1º DOMINGO DE QUARESMA

ano C

 

A Quaresma era, nos seus inícios, um tempo forte de preparação para o batismo. Na Quaresma, a pessoa que se tornaria cristã tinha a oportunidade de refletir mais e mais na nova vida que estava assumindo, assim como nas dificuldades que haveria de enfrentar para ser fiel ao evangelho no meio de um mundo pagão.

Hoje a situação não é muito diferente para todos os que pretendem viver de modo cristão. Se nos inícios, para celebrarem a sua fé, aconteceu aos cristãos ter de se esconder nos subterrâneos das catacumbas, atualmente podem celebrar o mais sagrado dos seus mistérios diante das câmeras bisbilhoteiras da televisão. Isso, porém, não quer dizer que tenha ficado fácil viver hoje de maneira autenticamente cristã.

As tentações de reduzir o sentido da vida ao bem-estar, ao consumismo fácil e até ao desperdício, as tentações dos ídolos do dinheiro e do mercado e os da religião milagreira, que põe a fé a serviço de interesses pessoais, estão fortemente presentes hoje, mais até do que no passado. E esses demônios se vencem com o jejum, com a oração, pela fé e por uma práxis centrada no evangelho.

1º leitura (Dt. 26,4 - 10)

Os donativos das primícias, os primeiros frutos da colheita, eram ocasião para o judeu devoto recordar a presença de Deus na sua história e reconhecê-lo como único Senhor. A Quaresma também é ocasião de recordar as origens de nossa fé, lembrar-nos de onde viemos, para onde vamos e do Deus em que cremos.

O texto escolhido para a 1ª leitura de hoje deixa fora os primeiros versículos, que falam da entrega das primícias. Em outras religiões antigas, a entrega em um templo dos primeiros frutos da colheita celebrava um rito de fecundidade, como se fosse a nova descida de um deus ao interior da terra para torná-la fecunda.

A religião de Israel, porém, é uma religião histórica. Seu Deus não está na natureza nem tem que ver com um mito que apenas repete os ciclos naturais. Seu Deus é Javé, que se manifesta na história. E essa história tem começo e tem destino.

É uma história de libertação. Começa com um arameu errante, passa pela opressão sofrida no Egito e avança para a entrada na terra, com a posse de uma terra onde correm leite e mel. O errante se torna estável, o escravo se torna livre, o carente se torna senhor.

A solidariedade horizontal explicitada no v. 11, ausente do texto de hoje, inclui uma solidariedade vertical, que remete até a um primeiro pai de todos. Tudo o que sucedeu a cada geração faz parte da nossa vida.

Salmo 90(91),1 - 2.10 - 15

O salmo responsorial é aquele citado pelo diabo ao tentar Jesus para que se jogasse do alto do templo.

2º leitura (Rm. 10,8 - 13)

Falando a cristãos não judeus e tendo em vista cristãos judeus que retornavam para Roma em situação de inferioridade, Paulo insiste na igualdade entre todos perante a oportunidade de salvação.

Extremamente pobres, os judeus que viviam em Roma tinham sido expulsos da cidade, como diz um historiador daqueles tempos, “por causa das frequentes agitações provocadas (em seus bairros) por certo Crestos”. As agitações aconteciam por discussões em torno de Jesus, se seria ele o Messias (Cristo) ou não.

O fato é que agora Nero permitiu a volta dos judeus. Os cristãos judeus vão querer novamente se integrar nas comunidades de onde saíram, as quais agora só têm cristãos não judeus, também chamados simplesmente de gregos. Será fácil se entrosar com eles? Não serão os judeus humilhados mais uma vez? Por que a maioria deles não aceitou a fé em Jesus? A salvação é um privilégio dos não judeus?

Essas e outras perguntas fervilhavam na cabeça de Paulo quando escreveu aos romanos. No trecho lido hoje, ele fala da esperança de os judeus também chegarem à fé e à salvação em Jesus. Não há diferença: todos, judeus e não judeus, ou gregos, podem alcançar a salvação em Jesus.

Na liturgia da Quaresma, essas palavras vêm falar fortemente aos que se preparam para receber o batismo na Vigília de Páscoa.

Evangelho (Lc. 4,1 - 13)

Jesus começa a sua missão com uma “quaresma”, 40 dias de provação e jejum. É só um ensaio e uma amostra. As forças do mal continuam lutando contra ele durante toda a sua vida e missão.

Bem característico do Evangelho de Lucas é a referência constante ao Espírito Santo. Repleto dele, Jesus se afasta do rio Jordão: pelo mesmo Espírito ali ele fora ungido como Messias e agora é conduzido pelo deserto por 40 dias de tentação ou prova. A luta é entre o Espírito, que é vida e liberdade, e o diabo, que é fanatismo e opressão.

É também próprio de Lucas indicar que essas tentações foram apenas um ensaio e amostra. Ele termina o episódio dizendo que o diabo se afastou para voltar no momento oportuno. Esse momento oportuno seria durante o tempo de atividade de Jesus, especialmente a ocasião da sua morte? Pode ser também a volta frequente das mesmas tentações sobre os discípulos de ontem e também de hoje.

A “quaresma” de Jesus se espelha nos 40 anos do êxodo, os 40 anos em que o povo de Deus viveu acampado no deserto, mudando de um lugar para outro em busca da terra prometida. O deserto e as tentações se assemelham. Podemos, assim, traçar um paralelo entre as tentações dos hebreus acampados no deserto, as tentações de Jesus e as tentações de hoje.

TENTAÇÕES DOS HEBREUS

Fome: Pedem pão, pedem carne, lembram as cebolas do Egito.

Idolatria: Ajuntam seus objetos de ouro para fazer um bezerro de ouro e adorá-lo.

Moisés cai na tentação e pergunta: “Será que Deus pode fazer brotar água desta pedra?”

TENTAÇÕES DE JESUS

Fome: “Manda que esta pedra se transforme em pão!”

Poder: “Toda essa riqueza será tua se te prostrares para me adorar!”

Providencialismo: “Joga-te daqui a baixo que Deus mandará seus anjos te carregarem!”

TENTAÇÕES DE HOJE

Consumismo.

Poder, riqueza, aparência: “Em política e em negócios só não vale perder!”.

Religião de curas: “Joga fora esses remédios que Jesus vai te curar!”

Seria possível ver também, durante a atividade de Jesus no Evangelho segundo Lucas, a volta dessas mesmas tentações? Em 22,28, Jesus diz que os discípulos estiveram com ele em todas as suas tentações ou provações. Quais teriam sido essas provações? Não será muito difícil identificá-las em todo o evangelho e observar sua correspondência com as três amostras que temos aqui.

Quando, diante do entusiasmo da multidão por causa de suas curas, Jesus se retira para a montanha em oração, não está a indicar que não quer ser simples curandeiro? Quando diz que não tem sequer uma pedra onde reclinar a cabeça, não está falando de uma vitória contra a tentação do conforto, do consumismo? Quando, com muitíssima frequência no Evangelho segundo Lucas, Jesus critica os ricos e a riqueza, não estaria também vencendo essa tentação? E a última provação, corajosamente vencida, foi, sem dúvida, a morte de cruz.

A “Quaresma” de Jesus prepara-o para a missão. Aqui ele se treina para superar todas as dificuldades que hão de vir. Assim, aquele que se prepara para o batismo se exercita na Quaresma para, com Jesus, “vencer o mundo”.

PISTAS PARA REFLEXÃO

Não seremos batizados novamente, mas a renovação do nosso batismo na Vigília de Páscoa tem de ter um significado verdadeiro. A cada dia temos de nos batizar novamente. E a “Quaresma” de Jesus deve ser modelo da nossa Quaresma.

O jejum significa domínio sobre o primeiro e mais forte instinto, o de sobrevivência. Significa coisas hoje muito esquecidas, como austeridade, respeito, saber seus limites, impor-se limites. A grande tentação hoje tem que ver com a palavra de ordem: “tem vontade, faz!”. Em nome da liberdade, impõe-se a libertinagem. O “senhor Mercado” exige isso, porque jejum, moderação, educação não dão lucro, e libertinagem dá.

As tentações que Jesus venceu estão nos vencendo. “Transforma essa pedra em pão!” As necessidades básicas, o pão, são primordiais, tanto que está o pão no centro do pai-nosso. Mas transformar as pessoas em consumidoras e reduzir o sentido da vida ao conforto e ao consumo nada tem que ver com o pão necessário para hoje. Não obstante, é a ordem do senhor Mercado e é o que mais se vê. Não é mentalidade comum a ideia de que viver bem significa gozar de todos os prazeres que a vida pode oferecer?

Poder e dinheiro: essas tentações existem hoje? É até difícil falar sobre isso; todos estão cansados de ver e saber. Mas não escapam a elas. O dinheiro se pode contar, somar ou diminuir. É muito visível. Outros valores, como honra, dignidade, respeito, solidariedade, não se podem contar nem somar, desaparecem diante do dinheiro. Dinheiro não tem qualidade, só quantidade. Em negócios e em política vale tudo, só não vale perder.

A religião de curas e milagres cresce como uma avalanche. O individualismo e a busca de soluções na religião para problemas psicológicos, afetivos, de saúde a até econômicos são fenômenos que parecem característicos dos nossos tempos. A fé já não é o comprometer-se com um Messias crucificado, mas acreditar na cura, acreditar que Jesus me livra das dificuldades. O centro da religião passa a ser eu.

Quaresma é lutar e vencer essas tentações como fez Jesus.

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Neste início de Quaresma, a liturgia faz-nos pensar na Páscoa. Isto porque o tempo quaresmal não é um fim em si mesmo, mas é caminho de luta e combate espiritual para bem celebrarmos, com o coração dilatado, a Páscoa do Senhor, maior de todas as festas cristãs.

Na primeira leitura, o Deuteronômio apresenta-nos o rito de oferta das primícias da colheita: ao apresentar ao Senhor Deus o fruto da terra, o israelita piedoso confessava que pertencia a um povo de estrangeiros e peregrinos, vindos do Pai Jacó, que não passava de um arameu errante. O israelita fiel recordava diante de Deus a história de Israel, história de escravidão e de libertação: “Meu pai era um arameu errante, que desceu ao Egito... Ali se tornou um povo grande, forte e numeroso. Os egípcios nos oprimiram. Clamamos ao Senhor... e o Senhor ouviu a nossa voz e viu a nossa opressão... E o Senhor nos tirou do Egito... E conduziu-nos a este lugar e nos deu esta terra... Por isso eu trago os primeiros frutos da terra que tu me deste, Senhor”. Éramos ninguém e o Senhor nos libertou, deu-nos uma vida nova – eis o resumo da história e da experiência de Israel! Esta também é a nossa experiência, como Igreja, Novo Israel: “Se com a tua boca confessares Jesus como Senhor e, no teu coração creres que Deus o ressuscitou dos mortos, serás salvo”. Também a nossa história é de libertação: éramos escravos, todos nós, do grande Faraó, o Pecado que nos destrói e destrói o mundo. Mas Deus enviou o seu Filho numa carne de pecado (numa natureza sujeita às conseqüências do pecado): ele desceu a este mundo e entrou na nossa miséria, até a morte, a nossa morte. Deus o arrancou da morte; ressuscitou-o e fez dele Senhor e Cristo e quem nele crer e confessá-lo como Senhor na sua vida, encontra a salvação; encontra um novo modo de viver, encontra a paz, encontra já agora a comunhão com Deus e, depois, a Vida eterna! Assim, Israel nasceu da Páscoa do deserto; a Igreja nasceu da Páscoa de Cristo. Israel era escravo, atravessou o mar e o deserto e tornou-se um povo livre para o Senhor. Nós éramos escravos, éramos ninguém, atravessamos as águas do Batismo com Cristo, e ainda que caminhemos neste deserto da vida, somos um povo livre para o Senhor nosso Deus.

O tempo da Quaresma prepara-nos para celebrar este mistério tão grande! Recordemos que a ressurreição de Cristo é causa da nossa ressurreição, é motivo da nossa comunhão com Deus é a razão da nossa fé cristã! Há apenas dois domingos, são Paulo dizia abertamente: “Se Cristo não ressuscitou, vã é a vossa fé, ainda estais em vossos pecados!” (1 Cor 15,17). Pois bem, neste sagrado tempo quaresmal, a Igreja nos quer preparar para a santa Páscoa, para que revivamos em nós, pessoal e comunitariamente, a libertação que Cristo nos trouxe com a sua vitória. Por isso, a Quaresma é um tempo de combate espiritual e de luta contra o pecado. É um tempo de seríssimo exame de consciência e de reorientação de nossa adesão ao Cristo Jesus. Só assim, atravessaremos o deserto dos quarenta dias rumo à Terra Prometida da Páscoa de Cristo, que se torna nossa Páscoa. Nosso caminho quaresmal recorda e celebra tantas quaresmas: a do dilúvio, quando durante quarenta dias e quarenta noites o Senhor Deus purificou a terra e a humanidade; a de Moisés, que durante quarenta dias e quarenta noites jejuou e orou sobre o Sinai para encontrar o Senhor que lhe daria a Lei; a de Israel, que caminhou no deserto durante quarenta anos; a de Elias profeta, que caminhou quarenta dias pelo deserto rumo ao Horeb, monte de Deus; a quaresma de Jesus, que antes de iniciar publicamente seu ministério, jejuou e orou quarenta dias e quarenta noites. Eis o caminho de Deus, eis o nosso caminho: caminho de combate espiritual, de busca de Deus, de luta interior, de conversão! Sem Quaresma ninguém celebra verdadeiramente a Páscoa do Senhor!

