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Celebrar a eucaristia é reviver a presença do Deus que é Pai libertador, que salva em Cristo Jesus. A comunidade cristã que celebra o memorial da morte e ressurreição de Cristo é convidada ao discernimento: só o amor dinâmico que conduz à prática da solidariedade e da justiça é capaz de atualizar a vinda de Jesus (II leitura). 1º leitura (Br. 5,1 - 9): Deus é fiel. Por isso vai salvar os que sofrem Os versículos desta leitura – atribuídos a Baruc – são uma mensagem de esperança endereçada a Jerusalém, despojada de seus filhos. O texto recorda uma fase trágica na história do povo de Deus: o tempo em que os habitantes de Judá e da capital foram levados para o cativeiro na Babilônia. Diante da maior catástrofe nacional, perguntava-se: teria Deus abandonado definitivamente seu povo? Teria repudiado sua esposa, Jerusalém e seus filhos? Será que Javé, o Deus libertador, deixaria seu povo para sempre nas mãos dos opressores? O oráculo de salvação e consolo que lemos na liturgia de hoje procura responder a essas inquietações. O autor personifica Jerusalém: ela é uma esposa abandonada por Javé, seu marido, que deportou para longe seus filhos. Agora, porém, é convidada a trocar as roupas de luto e revestir-se para sempre com a glória esplendorosa que vem de Deus (5,1). Mudar de roupa é o início da libertação. A cidade é chamada a vestir o manto da justiça que Deus lhe oferece (v. 2a). Justiça, aqui, é a reabilitação do povo exilado, convocado a viver a nova justiça: a que vem não do poder das armas, mas da misericórdia do Deus, que se põe ao lado dos oprimidos. É a típica justiça bíblica, a que restabelece o equilíbrio desfeito pela injustiça. É reabilitando-os e ensinando-os a praticar a justiça que ele “há de mostrar o teu esplendor a toda criatura debaixo do céu” (v. 3). Deus dá ao povo e à cidade um nome novo, uma nova identidade: “Paz-da-justiça e Glória-da-religião” (v. 4). Qual é o alcance desse nome? Ele revela que, na nova comunidade, as relações humanas serão fundadas na justiça e voltadas para a paz. Dessa forma as pessoas poderão se relacionar de modo perfeito com Deus (religião), e o próprio Deus habitará no meio deles (glória). seguir, Jerusalém recebe a ordem de se levantar do pó onde está sentada cheia de dor, subir a um lugar elevado e contemplar o alegre retorno de seus filhos, pois Deus se lembrou deles (v. 5). O contraste entre a partida e o retorno é evidente: saíram de Jerusalém a pé, como escravos; agora retornam, conduzidos por Deus, transportados em tronos (v. 6). O cortejo é magnífico e supera de modo extraordinário a saída dos hebreus da escravidão egípcia: lá, tiveram de enfrentar o deserto sem estradas e o calor; agora, o próprio Deus manda rebaixar as altas montanhas e as colinas que se perdem de vista; manda encher os buracos, a fim de que o caminho seja plano (v. 7). Por ordem divina, as florestas e árvores perfumosas vão oferecer abrigo ao povo que retorna (v. 8), pois quem o reconduz é o próprio Deus (v. 9). Esse texto serviu para animar o povo de Deus em tempos de crise. A lição que aprendemos é esta: a misericórdia de Deus é maior que todas as crises e tragédias humanas. Por ser Pai e esposo, ele não abandona seus filhos, mas os reconduz para as fontes de vida, a fim de que saibam viver a justiça e a paz, criando assim uma sociedade em que já não se repitam os erros que levaram o povo de Deus à ruína quase total. Evangelho (Lc. 3,1 - 6): A salvação é para todos Os versículos escolhidos para a liturgia deste domingo pertencem a uma unidade maior dentro do Evangelho de Lucas (1,1 - 4,13). O tema dessa unidade é a pessoa de Jesus (a narrativa da infância) e sua missão. Para falar da missão de Jesus, o evangelista começa falando da missão de João Batista, o precursor. Este é como uma ponte que une o Antigo e o Novo Testamento. a. A história da salvação não passa pela “história oficial” (vv. 1 - 2) Lucas quis apresentar a nova história que nasce de Jesus e dos seus discípulos. Por isso elaborou sua obra em dois momentos: no evangelho, mostrou o caminho de Jesus e, nos Atos, o caminho da comunidade cristã, impulsionada pelo Espírito de Jesus. O caminho de Jesus termina em Jerusalém, onde ele dá o testemunho definitivo, entregando sua vida. A partir de Jerusalém, a comunidade cristã percorrerá todos os lugares, levando até os confins do mundo a mensagem de salvação. As duas obras – evangelho e Atos – formam a nova história da humanidade, uma história de liberdade e vida. O texto de hoje mostra como se inicia o caminho de Jesus e como se inicia a nova história por ele trazida. Lucas apresenta a atividade libertadora de Jesus como caminho alternativo que não passa pela “história oficial”, pois esta é marcada pela ambição e exploração que geram a morte. O caminho de Jesus é diferente: em vez de tirar a vida das pessoas, entrega a própria, a fim de que todos possam viver. O evangelista mostra como era a sociedade daquele tempo. Há um imperador – Tibério – que domina o mundo inteiro (14 - 37 d.C.). Há um procurador – Pôncio Pilatos (25 - 35 d.C.) – que governa a Judeia. Pilatos é romano e está a serviço do poder central. Herodes Antipas administra a Galileia (4 a.C. - 39 d.C.), lugar da pregação de Jesus. É filho de Herodes o Grande, que, sentindo-se ameaçado de perder o poder, mandou matar as crianças de Belém (cf. Mt. 2,13 -18). Filipe, irmão de Herodes Antipas, administra a Itureia e a Traconítide. Lisânias administra Abilene. Essa é a “história oficial”, feita de opressões, abuso do poder e morte. A seguir, Lucas apresenta as lideranças religiosas judaicas: Anás e Caifás eram sumos sacerdotes. Anás foi sumo sacerdote de 6 a 15, e Caifás de 17 a 37 da nossa era. Segundo o historiador Flávio Josefo, depois de perder o sumo sacerdócio, Anás continuou a ser, por muitos anos, o homem forte da aristocracia sacerdotal e do Sinédrio. Direta ou indiretamente, Jesus vai se confrontar com essas personagens nos dias da paixão. Ele se defronta com o sumo sacerdote (22,54), com o Sinédrio (22,66ss), com Pilatos (23,2ss.13ss) e com Herodes (23,8ss). Daí tiramos a seguinte conclusão: o caminho de Jesus não passa pela “história oficial”, pois esta é marcada pela ambição, por jogo de interesses e pela morte. O caminho de Jesus não é como o caminho dos grandes. Sua missão também não. b. O caminho de Jesus (vv. 3 - 4) O caminho de Jesus é diferente. Inicia-se com João, filho de Zacarias, no deserto. A menção do deserto é importante para entendermos o caminho de Jesus. O deserto evoca o êxodo, a saída do Egito rumo à nova terra, à forma diferente de viver. A “história oficial” repete a opressão do faraó. E Jesus é o novo e definitivo líder que conduz, por caminho diferente, à posse da vida. João prega um batismo de conversão para o perdão dos pecados. Convida a iniciar nova história. O batismo era o sinal que marcava o novo início. Faz-se necessário voltar atrás, aceitar a novidade que está para chegar, a fim de ter vida e liberdade. c. “Preparem o caminho do Senhor” (v. 5) Lucas quis apresentar João Batista na qualidade de profeta que prepara o caminho de Jesus. Isso se torna claro se levarmos em conta o modo pelo qual eram apresentados os profetas do Antigo Testamento (cf. Jr 1,1ss; Os 1,1; Jl 1,1): situados no tempo, mostrando quem governava o país quando foram chamados por Deus. A missão de João é situada no tempo e no espaço, e sua pregação se assenta sobre a do Segundo Isaías (Is. 40 - 55), do qual ele cita as palavras: “Preparem o caminho do Senhor, endireitem suas estradas. Todo vale será aterrado, toda montanha e colina serão aplainadas; as passagens tortuosas ficarão retas, e os caminhos esburacados serão nivelados” (vv. 4b - 5). Esse trecho, síntese da pregação do Precursor, retoma a pregação do Segundo Isaías (Is. 40,3 - 5), profeta que anunciava o fim do exílio e o início de vida nova para o povo sofrido. Assim entendemos a finalidade da missão de João: proclamar o fim da “história oficial” e o início da história que Jesus vai construir com os pobres e a partir deles. d. A salvação é oferta gratuita para todos (v. 6) Diferentemente dos demais evangelistas, Lucas prolonga a citação de Isaías, acrescentando, como parte da pregação de João, esta frase: “E todo homem verá a salvação de Deus” (v. 6; cf. Is 40,5). Com isso quis mostrar que o caminho de Jesus é proposta aberta a todos, também aos que pertencem à “história oficial”, desde que se convertam e endireitem o próprio caminho para serem salvos. 3. 