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A aliança do Sinai, constitutiva do povo do Primeiro Testamento, ganha, então, o caráter de um matrimônio. O período do deserto é o namoro e o noivado e, “no terceiro dia” (Ex 19,15 - 16), se realiza o casamento, a aliança. A 1ª leitura, retomando a metáfora do casamento, sugere como devemos entender o significado do evangelho hoje. Foi na “sua hora”, hora da morte, que Jesus realizou o novo casamento, a nova aliança não de mandamentos escritos na pedra, mas da lei do amor instaurada dentro de cada um (Jr 31,33). A nova lei não é feita de leis pétreas que devem ser observadas cegamente e podem virar rotina ou ritualismo vazio. A nova lei é uma força interior, como um vinho que embriaga e leva à ousadia do amor. A nova lei não é manter-se dentro dos trilhos dos mandamentos e rituais, mas deixar-se guiar pelo mandamento único, o amor celebrado na eucaristia. 1º leitura (Is. 62,1 - 15) A terceira parte do livro de Isaías ou Terceiro Isaías (capítulos 56-66) é do período da volta do cativeiro da Babilônia. A época foi de grandes desencontros, de grandes decepções e também de grandes esperanças. No capítulo que hoje lemos, o autor dá vazão a toda sua veia poética para falar da esperança. A cidade, Jerusalém ou Sião, significa o povo, a nação, menos que o lugar. A volta do cativeiro é a justiça que Deus lhe faz, a vitória, o triunfo. Agora ela terá um novo nome pronunciado por Javé e, quando o Senhor o pronuncia, faz-se nova realidade, o povo sofrido torna-se uma joia nas mãos de Deus. Jerusalém ainda estava em ruínas e sem moradores; agora, porém, é como a mulher abandonada que se casa novamente. Javé é apaixonado por ela, que já não é uma mulher sem nome, mas uma senhora. E o poema segue falando da esperança de restauração com a metáfora do casamento: Javé, o Senhor, é o esposo apaixonado e a nação, a cidade, é a esposa. A consequência é que a nação já não vai plantar trigo para alimentar os inimigos nem cultivar uvas para estranhos tomarem o vinho. Está chegando o momento, é preciso organizar o povo e abrir os caminhos. E, apontando para o significado do evangelho de hoje, o poema termina retomando a metáfora do casamento: “Serás chamada "querida", "Cidade não abandonada". Salmo 95 (96) O salmo convida as nações a cantar o louvor de Deus, que dá vitória ao seu povo. 2º leitura (1Cor. 12,4 - 11) As segundas leituras nos domingos do tempo comum não foram escolhidas, como as primeiras, em função dos evangelhos, mas propõem uma leitura contínua de textos de Paulo ou de outros escritos do Novo Testamento. O capítulo 12 da primeira carta aos Coríntios, que continuará no domingo próximo, aborda a questão do movimento carismático na comunidade de Corinto. No trecho de hoje, destaca principalmente a unidade na diversidade, para o bem comum. Corrigindo prováveis desvios dentro do movimento, Paulo lembra inicialmente o envolvimento da Santíssima Trindade na dinâmica dos dons. Quem distribui os dons é o Espírito Santo; quem organiza a comunidade, atribuindo as tarefas ou ministérios, é Jesus, o Senhor; quem faz tudo funcionar, dando forças para a ação, é o Pai. Depois insiste em que tudo deve convergir para o bem da comunidade e não servir para o espírito de competição e para a exaltação ou vaidade pessoal de uns ou de outros. E, para o bem da comunidade, tudo deve ser feito em ordem: se a um é dada a profecia, a outro deve ser dado o discernimento dos espíritos; se há o falar em línguas, haja o dom de interpretá-las, e assim por diante. Evangelho (Jo. 2,1 - 11) A 1ª leitura apontou o significado maior do que vamos ouvir no evangelho. Como a água que se muda em vinho, a primeira aliança, representada pela mãe de Jesus, transforma-se em nova aliança, a dos discípulos de Jesus. Os detalhes difíceis de explicar como históricos são indícios de que o relato tem sentido figurado. “No terceiro dia”: dois dias antes, Jesus estava onde João batizava, a mais de 150 quilômetros da Galileia. “A mãe de Jesus estava lá; Jesus, com os discípulos, é convidado”: além de chamar sua mãe de mulher, como se fosse a esposa, Jesus quer distância dela e alude à sua hora, a hora da cruz. E mais: a mãe de Jesus dá ordem aos que servem! Talhas de pedra, destinadas às abluções rituais, em número de seis, depositadas vazias numa casa particular! Os convidados (quantos?), já meio embriagados, terão mais seiscentos litros de vinho! O responsável pelo serviço da mesa chama o noivo para cobrar dele por que deixou o vinho melhor para o fim! É o princípio (não o primeiro) dos sinais (não milagres) de Jesus. Tentar justificar historicamente cada detalhe desses seria o mesmo que se empolgar com o pacote, sem se importar com o conteúdo. Ou, ao ver uma placa na estrada, examinar o modelo das letras ou se a placa é de latão, de madeira, de alumínio... O que interessa é o conteúdo, é ver os rumos que a placa indica. O Evangelho segundo João só fala em sinais de Jesus, nunca em milagres. E nele Jesus diz: “Vocês me procuram não porque viram sinais, mas porque puderam comer e matar a fome!” É preciso ver os sinais, o significado das figuras, o espírito. “A carne para nada serve” (Jo. 6,63)É o que vamos procurar ver agora. “Terceiro dia” lembra o dia da aliança do Sinai (Ex. 19,16). A palavra Caná, nas duas formas com que se pode escrevê-la em hebraico, significa conquistar, adquirir (frequentemente, “adquirir esposa”, casar) ou ciúme. Cananeus são os homens do comércio, e Deus é chamado também de “El Caná”, Deus ciumento. O evangelista não fala em Maria. “Mãe de Jesus” aí não é apenas ela, mas toda a parte fiel da primeira aliança, de onde veio Jesus. Ela estava lá porque representa a esposa fiel desse primeiro casamento entre Deus e o povo. Os discípulos de Jesus nem todos são filhos desse primeiro casamento, há alguns que não são judeus; por isso, com Jesus, são convidados. A esposa fiel da primeira aliança, a “mãe de Jesus”, será também esposa da nova aliança. Jesus é o esposo e por isso a chama de “mulher” aqui, como vai chamá-la de mulher na sua hora, na cruz. Jesus está apenas começando; é preciso manter certa distância da religião antiga, para que o caminho fique aberto para todos. Só na “hora”, na cruz, ele vai pedir que a mãe e o discípulo, os da primeira e os da segunda aliança, se acolham uns ao outros. “Os que estão servindo” são fiéis, a mãe de Jesus pode lhes dar ordens. As seis talhas: sete é o número da plenitude; “seis” indica que está faltando alguma coisa. As talhas são de pedra, como os mandamentos da primeira aliança foram escritos na pedra. No tempo de Jesus, porém, foram transformados em ritualismo vazio, em rituais de purificação que nada purificam. Enchendo as talhas até em cima (como encontrar 600 litros de água numa região tão ou mais seca do que o semi-árido nordestino não interessa), aquela água se transforma em vinho. A primeira aliança, levada à plenitude, passa a ser nova. A água se transforma em vinho que aquece e embriaga, dá força interior e ousadia para viver a nova lei, o amor. Os chefes atuais da religião antiga, reduzida à observância de cerimônias sem valor, não entendem, não sabem como isso pode ter acontecido; “os que servem”, os que obedecem à “mãe de Jesus”, estes, sim, sabem de onde veio aquele vinho tão bom. Quando o chefe do serviço convoca o noivo para chamar-lhe a atenção sobre a distribuição do vinho, o evangelista só falta dizer que o noivo é Jesus e que os chefes do judaísmo de então não o entenderam, não viram que Jesus trazia o vinho melhor, a lei interior, a capacidade de amar como ele amou, único mandamento da nova aliança. www.paulus.com.br |
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- com muita frequência, o casamento é, na Bíblia, sinônimo de aliança (1ª leitura). Na linguagem profética, ser infiel à aliança é a mesma coisa que ser adúltero, prostituir-se; - a aliança antiga caducou, não tem mais razão de existir: “Eles não têm mais vinho”. - o que sustentava a antiga aliança eram os ritos de purificação (as talhas para a purificação estão vazias). Os ritos de purificação não são mais condição para que as comunidades se tornem esposa do Cordeiro. - Jesus é aquele que inaugura a Nova Aliança, aquele que traz o vinho novo de ótima qualidade, em abundância. O vinho, por sua vez, é símbolo muito forte do amor. - o vinho que Jesus dá é de ótima qualidade, fazendo esquecer o antigo. - a abundância de vinho (mais de 600 litros) era o sinal da chegada do Messias, que vai trazer o amor definitivo. Chegou, portanto, a hora de Jesus, que se consumará na cruz, mostrar seu amor sem limites. - no episódio de Caná ignora-se a presença da noiva. É possível um casamento sem noiva? Onde, pois, está a noiva da Nova Aliança? A resposta a essa última pergunta pode ser encontrada no próprio texto deste domingo. É estranho que Jesus se dirija à sua mãe chamando-a “Mulher”. Isso nos leva a crer que “a mãe de Jesus”, no episódio de Caná, é símbolo dos que se conservaram fiéis a Deus, na expectativa da realização das promessas messiânicas. Representa aqueles que aguardam o novo, distanciando-se do antigo modo de encarar a relação Deus-humanidade. Jesus não veio remendar a aliança antiga, como se pudéssemos sobrepor uma à outra. O vinho novo não provém das talhas de pedra (que representam a antiga aliança), mas é transformado longe delas. Jesus é o que põe a graça no lugar da Lei. Supera, com isso, uma das mais antigas instituições para inaugurar um novo relacionamento entre Deus e a humanidade, baseado exclusivamente no amor gratuito. O episódio de Caná marca o início dos sinais de Jesus que têm como finalidade levar a nova humanidade à maturidade da fé e à posse da vida. Dentro do Evangelho de João, Caná é um episódio que encontra seu ponto alto na cruz, a Hora de Jesus, quando manifesta em sinais concretos o que significa a abundância do vinho novo. É lá que ele manifesta seu amor até as últimas consequências. Na segunda leitura, Paulo esclarece a questão dos carismas. Dava-se valor unicamente àqueles carismas extraordinários capazes de causar impacto nas pessoas: falar em línguas, profetizar, fazer curas e milagres. Para os coríntios, ter carisma era isso. Paulo mostra que na comunidade, cada um recebe uma manifestação do Espírito para o crescimento e o bem de todos. www.diocesedesaomateus.org.br |
