo remetia sem nenhum compromisso. Como sabemos, os libertos se destacaram em áreas do comércio, trabalhos manuais e banca. Fora os escravos, estavam no último degrau humano. Paulo o chama seu cooperador em Fm. 24. E é o único que o acompanha quando estava prisioneiro em Roma (2 Tm. 4,11). Parece ser o autor dos Atos que acompanha Paulo na sua 2a viagem (At. 16,26).

PREFÁCIO: Posto que muitos intentaram ordenar uma narração sobre os fatos plenamente realizados entre nós (1) como nos entregaram aqueles desde o início, testemunhas oculares e tornados servidores da palavra (2), pareceu também a mim, tendo acompanhado acuradamente desde o princípio, te escrever ordenadamente, ótimo Teófilo (3), para que conheças, sobre as palavras que ouvistes, a certidão. É o único dos evangelistas que traz um prólogo completamente literário e pessoal. Manifesta a intenção de escrever segundo o estilo dos historiadores greco-romanos da época. É antes de escritor, um investigador pelo qual seu relato tem a qualificação de verdadeiro, porque além de escrutar muitos testemunhos escritos que tem o caráter de fundamentar-se em testemunhas oculares dos fatos, de pessoas que se transformaram em apóstolos, pregadores da palavra, como era conhecido o evangelho no seu tempo. Por isso, Lucas [o tradicionalmente autor deste evangelho], após minuciosa investigação, pretende ordenar esses fatos com o fim de que Teófilo, o seu direto interlocutor possa conhecer com certeza a verdade do que tinha escutado pela palavra. Do ponto de vista literário é uma peça única. Temos outros dois textos parecidos em estilo e que não dependem de cópias anteriores mais ou menos recopiladas. São Lc 3,1 - 3 em que situa cronologicamente o início da pregação do Batista e com o qual começa o evangelho da vida pública de Jesus e o pequeno prólogo de Atos 1,1 - 2 como continuação do evangelho. O paralelo melhor ajustado ao prólogo de Lucas é o de Flávio Josefo dos seus dois livros Contra Apionem em que tem como objetivo instruir para que se conheça a verdade sobre nossa raça, citando para isso numerosos escritores fenícios, caldeus e egípcios. Lucas pertence à terceira geração cristã, pois ele não foi discípulo de Jesus, nem contemporâneo, e nem podemos chamá-lo de converso nos dias de Pentecostes. Ele reivindica três qualidades que o tornam confiável: integridade [muitos por todos], exatidão [acuradamente] e exaustividade [desde os inícios]. Além disso, escreve com método [ordenadamente]. Seu objetivo é a Asfaleia que podemos traduzir por solvência, garantia, e, em termos de verdade, certeza absoluta sem dúvida nenhuma. Os fatos narrados são tão fora do comum que suscitariam dúvidas com respeito a sua realidade. Lucas sai ao encontro dessas dúvidas e declara que tudo foi visto e, como tal, contado por testemunhas várias e não únicas,  de modo que a concordância entre elas no ministério público da palavra, é causa da certidão do que se escreve. Entre as muitas testemunhas os modernos citam Marcos, a fonte Q e uma fonte particular que chamam de L. Logicamente também depende de testemunhos orais como podemos supor eram os 2 primeiros capítulos, que alguns afirmam ser fruto, pelo menos em parte,  da memória da própria mãe de Jesus (Lc. 2,19 e 51). Literariamente, o prólogo está dividido em uma prótasis [primeira parte que abre o período] composta de três elementos: os fatos, os muitos que os testemunharam e a narração como palavra de Deus e uma apódosis [segunda parte que encerra o período] que também tem três elementos: a minuciosa investigação, a ordenada relação e finalmente a dedicação como indiscutível realidade ao seu destinatário Teófilo. TEÓFILO: O nome significa amigo de Deus, era um nome que muitos judeus na diáspora também poderiam usar. Não implica necessariamente que Teófilo seja o patronus de Lucas embora no mundo greco-romano tais patronos existissem, como Mecenas [daí o nome geral de mecenas] com Horácio, ou Ático com Cícero. A tradição fala de um personagem importante em Antioquia, que converteu sua casa em basílica e finalmente se transformou em bispo da cidade. Mas é muito posterior e parece lenda. Pode ser também que Teófilo seja um nome geral para todo aquele que busca a Deus, ou seja, é um amante de Deus ou adorador de Deus. Lucas repete o nome em Atos 1,1. O adjetivo (optimus latino) era aplicado unicamente aos senadores, os optimates dos tempos da república e do início do império. No caso, eram os governadores das diversas províncias, como vemos em At. 23,26 e 26,25 em que os optimates eram os procuradores Félix e Festo. Quem era Teófilo? Um magistrado principal de uma das cidades da Grécia ou Anatólia? Não sabemos. Alguns dizem que sob esse nome está todo cristão que é na realidade Teófilo (= que ama Deus). O importante é que o autor deste evangelho quer escrever a história de Jesus com critérios de autenticidade e verdade tanto quanto sua investigação e as fontes fidedignas o permitam.

GALILEIA: Então regressou Jesus na força do Espírito para a Galieia e uma reputação brotou em toda a região acerca dele (14). Jesus foi batizado num lugar no rio Jordão fora da Galileia. Por isso seu regresso.

NA FORÇA DO ESPÍRITO: Era o Espírito divino que desceu sobre ele no momento em que foi batizado (Lc. 3,21) e do qual estava pleno (Lc 4,1) que o impelia de modo a se tornar o motor de sua vida e o instigador de suas atuações. Por isso Lucas afirma que a força, que é propriamente poder, força, daí influência, impulso. Essa força lhe dava o poder de realizar milagres e de interpretar corretamente as Escrituras e os sinais dos tempos como modernamente se diz, fato que a maioria dos seus conterrâneos não sabiam distinguir (Mt. 16,3) e que confundia seus compatrícios (Mt. 13,54). Esse mesmo Espírito que levou Jesus ao deserto, o impele à Galileia, o norte da Palestina. Esse espírito de profecia do qual estava munido Miqueias cheio de juízo e força para declarar a Jacó a sua transgressão e a Israel o seu pecado (Mq. 3,8). Era a Galileia onde segundo Isaías (9,1 - 2) “nos últimos tempos tornará glorioso o caminho do mar (via maris) além do Jordão, Galileia dos gentios. O povo que andava em trevas viu uma grande luz”. Por isso, sua fama, a de Jesus, espalhou-se por toda a região. A via maris clássica, comercial ou de conquista, tinha dois braços: um perto da costa por Tiro , Aco e Meguido onde se unia o outro ramal vindo do lago Hule, Hasor e Cafarnaum, seguindo o rio Jordão. Esta via maris abrangia toda a atual Galileia nos seus dois ramais. A via regia prosseguia por Damasco, Ramot e Galaad pelo interior da atual Síria e Jordânia. Jesus ensinava nas sinagogas- logicamente aos sábados- e era louvado por todos os ouvintes. São termos gerais que admitem diversas interpretações. Como ensinava e qual era a base da sua doutrina será objeto dos seguintes parágrafos de Lucas, como por exemplo, da sinagoga de Nazaré.

A FAMA: Uma reputação favorável espalhou-se por toda a região. Logicamente esta reputação ou fama tinha uma causa, que Marcos aponta no primeiro milagre por ele narrado: Um novo ensinamento com autoridade! Até mesmo aos espíritos impuros dá ordens e eles obedecem. Imediatamente a sua fama se espalhou em todo lugar e em toda a redondeza da Galileia (Mc. 1,27 - 28). De modo que a fama não era só devida aos milagres, mas também ao ofício de Rabi ou Mestre. Seu ensinamento era novo, com autoridade e não como os doutores que se limitavam a citar os grandes mestres tradicionais, resumidos mais tarde na Mishná. Como uma consequência lógica, Lucas chamará Jesus de Mestre de modo preferente, como tradução de Rabbi ou Rabbouni.

A SINAGOGA: Assim ele ensinava nas sinagogas deles, sendo louvado por todos (15).

A) O NOME: Palavra sinagoga era de origem grega que já no AT era usada para designar a comunidade judaica,  especialmente se reunida com finalidade religiosa. Em hebraico é  Knesset (assembleia). É, pois o mesmo que Eklesia.

B) O EDIFÍCIO: Desse nome coletivo passou a indicar o edifício de reunião da assembleia. As sinagogas eram como sucursais do templo de Jerusalém com a finalidade de serem centro de reunião (Beit Knesset), casa de oração (Beit Tefilá) ou casa de estudo (Beit Midrash). Era um edifício quadrado ou retangular, com teto mantido por colunas. Havia um cemitério (guenizá= depósito) para os rolos e objetos sagrados sem uso. Um escrito que continha o nome de Deus não podia ser queimado nem destruído. Um armário de nome Aron Hakodesh (arca, a sagrada) em que se guardavam os rolos da lei e colocada sempre em direção ao templo de Jerusalém. Nos lados estavam os bancos para os assistentes e no meio deles o bima (estrado) ou plataforma elevada onde estava o púlpito (Al Mamor) para o dirigente das orações, leituras e cantos (Mt. 23,2). Este púlpito era semelhante aos das igrejas católicas com uma balaustrada ao redor do mesmo e um toldo de madeira sobre ele (Ver Ne 8,4 - 5). As mulheres estavam separadas por grades ou ocupavam galerias superiores. As lâmpadas, além de razões práticas, eram símbolos da presença de Jahvé; e por isso, uma lâmpada perpétua (Ner Tamid) sempre ardia diante da Aron haKodesh à semelhança da lâmpada do sacrário, e dois castiçais acompanhavam o leitor da Torá no bima.

C) FUNÇÃO: A inscrição de Teódoto explica a sua função: o da leitura da Lei e o ensino dos mandamentos. Também se reuniam ali, no segundo e quinto dia da semana, para ouvir a leitura das Escrituras. Para que houvesse uma sinagoga independente eram necessários 10 adultos ou Minyan, maiores de 13 anos. Escolhia-se um chefe de sinagoga, que dirigia o grupo e mantinha a ordem nos cultos (Lc 13, 14), ou convidava um visitante a pregar (Lc. 4,14). O culto iniciava-se, ao que parece, com o canto de um salmo pelo Hazan, cantor ou oficiante. Um dos membros da sinagoga, provavelmente o assistente, é quem dirigia a oração, consistente na leitura do Kedushá ou triplo Kadosh (santo ou consagrado) que nos sábados recebia o nome de Kedushá Rabá (grande kedushá) que incluía Dt. 6,4 - 9 (o Shemá) 11,16 - 21 (conselho de como devem estar presentes na vida as palavras da Shemá) e Nm 15,37 - 41 (complementos do anterior). Depois eram recitadas as 18 bênções (Shemoné Esré) pelo Ba’al Tefilá (chefe das orações). Logo seguia a oração do Kadish (consagração) que era recitado antes dos Shemoné e ao terminar o estudo de uma Parashá. O Kadish começa com: “Seja o seu grande nome exaltado e santificado”. E no fim, após a última bênção: “Ele com sua misericórdia conceda a paz sobre nós e sobre todo o seu povo de Israel”. Os familiares dos mortos durante o ano podiam acrescentar ao Kadish comum o Kadish dos órfãos; por isso erroneamente o Kadish é apelidado de reza dos mortos. O povo permanecia de pé e respondia Amém quando terminava cada uma das estrofes. Imediatamente lia-se o Parashá ( parágrafo correspondente da Torá) pelo Baal Coré. A leitura da Lei era feita por diversos assistentes, oito no total, chamados Olim, que seguia uma ordem constante: sacerdote, levita e outros, cada um lendo um trecho correspondente a 15 versículos atuais aproximadamente. O último leitor era o Maftir (finalizador). Para se ter uma boa ideia veremos o exemplo do Gênesis: os 7 primeiros leitores leem desde o I,1 até V, 5. Aqui entra o Maftir para ler até V, 9. Esta seção recebe o nome de Parashá (para os sefarditas, de origem espanhola) e Sidra (para os azkenazis de origem russa). Antes da leitura da Lei e depois do correspondente Parashá recitava-se uma ação de graças como Bendito o Eterno que é bendito para sempre…por nos teres dado a Torá. Alguns autores afirmam que o Kadish era recitado também após a leitura da correspondente Parashá. Na leitura da Torá o leitor, acompanhado por dois assistentes, pronunciava em voz baixa o texto hebraico e o ajudante recitava em voz alta o expressado em aramaico (Mt. 10,27); daí a necessidade dos targuns ou traduções simultâneas. Após a leitura da Torá, era escolhido um texto da Haftará correspondente, ou seja, de um dos Neviim (profetas). Para a sua interpretação era chamado ou um jovem estudioso, ou um novo convidado. Foi o caso de Jesus em Nazaré. O serviço terminava com a bênção do presidente da assembleia e a bênção sacerdotal de Nm. 6,24 - 26.

