1° DOMINGO DE ADVENTO

ano C

 

Advento é tempo de grande compromisso com o projeto de Deus. Olhando a realidade do povo em nosso país, constatamos que há um abismo entre o que o Senhor quer e a situação em que se encontra a maioria da nossa gente. Contudo, os anseios do povo coincidem profundamente com o plano divino: a paz que é fruto da justiça. O povo quer dirigentes e governantes legítimos, dos quais possa cobrar seus direitos e justiça (1º leitura).

A celebração eucarística é lugar onde o povo oprimido pode ficar de pé e levantar a cabeça, porque a libertação está próxima (evangelho). A morte e ressurreição de Jesus, celebradas na eucaristia, são a presença do Deus que age na história, julgando e libertando.

Celebrar é atualizar o amor de Cristo por nós, traduzindo-o em fraternidade e solidariedade, de modo que o mundo inteiro conheça o projeto de Deus e dele participe, pois o amor prepara a vinda de Jesus (2º leitura).

I leitura (Jr. 33,14 - 16): A paz é fruto da justiça

O capítulo 33 de Jeremias é uma promessa de restauração feita à cidade de Jerusalém e à dinastia davídica. O oráculo – que, segundo os estudiosos, não é de Jeremias, mas de um discípulo seu – situa-se em torno do ano 587 a.C., depois que Nabucodonosor sitiou Jerusalém durante um ano. É, portanto, uma mensagem de esperança para uma comunidade cercada de desespero, pavor e morte.

Os versículos escolhidos como primeira leitura deste domingo têm como tema a restauração da dinastia davídica (33,14 - 18). O profeta anuncia o cumprimento das promessas que Deus fez a seu povo: repatriar os exilados e constituir um rei que governe segundo o direito e a justiça (os versículos deste domingo contemplam só a segunda promessa).

Davi – símbolo do rei justo – havia deixado como testamento a seguinte afirmação: “Quem governa os homens com justiça, e quem governa segundo o temor de Deus, é como a luz da manhã ao nascer do sol, manhã sem nuvens depois da chuva, que faz brilhar a grama da terra” (2 Sm 23,3b - 4). A história dos reis de Judá não registra com tanta frequência os atos de justiça das autoridades máximas do país. Mais ainda: o último rei durante a atividade de Jeremias é um tal de Sedecias (nome que significa Javé-minha-justiça), rei fantoche cujo poder foi legitimado por Nabucodonosor, do qual Judá conhece a crueldade, ambição e violência. Foi Nabucodonosor quem deu esse nome a Sedecias. Ora, para os antigos, dar ou mudar o nome de alguém significava, respectivamente, dar-lhe nova identidade ou manipular essa pessoa. Foi o que aconteceu com Sedecias. E a “justiça” que Sedecias tentou instaurar foi a do invasor e opressor do povo.

Não é por aí que se realizam as promessas de Javé. A nova autoridade, surgida da descendência de Davi, será um fruto santo (literalmente: um rebento santo, v. 15a). A imagem vegetal do broto novo mostra que Deus toma a iniciativa, suscitando, gratuita e generosamente, nova autoridade para o povo. A função dessa nova autoridade é fazer valer o direito e a justiça no país (v. 15b). Em outras palavras, a legitimidade do governo consiste na administração da justiça. E quem legitima essa autoridade é o próprio Deus. A carteira de identidade do governo que Javé vai suscitar para o povo será o cumprimento da justiça que Deus deseja. O nome (= a identidade) do rei é Javé-nossa-justiça (v. 16b).

Quais as consequências de um governo que se preocupa fundamentalmente com o direito e a justiça? O texto de hoje aponta uma delas: “Jerusalém habitará em segurança” (v. 16a). Resultado de administração justa é uma sociedade que vive em paz e segurança. Para os antigos, a cidade é o lugar privilegiado da convivência social. Mas é também lugar onde podem ser notadas, em grau elevado, as consequências da exploração, quando as autoridades deseducam o povo em relação ao direito e à justiça, apesar de estarem cheias de “boas intenções” e programas. A cidade pode se tornar lugar de comunhão ou lugar onde as pessoas se devoram mutuamente. De acordo com a promessa de Jeremias, a cidade se tornará lugar de comunhão, paz e segurança quando o rei cumprir e fizer cumprir a justiça de Deus: Javé-nossa-justiça. E o que isso significa? Em outras palavras, a autoridade só é legítima quando traduzir a segurança e a paz social em termos de vitória sobre a corrupção, interna ou externa, que lesa, oprime e mata o povo; quando atender às reivindicações dos empobrecidos. Quando isso acontecer, o povo dará ao governo um nome significativo: “Ele é a própria justiça de Deus” (Javé-nossa-justiça). Parece não ser isso o que está acontecendo hoje no meio de nós. De fato, quais são os “nomes” que o povo dá, hoje, aos que nos governam?

Evangelho (Lc 21,25 - 28.34 - 36): Fiquem de pé e levantem a cabeça,

porque a libertação está próxima!

O capítulo 21 de Lucas é um apocalipse. É uma forma de escrever estranha para nós. Ao ler um texto apocalíptico, muita gente pensa que o autor esteja falando de coisas do futuro, do fim do mundo etc. O que dizer disso?

O gênero literário apocalíptico não quer falar de coisas que vão acontecer num futuro remoto ou próximo. É um modo misterioso de falar sobre as coisas do tempo presente. É uma linguagem para tempos difíceis cuja finalidade é animar as comunidades para a denúncia profética e para a resistência diante de tudo o que se opõe ao projeto de Deus.

O apocalipse de Lucas (cap. 21) fala da história passada e presente e, se quisermos, fala também das propostas de caminhada para os cristãos que vivem em meio a uma sociedade conflituosa. Quando Lucas escreveu o evangelho, a cidade de Jerusalém já tinha sido destruída (ano 70 d.C.). Ora, parte do cap. 21 trata desse tema (vv. 5 - 24). Ao lermos o texto, temos a impressão de que as coisas estão ainda por acontecer. Por que, então, o evangelista descreve a destruição de Jerusalém? A primeira lição que a comunidade cristã tira desse acontecimento é a seguinte: o fim da cidade que matou Jesus não é o fim do projeto de Deus. O cristianismo tem um caminho aberto pela frente. Em outras palavras, a escatologia de Lucas não pretende instruir sobre o fim dos tempos: ela já se iniciou com a encarnação, morte e ressurreição de Jesus. É aqui, em nossa história cheia de conflitos, que somos chamados a levantar a cabeça e ficar de pé, pois nossa libertação está próxima, ou seja, está em curso, uma vez que o Cristo, tendo vencido as forças da morte, está vivo e virá para nos salvar definitivamente.

a. Jesus está presente em nossa história como aquele que julga (vv. 25 - 28)

É próprio da apocalíptica traduzir, por meio de sinais grandiosos, a presença do Filho do homem na história. Os vv. 25-28 não fogem à regra e mostram alguns desses sinais no sol, na lua e nas estrelas (v. 25a). No Antigo Testamento, essas catástrofes cósmicas são sinônimo da presença do Deus que age na história em favor de seus aliados. O livro do Apocalipse nos ajuda a entender melhor esse sinal. Lá, os abalos cósmicos são prenúncio da novidade que Deus vai criar. Há, no mundo, uma expectativa de novidade, marcada por esses fenômenos. Algo de completamente novo está para acontecer. Isso se torna mais claro no final do Apocalipse, quando são criados novos céus e nova terra. Na nova Jerusalém já não existirão sol, lua, estrelas. Tudo é novo. E essa novidade é resultado da própria ação de Deus, que tem poder sobre os elementos cósmicos. Portanto, longe de assustar, esse tipo de linguagem quer animar, dar esperança e fortalecer na resistência. Isso vale também para Lucas.

A vinda do Filho do homem é descrita no v. 27 como o próprio poder de Deus que age na história. A nuvem, sobre a qual ele está, é símbolo do poder e da glória divina que o Filho possui. Sua vinda é marcada pelo julgamento dos que se opõem ao projeto de Deus. Isso é demonstrado nos vv. 25b-26: “Na terra as nações cairão em angústia, assustadas com o barulho do mar e das ondas; os homens vão desmaiar de medo só em pensar no que ameaça o mundo, porque até as forças do céu serão abaladas”. E é demonstrado também no v. 27: “Então eles verão o Filho do homem vindo numa nuvem com grande poder e glória”. Quem são os que verão o Filho do homem? Os que se opuseram a ele e aos discípulos, aos quais foi confiado o projeto de Deus. Esse versículo se inspirou em Dn. 7,13 - 14, que possui forte conotação de julgamento. A vinda do Filho do homem, portanto, é marcada em primeiro lugar pelo julgamento dos que rejeitaram as propostas do Reino.

Com essas imagens estranhas, baseadas em catástrofes cósmicas, o evangelista pretende afirmar que os inimigos do projeto de Deus (as nações) vão perdendo, por força do testemunho das comunidades cristãs, as máscaras que ocultavam a injustiça e a perversidade da sociedade estabelecida. A vinda do Filho do homem, portanto, não é algo que se deva esperar passivamente. Ao contrário, é já uma presença, cuja manifestação depende do testemunho dos cristãos.

Em segundo lugar, a vinda do Filho do homem é salvação dos que permanecem fiéis: “Quando estas coisas começarem a acontecer, fiquem de pé e levantem a cabeça, porque a libertação está próxima” (v. 28). A palavra libertação, certamente inspirada no pensamento de Paulo, é o resgate que Cristo pagou com seu sangue. O termo lembra a compra dos escravos: alguém nos resgatou, a preço de sangue, para que vivamos desde já como pessoas livres (cf. 1 Cor 6,20; Gl 5,1). Contudo, o processo de libertação continua mediante a prática da justiça e o esforço para recriar a humanidade de acordo com o projeto de Deus. Isso é tarefa dos discípulos de Jesus. Ao dar continuidade ao processo de libertação, os cristãos enfrentam os conflitos e perseguições dos que não desejam que as coisas mudem. Nesse combate, o Filho do homem é nosso aliado e juiz. Ele declara inocentes (faz ficar de pé) os que lhe forem fiéis e lhes dá vitória (levanta a cabeça).

b. Como ficar de pé e levantar a cabeça (vv. 34 - 36)

Os vv. 34-36 são um apelo à vigilância; não no sentido de expectativa de algo que está para acontecer, mas vigilância como discernimento do que leva ou não ao projeto de Deus: “Cuidado para que a consciência de vocês não fique entorpecida com festanças, bebedeiras e preocupações da vida, para que aquele Dia não os apanhe de surpresa” (v. 34). Os primeiros cristãos pensavam que a segunda vinda de Cristo aconteceria em breve. Diante disso, muitos deles deixaram de ter aquela garra que caracterizava os inícios das comunidades cristãs, passando a levar vida mansa, sem trabalhar, vivendo à custa dos outros (cf. 1 Ts. 5,14; 2 Ts. 3,6 - 12). Para Lucas, não é assim que se espera a vinda do Filho do homem. Ao contrário, mediante a lucidez, o senso crítico em relação à sociedade e aos acontecimentos da história, é que as pessoas vão descobrindo a presença do Deus que age conosco e em nosso favor. Quem vive de consciência entorpecida pela ideologia é como se estivesse em permanente ressaca: não é capaz de discernir o momento e a urgência da prática cristã. E o julgamento de Deus (aquele Dia) cai sobre essas pessoas como rede (v. 35).