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e cante louvores ao vosso nome, Deus altíssimo!”(Sl. 65,4). Vamos retomar a normalidade de nossa vida na ordinariedade da vida da Igreja de Cristo. Caminhando com Cristo rumo ao Pai somos convidados a confiar no poder de Jesus Cristo que leva Maria a pedir algo inusitado. A mesma certeza de que Jesus atenderá o pedido de Maria deve mobilizar os filhos e as filhas de Deus na busca do rosto sereno e radioso de Cristo. Pela fé e pela vida nos aproximamos de Jesus e do Pai e devemos, neste tempo comum, colocar nas suas redentoras impressões digitais os nossos pedidos, as nossas agruras, as nossas necessidades, as nossas alegrias, a doce esperança e alegria cristã. A esperança, a fé e a ação concreta andam sempre juntas e devem iluminar todo o novo tempo que estamos inaugurando com este domingo. A primeira leitura (cf. Is. 62,1 - 5) fala que depois do fim do Exílio, veio do difícil período da restauração. O povo pergunta se isso é a salvação. O profeta responde: “Esperança!” Não pode calar-se de anunciar, com nomes carinhosos, quanto Deus ama seu povo. É a renovação dos esponsais. A segunda leitura (cf. 1 Cor. 12,4 - 11) nos fala da diversidade de dons, mas um só Espírito. Trata-se do início de uma seqüência de leituras de 1 Cor. 12 - 15. Nestes capítulos nos é apresentado os carismas que são diversos, mas isso não pode causar divisão, pois têm a mesma fonte: a riqueza de Deus e o amor do Espírito, mandado pelo Filho por parte do Pai. Cada cristão está com seu dom específico: a serviço de toda a comunidade. Está inaugurado o tempo comum depois da celebração do Batismo do Senhor e o encerramento do tempo do Natal. O tempo comum é inaugurado pela reflexão do Evangelho (cf. Jo. 2,1 - 11) que nos apresenta a narrativa das Bodas de Caná. Ali Jesus iniciou a sua vida pública de maneira festiva, de maneira solene, num casamento, na celebração de bodas de amigos. O gesto de Caná demonstrado por são João quer significar que Jesus é o Verbo de Deus que contraiu com a natureza humana um casamento, um pacto nupcial. Entre Deus e o povo do Antigo Testamento, o povo israelita, existia um pacto, uma aliança, como se fosse um casamento. Mas Israel foi infiel e traiu a confiança de Deus. Por causa de presumidas vantagens materiais, correu atrás de Deuses dos povos pagãos. Este acontecimento é conhecido como prostituição. O resultado foi que Israel caiu nas mãos dos povos estrangeiros narrado pela primeira leitura e conhecido como Exílio. Os israelitas foram levados para o cativeiro na Babilônia, daí o Exílio da Babilônia. Entretanto, agora, o profeta anuncia, em nome de Deus, a salvação. Deus vai acolher de novo sua esposa fiel, proclama e ensina a primeira leitura (cf. Is. 62,1 - 5). O amor de Deus pela humanidade ao amor ao esposo, e a aliança entre Deus e as criaturas humanas como um amor esponsalício, amor dialogante, repleto de alegria de ambas as partes. O Evangelho de hoje anuncia a origem divina e missão de Nosso Senhor Jesus Cristo. Houve o casamento. Estiverem testemunhando este casamento Jesus, os discípulos e a Virgem Maria. Faltou vinho. Houve a transformação de água em vinho. Por detrás desses fatos há muito mais do que a realidade que eles contam. O vinho era considerado uma bebida de imortalidade, a bebida do amor divino, a expressão da força de Deus que penetra e inebria o coração dos viventes. A água sempre representou a matéria-prima da vida. Água que dá vida e que embala a vida de todos os homens. Vinho que significa a vida divina e água que significa a vida humana, a humanidade. Jesus ao transformar a água em vinho anuncia que dará ao homem a eternidade. Assim, depois que Jesus desposou a humanidade, introduziu-a no lugar de Cristo, porque “quem está em Cristo, é criatura nova” e “Cristo será tudo em todos” e todos formamos “um só Corpo em Cristo”. A água transformada em vinho encontrava-se em seis talhas de pedra, porque era a água reservada para as purificações legais, e os hebreus preferiam as de pedra às de terracota, porque essas nem sempre correspondiam às exigências legais da pureza. Jesus transformou 500 litros de água em vinho. Abundância para que? O tempo que Jesus inaugura é um tempo de abundância. Aquele que nasceu pobre numa gruta à beira da estrada e morreu nu pregado numa cruz trouxe para a humanidade graça sobre graça. Deus é sempre abundantemente; o homem é que estabelece limites, exatamente como acontece na vida prática. Deus cria os campos sem horizontes e o homem súbito lhes põe uma cerca. Jesus fala de hora e de glória no Evangelho de hoje. A hora de Jesus é a sua glorificação. E essa hora lhe foi fixada pelo Pai do céu: será o momento de sua morte na cruz. Assim João já prefigura que com a inauguração da vida pública de Jesus, manifestando o seu poder e a sua glória em Cana, Jesus tem ciência de que sua existência e sua missão era um caminho que ultimaria na paixão e na morte. Paixão e morte que se transformarão em ressurreição, em vida eterna, em salvação do mundo, em vitória da morte e anúncio da vida plena, da vida em abundância, em Glória eternal. Junto de Jesus está a sua Mãe que dá uma esplêndida manifestação do Poder e do Senhorio do Redentor: “Fazei tudo que Ele vos Disser!”. João estabelece um paralelo entre Eva e Maria, querendo dizer que, a partir do nascimento de Jesus, Eva foi substituída por Maria. Eva significa a mãe dos viventes. A cena da entrega de Maria a João como Mãe, quando do alto do madeiro da cruz, prestes a expiar o pecado de Adão e de Eva, o pecado original, Jesus recria o universo, para entregá-lo purificado ao Pai numa aliança eterna e definitiva. Na nova e eterna aliança anunciada por Jesus, Maria é a nova mãe de todos os que viverão pelo Cristo. Todos nós devemos contribuir de maneira diversa para formar o Corpo de Cristo. Todos agirão a partir da fé em Jesus Cristo, a exemplo de Maria, que disse aos serventes: “Fazei tudo o que ele vos disser!” Em cada Missa somos convidados a participar do banquete das bodas que Deus celebra com a humanidade, onde Jesus Cristo é ao mesmo tempo esposo e alimento e a comunidade cristã, esposa alimentada pela vida e o amor de Deus, onde todos nós queremos ascender ao apelo do episcopado brasileiro: Queremos ver Jesus, Caminho, Verdade e Vida. padre Wagner Augusto Portugal |
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RESTAURAÇÃO DE JERUSALÉM O trecho faz parte da composição unitária do profeta anônimo terceiro Isaías. O profeta incentiva a comunidade pós-exílica. Neste período, Jerusalém era uma cidade insignificante, pois Nabucodonosor a havia destruído, levando sua população para o cativeiro. Estamos nos anos 537-521 a.C. Jerusalém é considerada uma viúva desprezada por Javé. O país estava destruído, o que gerou desânimo no povo. Ele se perguntava: será que Deus abandonou o seu povo devido à infidelidade? O ambiente é o do retorno do exílio em 538 a.C., beneficiado pelo decreto de Ciro. Jerusalém estava destruída, não tinha muros nem templo. O profeta se apresenta como sentinela em seus muros, anunciando a volta do esposo com a mesma ansiedade com que a sentinela espera a aurora. Diz que Javé virá para fazer justiça aos que exploraram seu povo (v.1). Ele é comparado ao sol e sua volta vitoriosa com a aurora, e com ele chegará a justiça e a vitória (v.2). Jerusalém será como um diadema entre as mãos do Senhor (v.3). Ele se posicionará do lado dos fracos. Jerusalém brilhará como uma chama acesa. Javé é considerado como um jovem apaixonado que encontra prazer no amor de sua amada (Oséias 2,21). O profeta afirma assim sua fé inabalável em Javé. O profeta tem a admiração de todas as nações e reis. Emerge, assim, o tema da salvação universal (Isaías 2,2; 42,6; 49,6). A luz da cidade santa atrairá todos ao monte santo de Sião. Deus imporá um novo nome a Jerusalém, o que exprime um novo relacionamento de amor entre Deus e a cidade santa. O profeta não encontrou termo mais forte que o casamento entre Deus e o seu povo. 2º leitura: 1 Coríntios 12,4 - 11 DIVERSIDADE DOS DONS DO ESPÍRITO Nos capítulos 12 a 14 desta carta, Paulo aborda o tema das experiências carismáticas vividas pelos cristãos. Já no Antigo Testamento eram atribuídas ao Espírito de Deus manifestações poderosas como previsão do futuro, visões etc. Para o Novo Testamento, os profetas previam o espírito de Deus com seus dons presentes, entre os quais a mudança do coração dos homens (Ezequiel 36,26). Joel previu que o Espírito de Deus seria dado a todo o povo eleito (Joel 3,1; Atos dos Apóstolos 2,14 - 21). Pedro declarou que esta profecia se realizou no Pentecostes. Os próprios Atos dos Apóstolos manifestam a presença ativa do Espírito em diversas ocasiões, como na atividade dos apóstolos e colaboradores para o bem da comunidade. Nesta carta Paulo se empenha em esclarecer os cristãos para que não façam