2º leitura (Fl. 1,4 - 6.8 - 11): Amor e discernimento preparam a vinda de Cristo Os Atos dos Apóstolos (16,11 - 40) mostram como foi a fundação da comunidade de Filipos. Ela nasceu na casa de uma senhora de nome Lídia e em torno da família do carcereiro do qual Paulo salvou a vida. Filipos foi a primeira cidade da Europa a receber o anúncio do evangelho. A comunidade cristã nascida nessa cidade se caracterizou por estabelecer relacionamento estreito e solidário com a missão de Paulo, que tinha como norma não receber bens em troca de pregação. Mas com os filipenses foi diferente. A comunidade ficou sabendo da prisão de Paulo (provavelmente em Éfeso, entre os anos 56 e 57) e lhe mandou uma ajuda, manifestando assim a solidariedade com o apóstolo e, sobretudo, com a causa do evangelho. A carta aos Filipenses é uma coleção de três bilhetes que Paulo escreveu a essa comunidade em breve espaço de tempo. Cada um desses bilhetes tem preocupação própria. O texto de hoje pertence à segunda comunicação escrita entre Paulo e a comunidade. Nele, o apóstolo reza e faz um pedido. A oração de Paulo é marcada pela alegria proveniente da participação da comunidade na difusão do evangelho desde o primeiro dia até o presente momento, quando ele está na cadeia (vv. 4 - 5) O apóstolo não reza por si nem põe suas preocupações em primeiro lugar. Sua oração é ação de graças a Deus pela perseverança da comunidade e pela solidariedade que a caracteriza. Ele tem uma convicção: quem está agindo nas pessoas é o próprio Deus, capaz de levar sua obra à perfeição até o Dia de Cristo Jesus (v. 6). Paulo crê que o evangelho é uma força extraordinária capaz de criar o mundo novo, levando a comunidade a se comprometer em profundidade com o projeto de Deus. Sua oração é movida pelo amor que sente pela comunidade como um todo: amor que traduz a ternura do próprio Cristo (v. 8). A seguir, vem o pedido: “O que eu peço a Deus é isto: que o amor de vocês cresça sempre mais em todo conhecimento e clareza” (v. 9). Para crescer o amor requer discernimento. O caminho da comunidade de Filipos já está em sintonia com o evangelho (note-se que Paulo não possui um evangelho escrito para mostrá-lo à comunidade; o evangelho se manifesta numa vivência concreta, traduzida no amor e na solidariedade dentro e fora da comunidade); contudo, o projeto de Deus é algo que está à frente, como ideal e desafio. Como, pois, atingir esse ideal? Mediante o discernimento que leva a escolher, no amor, o que é melhor para todos (v. 10). O amor gera a santidade. Esta, por sua vez, traduz-se na prática daquela justiça que caracterizou a vida de Cristo. Assim Deus habitará na comunidade: “Assim vocês estarão cheios da justiça que nos vem de Jesus Cristo, para glória e louvor de Deus” (v. 11) www.paulus.com.br |
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Pela profecia que eles fazem, somos convidados a abrir o nosso coração para acolher Aquele sobre o qual repousa o Espírito do Senhor. Espírito de sabedoria e discernimento, de conselho e fortaleza, de ciência e de temor de Deus. E são Paulo chama nossa atenção para o testemunho comunitário. O profeta começa por comparar a Jerusalém infiel a uma mulher de luto, desanimada e aflita, sem razões para ter esperança. No entanto, a mensagem fundamental deste texto é: “esse tempo de luto terminou; Deus perdoou-te todas as tuas faltas e quer devolver-te a vida e a esperança”. Para dar corpo a essa promessa de um futuro novo, o autor fala do regresso dos “filhos” exilados para a Jerusalém nova da justiça e da piedade. Tal ação resulta do amor de Deus, sempre disposto a perdoar o afastamento dos filhos rebeldes e a reatar com eles uma história de libertação e de salvação. A primeira leitura sugere que este “caminho” de conversão é um verdadeiro êxodo da terra da escravidão, para a terra da felicidade e da liberdade. Durante o percurso, somos convidados a despir-nos de todas as cadeias que nos impedem de acolher a proposta libertadora que Deus nos faz. A leitura convida-nos, ainda, a viver este tempo numa serena alegria, confiantes no Deus que não desiste de nos apresentar uma proposta de salvação, apesar dos nossos erros e dificuldades. A segunda leitura chama a atenção para o fato de a comunidade dever preocupar-se com o anúncio profético e dever manifestar, em concreto, a sua solidariedade para com todos aqueles que fazem sua a causa do Evangelho. Sugere, também, que a comunidade deve dar um verdadeiro testemunho de caridade, banindo as divisões e os conflitos: só assim ela dará testemunho do Senhor que vem. Mas, freqüentemente, a vida das nossas comunidades cristãs é marcada pelas divisões, pelas murmurações, pelas lutas pelo poder, pelas tentativas de manipular, pelos interesses mesquinhos e egoístas, pelas guerras de sacristia... Será possível “esperar com coração puro e irrepreensível o Senhor que vem” num contexto de divisão? Será possível a comunidade ser o espaço onde Jesus nasce, se não se aceitam todas as pessoa? É possível que a nossa comunidade não seja, ainda, um modelo de perfeição: somos um grupo de irmãos com os nossos limites e defeitos... Sem desânimo, devemos ter presente que somos uma comunidade “a caminho”, em processo de construção. O que é importante é que saibamos acolher o Senhor que vem e deixar que ele nos conduza à plenitude da vida e do amor. Uma forma de nos abrimos ao Senhor que vem é ouvir a voz que clama no deserto. O evangelho apresenta-nos o profeta João Batista, que convida os homens a uma transformação total quanto à forma de pensar e de agir, quanto aos valores e às prioridades da vida. Para que Jesus possa caminhar ao encontro de cada homem e apresentar-lhe uma proposta de salvação, é necessário que os corações estejam livres e disponíveis para acolher a Boa Nova do Reino. É esta missão profética que Deus continua, hoje, a confiar-nos. www.diocesedesaomateus.org.br |
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Ora, esta esperança, esta bênção, esta paz, esta plenitude, este futuro, têm um nome: Jesus Cristo! Tudo se cumpre nele, tudo se resume nele; nele, tudo é pleno e duradouro: ele é o Sim de Deus para Israel e para toda a humanidade! A salvação que a humanidade esperou e os profetas prometeram a Israel, no Evangelho deste Domingo aparece tão próxima: ela entra na história humana; não fica lá em cima, no céu; entra nas coordenadas dos nossos pobres dias: “No décimo quinto ano do império de Tibério César, quando Pôncio Pilatos era governador da Judéia, Herodes administrava a Galiléia, seu irmão Filipe, as regiões da Ituréia e Traconítide, e Lisânias a Abilene; quando Anás e Caifás eram sumos sacerdotes...” Nossa fé não é um mito, nossa esperança não é uma quimera: ela veio, entrou no nosso mundo, no nosso tempo, no nosso espaço, na nossa pobre vida, nos nossos dias tão pequenos: “... foi então que a Palavra de Deus foi dirigida a João, filho de Zacarias, no deserto”. Como é belo o Advento! João anuncia que chegou o tempo, que com Aquele que vem, o próprio Deus, em pessoa, faz-se presente: tempo de salvação, tempo de decisão, tempo de acolher o convite para o Reino! Deus cumpriu sua promessa, ao enviar Jesus; Deus satisfez o sonho que ele mesmo colocara no coração humano, no nosso coração, ao nos dar Jesus. Deus é fiel! Mas, este Jesus que veio – e estamos nos preparando para celebrar o seu santo Natal - é o mesmo que ainda esperamos para consumar a sua obra no Dia final. Na Epístola aos Filipenses, segunda leitura da missa de hoje, são Paulo nos fala do Dia de Cristo – aquele dia que começou em Belém, brilhou na Ressurreição e será pleno na Vinda do Senhor. Deus nos prometeu este Dia bendito, no qual todas as esperanças humanas serão realizadas! O cristão vive os dias deste mundo na esperança deste bendito e eterno Dia. Por isso, o Apóstolo deseja que permaneçamos puros e sem defeito “para o Dia de Cristo, cheios do fruto da justiça que nos vem por Jesus Cristo, para a glória e louvor de Deus”. Ele confia que, no que depender do Pai do céu, nós cresceremos na obra de Deus até “à perfeição até ao Dia do Cristo Jesus”. O Advento, portanto, é tempo de esperança, de espera, de sonho... mas é também tempo de compromisso em nos preparar para o Senhor que vem e vem vindo sempre. É tempo de preparar os caminhos do Senhor, endireitar suas veredas! Que todo vale de nossos pecados e baixezas seja aterrado; que as colinas do nosso orgulho, da nossa auto-suficiência e prepotência sejam aplainadas. Que, numa vida de conversão, vejamos a salvação de Deus... E os outros, os de fora, vejam em nós a obra desta salvação! Não percamos tempo! A oração da missa pediu a Deus que nenhuma atividade terrena nos impeça de correr ao encontro do Filho que vem. Por favor, em nome de Cristo: levantemos os olhos de nossa mediocridade, de nossas preocupações pequenas e mesquinhas! Levantai a cabeça: a vossa Salvação se aproxima! Não sejamos desatentos, a ponto de não perceber e não acolher Aquele que veio, vem vindo e virá na Glória! Terminemos esta meditação com as palavras de um poeta que exprimem bem o que a Palavra de Deus, que ouvimos hoje, nos quer dizer. É um poema de Tagore: Não ouvistes os passos silenciosos? Ele vem vindo, vem vindo, vem vindo sempre! A cada momento e a cada estação, a cada dia e a cada noite, ele vem vindo, vem vindo, vem vindo sempre! Várias cantigas cantei, em vários disposições de espírito, mas as suas notas sempre proclamaram: ele vem vindo, vem vindo, vem vindo sempre! Nos dias perfumados de abril luminoso, pelo caminho do bosque ele vem vindo, vem vindo, vem vindo sempre! Na sombra chuvosa das noites de junho, na carruagem trovejante das nuvens, ele vem vindo, vem vindo, vem vindo sempre! De tristeza em tristeza, são os seus passos que pisam o meu coração! E é o contato de ouro de seus pés que faz brilhar minha alegria! Vem, Senhor Jesus, vem sempre! Vem nas alegrias, mas vem também nas tristezas da vida! Que saibamos discernir as tuas vindas e os rastros de ouro que teus pés benditos deixam na nossa vida! Vem, Senhor, porque somos frágeis! Vem, Senhor, porque somos pobres! Vem, Senhor, porque muitas vezes o peso da vida é grande demais! Vem, Senhor, porque temos medo da noite! Vem, Senhor Jesus!
