17º DOMINGO DO TEMPO COMUM

ano C

 

O MESTRE ENSINA A REZAR

João Batista ensinou seus discípulos a rezar. Os apóstolos pediram também a Jesus que fizesse o mesmo com eles. E Jesus ensinou o "Pai nosso". É a mais bela de todas as orações, e é rezada milhões de vezes por dia pelos cristãos, em toda a face da terra, às vezes até de maneira muito espontânea, em certos momentos de dor ou de alegria coletiva. A redação do Pai-nosso em são Mateus é mais longa e mais completa. Em são Lucas, mais abreviada. Jesus a terá ensinado mais uma vez, e as redações diferentes se devem, sem dúvida, ao uso de catequese. Mas o pensamento substancial é o mesmo.

A oração se abre com um louvor a Deus. É aquilo que na arte da oratória se chama "captatio benevolentiae" a conquista da benevolência. Queremos atrair para nós a boa vontade de Deus. Mas essa "captatio benevolentiae" no Pai-nosso não se estende em muitos louvores, como acontece em certas orações muçulmanas. É muito concisa. Mas também muito expressiva: "Pai nosso, que estais no céus". E tem o dom de elevar nosso pensamento para o alto, e de desprender-nos da materialidade das coisas do tempo, que muitas vezes podem impedir-nos de rezar bem. Seguem-se, então, os pedidos. Primeiro para a glória de Deus: que seu nome seja santificado (o nome de Deus significa o próprio Deus), que venha o seu reino; que se faça a sua vontade "assim na terra como no céu". Depois os pedidos em nosso benefício: o pão de cada dia, o perdão dos pecados, a libertação das tentações e de todo o mal. Quando pedimos o perdão dos pecados, comprometemo-nos a perdoar também a quem nos ofendeu. Essa atitude é tão essencial no Evangelho, que são Marcos a menciona, mesmo sem trazer a inteira oração do Pai-nosso (cf. Mc. 11,25-26). E fácil observar que o Pai-nosso, eminentemente evangélico e cristão, pode ser rezado por qualquer pessoa que tenha fé em Deus. E uma oração universal.

E importante rezar. E rezar com freqüência. E insistir na oração, quando queremos obter de Deus algum favor. Não porque Deus precise de ouvir muitas vezes nosso pedido, mas para que nós demonstremos nosso interesse e nossa confiança. "Pedi e vos será dado; buscai e achareis; batei e se vos abrirá. Pois todo aquele que pede, recebe; o que busca, acha; e ao que bate, se abrirá (Lc. 11,9-10). E Jesus o confirma com uma comparação oriental muito viva. Lembra que, se alguém vai bater à porta de um amigo, alta noite, porque lhe chegou um hóspede inesperado, e precisa de três pães para lhe oferecer, a princípio o amigo reclamará, porque já está deitado e não são horas de ser incomodado. Mas, se continuar a bater e a chamar, o amigo acaba atendendo (cf. vs. 5 a 8). E nessa mesma linha de atendimento à oração, faz ainda três bonitas comparações. Se um filho pede ao pai um pão, o pai não lhe dará uma pedra (ver Mt. 7,9); se pede um peixe, não lhe dará uma serpente; se pede um ovo, não lhe dará um escorpião. "Pois, se vós que sois maus, sabeis dar boas dádivas aos vossos filhos, quanto mais o Pai do céu dará o Espírito Santo aos que lho pedirem?" (Lc. 11,11-13). É claro que o Espírito Santo é o maior dom que se possa pedir a Deus.

Talvez se pudesse comentar que um pai aqui na terra nunca daria uma pedra a um filho que lhe pedisse um pão. Mas o Pai do céu vai mais longe ainda: daria um pão, mesmo que o filho desencaminhado pedisse uma pedra. Ele corrige nossos estouvamentos. Para usarmos uma comparação muito singela, se alguém pedisse a Deus a "graça" de tirar a sorte grande na loteria, Deus poderia dar-Ihe em vez disso a graça - essa sim verdadeira graça - do amor ao trabalho e do bom êxito nesse trabalho. Ele pediria uma "serpente", e Deus lhe daria um peixe, para nos valermos da palavra do divino Mestre.

