2º DOMINGO DE QUARESMA

ano C

 

No segundo domingo da Quaresma também se encontra, todos os anos, o episódio da transfiguração, cada vez à luz de um dos evangelhos sinópticos. Ainda no início, é bom olhar um pouco melhor para o caminho e para a chegada. Para quem se prepara para o batismo ou para renovar os compromissos do seu batismo e vivê-lo melhor, será bom também ver o que se pode aprender do episódio.

Este ano a versão é a de Lucas, que nem fala de transfiguração, mas apenas do rosto de Jesus transformado pela oração e da brancura e brilho de suas roupas.

Fala da morte de Jesus como um êxodo, uma saída semelhante à dos hebreus da escravidão do Egito. Jerusalém é o ponto central para Lucas, tanto no evangelho quanto no livro dos Atos dos Apóstolos. Se a rede de comunidades cristãs fundadas por Paulo era acusada de negar sua origem judaica, Lucas contesta, colocando Jerusalém sempre no centro. O êxodo ou saída de Jesus que se dá em Jerusalém pode ter, então, vários significados.

Jerusalém e tudo o que ela significa ter-se-ão transformado em outro Egito, nova “casa da escravidão”? A saída de Jesus da cidade explica-se pela necessidade de ele ser crucificado fora dela – o que era normal e exigido pela Lei, pois a crucifixão torna impuro o lugar – ou também significa uma saída que ele abriu para a humanidade? A morte de cruz é um êxodo, uma saída, porque escapa totalmente a uma leitura e interpretação de Dt 21,23 (quem morre pendurado é maldito por Deus)?

1º leitura (Gn. 15,5 - 12.17 - 18)

Abrão está velho e sem filhos. Deus dá-lhe a esperança de tornar-se pai de enorme multidão. O fogo que passa entre as metades de animais sacrificados simboliza que Deus está firmando um compromisso com Abrão.

Abrão é modelo do patriarca ou pai grandioso, lembrado por inúmeras gerações. Ele, porém, não é pai grandioso (o significado do seu nome) por causa de seu vigor físico – já estava velho e debilitado quando Javé lhe prometeu grande descendência. Deus é que fez dele o pai da multidão (significado do nome Abraão). Para tanto, bastou-lhe acreditar na promessa de Deus. Sua fé fê-lo merecer, fez que o cumprimento da promessa lhe fosse de justiça.

Javé prometeu-lhe também que seria proprietário da terra onde estava. Para garantir isso a Abraão, fez com ele uma aliança.

As alianças ou contratos antigos eram firmados com um rito de sangue. O mais comum era as partes contratantes passarem entre metades de animais sacrificados, pronunciando imprecações ou “rogando pragas”, como se dissessem: “Aconteça-me o mesmo que a estes animais se eu não cumprir o que foi contratado!”.

A promessa de Deus adquire, então, o caráter de uma aliança. Ao cair da tarde, no claro-escuro, fumaça e tocha passam por entre as metades dos animais sacrificados. Fumaça e tocha, o obscuro e a luz, simbolizam o Deus Javé. Ele é, ao mesmo tempo, o totalmente outro, que se encontra na obscuridade da fumaça, e o luzeiro, tocha que clareia e mostra o caminho.

Javé se compromete com Abrão, pai grandioso, que se tornará Abraão, pai da multidão, a dar-lhe um chão, a propriedade de uma terra.

Salmo 26(27),1.7 - 9.13 - 14

Cantamos um salmo de confiança em Deus, amigo dos fracos.

2º leitura (Fl. 3,17 – 4,1)

Paulo alerta a comunidade contra os que querem exigir que os cristãos não judeus também se circuncidem e se submetam às normas da antiga religião. Reduziam, além disso, a religião a controle de alimentos. Será que Deus está no estômago? Nós pomos fé em Jesus morto e ressuscitado. A salvação para nós passa pela cruz.

Paulo foi fariseu e fiel observante de todas aquelas normas. Perseguiu os cristãos por julgar absurda a afirmação de que um crucificado era a salvação que Deus havia mandado ao mundo, pois um crucificado é, segundo Dt. 21,23, maldito por Deus.

Quando entendeu, entretanto, que Jesus era mesmo o Messias, o Cristo, deixou de lado tudo o que para si era o único caminho de salvação, a observância de todas aquelas leis, e passou a seguir Jesus crucificado. Por isso, pede que os filipenses o imitem, sigam o exemplo seu e de outros e não se deixem iludir.

Os que querem se apoiar somente na observância da Lei são inimigos da cruz de Cristo, tiram-lhe toda a importância. Isso faz Paulo chorar. O destino desses é a destruição, enquanto cabe aos cristãos aguardarmos a transformação da nossa humilde pessoa à imagem do Cristo ressuscitado e glorioso.

Com a importância tão grande que dão às prescrições alimentares, parecem dizer que seu Deus está no estômago. Sua glória é a circuncisão, que se encontra naquilo que o homem busca esconder, porque sente vergonha. Em tudo são contraditórios.

Evangelho (Lc. 9,28b - 36)

Jesus já falou e voltará a falar da sua paixão. É nesse meio que Lucas situa a transfiguração. A morte humilhante de Jesus não é o fim, é a saída. Tudo está na Bíblia, a Lei (Moisés) e os Profetas (Elias). Os discípulos não escutam.

Marcos e Mateus situam o episódio no sexto dia, e Lucas, no oitavo. Não o fazem porque tiveram informações diferentes, mas porque olham de maneira diversa o significado do episódio. O sexto dia lembra o dia da criação do homem: é certamente no contexto da criação de nova humanidade que Marcos quer entender a transfiguração. O “mais ou menos” oitavo dia de Lucas mostra que ele conhecia o texto de Marcos, mas queria lembrar o oitavo dia, o começo da nova criação do universo. Depois do descanso do sétimo, é novamente o primeiro dia, o dia da ressurreição de Jesus com seu significado cósmico e até ecológico.

Jesus leva à montanha Pedro, Tiago e João. Pedro é aquele que, logo após afirmar ser Jesus o Messias, não admitiu que pudesse ser um Messias sofredor, humilhado pelos poderosos. Tiago e João, em Mc. 10,35 - 38 (em Mt é a mãe deles, e Lucas só fala de uma discussão sobre quem seria o maior), pediram a Jesus os primeiros lugares na sua glória ou poder e provocaram a discussão sobre qual o maior entre os doze. Os três precisam de boa lição e por isso são levados à montanha, sozinhos, à parte (Mc e Mt), ao encontro com Deus (Lc).

Só Marcos e Mateus usam o verbo transfigurar, metamorfosear. Lucas diz apenas que o rosto de Jesus mudou de aparência enquanto ele orava.

Só Lucas explicita o teor da conversa de Jesus com Moisés e o profeta Elias, representantes das Escrituras do Primeiro Testamento, então divididas em Lei de Moisés e Profetas. Conversavam sobre a paixão de Jesus que deveria ocorrer em Jerusalém.

O Primeiro Testamento fala de um Messias sofredor. O ponto mais alto disso se encontra nos quatro poemas do livro de Isaías chamados de Cânticos do Servo de Javé (Is. 42,1 - 7; 49,1 - 8; 52,13 - 53,12). O projeto de Deus é esse mesmo, mas aos três discípulos ele interessa pouco. Lucas diz que, enquanto Jesus conversava com Moisés e Elias, eles caem no sono.

Lucas fala da morte humilhante de Jesus em Jerusalém – para onde em seguida vão começar a subir (os três discípulos não querem entender isso) – como o êxodo de Jesus. Ele foi morto fora da cidade. Jerusalém era o centro da terra onde correm leite e mel. A terra da liberdade agora se tornou outro Egito, “a fornalha da escravidão”, e não aceita Jesus.

Jesus sai de lá como Moisés saiu do Egito, liderando um povo que buscava a terra da fartura e da liberdade. Assumir a cruz é difícil, é complicado, é humilhação e morte, mas é a saída, é o novo êxodo.

A voz de Deus é fundamental. “O meu filho, o eleito” corresponde exatamente ao começo do primeiro poema do Servo de Javé, que na tradução dos Setenta está “o meu menino, o escolhido”. A cruz será a realização plena daquilo que dizem esses poemas. Os principais discípulos não estão querendo ouvir isso da boca de Jesus, mas Deus diz: “Escutai-o!”.

A nuvem, a sombra e também o medo de ver Deus lembram a presença divina na manifestação do Sinai. Quem eles agora devem ouvir é Jesus, a voz da nova aliança, que eles não eram capazes nem tinham o desejo de ouvir quando anunciava a própria morte.

Pedro parece querer pôr Jesus em pé de igualdade com os representantes do Primeiro Testamento. Nada de novo, Jesus é apenas mais um, igual a Moisés e a Elias. Propõe fazer uma tenda para cada um (pensava numa festa das Tendas?), a fim de que os três se estabeleçam e fiquem ali. Por outro lado, fala por falar, sem saber o que diz ou o que dizer.

Depois de a voz de Deus se fazer ouvir, Jesus se encontra só: ele sozinho resume toda a Escritura. Ele está a sós com eles, mas, com eles, parece que continua sozinho para enfrentar os inimigos em Jerusalém.

PISTAS PARA REFLEXÃO

Jesus estará ainda hoje enfrentando sozinho o caminho da cruz? A cruz terá deixado mesmo de ser um escândalo, algo absurdo e incompreensível? Não é preferível falar da glória, do poder, do prestígio? Falar de cruz hoje dá sono; cruz, sacrifício em favor do outro, são coisas fora de moda!

A ressurreição não se explica sem a cruz. A ressurreição vem justificar a cruz, dar a aprovação de Deus a esse caminho tão estranho. A chegada dá razão ao caminho, a ressurreição dá razão à cruz.

Pedro, Tiago e João terão entendido tão mal a caminhada de Jesus? Sem dúvida, os evangelistas estavam pensando sobretudo nos dirigentes e fiéis de suas comunidades: eram eles certamente que não estavam entendendo bem o caminho de Jesus e começavam a se envolver mais com disputas de poder e prestígio. Como diz o pessoal da roça, o evangelista “está batendo na carroça para o burro entender”. Esses que têm dificuldade de entender não seremos nós, hoje?

Haverá outra saída para a humanidade, para seus problemas sociais, políticos, ecológicos, que não seja a cruz, a coragem de se sacrificar pelo outro, por todos, pelo todo?

Outro dia uma criança disse: “Para a gente viver em comunidade, é preciso passar pela cruz!”.

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“Meu coração disse: Senhor, buscarei a vossa face.

É vossa face, Senhor, que eu procuro, não desvieis de mim o vosso rosto!” (cf. Sl. 26,8)

Vamos entrando na segunda semana de nosso retiro anual de preparação para a Páscoa. A liturgia de hoje nos convida para subirmos a montanha para sermos transfigurados com o Cristo. O caminho de Jesus e a antecipação de seu termo em Jerusalém formam, dentro da teologia de São Lucas, o quadro de referência para a interpretação do Evangelho deste domingo. A primeira leitura (cf. Gn 15,5 - 12.17 - 18) nos apresenta a Aliança de Javé com Abraão. O Deus de Abraão anda com ele, promete-lhe descendência e terra, e Abraão lhe dá fé. Mas o cumprimento se faz esperar. Abraão pede um sinal. O sinal é a aliança, um pacto selado pela passagem de Javé(em forma de fogo) no meio de duas metades do animal sacrificado. Abraão abandona as certezas humanas e confia seu futuro a Deus. Sua fé é a esperança.

O Evangelho de hoje (cf. Lc. 9,28b - 36) é chamado da TRANSFIGURAÇÃO. Está intimamente ligado a paixão e a morte do Senhor Jesus. A transfiguração demonstra duas atitudes: uma de afastar do coração dos Apóstolos o desespero diante da humilhação da cruz e outra como sinal de esperança. Cristo que se dignou a assumir a nossa humanidade, exceto o pecado, nos lembra que mesmo dentro de nossa miséria e de nosso sofrimento, se seguirmos os ditames deixados por Jesus, seremos elevados a um destino glorioso e divino.

Assim o Evangelho da Transfiguração ilumina a paixão e a morte com a mesma intensidade com que olha para a páscoa. Nós devemos enxergar a humanidade de Jesus sem nos esquecermos da sua divindade.

Três são os apóstolos presentes na Transfiguração: Tiago, João e Pedro, o chefe do futuro Colégio Apostólico. Estes três apóstolos serão as testemunhas da Paixão da Ressurreição.

Jesus sobe ao monte Tabor para rezar! Jesus sobe para rezar para nos convidar também para rezar. Qual é o monte de hoje? É um lugar da criatura encontrar-se com seu Criador, longe do barulho, longe da planície, que é símbolo do ramerrão da vida cotidiana. Se hoje o Cristo manifesta a sua divindade em seu corpo humano, ele o faz na mais alta e bela montanha da Galiléia, isto é, num lugar sagrado em que, na imaginação do povo, seria possível se unirem o céu e a terra e Deus se manifestar.

O monte é símbolo da oração e da partilha. O pai pede para escutar o que o seu “Escolhido” tem a nos dizer. Revelando a sua identidade, ou seja, a sua divindade e o seu destino como Redentor, a transfiguração, também, revela o nosso próprio destino: sermos transfigurados! Por isso este Evangelho lido sempre no segundo domingo da quaresma nos convida a percorrer o caminho com Jesus para Jerusalém, para a paixão e a morte.