O evangelho de hoje, apresentando-nos as tentações de Jesus, nos ensina a combater: ele venceu Satanás ali, onde Israel fora vencido: Israel pecou contra Deus murmurando por pão; Jesus abandonou-se ao Pai e venceu; Israel pecou adorando o bezerro de ouro; Jesus venceu recusando dobrar os joelhos diante da proposta de Satanás; Israel pecou tentando a Deus em Massa e Meriba; Jesus rejeitou colocar Deus à prova. Nas tentações de Cristo estão simbolizadas as nossas tentações: a concupiscência da carne (o prazer e a satisfação desregrada dos sentidos), a concupiscência dos olhos (a riqueza e o apego aos bens materiais) e a soberba da vida (o poder e o orgulho auto-suficiente e dominador). Ora, Jesus foi tentado como nós, tentado por nossa causa, por amor de nós. Ele foi tentado como nós, para que nós vençamos como ele! Ele foi tentado não somente naqueles quarenta dias. O evangelho diz que “terminada toda a tentação, o diabo afastou-se de Jesus, para retornar no tempo oportuno”. A tentação de Jesus foi até a cruz, quando ele, no combate final, colocou toda a vida nas mãos do Pai e pelo Pai foi ressuscitado, tornando-se causa de vida e ressurreição para nós, que nele cremos, que o seguimos, com ele combatemos e o proclamamos Senhor ressuscitado.

Caminhemos neste santo tempo rumo à Páscoa; usemos como armas de combate no caminho quaresmal a oração, a penitência e a esmola do amor fraterno para que, ao final do caminho, sejamos mais conformes à imagem bendita do Cristo Jesus ressuscitado, nosso Senhor e Deus, vencedor do Maligno e da morte, a quem seja a glória pelos séculos.

 dom Henrique Soares da Costa

 

Estamos diante do “credo histórico de Israel”. É um trecho de fundamental importância para o povo de Deus. Este trecho é trazido à memória a cada ano, quando as famílias celebram o memorial de sua libertação. Os vv. 1 - 3 estão explicando o que deve ser feito logo que o povo tomar posse da terra prometida. O povo deve pegar os primeiros frutos da terra e apresentá-los a Javé, ou seja, cada família devia ir até ao sacerdote, levando o cesto e professar a sua fé. O v. 4 mostra o sacerdote pegando o cesto das primícias, ou seja, dos primeiros frutos da terra e colocando-o diante do altar do Senhor. Depois disso o ofertante recita a profissão de fé e se prostra diante de Javé (vv. 5 - 10). Então temos aqui todo o ritual com a oferta, a profissão de fé, a adoração e ainda no v. 11 o grande banquete de confraternização. Com a família participavam também o levita e o imigrante que vive no meio do povo. Todos se alegravam com a fé no Deus libertador.

Temos neste gesto dois grandes significados: primeiro, lembrava que o processo da libertação e a posse da terra são ao mesmo tempo dom de Deus que liberta, e conquista do povo que luta e se organiza.

Segundo, nesta profissão de fé, relembrando a ação de Deus na caminhada histórica do povo, o israelita reconhecia a opção preferencial, que Javé havia feito pelos oprimidos e marginalizados, pois esta era a situação de Israel no Egito, mas Javé ouve o clamor do povo e o liberta dando-lhe uma terra, onde corre leite e mel.

Terceiro: o povo manifesta a sua fé através da gratidão da oferta, onde reconhece que tudo vem de Deus, ou seja, a liberdade, a vida e os produtos da terra. Este gesto de oferta com o final festivo estimulava à partilha e à generosidade. Simbolizava a possibilidade de uma sociedade alternativa, superando a tentação da ganância e do acúmulo.

Questionamentos: a) A nossa fé no Deus que liberta nos leva a acompanhar as lutas do povo que pede libertação? b) A fé no Deus que é dono de tudo e tudo nos dá nos leva à partilha generosa através do dízimo e da oferta?

2ª leitura – Rm. 10,8 - 13

O capítulo 1o fala da infidelidade culpável de Israel, pois ele não se sujeitou à justiça de Deus em Jesus Cristo, mas quis estabelecer a própria, baseada nos seus próprios méritos de um fiel cumprimento da Lei. O v. 4 diz que Cristo é o próprio fim da Lei “como meta, como termo e como realização”, quer dizer, o objetivo da Lei é chegar até Jesus e Jesus põe fim à Lei, pois agora a vida é encontrada em Jesus Cristo e não na Lei. Assim os vv. 5 - 13 mostram que o único caminho da salvação está na fé em Cristo. O próprio texto de Paulo faz duas citações. A primeira é tirada de Lv. 18,5 onde fala que a Lei plenamente cumprida leva à salvação. O acento aqui está no agir humano. Mas na realidade ninguém é capaz de cumpri-la por causa da força do pecado. A segunda é tirada de Dt. 30,11 - 14 que sublinha o agir de Deus. Mostra que a Palavra de Deus não está distante do homem (no céu ou nos abismos), mas foi colocada por Deus ao seu alcance. No v.8 Paulo mostra que esta Palavra colocada ao alcance do homem não é palavra da lei, mas a palavra da fé. Qual é o conteúdo dessa fé? É o v. 9 que nos traz o sintético e primitivo credo cristológico: “Se, pois, com tua boca confessares que Jesus é o Senhor e, no teu coração, creres que Deus o ressuscitou dos mortos, serás salvo”. Aqui está afirmada a divindade de Jesus (Senhor era o título de Deus no Primeiro Testamento) e a sua ressurreição de entre os mortos. Estes são os dois conteúdos básicos da fé. Para se obter a salvação é preciso confessar ou professar estas duas verdades de fé. Como confessá-las? É com uma confissão externa, pública, litúrgica (através da boca). É uma adesão interior – crer com o coração. Como o coração para o judeu é a sede das opções da vida, crer com o coração significa não um sentimentalismo religioso, mas pôr em prática o projeto libertador de Jesus, onde ninguém fica excluído, pois não há mais distinção entre judeu e grego, pois o Senhor Jesus dá atenção a todos aqueles que invocam o seu nome, ou seja, a sua pessoa.

Em síntese a vida cristã, ou seja, a salvação trazida por Jesus se recebe numa vida ativa na busca da justiça, honestidade e solidariedade com os mais pobres (= acreditar com o coração) e na proclamação e celebração litúrgica desta vida de fé (= confessar com a boca). É assim que você faz?

Evangelho – Lc. 4,1 - 13

Os sinóticos querem mostrar, antecipadamente, a vitória de Jesus sobre o poder do mal e, assim, sintetizam todas as tentações, que Jesus sofreu em sua vida pública, nestas três tentações simbólicas. Jesus está no deserto e é guiado pelo Espírito. O deserto pode simbolizar o povo de Israel e o demônio simboliza todos os obstáculos e anti-projetos com os quais Jesus se deparou e venceu para levar à frente seu programa libertador. Os 40 dias simbolizam o tempo da vida de Jesus – uma geração. Lembra o tempo em que Moisés passou no Sinai (Ex 34,28), o tempo em que Elias permanece no Horeb (1Rs. 19,8) e também o tempo em que Israel passou pelo deserto, tentado a retornar para a escravidão do Egito. Jesus, novo Moisés, e para Lucas, principalmente, novo Elias, vai refazer de modo vitorioso a caminhada do povo com um novo projeto de libertação.

a) Jesus é tentado a ser o Messias da abundância transformando pedras em pão. Num mundo de famintos Jesus teria pleno sucesso. Jesus responde com o texto de Dt. 8,3: “Não só de pão vive o ser humano”. O projeto de Jesus vai além do alimento. Em Jo. 6,15, depois da multiplicação dos pães, o povo quer aclamar Jesus como rei, e Jesus foge.

b) Jesus é tentado a ser o Messias do poder.

O demônio propõe a Jesus dar-lhe todos os reinos do mundo com toda a glória, contanto que Jesus o adore. A tentação é capaz de inverter e perverter o que há de mais sagrado. O demônio quer que Jesus o adore, ou seja, se submeta a ele. A proposta aqui é muito tentadora, pois o povo estava preparado e queria exatamente um Messias temporal, poderoso politicamente. Jesus sabe que um messianismo temporal e político não seria libertador, seria opressor como foi o projeto do faraó, por isso, Jesus responde de novo com Dt. 6,13: “Temerás o Senhor teu Deus, a ele servirás e só por seu nome jurarás”. Adorar a alguém ou algo que não é Deus é voltar à condição de oprimido.

c) Jesus é tentado a ser o Messias do prestígio

A segunda tentação de Mateus, Lucas coloca como terceira para terminar em Jerusalém, onde a paixão representa a última e a mais cruel das tentações de Cristo (cf. Lc. 22,3 - 53). A tentação do prestígio é usar o poder de Deus em seu próprio favor, isto é, a fim de se livrar da morte. Dentro do simbolismo da terceira tentação, Jesus é convidado a pular do pináculo do Templo, pois conforme o Sl. 91,11 - 12 os anjos de Deus o protegeriam e o livrariam da morte. Mas Jesus entendeu bem que o projeto de Deus, que é a libertação dos oprimidos, tinha de passar pelo sofrimento e morte, e Jesus não se acovardou. A reposta de Jesus é tirada de Dt. 6,16: “Não tenteis o Senhor vosso Deus”. “Tentar a Deus” no Primeiro Testamento significa “desobedecer-lhe para ver até onde chega a sua paciência, ou, como aqui, recorrer à sua bondade como objetivo interesseiro”. O v. 13 afirma que o demônio voltará no momento oportuno. Isto vai acontecer, quando Jesus tiver que enfrentar os chefes dos sacerdotes, doutores da Lei e anciãos, que representavam o poder (cap. 20, cf. 22,3 - 53).

Quais são as três principais tentações de hoje?

Quem hoje faz o papel do demônio, promovendo as tentações?

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“Quando meu servo chamar, hei de atendê-lo, estarei

com ele na tribulação. Hei de livrá-lo e glorificá-lo e

lhe darei longos dias”. (cf. Sl. 90, 15s)

A liturgia vive a sobriedade a o introspecto da Quaresma: tempo de penitência; tempo de conversão e tempo de mudança de vida. Grande retiro que a Igreja nos convida a caminhar na busca do combate espiritual para que, na Páscoa, possamos ressurgir do pecado e viver a vida nova em Jesus, o Ressuscitado que ilumina e dá sentido a nossa vida e a nossa caminhada.

Entra ano e sai ano a liturgia católica inicia a Quaresma com a reflexão das tentações sofridas por Jesus vindas do demônio. As três tentações que são sofridas por Jesus e relatadas no Evangelho de hoje(cf. Lc. 4,1-13) são as três grandes tentações que sofrem os cristãos: A primeira tentação é de colocar os bens materiais na frente dos bens espirituais. Essa tentação consome todos os cristãos na sua grande maioria: o apego desvairado aos bens do mundo, ao ter sem escrúpulos e a todos os martírios da vida moderna em que o ter está no lugar do ser. Esta tentação está intimamente ligada na ausência de santidade, na falta do cultivo da santidade como meta de todos os cristãos. A segunda tentação é a do Poder. Esta tentação anda junta com a dominação o que não favorece a vida comunitária, o afeto dos irmãos e a amizade espiritual que deve a todos irmanar. A terceira e última tentação é o Orgulho: o orgulho que anula a graça de Deus e quer dominar o próprio Redentor e todo o gênero humano. O orgulhoso não se abre a Deus, se fechando a comunidade e aos irmãos.

Muitas outras tentações devem ser combatidas e eliminadas de nossa vida neste “iter” quaresmal: a gula, a ganância, a avareza, o apego aos bens materiais; a injustiça, a exploração, a violência, a insensibilidade, a prepotência, a arrogância, a inveja, a luxúria, a aparência, a soberba, a vanglória, a impiedade, a hipocrisia, a arrogância, a blasfêmia, a auto-suficiência, o desprezo da graça e a incredubilidade. Todas as tentações que o diabo nos traz e que podem servir como um bom exame de consciência no cumprimento do preceito de confissão auricular para a devida preparação para as festas da Páscoa.

As tentações de Jesus são as mesmas tentações do povo israelita na sua travessia pelo deserto. Lucas, entretanto, diz que Jesus estava repleto do Espírito Santo e por ele foi levado ao deserto, onde foi tentado pelo demônio por quarenta dias. O pano de fundo das tentações é a dialética entre o bem e o mal que se enfrentam, que preocupa todas as religiões, primitivas e recentes, e também aos que não tem fé. Para o Evangelista, o demônio é uma realidade. Jesus acreditou na existência de Satanás, como príncipe do mal e a quem chama de homicida e embusteiro. São Paulo designou o demônio de deus deste mundo. No episódio relatado pelo Evangelho hodierno, exatamente porque Jesus viera recriar o mundo e refazer a situação das criaturas humanas, o Evangelista mostra a preocupação do demônio com o que estava por acontecer. E o faz enfrentar astutamente Jesus, como enfrentara o primeiro homem.

O que queria o demônio de Jesus?: primeiro afastar Jesus de seu caminho e de sua missão que era a Paixão, Morte e Ressurreição. O demônio propõe a Jesus dar pão para todos. Numa gíria de hoje Jesus seria o “bom da bola”, ou seja, aquele bonzinho que vem como o salvador da pátria para os deserdados das misérias humanas. Nada espiritual bastaria dar pão e circo ao povo: assim ofereceu o demônio para Deus. Jesus não veio para os prazeres e as alegrias deste mundo, mas para as alegrias eternais, no reino do céus, onde não há ódio e nem doenças, mas o encantamento infinito. Num segundo momento, por conseguinte, o demônio ofereceu a Jesus uma liderança política. Uma política a serviço do mal e da opressão, bem ao gosto das forças do inferno. Jesus não veio como um libertador político. A sua libertação é ontológica e completa: essa liberdade significa submeter Satanás ao seu reinado colocando todos, inclusive o demônio, debaixo de seus pés. Por fim, num terceiro momento, o demônio exclama que Jesus não deve confiar no Pai dos Céus. Um Cristo pairando no ar, na praça do templo de Jerusalém, teria certamente muito mais seguidores do que um Cristo pregado na cruz, fora da cidade entre os criminosos de então. Essa tentação do demônio para com Jesus é uma tentação que o espírito do mal infringe sempre nos homens: querer impor a Deus o que ele deve fazer.