NAZARÉ: E veio a Nazaré onde tinha sido criado e entrou segundo ele tinha costume no dia de sábado na sinagoga e se levantou para ler (16).

NAZARÉ: Restos de silos, cisternas e moinhos, permitem afirmar que era uma aldeia habitada na Idade do Ferro (900 - 550 a.C.). Fora do Novo testamento não existem registros nem referências a aldeia onde Jesus cresceu. Nem o Talmud que cita 63 localidades, nem S Paulo.  As evidências arqueológicas indicam que no século I era uma pequena aldeia agrícola, situada na ladeira de uma montanha, com duas ou três dúzias de famílias. As casas estavam agrupadas no extremo sul da colina e usualmente tinham uma parte de alvenaria que era usada para as habitações, encostada a uma ou várias grutas naturais. Escavadas na rocha que utilizavam como depósitos. O nome de Nazaré possivelmente deriva de natser, (transcrito Nazer). Diferentes derivados deste vocábulo usam-se no livro de Isaías como alusão messiânica e são traduzidas por brôto, vergôntea, galho, flor, ou rebento. Também como verbo no sentido de vigiar, guardar, observar, defender, rodear, preservar [do perigo] ou esconder [refugiar]. Este último significado poderia deduzir-se de Is. 65,4 que corresponde àqueles que vivem entre tumbas, pois perto de Nazaré e sob o atual casco urbano estava um cemitério muito antigo, fato que se relaciona com a atitude da Sagrada Família que foi ali para se esconder de Arquelau, e assim se cumpriu o que tinha dito pelos profetas que seria chamado Nazareno (Mt. 2,22 - 23). A aldeia é identificada desde o século IV e se construiu uma igreja, tipo sinagoga, para comemorar a Anunciação e acolher os peregrinos que deixaram seus grafitos nas paredes. A monja Egéria visitou Nazaré em 383 e viu uma grande e esplêndida gruta na qual viveu Maria e na qual encontrou um altar. Em 570 os bizantinos construíram uma basílica onde, segundo testemunhos contemporâneos, haviam muitas curas.

PARA  LER: A leitura final era um trecho dos neviim [profetas] e Jesus, como invitado, foi convidado para interpretar o texto lido, como veremos na continuação.

A LEITURA: Então foi-lhe dado um livro do profeta Isaías e tendo desenrolado o livro encontrou o lugar onde estava escrito (17): Espírito do Senhor sobre mim pelo qual me ungiu para evangelizar mendigos; me enviou (para) curar os desalentados no coração,[....] anunciar (aos) cativos remissão, e (aos) cegos restauração da visão, enviar oprimidos em liberdade (18). O trecho responde a Isaías 60, 1. O texto dos setenta coincide exatamente com o texto de Lucas com uma exceção: No texto de Lucas, falta a frase do original de Isaías a curar [propriamente vendar] os quebrantados de coração entre curar os desalentados de coração e anunciar aos cativos remissão, que temos deixado entre [...]. Também falta no texto de Isaías 61,1 a frase final do 18 de Lucas: enviar oprimidos em liberdade. Esta última frase está tomada no final de Is. 58,6. Vamos primeiro falar das diversas traduções de Isaías: A) Grega: a palavra ptôchós significa originalmente mendigos, porém é a tradução de`anav, que significa pobre ou indefeso, aflito ou sem recursos.  A outra palavra que também merece atenção é cegos, tuflois que não tem outro significado a não ser pessoa que não vê. O texto massorético não fala de cegos, mas de cativos. Por que a tradução de cegos? Por uma simples razão: o encerrado no xadrez estava como cego sem ver a luz  e por isso declara restaurar a visão ( temos preferido a restaurar a vista, como se esta tivesse sido perdida). A esses cativos o profeta promete a libertação. E como confirmação, na segunda parte do verso, vemos como o profeta fala de por em liberdade os os algemados

B) A Vulgata: Os ptochoi são mansueti [mansos] mantém os cativos, nada de cegos, e finalmente fala de clausi para os que temos chamado de algemados. C) Textos vernáculos: RA: quebrantados, cativos e algemados. O texto inglês moderno usa poor, captives e prisoners, palavras usadas também pela bíblia de Jerusalém. Como vemos os cegos é uma adaptação do evangelista para acoplar o verbo restituir a visão, fato que era uma realidade nas masmorras antigas em que a falta de luz era total. Antes de comentar o texto, vamos também ver o final da citação, que está suprimida.

FINAL: Pregar um ano do Senhor aceitável (19). Falta uma parte da citação do profeta, que a Vulgata reproduz fielmente: é o dia da retribuição, ou pagamento que no texto massorético deve ser lido como dia da vingança. Além dessa carência temos no texto grego de Isaías a frase: para consolar todos os que choram. Como vemos, a citação está bastante manipulada, se é permitida a palavra, para a intenção final de apontar Jesus como o Enviado e Ungido do Senhor. Indiretamente os humilhados, os amedrontados, os faltos de esperança, e os que se consideravam calcados e confrangidos pelos poderes fáticos superiores, são os sujeitos de uma esperança que constitui o ano de graça ou sabático do Senhor. Era o Shemitá ou também podia ser o Yovel. À parte do Shabat, o sétimo dia de descanso semanal, Deus ordenou outro tipo de Shabat: A cada sete anos a terra de Israel [eretz Israel] terá um descanso, um shabat para Javé (Lv. 25,4). Nesse ano, a terra ficava em repouso. Era o SHEMITÁ, que significa “deixar livre” ou “retirar-se”. Durante o shemitá os agricultores de Israel não trabalham a terra. As razões, explicam os sábios, são três:

1) O sustento que provém da terra não nasce da terra, nem da fortuna acumulada do homem, mas da mão de Deus Criador. Por isso Javé ordenou ao povo a mitzvá do Shemitá.

2) Deus também desejava que o ano de Shemitá, de inatividade do trabalho, permitisse que os agricultores pudessem se dedicar mais ao estudo da Torá.

3) A terra é considerada como um ser vivo que merece descanso, pois caso este não seja dado, Javé diz, que serás exilado, e ela então será recompensada de todos os anos de descanso dos quais a privaste.

As três promessas do Senhor pela observância da mitzvá do Shemitá:

1) Javé prometeu que a colheita do ano anterior do Shemitá duraria três anos (Lv .25,21).

2) que durante o ano do Shemitá ficarão satisfeitos, apesar de comerem pequenas quantidades de alimento. Por isso sua produção agrícola durará (Lv. 25,6).

3) Finalmente, se guardarem tanto os anos de Shemitá como os de Yovel (Jubileu), estarão seguros em Israel. Porém se não observarem nem Shemitá, nem Yovel, seus inimigos os forçarão ao exílio (Lv. 26,6 - 8). YOVEL: Yovel vem do verbo hebraico trazer de volta (a palavra Jubileu deriva-se desta palavra hebraica; o v e o b não se distinguem em geral nas pronúncias hebraicas). O toque do shofar [trombeta de chifre de carneiro] precede o Yovel. Eis um comentário de um rabi moderno: Hashem [O Nome, no lugar de Javé] nos tem recomendado contar desde Pashá [Páscoa] sete vezes sete dias ou quarenta e nove dias, até chegar ao dia cinqüenta que é Shavout [nosso Pentecostes]. Sete vezes sete ou 49 dias são os que se contam entre Páscoa e Shavuot [Pentecostes], ou entre a liberação e a promulgação da Lei, do novo Pacto. Aí começa o dia cinquenta. O número oito nas Escrituras é o número de novos começos. O número oito nas Escrituras mostra o final de uma era milenária, a nova Yerushalayim (o Santo Jerusalém) e a vinda do novo céu e a nova terra, tal como o sistema de sacrifício apontou na antiga Yisrael ao Mashiach (Messias). Bom, o Yovel é também um novo começo. Cada Israelita vendido à escravidão era liberado no ano Yovel. Toda propriedade comprada e vendida anteriormente a Yovel era regressada a seu dono original e todas as dívidas eram canceladas. Em outras palavras, tudo regressa ao seu dono original, a forma em que deviam de ser. Todas as coisas foram feitas novas durante o ano Yovel e o ciclo começa novamente. O ano Yovel, portanto, nos indica o ponto do tempo do futuro. Assim, continua o nosso Rabi, estas ideias concretizam o discurso de Jesus como um começo, um perdão e uma novidade em que Hashem estava anunciando por seu Ungido a nova era de salvação em todos os sentidos. Por isso é importante, devido às conotações bíblicas, saber que o toque do shofar anunciador do Yovel também será um dia que escutaremos como magnífico toque do shofar, que anunciará a vinda de Mashiach, anunciando nossa liberdade (Mt. 24,31 e 1 Ts. 4,16). Este som será o início da verdadeira liberdade para o povo judeu. Mashiach [o messias] virá e construirá o Terceiro Templo Sagrado. Hashem libertará o mundo da morte e da má inclinação. A ressurreição dos mortos será realidade, e viveremos para sempre. Rezemos diariamente a oração da Amidá [principal oração de súplica hebraica] para que isto aconteça logo. Eis a oração de súplica de um rabi católico para isso acontecer: Avinu Malkeinu (Nosso Pai e Rei) perdoa-me. Necessito de ti. Eu confesso que tenho pecado e que não tenho sido santo, porque Tu és santo. Obrigado por permitir que Teu Servo, Yeshua HaMashiach tome meus pecados  sobre Si e pague o preço da morte por mim. Pela morte do Mashiach e pela redenção, posso certamente conhecer-te de maneira real e pessoal. Agora coloco minha fé no Mashiach Yeshua como meu único Senhor e Salvador e o convido ao meu coração e à minha vida. Modifica-me e converte-me em teu especial tesouro. Amém. Atualmente não se celebra o Yovel.

EXPECTAÇÃO: Depois, tendo enrolado o livro, entregado ao servente, sentou-se; e os olhos de todos na sinagoga estavam fitos nele (20). O ato de sentar-se era próprio dos rabinos da época. A leitura da Escritura se fazia de pé. Mas a exegese ou comentário eram feitos com o mestre sentado em sua cátedra. A expectativa estava em todos os presentes. Qual seria o comentário que Jesus, que já tinha falado em diversas sinagogas da Galileia, faria dessa profecia de Isaías, que todos contemplavam como sendo messiânica?

CUMPRIMENTO: Começou, pois, a dizer diante deles: Hoje está cumprida esta escritura em vossos ouvidos (21) Como temos observado num comentário anterior, existia uma tradição bastante espalhada entre o povo e que nesse tempo um Ungido devia iniciar um tempo de salvação como se fosse um Yovel extraordinário. Evidentemente Lucas usa o texto grego dos setenta, Is. 60,1 - 2: A tradução seria: “Espírito do Senhor sobre mim, pelo qual me ungiu para evangelizar os pobres, enviou-me a curar os quebrantados de coração, a pregar libertação aos cativos, a libertação aos que estão presos, a convocar o ano aceitável do Senhor e o dia da vingança, a consolar todos os que choram.” Porém o texto hebraico, ao qual segue a Vulgata e os modernos, não traz a palavra pobres, mas Anawim. O pobre era Dal e o Anaw significava o manso, o humilde, como Moisés é descrito (Nm. 12,3). A distinção entre as duas palavras está em Pr. 22,22: Não roubes o pobre porque é pobre; nem oprimas em juízo o aflito. Traduzir anawin por pobres é uma inexatidão. E foi precisamente neste trecho de Lucas em que se apoiaram certos estudiosos para sobreestimar sua reflexão teológica. No texto hebraico não são nomeados os cegos, que por outra parte saem em texto paralelo do mesmo profeta: Eu te pus como luz das nações, a fim de abrir os olhos dos cegos, a fim de soltar do cárcere os presos, e da prisão os que habitam nas trevas (42,6 - 7). Como vemos, são termos metafóricos de uma situação de exílio que se compara a uma prisão escura em que os reclusos estão algemados com ferros nos pés e mãos, em masmorras sem luz. Como sinal dos novos tempos, os cegos serão usados por Lucas (Lc 7,22 e 14,13.21). Por outra parte, Lucas termina sua citação com o ano do Senhor: ano sabático de perdão em todos os níveis. Nada diz sobre o dia da vingança, que relembra o dia do Senhor de Joel (2,31), de modo que os novos tempos serão de bênção para uns e de terrível castigo para outros.

PISTAS

1) As palavras da introdução dão uma segurança da verdade evangélica enquanto cuidadosamente investigada e transmitida por testemunhas oculares. Ainda viviam e podiam referendar a veracidade de Lucas com seu aval.

2) Uma ideia preconcebida pode ser causa de uma péssima interpretação da Escritura. Lucas quer indicar duas coisas com esta narração: uma era nova de perdão (ano jubilar) e Jesus como seu arauto, porque estava possuído do Espírito como foi no seu tempo Isaías.