O Evangelho está cheio de lições muito valiosas sobre a oração. Sobre tudo no sermão da montanha. Não há religião sem oração. E o progresso espiritual de alguém se mede pela qualidade da sua oração. De acordo, aliás, com uma sapientíssima palavra de santo Agostinho: "Recte novit vivere, qui recte novit orare", isto é, aquele que rezar bem, sabe viver dignamente.

padre Lucas de Paula Almeida - www.padrelucas.com.br

 

Pessoas muito racionalistas não raro experimentam dificuldade com a oração de súplica. Acham bom rezar para adorar ou agradecer, pois reconhecem que a vida é um dom e existe um ser transcendente e perfeito chamado Deus. Mas pedir que esse ser se ocupe com o dia a dia de suas criaturas lhes parece metafisicamente ingênuo e praticamente pouco atraente, pois torna Deus muito familiar. Preferem não depender dele em seus negócios. Ora, aquele que sustenta todo o ser também não sustenta nosso dia a dia? Ou será que as poucas leis físicas, psicológicas, econômicas e sociológicas que conhecemos são realmente tão abrangentes, que já não sobra espaço para Deus? (Em vez de pensar que essas leis são uma parte do sustento que ele nos fornece em cada momento.)

Seja como for, Jesus nos ensinou a pedir e suplicar, e até com insistência. Cita o exemplo de alguém que, em plena noite, vai acordar o vizinho e bate à sua porta até que ele se levante para ver-se livre do incômodo (evangelho). Isso lembra a “pechincha de Abraão”, que, ao rezar por Sodoma e Gomorra (primeira leitura), se atreve a lembrar a Deus: “Não podes perder os justos com os injustos, é uma questão de honra!”. E Deus atende. A frase do salmo responsorial: “Cada vez que te invoquei, me deste ouvido”, pode ser repetida como lema durante os vários momentos da celebração.

1º leitura (Gn. 18,20-32)

A primeira leitura narra a oração de Abraão por Sodoma e Gomorra. O pecado de Sodoma e Gomorra, sobretudo o abuso contra a hospitalidade e contra o respeito sexual (cf. o episódio a seguir, Gn. 19,1-11), clama ao céu. Diante da ameaça de Deus, Abraão pede-lhe que não a execute, pois não deve condenar a cidade por causa dos muitos injustos, mas poupá-la por causa de poucos justos. É uma questão de honra para Deus, diz Abraão. Essa história contracena com o Novo Testamento. O Juiz do mundo (Gn. 18,25) é também o amigo, o Pai (Lc. 11,8, evangelho). Para salvar Sodoma e Gomorra, cinco justos (mas nem estes se encontraram) teriam sido suficientes para Deus; na nova “economia da salvação”, a vida de um único justo, o Filho de Deus, salva a todos.

Evangelho (Lc. 11,1-13)

O evangelho nos propõe a oração do cristão. Os discípulos encontram Jesus em oração. O fato e o modo de Jesus rezar provocam o pedido: “Ensina-nos a rezar”. Então, Jesus ensina-lhes o pai-nosso, protótipo da oração cristã (11,1-4). A versão de Lucas é mais breve que a de Mateus (Mt. 6,9-13). Mateus tem sete pedidos, Lucas cinco, mas em ambos está central o pedido do pão de cada dia. Antes de pedir o pão de cada dia, ora-se pela glorificação de Deus e pela vinda de seu reino; depois, pelo perdão do pecado e pela proteção na tentação. Quem pode rezar assim, com sinceridade, é discípulo de Jesus.

Depois da instrução do pai-nosso, Lucas acrescenta dois ensinamentos de Jesus sobre a oração de pedido: a parábola do “vizinho chato” (11,5-8) e as palavras sobre o dom do Pai (11,9-13).

A parábola do “vizinho chato” é provocante. Alguém acorda seu vizinho em plena noite para lhe pedir comida, porque chegou um hóspede imprevisto e a despensa está vazia. O que bate à porta certamente está bem-intencionado, pois, no oriente, a hospitalidade é um dever muito importante. Mas o vizinho vê nisso um problema, porque deverá levantar-se e passar por cima de mulher e filhos, que estão dormindo, deitados no único quarto da casa simples. Mas o outro continua insistindo e, finalmente, o vizinho, para se ver livre dele, concede-lhe o pedido.

A oração de Abraão como também a do vizinho (e a da viúva insistente, Lc. 18,3) nos ensinam uma coisa importante: pedem coisas com que Deus se possa comprometer. Pedem a Deus o que, no fundo, Deus mesmo deseja. Esse (além de nossa insistência) é o segredo da oração eficaz. Saber pedir como convém (cf. Tg. 4,3). Deus é nosso Pai. Ele deseja comunicar suas dádivas, especialmente seu Espírito, força a ânimo de nosso existir (Lc. 11,9-13).