confusão entre certas experiências estáticas dos pagãos e os dons suscitados pelo Espírito de Cristo para a comunidade. Em nosso texto, Paulo fala que as experiências carismáticas não vêm de um poder oculto, mas têm o Espírito Santo como única fonte. Os carismas não são dados para a distinção de quem os recebe, para se isolar dos outros, mas para o bem da comunidade. Os dons não são méritos dos homens, porque todos vêm da mesma raiz e são dados para o mesmo fim. A comunidade de Corinto foi fundada na segunda viagem missionária de Paulo (Atos dos Apóstolos 18,1 - 10). Era formada por gente pobre e vinda do paganismo. Entre eles haviam sido eliminadas as barreiras de sexo e raça. Porém, existia o problema dos carismas, pois alguns só davam importância aos carismas que geravam impacto, como falar em línguas, curar, profetizar. Eram somente dons extraordinários, com o objetivo do enaltecimento. Em vista disto, Paulo os adverte que todos os carismas são importantes, porque vêm do Espírito Santo. Ensina que os carismas não são dons para que aquele que os recebeu se orgulhe, mas para serem colocados a serviço da comunidade. Corinto havia correspondido à altura à pregação de Paulo, que fez sua primeira experiência de evangelização entre os pagãos. Por isso, esta comunidade estava muito em seu coração: “A nossa carta são vocês, carta escrita em seus corações, conhecida por todos os homens e lida por eles” (2 Coríntios 3,2). Mas, apesar da fidelidade dos coríntios, eles ainda se achavam condicionados pela mentalidade pagã, que provocava desordens, sobretudo nas assembléias. As mulheres, para se auto-afirmarem, não colocavam o véu nas celebrações, que também eram profanadas pela falta de partilha dos alimentos com os pobres. Até os carismas, que deviam exprimir sua presença na comunidade como veículo de amor e união, eram usados individualmente para a busca de emoções espetaculares, ambições e egoísmo. Particularmente o carisma da glossolalia, ou seja, da oração estática, que se exprimia com sons inarticulados, gemidos e gritos. Era difícil avaliar se as pessoas eram movidas pelo impulso do Espírito Santo ou por efeito da exaltação, o que se verificava também entre os pagãos. Paulo ficou sabendo da situação incômoda e crítica dos coríntios através de cartas, que lhe pediam esclarecimentos sobre os carismas. Membros desta comunidade pensavam que o Espírito se manifestasse com dons extraordinários e quem não os possuísse não tinha o Espírito. Paulo explica que os carismas são muitos e todos os recebem na comunidade. Observa que os carismas são para o bem da comunidade e não para benefício pessoal (cap. 12). Exalta a caridade como dom acima de todos (cap. 13) e explica a hierarquia dos carismas. Exorta os coríntios dizendo que a única finalidade dos carismas é o bem de todos, e assim a vida de cada um que recebe os dons do Espírito Santo se torna uma transferência do dinamismo interior do Espírito, que age profundamente em cada membro do corpo místico de Cristo. Depois de mostrar a unidade dos carismas, Paulo dá uma lista deles para mostrar sua variedade e diversidade. Inicia com os dons. Dá ao cristão um conhecimento mais alto das verdades divinas (sabedoria) e também o mais ordinário (ciência), sempre para o bem comum. Evangelho: João 2,1 - 12 BODAS EM CANÁ DA GALILÉIA, COM A PRESENÇA DE JESUS E MARIA As bodas de Caná são o primeiro sinal com que Jesus revelou-se. Ele inaugura a nova Aliança trazendo o vinho novo. Os cinco primeiros discípulos não haviam entendido a sua verdadeira identidade. O diálogo com Natanael se conclui com a afirmação: “Verei o céu aberto e o Filho do Homem...” (João 1,51). O milagre de Caná manifestou sua verdadeira glória e teve para os discípulos o valor de uma autêntica Epifania. Este milagre relatado por João não tem semelhante nos sinóticos. São João declara com estas palavras o principal valor teológico deste milagre: “Manifestou a sua glória e os discípulos creram nele”. Com este milagre abriu-se na terra a história da salvação e foi proclamado o início do cumprimento da salvação. O outro motivo teológico proclamado neste acontecimento é que daquele momento em diante Jesus era o único caminho da salvação. A quantidade de seiscentos litros de vinho oferecidos indica a superioridade do caminho da salvação em comparação com o Antigo Testamento. Este evento ocorreu três dias depois do encontro de Jesus com Natanael em Caná, localidade próxima de Nazaré (6 km). O vinho era elemento indispensável numa festa. Neste acontecimento, Jesus (elemento cristológico) e Maria (elemento mariológico) são figuras centrais e Maria tem sua parte na cena. Como intercessora ela apressa o milagre. Este é um exemplo da solicitude maternal de Maria, que se mostra sensível às necessidades do próximo. Com as seis talhas usadas para abluções rituais, Jesus transformou a água em vinho, indicando a superação do ritualismo judaico, exigente e hipócrita. A abundância do vinho faz alusão ao cumprimento das profecias dos bens escatológicos previstos para a vinda do Messias. REFLEXÃO As bodas são uma espécie de ícone, de símbolo, para entender a realidade do Deus de Abraão. A imagem do casamento expressa a verdadeira realidade do Deus verdadeiro e misericordioso. Por isso, no AT os profetas manifestavam os sentimentos íntimos de Deus com palavras de um namorado à namorada (1ª leitura). Com a vinda de Jesus foi inaugurada uma nova fase para a humanidade. A nova Jerusalém, depois da conquista de Davi pelo ano 1000 a.C., tornou-se capital do reino de Judá, centro religioso e político do povo eleito, embora durante alguns séculos tenha tido a concorrência da Samaria, capital do reino do Norte, depois destruída em 721 a.C. Toda a história da salvação gira ao redor de Jerusalém, porque Deus a escolheu para morar nela. Os profetas a negam e ameaçam, mas também a celebram e exaltam como esposa de Javé. Mesmo que seja abandonada por um tempo, é retomada mais tarde com imenso amor (Isaías 54,7). Jerusalém é idealizada para exprimir a intensidade do amor de Deus por seu povo. Seu processo de espiritualização chegou ao ponto mais alto com Paulo e João no Apocalipse, onde ela é identificada com a Igreja (Gálatas 4,24 - 26). Jerusalém é muito importante na tradição hebraica: “Dez partes da beleza foram dadas pelo Criador e Jerusalém recebeu nove. Dez partes da sabedoria foram concedidas ao mundo pelo Criador e Jerusalém recebeu nove. Dez partes de sofrimento foram concedidas ao mundo pelo Criador e Jerusalém recebeu nove” (Talmude). Jerusalém está no centro do destino de Israel, por causa da Aliança com Javé. Jesus estava iniciando seu ministério público e Maria, que sabia que ele era o Messias, pediu-lhe sem exigir, expondo uma necessidade. Parecia que Jesus não ia atendê-la, porém Maria se comportou como se tivesse sido atendida e pediu aos servos: “Façam tudo o que ele lhes mandar” (João 2,5). E o milagre aconteceu por causa de sua intercessão. As petições aos santos são de serviço. As de Maria são de Mãe, daí a sua eficácia. Maria é suplicante onipotente porque o seu filho é Deus e não pode negar-lhe nada. Se ela conseguiu do seu Filho o vinho, que não era tão importante, não haverá de nos socorrer em nossas necessidades? A leitura do Evangelho relata uma boda celebrada em Caná da Galiléia, onde focaliza como personagens principais não os noivos, mas Jesus e Maria, podemos dizer há neste relato um nível cristológico e mariológico. A celebração deste domingo continua mostrando a manifestação de Jesus ao mundo: Epifania, Batismo e boda de Caná. No contexto do milagre de Caná manifesta-se a glória de Jesus (v.11), é a auto-manifestação de Jesus e ao mesmo tempo anúncio do banquete Messiânico do Reino de Deus. Neste acontecimento houve a decisiva participação de Maria que com sua solicitude material mostra-se sensível à necessidade dos noivos e com isso, demonstra seu poder de intercessão junto a seu Filho que “Por sua maternal caridade cuida dos irmãos do seu Filho, que ainda peregrinam rodeados de perigo e dificuldades, até que sejam conduzidos à feliz pátria” (Lumen Gentium 62). Maria esteve na boda de Caná, assim como Jesus, certamente porque havia uma amizade ou um parentesco com os noivos. Nesta ocasião era costume as mulheres prepararem tudo para a festa. No decorrer da festa, certamente pelo aumento de número dos convidados veio faltar vinho e Maria sabedora do que seu Filho era o Messias, intercede junto a ele: “Não têm vinho”. Jesus dá-lhe uma resposta evasiva, parecendo que Ele não iria atender ao pedido de sua Mãe, entretanto ela sabe no seu coração que será atendida e diz aos servos: “Fazei tudo o que Ele vos disser”. Maria é Mãe atentíssima a todas as necessidades. Porque o pedido de mãe tem diante de Deus tanta eficácia? Porque suas orações são de mãe, dai sua eficácia e autoridade. A piedade cristã chamou Maria de Onipotência Suplicante porque seu Filho é Deus e nada lhe pode negar. Portanto, não devemos implorar-lhe com confiança, sabendo que ela nos conseguirá o que mais nos é necessário? Maria é Mediadora entre nós e Deus não como uma estranha, mas na posição de Mãe, consciente de que como tal pode, tem direito de tornar presentes ao Filho as necessidades de seus filhos. Jesus podia ter realizado o milagre com as talhas vazias, mas não ele as quis até à borda “usque ad summum” porque quis que cooperemos com nossos esforços e com os meios que temos ao alcance. Os comentaristas calculam que Jesus converteu em vinho uma quantidade que oscila entre 480 a 720 litros, de acordo com as capacidades das seis talhas de pedra. Aqui fica clara a abundância do dom, da mesma forma ficou clara a quantidade do dom na multiplicação dos pães. O milagre em Caná serviu para os discípulos darem um passo à frente na sua fé incipiente e assim Jesus confirmou-os na fé. Por fim o evangelista deixa-nos uma pérola de conselho saída da boca de Maria: “Fazei o que Ele vos disser”. padre José Antonio Bertolin, OSJ |
