2º DOMINGO DE PÁSCOA

ano C

 

Continuamos na segunda parte do quarto Evangelho, onde nos é apresentada a comunidade da Nova Aliança. A indicação de que estamos no “primeiro dia da semana” faz, outra vez, referência ao tempo novo, a esse tempo que se segue à morte/ressurreição de Jesus, ao tempo da nova criação.

A comunidade criada a partir da ação de Jesus está reunida no cenáculo, em Jerusalém. Está desamparada e insegura, cercada por um ambiente hostil. O medo vem do fato de não terem, ainda, feito a experiência de Cristo ressuscitado.

O texto que nos é proposto divide-se em duas partes bem distintas.

Na primeira parte (cf. Jo 20,19-23), descreve-se uma “aparição” de Jesus aos discípulos. Depois de sugerir a situação de insegurança e fragilidade que dominava a comunidade (o “anoitecer”, “as portas fechadas”, o “medo”), o autor deste texto apresenta Jesus “no centro” da comunidade (v. 19b). Ao aparecer “no meio deles”, Jesus assume-Se como ponto de referência, fator de unidade, a videira à volta da qual se enxertam os ramos. A comunidade está reunida à volta d’Ele, pois Ele é o centro onde todos vão beber a vida.

A esta comunidade fechada, com medo, mergulhada nas trevas de um mundo hostil, Jesus transmite duplamente a paz (v. 19 e 21: é o “shalom” hebraico, no sentido de harmonia, serenidade, tranquilidade, confiança). Assegura-se, assim, aos discípulos que Jesus venceu aquilo que os assustava: a morte, a opressão, a hostilidade do “mundo”.

Depois (v. 20a), Jesus revela a sua “identidade”: nas mãos e no lado trespassado, estão os sinais do seu amor e da sua entrega. É nesses sinais de amor e doação que a comunidade reconhece Jesus vivo e presente no seu meio. A permanência desses “sinais” indica a permanência do amor de Jesus: Ele será sempre o Messias que ama, e do qual brotarão a água e o sangue que constituem e alimentam a comunidade.

Em seguida (v. 22), Jesus “soprou sobre eles”. O verbo aqui utilizado é o mesmo do texto grego de Gn. 2,7 (quando se diz que Deus soprou sobre o homem de argila, infundindo-lhe a vida de Deus). Com o “sopro” de Gn. 2,7, o homem tornou-se um ser vivente; com este “sopro”, Jesus transmite aos discípulos a vida nova que fará deles homens novos. Agora, os discípulos possuem o Espírito, a vida de Deus, para poderem – como Jesus – dar-se generosamente aos outros. É este Espírito que constitui e anima a comunidade.

As palavras de Jesus à comunidade contêm ainda uma referência à missão (v. 23). Os discípulos são enviados a prolongar o oferecimento de vida que o Pai apresenta à humanidade em Jesus. Quem aceitar essa proposta de vida, será integrado na comunidade; quem a rejeitar, ficará à margem da comunidade de Jesus.

Na segunda parte (cf. Jo 20,24-29), apresenta-se uma catequese sobre a fé. Como é que se chega à fé em Cristo ressuscitado? João responde: podemos fazer a experiência da fé em Jesus vivo e ressuscitado na comunidade dos crentes, que é o lugar natural onde se manifesta e irradia o amor de Jesus. Tomé representa aqueles que vivem fechados em si próprios (está fora) e que não faz caso do testemunho da comunidade nem percebe os sinais de vida nova que nela se manifestam. Em lugar de se integrar e participar da mesma experiência, pretende obter uma demonstração particular de Deus.

Tomé acaba, no entanto, por fazer a experiência de Cristo vivo no interior da comunidade. Porquê? Porque no “dia do Senhor”, volta a estar com a sua comunidade. É uma alusão clara ao domingo, ao dia em que a comunidade é convocada para celebrar a Eucaristia: é no encontro com o amor fraterno, com o perdão dos irmãos, com a Palavra proclamada, com o pão de Jesus partilhado, que se descobre Jesus ressuscitado.

A experiência de Tomé não é exclusiva das primeiras testemunhas; mas todos os cristãos de todos os tempos podem fazer esta mesma experiência.

Conclusão

Jesus vem e está no meio dos discípulos. Diz-lhes: “A paz esteja convosco!” Podemos compreender a saudação de Jesus como um desejo. Mas podemos também traduzir: “A paz para vós!” Isto é, segundo as próprias palavras de Jesus na tarde de Quinta-Feira Santa: “Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz!” Estas palavras são, doravante, realizadas, eficazes. Jesus não deseja somente que os seus discípulos estejam em paz. Dá-lhes verdadeiramente a sua paz. Não é a paz que o mundo dá. A paz do mundo é a ausência de guerra e de violência, muitas vezes a paz dos cemitérios! A paz que Jesus dá é a plena realização da vontade criadora do Pai. Deus cria os seres humanos, para que eles sejam “à sua imagem”, isto é, em dependência de amor com Ele. É, sem seguida, construindo entre eles relações de amor que os seres humanos permitirão a Deus imprimir nessas mesmas relações a imagem do que é em si mesmo, no mistério do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Enfim, a vontade criadora de Deus é também que os seres humanos “dominem a terra”, que façam do seu próprio corpo e do mundo material o lugar cósmico onde o amor pode espalhar-se e encarnar-se. A paz realiza-se apenas quando se cumpre esta tríplice harmonia: harmonia dos seres humanos na sua relação com Deus, harmonia nas suas relações mútuas, harmonia com o seu corpo e o cosmos. A paz é uma totalidade de luz. É isso que Jesus veio cumprir: reconciliar os homens com Deus, reconciliá-los entre si e, no seu corpo de Ressuscitado, fazer entrar o próprio cosmos nesta luz. A paz acontece, assim, plenamente dada na sua Presença, pela força do Espírito. Resta-nos, apenas, acolhê-la! Ora, o que é obstáculo à paz é a recusa da vontade criadora, a recusa do amor. Eis porque Jesus dá aos Apóstolos o poder de absolver os pecados, isto é, de afastar o obstáculo que impede a “livre circulação do amor”. Acolhendo a presença de Jesus, deixando-o depositar em nós a fonte de toda a reconciliação, para reaprender a amar, permitimos que Ele continue em nós a sua ação de paz.

www.filhasdaigreja.org

 

Testemunhas da Ressurreição

As leituras de hoje apresentam três temas importantes: a realidade da ressurreição, a confissão de fé, a relação entre ver e crer. A experiência do encontro com Jesus ressuscitado leva o discípulo a professar: meu Senhor e meu Deus! A profissão de fé resume a caminhada de Israel e da Igreja. Todos os sinais que perpassam pela Escritura pedem do leitor uma profissão de fé como a de Tomé.

Evangelho (Jo. 20,19-31)

Os primeiros discípulos testemunham a ressurreição de Cristo

Na tarde daquele mesmo dia (o da ressurreição), Jesus aparece aos discípulos reunidos. Tomé está ausente. O Ressuscitado dá-se a conhecer, dá-lhes o Espírito e o poder de perdoar o pecado, fazendo que os apóstolos sejam investidos para continuar a sua missão.

“Vimos o Senhor”, dizem os apóstolos a Tomé, mas este não lhes dá crédito. Com essa expressão atribuída aos apóstolos, encontramos o primeiro testemunho eclesial e o querigma da ressurreição.

Tomé não crê no testemunho dos discípulos e pretende uma constatação pessoal – simboliza a pessoa que precisa ver para crer. Muitos outros, durante o evangelho, pediram de Jesus milagres para crer em sua pessoa. Mas Jesus lhes disse que não teriam outro sinal senão o de Jonas. Esse sinal é dado agora: Cristo ressuscitado está no meio de sua comunidade. Tomé quer atestar sua fé vendo e tocando Jesus. Mas o evangelista chama a atenção para o crer sem ver, baseado no testemunho dos discípulos.

No domingo seguinte, Jesus aparece novamente aos discípulos, desta vez na presença de Tomé, a quem repreende por sua incredulidade. Jesus mostra-lhe as mãos e o lado para certificar-lhe que o Ressuscitado é o Crucificado, mas está diferente, vive numa nova realidade, além do tempo e do espaço.

O medo transforma-se em alegria. A paz e a alegria são dons do Cristo ressuscitado e, ao mesmo tempo, condição para reconhecê-lo. Jesus realiza as promessas feitas aos discípulos, enviando sobre eles o Espírito. A missão a que são destinados continua a missão de Jesus (17,18). Como o Pai enviou seu Filho para perdoar os pecados, assim Jesus envia os discípulos. Ao soprar sobre eles (v. 22), expressa a idéia de criação renovada. O Espírito recria a comunidade dos apóstolos e descerra suas portas para a missão.

1º leitura (At. 5,12 - 16)

A ação do Espírito Santo na Igreja testemunha a ressurreição de Cristo

O relato é uma descrição resumida da vida das primeiras comunidades. Os milagres realizados pelos apóstolos ratificam a assistência do Espírito Santo à comunidade, confirmando com sinais a palavra anunciada pelos apóstolos.

A menção ao “Pórtico de Salomão” destaca a proclamação do evangelho, já que esse local, no Templo de Jerusalém, ficava no átrio dos gentios e era destinado à instrução.

O número dos fiéis crescia cada vez mais (v. 4) e o evangelho despertava o interesse das cidades vizinhas, dando ocasião para que a Igreja se expandisse para além de Jerusalém, estendendo-se pela Judeia.

2º leitura (Ap. 1,9 - 11a.12 - 13.17 - 19)

A Igreja testemunha a ressurreição de Cristo até que ele venha

A expressão “dia do Senhor”, no Antigo Testamento, significa principalmente a intervenção de Deus por meio do Messias, no fim dos tempos. Para o Novo Testamento, a ressurreição de Cristo inaugurou os últimos tempos, que já estão presentes, embora ainda não tenham chegado à plenitude.

No “dia do Senhor”, o Espírito Santo fez que João, homem atribulado por causa da palavra e do testemunho, contemplasse a atuação do Ressuscitado na Igreja.

A comunidade dos seguidores de Jesus em sua totalidade, simbolizada pelo número sete, recebe a luz de Cristo e a reflete para o mundo. A visão do Filho do homem em meio ao candelabro de ouro assegura a presença do Ressuscitado em sua Igreja até o fim dos tempos.

Seus cabelos brancos simbolizam a eternidade. Seus olhos “como chamas de fogo” representam a visão penetrante, ou seja, seu conhecimento de realidades não percebidas por mais ninguém. Essas realidades escondidas ao olho natural é que serão reveladas ao ser humano.

Os pés de bronze simbolizam a sua estabilidade inabalável. As sete estrelas são os líderes das comunidades em sua totalidade. Estes estão amparados na mão direita do Ressuscitado, que sustenta e mantém a sua Igreja.

O Filho do homem diz palavras de consolo: “Não temas!” (v. 17). Sua natureza é divina: ele é o “primeiro e o último”, título de Deus no Antigo Testamento (Is. 44,6; 48,12).

O texto afirma que o Filho do homem esteve morto, é o crucificado, mas venceu a morte e possui a vida eterna. Seu domínio se estende sobre os céus, sobre a terra e sobre o reino da morte. Ele controla a história.

PISTAS PARA REFLEXÃO

Felizes os que creem sem ter visto, pois confiam nas testemunhas da ressurreição de Cristo. As pessoas de todos os tempos e lugares encontram nas Escrituras o testemunho dos apóstolos. Mas isso não dispensa um encontro pessoal e íntimo com o Ressuscitado. Esse encontro se dá nos locais onde ele está presente de maneira mais profunda: a liturgia da Igreja (culto eclesial), a liturgia do coração (adoração pessoal e interior de Deus) e a liturgia da vida (apostolado, compromisso com o outro).

Aíla Luzia Pinheiro Andrade, nj

 

1º LEITURA - At 5,12-16

O texto de hoje é um sumário. Temos vários nos Atos dos Apóstolos. Sumário é um resumo das atividades apostólicas, uma síntese da caminhada, um retrato da Igreja, uma visão de conjunto, às vezes, idealizada (cf. 2,42-47; 4,32-37). No episódio anterior Ananias e Safira tentam corromper a comunidade, evitando a partilha e a comunhão. Aqui Lucas mostra a partir dos fatos o ideal da comunidade. O que temos de bonito, na comunidade? Do lado de dentro:

- eles se reuniam em grupo. Hoje temos o grupo na liturgia eucarística e grupinhos de oração e reflexões da Palavra de Deus e as diversas pastorais. O importante é a união.

- Os outros sumários falam da oração e da partilha do pão e comunhão entre eles (cf. 2,42ss).

- O testemunho suscita adesão em massa. A comunidade não se fechava. Vemos aqui um modelo alternativo de comunidade em contraposição à sociedade egoísta (Ananias e Safira) e competitiva.

Do lado de fora ou para fora

- Os apóstolos realizam sinais e prodígios.

- A comunidade era elogiada pelos de fora.

- Alguns de fora reagem e perseguem a comunidade (vv. 13.17ss).

- O povo trazia doentes para as praças em esteiras e camas em busca de milagres.

- Como no deserto Deus protegia o povo com sua sombra. Aqui até a sombra de Pedro realiza prodígios.

- Até doentes e endemoninhados de cidades vizinhas procuravam os apóstolos e eram curados.

Percebemos que a Igreja continua na pessoa dos apóstolos a atividade de Jesus. A Igreja se tornou vida para os excluídos.

O que a Igreja faz hoje de maravilhoso para o povo, principalmente para os excluídos?

2º LEITURA - Ap. 1,9-11a.12-13.17-18

A experiência que João comunica

O v. 9 revela a experiência e solidariedade do autor com os destinatários. O autor se considera irmão e companheiro, participante da mesma Igreja sofredora, perseguida. Ele se encontra exilado na ilha de Patmos. Exilado por quê? Porque anunciou a Palavra de resistência e combate à opressão e ao mal e deu testemunho de Jesus. Apocalipses são escritos de épocas de crise para trazer força, coragem, perseverança e incentivo à luta. Trazem também consolação e esperança, pois o cristão luta carregando consigo a certeza e o entusiasmo da vitória, que já foi antecipada na ressurreição de Jesus. O autor vai relatar a experiência que ele teve no dia do Senhor, isto é, no dia de Domingo (v. 10). Ele deve depois enviar seu escrito às sete igrejas. O número sete está carregado de simbolismo de totalidade. O escrito deve ser lido pela Igreja na sua universalidade. "Sete" aqui significa, portanto, todas as comunidades cristãs.

A visão e descrição do Filho do Homem que é Jesus

O autor vê sete candelabros de ouro. Representam a Igreja, preciosa aos olhos de Deus. O Filho do Homem está agindo no meio dos candelabros. Isto significa que Jesus está atuando dentro da Igreja. Ele não se esqueceu dos que sofrem. Os vv. 13ss descrevem simbolicamente Jesus ressuscitado. A liturgia hoje salienta apenas a túnica longa representando o sacerdócio de Jesus e o cinto de ouro, símbolo de sua realeza. Ele é sacerdote que intercede, purifica e santifica as comunidades. É também o rei que carrega antecipadamente a vitória sobre os exércitos do mal. Como rei ele exerce também o julgamento sobre as potências contrárias ao reino.

João reage caindo aos pés da divindade, mas Jesus o conforta e encoraja. Quem tem fé não precisa ter medo, pois Jesus é o Senhor da história (o primeiro e o último). Ele é o vivente, aquele que ressuscitou para viver para sempre e exercer o domínio sobre a mansão dos mortos. O v. 19 é a ordem de escrever o que João viu, ou seja, as coisas que estão acontecendo nas comunidades (capítulo 2 e 3) e as coisas que devem acontecer depois (capítulos 4 - 22), ou seja, o julgamento dos infiéis e a vitória das comunidades, vistos à luz da vitória de Cristo ressuscitado. A experiência que você tem de Jesus o encoraja na luta por um mundo melhor?

EVANGELHO - Jo 20,19-31

a) A criação da comunidade messiânica (vv. 19-23)

Estamos no domingo de Páscoa. Com sua vitória sobre a morte Jesus inaugura uma nova era. Percebe-se claramente um contexto de celebração eucarística (é o 1º dia da semana = dia de domingo. "Ao anoitecer" lembra o costume dos cristãos celebrarem a eucaristia na tarde de domingo. A presença de Jesus no meio da comunidade alude à presença eucarística. Tudo isto lembra a eucaristia). Os discípulos ainda estão com medo, por isso as portas estão fechadas. Mas com seu corpo ressuscitado Jesus entra assim mesmo e tranquiliza os discípulos, trazendo-lhes a paz daquele que é o Senhor da vida. Os discípulos recobram a alegria ao verem Jesus. Nos vv. 21-23 temos o envio missionário. Os discípulos devem continuar a missão de Jesus sob a garantia do Espírito Santo. Para isso Jesus faz uma nova criação. O sopro de Jesus relembra o sopro de Deus ao criar o homem. Sopro significa ar, vento, espírito, hálito vital. É o Pentecostes acontecendo no Evangelho de João. Os discípulos recebem o Espírito Santo. O projeto de Deus iniciado por Jesus deve ser continuado. Eis a síntese do projeto de Jesus: "Os pecados daqueles a quem vocês perdoarem, serão perdoados. Os pecados daqueles que vocês não perdoarem, não serão perdoados." Pecado para João significa aderir à sociedade injusta que matou Jesus e continua excluindo e oprimindo os filhos de Deus. "Pecados" no plural são atos concretos daqueles que estão no pecado de uma opção por um modo injusto de viver, contrário ao projeto de Deus. Quem quiser aderir ao projeto de Jesus pode receber através dos apóstolos e seus sucessores o perdão dos pecados. Infelizmente não é todo mundo que topa. Estes permanecem no seu pecado.

a) A fé amadurecida (vv. 24-29)

O episódio de Tomé ensina que ver Jesus pessoalmente não é o mais importante, pois muitos viram e não acreditaram. Importante é a fé. As testemunhas oculares não estão num plano superior em relação aos que não viram Jesus pessoalmente. Feliz não é quem viu, mas quem aqui e agora acredita em Jesus e adere ao seu projeto de vida que inclui todos os excluídos. Num primeiro momento, Tomé simboliza todos os adeptos de uma religião milagreira. É preciso ver para crer. Aqui estão os adeptos das seitas e uma grande parte de católicos que só andam atrás de milagres, mas não assumem nenhum compromisso com a Igreja. Num segundo momento, Tomé simboliza uma fé autêntica e comprometida com Jesus reconhecendo-o o Senhor e Deus.