O demônio se afasta de Jesus quando o Redentor olha para o Pai e exclama: “NÃO SEJA FEITA A MINHA VONTADE, MAS A SUA VONTADE!”

Na ânsia pela vinda do Senhor, sempre podemos crescer mais, e é ele que nos deixa crescer, para que sua chegada seja preparada do modo mais perfeito possível.

A primeira leitura(cf. Dt 26, 4-10) nos lembra essa verdade fundamental. Jerusalém, na época de Jeremias, era uma cidade em ruínas. Mas o profeta lhe anuncia um futuro melhor. A cidade chamar-se-á “Deus nossa justiça”. É Deus quem o fará. Já o apóstolo Paulo, na segunda leitura, nos deseja crescimento na justiça, para sermos encontrados irrepreensíveis, quando Jesus vier de novo. A Primeira Leitura apresenta o Credo do Israelita – Trata-se de uma oração da oferenda da safra, profissão de fé de Israel em Javé, que livrou Israel da pobreza e da opressão no Egito e o introduziu na Terra Prometida. Cada israelita entende a história de Israel com Deus como sendo sua história pessoal e sabe-se chamado a uma resposta: um cesto cheio de frutos da Terra Prometida, mas também a alegria por tudo aquilo que Deus dá.

A Segunda Leitura(cf. Rm 10, 8-13) apresenta o Credo Cristão. Se a fé de Israel se resume em “Javé libertou Israel do Egito”, a do cristão em: “Deus ressuscitou Jesus dos mortos”(Rm 10,9). E a isso corresponde a proclamação: “Jesus é o Senhor”. Esta fé não se proclama da boa para fora; deve vir do coração, do mais íntimo sentir e pensar, da totalidade da pessoa(Rm 10,9). O espaço desta fé é a comunidade, mas também o mundo inteiro, pois todos têm o mesmo Senhor. Porém, só o poderão reconhecer se a mensagem lhes for transmitida de modo fidedigno.

A cada ano a Igreja é convidada a fazer a experiência do deserto, preparando-se assim para vivenciar a Páscoa da Ressurreição. A exemplo do povo de Israel, a exemplo de Jesus Cristo, devemos deixar nos conduzir pelo Espírito ao deserto. Aí, despojada de si mesma, terá que se confrontar com as tentações que também hoje a atingem: a garantia da vida terrena sem reconhecê-la como dom de Deus; a tentação do poder e da glória humana; a tentação de prescindir de Deus, colocando-se em seu lugar.

Assim a Igreja, que somos todos nós, poderá seguir o Cristo até Jerusalém, orando-se com Ele vitoriosa contra o pecado, contra o inimigo, contra o mal. As armas na luta contra o demônio e o espírito do mal serão a oração, que nos coloca como filhos e filhas orantes do Criador; o jejum, fazendo uso dos bens terrenos com liberdade, e a esmola, ou seja, a partilha do que recebemos generosamente da misericórdia divina. Com todas estas atitudes vamos transformar o deserto em paraíso, pois onde o ser humano se encontra peregrinando se encontra com Deus, o peregrino da paz, e nele vive, lá acontece à vida em Deus. A árvore seca, a Cruz de Cristo readquire nova vida, porque carregou o fruto da obediência, pela qual a humanidade foi salva.

Desejo, de coração, uma renovação espiritual a todos e que o espírito da Quaresma seja de libertação, não exterior, mas interior na espera de Deus que passa pela experiência do deserto, para viver a experiência do céu.

padre Wagner Augusto Portugal

 

1º leitura: Deuteronômio 26,4 - 10

OFERTA DAS PRIMÍCIAS AO SENHOR

Estes versículos são importantes no Antigo Testamento, pois contêm o “Pequeno Credo Histórico” (Von Rad). Este Credo é uma profissão de fé do israelita, resultado de uma longa história de turbulências, opressões, sofrimentos, lutas e finalmente posse da terra prometida. Faz memória dos prodígios que Deus realizou ao longo da história. Contém todos os elementos constitutivos da fé dos primeiros tempos de Israel. Exprime o núcleo da fé hebraica e a caracteriza como fé histórica, ou seja, tem como conteúdo não uma doutrina, mas um evento no relacionamento com Deus. O texto é resultado da caminhada do povo e de sua fé em Deus libertador, que se manteve ao lado do povo oprimido.

O trecho contém um rito, uma oferta e a profissão de fé. Todo israelita, ao colher os frutos da terra (primícias), devia apresentá-los a Javé. Esse gesto tinha um duplo significado. Por um lado, suscitava a memória de que o processo de libertação e a posse da terra são dons de Deus concedidos ao povo. Por outro lado, a oferta dos dons a Deus estimulava à generosidade, à superação da tentação da ganância e do acúmulo de bens. Por fim, o rito se encerrava com um almoço para os mais próximos e para os levitas (v.11).

Depois de fazer a oferta das primícias a Javé, o israelita professava sua fé em Deus libertador: “Meu Pai era um arameu..." (v.5), fazia a memória das minorias migrantes, sem terra, forçadas a buscar a sobrevivência em ambientes estranhos que as escravizavam, e lembrava a ida ao Egito e o grito de invocação de ajuda ao Senhor. Nesta situação, Deus fez uma opção pela minoria oprimida, ouvindo o seu clamor, libertando-a (v.8) e conduzindo-a á terra prometida (v.9).

Por isso, a fé do israelita está ancorada na história, e a expressão dessa fé é a gratuidade e a ação de graças (v.10a). Para o israelita, a oferta das primícias era a memória dos atos libertadores de Javé, que agiu ao lado deles, e não como as divindades pagãs dos povos vizinhos, que também tinham ritos semelhantes, mas, ao oferecer os frutos da terra, recitavam o mito da divindade. Após esta profissão de fé, o ofertante se prostrava diante de Deus libertador em adoração e reconhecimento.

2º leitura: Romanos 10,8 - 13

SE VOCÊ CRER DE CORAÇÃO, SERÁ SALVO

Faz parte de uma seção onde Paulo mostra a fidelidade de Deus e a incredulidade de Israel (cap. 9–11). Em Jesus Deus concedeu anistia à humanidade, pois sozinha ela não podia chegar à salvação. Em Jesus, Deus se tornou próximo das pessoas, libertando-as com sua morte e ressurreição. Assim, a salvação não é exercício da pura prática da lei, como acreditava o povo do Antigo Testamento, mérito exclusivo das pessoas, pois se praticassem os mandamentos Deus seria obrigado a salvá-las.

A justiça é pura graça de Deus em Cristo. Portanto, resta aos cristãos reconhecer que Cristo é o Senhor, ou seja, está em pé de igualdade com Deus e adquiriu este título em virtude de sua obediência ao Pai. Mas não basta proclamar que Cristo é o Senhor. É necessário crer com o coração que Deus o ressuscitou. O coração é a sede das opções da vida. Portanto, crer com o coração é a prática cristã capaz de traduzir em obras, em gestos concretos e libertadores a fé que se professa. É pôr em movimento um processo de libertação, do qual ninguém fique excluído.

A salvação vem da profissão de fé de que Cristo é o Senhor ressuscitado.

Evangelho: Lucas 4,1 - 13

TENTAÇÃO DE JESUS NO DESERTO

O evangelista apresenta as tentações de Jesus, que são uma síntese de todas as tentações que padeceu durante sua ação libertadora. Lucas inseriu estas tentações depois de descrever a sua genealogia. Com isso, quis mostrar que Jesus é humano como qualquer outra pessoa. Portanto, as tentações que ele sofreu são iguais às nossas.

Esta narrativa se encontra apenas em Lucas e em Mateus. Teve sua origem provavelmente num ambiente eclesial, interessado em definir com exatidão o sentido do título Filho de Deus. De fato, no sentido semítico, ele podia designar um semideus, que devido ao seu nascimento divino tinha uma grande força, da qual se servia para sua vantagem própria. A tradição sobre as tentações nega esta possibilidade e afirma o sentido bíblico do Filho de Deus, ou seja, o executor obediente e cheio de fé da vontade do Pai. As tentações podem ser consideradas históricas, embora a redação do diálogo seja da comunidade primitiva. Além do mais, a tentação não tem apenas um caráter pedagógico, para nos ensinar a vencê-las.

As tentações ocorrem no deserto, que para o Antigo Testamento lembra o tempo da gestação do profeta de Deus para o povo. Foi nele que os hebreus forjaram a duras penas a nova sociedade livre da opressão. Os quarenta dias (simbólicos) lembram os quarenta dias que Moisés permaneceu na montanha na intimidade com Deus, a fim de escrever o contrato da nova sociedade (Êxodo 34,28). Lembram ainda os quarenta anos do deserto, com suas tendências de volta ao Egito, mesmo que fosse para viver como escravos, desde que com a barriga cheia. Lembram ainda o tempo que Elias ficou no Horeb e depois desceu para transformar a sociedade completamente, do ponto de vista político e religioso (1 Reis 19,8).

O Diabo tem um plano para perverter o projeto de Deus. A primeira tentação lembra o dom do maná no deserto. Ele propõe a Jesus que se sirva de seus dons messiânicos para seu próprio interesse (v.3). Jesus se recusa a ser o Messias da abundância, pois o projeto de Deus vai além das promessas eleitoreiras (Deuteronômio 8,3). Não basta o pão, o projeto de Deus é maior.

Na segunda tentação o Diabo tenta perverter o plano de Deus mediante a usurpação do poder: “Eu lhe darei todas as riquezas...” Jesus se recusa a ser o Messias do poder (Deuteronômio 6,13). Absolutizar o poder é repetir a opressão do faraó.

Na terceira tentação o Diabo tenta Jesus para que abuse do poder de Deus, a fim de se livrar da morte, usando o Salmo 90,11 - 12. Jesus é convidado a atirar-se do pináculo do Templo. Mas ele se recusa a ser o Messias do prestígio (Deuteronômio 6,16), o que é idolatria. Segundo a tradição, o pináculo era o lugar da manifestação do Messias.

O Diabo se afastou de Jesus para voltar a tentá-lo no tempo oportuno. O tempo oportuno é o final da ação libertadora de Jesus, em que ele iria enfrentar os soldados e os chefes dos judeus (Lucas 22,1 - 3).

REFLEXÃO

Iniciamos a Quaresma, caminho anual de preparação à Páscoa, centrado no fato fundamental da história do homem pecador, que não pode encontrar em si mesmo a estrada da salvação. Somente Deus pode oferecê-la. Pecador e escravo, o homem não pode pagar seu próprio resgate, mas somente Deus que se fez homem.

Neste domingo, os temas polarizam sobre a fé e a provação da fé. A fé cristã é histórica. Certamente, fé é uma palavra muito genérica, pois muitos dizem ter fé porque acreditam no Absoluto. Para outros ela é uma atitude psicológica de confiança. Para outros, ainda, é simplesmente uma prática religiosa. Em todas essas atitudes existe o germe, mas não a verdadeira fé que a Bíblia nos ensina.

Para a Bíblia, ter fé é reconhecer que Deus segue nossas vidas de perto, tem em si as diversas reações da liberdade humana diante dos acontecimentos. A história do povo hebreu, especialmente de sua saída do Egito, é um exemplo claro desta posição de Deus. Deus escutou suas lamentações e os hebreus acreditaram quando reconheceram Deus em suas vidas. Fé é, portanto, reconhecer que Deus atua de acordo com um plano para conduzir os homens para a salvação.

Para nós, cristãos, crer em Deus é reconhecer que ele agiu em Cristo para nos salvar. É crer que Jesus é o Senhor porque Deus o ressuscitou.

Os evangelistas escreveram os evangelhos para que não se perdesse a lembrança do que aconteceu realmente e para recolher o testemunho “daqueles que foram testemunhas desde o início”, para “dar testemunho da solidez do ensinamento” (Lucas 1,1 - 4). As palavras de hoje nos dizem que em Jesus se manifestou o plano divino da vitória sobre o mal. Assim, o mal não é invencível.

Como Jesus, o cristão pode passar por provações em sua vida. A tentação do materialismo, em que o homem tem fome do pão material, ou seja, de tudo o que supõe o ter e o gastar com coisas, é a primazia do ter sobre o ser e a dissociação entre fé e vida. Como cristãos devemos subordinar os bens a nós, pois produzir e gastar como atitude fundamental em nossa vida não é compatível com o Evangelho. Além disso, a primazia do ter sobre o ser gera o egoísmo, o exclusivismo, a falta de partilha, a injustiça, a desigualdade, a insatisfação diante das necessidades artificiais.

Ser e amar é a única solução para os problemas humanos, porque leva à partilha e ao reconhecimento do outro como irmão.

O Evangelho nos mostra que não podemos pretender fazer nosso caminho sem padecer alguma provação. As tentações são fruto de nossa debilidade intrínseca. Somos fruto das tentações do inimigo, que quer nos iludir com sugestões. Entretanto, o mundo atual é marcado pelo sinal da descrença, pelo ateísmo militante ou pelo agnosticismo indiferente. O grito “Deus está morto” do Zaratustra de Nietzsche confirmou o surgimento de ídolos que querem ocupar o lugar de Deus destronado. Para muitos, a imagem do homem técnico da pós-modernidade suplanta a imagem de Deus que morreu. “Deus criou o homem à sua imagem e semelhança, e o homem lhe paga com a mesma moeda, criando Deus também à sua imagem e desejo“ (Voltaire).