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Teria Deus abandonado sua esposa Jerusalém por causa da infidelidade do seu povo? Teria Deus anulado a aliança feita outrora com Judá? O abandono total em que Jerusalém estava no pós-exílio suscitava essas perguntas. Mas a resposta é não. Javé não abandonou Jerusalém. O profeta anônimo (o 3º Isaías) vai levantar o moral do povo. Nosso texto, de fato, é visto como um poema nupcial. Javé vai voltar. Ele saiu apenas para executar a justiça contra os que exploram seu povo. Ele não vai se calar, nem terá sossego, enquanto a justiça de Jerusalém não brilhar como a aurora, e a salvação dela como um farol (v. 1). Reis e nações verão sua justiça e sua glória (v. 2). Todos alertarão que Javé está do lado dos sofredores e oprimidos. Com um amor e zelo de esposa, Jerusalém será uma coroa magnífica, um diadema real na mão do seu Deus (v. 3). Essas figuras poéticas traduzem a aparência de Jerusalém vista de longe. Seu nome será trocado de “desolada” e “abandonada” para “minha delícia” e “desposada”. Estamos diante de expressões nupciais carregadas de afeto e ternura, pois o amor de Javé é grande para com o seu povo (v. 4). O v. 5 aponta para as delícias da vida a dois, a doação mútua numa lua de mel para mostrar que o perdão de Javé para o seu povo é total e seu amor não perdeu o entusiasmo e o encanto do primeiro amor. Javé está apaixonado por Jerusalém e fará dela o seu encanto diário diante de todas as nações. Nosso relacionamento para com Deus carrega esta sensibilidade do amor de Deus para conosco? 2a leitura – 1 Cor 12,4 - 11 Um dos inúmeros problemas da comunidade de Corinto era a questão dos carismas. A comunidade estava valorizando unicamente os carismas vistosos, que causavam impacto como falar em línguas, profetizar, fazer milagres. O importante para muitos da comunidade estava sendo “aparecer” com seus dons extraordinários. Em 14,23 percebemos que havia um tumulto na assembléia, todos querendo falar em línguas ao mesmo tempo. O apóstolo fez uma crítica severa dizendo que alguém de fora poderia achar que o grupo estava louco. Estamos diante de um reducionismo dos dons do Espírito, pois o Espírito é muito maior do que estes simples carismas e seus dons são incontáveis e ninguém pode limitar o Espírito de Deus. O Espírito distribui seus dons conforme sua própria vontade (v. 11) sem discriminação nem privilégios. Os vv. 4 - 6 dizem que o Espírito é o mesmo diante da diversidade dos dons, o Senhor é o mesmo diante da diversidade dos serviços, o Deus é o mesmo diante dos diferentes modos de agir. Aqui está afirmado que a fonte de tudo é a Trindade-Comunhão. Sem comunhão entre si e comunhão com a Igreja, o grupo carismático é uma mentira religiosa, um contra testemunho do Espírito. O elenco dos carismas é apresentado nos vv. 8 - 10 e a origem de todos é o mesmo Espírito. O v. 7 salienta a finalidade dos carismas: não é para aparecer mas para utilidade (edificação cf. 14,5.12) de todos. Por fim devemos observar que os carismas mais ambicionados pela comunidade são colocados em último lugar: a profecia no penúltimo e o dom das línguas em último, como mais insignificantes. Os grupos carismáticos de hoje também precisam saber disso para não repetirem o erro dos corintos que estavam se agarrando ao periférico, no secundário em detrimento do mais essencial. Além disso, esses dois dons, estão submetidos a outros dois carismas de controle: o discernimento dos espíritos para testar a autenticidade da profecia e o carisma da interpretação para que os dons das línguas não seja balbucio inútil, mas sim edificação para a comunidade. EVANGELHO – Jo 2,1 - 11 Este episódio é muito rico e carregado de simbolismo. Jesus está substituindo a antiga aliança por uma nova aliança. O relacionamento entre Deus e o povo de Israel era visto pelos profetas em termos de aliança matrimonial. Vamos fazer um rápido comentário. No 3º dia – expressão técnica que lembra a ressurreição de Jesus. Equivale ao 6o dia da criação, onde o homem é criado. Com sua ressurreição Jesus refaz a criação (cf. Jo 20,22) para celebrar, não mais no sábado mas nos domingos, (cf. Jo 20,19), a festa da nova e eterna aliança de Deus com os homens. “A mãe de Jesus estava lá”. O v. 6 diz que estavam lá também seis potes de pedra, representando a antiga aliança (dada em tábuas de pedra – os 10 mandamentos). A mãe de Jesus, portanto, simboliza o Antigo Israel fiel a Deus. De onde vem este simbolismo que a mãe de Jesus representava o Antigo Israel fiel? Vem do paralelismo entre as duas expressões estava lá (para a mãe de Jesus) e estavam lá (para os potes de pedra). Ela pertencia aquele povo da antiga aliança, mas era o resto fiel que vai gerar a Nova Aliança em Jesus Cristo. Enquanto a mãe de Jesus estava lá, Jesus e os discípulos que representam a Nova Aliança foram convidados. “Faltou vinho” e a mãe de Jesus constata isso diante de Jesus. A falta de vinho significa que a Antiga Aliança estava chegando ao fim, estava sem sentido, não produzia mais alegria. Vamos perceber no v. 6 que os potes de pedra que serviam para os ritos de purificação também estavam vazios. Eles simbolizam a Aliança do Sinai feita em tábuas de pedra. Mas tudo agora é um vazio. O v. 4, onde Jesus chama sua mãe de “mulher” mostra mais uma vez o caráter simbólico representativo da mãe de Jesus (cf. Jo 19,26). Jesus mostra a sua mãe que a Antiga Aliança não tem mais razão de ser. Ele vai inaugurar uma Nova Aliança, quando chegar a sua hora. A hora de Jesus se manifesta plenamente no momento da sua morte. Ali também sua glória e a glória do Pai serão plenamente manifestadas. A mãe de Jesus entende que o filho vai antecipar sua hora. Então ela dá uma ordem aos que estavam servindo. A ordem é fazer o que Jesus mandar. Os serventes simbolizam os discípulos de Jesus, os convidados da Nova Aliança, aqueles que fazem a vontade de Jesus. A ordem de Jesus é encher de água os potes vazios e os serventes a cumprem com precisão. Depois, Jesus manda tirar a água e levar ao mestre-sala. Aqui está a maravilha: a água levada é transformada em vinho de ótima qualidade. Interessante! O milagre acontece fora dos potes (cf. v. 9). Isto significa que Jesus não vai remendar a Aliança Antiga, mas substituí-la. Ele traz uma aliança Nova em seu sangue. O vinho simboliza o sangue que será derramado na cruz, onde a Aliança Nova será consumada. Jesus substitui a Lei, dada por Moisés, pelo amor misericordioso, pela graça que ele mesmo traz. (cf. 1,17). Para os profetas, quando viesse o Messias, haveria abundância de vinho. As seis talhas equivaliam mais ou menos a uns 600 litros de vinho. Isto significa que o Messias chegou mesmo, na pessoa de Jesus. Jesus é o esposo da Nova Aliança, do novo povo de Deus. O mestre-sala representa os dirigentes do povo. Percebemos como eles estavam por fora da situação do povo. Eles não cuidavam mais das necessidades do povo. O povo estava carente e abandonado. Mais uma vez lembramos o fim da Aliança Antiga. Jesus começa assim seus sinais. O sinal maior do seu amor misericordioso será a morte na cruz (cf. 15,13). Aqui ele começa a manifestar a sua glória. Na cruz ele manifestará a plenitude da sua glória, atraindo muitos a si. dom Emanuel Messias de Oliveira |
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A primeira leitura define o amor de Deus como um amor inquebrável e eterno, que continuamente renova a relação e transforma a esposa, sejam quais forem as suas falhas passadas. Nesse amor nunca desmentido, reside a alegria de Deus. O Evangelho apresenta, no contexto de um casamento (cenário da “aliança”), um “sinal” que aponta para o essencial do “programa” de Jesus: apresentar aos homens o Pai que os ama, e que com o seu amor os convoca para a alegria e a felicidade plenas. Para São João, os “milagres” são sempre “sinais” que nos reenviam para além da materialidade dos fatos. Será bom olhar com mais atenção esta água mudada em vinho. A água é um elemento vital. Mas é, antes de mais, um elemento ordinário e bruto. A água encontra-se na natureza, não precisa de ser fabricada. O vinho é fruto da vinha, mas também do trabalho do homem, como dizemos na Eucaristia. Jesus manda encher as talhas de água, a água que é símbolo da nossa vida ordinária, de todos os dias. Jesus toma esta água ordinária para a transformar. Não com uma varinha mágica, mas com a força do Espírito Santo, com a força do amor. É porque este vinho é melhor que o vinho dos homens… Por este “sinal”, Jesus quer vir ter conosco na nossa vida ordinária, para aí colocar a sua presença de amor, o amor do Pai, o Espírito Santo. O episódio narrado é, pois, uma ação simbólica que aponta para algo mais importante do que o próprio fenômeno concreto descrito. Que realidade é essa? O cenário de fundo é o de um casamento. Ora, o cenário das bodas ou do noivado é (como vimos na primeira leitura) um quadro onde se reflete a relação de amor entre Jahwéh e o seu Povo. Dito de outra forma, estamos no contexto da “aliança” entre Israel e o seu Deus. A essa “aliança” vem, em certa altura, a faltar o vinho. O “vinho”, elemento indispensável na “boda”, é símbolo do amor entre o esposo e a esposa (cf. Cant. 1,2;4,10;7,10;8,2. Recordar, a propósito, como Isaías compara