Jesus hoje nos ensina que devemos estar sempre perto da divindade, de Deus.  Todos somos convidados a nos envolver pelo mistério de Cristo, Filho do Deus Salvador, que se revela a nós. Esse modo de viver envolvido por Deus é o que o livro do Apocalipse vai chamar de “novo céu e nova terra” (Cf. Ap. 21,1).

Porque Jesus precisa de rezar? Sem dúvida, para dizer que a oração envolve todos os principais passos da vida humana e para mostrar que todo o mistério de Jesus se desenvolve em clima de oração. Para tudo Jesus reza e esta deve ser a atitude de todos os cristãos. E, lembre-se, de que enquanto os três apóstolos dormiam Jesus estava vigilante, porque a advertência já veio: Vigiai, porque não sabeis nem o dia e nem a hora! Jesus nos ensina que é preciso ter a consciência acordada para poder entender como é possível o Deus da vida morrer, como é possível que o Cristo faça brotar da morte uma vida nova e eterna.

Jesus veio assumir toda a missão de Moisés e dos antigos patriarcas da Antiga Aliança. Sua presença hoje é todo um passado que deve ser assumido e conduzido por Jesus no caminho da paixão, morte e ressurreição do Senhor. Jesus, com a sua paixão, morte e ressurreição dá início a um novo êxodo, a um novo povo, a uma nova caminhada pelo deserto, agora já não mais rumo a uma determinada terra, boa e espaçosa, onde correm leite e mel, mas rumo a uma determinada meta: a casa do Pai, onde todos podem degustar a comunhão eterna com Deus.

Quem é esse Jesus? Quem é que dá ordens ao demônio? Quem é esse que perdoa os pecados? Quem é esse que comanda os ventos e as ondas do mar? Esse homem é Jesus, o Filho de Deus.

Na segunda leitura (cf. Fl 3,17 - 4,1), São Paulo anuncia que Cristo nos há de transfigurar conforme a sua existência gloriosa. Todos nós somos chamados a sermos filhos de Deus. Nosso destino verdadeiro é a glória que Deus nos quer dar. Ora, para chegar lá, devemos, como Jesus, iniciar nosso êxodo, nossa caminhada de fé e de amor fraterno, comprometido com a prática da transformação. Isso nos pode levar a galgar o Calvário, como aconteceu a Jesus. O caminho é árduo, e as nossas forças parecem insuficientes. Somos chamados a andar pela terra como cidadãos do céu. O que é isso? Vamos nos portar e nos colocar nas mãos de Deus.

Vamos subir o Tabor vivenciando o exercício da dimensão lúdica do ser humano, exercitada no amor fraterno, na acolhida, na festa, na oração que deve ser sempre com grande entusiasmo e interidade. Todos somos convidados a caminhar para frente a fazer um êxodo do pecado. É neste espírito que os cristãos são convidados a viverem o tempo da Quaresma na preparação para a Páscoa. Abraão fez uma experiência de Deus e foi recompensado por Ele com uma família abençoada e uma descendência repleta das bênçãos do Céu.

Confiemos, pois, na misericórdia de Deus e nos coloquemos na oração contemplativa para que transfiguremos com Cristo e possamos ver a sua luz, ou seja, o seu corpo glorioso. Esta experiência de Tabor vivenciamos nesta missa. Toda missa é Tabor! Toda missa ilumina e fortifica a nossa caminhada de cristão.

padre Wagner Augusto Portugal

 

1º leitura - Gn. 15,5 - 12. 17 - 18

O que nós temos neste texto? A aliança de Deus com Abraão. Deus fez uma promessa a Abraão. Abraão acredita. Esta fé lhe é creditada como justiça. O sinal de que Deus vai cumprir sua promessa é dado no rito da aliança.

A aliança e seu rito - a aliança é sempre bilateral, quer dizer, as duas pessoas envolvidas tinham que assumir o compromisso. O rito da aliança era concluído assim: dividiam alguns animais e colocavam as partes uma diante da outra. Os contraentes passavam no meio. Quem violasse o contrato teria a mesma sorte dos animais. Interessante no nosso texto é que é só Javé, através do símbolo do fogo, que passa entre os animais. Isto significa que Javé nunca será infiel à sua promessa de conceder vida e liberdade àqueles que nele confiam. Veja o texto forte de 2 Tm. 2,13: "Se lhe somos infiéis, ele, no entanto, permanece fiel, pois não pode negar-se a si mesmo".

A promessa - Deus promete duas coisas que eram as aspirações mais profundas de Abraão e de todo o povo da Bíblia: descendência e terra.

Justiça e fé - "A justiça do homem consiste em acreditar nas promessas de Deus, mesmo quando as aparências e fatos indicam o contrário, mesmo quando se espera contra toda a esperança (Rm 4,18 - cf. todo o capítulo 18 da carta aos Hebreus). Em sua polêmica a salvação pela fé e não pelas obras da Lei, Paulo cita essa passagem de Gn. 15,5 em Rm. 4,3 - 9. É bom ler todo o capítulo 4

Cristo nos faz uma promessa de vida nova através da sua morte e ressurreição. Em quem acreditamos? Naquilo que fazemos ou naquilo que Deus fez por nós em Jesus Cristo?

2 leitura - Fl. 3,17 - 4,1

A carta aos filipenses pode ser lida como se fosse a compilação de três cartas escritas em momentos distintos. A primeira 4,10 - 20: agradecimentos pelos auxílios recebidos na prisão. A segunda seria uma exortação à unidade e notícias pessoais: 1,1 - 3 + 4,2 - 7 + 4,21 - 23. A terceira seria um ataque a falsos doutores, inimigos da cruz de Cristo: 3,1b - 4,1 + 4,8 - 9. Como vemos nosso trecho pertence à terceira carta. Ele nos apresenta de um lado os amigos da cruz de Cristo, onde Paulo é o modelo a ser imitado, do outro lado "os inimigos da cruz de Cristo", um contra-modelo a ser evitado. O interesse dos amigos da cruz de Cristo, os cristãos, está no céu. O interesse dos inimigos da cruz de Cristo está no ventre, etc.

Paulo - o modelo - Não se trata de um orgulho ou vaidade de Paulo. Aliás, os filipenses são convidados a observar não apenas Paulo, mas também os que vivem com a mesma coragem de fazer uma opção radical por Cristo (cf. 3,7 - 8; 1,21). No fundo, a preocupação de Paulo é ajudar os filipenses a distinguir os verdadeiros dos falsos líderes e se colocar como ponto de referência para os filipenses, diante do contra-testemunho dos inimigos da cruz de Cristo. Onde está o interesse dos que são de Cristo? No céu, pois eles, mesmo atuando na terra, já são cidadãos do céu. A espera do retorno de Cristo é ansiosa, pois, com seu poder, ele vai transformar o nosso corpo, tornando-o semelhante ao seu corpo glorioso. Eis a importância do respeito ao corpo, pois nosso corpo tem um destino glorioso.

Os judaizantes - o contra-modelo - Os inimigos da cruz de Cristo são os judaizantes, são os que não acreditam no valor salvífico da cruz de Cristo. A salvação deles ainda está no fiel cumprimento da Lei antiga, levando a sério a distinção entre os alimentos puros e impuros (= o deus deles é o estômago), vendo na circuncisão (= o que é vergonhoso) o sinal da pertença ao povo de Deus e, portanto, sinal da salvação. Mas Paulo garante que o fim deles é a perdição, pois seus pensamentos estão nas coisas da terra, não nas coisas do céu (cf. Cl 3,2).

Quem são hoje os inimigos da cruz de Cristo?

Evangelho – Lc. 9,28b - 36

É o Evangelho da transfiguração, embora Lucas não use esta palavra, para seus leitores vindos do paganismo não confundirem o episódio com uma metamorfose das divindades pagãs. Lucas diz que o rosto de Jesus mudou de aparência.

Enquanto rezava, Jesus se transfigura. Jesus está sobre uma montanha para rezar e leva consigo Pedro, Tiago e João. A montanha é uma lugar de oração a sós. O Jesus de Lucas está sempre rezando, principalmente antes de decisões importantes. A montanha relembra também o lugar de tentações de um projeto mundano. Mas Jesus vence o demônio e consolida o projeto divino de salvar os homens através da cruz. Durante a oração Jesus se transfigura.

Moisés, Elias e Jesus conversam sobre o seu êxodo.

Moisés e Elias aparecem na glória e conversam com Jesus sobre seu êxodo em Jerusalém. Moisés representa a Lei; Elias representa os profetas. É que as promessas do Primeiro Testamento vão se realizar em Jesus. Para Lucas este v. 31 é o ponto alto do episódio. O que significa o êxodo de Jesus? A palavra relembra toda a caminhada da libertação do povo do Egito até à Terra Prometida. Jesus também quer libertar o povo oprimido. Isto ele vai fazer superando as tentações do comodismo, do egoísmo e triunfalismo e subindo para Jerusalém numa subida sem retorno, para lá enfrentar a morte e de lá continuar sua subida ou êxodo até à casa do Pai (cf. 9,51 que marca esta decisão de Jesus).

A atitude de Pedro, Tiago e João

Eles dormiam. Quando acordaram viram a glória de Jesus. Quando Moisés e Elias iam se afastando, Pedro sem saber o que estava dizendo, mas sentindo a paz das alturas, propõe fazer três tendas, querendo prolongar aquela cena. Ele não sabia que a transfiguração-ressurreição só acontece depois do Calvário. Nisto foram recobertos com a sombra de uma nuvem que representa a presença de Deus, daí o medo.

A voz de Deus

Da nuvem Deus declara: "Este é meu Filho, o escolhido, escutem o que ele diz". Jesus é o Filho, superior aos servos Moisés e Elias. Só que ele vai assumir a missão de Servo de Javé, o escolhido (cf. Is. 42,1) para a libertação-transfiguração do seu povo através da cruz. O Primeiro Testamento conduz a Jesus e se eclipsa com a sua chegada. A única voz autorizada agora é a dele. Diante desse mistério ainda incompreensível os discípulos se calam.

Como ajudar hoje na transfiguração do rosto tão desfigurado do nosso povo sofrido?

dom Emanuel Messias de Oliveira

 

Na montanha

Estamos no 2º domingo da Quaresma. A liturgia convida a fortalecer a nossa fé. A Transfiguração de Jesus nos dá novo alento em nossa caminhada quaresmal. A Campanha da Fraternidade nos convida a transfigurar a economia, tornando-a mais humana, justa e fraterna. As leituras apresentam pistas para a nossa "Transfiguração".

A 1ª leitura nos fala da Fé de Abraão (Gn 15,5 - 12.17 - 18) Abraão já está velho, sem filhos, sem a terra sonhada e sua vida parece condenada ao fracasso. Deus lhe garante a Posse de uma Terra e uma descendência numerosa... Ele confia totalmente em Deus e se põe a serviço dos desígnios do Senhor.

Abraão é um modelo de fé: confia totalmente em Deus, aceita os planos de Deus e se põe a serviço deles.

Na 2a leitura, Paulo mostra sua fé na transfiguração, apesar do que via e condenava na comunidade: "Ele transformará o nosso corpo humilhado e o tornará semelhante ao seu corpo glorificado" (Fl 3,17 - 4,1)

A nossa transfiguração é um processo contínuo de conversão.

O apego às coisas materiais desfiguram a vida e o sonho de realização.

O desapego é um desafio que deve ser cultivado e retomado diariamente.

O Evangelho apresenta a fé dos apóstolos, fortalecida na Montanha pela Transfiguração de Jesus. (Lc. 9,28b - 36)

Jesus está a caminho de Jerusalém com os Apóstolos.

O 1o anúncio da paixão provoca neles uma crise profunda... Desmoronam as esperanças messiânicas, impregnadas de triunfalismo... Os apóstolos, decepcionados, entram numa profunda crise. Para reanimar a fé abalada deles, Jesus...

- recorre à oração, na Montanha, lugar sagrado por excelência, onde Deus se revela ao homem e lhe apresenta seus projetos.

- se transfigura: todo encontro autêntico com Deus deixa marcas visíveis no rosto das pessoas, como em Moisés ao descer do Sinai;

- uma Voz confirma: "Este é o meu filho amado, escutai-o".

Ao descer do monte, uma nova energia inundaria a sua pessoa e o coração dos apóstolos, para continuar a marcha para Jerusalém, onde seria crucificado...

Pormenores significativos do evangelho de Lucas:

- o motivo da ida à Montanha: "Ele vai lá para orar..."

- o rosto deixa transparecer a presença de Deus durante a oração.

- aparecem Moisés e Elias que falam sobre o que encontrará em Jerusalém. Representam a Lei e os profetas: o Antigo Testamento.

- os três discípulos dormem, quando Jesus fala de doação da própria vida...

- as três tendas: Pedro deseja permanecer contemplando o transfigurado. Jesus convida a descer o monte e prosseguir a caminhada... não podemos nos acomodar em nossa tenda; precisamos agir e enfrentar os conflitos da caminhada.

- Da nuvem sai uma voz: "Este é meu Filho, escutai-o".

- No fim, "Jesus ficou sozinho": Moisés e Elias desaparecem... O Antigo Testamento já cumpriu sua tarefa.

Os três discípulos

- Partilham a experiência da transfiguração, mas recusam-se a aceitar que o triunfo de Cristo passe pelo sofrimento e pela cruz;

- testemunham a transfiguração, mas parecem não ter muita vontade de descer à terra e enfrentar o mundo e os problemas dos homens;

- representam os que vivem de olhos postos no céu, mas alheados da realidade do mundo, sem vontade de intervir para o renovar e transformar. Agentes da transfiguração:

- Nós, como os apóstolos, deparamos com a cruz... E a primeira reação costuma ser a mesma: fugir dela. Aceitamos com alegria o Tabor, mas temos dificuldade em aceitar o Calvário.