A norma que o evangelho dá, a fim de que as pessoas possam ficar de pé diante do Filho do homem, é esta: “Fiquem sempre acordados e rezem para ter força” (v. 36a). Trata-se de vigilância ativa, acompanhada pela oração-discernimento: a vinda do Filho do homem não é expectativa passiva de acontecimentos futuros. É prática cristã que não se acomoda (fiquem acordados), mas procura adequar-se, mediante a oração, à vontade de Deus.

II leitura (1 Ts 3,12 – 4,2): O amor prepara a vinda de Jesus

Tessalônica, com seus inúmeros contrastes sociais, era uma das grandes metrópoles do primeiro século da era cristã. Obrigado a fugir de Filipos, onde fora torturado e quase morto, Paulo se refugiou nessa cidade, onde fundou uma comunidade, organizando-a. Perseguido, teve de abandonar Tessalônica às pressas, sem poder acabar a catequese sobre o ser cristão. Estando em Atenas, mandou para lá Timóteo, a fim de sentir de perto como andava aquela comunidade. Voltando, Timóteo encontrou Paulo em Corinto e lhe contou os progressos feitos pela comunidade e sua resistência diante das perseguições sofridas. De Corinto, Paulo escreve aos tessalonicenses, a fim de manifestar seu contentamento e ação de graças pela perseverança (caps. 1 - 3). E aproveita a oportunidade para acrescentar algumas instruções (caps. 4 - 5). Nasce, assim, o primeiro escrito do Novo Testamento.

A comunidade de Tessalônica aderiu ao evangelho com grande alegria. Seus membros passaram a viver o ideal de comunhão e solidariedade fraternas próprias de quem abraça a novidade do projeto de Deus, afastando-se do modo de viver da sociedade daquele tempo, que discriminava e marginalizava pessoas. Nessa comunidade, o amor e a solidariedade eram as normas que regiam o relacionamento entre as pessoas.

Paulo elogia, na primeira parte da carta, o comportamento dessa comunidade. Contudo, crê serem necessários ainda alguns progressos. Com isso, mostra que o projeto de Deus é dinâmico: “O Senhor lhes conceda crescer e prosperar no amor de uns para com os outros e para com todos, a exemplo do amor que temos por vocês” (3,12). A comunidade cristã não vive o amor em circuito fechado. É próprio do amor expandir-se dentro e também fora da comunidade. Nessa dinâmica, atinge-se a santidade que agrada a Deus e prepara-se a vinda de Jesus, nosso Senhor (v. 13). A prática de Jesus, traduzida na prática do agente de pastoral, vai contagiando e fermentando a sociedade toda.

A seguir, Paulo inicia a parte exortativa (caps. 4 - 5), na qual apresenta o que ainda falta à comunidade, a fim de que esta manifeste plenamente a novidade do reino de Deus. O apóstolo tem consciência de que sua conduta é ponto de referência para a plena manifestação do projeto de Deus: “Enfim, meus irmãos, vocês aprenderam de nós como devem viver para agradar a Deus e já estão vivendo assim. Porém lhes pedimos com insistência, no Senhor Jesus, que façam maiores progressos ainda” (4,1). A insistência é feita “no Senhor Jesus”. Ele se tornou, para a comunidade cristã, o centro de suas vidas. Interessante notar que, ao fundar a comunidade, Paulo não possui o evangelho escrito para apresentá-lo à comunidade. O evangelho é a pessoa de Jesus, cuja prática o agente de pastoral procura viver (4,1) e transmitir plenamente (v. 2).

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Neste domingo iniciamos nossa caminhada em direção ao Natal. Acendemos a primeira vela para reconhecer as sombras de nosso coração e iluminar esses espaços escuros. Advento quer dizer expectativa, espera. Como a mãe que espera a chegada de seu filho, numa espera ativa, assim desejamos viver o tempo do advento. Uma criança habita entre nós. Os profetas vêm acordar essa criança e nos colocar num clima de crescimento e transformação. Para preparar um Natal feliz precisamos viver o tempo de preparação.

O profeta Jeremias nos fala de paz, anunciando essa presença divina que já está entre nós, mas que vamos nos esquecendo em razão de tantas preocupações com as coisas materiais. No meio das infidelidades do povo de seu tempo, do abuso dos grandes sobre os pequenos, da primazia da injustiça sobre o direito, o profeta proclama a ação de Deus.

Paulo tendo sabido do crescimento da fé da comunidade grega de Tessalônica, escreve para animá-la e para lhe dizer em que consiste exatamente o progresso da vida cristã.

O trecho do Evangelho deste domingo se utiliza de um estilo de linguagem comum naquele tempo. É um estilo de contar as coisas de modo que arrepia. A destruição da Cidade Santa provoca uma crise terrível.

Afinal, o Templo é uma referência importante para a fé do povo. Ao mesmo tempo, é importante perceber que nem tudo é negativo.

No meio dos escombros, Deus pode manifestar a sua glória. Das ruínas da velha instituição, pode nascer uma coisa nova. Por isso a ordem é erguer a cabeça e acolher a libertação que se aproxima!

Nossa celebração, já é sinal de que o Senhor está no meio de e nós, nos levanta de nossa descrença e pessimismo. Que a ternura da sua presença nos ponha de pé diante da vida, dê alento a quem está triste e abra caminhos novos para os que estão em dificuldade.

Querendo ou não, devemos nos encontrar com o Senhor, e devemos nos preparar para este encontro. O grande perigo para as pessoas de hoje é que os atrativos e prazeres da vida, o acúmulo exagerado de bens materiais, a liberação dos instintos egoístas, corrompem o coração humano, impedindo-o de se preparar para este encontro.

Jesus recomenda a vigilância e a oração como as formas melhores de nos colocarmos em clima de espera. Vigiar é ser capaz de detectar tudo quanto possa desviar dos caminhos de Deus. São muitas as formas com que o mau espírito procura atuar, para alcançar o seu fim. Quem cochila, acaba caindo na armadilha. Só os vigilantes conseguem livrar-se das investidas do maligno.

A oração, por sua vez, coloca-nos em contínua ligação com Deus, de quem recebemos a luz e a força para permanecer de pé e vigilantes à espera do Senhor. Ela predispõe-nos para escutar os apelos divinos e deixar-nos guiar por eles, sensibiliza-nos para realizar o projeto de Deus, mantém-nos sempre atentos à prática do bem, como faz o Pai em benefício da humanidade.

Portanto, perseverar na espera requer uma atitude de atenção à história e comunhão profunda com Deus e com os irmãos.

Em que sentido este Evangelho é Boa Notícia para mim? Que mudança de vida ele nos pede?

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Mostrai-me, Senhor, vossos caminhos!

Promessas de bens futuros

O Advento traz-nos o vento da esperança. É o começo de um novo ano litúrgico, isto é, de uma nova etapa de nossa vida no Mistério de Cristo. Temos duas temáticas neste tempo: A última vinda de Cristo, descrita no apocalipse de Lucas, e a celebração da vinda do Filho na carne, isto é, o nascimento de Jesus. Neste primeiro domingo somos instruídos sobre sua vinda no fim dos tempos. Depois refletiremos sobre a missão de João Batista que prepara a vinda do Messias. A expressão vir sobre as nuvens indica a presença da divindade na ação do Espírito Santo. Pensamos na vinda de Cristo como o castigo final, no qual haverá o acerto de contas. Todavia, se trata da libertação dos fiéis. A glorificação de Cristo lhe confere todo o poder e glória. No clima da segunda vinda, encontramos a exortação à vigilância. Como é desconhecida a hora de sua vinda, somos convocados pelo evangelista a “ficar atentos e orar em todo o momento, a fim de termos força para escapar de tudo o que deve acontecer e para ficar em pé diante do Filho do Homem" (21,36). É o tempo da virtude da esperança dos bens futuros. Quando se fala de sua vinda, fala-se da recompensa aos eleitos. Este pensamento deve animar, os que O esperam, a viver os bens futuros no dia-a-dia. As promessas são garantidas pela fé, como se lê na carta aos Hebreus: "A fé é um modo de já possuir o que se espera, um meio de conhecer as realidades que não se vêem" (Hb. 11,1). Somos convocados a tirar o véu que impede os olhos da fé de verem os valores da vida presente que semeiam para a vida que dura para sempre.

Amar o que é do Céu

Quando o evangelista Lucas convida a levantar a cabeça e ficar de pé (Lc. 21,34 - 36), faz um apelo à vigilância "não no sentido de expectativa de algo que está para acontecer, mas vigilância como discernimento do que leva ou não ao projeto de Deus" (padre José Bortolini). Amar o que é do Céu é viver intensamente o amor mútuo que transborde sempre mais (1 Ts. 3,12). O apóstolo estimula os cristãos à santidade: "Assim Ele confirme os vossos corações numa santidade sem defeito aos olhos de Deus" (3,13). O tempo do Advento é tempo de animar-se a colocar em prática o que Jesus ensinou. Isso é estar vigilante. É muito saudável, neste tempo, preocupar-se com uma ação social, caridade em ato, que promova as pessoas, pois foi isso que Jesus fez ao nascer: veio dar vida para todos, de modo particular para os humilhados e esquecidos da sociedade.

Corações sensíveis

O que mais prejudicou o povo de Deus ao longo da história e prejudicou a fé dos cristãos, foi a insensibilidade. Por que ficamos insensíveis? O evangelho diz: "Tomai cuidado para que vossos corações não fiquem insensíveis por causa da gula, da embriagues e das preocupações da vida" (Lc 21,34). Atualmente vemos tantos corações insensíveis. Muitos pelo orgulho da ciência. O homem pensa ser Deus. Isso já não deu certo. Outros pela ganância dos bens materiais e pelo afogamento nos vícios. O remédio para esses males é a oração permanente: "Ficai atentos e orai em todo momento, a fim de terdes força para escapar a tudo o que deve acontecer" (36). Quer dizer: que a vida seja voltada para Deus, onde ela acontece. A liturgia faz sensíveis nossos corações.