Uma inclusão do evangelho (vv. 30-31)

Primitivamente o evangelho de João terminava aqui. Depois foi acrescentado o capítulo 21 que também é inspirado. Os versículos 30-31 mostram a função dos sinais. A palavra sinal substitui em João a palavra milagre usada pelos outros evangelistas. A finalidade dos sinais é suscitar a fé e adesão ao projeto de Jesus. Ele é o Messias, o Filho de Deus. Aderir a ele é buscar a vida.

Qual a diferença entre o "pecado" e "pecados"? O que é mesmo ter fé? Você se sente um missionário, alguém renovado pelo sopro de Jesus, e enviado?

dom Emanuel Messias de Oliveira

 

O livro dos Atos dos Apóstolos, o Apocalipse e o evangelho de João foram escritos quase na mesma época. A Igreja de Jesus, formada por muitas e diferentes comunidades, estava recolhendo as diversas tradições sobre o Jesus histórico e cada comunidade as reelaborava e contava de acordo com as novas situações que estavam vivendo. Eram tempos de grandes conflitos com o império romano e com os fariseus de Yamnia, o único grupo oficial judeu que havia sobrevivido à destruição do templo no ano 70. As igrejas estavam descobrindo sua própria identidade e Pedro (que por este tempo já havia sido martirizado em Roma), já era reconhecido como autoridade dentro e fora da Igreja. Com textos destes três livros, a liturgia de hoje nos oferece a oportunidade de refletir sobre o fundamento da nossa fé.

Assim como em nossas ruas necessitamos de sinais que nos indiquem as curvas, as pontes, os caminhos estreitos, também no caminho da Igreja necessitamos desses sinais que nos indicam se andamos no bom caminho ou não. Os sinais são os mesmos de sempre: a prática libertadora de Jesus, sua opção pelos mais necessitados e seu trabalho pela vida. Começando pela boa sombra de Pedro que curava os enfermos, vemos como, em meio aos conflitos, as primeiras comunidades repetiam a prática libertadora de Jesus. Também o Apocalipse nos convida a olhar o Filho do Homem, centro da vida da Igreja.

O evangelho de João nos remete a um dia como o de hoje, oito dias depois da páscoa. Jesus entra e se coloca no meio da comunidade. Sopra sobre eles e lhes concede o Espírito Santo. Para a comunidade de João, a Páscoa da Ressurreição e Pentecostes aconteceram no mesmo dia em que Jesus ressuscitou. Para Lucas, que tem outra teologia, e que talvez por razões catequéticas tenha sido a única recolhida pela Igreja, é preciso esperar 50 dias para o Pentecostes. E nessa Páscoa-Pentecostes toda a comunidade de discípulos e discípulas recebe a autoridade para perdoar os pecados. Isto corresponde à tradição que também Mateus conservou em seu evangelho (Mt. 18,18) e que logo a Igreja, em seu processo de clericalização, foi perdendo, mas que foi recuperada por algumas Igrejas evangélicas.

Na segunda parte deste evangelho, encontramos o diálogo de Jesus e Tomé. Olhos que não vêem, coração que não sente, diz o refrão. Contam que quando July Gagarin, o astronauta russo que regressou daquele primeiro passeio na lua, disse: "Andei pelo céu e não vi a Deus". Pobre July, tão parecido a Tomé, que poderia chamar-se seu irmão gêmeo.

É que fora da comunidade não se vê Jesus, nem no céu nem na terra. É na comunidade onde se percebe a presença do Senhor. É aí onde se realiza o seguimento de Jesus. A comunidade não é optativa. É parte essencial da mensagem cristã, o mesmo se diga da opção pelos pobres. Nas Comunidades Eclesiais de Base temos experiências que se assemelham às vividas nas primeiras comunidades. Avaliamos o caminho retomando sempre a prática libertadora de Jesus e suas opções; experimentamos na luta pela vida a força da Páscoa-Pentecostes e também temos a experiência do perdão na comunidade, porque recortar o perdão se a alegria de Deus é perdoar, curar e salvar.

Quando Jesus não está no centro, perde-se parte de sua mensagem libertadora,

impedindo a novidade que brota do Espírito.

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Do medo à paz, da dúvida à fé

O Evangelho deste II domingo de Páscoa nos informa que “ao anoitecer daquele dia, o primeiro da semana”, os discípulos se encontravam num lugar a portas fechadas por MEDO dos judeus.

Quem nunca sentiu um medinho ou um medão na vida? Todos nós sem exceção temos medo de algumas coisas. Pode ser o medo de cair, de andar de avião, de dirigir, de uma bala perdida, de ser assaltado, de perder algo, de ser traído, de mudar, do escuro, de feitiço, de ventania, relâmpago e trovão, da morte, de terroristas, de envelhecer, do fracasso, de ouvir a verdade, de adoecer, da solidão, da rejeição, da indiferença, da arrogância, do preconceito, da ignorância, da corrupção, da inveja, do futuro, da responsabilidade, de falar em público, de ter que lidar com gente de má índole, de casar, de que o casamento não dê certo, de errar, de enchentes, de tremores de terra, de perder o emprego, de rã, de aranha, de rato, de guerra, e, enfim, medo de ter medo.

O medo sempre existiu e é um sentimento que proporciona um estado de alerta e que provoca reações físicas como descarga de adrenalina, aceleração cardíaca, suor, entre outros. Deve ser considerado como algo normal na nossa vida, e de modo equilibrado necessitamos dele.

O problema é quando o medo vira doença, e o mundo está ficando assim. A resposta anterior ao medo é conhecida por ansiedade. Na ansiedade, a pessoa teme antecipadamente o encontro com a situação ou objeto que lhe causa medo. Sendo assim, é possível se traçar uma escala de graus de medo, no qual, o máximo seria o pavor, o pânico, sofrimento psíquico.

Mas o medo faz parte do cotidiano de todos nós. Não há quem escape do medo, nem mesmo Jesus. Fazendo-se homem em tudo, menos no pecado, ele experimentou no jardim do Getsêmani um ataque de pânico tão grande que chegou a suar sangue (hematridose: a emoção, o medo, o terror, o susto, a angústia, a tensão é tão extrema que produz o rompimento das finíssimas veias capilares que estão sob as glândulas sudoríparas, o sangue se mistura ao suor e se concentra sobre a pele).

Jesus passou por tudo isso, primeiramente para nos mostrar que não devemos ter vergonha de ter medo, o que piora ainda mais a situação; depois, para nos ensinar que nunca devemos fugir do medo, mas olhá-lo com consciência e enfrentá-lo. Cada um conhece os seus medos. Todo mundo tem medo de alguma coisa. O medo não pode simplesmente desaparecer, mas também não podemos deixar que ele nos domine. E a primeira reação que nos vem à mente é fugir. Entretanto, Jesus não fugiu da cruz, foi reconhecendo a sua fraqueza humana de medo, de angústia, de pavor, que obteve de Deus a paz para abraçar o seu destino com toda serenidade.

É preciso permitir-se sentir medo. E, no final de contas, compreender que o que importa não é o fato de não sentir medo, mas de deixar que ele nos leve a Deus. É o medo, que, no fundo, nos convence que só podemos nos sustentar em Deus. Nós, os continuadores da missão de Jesus, não devemos nos fechar no medo diante das provações, dos desafios, das perseguições do mundo, mas devemos nos abrir ao dom que o Ressuscitado vem nos trazer: “A paz esteja convosco!” Não é uma saudação, mas é a PAZ que Ele tinha prometido quando eles se encontravam aflitos por causa de Sua partida.

Jesus Ressuscitado não liberta os discípulos das aflições do mundo, mas lhes oferece segurança e serena confiança. É uma paz diferente da que o mundo oferece. É uma paz que resiste aos problemas, às provações, vence o medo. É a paz messiânica, o cumprimento das promessas de Deus, uma força para fazermos as coisas mesmo com medo, é a vitória sobre o pecado e sobre a morte, a reconciliação com Deus, tudo isto como fruto de sua paixão e morte de cruz.

Jesus mostra suas chagas nas mãos e no lado, comprovando assim que Ele é verdadeiramente aquele que foi crucificado. Não precisa ter medo, ele não é um fantasma. Os discípulos devem ver que Ele efetivamente passou pela morte, e venceu-a. Mostrando as feridas, Jesus quer também evidenciar que a paz que Ele dá vem da cruz. Jesus torna-se para sempre o fundamento seguro da paz. E novamente, ele concede a paz aos seus discípulos e associa este gesto a sua missão. Somente se estes forem repletos de sua paz, poderão cumprir a missão a eles confiada, vencendo a rejeição e o ódio que deverão enfrentar. Para esta missão, Jesus sopra nos discípulos o Espírito Santo. Este gesto recorda o sopro de Deus que dá a vida ao homem. É sinal de uma nova criação: “Recebei o Espírito Santo!”

Aqui se trata da transmissão do Espírito Santo para uma missão particular. Enquanto no Pentecostes é a descida do Espírito Santo sobre todo o povo de Deus, aqui, Jesus concede o poder de perdoar ou não perdoar os pecados a um grupo específico de pessoas. É Deus quem tem o poder de perdoar os pecados. Jesus concede este poder e o transmite à sua Igreja através dos discípulos. Convém lembrar que trata-se aqui do “sacramento da reconciliação” praticado em diversas formas no curso da história da Igreja.

O “reter os pecados” não é uma condenação, mas é um renovado apelo à conversão.

Num segundo momento do relato, nos deparamos com Tomé, chamado Dídimo (=gêmeo). Este não estava presente quando Jesus apareceu por primeira vez ao grupo. Estes lhe relatam: “Vimos o Senhor!”. Mas Tomé não acreditara no que eles tinham dito, ele mesmo quer comprovar.

É muito importante esta parte do Evangelho para nós, leitores de hoje, pois, de fato, não vimos Jesus Ressuscitado. E neste ponto, somos irmãos gêmeos de Tomé. Frequentemente, na nossa vida, os outros nos contam o que fazem de bom ou o que viram de bom e muitas vezes não acreditamos. Por que acontece isto? Quando temos uma facilidade impressionante para acreditarmos em difamações muitas sem pé nem cabeça.

Pois é, as coisas boas sempre queremos comprová-las para confiar. Tomé escuta dos outros que Jesus está vivo. E se não for verdade? Se fosse uma ilusão pelo desejo ardente de ver Jesus? Ele é prudente. Pensa aí se nenhum dos discípulos tivesse tocado nem tivesse dito que viu Jesus depois da sua morte. Acreditaríamos? Parte daí o interesse para buscar provas. Jesus não vê em Tomé uma pessoa totalmente descrente, mas um homem que na sua dúvida, busca a VERDADE. E Jesus ajuda Tomé. Ele tem compaixão de Tomé porque sabe que este ainda não tem a paz que vem da fé, por isso o satisfaz plenamente: “põe, Tomé, o teu dedo nas minhas chagas”.

Bom pra nós que hoje sabemos que os apóstolos viram e tocaram as feridas das mãos e do lado de Jesus; portanto, Ele ressuscitou verdadeiramente! E Ele nos deixa um recado precioso: “Bem aventurados aqueles acreditarem sem me terem visto!” De fato, os últimos dois versículos do Evangelho afirmam que este foi escrito para que creiamos que Jesus é o Messias e para que, acreditando, tenhamos vida por meio Dele!

1. Permito que o medo me feche, me paralise e me impeça de crescer? Me abro aos outros?

2. Procuro receber a paz que Jesus quer me dar?

3. Reconheço que o mesmo Jesus crucificado é o mesmo Ressuscitado?

4. Imploro a ação do Espírito Santo na minha vida?

5. Sinto-me enviado por Jesus?

6. Me abro ao perdão? Tenho dificuldade em perdoar o próximo?

7. O que há de Tomé em meu coração neste momento da minha vida: desânimo, falta de fé, dúvida, soberba?

8. Como me esforço para dizer como Tomé: “Meu Senhor e Meu Deus”? Sou consciente e aceito que a fé diz respeito a coisas que não posso ver, pegar etc.?

 

“Bem-aventurados os que creram sem terem visto!”

Acreditar na ressurreição de Jesus sem tê-lo visto, acreditar no testemunho dos discípulos é um tema que perpassa as leituras de hoje. A comunidade reunida em nome do Senhor é sinal de que um novo mundo é possível, pois a morte e tudo o que gera morte neste mundo não são maiores do que a vida, visto que Cristo ressuscitou.

O Evangelho de hoje apresenta alguns pontos fundamentais para a vida cristã: a iniciativa de Jesus, a superação do medo que os discípulos vivenciam, a nova condição de Jesus, a missão confiada aos discípulos após reconhecerem Jesus, a comunidade reunida e a incredulidade daquele que não está presente na comunidade.

Domingo passado nos defrontamos com Maria Madalena que tomou a iniciativa de ir ao encontro de Jesus e tornou-se a primeira testemunha da ressurreição. Após a ressurreição, neste trecho do Evangelho de João, é Jesus quem toma a iniciativa de ir ao encontro dos discípulos. Então, podemos nos perguntar, por que os discípulos não tomaram a iniciativa de ir ao encontro de Jesus? Será que esqueceram de suas palavras? Eles estavam com as portas fechadas porque estavam com medo.  Temiam que acontecesse com eles o que tinha acontecido a Jesus.  O medo pode paralisar uma pessoa a ponto de fazer com que esqueça a experiência que fez anteriormente do encontro com o Senhor.

Vivemos hoje num país onde os cristãos não são diretamente perseguidos por professarem a sua fé em Cristo, como na China, por exemplo. Porém, indiretamente, assumir-se cristão diante de algumas realidades não é tão fácil e muitas vezes causa medo também. Muitos de nós temos medos uns dos outros. Andamos nas ruas com medo de assaltos, da violência, da polícia... Muitas vezes temos medos de nos posicionarmos diante das injustiças que nossos irmãos sofrem ou que nós mesmos sofremos com o descaso dos nossos governantes em relação aos nossos bairros que vivenciam a falta de escolas, de segurança e de muitas outras necessidades. E o pior de tudo é que temos medo de sermos julgados como ultrapassados ou “caretas” quando defendemos a vida, isto é, quando não banalizamos aquilo que consideremos valores como o casamento, a fidelidade numa vida a dois, e até mesmo o corpo, pois muitas vezes é transformado e querido apenas como objeto de prazer.

Jesus aparece aos discípulos de uma maneira nova aos olhos deles, portanto também é preciso ter olhos novos para reconhecê-lo. Não dá para ficar no medo, trancados em si mesmos. Os discípulos são impulsionados a superar os seus medos para avançar na missão a eles confiada. Quem tem a Jesus tem a paz e a alegria. Os discípulos são enviados a partilhar da mesma missão de Jesus: “Como o Pai me enviou assim também eu vos envio”. Em Gênesis, quando Deus modelou o homem soprou em suas narinas o sopro da vida. Aqui, Jesus soprou sobre eles o Espírito Santo. É o sinal de uma nova criação, ou seja, confirma-se a mudança interior que os discípulos são chamados a fazer: do medo à coragem de assumir a missão.

Tomé não estava presente quando os outros estavam reunidos, por isso não acreditou no testemunho deles. Como dizemos habitualmente, ele queria “ver para crer”. Porém, é o próprio Jesus quem diz para ele: “Felizes os que creram sem terem visto”. Os discípulos de Jesus são chamados a testemunhá-lo com a própria vida. A comunidade é a chamada a acreditar no testemunho dos seguidores de Jesus.

A fé é uma resposta pessoal, mas não isolada da comunidade. Na 1ª leitura podemos notar como a vivência na comunidade reunida em nome do Senhor é que era o testemunho maior, pois tendo Cristo como centro de suas vidas ouviam os ensinamentos, dividiam os seus bens, partilham o pão e rezavam juntos. A comunidade reunida em nome do Senhor é sinal de uma vida nova. Viver em comunidade implica viver o Evangelho. Assim, precisamos nos perguntar se nossas comunidades têm sido lugares onde partilhamos tudo e se somos testemunhas de Cristo não apenas com palavras, mas também concretamente. No evangelho de João pecado é não acolher a palavra de Jesus, é não acolher a “luz”. Os discípulos têm o poder de perdoar ou reter os pecados. Aqueles que se distanciam dos ensinamentos de Jesus permanecem em pecado, pois não o acolhem realmente. Acolher a Jesus é vivenciar o que ele ensinou. A Páscoa que celebramos em nossas comunidades a cada domingo, dia da ressurreição do Senhor, deve ressoar em nosso dia-a-dia como sinal de que acolhemos verdadeiramente a “luz”.

irmã Sueli da Cruz Pereira

 

A intensidade dos eventos da Semana Santa ainda ecoa em nossos corações renovando a força e a maravilha do evento da Páscoa. Dias cheios de significados tão grandes em gestos, situações, sentimentos... que nos sentimos tão envolvidos a ponto de não saber mais onde concentrar a nossa atenção. Não houve momento em que não nos reconhecemos nalguma das situações que a liturgia nos ofereceu. Não pudemos nem refletir; vivemos, vivemos com Jesus e ao seu lado o segredo da salvação, feita de noite e luz, de injustiça e fidelidade, de amor confiante e de maravilha. O nosso espírito mergulhou na profundidade do testamento que o Senhor nos deixou na quinta-feira Santa; acompanhamos com o coração apertado, passo a passo, o incompreensível conflito entre o egoísmo que ostenta o seu poder e o amor, que nos conquista com a sua fragilidade. O silêncio tomou conta sobre as razões ao longo de “três” dias. Era o vazio de uma presença, representada pelos tabernáculos abertos e vazios em nossas igrejas, quase expressão do coração de Maria e dos Doze. Sabiam que não veriam mais Jesus de Nazaré, mas também não podiam acreditar que tudo tinha sido um sonho, uma ilusão. Em seus corações não podia haver espaço para aquela sensação de que Deus não é fiel, ao Seu Filho, a Maria, a eles que, bem o mal, Lhe haviam consignado parte preciosa de suas vidas.