a “aliança” com uma vinha plantada pelo Senhor, que não produziu frutos – cf. Is. 5,1 - 7), bem como da alegria e da festa (cf. Sir. 40,20; Qoh. 10,19). Constata-se, portanto, a realidade da antiga “aliança”: tornou-se uma relação seca, sem alegria, sem amor e sem festa, que já não potencia o encontro amoroso entre Israel e o seu Deus. Esta realidade de uma “aliança” estéril e falida é representada pelas “seis talhas de pedra destinadas à purificação dos judeus”. O número seis evoca a imperfeição, o incompleto; a “pedra” evoca as tábuas de pedra da Lei do Sinai e os corações de pedra de que falava o profeta Ezequiel (cf. Ez. 36,26); a referência à “purificação” evoca os ritos e exigências da antiga Lei que revelavam um Deus susceptível, zeloso, impositivo, que guarda distâncias: ora, um Deus assim pode-se temer, mas não amar… As talhas estão “vazias”, porque todo este aparato era inútil e ineficaz: não servia para aproximar o homem de Deus, mas sim para o afastar desse Deus difícil e distante. Detenhamo-nos, agora, nas personagens apresentadas. Temos, em primeiro lugar, a “mãe”: ela “estava lá”, como se pertencesse à boda; por outro lado, é ela que se apercebe do intolerável da situação (“não têm vinho”): representa o Israel fiel, que já se tinha apercebido da realidade e que esperava que o Messias pusesse cobro à situação. Temos, depois, o “chefe de mesa”: representa os dirigentes judeus, instalados comodamente, que não se apercebem – ou não estão interessados em entender – que a antiga “aliança” caducou. Os “serventes” são os que colaboram com o Messias, que estão dispostos a fazer tudo “o que Ele disser” (cf. Ex. 19,8) para que a “aliança” seja revitalizada. Temos, finalmente, Jesus: é a Ele que o Israel fiel (a “mulher”/mãe) se dirige no sentido de dar nova vida a essa “aliança” caduca; mas o Messias anuncia que é preciso deixar cair essa “aliança” onde falta o vinho do amor (“que temos nós com isso?”). A obra de Jesus não será preservar as instituições antigas, mas apresentar uma radical novidade… Isso acontecerá quando chegar a “Hora” (a “Hora” é, em João, o momento da morte na cruz, quando Jesus derramar sobre a humanidade essa lição do amor total de Deus). O episódio das “bodas de Caná” anuncia, portanto, o programa de Jesus: trazer à relação entre Deus e os homens o vinho da alegria, do amor e da festa. Este programa – que Jesus vai cumprir paulatinamente ao longo de toda a sua vida – realizar-se-á em plenitude no momento da “Hora” – da doação total por amor. A segunda leitura fala dos “carismas” – dons, através dos quais continua a manifestar-se o amor de Deus. Como sinais do amor de Deus, eles destinam-se ao bem de todos; não podem servir para uso exclusivo de alguns, mas têm de ser postos ao serviço de todos com simplicidade. É essencial que na comunidade cristã se manifeste, apesar da diversidade de membros e de carismas, o amor que une o Pai, o Filho e o Espírito Santo. pe. Joaquim Garrido - pe. Manuel Barbosa - pe. Ornelas Carvalho |
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Comecemos por observar que o evangelho narra uma festa de casamento e não informa nada sobre o nome dos noivos... É de caso pensado! O evangelista tomou um fato histórico e deu-lhe um sentido espiritual e teológico: o verdadeiro noivo é o Cristo, Deus em pessoa que vêm desposar sua esposa, o povo de Israel e, mais precisamente, o novo Israel, a Igreja, representada pela Mulher – a Virgem Maria! Tudo, na perícope do evangelho, fala disso: porque o Messias-Esposo chegou, a água da antiga Aliança (água da purificação segundo os ritos judaicos da lei de Moisés) é transformada no vinho da Nova Aliança (o vinho, símbolo da alegria e da exultação do Espírito Santo, que é fruto da morte e ressurreição do Senhor). É esta a glória que Jesus manifestou, é este o sinal! “Sinal” não é um simples milagre; “sinal” é um gesto do Senhor Jesus, carregado de sentido profundo, que revela sua pessoa, sua missão e sua obra de salvação. “Este foi o princípio dos sinais de Jesus... e seus discípulos creram nele”. Na verdade, o sinal da Caná, é uma preparação uma antecipação da Páscoa, quando o Cristo, Esposo ressuscitado, desposará para sempre a Igreja, dando-lhe como dote eterno, o dom do Espírito: “Alegremo-nos e exultemos, demos glória a Deus, porque estão para realizar-se as núpcias do Cordeiro, e sua Esposa já está pronta: concederam-lhe vestir-se com linho puro, resplandecente” (Ap. 19,7s). Por isso, a exultação da primeira leitura de hoje. Saudando o povo de Deus, o novo Israel, a Igreja-Esposa, o profeta afirma: “As nações verão a tua justiça; serás chamada por um nome novo, que a boca do Senhor há de designar. E serás uma coroa de glória na mão do Senhor, um diadema real na mão de teu Deus. Não mais te chamarão abandonada, e tua terra não mais será chamada Deserta; teu nome será Minha Predileta e tua terra será Bem-Casada, pois o Senhor agradou-se de ti e tua terra será desposada. Assim como o jovem desposa a donzela, assim teus filhos te desposam; e como a noiva é a alegria do noivo, assim também tu és a alegria do teu Deus”. Maria, a Virgem-Mulher do evangelho de hoje é, pois, imagem viva da Igreja-Esposa, desposada na Nova e Eterna Aliança! Esta Aliança não é mais aquela de Moisés. A antiga Lei passou; passaram os antigos preceitos, as antigas observâncias, as coisas antigas! Não esqueçamos o prólogo de João, tantas vezes ouvido no Natal: “A Lei foi dada por Moisés; a graça e a verdade nos vieram por Jesus Cristo” (Jo. 1,17) Esta Nova Aliança não se funda em uma lei de preceitos escritos, mas na Nova Lei, que é o Espírito de amor, derramado nos nossos corações. O Espírito que o Cristo derramou sobre nós com a sua morte e ressurreição é a alma, a lei, a vida da Igreja-Esposa, novo Israel, novo povo de Deus. Por isso, a segunda leitura da Missa de hoje nos apresenta toda a vida da Igreja, tão rica e dinâmica, como sendo fruto da ação animadora e sustentadora do Espírito Santo: “A cada um de nós é dada a manifestação do Espírito em vista do bem comum”, isto é, em vista da edificação da Igreja, Corpo e Esposa de Cristo! O que nos fica da liturgia da Palavra de hoje? A gratidão ao Cristo por ter vindo, por ter manifestado sua glória em nosso mundo tão pobre e na nossa vida tão ameaçada pelas trevas. Fica também essa consciência que somos o povo de Deus da Nova Aliança, povo nascido da encarnação, da morte e da ressurreição de Cristo; povo nascido na força do Espírito Santo que ele nos concedeu. Fica ainda a certeza que ele permanece conosco, alimentando e construindo sua Igreja-Esposa na força do Espírito Santo. Esta Igreja é a una e santa nossa mãe católica. Ela foi eternamente desejada, escolhida, amada pelo Esposo Jesus; ela foi desposada quando ele se fez homem e por ela morreu e ressuscitou! Lembremo-nos das palavras do Apóstolo: “Cristo amou a Igreja e se entregou por ela, a fim de purificá-la, com o banho da água e santificá-la pela Palavra, para apresentar a si mesmo a Igreja, gloriosa, sem mancha nem ruga, ou coisa semelhante, mas santa e irrepreensível” (Ef. 5,25 - 27). Por isso a Igreja será sempre Esposa, será sempre bela, sem mancha nem ruga, será sempre santa, apesar dos pecados de seus membros! Ela é a Amada, a Escolhida... a ornada com o a jóia do Espírito Santo! Se formos fiéis a esse Espírito, vinho novo do Reino de Deus, seremos pessoas novas na nossa vida: novos sentimentos, novo modo de ver e de agir, de sentir e de enfrentar as situações da vida. Nem os fracassos, nem as tristezas, nem as lágrimas, nem mesmo a morte poderão nos tirar a alegria e a certeza de viver! Fica também a certeza certíssima, de que como Igreja, como Comunidade dos discípulos de Cristo, o Espírito nos vivifica, nos guia, nos une e nos conduz sempre. Não temamos, não sejamos frios, não sejamos frouxos! O Cristo que habitou entre nós, conosco continua na potência do seu Espírito Santo. Se formos fiéis à sua ação, nossa Comunidade será viva, os carismas e ministérios serão abundantes, a alegria de ser e viver como Comunidade não faltará, o nosso testemunho de Jesus Cristo será entusiasmado e convincente e a nossa esperança será inabalável, mesmo diante das dificuldades do mundo e da vida... mesmo diante da morte! O Senhor manifestou a sua glória e seus discípulos creram nele! O Senhor se manifesta agora, pela sua Palavra e pela sua Eucaristia, e nos reúne na força amorosa do Espírito Santo! Creiamos! E que nossa eucaristia seja toda ungida, toda doçura, toda renovação da nossa vida em Cristo: “Felizes aqueles que foram convidados para o banquete das núpcias do Cordeiro” (Ap. 19,9). Felizes somos nós, que vivemos em Cristo, ele que é bendito pelos séculos dos séculos. dom Henrique Soares da Costa |