3) Logicamente esse é o Espírito predominante no Evangelho que por isso é chamado de Boa Nova e evangelho da misericórdia. Deus oferece seu amor e seu perdão e é aí onde encontramos a paz e a salvação.

4) Argumentar do trecho de Isaías, comentado por Jesus na sinagoga de Nazaré, que os pobres economicamente são o objeto direto da evangelização não tem base na Escritura. Pobres [aflitos] no sentido de Isaías eram os judeus exilados que estavam, como cativos, de ânimo abatido [desalentados de coração] aos quais promete a libertação [anunciar aos cativos remissão, enviar oprimidos em liberdade]. Temos colocado entre colchetes os termos da tradução grega correspondentes. Também temos explicado a frase aos cegos restauração da visão. A conclusão lógica é que os conterrâneos de Jesus estavam também numa situação de cativeiro: só que era um cativeiro espiritual, cuja causa era o pecado e cujo opressor era o maligno, e não para libertar os maiores cativos da época que eram os escravos.

padre Ignácio, dos padres escolápios

 

Palavra que transforma

No 3º domingo do tempo comum tem início a proclamação do Evangelho segundo Lucas, que vai inspirar a liturgia dominical do ano C.

A primeira leitura (Ne. 8,2 – 10) apresenta a proclamação solene da Lei, feita em Jerusalém; narra com grande emoção o regresso do Povo escolhido para a Judéia depois de tantos anos de desterro na Babilônia.

A leitura da Lei abre com a “benção” do sacerdote, à qual o povo responde prostrado de rosto por terra (Ne. 8,6); prossegue a leitura desde o amanhecer até o meio dia, e todos de pé ouviam a leitura com atenção e o povo inteiro chorava. O choro é uma expressão de arrependimento das próprias culpas, vindas à luz pela leitura ouvida com atenção. É um pranto em que se misturam, naqueles homens, a alegria de reconhecerem novamente a Lei de Deus e a tristeza de perceberem que o seu antigo esquecimento da Lei tinha sido a causa do desterro. Ao final a proclamação feliz: “Este é o dia consagrado ao Senhor… não fiqueis tristes, porque a alegria do Senhor é a vossa força.” (Ne. 8,10) . Em resumo, estão indicadas as disposições necessárias para ouvir a Palavra de Deus: respeito, atenção, confrontação da própria vida com o texto sagrado, arrependimento dos pecados e a alegria por ter descoberto, mais uma vez, a vontade de Deus expressa na Lei.

O Evangelho (Lc. 1,1 – 4; 4,14 – 21) apresenta outra forma, muito mais solene, de proclamar a Palavra. Como bom judeu, Jesus entra na sinagoga de Nazaré, no dia de sábado, abre o livro de Isaías e lê a passagem referente à sua missão: “O Espírito do Senhor está sobre Mim, porque Ele Me ungiu. Enviou-me a anunciar a Boa Nova aos pobres” (Lc. 4,18). Esta profecia agora pode ser lida na primeira pessoa com Jesus que a aplica diretamente a Si mesmo. Somente Ele pode dizer, após a leitura: “Cumpriu-se hoje mesmo esta passagem da Escritura…” (Lc. 4,21). Cristo é o cumprimento da palavra lida, Ele é a palavra eterna do Pai; é o Verbo que se fez carne e habita entre nós.Também hoje Cristo está presente pela sua palavra, pois é Ele mesmo que fala quando se lêem as Sagradas Escrituras na Igreja” (Cf. SC. nº 7). Quem ouvir com espírito de fé a Sagrada Escritura, encontra-se sempre com Jesus de Nazaré; e cada um destes encontros marca uma nova etapa na sua salvação.

Seria muito difícil amar a Cristo, conhecê-Lo de verdade, se não se escutasse frequentemente a Palavra de Deus, se não se lesse o Evangelho com atenção, todos os dias. Essa leitura alimenta a nossa piedade; bastam cinco minutos diários. “Ignorar a Escritura é ignorar a Cristo” dizia são Jerônimo. Não podemos arriscar-nos a esquecer a Lei de Deus, a permitir que os ensinamentos do Evangelho estejam em nós como verdades inoperantes, ou conhecidas apenas superficialmente. O grande inimigo de Deus no mundo é a ignorância, “que é a causa e a raiz de todos os males que envenenam os povos e perturbam muitas almas” (papa João XXIII).

A ignorância do conteúdo da fé significa geralmente falta de fé, desleixo, desamor: “Frequentemente, a ignorância é filha da preguiça”, diz são Crisóstomo.

Diz santo Agostinho: “Devemos ouvir o Evangelho como se o Senhor estivesse presente e nos falasse… As mesmas palavras que saíam da boca do Senhor foram escritas, guardadas e conservadas para nós.”

Nunca devemos considerar-nos suficientemente formados, nunca devemos conformar-nos com o conhecimento de Jesus Cristo e dos seus ensinamentos que já possuímos. O amor pede que se conheçam sempre mais coisas da pessoa amada. Na vida profissional, um médico, um arquiteto, um professor, um advogado, se querem ser bons profissionais, nunca dão por concluídos os seus estudos ao saírem da faculdade; estão sempre em contínua formação. Com o cristão acontece o mesmo. Pode-se aplicar-lhe também aquela frase de santo Agostinho: “Disseste basta? Pereceste.”

Somos instrumentos nas mãos de Deus, a qualidade do instrumento pode melhorar, desenvolver novas possibilidades; todos os dias podemos amar um pouco mais e ser mais exemplares, mais virtuosos.

Possamos cuidar cada vez mais de nossa formação permanente. Nunca deixemos de fazer e leitura diária da Bíblia, como também sejamos convictos da importância transcendental da prática da leitura espiritual. Assim possamos fazer jus ao que recomenda o apóstolo Pedro: “Estais sempre prontos para dar a razão de vossa esperança a todo aquele que vo-la pedir” (1 Pd. 3,15).

mons. José Maria Pereira

 

Os Evangelhos são históricos

Esta afirmação está de acordo com o que acabamos de escutar: “muitos empreenderam compor uma história dos acontecimentos (…) Também a mim me pareceu bem, depois de haver diligentemente investigado tudo desde o princípio, escrevê-los para ti” (Lc. 1,1 - 3). Contudo, os últimos dois séculos presenciaram uma reação, especialmente dentro protestantismo, contra a historicidade dos Evangelhos.

A Igreja católica, no Concilio Vaticano II, reafirmou que os Evangelhos são históricos (cf. Constituição Dogmática Dei Verbum, nº 19). E, no entanto, não se deve entender a historicidade dos Evangelhos como uma espécie de crônicas sobre Jesus. Em primeiro lugar, Jesus não deixou nenhum só livro escrito, ele não quis escrever, quis viver e anunciar a vontade do Pai. Em segundo lugar, os apóstolos também não tinham como preocupação primordial escrever livros que contassem a vida de Jesus, eles deviam pregar o nome de Jesus para que todos fossem discípulos. Em terceiro lugar, segundo muitos estudiosos da Bíblia, os Evangelhos foram escritos entre os anos 60 e 90.

O Evangelho escrito segundo cada um dos quatro evangelistas transmite a pregação dos apóstolos sobre Jesus. “Os autores sagrados, porém, escreveram os quatro Evangelhos, escolhendo algumas coisas entre as muitas transmitidas por palavra ou por escrito, sintetizando umas, desenvolvendo outras, segundo o estado das igrejas, conservando, finalmente, o caráter de pregação, mas sempre de maneira a comunicar-nos coisas autênticas e verdadeiras acerca de Jesus” (DV 19).

Tudo isso não nos deve escandalizar! Os evangelistas eram pessoas normais que foram movidos a colocar por escrito as ações e os ensinamentos de Jesus Cristo numas circunstâncias concretas, a umas determinadas pessoas, com as limitações e vantagens de uma determinada língua, com a preocupação de que o seu relato resultasse inteligível. A inspiração da Sagrada Escritura não é uma espécie de ditado sagrado no qual o Espírito Santo inspirava as palavras exatas ao autor que as colocava por escrito tais quais, como se o hagiógrafo estivesse num êxtase constante ao escrever. O mesmo são Lucas diz no começo seu relato que ele fez uma investigação diligente dos acontecimentos. A essa investigação diligente, acrescente-se que na época em que os evangelhos foram escritos, a Igreja já tinha uma compreensão muito mais desenvolvida do Mistério de Cristo. Lembremo-nos das palavras do próprio Jesus Cristo: “muitas coisas ainda tenho a dizer-vos, mas não as podeis suportar agora. Quando vier o Paráclito, o Espírito da verdade, ensinar-vos-á toda a verdade” (Jo. 16,12 - 13). A compreensão do que Jesus nos deixou cresce na vida e no ensinamento da Igreja, máxime se pensamos no tempo apostólico, no qual a revelação pública ainda estava acontecendo.

Em conclusão, os Evangelhos transmitem a pregação apostólica, a qual leva consigo não só os fatos da vida de Cristo, mas a interpretação que os apóstolos fizeram desses fatos à luz do Espírito Santo. Os evangelhos, portanto, são históricos com uma historicidade peculiar. Para compreender essa historicidade peculiar será necessário ter presente não só os acontecimentos da vida de Jesus Cristo, sua obra e suas palavras, mas também a compreensão que os apóstolos, guiados pelo Espírito Santo, tiveram do Mistério de Cristo e colocaram por escrito ou permitiram que outros a escrevessem (Lucas e Marcos não são apóstolos, por exemplo). Assim como se diz que o autor da Sagrada Escritura é Deus como causa principal e que os autores da Sagrada Escritura são os escritores sagrados (hagiógrafos) como causas segundas ou instrumentais, da mesma maneira se pode dizer do único Evangelho ou segundo Mateus ou segundo Marcos ou segundo Lucas ou segundo João.

padre Françoá Rodrigues Figueiredo Costa

 

Quem ouve a primeira leitura do domingo pode ficar um pouco desconcertado. Porque decretam um dia de festa depois de lerem o Livro da Lei? Não era a leitura da Lei em si algo frequente no povo judeu? Temos de entender que esta cena se deu depois do retorno do exílio em Babilônia. Uns 70 ou 80 anos antes, praticamente toda a população da Judeia tinha sido levado para Babilônia, por obra de Nabucodonosor. Tratava-se de um castigo, pois tinham-se rebelado contra este soberano, sendo que os judeus eram os seus vassalos.

Sucedeu ao império babilônico o dos persas, os quais, por serem mais respeitosos dos diversos povos do seu império, permitiram ao povo judeu retornar à sua pátria. No entanto, por causa de todas estas vicissitudes, o Templo tinha sido destruído e o livro da Lei perdido. A primeira leitura mostra-nos uma assembleia solene e festiva que se constituiu, porque o Livro da Lei foi encontrado de novo entre os restos do Templo. Podem imaginar o fervor com que as pessoas ouviam de novo a Lei que lhes tinha sido dada por Moisés no Sinai. Esta lei, que Deus lhes comunicara havia já séculos, depois de liberá-los do Egito, e que tinha animado a vida desse povo, voltava agora às suas mãos. Por isso, entende-se a exclamação dos levitas depois de a lerem: “hoje é um dia consagrado ao Senhor vosso Deus, não vos entristeçais nem choreis”.

Uma comoção ainda maior devia ter animado o povo de Nazareth, quando reunido em oração, ouviram Nosso Senhor ler-lhes uma passagem do livro de Isaías. Ponhamo-nos de novo em contexto. Jesus saiu de Nazareth como um “Zé ninguém”, como um membro mais desta aldeia insignificante, perdida no meio de uma região igualmente insignificante do Império romano: a Galileia. Mas eis que depois do seu batismo e a partir das bodas de Caná começa a realizar milagres impressionantes. Expulsa demônios com uma autoridade jamais vista. Bastava uma palavra da sua boca. A força da sua palavra é igualmente capaz de curar qualquer doença. Como se isso fosse pouco, a doutrina que sai dos seus lábios maravilha as multidões. É alguém que toca o mais profundo dos corações e que expõe sem vacilar.

Sim, Jesus não vacila quando fala, porque Ele é a Lei em pessoa. Essa Lei maravilhosa (os preceitos dos dez mandamentos, sobretudo), mais sábia que a de todos os outros povos, como cantam os salmos, não consiste simplesmente em letras escritas sobre um pergaminho. É uma Pessoa viva, é Cristo, porque Ele é a Vontade de Deus encarnada. Agora quando o homem quer saber o que tem de fazer na vida, não tem diante dos olhos um conjunto de preceitos frios: tem alguém. Por isso, a emoção em Nazareth devia ter sido infinitamente maior que a comoção experimentada em Jerusalém, quando acharam de novo a Lei. Depois de milhares e milhares de anos de espera, a Lei aparece em Pessoa, com rosto de homem, com rosto que ama. Ora bem, sabemos que Cristo a reação não foi de entusiasmo, nem sequer de cordialidade. Cristo foi expulso da sinagoga de forma humilhante, e quase morria pois o queriam lançar por um despenhadeiro. Mas escapou milagrosamente, dado que não chegara ainda a sua hora, a hora em a Lei encarnada do amor devia dar o testemunho supremo e vivo do amor.