- Nesses momentos, para reanimar a nossa fé, Deus continua "inventando" também para nós um Tabor, dando-nos uma pequena amostra de sua beleza e de sua glória.

Contudo é bom lembrar que, na vida do cristão, o Tabor é situação transitória, não permanente. A nossa fé deve ser vivenciada não apenas no Tabor, mas também no Calvário... na dura realidade de todos os dias...

O nosso Tabor

A transfiguração aconteceu oito dias após o anúncio da Paixão... Para os cristãos, o 8º dia é o "dia do Senhor", no qual a comunidade se reúne para escutar a Palavra e para partir o Pão.

Todos os domingos, devemos subir a montanha para contemplar o Cristo transfigurado (ressuscitado) e escutar a sua voz. Depois, transfigurados, descer a montanha (sair da igreja) para prosseguir a nossa caminhada como agentes da transfiguração, dispostos a enfrentar o mundo e os seus problemas...

O que fazemos no domingo? Subimos a montanha... para contemplar esse rosto... para escutar essa voz e depois descemos reanimados para prosseguir a nossa caminhada?

Só assim nossa comunidade será um poderoso instrumento para que esse mundo desfigurado volte a ser o mundo maravilhoso que Deus criou.

padre Antônio Geraldo Dalla Costa

 

Do rosto transfigurado aos rostos desfigurados

No Evangelho deste II Domingo da Quaresma, somos convidados a subir a montanha em companhia de Pedro, Tiago e João, seguindo os passos de Jesus que se afasta da multidão e se recolhe para rezar. Lucas nos conta o que se passou naquele episódio: enquanto Jesus estava rezando, “seu rosto mudou de aparência e sua roupa ficou muito branca e brilhante”.

Eu penso que cada um de nós tenha sua própria imagem de como tenha acontecido isto; até porque Lucas não nos dá muitos detalhes para compreendermos bem essa mudança na aparência de Jesus. Se formos pesquisar as exegeses existentes sobre o relato, encontraremos uma imensa variedade de interpretações.

Esta mudança no rosto de Jesus que o torna luminoso é o que chamamos “Transfiguração”. Transfigurar, segundo o Aurélio, é mudar a figura ou a feição. Pensando e repensando como poderíamos entender melhor a transfiguração de Jesus, lembremos o rosto de algumas pessoas que nos passam essa idéia: o rosto de uma mãe que amamenta seu filhinho, o de um adolescente apaixonado, o de um pai que se emociona ao ver seu filho fazendo uma apresentação na escola, ou no dia da sua primeira comunhão. O que caracteriza todos eles é o olhar brilhante. E o que faz iluminar a expressão destas pessoas? O amor. É o amor que transparece do rosto deles e os torna luminosos.

Com certeza, foi o amor que tornou o rosto de Jesus resplandecente. Enquanto estava rezando, ele entra em contato com o Pai, e o amor entre eles é tão grande que chega a alterar a aparência de Jesus. Os três apóstolos que o acompanhavam certamente ficaram perplexos ao verem esta mudança. E ainda mais quando viram que “dois homens conversavam com Jesus: Moisés e Elias”. Moisés, que guiou o povo de Israel da escravidão do Egito à libertação dada por Deus; e Elias, que foi assunto ao céu numa carruagem de fogo (2 Rs. 2,11). Os dois, que representam toda a história de Israel, aparecem na montanha para conversarem com Jesus.

Mas, qual era mesmo o assunto da conversa deles? “Conversavam sobre a morte que Jesus iria sofrer em Jerusalém”. Eles falavam da paixão de Jesus, o que estamos, neste tempo de Quaresma, nos preparando para celebrar.

Entretanto, quando os apóstolos perceberam que Moisés e Elias estavam se afastando, Pedro faz uma bela proposta: “Mestre, é bom estarmos aqui! Vamos fazer três tendas! Uma para ti, outra para Moisés e outra para Elias”. Pedro tem razão: deve ter sido muito bom mesmo estar ali imersos na luz do amor entre o Pai e o Filho, escutando o diálogo com Moisés e Elias. Era tão bom que Pedro queria que aquele momento nunca acabasse. É por isso que ele propôs fazer três tendas. Normalmente, quando as pessoas vão a uma montanha para acampar, ou seja, querem passar mais tempo lá, levam e armam suas barracas.

Porém, enquanto Pedro fazia a sua proposta, saiu uma voz do céu com outra indicação: para saborear aquele momento extraordinário, não era preciso armar as tendas, mas ter um coração atento para ouvir a Palavra de Jesus. De fato, o Pai diz: “Este é meu Filho, o escolhido. Escutai o que Ele diz”. Não faz muito tempo que ouvimos a mesma declaração no Batismo de Jesus. E este é um detalhe muito interessante, pois o Pai está dizendo que aquele Filho que começou o ministério no Jordão é o mesmo que está prestes a morrer crucificado.

A força da voz do Pai deve ter sido um dom belíssimo para os apóstolos, a ponto de não quererem falar por muito tempo este episódio, guardado no coração: “Escutai!” Escutar! É a melhor maneira para se preparar para a Páscoa: escutar a Palavra que Jesus veio nos dar. Escutar com os ouvidos, mas, sobretudo, escutar com o coração. Só assim podemos ficar com o nosso rosto transfigurado.

Infelizmente, hoje, o rosto de Jesus aparece mais desfigurado que transfigurado. Desfigurado em tantos rostos humanos por causa da pobreza extrema. Jesus sofredor aparece desfigurado no rosto de crianças doentes, abandonadas, desfrutadas; no de jovens desorientados, perdidos; no dos excluídos da sociedade; no de desempregados, no de idosos abandonados até mesmo pela família. São muitos os desafios que os missionários de Jesus têm de enfrentar. Coragem!

 

Antes de tudo, duas observações:

1) A Palavra de Deus, neste domingo, apresenta-nos um contraste muito forte entre escuridão e luz: escuridão da noite do Pai Abraão e luz do Cristo transfigurado;

2) chama atenção, num tempo tão austero como a Quaresma um evangelho tão esfuziante como o da Transfiguração. Não cairia melhor na Páscoa, este texto? Por que a Igreja o coloca aqui, no início do tempo quaresmal?

Comecemos pela primeira leitura. Aí, Abraão nos é apresentado numa profunda crise; Deus tinha lhe prometido uma descendência e uma terra e, quase vinte e cinco anos após sua saída de seu pátria e de sua família, o Senhor ainda não lhe dera nada, absolutamente nada! Numa noite escura, noite da alma, Abraão, não mais se conteve e perguntou: “Meu Senhor Deus, que me darás?” (Gn. 15,2) Deus, então, “conduziu Abrão para fora e disse-lhe: ‘Olha para o céu e conta as estrelas, se fores capaz! Assim será a tua descendência!” Deus tira Abraão do seu mundozinho, de seu modo de ver estreito, da sua angústia, e convida-o a ver e sentir com os olhos e o coração do próprio Deus. “Abrão teve fé no Senhor”. Abraão esperou contra toda esperança, creu contra toda probabilidade, apostando tudo no Senhor, apoiando nele todo seu futuro, todo o sentido de sua existência! Abraão creu! Por isso Deus o considerou seu amigo, “considerou isso como justiça!” E, como recompensa Deus selou uma aliança com nosso Pai na fé: “’Traze-me uma novilha, uma cabra, um carneiro, além de uma rola e uma pombinha’. Abrão trouxe tudo e dividiu os animais ao meio. Aves de rapina se precipitaram sobre os cadáveres, mas Abrão as enxotou. Quando o sol ia se pondo, caiu um sono profundo sobre Abrão e ele foi tomado de grande e misterioso terror”. Abrão entra em crise: no meio da noite – noite cronológica, atmosférica; noite no coração de Abrão – no meio da noite, as aves de rapina ameaçam, e o sono provocado pelo desânimo e a tristeza, rondam nosso Pai na fé... Deus demora, Deus parece ausente, Deus parece brincar com Abraão! Tudo é noite, como muitas vezes na nossa vida e na vida do mundo! Mas, ele persevera, vigia, luta contra as aves rapineiras e o torpor... E, no meio da noite e da desolação, Deus passa, como uma tocha luminosa: “quando o sol se pôs e escureceu, apareceu um braseiro fumegante e uma tocha de fogo... Naquele dia, o Senhor fez aliança com Abrão”. Observemos o mistério: Deus passou, iluminou a noite; a noite fez-se dia: “Naquele dia, Deus fez aliança com Abrão!” Abraão, nosso Pai, esperou, creu, combateu, vigiou e a escuridão fez-se luz, profecia da luz que é Cristo, cumprimento da aliança prometido pelo Senhor! “O Senhor é minha luz e salvação; de quem eu terei medo? O Senhor é a proteção da minha vida; perante quem tremerei?” Eis o cumprimento da Aliança com Abraão: Cristo, que é luz, Cristo que hoje aparece transfigurado sobre o Tabor!

Fixemos a atenção no evangelho, sejamos atentos aos detalhes: Jesus estava rezando – “subiu à montanha para rezar” - e, portanto, aberto para o Pai, disponível, todo orientado para o Senhor Deus: Cristo subiu para encontrar seu Deus e Pai! E o Pai o transfigura. Sim, o Pai! Recordemos que é a voz do Pai que sai da nuvem e apresenta Aquele que brilha em luz puríssima: “Este é o meu Filho, o Escolhido!” E a Nuvem que o envolve é sinal do Espírito de Deus, aquela mesma glória de Deus que desceu sobre a Montanha do Sinai (cf. Ex. 19,16), sobre a Tenda de Reunião no deserto (cf. Ex. 40,34 - 38), sobre o Templo, quando foi consagrado (cf. 1 Rs. 8,10 - 13) e sobre Maria, a Virgem (cf. Lc. 1,35). É no Espírito Santo que o Pai transfigura o Filho! Na voz, temos o Pai; no Transfigurado, o Filho; na Nuvem luminosa, o Espírito! E aparecem Moisés e Elias, simbolizando a Lei e os Profetas. Aqui, não nos percamos em loucas divagações e ignóbeis conclusões, como os espíritas, que de modo louco, querem provar com este texto que os mortos se comunicam com os vivos! Trata-se, aqui, de uma visão sobrenatural, não de uma aparição fantasmagórica e natural! Moisés e Elias, que “estavam conversando com Jesus... sobre a morte, que Jesus iria sofrer em Jerusalém”. Aqui é preciso compreender! Um pouco antes – Lucas diz que oito dias antes (cf. 9,28) – Jesus tinha avisado que iria sofrer muito e morrer; os discípulos não compreendiam tal linguagem! Agora, sobre o monte, eles vêem que a Lei (Moisés) e os Profetas (Elias) davam testemunho da morte de Jesus, de sua Páscoa! Sua paixão e morte vão conduzi-lo à glória da Ressurreição, glória que Jesus revela agora, de modo maravilhoso! Assim, a fé dos discípulos, que dormiam como Abraão, é fortalecida, como o foi a de Abraão, ao passar a glória do Senhor na tocha de fogo! A verdadeira tocha, a verdadeira luz que ilumina nossas noites sombrias e nossa dúvidas tão persistentes é Jesus!

Mas, por que este evangelho logo no início da Quaresma? Precisamente porque estamos caminhando para a Páscoa: a de 2010 e a da eternidade. Atravessando a noite desta vida e o combate quaresmal, estamos em tempo de oração, vigilância e penitência! A Igreja, como Mãe, carinhosa e sábia, nos anima, revelando-nos qual o nosso objetivo, qual a nossa meta, o nosso destino: trazer em nós a imagem viva do Cristo ressuscitado, transfigurado pelo Espírito Santo do Pai. Escutemos são Paulo: “Nós somos cidadãos do céu. De lá esperamos o nosso Salvador, o Senhor Jesus Cristo. Ele transformará o nosso corpo humilhado e o tornará semelhante ao seu corpo glorioso. Assim, meus irmãos, continuai firmes no Senhor!” Compreendem? Se mantivermos o olhar firme naquilo que nos aguarda – a glória de Cristo –, teremos força para atravessar a noite desta vida e o combate da Quaresma. Somos convidados à perseverança de Abraão, ao seu combate na noite, à vigilância e à esperança, somos convidados a não sermos “inimigos da cruz de Cristo, que só pensam nas coisas terrenas”, somos convidados a viver de fé, a combater na fé! Este é o combate da Quaresma, este é o combate da vida: passar da imagem do homem velho, com seus velhos raciocínios e sentimentos, ao homem novo, imagem do Cristo glorioso! Se formos fiéis, poderemos celebrar a Páscoa deste ano mais assemelhados ao Cristo transfigurado pela glória da Ressurreição e, um dia, seremos totalmente transfigurados à imagem bendita do Filho de Deus, que com o Pai e o Espírito Santo vive e reina na glória imperecível.

 dom Henrique Soares da Costa

 

Primeira leitura: Gênesis 15,5 - 12.17 - 18

ALIANÇA DE DEUS COM ABRAÃO

Estes versículos, tirados da narração já vista, relatam a Aliança de Deus com Abraão. Destacam um grande acontecimento, pois Deus entra em comunhão com os homens e lhes revela o seu projeto. Deus considera a fé de Abraão, torna-se amado pelos homens e suscita a vida para os pobres e os excluídos. Abraão é a figura desses pobres, cuja única riqueza é a fé em Deus, que inverte os rumos da história.