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Tudo isso foi possível através de uma intervenção de Nossa Senhora. Às vezes, podemos pensar que ela teria sentido a tentação de se lamentar um pouco com a saída do Filho, mas que por virtude teria oferecido isso a Deus com paz. Mas João mostra-nos outra coisa. Ela mesma fomenta a manifestação do Filho único ao mundo. Mas não terá sido duro para ver-se privada de repente da companhia do Senhor? No entanto é precisamente aceitando com amor a ausência do Filho que ele pode tornar-se mais presente, ou melhor, presente a um nível mais profundo e decisivo. Mas voltemos à frase já mencionada de São João, que nos mostra o que se conseguiu através da intervenção de Maria em Caná: “Jesus deu início aos seus milagres, manifestou a sua glória e os discípulos acreditaram n’Ele”. Pessoalmente acho que, aqui, nesta última frase tão inspirada, está explicado, de forma condensada, como Maria ajuda o Senhor a estar presente na vida de cada um de nós. “Se quiserdes ver milagres”, dizia D. Bosco, rezai a Maria. Sim, por ela, a potência transformadora de Deus irrompe nas nossas vidas com força. Quem contempla a vida do Senhor, através do rosário, por exemplo, conhecerá a glória de Cristo e as tentações “baratas” do mundo perderão poder sobre ele. E por fim, Maria leva-nos à fé, porque ela mesma a praticou, de forma extraordinária, acompanhando o filho. Maria, de fato, se repararmos bem, está presente nos momentos mais marcantes da salvação realizada por Jesus. Por isso, talvez ela torna a salvação mais acessível para todos nós. Obviamente não pôde não estar presente no momento da Encarnação, que se realizou no seu seio, e no do nascimento do Salvador. Mas também está ao seu lado no início da vida pública em Caná, está ao pé da cruz e finalmente em Pentecostes, onde se derrama sobre a Igreja o Espírito Santo, que torna o Senhor mais plenamente presente nos corações dos apóstolos. Vemos, assim, quão ligada está Ela ao Mistério do seu Filho. Voltemos às bodas de Caná, para descobrirmos um pouco mais o que nos pode ensinar São João sobre Jesus e Maria. A um determinado momento, falta o vinho. Poucos ou ninguém, talvez, reparou. Mas Maria está atenta e atua com discrição. Penso que isso terá sido uma constante na vida de Nossa Senhora. Amou e resolveu muitas coisas nas vidas dos homens, mas atuando na sombra. Então, ela avisa o Filho: “não têm vinho”. Como se ela esperasse que Ele resolvesse milagrosamente a situação. Mas como podia ela esperar tal coisa, se Jesus ainda não começou os milagres? Há aqui um mistério de penetração do coração do seu Filho que não podemos compreender bem, algo que talvez só uma mãe pode entender adequadamente. O fato é que ela recebe do Filho uma aparente negativa: “Mulher, que temos nós com isso? Ainda não chegou a minha hora”. Mas, outra vez, apesar das aparências, Maria acerta. No seu lugar, muitos teriam desistido. No entanto, ela sabe que, as vezes, um “não” de Deus, pode ser, no fundo, um “sim”. Com efeito, Deus pode pôr obstáculos, para que a fé do fiel se manifeste mais plenamente. E através da fé, o seu amor. Porque, na fé, há já muito amor. Com efeito, ter fé é crer no amor de Deus, acolhendo-o no coração. Quando a vida fica escura e Deus parece estar longe, a fé tem de ultrapassar-se a si mesma, tem de crer apesar de tudo e de todos que Deus é amor. É assim que, pouco a pouco, de prova em prova, a fé se vai tornando o centro da vida e, com ela, o amor. Cristo faz o milagre, não sem ajuda dos criados, e a festa das bodas pode continuar. Mas agora podemos perguntar-nos: “Porque quis o Evangelista relatar-nos o modo como Jesus ajudou as pessoas a beberem até à saciedade numa festa? Não haveria milagres mais significativos que esse? Além disso, é este o primeiro milagre de Jesus, não deveria de algum modo resumir tudo o que Cristo vai obrar? Não esperávamos algo mais significativo? Parece-me que não. Penso até que esse primeiro milagre resume precisamente, de forma simbólica e magistral, tudo aquilo que Cristo fez e faz por nós. E também aqui aparece a colossal importância de Maria e de sua intercessão na obra da salvação. Estas bodas não são outra coisa que o símbolo do “matrimônio” entre Deus e a humanidade. Sim, o plano de Deus é “casar-se” com a sua criatura, unir-se intimamente a ela. Não porque Ele a necessite, mas porque Ele ama dar e por isso dá-se sem contar. Mas este plano não tem futuro, porque falta o “vinho”, ou seja, a festa deverá terminar antes do previsto, pois o homem atraiçoou o amor de Deus com o pecado. No entanto, as coisas não ficam por aqui. O Filho eterno encarna-se para dar o “vinho” que falta, mas não dará este “vinho” a um preço barato, porque o pecado não foi uma brincadeira. Uma vez, num parque, em França, vi uma criança mal-educada lançar uma bola suja no rosto da própria mãe, visivelmente com má intenção. Aquilo, logicamente, causou-me tristeza. Há coisas sagradas. Uma delas é o amor das mães. Mas, ainda mais sagrado, é o coração de Deus infinitamente mais maternal que o de qualquer criatura. A esta luz, podemos entender um pouco melhor quanto o pecado fere Deus. Por isso, como dizíamos, o Filho não o pode reparar a qualquer preço. O preço foi a cruz, ou seja, foi tomar sobre Si mesmo todo este pecado, sofrê-lo, para que conheçamos visivelmente quanto o nosso pecado faz sofrer Deus e que os atos da nossa liberdade têm as suas consequências. O preço foi o Seu Sangue derramado por amor, que o “vinho” simboliza. Mas também Maria sofre incrivelmente com o pecado do homem. Por isso, a sua intervenção será importantíssima, como sugere a narração das bodas de Caná. Aquela que levou Cristo aos homens, deve sofrer juntamente com Ele pelos homens. “Uma espada atravessará o teu coração”, profetiza a Maria o ancião Simeão de que nos fala o Evangelho de Lucas. Quando a Beata Teresa de Calcutá ainda duvidava se devia ou não começar a cuidar os mais pobres dos pobres, Cristo lhe disse num colóquio místico: “claro ainda não dás valor às almas porque não tiveste que te afogar em dor por elas, como a minha Mãe e Eu”. É assim: se para nós, um dia, será possível aceder à festa sem fim do Céu é porque Jesus, sobretudo, mas também Maria, sofreram por nós com uma intensidade que não podemos imaginar. Beata Teresa não recusou o convite do Senhor. Não se pode dizer não a quem tanto nos amou ao ponto de dar a vida por nós. Que este seja um doce e eficaz pensamento que acompanhe a nossa vida, um pensamento que amadureça, cresça, tome possessão do nosso coração, através da oração e dos sacramentos, ao ponto de determinar as nossas existências a atuar com generosidade. Não porque simplesmente é o nosso dever ser generoso, mas porque o amor chama-nos suavemente e insistentemente, como o fazia com a Beata Teresa. E recordemos um aspecto do episódio das bodas: explicitamente São João menciona os serventes que encheram as “talhas” com a água que depois se transformaria em vinho. E isso porque seguiram o conselho de Maria, que lhes pedia fazer tudo o que Cristo lhes havia de dizer. Todos nós somos estes serventes, chamados a ser servidores uns dos outros, com tarefas que podem talvez parecer insignificantes, mas que, ao fim ao cabo, são decisivas. pe Antoine Coelho, LC |
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DIVERGÊNCIAS: O diairesis grego significa essencialmente divisão e daí distinção, diferença, distinção por diferente distribuição em várias pessoas. Sai unicamente nesta passagem, em três dos versículos com o significado de diversos ou vários, significando falta de igualdade ou desigualdade. CARISMAS: A palavra grega charisma tem o significado de favor, presente, e, de modo especial bíblico, na economia divina da graça, é o perdão dos pecados e a salvação [geralmente chamado de charis (= gratia) pelo apóstolo]; um outro significado bíblico é o extraordinário poder de realizar obras supra-humanas sob o influxo do Espírito Santo, atuante modo divino, por meio do ministério de homens escolhidos livremente [é o que comummente chamamos de charisma = donum]. O carisma entra dentro das chamadas gratiae gratis datae e não gratiae santificantes. Estas últimas são divinas na origem, mas humanas do ponto de vista de seus visíveis efeitos [modo humano]. As que denominamos verdadeiros carismas são de origem divina e de resultados divinos [modo divino], que Paulo chama manifestações do Espírito (1Cor 12,7). Os autores cristãos posteriores falam também de dörëma que unicamente sai em Rm 5,16 e Tg 1,17 com o significado de presente. Com este mesmo significado de gift traduz a bíblia NASB a palavra charisma, que sai 17 vezes no NT das quais 16 em Paulo e uma em 1Pd 4,10. Nem sempre carisma tem o significado de dom extraordinário, mas de um dom de Deus como em Rm 5,15: Todavia não é assim a ofensa como o dom pois pela ofensa de um só muitos morreram; muitos mais a graça de Deus e o dom da graça. Entre colchetes temos as palavras em grego e latim para facilitar a exegese da passagem. Falando dos carismas ou dons extraordinários, temos em Paulo, 2 listas diferentes: Rm 12,6 - 8 [incompleta] e esta de 1 Cor 12, 4ss, em que trata de como devem ser usados esses dons, especialmente do chamado dom de línguas no capítulo 14. Estes dons, extraordinários em sua manifestação, foram prometidos por Jesus a sua Igreja (Mc 16,17 - 18) e no livro dos Atos vemos cumprida essa promessa (At 2,4;6.8;8,7 etc…). Dá a impressão de que os coríntios estavam orgulhosos desses dons e de modo especial da impropriamente chamada glossolalia, que, na realidade, devia ser xenoglossia, primeiramente observada no dia de Pentecostes, pelos diversos habitantes de Jerusalém (At. 2,4). Acredita-se que xenoglosssia era o dom de falar uma língua desconhecida, mas real, que todo aquele que a falasse entendia. Assim, aconteceu com os partos, medos … que se admiravam como simples galileus falavam a língua em que os tais tinham nascido (At 2,7 - 8). Já a glossolalia é um fenômeno, muitas vezes completamente humano, em que se emitem sons, sem que formem uma língua, devido em grande parte à emotividade da pessoa que as emite, chegando até o canto mais ou menos rítmico. Outro fenômeno, que em vida de certos santos foi possível comprovar, é que falando por exemplo em latim, eram compreendidos por seus ouvintes que nada ou pouco podiam entender da língua do Lácio, como dizem foi o caso de são Bernardino, em Áustria. Nesta perícope, temos o genë glössön, traduzido