Na segunda leitura da liturgia da Palavra deste domingo 2º do Advento, por duas vezes são Paulo refere-se ao Dia de Cristo: “Aquele que começou em vós uma boa obra, há de levá-la à perfeição até ao Dia de Cristo”; “que o vosso amor cresça sempre mais, em todo o conhecimento e experiência, para discernirdes o que é melhor. Assim ficareis puros e sem defeito para o Dia de Cristo”. Para este Dia de Cristo, meus caros, estamos nos preparando no santo tempo do Advento. Dia de Cristo é o Natal; Dia de Cristo é o “todo-dia”, quando sabemos reconhecer suas visitas; Dia de Cristo será a sua Vinda gloriosa no final dos tempos. Quem celebra piedosamente o Dia de Cristo no Natal e é atento pela vigilância ao Dia de Cristo de “todo-dia”, estará pronto na perfeição do amor, estará puro e sem defeito para o Dia de Cristo no final dos tempos! É certo que não poderemos fugir do Cristo Jesus: diante dele todos nós estaremos um dia porque através dele e para ele fomos criados e somente nele nossa existência chegará à sua plenitude. A primeira leitura de hoje ilustra de modo comovente a situação da humanidade e também a situação da Igreja, pequeno resto peregrino e acabrunhado sobre esta terra: trata-se de uma humanidade sofrida, de uma Igreja em exílio, mas que será consolada pelo Senhor. Recordemos a palavra de Baruc profeta “Despe, ó Jerusalém, a veste de luto e de aflição, e reveste, para sempre, os adornos da glória vinda de Deus!” Que belo convite, que sonho, que felicidade, meus caros! Pensemos na nossa vida, pensemos nas ânsias da Mãe Igreja, e alegremo-nos com o consolo que Deus nos promete! “Cobre-te com o manto da justiça que vem de Deus e põe na cabeça o diadema da glória do Eterno. Deus mostrará teu esplendor, ó Jerusalém, a todos os que estão debaixo do céu!” Vede, caríssimos, o nosso Deus como é: um Deus que promete, um Deus que abre a estrada da esperança, um Deus que consola, um Deus que nos prepara um futuro de bênção, de paz e de vida! Mas, quando será esta paz, de onde virá? Escutai, caríssimos: “Levanta-te, Jerusalém – levanta-te, irmão; levanta-te, irmã! Levanta-te, mãe católica! – põe-te no alto e olha para o Oriente!” O Oriente, meus caros é o lugar da luz, o lado no qual o sol nasce e o dia começa; o Oriente é o próprio Cristo Jesus! Olhar para o Oriente é esperar o Dia de Cristo, o Dia sem fim, a Luz que não tem ocaso! Quem caminha sem olhar o oriente, caminha sem saber para onde vai; quem avança noutra direção, não caminha para a luz, mas vai ao encontro das trevas: "des-orienta-se"! “Levanta-te, põe-te no alto e olha para o Oriente!” Olha para o Cristo, vai ao seu encontro! Então, tu verás a salvação de Deus; tu experimentarás que o Senhor não é Deus de longe, mas de perto; tu experimentarás o quanto o Senhor é capaz de consolar o que chorava, de acalmar o que estava aflito, de reconduzir o transviado: “Vê teus filhos reunidos pela voz do Santo, desde o poente até o levante, jubilosos por Deus ter-se lembrado deles. Deus ordenou que se abaixassem todos os altos montes e as colinas eternas, e se enchessem os vales, para aplainar a terra, a fim de que Israel sua Igreja santa, seu povo eleito, caminhe com segurança sob a glória de Deus!” Vede, que é de paz que o Senhor nos fala, é a salvação que nos promete! Se agora lançarmos as sementes da vida entre lágrimas, haveremos de colher com alegria; se agora muitas vezes na tristeza formos espalhando as sementes, um dia, no Dia de Cristo, nosso Oriente bendito, com alegria voltaremos carregados com os frutos em feixes! As promessas do Senhor, meus caros, fazem-nos compreender que nossa vida tem sentido, que tudo quanto nos acontece pode e deve ser vivido à luz de Deus! Uma das grandes misérias do nosso tempo é a solidão humana. Não se trata de uma solidão qualquer, mas de uma sensação mortal de viver a vida diante de ninguém, de caminhar a lugar nenhum, de gastar energia e sonho para produzir vazio... Mas, quando voltamos o rosto para o Oriente, quando nos deixamos banhar por sua luz que, como uma aurora bendita já começa a difundir seus raios, então tudo se enche de paz e de alegria, porque tudo ganha um novo sentido! Pensai na vossa vida concreta, nas vossas semanas e dias feitos de experiências bem reais e miúdas... Pois bem, Deus, em Cristo, visita a nossa vida! No Evangelho de hoje, quando são Lucas narra o aparecimento de João Batista, o precursor do Messias, ele começa mostrando como a palavra do Senhor, como a sua salvação nos atinge e nos encontra bem no concreto de nossa vida, no nosso aqui e no nosso agora. A salvação não é um mito, a vinda do Senhor até nós não é uma estória de trancos... Escutai como é concreta a sua vinda, como tem uma história e uma geografia: “No décimo quinto ano do império de Tibério César, quando Pôncio Pilatos era governador da Judéia, Herodes administrava a Galiléia, seu irmão Filipe, as regiões da Ituréia e Traconítide, e Lisânias, a Abilene; quando Anás e Caifás eram sumo sacerdotes, foi então que a palavra de Deus foi dirigida a João, o filho de Zacarias, no deserto.” Vede, irmãos, e compreendei: a Palavra de Deus vem nós num “quando” e num “onde”. O “quando” é hoje, agora, neste período da nossa vida; o “onde” é aí onde você vive: na sua casa, no seu trabalho, nas suas relações, nos seus conflitos! É neste agora e neste aqui, neste “quando” e neste “onde” que Deus vem ao nosso encontro em Cristo Jesus! E o que devemos fazer para acolhê-lo? Como devemos proceder para que não venha na os em vão? Como agir para que a sua luz nos possa iluminar? Escutai ainda o Evangelho: “Preparai o caminho do Senhor, endireitai suas veredas. Todo vale será aterrado, toda montanha e colina serão rebaixadas; as passagens tortuosas ficarão retas e os caminhos acidentados serão aplainados. E toda carne verá a salvação de Deus”. Vê, meu irmão; presta atenção, minha irmã! É de ti que o Senhor fala; é à tua vida que ele se refere: queres ver a luz do Oriente? Queres dirigir-te para o Dia eterno? Queres realmente estar pronto para o Dia de Cristo no Natal, no “todo-dia” e no último Dia? Então, endireita agora teus caminhos, abaixa as montanhas da soberba e do orgulho, aterá os vales do medo, da covardia e do vão temor, e endireita as tortuosas estradas de teus vícios e de teus pecados! Aí sim, tu e toda carne verão a salvação de Deus: na celebração do Natal vamos vê-la reclinada num pobre presépio, no “todo-dia” vamos experimentá-la de tantos modos e em tantos momentos e, no último Dia, Dia de Cristo, iremos vê-la face a face como eterna delícia, alegria sem fim e vida imperecível! Vamos, irmãos, caminhemos com fé ao encontro do Senhor! E para que o nosso caminho não seja sem rumo e em vão, endireitemos desde agora as estradas de nossa vida! Levantemo-nos, ponhamo-nos no alto da virtude e vejamos: vem a nós a alegria do nosso Deus! dom Henrique Soares da Costa |
1º leitura (Bar 5,1 - 9) - AMBIENTEO “livro de Baruc” é um texto de autor desconhecido, embora se apresente como tendo sido redigido por Baruc, “secretário” de Jeremias, durante o exílio na Babilônia (cf. Bar 1,1 - 2). No entanto, a crítica interna revela (pelos dados pessoais que não quadram com aquilo que conhecemos de Jeremias, bem como pelo desenvolvimento de ideias e de perspectivas que são claramente posteriores à época do exílio) que é impossível atribuir esta obra ao “secretário” de Jeremias. O mais provável é que seja um texto escrito durante o séc. II a.C. na diáspora judaica. O autor convida os habitantes de Jerusalém a celebrar uma liturgia penitencial e exorta-os à reconciliação com Jahwéh. O texto que nos é proposto está inserido na 4ª parte do livro, integrado numa exortação e consolação a Jerusalém – muito ao estilo do Deutero-Isaías. Depois de convidar à confissão dos pecados (cf. Bar 1,15 - 3,8), o autor manifesta a certeza de que Israel, iluminado pela luz da sabedoria, voltará ao “temor de Deus” (cf. Bar 3,9 - 4,4). Seguir-se-á o perdão; por isso, o profeta convida Jerusalém a ter coragem (cf. Bar 4,5 - 37) e a alegrar-se com a atitude misericordiosa de Jahwéh, em favor do seu Povo pecador (cf. Bar 5,1 - 9). MENSAGEM O profeta começa por comparar Jerusalém infiel a uma mulher de luto, desanimada e aflita, sem razões para ter esperança. No entanto, a mensagem fundamental deste texto é: “esse tempo de luto terminou; Deus perdoou-te todas as tuas faltas e quer devolver-te a vida e a esperança”. Para dar corpo a essa promessa de um futuro novo, o autor fala do regresso dos “filhos” exilados, utilizando a linguagem do Deutero-Isaías e apresentando esse regresso como um novo êxodo da terra da escravidão (do pecado?) para a Jerusalém nova da justiça e da piedade. Tal ação resulta – apenas – do amor de Deus, sempre disposto a perdoar o afastamento dos filhos rebeldes e a reatar com eles uma história de libertação e de salvação. ATUALIZAÇÃO O Advento é um tempo favorável para o êxodo da terra da escravidão para a terra da liberdade. Neste tempo somos especialmente confrontados com as cadeias que ainda nos prendem e convidados a percorrer esse caminho de regresso que a bondade e a ternura de Deus vão aplanar, a fim de que possamos regressar à cidade nova da alegria e da liberdade. Em termos pessoais, quais são as escravidões que ainda nos prendem e nos impedem de acolher o Senhor que vem? As nossas comunidades são, verdadeiramente, oásis de justiça, de fraternidade, de comunhão, de partilha e de serviço? Que falta fazer, a nível comunitário, para acolher o dom de Deus e tornar realidade essa cidade da justiça e da piedade? “Vê os teus filhos… estão cheios de alegria porque Deus se lembrou deles” (Bar 5,5). É nesta atmosfera de alegria e de confiança serena na ação salvadora do nosso Deus que somos convidados a viver este tempo de mudança e a preparar a vinda do Senhor às nossas vidas. 