A tentação de desacreditar, o último recurso do demônio depois de ter mostrado a sua força esmagadora, era o que naqueles três dias pairava como um espectro sobre o grupo dos discípulos. Contudo, como não poderiam ressoar ainda para eles as últimas palavras confiantes de Jesus: «Pai...; entrego…»? E Deus, responderia? Três dias de escuridão na qual nenhuma pergunta tem sentido: são os dias que precedem qualquer ato de fé. Não há fé madura e autêntica sem “três dias” de silêncio. É o silêncio que se impõe pela insuficiência das perguntas e das respostas; é o silêncio que renuncia, por amor, a crer nas possibilidades que o homem conhece e controla para, como Jesus, «entregar» o último seu apego. Somente quando isto acontece de verdade então Deus pode agir livremente e renovar suas maravilhas. O silêncio, quando tudo cala diante das razões e das ações, é a mais profunda escola de fé: ficam face a face, a alma e Deus.

Contudo, naquele silêncio que prepara a Salvação, Deus não deixa o fiel à mercê da tentação. Como hoje, também naquela ocasião, Deus ainda deixava a sua mão aberta para  aquele pequeno grupo de pessoas fragilizadas pelas derrotas exteriores  e interiores: era Maria, imagem viva de uma porta sempre aberta. O olhar dela continuava sugerindo a todos as palavras que Ela mesma ouvira do anjo: «nada é impossível a Deus». E, de repente, quando o último “porquê” foi entregue – como fez Jesus na cruz -, o que era impossível tornou-se real assim como sentia Isaias: «até os reis fecharão a sua boca por causa dele; porque verão um fato nunca narrado» (Is. 52,15)

Depois do silêncio, sempre Deus faz ouvir a sua voz.

A leitura de hoje, nos projeta além do fato da Ressurreição; evidentemente o que é narrado não se reduz a uma simples demonstração de que Jesus estava vivo. O evangelista coloca o episódio de hoje «à tarde», ou seja, distinto do evento da manhã quando as mulheres, Pedro e João foram ao túmulo. É sugestivo pensar que, ao escrever, o evangelista estivesse vendo realizado o “dia do Senhor” (uma expressão muito importante para os judeus desde o profeta Amós) do qual, o profeta Zacarias diz: «Será um dia singular; não será nem dia nem noite, mas haverá luz à tarde» (Zc. 14,7). Assim, a narração do fato é, para João, a “luz” após os três dias de escuridão, luz que ilumina o sentido da comunidade cristã após a Ressurreição. É algo que vai além do “dia e da noite”, ou seja, do tempo.

A Ressurreição de Jesus permaneceria um fato isolado em si mesmo, abstrato, exclusivo, se não tivesse o seu prolongamento na comunidade de fé. É, logo, a identidade e a missão da comunidade de fé que estão em jogo na narração. Ora, esta é comunidade é caracterizada como uma comunidade que soube responder à derrota e ao silêncio, por meio da firmeza na coesão em torno da fé de Maria. Mas é ainda uma comunidade sujeita à tentação de olhar para a própria fraqueza e de sentir sempre forte o «medo dos judeus», isto é, da arrogância do poder. Como para os discípulos, esta será a condição na qual a Igreja viverá sempre a sua vocação de continuar no mundo o evento da Páscoa.

Jesus, ressuscitado, se encontra com “esta” comunidade, não com outra ideal, idílica que existe somente nos sonhos. E mais, o evangelista descreve o entrar de Jesus no “lugar onde eles estavam” como um «ficar no meio deles», ora esta expressão possui uma longa história espiritual; o verbo usado -“istemi” “firme”, “de pé”, não é derrotado pelo mal. Será esta a maneira com a qual Jesus estará sempre presente na sua comunidade (tanto que repetimos a mesma expressão no cânon II da Missa!). Esta convicção era muito forte em todas as comunidades cristãs; o evangelista Lucas, na história dos discípulos de Emaús, usa a mesma expressão: «Jesus entrou para ficar», de modo estável e como sustento contra o medo que o poder impõe.

Surpreendente e mais carregada de significado é a primeira palavra que Jesus dirige aos discípulos, expressão repetida três vezes no mesmo trecho. Ora, sabemos que repetir três vezes a mesma expressão era uma técnica que indicava ao leitor qual era o núcleo de um escrito. Pois bem, Jesus assim se dirige à comunidade: «Paz convosco» ; embora a tradução mais comum seja: “a paz esteja com vocês”, neste caso temos que descartá-la, pois é bem aqui que Jesus surpreende o grupo dando um sentido diferente.

“Paz”, em seu sentido primitivo, indicava a condição de ausência de guerras; com o tempo foi adquirindo um sentido moral indicando o estado de ânimo da pessoa que está tranqüila. A paz era, para os judeus, resultado da relação entre o homem que obedece a Deus e Deus que retribui com a sua benção. Mais tarde esta relação de “troca” resultou num conceito ambíguo pelo qual, se uma pessoa agisse corretamente com Deus, este o retribuiria com a mesma intensidade dando, em proporção, a sua benção. Esta “benção” era sentida como “bem-estar”. Era isto que um hebreu queria dizer quando pronunciava a palavra “Shalom”; desejar o Shalom para uma pessoa era desejar-lhe o bem-estar como manifestação da benevolência de Deus (um conceito que os Calvinistas retomaram e que hoje forma a base da pregação das seitas de inspiração cristã). Ora, às vezes usava-se como saudação a expressão: “sha’al be shalom” (= shalom esteja contigo), mas não era isto que Jesus estava desejando à sua comunidade; Jesus não estava prometendo nem augurando nenhum “bem-estar”!

Qual o sentido, então da saudação? Pois bem: não se trata de uma saudação. É uma “declaração”, declaração quanto à identidade e à missão da comunidade. Jesus indicava assim o que os discípulos são e para que o que são. Em seguida explicará “como” viver e realizar o que eles são. Como sabemos isso? Pois bem, a expressão que Jesus usou se encontra (raramente) nos escritos rabínicos da época, e significa: “a salvação está contigo” e é atribuída ao Messias nos comentários que eles faziam a Is. 9,6 o qual que fala do “príncipe da paz”. Sim: «A salvação está convosco», é isto que o Senhor declarava aos seus discípulos: “vocês são o lugar e o instrumento pelo qual poderá ser realizado o desejo do Pai. A salvação que os rabinos aplicam ao Messias está com vocês”.

Eis então, o mesmo espanto que se apossara um dia do coração de Maria, quando ouviu do Anjo a declaração: «a graça do Senhor (=presença do Senhor) está contigo», se fez presente novamente no coração de toda aquela fragilizada comunidade. Como era possível que a salvação estivesse “com” aquela comunidade cheia de medo e extremamente ínfima em relação ao extrapoder do mal e do egoísmo? Sim, a salvação do homem estaria com aquela pequena comunidade mesmo que os discípulos não acreditassem; Deus não entregava a salvação às suas qualidades, nem a o que fariam, mas à unidade entre eles, Maria e o Ressuscitado. Ali quem o quisesse encontraria a salvação.

Antecipando-se a quem pudesse perguntar: “como isto seria possível?” Jesus mostrou as mãos e o lado... em silêncio.

Este seria o caminho: o amor dado além das forças comuns, a coragem de amar como Deus ama. Com um gesto simbólico tão forte Jesus associava definitivamente si mesmo à comunidade dos que permaneceram fiéis.

Sabemos que todos os gestos proféticos eram acompanhados por palavras; não palavras explicativas, pois o símbolo fala por si próprio, mas palavras que a Escritura chama “eficazes”, isto é, que realizam o que significam, segundo célebre o ensinamento de Isaias: «Como chuva e a neve descem dos céus e para lá não tornam, sem que primeiro reguem a terra, e a fecundem, e a façam brotar, para dar semente ao semeador e pão, assim será a palavra que sair da minha boca: não voltará para mim sem ter realizado aquilo pelo qual a enviei» (Is. 55,10-11). Assim, depois de ter indicado o caminho, Jesus pronunciou a Sua palavra, a palavra do Senhor Ressuscitado, a palavra de Deus sobre aquela comunidade: «como».

Definia deste modo irrevogavelmente e para sempre a qualidade da sua relação com a Igreja que Ele quis; naquele «como» estava presente uma relação nova, que o Concílio chamou: “sacramento da salvação do gênero humano”. É assim que ainda hoje a comunidade de fé mantém vivo o seu mistério: a Igreja não é uma organização, não é uma sociedade beneficente, não é uma fonte de opiniões nem ideologias: é o lugar onde a intensidade do amor de Jesus poderá sempre ser visível e alcançável a quem o desejar.

padre Carlo- www.fatima.com.br

 

"Misericórdia que fortalece fé"

Eterna é a misericórdia do Senhor

Celebramos neste segundo domingo da Páscoa o "Domingo da Misericórdia". A Misericórdia de Deus tem sua expressão máxima na Ressurreição de Jesus que é vida onde há morte. Essa misericórdia chega a nós através dos sacramentos pascais que celebramos. Pedimos a Deus que aumente os dons da graça para compreendermos as riquezas do "batismo que nos purificou, do Espírito que nos regenerou e do Sangue que nos remiu" (Oração). Assim fortalecidos proclamamos nossa fé no Cristo vivo, como Tomé. O Evangelho de S. João ensina-nos o crescimento no conhecimento de Jesus por uma fé cada vez mais pura. No Evangelho são várias as profissões de fé, sempre mais puras, como Natanael, Nicodemos, Samaritana, Marta etc.... e Tomé. Na liturgia de hoje ouvimos sua profissão de fé no Cristo Ressuscitado. É uma caminhada que passa pelas falsas seguranças para chegar à entrega de fé. Quando Jesus aparece pela primeira vez, Tomé não estava com os outros apóstolos. Ao receber a notícia de que estava Jesus vivo, diz: "Se eu não vir em suas mãos o lugar dos cravos e se não puser o meu dedo no lugar dos cravos e minha mão no seu lado, não acreditarei" (Jo 20,24-25). Queria segurança humana. Exige a prova pessoal não só o testemunho da comunidade de Jesus. Oito dias depois, Jesus aparece novamente e Tomé estava com eles. Jesus convida-o a fazer o que pedira: por a mão no lugar das chagas para saber que este que está vivo e é o mesmo que estivera morto. Tomé vê a fragilidade de sua fé e diz: "Meu Senhor e meu Deus". Faz uma declaração de fé, reconhecendo Jesus como Deus. Jesus, referindo-se a nós, que não precisamos tocar para crer, diz: "Por que me viu acreditou. Felizes os que não viram e creram" (Jo 20,29).

Misericórdia que cura

A Ressurreição de Jesus expressa a Misericórdia de Deus no cuidado com os sofredores. Ao inaugurar sua missão, assumiu sobre si a missão do serviço de libertação de todos sofrimentos para uma vida plena (Lc 4,18-19; Is 61.1-2). Por isso os apóstolos continuam sua missão realizando os milagres que Ele fazia. A misericórdia se faz milagre para que as pessoas vivam. Dar vida é testemunhar que Ele está vivo, como escreve João no Apocalipse: "Estive morto e eis que estou vivo pelos séculos" (Ap 1,18). A fé em Cristo como Deus, como faz Tomé, se fortalece no gesto amoroso de dar vida para que a Ressurreição não seja só um ato de fé em algo espiritual, mas penetre as estruturas do mundo e as conduza à vida. A própria celebração é presença da misericórdia. Em Garça - SP, em uma eucaristia celebrada para pacientes de hospitais psiquiátricos, uma senhora, ao fazer as preces acrescentou a prece: "a missa é minha ressurreição". Percebeu a força de Cristo.

Misericórdia como missão

A Ressurreição é missão. Jesus, naquela primeira noite, diz aos apóstolos: "Recebei o Espírito Santo! A quem perdoardes os pecados, os pecados serão perdoados" (Jo 20,22-23). O perdão dos pecados não é uma acusação em voz baixa. É a missão de reconciliar o mundo. Certo que vai também perdoar os pecados individuais. A missão maior é de implantar a paz e ser paz a todos os homens e à natureza. Essa reconciliação vem do acolhimento da fé, como Tomé acolheu. A celebração da comunidade é um momento de abrir os olhos à fé em sua dimensão de entrega.

1. Celebramos neste domingo o Domingo da Misericórdia cuja expressão máxima é a Ressurreição que celebramos nos sacramentos pascais. Há um crescendo nas profissões de fé até chegar a Tomé: "Meu Senhor e meu Deus!". Supera a falsa segurança de tocar com o dedo. Jesus considera feliz quem crê sem ver.

2. A Ressurreição de Jesus expressa a Misericórdia de Deus no cuidado com os sofredores. Ele assumiu a missão de libertar para uma vida plena. Os apóstolos continuaram sua missão. A fé fortalece o gesto amoroso de dar a vida para que a Ressurreição penetre as estruturas do mundo. A celebração é presença da misericórdia.

3. Ressurreição é missão. Jesus diz: recebei o Espírito Santo. A quem perdoardes os pecados, os pecados serão perdoados. É missão de reconciliar o mundo. A missão maior é implantar a paz e ser paz para todos os homens. A reconciliação vem da fé. A celebração é um momento de abrir os olhos à fé em sua dimensão de entrega.

Ter fé sem dedo

Jesus manifestou-se aos discípulos no primeiro dia da semana, no dia da Ressurreição, primeiro dia da nova criação, dia da comunidade. Jesus inicia um tempo novo. Esse tempo inicia para cada um quando Ele crê que Jesus é o Filho de Deus vivo. Ele é o Senhor glorioso.

Jesus aparece e dá a vida do mundo novo que é o Espírito Santo, para a remissão dos pecados. Os discípulos não tiveram dúvidas sobre quem era aquele que estava ali, entrando sem precisar de porta. Em outro lugar se diz que estavam tão felizes que não acreditavam. Ele até pediu um pedaço de peixe para comer, para provar que estava vivo.

Tomé não estava e só acreditava se tocasse com o dedo o lugar dos cravos. No outro domingo, veio novamente e Tome estava. Jesus o convida a tocar nele. O discípulo que fora descrente diz a maior profissão de fé: "Meu Senhor e meu Deus". Jesus diz que felizes são os que vão acreditar sem precisar tocar com o dedo. Somos nós.

Os que acreditaram reuniam-se em comunidade. A fé não é algo individual, íntimo. É para ser vivida numa comunidade que continua a força e a missão de Jesus.

padre Luiz Carlos de Oliveira

 

Tomé

Este domingo pode ser chamado de Domingo da Divina Misericórdia, porque, de fato, Jesus mostrou a Tomé e a seus companheiros, assim como a todos nós, a sua imensa misericórdia. Quando Jesus se colocou no meio dos discípulos no dia da sua ressurreição, Tomé não estava lá. Os discípulos contaram a ele que tinham visto Jesus ressuscitado, mas ele não acreditou, e desafiou Jesus, dizendo que só acreditaria se pudesse pôr o dedo em suas chagas. Na sua misericórdia, Jesus atendeu ao desejo de Tomé, que então acreditou.

A misericórdia de Jesus se estende a todos nós, que não vimos o Ressuscitado, mas recebemos o testemunho de Tomé e dos outros que viram. O testemunho de Tomé é confiável porque ele não acreditou. Portanto, ele não inventou a ressurreição de Jesus nem nos transmitiu uma mentira. Ele teve que se dobrar quando viu o Ressuscitado e pôde colocar sua mão em suas chagas. Mais tarde, o apóstolo São Paulo também verá Jesus vivo diante dele no caminho de Damasco.

A visão do Ressuscitado pode ser exterior e interior ou apenas interior. Ela não pode ser somente exterior. Os discípulos de Emaús e Maria Madalena viram o Senhor em seu exterior e não o reconheceram. O reconhecimento se dá na visão interior, que é a da fé. Esta visão pode também ser chamada de experiência interior. Ela é sumamente importante no seguimento de Jesus. Ele, na sua misericórdia, permite que você o veja, permite que você o sinta presente em sua vida. É uma experiência única. Quem a tem não fala. Quem a tem vive do impulso que ela lhe dá. Há muita gente com o sentimento profundo da presença de Deus em sua vida.

Em geral é gente muito boa e gente corajosa. Trata bem os outros e é capaz de se sacrificar por uma causa comum em benefício da humanidade. Jeremias falava de um fogo que o queimava por dentro e o impulsionava a continuar no meio das tribulações. Sem a experiência viva de Jesus na nossa própria vida somos apenas funcionários de uma grande instituição, semelhante a qualquer empresa, mas com o nome de Igreja.

São Pedro nos anima quando escreve na sua primeira carta: "Sem terdes visto o Senhor, vós o amais. Sem o verdes ainda, n'Ele acreditais. Isto será para vós fonte de alegria indizível e gloriosa, pois obtereis aquilo em que acreditais: a vossa salvação".

Os primeiros cristãos perseveravam no ensinamento dos apóstolos, na comunhão fraterna, na fração do pão e nas orações. Vendiam o que tinham e partilhavam os seus bens conforme a necessidade de cada um. Ora, nada disso se faz sem uma profunda convicção de fé. A gente não segue Jesus Cristo somente por costume, por tradição familiar, pelas amizades, pelos sentimentos, pela música. Tudo isso ajuda e facilita a dedicação, mas não nos pode faltar a certeza de fé de que Ele está vivo em nós e entre nós, o que nos leva a dar a vida, se preciso for, por Ele e por seu Evangelho. Nem precisamos ser muitos, se formos bom fermento ou luz que ilumina, ou sal que salga e dá sabor.

Que o tempo da Páscoa nos leve a viver a fé no Ressuscitado em profundidade, a superar a superficialidade de uma vida cristã sem fundamento. Se quiser, desafie a Deus e peça para tocar na chagas de seu Cristo, para que a sua existência seja significativa.

cônego Celso Pedro Silva

 

Primeira Leitura: Atos dos Apóstolos 5,12-16

AUMENTAVA A MULTIDÃO DOS QUE ACREDITAVAM NO SENHOR

Este trecho deve ser lido à luz dos versículos 1-11 e 17-23, nos quais Lucas apresenta o episódio de Ananias e Safira, que recorrem à mentira para enganar a comunidade, tentando evitar a partilha.