Deus falou a Abraão, que estava velho e cuja esposa era estéril, o que significava uma desgraça (não possuir filhos). Além disso, Abraão era errante e sem terra. Para ele, a vida era possuir uma descendência e um pedaço de terra. Deus foi ao seu encontro e lhe prometeu uma descendência e uma terra, selando com ele um pacto. Bastava que para isso Abraão tivesse fé.

O sentido da narração não é muito claro. O rito do deserto nos versículos 9-11 é arcaico. A narração indica uma teofania. Deus conclui com Abraão uma aliança, que se expressa bilateralmente. Porém, aqui o sentido de Berith indica um compromisso unilateral. Só Deus se compromete com o juramento e Abraão apenas crê.

“Abraão acreditou e isto lhe foi creditado como justiça”. Esta é uma das frases mais famosas da Bíblia, que ofereceu a Paulo base para sua reflexão sobre a participação mediante a fé (Romanos 4,3). Crer, da raiz hebraica “aman”, significa “ser estável”, “seguro”. Abraão encontra na palavra de Deus o fundamento, a rocha para fundamentar todas as suas aspirações e esperanças. Por isso Deus lhe credita isto como justiça, em hebraico “zedaqáh”, que significa um relacionamento da criatura com o Criador.

Por isso Abraão saiu de Ur rumo à terra prometida. Para isto fez um pacto da seguinte forma: Dividiu pelo meio alguns animais, colocando as partes umas em frente das outras, e em seguida passou pelo meio dos animais divididos proclamando fidelidade àquele contrato. Se um deles fosse infiel, devia ser despedaçado como os animais. Depois que escureceu, apareceram uma tocha de fogo e um braseiro fumegante, que passavam entre as partes dos animais. Só o Senhor passou entre os animais divididos, pois ele será perenemente fiel ao seu projeto. O braseiro e a tocha são teofanias. Falam da presença de Deus que caminha com o seu povo.

Segunda leitura: Filipenses 3,17 – 4,1

HÁ POR AÍ MUITOS INIMIGOS DA CRUZ DE CRISTO

Paulo se encontrava na prisão, conforme 1,12-14, quando escreveu aos filipenses. A comunidade de Filipos ficou abalada com sua prisão. Enquanto isto, alguns adversários aproveitaram a ocasião para anunciar um Evangelho que negava o valor do mistério pascal. Paulo os chama de “inimigos da cruz” (v.18). Da cadeia Paulo pede aos filipenses que se afastem desses falsos pregadores e o imitem, vendo-o como ponto de referência para discernir se o Evangelho anunciado e vivido é autêntico ou não.

Em seguida Paulo apresenta algumas características dos “inimigos da cruz”: o deus deles é o estômago e só pensam no que é terreno (v.19b). Ele se refere aos judaizantes, para os quais a morte de Cristo não teria sido um acontecimento de salvação e libertação. Por isso pregavam que para obter a salvação era preciso apegar-se às leis antigas, cumprir as regras da pureza e impureza, tendo na circuncisão (o que é vergonhoso) a garantia da liberdade.

Segundo Paulo, o caminho para estes é a perdição e para os cristãos, ao contrário, um êxodo para a Jerusalém celeste, da qual eles são cidadãos

Evangelho: Lucas 9,28 - 36

TRANSFIGURAÇÃO DE JESUS

O evangelista coloca o evento da transfiguração no final do ministério de Jesus na Galileia, depois da profissão da fé de Pedro, para confirmar a identidade misteriosa de Jesus.

Lucas evita falar de transfiguração, porque o Evangelho que escreveu dirigia-se aos pagãos, que podiam confundir o episódio com a metamorfose das divindades pagãs. Para o evangelista, o episódio da transfiguração faz parte dos últimos acontecimentos que antecedem a viagem de Jesus a Jerusalém (9,51; 19,28). Neste sentido, a transfiguração é a preparação para o “caminho da libertação” de Jesus. A partir deste fato, Jesus toma consciência de sua morte libertadora. Antes de relatar a cena, Lucas situa Jesus num momento tenso de oração, depois destaca o lugar elevado onde Jesus venceu as tentações.

Antes de realizar seu êxodo definitivo, com sua viagem decisiva, sua corporeidade se transforma, como que para antecipar seu destino de morte e ressurreição. Com sua transformação ele experimenta momentaneamente a glorificação à direita do Pai e o triunfo sobre a morte. O esplendor do céu refulge por um instante em seu rosto.

Moisés e Elias conversam com ele. São os representantes da Lei e dos profetas, ou seja, do Antigo Testamento. Moisés é o líder da libertação do Egito e Elias o restaurador do javismo no reino do Norte no tempo de Acab, libertando o povo da idolatria. O comparecimento destas duas personagens atesta que Jesus é o libertador definitivo prometido e prefigurado nos líderes do passado. Lucas diz em 24,44 ss. e em Atos dos Apóstolos 26,22 que Moisés e os profetas previram os sofrimentos de Jesus.

A nuvem é o sinal que atesta a presença de Deus. Assim Lucas testemunha que Deus está presente em Jesus, seu Filho. Aqui como no batismo é o Pai quem declara que Jesus é seu Filho. Ele declara que Jesus é o escolhido para realizar o seu projeto. Por isso o convite de Deus é solene: “Escutem o que ele diz” (Lucas 9,35).

REFLEXÃO

Hoje todos estão preocupados com a imagem: parecer sempre jovem e bonito. Praticam ginástica, usam cosméticos, fazem estética e cirurgias, bronzeiam a pele... Além desta beleza há outra para se preocupar. É aquela que nasce da escuta da Palavra que salva. Deus, como um grande escultor, modela a nossa realidade. Quer fazer de nós uma obra de arte. Tudo o que encontra luz refletirá. Quem escuta Jesus, muda sua vida, vence seus defeitos, aprende a viver como ele e aos poucos vê em si mesmo algo diferente que atrai. Longe do Senhor nosso rosto já não é bonito, porque traz um sinal de egoísmo.

Jesus nos transfigurou em filhos de Deus pelo Batismo, que é uma iluminação. Essa transfiguração será consumada com a transfiguração de nosso corpo. Nós, cristãos, seremos sempre mais transformados na imagem radiante de Deus, por obra do Espírito Santo (2 Coríntios 3,18). Isto é possível mantendo a amizade com ele, sendo-lhe fiel, para que a imagem de seu Filho permaneça sempre radiante em nós (graça). Para isso é preciso um empenho contínuo, com a renúncia e a penitência, para vencer as más inclinações. Para isso é preciso uma ascese lenta, orientando-se para Deus. A presença de Moisés nos diz que a transformação se realiza na observância da Lei.

A transfiguração de Cristo não é fruto de um equilíbrio que conseguiu com técnicas psicofísicas. Não é uma máscara para camuflar o seu ser. Não é uma posse momentânea, um “look”, mas a expressão do seu sim total ao Pai. Seu rosto é diferente porque é qualitativamente diferente.

Lucas situa a transfiguração num contexto de oração de Jesus em comunhão pessoal com o Pai. A transfiguração aconteceu num momento de crise, poucos dias depois que Jesus anunciou sua paixão e suscitou a reação negativa de Pedro. Tudo isso havia provocado o desmoronamento das esperanças messiânicas, impregnadas de triunfalismo político. A decepção atingiu os discípulos, com o conseqüente abatimento. Por isso Jesus recorreu à oração, como expressão de uma necessidade vital de comunhão com o Pai naquele momento. Ao descer do monte, uma nova energia inundava sua pessoa, assim como o coração dos discípulos, para continuarem o caminho em direção a Jerusalém. Também nós, para reafirmar nossa identidade de filhos de Deus, devemos intensificar nossas orações, particularmente nos momentos difíceis.

Precisamos “subir ao monte” para o encontro com Deus, como todos os santos fizeram. Precisamos saber contemplar a oração e a ação, já que não é possível ficar sempre no monte. Só em contato com Deus pela oração responderemos satisfatoriamente à nossa vocação cristã e nos realizaremos como seguidores de Jesus. Não há cristão, nem testemunho cristão, sem a oração pessoal e comunitária.

Para que Cristo transforme nossa condição humilde conforme o modelo de sua condição gloriosa (2ª leitura), devemos ouvi-lo e estar unidos a ele pela oração. Transformados nele não vamos caminhar como “inimigos da cruz”, mas como cidadãos do céu.

Devemos testemunhar o rosto silencioso e não deformado de Cristo, testemunhando-o como discípulos. Assim como devemos descobrir o rosto de Cristo na pessoa de nossos irmãos, particularmente dos que mais sofrem (Mateus 25,40).

São Leão Magno diz que “o fim principal da transfiguração foi desterrar das almas dos discípulos o escândalo da cruz”. Os apóstolos jamais esqueceram esta “gota de mel” que Jesus lhes ofereceu no meio da amargura. Realmente, Pedro lembrará este evento muito tempo depois (2 Pedro 1,17 - 18). Esta centelha de glória envolveu os três escolhidos com uma felicidade tão grande que Pedro exclamará: “Senhor, é bom estarmos aqui. Façamos três tendas...”. Mas Pedro não sabia o que dizia, pois é preciso estar com Jesus em todas as circunstâncias da vida, tanto faz se estivermos rodeados dos melhores consolos ou numa cama de hospital. Devemos dizer: “Vultum tuum, Domine, requiram”. “Desejo ver-te, Senhor, e procurarei o teu rosto nas circunstâncias habituais da minha vida”.

A experiência inédita de Pedro, Tiago e João foi para fortalecê-los nas adversidades. Esta lembrança serviu-lhes sem dúvida como grande ajuda nas situações difíceis. Após aquele momento de glória, os apóstolos não viram mais Moisés, Elias e Jesus. Viram o Jesus de sempre, que às vezes passava fome, cansava-se, portanto sem manifestações gloriosas. Vê-lo transfigurado foi uma exceção. Também nós devemos encontrar Jesus na vida quotidiana, no trabalho, na rua, nos vizinhos, na oração, nos sacramentos, na palavra... Devemos aprender a descobri-lo nas coisas ordinárias. O Jesus que esteve no Tabor é o mesmo que se encontra ao nosso lado diariamente.

padre José Antonio Bertolin, OSJ

 

A cena da Transfiguração é narrada pelos três evangelistas. A narrativa é feita em um estilo apocalíptico, também presente nas narrativas do batismo e da crucifixão de Jesus.

Este estilo caracteriza-se por fenômenos espantosos, abalos da natureza, nuvens e voz celestial, que indicam a presença e comunicação de Deus. Com isso, na Transfiguração fica confirmada a filiação divina de Jesus e seu caráter de enviado para anunciar e instruir a todos.

Moisés, representante da Lei, e Elias, representante do profetismo, haviam subido à montanha ao encontro de Deus. Agora, estando Jesus no alto da montanha a orar, Moisés e Elias vão a ele. O ponto alto é a voz que proclama: "Este é o meu filho, o Eleito. Escutai-o".

Do ponto de vista de uma interpretação messiânica, a Transfiguração seria o prenúncio da ressurreição, como coroação dos sofrimentos de Jesus em sua Paixão.

Sob outro ponto de vista, a Transfiguração revela a condição divina de Jesus de Nazaré, filho de Maria, na simplicidade de seu convívio entre nós. Os discípulos devem ver em Jesus a nova condição humana glorificada pela encarnação do Filho de Deus.

Não se trata de esperar um messias poderoso, mas, sim, de reencontrar a dignidade e a grandeza da condição humana, em tudo que ela tem de justo, bom e verdadeiro. Ao entrarmos em comunhão de amor com Jesus e com o próximo, Deus é glorificado e nos é comunicada sua vida divina e eterna.

frei Giribone

 

Transfiguração

Você conhece o poema “pegadas na areia”? Relata a observação que uma pessoa fazia estando na praia de que nos momentos mais felizes da sua vida existiam duas pegadas na areia: as do Senhor e as suas. Deus estava presente nos momentos de felicidade. Mas… que decepção! Nos momentos de dificuldade, a mesma pessoa notava que só existia uma pegada na areia. Ao perguntar ao Senhor o porquê daquilo, Deus lhe respondeu que nos momentos mais difíceis Ele a segurava nos braços sem que ela mesma percebesse isso. Surpresa maior ainda: as pegadas eram do Senhor!

Acabamos de escutar o trecho do Evangelho que nos relata a transfiguração do Senhor. Ao olharmos um pouco o contexto, observamos que Jesus tinha anunciado aos seus que “é necessário que o Filho do homem padeça muitas coisas, seja rejeitado pelos anciãos, pelos príncipes dos sacerdotes e pelos escribas. É necessário que seja levado à morte e ressuscite ao terceiro dia” (Lc. 9,22); que ele tinha falado também que se alguém o quisesse seguir que tomasse a cruz (cf. Lc. 9,23 - 24); por outro lado, os discípulos esperavam um messias político que vencesse pela força de um exército dominador o poder dos romanos, de cujo jugo desejavam ver-se livres.

Tendo em conta tudo isso, podemos dizer que os discípulos encontravam-se bastante desnorteados e até mesmo desanimados. A transfiguração do Senhor é um consolo. De fato, dizia São Leão Magno que “o fim principal da transfiguração foi desterrar das almas dos discípulos o escândalo da Cruz”; trata-se de uma “gota de mel” no meio dos sofrimentos. A transfiguração ficou muito gravada na mente dos três apóstolos que estavam com Jesus, anos mais tarde São Pedro lembrar-se-ia deste fato na sua segunda epístola: “Este é o meu filho muito amado, em quem tenho posto todo o meu afeto”. Esta mesma voz que vinha do céu nós a ouvimos quando estávamos com ele no monte santo” (2 Pd. 1,17 - 18).  Ele, Jesus, continua dando-nos o consolo – quando necessário – para podermos continuar caminhando e para que nunca desistamos. É preciso que façamos muitos atos de esperança, uma virtude muito importante para todos os membros desse estado da Igreja que nós chamamos de “militante”. Somos os que combatem e somos combatidos, a nossa força vem do Senhor, nele nós esperamos.