Por isso, no pai-nosso, Jesus ensina seus discípulos, e a todos nós, a rezar primeiro para que o nome de Deus seja santificado (isto é, para que Deus encontre reconhecimento no mundo) e seu reino venha (Lc. 6,2; Mt 6,10 explicita: “Tua vontade seja feita”). Dentro desse quadro de referências, podemos e devemos rezar por nosso pão de cada dia, pelo perdão (pois somos eternos devedores) e para ficar incólumes na tentação. Devemos rezar por isso, com insistência, não tanto porque Deus não soubesse de que precisamos, mas para nos abrirmos ao que ele nos quer dar. Pedindo, a gente se convence mais a si mesmo do que a Deus! Pedir é cultivar nossa fé, nossa confiança filial, é deixar “crescer Deus”, como nosso Pai, em nossa consciência e em toda a nossa vida. É voltar a ser crianças – condição para entrar no Reino (cf. Lc. 18,17). É por isso que os intelectuais tão dificilmente pedem.

Com essas considerações, não queremos justificar a oração que reduz Deus a um “quebra-galho” ou “tapa-buraco”, às vezes até para causas não condizentes com seu reino (por exemplo, para ter sucesso nos negócios ainda que outras pessoas fiquem prejudicadas). Queremos é revalorizar a oração de petição, porque nela minha confiança filial em Deus me leva a extravasar, diante dele, aquilo que habita meu coração: minha própria miséria, além das necessidades de meu irmão, o próximo a quem quero bem e vejo em dificuldades. Assim como Abraão fez pelos habitantes de Sodoma. Isso não é absurdo. O mundo não é feito somente com as leis (físicas, psicológicas e sociológicas) que conhecemos ou estão em nossos manuais de escola, mas também com o mistério da vida. Por isso, não há dúvida de que a preocupação amorosa que extravasamos diante de Deus será operante, pela graça daquele mesmo que sustenta toda a vida.

2º leitura (Cl. 2,12-14)

O pensamento da segunda leitura pode ser sintetizado nesta frase: nossas dívidas são saldadas por Cristo. O “sacramento” do Antigo Testamento era a circuncisão: constituía, para Israel, sinal de pertença a Deus, a ponto de Jesus lhe ter se submetido, como se subordinou a toda a Lei (cf. Gl. 4,4-5). Mas Jesus assumiu também toda a condição humana e a sepultou consigo em sua morte, para criar o Homem Novo na ressurreição. O que acontece a Cristo acontece a nós: no batismo, somos corressuscitados com Cristo. Corressuscitados com ele (cf. Rm. 6,4), somos agora livres, livres de “culpa no cartório” (cf. Rm. 8,34).

“Ninguém salva ninguém”, dizem os “realistas”. Será mesmo? Ninguém é salvo se não quer, mas em Cristo existe uma comunhão entre todos os que buscam a fonte da vida, Deus. Essa comunhão de vida, ensina a segunda leitura, faz que Cristo nos redima. Desde que participemos da vida que ele viveu (o que é expresso pelo batismo, imersão na sua morte, para que ressuscitemos com ele para uma vida nova), podemos dizer que a santidade de Cristo salda nossas dívidas e sua morte por amor supre nossa falta de amor (com a condição de nos arrependermos). Como nós mesmos perdoamos a outrem a pedido de uma pessoa amiga (pai, mãe, irmão...), assim nossa comunhão (amizade) com Cristo vale para nos restabelecer na amizade de Deus. E também nossa oração de intervenção junto a Deus será eficaz.

(Um texto das cartas que melhor combina com as duas outras leituras seria 1Jo 5,14-16, sobre a confiança no pedir.)

Orar e pedir

Certos cristãos, julgando-se esclarecidos, acham as orações de nosso povo muito egoístas, porque são quase sempre orações de pedido. Ora, as leituras de hoje sublinham a importância da petição. Abraão, com seus incansáveis pedidos, quase salvou as cidades de Sodoma e Gomorra – que, infelizmente, eram ruins demais. Jesus, por seu lado, ensina aos discípulos o pai-nosso, essencialmente uma oração de petição: pede a princípio que Deus reine, e, uma vez que rezamos em harmonia com o desejo de Deus, podemos pedir o que precisamos para nossa vida. Na parábola do homem que incomoda seu vizinho, Jesus parece ensinar-nos a vencer Deus pelo cansaço! No fundo, Deus gosta de dar-nos suas dádivas boas, especialmente seu Espírito, pois mesmo nós – que somos ruins – gostamos de dar coisa boa aos filhos.