Também sabemos que o júbilo do povo em Jerusalém, ao ouvirem de novo a Lei, durou pouco. Nunca conseguiram realmente vivê-la. As suas almas entusiasmadas ao início, esfriaram-se de novo. A ganância foi ganhando de novo terreno, assim como os vícios e os cultos aos falsos deuses, pois parecia ser mais vantajoso obter favores deles, dado que não eram tão exigentes como Yahwé. Porquê, se essa Lei era tão boa? É que ninguém dá a vida por uma Lei, por mais boa que seja. Podemos amar e respeitar uma lei, mas até certo ponto. O que nos realmente amamos são as pessoas. Claro, o povo também amava o seu Yahwé, que os tinha salvado do Egito e de tantas dificuldades, mas onde estava Yahwé? Quem o podia tocar? No Templo de Jerusalém podia dar-se, de algum modo, um encontro entre o povo e Deus, mas era algo ainda demasiado frio. No fim de contas, o que tinham diante dos olhos era esta Lei exigente…mas essa Lei, por ser “tinta sobre papel” não lhes entrava no coração.

Só Cristo, Lei viva, exemplo imensamente amável do que Deus quer de nós, pode penetrar até ao mais profundo das entranhas. Somente com Ele, a Lei podia tornar-se interior e podíamos segui-la por puro amor e não por simples dever. Essa é uma das facetas da grandíssima transformação que trouxe Cristo ao mundo. Por isso, Ele pode afirmar, com toda a verdade, aos Nazarenos que hoje se tinha cumprido esta profecia: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque Ele me ungiu para anunciar a boa nova aos pobres. Ele me enviou a proclamar a redenção dos cativos e a vista aos cegos, a restituir a liberdade aos oprimidos…”

Sim, Cristo liberou-nos deste peso imenso, deste divórcio sistemático nas nossas vidas entre consciência e coração, entre dever e amor, entre a Lei e o impulso da nossa afetividade. Como faz sofrer saber bem o que se tem de fazer e dar-se conta de que não se é capaz de o alcançar. Talvez alguém poderá dizer: “não sinto que Cristo me tenha liberado deste peso. Há anos que frequento a Igreja, que vou à missa aos domingos, que faço orações todos os dias e, no entanto, sinto-me incapaz de cumprir a sua Vontade”

Mas não vemos são Paulo exclamar: “Não sou mais eu que vivo mas Cristo que vive em mim?” Esta Lei maravilhosa, Cristo, é-lhe interior e então é capaz de cumpri-la. Muitos fizeram e fazem esta experiência. Claro: há graus e graus de perfeição e todos temos de melhorar, mas também, com certa frequência, encontram-se cristãos realizados, profundamente reconciliados com Deus e consigo mesmos. Precisamente porque Cristo vive neles e resplandece através deles. O exemplo de Santa Teresa do Menino Jesus é extraordinário. Durante anos foi vítima de uma hipersensibilidade. Chorava “por um sim ou por um não”. Qualquer palavra menos delicada arrancava-lhe rios de lágrimas. Mas ela rezava, segura de que Deus a salvaria deste estado penoso de excessivo amor-próprio. Claro: ela não era capaz de sair disso. O amor-próprio é invencível para o homem, porque até mesmo quando quer sair dele, fá-lo outra vez por amor-próprio. Mas Teresa confiou durante anos. Lutou. E finalmente no dia do Natal, voltando da missa do galo, Deus concedeu-lhe esta graça. O Menino Jesus tinha-lhe nascido com nova força no coração. A Lei do amor, do esquecer-se de si mesmo para pensar nos outros, era-lhe plenamente interior. “E então”, diz ela, “a partir desta data, os meus passos em direção à santidade foram gigantescos”.

Ser cristão, seguir os mandamentos da Igreja, todos eles sem exceções, não é, na verdade, um peso. Porque o amor não pesa. Porque o que a Igreja nos pede é ser como Cristo, com a nossa missão e vocação própria, está claro. E se pela oração, pela fé, pela confiança perseverante, esse Deus que já se encarnou, se encarna, de algum modo, de novo no nosso coração, claro que será fácil e até gozoso seguir a Lei de Deus! Se Deus nos pede o que nos pede, não é para nos tornar infelizes. Ele é o Pai! Pai, como ninguém o é. Cristo em nós é a chave e o único caminho para seguir esta lei que é ser como Cristo. Só Cristo pode levar-nos a ser como Cristo, obviamente. O que às vezes acontece é que queremos ser como Cristo mas através das nossas forças. Um cristianismo vivido assim, só pode ser frustrante. Mas não nos desesperemos. Temos Cristo conosco sempre que estamos dispostos a abrir-lhe o coração reconhecendo o pouco que somos. Assim, o desespero não pode ter lugar num cristão que não tem somente um exército a lutar por ele no Céu (como diz o salmo 55), mas Deus mesmo, e ainda por cima crucificado.

padre Antoine Coelho, LC

 

Há três aspectos na liturgia da Palavra de hoje dignos de particular atenção.

Primeiro. O evangelho apresenta-nos o início da obra de Lucas. Aí tem-se uma dedicatória e uma apresentação da obra a um certo “Teófilo”. E Lucas afirma expressamente que “após um estudo cuidadoso de tudo o que aconteceu desde o princípio, também eu decidi escrever de modo ordenado para ti… Deste modo poderás verificar a solidez dos ensinamentos que recebeste”. Estas palavras nos revelam a seriedade do testemunho dos evangelhos. Não são fábulas, não são delírios! São, isto sim, um testemunho de fé! Testemunho de quem crê, de quem tem razões para crer e querem fazer com que outros creiam e creiam com razão profunda!

Num mundo de tantas verdades, de tantas mentirinhas, de tantas seitas, lendas e mitos… Num mundo que virou um enorme coquetel de religiões, onde cada um faz a sua, na sua medida e do seu modo, na proporção e no gosto do seu comodismo, é preciso recordar que somente em Cristo Deus revelou-se plenamente; somente Cristo é a Verdade do Pai; somente ele, o Caminho para Deus; somente nele, a Vida em abundância! Mas, ainda aqui, é preciso dizer mais, por mais chato que possa parecer! Cristo é o único Caminho, Verdade e Vida… mas não qualquer Cristo! Não um Cristo inventado, não um Cristo “meu”, do meu tamanho e do meu gosto! O Cristo que o Pai revelou, o Cristo vivo e atuante, é aquele presente na Palavra guardada, pregada e testemunhada pela Igreja com a assistência do Espírito Santo; é aquele que se dá nos sacramentos da Igreja; é aquele presente na Igreja que no Credo professamos como sendo única, católica e apostólica. Num mundo de tantas dúvidas, Cristo presente na sua Igreja católica seja a nossa certeza, a nossa segurança, o nosso rochedo!

Um segundo aspecto. Ainda o evangelho de hoje, nos apresenta Jesus na sinagoga de Nazaré: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me consagrou com a unção”. Quando deu-se esta consagração? No batismo às margens do rio Jordão. Há quinze dias meditávamos sobre este mistério: o Pai, o Senhor, ungiu Jesus com o Espírito Santo como Messias de Israel. E qual a sua missão? “consagrou-me com a unção para anunciar a Boa-nova aos pobres; enviou-me para proclamar a libertação aos cativos e aos cegos a recuperação da vista, para libertar os oprimidos e para proclamar um ano da graça do Senhor”. Eis a missão de Jesus, o Messias: acolher, consolar, perdoar, libertar, fazer viver. Mas, para que experimentemos Jesus assim, é necessário que nós mesmos descubramos que somos pobres, que somos tão carentes, tão limitados, tão pequenos. Quando descobrimos isso, quando vemos que o mundo é assim, então experimentamos também que, em Jesus, Deus veio a nós, Deus deu-se a nós, Deus estendeu-nos as mãos, abriu-nos os braços e aconchegou-nos no coração.

É por isso que a pessoa, os atos e as palavras de Jesus são Boa-nova, Boa-notícia, ou, em grego, Evangelho! E a Boa-nova é precisamente esta: Deus nos ama, está conosco em Jesus; veio para ficar, para permanecer para sempre na nossa vida e no coração do mundo!

Aqui entra, precisamente, o terceiro aspecto da Palavra deste domingo: este Jesus permanece conosco na potência sempre presente e atuante do seu Espírito Santo, presente de modo potente e soberano na Igreja que Jesus fundou. Já no domingo passado, vimos que a Igreja é a Esposa do Cristo, cheia do vinho abundante do Espírito Santo, que nela suscitava tantos dons, tantos carismas, tantos ministérios, tanta vida. Pois bem, a segunda leitura da missa de hoje insiste nesta idéia e aprofunda-a ainda mais.

Porque Cristo ressuscitou e nos deu o seu Espírito Santo, nós, como Igreja, desde o nosso batismo, somos o Corpo de Cristo: “Vós, todos juntos, sois o Corpo de Cristo e, individualmente, sois membros deste Corpo”. É juntos, como comunidade, como membros da Igreja, que somos o Corpo vivo do Cristo; Corpo vivificado pelo Espírito Santo! É uma idéia, esta, que deveria estar sempre diante de nós! A Igreja não existe por ela mesma: ela vive do Espírito do Cristo; a Igreja não escolheu o Cristo: ela foi por ele amada, por ele fundada, por ele escolhida e é por ele sustentada e vivificada; o Cristo não pertence a Igreja: a Igreja é que pertence a Cristo e, na força do Espírito é sempre amada e renovada por ele. Ele nunca vai abandoná-la, nunca vai traí-la, nunca vai renegá-la!

E mais ainda: no seu Amor, isto é, no seu Espírito, ele suscita no corpo da Igreja, que é o seu Corpo, tantos membros diferentes, com dons e carismas tão diversos! É o que são Paulo nos recorda na leitura de hoje. Ninguém pode ser cristão sozinho! Cristo não é salvador pessoal de ninguém! Ele é o Salvador do Corpo que é a Igreja (cf. Ef. 5,23)! Nós somos salvos no Corpo de Cristo, enquanto membros do povo da Aliança, que é a Igreja. Nesta, quem nos une é o Amor de Cristo e nela, cada um de nós tem uma missão, uma função! Qual é a sua? Quais são as suas? Pai ou mãe de família, educando novos membros para o Corpo de Cristo? Agente de pastoral engajado diretamente na evangelização? Jovem que se esforça para dar um generoso testemunho de coerência e amor a Cristo? Empresário, funcionário público, empregado, que no seu trabalho procura ter um comportamento digno do Evangelho? Qual o seu papel na Igreja? Rico ou pobre, forte ou fraco, jovem ou ancião, todos temos como honra e dignidade ser membros do Corpo do Senhor, sustentados e vivificados pelo Espírito do Senhor, destinatários da salvação e da consolação que ele nos trouxe, do carinho e da ternura do Pai que ele derramou sobre nós.

Desde domingo passado que a Palavra vem nos questionando sobre o nosso modo de ser e viver nossa pertença a Cristo e à sua Igreja. Pensemos, e não recebamos em vão a graça de Deus, para que, um dia, possamos participar da vida plena daquele que Senhor que, feito homem por nós, vive e reina para sempre.

dom Henrique Soares da Costa

 

 Primeira leitura: Neemias 8,2 - 4.5-6.8 - 10

O POVO OUVE A LEITURA DA LEI COM RESPEITO

Antes, este livro fazia parte do livro das Crônicas junto com o livro de Esdras. Depois foi separado. O livro tomou o nome do protagonista da reconstrução política, religiosa, civil e social do povo bíblico, depois do exílio da Babilônia. Ele se tornou governador dos repatriados na Judéia, que havia se tornado Província persa. O exílio de 587 a.C., com a conquista de Jerusalém e a deportação do povo para a Babilônia, terminou em 538 a.C. com o edito do rei Ciro (rei persa que pôs fim ao Império babilônico), que permitiu aos judeus voltarem à pátria e reconstruírem as cidades e o Templo.

No centro do livro de Neemias está a palavra de Deus proclamada e praticada pelo povo bíblico. A centralidade de Deus e de sua palavra é o sinal da importância que o povo dá à dimensão religiosa depois da catástrofe. Depois desta, a primeira reconstrução é sempre a moral e religiosa.