Jesus é em tudo igual a nós, menos no pecado. Quis submeter-se à tentação no início de sua missão, no momento em que se preparava com o jejum e a oração. O Diabo tenta dissuadi-lo do seu propósito, sugerindo-lhe outros meios mais rentáveis, mais fundados na realidade humana. Jesus não se deixou levar pelos argumentos falsos do Demônio, mas manteve sua escolha ancorada na vontade de Deus.

Também nós nos encontramos diariamente diante de duas encruzilhadas. Qual devemos tomar? É muito fácil, por sugestão do tentador, por nossa fraqueza ou por influência de idéias que nos circundam, tomar o caminho mais curto e mais cômodo. Ao contrário, o caminho mostrado pela palavra de Deus parece cheio de sacrifícios.

É preciso fazer um pequeno programa nesta Quaresma, pequeno, mas eficaz, um programa que consista em conhecer melhor a palavra de Deus que chegue até o coração. E ao mesmo tempo partir para a realização prática desta palavra na vida diária, apesar das tentações.

O relato das tentações lembra os três momentos do caminho do povo hebreu no deserto em direção a Canaã.

01) A fome, a murmuração e o dom do maná - Deus permitiu a fome para ensinar que o homem não vive só de pão (Deuteronômio 8,2). Jesus viveu esta tentação, mas, ao contrário do povo hebreu, venceu-a. Como Jesus, os cristãos devem fazer a experiência do deserto e das tentações na saída do Egito. Todos os israelitas foram batizados na nuvem e no mar, todos comeram o mesmo pão espiritual... (vv.2 - 4). É a mesma a situação dos cristãos que receberam os sacramentos da iniciação (Dupont). Por isso devem preocupar-se em não sucumbir às tentações, como Israel. Hoje as tentações são as dos bens materiais, em detrimento da moral, da família, da saúde, de Deus...

02) A falta de água - Os israelitas murmuravam: “Deus está conosco?” E pedem um milagre a Deus: que mostre água. Onde Israel sucumbiu, Jesus saiu vencedor e não iria obrigar Deus a intervir em seu favor. Hoje muitos querem ensinar a Deus o que fazer: Por que Deus não acaba com o mal? Sempre faço o bem e veja o que me acontece: uma desgraça!

03) O impacto com a terra de Canaã - Deus havia advertido o povo de que, ao entrar na terra prometida, encontraria um povo pagão, e lhe disse: “Vocês devem adorar somente a mim” (Deuteronômio 6,15; Êxodo 23,20). O povo de Israel sucumbiu, pensou em receber favores do povo conquistado unindo-se a ele na adoração dos ídolos. Jesus passou pelo mesmo caminho, mas venceu. E os cristãos, quantos ídolos adoram? Sucesso, moda, status, símbolos…

A Quaresma é um tempo de adesão madura a Deus, pois é um dom, mas também uma procura. A Quaresma é um tempo para mergulhar na palavra de Deus, que nos faz discernir entre o bem e o mal.

Se o Diabo tentou Jesus, quanto mais a nós. Isto porque Satanás é um anjo mau, capaz de tornar-se atraente, enganador, inclusive de citar a Palavra de Deus. Sua função é nos separar de Deus, nos convencer a caminhar com as próprias forças, propor-nos sucesso e segurança contra o projeto de Deus.

O ódio de Satanás é reservado aos santos“ (Bernanos). Não é só nos fenômenos excepcionais (droga, alcoolismo, violência...) que se reconhece a intervenção de Satanás, mas também nas ações normais, do dia-a-dia, quando a quimera do ter-poder-prazer tende a nos desviar da obediência da fé...

Parece-me que certas ironias sobre o conteúdo doutrinal nascem de um conhecimento incorreto de como Cristo e os apóstolos rejeitaram o Diabo“ (Rahner).

A Quaresma é um tempo de preparação para a Páscoa, a festa litúrgica mais importante. Para chegar a esta festa, a Igreja nos propõe quarenta dias de preparação. A Quaresma é um tempo de meditação, de oração, de caridade. É um tempo para aprofundar mais os mistérios da fé, com o jejum, a esmola, a oração.

padre José Antonio Bertolin, OSJ

 

1º leitura - Dt. 26,4 - 10

Estamos diante do "credo histórico de Israel". É um trecho de fundamental importância para o povo de Deus. Este trecho é trazido à memória a cada ano, quando as famílias celebram o memorial de sua libertação. Os vv. 1 - 3 estão explicando o que deve ser feito logo que o povo tomar posse da terra prometida. O povo deve pegar os primeiros frutos da terra e apresentá-los a Javé, ou seja, cada família devia ir até ao sacerdote, levando o cesto e professar a sua fé. O v. 4 mostra o sacerdote pegando o cesto das primícias, ou seja, dos primeiros frutos da terra e colocando-o diante do altar do Senhor. Depois disso o ofertante recita a profissão de fé e se prostra diante de Javé (vv. 5 - 10). Então temos aqui todo o ritual com a oferta, a profissão de fé, a adoração e ainda no v. 11 o grande banquete de confraternização. Com a família participavam também o levita e o imigrante que vive no meio do povo. Todos se alegravam com a fé no Deus libertador.

Temos neste gesto dois grandes significados: primeiro, lembrava que o processo da libertação e a posse da terra são ao mesmo tempo dom de Deus que liberta, e conquista do povo que luta e se organiza.

Segundo, nesta profissão de fé, relembrando a ação de Deus na caminhada histórica do povo, o israelita reconhecia a opção preferencial, que Javé havia feito pelos oprimidos e marginalizados, pois esta era a situação de Israel no Egito, mas Javé ouve o clamor do povo e o liberta dando-lhe uma terra, onde corre leite e mel.

Terceiro: o povo manifesta a sua fé através da gratidão da oferta, onde reconhece que tudo vem de Deus, ou seja, a liberdade, a vida e os produtos da terra. Este gesto de oferta com o final festivo estimulava à partilha e à generosidade. Simbolizava a possibilidade de uma sociedade alternativa, superando a tentação da ganância e do acúmulo.

Questionamentos: a) A nossa fé no Deus que liberta nos leva a acompanhar as lutas do povo que pede libertação? b) A fé no Deus que é dono de tudo e tudo nos dá nos leva à partilha generosa através do dízimo e da oferta?

2 leitura - Rm. 10,8 - 13

O capítulo 1o fala da infidelidade culpável de Israel, pois ele não se sujeitou à justiça de Deus em Jesus Cristo, mas quis estabelecer a própria, baseada nos seus próprios méritos de um fiel cumprimento da Lei. O v. 4 diz que Cristo é o próprio fim da Lei "como meta, como termo e como realização", quer dizer, o objetivo da Lei é chegar até Jesus e Jesus põe fim à Lei, pois agora a vida é encontrada em Jesus Cristo e não na Lei. Assim os vv. 5 - 13 mostram que o único caminho da salvação está na fé em Cristo. O próprio texto de Paulo faz duas citações. A primeira é tirada de Lv. 18,5 onde fala que a Lei plenamente cumprida leva à salvação. O acento aqui está no agir humano. Mas na realidade ninguém é capaz de cumpri-la por causa da força do pecado. A segunda é tirada de Dt. 30,11 - 14 que sublinha o agir de Deus. Mostra que a Palavra de Deus não está distante do homem (no céu ou nos abismos), mas foi colocada por Deus ao seu alcance. No v.8 Paulo mostra que esta Palavra colocada ao alcance do homem não é palavra da lei, mas a palavra da fé. Qual é o conteúdo dessa fé? É o v. 9 que nos traz o sintético e primitivo credo cristológico: "Se, pois, com tua boca confessares que Jesus é o Senhor e, no teu coração, creres que Deus o ressuscitou dos mortos, serás salvo". Aqui está afirmada a divindade de Jesus (Senhor era o título de Deus no Primeiro Testamento) e a sua ressurreição de entre os mortos. Estes são os dois conteúdos básicos da fé. Para se obter a salvação é preciso confessar ou professar estas duas verdades de fé. Como confessá-las? É com uma confissão externa, pública, litúrgica (através da boca). É uma adesão interior - crer com o coração. Como o coração para o judeu é a sede das opções da vida, crer com o coração significa não um sentimentalismo religioso, mas pôr em prática o projeto libertador de Jesus, onde ninguém fica excluído, pois não há mais distinção entre judeu e grego, pois o Senhor Jesus dá atenção a todos aqueles que invocam o seu nome, ou seja, a sua pessoa.

Em síntese a vida cristã, ou seja, a salvação trazida por Jesus se recebe numa vida ativa na busca da justiça, honestidade e solidariedade com os mais pobres (= acreditar com o coração) e na proclamação e celebração litúrgica desta vida de fé (= confessar com a boca). É assim que você faz?

Evangelho – Lc. 4,1 - 13

Os sinóticos querem mostrar, antecipadamente, a vitória de Jesus sobre o poder do mal e, assim, sintetizam todas as tentações, que Jesus sofreu em sua vida pública, nestas três tentações simbólicas. Jesus está no deserto e é guiado pelo Espírito. O deserto pode simbolizar o povo de Israel e o demônio simboliza todos os obstáculos e anti-projetos com os quais Jesus se deparou e venceu para levar à frente seu programa libertador. Os 40 dias simbolizam o tempo da vida de Jesus - uma geração. Lembra o tempo em que Moisés passou no Sinai (Ex. 34,28), o tempo em que Elias permanece no Horeb (1 Rs. 19,8) e também o tempo em que Israel passou pelo deserto, tentado a retornar para a escravidão do Egito. Jesus, novo Moisés, e para Lucas, principalmente, novo Elias, vai refazer de modo vitorioso a caminhada do povo com um novo projeto de libertação.

a) Jesus é tentado a ser o Messias da abundância transformando pedras em pão. Num mundo de famintos Jesus teria pleno sucesso. Jesus responde com o texto de Dt. 8,3: "Não só de pão vive o ser humano". O projeto de Jesus vai além do alimento. Em Jo. 6,15, depois da multiplicação dos pães, o povo quer aclamar Jesus como rei, e Jesus foge.

b) Jesus é tentado a ser o Messias do poder.

O demônio propõe a Jesus dar-lhe todos os reinos do mundo com toda a glória, contanto que Jesus o adore. A tentação é capaz de inverter e perverter o que há de mais sagrado. O demônio quer que Jesus o adore, ou seja, se submeta a ele. A proposta aqui é muito tentadora, pois o povo estava preparado e queria exatamente um Messias temporal, poderoso politicamente. Jesus sabe que um messianismo temporal e político não seria libertador, seria opressor como foi o projeto do faraó, por isso, Jesus responde de novo com Dt 6,13: "Temerás o Senhor teu Deus, a ele servirás e só por seu nome jurarás". Adorar a alguém ou algo que não é Deus é voltar à condição de oprimido.

c) Jesus é tentado a ser o Messias do prestígio

A segunda tentação de Mateus, Lucas coloca como terceira para terminar em Jerusalém, onde a paixão representa a última e a mais cruel das tentações de Cristo (cf. Lc. 22,3 - 53). A tentação do prestígio é usar o poder de Deus em seu próprio favor, isto é, a fim de se livrar da morte. Dentro do simbolismo da terceira tentação, Jesus é convidado a pular do pináculo do Templo, pois conforme o Sl. 91,11 - 12 os anjos de Deus o protegeriam e o livrariam da morte. Mas Jesus entendeu bem que o projeto de Deus, que é a libertação dos oprimidos, tinha de passar pelo sofrimento e morte, e Jesus não se acovardou. A reposta de Jesus é tirada de Dt 6,16: "Não tenteis o Senhor vosso Deus". "Tentar a Deus" no Primeiro Testamento significa "desobedecer-lhe para ver até onde chega a sua paciência, ou, como aqui, recorrer à sua bondade como objetivo interesseiro". O v. 13 afirma que o demônio voltará no momento oportuno. Isto vai acontecer, quando Jesus tiver que enfrentar os chefes dos sacerdotes, doutores da Lei e anciãos, que representavam o poder (cap. 20, cf. 22,3 - 53).

Quais são as três principais tentações de hoje?

Quem hoje faz o papel do demônio, promovendo as tentações?

dom Emanuel Messias de Oliveira

 

Otimismo na luta

G. K. Chesterton, converteu-se ao catolicismo em 1922. Para esse ilustre escritor inglês a Igreja Católica era um autêntico milagre porque se mantêm otimista em meio ao pessimismo generalizado. Escrevendo sobre o otimismo se perguntava: “Por que se publica no jornal a seguinte notícia: ‘Ontem um pedreiro caiu do andaime e morreu’? Não seria mais inteligente e, sobretudo mais consolador anunciar: ‘Ontem 68.224 pedreiros no país não caíram do andaime’? De fato, por pouco que se pense, dada a fragilidade dos andaimes e o distraído que os homens são, é muito mais extraordinário que 68.224 não caiam do andaime que um só tenha caído.”