A oração de petição não é uma forma de oração inferior, mais egoísta do que a meditação, a louvação, o agradecimento, a adoração... Na verdade, agradecer é a outra face do pedir. Quem agradece, gostou. Por que não pedir então? É reconhecer a bondade do doador! Como aquele frei que, depois de lauto almoço na casa de uma benfeitora, testemunhou sua gratidão com estas palavras: “Senhora, não sei como agradecer... Será que poderia repetir aquela gostosa sobremesa?”.

Conforme o espírito do pai-nosso, devemos pedir, antes de tudo, a realização daquilo que Deus deseja: seu reino, sua vontade. Ora, uma vez assentada essa base, pode-se pedir – com toda a simplicidade – o pão de cada dia, saúde, vida e todos os demais dons que Deus nos prepara. Também o perdão de nossas faltas. Só não se deve pedir a Deus o que ele não pode desejar: a satisfação de nosso egoísmo. E sempre se deve lembrar que Deus sabe melhor do que nós o que nos convém. Podemos insistir naquilo que achamos sinceramente nosso bem... mas Deus sabe melhor.

É importante pedirmos. Compromete! Depois de ter pedido, a gente já não pode dizer: “Não pedi!” Comprometemo-nos com Deus e com o que pedimos. Não é como no supermercado, onde você entra, olha e sai sem comprar. É, antes, como no armazém da esquina, onde você pede o que deseja e, caso houver, você compra. Assim, as preces dos fiéis, na celebração da comunidade, devem ter sentido de compromisso: devemos desejar que elas se realizem, e ao mesmo tempo nos oferecer a Deus para colaborar na realização daquilo que pedimos. Pedir é comprometer-se. Se pedimos a Deus saúde, não é para gozar egoisticamente a vida, mas para servir melhor. Se pedimos paz, não é para sermos deixados em paz, mas para dedicar-nos à comunhão fraterna. Se pedimos por nossos irmãos e nossas irmãs mais pobres, é porque queremos ajudá-los efetivamente. Importa saber como pedimos (cf. Tg. 4,3).

padre Johan Konings, sj.  - www.paulus.com.br

 

Basta recordar a primeira leitura e o evangelho para ver claramente que a Palavra de Deus deste domingo fala da oração. Abraão reza, intercedendo por Sodoma e Gomorra; Cristo ensina seus discípulos a rezar. Portanto, a oração.

É impressionante não somente o fato de Jesus nos ter mandado rezar, nos ter ensinado a rezar, mas sobretudo, o fato de ele mesmo ter rezado com muitíssima freqüência. Basta recordar o início do evangelho de hoje: “Jesus estava rezando num certo lugar”. Nós sabemos que ele passava noites inteiras em oração, que rezava antes dos grandes momentos de sua vida, que morreu rezando.

Afinal, por que rezar? Para nos abrir para Deus, para nos fazer tomar consciência dele com todo o nosso ser, para que percebamos com cada fibra do nosso ser, do nosso consciente e do nosso inconsciente que não nos bastamos a nós mesmos, mas somos seres chamados a viver a vida em comunhão com o Infinito, em relação com o Senhor. Sem a oração, perderíamos nossa referência viva a Deus, cairíamos na ilusão que somos o centro da nossa vida e reduziríamos o Senhor Deus a uma simples idéia abstrata, distante e sem força. Todo aquele que não reza, seja leigo, seja religioso, seja padre, perde Deus, perde a relação viva com ele. Pode até falar dele, mas fala como quem fala de uma idéia, de uma teoria e não de alguém vivo e próximo, que enche a vida de alegria, ternura, paz e amor. Sem a oração, Deus morre em nós. Sem a oração é impossível uma experiência verdadeira e profunda de Deus e, portanto, é impossível ser cristão. Por tudo isso, a oração tem que ser diária, perseverante e fiel.

Assim, quando agradecemos, reconhecemos que tudo recebemos de Deus; quando suplicamos, reconhecemos e aprendemos que dependemos dele e da sua providência; quando intercedemos, aprendemos e experimentamos que tudo e todos estão nas mãos amorosas de Deus; quando pedimos perdão, reconhecemos que nossa vida é vivida diante dele e a ele devemos prestar contas da existência que recebemos. Portanto, a oração nos abre, nos educa, nos amadurece, nos faz viver em parceria com o Senhor.