 

1.O Advento é tempo da esperança. É começo de novo ano litúrgico, nova etapa de nova vida no Mistério de Cristo. São duas as temáticas: segunda vinda de Cristo e nascimento de Jesus. O evangelho, ao dizer vir sobre as nuvens, indica a divindade na ação do Espírito Santo. Sua vinda não é acerto de contas, mas libertação. Devemos ficar atentos e orar par ter força para escapar de tudo o que deve acontecer. Somos animados a esperar. As promessas são garantidas pela fé.

2.Lucas faz apelo à vigilância como discernimento do que leva ou não ao projeto de Deus. Paulo anima à santidade. O evangelho estimula a colocar em prática o que Jesus ensinou. É tempo de procurar uma ação social que promova as pessoas como Jesus fez ao nascer: veio para dar vida.

3.O que mais prejudicou o povo de Deus e os cristãos foi a insensibilidade. O Evangelho ensina: tomai cuidado para que vossos corações não fiquem insensíveis por causa da gula, da embriagues e das preocupações da vida. É orgulho da ciência, a ganância dos bens materiais e o afogamento nos vícios. O remédio é a oração permanente.

 

Notícia fresca: o mundo vai acabar!

Começamos o Advento. Já está cheirando Natal.

É estranho começar logo falando do fim do mundo, antes do nascimento de Jesus. Mas é assim mesmo. Ele virá no fim dos tempos, como veio em nosso tempo, no Natal. Anima-nos a ter o desejo de possuir o Reino celeste (oração da missa).

Para os que crêem em Jesus, o fim não é uma ameaça. É a confiança que todo fiel a Cristo vai ser libertado. Não vão acabar com ele. É um chamado para irmos ao encontro de Cristo.

Os caminhos do Senhor são verdade e amor. Por isso Paulo escreve: "O Senhor vos conceda que o amor entre vós e para com todos aumente e transborde sempre mais, a exemplo do amor que temos por vós... e Ele confirme os vossos corações ... no dia da vinda do Senhor"

Há um probleminha a vencer. Jesus chama a atenção para que não deixemos que nossos "corações fiquem insensíveis por causa da gula, da embriagues e das preocupações da vida". A oração e a atenção dão força para estar em pé diante do Filho do Homem.

Acorrendo com as boas obras.

padre Luiz Carlos de Oliveira

 

O perigo de nada de perigoso acontecer

Começamos um novo ano litúrgico: santo Ano Novo! Ao longo deste ano vamos ser conduzidos - por entre outros textos sagrados - pelo Evangelho de Lucas: o evangelista dos simples, dos pobres, dos pastores, das mulheres, dos últimos, dos pecadores, mas também o teólogo da misericórdia, da caminhada, da missão, do Templo, do anúncio/grito que espanta e que exige uma decisão pessoal e livre diante de Jesus de Nazaré e do Seu Espírito.

O Evangelho da liturgia de hoje remete-nos ainda para a literatura apocalíptica, um gênero literário usado muitas vezes pelos autores bíblicos para comunicarem a sua fé em contexto de perseguição e opressão, sobretudo de opressão religiosa. A finalidade desta literatura é manter a fé e anunciar o triunfo final de Deus. As imagens de destruição e pavor valem exatamente o seu contrário: a presença última e triunfante de Deus! Lucas diz-nos isso de modo magistral: enuncia um conjunto de sinais, que parecem de horror, para logo concluir que são antes sinais de felicidade: quando os virdes, “erguei-vos e levantai a cabeça porque a vossa libertação está próxima!”. Afinal, os sinais que parecem de horror não são os cósmicos (sol, lua, estrelas, universo...) mas os de quem está caído (erguei-vos) e de cabeça baixa (levantai a cabeça), porque está oprimido.

O tempo em que são Lucas escreve não é, todavia, tempo de nítida opressão ou perseguição aos cristãos, como será depois, por exemplo, quando for escrito o livro do Apocalipse. Por outro lado, o Templo já fora destruído por Tito e desvanecia-se a idéia de uma segunda vinda imediata de Cristo. Nada nesta altura parecia justificar este texto e menos este tipo de literatura. Mas Lucas resolve respeitar as fontes que recebeu da tradição cristã (em estilo apocalíptico) e aproveita-as para falar não tanto de uma segunda vinda, triunfal, de Cristo, mas das atitudes e comportamentos permanentes que os cristãos devem ter. O que Lucas faz é alertar os cristãos para os perigos de caírem na rotina e na banalidade, exatamente porque nada de extraordinário está a acontecer! “Tende cuidado, porque facilmente podeis deixar-vos ir na intemperança, na embriaguez, nas comuns (e certamente justas) preocupações da vida, e com isso perderdes a consciência de que sois apenas peregrinos da cidade celeste!” O que torna pesado o coração não são as angústias, as dores, o sofrimento, a pobreza e outras coisas assim, mas a normalidade! Cuidado!, avisa Lucas.

Podemos perceber isto por nós próprios: no nosso tempo, na sociedade ocidental, o comum das pessoas tem pão, casa, serviços de saúde, ensino...; a guerra fria passou e não está propriamente iminente nenhuma guerra que nos atinja. Afinal, nesta sociedade e neste tempo, Deus é preciso para quê?! Ninguém parece precisar d’Ele para nada. É isso. Os corações estão pesados, isto é, dominados pela intemperança (querer mais), pela embriaguez (euforia naquilo que já se tem) e pelas preocupações (correria, dizemos nós) da vida! Deus não parece ser necessário, a não ser talvez para uma moralidade de não roubar e não matar, ou para alguma tradição de batizado e primeira comunhão... O perigo, para nós, para a nossa santidade pessoal, não são trovões, terremotos ou tempestades cósmicas, mas esta rotina de uma vida amorfa, que nos leva a dispensar Deus. Se quisermos dizer de outro modo: Deus ainda é preciso para celebrarmos o Natal?!

É para este perigo, bem atual, que nos alerta o evangelho de hoje. Perigo que implica uma redobrada necessidade de vigiarmos e orarmos em todo o tempo, também neste tempo de paz e abundância.

santaclaraparoquia.blogspot.com

 

1º leitura – Jer 33,14 - 16 - AMBIENTE

Estamos no ano décimo do reinado de Sedecias (587 a.C.). O exército babilônio de Nabucodonosor cerca Jerusalém e Jeremias está detido no cárcere do palácio real, acusado de derrotismo e de traição (cf. Jer 32,1). Parece o princípio do fim, a derrocada de todas as esperanças e seguranças do Povo. É neste contexto que o profeta, em nome de Jahwéh, vai proclamar a chegada de um tempo novo, no qual Deus vai “pensar as feridas” do seu povo e curá-las, proporcionar a Judá “abundância de paz e segurança” (Jer 33,6). A mensagem é tanto mais surpreendente quanto o futuro imediato parece sem saída e o próprio Jeremias é acusado de profetizar a inutilidade de resistir aos exércitos caldeus, a destruição de Jerusalém e o exílio de Sedecias (cf. Jer 32,3 - 5).

MENSAGEM

Nesse momento limite em que tudo parece comprometido, Jeremias anuncia a fidelidade de Jahwéh às promessas feitas a David (cf. 2 Sm 7): no futuro, Deus irá fazer surgir um descendente de David (”zemah zaddîq” – “rebento justo”), que assegurará a paz e a salvação a todo o povo. A palavra “zemah” (”rebento”) evoca a fecundidade e a vida em abundância (cf. Is 4,2; Ez 16,7). É o nome com que o profeta Zacarias designa o “Messias” (cf. Zac 3,8; 6,12).

As palavras ligadas à área da “justiça” desempenham um papel fundamental neste anúncio de Jeremias. Diz-se que o descendente de David será “justo” e que a sua tarefa consistirá em assegurar a “justiça” e o “direito” (”mishpat” e “zedaqa”). A dupla “justiça/direito”, característica da linguagem profética, refere-se ao funcionamento recto da instituição responsável pela administração da justiça (tribunal) que possibilitará, por sua vez, uma correta ordem social (”zedaqa”), fundamento da paz e da prosperidade. Sedecias nem garantiu a “justiça”, nem assegurou a paz; por isso, a catástrofe está iminente… Mas o rei futuro anunciado pelo profeta, da descendência de David, será o “ungido” de Deus. Terá por missão restaurar a “justiça” e transmitir a abundância de vida e de salvação ao Povo de Deus. Por isso, chamar-se-á “o Senhor é a nossa justiça” (”Jahwéh zidqenû”): por ele, Deus garante ao seu Povo um futuro fecundo, de justiça, de bem-estar, de salvação.

Recordando as promessas de Deus, o profeta elimina a nostalgia de um passado mais ou menos distante, elimina o medo do presente e instaura o regime da esperança.

ATUALIZAÇÃO

A atualização desta mensagem profética pode fazer-se de acordo com as seguintes coordenadas:

O ambiente em que estamos mergulhados potencia, tantas vezes, o medo, a frustração, o negativismo, a insegurança, o pessimismo… É possível acreditar no Deus da “justiça”, fiel à “aliança”, comprometido com os homens e continuar a olhar para o mundo nessa perspectiva negativa, como se Deus – o Deus da justiça e do amor – tivesse abandonado os homens e já não presidisse à nossa história?

De acordo com o Novo Testamento, esta “justiça” é comunicada pelo “Messias” a todos os membros do povo eleito (cf. Rom 1,17; 1 Cor 1,30; 2 Cor 5,21; Flp 3,9). Sentimo-nos, verdadeiramente, membros do povo messiânico, construtores desse mundo de justiça, de paz, de felicidade para todos? Qual é a atitude que define o nosso empenho: o compromisso sério com a justiça e a paz, ou o comodismo de quem prefere demitir-se das suas responsabilidades e passar ao lado da vida?

2º leitura – 1 Ts. 3,12 - 4,2 - AMBIENTE

A comunidade cristã de Tessalônica foi fundada por Paulo, Silvano e Timóteo durante a segunda viagem missionária de Paulo, aí pelo ano 50 (cf. At. 17,1ss). Durante o pouco tempo que lá passou, Paulo desenvolveu uma intensa atividade missionária, de que resultou uma comunidade numerosa e entusiasta, constituída na sua maioria por pagãos convertidos (cf. 1 Ts. 1,9 - 10). No entanto, a obra de Paulo foi brutalmente interrompida pela reação da colônia judaica… Paulo teve de fugir, deixando atrás de si uma comunidade em perigo, insuficientemente catequizada e quase desarmada num contexto de perseguição e provação. Preocupado, Paulo envia Timóteo a Tessalónica para saber notícias e encorajar na fé os tessalonicenses.