por famílias ou variedade de línguas, ou falar línguas, nas diversas bíblias vernáculas. UM MESMO ESPÍRITO: PNEUMA. Pode ser um poder derivado de Deus como em Maria achou-se grávida por obra do Espírito Santo (Mt 1,18). Muitas vezes, tem o artigo que corresponde, não a uma ação, mas a uma pessoa, como a terceira pessoa da Sma. Trindade como é o Espírito, o divino, que Mateus chama de Espírito de Deus. Claramente o podemos ver quando a blasfêmia contra o homem Jesus, é antagônicamente comparada com a lançada contra o Espírito Santo. Uma outra interpretação é o espírito humano, que comumente chamamos de alma, como em Mt 26,41: o espírito esta pronto, mas a carne é fraca (Mt. 26,41). Pode ser um ser espiritual, desprovido de corpo, como um anjo ou diabo, como é o caso do espírito imundo que sai do homem para voltar com outros piores do que ele (Mt 12,43). Para, finalmente, não falar do ar ou do alento do homem. Porém, neste versículo, devemos entender como sendo o poder de Deus que atua livremente para dar aos batizados, em seu nome, faculdades, tanto extraordinárias como comuns, para o bem e edificação da Igreja. MINISTÉRIOS: Também há divergências de ministéirios, mas um mesmo Senhor (5). Em termos profanos, DIAKONIA era um serviço de um homem livre, não escravo, ao comando de um superior. Especialmente era o serviço da mesa como Marta em Lc 10, 40: que pode ser traduzido por serviço, ou ministério. Quando se trata de termos bíblicos, é o serviço devido a Deus, proclamando e promovendo a revelação, como era o ministério de profetas e apóstolos, evangelistas e presbíteros. SENHOR: Kurios [escrito muitas vezes como Kyrios, devido à pronuncia] é aquele a quem uma pessoa pertence, que tem o poder de decidir, de mandar; é o dono de uma coisa ou pessoa como era um escravo. No estado, é o soberano, o imperador. É o título dado a Deus; e finalmente, Kurios é a tradução da Setenta no VT, de Adonai, Eliah, Elohim, Jahve, ou Jah, todas estas vozes que eram usadas para Deus em hebraico. No NT, aparece 722 vezes e, delas, 25 nesta epístola aos de Corinto. Certamente, como no AT, Kurios é o título de Deus, mas de modo especial é o título de Cristo ressuscitado, que, nesta carta, Paulo chama de nosso Senhor Jesus Cristo (7 vezes); ou Senhor Jesus (2 vezes); ou simplesmente Senhor (13 vezes), inconfundível com o Pai; pois é quem deve vir a julgar, ou é o crucificado, e especialmente de quem Paulo e outros são ministros; e outras 3 vezes em que não é definido o Senhor. Pelo versículo 3,5 [Apolo e Paulo, servos... conforme o Senhor concedeu a cada um] devemos pensar que esse Senhor/Kurios/Dominus deste versículo é Cristo. ATIVIDADES: E também divergências de trabalhos mas um só é o Deus, quem obra todas as coisas em todos (6). TRABALHOS: Energëma em grego é o efeito de uma operação, o resultado de um trabalho, que é traduzido por realização. Poderíamos traduzir por práticas ou realizações e que o latim resume como operações. Atividades é a tradução do inglês. Se o carisma é atribuído ao Espírito, o ministério ao Cristo, estes efeitos finais da atuação são produtos do Pai, de Deus [Theos] que é o modo de nomear a primeira pessoa da Trindade, que é a causa efetiva de tudo. MANIFESTAÇÕES: A cada um, portanto, é dada a manifestação do Espírito para o (comum) proveito (7). MANIFESTAÇÃO: Fanerösis sai só duas vezes (1 Cor 12,7 e 2 Cor 4,2); e podemos traduzir por uma visível atuação divina [do Espírito] clara, como era a palavra de Paulo em sua evangelização. Para isso era preciso um ato miraculoso ou extraordinário. Mas esse ato era para o bem comum. Cristo curou a muitos, mas não quis responder ao milagre que lhe pediam os seus inimigos: se és Filho de Deus, desce da cruz (Mt 27, 40). Assim são também os santos: para si a dor e a morte, para os outros o amor e a vida. O PODER DA PALAVRA: A alguém, pois, através do Espírito é dada palavra de sabedoria, a outro, porém, palavra de conhecimento segundo o mesmo Espírito (8). O ESPÍRITO é o poder divino que se manifestava especialmente na palavra do profeta e no milagre do taumaturgo. Logicamente neste versículo, temos o poder da palavra que não aparece como revelação do futuro, mas como sabedoria e ciência. Que significa SOFIA [sapientia] em sentido bíblico? Em sentido clássico é um conhecimento amplo de diversas matérias e eventos. Especialmente esse conhecimento que dá a experiência dos acontecimentos, expressado em fórmulas breves, como máximas e provérbios. Em termos bíblicos, é o poder de interpretar sonhos e visões, como eram os sábios, que acompanhavam os tronos reais. Em hebraico é chokhmah ou chakam como vemos em Is 29,14: a sabedoria de seus sábios perecerá. Dentro destes sábios entram os astrólogos ou magos, dos quais é exemplo Mt 2,1 que narra o relato dos magos do oriente, provavelmente nabateus, das caravanas do deserto arábico. No NT temos Mt. 11,9: A sabedoria é justificada por suas obras. Ou por suas consequências. Paulo fala frequentemente da palavra de Sabedoria, que para ele é o evangelho de Jesus Cristo, completamente desconhecido dos sábios do mundo; pois, apesar dos gregos buscarem a sabedoria [a razão do mistério da vida e da existência do mundo] eles não a encontraram em Cristo que é a chave para entender a sabedoria infinita de Deus (1 Cor. 1,24 e 1,30). Sabedoria, em termos bíblicos, era a ciência do bem e do mal (Gn. 2,9) própria de Deus e que, em termos humanos, significa saber o que devemos fazer na prática para nossa felicidade. Alguns exegetas dizem que a ciência do bem e do mal representa a totalidade dos conhecimentos possíveis. PALAVRA DE SABEDORIA: É a disposição de falar sabiamente, como falava Jesus na sinagoga, de modo que os presentes diziam de onde lhe vem tudo isto? Como tem tal sabedoria? (Mc. 6, 2) É a promessa que Jesus deu aos seus discípulos: quando os levarem às sinagogas ante os magistrados e autoridades não vos preocupeis com o que, ou sobre como haveis de falar, ou que haveis de dizer. O Espírito Santo vos ensinará, naquele momento, o que deveis dizer (Lc 12,11 - 12). De fato, Estêvão confundiu seus adversários, como narram Atos 7; e Paulo fala de modo tão convincente, que o rei Agripa confessou: Pouco me falta para que, pelo teu arrazoado, para fazeres de mim um cristão (At. 26, 28). ENTENDIMENTO: ou Gnösis, é o conhecimento em geral; No tempo de Paulo, ainda não existia a heresia que, no final do primeiro século e inícios do segundo, constituiu o gnosticismo, em cujos princípios está o de que a salvação depende do conhecimento [da gnösis] e não é obra da graça e misericórdia divinas. Distingue-se da sofia em que a gnosis é o saber teórico e sofia é o saber prático, especialmente quando se trata dos últimos princípios ou razões básicas. Diríamos que sofia é a aplicação prática da gnösis. Das 28 vezes que encontramos a palavra gnosis no NT, na carta atual sai 9 vezes. Na primeira parte, a gnosis trata sobre os ídolos e o problema dos idolotitos [carnes anteriormente consagradas a um ídolo]. Na segunda parte, Paulo diz que ele tem o dom do conhecimento, indicando a explicação de pontos de moral difíceis, como dirá em 1 Cor 7,12: aos outros digo eu, não o Senhor; e porque em virtude da missão que Deus me encomendou,vos digo a cada um de vós (Rm 12,3). PALAVRA DE CONHECIMENTO: Era, pois, um dom como de mestre e guia dos espíritos em ordem ao bem dos ministrados, que estes aceitavam como palavra correta a seguir. Na realidade não sabemos certamente em que consistia esse dom de conhecimento e só através dos escritos podemos entrever uma solução, sem termos total certeza da mesma. Segundo alguns, Jesus usou desse dom quando pediu a Pedro que pescasse o peixe onde encontrar o didracma para pagar o tributo (Mt. 17,24 - 27). E Paulo o praticou, pedindo que lançassem o carregamento para salvar as vidas, na tempestade (At 27,10). Umas vezes ouvimos como uma palavra de um simples cristão encerra uma verdade que os próprios entendidos não souberam descobrir. Um sacerdote contava como numa reunião alguém disse: Como um padre pode se declarar irmão de Jesus, se não aceita Maria como sua mãe? Do cardeaL Tomasino diziam os calvinistas: cavete Tomasinum, pois sua lógica era irrefutável. FÉ E CURA: A outro, porém, fé no mesmo Espírito, a outro, pois, carismas de curas no mesmo Espírito (9). FÉ: Pistis, em grego, tem como significado primário fidelidade, exatamente como fides em latim não bíblico, em que encontramos fidem fallere [faltar à palavra]. É a tradução de emeth ou emunah pela Setenta, preferindo aletheia para emeth e pistis para emunah.Famosa é a passagem de Habacuc 2,4: O que não é honesto sucumbirá; mas o justo viverá por sua fidelidade, que no grego não é a fé ou fidelidade do justo mas de Deus (minha fidelidade). Deste versículo fez Lutero seu princípio fundamental, traduzindo pessimamente: o justo vive só (? por ele acrescentado) pela fé, do texto grego de Rm 1,17, que deve ser traduzido: A justiça pois de Deus nEle se revela de fidelidade em fidelidade,como está escrito:pois um justo viverá por meio da fidelidade [de Deus]. No NT, a fé é pistis e era precisamente a confiança na pessoa de Jesus como tendo o poder de curar, que o Mestre exigia dos doentes, para curá-los (Mt 8,10 e 9,2 como exemplos). Jesus repreende seus discípulos como homens de pouca fé, pois se tivessem uma fé como um grão de mostarda poderiam remover montanhas (Mt 17,20). Será Paulo quem opõe a Torah [Lei antiga] a fé em Cristo, em suas epístolas e propõe, como resposta à misericórdia divina, a fé do batizado, e a chama de obediência da fé (Rm 1,5) com a qual, além da fé, Paulo implica