Quanto aos modos de rezar, são variados. A melhor forma é com a Sagrada Escritura: tomando a Palavra de Deus, lendo-a com os lábios, meditando-a com o coração e procurando vivê-la na existência. Tome diariamente a Bíblia, leia-a com fé, repita as palavras ou frases que tocaram seu coração e derrame sua alma diante do Senhor. Nunca esqueçamos que essa Palavra de Deus é viva e eficaz, transformando a nossa vida e dando-lhe um novo sentido. Também é importante a oração espontânea, com nossas palavras e a oração vocal, aquela decorada, como o Pai-nosso e a Ave-Maria. Aqui, é bom recordar o terço, que tanto bem tem feito ao longo dos séculos. Mas, a oração por excelência é a própria missa. Aí, de modo pleno, nós somos unidos à própria oração de Cristo, participando do seu sacrifico pela salvação nossa e do mundo inteiro.

Mas, recordemos que a oração não é uma negociata com Deus nem é para dobrar Deus aos nossos caprichos. É, antes, para nos tornar disponíveis à vontade do Senhor a nosso respeito. Uma das coisas muito belas da oração é que, tendo rezado e pedido, o que acontecer depois podemos saber com certeza que é vontade de Deus! É nesse sentido que Nosso Senhor afirmou que tudo quanto pedirmos em seu nome, o Pai no-lo concederá. Ora, o que é pedir em nome de Jesus? É pedir como Jesus; “Pai, não se faça a minha, mas a tua vontade”. Rezar assim é entrar no cerne da oração de Jesus. Então, tudo que nos vier, saberemos que é vontade do Pai, pois sabemos que nossa oração foi atendida; e nisto teremos paz.

Que nesta missa, nós peçamos, humildemente, como os primeiros discípulos: “Senhor, ensina-nos a rezar”. E aqui não se trata de fórmulas, mas de atitudes. Observemos que a oração que Jesus ensinou, o Pai-nosso, é toda ela centrada não em nós, mas no Pai: no seu Reino, na sua vontade, na santificação do seu nome. Somente depois, quando aprendermos a deixar que Deus seja tudo na nossa vida, é que experimentaremos que somos pessoas novas, transformadas pela graça do Senhor.

Cuidemos, pois de avaliar nossa vida de oração e retomar nosso caminho de busca de intimidade com o Senhor, ele que é a fonte e a razão de ser da nossa existência.

 dom Henrique Soares da Costa - www.padrehenrique.com

 

“Se o meu Senhor não levar a mal, falarei”

O tema fundamental que a liturgia nos convida a refletir neste domingo é o tema da oração. Ao colocar diante dos nossos olhos os exemplos de Abraão e de Jesus, a Palavra de Deus mostra-nos a importância da oração, e ensina-nos a atitude que os crentes devem assumir no seu diálogo com Deus.

“Do povo da aliança, Deus espera a prática da justiça e do direito, que realizam o projeto de Deus. Esse projeto provoca a destruição da cidade injusta. A intercessão de Abraão mostra que o justo se compadece do povo da cidade. Mas o texto levanta perguntas: quantos justos são necessários, para que uma cidade não seja destruída pela injustiça? Até onde Deus está disposto a agir com misericórdia? O texto não responde. O Novo Testamento mostra que Deus, na sua misericórdia, está disposto a salvar não só uma cidade, mas a humanidade toda, e por causa de um só justo: Jesus Cristo” (Bíblia da Paulus).

Abraão, o servo de Deus preocupado com o povo. Ele insiste que os pecados não sejam causa da destruição de Sodoma e Gomorra, apesar de que eles clamem: “O clamor que chegou até Mim…” Trata-se dum antropomorfismo que empresta grande colorido e vivacidade ao relato. Esta maneira de falar de Deus à maneira humana põe aqui em evidência a justiça divina, que não pune sem o pleno conhecimento da causa.

“Cinquenta… quarenta e cinco… quarenta… trinta… vinte… dez”

Chamamos a atenção para a mentalidade de responsabilidade coletiva corrente em Israel, que está na base do episódio, segundo o qual também os inocentes têm de sofrer o castigo, juntamente com os culpados: para não haver castigo era questão de um número relativo de inocentes. O relato deixa ver que Deus não castiga o inocente junto com o pecador, como pensava Abraão; esta verdade da responsabilidade individual é bem apresentada nos profetas (cf. Jr. 31,29-30; Ez. 18,1-32). De qualquer modo, não deixa de ser enternecedor este diálogo, esta oração de intercessão ao Senhor, toda repassada de confiança e santo temor, perseverança, humildade e audácia santa. Se Deus não precisa das nossas insistências para nos atender, nós precisamos de nos colocar no nosso lugar de pedintes, para nos dispormos, com a nossa impertinência, a receber os dons que Deus tem para nos dar (cf. a parábola do “amigo impertinente”, do Evangelho de hoje).