Quando Timóteo regressa, encontra Paulo em Corinto e comunica-lhe notícias animadoras: a fé, a esperança e o amor dos tessalonicenses continuam bem vivos e até se aprofundaram com as provações (cf. 1 Ts 1,3; 3,6 - 8). Os tessalonicenses podem ser apontados como modelos aos cristãos das regiões vizinhas (cf. 1 Ts 1,7 - 8).

MENSAGEM

Apesar de tudo o que Deus já edificou no coração dos crentes de Tessalónica, a caminhada cristã destes não está concluída. Há que “progredir sempre” (1 Ts. 4,1), sobretudo no amor para com todos (1 Ts. 3,12). Só nesta atitude de não conformação será possível esperar a “vinda de nosso Senhor Jesus Cristo” (1 Ts. 3,13).

ATUALIZAÇÃO

A confrontação deste texto com a vida pode ter em conta os seguintes elementos:

A caminhada cristã nunca é um processo acabado, mas uma construção permanente, que recomeça em cada novo instante da vida. O cristão não é aquele que é perfeito; mas é aquele que, em cada dia, sente que há um caminho novo a fazer e não se conforma com o que já fez, nem se instala na mediocridade. É nesta atitude que somos chamados a viver este tempo de espera do Messias.

Uma dimensão fundamental da nossa experiência cristã é a caridade: só aprofundando-a cada vez mais podemos sentir-nos identificados com Aquele que partilhou a vida com todos nós, até à morte na cruz; só praticando-a, podemos fazer uma verdadeira experiência de Igreja e construir uma comunidade de irmãos; só vivendo-a, podemos ser, para os homens que partilham conosco esta vasta casa que é o mundo, o rosto do Deus que ama.

Evangelho – Lc 21,25 - 28.34 - 36 - AMBIENTE

Estamos já nos últimos dias da vida terrena de Jesus, após a sua entrada triunfal em Jerusalém. Jesus está completando a catequese dos discípulos e, nesse contexto, anuncia-lhes tempos difíceis de perseguição e de martírio. Avisa-os, também, de que a própria cidade de Jerusalém será, proximamente, sitiada e destruída (cf. Lc 21,20 - 24).

Ora, é neste contexto e nesta sequência que aparece o texto do Evangelho de hoje.

MENSAGEM

O vetor fundamental à volta do qual se estrutura o Evangelho de hoje está na referência à vinda do Filho do Homem “com grande poder e glória” (Lc 21,27) e no convite a cobrar ânimo e a levantar a cabeça porque “a libertação está próxima” (Lc 21,28). A palavra “libertação” (”apolytrôsis” – “resgate de um cativo”) é uma palavra característica da teologia paulina (1 Cor 1,30; cf. Rom 3,24; 8,23; Col 1,14…), onde é usada para definir o resultado da ação redentora de Jesus em favor dos homens. O projeto de salvação/libertação da humanidade, concretizado nas palavras e nos gestos de Jesus, é apresentado como o “resgate” de uma humanidade prisioneira do egoísmo, do pecado, da morte. Trata-se, portanto, da libertação de tudo o que escraviza os homens e os impede de viver na dignidade de filhos de Deus.

A mensagem proposta aos discípulos é clara: espera-vos um caminho marcado pelo sofrimento, pela perseguição (cf. Lc 21,12 - 19); no entanto, não vos deixeis afundar no desespero porque Jesus vem. Com a sua vinda gloriosa (de ontem, de hoje, de amanhã), cessará a escravidão insuportável que vos impede de conhecer a vida em plenitude e nascerá um mundo novo, de alegria e de felicidade plenas.

Os “sinais” catastróficos apresentados não são um quadro do “fim do mundo”; são imagens utilizadas pelos profetas para falar do “dia do Senhor”, isto é, o dia em que Jahwéh vai intervir na história para libertar definitivamente o seu Povo da escravidão, inaugurando uma era de vida, de fecundidade e de paz sem fim (cf. Is 13,10; 34,4). O quadro destina-se, portanto, não a amedrontar, mas a abrir os corações à esperança: quando Jesus vier com a sua autoridade soberana, o mundo velho do egoísmo e da escravidão cairá e surgirá o dia novo da salvação/libertação sem fim. Há, ainda, um convite à vigilância (cf. Lc 21,34 - 36): é necessário manter uma atenção constante, a fim de que as preocupações terrenas e as cadeias escravizantes não impeçam os discípulos de reconhecer e de acolher o Senhor que vem.

ATUALIZAÇÃO

A realidade da história humana está marcada pelas nossas limitações, pelo nosso egoísmo, pelo destruição do planeta, pela escravidão, pela guerra e pelo ódio, pela prepotência dos senhores do mundo… Quantos milhões de homens conhecem, dia a dia, um quadro de miséria e de sofrimento que os torna escravos, roubando-lhes a vida e a dignidade. A Palavra de Deus que hoje nos é servida abre a porta à esperança e grita a todos os que vivem na escravidão: “alegrai-vos, pois a vossa libertação está próxima. Com a vinda próxima de Jesus, o projeto de salvação/libertação de Deus vai tornar-se uma realidade viva; o mundo velho vai converter-se numa nova realidade, de vida e de felicidade para todos”.

No entanto, a salvação/libertação que há-de transformar as nossas existências não é uma realidade que deva ser esperada de braços cruzados. É preciso “estar atento” a essa salvação que nos é oferecida como dom, e aceitá-la. Jesus vem; mas é necessário reconhecê-l’O nos sinais da história, no rosto dos irmãos, nos apelos dos que sofrem e que buscam a libertação. É preciso, também, ter a vontade e a liberdade de acolher o dom de Jesus, deixar que Ele nos transforme o coração e Se faça vida nos nossos gestos e palavras.

É preciso, ainda, ter presente, que este mundo novo – que está permanentemente a fazer-se e depende do nosso testemunho – nunca será um realidade plena nesta terra, mas sim uma realidade escatológica, cuja plenitude só acontecerá depois de Cristo, o Senhor, haver destruído definitivamente o mal que nos torna escravos.

padre Joaquim Garrido – padre Manuel Barbosa – padre Ornelas Carvalho

 

Advento, espera alegre e ansiosa

O primeiro domingo do advento é o primeiro dia do novo ano litúrgico. É a ocasião para desejarmos “Feliz Ano Novo em Cristo”. O novo início é marcado pela cor roxa na celebração, símbolo da espera ansiosa e penitente. Em muitas casas e igrejas, a coroa do advento simboliza a atitude de espera, acendendo a cada semana uma das quatro velas, a luz que ilumina a caminhada cristã. Muitas comunidades marcam esta espera com novenas e orações. Com o advento a vinda de Jesus se torna próxima. Apenas quatro semanas nos separam do Natal, a festa do nascimento de Jesus. Por isso, nossa atitude é de espera, é de alegria e preocupação.

Quando se espera uma pessoa querida, a alegria inunda o coração, e os preparativos nunca terminam. A gente prepara o que tem de melhor, para receber a visita da pessoa amiga. Mas a visita pode também causar medo e preocupação.

As leituras de hoje alertam que a espera de Jesus é alegre, mas deve ser também preocupante. Será que a humanidade está preparada para receber a visita de Jesus? Desde o seu nascimento em Belém, será que houve progresso nas relações humanas? Após dois mil anos, será que temos mais paz, mais justiça, mais segurança, mais amor? Advento é tempo de preparação e de melhora em nossa vida pessoal e na caminhada de toda a humanidade. Advento também é tempo de lembrar que nossa caminhada tem uma meta no encontro definitivo com Deus. Advento enfim é tempo de viver esta tensão entre nossa dura realidade e a proposta amorosa de Deus.

Na primeira leitura Jeremias, ou um discípulo seu, lança uma profecia sobre Jerusalém. A cidade, devastada pelo exílio, renascia dos escombros e começava a ser reconstruída. Então o profeta propõe um brotinho de justiça, isto é, um novo governante “que exercerá o direito e a justiça na terra”. Para definir essa nova situação, propõe ainda um nome novo para a cidade “Deus nossa justiça”. Ah! Se nossos governantes pudessem “exercer o direito e a justiça na terra”! Ah! Se sobre todas as nossas cidades pudéssemos escrever o nome “Deus nossa justiça”. O sonho do profeta continua atual e necessário. Ainda estamos tão carentes de direito, justiça e segurança!

Nas palavras do profeta transparece a espera messiânica. Assim como a humanidade esperava ansiosa pela vinda de um governante justo, vivemos nós a mesma tensão por dias de mais paz e justiça. Essa situação ensina que precisamos mudar muito, melhorar vários aspectos e crescer mais para estarmos em condições de viver o advento.

A segunda leitura também sublinha a necessidade de crescer em vista do encontro definitivo com Deus. Paulo recomenda aos Tessalonicenses “crescer e ser ricos em amor mútuo”. Também adverte que “devem ainda progredir”. Eis o espírito do advento, crescer e progredir em santidade. Em santidade sempre estamos a caminho. Só chegou à perfeição quem atingiu seu encontro definitivo com Deus. Enquanto caminhamos, vivemos o processo de conversão. O apelo à conversão, hoje, é voltar-se para Deus na prática da justiça. Nesta, há espaço para crescer sempre mais. Nossa preparação só termina quando termina nossa caminhada terrena.

O Evangelho nos fala também da preparação para a vinda de Jesus, mas em tom de apocalipse. Essa linguagem, estranha para nós, não deve nos confundir nem causar medo. Ao contrário, possui uma mensagem profunda e esperançosa.

Começa com sinais no céu, na terra e no mar, para dizer que toda realidade será abalada. E não é verdade que nossos esquemas de poder devem ser abalados? Ao longo da Bíblia, os abalos do poder são descritos com fenômenos cósmicos, ou seja, com alteração da ordem da natureza. Tudo isso para significar que Deus tem poder sobre toda a realidade. Significa também que Deus intervém na história humana. De fato, os sinais apontam para a vinda de Jesus como libertador, para resgatar e salvar. Nossa atitude não deve ser passiva, mas vigilante. Por isso diz o Evangelho: “erguei-vos e levantai a cabeça”. E conclui: “ficai acordados, portanto, orando em todo momento, para terdes a força de escapar de tudo o que deve acontecer e de ficar de pé diante do Filho do Homem”.

Ficar de pé diante do Filho do Homem é a atitude de quem espera confiante a vinda de Jesus. Quem anda na justiça não teme. Quem está no amor anseia pela chegada de Jesus. Quem vive uma vida digna já está em clima de Natal e de encontro com Deus.