Os acontecimentos narrados em nosso texto situam-se no primeiro dia do sétimo mês do ano 444 a.C. Tempo de dificuldade para o povo que voltou do exílio babilônico. Liderado pelo sacerdote Esdras e pelo governador Neemias, o povo tenta reconstruir o país, recuperar a memória do passado e conservar sua identidade de povo livre. Mas para se unir num objetivo comum precisa de um instrumento, e este é a palavra de Deus, centro da atenção do povo. Esdras, sacerdote, viu a palavra de Deus guardada não só na memória, mas também escrita, como o instrumento. Trata-se do núcleo central do Deuteronômio, a lei de Estado para Israel, a lei principal.

Os versículos descrevem em detalhes a celebração da palavra de Deus e suas conseqüências:

01) Em cima de um palanque, Esdras promulga a Lei (Torá) diante de uma assembléia reunida na praça. Ali estão homens, mulheres e todos que eram capazes de entender. Portanto, a palavra congrega.

02) Todos ficam de pé diante da palavra e a ouvem atentamente. A Palavra é proclamada do palanque, para que todos possam ver o livro.

03) A Palavra ouvida gera reações em todos, que erguem as mãos (disposição para rezar), provoca a fé (todos dizem Amém) e conduz ao recolhimento (todos ficam de joelhos e prostrados), gestos que na Bíblia são reservados a Deus. Assim, Deus é adorado.

04) Esdras lê e explica a Palavra, e a atualiza para que se torne iluminação na vida do povo e alicerce para a construção do país. Neste sentido, a Palavra serve-se de mediações hermenêuticas.

05) O povo tem reações diante da Palavra: chora e fica triste. Por quê? Talvez devido à distância entre o que foi proclamado e a realidade vivida pelo povo, ou devido à constatação de que tudo está para ser feito. Contudo, a Palavra não quer ser motivo de frustração para o povo, mas luz e esperança.

O sacerdote Esdras vem da Babilônia com um encargo especial do rei da Pérsia: promover na Judéia e em Jerusalém a observância da Torá, que o rei havia elevado a lei de Estado (Esdras 7,25s).

A lei devia ser constituída pelas antigas leis de Israel, dos sacerdotes e do Deuteronômio, recolhidas em um “corpo” único, não diferente do Pentateuco.

Nesta liturgia que Esdras proclama todos participam sem nenhuma distinção. A única condição é a capacidade de escutar.

A palavra proclamada suscita a partilha dos bens entre o povo. É a partilha que leva à criação de uma nova sociedade. É assim que o futuro se constrói e a esperança se realiza. Este é o primeiro fruto maduro da nova sociedade.

Segunda leitura: 1 Coríntios 12,12 - 31ª

COMPARAÇÃO DO CORPO E DOS MEMBROS

O contexto deste trecho compreende grande parte do capítulo 12 desta carta, onde Paulo se esforça para conduzir a comunidade dividida à união, eliminando os litígios e as incompreensões.

A comunidade de Corinto havia experimentado a presença do Espírito Santo, que tinha se manifestado na variedade de carismas. Portanto, era preciso insistir na unidade na pluralidade. Paulo mostra que os carismas recebidos não eram para ser usados em benefício próprio, como estava acontecendo, com o conseqüente desprezo dos demais.

Como bom catequista, Paulo faz uma apologia do corpo, usando uma comparação para que todos entendam. A apologia do corpo e de seus membros era muito popular no mundo antigo. Já se encontrava na liturgia egípcia do século XII a.C. A diversidade de membros e de órgãos não pode ser eliminada no corpo. Ele existe na diversidade. Portanto, são muitos os membros no corpo, cada qual com sua função. Assim como o corpo humano vive a unidade na pluralidade de seus membros, também Cristo tem muitos membros que são os cristãos e formam um só corpo, a Igreja.

Paulo não fala apenas do corpo físico, mas também do corpo social, onde cada um tem seus valores e capacidades, cada qual com seu jeito, e na diversidade dos membros chega-se à unidade em Cristo, pois não existe mais distinção em Cristo, visto que foi o Espírito Santo que uniu na Igreja judeus, pagãos, homens e mulheres, gente ignorante e culta.

Paulo afirma ainda que os membros do corpo que parecem mais fracos são os mais necessários. Os que parecem menos dignos de honra se vestem com mais respeito, os menos apresentáveis são tratados com mais cuidado. Aqui, portanto, ele faz uma nítida opção pelos pobres, de comunhão e de solidariedade (se um membro sofre, todo o corpo sofre). Por isso, todos são iguais com seus dons e, se houver necessidade de privilegiar alguém, este seria o pequeno, o pobre.

Com esta metáfora física, Paulo apresenta um argumento profundo quando tratado à luz da fé (os cristãos são o corpo de Cristo Ressuscitado) e do Batismo (somos batizados em um só Batismo para formar um só corpo). Devido à fé e ao batismo, os cristãos não devem olhar suas funções na Igreja como pretensões, reivindicações ou busca de lugares privilegiados, mas colocar seus dons à disposição (catequista, apóstolo, mestre...), a serviço da unidade de todos.

Evangelho: Lucas 1,1 - 4; 4,14 - 21

EM NAZARÉ, JESUS LÊ A PROFECIA DE ISAÍAS

Com este trecho se inicia a leitura contínua de Lucas nos próximos domingos. O trecho tem duas partes:

a) introdução ao evangelho, que é compreendida à luz das introduções que os clássicos da literatura grega e latina faziam;

b) descrição do início do ministério público de Jesus, que leva as promessas do Antigo Testamento ao cumprimento.

A primeira parte compreende também a metodologia que Lucas se propõe a adotar: fazer pesquisas acuradas sobre tudo desde o início e escrever tudo de forma ordenada, para mostrar a solidificação dos ensinamentos. É, portanto, uma metodologia rigorosa. Isto é importante para nós nos dias de hoje, em que o homem sente-se dentro de dois fenômenos preocupantes: a secularização e a indiferença.

A segunda parte nos conduz ao culto sinagogal hebraico no tempo de Jesus e nos abre para o sentido definitivo das profecias do Antigo Testamento, que se realizam em Jesus. No tempo de Jesus, o culto sinagogal devia ter o seguinte esquema:

a) “Shemá Israel” = escuta Israel (Deuteronômio 6,4; 9,11; 13,2) e “Shemonèh Esrch” (Lucas 18);

b) duas leituras, uma do Pentateuco e outra dos profetas;

c) explicação ou homilia;

d) conclusão com a bênção sacerdotal de Neemias 6,22 - 27.

Lucas, ao escrever para Teófilo, diz-lhe que o que está narrando não é fruto de especulação à semelhança dos autores gregos daquele tempo, mas objeto de um estudo cuidadoso de tudo o que aconteceu desde o princípio. Para isso, Lucas pesquisou as tradições existentes transmitidas por aqueles que desde o princípio foram testemunhas oculares e ministros da Palavra. Com isso, Lucas fala implicitamente que o seu Evangelho é uma síntese da catequese primitiva. Para o evangelista, o seguimento de Jesus é um fato histórico que pode ser comprovado a partir de testemunhas oculares que transmitiram esta experiência. Portanto, ter fé no Evangelho é aderir à erupção de Deus na história da humanidade na pessoa de Jesus.

Lucas é um cristão da segunda geração. Ele não viu Jesus, não é testemunha direta de sua ressurreição. Nascido em Antioquia, foi discípulo de Paulo. Ao escrever, faz uma síntese das atividades de Jesus, situando-as na Galileia, onde ele ensinava ao povo. Foi a força do Espírito Santo que conduziu Jesus para o meio do povo marginalizado. Jesus é ungido pelo Espírito Santo. O Espírito Santo tomou posse de Jesus ainda no seio de Maria (Lucas 1,39). João Batista o apresenta ao povo como aquele que vai batizar com o Espírito Santo (Lucas 3,16). Ao ser batizado no Jordão, recebeu o Espírito Santo (Lucas 3,22). Foi conduzido ao deserto pelo Espírito Santo (Lucas 4,1). Há, portanto, um verdadeiro Pentecostes no início do Evangelho de Lucas.

Lucas, logo em seu prólogo, escreve um período bem construído segundo o estilo helenístico: com argumentos, fontes, método e objetivo. Não é uma história com narração de fatos, mas uma confissão de fé, um testemunho kerigmático daquele que nestes fatos manifesta o Salvador.

Lucas diz que consultou várias fontes para escrever o seu Evangelho. Usou Marcos, Mateus e testemunhas oculares da vida pública de Jesus desde o batismo até a ascensão.

O objetivo não era anunciar Cristo a quem já o conhecia, mas confirmar na fé quem já havia sido catequizado através de uma narração de fatos que levassem a uma confiança plena e a uma adesão a Jesus, sem incertezas. O evangelista quer colocar nas mãos dos cristãos e dos evangelizadores do seu tempo um texto seguro e incisivo.

Jesus, para Lucas, não inicia sua missão à margem da comunidade hebraica, mas no terreno onde os hebreus tinham o alimento para sua fé, ou seja, a liturgia do sábado, presidida na Sinagoga. Portanto, participando da vida do povo, Jesus entrou na Sinagoga, abriu o livro de Isaías na liturgia do sábado, presidida pelo chefe da Sinagoga. Aqui Lucas faz uma descrição solene: todos fixam os olhos nele, inclusive os doutores da lei. O trecho que Jesus lê concentra mais a atenção de todos. Ele faz ali a sua auto-apresentação e explicita o programa de sua missão, mediante a aplicação do texto a si mesmo. Tudo o que este profeta anônimo anunciou se cumpria na pessoa de Jesus. Jesus tem consciência de sua messianidade.

O programa de Jesus era a boa nova para os pobres, os “anawim”, os que viviam à mercê dos poderosos. A boa nova é de libertação para os marginalizados: para os presos, os cegos, os oprimidos, os sem forças ou condições de resistir. Seu programa era a proclamação de um ano de graça: todos os endividados receberiam o indulto, uma vida nova com a partilha dos bens, a plena posse da vida. Seu programa de vida se inspirava no programa de Isaías (Isaías 61,1 - 2).

REFLEXÃO

Na liturgia do domingo passado Jesus se manifestou em Caná, na intimidade de uma festa nupcial. Hoje se manifesta na Sinagoga de Nazaré, sua cidade, evidenciando a dimensão universal de sua presença.

Na primeira leitura, a Palavra de Deus é apresentada como regra de vida para o povo hebreu e o Evangelho vê esta Palavra realizada nas ações e na pessoa de Jesus.

Hoje inicia o tempo “per annum” com o evangelista Lucas. É o ciclo C. Este tempo é visto como o período em que a Igreja é constituída como corpo através da palavra e da Eucaristia.

O aspecto particular que colhemos na liturgia é a atitude do cristão diante da Palavra ouvida e praticada. É a eficácia desta Palavra que pode transformar em salvação a vida do cristão de cada dia.

Em Jesus o homem tem certeza de que Deus é sempre fiel à sua Palavra e as suas promessas.

O trecho do Evangelho de hoje abre a história do ministério de Jesus na Galileia. Na Sinagoga Jesus confirma a realização dos vaticínios de Isaías (61,1s). Jesus se encontra na Sinagoga para a liturgia, à qual assistia regularmente, onde era lida a primeira leitura do Pentateuco, depois comentada por um especialista. Uma segunda leitura, tirada dos profetas, podia ser lida por qualquer homem com mais de 30 anos. Jesus se pôs a ler o trecho de Isaías, aplicando a si as palavras do profeta e expondo um programa de salvação integral do homem, de todas as situações de escravidão, quer fossem fruto do pecado social ou do pecado individual.

O conteúdo fundamental da libertação de Jesus é a salvação, o amor e a graça libertadora de Deus, porém esta supõe a prática da justiça social e a conversão ao amor do irmão. Portanto, para o cristão continuar a missão libertadora de Jesus deve fazer a denúncia profética da opressão e da exploração, promovendo a justiça. Não devemos nos esquecer que a libertação cristã é salvação do pecado, e, portanto parte essencial da evangelização, mas também é promoção integral do homem, e, portanto, parte integrante da evangelização (cf. EN 26 - 31).

A teologia da libertação, mais do que uma teoria, é antes de tudo uma tomada de consciência da situação e necessidade que todo homem tem, sobretudo o mais rebaixado humanamente, de libertar-se integralmente de toda escravidão: interior (pecado) e exterior (conseqüência do próprio pecado, alheio ou social), para alcançar a dignidade pessoal, sua condição humana e sua categoria de filho de Deus. Só assim se realiza o programa de salvação plena do homem em Cristo ressuscitado, como o próprio Jesus expôs na Sinagoga de Nazaré”.