“Deus fez que, unidos a Cristo, voltásseis à vida e perdoou todas as faltas”

“Paulo continua aplicando o hino à vida dos colossenses. Se Cristo é a plenitude de Deus (1,19), nele se encontra tudo o que é preciso para nos relacionarmos com Deus. Cristo está acima de qualquer poder visível ou invisível. O batismo, que substituiu a circuncisão, leva o cristão a participar da morte e ressurreição de Cristo, isto é, a passar da morte para vida em Cristo. Os vv. 13-15 retomam outro hino que celebra a vitória: pela morte de Cristo na cruz, Deus anulou o registro dos pecados, e venceu todas as potências que poderiam escravizar os homens. Portanto os cristãos agora são livres, e não devem se submeter a nada ou a ninguém que não seja Cristo” (Bíblia da Paulus).

O hino em questão é a solene liturgia do perdão dos pecados e a vida nova em Cristo. Porque fomos batizados, a morte já não tem poder sobre nós. O batismo uniu-nos intrinsecamente a Cristo, ou seja, ele já morreu e ressuscitou; o mesmo ocorre com o batizado, que já morreu e vive em Cristo, ainda que invisivelmente. No batismo e pela fé no poder de Deus ressuscitamos, porque estávamos mortos pelos pecados, mas Deus nos fez voltar à vida plena em Cristo. A dívida que tínhamos com Deus foi perdoada, e a duplicata foi rasgada na cruz por seu Filho Jesus Cristo.

Como é grande a alegria de quem recebe o perdão de uma dívida grande. Imagine então como deve ser a nossa alegria, pois todos os nossos pecados foram apagados.

“Pedi e dar-se-vos-á”

“Os mestres costumavam ensinar os discípulos a rezar, transmitindo o resumo da própria mensagem. O Pai-Nosso traz o espírito e o conteúdo fundamental de toda oração cristã. Esta oração deve ser feita na intimidade filial com Deus (Pai), apresentando-lhe os pedidos mais importantes: que o Pai seja reconhecido por todos (nome); que sua justiça e amor se manifestem (Reino); que, na vida de cada dia, ele nos dê vida plena (pão de amanhã); que ele nos perdoe como nós repartimos o perdão; que ele não nos deixe abandonar o caminho de Jesus (tentação). O Evangelho insiste na oração perseverante e confiante. Se os homens são capazes de atender ao pedido de amigos e filhos, quanto mais o Pai! Ele nada recusará. Pelo contrário, dará o Espírito Santo, isto é, a força de Deus que leva o homem a viver conforme a vida de Jesus Cristo” (Bíblia da Paulus).

Jesus disse estas palavras; no entanto, muitos pedem e não recebem, muitos buscam e não acham, e muitos batem e a eles não se abre. Por que será?

Muitos confundem o entendimento nesta área, que leva a frustrações e descrédito a muitos nas palavras de Cristo. Precisamos distinguir o que é pedido e o que é ordem. Certa vez ouvi um pastor dizer: “Eu te ordeno, Senhor.” Creio que ordens não são atendidas, mesmo em nome de Jesus Cristo.

Os pedidos não atendidos são por causa da nossa pouca fé; “pois em verdade vos digo que, se tiverdes fé como um grão de mostarda, direis a este monte: passa daqui para acolá, e ele há de passar; e nada vos será impossível” (Mt. 17,20). É necessário agradecer primeiro, e depois pedir; mas terminar a prece, dizendo que seja feita a vontade de Deus: “Sempre dando graças por tudo a Deus, o Pai, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo” (Ef. 5,20); “e tudo o que fizerdes por palavras ou por obras, fazei-o em nome do Senhor Jesus, dando por ele graças a Deus-Pai” (Cl. 3,17).

O problema está em que pedimos mal, para apenas satisfazer os nossos próprios interesses egoístas: “Pedis e não recebeis, porque pedis mal, para o gastardes em vossos deleites” (Tg. 4,3)

Temos de ter muita confiança em Deus, que, se pedirmos alguma coisa segundo a sua vontade, ele nos ouvirá. Como eu posso saber a sua vontade, para que as minhas orações sejam atendidas? Devemos acrescentar após a petição: seja feito segundo a tua vontade. Jesus mesmo dá a nós a resposta sobre a questão: “Buscai primeiro o seu reino e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas” (Mt. 6,33).

Portanto não nos inquietemos, trabalhemos pelo reino de Deus, e tudo virá como graça.