Valmor da Silva

 

Novamente, estamos bem no início do ano litúrgico. Durante este ano, acompanharemos o Evangelho de Lucas que será indicado como ano C. O Evangelho deste 1o domingo do Advento (paralelo ao de Marcos que lemos no 33º domingo comum – ano B) nos convida à oração e à vigilância, esperando a manifestação gloriosa de Nosso Senhor Jesus Cristo. De fato, em cada celebração eucarística, depois da consagração, nós dizemos: “anunciamos, Senhor, a vossa morte, enquanto esperamos a vossa vinda”. E depois do Pai-Nosso, o sacerdote reza: “...enquanto, vivendo a esperança, aguardamos a vinda de Cristo Salvador”.

É verdade! Jesus está voltando e isto não é apenas uma coisa que pregamos só por pregar e logo depois esquecida; pois, realmente haverá um momento em que nosso tempo nesta terra acabará e teremos que estar diante do nosso Criador, prestar contas de nossas vidas, dos dons que recebemos, de como usufruímos: do nosso tempo, dos bens materiais, de como tratamos as pessoas. Por isso, devemos progredir o tempo todo. Não é em vão que são Paulo nos exorta: “Fazei progressos ainda maiores!” (1 Ts 4,2).

A história humana não é infinita, ela terá um fim e será quando Jesus se manifestar na sua glória. Isso acontecerá no futuro, o que não justifica que por um momento sequer, possamos perdê-lo de vista; pelo contrário, devemos conduzir a nossa vida presente de maneira que possamos ir ao encontro deste fim com confiança.

A linguagem apocalíptica usada no início do Evangelho para descrever os sinais aterrorizantes do cosmo são somente imagens e têm o objetivo de nos fazer lembrar que o mundo presente não é definitivo, mas passageiro. Nós somos tão acostumados com a organização fixa do universo, colocamos tanta confiança nisso, que Jesus, com razão, fala da angústia e do medo que a humanidade sofrerá ao perceber tais sinais.

Mas o verdadeiro discípulo de Jesus não deve agir assim, pois até mesmo estes sinais são uma manifestação de Deus. O comportamento adequado ensinado por Jesus é: “animai-vos e erguei a cabeça, porque a vossa libertação está próxima!” (Lc 21,28). O que nos anima é justamente o fato de que não estaremos mais sujeitos às armadilhas do inimigo que nos aprisiona a situações terrenas, escuras; mas, de que seremos livres para sempre.

Enquanto aguardamos este dia, devemos, portanto, tomar cuidado para que as preocupações da vida, a busca do prestígio, do poder e do ter não tomem conta do nosso coração, deixando-o embriagado e insensível, porque esse dia virá “de repente”. Pelo contrário, devemos ter os nossos corações “numa santidade sem defeito aos olhos de Deus, nosso Pai, no dia da vinda de nosso Senhor Jesus” (1 Ts 3,13).

A mentira proveniente do medo com relação ao fim dos tempos é uma manifestação do reino das trevas. Por isso, temos que a cada instante desmenti-lo. Já que ele nos ataca constantemente, e mesmo que permaneçamos firmes, e lhe façamos resistência, Satanás não vai nos deixar em paz para sempre. É preciso não ter sono nem preguiça e ficar alertas, firmes, vigilantes, porque ele está esperando uma outra oportunidade para tentar uma outra coisa em um outro momento (Lc 4,13), procurando nos cansar fisicamente, mentalmente e espiritualmente.

Satanás nos ataca onde mais somos feridos, no campo emocional, e, por isso, nem sempre sabemos nos proteger de suas investidas. Às vezes, cansamos e corremos o risco de querer desistir. Quando o ataque é insistente, começamos a pensar que não vamos conseguir, a perguntar o que há de errado conosco, a pensar coisas negativas sugeridas por ele com a intenção de nos levar ao desespero.

É real na nossa vida: constantemente estamos enfrentando algo, pode ser uma mentira, um sentimento negativo ou uma tentação, mas Jesus nos deixou armas espirituais e ensinou como usá-las para nos defendermos. A oração é um combate. Como é poderosa a oração! Mas, pra que nossa oração seja eficaz, ela deve estar decididamente unida a de Jesus, na coragem e na confiança filial. E se ao rezarmos, sentirmos que o inimigo tenta colocar dúvidas em nós, de que não rezamos o suficiente, ou não rezamos direito, não devemos dar ouvidos a ele e prossigamos com confiança. Mesmo quando não sabemos rezar, o Espírito do Senhor nos ajuda (Rm 8,26 - 28).

Devemos orar sempre, sem cessar (1 Ts 5,17), em qualquer lugar, em qualquer circunstância e em qualquer momento: “é possível orar até no mercado, ou num passeio ou mesmo cozinhando” (são João Crisóstomo). A oração deve ser como nosso respirar.

Só quem está intimamente em comunhão com Deus através da oração incansável (a todo momento), pode permanecer vigilante à espera da plenitude da revelação de Deus, apresentar-se de cabeça erguida e com plena confiança diante do Filho do Homem e receber dele a plenitude da vida.

 

Estamos iniciando mais um ano de nossa liturgia neste chamado período do advento, tempo em que somos chamados a preparar-nos para a celebração de um Natal verdadeiramente cristão. Nestes dias a Igreja quer que cresçamos na esperança e vigilância, revivendo um pouco a longa História do Povo de Israel que viveu de esperança! Somos também chamados a aprofundar nossa vida de oração e a buscar uma maior conversão de nossos corações. As leituras litúrgicas que nos serão propostas tem, portanto estes objetivos e devem nos ajudar muito nesta preparação séria para comemorar a primeira vinda do Salvador e perceber suas constantes vindas em nossas existências. Neste domingo a palavra chave é esperança e vigilância.

Na primeira leitura (Jr. 33,14 - 16) estamos diante do profeta Jeremias que recebe de javé a dura missão de anunciar ao povo que este irá ser derrotado e encaminhado ao cativeiro devido a dureza dos seus corações e o abandono da fé em Deus.O profeta prediz então um longo cativeiro de setenta anos. O profeta é também sinal do justo perseguido, pois suas palavras não são aceitas e ele é perseguido e tentam até matá-lo.  Mesmo sento taxado por muitos como derrotista, Jeremias anunciava a queda de Jerusalém, mas também previa a esperança de um futuro melhor depois do cativeiro. Quando acontece a deportação de Israel em 586 a.C., Jeremias esta lá e fica em Jerusalém com alguns agricultores que tiveram permissão de permanecer na Palestina, mais tarde é forçado a ir para o Egito e é lá que morre.

O texto hoje apresentado está no contexto dos chamados oráculos sobre a restauração de Israel (Jr. 31 - 33) onde encontramos abundante material que busca erguer os ânimos, dar esperança e apontar para um futuro grandioso do povo de Israel.  Alguns textos vão além da simples restauração de Jerusalém, como a promessa da nova Aliança (Jr 31,31 ss) e o texto do rebento que brotará de Davi (Jr 33,15) que apontam claramente o reino do Messias prometido e que se cumprem de modo pleno em Jesus de Nazaré.

Sabemos que quando o Povo de Israel volta da Babilônia tem a grande tarefa de reconstruir suas cidades e sua própria Nação, pois encontram uma terra destruída. A alegria da volta teremos que somar então um certo desânimo de começar tudo novamente.

As palavras de Jeremias querem infundir coragem e serviram tanto para os que estavam no cativeiro e ansiavam a volta, como para os que tinham voltado e estavam desanimados com o estado de coisas que encontraram em sua terra natal. Trata-se de infundir força e coragem no povo para que perceba que a vida sempre pode e deve recomeçar e que nada está perdido definitivamente. Quando nos diz em nosso pequeno texto de hoje que fará brotar o “rebento de Davi” e que este implantará a justiça e vai salvar Israel, sem dúvida esta promessa é uma profecia sobre a vinda futura do Messias e o reinado de justiça e paz que ele estabeleceria. Olhando assim para esta promessa o judeu podia ficar confiante, porque segundo o profeta haverá dias em que o povo será uma população totalmente confiante e nunca desanimada. (Jr 31, 16).

O profeta sabiamente usa o termo “rebento” ou “broto” e não a palavra “árvore”, com isto indicando que o Reino de paz nasce com o messias prometido, mas que aos poucos tem que ir crescendo. Sem duvida como já afirmamos este “rebento de Davi” é Jesus e com seu nascimento está instaurado entre nós o Reino de Deus, mas este reino deve crescer lentamente. Como uma árvore cresce bem devagar e nós quase não percebemos com nossos olhos este crescimento, assim o Reino de Deus também. O reino de Deus cresce vagarosamente esta é a lógica divina, quem deseja transformações radicais e imediatas ainda não compreendeu a lógica de Deus. O crescimento é sempre um processo vagaroso, o inchaço que é algo anormal, é muito rápido!

Temos a nossa volta ainda muitos sinais de morte e de maldade, injustiças, violência, droga, etc. E mesmo dentro de nós quantas vezes constatamos nossas fraquezas, fracassos, desânimos, desilusões e etc. E quantas vezes entramos no desanimo achando que nada adianta fazermos, pois as coisas nunca irão melhorar. Pois bem, está ai o profeta para nos ajudar a crer que é sempre tempo de recomeçar e reconstruir! Para o mal não existe mais futuro, Jesus já o venceu definitivamente, cabe a cada um de nós crescer na esperança da vitória do amor, do bem e da paz! Ainda nos cabe trabalhar para que o Reinado de Deus cresça em nosso mundo, colocando a dispor para isto nossos dons e talentos.

Será que somos, pessoal e comunitariamente, mensageiros da esperança para o mundo e para nossos irmãos?  Nossas comunidades cristãs são mesmo escolas de esperança e força para todos, ou às vezes se transformam mais em locais de medo e condenação?

Levamos a todos a mensagem de que sempre é possível recomeçar?

Na segunda leitura (1 Ts. 3,12 - 4,2) Paulo escreve aos Tessalonicenses e dá alguns ensinamentos sobre a segunda vinda, a vinda em glória do Senhor ou Parusia.  Mas a doutrina que o Apóstolo transmite é sempre de esperança e não de destruição e condenação.  Na segunda carta aos mesmos Tessalonicenses corrige interpretações erradas sobre a eminente vinda do Senhor; muitos deixavam de se interessar pela vida presente e até não queriam mais trabalhar (2 Ts 3, 6ss) e Paulo censura duramente este tipo de comportamento. Enquanto não ocorre a segunda vinda de Jesus é dever do discípulo construir este mundo de modo especial centrando tudo no amor.