Nosso trecho é o terceiro sumário depois de Atos dos Apóstolos 2,42-47 e 4,32-35, onde Lucas explicita a vida das primeiras comunidades cristãs em Jerusalém. Lucas mostra que a ação de Jesus continua no modo de ser e agir dos cristãos. Descreve aí a atividade taumatúrgica dos apóstolos, que anunciam com coragem e franqueza a palavra diante do Pórtico de Salomão. Esta palavra é confirmada pela presença do Senhor, que opera milagres e prodígios. Esta era a grande força com que davam testemunho da Ressurreição (Atos dos Apóstolos 4,33). O povo reage diante da novidade e abraça a fé. A reação dos chefes dos judeus é de ódio e mandam prender os discípulos. Entretanto, na comunidade os membros estavam unidos (omothymadôn). Este era o modo de ser dos cristãos e não só dos apóstolos. Assim, este primeiro sumário evidencia a comunhão hierárquica, na qual os diversos carismas, ministérios e autoridade se alimentam de uma única fonte: Cristo ressuscitado. Este sumário explicita ainda a ação dos discípulos no meio do povo, que nada mais era do que a prática de Jesus. Assim, na comunidade cristã se pratica o mandamento do Senhor. É o lugar onde se experimenta a novidade solidária de Deus concretizada na comunhão, na partilha e na união de sentimentos.

Segunda Leitura: Apocalipse 1,9-11a.12.13.17-19

EU SOU O PRIMEIRO E O ÚLTIMO. EU SOU AQUELE QUE VIVE.

O Apocalipse é o livro da esperança para as comunidades tentadas ao desânimo diante das prisões, sofrimentos e mortes. Foi escrito durante a perseguição de Dominicano no final do 1º século, tempo de crise para as comunidades cristãs.

Nosso texto é uma página estupenda da Cristologia Joanina, no qual Cristo aparece em suas funções de juiz escatológico e é o enviado definitivo de Deus. Nele também são comunicadas as instruções necessárias para as comunidades cristãs, provadas pelos sofrimentos como João em Patmos. O Filho do Homem aparece a João no domingo, dia sagrado para os cristãos. Ele refulge de esplendor no meio de sete candelabros de ouro, símbolo das sete Igrejas. A veste que traz significa a dignidade sacerdotal, a faixa de ouro que o cinge significa a sua realeza. A voz poderosa exclui qualquer dúvida sobre o que João ouve.

Em Patmos, pequena ilha do Egeu, João teve uma visão, num domingo, a visão de Cristo glorioso. Patmos, onde João esteve preso, era uma ilha 75 km ao sul de Éfeso. Na primeira parte da experiência João ouve uma voz forte como uma trombeta (a trombeta lembra o anúncio divino). A segunda parte da experiência consiste em voltar-se para ver, ou seja, sinal de disponibilidade e adesão plena a quem fala e à ordem emitida. Os candelabros de ouro são os anjos das sete Igrejas. João salienta que os candelabros são de ouro, metal que pertence à divindade. Isto significa que as comunidades são importantes para Deus. Entre os candelabros está alguém semelhante ao Filho do Homem (Daniel 7,13). É Cristo ressuscitado, centro de todas as comunidades cristãs, juiz e Messias. Ele tem os cabelos brancos, o que significa a eternidade. Sustenta sete estrelas, o que indica o poder soberano de Cristo sobre a Igreja. Ele é o primeiro e o último, atributos de Jesus reservados a Javé. Tem as chaves, ou seja, o domínio sobre a morte e o pecado.

Diante da visão João caiu como morto, mas Jesus investido de poder (mão direita) o conforta. A expressão “não tenha medo” (v.17b) sintetiza todas as etapas da história em que as pessoas se sentiram fracas e ameaçadas pela morte. Em todas as etapas Deus esteve presente. A mensagem de confiança é dirigida a João e por extensão a todas as comunidades. O motivo de confiança é que Jesus é o Senhor na história, o Primeiro e o Último, aquele que por sua ressurreição possui a plenitude da vida (está vivo para sempre). A morte não tem mais domínio sobre ele (ele tem as chaves da morte).

Após esta descrição minuciosa de Cristo, a ordem dirigida a João é que ele deve escrever o que está acontecendo (cap. 2-3) e o que vai acontecer depois (cap. 4-22), para que as comunidades possam sentir-se fortalecidas, animadas e capazes de resistir profeticamente, transformando a sociedade corrupta em nova Jerusalém. João deve escrever às sete Igrejas, um número sagrado que exprime a totalidade, a universalidade da Igreja.

Evangelho: João 20,19-31

OITO DIAS DEPOIS, JESUS DISSE A TOMÉ: PARE DE DUVIDAR, E CREIA!

João situa a cena no tempo: é tarde do domingo da Páscoa. Para os judeus já havia iniciado um novo dia, mas para João é o dia da Ressurreição. A referência à tarde de domingo reflete a práxis da Igreja de celebrar a Eucaristia no dia do Senhor, à tardinha. Estamos, portanto, num contexto eucarístico. As portas fechadas mostram o aspecto negativo (o medo dos discípulos) e um aspecto positivo (o novo estado de Jesus Ressuscitado, para o qual não há barreiras). Jesus se apresenta à comunidade (referência à Eucaristia) e a saúda com a saudação da plenitude dos bens (Shalom). A reação da comunidade é de alegria. Assim fortalecida com a presença do Senhor, a comunidade está pronta para a missão. Para João, o Pentecostes acontece no mesmo dia da Ressurreição, e de agora em diante os cristãos têm a responsabilidade de continuar a missão de Cristo.

As aparições de Jesus têm o objetivo de fundamentar a fé pascal dos discípulos, para fazê-los testemunhas qualificadas do anúncio da salvação para todos os povos mediante a ação do Espírito infundido sobre eles. De fato, Jesus lhes confia a missão: “Eu os envio”. A missionariedade dos discípulos tem fundamento em Jesus Cristo ressuscitado. É dele que depende toda a eficácia.

Depois Jesus sopra sobre os discípulos para lhes dar o Espírito Santo, o princípio da nova criação (Gênesis 2,7). Com este dom eles têm o poder de perdoar os pecados, neutralizar o mal, restaurar a amizade com Deus. É a mesma missão de Cristo.

Em seguida João relata a profissão de fé de Tomé, a mais explicita de todo o quarto Evangelho: “Meu Senhor e meu Deus”. É a primeira vez fora do prólogo onde Jesus é chamado de Deus. Ele é reconhecido como Senhor em pé de igualdade com Deus. “Quem me vê, vê o Pai” (João 14,19). “Eu e o Pai somos um” (João 10,38).

A incredulidade de Tomé representa para a Igreja primitiva uma prova de excepcional valor apologético. A ressurreição não era, portanto, fruto de ilusão coletiva, de fantasia. Assim, nossa fé se fundamenta no testemunho de quem viu.

REFLEXÃO

A liturgia coloca o acento nas conseqüências da Páscoa. O primeiro dia da semana revela a importância do domingo na vida do cristão. Antes de ser uma questão de preceito, é uma questão de identidade do cristão.

No cristianismo, o homem não consegue libertar-se sozinho, com suas próprias forças. É preciso que Cristo se torne presente na comunidade com seus dons, com seu “Shalom”, que dê o seu Espírito... Não se tornou ser vivo depois de ter recebido o hálito de Deus. Também o cristão se torna nova criatura mediante o dom do Espírito de Jesus ressuscitado. Com o dom do Espírito se inicia o tempo da Igreja e sua missão no mundo. A partir daí, os apóstolos anunciam Jesus com coragem ao mundo. Não que anunciassem uma nova religiosidade ou filosofia, mas a pessoa de Jesus ressuscitado, que os acompanha com sinais e prodígios, de modo que os pagãos abrem seus ouvidos e chegam à fé, fazendo a experiência de uma nova vida, não mais marcada pelo pecado e pelo egoísmo.

Oito dias após a ressurreição coisas grandiosas aconteceram entre os apóstolos. Assim, a Páscoa não pode reduzir-se para nós a um acontecimento fossilizado, do passado. É uma ocasião para nos empurrar para o alto, pois não caminhamos às apalpadelas, já que Jesus nos ofereceu uma documentação histórica de sua Ressurreição. Jesus não é um ilusionista. Mas não basta a documentação histórica. Jesus nos pede para crer, para ter uma fé que se fundamenta na confiança. Por isso rezamos “Creio” e dizemos “Amém”. E Jesus proclama bem-aventurado quem crê.

Os primeiros cristãos eram solícitos em estar juntos (Atos dos Apóstolos 5,12), sobretudo, no dia do Senhor, festa primordial da comunidade. Nós, com nossos costumes, não vemos o domingo como uma transformação profunda, mas como um dia de puro descanso, lazer, passeios... Para o cristão, o domingo, antes de ser uma questão de preceito, é uma questão de identidade. O cristão tem necessidade do domingo. Ausentar-se da participação comunitária dominical, como ensinava a Igreja antiga, implica em “diminuir a Igreja”, reduzir os membros do Corpo de Cristo. O domingo é o dia para o cristão fazer de sua vida um dom, um sacrifício espiritual agradável a Deus, pois a Eucaristia não é apenas um rito, mas uma escola de vida. O domingo, dia cheio do divino e do humano, deverá iluminar todos os dias da semana. No domingo o Pai prepara uma mesa para todos os seus filhos participarem.

Na antigüidade, quando um rei conquistava uma cidade, voltava para casa com os despojos, e os dividia entre os soldados e o povo. Cristo venceu o maior inimigo do homem e de Deus, e voltou com uma enorme carga de dons para nós. “O dom da paz. A paz esteja convosco”. Paz porque retirou toda barreira entre o céu e a terra. “O dom da confiança”. Embora os apóstolos o tenham abandonado, ele continua confiando neles. “Como o Pai me enviou...”. Manda-os cumprir a mesma missão que recebeu do Pai. O dom do Espírito Santo. “Recebam o Espírito Santo...”. Deu-lhes a luz, a força e o calor do Espírito Santo. “O dom da libertação do mal e do pecado”. “Aqueles a quem perdoarem os pecados serão perdoados...”. “O dom da alegria”. Os discípulos se alegraram ao ver o Senhor. É a alegria de estar junto com Jesus. “O dom da certeza” (mediante a incredulidade de Tomé). Jesus convida a tocá-lo, senti-lo. “O dom da última bem-aventurança do Evangelho”. “Bem-aventurados os que crêem sem ter visto...

Diante de tantos dons, o cristão tem o dever de corresponder a eles.

João Crisóstomo nos diz que o livro dos Atos é tão útil quanto os evangelhos, porque, enquanto os evangelhos nos trazem muitas previsões a respeito de Jesus, os Atos documentam suas realizações. Os Atos nos dizem pouco sobre a divindade de Jesus, mas muito sobre sua messianidade, paixão, ressurreição e ascensão, daí a sua presença no tempo pascal.

As aparições confirmam o fato do sepulcro vazio, suscitam e confirmam a fé dos apóstolos e da comunidade. Os relatos das aparições são profissões de fé pascal que contêm uma linguagem teológica. São “kérigmas”. A intenção não é fazer uma crônica fiel, uma reportagem sobre o acontecimento da ressurreição, embora não seja uma mera criação litúrgica. As aparições são contatos pessoais com o próprio Jesus ressuscitado, vivo em pessoa. São experiências de fé com bases objetivas. Das aparições seguem como efeito imediato a fé e a transformação dos apóstolos, que se tornaram propagadores principais delas. “Cristo ressuscitou”.

O número de aparições soma umas dez. Algumas são destinadas pessoalmente a algumas pessoas, mas, a maioria, são comunitárias, dirigidas a grupos. Algumas são localizadas, outras não. Entre as particulares estão à Maria Madalena (João 20,11), às mulheres (Mateus 28,9), aos discípulos de Emaús (Lucas 24,13), a Pedro e Tiago (1 Coríntios 15,5-7; Lucas 24,34). Entre as coletivas estão aos onze em Jerusalém (Lucas 23,36), aos mesmos no monte da Galiléia (Mateus 25,17), aos discípulos à margem do Tiberíades (João 21,1). Em Marcos 16,9-14 há um apanhado de algumas aparições já citadas.

Em todas as aparições a iniciativa foi de Jesus. Ele aparece e desaparece de maneira inesperada. Nenhuma delas acontece de noite e em sonhos, nem é provocada por ilusão ou alucinação do grupo. Elas não são subjetivas, fruto da lembrança saudosa do Mestre ausente, uma criação do subconsciente, projeção encenada de um grupo desejoso de tornar a vê-lo, como nos sucede com a perda de um ente querido, como quis afirmar a crítica racionalista. Os apóstolos, pescadores rudes, gente iletrada em sua quase totalidade, não eram homens inclinados a especulações e montagens ideológicas. Com a pedra do sepulcro ficaram sepultados seus sonhos messiânicos. Por isso, num primeiro momento não acreditaram nas notícias das mulheres que voltaram do sepulcro com mensagens de anjos sobre a ressurreição de Jesus.

Num primeiro momento, quando Jesus lhes aparece, não é reconhecido. Mostram-se duros em crer, e até incrédulos. Foi preciso que Jesus mostrasse sinais de sua identidade (mãos, pés, chagas, come com eles...). Isto demonstra que a figura corpórea de Jesus não era mais a mesma de antes da ressurreição. Seu corpo é real, pois não é um fantasma, mas um corpo espiritual, corpo imaterial capaz de atravessar paredes, portas fechadas, aparecendo e desaparecendo. O processo de fé dos discípulos no reconhecimento de Jesus ressuscitado foi lento, até se definirem como testemunhas da ressurreição. A ressurreição de Jesus, portanto, é um fato independente da fé dos apóstolos. Não é fruto dessa fé, mas causa dela, apesar de suas resistências pessoais.

A maioria das aparições acentua o mandato missionário dos apóstolos para a evangelização. Para esta missão Jesus lhes dá o dinamismo do Espírito. Portanto, as aparições fazem os apóstolos vencerem as dúvidas e resistências e se certificarem da ressurreição. A finalidade concreta das aparições era suscitar e dar aval à fé dos apóstolos e dos primeiros cristãos. Mas os relatos das aparições foram escritos para os cristãos da segunda geração e seguintes, ou seja, para nós. Para que creiamos que Jesus é o Messias, o Filho de Deus. Assim, somos os herdeiros da bem-aventurança da fé, que brotou dos lábios de Jesus quando concluiu sua conversa com Tomé.

As dúvidas de Tomé serviriam para confirmar a fé dos que mais tarde haveriam de crer nele. “Porventura pensais que foi por simples acaso que aquele discípulo escolhido estivesse ausente e depois, ao voltar, ouvisse relatar a aparição e, ao ouvir, duvidasse e, ouvindo, apalpasse e, apalpando, acreditasse? Não foi por acaso, mas por disposição divina que isso aconteceu. A divina clemência agiu de modo admirável quando este discípulo que duvidava tocou as feridas na carne do seu Mestre, pois assim curava em nós as chagas da incredulidade... Foi assim, ouvindo e tocando, que o discípulo se tornou testemunha da verdadeira ressurreição” (São Gregório Magno).

padre José Antonio Bertolin, OSJ

 

A comunidade

Todo domingo é Dia do Senhor Ressuscitado. Vivendo ainda o clima de Páscoa, nos reunimos hoje em nome de Jesus, para proclamar a nossa fé na Ressurreição.

A liturgia nos mostra que a comunidade cristã é um espaço privilegiado de "Encontro" com Jesus Ressuscitado.

A 1a leitura apresenta um dos "sumários", que "retrata" a vida da comunidade de Jerusalém, continuando a missão de Jesus. (At. 5,12-16)

- Era uma comunidade viva: "Todos os fiéis se reuniam, com muita união..."

- Eram pessoas estimadas: "O povo estimava-os muito..."

- Exercia forte atração sobre todos: "Crescia sempre mais o número dos que aderiam ao Senhor pela fé ..."

O que atraía? Os gestos concretos de libertação: o Ressuscitado não podia mais ser visto pessoalmente, mas havia algo que podia ser visto: a comunidade, que, através de sua vida, dá testemunho de que Cristo está vivo.

* A comunidade cristã deve ser sinal visível de Cristo ressuscitado.

Se formos uma família unida e solidária, capaz de partilhar, estaremos anunciando esse mundo novo que Jesus propôs.

A 2ª leitura apresenta Jesus caminhando com a sua Igreja. É nele que a comunidade encontra a força para caminhar e para vencer as forças que se opõem à vida nova de Deus. Por isso, os cristãos nada terão a temer. (Ap. 1,9-11a.12-13.17-19)

+ No Evangelho, o CRISTO vivo e ressuscitado é o centro da comunidade cristã. (Jo 20,19-31)

A comunidade insegura e frágil, dominada pelo medo, se estrutura ao redor de Cristo e dele recebe a vida que a anima e que lhe permite enfrentar as dificuldades e as perseguições. Na vida da comunidade, encontramos as provas de que Jesus está vivo.

O texto apresenta dois encontros dos apóstolos com Cristo Ressuscitado. Aprofundemos alguns detalhes: "1º dia da semana... Oito dias depois..." (domingo)

* Lembra as celebrações dominicais da comunidade primitiva e mostra a nossa experiência pascal que se renova cada domingo. O domingo é o dia do "encontro" com o Ressuscitado. É o dia em que a comunidade é convocada para celebrar a Eucaristia. É no "encontro" com o amor fraterno, com o perdão dos irmãos, com a Palavra proclamada, com o pão de Jesus partilhado, que se descobre Jesus ressuscitado.

- Na comunidade: a assembléia dominical da comunidade é o lugar privilegiado para encontrar o Ressuscitado e ouvir a sua Palavra.

* Não basta rezar em casa, assistir a missa pela TV... Em casa podemos fazer a experiência de Deus, mas não a do Ressuscitado, porque esse se faz presente onde a comunidade está reunida.

- "Com portas trancadas por medo dos judeus..." Mais do que as portas e janelas, o coração deles estava fechado. O Ressuscitado os liberta do medo e lhes traz a alegria...

* Retrata a situação de insegurança e fragilidade, que dominava a comunidade.

A essa comunidade fechada, com medo, mergulhada num mundo hostil, ao aparecer "no meio deles", Jesus...

- Transmite o dom da Paz...  do perdão:

- "A Paz esteja convosco..."

- "A quem perdoardes os pecados..."

- Comunica o Espírito Santo:

- "Soprou... recebei o Espírito Santo..." (Lembra o "sopro" de Deus na Criação)

- Envia em missão: "Como o Pai me enviou, eu também vos envio"

+ O episódio de Tomé é uma catequese sobre a fé:

Inicialmente exige provas, só acredita vendo... Não valoriza o testemunho da comunidade. Não percebe os sinais de vida nova que nela se manifestam...