Vale a pena seguir alguém que vai morrer na Cruz? Uma pergunta semelhante pôde ter passado pela mente dos discípulos do Senhor como também pôde ter passado alguma vez pela nossa, quiçá formulada de outra maneira. No ciclo B, a liturgia nos apresenta o relato da grande prova ao qual Abraão – o pai de todos os crentes – é submetido (cf. Gn. 22). O relato faz parte das assim chamadas “tradições patriarcais” (Gn. 12 - 36). A prova pela qual Abraão passa é dramática: sacrificar Isaac, seu filho amado e, ademais, filho da promessa.

Muitas vezes, também nós passamos por provas espirituais difíceis: parece que Deus não me ouve, que ele está longe de mim, não liga para mim, muda de planos e que “não está nem aí” para os meus planos. Os discípulos de Jesus têm uma sensação semelhante diante do anúncio da Paixão e do seguimento exigido por Jesus: encontravam-se diante de um projeto que eles não tinham imaginado. E agora, vale a pena? Vale a pena, Abraão? Vale a pena, discípulos de Cristo? Você que lê esse texto: vale a pena? Hoje em dia, você e eu só estamos no serviço do Senhor porque aqueles primeiros viram que valia a pena e porque livremente vimos, nós também, que vale a pena.

Os discípulos da transfiguração são os mesmos do monte das Oliveiras, os da alegria são também os da agonia. É preciso acompanhar o Senhor em suas alegrias e em suas dores. As alegrias preparam-nos para o sofrimento e o sofrimento por e com Jesus dá-nos alegria. Os discípulos, que estavam desanimados diante do Mistério da Cruz, são consolados por Jesus na transfiguração e preparados para os acontecimentos vindouros, como, por exemplo, o terrível sofrimento que Ele padecerá no Getsêmani. Vale a pena segui-lo? Certamente.

Animemo-nos, irmãos e irmãos, a nossa pátria é o céu. Para o povo de Israel estar em qualquer lugar que não fosse Jerusalém era estar exilado, fora da pátria; para o cristão, todo este mundo é um exílio, já que a sua pátria é o céu, para lá se encaminha. Mas, paradoxalmente, qualquer lugar neste mundo é para o cristão uma pátria, pois sabe que está no mundo que é propriedade do seu Pai do céu. O nosso desejo de eternidade não anula as nossas responsabilidades para com esse mundo tão amado por Deus e por cada um de nós. Jesus mesmo mostra aos seus discípulos que deve ser assim quando, diante da proposta de Pedro para fazerem três tendas no monte Tabor, desce para continuar junto com eles a sua missão evangelizadora.

Tendo presente o que foi dito, alguns propósitos concretos para este domingo poderiam ser: trabalhar com desejos de eternidade, olhar as tribulações e contrariedades como uma benção santificadora do Senhor, fazer muitos atos de esperança (“Senhor, eu espero em ti”), pensar muitas vezes durante o dia na presença de Deus junto a nós em todos os momentos, viver na certeza de que nós podemos sempre falar com Deus. Ele é nosso Pai.

padre Françoá Rodrigues Figueiredo Costa

 

A ORAÇÃO TRANSFIGURA

No 1º domingo da Quaresma, a liturgia nos apresentou Jesus sendo levado para o deserto, tentado pelo demônio.

No II domingo, Jesus é apresentado no monte Tabor, em oração, transfigurado (cf. Lc. 9,28 - 36). A montanha representa o ideal, as aspirações mais profundas do ser humano, o próprio Deus.

Pedro, Tiago e João, os discípulos mais próximos de Jesus, são convidados a subir a montanha para orar. O Evangelho nos diz que, enquanto orava, Jesus se transfigurou diante deles. Realiza-se uma profunda manifestação da divindade de Jesus. Pedro e seus companheiros, envolvidos pela glória de Deus, ficaram encantados diante da visão que tiveram. Pedro quer permanecer naquele lugar, pois, na experiência profunda de Deus, todas as condições humanas como que desaparecem. Mas quando desce a nuvem, forte símbolo da presença e da ação de Deus, os discípulos se atemorizam. Ouvem uma voz, dizendo: “Este é o meu Filho, o Eleito; ouvi-O sempre” (cf. Lc. 9, 36).

Os momentos de Tabor, as experiências profundas de Deus, são de máxima importância  para os cristãos em sua peregrinação para Jerusalém. A experiência do Tabor dá forças para caminhar  no seguimento de Cristo pelas planícies do dia-a-dia, levando cada qual a sua cruz. Em Jerusalém, os espera outra colina: o Calvário. Tendo feito a experiência do Tabor, os discípulos de Cristo serão levados a estar com o Senhor Jesus também no Calvário, donde brotará o jardim da Vida (cf. 2ª leitura, Fl. 3,7 - 4,1).

Aquela experiência de Deus inundou os apóstolos de uma felicidade tão grande que fez Pedro exclamar: “Senhor, é bom permanecermos aqui. Façamos três tendas…” Dirá o evangelista que “não sabia o que dizia”, pois o que é bom, o que importa, não é estar aqui ou ali, mas estar sempre com Cristo, em qualquer parte, e vê-Lo por trás das circunstâncias em que nos encontramos. Se estamos com Ele, tanto faz que estejamos rodeados dos maiores consolos do mundo ou prostrados na cama de um hospital, padecendo dores terríveis. O que importa é somente isto: vê-Lo e viver sempre com Ele. Esta é a única coisa verdadeiramente boa e importante, na vida presente e na outra.

A vida dos homens é uma caminhada para o céu, que é a nossa morada. Uma caminhada que, às vezes, se torna áspera e difícil, porque com frequência devemos remar contra a corrente e lutar contra muitos inimigos, interiores ou de fora. Mas o Senhor quer confortar-nos com a esperança do céu, de modo especial nos momentos mais duros ou quando se torna mais patente a fraqueza da nossa  condição: “À hora da tentação, pensa no Amor que te espera no Céu. Fomenta a virtude da esperança, que não é falta de generosidade” (Caminho, nº 139).

O tempo da Quaresma é um convite para que intensifiquemos a vida de oração. Jesus transfigurou-se enquanto rezava. A oração transfigura o ser humano, porque o coloca no seu devido lugar, isto é, em Deus. É neste espírito de oração, leitura e meditação da Palavra de Deus que os cristãos são convidados a viver o tempo da Quaresma, em preparação a Páscoa. Abraão fez uma experiência de Deus e foi recompensado por Ele com uma numerosa descendência e um vasto território (Gn. 15,5 - 12. 17 - 18).

“Que Deus conceda a todos nós, que ao longo desta Quaresma possamos progredir no conhecimento de Jesus Cristo e corresponder a Seu amor por uma vida santa”. Devemos encontrar esse Jesus na nossa vida corrente, no meio do trabalho, na rua, nos que nos rodeiam, na oração, quando nos perdoa no sacramento da confissão (penitência), e sobretudo na Eucaristia, onde se encontra verdadeira, real e substancialmente presente. Devemos aprender a descobri-Lo nas coisas ordinárias, correntes, fugindo da tentação de desejar o extraordinário.

Importa colocar nossa confiança em Jesus Cristo “ que transfigurará o nosso corpo humilhado, conformando-o ao seu Corpo glorioso” (Fl. 3,21). A transfiguração do cristão só alcançará a sua plenitude na vida eterna, mas tem já o seu início na terra, por meio do batismo: a graça de Cristo é o fermento que nos transforma e transfigura na Sua imagem, se aceitarmos levar a cruz com Ele. Cada eucaristia constitui uma experiência de Tabor. Ela ilumina e fortifica a caminhada do cristão.

mons. José Maria Pereira

 

As leituras deste domingo convidam-nos a refletir sobre a nossa “transfiguração”, a nossa conversão à vida nova de Deus; nesse sentido, são-nos apresentadas algumas pistas.

A primeira leitura apresenta-nos Abraão, o modelo do crente. Com Abraão, somos convidados a “acreditar”, isto é, a uma atitude de confiança total, de aceitação radical, de entrega plena aos desígnios desse Deus que não falha e é sempre fiel às promessas.

A segunda leitura convida-nos a renunciar a essa atitude de orgulho, de auto-suficiência e de triunfalismo, resultantes do cumprimento de ritos externos; a nossa transfiguração resulta de uma verdadeira conversão do coração, construída dia a dia sob o signo da cruz, isto é, do amor e da entrega da vida.

O Evangelho apresenta-nos Jesus, o Filho amado do Pai, cujo êxodo (a morte na cruz) concretiza a nossa libertação. O projeto libertador de Deus em Jesus não se realiza através de esquemas de poder e de triunfo, mas através da entrega da vida e do amor que se dá até à morte. É esse o caminho que nos conduz, a nós também, à transfiguração em Homens Novos.

LEITURA I – Gen. 15,5 - 12.17 - 18 - AMBIENTE

A primeira leitura de hoje faz parte das chamadas “tradições patriarcais” (Gn. 12 - 36). São “tradições” que misturam “mitos de origem” (descreviam a “tomada de posse” de um lugar pelo patriarca do clã), “lendas cultuais” (narravam como um deus tinha aparecido nesse lugar ao patriarca do clã), indicações mais ou menos concretas sobre a vida dos clãs nômades que circularam pela Palestina e reflexões teológicas posteriores destinadas a apresentar aos crentes israelitas modelos de vida e de fé.

Os clãs referenciados nas “tradições patriarcais” – nomeadamente os de Abraão, Isaac e Jacob – tinham os seus sonhos e esperanças. O denominador comum desses sonhos era a esperança de encontrar uma terra fértil e bem irrigada, bem como possuir uma família forte e numerosa que perpetuasse a “memória” da tribo e se impusesse aos inimigos. O deus aceite pelo grupo era o potencial concretizador desse ideal.

É neste “ambiente” que este texto nos coloca. Diante de Deus, Abraão lamenta-se (cf. Gn. 15,2 - 3) porque a sua vida está a chegar ao fim e o seu herdeiro será um servo – Eliezer (conhecemos contratos do séc. XV a. C. onde se estipula, em caso de falta de filhos, a adoção de escravos que, por sua vez, se comprometiam a dar ao seu senhor uma sepultura conveniente. Parece ser a esse costume que o texto alude). Qual será a resposta de Deus ao lamento de Abraão?

MENSAGEM

A primeira parte deste texto começa com Deus a responder a Abraão e a garantir-lhe uma descendência numerosa “como as estrelas do céu” (vs. 5). Na sequência, o narrador deixa Abraão a contemplar em silêncio o céu estrelado e volta-se para o leitor, comunicando-lhe os seus próprios juízos teológicos (vs. 6): Abraão acreditou em Jahwéh e, por isso, o Senhor considerou-o como justo. A (usa-se o verbo “‘aman”, que significa “estar firme”, “ser leal”, “acreditar plenamente”) de que aqui se fala traduz uma atitude de confiança total, de aceitação radical, de entrega plena aos desígnios de Deus; a justiça é um conceito relacional, que exprime um comportamento correto no que diz respeito a uma relação comunitária existente: aqui, significa o reconhecimento de que Abraão teve um comportamento correto na sua relação com Jahwéh, ao confiar totalmente em Deus e ao aceitar os seus planos sem qualquer dúvida ou discussão.

Há ainda o complemento habitual da promessa: a garantia de uma terra (vs. 7). Os dois temas – descendência e posse da terra – andam associados, nestes casos.

A segunda parte do texto apresenta Deus a fazer os preparativos de um misterioso cerimonial. Trata-se de um rito de conclusão de uma aliança, conhecido sob esta ou outra forma semelhante em numerosos povos antigos: cortavam-se os animais em dois e colocavam-se as duas metades frente a frente; quem subscrevia a aliança passava entre as duas metades de animais e pronunciava contra si próprio uma espécie de maldição, para o caso de ser responsável pela quebra do pacto.

Seguindo o modo como entre os homens se garantia a máxima firmeza contratual, o catequista bíblico acentua a ideia de um compromisso solene e irrevogável que Deus assume com Abraão. A promessa de Deus fica assim totalmente garantida.

Repare-se, ainda, num outro pormenor: Deus não exigiu nada a Abraão, em troca, nem Abraão teve que passar no meio dos animais mortos (só Deus passou, no “fogo ardente”). A promessa de Deus a Abraão é, pois, totalmente gratuita e incondicional.

ATUALIZAÇÃO

Apesar da contínua reafirmação das promessas, Abraão está velho, sem filhos, sem a terra sonhada e a sua vida parece condenada ao fracasso. Seria natural que Abraão manifestasse o seu desapontamento e a sua frustração diante de Deus; no entanto, a resposta de Abraão é confiar totalmente em Deus, aceitar os seus projetos e pôr-se ao serviço dos desígnios de Jahwéh. É esta mesma confiança total que marca a minha relação com Deus? Estou sempre disposto – mesmo em situações que eu não compreendo – a entregar-me nas mãos de Deus e a confiar nos seus desígnios?

O Deus que se revela a Abraão é um Deus que se compromete com o homem e cujas promessas são garantidas, gratuitas e incondicionais. Diante disto, somos convidados a construir a nossa existência com serenidade e confiança, sabendo que no meio das tempestades que agitam a nossa vida Ele está lá, acompanhando-nos, amando-nos e sendo a rocha segura a que nos podemos agarrar quando tudo o resto falhou.