Devemos encarnar dinamicamente nossa fé na vida e no mundo, e isto exige uma práxis libertadora do homem. A missão libertadora de Jesus hoje continua conosco. Devemos restabelecer a dignidade e alta vocação do homem, recuperando nele a imagem de Deus deformada por tantas escravidões. Devemos fazer como o especialista que restaura uma pintura deteriorada pelo tempo, dando-lhe o colorido que saiu do pincel do pintor.

A vocação da Igreja é estar presente no coração do mundo anunciando a boa nova aos pobres, a libertação aos oprimidos e a alegria aos aflitos. Toda ação que se desenvolve no mundo em favor da justiça, paz, fraternidade e verdade, embora não nomeie expressamente a Deus, não é alheia ao dinamismo do Evangelho

A primeira leitura narra que o povo, depois de tantos anos de desterro na Babilônia, já em solo judaico recebe explicações do sacerdote Esdras sobre o conteúdo da Lei que haviam esquecido nas terras de exílio. Ao ouvir a Palavra, aqueles homens choravam de alegria ao reconhecerem novamente a lei de Deus. Ouviam-na em atitude vigilante. Da mesma forma nós, ao ouvirmos a Palavra, deveríamos ter a mesma atitude. Santo Agostinho diz: “Devemos ouvir o Evangelho como se o Senhor estivesse presente e nos falasse”. Mas não basta ouvi-lo, não basta dizer “Glória a vós, Senhor”, não basta um simples assentimento a suas palavras. É preciso louvá-lo com obras, com gestos concretos.

Lucas fala no Evangelho que resolveu passar a vida de Cristo por escrito para que conhecêssemos a solidez dos ensinamentos que recebemos. Portanto, o cristão tem a obrigação de conhecer profundamente a doutrina de Jesus, pois nunca deve se conformar com os conhecimentos que já possui. Assim como na vida profissional: um médico, um engenheiro, um advogado, se quiserem ser bons profissionais, nunca devem dar seus estudos por concluídos ao saírem da faculdade, mas devem continuar em formação, com o cristão deve acontecer o mesmo. Não basta conhecer o catecismo.

Uma fé pouco fundamentada, como por exemplo, “Eu creio em tudo, embora não saiba do que se trata”, não é suficiente para o cristão, pois ele deve conhecer os argumentos necessários para enfrentar os ataques dos inimigos da fé, e deve saber apresentá-los de modo atraente, com clareza e precisão. “A ignorância é freqüentemente filha da preguiça”, diz são João Crisóstomo. Na luta contra a incredulidade, é muito importante ter um conhecimento exato e completo da teologia católica. Ser instruído no catecismo é ser um autêntico missionário. Não se ama aquilo que não se conhece.

padre José Antonio Bertolin, OSJ

 

Jesus se posiciona na sinagoga

Iniciando o tempo comum na liturgia católica, iniciamos também, aos domingos, um contato mais estreito e direto com a tradição de Lucas, o autor do 3º Evangelho, o Evangelho dos pobres. Seria este o provável médico querido de Colossenses 4,14. Somos assim iniciados na Boa Nova que nos é exposta após cuidadosa pesquisa e zelosa aplicação do evangelista.

Como é dito no prólogo  do Evangelho (Lc. 1,1 - 4), muitos empreenderam esforços em compor narrativas a respeito dos acontecimentos que se sucederam entre os contemporâneos e conterrâneos dos fatos e das palavras que estão por ser anunciados. Lucas é mais um que se deixa conduzir pelo testemunho dos que foram testemunhas oculares ou servidores da Palavra. E tomou a posição de participar desta corrente de fé na alegria e na certeza de transmitir algo sólido que confirme na fé Teófilo, esse amigo de Deus (= Teófilo) e todos os demais que acolhem nesta amizade divina o que lhes é transmitido.

Também nós estamos aí envolvidos. Confiantes de estarmos recebendo solidamente o dom de Deus que é a revelação de Jesus, que entrou na nossa história para ficar e nos conduzir, no Espírito, à plenitude da alegria. Num tempo de incertezas como este em que vivemos, sem saídas claras para os grandes conflitos para ninguém, com ofertas fáceis de consumo religioso com rótulo cristão e outros rótulos, vale à pena reiniciar o mesmo cuidadoso exercício de reencontrar as fontes da fé no estilo lucano.

Quem nos mostrará o roteiro? A própria experiência de fé na aplicação pessoal e comunitária à leitura das fontes. Como diz o refrão, inspirado em João da Cruz, iremos de noite, iremos, iremos buscar a fonte. Só nossa sede nos guia...

A segunda parte do Evangelho deste domingo é um salto do primeiro ao quarto capítulo (Lucas 4,14 - 19). Agora, em pleno desenvolvimento da narrativa, o evangelista nos faz reencontrar a Israel numa de suas assembléias sinagogais. Como outrora, as assembléias eram realizadas em tempos de grandes reformas. É o que retrata Ne 8 (1º Leitura). Jesus retorna à Galiléia, com o poder do Espírito, ensina na sinagoga de Nazaré chamada aqui Nazara (cf. Bíblia de Jerusalém), como a apelar para uma forma arcaica de escrever. Jesus assume publicamente a autoridade de reler o texto que ele mesmo escolheu para a ocasião (Is. 61,1 - 2a). Afirma as inclinações do coração de Deus, nosso Pai e suas preferências. Ele corrige a antiga versão, suprimindo do texto a marca da desgraça e da vingança que nele transparece. Fica só com a graça.

Lucas apresenta então o discurso inaugural com um vigor e uma clareza que atrai a atenção de todos os presentes, fixos em Jesus. Até aí só admiração e êxtase. Longe de qualquer reação adversa. A liturgia transfere para mais tarde as reações. Neste domingo, dá apenas ênfase à autoridade e à liberdade com que Jesus anuncia a Boa Nova ao povo e particularmente aos pobres. Conduzido pelo Espírito, Jesus se posiciona na sinagoga: fica de pé para ler, escolhe o texto a ser lido, enrola o livro e o entrega ao servente e senta-se. Todo um ritual de intenso significado na afirmação de sua missão libertadora.

Nossas homilias carregam o mesmo vigor e convicção? Revelam o rosto de Deus e de Jesus na sua identificação com os pobres de hoje? O que diriam nossos fiéis ouvintes numa avaliação objetiva? Sentir-se-iam atingidos pela Palavra? Estariam em êxtase ao nos escutar?

Uma de nossas perdas atuais nesta nossa cultura midiática em que frequentemente caímos como comunicadores da Palavra é o empobrecimento do profetismo, com o excesso de palavras e a reserva de conteúdo e de atenção às realidades. Os (as) atuais profetas arriscam falar muito e pouco dizer. Ou de nada falar e perder a hora, avançando o mal. Faz-se urgente reencontrar o anúncio da Boa Nova aos pobres, quase sempre má notícia aos bens sucedidos donos do mundo atual.

O Haiti destruído está aí gritando ao mundo.  Não faltarão palavras de lamentação e de consolo aos sobreviventes e aos que perderam seus entes queridos na catástrofe. Não faltarão gestos de solidariedade e de compaixão. A profecia, no entanto, à luz do discurso inaugural deste domingo, consiste em apontar os abalos anteriores ao terremoto, causados pela má divisão das riquezas e das oportunidades naquele país e no mundo, causadores de constante empobrecimento do povo e que fazem muito mais estragos. E que não só o Haiti, mas todas as nações empobrecidas vivem sofrendo perdas e destruições da vida e da esperança pelo crescimento da concentração de renda nas mãos dos enriquecidos pelo empobrecimento da maioria. É este o verdadeiro terremoto que só vai piorando a sorte dos países pobres. A estes, o anúncio do ano de graça da parte de Deus.

Com o salmo 19 b (responsorial) peçamos ao nosso Deus a sabedoria dos simples que encontram no anúncio da palavra a sua alegria.

João Batista Magalhães Sales

 

Neste domingo iniciamos a leitura do Evangelho de Lucas. Os evangelistas têm seu modo próprio de ver a pessoa de Jesus. É sempre o mesmo Jesus, visto, porém, sob aspectos distintos. O evangelista tem uma teologia própria e escreve para os destinatários que ele tem em vista. Para isso ele seleciona dentre as muitas informações que possui, aquelas que lhe parecem mais significativas para a transmissão da sua mensagem.

Nesse sentido, Lucas não é Marcos, Marcos não é Mateus, e João se distingue ainda mais dos três primeiros. Todos falam de Jesus e do mesmo Jesus com uma visão teológica própria. Assim Lucas fez um estudo cuidadoso de tudo o que aconteceu com Jesus, procurou informar bem, e escreveu um Evangelho para mostrar que os ensinamentos que recebemos são sólidos.

Depois do batismo, Jesus foi a Nazaré, com a força do Espírito Santo e, na sinagoga, num dia de sábado, Ele anunciou a todos o seu programa, dizendo para que veio a este mundo. O anúncio foi feito na leitura das Escrituras Sagradas. Jesus tomou as palavras do profeta Isaías e disse a todos que elas se realizavam N'ele.

O Espírito do Senhor está sobre Jesus, que foi ungido para evangelizar os pobres; foi enviado para proclamar a libertação aos cativos e a recuperação da vista aos cegos, para libertar os oprimidos e proclamar um ano da graça do Senhor. Isto está acontecendo agora, diz Jesus ao povo que o escutava. Isto está acontecendo N'ele e com Ele, porque foi sobre Ele e sua missão que o profeta Isaías escreveu.

Foi assim que aconteceu no passado, depois do exílio da Babilônia. Esdras e Neemias leram para o povo o Ensinamento do Senhor, que todos se comprometeram a seguir e guardar. Foi um dia de festa porque todos compreenderam que se tratava do anúncio do amor de Deus para com seu povo. É o que Jesus está fazendo na sinagoga de Nazaré, no início do seu ministério público. Ele está dizendo como Deus ama o seu povo. Deus ama Israel e ama toda a humanidade, por isso mandou o seu Filho em socorro de todos, mas, sobretudo dos que se encontravam sem proteção.

A evangelização dos pobres significa a transmissão de uma boa notícia a quem dela precisa; a libertação dos cativos e dos oprimidos lembra toda situação de injustiça que se abate sobre tanta gente neste mundo; os cegos resumem toda limitação física e a falta de visão das causas dos males da vida presente, sejam eles religiosos, morais ou sociais. O ano da graça do Senhor é o ano jubilar, no qual era possível se libertar da dependência das dívidas e recuperar a dignidade e a liberdade. Todos prestavam muita atenção em tudo o que Jesus estava dizendo e pareciam estar de acordo com Ele.

Deus é solidário com todos nós e fez conosco uma aliança de amor. Seu Filho veio a este mundo, experimentou a nossa fraqueza e o nosso sofrimento e revelou como Deus quer que a gente vá bem e seja feliz. O Espírito de Jesus desperta em nós a solidariedade. Por isso são Paulo nos ensina que formamos um grande corpo, o corpo da Igreja, que tem por cabeça o próprio Senhor Jesus e como membros todos os seus seguidores. Uns dependem dos outros e todos se interessam por todos e tratam com cuidado os membros mais fracos.

cônego Celso Pedro Silva

 

No domingo passado iniciávamos o tempo comum em nossa liturgia e a Palavra de Deus nos convidava para a alegria, pois Deus ama a todos como um esposo sempre fiel! Quando meditávamos sobre as bodas de Caná na Galiléia éramos chamados a abandonar uma religião de purificações e méritos para recebermos o grande presente do abundante vinho novo trazido pelo Senhor, a religião do amor. Hoje tudo nos fala da importância de uma atenta escuta da Palavra de Deus em nossa caminhada de discípulos e do programa fundamental da missão de Jesus, o Cristo. Que nossas leituras nos ajudem mais uma vez.

Nossa primeira leitura (Ne. 8,2 - 4.5 - 6.8 - 10) é tirada do livro de Neemias. O povo de Israel havia voltado do cativeiro Babilônico inspirados nas palavras de esperança proclamadas por Isaias, como refletíamos na primeira leitura do domingo passado, começaram empreender a reconstrução de Jerusalém e do país. Infelizmente mais de cem anos já se haviam passado e a situação continuava difícil, existia muita confusão ainda: explorações, roubos, maldades, etc. O sacerdote Neemias percebe que o motivo principal desta situação conflitiva estava na ignorância da Lei Divina. Nosso texto de hoje então apresenta aquele sacerdote convocando o povo para escutar e compreender a Palavra de Deus, o que levou o povo a fazer a renovação da Aliança com Javé na festa das Tendas do ano de 398 a.C. Tal é a importância desta renovação do compromisso de Israel que a tradição judaica considera Esdras um segundo Moisés.

Quando lemos o relato da celebração realizada encontramos alguns elementos muito interessantes que muito bem podem ser aplicados nas “celebrações da Palavra” que hoje ainda realizamos.