2º leitura (Fl. 1,4 - 6.8 - 11) - AMBIENTEA Carta aos Filipenses é, talvez, a mais afetuosa das cartas de Paulo. É dirigida a uma comunidade a que Paulo se afeiçoou, que ama Paulo, que o ajuda e que se preocupa com ele. No momento em que escreve, Paulo está na prisão (em Éfeso?). Dos Filipenses, recebeu dinheiro e o envio de Epafrodito, um membro da comunidade, encarregado de ajudar Paulo em tudo o que fosse necessário. Enviando de volta Epafrodito, Paulo agradece, dá notícias, informa a comunidade sobre a sua própria sorte e exorta os Filipenses à fidelidade ao Evangelho. O texto da segunda leitura faz parte da “ação de graças” com que Paulo inicia a carta: ele agradece a Deus a fidelidade dos Filipenses e o seu empenho na difusão do Evangelho. MENSAGEM Paulo começa por manifestar a sua comoção pelo empenho dos Filipenses na difusão do Evangelho e na ajuda àqueles que se empenham no anúncio da Boa Nova (e de forma especial ao próprio Paulo, prisioneiro por causa do seu testemunho). Paulo sente uma grande ternura por esta comunidade atenta às necessidades dos evangelizadores, solidária com todos os que dão a sua vida à causa do Evangelho. Depois, Paulo pede a Deus que aumente a caridade dos Filipenses (apesar de ser uma comunidade modelo, nem tudo era perfeito a este nível: Paulo tem que pedir a duas senhoras para fazerem as pazes e não dividirem a comunidade – cf. Fl. 4,2 - 3). A vivência da caridade é fundamental para que os Filipenses possam aguardar, puros e irrepreensíveis, o dia da vinda de Cristo. ATUALIZAÇÃO A essência da Igreja de Jesus é ser missionária. “Ide e anunciai” – diz Jesus. Para que Jesus venha, para que a sua proposta de salvação chegue a todos os povos da terra, é necessário este compromisso contínuo com a evangelização. As nossas comunidades sentem este imperativo missionário? Sentem a necessidade de fazer Jesus nascer para todos os povos? Estão atentas às necessidades e são solidárias com aqueles que dão a sua vida à causa do anúncio de Jesus? É com ternura e carinho que acolhemos os catequistas das crianças, dos jovens, dos adultos da nossa comunidade? Só é possível acolher, com um coração puro e irrepreensível, o Senhor que vem se a caridade for, entre nós, uma realidade viva. Mas, frequentemente, a vida das nossas comunidades cristãs é marcada pelas divisões, pelas murmurações, pelas lutas pelo poder, pelas tentativas de manipular, pelos interesses mesquinhos e egoístas, pelas guerras de sacristia… Será possível “esperar com coração puro e irrepreensível o Senhor que vem” num contexto de divisão? Será possível à comunidade ser o espaço onde Jesus nasce, se não se aceitam todas as pessoas e em especial os pequenos e os pobres? É possível que a nossa comunidade não seja, ainda, um modelo de perfeição: somos um grupo de irmãos com os nossos limites e defeitos… Sem desânimo, devemos ter presente que somos uma comunidade “a caminho”, em processo de construção. O que é importante é que saibamos acolher o Senhor que vem e deixar que Ele nos conduza à plenitude da vida e do amor. Evangelho – Lc. 3,1 – 6 - AMBIENTEO texto de hoje segue-se imediatamente ao “evangelho da infância”, na versão lucana. Aqui começa, oficialmente, o Evangelho – isto é, o anúncio da Boa Nova de Jesus. Antes de começar a descrever a ação libertadora e salvadora de Jesus no meio dos homens, Lucas vai apresentar João Batista, o profeta que veio preparar a chegada do Messias de Deus. MENSAGEM Lucas, como compete a alguém que “tudo investigou cuidadosamente desde a origem” (Lc. 1,3), começa por situar o quadro de João Batista num determinado enquadramento histórico. Nomeia 7 personagens (desde o imperador Tibério César, até ao sumo sacerdote Caifás), num esforço de situar no tempo os acontecimentos da salvação (estaremos aí pelos anos 27/28). Ele sugere, assim, que esta aventura do Deus que vem ao encontro dos homens para lhes apresentar um projeto de salvação e de felicidade não é uma lenda, perdida nas brumas do tempo e da memória dos homens… Mas é uma história concreta, com acontecimentos concretos, que podem ser ligados a um determinado momento histórico e a uma terra concreta. Num segundo momento, Lucas apresenta a figura de João Batista. Ele é “uma voz que grita no deserto” e que convida a preparar os caminhos do coração para que Jesus, o Messias de Deus, possa ir ao encontro de cada homem. Lucas começa por sugerir que a missão profética de João lhe é confiada por Deus: o chamamento de João é apresentado com as mesmas palavras do chamamento de Jeremias (cf. Jr. 1,1, no texto grego), para marcar o caráter profético do seu anúncio. Depois, Lucas situa num espaço geográfico a atividade profética de João: ele prega em “toda a zona do rio Jordão” (Mateus e Marcos, situam-no no deserto)… Trata-se de uma região bastante povoada, sobretudo depois das construções de Herodes e de Arquelau: o anúncio profético de João destina-se aos homens, que são convidados a acolher o Messias que está para fazer a sua aparição no mundo. Finalmente, concretiza-se o âmbito da missão: João “proclama um batismo de conversão (”batisma metanoias”), para a remissão dos pecados”… A palavra “metanoias” sugere uma revolução total da mentalidade que leva a uma transformação total da forma de pensar e de agir… Para acolher o Messias que está para chegar, é necessário um processo de conversão que leve a um re-equacionar a vida, as prioridades, os valores; só nos corações verdadeiramente transformados, o Messias encontrará lugar. O Evangelho de hoje conclui-se com uma citação tomada do Deutero-Isaías (cf. Is. 40,3 - 5), onde serve para anunciar aos exilados na Babilônia a libertação e o regresso a casa, num novo e triunfal êxodo. Lucas sugere, desta forma, que está para chegar a libertação: é necessário, no entanto, que os destinatários do projeto libertador de Deus aceitem percorrer esse caminho, se deixem transformar e acolham “a salvação de Deus”. ATUALIZAÇÃO João é o profeta, cujo anúncio prepara o coração dos homens para acolher o Messias. A dimensão profética está sempre presente na comunidade dos batizados. A todos nós, constituídos profetas pelo batismo, Deus chama a dar testemunho de que o Senhor vem e a preparar os caminhos por meio dos quais Jesus há-de chegar ao coração do mundo e dos homens. Preparar o caminho do Senhor é convidar a uma conversão urgente, que elimine o egoísmo, que destrua os esquemas de injustiça e de opressão, que derrote as cadeias que mantêm os homens prisioneiros do pecado… Preparar o caminho do Senhor é um re-orientar a vida para Deus, de forma a que Deus e os seus valores passem a ocupar o primeiro lugar no nosso coração e nas nossas prioridades de vida. Esse processo de conversão é um verdadeiro êxodo, que nos transportará da terra da opressão para a terra nova da liberdade, da graça e da paz. Só quem aceita percorrer esse “caminho” experimentará a “salvação de Deus”. A preocupação de Lucas em situar concretamente, no espaço e no tempo, os acontecimentos da salvação chama a atenção aos profetas que anunciam a “vinda do Senhor”, no sentido de encarnar o seu anúncio no contexto cultural e político onde estão inseridos, a ir ao encontro do homem concreto, com a sua linguagem, os seus problemas concretos, as suas ânsias, os seus dramas, sonhos e esperanças. A linguagem com que o profeta anuncia a salvação não pode ser uma linguagem desencarnada, mas tem se ser uma linguagem viva, questionante, interpelativa. |
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A mensagem do Evangelho deste
2º domingo do Advento é de confiança e de esperança.
Para colhermos bem esta mensagem é necessário conhecer o
ambiente histórico do texto bíblico em questão. Pois
bem, Lucas situa o início da atividade pública de João
Batista e de Jesus num contexto histórico-geográfico bem
determinado no tempo. Com precisão, o evangelista cita
sete personagens contemporâneos a este acontecimento.
O número sete na Bíblia tem um
valor simbólico: o de totalidade. Deste modo, Lucas quer
indicar que toda a história, pagã e judaica, profana e
sacra, está envolvida nos acontecimentos que ele está
prestes a narrar. São fatos que dizem respeito a toda a
humanidade com as suas instituições e estruturas,
religiosas e civis.
Estas sete pessoas são: o
imperador Tibério César, verdadeiro soberano no mundo
Mediterrâneo, cujo décimo quinto ano de seu império
corresponde, segundo o cálculo comum, ao ano 28 - 29
d.C. Ele é o sucessor do imperador Augusto, aquele sob
jurisdição do qual nasceu Jesus (Lc 2,1).
Os quatro nomes seguintes
fazem referência ao governador e três tetrarcas entre os
quais havia sido dividido o território de Herodes, o
Grande, o que tentara matar Jesus. São eles: o
governador Pôncio Pilatos, que condenará Jesus à morte
de cruz (Lc 23,24); Herodes Antipas, que aprisionará e
decapitará João Batista (Lc 3,20; 9,9), e, como tetrarca
da Galiléia, tinha jurisdição sobre Jesus (Lc 13,31);
Filipe e Lisânias não têm um significado específico, mas
servem para completar o quadro do governo. Anás e Caifás
são mencionados como as máximas autoridades judaicas,
que se escandalizarão com o comportamento de Jesus,
solicitando a sua condenação à morte.
Era um tempo difícil para o
povo de Israel, nenhuma esperança o animava. Parecia
inevitável o domínio opressor do imperador Tibério. O
povo vivia frustrado, e carregava a “veste de luto e de
aflição”, como no tempo do profeta Baruc (Br. 5,1). Mas,
precisamente neste tempo difícil, a Palavra de Deus foi
dirigida a João, o filho de Zacarias, no deserto, o qual
percorreu toda a região do Jordão, com uma mensagem de
conversão para o perdão dos pecados.
A salvação de Deus é para
todos. E converter-se é a primeira e radical condição
para acolher a salvação que está pra chegar. Deus não
obriga ninguém a acolher a Pessoa e a Palavra de seu
Filho, mas ele espera de todos uma resposta.
Infelizmente, este convite, como a voz de João Batista,
ressoa frequentemente no deserto, na indiferença e na
aridez. Os pregadores de penitência nem sempre são bem
aceitos, já que estamos muito mais dispostos a escutar
quem nos confirma no nosso comportamento e nas nossas
idéias do que quem diz que estamos errados e que devemos
mudar.
Assim, a primeira etapa deste
caminho de conversão consiste exatamente em remover tudo
aquilo que pesa na nossa consciência, admitindo os
nossos pecados. São aqueles vales, que cavamos no tempo,
com a nossa infidelidade. São as colinas de orgulho e
arrogância, criando uma barreira que nos impede de
libertarmos o nosso coração. Deus, porém, não se espanta
com estes vales, ele desce lá embaixo procurando-nos, na
esperança de poder nos levar de volta em seus braços
para as pastagens alegres da vida.
Como cristãos, cada um de nós,
membro do “Corpo de Cristo, recebeu a tarefa de anunciar
o seu Evangelho até os confins da terra, isto é,
transmitir aos homens e mulheres deste tempo uma boa
nova que não só ilumina, mas muda a vida: o próprio
Cristo, ressuscitado, vivo! A missão da Igreja não
consiste em defender poderes, nem obter riquezas; a sua
missão é doar Cristo, o bem mais precioso do homem que
Deus mesmo nos dá no seu Filho” (Bento XVI). Esta missão
é cheia de obstáculos, mas São Paulo nos anima: “tenho a
certeza de que aquele que começou em vós uma boa obra há
de levá-la a perfeição até o dia de Cristo Jesus” (Fl
1,6).
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Quais são os “desertos” de minha vida hoje?
·
Em quais situações experimento solidão, intempérie,
prova, tentação e purificação?
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Deixo que Deus me fale no deserto? Escuto sua Palavra?
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Aceito que a salvação de Deus é para todos os homens e
mulheres? Tenho neste sentido abertura de coração?
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Aceito o convite de João para converter meu coração?
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Quero realmente voltar a Deus?
·
O que significa em concreto para meu viver este
“batismo” de purificação?
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Tenho a atitude valente do Batista de convidar a meus
irmãos a mudar de vida e reencontrar-se com o Senhor?
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O que deverei gritar nos “desertos” da vida
contemporânea?
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O que posso fazer para preparar o caminho para a vinda
de Deus?
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Quais obstáculos deverei tirar de minha vida para que
Deus possa entrar em mim?