O otimismo deveria estar sempre presente na nossa luta por agradar ao bom Deus. Alguns se queixam de que ser santo é muito difícil, que lutam sem nada conseguir, que voltam a cair nos mesmos pecados. Mas talvez não pensam que Deus os tem protegido sempre durante as tentações e de que seguir o Senhor é verdadeiramente belo. Precisamos ser mais otimistas! Jesus Cristo também foi tentado, não pela sua própria concupiscência, pois Jesus Cristo não tinha o pecado original. Cristo quis ser tentado – como explica Santo Tomás de Aquino – para trazer-nos o auxílio em nossas tentações; para que sejamos cautelosos, assim nenhum santo, por mais que o seja, confie em si mesmo nem se julgue imune de toda e qualquer tentação; para dar-nos o exemplo ao instruir-nos como devemos vencer as tentações do demônio; para que tenhamos confiança em sua misericórdia que sempre nos socorre em todas as nossas necessidades.

No nosso caso, Santo Afonso Maria de Ligório diz que “Deus permite as tentações em primeiro lugar, para que através delas conheçamos melhor a nossa debilidade e a necessidade que temos da ajuda de Deus para não cair (…); em segundo lugar, Deus permite-as para que cada um aprenda a viver desprendido das coisas materiais e deseje mais fervorosamente chegar à contemplação de Deus no céu (…); e, em terceiro lugar, para nos enriquecer de méritos (…)”.

Uma fé ardente no Senhor e uma luta constante através da oração e da penitência são os remédios contra toda e qualquer tentação. Por outro lado, a tentação ainda não é pecado, pecado é consentir na tentação. Podemos, ademais, demonstrar muito amor a Deus enquanto somos tentados. Inclusive, depois de vencidos numa determinada tentação, deveríamos perguntar-nos se nós lutamos de verdade para não ofender a Deus que nos ama tanto. Essa luta, mais intensa ou menos intensa, mostra também o nosso amor ao Senhor: pouco ou muito, o amor a Deus existe em nós e é ele que deve fazer com que nos distanciemos do pecado.

São Lucas (4,1-13) e São Mateus (4,1-11) deixaram muitos pormenores sobre o jejum e as tentações de Jesus Cristo. Jesus luta contra a tentação da seguinte maneira: na força da Palavra: “Não tentarás o Senhor teu Deus” (Lc 4,12); na força do jejum: “Nem só de pão vive o homem” (Lc 4,4); desprezando as sugestões do demônio, ao não dar-lhe atenção: “Para trás, Satanás” (Mt 4,10); fixando-se no seu Pai do céu: “Adorarás ao Senhor, teu Deus e a Ele prestarás culto” (Mt 4,10). Aprendamos do Senhor: ler as Sagradas Escrituras, fazer penitência, orar, olhar mais para Deus e para os demais que para nós mesmos são meios eficazes na nossa luta contra as tentações.

E, por último, não sejamos ingênuos: quem se põe na boca do lobo está esperando ser comido. Não se brinca com a tentação! Alguns não querem pecar por gula, mas sempre buscam satisfazer os caprichos na comida; outros até não queriam pecar contra a castidade, mas ficam lendo porcaria, assistindo bobagem, brincando com fogo no namoro e depois… um antigo refrão dizia que “o homem é fogo, a mulher é palha, vem o demônio e sopra”; outros, finalmente, não queriam pecar por orgulho, mas não param de falar de si mesmos. “Não nos deixeis cair em tentação”, peçamos mais uma vez ao nosso Pai do céu.

padre Françoá Rodrigues Figueiredo Costa

 

AS TENTAÇÕES DE JESUS

No primeiro Domingo da Quaresma os cristãos são levados ao deserto a fim de viverem um momento de intensa oração (Lc,4,1 - 13),tal como Jesus que “foi conduzido pelo Espírito Santo”. O deserto na Bíblia é o lugar privilegiado para o encontro com Deus; foi assim para o povo de Israel que nele habitou durante quarenta anos; para Elias, que nele passou quarenta dias; para João Batista que para lá se retirou desde a sua adolescência. Jesus consagra este costume e vive na solidão durante quarenta dias. No entanto, para Jesus o deserto não é apenas o lugar de retiro e da intimidade com Deus, mas também o campo de batalha suprema onde foi tentado pelo demônio.

Jesus, o novo Adão, transforma o deserto em paraíso. Ele o realiza, colocando o ser humano em seu devido lugar, onde a verdadeira vida não está no pão material, mas na palavra que sai da boca de Deus. Acabada toda a tentação, o diabo o deixou até o tempo oportuno. Este tempo oportuno será o de sua paixão que acontece também em Jerusalém.

As tentações do deserto ensinam que, onde quer que se fomentem intenções ambiciosas, ânsias incontroladas de poder, de triunfo, de gloria, lá se esconde a intriga de satanás. Para destruir estas e outras possíveis inclinações para o mal, é necessário manter firme a palavra de Jesus; “adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele servirás” (Lc 4,8); isto é, é indispensável à decisão para rejeitar qualquer proposta que impeça o reconhecimento e o serviço de Deus como único Senhor. “Como fazia todas as coisas para nos ensinar – diz São João Crisóstomo-, quis também ser conduzido ao deserto e ali travar combate com o demônio a fim de que os batizados, se depois do batismo sofrem maiores tentações, não se assustem com isso, como se fosse algo inesperado.

Jesus quis ensinar-nos com o seu exemplo que ninguém deve considerar-se dispensado de passar por provas. Ensina-nos também, com a sua conduta, como devemos vencer as tentações e como tirar proveito das provas que iremos passar. Ele, ”permite as tentações e serve-se delas, providencialmente, para te purificar, para te fazer santo, para te desprender melhor das coisas da terra, para te conduzir aonde Ele quer e por onde quer para te fazer feliz numa vida que não seja cômoda e para te dar maturidade, compreensão e eficácia no teu trabalho apostólico com as almas e…, sobretudo, para te fazer humilde, muito humilde!” (S. Canals, Reflexões Espirituais, pág.98).

Uma outra lição que Jesus nos deixa é que ninguém deve considerar-se seguro e isento de tentações; mostra-nos a maneira de vencê-las e exorta-nos, por fim, a que tenhamos confiança na sua misericórdia já que Ele também experimentou as tentações (cf.. Hb 2,18 ).

Nas tentações do Senhor estão resumidas todas as que podem acontecer ao homem: “não diria a Sagrada Escritura, comenta Santo Tomás, que acabada toda a tentação o diabo se retirou d’Ele se nas três não se achasse a matéria de todos os pecados. Porque a causa das tentações são as causas das concupiscências: o deleite da carne o afã de glória e a ambição de poder” (Suma Teológica, III, q. 41,4).

O Senhor queria ensinar-nos os meios para vencer o diabo: a oração o jejum, a vigilância, não dialogar com a tentação, ter nos lábios as palavras de Deus na escritura, e por a confiança no Senhor. Essas são as armas.

Contamos sempre com a graça de Deus para vencer qualquer tentação. E, além das armas já indicadas, para vencer nesta batalha espiritual, podemos acrescentar outras como: a sinceridade e franqueza com o diretor espiritual, a Eucaristia e o Sacramento da Penitência (confissão), um generoso espírito de mortificação cristã, a humildade de coração e uma devoção terna e filial à Virgem Maria…

O Senhor está sempre ao nosso lado, em cada tentação, e nos diz afetuosamente: “ confiai: Eu venci o mundo” (Jo 16, 33). É no Senhor que nos apoiamos, pois “sem mim nada podeis fazer” (Jo 15,5 ). Como diz S. Paulo: “tudo posso naquele que me fortalece” (Fil. 4,13). O Senhor é a minha luz e a minha salvação; a quem temerei? (Sl. 26,1).

Continuemos a caminhada da quaresma. Quarenta dias nos separam da grande festa da Páscoa. Trilhemos o caminho da conversão proposta pela Campanha da Fraternidade, cujo lema: “não podeis servi a Deus e ao dinheiro”, nos convida a optar por Deus com todo o nosso ser.

mons. José Maria Pereira

 

EPÍSTOLA ROMANOS 10, 8-13

Uma das primeiras confissões de fé. Paulo a resume em três artigos: crer, confessar e ressurreição, esta como objeto dessa fé. E compara esta fé com as palavras da Escritura do AT, como sendo já prescritas pela voz de Deus. O que os antigos israelitas cumpriam com as filactérias, os cristãos podem realizar com o sinal da cruz, sendo esta última, também uma confissão de fé na Santíssima Trindade. Devemos, pois, fazer esse sinal externo como uma confissão de fé que será válida para nossa salvação, pois Jesus ressuscitado é a pedra de salvação. O credo do Shemá deve  ser substituído pelo credo da cruz.

PAULO APELA A ESCRITURA: Porém, que diz? “Perto de ti, a palavra está em tua boca e em teu coração”, isto é, a palavra da fé que anunciamos”(8)

QUE DIZ?: Paulo está argumentando com palavras da Escritura. E neste versículo cita as palavras do Deuteronômio 30, 14: A palavra está bem perto de ti, está em tua boca e em tu coração para que a ponhas em prática.O Deuteronômio fala do mandato [Lei] do Senhor como não sendo um mandato promulgado em lugares afastados ou impossíveis como são os céus ou o mar, mas está perto de cada um. Para conhecer o evangelho não é preciso subir ao céu de onde procede Cristo ou descer aos infernos onde ele desceu, porque tanto de um lugar como de outro veio e falou de modo que todos os que quiseram possam ver sua figura e ouvir suas palavras. O mandato é basicamente o primeiro da Lei, que era recitado duas vezes ao dia por meio do Shemá. Daí que ele esteja na boca dos fieis israelitas. E se seguem os preceitos da Lei, os mandatos estarão tanto na frente como perto do coração nas filactérias que eram os escritos do Shemá a recitar  de manhã  e à noite e cuja recitação deveria preceder o momento da morte. Os quatro versículos, ou melhor passagens (Dt 6,4 - 9 e 11,13 - 21 e Nm. 15,37 - 41) se consideravam como uma referência aos dez mandamentos. Além do Shemá, recitado em alta voz [pelo menos o Mezuzá = Dt 6,4 - 9 e 11,13 - 21], temos as filactérias com duas caixinhas que continham o Shemá, segundo o mandato dos versículos do Êxodo e Deuteronômio (Êx 13,9- 19 e 16; Dt. 6,6 e Dt. 11,8). A Caixinha da cabeça tinha 4 compartimentos em cada um um dos versículos do Shemá; e a da mão esquerda, que ao levantar em oração, caia sobre o coração um só departamento, com os 4 versículos unidos na pequena tira de couro. As caixinhas eram colocadas durante a oração da manhã e da noite e retiradas após as mesmas. Explicitamente em Êx 13,9 lemos: Para que tenhas em tua boca a lei de Jahveh e em Dt 6, 6 e estas palavras que eu te mando estarão sobre teu coração.

PALAVRA: Paulo usa Rema que é a palavra dita como oráculo, ou mandato e corresponde ao davar, ou omer com o significado de mandato, ordem, oráculo ou promessa quando provindo de Jahveh. E logicamente é a palavra de Deus na Escritura, ou Torah. Do dito acima, vemos como se cumpria entre os hebreus essa Escritura que estava na boca pela recitação do Shemá diário e em teu coração ela queda na caixinha sobre ele.

BOCA: Stoma especialmente temos em Mt 4, 4 não de pão só viverá o homem mas de toda palavra que procede da boca de Deus.

CORAÇÃO: Kardia (= cor) Na realidade, kardia pertence, como metáfora, a uma antiga suposição, em que o coração era a origem do pensamento e da vontade. De fato, o Kardia era antigamente o centro da vida física e espiritual. Hoje, vemos que o coração não tem semelhantes faculdades, pois é uma simples bomba de sangue, e sabemos que a base das mesmas é a mente. Já temos explicado a origem desta frase paulina tomada do AT, que ele usa para explicar o valor da fé em oposição aos mandatos da Lei.

A PROFISSÃO DA FÉ: Pois se confessares em tua boca Senhor (é) Cristo e creres em teu coração que o Deus dele o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo (9).

CONFESSAR: Omologeö cujo significado é concordar, consentir, acordar. Logo, é não negar ou confessar e finalmente, professar publicamente um credo ou louvar e aplaudir. Temos optado com o latim traduzindo confessar no sentido de declarar publicamente uma fé, como diz Jesus:Todo aquele que me confessar diante dos homens, também eu o confessarei diante de meu Pai que está nos céus (Mt 10,32). A confissão é que Cristo, o Ungido, é o Senhor, no sentido do novo Deus a ser adorado, pelo povo novo da nova Aliança.

CORAÇÃO: Já temos explicado o significado real e não unicamente literal do vocábulo. A boca deve ser instrumento veraz do que admitimos como verdadeiro em nosso pensamento. E qual é o credo que devemos admitir como base de nossa fé? Aquele que Paulo declara insistentemente em 1Cor 15: a ressurreição de Jesus dentre os mortos.

RESSUSCITOU: para Paulo esta é a verdade fundamental do cristianismo: crer na ressurreição de Cristo e crer na nossa ressurreição é acreditar uma vida, diante da qual, esta da terra é como escória e lixo; e, portanto, devemos viver na esperança de um mundo melhor e definitivo.

SERÁ SALVO: Paulo repete o que João disse como palavra de Jesus: Por isso quem crê no Filho tem a vida eterna (Jo 3, 36), conclusão do evangelista diante da afirmação de Jesus: Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que morra viverá (Jo 11,25).

CONSEQUÊNCIA: Já que com (o) coração se crê para justiça com (a) boca se aclama para salvação(10)

CORAÇÃO: Já temos falado que em linguagem atual, devemos traduzir por mente o leb ou kardia antigos, sempre que os usemos em termos simbólicos.