Primeiramente vemos que o povo é convocado e estão reunidos em comunidade, não se trata apenas de um chamado individual para ouvir e entender melhor a Palavra divina, mas um convite comunitário. Isto nos ajuda a sempre compreendermos melhor a dimensão comunitária de nossa fé.

Ocorre então a leitura solene, feita não de qualquer lugar, mas de um estrado preparado para que o povo pudesse ouvir melhor e uma leitura feita de modo bem claro. De nada adianta proclamar a Palavra quando o povo não consegue ouvi-la com clareza, o que nos indica a necessidade de uma grande preocupação com o modo de comunicar. Temos hoje muitos meios a nossa disposição que facilitam neste aspecto da comunicação, mas será que os valorizamos e utilizamos?

Outro elemento não menos importante é que o povo escutava com atenção, havia assim um ambiente de escuta, visto que sabiam não estar diante de um livro apenas, mas de Deus que fala. Quantas vezes em nossos dias na nossa celebração falta este ambiente de escuta respeitosa, devido a barulhos e comportamentos inconvenientes dos participantes, não é?

Ainda temos a participação do povo em suas respostas de “Amém” e nos gestos corporais: ficam de pé, inclinam-se e prostram-se. Isto nos indica que aquela celebração era um verdadeiro diálogo, Deus falava e a comunidade dava sua resposta! A participação ativa e frutuosa é um elemento importantíssimo também em nossa celebração litúrgica e infelizmente ainda muitas vezes deixado de lado.

Depois encontramos a explicação da Palavra de Deus instruindo assim o povo, isto porque não adianta ouvir ou ler algo e não entender. Aqui encontramos o grande ministério da palavra tão fundamental para atualizar a Palavra divina e torna-la mais compreensível ao povo. Muitos não conseguem cumprir a vontade de Deus simplesmente porque a ignoram e outros porque a interpretam erroneamente. Também hoje é fundamental em nossa celebração litúrgica uma boa explicação das leituras, e para isto é dever daqueles que tem este especial serviço uma séria preparação.

O povo ouvindo a Palavra arrepende-se e refaz sua aliança com Deus, o que nos indica como fruto daquela celebração uma transformação de vida pessoal e especialmente comunitária. A palavra de Deus ouvida e entendida sempre produz seus frutos de vida nova.

Por fim acontece a despedida da comunidade celebrante e o convite a alegrarem-se em Javé fazendo verdadeira festa! Mas é bom estarmos atentos que o povo foi lembrado solenemente de que indo para casa deviam em suas festas dar de comer aos pobres ou aqueles que nada prepararam. Neste aspecto a mais pura tradição judaica de guardar o sábado sempre apontou para a alegria, a festa ao redor da mesa e a partilha com os mais necessitados. Os fariseus é que posteriormente transformaram o repouso sabático num peso repleto de um legalismo frio.

Contemplando a renovação da Aliança e a solene assembléia reunida, podemos entender melhor a importância de nos reunirmos em comunidade para a escuta da Palavra de Deus. Será que damos mesmo importância para as nossas celebrações?

A segunda leitura (1 Cor. 12,12 - 30 ou a breve 1 Cor. 12,12 - 14.27) é a continuação da segunda leitura do domingo passado onde Paulo explicava sobre os dons. É bom lembrar que o apostolo coloca como forma de discernir os dons de Deus o bem comum ou a construção da comunidade. A comparação do “corpo” usada por Paulo quer ajudar na compreensão de que os diversos serviços e dons são complementares e fazem parte de um único organismo. Como no corpo cada membro tem sua importância e um membro não pode fazer a função do outro, assim acontece na comunidade cristã onde tudo deve concorrer para o bem comum dos irmãos.

Seria muito interessante lermos o texto completo da leitura e não apenas o abreviado, perceberemos que Paulo fala da igual dignidade de todos os membros do corpo, mas também da necessidade de cercarmos com mais carinho os membros que são considerados mais fracos e até menos honrosos. Neste sentido estamos trilhando de modo claro a opção de Jesus pelos pequenos e fracos, pobres e marginalizados. É a busca do cuidado e zelo de uns pelos outros para que não haja divisão no corpo! Tudo aponta mais uma vez para o bem de todos na afirmação do apóstolo de que: quando um membro sofre todos sofrem com ele e quando um membro se alegra todos os outros com ele se alegram; isto é sem dúvida a solidariedade que deve unir profundamente todos como irmãos em Jesus (Cf. 1 Cor. 12,22 - 25).

Reflete Paulo que “todos juntos” somos o corpo de Cristo e sem duvida Jesus é sempre a cabeça deste único corpo que é a comunidade cristã. Acentua-se mais uma vez o importante aspecto comunitário de nossa identidade cristã, somos chamados a formar um corpo e a viver em comunhão uns com os outros.

No final do texto Paulo retoma o tema dos diversos dons fazendo um elenco da importância deles e os primeiros estão todos relacionados com o ensino da Palavra de Deus, como sempre Paulo coloca como o último dom o falar em línguas. (Cf. 1 Cor. 12,28 - 30).

Diante disto podemos nos perguntar seriamente se de fato damos valor a transmissão Palavra de Deus? Será que não seria por falta de uma melhor escuta e compreensão da Palavra divina que encontramos em nossas comunidades tantos problemas como: invejas, competições, ciúmes, busca de domínio e poder, marginalização dos pequenos e fracos, falta de acolhida, e tantas outras mazelas mais?

Tenhamos certeza de que o esforço de estarmos atentos a Palavra de Deus sempre nos ajudará na busca de uma vida cristã com mais unidade e mais amor.

No Evangelho (Lc. 1,1 - 4; 4,14 - 21) estamos diante de dois textos diferentes do Evangelho de são Lucas. A primeira parte é a introdução do Evangelho e a segunda parte nos apresenta o inicio do ministério de Jesus na Galiléia. Depois da introdução Lucas narra os episódios do nascimento de Jesus, em seguida apresenta João Batista e o batismo do Senhor, logo depois conta a tentação de Cristo no deserto e em seguida apresenta Jesus na sinagoga de Nazaré, o que corresponde a segunda parte do evangelho de nossa liturgia no dia de hoje.

Sabemos que depois de Pentecostes a comunidade cristã começou a espalhar-se por todo o mundo e os apóstolos que eram as testemunhas oculares da vida de Jesus foram dando os seus testemunhos. Baseados nestes testemunhos e no ministério da palavra, as comunidades foram transmitindo estes testemunhos às outras. Temos assim na origem dos escritos do Evangelho sem duvida nenhuma a chamada “tradição oral” que era justamente este processo de passar de um para o outro com fidelidade o que haviam recebido. Com certeza alguma coisa aqui e ali durante este período foi sendo escrita, mas só mais tarde é que esta tradição oral se cristalizou por escrito nos quatro evangelhos.

Lucas começa por afirmar que fez uma pesquisa muito séria e aponta suas fontes que foram as testemunhas oculares e os ministros da palavra. Ressalta perceber que Lucas fala de tudo como “acontecimentos”, o que desde o inicio quer mostrar para todos que a doutrina cristã não provém de um mito ou de uma lenda inventada por fanáticas mentes. É um acontecimento real, o Filho de Deus que se faz homem num dado momento da história e que vem morar no meio dos homens. Por isto Lucas afirma que fez um exame cuidadoso de tudo o que aconteceu desde o principio e sua intenção é de narrar estes fatos para que os cristãos sintam-se mais fortes em sua fé.

Logo o objetivo do evangelho de Lucas, definido por ele mesmo, é que cada um ao lê-lo possa ficar mais forte e crescer na própria fé em Jesus o Cristo.

O texto é endereçado a um certo “Teófilo”, muitas diferentes interpretações se tem dado sobre este nome, mas a mais usual é que não seja um pessoal, isto porque podemos dizer que “Teófilo”, palavra grega, se traduz por “amigo de Deus”! Neste sentido o evangelho é endereçado a todos aqueles que são amigos de Deus e o procuram com sinceridade de vida.

Nesta primeira parte de nosso evangelho encontramos de modo claro a importância do ministério da Palavra para a transmissão da fé. Lucas buscou o fundamento do que escreveu nas testemunhas dos acontecimentos e nos ministros da Palavra! As duas leituras anteriores já haviam nos revelado de modo profundo à necessidade de estarmos atentos na escuta da palavra de Deus.

Na segunda parte de nosso texto Jesus se encontra na cidade onde foi criado e lá entra na sinagoga para o culto. Aos sábados, os judeus eram convocados a reunirem-se nas sinagogas para orar e escutar a Palavra de Javé. No culto sinagogal eram feitas duas leituras: a primeira tirada da Tora (ou Lei) e que era sempre explicada pelo que presidia a celebração, depois havia uma segunda leitura que era escolhida livremente e podia ser explicada por um adulto de mais de trinta anos.

Lucas nos afirma que Jesus voltou para a Galiléia e que sua fama estava se espalhando por toda à parte. Ali na Galiléia Jesus ensinava nas sinagogas e chegando na cidade de Nazaré onde fora criado também ensinou naquela sinagoga. Devemos notar que o evangelista faz questão de afirmar que era costume de Jesus ir a sinagoga todos os sábados para a celebração que lá se realizava.

Hoje, quanta gente entre nós, perde a celebração da eucaristia por qualquer motivo, até por motivos banais. E tudo isto sem contar aqueles muitíssimos batizados que não tem o costume de ir a Igreja aos domingos para estarem reunidos com os irmãos e partilharem da mesa da Palavra e da eucaristia.

O texto escolhido por Jesus foi tirado do profeta Isaias (Is. 61,1 - 2) e Lucas traz a versão deste texto justamente da tradução grega chamada “dos setenta”. Podemos afirmar que este texto usado pelo Senhor apresenta o seu “programa” de vida, sua auto-apresentação! Jesus adaptou-se ao modo de proceder na liturgia da sinagoga, leu a Palavra de pé e depois se sentou para ensinar. Naquela época os mestres ensinavam de fato sentados Lucas assim nos aponta que Jesus é verdadeiramente o Mestre de todos os mestres!

O texto lido fala da unção dada pelo Espírito de Deus para a missão e Jesus é aquele que realiza plenamente todas as profecias, pois ele é o consagrado, O ungido de Deus: o Cristo!

A missão de Jesus é trazer a “boa nova” e apalavra evangelho significa “boa noticia ou boa nova”. Qual é esta boa notícia? Sem duvida é o amor de Deus por todos, mas de modo especial pelos pobres, sofredores e oprimidos! Jesus com suas palavras, com sua vida e, sobretudo com sua entrega amorosa na cruz vem dizer a todos que Deus nos ama infinita e incondicionalmente! É sem duvida alguma uma mensagem de esperança e não de terror e de medo. Traz assim o Senhor a verdadeira revelação de quem é nosso Deus: não um tirano castigador mais um Pai amoroso! Jesus chega para trazer a libertação integral do ser humano de todas as opressões: físicas, representada nos cegos; econômicas, simbolizada nos pobres e políticas, apontada nos cativos, visto que muitos eram escravos de nações invasoras. Ainda é comunicada a alegre notícia de “um ano de graça” o que remete a instituição do ano sabático (Lev. 25,8 - 66; Ez. 7,13) onde de cinqüenta em cinqüenta anos a justiça devia ser restabelecida: terras devolvidas aos proprietários que a perderam, dividas perdoadas e escravos libertados. A boa nova de Jesus é justamente que este ano jubilar, que com ele começa, é definitivo estamos agora no tempo da redenção! Isto se depreende do fato de Jesus ao ler o trecho de Isaias (Is. 61,1 - 2) ter terminado antes do final do versículo dois que fala do dia da vingança de Deus! O messias prometido não veio para trazer destruição e castigo, mas redenção e perdão. Assim Jesus já começa a ensinar um novo modo de compreender quem é de fato Javé: o amor infinito e incondicional!

Depois da leitura todos os olhos estavam fixos em Jesus e este pormenor narrado por Lucas nos aponta a importância de voltarmos nosso olhar para o Senhor. Só em Jesus podemos compreender de modo mais pleno os escritos do Antigo Testamento, afinal tudo foi escrito em preparação à vinda do Salvador. Olhos voltados para Jesus, fixos e atentos é o que cada cristão deveria ter em sua busca de ser um fiel discípulo. Infelizmente ainda em nossos dias encontramos não poucas pessoas que fixam seus olhares em muitas outras direções e deixam Jesus de lado. Quanta busca temos hoje por revelações particulares a esta ou aquela pessoa e na maioria das vezes estas pretensas profecias falam de catástrofes, castigos e final do mundo. Enquanto isto muitos deixam de lado a escuta do evangelho e um sério estudo da Escritura Sagrada!

 Em seguida Jesus começou a explicar o texto lido e afirmou que “hoje” aquela profecia havia se cumprido, com isto queria dizer que com Ele chegara o tempo definitivo da graça e da redenção. Como Jesus aponta que a Palavra de Deus se cumpriu “hoje” naquele dia em Nazaré, podemos entender que a Palavra do Senhor tem sempre algo a nos dizer no “hoje” de nossas vidas concretas.