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Quais vales terei que aplainar e que região montanhosa
terei que converter em planície em minha vida hoje?
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Quais caminhos “tortuosos” deverei endireitar hoje com a
ajuda de Deus?
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Primeira leitura: Baruc 5,1 - 9 ESPERANÇA DE REINTEGRAÇÃO E ALEGRIA O profeta anuncia uma mensagem de esperança para Jerusalém despojada de seus filhos. O texto lembra o tempo em que Judá foi deportado para o cativeiro na Babilônia. Deus teria abandonado o seu povo, repudiado Jerusalém, sua esposa, e seus filhos? O autor personifica Jerusalém como uma esposa abandonada por Javé. Seu marido teria deportado para longe seus filhos? Este livro, escrito em grego na época helenística pelo fim do 2º século a.C., tem uma afinidade com Isaías 40,3 - 5. A leitura de Baruc transborda de otimismo e entusiasmo, para animar os judeus da dispersão que viviam em circunstâncias difíceis. De fato, nestes versículos o autor, que personifica Jerusalém como esposa de Javé, convida-a a trocar as roupas de luto e revestir-se de alegria, pois é o início da libertação. A cidade é chamada a vestir o manto da justiça que Deus lhe oferece, pois o povo libertado está reabilitado, e vai viver de agora em diante não do poder das armas, mas da misericórdia de Deus, que se põe do lado dos oprimidos. Deus dá ao povo e à cidade um nome novo, uma nova identidade, “Paz da Justiça e Glória da Religião”, anunciando que nesta comunidade as relações humanas serão fundadas na justiça e voltadas para a paz. Assim, as pessoas poderão se relacionar de modo perfeito com Deus (religião) e o próprio Deus habitará no meio delas (glória). Jerusalém recebe ordens para se levantar do pó onde está cheia de dor e subir a um lugar elevado e contemplar o retorno alegre de seus filhos, transportados em tronos (v. 6), pois Deus se lembrou deles. O cortejo é mágico. Supera de forma extraordinária a saída do Egito, quando foi preciso enfrentar o deserto, o sol quente e o calor. Desta feita o próprio Deus manda rebaixar as colinas e encher os buracos, para que o caminho seja plano. As florestas e as árvores perfumadas irão oferecer abrigo ao povo (v. 8). O autor mostra aqui o contraste entre a saída e a chegada do povo. Ao sair de Jerusalém foram a pé, como escravos. Agora, ao retornarem, são conduzidos por Deus transportados em tronos (v. 6). Segunda leitura: Filipenses 1,4 - 6.8 - 11 AÇÃO DE GRAÇAS E ORAÇÃO; INTEGRIDADE A comunidade de Filipos nasceu na casa de uma senhora de nome Lídia, e também na família do carcereiro cuja vida Paulo havia salvo (Atos dos Apóstolos 16,11 - 40). Paulo escreveu esta carta do seu cárcere provavelmente no ano 53 d.C. Na prisão ele experimentou que a união com Cristo é mais eficaz que a ação, e por isso ele não tem medo da morte por causa de Cristo. Filipos foi a primeira cidade da Europa a receber o anúncio. Esta comunidade ficou sabendo da prisão de Paulo e enviou-lhe uma ajuda, mostrando solidariedade. Esta carta é formada por três bilhetes que Paulo escreveu a esta comunidade. No texto de hoje Paulo reza e faz um pedido. Sua oração é marcada pela alegria que resulta da participação da comunidade na difusão do Evangelho desde que ficou preso. Sua oração é uma ação de graças a Deus pela perseverança da comunidade e pela solidariedade que viveu. Ele tem a convicção de que quem está agindo ali é o próprio Deus. Acredita que o Evangelho tem uma força extraordinária capaz de levar as pessoas a se comprometerem em profundidade com o projeto de Deus e de criar novos laços. Por fim, Paulo pede que o amor entre os membros da comunidade cresça sempre mais, amor que se concretiza discernindo o que é melhor a ser feito, pois o amor assim vivenciado gera a santidade. Evangelho: Lucas 3,1 - 6 JOÃO BATISTA PREPARA A VINDA DO SENHOR Depois do “Evangelho da infância”, Lucas segue o esquema tradicional: a atividade pública com três narrações (missão de João Batista, batismo de Jesus e as três tentações). Nosso texto apresenta a investidura profética do Batista. O evangelista se preocupa em descrever o quadro geográfico e histórico dos anos 30, procurando dar uma dimensão histórica e um significado teológico à vida de Jesus. Mostra o início da missão de Jesus, contando como era a sociedade daquele tempo. Diz que há um Imperador, Tibério, que domina o mundo. Pilatos, romano que está a serviço do poder central, governa a Judéia entre os anos 20 - 36 d.C. Herodes Antipas administra a Galiléia, lugar onde Jesus pregou. Ele é filho de Herodes, o Grande, que se sentiu ameaçado no poder e mandou matar as crianças de Belém (Mateus 2,13 - 18). Filipe, irmão de Herodes Antipas, é administrador da Ituréia e de Traconítide. Lisânias é administrador de Abilene. Toda esta história oficial é feita de opressão e abuso do poder. Para Lucas, o centro da história não está neste poder, nem nos pontífices que detêm o poder religioso em Jerusalém, mas na palavra de Deus que chega com João Batista no deserto. Em seguida Lucas apresenta as lideranças religiosas judaicas: Anás e Caifás. Anás foi sumo sacerdote de 6 a 15 d.C. e Caifás de 17 a 37 d.C. Mesmo depois de perder o poder, Anás continuou por muitos anos sendo o homem forte da aristocracia sacerdotal e do Sinédrio. Direta ou indiretamente, Jesus irá se confrontar com esses personagens no contexto de sua paixão: com o sumo sacerdote (22,55), com o Sinédrio (22,66s), com Pilatos (23,2ss.13ss) e com Herodes (23,8ss). O 15º ano do império de Tibério César ocorre mais ou menos pelos anos 27 - 28 d.C. Pilatos governou a Judéia de 26 a 36 d.C. e Herodes Antipas, tetrarca da Galiléia e da Peréia, governou de 4 a.C. a 39 d.C. e Filipe, de 4 a.C. a 34 d.C. O caminho de Jesus é diferente. Não passa por esta história oficial, marcada pela ambição, pelo jogo de interesses e pela morte. Ele inicia quando João Batista, filho de Zacarias, preparava o Batismo de conversão e o perdão dos pecados, convidando o povo a iniciar uma nova história. Lucas apresenta João Batista como o profeta que prepara o caminho para Jesus. Ele anuncia uma nova história com as palavras de Is 40,3 - 5. Assim como Isaías anunciava o fim do exílio e o início da vida nova, o Batista anuncia o fim da história de opressão e o início da história que Jesus começaria a construir. Este precursor devia vir do deserto (Is 40,3). O deserto é o ambiente onde o Batista recebe e proclama a Palavra. O deserto é, na Bíblia, o lugar dos grandes caminhos de liberdade. Ao voltarem do Egito e da Babilônia, os israelitas passaram pelo deserto. É o lugar da experiência da libertação. O caminho de Jesus é uma proposta aberta para todos, contanto que se convertam e endireitem o próprio caminho, pois assim “todo homem verá a salvação” (v 6 - Is 40,5). O Batismo de João Batista era, para os judeus que intuíram a insuficiência da purificação ritual (Lc 16; Nm 19,1 - 10), a oportunidade para receber o perdão dos pecados. Por isso o Batista insiste neste gesto exterior no processo de conversão, pois sem ele o outro seria vazio. Para ser perdoado é preciso vontade determinada de mudar o coração e as ações radicalmente, vontade de ter discernimento. A pregação sobre a vinda do Senhor consistia, portanto, neste gesto de transformação interior radical, em assumir uma mentalidade nova, em dar direção para a vida. REFLEXÃO Lucas, ao escrever seu evangelho, tinha em mente o início das comunidades cristãs, os apóstolos itinerantes, a força da palavra de Deus anunciada que gerava conversão e o Batismo que selava a fé. No começo do evangelho de hoje, Lucas faz a sincronia da história da salvação de Deus com a história humana. Detalha o momento da história política (romana) e nacional (judaica), que constitui o enquadramento temporal no qual a palavra de Deus entra em ação pela boca de João Batista. Neste tempo “a palavra de Deus veio sobre João” . Esta palavra se encarna na história e pede uma mudança estrutural do homem e da sociedade. O Batismo de João é resposta à Palavra de Deus, que pede conversão individual e estrutural. João Batista é um profeta mensageiro esquálido e pobre, pois Deus não necessita como veículo de sua graça do forte, do que tem status social ou do que tem poder político. Conversão pessoal é o apelo que soa para nós hoje. É Deus quem fala “Endireitem os caminhos”, ou seja, nossas vidas, com nossa conversão. Devemos abaixar (aplainar) os montes da soberba e do orgulho e nos tornar humildes. Eliminar a falsidade, a hipocrisia, ser leais com Deus, com os outros e conosco mesmos. Devemos eliminar as incertezas e os medos e tomar decisões. Tudo isto é obra da ascese, que exige um exame de consciência para ver quais são nossos defeitos. Depois é necessário empenho para corrigi-los, confiando na ajuda de Deus. Só assim se realizarão as palavras de João Batista: “Todo homem verá a salvação.” O trabalho “topográfico” que nos é proposto para preparar um caminho plano significa, no nível da conversão pessoal, rebaixar a soberba, origem de tantos pecados, reconhecendo-nos pecadores. Rebaixar as desigualdades e levantar os direitos humanos, enchendo os vazios da fome e da pobreza com nossa solidariedade. Hoje como ontem, precisamos de pessoas capazes de operar mudanças radicais na sociedade, como São Francisco de Assis, que viveu a pobreza evangélica; como Teresa de Ávila, que sem estudos renovou em Salamanca a contemplação religiosa e toda a espiritualidade do século XVI e dos seguintes. Para isso, é preciso renovação pessoal, mudança de conduta. As palavras: “Preparem os caminhos do Senhor”, não dizem respeito somente a nós, mas também aos outros. Devemos cooperar para a salvação dos outros. Devemos aplainar também as estradas dos outros, para que cheguem à salvação. Jesus nos diz particularmente: “Confortem as mãos frouxas, firmem os joelhos vacilantes. Digam àqueles que têm o coração perturbado: Coragem, não tenham medo” (Is. 35,1 - 10). Ora, todos os dias nos encontramos com pessoas que estão desorientadas no aspecto mais essencial de sua existência. Sentem-se incapazes de ir até Deus e andam como paralíticos pelos caminhos da vida. Temos que guiá-las para o sentido de suas vidas. É significativo de Paulo na 2º leitura “... Pelo motivo da colaboração de vocês para a difusão do Evangelho desde o primeiro dia...” Está historicamente comprovado que o cristianismo se difundiu mais rapidamente não tanto pela pregação dos apóstolos, quanto pelo testemunho dos cristãos. É por isso que o Vaticano II insiste no apostolado dos leigos, pois hoje mais do que nunca os leigos são chamados a colaborar na Igreja. Mas as estatísticas mostram que uma parte mínima dos leigos exerce suas atividades de cristãos batizados. Qual a modalidade específica de nosso apostolado? Paulo diz que é na caridade e no discernimento, ou seja, no amor ao próximo. Esta é a dívida que todos temos. Com esta modalidade de apostolado veremos os frutos que serão feitos da felicidade de vermos voltar para Deus os filhos que estão distantes dele (1ª leitura). Raul Foullereau escreveu: “Sonhei que um homem se apresentava para o juízo diante de Deus, e lhe disse: “Veja, meu Deus, observei tua lei, não fiz nada desonesto, não dei maus exemplos... Senhor, minhas mãos estão limpas.” Deus, porém, lhe respondeu: “Sem dúvida, tuas mãos estão limpas, mas também estão vazias...”