JUSTIÇA: a Dikaiosunë que na Setenta é a tradução de Tsedek, tem estes conceitos no AT:

1) Como probidade ou integridade de conduta: Quem vive com integridade e pratica a justiça e o de coração fala a verdade (Sl 15,2). Guia-me pelas veredas da justiça [tsedek] por amor de seu nome. (Sl 23,3)

2) Justiça em sentido de direito: Julgará com justiça os pobres e decidirá com equidade a favor dos mansos da terra… E será a justiça o cinto de seus quadris (Is. 11,4). No NT o grego emprega dikaiosunë 1) - no sentido de probidade ou conduta irrepreensível, em conformidade com a lei. Assim devemos entender Mt 3, 15: convem que cumpramos toda justiça [dikaiosunë]. E bemaventurados são aqueles que têm fome e sede de justiça [dikaiosunë].

3) Paulo fala da justiça de Deus a começar em Rm 1,17. Significa, sem dúvida, a essência divina que é bondade e que busca o bem das criaturas. Com Paulo tem um significado peculiar:

1) quando afirmado de Cristo: É sua pureza , sem pecado, é a santidade de Deus.

2) No homem se identifica com a observância integral dos mandamentos.

3) Mas especialmente em Paulo, tem um significado diferente do acreditado entre os judeus e os cristãos judaizantes: atributo, em virtude do qual, Deus salva; e chega a ser fidelidade de Deus, força salvadora que justifica o homem, convertendo-o em amigo de Deus e filho, com participação da vida divina o que constitui a graça santificante, como em Rm. 3,21 - 26: Mas agora, independentemente da Lei, a justiça de Deus foi manifestada …pela fé em Jesus Cristo para todos os que creem …gratuitamente justificados em sua graça, em virtude da libertação realizada em Jesus Cristo. Foi a Ele que Deus destinou para servir de expiação por seu sangue… a fim de justificar quem vive da fé em Jesus. É  a graça recebida no batismo que tem estas consequências: conversão, arranca o homem do pecado, acolhe a justiça de Deus, é merecida pela paixão de Cristo e, portanto, gratuita de nossa parte, colabora com a moção divina livremente, obra excelente do amor de Deus e participação da vida divina, que por isso recebe o nome de santificante ou divinizante.

SALVAÇÃO: Esse conjunto de favores divinos recebe o nome de justificação. Como consequência dessa graça ou mercê de Deus, o homem está destinado à vida eterna. Por isso é considerado salvo. O amor divino nele permanece e como tal filho, terá como fim a vida eterna, própria de Deus.

CONFIRMAÇÃO: Pois diz a Escritura: “Todo aquele que nele crê não será envergonhado” (11)

É uma repetição em diminutivo do versículo 9, 33 da mesma epístola: Eis que ponho em Sião uma pedra de tropeço e rocha de escândalo: aquele que nela crê não será confundido. Ambas têm uma base em Is 28, 16: Assim diz o Senhor Deus: Eis que eu assentei em Sião uma pedra, pedra já provada, pedra preciosa, angular, solidamente assentada: aquele que crer, não foge. Eis algumas traduções diferentes do não foge: non festinet (Vulg), non turbabitur (Nova Vulg), não se apressará, não vacilará, não será abalado, will never be dismayed. A este oráculo, apela Jesus em Mt 21,42. Porém, a Setenta traduz o verbo chush com significado de se apressar por Kataischinthë, futuro passivo de kataischinö cujo significado é desonrar, ou envergonhar. Logicamente, das diversas traduções, vemos que a de Paulo segue a Setenta, versão que era a usada pelos primitivos cristãos e que com suas citações elevaram a verdadeira Escritura. Foi a contundência da Setenta, que mostrava Jesus como Cristo, a que levou os judeus a novas traduções ao grego, como eram Áquila, Símaco e Teodocião. Hoje a Setenta é a Bíblia grega do AT usada pelos católicos e evangélicos. Dependendo de que versão usamos, hebraica ou grega, optaremos por não se apressará (praticamente sem muito sentido) ou não se envergonhará (que tem sentido próprio). A passagem de Mateus explica isso da pedra em lábios de Jesus: A pedra que os construtores rejeitaram foi a que se tornou pedra angular : isto é obra do Senhor, coisa admirável para nossos olhos (Mt 21,42)

NULIDADE DE DIFERENÇA: Porque não existe diferença tanto do judeu como do grego, já que o mesmo (é) o Senhor de todos, rico para todos os invocantes(12). Na sua vocação particular de ser apóstolo dos gentios, e de pregar a estes o seu evangelho, Paulo agora desce ao terreno peculiar e casuístico: visto que a fé, e não a Lei, é a causa da salvação e da entrada no novo povo que tem como base essa pedra que é Cristo, não pode existir diferença entre ambos os povos.

DIFERENÇA: Diastolë, distinção, ou diferença, sai unicamente 3 vezes em Paulo. Pois sedo o mesmo o Senhor [Jesus] e sendo rico não há porque existir diferenças. Todos são súditos e formam o novo povo da nova aliança e existe para todos amplamente uma riqueza ilimitada. Pedindo, não diminui a fortuna que é infinita e existe riqueza em abundância para todos. Como dizia Sta. Teresinha, uns têm um copo maior e outros menor; mas todos eles serão cheios até a borda.

CAUSA DE SALVAÇÃO: Porque todo aquele que invocar o nome de (o) Senhor será salvo (13).

INVOCAR: O Epikaleö (= invocare] ser nomeado, acusar e invocar; pois toda prece iniciava-se com a invocação do nome da divindade. Daí, invocar o nome do Senhor, que logicamente é Cristo.

SALVO: É a grande preocupação de Paulo. E esta afirmação esta explicitamente escrita em Joel 3, 5: Então todo o que invocar o nome do Senhor será salvo. O profeta fala do dia grande do Senhor, dia de juízo, pois será o dia do Senhor julgar (Idem 4,2 segundo a TEB, tradução de Josafat). Com esta declaração Paulo substitui o Jahveh do AT pelo Cristo Jesus do NT. Nós dependemos de Cristo assim como o antigo povo de Israel dependia de Jahveh. Cristo é nossa salvação. Por isso, o anjo explica aos pastores: Nasceu-vos hoje, na  cidade de Davi, um salvador que é o Cristo Jesus. (Lc. 2,11)

 

Evangelho – Lc. 4,1 - 13

Estas tentações não são meramente humanas, mas messiânicas: Satanás intenta afastar Jesus do campo assinalado pelo Pai para completar uma obra que é um caminho de humilhação e sofrimento, o caminho da cruz, que termina com seu sacrifício. Por isso lhe mostra uma via gloriosa e triunfalista, esperada por sua vez pelos próprios judeus, que talvez fundavam esta sua opinião nos mesmos textos de que se serve o espírito tentador. Por outra parte, as tentações de Jesus têm sua imagem típica nas tentações do deserto do povo de Israel. Satanás substitui o povo de Israel e Javé está representado por Jesus, que responde às tentações com as palavras da Escritura. O deserto de Jesus representa o deserto do povo e assim ele mesmo está tipificado no guia e legislador Moisés. Ou melhor, talvez Jesus represente o novo povo de Deus que é tentado em sua pessoa pelo inimigo sob aparência de uma correta conduta religiosa. A fome [1ª tentação]: Israel tenta a Javé  e essa prova serve, segundo Dt 8,3 para um novo alimento saído da boca de Deus: Javé te humilhou, fez com que sentisses fome e te alimentou com o maná….para que aprendas que não só de pão vive o homem, mas de tudo aquilo que sai da boca de Javé. Na segunda tentação que o povo fez a Deus vemos como aquele o rejeita por uma maior segurança em Êx 32,1 e por isso, pede que um novo deus seja forjado para que os guie no caminho do deserto, porque Moisés demorava a descer do monte. Na terceira tentação, o povo reclama, colocando à prova Javé, dizendo: Está Javé no meio de nós, ou não? E Deus responde por boca de Moisés: Não tentareis a Javé vosso Deus  como o tentastes em Massa. É uma desconfiança na providência de Javé que o salmista rejeita em Sl 91, 11: Javé ordenou a seus santos anjos que te guardassem em todos os teus caminhos; te carregarão em seus braços, para que teu pé não tropece em pedra alguma.

CHEIO DE ESPÍRITO DIVINO: Jesus, pois, cheio de espírito divino desde o Jordão, então foi coagido no espírito para o deserto (1).

O ESPÍRITO: As traduções vernáculas falam DO Espírito Santo, como se fosse a terceira pessoa da Trindade. Esse artigo definido não está no original grego. Qual a diferença? Jesus, que foi batizado no espírito, uma vez recebido o batismo de água de mãos do Batista, agora é levado por esse espírito ao deserto. Esse espírito é chamado de sagrado, ou divino, para distingui-lo do espírito impuro que tem sua origem em forças demoníacas ou malignas. O espírito santo é um Dom de Deus, fonte de atividade criativa ou profética. Corresponde ao enthusiasmos grego em que o homem é possuído pela força do deus correspondente. Fazer e atuar como Deus quer, e falar o que Deus decidir, é estar cheio do espírito santo. Esse espírito está dirigindo o homem, independente de sua mente ou NOUS, e dos apetites de seu corpo. É assim que Jesus foi guiado, ou melhor, coagido (passiva teológica) ao ermo, ou sertão da Judeia. O artigo definido indica um lugar conhecido, como era o deserto de Judá, lugar montanhoso, ermo e árido com total ausência de moradores humanos. O grego diz que o fez subir até o deserto. Lucas dirá que o fez voltar ao deserto. Ambas as expressões são perfeitamente exatas, caso o deserto seja o da Judeia. O Jordão estava a mais de 300 mt. sob o nível do mar no lugar onde o Batista batizava; e o deserto, com artigo, era precisamente o lugar montanhoso que se encontrava a bastante altura do nível do mar, entre Jerusalém e a margem ocidental do mar Morto. No caso de que João estivesse batizando perto das planícies de Basan [em Enon, perto de Salim], também podemos falar de subir, pois o Jordão estava a 200 mt. sob o nível do mar e as alturas de Golan o marginavam. Pelo que diz respeito a Lucas, este diz que Jesus voltou do Jordão e foi impelido pelo Espírito ao deserto. Em ambos os casos o agente da ação do movimento de Jesus foi o Espírito de que estava possuído após o batismo, segundo Lucas (4,1). Alguém poderá dizer: se no Pai-nosso rezamos não nos deixes cair na tentação como é agora o Espírito quem causa a ocasião da tentação? Devemos pensar que a linguagem bíblica não distingue entre causa e ocasião e entre causas segundas e primárias. Hoje diríamos que o Espírito conduziu Jesus para o deserto e assim foi facilitada a obra do tentador que, segundo os conceitos do tempo, era o lugar povoado pelos demônios com o qual a tentação era previsível.

O DESERTO: a) DESERTO REAL: O eremos grego é um lugar descampado, solitário, [desertus, desamparado, abandonado, solitário e em inglês wilderness] que como adjetivo tem o  mesmo significado; ao qual voltou, ou se desviou desde o Jordão. Com artigo, e referido com um verbo que significa subir, indicaria que esse deserto é o famoso de Judá. Deserto por ser lugar inóspito, não por ser um deserto de areia, já que o deserto de Judá é um deserto abrupto, pedregoso e principalmente estéril. Unicamente na primavera existe alguma vida vegetal. Tem 80 Km de comprimento, por 20 ou 25 Km de largura. É uma área montanhosa, desabitada, entre Jerusalém e o mar morto. Unicamente há uma fonte de águas termais em Engadi que formava ao seu redor um oásis fértil, cheio de palmeiras, vinhas e árvores de bálsamos. Ao seu redor existem numerosas covas. Foi o lugar escolhido por Davi para fugir de Saul e onde este esteve nas mãos do futuro rei que poupou sua vida.(1 Sm. 24,1 - 12). Na parte mais alta não havia nada, a não ser pedras como as que o diabo assinala para serem convertidas em pão. Em Lucas, nosso caso, o eremos aparece 12 vezes. Das 4 vezes que o deserto se refere ao Batista, uma delas está em plural [nos desertos] lugares que eram as moradias de João antes de tornar público seu anúncio como arauto do Messias. No deserto, é a frase com a qual o evangelista distingue dos lugares desertos onde Jesus se retirava para orar ou lugar deserto onde ele multiplica os pães. Unicamente no deserto é que o pastor abandona as 99 ovelhas para buscar a transviada (15,4). Somente Mateus usa esta expressão [no deserto] no início da pregação de João, o Batista, determinando praticamente o lugar: pregando no deserto da Judeia (3,1). Mas é estranho que João batizasse no Jordão, pregando no deserto de Judeia, situado este a mais de 20 Km. de distância do rio.  Certamente o lugar onde João batizava não poderia ser chamado de deserto de Judeia. Consequentemente, Mateus não pode ser tomado como referência geográfica para os sucessos do batismo de Jesus e sua retirada ao deserto. Onde estava, pois, este deserto no qual encontramos feras, impossíveis de serem achadas no deserto da Judeia? Muito mais confiança oferece João que situa Betabara [ou Betânia do outro lado do Jordão] como o lugar em que Jesus foi batizado, ao norte, em território da Decápolis e perto da Galileia. Perto de Betabara encontramos lugares desertos como era a morada habitual do endemoninhado geraseno, que segundo Lucas, era impelido pelo demônio para os lugares desertos (Lc 8,29). Tudo isso indica que o deserto não é um nome restritivo a um determinado lugar, ou nome próprio, mas nome comum, determinado por sua solidão e inabilitação. Logicamente, podemos afirmar, sem descartar em absoluto a postura tradicional, que o deserto ao qual Jesus se retirou estava muito mais próximo da Galileia do que da Judeia, que o deserto das tentações eram os montes do que antigamente chamava-se de Gileade, [escabroso] e que ao norte do mesmo estava Basã, de cuja região eram famosos os touros, ao parecer selvagens (Sl 22,13), ou vacas que moravam nas montanhas (Am 4,1). Uma confirmação de que não era o deserto da Judeia podemos vislumbrar em João 3,22: Depois disso Jesus veio para o território da Judeia. Isso indica que o batismo de Jesus, que precede de imediato a sua ida ao deserto, não foi feito na Judeia mas muito próximo da Galileia, e que  o deserto de Jesus era um deserto comum.

b) BÍBLICO: Na bíblia, o deserto tem dois sentidos, um negativo, como terra estéril, maldita de Deus e habitada pelos espíritos impuros. O deserto era terra medonha e terrível não abençoada por Deus, em que o povo se encontrava como enterrado na terra (Êx 14.3). Na linguagem bíblica, a aridez do deserto é símbolo de uma terra à qual Deus nega sua bênção e, portanto, privada de chuva e fertilidade. Neste sentido é comparado com a cidade que foi objeto do castigo divino (Lc 13,35). E o outro positivo, como lugar e época privilegiada em que Deus dirigia o povo para a terra prometida. Do deserto se pensava que devia proceder o Messias para a instalação do seu reino (Mt 24,26). Historicamente, Israel viveu no deserto 40 anos. A solidão do povo com Jahvéh transformou a vida, de extrema penúria em época privilegiada,  em que Israel nasceria como povo e teria como único guia o Senhor Jahvéh (Ex. 13,21 - 22). Foi o lugar da purificação e experimentação da pobreza do povo (Dt. 8,2 - 5) para que aprendesse que não só de pão vive o homem (Dt 8,2 - 5). O deserto é sinal de salvação (Is. 35,1 - 10). Os profetas anunciavam as promessas do reino, dizendo que o deserto se transformaria em jardim, donde as feras seriam inofensivas (Is. 32,15 - 17). Isto deve ser tomado em conta para ver como, sob os fatos narrados, existe um simbolismo que não devemos desprezar.