Fora da comunidade, não encontra o Cristo ressuscitado. Depois, voltando à comunidade, no "dia do Senhor" (domingo), o encontra e faz uma linda profissão de fé: "Meu Senhor e meu Deus".

Quem não encontrou o Ressuscitado na comunidade precisa de "provas" para acreditar.

As dúvidas de Tomé expressam a experiência da Comunidade apostólica. Manifestam também a dificuldade de todos nós em nos inserir progressivamente no mistério do Senhor ressuscitado.

Somos convidados à bem-aventurança dos que crêem ser ver...

- O que significa para nós a eucaristia na comunidade, no meu domingo?

Peçamos a Deus, nesta celebração, que a nossa vida, através de gestos concretos, torne visível aos homens de nosso tempo, que Jesus está ainda vivo?

padre Antônio Geraldo Dalla Costa

 

Domingo da Divina Misericórdia

Epístola (Ap. 1,9-11ª; 12-13; 17-19)

O AUTOR: Eu, João, o também vosso irmão e copartícipe na tribulação e no reino e na perseverança de Jesus Cristo, estava na ilha, a chamada Patmos, pela palavra do Deus e pelo testemunho de Jesus Cristo (9). JOÃO: é um nome de origem hebraica, cujo significado é Jahveh é um dador gratuito ou de graça. Com este nome temos 4 pessoas diferentes no NT: João, o Batista; João, o apóstolo, o que escreve o quarto evangelho, que a tradição diz ser também o autor do Apocalipse; João, com o sobrenome de Marcos, companheiro de Barnabé e Paulo, como narra At. 12,12 e João, um membro do Sinédrio (At. 4,6). Sobre o autor do Apocalipse, a tradição diz que o evangelista e discípulo amado do Senhor (Jo 13,23) teve nos últimos anos o cuidado das igrejas da Ásia Menor onde morreu com idade avançada. Porém, há autores modernos, desde o final do século XIX, que afirmam nunca saiu da Palestina onde morreu já avançado em anos. Esta hipótese não é muito seguida e existe uma terceira em que se afirma que tanto o Quarto Evangelho como o Apocalipse derivam do ensinamento do apóstolo João, sem dúvida por intermédio de redatores pertencentes aos meios joaninos de Éfeso. O livro durante muito tempo foi posto em dúvida em certas comunidades cristãs.  Hoje é um dos preferidos pelas comunidades evangélicas e considerado como profecia do passado por muitos eruditos católicos.

IRMÃO é a palavra comum entre os cristãos que se consideravam filhos de Deus e, portanto, verdadeiros irmãos pelos méritos de Cristo, o Filho natural do Pai comum.

COPARTÍCIPE derivado de syn [juntamente] e koinönos [associado] que, neste caso, é devido à perseguição ou TRIBULAÇÃO com o significado de opressão, aflição, sofrimento, tribulação, angústia, perigo, desgraça. Como em todos os escritos apocalípticos, o autor descreve em temos escuros a realidade, para caso de ser descoberto, não dar motivo à polícia para aumentar a perseguição. Daí o estilo criptográfico que é chamado apocalíptico. Cremos, portanto que a melhor tradução é perseguição.

PERSEVERANÇA firmeza, perseverança, constância, tenacidade, resistência. Em Rm. 5,3, Paulo fala de que ele se gloria na tribulação [perseguição?] sabendo que a tribulação produz a perseverança (TEB). PATMOS que em grego significa meu assassinato, era uma pequena ilha do grupo das Cíclades do mar Egeu, que recebeu seu nome das árvores que produzem a turpentina ou trementina, ou seja, de certos pinheiros. Tem aproximadamente 50 Km de circunferência [10X5 milhas] e está próxima das costas da Ásia Menor, especialmente de Éfeso. S. Ignácio diz que João foi desterrado a Patmos pelo imperador Domiciano, que Irineu calcula ser ao redor dos anos 95 ou 96 não por um pecado, ou delito, mas por sua fé em Cristo, como afirma o próprio João neste versículo pela palavra de Deus e pelo testemunho de Jesus Cristo. Da ilha, uma vez livre, viveu em Éfeso, distante aproximadamente 60 Km da mesma. Segundo os autores modernos relatam, Patmos era uma espécie de Alcatraz no império romano. Funcionava como um cárcere sem muros. A ilha era rica em mármore e a maioria dos presos estava forçada a trabalhar nas canteiras da mesma. Atualmente não tem árvores, nem rios, nem vegetação, exceto alguns cantos cultivados entre as rochas. Há uma gruta donde a tradição diz que o apóstolo morava e na qual teve suas visões. É, pois uma ilha deserta, isolada, estéril, apropriada como prisão. Segundo antigos testemunhos, no ano 96, após a morte de Domiciano, João pode sair para Éfeso, no tempo de Nerva, o novo imperador.

A VOZ: Achei-me em espírito no dia do Senhor e escutei detrás de mim uma grande voz como de trompa (10).

EM ESPÍRITO o verbo egenomën que a vulgata traduz por fui, do verbo ginomai, tem o significado de transformar-se, ter lugar, suceder, ocorrer, acontecer, passar, surgir, resultar, chegar a ser. Daí que podemos traduzir por achei-me possuído no espírito. Podemos dizer, comentando Paulo em Gl 5, 16, que não foi impulsionado pela carne, mas levado pelo espírito que provem de Deus mesmo, e que o que viu e agora escreve, são fatos e palavras que constituem o que os antigos profetas chamavam oráculo do Senhor.

DIA DO SENHOR é o domingo e vemos como já era desde tempos apostólicos o dia primeiro da semana chamado dia do Senhor por causa da ressurreição de Jesus. Talvez seja também uma reação contrária ao dia de Augusto celebrado uma vez por mês em honra do imperador.

TROMPA é o shofar <07782> feito de um chifre de carneiro. Quando o shofar soava em Israel, o Senhor se levantava do assento do juízo e se assentava no assento da misericórdia. Assim como as trombetas anunciavam a presença de um rei mortal, o Shofar anunciava o rei dos reis e senhor dos senhores (Sl. 98,6) onde a AV traduz: Com trombetas, e ao som de buzinas. De fato a setenta distingue entre salpigx [trompa] e salpigx keratinës [trompa de chifre]. A primeira é chatsotserah e a segunda é shofar. Este foi o instrumento tocado pelos sacerdotes em Jericó, feito de um chifre de carneiro, que também recebia o nome de yobel e de donde vem a palavra jubileu com o mesmo nome, de Lv. 25,10, anunciado pelo som deste instrumento. De fato existem duas palavras: trombeta, diminutivo de trompa, com os significados de clarim, corneta (corno em espanhol), ou cornetim. Atualmente, é chamada de trompete. O corno, que melhor podia ser trompa [famosas as trompas de caça na idade média], se é de chifre de carneiro, é o Shofar. E assim devia ser traduzido o Shofar que, em grego, a Setenta traduz como salpigx. O som do shofar é o que deve ser ouvido sempre que a presença do Senhor esteja a ser anunciada, como no monte Sinai (Êxodo 19:16,19), onde este instrumento (som fortíssimo de trompa (shofar), segundo a TEB], aparece pela primeira vez na Bíblia. Daí deduzimos que a trombeta é o Shofar, chamada para indicar a vinda e presença do Senhor.

ALFA E ÔMEGA: Dizendo: eu sou o alfa e o ômega, o primeiro e o último; e o que estás vendo escreve num livro e envia às  sete igrejas, as da Ásia (11a).

ALFA E ÔMEGA: No alfabeto grego eram as duas letras inicial e final do mesmo. Por isso, o autor explica o significado desse enigma na continuação. O primeiro e o último. Que quer dizer isso? O título era próprio de Jahveh no AT como vemos em Is. 41,4 : ego Dominus primus et novissimus ego sum. Como vemos em Ap. 1,8, são palavras de Jesus, o Cristo e ele a si mesmo se define como o princípio e o fim de tudo, exatamente como o Deus do AT. Primeiro e último, pois não existe um parêntese de tempo ou espaço em sua vida. Quer dizer que a criação do mundo e o seu fim estão unidos a Cristo como princípio e fim. Por ele tudo foi criado; por ele tudo chegará ao fim próprio, para o que foi destinado. Tudo foi feito por ele e sem ele nada se fez do que foi feito (Jo 1,3). Isto é o princípio e o fim. O seu império está nas palavras do anjo a Maria: Reinará na casa de Jacó e seu reino não terá fim (Lc. 1,33). Paulo diz claramente que o fim da Lei é Cristo (Rm. 19,4). E unicamente o fim de tudo será conseguido quando Cristo entregar o seu reino a Deus Pai (1 Cor 15,24). Portanto, poderá dizer: Eu sou o que é e o que era e o que vem, o Todo poderoso (Ap 1,8). SETE IGREJAS: São sete cidades da Província da Ásia, desde 133 a.C. que era administrada por um procônsul, dependente do Senado e cuja capital era Éfeso, que com Pérgamo, eram cidades das mais populosas da oikoumene. Além das sete citadas, havia outras na região, como Colossas que não são denominadas. Alguns manuscritos as denominam e são: Esmirna, Pérgamo, Tyatira, Saris, Filadélfia e Laodicea. Parece que o número 7 não é um numerus clausus, mas um número típico em que entra a totalidade das igrejas no tempo. Também as cartas de Paulo foram dirigidas a sete Igrejas como Roma, Corinto, Galácia, Éfeso, Colossas, Filipo e Tessalônica. Uma outra interpretação é que a província romana de Ásia estava dividida em sete distritos postais, correspondentes às sete cidades para as quais envia a carta, o autor do livro.

OS CASTIÇAIS: E virei-me a ver a voz que falou comigo; e tendo-me virado, vi sete castiçais dourados (12).

SETE CASTIÇAIS: João pensou ver o sujeito da voz, mas no seu lugar só viu sete candelabros de ouro. Uma tipificação do Menorah? Era o Menorah uma lâmpada de azeite de sete braços, elemento ritual do judaísmo que simbolizava os arbustos em chamas que viu Moisés no monte Sinai (Ex. 25). Encontrava-se no Tabernáculo e passou a formar parte dos dois templos: o de Salomão e o de Herodes. Não deve ser confundido com o Hanukiá que celebra os 8 dia que a luz de uma candeia durou milagrosamente 8 dias até que foi purificado o templo pelos Macabeus. Uma planta que cresce em Israel chamada de Moriah tem sete galhos e parece com a Menorah, o que deu lugar a ser a inspiração do mesmo. Após a destruição do templo, o famoso candelabro foi levado a Roma, onde sua figura ainda pode ser vista no arco de triunfo de Tito. Uma base para explicar o seu desenho está em que representa os sete corpos celestes da antiga cosmologia hebraica: Sol. Lua, Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter e Saturno. Uma outra interpretação é que representa a árvore da vida que em termos pagãos era representada pela deusa Asherah, que em hebraico era chamada de Hochmah e em grego de (sabedoria). Na realidade, deveríamos traduzir castiçais e não candelabros, pois estes são troncos que recebem vários braços em cujos extremos estão as lâmpadas e os castiçais são um para cada lâmpada. Alguns intérpretes dizem que os castiçais são as imagens das sete igrejas e que as luzes ou lâmpadas no extremo de cada castiçal representam a luz de Cristo que cada castiçal levanta para ser mais bem vista, segundo o que diz o Senhor (Mt. 5,15). Não é a Menorah, um único candelabro com sete braços, mas são sete castiçais em cujos extremos temos as lâmpadas com sua luz independente. Nácar Colunga traduz candeleros em espanhol, que é castiçal em português. No AT temos um profeta que vê também as sete lâmpadas, mas com a diferença de que é um único candelabro do qual saem sete tubos (RA) ou bicos (TEB), como era o Menorah. Em Zacarias ainda existe uma outra imagem: a das duas oliveiras. A Igreja é onde encontramos a luz de Cristo e não em cada indivíduo em particular de modo que stare cum Christo é stare cum Ecclesia. É nela que encontramos a verdadeira luz de Cristo.

O FILHO DO HOMEM: E no meio dos sete candelabros um semelhante a um filho de homem revestido de vestido talar e cingido nos seios com uma cinta dourada (13).

FILHO DO HOMEM: É Jesus que aparece em funções de um juiz escatológico como em Daniel 7, 13-14: vindo nas nuvens do céu e foi-lhe dado domínio e glória. Era o título messiânico usado por Jesus e que a Igreja raramente usou, preferindo, após a ressurreição, o título de Senhor, que ao contrário da humanidade, manifestava mais bem a natureza divina de Cristo.

VESTIDO TALAR ou como diz o grego podërës que em latim significa túnica talar, usada pelos sacerdotes. Provém do grego pous e arö [unir]. É a única vez que sai no NT. Seu simbolismo indica que Jesus era sacerdote, sumo dirá a epístola aos hebreus (7,17).

CINTA DOURADA era a banda de quatro dedos de largura que devia cingir a túnica do Sumo sacerdote (Ex. 28, 4,31-32; 29,5) em sinal de glória e de majestade (Ex. 28,39). Em 39, 5 descreve-se a faixa que era feita de linho, ouro, e púrpuras. A faixa de Jesus tinha mais ouro do que os fios da antiga faixa sacerdotal, pois era de ouro puro. Segundo o tipo do AT, se os sacerdotes tinham que cuidar do Menorah de modo que não faltasse o azeite, nem o pavio fosse insuficiente, Cristo cuida das igrejas do NT de modo a suas luzes estarem sempre brilhantes no dia e especialmente na escuridão da noite, que era simbolicamente a noite sem fé do mundo pagão.

NÃO TEMAS: E quando o vi, cai aos pés dele como morto e pôs a s sua mão direita acima de mim dizendo-me: Não temas! Eu sou o primeiro e o último (17). O apóstolo estava abrumado pela visão, embora conhecesse que era o mesmo Jesus, o que o amava e com o qual viveu momentos de intimidade e amizade na terra. Como é descrito com cores simbólicas, era de uma majestade impressionante e, por isso, diante do temor natural, João recebe as palavras que o próprio Jesus disse aos discípulos no meio da tempestade, andando sobre as ondas do mar: Não temais (Jo 6,20): Sou eu, dirá então. E agora: Sou o primeiro e o último.

DONO DA VIDA: E o que vive e que foi feito morto e eis que estou vivo pelos séculos dos séculos. Amém. E tenho as chaves do Hades e da morte (18).

O QUE VIVE: propriamente o vivente é uma clara alusão à morte e ressurreição. Como diz na continuação, foi feito morto que podemos traduzir por estive morto, já que o latim não tem o verbo estar que é comum ao português e espanhol. No presente está vivo e essa vida será eterna pelos séculos. O aiön grego significa uma idade perpétua, um período de tempo sem medida ou muito longo, daí um século e quando repetido eis tous aiönas tön aiönön é traduzido ao latim in saecula saeculorum e ao português por pelos séculos dos séculos, ou seja, sem fim o forever em inglês. O Amém final indica assim é.

HADES era o deus de ultratumba também chamdo Pluto, que logo passou a chamar-se de reino dos mortos, do qual Hades era o rei. É neste sentido que Cristo tem as chaves [para entrar ou sair] desse reino e consequentemente, será o dominador da morte, como se esta tivesse vida própria e fosse uma pessoa real. É o mesmo que disse Jesus a Marta : Eu sou a ressurreição e a vida (Jo 11,25).

O MANDATO: Escreve as que vedes e as que são e as que estão a acontecer depois delas (19). Com estas palavras está claro que o relato do livro na continuação é inspirado por mandato de Jesus, o Cristo. As coisas que tendes visto: ou seja, a visão de Jesus, como glorioso e majestático, o sumo pontífice da nova era. As que são, ou seja, as das sete igrejas da Ásia. Finalmente as que estão a acontecer, ou seja, no futuro próximo. Provavelmente não escatológico, pois o Apocalipse trata dos tempos anteriores e próximos futuros, segundo a opinião dos modernos exegetas. Efetivamente, o livro está dividido em três partes: coisas que o autor já viu: capítulo I. Coisas que eram do tempo presente: capítulos 2 e 3. E finalmente, o futuro: capítulo 4 até o fim.

Evangelho ( Jo 20, 19-31)

PRIMEIRA APARIÇÃO AOS DOZE

1ª PARTE: JESUS APARECE AOS DISCÍPULOS

OS LUGARES PARALELOS: Temos, além do relato de João, outros dois paralelos, muito mais breves, como corresponde a um resumo auricular e não a um testemunho ocular. São Marcos 16,14-18 e Lucas 24,36-49. Contrastaremos todos eles para determinar o grau de historicidade e o valor teológico das afirmações como catequistas bíblicos.

TEMPO: Sendo, portanto, o entardecer naquele dia o primeiro da semana e as portas trancadas donde estavam os discípulos reunidos por medo dos judeus, veio o Jesus e ficou em pé no meio e diz-lhes: paz convosco (19). João é o mais detalhado neste respeito: estando, pois, aquele dia perto do fim, o primeiro da semana, temos traduzido por entardecer. Comparado com o relato de Lucas anterior ao sucesso de João, que este não narra, da aparição aos dois de Emaús, parece que temos uma pequena contradição de tempo. Os dois de Emaús pedem a Jesus que fique, pois está na tarde e o dia já há declinado [temos traduzido literalmente]. Como pode dizer João que depois de uma caminhada de sessenta estádios, aproximadamente 9 mil metros, ou duas horas de caminho ainda era a tarde do dia? Vamos explicar esta aparente contradição. A tarde começava às quinze horas. Era este também o tempo em que se iniciavam as jantas. O dia, na primavera palestina, termina entre 17:30 e 18 horas. Caso estejamos, segundo Lucas, no início das 16 horas teremos mais duas horas de volta e os dois discípulos estariam com os doze às 18 horas, precisamente o fim do dia como afirma João.