. Como nos apresentaremos diante do Senhor? Com mãos sujas, limpas ou cheias de boas obras? Baruc está no exílio com seu povo na Babilônia. Tem a missão de desvendar os mistérios de Deus para o povo que vive um momento dramático. Jerusalém está destruída na pátria distante. Se de um lado o exílio é castigo, de outro a misericórdia de Deus é a promessa de um futuro esplêndido. Por isso Baruc convida o povo a esquecer o luto e a aflição e se revestir do “manto da justiça” e colocar na cabeça um diadema de glória. E assim aconteceu. O povo voltou do exílio e reconstruiu Jerusalém e o Templo de maneira mais esplêndida que antes. Charles de Foucauld declarou que foi conduzido a Cristo e à Igreja, de militar mundano que era, pelo testemunho de sua prima Madame de Bonay, com seu silêncio, sua bondade, docilidade e santidade. Convertido, ele pedirá a seus seguidores que estejam simplesmente presentes entre os homens como testemunhas silenciosas do amor de Cristo. Tomás Merton fala da influência profunda que recebeu aos 12 anos de uma família católica: “Eram santos, com aquela santidade eficaz e convincente que consiste em levar a vida ordinária de modo sobrenatural.” Lucas apresenta João Batista num cenário religioso em cujo vértice está Tibério César, dono do mundo, a quem devem se curvar até os sumos sacerdotes, autoridades religiosas mais altas do povo. Mas no meio deste povo humilhado a palavra de Deus desce sobre João Batista, que anuncia a salvação. O homem pensa em reformar e transformar o mundo com armas, guerras e astúcias. Deus, ao contrário, transforma o homem penetrando silenciosamente em seu coração. Kierkegaard, pai do existencialismo no século passado, dizia: “A condição do mundo atual, aliás de toda a vida, está doente. Se eu fosse médico e me perguntassem: - “O que você recomendaria para curá-la”, eu responderia: “Procurem o silêncio, façam com que os homens silenciem, pois a palavra de Deus não pode ser ouvida assim. É preciso entrar num convento igual àquele do qual Lutero saiu”. João Batista anuncia a conversão, ou seja, deixar de prestar atenção neste mundo e voltar-se para o Senhor, fazer como Maria: “Faça-se em mim a tua vontade”. Domingos Sávio disse um dia a Dom Bosco que queria ser santo, mas não sabia como fazer. Então Dom Bosco lhe disse: “É fácil, fique sempre alegre, faça bem suas obrigações de piedade e de estudo. Por amor a Deus, esforce-se para conquistar para o Senhor seus companheiros”. Neste domingo o Senhor nos convida a ver e gozar a salvação, pois é sua vontade, e João Batista nos diz quais são as condições: converter-se, endireitar os caminhos, encher os vales e buracos, ou seja, preenchê-los com a oração, o recolhimento, os sacramentos, a generosidade... Rebaixar os montes, ou seja, tirar tudo que é demais: soberba, prepotência, preguiça, egoísmo... Esta salvação está aberta a todos, mas só se concretiza em quem a acolhe. Numa articulação de redes de irrigação, existem inúmeros canais até chegar ao campo da terra. Quando se abrem os canais grandes, estes chegam aos pequenos. Se não for aberto o tampão de ingresso da água no terreno, o campo permanece seco, pois a água não consegue chegar. Assim, o campo fértil pode ficar árido por falta de água. O mesmo exemplo vale para o aparelho circulatório do sangue, que só leva a vida onde o sangue chega. padre José Antonio Bertolin, OSJ |
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"Preparai os caminhos do Senhor" Voz daquele que grita O Advento deste ano toma como ponto de partida a reflexão sobre o maior profeta, João Batista. O texto evangélico é solene, mostrando as autoridades do tempo para dizer que João não é acaso na história - um louco a mais, se diria - mas vive em nosso tempo e inaugura o tempo de Deus. Deus entra na história da humanidade e faz dela história da salvação. João se faz profeta como Isaias (45,3-5) e Baruc (5,7) que preparam os caminhos para a vinda gloriosa do Senhor. Sua profecia alude às grandes vindas de Deus ao povo quando são preparados os caminhos. O caminho a ser preparado, agora, é o do coração, por isso prega a conversão. João prega no deserto. O povo de Deus se constituíra no deserto. Como Jesus, ele inicia com a pregação da conversão para preparar os caminhos do Senhor. Esta é a verdadeira preparação. Deus não vem mais para um povo privilegiado, mas a salvação é para todos, pois "todas as pessoas verão a salvação" (Lc. 3,6). Devemos perguntar se estamos preparando caminhos para a permanente vinda do Senhor para salvar o seu povo ou sendo empecilhos. "Nenhuma atividade terrena impeça de ir ao encontro do vosso Filho" (oração). Quem sabe precisamos ouvir os profetas que falam do deserto, fora dos caminhos batidos onde se vive o jogo dos interesses pessoais. Não são condenados os valores humanos. Basta que sejam julgados com sabedoria (pós-comunhão). A sabedoria existe somente nos corações convertidos. Maravilhas fez conosco o Senhor O profeta Baruc faz uma profecia de consolo para um povo que fora levado para o exílio, abandonado por culpa de seus desvios. Jerusalém é o símbolo do sofrimento do povo. Ela, como esposa abandonada, recebe de volta toda sua glória. O profeta descreve a grande transformação: "Saíram, caminhando a pé, levados pelo inimigo. Deus os devolve com honras, como príncipes reais" (Bc. 5,1,6): O Salmo expressa bem esse sentimento de libertação: "Quando o Senhor reconduziu os nossos cativos, parecíamos sonhar. Encheu-se de sorriso nossa boca. Nossos lábios de canções. Entre os gentios se dizia: "Maravilhas fez com eles o Senhor!" (Sl. 125,2). A história do povo de Israel está pontilhada das maravilhas de Deus. O povo peca, Deus castiga e depois recupera o antigo esplendor. Nossa história de povo redimido em Cristo, tem também maravilhas feitas pelo Senhor. Infelizmente não reconhecemos essas maravilhas. João Batista veio como profeta para abrir esse caminho de maravilhas para a vinda do Cristo que traz uma salvação completa. Que vosso amor cresça sempre A carta de Paulo aos filipenses é como um exemplo do resultado dos caminhos abertos para nossa salvação. Paulo se alegra pela vivência que a comunidade tem do Evangelho. Deus agiu pelo apóstolo Paulo, grande profeta, que lhes anunciou a salvação. A comunidade correspondeu. Paulo insiste que ela não pode parar, mas deve crescer no amor e no discernimento do que é melhor. A mensagem de João Batista para nossa vida neste Advento é reconhecer as maravilhas que Deus operou em nós. O reconhecimento leva-nos a aperfeiçoar nossa conversão contínua. Por outro lado temos que continuar a profecia de João, abrindo os caminhos do Senhor para que a salvação chegue a todos. 1.O Advento reflete a figura de João. Ele nasce em um tempo definido, não é somente uma figura. Deus entra na história da humanidade e faz dela história da Salvação. João prepara o caminho convidando à conversão. Esses são os montes a abaixar e os caminhos a abrir. Devemos ouvir os profetas do deserto. 2.O profeta Baruc (palavra que significa abençoado - bento) anuncia o consolo que Deus dá a seu povo depois de todos os sofrimentos que passou por causa de seus pecados. Reconhece que Deus fez por eles maravilhas. João veio preparar o caminho para a salvação completa realizada por Cristo. 3.A carta de Paulo aos Filipenses é como um exemplo do resultado dos caminhos abertos à salvação. Ele anunciara o evangelho e eles corresponderam. Não pode parar. Devem crescer no amor e no discernimento. Deus nos convoca hoje para reconhecer as maravilhas que Deus operou em nós. Reconhecer é converter-se mais para nos tornarmos profetas que abrem caminhos para o Senhor. Trator de Deus
O profeta Baruc narra a recuperação do povo. Não tem
quem agüente tanto sofrimento! A cidade, símbolo do
povo, se recupera! É Deus que age. Pega seu trator, faz
uma estrada maravilhosa no deserto. Eles foram levados
para o exílio como escravos e voltam como reis
vencedores. No Novo Testamento aparece um homem como aquele trator que Deus usou para fazer uma estrada no deserto. É João. Ele entra de sola para abrir um caminho para Deus passar. Não é uma história. É um fato que acontece no tempo, não na esperança. Hoje a gente precisa de um trator bom para que Deus faça sua entrada nesse Natal. A salvação é para todos. Sejamos um trator que prepara o caminho de Deus. padre Luiz Carlos de Oliveira |