Vejamos nestas seguintes petições quais são centradas em nós e quais, em Deus, seu reino, sua justiça; quais os gentios procuram, quais se destinam ao nosso conforto pessoal, gasto e deleite. Proteção na viagem, sucesso nos negócios, sede por santificação, os melhores juros do mercado, saúde, oportunidades para confrontar alguém com o Evangelho, entendimento da Palavra de Deus, reconhecimento de pecados, uma boa temporada na praia, um tempo feliz com os visitantes, santificar o nome de Deus, evidenciar a verdade e a justiça, entender a Palavra de Deus, etc. Percebeu as diferenças?

Precisamos nos entregar totalmente à sua vontade, aos seus planos, e tudo o mais será graça. Como nos diz a jaculatória: “Indo e vindo, trevas e luz, tudo é graça, Deus nos conduz.”

www.arquidiocese-pa.org.br

 

REZAR COM INSISTÊNCIA

Jesus nos ensina como devemos rezar, nos recomendando a rezar com insistência. O exemplo do vizinho que bate a porta várias vezes até ser atendido porque o dono da casa não quer ser mais incomodado, é parecido com a criança que puxa a saia da mãe dizendo repetidas vezes: "Compra, mãe! Compra, mãe! Compra! mãe." Até que a mãe se enche e a atende, mesmo sem a intenção de comprar coisa alguma naquela hora. As crianças acabam sendo as maiores consumidoras, por causa da sua capacidade de insistência ao pedir aos pais um novo brinquedo.

Uma criança consegue às vezes que o pai deixa de comprar uma cerveja, ou um quilo de feijão, para comprar o brinquedinho que ela está insistentemente pedindo. Para não ser mais incomodado, aquele pai acaba satisfazendo o desejo de seu filho que não pára de pedir-lhe uma bola nova.

Jesus nos ensina que devemos insistir nos nossos pedidos a Deus, pedindo todo dia repetidas vezes.

A oração eleva o nosso espírito até Deus. Ela é o canal de comunicação de nossa alma com o Pai, através de Jesus. “Tudo o que pedires o Pai em meu nome Ele vos dará” É por isso que a nossa oração quando dirigida ao Pai, deve terminar assim: "Por Jesus Cristo que convosco vive e reina na unidade do Espírito Santo. Amém."

A oração nos conforta e nos faz fortes diante dos contratempos, dificuldades e sofrimentos desta vida. Através da oração nós entramos em contato com Aquele que resume todo o poder e toda força sobre o universo infinito. Aquele que criou tudo, por que para Ele nada é impossível. Mais o problema é que às vezes rezamos apenas com os lábios, principalmente quando pronunciamos fórmulas repetidas, sem pensar no infinito poder de Deus. É preciso rezar com toda a força do nosso ser, muito concentrados naquele com quem estamos falando.

Muitas coisas que pedimos não recebemos por pura culpa nossa. Porque pedimos da boca para fora, em vez de pedir com todo o nosso ser, concentrados e com muita fé.

“Você acredita que eu posso fazer isso? Jesus perguntava aos que lhe pediam alguma graça ou milagre. Se lá no fundo da minha mente pairar uma pequena sombra de dúvida, é o suficiente para que eu não consiga a graça que estou pedindo a Deus em nome de Jesus.

A tua fé te salvou” Jesus disse à hemorroíssa. Antes de tocar em Jesus, aquela mulher fez uma rápida oração, do jeito dela. Se eu conseguir pelos menos tocar a sua roupa, sei que ficarei curada. E Jesus que é Deus , ouviu o seu pedido cheio de fé, e em seguida concede a sua graça, vira para ela e diz. A tua fé te curou. É claro que foi o poder de Jesus que a curou, mais porque ela teve fé.

Sal - homiliadominical.blogspot.com

 

Pedi e recebereis

A oração de Jesus, por sua brevidade e conteúdo, não é uma estilizada forma ritual, mas uma maneira de iniciar a comunicação com Deus-Pai, partindo das coisas cotidianas. Nessa entram a preocupação pelo sustento e a confiança de que Deus o outorgará conforme nosso esforço. É uma oração que se pode fazer em qualquer momento e lugar; não é necessário ir à igreja nem esperar as grandes festividades. É dirigida a um pai misericordioso que nunca se esquece de seus filhos e os ama. Um pai atento a cada uma das pessoas e, por sua vez, pendente de toda a comunidade que o invoca. É uma oração que clama para que o reino de justiça e igualdade se torne efetivo aqui e agora.