OS DISCÍPULOS: Além dos doze [melhor onze, porque Judas estava morto] estavam os dois de Emaús e provavelmente mais, dentre os quais logo nos Atos se dirá eram cento e vinte. Dentre os onze faltava Tomé o chamado Dídimo. Tanto Tomé como Dídimo significam o mesmo: gêmeo. Como diz Lucas estavam reunidos os onze (!) e seus companheiros comentando uma aparição a Pedro [Simão] (Lc 24,33-34) que João não narra porque ele não foi testemunha do fato. Temos uma falha de informação em Lucas porque não sendo ele testemunha narra na totalidade, os onze, quando na verdade faltava um: Tomás. Também vemos como em Marcos existe uma narração formal e genérica, quando resume todas as aparições afirmando finalmente que apareceu aos onze quando estavam à mesa e censurou-lhes a incredulidade e dureza de coração, porque não haviam dado crédito aos que o tinham visto ressuscitado (34,14). Vemos que esta última afirmação é só em parte verdadeira  como constatamos em Lucas 24,34. Esta falta de detalhes indica claramente que eles tratam o assunto na sua generalidade, como um fato que transcende a história e forma parte da tradição. Não assim em João onde hora, lugar e circunstâncias permitem conhecer o que uma testemunha viu e ouviu. Por isso temos dois detalhes importantes: o medo aos judeus [propriamente jerosolimitanos] e as portas fechadas, ou melhor, trancadas.

JESUS VEIO: É desta forma como aparece para estar na frente de todos a figura do ressuscitado. Nada de ruídos, de resplendor, de experiências impatantes. Como entra a luz quando uma janela é aberta, assim o corpo de Jesus entrou e se colocou no meio deles.

A PAZ: A figura na frente deles não é uma estátua; fala e comerá logo, para demonstrar que não é um espírito, uma fantasia, um fantasma. Mas vamos agora estudar suas palavras. A primeira palavra de Jesus é uma saudação que podemos dizer entra dentro do costume ambiental: PAZ. A palavra hebraica Shalom da qual a grega Eirene e a latina Pax são traduções, significa evidentemente ausência de guerra e vida tranqüila Lc. 14,32, mas também significa bênção, glória, riqueza, descanso, bem-estar, saúde física, esperança de êxito, justiça, salvação: ou seja tudo que acostumamos chamar de estado feliz. Especialmente paz e justiça aparecem unidas (Mt 5,9-10). A paz é dom precioso de Deus (1 Cor. 1,3). Daí que o futuro Messias, Jesus em definitivo, seja antes de tudo um porta-voz da paz e inclusive se identifique com ela (Rm. 5,1). É o Messias que a comunica por meio do Espírito como antecipação da paz definitiva (Rm. 14,7). Se a primeira vez, a palavra pode ter o significado de uma saudação (19), quando é repetida pela segunda vez, tem um significado profundamente teológico: ela é a base do Espírito que transforma os discípulos em enviados do Pai, recebendo o principal carisma da nova era: o espírito de reconciliação que basicamente é perdão. Algo novo está ocorrendo; e esse algo novo é um bem divino:  essa profunda e definitiva paz, que Deus está disposto a partilhar como doador com simples seres humanos.

AS CHAGAS: E dito isto, mostrou-lhes as mãos e o seu lado; alegraram-se, pois, os discípulos vendo o Senhor (20).

Jesus mostrou suas chagas: mãos e pés, segundo Lucas (24,39) e mãos e lado, segundo João (20,21). Lucas declara o propósito dessa prova como demonstração  de que ele era o mesmo Jesus crucificado que tinha sido depositado no sepulcro e não um fantasma. Nem a afirmação de Lucas nega a de João nem esta poderá ser tomada como contraditória à de Lucas. Máxime que João distingue duas aparições: uma só para Tomé em que pede que este introduza a mão no lado, daí que o lado era mais importante para João do que as chagas do pé. Lucas só traz uma aparição, porque para ele o importante era que Jesus tinha sido visto pelos onze. Isto explica  as diferenças entre os dois. Não todos os detalhes são importantes, mas só aqueles que do ponto de vista do autor contribuem para demonstrar ou confirmar seu propósito. Desde este momento, Jesus será o crucificado, ou seja, aquele que em seu corpo apresenta umas feridas que inicialmente foram vergonha e humilhação, mas que desde agora, seriam glória e exaltação. O Jesus-homem, filho de Maria [filho do homem] agora se apresenta como o Cristo-Senhor verdadeiro filho de Deus [Cristo Deus].

O PERDÃO DOS PECADOS: Disse-lhes então o Jesus de novo: Paz convosco. Como me enviou o Pai também eu os envio (21). E dito isto, soprou e diz-lhes: recebei um espírito divino (22). Se de alguns perdoardes os pecados, são a eles perdoados, se de alguns retiverdes, retidos são (23). A nova missão dada por Jesus aos discípulos está intimamente unida ao perdão dos pecados. Por isso Jesus repete de novo Shalom lekem. Mas esta paz não é uma saudação, mas uma doação, um presente divino que é um perdão pela conduta imprópria dos discípulos durante os dias de paixão e morte de Jesus. Jesus esquece e perdoa. Sua paz, que é felicidade e alegria por sua presença viva no meio deles, quer ser uma reconciliação sem recriminações nem censuras. O perdão é total. O desejo de Jesus vai além do simples perdão. Jesus pretende dar aos discípulos um novo ministério: uma função divina como dom totalmente extraordinário que requeria um ato solene, visível e simbólico; ou seja, uma ação sacramental em que o homem é instrumento visível da ação interior divina. A missão atual é totalmente diferente da dada aos doze (Mt. 10,1 +) e aos discípulos (Lc. 10,1+) que unicamente consiste em anunciar a Boa Nova e testemunhá-la com poder de curar e autoridade sobre os demônios. É uma missão nova que participa da missão fundamental do próprio Jesus, que vamos estudar na continuação. Jesus não só envia os discípulos, mas também o Paráclito (Jo 16, 7). E a missão dos discípulos está na mesma ordem da missão do Paráclito. É, pois uma missão muito importante.

MISSÃO DE JESUS: Como o Pai me enviou, dirá Jesus. Com estas palavras Jesus afirma o sentido de sua vida: Ele é um enviado do Pai, um mensageiro que tem como finalidade o que a continuação descreve como doação aos seus discípulos: o perdão. Que Jesus era enviado do Pai temos clara confirmação em Jo 5,30 e 36. Mas qual foi a  missão fundamental de Jesus? O anjo anuncia um Salvador que será Cristo-Senhor (Lc. 2,11). No nome da pessoa estava escrita a missão de sua vida. Por-lhe-ás o nome de Jesus, pois ele salvará seu povo de seus pecados (Mt 1, 21). E o Batista descreve o futuro Messias declarando-o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo (Jo 1,29). A missão de Jesus se cumpre no momento de sua morte quando pode exclamar: está consumado (Jo 19, 30). Pouco antes, ao ser elevado na cruz, reclama do Pai o perdão; e o mais admirável é que esse perdão não é para os amigos, mas para os inimigos: Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem (Lc. 23,34). Foi para essa hora[de paixão] que ele veio (Jo 12,27). O perdão é uma amostra de que Deus é Pai e de que a justiça de Deus é clemência para quem recebe o evangelho como a Boa Nova da graça: O ano de graça do Senhor (Lc. 4,19 e Is. 61,2). Na última ceia declara o mistério encerrado na cruz como o sangue a ser derramado em prol da multidão para o perdão dos pecados (Mt. 26,28) e João na sua primeira carta resumirá esta missão afirmando: o sangue de seu Filho nos limpa de todo pecado (1 Jo 1,7).

MISSÃO DOS DISCÍPULOS

1) Jesus a identifica com a sua: como o Pai me enviou assim eu vos envio (21). Um favor deve ser tomado em sentido o mais amplo possível, sem restrição, como dizem os letrados em Direito. Perdoar não é só usar palavras, mas contribuir com ações, unindo-se à sua paixão para que os novos sofrimentos atuem como causa segunda do perdão, o qual Paulo já expressava numa frase de difícil interpretação: Em minha carne estou completando o que falta às tribulações de Cristo em favor de seu corpo que é a Igreja (Cl. 1,24). E como tal corpo de Cristo, também ele (sendo parte da Igreja) sofre e adquire méritos para a conversão dos pecadores, como muitos santos sofreram e S. Agostinho confirma em seus escritos. A Deus só podemos dar o nosso sofrimento de quem entrega sua vida, perdendo-a como prova do amor (Rm. 5,8). E nisso consiste precisamente o sacrifício (Ef 5,2).

2) Jesus realiza uma ação que relembra pelo verbo usado a mesma de Gênesis 2, 7, segundo a setenta, quando Deus soprou sobre o barro para dar vida ao corpo inerte. Logo teremos uma vida nova dada aos discípulos. Até agora Jesus nunca fez gesto semelhante que implicava modo diferente de ser discípulo.

3) As palavras que explicam a ação de Jesus formam um só conjunto com a missão e o sopro, que tem como significado o perdão dos pecados. Aqui não encontramos menção do Evangelho, não aparece o Reino, não deixa os efeitos salutares aos ouvintes da palavra, mas os efeitos são dirigidos aos presentes, todos eles alegres e com viva fé no Senhor: Se perdoais serão os pecados [dos outros] perdoados, se não os perdoais [os retiverdes forçosamente, segundo o grego] não estarão perdoados. Os hemistíquios finais de cada frase estão na voz passiva o que significa uma ação direita de Deus. Poderíamos traduzir livre, mas literalmente a nova missão apostólica desta forma: Deus perdoará a quem perdoardes; e Deus não perdoará a quem não perdoardes. O melhor comentário é o do Beato Isaac della Stella: A Igreja nada pode perdoar sem Cristo e Cristo nada quer perdoar sem a Igreja. A Igreja não pode perdoar senão a quem é penitente, isto é, a quem Cristo tocou com sua graça; e Cristo nada quer considerar como perdoado a quem despreza a sua Igreja.4) Por isso a condição indispensável do penitente é seu amor por Cristo, segundo as palavras do próprio Jesus: Eu vim chamar os pecadores ao arrependimento (Lc 5, 32) e seus muitos pecados lhe são perdoados porque amou muito; mas aquele a quem pouco se perdoa ama pouco (Lc. 7,47) ou em termos mais ocidentais: A quem pouco ama, pouco se perdoa.

INTERPRETAÇÃO: Que podemos dizer desta segunda missão dos discípulos chamados a perdoar os pecados? ANTES do século XVI todas as Igrejas admitiam que os apóstolos e seus sucessores tinham o poder ministerial de perdoar os pecados dos fiéis em nome de Cristo.

DEPOIS, com a vinda da Reforma, os evangélicos afirmam que este poder e este encargo são entregues a todos os discípulos; de fato a todos os fiéis de todos os tempos (Jo 17,20) e não a Pedro em particular (Mt. 16,19) ou a um ordo sacerdotal (Lc. 24,48). O perdão não é dado por meio de um poder ministerial causado por uma recepção do Espírito; porém, escutando o testemunho dos fiéis, os homens acreditarão (seus pecados lhes serão perdoados) ou se escandalizarão (seus pecados lhes serão retidos). Estas são as novas afirmações dos chamados evangélicos. A igreja Romana admite como certo que o poder dado por Cristo de perdoar os pecados se exerce também no Batismo e na pregação da palavra (Mc. 15,16). Todo sacerdote no final da leitura do evangelho diz: Pelos vocábulos ditos, sejam perdoados nossos delitos. O teólogo Bruce  Vawter declara que este dom do Espírito está aqui relacionado explicitamente com o poder outorgado à Igreja para continuar ostentando o caráter judicial de Cristo no referente ao pecado. Mas há algo mais: especialmente da passagem atual temos duas definições dogmáticas que interpretam a Escrituras em sentido histórico ou literal: A PRIMEIRA definição é do Concílio de Constantinopla (ano 553) proclamando que quando o Senhor insuflou sobre os apóstolos, estes recebem realmente e não figurativamente  o Espírito Santo. A SEGUNDA é do Concílio de Trento, declarando anátema do ponto de vista católico, a interpretação desta passagem como não se referindo à potestade de perdoar e reter os pecados no sacramento da penitência, mas somente restringida à autoridade de pregar o evangelho.

LUGARES PARALELOS: Em primeiro lugar temos a passagem da confissão de Pedro: E te darei as chaves do Reino dos Céus: E se alguma coisa ligares sobre a terra, estará ligada nos céus. E se alguma coisa desatares sobre a terra estará desatada nos céus (Mt. 16,19). Pedro recebe de Jesus uma autoridade que é jurídica como chefe do conjunto apostólico. É definitivamente o poder de admitir ou rejeitar dentro da comunidade homens e ideias como fundamentalmente afins ou inimigas às mensagens verdadeiras do evangelho. Uma outra passagem é: Em verdade vos digo que tudo que por quaisquer motivos ligares sobre a terra estará ligado no céu. E tudo que por qualquer causa desligares sobre a terra estará desligado no céu (Mt. 18,18). Trata-se do mesmo direito de admitir ou rejeitar homens e doutrinas, porque este versículo é a conclusão de como tratar aquele que não querem se arrepender, uma vez que rejeita a voz da Igreja. Nesse caso será tratado como gentio ou publicano. Uma terceira passagem está em Tiago 5, 16: Confessai, pois, uns aos outros os vossos pecados e orai uns pelos outros para que sejais curados. O contexto indica que é nos momentos de doença em que o doente chama os presbíteros da Igreja para ser ungido e a oração da fé salvará o doente e o Senhor o porá de pé; e se tiver cometido pecados, estes serão perdoados (15). Uma quarta passagem é encontrada em 1 Jo 9: Se confessarmos os nossos pecados, ele (Deus) é fiel e justo de modo que demita nossos pecados e nos limpe de todas as maldades. Finalmente Pedro, à pergunta dos ouvintes, que devemos fazer, dirá: Arrependei-vos e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo para remissão dos vossos pecados (At. 2,18). Destes textos deduzimos: 1o) Que Cristo realmente tem poder para entregar sua autoridade como faculdade a ser exercida visível e externamente sobre os homens . 2o) Que pelo menos de duas formas desde os tempos apostólicos essa potestade era usada: no batismo e na doença. Temos como confirmação os casos de Ananias (At. 5,1-11) e do incestuoso de Corinto (1Cor cap 5) em que o pecado é retido e punido.

PARTE: SEGUNDA APARIÇÃO

OITO DIAS: E dentro de oito dias, de novo estavam dentro os discípulos dele e Tomé junto com eles. Vem o Jesus, trancadas as portas, e ficou de pé no meio e disse: paz convosco (26).

TOMÉ: Seu nome hebraico significa o mesmo que Dídimo em grego: gêmeo, como o evangelista João diz em 11,16. Somente João dá alguns detalhes de sua presença entre os apóstolos. Vamos e morramos com ele dirá em Betânia do outro lado do Jordão (Jo 11,16). Era um homem que não se acalma com meias verdades e quer saber o significado próprio das palavras: Senhor, não sabemos aonde vais, como vamos saber o caminho? (Jo 20,14). Ele estava com os outros pescadores na beira do mar quando Jesus aparece aos sete discípulos que intentavam pescar (Jo 21,2). Este último evento indica que Tomé era também de Betsaida, amigo de Pedro e de João. Seu desejo de conhecer a verdade foi sem dúvida a base para o chamado evangelho de Judas Tomé, o Gêmeo, que teve uma inusitada influência entre eruditos desde a descoberta de Nag Hammadi. Num programa de History Chanel o dito evangelho é tomado como mais antigo do que os evangelhos da cruz como apelidam os canônicos que retraem [não sei com  que critérios] até 40 ou mais anos após a morte de Jesus, ou seja, após o ano 70, ano da destruição de Jerusalém. Aproveito para dizer um fato incontestável: No capítulo 15 da primeira carta aos de Corinto temos em essência o evangelho: Transmiti-vos em primeiro lugar aquilo que eu mesmo recebi: Cristo morreu por nossos pecados, segundo as escrituras. Foi sepultado; ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras. Apareceu a Cefas e depois aos doze (1 Cor 15,3-5). Porém todos afirmam que esta carta foi escrita três anos após a visita de Paulo aos de Corinto, que sucedeu entre 52-53 de nossa era. Em definitivo 20 anos após a morte de Jesus. Podemos dizer com a mesma segurança que o evangelho de Tomé foi escrito antes desse evangelho básico dos primeiros cristãos? Porque o dito evangelho só é um evangelho em que Jesus é Mestre de Sabedoria e não redentor e vítima pelos pecados, que ressuscita no terceiro dia. Ou será que a dúvida de Tomé a respeito da ressurreição de Jesus se tornou certeza e por isso, só os ditos do mestre valiam a pena de serem escritos?

A FÉ DE TOMÉ: Ela veio de uma visão direta do Ressuscitado: Estavam de novo reunidos, oito dias depois, os discípulos e desta vez estava Tomé com eles. De novo as portas estavam fechadas. Atravessar as paredes é um fenômeno que modernamente vemos como parte da parapsicologia e não do milagre. É o fenômeno chamado aporte, definido como aparições de objetos que atravessam obstáculos como paredes, muros e corpos opacos de todo gênero ou mesmo vindos de longe. Encontramos exemplos em Edivino A Friderichs no livro <Panorama da Psicologia ao alcance de todos> paginas 162-167. O aporte é um fenômeno físico comprovável e até certo ponto experimental, não porque saibamos as causas e possamos explicar o fenômeno em si, mas porque, sem truques, podemos observá-lo e pode ser objeto das experiências de nossos sentidos, ou seja, da ciência experimental. Ora bem: se não sabemos explicar um fenômeno que acontece sem outra intervenção aparente que a mente humana, e não podemos duvidar de sua existência, como poderemos afirmar que o que a ciência não explica não pode existir como realidade e será, portanto fantasia, mito ou crendice? O aporte também? A ciência moderna desvendou muitos mistérios, mas também descobriu muitos mais ainda por explicar, que antes eram desconhecidos. Estamos entre a luz e as trevas. Não podemos negar a existência da lua por termos nascido cegos; portanto não podemos negar muitos fatos que acontecem ou podem acontecer por não tê-los visto. Entre eles os milagres, que não são de séculos muito distantes sem testemunhas contemporâneas; mas que contêm testemunhos oficiais desde o momento de sua realização, como o caso do coxo de Calanda. Por que não aceitá-los?