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Podemos situar o tema deste domingo à volta da missão profética. Ela é um apelo à conversão, à renovação, no sentido de eliminar todos os obstáculos que impedem a chegada do Senhor ao nosso mundo e ao coração dos homens. Esta missão é uma exigência que é feita a todos os batizados, chamados – neste tempo em especial – a dar testemunho da salvação/libertação que Jesus Cristo veio trazer. A primeira leitura - “livro de Baruc”. O profeta começa por comparar Jerusalém infiel a uma mulher de luto, desanimada e aflita, sem razões para ter esperança. No entanto, a mensagem fundamental deste texto é: “esse tempo de luto terminou; Deus perdoou-te todas as tuas faltas e quer devolver-te a vida e a esperança”. Sugere que este “caminho” de conversão é um verdadeiro êxodo da terra da escravidão para a terra da felicidade e da liberdade. O autor convida os habitantes de Jerusalém a celebrar uma liturgia penitencial e exorta-os à reconciliação com Jahwéh. Durante o percurso, somos convidados a despir-nos de todas as cadeias que nos impedem de acolher a proposta libertadora que Deus nos faz. A leitura convida-nos, ainda, a viver este tempo numa serena alegria, confiantes no Deus que não desiste de nos apresentar uma proposta de salvação, apesar dos nossos erros e dificuldades. O Advento é um tempo favorável para o êxodo da terra da escravidão para a terra da liberdade. Neste tempo somos especialmente confrontados com as cadeias que ainda nos prendem e convidados a percorrer esse caminho de regresso que a bondade e a ternura de Deus vão aplanar, a fim de que possamos regressar à cidade nova da alegria e da liberdade. O Evangelho: “Uma voz clama no deserto: ‘Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas”. O profeta João Baptista, que convida os homens a uma transformação total quanto à forma de pensar e de agir, quanto aos valores e às prioridades da vida. Preparar o caminho do Senhor é convidar a uma conversão urgente, que elimine o egoísmo, que destrua os esquemas de injustiça e de opressão, que derrote as cadeias que mantêm os homens prisioneiros do pecado… Preparar o caminho do Senhor é um re-orientar a vida para Deus, de forma a que Deus e os seus valores passem a ocupar o primeiro lugar no nosso coração e nas nossas prioridades de vida. Esse processo de conversão é um verdadeiro êxodo, que nos transportará da terra da opressão para a terra nova da liberdade, da graça e da paz. Só quem aceita percorrer esse “caminho” experimentará a “salvação de Deus”. Para que Jesus possa caminhar ao encontro de cada homem e apresentar-lhe uma proposta de salvação, é necessário que os corações estejam livres e disponíveis para acolher a Boa Nova do Reino. É esta missão profética que Deus continua, hoje, a confiar-nos. A segunda leitura chama a atenção para o fato de a comunidade se dever preocupar com o anúncio profético e dever manifestar, em concreto, a sua solidariedade para com todos aqueles que fazem sua a causa do Evangelho. Sugere, também, que a comunidade deve dar um verdadeiro testemunho de caridade, banindo as divisões e os conflitos: só assim ela dará testemunho do Senhor que vem. Enfim, a voz de João ressoa ainda nos nossos ouvidos, para que a Palavra possa penetrar sempre nos nossos corações. João desapareceu, mas a Palavra, eterna, feita carne, está sempre presente, porque Jesus ressuscitou, está vivo para sempre. Sobre ele a morte não tem mais nenhum poder, nem qualquer outro poder, político, militar, econômico e mesmo religioso! Esta Palavra é dada a nós, hoje. Quando deixamos a Palavra iluminar o nosso caminho e comemos o Pão da Vida – as duas mesas da liturgia eucarística – é Jesus vivo que vem endireitar os nossos caminhos, preencher as nossas ravinas interiores. Então, tornamo-nos porta-vozes da Palavra. Vendo-nos, os homens podem pressentir, pelo menos, a salvação de Deus. Ao concluir convidar todos a oração: “Deus fiel, proclamamos a infinita paciência que puseste em ação ao longo dos séculos para preparar a vinda do teu Filho à nossa humanidade. Nós Te damos graças pelo envio dos profetas até João Baptista. Nós Te pedimos por todas as nossas comunidades: aplanai os caminhos que nos ligam uns aos outros e nos abrem o caminho para Ti”. padre Joaquim Garrido – padre Manuel Barbosa – padre Ornelas Carvalho |
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1 leitura - Br 5,1 - 9 O livro atribuído a Baruc, secretário de Jeremias, é um dos sete livros deuterocanônicos. Os livros deuterocanônicos são os livros que faltam na Bíblia dos protestantes. São os seguintes: Tobias, Judite, Sabedoria, 1º e 2º Macabeus, Baruc e Eclesiástico. Também são deuterocanônicos Ester 10,4 - 16,24 e Dn. 3,24 - 90; 13 e 14. Embora o livrinho tenha sido escrito provavelmente no séc. II a.C., ele se situa no séc. VI a.C., quando os habitantes de Judá e Jerusalém foram exilados para a Babilônia. A pergunta fundamental é esta: teria Deus abandonado definitivamente seu povo, sua esposa, seus filhos? É claro que não. O livrinho vai mostrar que Deus continua fiel às suas promessas. O que aconteceu foi culpa do povo. “Se houver arrependimento e conversão, poderão confiar no perdão divino: serão reunidos de novo em Jerusalém, que é para sempre a cidade de Deus”. Nosso trecho pretende trazer esperança para Jerusalém, cujos filhos estão dispersos entre as nações. Quais são os sinais de esperança na misericórdia do Deus libertador? - A troca de roupa de luto pelo revestimento de glória de Deus. Mudar de roupa é símbolo de libertação. - Vestir o manto da justiça que implica na reabilitação do povo, sua conversão e sua confiança na misericórdia do Deus dos oprimidos. - A coroa de glória na cabeça que significa o restabelecimento do esplendor de Jerusalém diante das nações. - Um nome para sempre que significa uma nova identidade fundada na justiça e na paz. - O fato de Jerusalém já poder contemplar seus filhos voltando não mais na humilhação (= a pé) como partiram, mas com triunfo numa carruagem real. - O fato de Deus mandar aplainar os caminhos para o retorno festivo de Israel. Ele quer que seu povo volte por segurança, à sombra de árvores aromáticas, guiado pela própria glória de Deus. - Tudo isto, porque Deus é misterioso. A mensagem que tiramos de tudo isso, e que serve para Judá, para a Igreja, para nossas comunidades, para você e para mim, é esta: a misericórdia de Deus nosso Pai é maior que todas as crises e tragédias humanas. Relembre alguns sinais da misericórdia do Pai em sua vida, na vida da Igreja e na vida da comunidade. 2a leitura - Fl 1,4 - 6.8 - 11 Este trecho pode ser sintetizado em uma oração e em um pedido. A oração - É uma oração de agradecimento. Paulo não pode lembrar da comunidade sem agradecer a Deus. Filipos é a menina dos olhos de Paulo, ela sempre correspondeu em tudo ao esforço evangelizador do apóstolo e sempre o socorreu em suas necessidades. É uma comunidade participativa que está sempre na vida de Paulo. Por isso ele reza pela comunidade com alegria. Aliás, a alegria é a característica dominante nesta carta. Paulo carrega esta comunidade dentro do seu coração. Ele reza por sua perseverança, na certeza de que Deus não abandona seus filhos, continua agindo no coração de cada um deles. O v. 8 é uma declaração de amor que o apóstolo faz à comunidade. O pedido - Ele só faz um pedido: o crescimento contínuo do amor, um amor perspicaz, sensível, capaz de discernir o que é melhor para todos. Paulo quer que a comunidade se conserve íntegra e inocente. Só assim a comunidade aparecerá como árvore frondosa repleta de frutos de justiça. Esses frutos brotam da seiva que corre do tronco da videira que é Jesus Cristo. Tudo isso é para a glória e louvor de Deus. Será que existe essa relação mútua de carinho e amor entre os líderes e o povo de nossas comunidades? Evangelho - Lc. 3,1 - 6 São Lucas para falar da missão de Jesus começa falando da missão de João. Quando termina a missão de João (cf. 3,20; 16,16) começa a missão de Jesus. A história da salvação em Lucas se inicia com o caminho de Jesus (Evangelho) e continua com o caminho das comunidades (Atos dos Apóstolos). Lucas vai mostrar que a atividade de Jesus se situa dentro da história, mas o caminho da salvação que Jesus traz não passa pela história oficial, que não salva mas condena, não liberta mas oprime. Lideranças políticas Imperador do Império Romano - Tibério César. Procurador da Judéia: Pôncio Pilatos. Administrador da Galiléia: Herodes Antipas, filho de Herodes o Grande, que mandou matar as crianças de Belém (cf. Mt 2,13 - 18). Administrador da Ituréia e Triconítide: Filipe. Administrador de Abilene: Lisânias. Todos estão a serviço do poder central que estava em Roma. Lideranças religiosas judaicas Sumos sacerdotes: Anás e Caifás. Anás do ano 6 ao ano 15 e Caifás do ano 17 ao ano 37. Anás apesar de ter perdido o poder continuava com grande prestígio e influência. Também estes estão atrelados ao poder romano. Estas são as lideranças religiosas com as quais Jesus convive e as quais Jesus enfrenta antes da sua morte. Também o precursor teve que enfrentá-las. São lideranças que oprimem o povo, abafam a voz dos seus líderes e os conduz à morte (cf. 3,20; 9,9). A missão de João Batista João recebe a Palavra de Deus no deserto. O deserto relembra a passagem da opressão egípcia para a libertação. O povo de Deus é chamado novamente a uma nova vida. João de fato prega um batismo de conversão para o perdão dos pecados. A história oficial é uma história de pecado, mesmo a história religiosa, pois as lideranças estão a serviço do poder e não a serviço do povo. João prepara o povo para se afastar do regime opressor e assumir uma vida nova com aquele que está chegando. Ele veio exatamente para preparar os caminhos de Jesus. A voz de João é um eco da voz do profeta Isaías (40,3 - 5). Como o profeta anunciava o fim do exílio e o início da libertação, também João anuncia o fim da “história oficial” com seus caminhos tortuosos, suas montanhas de violência, opressão e crimes, vidas vazias de justiça e de Deus. Agora está chegando um novo soberano que iniciará uma nova história de justiça, de paz, de amor. Ele trará a salvação de Deus não apenas para o povo judeu mas para todos os povos. dom Emanuel Messias de Oliveira |
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Lucas inicia seu Evangelho expondo sua pretensão de escrever seu texto a partir de uma "acurada investigação" e "de modo ordenado", sobre os eventos relacionados a Jesus. Dentro destes critérios preestabelecidos, após as narrativas de infância de João Batista e de Jesus, ele procura situar historicamente o início do ministério de João, referindo-se a algumas datas dos governantes de seu tempo, tanto no poder civil como no religioso. A intenção dele é estabelecer um marco histórico para os acontecimentos envolvendo Jesus e as primeiras comunidades, inserindo-os na própria história. João prega nas regiões de periferia ("deserto"), nas proximidades do rio Jordão. Antigamente o povo libertara-se da escravidão no Egito, atravessando o deserto em busca da "terra prometida". Agora, João lidera a libertação em relação ao poder religioso do templo e do sacerdócio de Jerusalém, voltando ao deserto, invertendo e preparando "o caminho do Senhor" para uma nova terra. Aquela que era considerada a terra prometida, Israel, com sua teocracia, na realidade tornou-se uma terra de opressão para o povo. João Batista é como "aquele que começou uma boa obra", a qual encontra sua plenitude em Jesus de Nazaré. A nova terra, o mundo novo possível, é marcada pela ternura de Jesus, pelos laços do amor. Com lucidez, busca-se discernir e libertar-se das falsas ideologias emanadas do poder econômico, muitas vezes associado ao poder religioso. Com esperança, procura-se um mundo melhor, tecendo-se a rede de relações sociais comunitárias em vista de implantar a justiça e estabelecer a paz. www.paulinas.org.br |