Nosso texto proposto hoje fala justamente deste amor que existia na comunidade cristã e que Paulo pede que sempre cresça! A única maneira de estar de fato vigilante para a espera do Senhor é a busca de crescer no verdadeiro amor. Ainda a comunidade é a aconselhada a crescer naquilo que agrada a Deus. Notamos como aparece aqui mais uma vez o conceito de “crescimento”, como refletíamos anteriormente no caso do prometido “rebento de Davi”, e este crescer é mesmo algo fundamental! Jesus mesmo usa o conceito de crescimento quando compara o Reino ao grão de mostarda e ao fermento (Lc. 13,18 - 20). Não podemos cruzar os braços e ficar parados, somos chamados a crescer em todos os sentidos: humano, cultural, psicológico, afetivo, espiritual, etc. É bem verdadeiro o dito popular de que aquele que não progride, regride!

Como é triste, por exemplo, para quem acompanhou com entusiasmo os grandes passos de progresso, renovação e “aggiornamento” do Concilio Vaticano II, perceber um certo retrocesso de mentalidade e uma busca de um passado que literalmente já passou! Será que tais pessoas, mesmos grupos ou comunidades que vivem do saudosismo estão ouvindo o que hoje nos diz o apóstolo Paulo? Ele nos convida a fazer sempre progressos, a crescer sempre mais!

Também nosso texto convida-nos a crescer no amor fraterno, podemos estar amando os irmãos, mas sempre podemos fazer isto de modo mais profundo e melhor. Muitos atritos e rixas existem entre membros de nossas comunidades que devem ser superados pelo perdão e pelo amor verdadeiro. Em nossas comunidades deveria reinar o clima da compreensão, da comunhão, do respeito pelas legitimas diferenças, da ajuda ao irmão mais necessitado, do amor aos pecadores: é o amor o sinal de que somos de fato seguidores de Jesus. (Jo 13,34 - 35; 1 Jo 4,7 - 20 )

Esta busca de amar ao irmão é sem duvida nenhuma essencial ao cristão e não pode nunca ser substituída por rezas, devoções e grandiosas celebrações apenas. Toda oração verdadeiramente cristã e mesmo toda celebração devem ajudar a um compromisso concreto de solidariedade, partilha e amor aos irmãos, caso contrário transformam-se apenas em alienação! Alienação ou numa religião exterior tão fortemente combatida pelos profetas da Antiga Aliança e mesmo por Jesus em seus embates com os fariseus e doutores da lei.

Será que estamos mesmo crescendo no amor? E nossas comunidades são escolas de amor e esperança para todos, mas de modo preferencial para os mais fracos e desanimados?

Nossas novenas de natal celebradas em tantos lares sempre buscam atingir um compromisso concreto, será que isto ocorre mesmo?

No Evangelho (Lc. 21,25 - 28.34 - 36) estamos diante do discurso escatológico de Jesus, que principia falando da destruição do Templo (Mt 21, 5) e é seguido da advertência do Senhor para não acreditarmos em falsos profetas que marcam o final dos tempos (Mt 21,7 - 8), Ela ainda acena a perseguição que os primeiros cristãos enfrentarão e promete a força do alto (Mt 21,12 -19) e termina com a profecia sobre a destruição de Jerusalém (Mt 21,20 ss). E segue o capítulo com nosso texto de hoje que fala sobre a segunda vinda do Filho do Homem.

Como já refletimos nos dois domingos anteriores, estamos diante de um gênero literário bíblico chamado de apocalíptico. São mesmo usadas muitas imagens fortes e simbólicas, mas sempre com a intenção de suscitar esperança nas pessoas, é a esperança da vitória definitiva do bem sobre o mal! O que podemos compreender de modo claro, quando depois de se falar nas mudanças e abalos cósmicos, o Senhor convida a erguer a cabeça porque a libertação está próxima ( Mt 21,28). Notemos trata-se de erguer, animar e fazer as pessoas ficarem repletas de esperança porque o que virá não é a desgraça ou a condenação, mas a libertação.

Toda esta linguagem de símbolos leva a compreender que no mundo haverá uma grande mudança com a intervenção de Deus. Para entender um pouco melhor este modo de expressar bíblico é só lermos o discurso de São Pedro logo após o acontecimento de Pentecostes, onde ele afirma que naquele dia se cumpria a profecia de Joel: o Espírito seria derramado sobre todos, mas diz também que o sol virará trevas, a lua em sangue, prodígios grandiosos no céu, sangue, fogo e fumaça (At 2,14 - 21). Sabemos que nenhuma destas fortes imagens aconteceram naquele dia, isto indica que o gênero apocalíptico é composto de figuras para indicar uma realidade sobrenatural que foge aos nossos conceitos meramente humanos, ou a nossa lógica.

É neste sentido que sem sombra de dúvidas afirmamos que nosso texto de hoje é mesmo “Evangelho”, boa nova e não má notícia. Não se trata ameaçar com  castigos e pragas divinas, mas da intervenção de Deus que vem sempre para libertar e salvar. Por isto Jesus faz o convite ao ânimo, a ter cabeças erguidas e não olhos voltados para o chão no desânimo da vida.

Nosso texto começa descrevendo uma certa volta ao caos do inicio da criação. No começo da bíblia (Gn. 1) Deus aparece criando o sol, a lua, impondo limites as águas do mar, numa palavra colocando ordem no caos primitivo. Com as imagens apocalípticas usadas no Evangelho se quer indicar o caos do mal que se instalou no mundo, as violências e guerras, a exploração e deteriorização da natureza pela ganância humana, diante disto aparece o medo diante do mal que foi provocado pelo próprio homem. O que acontecerá com este mundo? Iremos terminar numa ruína total? Temos que responder que não, pois o Filho do Homem aparece para instaurar nova ordem no que é verdadeiramente o caos! A esperança de um mundo novo, cheio de justiça, paz, fraternidade deve assim erguer o ânimo de todo cristão. Mais uma vez devemos repetir que este mundo novo já começou com Cristo e que cada um de nós é chamado a ser um construtor desta nova realidade.

Mas enquanto esperamos a plenitude do Reino, que celebrávamos no domingo passado na festa de Cristo Rei, o que devemos fazer de concreto?

Primeiro não nos deixarmos abater, erguer nossas cabeças e nunca perdermos a esperança. Todo homem, muito mais ainda o cristão, é sempre um ser que espera. É graças à esperança que cada pessoa e mesmo a humanidade caminha e vai progredindo, quem perdeu esta virtude e nada mais espera está acabado totalmente e não encontra mais sentido na vida. Mas esperar motivados em que? Certamente a motivação maior de nossa esperança é sempre Jesus que se apresenta como nosso Salvador e Libertador. Sabemos que a salvação trazida por Cristo não é só para depois da morte, mas começa no aqui e agora de nossas existências.

Em segundo lugar Jesus nos previne para não tornarmos nossos corações endurecidos pelo vício, pelo dinheiro e as preocupações exageradas com a vida. É claro que buscar apenas as coisas terrenas como fim último de nossa vida nos fecha num tremendo egoísmo e nos impede de ver o sofrimento dos irmãos, além do que nos tira a perspectiva da eternidade nossa meta definitiva. No fundo somos convidados a ter uma escala de valores verdadeiramente cristã e rejeitarmos os ídolos que desejam ocupar o lugar de Deus em nossos corações. Por isto é importante a continua conversão, tema que refletiremos melhor no próximo domingo.

Por fim nos aconselha o Senhor a oração constante e a vigilância, que sempre nos possibilitam olhar com os olhos divinos os apelos de Deus, suas visitas e as necessidades de nossos irmãos mais sofredores. Não se trata de uma oração que nos leva apenas a contemplar o céu, mas que nos leva a um dialogo verdadeiro com Deus e a um assumir nossa vocação e compromissos nesta vida pela transformação de nosso mundo. Uma oração que nos ajuda a contemplar os acontecimentos de nossa historia pessoal e de nosso mundo com os olhos da fé, ou a perspectiva divina. Esta oração nos fará crescer no amor a Deus manifestado em nossa capacidade de perceber os apelos dos irmãos e de auxilia-los.

Caro irmão, “advento” significa vinda, assim neste tempo litúrgico queremos nos preparar para a vinda de Cristo. Jesus veio pela primeira vez depois de um longo tempo de preparação e de espera, e virá uma segunda vez no final da história, mas entre estas duas vindas encontramos muitíssimas outras vindas as quais devemos estar atentos.

Precisamos nestes dias fazer um maior esforço para discernir as “vindas” ou “visitas” de Jesus em nossa vida pessoal e mesmo comunitária. Estarmos vigilantes para descobrir o Senhor, seu apelo para nós em tantos acontecimentos da vida. Jesus vem constantemente até nós através de: sua palavra, dos sacramentos, dos acontecimentos e fatos da história e de modo principal nos irmãos mais necessitados com os quais quis se identificar (Mt 25,31 ss).

Será que percebemos a presença de Jesus, sua vinda a nós e seu apelo no irmão doente, pobre, injustiçado, faminto, sem moradia, marginalizado, sofredor? O apelo do Senhor diante destes irmãos é sempre para que tenhamos uma ação concreta de salvação e de libertação para todos eles. Sem dúvida o seguidor de Jesus deve ser sempre anunciador da esperança, aquele que colabora para erguer o ânimo e a cabeça dos irmãos, ajudando a cada um a crer e apostar que é sempre possível recomeçar a vida, como refletíamos na primeira leitura. E isto é uma postura de amor, o que convidava-nos Paulo em nossa segunda leitura de hoje.

A esperança cristã é sempre algo bem ativo e por isto bem diferente de uma esperança passiva aos moldes daqueles que nada fazem, cruzando os braços esperam soluções rápidas, prontas e caídas do céu. Nossa esperança não é como a daquela pessoa que espera no aeroporto um vôo, se o avião não chegar não depende nada dela! Nossa esperança é como a daquela pessoa que tem um amigo muito amado e que não vê faz muito tempo, este amigo avisa que vai fazer uma visita, então a espera do amigo se transforma em arrumação da casa e no preparado de uma deliciosa refeição!

Que neste advento possamos mesmo preparar a casa de nosso coração, de nossa família, de nossa comunidade cristã e de nossa cidade para celebramos a vinda de Jesus no Natal, este grande presente do Pai à humanidade.

Esta preparação será bem feita se melhorarmos nestes dias nossa vida de oração e nela buscarmos de fato compreender melhor as visitas que Jesus nos faz a todos os dias. Que nesta semana nos exercitemos mais nesta oração vigilante e possamos distinguir melhor o apelo do Senhor para cada um de nós e suas constantes visitas.

E ainda seria muito bom fazermos um exercício de esperança, se temos motivos para desanimar ou se estamos apavorados com o mal, busquemos colocar nossos corações em Deus que é fiel em suas promessas e nunca nos desampara, pois sempre oferece salvação e libertação.

padre Antonio Heggendorn (in memorian)

 

“A vós, meu Deus, elevo a minha alma. Confio em vós, que eu não seja envergonhado! Não se riam de mim meus inimigos, pois não será desiludido quem em vós espera!” (cf. Sl 24,1ss).