LEITURA II – Filip 3,17 - 4,1 - AMBIENTE

Na prisão (em Éfeso?), Paulo agradece aos Filipenses a preocupação manifestada (eles até enviaram dinheiro e um membro da comunidade para ajudar Paulo no cativeiro), dá notícias, exorta-os à fidelidade e põe-nos de sobreaviso em relação aos falsos pregadores do Evangelho de Jesus. Estamos no ano 56/57, provavelmente.

O texto que nos é proposto como segunda leitura faz parte de um longo desenvolvimento (cf. Fl. 3,1 - 4,1), no qual Paulo avisa os Filipenses para que tenham cuidado com “os cães”, os “maus obreiros”, os “falsos circuncidados” (cf. Fl. 3,2).

Quem são estes, a quem Paulo se refere de uma forma tão pouco delicada? Muito provavelmente, são esses cristãos de origem judaica (”judaizantes”) que se consideravam os únicos perfeitos e detentores da verdade, que exigiam aos cristãos o cumprimento da Lei de Moisés e que, dessa forma, lançavam a confusão nas comunidades cristãs do mundo helênico. As duras palavras de Paulo resultam da sua revolta diante daqueles que, com a sua intolerância, com o seu orgulho e auto-suficiência, confundiam os cristãos e punham em causa o essencial da fé (o Evangelho não é o cumprimento de ritos externos, mas a adesão à proposta gratuita de salvação que Deus nos faz em Jesus).

MENSAGEM

Os Filipenses têm diante de si dois possíveis e muito diferentes exemplos a seguir.

Um é o de Paulo, que se considera um atleta de fundo, que já começou a sua corrida, mas tem consciência de que ainda não atingiu a meta; outro é o desses pregadores “judaizantes” que alardeiam participar já, de forma plena e definitiva, no triunfo de Cristo. Paulo recusa este triunfalismo e não duvida em pedir aos Filipenses que não imitem o exemplo de orgulho desses pregadores, mas o exemplo do próprio Paulo.

Aos Filipenses e a todos os cristãos, Paulo avisa que em nenhum caso devem considerar-se como atletas já vitoriosos e coroados de glória, mas como atletas em plena competição, esperando alcançar a meta e a vitória. A salvação não está consumada; encontra-se ainda em processo de gestação. É um processo em que o cristão vai amadurecendo progressivamente, sob o signo da cruz de Cristo.

Quanto a esses, “cujo deus é o ventre” (Paulo visa aqui, com alguma ironia, as observâncias alimentares dos “judaizantes”), que põem o “orgulho na sua vergonha” (sem dúvida, a circuncisão, sinal da pertença ao “povo eleito”) e “colocam o seu coração nas coisas terrenas” (alguns pensam que Paulo se refere, aqui, a certas práticas libertinas), esses esqueceram o essencial e estão condenados à perdição (vs. 19).

O nosso destino definitivo, segundo Paulo, não é um corpo corruptível e mortal, mas um corpo transfigurado pela ressurreição. Como garantia de que será assim, temos Jesus Cristo, Senhor e Salvador.

ATUALIZAÇÃO

Neste tempo de transformação e renovação, somos convidados pela Palavra de Deus a ter consciência de que a nossa caminhada em direção ao Homem Novo não está concluída; trata-se de um processo construído dia a dia sob o signo da cruz, isto é, numa entrega total por amor que subverte os nossos esquemas egoístas e comodistas.

Considerar-se (como os “judaizantes” de que Paulo fala) como alguém que já atingiu a meta da perfeição pela prática de alguns ritos externos (as normas alimentares e a circuncisão, para os “judaizantes”, ou as práticas de jejum e abstinência, para os cristãos) é orgulho e auto-suficiência: significa que ainda não percebemos onde está o essencial – na mudança do coração. Só a transformação radical do coração nos conduzirá a essa vida nova, transfigurada pela ressurreição.

EVANGELHO – Lc 9,28b - 36 - AMBIENTE

Estamos no final da “etapa da Galileia”; durante essa etapa, Jesus anunciou a salvação aos pobres, proclamou a libertação aos cativos, fez os cegos recobrar a vista, mandou em liberdade os oprimidos, proclamou o tempo da graça do Senhor (cf. Lc 4,16 - 30). À volta de Jesus já se formou esse grupo dos que acolheram a oferta da salvação (os discípulos). Testemunhas das palavras e dos gestos libertadores de Jesus, eles já descobriram que Jesus é o Messias de Deus (cf. Lc. 9,18 - 20). Também já ouviram dizer que o messianismo de Jesus passa pela cruz (cf. Lc. 9,21 - 22) e que os discípulos de Jesus devem seguir o mesmo caminho de amor e de entrega da vida (cf. Lc. 9,23 - 26); mas, antes de subirem a Jerusalém para testemunhar a erupção total da salvação, recebem a revelação do Pai que, no alto de um monte, atesta que Jesus é o Filho bem amado. Os acontecimentos que se aproximam ganham, assim, novo sentido.

Para o homem bíblico, o “monte” era o lugar sagrado por excelência: a meio caminho entre a terra e o céu, era o lugar ideal para o encontro do homem com o mundo divino.

É, portanto, no monte que Deus Se revela ao homem e lhe apresenta os seus projetos.

MENSAGEM

O relato da transfiguração de Jesus, mais do que uma crônica fotográfica de acontecimentos, é uma página de teologia; aí, apresenta-se uma catequese sobre Jesus, o Filho amado de Deus, que através da cruz concretiza um projeto de vida.

O episódio está cheio de referências ao Antigo Testamento. O “monte” situa-nos num contexto de revelação (é “no monte” que Deus Se revela e que faz aliança com o seu Povo); a “mudança” do rosto e as vestes de brancura resplandecente recordam o resplendor de Moisés, ao descer do Sinai (cf. Ex. 34,29); a nuvem indica a presença de Deus conduzindo o seu Povo através do deserto (cf. Ex. 40,35; Nm. 9,18.22;10,34).

Moisés e Elias representam a Lei e os Profetas (que anunciam Jesus e que permitem entender Jesus); além disso, são personagens que, de acordo com a catequese judaica, deviam aparecer no “dia do Senhor”, quando se manifestasse a salvação definitiva (cf. Dt. 18,15 - 18; Mal. 3,22 - 23). Eles falam com Jesus sobre a sua “morte” (”exodon” – “partida”) que ia dar-se em Jerusalém. A palavra usada por Lucas situa-nos no contexto do “êxodo”: a morte próxima de Jesus é, pois, vista por Lucas como uma morte libertadora, que trará o Povo de Deus da terra da escravidão para a terra da liberdade.

A mensagem fundamental é, portanto, esta: Jesus é o Filho amado de Deus, através de quem o Pai oferece aos homens uma proposta de aliança e de libertação. O Antigo Testamento (Lei e Profetas) e as figuras de Moisés e Elias apontam para Jesus e anunciam a salvação definitiva que, n’Ele, irá acontecer. Essa libertação definitiva dar-se-á na cruz, quando Jesus cumprir integralmente o seu destino de entrega, de dom, de amor total. É esse o “novo êxodo”, o dia da libertação definitiva do Povo de Deus.

E o “sono” dos discípulos e as “tendas”? O “sono” é simbólico: os discípulos “dormem” porque não querem entender que a “glória” do Messias tenha de passar pela experiência da cruz e da entrega da vida; a construção das “tendas” (alusão à “festa das tendas”, em que se celebrava o tempo do êxodo, quando o Povo de Deus habitou em “tendas, no deserto?) parece significar que os discípulos queriam deter-se nesse momento de revelação gloriosa, de festa, ignorando o destino de sofrimento de Jesus.

ATUALIZAÇÃO

O fato fundamental deste episódio reside na revelação de Jesus como o Filho amado de Deus, que vai concretizar o plano salvador e libertador do Pai em favor dos homens através do dom da vida, da entrega total de Si próprio por amor. É dessa forma que se realiza a nossa passagem da escravidão do egoísmo para a liberdade do amor. A “transfiguração” anuncia a vida nova que daí nasce, a ressurreição.

Os três discípulos que partilham a experiência da transfiguração recusam-se a aceitar que o triunfo do projeto libertador do Pai passe pelo sofrimento e pela cruz. Eles só concebem um Deus que Se manifesta no poder, nas honras, nos triunfos; e não entendem um Deus que Se manifesta no serviço, no amor que se dá. Qual é o caminho da Igreja de Jesus (e de cada um de nós, em particular): um caminho de busca de honras, de busca de influências, de promiscuidade com o poder, ou um caminho de serviço aos mais pobres, de luta pela justiça e pela verdade, de amor que se faz dom? É no amor e no dom da vida que buscamos a vida nova aqui anunciada?

Os discípulos, testemunhas da transfiguração, parecem também não ter muita vontade de “descer à terra” e enfrentar o mundo e os problemas dos homens. Representam todos aqueles que vivem de olhos postos no céu, mas alheados da realidade concreta do mundo, sem vontade de intervir para o renovar e transformar. No entanto, a experiência de Jesus obriga a continuar a obra que Ele começou e a “regressar ao mundo” para fazer da vida um dom e uma entrega aos homens nossos irmãos. A religião não é um “ópio” que nos adormece, mas um compromisso com Deus que Se faz compromisso de amor com o mundo e com os homens.

padre Joaquim Garrido – padre Manuel Barbosa – padre Ornelas Carvalho

 

Diante do erro dos judaizantes, que muitos em Filipo acreditavam como sendo verdade, Paulo predica a liberdade evangélica que retira da obrigação moral todas as leis mosaicas, a começar pela circuncisão. A cruz de Cristo seria vã e inútil se a salvação consistisse em leis de impureza e observância de antigos costumes. A fé que atua pela caridade (Gl. 5,6) é a nova lei que derroga antigos costumes e privilégios. A salvação está na cruz e morte de Cristo e não na Torah e seus preceitos.

IMITAI-ME: Irmãos: tornai-vos co-imitadores meus e contemplai os assim caminhantes do modo como tendes a nós como modelo (17). Neste capítulo terceiro de sua carta, Paulo insiste em debelar os erros dos judaizantes que consideravam a Lei como valor supremo da justificação, contrariamente à cruz de Cristo que é a base da mesma, segundo o Evangelho. Para debater esse erro dos quais Paulo chama de maus operários e falsos circuncisos, ele, Paulo, israelita de nascimento e circunciso da tribo de Benjamin, quanto a justiça [integridade em guardar os mandatos] irrepreensível, quando encontrou Jesus Cristo seu Senhor, considerou tudo como lixo a fim de ganhar a Cristo e ser achado nele pela fé, com a justiça que vem de Deus e se apóia na fé (Fp. 3,9). Trata-se de conhecê-lo a Ele, ao poder de sua ressurreição e à comunhão com seus sofrimentos, de tornar-se semelhante a Ele em sua morte, para assim alcançar a ressurreição. Sem ser perfeito neste seu intento, Paulo exorta os filipenses a caminhar nessa direção. Este é o momento em que entra o versículo que comentamos.

CO-IMITADORES: em grego Summimëtai. Os de Filipo devem imitar seu exemplo e os que caminham nessa mesma direção, que negativamente se desligava da Torah e especialmente da circuncisão. A palavra grega parece uma invenção de Paulo, pois não se encontra em parte alguma fora deste versículo. É composta de Sun com de companhia, e o particípio do verbo Mimeomai imitar. Daí que temos escolhido também uma nova palavra: co-imitadores. A Nova Vulgata traduz efetivamente co-imitatores.

CONTEMPLAI: do verbo grego Skopeö, observar, contemplar, prestar atenção como para tomar conta de uma pessoa ou coisa em próprio proveito, distinguindo-o do blepein [olhar] sem se concentrar na visão. Aqui é, pois, uma petição de atenta observância da conduta de Paulo e dos que como ele procediam.

CAMINHANTES: do verbo Peripateö, caminhar e em sentido figurado como aqui, viver ou conduzir-se.

MODELO: o Tupos impressão, imagem, exemplo, padrão ou molde. Daí temos os tipos de imprensa, por exemplo. E os ensinamentos próprios de uma religião, modelos a serem imitados, que é nosso caso. Em definitivo, parece que a comunidade de Filipos estava dividida entre os judaizantes e os que seguiam o exemplo de Paulo para os quais o AT se deduzia das palavras de Cristo: amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo (Mt 22,37 e 39). A conduta de Paulo, mais do que ética era uma conduta dogmática em que a cruz de Cristo estava em confronto com a circuncisão e a Torah. Paulo escolheu a cruz e a essa escolha limita seu exemplo e pede sua imitação.

O ERRO DE MUITOS: Pois muitos caminham, como muitas vezes vos disse, os quais, e já agora  lamentando digo,(como) os inimigos da cruz do Cristo (18), dos quais o fim destruição, dos quais o Deus (é) o ventre e a glória na vergonha deles, os quais nas coisas terrenas se ocupam (19).

CHORANDO: o grego Klaiön particípio de presente do verbo Klaiö lamentar, chorar ou prantear, talvez seja melhor dizer lamentar. Com o significado de chorar, temos que Pedro, após renegar Jesus, chorou amargamente (Lc. 22,62) e com o significado de lamentar quando pede às mulheres de Jerusalém: não vos lamenteis por mim e chorai por vós e vossos filhos (Lc 23,28). Na realidade, é o verbo usado para descrever os lamentos das carpideiras, ou seja, choro ou lamento pela morte de um ser querido. E é neste sentido que deve se tomar o Klaiön de Paulo deste versículo.