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Deus intervém na vida dos homens Em Israel a mulher que perdia o marido ou um filho ficava inconsolável, inactiva, cobria-se com vestidos de luto, recusava todas as palavras de conforto, deixava de se arranjar e de preparar as próprias refeições. Ora, a primeira leitura de hoje compara Jerusalém a uma viúva que viu partir para o exílio, levados pelos seus inimigos, o marido e os filhos e que jamais pensara em revê-los. Todavia, segundo a leitura, Deus decidiu «aplanar todos os montes e aterrar todos os vales» de modo que os israelitas pudessem voltar sem contrariedade para a sua mãe, Jerusalém. Diz o profeta que Jerusalém será o lugar onde reinará a «paz da justiça», não a paz fictícia que é uma tirania legitimada e a «glória da piedade», ou seja a lealdade ao seu Deus. Ao olharmos hoje o nosso país, a nossa comunidade cristã, a nossa família e os nossos ambientes de trabalho poderemos apelidá-los de lugares de paz, de partilha, de justiça, de fraternidade ou lugares de discórdia, inveja e violência? Não serão antes lugares parecidos com uma «viúva desolada e sem filhos»? Certamente que os inimigos que originaram esta situação foram: o egoísmo, a falta de escuta da Palavra de Deus e a insensatez materialista e relativista. Ora, se a salvação dependesse de nós não haveria esperança de recuperação possível. Mas o profeta assegura que Deus libertará as nossas comunidades de toda a sua condição penosa, para nos tornar «cidades de Deus». O Advento serve para nos lembrar que o Senhor continua a intervir nas nossas vidas para realizar esta obra de salvação, desde que saibamos acolher convenientemente a Sua Palavra. Como deveremos fazer, para serem concretizadas as Sua promessas? E realiza as Suas promessas Para tal milagre se realizar é necessário que Deus aplane os montes e os abismos antigos, encha os vales que nos mantêm desunidos e estabeleça pontes que nos ajudem a vencer a divisão com os nossos irmãos. Segundo o Evangelho, a intervenção de Deus ocorreu num momento e num lugar bem determinado: Palestina, no reinado de Tibério, sendo sumos-sacerdotes Anás e Caifás. É caso para nos perguntarmos se a notícia que anunciamos, como cristãos e profetas dos dias de hoje, é igualmente concreta e associada ao âmbito cultural e político em que vivemos? Se vai ao encontro das carências do homem de hoje e dos seus problemas, ou lhe passam ao lado? Que interferência tem a fé, que dizemos professar, na nossa conduta: no trabalho, na escola, no ambiente conjugal e familiar, nos lugares de diversão? São estes lugares que têm de ser remodelados pela salvação trazida por Cristo. Ao olharmos a vocação de João Baptista vemos que Deus não se esquece nunca dos homens e que espera pelo momento favorável para nos estender a mão. Tal como João, também nós, os cristãos, embora vivendo no mundo, habitamos num «deserto». Isso deve levar-nos a ser como estrangeiros que não pensamos, não falamos, nem nos comportamos como os outros. No meio dos que falam de riquezas desnecessárias, de guerras, desentendimentos, ódios, violências e vinganças, devemos proferir palavras de paz, de serviço e de perdão. Num mundo em que se reconhecem felizes os que têm riquezas, calcam e exploram os mais fracos, temos o dever de profetizar o amor, o serviço aos mais carenciados, a partilha dos bens e a renúncia de nós mesmos para o enriquecimento dos demais. A salvação prometida por Deus só pode chegar se o caminho for preparado pelo esforço do homem, pois Ele não reserva a sua salvação a alguns privilegiados, mas oferece-a a todos, sem rejeição. Se devemos celebrar o amor, a paz e a não-violência, por vezes teremos de ser ásperos como João Batista e relembrar os compromissos sérios da vida, denunciando situações injustificáveis e tendo coragem de atacar os poderosos quando são impróprios. Que montanhas teremos de aplanar e vales a preencher para que nas nossas vidas e na vida das nossas comunidades possamos acolher a Palavra e com bravura denunciar os erros e as situações de falta de valores sólidos e evangélicos? Deus espera a nossa colaboração para esta sua obra. Com a nossa colaboração Foi por isso que são Paulo deu graças a Deus pelas graças que realizou na comunidade de Filipos. Ele manifestou a sua própria comoção interior perante uma partilha de graças tão copiosas concedidas por Deus a essa comunidade, que soube realmente acolher a Palavra de Deus e colaborar ativamente no anúncio do Evangelho. O que nos falta, e às nossas comunidades, para acolher e levar à prática a Palavra ouvida, para nos poder ser também aplicada tão valiosa e bela oração? Será que estamos a cooperar nesta obra de evangelização querida por Deus? www.cliturgica.org |
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Lucas apresenta João Batista como o último dos profetas do antigo testamento. Podemos deduzir isso pelo seu modo de descrevê-lo, pois os escritos proféticos também começam apresentando o contexto histórico no qual se desenrola a atividade profética, na qual a protagonista é a palavra de Iahweh. Ela não é uma teoria, uma nova filosofia, mas é uma realidade histórica: “não foi num recanto remoto que isto aconteceu” (At. 26,26), mas tem coordenadas históricas e geográficas bem concretas. Há um lugar privilegiado no qual Deus falou como um esposo ao seu povo, no deserto (cf. Os. 2,16). E no deserto de Judá, “a palavra de Deus foi dirigida a João, filho de Zacarias” (Lc. 3,2). Quem fala através de sua voz é a palavra. Quando a palavra se tornar visível, a voz desaparecerá. A palavra não é somente um grito, um chamado à conversão, mas sendo palavra de Deus começa já a se perceber a sua eficácia. De fato, o trecho termina com uma afirmação, dizendo: “E toda carne (todo homem) verá a salvação de Deus” (v. 6). É a experiência mais espantosa que a comunidade cristã primitiva havia feito: ver resplandecer a vida e a imortalidade mediante o anúncio do evangelho (cf. 2 Tm 1,10). Era o anúncio itinerante como o de João, que percorreu “toda a região do rio Jordão” (v. 3). Concretizava-se na descida das águas do Jordão, significado pela fonte batismal. Aí se deixava o corpo de pecado e acontecia uma conversão, pois surgia uma criatura nova, que o batismo de João prometia. É uma salvação que “toda carne (todo homem) verá” (v. 6). Está à disposição de todos os homens e não somente dos judeus. Então todos são convidados a prepararem “o caminho do Senhor” (v. 4). Essa estrada não é material, mas um caminho interior através do qual o Verbo de Deus pode entrar dentro do homem e tomar o seu lugar no coração dele. www.miliciadaimaculada.org.br |
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Esta ordem, que vem do deserto é um convite a novas atitudes de semeadura. São palavras que convocam e desafiam, palavras que traduzem a urgência do tempo em que viveu João Batista e também do nosso tempo. O que faremos para preparar o caminho do Senhor neste tempo de graça? Sementes de esperança são pequenas, invisíveis mas efetivas, elas tem a força de construir o tempo que se espera: quando a vinda do Senhor se revelará como libertação para seu povo. Neste final de ano, muita preocupação com os gastos, com as compras, com os presentes acabam nos absorvendo... Desta vez o mercado chegou antes do Advento na preparação para o natal.. Afinal, a propaganda faz parte da lei do mercado, e quanto mais competitiva e sedutora for, melhor! É justamente neste clima, que João, o precursor, vem do deserto, como uma “voz que clama e convoca”. Sua convocação tem uma finalidade bem clara: trata-se de preparar o caminho do Senhor, de criar condições para que o Reino chegue, de abrir-se ao mistério do amor de Deus que é muito mais gratuidade do que competição, muito mais dom do que venda, muito mais comunhão e partilha do que belas luzes de shopping centers... Neste domingo João nos convoca à conversão, como condição para alimentar e cultivar a esperança. É hora de mudar de vida para que as pessoas vejam a salvação de Deus! Concretamente, em que consiste esta mudança de vida? Serão as leituras deste domingo que nos responderão. Baruc, na primeira leitura, convida Jerusalém a cobrir-se com o manto da justiça que vem de Deus.. a levantar-se e ver seus filhos que voltam .. a proclamar: “Sim, Deus guiará Israel com alegria, à luz de sua glória, manifestando a misericórdia e a justiça que dele procedem”. A primeira leitura é um convite a encontrar na justiça que vem de Deus e se traduz em uma nova prática, a fonte de nossa paz e alegria. Preparar o caminho do Senhor, então, muito mais do que arrumar a casa para a festa, ou comprar roupa nova, é começar a assumir novas atitudes, é praticar a justiça que respeita o pequeno, que se coloca no lugar onde Deus mesmo habita: o mundo dos pobres, dos que estão à margem, dos fracos... Somos desafiados a preparar o caminho na esperança... muitas vezes entre lágrimas espalhamos sementes, muitas vezes, como João, no Deserto sentimos nossa voz jogada ao vento... Mesmo assim, é tempo de proclamar a chegada do nosso Deus e assumir novas atitudes que ofereçam alternativas ao comprar e vender, ao competir e discriminar, que é tão comum em nossos dias. Paulo também nos convida a concretizar esta preparação fazendo crescer entre nós o amor em todo conhecimento e experiência para discernirmos o que é melhor. Este segundo domingo do Advento é um convite a avaliarmos o ano de 2009. Que passos conseguimos dar em direção ao Senhor que vem ao nosso encontro no rosto das crianças, dos pequenos, dos marginalizados? Que novas atitudes conseguimos assumir? Que espaço demos ao longo deste ano para as iniciativas que criam uma cultura de solidariedade, de cuidado com a vida, de sensibilidade que transforma? Que a festa do natal deste ano não seja um espetáculo de desperdício, de aumento do lixo, de desprezo pela vida ferida dos amados de Deus, mas seja um tornar atual o milagre da graça de Deus que se faz um de nós, seja uma abertura de coração que gera novas relações, seja natal feliz, porque natal de justiça e paz. Para semear esperança é preciso ser motivados por um grande amor... Nem sempre quem semeia chega a colher os frutos... Vive o desafio do amor gratuito! Para semear esperança é preciso crer - assumir no cotidiano a certeza das coisas que não se vêem (Hb. 11) - seja a nossa fé a razão de nosso agir e o lugar onde o mistério do Deus que se faz criança encontra morada e lugar neste tempo e realidade. Se for esse nosso desejo e nossa prática, então sim, poderemos cantar com o salmista: “Maravilhas fez conosco o Senhor, exultemos de alegria”. Luzia Ribeiro Furtado |