Com este primeiro domingo do Advento iniciamos mais um ano litúrgico. Este ano litúrgico é chamado de ano C. Durante este ano nós refletiremos o Evangelho de Lucas, o evangelista considerado como o portador da manifestação da bondade de Deus e de seu amor pela humanidade, conforme nos ensina Tt. 3,4. São Lucas é o evangelista que relata a vida dos pobres, dos pecadores, dos pagãos e dos valores humanísticos, como também, relata e exalta as mulheres, especialmente a bem aventurada Virgem Maria, Mãe de Deus e nossa Mãe. Jesus é colocado por Lucas como Messias, como Mestre, mas, também, como Fiel, que veio ao mundo para servir a humanidade, como modelo e luzeiro de nossa caminhada de fé e de esperança neste peregrinar rumo ao Absoluto.

O que é o Advento? O Advento é o tempo que antecede as grandes celebrações do Natal. São quatro domingos em que refletimos sobre a necessidade de nosso encontro com o Salvador, o Senhor, que veio inaugurar a perspectiva final de nossa história – conforme ensina a liturgia de hoje. Conseqüentemente celebramos no segundo e no terceiro domingo a esperança da primeira vinda do Senhor, até despontar a sua presença, a gravidez da bem aventurada Virgem Maria, cheia de graças no quarto domingo do Advento.

Advento é tempo de espera, de esperança, de atitude, de vigilância, de alegria pela vinda de nosso Salvador. A cor litúrgica dos paramentos é o roxo.

A Igreja reveste-se de esperança, aguardando o Messias que vem no Natal e o Messias que virá glorioso no fim de nossa caminhada terrena, de nossa história. É o mesmo Messias ontem, hoje e sempre. Advento é espera do Senhor que vem, que vem para nos salvar. Vivemos o tempo da esperança, da doce esperança cristã. Todos nós somos convidados a esperar pelo Salvador. Mas para qualquer festa como esta é necessário que estejamos preparados. Como nos preparar para esta festa? Nos preparar através de um bom exame de consciência e de uma confissão completa, com plena vontade de arrependimento de nossos pecados e pela volta absoluta para a graça santificante de Deus.

Jesus declara que vem para que “todos tenham vida e tenham vida em abundância”(cf. Jo. 10,10). Jesus que será concebido pela ação do Espírito Santo na generosidade e no sim a Virgem Maria assume a nossa humanidade, exceto o pecado original.

Vivemos a vida atual com raio de vida eterna, de vida futura, de vida em Deus.

Somos o povo eleito, que recebemos contínuas visitas do Senhor. Somos o povo eleito em cujo coração mora o Senhor. Somos o povo eleito que já aqui e agora formamos o Corpo de Cristo. Por isso, a esperança que celebramos no Advento tem muito de certeza e, necessariamente, assume um sentido de gratidão.

Lucas acentua a misericórdia de Deus, a gratidão que devemos ter e a universalidade da salvação. O Cristo do Natal, o Cristo do juízo final é a encarnação da misericórdia divina. Misericórdia para todos, sem exceção de ninguém, por mais pecador que seja. Por isso a criatura, redimida por Cristo deveria estar em permanente agradecimento. Este viver com o coração agradecido, voltado para o Onipotente, é a melhor atitude de espera pela segunda vinda do Cristo.

Lucas usa de símbolos significativos para falar da morte. Assim o evangelista usa a figura da cidade santa de Jerusalém, com o majestoso templo de construção inacabada e tido já como uma das sete maravilhas da humanidade. Olhando o templo, Jesus exclama: “Não ficará pedra sobre pedra, e tudo será destruído”.(cf.  Lc. 21,6) E, conseqüentemente, a destruição aconteceu entre os anos 60 - 70 da era cristã.

Assim Lucas quer chamar a atenção de cada um de nós que nossa vida é igual à alegoria da Cidade Santa. Tudo gira em torno dela. Todas as preocupações são tomadas em sua defesa. Dentro da vida, o homem constrói seu templo, feito do mais precioso tesouro: a honra, a honestidade, a ciência, a sabedoria, o conhecimento profissional. Esse templo se torna encantamento, ternura, amor e razão de nossa vida. O templo e a vida estão inacabados, porque a vida gira. Mas, enquanto o mundo gira a Cruz fica de pé. A vida acabará como o Templo e será chegado o momento de prestar contas de nossa vida. O fim é a morte. Morte que não é fim, mas é o dia do juízo junto de Deus e do Juízo.

Morte para o cristão é encontro com Deus, com o Salvador que irrompeu a morte, vencendo-a e anunciando a vida eterna, a vida em Deus. Depois da morte vem a Páscoa, vem as consolações eternas. Morte como Páscoa libertadora é um momento em que cada um poderá ser pego de surpresa. Para não sermos surpreendidos é necessário que estejamos preparados. Por isso é necessário estarmos vigilantes através da oração e da busca serena da santidade, nos acostumando a ficar diante de Deus de tal modo que, quando estivermos face a face com o supremo Juiz, nos sintamos à vontade, como qualquer um se encontra diante de seu confessor, aliviado de seus pecados e voltado para a misericórdia de Deus.

As leituras deste domingo e toda a liturgia nos ensina o dinamismo do crescimento cristão, com vistas ao reencontro com Nosso Senhor. Desde o primeiro domingo, marca a existência cristã com este sentido. Devemos acreditar que o homem e a sociedade sempre podem ser renovados. A primeira leitura (cf. Jr 33,14 - 16) nos lembra esta verdade fundamental. Jerusalém, no tempo pós-exílico, era não tanto o monte de Javé quanto um montão de problemas. Mas mesmo assim lhe é prometido um novo nome, sinal de uma realidade nova: “Deus nossa justiça”(cf. Jr. 33,16). Por isso esta leitura confere, portanto, à expectativa cristã um toque comunitária.

A segunda leitura (cf. 1 Ts 3,12 - 4,2) nos ensina que na ânsia da vinda do Senhor, sempre podemos crescer mais, e é ele que nos deixa crescer, para que sua chegada seja preparada do modo mais perfeito possível.

Se seguirmos os sinais dos ensinamentos de Jesus, de sua vida, Paixão, Morte e Ressurreição, saberemos interpretar todos os outros sinais e nada nos poderá abalar. Não ficaremos aguardando sinais espetaculares. Eles estão acontecendo no decurso da vida, enquanto o Senhor está chegando.

padre Wagner Augusto Portugal

 

Mais uma vez nos encontramos para festejar o início de uma nova caminhada. Vivemos hoje o primeiro domingo do Advento, e com ele iniciamos também um novo ano, o ano C do calendário litúrgico. Por isso, para você, um feliz ano novo!

Advento é tempo de espera. Tempo de reflexão e oração. No Advento encontramos o clima perfeito para nos aproximarmos de Deus e do próximo. Advento, tempo de fortalecer a fé, a esperança e a caridade em preparação para o nascimento de Jesus.

Ano novo, vida nova! Muito antigo esse chavão, porém, mais antigos ainda são as promessas e o desejo de mudar. Não podemos ficar somente na promessa e no desejo. Quem não mudou, precisa mudar urgentemente, pois o recado de Jesus é direto. Precisamos estar preparados para receber Jesus no Natal, no entanto, a vinda do Salvador pode acontecer antes do dia 25 de dezembro. Pode ser amanhã mesmo.

As expressões deste evangelho chegam a assustar. Se levadas ao pé da letra, são terríveis. Não é preciso desesperar-se, mas é bom ficar atento, pois não sabemos o dia nem a hora. Quem não estiver sóbrio, poderá cair na armadilha e não encontrar forças, nem mesmo, para ficar de pé.

Jesus usa uma linguagem simbólica para mostrar a insensatez do mundo, um mundo muito parecido com este em que vivemos; onde não existe organização nem leis e, se existem, não são levadas a sério pela sociedade. Um mundo de cabeça para baixo, angustiado, inseguro e medroso.

As pessoas também seguem os mesmos passos do mundo. Vivem angustiadas, medrosas e sem saber a quem recorrer. Ainda não descobriram Deus, rejeitam sua mão amiga e não confiam em seu poder. A concorrência desleal e a guerra do poder tornaram os corações insensíveis.

Qualquer semelhança entre os sinais apontados por Jesus e os sinais que encontramos no nosso dia-a-dia, não é mera coincidência. Jesus insiste na oração, pois só mesmo com muita oração poderemos escapar da grande tribulação. A oração nos mantém acordados, vigilantes e nos dará a força necessária para permanecer de pé diante do Senhor.

Jesus nos fala de sinais assustadores que aparecerão. Mas, veja se não  é mesmo para ficar assustado: no mundo em que vivemos, impera a lei do mais forte. Os valores são cada vez menos valorizados. A família está em segundo plano, marido não respeita esposa, mulher não respeita o marido e filhos não respeitam os pais. Falta Deus nos lares, ninguém respeita ninguém.

O egoísmo afasta os irmãos, gera ódio, injustiça e vingança. As condições desumanas em que milhares se encontram, passam despercebidas por uma minoria, dona do poder. Os sem teto, os sem terra, sem emprego, os aposentados que têm seu salário cada vez mais desatualizado e distante das necessidades básicas da família, os famintos e desabrigados, todos eles parecem invisíveis, no entanto estão aí, aos milhares, perambulando diante dos nossos olhos. Quer sinais mais terríveis que estes?

Nem tudo são más notícias. Existem as profecias pessimistas e as otimistas. As profecias otimistas anunciam a misericórdia e a presença de Deus junto daqueles que lutam por mudanças e se preocupam com o próximo.

Essas profecias anunciam que o Deus Amor virá para resgatar todo aquele que nele confia. Quem vive o amor não se desespera porque sabe que são verdadeiras estas palavras: "Quando essas coisas começarem a acontecer, levantem suas cabeças, porque a libertação de vocês está próxima".

Jorge lorente

 

A caminho do Natal

Nesse domingo iniciamos mais um ano litúrgico (ciclo C), durante o qual iremos refletir e celebrar os principais mistérios de nossa fé e da História da Salvação. O companheiro principal na caminhada será o Evangelho de são Lucas. O ano litúrgico está centralizado em duas grandes festas: Natal e Páscoa. E cada uma delas com 3 momentos:

- de preparação: Advento e Quaresma;

- de celebração: do Natal à Epifania; da Páscoa ao Pentecostes;

- de prolongamento: os domingos do tempo comum.