INIMIGOS: Echthros embora seja um adjetivo, com o  artigo se transforma em nome, como amartolos que é pecador, como adjetivo, e gentil como nome. Aqui o inimigo é quem odeia ou se opõe à cruz de Cristo, como temos visto anteriormente.

DESTRUIÇÃO: Paulo fala do fim dos tais, que é Apöleia. Esta é uma passagem importante pois é uma afirmação geral como se fosse uma lei universal. Que significa Apöleia? No dicionário significa ruína, destruição, aniquilamento. Vejamos algum exemplo: Eu os protegi e nenhum deles se perdeu a  não ser o filho da perdição (Jo 17,12). Este versículo de João ilustra suficientemente a passagem de hoje. A perdição é o afastamento total da graça divina e da salvação.

VENTRE: Paulo continua com a descrição dos réprobos que tem como deus o ventre, Koilia como em Lc. 1,15 que pode ser também o estômago como em Mt. 15,17. Ao afirmar que seu deus é o ventre, quer dizer que é a coisa que eles adoram como se fosse o seu deus. Ventre substitui o que nele entra (Mt. 15,17) que é a comida e bebida, de cujos vícios Paulo tem uma descrição como sendo o oposto ao reino de Deus verdadeiro (Rm. 14,17). E pela história sabemos dos famosos banquetes que duravam toda a noite de modo a Jesus reclamar vigilância para que, chegado o dia da vingança, o coração [mente] não esteja sobrecarregado com as consequências da orgia e da embriaguez (Lc. 21,31). Uma outra descrição dos vícios contrários ao Reino é que os pagãos se gloriavam ou tinham como doxa (= glória) a vergonha ou Aischunë que significa ignomínia, desonra, vergonha, coisa de que se deve envergonhar. A palavra aischinë é empregada por Lucas em 14,9 quando um convidado deve tomar o último lugar por ter querido ocupar uma cadeira que não lhe correspondia. Paulo, sem dúvida, refere-se aos vícios sexuais de sodomia e pederastia, frequentes na sociedade romana da época. Outros exegetas falam dos judeus que tinham na pureza dos alimentos [o ventre] a regra geral de santidade, a qual constituía seu deus, pois eram os mandatos mais rigorosamente obedecidos. E como a circuncisão [a vergonha] era neles a glória que os distinguia dos gentios, pode-se dizer que se cumpria neles a frase paulina com perfeita exatidão.

NAS COISAS TERRENAS: a Epigeia literalmente sobre a terra pode ser traduzida por terrenas, porque é plural, ou terrestres. É o contrário de Anöthen do alto, acima, de novo, do princípio. Neste caso é, sem dúvida, do alto ou do céu, pois está em oposição às coisas terrenas ou inferiores, segundo o universo de três pisos que era a ideia comum na época.

NOSSA PÁTRIA: porém nossa cidadania em coisas do céu está, de onde também aguardamos salvador, (o ) Senhor Jesus Cristo (20).

CIDADANIA: a palavra Politeuma tem o significado de administração, governo, bem-estar comum, cidadania. Sai unicamente neste versículo. Vejamos as traduções: conversatio (Vul), pátria (AV e TEB), cidadania (Es), municipatus (Nova Vulg), siamo cittadini (It). O latim conversatio significa a ação de estar ou morar em algum lugar, além de conversação ou trato. O significado é que a nossa maneira de viver deve estar nas COISAS DO CÉU, En ouranois e é precisamente  daí onde AGUARDAMOS do grego Apekdechometha estar aguardando com ansiedade, estar na expectativa, sendo esta a melhor tradução. Essa expectação é a salvação de parte do Senhor Jesus Cristo. Na realidade, Paulo fala do Salvador que em hebraico é Jeshua e que em nosso idioma se pronuncia como Jesus, a cujo nome Paulo acrescenta Cristo [= ungido] tradução de Messias. Se salvação poderia ter um significado ativo da parte do paciente da ação, salvador indica sempre um agente que traz gratuitamente o benefício, independentemente da ação do paciente, a quem basta o desejo de receber o seu libertador.

A TRANSFORMAÇÃO: O qual transformará o corpo de nossa baixeza para ser conforme ao corpo da sua majestade segundo a força do poder dele e de serem todas as coisas a ele sujeitas (21).

TRANSFORMARÁ: com o verbo Metaschësmatizö mudar a figura, transformar, que os filólogos distinguem de metamorfoö, sendo este usado para uma transformação mais profunda e permanente. O objeto da transformação é o corpo, o nosso corpo material que Paulo descreve como sendo de baixeza, ou baixa qualidade, indigno, que a humildade do latim não traduz muito oportunamente. Pois Tapeinösis indica vileza, baixeza, um estado inferior. Pelo contrário humilitas é uma virtude. Preferimos, pois, baixeza, insignificância, condição humilde, um corpo corruptível e mortal que dirá Paulo em 1 Cor. 13,53.

CONFORME: é a tradução literal de Summorfon neutro, já que corpo é também neutro, tanto o soma grego como o corpus latino. A tradução literal seria conforme, como temos escolhido.

MAJESTADE: em grego Doxa. Na realidade, doxa é traduzido por glória. Se referida aos homens, é a opinião, estima, esplendor; se aos reis, a magnificência, dignidade, majestade; e com respeito de Deus, a excelência e majestade gloriosa e em supremo grau exaltada sobre qualquer criatura, que aos olhos humanos era o resplendor com que iluminava estrelas e aparecia como luz brilhante e inextinguível como era o Kabod, a nuvem que permanecia sobre o tabernáculo e assim, a glória do Senhor o enchia. Outros dizem que é o termo bíblico do AT pela parusia, ou presença visível do Senhor. Temos exemplos nos evangelhos : Apresentou-se um anjo e a glória do Senhor os envolveu de resplendor (Lc. 2,9). Em Caná de Galileia manifestou Jesus sua glória e seus discípulos creram nele (Jo. 2,11). Glória do Senhor é pois o aspecto de majestade e poder que pode se manifestar como resplendor externo, rodeando o corpo ressuscitado de Jesus. Paulo descreve em parte –só vemos em parte- como será o corpo semelhante  ao corpo de Cristo em 1 Cor 15 42 ss. Corpos que ele denomina em glória [doxa = glória] e em poder [dunamis = virtus] em contraste com desonra [atimia = ignobilitas] e fraqueza [astheneia = infirmitas]. O uso das mesmas palavras e ideias indica que foi o mesmo o autor das duas cartas. Segundo a FORÇA DO PODER dEle significa que a ressurreição dos mortos é um ato em que Cristo age como causa eficiente. Do mesmo modo que com só sua palavra ressuscitou Lázaro, assim, com seu poder, os mortos ressuscitarão. Força de seu poder. Unido ao Verbo seu poder é o próprio de Deus; pois dentro da Trindade a ele foi dado o poder sobre sua vida, poder para entregar minha vida e também para reavê-la. Este mandato recebi de meu pai (Jo. 19,18) e sobre a vida humana porque ele mesmo disse eu sou a ressurreição e a vida (Jo. 11,25). Claro que esse poder vem de Deus que como o levantou dentre os mortos também a nós nos levantará com seu poder (1 Cor. 6,14). Isso é claro, porque assim quis o Pai que todas as coisas fossem SUJEITAS à vontade dele, do Jesus ressuscitado que é o Cristo. Pois, sendo a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação, nele foram criadas todas as coisas…nele tudo subsiste, cabeça da igreja, primogênito dos mortos para que em tudo tenha a primazia, porque aprouve a Deus que nele residisse toda a plenitude (Cl. 1,15 e 18)

FINAL: de modo que, irmãos meus queridos e saudosíssimos, alegria e coroa minha, assim permanecei em (o) Senhor, queridos (4,1).

Paulo apela agora aos filipenses como a filhos queridos, a quem chama alegria e coroa minha, para que não se deixem enganar pelos judaizantes e fiquem firmes na sua fé em Cristo. Esta fé, atuando no amor (Gl 5,6), substitui as obras, segundo a Lei ou Torah, que eram o princípio de salvação dos judaizantes

 

Evangelho: A TRANSFIGURAÇÃO

Os três sinópticos relatam, com pequenas variantes, o que podemos afirmar ser a apresentação do verdadeiro Jesus ao trio especialmente escolhido como testemunho. Dos relatos, tomando os detalhes mais significativos, procuraremos fazer um compêndio o mais fidedigno possível, ao mesmo tempo em que tentaremos descobrir intenções catequéticas e deduzir pareneticamente as lógicas consequências para o nosso tempo atual. Não podemos esquecer que os detalhes são tão  importantes quanto o esqueleto da redação.

OITO DIAS: Sucedeu, pois, em seguida a estas palavras por volta de oito dias, e tomando a Pedro e a João e a Jacobo, subiu a um monte para orar (28). Segundo os outros dois evangelistas, foram seis. Mas o importante, à parte esta pequena diferença, é que o sucesso deu-se imediatamente após um pequeno discurso de Jesus proibindo que declarassem seu título de Messias, profetizando seu fim inglório, os avisos sobre a necessidade da renúncia e finalmente, o anúncio de que o Reino seria visto por alguns deles antes da morte dos mesmos. Esta última afirmação é a que será confirmada por esses discípulos escolhidos e precisamente poucos dias após o anúncio efetuado. Isso nos dá pé para explicar o trecho de hoje com uma certeza indiscutível.

O MONTE: contrariamente ao que ordenavam a lei e o costume judaico, Jesus sobe ao cume de um monte alto. Não era para sacrificar, mas para estar a sós, já que essa região era como se fosse proibida e não se esperava que a multidão estivesse lá. Era o medo aos BAMÁ, os lugares cúlticos nos cumes dos montes, como em 1 Samuel 9,13 em que os setenta retêm a palavra BAMÁ, onde se celebravam os banquetes rituais após os sacrifícios. Eram lugares, onde a deusa feminina da fertilidade, Asherá, estava representada por um poste de madeira e a divindade masculina ou Matsebá por uma ou duas colunas que a simbolizavam (2 Rs 3,2), à semelhança dos totens indígenas. Em Levítico 26,30, Deus diz: ¨Destruirei seus bamá¨. Antes da monarquia os lugares altos eram lugares de culto a Javé, como vemos em Samuel no lugar antes citado. Depois da construção do templo por Salomão, os lugares altos representavam o envolvimento pecaminoso em cultos pagãos. Salomão construiu lugares altos para agradar suas mulheres (1Rs 11,7), que só 300 anos depois, na época de Josias, foram destruídos (2 Rs cap. 23). Jeremias (Jr. 19,5) afirmará que as Bamá, que nos seus dias eram lugares de sacrifícios humanos, constituíram parte da razão da catástrofe de Jerusalém ao ser conquistada por Nabucodonosor em 586 a.C. Os samaritanos adoravam no monte Garizim (Jo 4,20). Jesus, que repudiou o uso mercantil do templo, acostumava orar no alto das montanhas (Mt. 5,1).

A ORAÇÃO: como era seu costume, Jesus passa grande parte da noite em oração. A oração é o ato mais puro e profundo da adoração que um crente pode oferecer a seu Deus. Jesus, quando tinha um assunto grave, subia à montanha para orar e passava a noite em oração (Lc. 6,12). O acontecimento, do qual os discípulos foram testemunhas, foi uma explicitação do que passava dentro de Jesus: a sua intimidade com a lei (Moisés) e com as palavras dos profetas (Elias). A intenção primeira de Jesus foi a de orar e mostrar seus discípulos como a oração é primária na vida de um seguidor seu. Logo, quando orava, temos a esplendorosa epifania da qual eles foram testemunhas.

A TRANSFIGURAÇÃO: então sucedeu enquanto orava, a aparência do seu rosto era outra e seu vestido, branco brilhante (29). Marcos fala de metamorfose, transformação ou transfiguração. Dá-se muito geralmente entre os insetos desde o ovo até larvas e finalmente o inseto adulto. Lucas evita a palavra metamorfose devido a que entre os greco-romanos era uma palavra que descrevia certos mitos pagãos e fala de como se alterou o rosto e de que suas vestes se tornaram brancas e brilhantes. O fato de que seu rosto fosse outro indica que houve algo mais que um resplendor e dá ocasião a explicar como os discípulos não distinguiam a figura de Jesus ressuscitado. Mateus fala de que sua face brilhava como o sol e que suas vestes eram brancas como a luz, que a Vulgata traduz como a neve. Marcos diz que suas vestes se tornaram tão brilhantes e brancas que jamais na terra um pisoeiro poderia purificar. O pisão era uma máquina para operar, mediante a percussão, a apertura e limpeza do algodão. As traduções falam de lavadeiro ou tintureiro. As descrições feitas pelos diversos videntes na história da Igreja confirmam estas descrições. Os videntes falam da luz como o componente substancial de suas visões. De fato alguns comentaristas afirmam que estas descrições de luz são uma referência ao relâmpago, elemento da cenografia apocalíptica, como em Dn. 10,6.  Mas o que viram os apóstolos era uma coisa diferente da visão em Fátima. Jesus era uma realidade física que nesse momento estava transfigurado. De Moisés e Elias não poderíamos dizer a mesma coisa. Além de ser uma garantia para o ensinamento de Jesus, eles são testemunhas de que os mortos no Senhor vivem, ou seja, da persistência da vida além túmulo.