O JEJUM: Por quarenta dias, estando sendo tentado pelo diabo, e não comeu nada nesses dias; e acabados eles, depois teve fome (2).

QUARENTA DIAS: Lucas fala só de dias mas Mateus e Marcos falam também de noites. Como devemos entender os quarenta dias e quarenta noites de Mateus e Marcos? Os judeus, como atualmente os árabes no período do Ramadão, jejuavam de sol a sol. O jejum terminava com o dia, aproximadamente seis da tarde. Por isso os dois evangelistas acrescentam as quarenta noites. Uma outra questão é se o número 40 corresponde a um tempo matemático ou cronológico, ou é um número redondo, mais ou menos prolongado, em razão da falta de adjetivos indefinidos nas línguas semitas. Neste último caso, facilitaríamos a exegese para manter a saúde de Jesus, sem recorrer a causas sobrenaturais. O tempo é comparável ao de Moisés no Sinai (Êx 24,18) e ao de Elias no caminho do Horeb (1 Rs 19,8).

SENDO TENTADO: o verbo usado pelos três evangelistas que narram os fatos é Peirazo, na sua forma passiva e como particípio [peirasmenos ser tentado, ou tentare em latim]. É o verbo usado para experimentar se uma pessoa é digna de respeito ou merece confiança. Os fariseus experimentaram Jesus em várias ocasiões (Mt. 19,3). O próprio Jesus experimentou o comportamento de seus discípulos ante o problema de como alimentar a multidão que o seguia num lugar inóspito. É nesse sentido de experimentar qual poderia ser o comportamento de Jesus como Filho de Deus, que o tentador o experimenta em situações limites. O peirasmós [tentação] tinha dois diferentes sentidos:

1o) Um sentido bom, experimental, como ver se uma coisa é boa.

2o) Um sentido mau: experimentar a fé, a virtude, o caráter, de uma pessoa. E neste sentido, está a solicitação ao pecado. Também podemos dividir a tentação em três apartados segundo a causa: Deus que inflige os males como justiça ou como repreensão. O Homem que testa Deus como se não tivesse confiança, tal como fizeram os israelitas em Massa e Meribá. Finalmente os Ímpios ou homens maus que tentam os justos e a paciência divina. Evidentemente o tentador é no nosso caso o diabo do qual falaremos mais tarde. E a tentação é para saber que tipo de homem extraordinário era esse Jesus que estava jejuando durante um tempo tão prolongado, separado de todo contato humano. Daí que as duas primeiras tentações estejam precedidas de uma condição que é a base da experiência que pretende: Se és Filho de Deus, ou melhor: Se filho fosses do Deus, como parece indicar o grego.

O DIABO: é tradução grega da palavra Satãn [adversário] que a setenta também mantém como Satanás. Diabo é o nome derivado do verbo diaballein (caluniar), o Diábolos grego, como adjetivo, significa caluniador, difamador (Tt. 2,3). Como substantivo, calúnia e caluniador ou adversário. Claro que com o artigo definido aponta ao inimigo de Deus, Satanás. Lucas usa também o nome de Satanás em outras ocasiões (Lc. 10,18 ou 22, 3.31). Era o inimigo especial de Jesus e, portanto, dos planos de Deus. Os Setenta traduzem Satanás, ou Satã (oponente, adversário, acusador, fiscal) sempre por Diábolos. Mateus usa o grego diábolos no relato paralelo das tentações e Marcos, Satanás. Quem era ele, segundo o pensamento contemporâneo dos judeus em tempo de Jesus? Era o príncipe dos demônios. Distinguem perfeitamente os autores sagrados entre príncipe e Senhor. Miguel é o príncipe dos anjos e príncipe do povo de Deus (Ap. 12, 7 e Dn. 12,1). Senhor é o Deus único e seu Filho Jesus Cristo (Fp. 2,10 - 11) a quem foi-lhe dado todo poder (Ef. 1,20 - 21). O próprio César não quis ser chamado imperator, mas príncipe do senado. Princeps de primus capiens (ocupante do principal lugar) era o primeiro a votar no senado em tempo da República, e em tempo do Império era o filho do Imperador. O Diabo (grego), ou Satanás (hebraico) era, pois, um personagem real, individual, que se intitula a si mesmo como Senhor do mundo ou dos reinos da terra (Lc. 4,5 - 6) e que João diz ser o príncipe (archon) deste mundo (16,11) que será lançado fora, pois se aproxima o momento do julgamento do mundo, quando Jesus for elevado na cruz (como rei). Os judeus pensavam que determinadas doenças eram produto da posse demoníaca como a loucura, a epilepsia, a paralisia e até a mudez. E falavam do príncipe ou maioral dos demônios como sendo Belzebu (Lc. 11,15). Os demônios têm em grego duas palavras: daimon masculino ou feminino, que é uma divindade inferior do mundo que Platão chama o mundo do Demiurgo, em que temos os deuses, os gênios, os demônios e as almas. E daimonion, neutro, diminutivo de daimon, com o mesmo significado de ser intermédio entre deuses e homens. Para os gregos podiam ser bons, como o daimon de Sócrates ou maus como os causadores de diversas doenças. Lucas usa ambos, daimon em 8,29 ou daimonion em 4,33. Podemos, pois, afirmar que ambos são equivalentes. Também, segundo o pensar da época, os demônios moravam nos lugares áridos (Lc. 11,24), desérticos ou inabitados como eram as casas em ruína. Daí que o ermo era o lugar onde se encontravam de modo especial e por isso foi levado a ele Jesus, para aí ser tentado. O Diabo era o chefe, e especialmente no NT é considerado o inimigo frontal de Jesus e de sua obra redentora, de modo que impede o fruto da semente no coração do homem (Lc. 8,12). Aparece pela primeira vez em forma de serpente no Gênese. Com o nome de Satã aparece pela primeira vez em 1 Cr. 21, 1, como causa impulsora do recenseamento feito por Davi. Ele é um dos principais personagens do livro de Jó, constituindo o opositor a Javé e pretendendo, através de sérios males, abalar a fé do justo em seu Deus. Finalmente aparece no livro do profeta Zacarias que dá uma definição de Satã como sendo o personagem que estava à direita do anjo de Javé para acusar o sumo-sacerdote Josué a quem defende o anjo. Em Tobias temos o nome de Asmodeo [Asmodaus o demônio mau, como o define o grego] que, por não ser o livro escrito em hebraico, não sai em bíblias evangélicas e é considerado deuterocanônico pela Igreja e apócrifo pelos evangélicos. Parece que depois do exílio o nome de Satã, assim como o de outros espíritos malignos, foi eliminado e proibido. O diabo é, pois, uma pessoa singular que recebe outros nomes como Abadom [destruição] em hebraico e Apoliom em grego (Ap 9,11). Ambos os termos têm o mesmo significado: destruidor ou destruição, sendo o seu ofício o de príncipe das regiões infernais ou do abismo, tendo como ministério a morte e o estado de desordem e perturbação da terra. O mal é seu fim e o produz até nos corpos, por meio da possessão. Jesus identifica o diabo com Satanás na última rejeição de sua solicitação: Retira-te, Satanás (10). E o rejeitará com as mesmas palavras [ypage, Satanás] com as quais afastará a proposta de Pedro (16,23) contrária ao ministério messiânico, projeto do Pai. Jesus reconhece o poder de Satanás como príncipe (senhor ou rei é só Deus) deste mundo (Mt 12, 16). Marcos diz claramente que o Diabo era Satanás (1, 13) nas tentações do deserto. Satanás ou o diabo tem, segundo Jesus, um ofício principal: ser o inimigo do projeto de salvação do homem do qual Jesus era causa principal por meio do seu messiado ou Reino. Jesus é o semeador da verdade [meu reino é a verdade e para isso vim ao mundo] e no campo do mundo existe um inimigo que semeia joio [a mentira] entre o trigo: ele é o diabo (Mt 13,39). É o pai da mentira e dos que não aceitam a verdade (Jo 8,44). Não só é pai da mentira, mas como diz o livro da Sabedoria o pai da morte, pois por causa da inveja do diabo, a morte entrou no mundo e a experimentam os que lhe pertencem (2,24). Seu pecado é a soberba (1 Tm 3,6). É o semeador do joio contra a obra de Deus (Mt. 13,39). A ele estávamos sujeitos por meio do pecado e da morte que o seguiu (Rm. 5,12). Escravos do pecado, somente o Filho consegue nos libertar (Jo. 8,36). É o grande dragão, a antiga serpente, chamado Diabo e Satanás (Ap. 12,9) para quem foi preparado o fogo do inferno (Mt. 25,41), mas que terá um tempo de domínio sobre a terra antes de ser totalmente derrotado (Ap. 12,12 e 20,2 e 10). O Diabo, pois, com artigo determinado, existe. Os demônios, que geram determinadas doenças que hoje a ciência logra explicar, não existem mais; porém existem como anjos do mal, tentadores dos homens santos de modo especial, que só podem atuar por permissão divina; e em raríssimas ocasiões sua influência poderá se transformar em posse demoníaca. De fato, na história eclesiástica do Brasil não temos um só caso comprovado, segundo afirma o padre Quevedo. Como conclusão podemos dizer que o relato de hoje é um paradigma da luta entre duas pessoas: O Logos, como Jesus, e o Diabo, como tentador.

O JEJUM: No judaísmo clássico pressupõe completa abstenção de alimento e bebida. Os judeus tinham dois dias de completo jejum de ocaso a ocaso, ou dia e noite: o Dia da Expiação e o dia 9 do mês Av [quinto mês correspondente a julho-agosto]. Os demais dias de jejum eram do nascer do sol até seu ocaso, como os dias de Ramadão dos árabes. Nos dias de jejum os jejuantes costumavam se sentar no chão vestidos de aniagem [o famoso saco] e com cinzas sobre a cabeça (2 Sm. 12,16; Est. 4, 1e Jn. 3,6). Se o jejum de Jesus foi de 40 dias e noites sem comer e possivelmente sem beber, foi um fato extraordinário que não podia passar por alto ao diabo, que como demônio habitava nos lugares desérticos (Mt. 12,43), segundo a crenças da época. Em termos médicos atuais, o jejum prolongado produz um estado de neurose em que o real e o imaginário podem se confundir. Seria esta a explicação da visão diabólica de Jesus, e de seus transportes ao templo e à montanha alta onde todos os reinos estavam representados? É uma hipótese que não é totalmente descartável. Entre as causas do jejum está a preparação para estar em contato com Deus como fez Moisés que precisamente subiu a uma montanha desértica e jejuou 40 dias e 40 noites sem comer nem beber (Êx 34, 28). Mas é possível do ponto de vista humano um homem jejuar 40 dias de 24 horas sem ser um super-homem? Caso possa beber água, a resposta é sim. Porém existem alguns fenômenos que aparecem após um determinado número de dias, especialmente uma confusão mental, que se origina por falta de alimento energético nos neurônios cerebrais. A realidade e a imaginação se confundem. E o estado do paciente é semelhante ao de brotes de esquizofrenia. Talvez assim, a ciência moderna, desse modo, explique os traslados de Jesus e as visões correspondentes. O que não é possível é passar tanto tempo sem beber. Do ponto de vista bíblico, Jesus é comparado com Moisés (Êx 34,28) e com Elias (I  Rs 19,8. Ambos estiveram 40 dias em jejum. Mas os  dois foram fortalecidos pela intervenção especial de Javé.