A INCREDULIDADE: Não é só a de Tomé, donde vemos que não era suficiente a afirmação de seus condiscípulos e amigos. Era um cabeçudo, que só podia crer em semelhante acontecimento que ultrapassava seu íntimo convencimento, vendo e tocando por seus próprios olhos e suas próprias mãos. Não aceitava testemunhos imparciais, mesmo amigos, que por outra parte nada tinham a ocultar e nenhuma vantagem em afirmar. Tomé é o símbolo e o tipo de muitas pessoas modernas que não negam a evidência, mas que, como os antigos fariseus, atribuem ao acaso e a insuficiência científica hoje em dia, explicações que requereriam uma causa transcendente. Isso porque os levaria a retratar suas convicções e humilhar suas pretensas certezas. Como Tomé, são capazes de repetir: Se eu não vir, se eu não tocar não posso crer (Jo 20, 25)

A RENDIÇÃO: Depois diz a Tomé: traz teu dedo aqui e vê minhas mãos e traz tua mão e introduz no meu lado e não te tornes incrédulo mas fiel (27). O ato de Jesus foi de uma delicadeza total: Um milagre só para que seu discípulo pudesse crer. A fé que, segundo João, nasce da vontade do Pai e consiste em ver o Filho e nele crer para obter a vida eterna e ser ressuscitado no último dia (6,40) foi dada a Tomé como um verdadeiro presente, devido à sua oração [de Jesus]: por eles te rogo pelos que me deste, porque são teus (17,9) de modo que não se perca nada do que ele me deu, mas o ressuscite no último dia (6, 39) a não ser o filho da perdição (17,12). Tomé se rende ante a evidência. A dúvida de Tomé é também para nós um esclarecimento de que hoje podemos tirar uma ideia esclarecedora: o lado de Jesus está aberto. Esse lado onde brotou sangue e água (19, 34) ainda está aberto. Porque é aquele Jesus Cristo que veio por meio de água e sangue (1Jo 5,6). Porque são três os que testemunham na terra: O Espírito, a água e o sangue; e os três a um [só objetivo] se unem (1 Jo 5,8). É o lado da morte que se torna fonte de vida para nós: de perdão pela água do batismo e de vida pelo sangue da Aliança, que representa a vida. Esse lado que se tornou  imagem, não da morte, mas da vida para os que o contemplam como vivo, mas crucificado. Duas são as expressões do primitivo cristianismo que hoje apelam a nossa fé: Jesus é o Senhor e ele é o Crucificado. E podemos contemplar, como João mostra, o Crucificado como o traspassado, que exige de nós água e sangue, Batismo e Eucaristia. Água que lava o pecado e o sangue como aspergido desde a cruz à semelhança do que acontecia no AT no dia do Yom Kippur em que o sangue do bode era aspergido sobre o altar. Atualmente entre os judeus modernos é o dia da reconciliação, dia em que se deve estender ao inimigo a mão da reconciliação, esquecer as ofensas recebidas e desculpar-se pelas feitas aos outros. Este ofício da expiação, na epístola aos Hebreus, no capítulo 9, tem uma perfeita réplica no NT com o Crucificado como vítima de expiação.

MEU SENHOR E MEU DEUS: Então responde o Tomé e disse-lhe: O Senhor meu e o Deus meu! (28). Deus meus. É a palavra da fé mais vibrante e mais pessoal. Que mais poderíamos dizer da figura de Jesus que é Deus e, portanto Senhor, e que melhor de sua relação conosco que declará-lo meu como uma possessão tão pessoal como íntima? Entramos dentro da divindade e nos deixamos impregnar de sua transcendência. Por isso, a Igreja não encontrou outra melhor expressão de fé através dos séculos que esta de Tomé: Meu Senhor e meu Deus!

BEMAVENTURADOS: Diz-lhe o Jesus:porque me viste, Tomé, tendes acreditado. Ditosos os que não vendo e acreditaram (29). A Bênção é para todos os que, sem terem visto, não obstante creem. Sem dúvida que Deus e Jesus, como fiel seguidor de seus planos, escolhem o melhor caminho para a fé. Não é a submissão a uma aparição sobrenatural, mas a um fato não experimentado e difícil de acreditar, portanto. Sobre as conclusões da ciência, sempre experimentais, e sobre a lógica da razão sempre humana, está o poder divino e a coerência de quem  aceita a palavra como norma de vida. Se confessares com tua boca que Jesus é Senhor e creres em teu coração [mente] que Deus o ressuscitou dentre os mortos serás salvo (Rm. 10,9). Esta é a Bênção que Jesus promete aos que nele crêem, sem terem visto.

MUITAS OUTRAS COISAS: Porém estas estão escritas para que acrediteis que o Jesus é o Cristo o Filho do Deus e para que crendo tenhais vida em seu nome (31). Com esta frase João declara que seu evangelho tem o defeito de toda obra humana: a limitação. Porque apesar de ser inspirada também tem características de obra humana como estilo, língua e métodos. João não pretendia escrever tudo, mas aquelas coisas que eram mais apropriadas a sua finalidade: Para que os leitores creiam que Jesus é o Ungido [Messias], o Filho do Deus [verdadeiro] e para que crendo tenhais vida em seu nome (31). Com isso se cumpria a declaração de Jesus a Marta: Eu sou a Ressurreição e a Vida. Quem crê em mim ainda que morra viverá e quem vive e crê em mim jamais morrerá. E ele poderá perguntar a cada um de nós como a Marta: Crês nisso? (Jo 11,25-26).

PISTAS

1) O relato de João é simples; as circunstâncias não são barrocas nem fantasiosas, mas completamente naturais, com a exceção da figura de Jesus que foge à compreensão humana e lógica dos acontecimentos que chamamos naturais. Será um fantasma? Será um sonho? Por isso, João diz que Jesus mostrou suas chagas: era o crucificado. Durante 40 dias será visto, sempre de improviso, e aparecerá quando a necessidade ou a oportunidade o recomendem. É Jesus e não os apóstolos quem comanda a visão. Foi visto como quando sem a vontade humana o sol aparece de manhã no horizonte. Um pouco diferente é a visão que dele temos pela fé: Não submetidos a uma evidência, mas passando da palavra à visão, para nesta encontrar o Amor.

2) Uma nova relação surge entre Jesus e seus discípulos: Os pecados podem ser perdoados e o saberemos ao escutar a palavra de perdão, como sabemos o fim de um julgamento ao escutar a sentença definitiva de um juiz. A paz reina de novo entre céu e terra.  Tudo é fruto de uma entrega, a de Jesus, que termina em sacrifício, o mais humilhante e bárbaro de toda a antiguidade. A cruz agora é salvação e o sofrimento tem essas suas mesmas qualidades: entrega e sacrifício. E Ele embora seja ainda o crucificado, se tornará Senhor e se tornarão benditos todos os que, sem tê-lo visto, acreditem que está vivo e que como Senhor da morte é também Senhor da vida.

3) A fé não é um produto do raciocínio e da lógica científica após laboriosa investigação. Um e outra não levam à fé, mas sugerem a dúvida. A fé é um dom de Deus que propõe vida após a morte, perdão após o pecado. Porém a nossa fé está baseada no testemunho dos que o viram e ouviram como ressuscitado. Pois a fé provém da pregação (Rm. 10,17). Ou seja, está avaliada por uma tradição que se tornou anúncio e escuta; tradição inicial como de origem apostólica. Na base, pois, da fé está a tradição antes do que a palavra escrita.

4) O evangelho, como livro ou Escritura, nasceu de um testemunho que foi escrito, uma vez ouvido. E tanto valor tem essa escrita quanto mais fiel é ao testemunho que recolhe e que ouviram os anunciados. A Escritura foi e ainda é tradição, enquanto esta a interpreta com a autoridade de quem primeiro a ouviu como palavra. E como livro, a palavra é sempre limitada, por não poder explicar-se a si mesma e por não conter tudo o que poderia ter sido ouvido e escrito. Como diz João nesta primeira conclusão, seu livro não tem outra finalidade além da fé. Seu livro estará mais completo com os outros livros que chamamos evangelhos.

5) Por ser uma passagem para a fé não deverá ser lido com curiosidade, nem como uma história em que buscamos tempo, lugar, circunstâncias  e detalhes que são de interesse humano, mas como fundamento da fé; desta buscamos conhecimentos que devemos aceitar como verdades divinas: como devemos pensar diante dos grandes problemas da vida, como passar da fé ao amor para ajustar nossa vida, porque encontramos diante de nós a figura do ressuscitado como Senhor e Deus da nossa vida.

padre Ignácio, dos padres escolápios

 

 Encontrar o Ressuscitado e acreditar nele

Hoje, Jesus aparece no meio da comunidade reunida. Nós também, reunidos com os nossos irmãos na fé, fazemos a experiência do Ressuscitado. Claramente no caso daqueles discípulos foi uma experiência muito especial, já que eles viram o corpo glorioso do Senhor. A nossa experiência, sem ser do mesmo modo, não deixa de ser maravilhosa, já que nós contemplamos o corpo eucarístico do Senhor, comungamos o seu Corpo e o seu Sangue. No mistério da Eucaristia está todo o Mistério Pascal do Senhor. Eis aqui um argumento totalmente convincente para que não faltemos a Missa dominical!

A propósito, um homem escreveu uma carta ao diretor do jornal da sua cidade e comentava como ir à igreja todos os domingos tinha pouco sentido. “Fui à igreja durante 30 anos – escrevia –, e desde então escutei mais ou menos 3.000 homilias. Não posso, porém, lembrar-me de nenhuma delas. Penso então que eu perdi o meu tempo e os sacerdotes o seu ao dar sermões ao vazio.” Por causa daquela carta teve início uma polêmica na seção “Cartas ao diretor” daquele jornal, que continuou durante semanas, até que alguém escreveu uma consideração que, surpreendentemente, acabou com todas as controvérsias: “estou casado há 30 anos. Desde então fiz aproximadamente 32.000 refeições entre almoços e jantares. No entanto, não posso lembrar-me de nenhum menu inteiro de nenhum desses dias. Não posso, porém, concluir que essas refeições não serviram para nada. Alimentaram-me e deram-me forças para viver, e se eu não tivesse feito aquelas refeições já estaria morto.”

É na igreja onde fazemos a nossa experiência de Cristo ressuscitado, é aqui onde comungamos o Corpo ressuscitado do Senhor. O domingo é o dia do cristão, pois é o dia do Ressuscitado. O Domingo só é domingo por causa do Senhor Jesus. “Este é o dia que o Senhor fez para nós”, é o primeiro dia da semana, marcando assim o início de uma nova fase: o da nova criação. O Domingo é também o oitavo dia, apontando dessa maneira para o descanso eterno, para a escatologia, para o céu. Já que a semana tem apenas 7 dias, chamar o domingo de “oitavo dia” é colocá-lo em outra dimensão, a eterna.

Diante do Cristo ressuscitado e da sua grande Misericórdia, tomemos como ponto de partida da nossa oração para o dia de hoje e para essa semana aquela frase cheia de fé e de rendição diante do Mistério: “Meu Senhor e meu Deus”. Quando Jesus for de fato Senhor e Deus das nossas vidas, acontecerá conosco aquilo que a Sagrada Escritura relata dos primeiro cristãos: “A multidão dos cristãos era um só coração e uma só alma. Ninguém considerava exclusivamente seu o que possuía, mas tudo entre eles era comum” (At 4,32). No filme sobre o Papa João Paulo II, Karol – o homem que se tornou papa, que é muito recomendável, aparece muitas vezes a saudação cor unum et anima uma, a expressão vem desse trecho da Bíblia. Precisamos ser um só coração e uma só alma, nas nossas celebrações dominicais e lá fora, atuando assim seremos coerentes com o nosso ser cristão.

Uma última recomendação: vá à Missa ainda que você não sinta nada. Não importa! Nós não servimos a Deus em troca de sentimentos. Por outro lado, caso o Senhor nos conceda um sentimento de alegria e de satisfação, agradeçamos-lhe, mas não façamos desses sentimentos o motivo da nossa lealdade, da nossa fidelidade. Dá pena escutar a esses ex-católicos afirmando que mudaram de igreja por que lá, na outra, se sentem bem. Ora, para sentir-se bem, basta ir a uma discoteca! Desculpem que eu tenha baixado o nível, porém, convenhamos!

Maria, auxílio dos cristãos, nossa Mãe, causa de nossa alegria, nos ajude e nos faça mais devotos da Eucaristia, do Mistério Pascal de seu Filho e mais atentos às necessidades dos demais.

padre Françoá Rodrigues Figueiredo Costa

 

Homilia I

Antes de tudo, duas observações: (1) A Palavra de Deus, neste Domingo, apresenta-nos um contraste muito forte entre escuridão e luz: escuridão da noite do Pai Abraão e luz do Cristo transfigurado; (2) chama atenção, num tempo tão austero como a Quaresma um evangelho tão esfuziante como o da Transfiguração. Não cairia melhor na Páscoa, este texto? Por que a Igreja o coloca aqui, no início do tempo quaresmal? Comecemos pela primeira leitura. Aí, Abraão nos é apresentado numa profunda crise; Deus tinha lhe prometido uma descendência e uma terra e, quase vinte e cinco anos após sua saída de seu pátria e de sua família, o Senhor ainda não lhe dera nada, absolutamente nada! Numa noite escura, noite da alma, Abraão, não mais se conteve e perguntou: “Meu Senhor Deus, que me darás?” (Gn 15,2) Deus, então, “conduziu Abrão para fora e disse-lhe: ‘Olha para o céu e conta as estrelas, se fores capaz! Assim será a tua descendência!” Deus tira Abraão do seu mundozinho, de seu modo de ver estreito, da sua angústia, e convida-o a ver e sentir com os olhos e o coração do próprio Deus. “Abrão teve fé no Senhor”. Abraão esperou contra toda esperança, creu contra toda probabilidade, apostando tudo no Senhor, apoiando nele todo seu futuro, todo o sentido de sua existência! Abraão creu! Por isso Deus o considerou seu amigo, “considerou isso como justiça!” E, como recompensa Deus selou uma aliança com nosso Pai na fé: “’Traze-me uma novilha, uma cabra, um carneiro, além de uma rola e uma pombinha’. Abrão trouxe tudo e dividiu os animais ao meio. Aves de rapina se precipitaram sobre os cadáveres, mas Abrão as enxotou. Quando o sol ia se pondo, caiu um sono profundo sobre Abrão e ele foi tomado de grande e misterioso terror”. Abrão entra em crise: no meio da noite – noite cronológica, atmosférica; noite no coração de Abrão – no meio da noite, as aves de rapina ameaçam, e o sono provocado pelo desânimo e a tristeza, rondam nosso Pai na fé… Deus demora, Deus parece ausente, Deus parece brincar com Abraão! Tudo é noite, como muitas vezes na nossa vida e na vida do mundo! Mas, ele persevera, vigia, luta contra as aves rapineiras e o torpor… E, no meio da noite e da desolação, Deus passa, como uma tocha luminosa: “quando o sol se pôs e escureceu, apareceu um braseiro fumegante e uma tocha de fogo… Naquele dia, o Senhor fez aliança com Abrão”. Observemos o mistério: Deus passou, iluminou a noite; a noite fez-se dia: “Naquele dia, Deus fez aliança com Abrão!” Abraão, nosso Pai, esperou, creu, combateu, vigiou e a escuridão fez-se luz, profecia da luz que é Cristo, cumprimento da aliança prometido pelo Senhor! “O Senhor é minha luz e salvação; de quem eu terei medo? O Senhor é a proteção da minha vida; perante quem tremerei?” Eis o cumprimento da Aliança com Abraão: Cristo, que é luz, Cristo que hoje aparece transfigurado sobre o Tabor! Fixemos a atenção no evangelho, sejamos atentos aos detalhes: Jesus estava rezando – “subiu à montanha para rezar” – e, portanto, aberto para o Pai, disponível, todo orientado para o Senhor Deus: Cristo subiu para encontrar seu Deus e Pai! E o Pai o transfigura. Sim, o Pai! Recordemos que é a voz do Pai que sai da nuvem e apresenta Aquele que brilha em luz puríssima: “Este é o meu Filho, o Escolhido!” E a Nuvem que o envolve é sinal do Espírito de Deus, aquela mesma glória de Deus que desceu sobre a Montanha do Sinai (cf. Ex Ex 19,16), sobre a Tenda de Reunião no deserto (cf. Ex 40,34-38), sobre o Templo, quando foi consagrado (cf. 1Rs 8,10-13) e sobre Maria, a Virgem (cf. Lc 1,35). É no Espírito Santo que o Pai transfigura o Filho! Na voz, temos o Pai; no Transfigurado, o Filho; na Nuvem luminosa, o Espírito! E aparecem Moisés e Elias, simbolizando a Lei e os Profetas. Aqui, não nos percamos em loucas divagações e ignóbeis conclusões, como os espíritas, que de modo louco, querem provar com este texto que os mortos se comunicam com os vivos! Trata-se, aqui, de uma visão sobrenatural, não de uma aparição fantasmagórica e natural! Moisés e Elias, que “estavam conversando com Jesus… sobre a morte, que Jesus iria sofrer em Jerusalém”. Aqui é preciso compreender! Um pouco antes – Lucas diz que oito dias antes (cf. 9,28) – Jesus tinha avisado que iria sofrer muito e morrer; os discípulos não compreendiam tal linguagem! Agora, sobre o monte, eles vêem que a Lei (Moisés) e os Profetas (Elias) davam testemunho da morte de Jesus, de sua Páscoa! Sua paixão e morte vão conduzi-lo à glória da Ressurreição, glória que Jesus revela agora, de modo maravilhoso! Assim, a fé dos discípulos, que dormiam como Abraão, é fortalecida, como o foi a de Abraão, ao passar a glória do Senhor na tocha de fogo! A verdadeira tocha, a verdadeira luz que ilumina nossas noites sombrias e nossas dúvidas tão persistentes é Jesus! Mas, por que este evangelho logo no início da Quaresma? Precisamente porque estamos caminhando para a Páscoa: a de 2004 e a da Eternidade. Atravessando a noite desta vida e o combate quaresmal, estamos em tempo de oração, vigilância e penitência! A Igreja, como Mãe, carinhosa e sábia, nos anima, revelando-nos qual o nosso objetivo, qual a nossa meta, o nosso destino: trazer em nós a imagem viva do Cristo ressuscitado, transfigurado pelo Espírito Santo do Pai. Escutemos São Paulo: “Nós somos cidadãos do céu. De lá esperamos o nosso Salvador, o Senhor Jesus Cristo. Ele transformará o nosso corpo humilhado e o tornará semelhante ao seu corpo glorioso. Assim, meus irmãos, continuai firmes no Senhor!” Compreendem? Se mantivermos o olhar firme naquilo que nos aguarda – a glória de Cristo –, teremos força para atravessar a noite desta vida e o combate da Quaresma. Somos convidados à perseverança de Abraão, ao seu combate na noite, à vigilância e à esperança, somos convidados a não sermos “inimigos da cruz de Cristo, que só pensam nas coisas terrenas”, somos convidados a viver de fé, a combater na fé! Este é o combate da Quaresma, este é o combate da vida: passar da imagem do homem velho, com seus velhos raciocínios e sentimentos, ao homem novo, imagem do Cristo glorioso! Se formos fiéis, poderemos celebrar a Páscoa deste ano mais assemelhados ao Cristo transfigurado pela glória da Ressurreição e, um dia, seremos totalmente transfigurados à imagem bendita do Filho de Deus, que com o Pai e o Espírito Santo vive e reina na glória imperecível. Amém!