MOISÉS E ELIAS: e eis dois homens falavam com ele, os quais eram Moisés e Elías (30). Eram os dois homens que conversavam com Jesus. Para Marcos foi visto por eles Elias com Moisés. Para Mateus Moisés com Elias. Como conheceram os apóstolos que eram semelhantes personagens? Não existiam como hoje desenhos ou pinturas com as quais poderiam identificar os mesmos. Por isso, escutaram seus nomes durante a conversa, ou talvez existiu alguma extrapolação à posteriori para delimitar a companhia de Jesus nesse momento. Sabemos que Moisés podia ser reconhecido pelo brilho de seu rosto, que na figuração cristã aparece como dois chifres de luz e que Elias era o profeta vestido como o Batista. Mas tanto um como outro não poderiam ser identificados unicamente por esses sinais, porque também estavam em majestade (em glória) segundo Lucas, ou seja, deslumbrantes de luz. Ambos, segundo a tradição deviam voltar nos tempos do Messias. De Elias temos o testemunho de Lc. 1,17 sobre o Batista: caminhará com o espírito e o poder de Elias; ou Jo. 1,21: és tu Elias? Perguntam ao Batista. De Moisés temos as palavras do Dt. 18,18: um profeta como tu suscitarei do meio de teus irmãos. Em 1 Mc. 15,41 os judeus nomearam Simão, chefe e supremo sacerdote, até que se erguesse um profeta fiel. Por isso também João, o Batista, é interrogado se ele era o Profeta (Jo. 1,21). Moisés era o representante da lei e Elias era o profeta por excelência, que instaurou a lei nos tempos de Acab (I Rs cap 18). A Escritura, ou, como hoje falamos, a Bíblia, era denominada em tempos de Jesus por Lei e Profetas ou Moisés e Profetas (Lc. 16,29 ou 24,27). Isso significa que a palavra de Deus reafirmava tudo o que era conversado.

A CONVERSA: os quais, vistos em glória, falavam sobre o éxito dEle que devia se cumprir em Jerusalém (31). Eles foram vistos em glória ou majestade como alguns preferem traduzir a DOXA grega, ou seja, deslumbrantes de luz. Luz que é imagem do relâmpago que precede a presença divina, porque era a realidade da abertura dos céus, acompanhada pelo trovão, a voz do Senhor (Sl. 29,2 - 3) como apareceu no batismo de Jesus (Mc. 1,10). Deus é luz (1 Jo. 1,5) e é na sua luz que vemos a luz (Sl. 36,10). O fato é confirmado pelas visões modernas em Lourdes e Fátima, entre outras aparições recentes.

A CONVERSA era sobre o êxito de Jesus que estava a ser realizado em Jerusalém. Evidentemente era sobre a paixão e morte de Jesus e até sobre a sua ressurreição, talvez abrangendo também sua ascensão aos céus. Todos estes eram fenômenos que estavam a acontecer em próximas datas em Jerusalém. De todos os modos, o que não podia faltar era a morte de Jesus em Jerusalém como convinha a um verdadeiro profeta que anunciava os planos do Senhor, contrários aos planos dos homens (Lc. 13,33). Essa matéria constituía uma das preocupações mais sérias de Jesus, até o ponto de repetir três vezes a predição e de se sentir angustiado pela proximidade dos sofrimentos que a acompanhavam (Jo. 12,27).

AS TENDAS: então Pedro e os que estavam com ele pesados de sono tendo despertado, viram a glória dEle os dois homens estando de pé com Ele (32). E sucedeu, ao se retirarem eles dEle, disse Pedro a Jesus: Mestre, bom é para nós permanecer aqui, e faremos três tendas: uma para ti, para Moisés uma e outra para Elías, não sabendo o que dizia (33). Os três apóstolos estavam com sono pesado. Dormiam. E foi ao despertar, como nos diz Lucas, que viram a GLÓRIA de Jesus (sua majestade segundo a Vulgata) e os dois homens que estavam com ele. Os outros dois evangelistas omitem estas circunstâncias. Foi ao se afastar de Jesus os dois acompanhantes, que Pedro indicou a conveniência das três tendas ou cabanas.

As TENDAS eram o único lugar de acomodação que os israelitas tinham durante os sete dias da grande festa das Skenopégia ou Sukoth. Eram verdadeiros carnavais religiosos em que a alegria e a felicidade triunfavam sobre qualquer outro sentimento ou sensação. Pedro usa a palavra Epistates (Praeceptor em latim e traduzida por Mestre em vernáculo; é o Master inglês) sendo que Marcos conserva o original Rabbi e Mateus traduz por Kyrie (Senhor) que Lucas usará também em outras circunstâncias como 5,8. Parece que Pedro queria aproveitar o momento sem se dar conta do que estava pedindo, pois acabava de acordar. E foi nesse instante que apareceu a nuvem.

A NUVEM: falando, pois, ele estas coisas, apareceu uma nuvem e os encobriu; porém temeram ao entrarem eles na nuvem (34). Segundo o grego a palavra usada é NEFELË. Também temos NEFOS, esta última como palavra geral (nuvens diríamos em português) e nefele como massa limitada, uma nuvem bem formada com contornos definidos. Em hebraico temos AB de Êx. 19,19 que os setenta traduzem por coluna de nuvem e que no hebraico é nuvem caliginosa como na Vulgata latina; é a nuvem que serve de estrado quando o Senhor vem julgar seus inimigos (Is. 191), cavalgando numa nuvem ligeira ou finalmente como em Mt. 24,30, o Filho do Homem sobre as nuvens do céu. Existe uma outra palavra,  ANAN,  usada para a coluna de nuvem de Êx. 13,21. Esta palavra sai 80 vezes no AT, indicando em 75 delas a presença de Javé no tabernáculo. É a nuvem que pousará sobre o templo em 1 Rs. 8,10 - 11, manifestando a glória de Javé. Essa nuvem era escura durante o dia para se transformar em nuvem de fogo à noite. A nossa nuvem, segundo Mateus, era brilhante (não podemos esquecer que era noite) e uma manifestação da presença divina em glória ou majestade. Por isso os discípulos tiveram medo ao serem envolvidos pela mesma. Era a manifestação de Javé; e sua presença era sentença de morte para quem o visse, tal e como os judeus temiam em Êx. 20,19. É o temor que se apodera de todo humano quando o sobrenatural é sentido como sensação sensível e presente. Isso mesmo vemos nos relatos dos videntes em aparições que são de paz como as que tiveram os pastores em Belém ou Maria com o anjo.

A VOZ: então uma voz surgiu da nuvem dizendo: este é o meu Filho, o amado: Ouvi-o (35). Evidentemente era a VOZ de Deus, como no Sinai que se fazia ouvir da nuvem, assim como a glória do Senhor se manifestava nela (Êx. 16,19 e 19,16). Em 2 Pd. 1,17 a voz é a de Deus Pai e dele procede o som que proclama duas coisas:

1º) A filiação divina de Jesus como o amado (Mt. e Mc.) ou como o escolhido (alguns manuscritos gregos de Lc.). Qual a diferença? Escolhido indica uma direção messiânica e amado aponta a uma filiação única porque o superlativo não existe em hebraico. O grego ressalta esse adjetivo que se transforma em atributo, especialmente por ser precedido do artigo definido que transforma o simples amado em aposição pessoal ¨o amado¨. O sentido seria o meu filho primogênito ou único. Ambos eram especialmente objeto de um amor de escolha especial. Como o substantivo empregado em grego é Huiós, devemos descartar a tradução de servo, que em grego seria Pais. É a mesma voz que no batismo de Jesus o representa como o meu filho, o amado. Pedro, na segunda de suas cartas, nos diz ter sido testemunha da majestade do Senhor Jesus Cristo ao ter recebido este a glória e honra da parte de Deus Pai, quando da excelsa glória (= nuvem) fez chegar esta voz:  Este é meu Filho, o amado, em quem, comprazido, me orgulho.

2º) O mandato de escutá-lo, como antigamente se escutou Moisés, ou a voz de Elias, como a voz de Deus, em cujo nome falavam. Por isso, desaparecem tanto Moisés como Elias e fica Jesus, sozinho. Ele é a vontade do Pai e representa os planos da grande obra salvífica que está prestes a revelar no seu êxito em Jerusalém.

FINAL: e ao se ouvir a voz, ficou Jesus só; e eles calaram e a ninguém anunciaram naqueles dias nada do que viram (36). Segundo Marcos, o silêncio dos apóstolos foi devido a um mandato de Jesus que lhes ordenou nada  dizer até que ele ressuscitasse dos mortos. Era o segredo messiânico, pois se os apóstolos entenderam alguma coisa do fenômeno, era sem dúvida que Jesus era o Messias. E esta verdade era perigosa, devido a falsa ideia dos contemporâneos. Talvez por isso, Jesus, na continuação, declara como seria seu fim em Jerusalém.

PISTAS

1) Oito dias antes, Pedro, a voz do discípulo, iluminado pela fé, aclama Jesus como Messias. Agora é o Pai que ilumina os discípulos: Jesus é o Filho, o primogênito entre muitos irmãos conformes à sua imagem, dirá Paulo (Rm. 8,29). Por isso a vitória da transfiguração ilumina o fracasso da cruz.

2) O Pai deixa nas mãos de Jesus o novo Reino que se mostra independente da tradição e dos profetas. O Pai oferece o Reino ao Filho porque o Filho oferece a vida ao Pai incondicionalmente. Esse reino é visto em seu esplendor pelas testemunhas escolhidas.

3) Jesus formando uma única pessoa a do Verbo, é o escolhido para que a divindade e a humanidade coincidam, unindo-se numa única e distinta individualidade ou sujeito. Porém é sua humanidade, escolhida como filho, a que nós temos visto e ouvido como presença de Deus definitiva e última na história e a ela devemos seguir e obedecer: escutai-o, diz como mandato único a voz de Deus no monte da revelação.

4) A humanidade de Deus, revestida de humildade em Jesus, se reveste da glória e majestade de Deus no Tabor (monte onde a tradição afirma deu-se a transfiguração). A humanidade revestida de humildade será a base da redenção na cruz, mas objeto da contemplação orgulhosa do Pai  e por isso exaltada onde nós vemos o fracasso e abatimento, pois é fruto de uma obediência até a morte e morte de cruz (Fp. 2,8). Seu êxito foi, pois o orgulho do Pai e a exaltação do Verbo em Jesus-homem, e como tal homem seu nome de Jesus (salvador) dominará todo o mundo criado.

5) Ao estar só o homem-Jesus é revelado como a realidade definitiva (a verdade) da presença de Deus na terra. Escutar sua voz é ouvir a realidade do Criador e sentir a presença do Salvador.

padre Ignácio

 

A economia destrói a vida quando os detentores do poder econômico não são capazes de ver a beleza do ser humano, feito à imagem e semelhança de Deus. No deserto pudemos ver em Jesus a fragilidade, e até mesmo a feiúra, do ser humano humilhado. Esvaziando-se de sua glória, Jesus assimilou em si mesmo a situação do homem decaído. Nossa natureza é “rachada” e Jesus aceitou participar dela para revelar a miséria do homem decaído e o que Deus queria que o ser humano fosse quando o criou. É nesse sentido que Jesus é o novo Adão, por ser o Adão que Deus pensou ao criar o ser humano, homem e mulher.

Neste precioso tempo da Quaresma, depois de termos estado com Jesus no deserto, somos agora levados por Ele ao Monte Tabor, o monte da transfiguração. Os apóstolos Pedro, Tiago e João puderam ver o Cristo transfigurado. A figura de Jesus mudou diante dos apóstolos. Seu corpo, suas vestes, tudo se tornou muito bonito, brilhante, esplendoroso. Sem dúvida, Jesus preparava os seus para o momento da paixão e morte na cruz. Será a hora do grande deserto da tentação.

Os discípulos terão dificuldade de compreender o sofrimento de Jesus, por isso a transfiguração os prepara para aquela hora crucial. Por detrás das aparências do homem humilhado e massacrado está a beleza do homem criado à imagem e semelhança de Deus. Jesus se transfigura em seu corpo humano para nos dar a certeza do que Paulo escreve aos filipenses: “Ele transformará o nosso corpo humilhado e o tornará semelhante ao seu corpo glorioso, com o poder que tem de sujeitar a si todas as coisas”.

Ao fazer aliança com Abraão, Deus lhe prometeu uma terra, para ele mesmo e para os seus descendentes. Podemos ler as Escrituras como um conjunto de imagens bonitas, de figuras do futuro, de promessas para a eternidade. Deus, porém, é o Deus dos vivos e não nos colocou nesta terra apenas como numa antes-sala da eternidade; e Ele mesmo não veio até nós na encarnação para nada. Deus nos colocou neste mundo para vivermos plenamente a vida que Ele nos deu. Para isso precisamos de espaço, de terra, de sustento da nossa materialidade. Teremos um corpo na ressurreição. Seríamos hereges se afirmássemos o contrário. Na transfiguração podemos ver a beleza do ser humano também em seu corpo glorificado.

Sem uma visão de fé que ultrapasse os limites da nossa própria encarnação, o ser humano pode se tornar objeto de exploração dos mais fortes. Se a fé não for teológica, dom de Deus iluminada pela revelação, deve ser ao menos antropológica, em nível humano.

Ninguém aceita correr riscos se não acreditar em alguma coisa, mas há um caminho a percorrer para chegar até lá. Os donos da economia necessitam de um impacto forte que lhes dê uma nova visão do valor do ser humano. Teorias e doutrinas religiosas não os converterão.

Será uma experiência humana, de dor e de alegria, que poderá fazê-los começar a pensar e a agir de forma diferente. Talvez a dor humana não os toque, mas poderá tocá-los a visão da alegria e da felicidade, na simplicidade da vida, daqueles que não vivem na abundância.

cônego Celso Pedro Silva