Caros irmãos hoje toda nossa reflexão gira em torno da importância na escuta da palavra de Deus. Em nossa primeira leitura percebemos como é importante atender ao convite para em assembléia escutarmos a Palavra e respondermos a ela com atitudes de conversão pessoal e comunitária. Com Paulo apóstolo notamos que os dons mais importantes são justamente os do ensino e transmissão da Palavra de Deus. No Evangelho vimos como Lucas buscou nas testemunhas da Palavra as bases de seu evangelho, e com Jesus participando do culto sinagogal em Nazaré notamos como a Palavra divina é sempre de esperança e libertação. Aliás, Jesus é a própria Palavra divina que se fez carne, é o Verbo Eterno do Pai! A boa nova do evangelho deve ser transmitida por todos nós, esta é nossa grandiosa missão de batizados e de confirmados!

Que nesta semana nos esforcemos por crescer no amor a Sagrada Escritura, em sua leitura e estudo pessoal. Muita gente tem belas bíblias em casa, mas não passam de enfeites, pois nunca são lidas. Ler e ouvir a Palavra é deixar se questionar por ela. Vamos fazer o propósito de em cada dia nos dedicarmos a leitura orante da Palavra, tomando um pequeno texto e rezando com ele, isto nos fará um bem enorme.

Temos tantas oportunidades para compreender melhor a Escritura, será que aproveitamos tantos cursos e livros que nos ajudam neste ponto?

Temos ainda que não esquecer de que nossa fé cristã não é algo individualista, mas vivida em comunidade. Como estamos vivendo a convocação semanal para estarmos em assembléia convocada por Deus para ouvi-lo? Por que às vezes nos omitimos facilmente de comparecer? E quando vamos a celebração será que realmente procurarmos estar atentos e aproveitar a Palavra do Senhor para nossa semana? É muitíssimo importante a participação de todo cristão na celebração dominical onde podemos nos alimentar da Palavra e de Jesus o pão do céu.

O Concilio Vaticano II procurou revalorizar a leitura e escuta da Palavra de Deus em todas as celebrações dos sacramentos e sacramentais. Mas na pratica pastoral isto muitas vezes ainda não acontece como deveria. E temos muitos cristãos que dão mais valor a diversos tipos de rezas e novenas do que a uma celebração da Palavra bem feita. Não estaria na hora de procurarmos aprender ou realizar melhor as “celebrações da Palavra”?

Sem dúvida precisamos deixar que a Palavra de Deus possa nos iluminar e mesmo examinar nossa vida pessoal e comunitária. Deus é sempre infinitamente maior do que tudo que possamos imaginar, Ele sempre têm o direito de questionar nosso modo pessoal de agir e até mesmo nossas práticas de vida eclesial. Se não nos abrirmos a sua Palavra, nunca sairemos do mesmo lugar e jamais poderemos cumprir sua Santíssima Vontade, que visa sempre o bem de cada pessoa e de toda a humanidade.

Caro Teófilo, dileto amigo de Deus, um ótimo domingo a você na certeza de que esta amizade com o Senhor sempre aumentará na escuta cotidiana de sua santa Palavra. Que como Maria irmã de Lázaro estejamos dispostos a estar sentados aos pés de Jesus para ouvi-lo, afinal discípulo não é quem fala, mas quem ouve atentamente (Cf. Lc. 10,38 - 42). Mas nunca nos esqueçamos também de ouvir o Senhor na voz que clama em nossos irmãos mais sofredores e pobres!

padre Antonio Luiz Heggendorn, CP

 

Na sinagoga de Nazaré

Evangelho deste terceiro domingo reúne o prólogo de Lucas e o programa de Jesus na sinagoga de Nazaré. Como historiador, o Evangelista endereça sua obra a Teófilo, com o objetivo de revelar a solidez dos ensinamentos que ele recebeu. Lucas escreve seu Evangelho para os cristãos vindos dos meios pagãos. Revelando a solidez da Boa‑Nova, visa fortalecer a fé dos convertidos em Jesus Cristo e na obra da salvação. Quem adere ao cristianismo precisa conhecer a verdade de seus fundamentos. Ter fé na Boa‑Nova de Jesus é crer e aderir à manifestação de Deus na história da humanidade.

No sábado, Jesus, como todo judeu observante das tradições e dos bons costumes, participa das atividades na sinagoga. Esta era, prioritariamente, o lugar da instrução. Convidado pelas autoridades para fazer a leitura da Escritura, Jesus levantou-se para fazer a leitura, em sinal de respeito para com a Palavra.

Jesus se apresenta. Tomando o texto do profeta Isaías, expõe o programa da missão salvadora para a qual foi ungido pelo Espírito Santo. "O Espírito do Senhor está sobre mim, porque Ele me consagrou com a unção para anunciar a Boa‑Nova aos pobres". Ele se apresenta como solidário e aliado aos pobres, isto é, daqueles que vivem na periferia da sociedade, vítimas fáceis de manobra e da violência dos poderosos, sem condições nem meios para resistir, sem voz e sem perspectivas de futuro.

A missão apostólica do Messias tem por objetivo o anúncio do Reino de Deus em vista da salvação integral da pessoa humana. Anúncio e salvação que se traduzem na libertação das situações de escravidão, fruto do pecado pessoal ou do pecado social, que ferem a dignidade da vida das pessoas e de seus direitos fundamentais, como, por exemplo, vida digna, educação, saúde, liberdade de pensar e de expressar a fé, trabalho, alimentação e moradia.

Jesus foi ungido e enviado "para proclamar o ano de graça do Senhor". Aqui Ele faz uma clara referência ao ano sabático, prescrito no livro do Levítico (cf. Lv. 25). O ano da graça é, em outras palavras, o ano da liberdade. O anúncio da Boa‑Nova visa a libertação dos oprimidos e a plena reintegração social. Refere‑se à real transformação da situação excludente em favor da reconciliação e da partilha solidária, que tornem possíveis a igualdade, a fraternidade e a comunhão. Assim, a missão de Jesus, em palavras e ações, é uma Boa‑Nova de reconciliação: "Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura, que vocês acabam de ouvir". Jesus atualiza para a sua comunidade e para nós, hoje, o sentido da palavra da Escritura e a sua conseqüente prática libertadora. A Escritura é um grande programa de vida que se concretiza no hoje de nossa história, iluminando os passos da caminhada e alimentando ações em prol da construção do Reino. Santo Irineu de Lyon afirma: "O Espírito Santo, enquanto anima a Igreja, também rejuvenesce nela a Palavra"

frei Faustino Paludo, OFM Cap.

 

A liturgia deste domingo coloca no centro da nossa reflexão a Palavra de Deus: ela é, verdadeiramente, o centro à volta do qual se constrói a experiência cristã. Essa Palavra não é uma doutrina abstrata, para deleite dos intelectuais; mas é, primordialmente, um anúncio libertador que Deus dirige a todos os homens e que encarna em Jesus e nos cristãos.

Na primeira leitura, exemplifica-se como a Palavra deve estar no centro da vida comunitária e como ela, uma vez proclamada, é geradora de alegria e de festa.

No Evangelho, apresenta-se Cristo como a Palavra que se faz pessoa no meio dos homens, a fim de levar a libertação e a esperança às vítimas da opressão, do sofrimento e da miséria. Sugere-se, também, que a comunidade de Jesus é a comunidade que anuncia ao mundo essa Palavra libertadora.

A segunda leitura apresenta a comunidade gerada e alimentada pela Palavra libertadora de Deus: é uma família de irmãos, onde os dons de Deus são repartidos e postos ao serviço do bem comum, numa verdadeira comunhão e solidariedade.

Lucas não pode guardar para si o que os “testemunhas oculares e ministros da Palavra” lhe transmitiram. Então, decide escrever ao seu amigo Teófilo “para que ele tenha conhecimento seguro do que lhe foi ensinado». Depois de Teófilo e da sua comunidade cristã, somos convidados por Lucas e pelos outros três evangelistas a crer na Palavra, esta Palavra que muitos assinaram com o seu sangue. Não é o que, aliás, pede Jesus aos seus compatriotas de Nazaré: acreditar na Palavra? Na sua homilia, Jesus afirma que se realiza hoje a palavra de ontem do profeta Isaías. Ele anuncia a Boa Nova aos pobres e realiza a salvação. Então compreendemos porque é que os habitantes de Nazaré tinham os olhos fixos n’Ele, viam que Ele falava como homem que tem autoridade. Não somente as suas palavras eram “boa nova”, mas Ele próprio era a Boa Nova há tanto esperada. Desde Lucas, desde Teófilo, quantos mensageiros da Boa Nova ninguém conseguiu calar porque, se a mensagem de Cristo é precisamente uma boa nova, é feita para ser anunciada!

À ESCUTA DA PALAVRA

No tempo de Jesus, há umas centenas de anos que os judeus liam o livro do profeta Isaías, do qual Jesus cita uma passagem: "O Espírito do Senhor está sobre mim"

Enviou-me a levar a Boa Nova aos pobres... Mas em cada ano era sempre a mesma coisa: nada mudava! E eis que Jesus anuncia repentinamente que essa palavra se cumpre hoje, n’Ele.

Como poderia ser? Não era Ele o filho do carpinteiro? Com Jesus, a Boa Nova anunciada por João Baptista já não é simplesmente uma promessa. É uma força e uma luz que mudam a vida agora. Mas, para nós que lemos  esta Palavra há tanto tempo, parece que é sempre a mesma coisa: nada muda! A religião não se tornou o “ópio do povo” para adormecer os pobres? Seria o caso se Jesus não tivesse ressuscitado, sempre vivo, literalmente nosso contemporâneo. Fala-nos sempre no presente para nos dizer que, hoje, o Espírito do Senhor nos é dado para que a nossa maneira de agir mude concretamente, para que ela tome uma cor mais evangélica. É por nós que Jesus age para cumprir a promessa divina. Dá-nos o seu Espírito para que o nosso coração se liberte dos seus egoísmos, para que os outros não se sintam mal no nosso coração, para que levemos aos pobres o apoio da nossa ajuda e da nossa partilha, aos cegos a luz da nossa amizade, para que hoje seja um dia de felicidade para aqueles e aquelas que encontrarmos. É a nossa missão de cristãos: que a Boa Nova tome corpo na nossa vida, para que a Palavra de Deus seja viva hoje!

Pe. Joaquim Garrido - Pe. Manuel Barbosa - Pe. Ornelas Carvalho

 

Como ler a Palavra de Deus? Uma via maravilhosa para a aprofundar e saborear é a lectio divina, que constitui um verdadeiro itinerário espiritual em várias etapas. A primeira é a lectio, a leitura propriamente dita. Lê atentamente, várias vezes, um passo da Escritura e pergunta a ti mesmo: «O que diz o texto?». Passa depois à meditatio, a meditação, que é como uma pausa interior: recolhe-te e pede a Deus: «O que me dizes a mim com estas Tuas palavras?». Coloca-te na disponibilidade do jovem Samuel: «Fala, Senhor, porque o Teu servo escuta!» (1 Sam 3,10). Responde, depois, com a oração, a oratio, dirigindo-te assim ao Deus que te falou: «O que direi a Ti, meu Senhor?». A resposta a darás convidando o teu Deus a habitar na casa do teu coração, para que transforme os teus pensamentos e passos. Chegarás, assim, à contemplatio, aquele contemplar agindo, no qual o teu coração, tocado pela presença de Cristo, se perguntará: «O que devo fazer agora para realizar esta Palavra?» e procurará de viver em conformidade. Atenção, inteligência, juízo, decisão: através destas quatro etapas, vividas no encontro com a Palavra, ela será para ti como «luz que brilha em lugar escuro, até que desponte o dia e a estrela da manhã se eleve nos vossos corações» (2 Pd. 1,19). Assim, a Escritura poderá guiar-te e acompanhar-te sobre as estradas da vida: «Luz para os meus passos é a Tua palavra, luz sobre o meu caminho» (Salmos 118,105). Por vezes poderá parecer que a Palavra lida não te diga nada: não percas a coragem! Regressa a ela e invoca: «Senhor, concede-me vida segundo a tua palavra!» (v. 107). Esta tua dificuldade foi já vivida por muito antes de ti, Abraão, sara, Moisés, Jeremias, Ester, João Baptista, Pedro, Paulo: estes, e outros homens e mulheres da Bíblia, podem dizer-te da dificuldade e da alegria de crer. Tenta encontrá-los meditando os textos que narram a sua história com as etapas da lectio divina: descobrirás o quanto estão próximos das tuas perguntas e como a sua experiência te fala.

Bruno Forte