Hoje iniciamos as quatro semanas do Advento. O Advento é um momento de espera e esperança, em que celebramos:

+ um fato passado: a vinda histórica de Cristo, prometida a Abraão, lembrada pelos profetas, esperada pelo povo, realizada em Belém;

+ um fato presente: vinda de Jesus presente na sua Igreja. Cristo continua a vir: na Palavra, na Eucaristia, nos irmãos;

+ um fato futuro: é a segunda vinda… no fim do mundo.

As leituras acenam para um novo tempo, marcado pela esperança e pela alegria.

Na 1a leitura, damos um olhar para o passado (Jr. 33,14 - 16) Após um longo exílio, o Povo, cansado e abatido, retorna para a sua terra, mas encontra tudo destruído, precisa recomeçar tudo de novo. O profeta Jeremias proclama a chegada de dias melhores. Surgirá um descendente de Davi, que assegurará a paz e a salvação. Recordando as promessas de Deus, o profeta elimina a saudade do passado, elimina o medo do presente e instaura o clima da esperança.

Esse rebento esperando pelos israelitas é Jesus de Nazaré. Com ele teve início o Reino de Paz e Justiça. Contudo percebemos que a construção desse mundo novo não foi concluído com o nascimento de Cristo. Exige ainda muito tempo e de nosso empenho e colaboração.

Na 2º leitura, damos um olhar para o presente (1 Ts. 3,12 - 4,2). São Paulo lembra à comunidade de Tessalônica que a melhor maneira de esperar a vinda do Senhor Jesus é crescer no amor recíproco. Sem esse amor, torna-se vazio o Advento e o próprio Natal.

No Evangelho, damos um olhar para o futuro (Lc. 21,25 - 28.34 - 36)

Estamos nos últimos dias da vida terrena de Jesus. Ele anuncia tempos difíceis de sofrimento e perseguição. O texto, numa linguagem apocalíptica, fala da segunda vinda de Cristo. Os "sinais" catastróficos apresentados, não são um quadro do "fim do mundo"; são imagens utilizadas pelos profetas para falar do "dia do Senhor", quando Ele vai intervir na história para libertar o seu Povo. O quadro visa reavivar a esperança pelo novo dia que surgirá e motivar a vigilância para reconhecer e acolher o Senhor que vem.

+ "Alegrai-vos, pois a vossa libertação está próxima".

A Palavra de Deus nos garante: a Salvação de Deus vai tornar-se realidade. Mas a salvação não é uma realidade que deva ser esperada de braços cruzados.

- É preciso “estar atento” a essa salvação que nos é oferecida e aceitá-la.

- É necessário reconhecer Jesus que vem nos sinais da história, no rosto dos irmãos, nos apelos dos que sofrem e que buscam a libertação.

- É preciso ter a vontade e a liberdade de acolher o dom de Jesus, deixar que ele nos transforme o coração e se faça vida nos nossos gestos e palavras.

- É preciso ter presente, que este mundo novo está permanentemente a fazer-se e depende do nosso testemunho.

+ Como você pretende preparar o Natal desse ano?

- Um Natal apenas de presentes... de enfeites e músicas… de festas, comes e bebes...

- ou um Natal cristão?

+ O verdadeiro Natal é vivido num clima de:

1) esperança: Advento é participar de uma espera profunda de todos os homens pela vinda de Deus;

2) "cabeça erguida": apesar dos problemas que nos cercam;

3) vigilância para perceber os sinais da presença de Deus entre nós. Jesus adverte a um perigo: "Não fiquem insensíveis por causa da gula, da embriaguez e das preocupações da vida";

4) oração: na comunidade com a liturgia do Advento e nas famílias com a novena do Natal em família;

5) conversão;

6) acolhida: preparar o nosso presépio, o coração.

O Natal será realmente cristão, se Cristo tiver lugar em nosso coração. Caso contrário, a sua vinda será inútil. Vamos remover de nossa vida toda bagagem inútil que possa impedir os nossos passos para Cristo.

Como há dois mil anos em Belém, Ele ainda hoje continua buscando um lugar. Será que Ele encontrará esse lugar em nossa casa, em nosso coração?

padre Antônio Geraldo Dalla Costa

 

1a leitura - Jr 33,14 - 16

Iniciando o novo ano litúrgico, as esperanças de vida se renovam. O povo precisa viver, precisa de paz, estabilidade e governantes justos. Este trecho parece fazer parte de acréscimos realizados na redação final do livro. Estamos, portanto, no pós-exílio.

O profeta anuncia a restauração da dinastia davídica. O v. 15 diz textualmente: “Naqueles dias, naquele tempo, farei brotar de Davi um rebento dado à justiça, que vai implantar a justiça e o direito no país”. O que aconteceu com Jerusalém é fruto da incompetência dos governantes e da violação do direito e da justiça por parte dos reis de Israel. Nabucodonosor, rei da Babilônia, invadiu Jerusalém e colocou no trono do rei Sedecias, cujo nome significa Javé - minha justiça. Mas este adjetivo “minha”, caracterizou exatamente a justiça do invasor, não a de Javé, pois Sedecias foi cruel, ambicioso e violento. Deus promete agora através do profeta dar gratuitamente a Israel um rebento santo uma nova autoridade que realmente vai implantar o direito e a justiça; seu nome, sua verdadeira identidade será “Javé-nossa-justiça”, clara oposição a Sedecias = Javé - minha justiça. Como fruto da presença de um governante justo “Judá estará salvo” e Jerusalém habitará em segurança. Na verdade, a legitimidade de uma autoridade está diretamente relacionada com a justiça, com a segurança e a paz social. A corrupção, a opressão, o empobrecimento crescente do povo são indícios de uma usurpação da autoridade, indícios que os governantes estão governando a si mesmos à custa do povo.

2a leitura - 1Ts 3,12 - 4,2

A primeira carta aos tessalonicenses é o primeiro escrito do Primeiro Testamento; é do ano 51, seu esquema é simples. Numa primeira parte (1-3), Paulo agradece a Deus os progressos espirituais da comunidade, sua vida de fé, esperança e caridade e o anima a perseverar. Na segunda parte (4 - 5) que é mais exortativa, ele dá algumas instruções e esclarece algumas dúvidas como o destino dos mortos e corrige alguns abusos como prostituição, injustiça, etc. O ponto forte nesta carta é o aspecto escatológico, ou seja, o fim do mundo ou a segunda vinda de Cristo (cf. 2,19; 3,13; 4,17; 5,23).

No capítulo terceiro Paulo envia Timóteo para fortificar a comunidade e a exortar na fé, como também para trazer notícias, pois ele não agüentava mais ficar sem informações da comunidade (vv. 2 e 5). Timóteo trouxe ótimas e consoladoras notícias (vv. 6 - 7). Aqui, Paulo dá novo incentivo mostrando o dinamismo próprio do amor. Ele pede que o Senhor aumente cada vez mais o amor e que este amor possa ultrapassar os limites da comunidade e atingir todos os homens, pois todos somos irmãos uma vez que Deus é nosso Pai e Jesus é nosso Senhor (cf. vv. 11 e 13). O exemplo que Paulo dá é seu próprio amor pela comunidade.

Ele pede ainda que o Senhor confirme os corações dos tessalonicenses, tornando-os irrepreensíveis e santos. O crescimento do amor tem que ser contínuo. O cristão é chamado à perfeição no amor. É interessante que quem faz crescer no amor e quem confirma os corações e os torna irrepreensíveis é o próprio Senhor. Se isto é obra de Deus, a nós cabe então a abertura, docilidade, o não oferecer obstáculos à ação da graça.

Iniciando a 2a parte da carta, o apóstolo, primeiro constata que a comunidade caminha bem, de acordo com recomendações dadas; sua conduta agrada a Deus. Segundo ele a exorta a progredir mais ainda, pois ele conhece as instruções dadas pelo apóstolo da parte do Senhor. Na verdade, Jesus é o ponto de referência para tudo. Ele é realmente o centro da vida de Paulo e da comunidade. Só nesses quatro versículos a expressão aparece quatro vezes.

Evangelho - Lc 21,25 - 28.34 - 36 Qual é a mensagem geral do Apocalipse?

Estamos lendo um trecho escrito em linguagem apocalíptica (Lc. 21). Este modo simbólico de falar nos faz pensar nas coisas que irão acontecer no futuro, mas a intenção do autor é chamar a atenção para o presente. No fundo é uma exortação a tomar partido aqui e agora diante do projeto de Deus, a não ficar passivo ou dormindo, mas atento, vigilante, operante. Não pretende atormentar a comunidade perseguida por causa de fé e do seu testemunho, mas, exatamente, dar coragem ânimo, força. Aliás, o v. 28 deixa muito claro: “Quando estas coisas começarem a acontecer, levantais-vos e erguei a cabeça, porque a vossa libertação está próxima.”

O Filho do Homem vem para julgar e salvar

Os vv. 25 - 26 usam um modo habitual, na linguagem apocalíptica, de falar da intenção de Deus na história. Deus tem poder sobre os elementos cósmicos. Sinais grandiosos e catástrofes cósmicas indicam a presença de Deus e sua intervenção poderosa em favor do povo eleito. No nosso caso estes sinais grandiosos antecipam a chegada do “Filho do Homem, vindo numa nuvem, com grande poder e glória”. Por trás deste texto temos a profecia de Dn 7,13 - 14. A nuvem aqui é símbolo do poder e da glória divinas do Filho de Deus. Ele vem para julgar os que se opõem ao projeto de Deus e para salvar os eleitos. A idéia do julgamento aparece na angústia das nações pagãs, e no medo mortal dos homens ímpios. Eles verão o Filho do Homem vindo para julgar. Através dessas imagens cristãs devemos entender que o testemunho vivo das comunidades cristãs vai exercendo o julgamento entre os incrédulos e opositores do Evangelho, desmascarando suas injustiças e maldades.

A idéia de salvação está clara no v. 28: “erguei a cabeça, porque a vossa libertação está próxima”. Libertação traduz o termo grego “apolytrosis” que é o resgate que Cristo pagou com o seu sangue para nos tornar livres da escravidão do pecado. Os escravos eram libertos mediante “o resgate” em dinheiro. Como cristãos devemos continuar o processo de libertação através do testemunho evangélico e da prática da justiça.

Como escapar daquele dia e permanecer de pé? (vv. 34 - 36)

Aqui temos uma exortação à vigilância (cf. v. 34: “cuidado” e v. 36: “ficai acordados”). Vigilância não significa acomodação e passividade, mas lucidez e discernimento diante dos acontecimentos. Devemos tomar cuidado para não nos deixarmos levar pelos vícios e preocupações da vida. E positivamente devemos ficar acordados e em oração para termos força para escapar e resistir ao julgamento.

dom Emanuel Messias de Oliveira