Homilia II

Amados irmãos em Cristo, para compreendermos o que Senhor nos quer dizer hoje, com estas leituras da sua santa Palavra, é necessário recordar que estamos no caminho quaresmal e que este caminho, que nos leva à luz da celebração pascal, é imagem do próprio caminhar nosso neste mundo: caminho por entre trevas e luzes, crises e bonanças, momentos de profunda dor e de grande consolação. No caminho da Quaresma, como naquele outro, da vida, o Senhor nos educa, nos prova, nos consola, nos conforma à sua cruz e nos prepara para participar da sua gloriosa ressurreição. Tomemos, pois, com um coração de discípulos, as leituras deste hoje. Por que a Igreja coloca a luz do Tabor na sobriedade quaresmal? Não assentaria mais este texto no tempo pascal? Tudo é luz no Tabor, tudo é glória de Cristo! Mas, observemos: (1) Jesus sobe ao monte para rezar, para buscar a vontade do Pai. Já aqui temos uma bela lição quaresmal. Se o nosso Salvador rezou durante toda a sua vida, como nós poderíamos não rezar? Como poderíamos nos dar ao luxo de pensar poder ser verdadeiramente cristãos sem buscar sintonizar nosso coração com o coração de Cristo, que é imagem do coração do Pai? Rezando, Jesus é transfigurado na glória do Pai, que é o próprio Espírito Santo, representado pela nuvem luminosa. Também nós, caríssimos, perseverando na oração, traremos certamente em nós o reflexo da glória de Deus que resplandece na face de Cristo – e este é o objetivo da Quaresma: fazer-nos participantes da alegria pascal, plena da glória do Ressuscitado. (2) Pensai agora naqueles que aparecem sobre o Tabor: Moisés, que representa a Lei, e Elias, que representa os profetas de Israel. Eis a mensagem clara: a Lei e os profetas dão testemunho da paixão do Senhor, que irá consumar-se em Jerusalém. A cruz não é um absurdo, mas parte de um desígnio de Deus, desígnio de salvação e de vida, de modo que seria uma tristeza, uma miséria, um cristão desejar ser discípulo de Cristo Jesus fugindo da cruz, comportando-se como inimigo da cruz do Senhor! Será o próprio Senhor ressuscitado quem recordará aos discípulos de Emaús que era necessário que o Cristo sofresse para que entrasse na glória; será o próprio Senhor quem mostrará que tudo isto fora anunciado na Lei e nos profetas, representados hoje por Moisés e Elias (cf. Lc 24,26-27). Quando, pois, a cruz – misteriosa cruz! – bater à porta de nossa vida, não pensemos que tudo é sem sentido, não duvidemos da presença e do amor do Senhor. Também ali, na nossa cruz, na nossa hora, ele está presente e nos convida a participar do seu sofrimento, que conduz à ressurreição! Não nos comportemos como inimigos da cruz de Cristo, buscando uma fé de comodismo, de falta de compromisso, de concessão ao pecado e ao relaxamento na vida espiritual! Na Quaresma o Senhor nos convida a tomarmos com ele nossa cruz, lutando contra o nosso pecado e nossos vícios para participarmos na sinceridade e na verdade da sua vitória pascal! (3) Pensemos nestes Moisés e Elias: como Abraão, que na primeira leitura aprendeu a crer mesmo na noite e na angústia, vigiando e esperando o Senhor, também esses dois que veem a glória de Cristo no Tabor, tiveram que caminhar na oração e no jejum para chegar a contemplar a glória de Deus: Moisés jejuou quarenta dia no cimo do Sinai antes de ver a glória do Senhor; Elias caminhou quarenta dias até o Horeb (que é o mesmo Sinai) para encontrar a Deus. E agora, esses dois, aparecem no brilho da glória de Jesus, o Deus perfeito, Santo de Israel! Eis a mensagem clara: como Abraão, que somente viu a glória de Deus no meio da noite depois da vigília e da provação, como Moisés e Elias, que somente viram o resplendor da glória do Senhor após o combate e a penitência, assim também nós, se quisermos de verdade ser inundados da glória pascal, devemos combater o combate quaresmal! Assim, caríssimos, vivamos conforme o que aprendemos dos Apóstolos e dos santos cristãos que nos precederam na fé! Vivamos como quem sabe que aqui estamos de passagem, a caminho: “somos cidadãos do céu. De lá aguardamos o nosso Salvador, o Senhor Jesus Cristo. Ele transformará o nosso corpo humilhado e o tornará semelhante ao seu corpo glorioso”, esse mesmo corpo de glória que hoje refulge no Tabor. Como nosso pai Abraão, combatamos na fé, na esperança, na obediência amorosa ao Senhor, para que no meio da noite de nossa vida, vejamos o fulgor do Senhor, que é fiel e não nos abandona jamais! Como hoje nos exorta São Paulo, “continuai firmes no Senhor”, pois ele é fiel, ele jamais nos deixará e, após o caminho desta vida dar-nos-á a graça incomparável de participar de sua glória eterna pelos séculos dos séculos. Amém.

dom Henrique Soares da Costa

 

A FÉ DE TOMÉ

Cristo ressuscitado é a razão de ser de nossa existência. Celebrar essa história é motivo de grande alegria para os cristãos.

O evangelho (Jo 20,19-31) inicia falando do primeiro dia da semana, isto é o Dia por excelência, pois foi o dia da Ressurreição do Senhor.

“Ao anoitecer daquele dia, o primeiro da semana” (Jo 20,19) Jesus veio confortar os amigos mais íntimos: A paz esteja convosco, disse-lhes. Depois mostrou-lhes as mãos e o lado. Nesta ocasião, Tomé não estava com os demais Apóstolos; não pôde, pois, ver o Senhor nem ouvir as suas palavras consoladoras.

Imagino os Apóstolos cheios de júbilo procurando Tomé para contar-lhe que tinham visto o Senhor! Mal o encontraram, disseram-lhe: Vimos o Senhor! Tomé continuava profundamente abalado com a crucifixão e a morte do Mestre; quer ver para crer! Acredito que os Apóstolos devem ter-lhe repetido, de mil maneiras diferentes, a mesma verdade que era agora a sua alegria e a sua certeza: Vimos o Senhor!

Hoje nós temos que fazer o mesmo! Para muitos homens e para muitas mulheres, é como se Cristo estivesse morto, porque pouco significa para eles e quase não conta nas suas vidas. A nossa fé em Cristo ressuscitado anima-nos a ir ao encontro dessas pessoas e a dizer-lhes de mil maneiras diferentes que Cristo vive, que estamos unidos a Ele pela fé e permanecemos com Ele todos os dias, que Ele orienta e dá sentido à nossa vida.

Desta maneira, cumprindo essa exigência da fé que é difundi-la com o exemplo e a palavra, contribuímos pessoalmente para a edificação da Igreja, como aqueles primeiros cristãos de que falam os Atos dos Apóstolos: “Cada vez mais aumentava o número dos homens e mulheres que acreditavam no Senhor” (At. 5,14).

Oito dias depois Jesus apareceu aos Apóstolos novamente e agora Tomé também estava; Jesus disse: “A paz esteja convosco. Depois disse a Tomé: Mete aqui o teu dedo e vê as minhas mãos…, não sejas incrédulo, mas fiel (Jo 20,26-27).

A resposta de Tomé  é um ato de fé, de adoração e de entrega sem limites: Meu Senhor e meu Deus! A fé do Apóstolo brota não tanto da evidência de Jesus, mas de uma dor imensa. O que o levou à adoração e ao retorno ao apostolado não são tanto as provas como o amor. Diz à  Tradição que o Apóstolo Tomé morreu mártir pela fé no seu Senhor; consumiu a vida a seu serviço.

As dúvidas de Tomé  viriam a servir para confirmar a fé dos que mais tarde haviam de crer n’Ele. Comenta São Gregório Magno: “Porventura pensais que foi um simples acaso que aquele discípulo escolhido estivesse ausente, e que depois, ao voltar, ouvisse relatar a aparição e, ao ouvir, duvidasse, e, duvidando, apalpasse, e, apalpando acreditasse? Não foi por acaso, mas por disposição divina que isso aconteceu. A divina clemência agiu de modo admirável quando este discípulo que duvidava tocou as feridas das carnes do seu Mestre, pois assim curava em nós as chagas da incredulidade… Foi assim, duvidando e tocando, que o discípulo se tornou testemunha da verdadeira ressurreição”.

Peçamos ao Senhor que aumente em nós a fé, pois se a nossa fé for firme, também haverá muitos que se apoiarão nela.

A virtude da fé  é a que nos dá a verdadeira dimensão dos acontecimentos e a que nos permite julgar retamente todas as coisas. Somente com a luz da fé e a meditação da palavra divina é que é  possível reconhecer Deus sempre e por toda a parte, esse Deus em quem vivemos e nos movemos e existimos (At. 17,28).

Meu Senhor e meu Deus! Estas palavras têm servido de jaculatória a muitos cristãos, e como ato de fé na presença real de Jesus Cristo na Eucaristia, quando se passa diante de um sacrário ou no momento da Consagração da Missa.

A Ressurreição do Senhor é um apelo para que manifestemos com a nossa vida que Ele vive. As obras do cristão devem ser fruto e manifestação de sua fé em Cristo. Hoje também o Senhor quer que o mundo, a rua, o trabalho, as famílias sejam veículo para a transmissão da fé.

A fé em Cristo era a força que congregava os primitivos cristãos numa coesão perfeita de sentimentos e de vida: “A multidão dos que abraçavam a fé tinha um só coração e uma só alma” (At. 4,32). Era uma fé tão arraigada que os levava a renunciarem, voluntariamente, aos próprios bens para colocá-los à disposição dos mais necessitados, considerados verdadeiramente irmãos em Cristo. É esta fé que hoje é tão escassa; para muitos que dizem ser crente, a fé não exerce influência alguma nos seus costumes nem na sua vida. Um cristianismo assim, não convence nem converte o mundo. É preciso voltar a acomodar a própria fé ao exemplo da Igreja primitiva; é preciso pedir a Deus uma fé profunda, pois que, no poder da fé, está a certeza da vitória dos cristãos. “Esta é a vitória que vence o mundo: a nossa fé! Quem é que vence o mundo senão Aquele que crê que Jesus é Filho de Deus?” (1 Jo 5,4-5).

mons. José Maria - www.presbiteros.com.br

 

“Como crianças recém-nascidas, desejai o puro leite espiritual para crescerdes na salvação, aleluia!”(cf. 1 Pd 2,2)

Este é o tempo que o Senhor fez para nós, alegremo-nos e Nele Exultemos!

Todos nós somos embaixadores do Cristo Ressuscitado! Assim, depois de termos refletido sobre os mistérios do Senhor, o Rei do Universo, é necessário que neste domingo volvemos nossos olhares para o que a igreja chamou de domingo da misericórdia divina!

A Misericórdia permeia toda a liturgia deste domingo. Numa cena que lembra a criação do mundo e parecida com a manhã de Pentecostes, João conta-nos como, na tarde de Páscoa, Jesus apareceu aos Apóstolos e enviou-os com a mesma missão salvadora com que ele fora enviado pelo Pai. João dá uma conotação teológica nova: o envio dos Apóstolos é relacionado ao envio de Jesus da parte do Pai. Fica claro que a Igreja é a continuadora da missão de Jesus. Não só o prolongamento do Corpo de Jesus ressuscitado, como a chamou São Paulo, mas também o prolongamento de sua voz e de sua graça. A Igreja não tem outra missão na terra a não ser a de continuar a obra de Jesus.

Essa doce missão evangelizadora da Igreja só pode cumprir na força do Espírito Santo. Fazendo uma comparação, diríamos que a Igreja é o carro que nos conduz ao porto feliz da eternidade, mas o motor é o Espírito Santo. Numa cena que recorda a criação do ser humano, Jesus sopra sobre os Apóstolos o Espírito Santo. É o Espírito Santo a grande testemunha, isto é, aquele que deve proclamar Cristo Ressuscitado, caminho, verdade e vida da humanidade redimida. Sem o Espírito Santo de Cristo, a Igreja seria instituição meramente humana.

A evangelização tem a meta da santidade. Todos nós temos que abandonar o pecado e voltar, depois de obtermos a graça santificante, a amizade com Deus. Caminho que exige fé e humildade.

A fé envolve o encantamento com o Ressuscitado: envolvem a inteligência, à vontade, os sentimentos. Temos que ter fé com o coração, porque é Feliz aquele que crê sem ver!

A primeira leitura desta Liturgia(cf. At. 5,12-16) nos fala da adesão incontável e numerosa de fiéis à comunidade. Vendo uma comunidade realmente fraterna, as pessoas começam a questionar. Que isso significa? Sobretudo, quando sinais prodigiosos acompanham esta comunidade. Sinais que devem conduzir a Jesus de Nazaré, cuja ressurreição a comunidade proclama, como podemos observar no salmo responsorial: “A pedra que os pedreiros rejeitaram tornou-se, agora, a pedra angular”(cf. Sl. 118).

Neste domingo, chamado “in albis”, ou seja das vestes brancas ou da Divina Misericórdia a liturgia acentua a nova existência do cristão, regenerado pelo batismo ou pela renovação das promessas batismais. O Evangelho de João(cf. Jo 20,19-31) apresenta a missão pelo Cristo Ressuscitado. A Ressurreição é a nova criação. Restabelece-se a paz. Novamente é dado o Espírito. O homem deve “tirar o pecado do mundo”, prolongando a missão de Cristo. A primeira geração teve o privilégio de ver e apalpar o ressuscitado, que inaugurou esta nova realidade. As gerações seguintes deverão crer por causa de seu testemunho.

Jesus aparece aos discípulos desejando-lhes a Paz. Em ambas as aparições estão trancadas as portas por medo dos judeus. Jesus supera as portas trancadas não só porque possui agora um corpo ressuscitado, mas também para dizer-nos que devemos superar o medo da perseguição, da incompreensão, da decepção e da morte. Por causa dessas e de outras razões, fechamo-nos em nossa casa e em nós mesmos. Todos temos experiência desse fechamento, que não é pascal, que não é cristão. Fechar-se é morrer. A presença de Jesus enche-nos de alegria. E abrimo-nos como flor de quintal. O cristianismo é abertura para os outros. É porta aberta para receber e ir ao encontro.

Jesus presente em nosso meio não nos deixa parados. Ele faz de nós seus braços, pés e coração. Ele reparte conosco sua missão salvadora. Sua presença de ressuscitado tem a força de recriar as criaturas. Observe-se quanta semelhança tem a cena da aparição de Jesus na tarde da Páscoa com a cena da criação do mundo. De fato, a Paixão e a Ressurreição de Jesus criaram uma nova humanidade, onde o Espírito Santo de Deus fez de cada discípulo de Jesus um continuador responsável da missão de Cristo.

Jesus reparte com os Apóstolos o poder de condenar e de salvar. Jesus envia seus apóstolos para a missão. Os apóstolos de ontem e de hoje somos todos nós, um povo sacerdotal pelo batismo. Por isso todos nós somos embaixadores de Cristo, e é em nome de Cristo que todos nós somos convidados a espargir o perdão, a misericórdia, a fraternidade, a paz, a justiça, o amor, tudo baseado na pessoa de Jesus Ressuscitado.

Jesus hoje nos fala da paz. Quanta paz falta no mundo? Quanta paz estamos precisando no exterior e no nosso próprio país. A paz é o centro principal da Páscoa! Cristo reintroduziu a harmonia entre o Criador e as criaturas. E é dessa paz que os Apóstolos devem encher-se para levá-la a todos os povos. Essa paz é a conseqüência do perdão dos pecados. Essa paz é a plenitude do Espírito de Deus entre as criaturas. Por isso Paulo podia escrever aos Efésios que Deus entre as criaturas.

Que nós não tenhamos a atitude de Tomé que disse que só acreditaria se tocasse nas chagas de Jesus. Tomé hoje sente Jesus ressuscitado pelo olho – viu – pelo ouvido – escutou – e pelo tato – tocou – em Jesus. Os principais sentidos humanos atestam a ressurreição de Jesus.

A Segunda Leitura (cf. Ap 1,9-11a.12-13.17-19) apresenta a maravilhosa visão da vocação do apocalíptico. O Filho do Homem por seu traje é caracterizado como sacerdote, rei e juiz. Era morto e vive. Dispõe de tempos e mundos: a última palavra sobre a História pertence a Ele. Referência especial ao “dia do Senhor”, o primeiro da semana, o domingo, dia da ressurreição. Como para o visionário, deve ser para cada cristão dia de encontro com o Ressuscitado.

A comunidade seja familiar, seja eclesial, é o lugar privilegiado da ressurreição de Cristo, porque é o lugar do amor. Agora não mais dos Atos dos Apóstolos, mas dos atos dos cristãos. Importante é que eles sejam colocados na vida para que os outros vejam e, vendo, creiam e tenham a vida eterna.

Assim hoje, no dia da misericórdia, podemos cantar a seqüência do dia pascal: “daí graças ao Senhor, porque Ele é bom! Eterna é a sua misericórdia! Este é o dia em que o Senhor fez para nós, alegremo-nos e nele exultemos! Amém!”

Daí graças ao Senhor por sua Misericórdia infinita que, mesmo diante das catástrofes, do sofrimento, da dor, da perda, da morte, da desolação, a última palavra é Cristo que nos convoca ao seu encontro, porque Jesus nos ensina que ele é o vivente, e não o morto. Que sejamos homens e mulheres iluminados pelo branco da santidade externa e interna para enxergamos em tudo a misericórdia do Deus que está no meio de nós!

padre Wagner Augusto Portugal