implicitamente obras, como Tiago em sua epístola diz que ao oferecer a seu filho Isaac sobre o altar cooperava com as obras, a fé e que esta se tornou perfeita pelas obras, cumprindo assim as escrituras que diziam: Abraão creu em Deus e isso lhe foi contado como justiça e foi chamado amigo de Deus. Vede, pois que o homem é justificado pelas obras e não só pela fé (Tg. 2,21 - 24). Como vemos, não existe contradição entre os dois apóstolos se traduzimos e interpretamos corretamente os textos de ambos. Mas qual é a fé deste versículo paulino? Evidentemente, não é á fé passiva de um doente que espera a cura, mas uma fé ativa que se traduz em obras. Exemplos temos na vida dos santos: realizaram obras consideradas como impossíveis, do ponto de vista humano, unicamente considerada a proteção divina. É a fé que Jesus encontrou deficiente em Pedro quando este começou a afundar pela fúria das ondas (Mt. 14,30 - 31). Um exemplo dessa fé é a Piccola Casa Della Divina Provvidenza de Cottolengo. Vivendo apenas de esmolas, nessa casa vive-se pela fé, cumprindo a promessa de Jeremias: Eis que lhes trarei saúde e cura e os sararei e lhes revelarei abundância de paz e segurança (33,6). Veremos isto no exemplo. OUTROS DONS: Porém a um outro obras de milagres, a outro, pois, profecias, a mais outro discernimento de espíritos, a um outro famílias de línguas, a um outro interpretação de línguas (10). OBRAS DE MILAGRES: Em grego dunamis (força ou poder), que o latim traduz literalmente por virtus [= força]. Obras do poder de Deus como autor principal, que têm como mediadores os seus santos. Atualmente não existe beato ou santo na igreja sem que seja antes firmada sua vida heróica pelo milagre, que o distingue como amigo de Deus. PROFECIAS: é a voz de Deus numa circunstância especial, manifestando sua mensagem, que, nem sempre, é desvendar o futuro. Para isso, usa a voz de um de seus servidores. Exemplo: At. 21,10 - 11, quando Ágabo profetizou a prisão de Paulo em Jerusalém. DISCERNIMENTO DE ESPÍRITOS: Dentro das comunidades, havia diferentes palavras que eram pronunciadas como voz de Deus, mas podiam vir de outro espírito, aquele que Jesus dizia ser o pai da mentira (Jo 8,44). Em At 16,18 vemos uma jovem que tinha o espírito de adivinhação e que Paulo expulsou. Dentro da comunidade de Corinto, Paulo dá uma norma para distinguir o falso espírito: ninguém que fala pelo espírito de Deus afirma: Anátema Jesus. Por outro lado, ninguém pode dizer Senhor Jesus senão pelo Espírito Santo (1 Cor. 12,3). Paulo dirá que Satã pode se revestir como anjo de Luz (2 Cor. 11,14) e seus ministros em ministros de justiça. Hoje, será a voz da Igreja que nos guiará através dos bispos e do Papa; mas como saber qual a vontade de Deus em casos particulares e concretos? A voz dos superiores e dos diretores espirituais, que sejam mais sábios do que santos como dizia Tereza de Jesus. Santo Ignácio de Loyola tinha como norma: os desejos divinos produzem dor no início, mas logo se transformam em paz. Os do inimigo são agradáveis no início e logo, produzem angústia e depressão. S João da Cruz afirmava: escolhe sempre o menos conforme com tua vontade. Estes eram grandes santos que indubitavelmente tinham o dom de discernimento de espíritos. FAMÍLIAS DE LÍNGUAS: Os de língua inglesa falam do dom de línguas como usado unicamente como prece em louvor de Deus e Paulo o descreve com alguns detalhes em 1 Cor 14,14 - 15. Nesse momento, o falante se deixa guiar pelos impulsos divinos, de modo que é o Espírito infuso que com sons ininteligíveis (14,2) fala por nós. Tanto é assim, que o falante em línguas nem a seu próprio entendimento edifica, porque não compreende o que diz, segundo Paulo. O apóstolo ordena que, se não existe um intérprete, não se fale em línguas, porque não edifica a comunidade. Não é um dom que indique o estado de graça de uma pessoa. A jumenta de Balaão falou e era um animal sem entendimento. No mundo atual, existem muitas simulações e imposturas e é difícil se subtrair a seus aliciadores, porque quem não fala em línguas é considerado como pobre de espírito e desprovido do mais elementar dom divino que a todos é concedido. É um assunto delicado e sem uma solução clara, pois a maioria dos que se dizem em línguas é um blá, blá, blá que não pertence a língua nenhuma e é só um balbucio sem sentido. INTERPRETAÇÃO DE LÍNGUAS: Só sai 2 vezes (1Cor 12,10 e 14,26). É possível que nos primeiros tempos, a glossolalia fosse também, como no caso de Pentecostes, xenoglassia, ou seja, falar uma verdadeira língua estranha (caso de Cornélio de Atos 10). Somente quando estiver um intérprete é que o tal podia falar, segundo Paulo. DONS GRATUITOS: Porém, todas estas coisas opera o único e o mesmo Espírito distribuindo os seus (dons) a cada um como lhe apraz (11). Paulo termina este trecho, afirmando que tudo procede de uma única causa: o espírito, alento, sopro vital, faculdade, ou impulso que tem como causa o próprio Deus e a quem Paulo chama de Espírito. Estes dons são dados grátis e por isso, recebem o nome de gartiae gratis datae [gracias dadas de gracia]. Deus reparte e é Ele quem escolhe livremente.
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EutrapeliaEutrapelia! Que palavra é essa? Hoje em dia quase ninguém conhece a virtude da eutrapelia e por isso eu gostaria de apresentá-la. Apesar desse nome estranho que ela tem, não deveria ser uma virtude desconhecida para nós. Sem a eutrapelia, a pessoa correria o perigo ou de ficar sério demais ou de divertir-se exageradamente. Foram Aristóteles e Santo Tomás de Aquino (cf. Suma de Teologia, II-II, q. 149) que nos legaram essa palavrinha rara: a eutrapelia é aquela disposição interior (virtude) que põe o justo meio entre a relaxação e a seriedade excessivas em relação aos jogos e as diversões em geral. É evidente que o ser humano não pode viver trabalhando sem parar, nem se divertindo sem cessar. O descanso sabático no Antigo Testamento e o dominical, no Novo Testamento, condiz totalmente com a natureza humana. Necessitamos descansar! Divertir-se é muito bom. Quem não gosta? A diversão revigora as nossas forças e quando é feita em companhia dos outros nos torna mais generosos e sociáveis. O cristianismo sempre valorizou o ócio santo, o descanso na presença de Deus, e proíbe aquelas atividades desnecessárias que nos distanciariam do gozo do domingo, do dia do Senhor. Efetivamente, um dos mandamentos da Igreja é “guardar domingos e festas”, que inclui participar da Missa todos os domingos e dias de preceito e descansar de acordo com as possibilidades de cada um. Jesus, Maria e seus discípulos também participavam das festas de casamento; Jesus descansava na casa de Lázaro, Marta e Maria; em várias ocasiones, diante do esgotamento do trabalho apostólico, Jesus convidava os discípulos a descansar um pouco. E – não se escandalize! – quando faltou o vinho na festa de Caná, Jesus dedicou o seu primeiro milagre, pela intercessão de Nossa Senhora, a transformar aproximadamente 600 litros de água em 600 litros do melhor vinho (e era vinho com álcool, está claro!). A Igreja católica, seguindo os passos do seu Divino Mestre, sempre defendeu a bondade da criação. Lutou contra os gnósticos, os maniqueos e os cátaros de todos os tempos, que afirmavam que a matéria e as realidades provenientes da mesma foram criadas por um principio mau. A Igreja sempre afirmou a bondade do matrimônio, a licitude das festas sadias e nunca proibiu o uso de bebidas alcoólicas baseada em princípios doutrinais. A Igreja Católica é uma Igreja alegre, bem-humorada e que transmite o gozo de ser filho e filha de Deus em Cristo. A Igreja proíbe o pecado porque sabe que ele destrói o ser humano. Não proíbe o uso da matéria e das coisas materiais postas pelo Criador ao serviço da criatura. Depois que o Senhor Deus já havia criado quase tudo quis coroar a sua obra ao fazer o ser humano à sua imagem e semelhança para que este pudesse trabalhar, para que dominasse a criação, para que fosse fecundo em filhos, para que fosse feliz (cf. Gn 1,26 - 28). Tudo isso poderia escandalizar a algum católico cátaro ou algum evangélico albigense, e, no entanto, o Espírito Santo quis deixar testificado na Sagrada Escritura que toda a realidade material é boa e que somente quando a usamos fora do plano de Deus é que são ocasiões de pecado. Para divertir-se segundo a vontade de Deus, o cristão necessita da virtude da eutrapelia, como dizíamos. Essa virtude está relacionada com as virtudes da modéstia e da temperança e ajuda a refrear os ímpetos da concupiscência – essa desordem que permanece em nós e que nos leva a ofender a Deus – e a buscar o fim para o qual fomos criados, que é Deus, enquanto nos divertimos. O homem que é um animal racional precisa governar-se pela reta razão. Divertir-se excessivamente mostra que a nossa sensibilidade não está subordinada à razão, daí a importância de “saber divertir-se”. O cristão olhará sempre para o exemplo de Cristo e dos seus seguidores, os santos, e se deixará conduzir pelo Espírito Santo a cada momento. São Paulo também se preocupou com as diversões dos cristãos de Éfeso e escreveu-lhes: “nada de obscenidades, de conversas tolas ou levianas, porque tais coisas não convêm; em vez disto, ações de graças. Porque sabei-o bem: nenhum dissoluto, ou impuro, ou avarento – verdadeiros idólatras! – terá herança no Reino de Cristo e de Deus” (Ef 4,4 - 5). Para terminar, baste outra passagem muito conhecida onde o Espírito Santo nos diz através de Paulo: “alegrai-vos sempre no Senhor. Repito. Alegrai-vos!” (Fl 4,4). pe Françoá Rodrigues Figueiredo Costa |