1ª TENTAÇÃO A PROPOSTA: Então disse a Ele o diabo: Se Filho és de(o) Deus diz a esta pedra para que se torne pão (3). Para Marcos o período dos quarenta dias e quarenta noites foi um tempo de tentação sem explicar quais e quantas. Para os outros dois sinópticos, as tentações foram principalmente três, sem que com isso possamos excluir outras. Uma coisa é clara: a tentação foi externa à pessoa de Jesus, tendo origem em quem será seu inimigo implacável, que, no caso, aparentemente pretende ser seu amigo. Aí está o perigo da tentação: confundir o discurso do mal com a palavra do bem de Deus. Geralmente nós, os humanos, ouvimos a palavra da paixão do momento, da escolha imediata, da felicidade sem esforço, da fortuna repentina, da vida fácil, do amor egoísta. O sacrifício, a abnegação, o desprendimento, a privação, e até o esforço, o que poderíamos chamar a cruz de cada dia, são motivos de repulsa e rejeição. Mas vejamos como foram vencidas as tentações do maligno por Jesus.

FILHO DE DEUS: Como mais tarde veremos, as tentações são motivadas pela frase se és filho do Deus. O artigo serve para indicar entre os muitos deuses o único verdadeiro. O Diabo, que vamos indicar como agente pessoal, com a maiúscula correspondente após o artigo definido, estabelece uma proclamação de fé, chamando Jesus filho do (Senhor) Deus, indicando com isso a existência desse único Deus. Que significa a frase filho do Senhor Deus em lábios de Satanás? O povo de Israel, por ser escolhido, é o amado filho de Deus. Também o rei davídico é filho de Deus, pois representa o povo. Na anunciação, o anjo declara que o menino a ser concebido será filho do Altíssimo (do Elyon = Altíssimo ou Supremo). Após o batismo de Jesus no Jordão, a voz ouvida pelo Batista foi: Tu és o meu filho, o amado. Em ti encontrei agrado [satisfação]. Ou se preferimos, de ti sinto orgulho. Teve notícia desta epifania o Diabo? Aparentemente Satanás unia o Messias com um atributo especial de ser amado especialmente como filho por Deus. Por isso dirá Lucas que saiam muitos demônios de doentes gritando: Tu és o Cristo, o filho do (Senhor) Deus (Lc 4,41). Provavelmente essa filiação tinha muito com a que Davi profetizou em Sm 2,7: Tu és meu filho, eu, hoje te gerei. Essa filiação dava ao Messias uma série de qualidades distintivas como a profecia, a realeza, o sacerdócio. Como profeta, à semelhança de Elias e Eliseu teria o poder de realizar milagres. O diabo vem dizer: eu sei que és filho de Deus. Se, portanto, queres te comportar como tal, podes muito bem transformar estas pedras em pão. Não sejas bobo e sacia tua fome. O que o diabo pede é que Jesus use seus poderes sobrenaturais em proveito próprio, para saciar sua fome.

A RESPOSTA: Então respondeu Jesus a ele dizendo: Está escrito: não sobre pão só viverá o homem, senão sobre toda palavra de Deus (4). Jesus sabe que a petição é um desafio à sua entrega aos planos do Pai em que sua vida é dar-se e não receber. Por isso a resposta é que, segundo a palavra divina, (a Escritura) não só de pão vive o homem. É também uma citação de Dt 8,3: O senhor humilhou Israel e o deixou ter fome e sustentou-o com o maná que nem tu, nem teus antepassados conheciam, tudo para te mostrar que o homem não só vive do pão, há de viver o homem, mas que o homem vive de tudo aquilo que sai da boca de Deus. Qual é o verdadeiro sentido da resposta de Jesus? Segundo o que temos visto através dos textos, parece que podemos deduzir que Jesus opta pela obediência às leis divinas ou naturais, que respeita, mesmo estando em grande necessidade, porque sabe que Deus proverá a essa necessidade sem a intervenção sobrenatural. Ele inaugura um novo povo de Deus [é o simbolismo do qual temos falado com Jesus representando o novo Israel] em que a comida não será tão essencial como a palavra de Deus, que deve ser aceita e obedecida. Ou seja, antes de procurar o pão, devemos saber qual é a vontade de Deus e cumpri-la fielmente.

2ª TENTAÇÃO. PROPOSTA: Então, tendo-o elevado o Diabo a um monte alto, mostrou-lhe todos os reinos do império romano num instante de tempo (5). E lhe disse o Diabo: A ti darei todo este domínio e a magnificência dos mesmos, porque a mim foi entregue e a quem quero, a dou (6). Se, portanto, tendo te prostrado na minha frente, serão todos teus (7). Tu ergo si adoraveris coram me erunt tua omnia.

OS REINOS: Lucas fala de que o conduziu ao alto, mostrando todos os reinos civilizados (da oikumene, ou seja do império), num instante de tempo. Parece que podemos identificar esta visão com uma aparência imaginária, como temos declarado acima. Mentiroso como sempre, o Diabo afirma que o poder, ou domínio [exousia] e a glória, faustosidade ou magnificência [doxa] desses reinos lhe pertenciam. Realmente o Império Romano era o domínio de Satanás, porque seu fundamento era a idolatria, que Daniel descreve como os reinos saindo do fundo do mar [o abismo onde estava o reino das trevas ou de Satanás], contrários ao povo de Deus, especialmente o quarto, que o perseguiu de forma violenta (Dn. cap 7). Por que reinos, se na realidade era o império que os dominava e ao qual o oikoumenes se referia? Não esqueçamos que nesse império havia reis como o nabateu, ou tetrarcas como Antipas, etc. que eram mais ou menos independentes, desde que pagassem certos tributos ao César. Neste caso, Satanás trata Jesus como futuro Messias/Rei, assim como anteriormente o reconheceu como profeta. O diabo quer tirá-lo da obediência ao Pai e frustrar a entrega do Filho, como servo, dando-lhe o que ele mesmo, o Diabo, como rebelde e soberbo, tinha presunçosamente almejado: o domínio absoluto do mundo dos homens.

A PROSKINESE era o ato de submissão de um súdito ao seu rei, ou de um vencido ao vencedor, reconhecendo sua superioridade. Tratando-se de ato religioso a proskinese significava adoração. O Diabo pede uma submissão a seu poder para assim entregar os reinos e transformar o Messiado do Ungido de Deus num Messiado submisso ao poder das trevas. Era a história com um giro de 180 graus.

A RESPOSTA: Então, tendo respondido, disse Jesus: retira-te atrás de mim, Satanás. Pois está escrito: prostrar-te-ás ante o Senhor teu Deus e a Ele servirás (8). As citações de Mateus e Lucas são idênticas e não correspondem literalmente ao texto grego dos setenta. Ambos empregam dois verbos proskineou e latreuo, que significam prostrar-se em sinal de admitir a superioridade e oferecer obediência e adorar como Deus. Jesus claramente indica que o diabo não tem lugar em sua vida. Por isso a palavra final é UPAGE, retira-te, vá embora. A resposta de Jesus é uma citação de Dt. 6,13: Temerás o Senhor teu Deus e a ele adorarás e a ele servirás e pelo seu nome jurarás. O advérbio MONO [só] não pertence ao texto original, mas enfatiza o vínculo com o único Senhor de Israel. Jesus se mostra obediente até a morte como dirá Paulo (Fp. 2,8). No simbolismo antes explicado, vemos o povo, representado por Jesus, dando uma resposta de obediência e culto ao único Senhor verdadeiro: teu Deus.

3ª TENTAÇÃO: Então o conduziu até Jerusalém e o pôs de pé sobre o pináculo do templo e lhe disse: Se és o Filho de (o) Deus, lança-te daqui embaixo (9). Pois está escrito que enviará seus anjos sobre ti para te guardarem (10). E que em suas mãos te tomarão para que não choques o pé contra uma pedra.

PINÁCULO: o termo grego pterigyon, significa ângulo, de pterix que significa asa, sendo, pois o significado de pterygion, extremo, barbatana, asa pequena. Como fala do ierós, qual era o pterigion [asa ou extremo] do templo? Não existe ente os comentaristas uma ideia clara. Devemos pensar num dos quatro ângulos da parte externa do templo, ou seja, dos quatro pórticos que o rodeavam. Deles, a parte mais alta era o Pórtico Real do sul. Deste lugar Jesus devia saltar para que se cumprisse o salmo 91 sobre o justo que em Deus confia. Existia entre os contemporâneos de Jesus a opinião de que o Messias devia se apresentar, descendo das alturas do templo, no átrio do mesmo, diante da multidão que o aclamava. Seria este o sinal que esperavam os fariseus e saduceus em Mt. 16,1 ou Lc. 11,16? Como o Diabo pede um milagre, daí que inicia seu discurso com se és Filho do (Senhor) Deus. E reforça sua petição com um texto dos salmos (91,12) em que o justo é declarado sob proteção especial : Pois disseste: O Senhor é o meu refúgio; fizeste do Altíssimo a tua morada, nenhum mal te sucederá; praga nenhuma chegará à tua tenda. Porque a seus anjos dará ordens a teu respeito, para que te guardem em todos os teus caminhos. Eles te sustentarão nas suas mãos para não tropeçares nalguma pedra. O maligno interpreta este texto para argumentar uma confiança temerária na providência divina, para interpretar de modo atrevido e arriscado a vontade de Deus. Ou talvez para que Jesus demonstrasse, como pediam os fariseus, que ele era realmente o Messias, submetendo Deus a uma prova de origem humana. Sabemos como Jesus rejeitou a proposta dos fariseus, afirmando que nenhum sinal seria dado,  exceto o sinal de Jonas [a ressurreição]. O milagre era uma atuação totalmente divina que interrompe as leis da natureza. Jesus devia viver uma vida humana e como tal atuar, a não ser por impulsos do Espírito Santo, não para se salvar, mas para salvar os outros. Daí que ele nunca realizara milagres em seu favor. O caso estava no mesmo nível que o grito dos fariseus ao pé da cruz: a outros salvou, a si mesmo não pode salvar! Se és filho de Deus desce da cruz e creremos em ti (Mt. 27,42).

A RESPOSTA: Então, tendo respondido, lhe disse Jesus que está dito: Não tentarás ao Senhor teu Deus (12) A resposta de Jesus é tomada de Deuteronômio 6,16 - 18: Não tentes a Javé teu Deus como o tentastes em Massa (17). Observa cuidadosamente os mandamentos de Javé, teu Deus, e também os testemunhos e estatutos que ele te ordenou (18). Faz o que é justo e bom aos olhos de Javé para que tudo te corra bem. Tentar significa por à prova. A prova, a qual submeteram os filhos de Israel o poder e a fidelidade divina, está encerrada nesta frase do Êxodo 17,7: Está Javé no meio de nós, ou não? A tentação consistia, ante a dificuldade de achar água, pensar: está o Senhor conosco ou não está? Significaria: devemos confiar nele ou permitirmos outro deus para nós? É tratar de ver se Deus está sempre da parte de uma pessoa, faça o que faça esta pessoa de sua vida. No nosso caso, a tentação consistiria em obrigar o Senhor a realizar um ato extraordinário e tremendamente temerário. Era obrigar o Senhor a realizá-lo sem causa nenhuma justificável. A resposta de Jesus é a de admitir a verdadeira vontade de Deus que está em não querer fazer fatos extraordinários quando a vida deve ser vivida de forma comum. O resto é tentar o Senhor como fizeram em Massa os israelitas segundo Dt 6, 16. Nesta tentação Jesus representa o povo de Israel no deserto diante da presença sobrenatural de Deus.

A RETIRADA: Então, acabada toda tentação, o Diabo afastou-se dele até ocasião oportuna (13).

KAIRÓS: A tradução  do kairos grego nada tem a ver com o tempo. Significa medida conveniente, ocasião, conjuntura favorável, lugar oportuno. Daí que a tradução do tempo deve ser sempre acompanhada com um adjetivo para indicar ser um tempo oportuno ou propício. Esse momento foi no tempo de sua paixão, quando Jesus afirmará que essa é a vossa hora e o poder das trevas (Lc 22,53). Os outros dois evangelistas falam que imediatamente após a tentação os anjos o serviam.

CONCLUSÕES E PISTAS

1) É um pouco estranha esta referência às tentações de Jesus, visto que aparentemente nada aportam à mensagem evangélica. Nada disso: as respostas de Jesus são respostas à pergunta de muitos judeus e contemporâneos sobre o uso do milagre pelo Filho de Deus todo-poderoso. Por que tendo em suas mãos o poder divino só o usou para curar doenças e aplacar fomes alheias? Por que, sendo Filho de Deus não desceu da cruz e esmagou seus inimigos (Mt 27,40)? Como é possível que podendo com um sinal estupendo reduzir oposições e mostrar com total evidência a sua divindade, não o fizesse (Lc. 11,16)? A resposta a estas questões está nas palavras com as quais Jesus rejeita as tentações. Devemos estudá-las com atenção.

2) Já que também nós, em determinadas circunstâncias, tentamos o Senhor: por que a mim, por que tenho eu de ser sujeito de determinada desgraça e infelicidade? Será que tenho que mudar de Senhor?

3) Passando do sujeito individual ao coletivo: por que tantas guerras, por que tanto mal no mundo? Deus que pode tudo, por que permite que os bons sejam os mais vulneráveis e os maus os mais seguros e felizes em suas vidas atuais? A resposta seria, sem dúvida, a que nos deu Jesus: Deus ama também seus inimigos.

4)Uma pergunta óbvia: Os traslados, a presença do Diabo foram reais ou foram fatos imaginários? Cremos ter dado a resposta: o jejum prolongado transforma em realidade o que podemos chamar sonho ou imaginação.

5) Jesus representa o novo povo de Deus e as tentações de Jesus respondem às que sofrem os membros da sua Igreja: O pão material pode ser o fim principal do evangelho; o poder pode substituir o serviço e finalmente esperar que Deus faça o milagre de mostrar-se com um sinal extraordinário, especialmente quando tudo parece estar contrário aos seus adoradores, situados na cruz do sofrimento ou da humilhação.

padre Ignacio