Diante desse Pai não há já uma humanidade massiva, mas um povo composto de filhos, cada um com suas particularidades, com seus valores e seus tempos, pessoas débeis e confiantes, seres com sua própria identidade que buscam a Deus. A oração do Pai nosso coloca Deus em primeiro lugar.

O Reino de Deus produz uma grande mudança, e esta tem sua garantia em Deus, que “se santifica” e mostra seu poder, que como “abbá”, Deus para nós. Nas aspirações da comunidade cristã são reconhecidas, por um lado, essa santidade inerente ao “santo nome de Deus” e, por outro, o modo concreto de sua ação na história humana.

É inconcebível que um pai não responda com coisas boas aos pedidos de seus filhos. Tanto mais ao se tratar das coisas de Deus. Os homens são maus; Deus é bom. Se um pai da terra é bom com seu filho que lhe pede, quanto mais o será Deus!

Finalmente, o pai não engana o filho necessitado, não se diverte às suas custas, não comete contra ele um gesto criminoso. Dar uma pedra em lugar de pão é querer enganar; dar uma serpente em lugar de um peixe é brincadeira de mau gosto; dar um escorpião em lugar de um ovo é um crime.

Um pai não abusa da fraqueza de seu filho pequeno, que não sabe distinguir ainda entre uma pedra e um pão, entre um peixe parecido com uma cobra – por exemplo, uma enguia – e uma serpente; entre um escorpião todo enrolado e um ovo. Precisamente porque a criança é pequena e indefesa, o pai lhe prodigaliza todo o cuidado e carinho.

O dom doado pelo Pai a quem lhe pede, é o Espírito Santo. Esse dom, enviado pelo Pai, vem do céu. O Espírito Santo é o presente celestial. Por meio dele, Jesus age.

Converte os discípulos no que devem ser. Cuida de seus pensamentos e ações sob sua própria direção. Por meio dele cumprem eles a vontade de Deus

missionários claretianos - homiliadominical.blogspot.com

 

Jesus nos ensina a rezar

As leituras do XVII domingo do tempo comum convidam-nos a refletir o tema da oração. Ao colocar diante dos nossos olhos os exemplos de Abraão e de Jesus, a Palavra de Deus mostra-nos a importância da oração e ensina-nos a atitude que os crentes devem assumir no seu diálogo com Deus.

A primeira leitura sugere que a verdadeira oração é um diálogo “face a face”, no qual o homem - com humildade, reverência, respeito, mas também com ousadia e confiança - apresenta a Deus as suas inquietações, as suas dúvidas, os seus anseios e tenta perceber os projetos de Deus para o mundo e para os homens.

O Evangelho senta-nos no banco da “escola de oração” de Jesus. Ensina que a oração do crente deve ser um diálogo confiante de uma criança com o seu “papá”. Com Jesus, o crente é convidado a descobrir em Deus “o Pai” e a dialogar frequentemente com Ele acerca desse mundo novo que o Pai/Deus quer oferecer aos homens.

A segunda leitura, sem aludir diretamente ao tema da oração, convida a fazer de Cristo a referência fundamental. Neste contexto de reflexão sobre a oração, podemos dizer que Cristo tem de ser a referência e o modelo do crente que reza: quer na freqüência com que se dirige ao Pai, quer na forma como dialoga com o Pai.

1º leitura: Gênesis 18, 20-32

A “oração” de Abraão é paradigmática da “oração” do crente: é um diálogo com Deus - um diálogo humilde, reverente, respeitoso, mas também cheio de confiança, de ousadia e de esperança. Não é uma repetição de palavras ocas, gravadas e repetidas por um gravador ou um papagaio, mas um diálogo espontâneo e sincero, no qual o crente se expõe e coloca diante de Deus tudo aquilo que lhe enche o coração. A minha oração é este diálogo espontâneo, vivo, confiante com Deus, ou é uma repetição fastidiosa de fórmulas feitas, mastigadas à pressa e sem significado?

A oração essa música de fundo!

Em torno de 57,3% dos espanhóis não rezam ou o fazem ocasionalmente. Em torno de 74,1% dos espanhóis declaram-se católico. Estes são dados tomados do "Retrato social dos espanhóis" da fundação BBVA, realizado recentemente.

No Brasil 73,6% (dados do IBGE no ano de 2000) declaram-se católicos. Na Espanha as instituições menos valorizadas pelos espanhóis são: a Igreja e as multinacionais, segundo a mesma pesquisa. Em pesquisa realizada Datafolha mostrou que as instituições com maior credibilidade no Brasil são: a Igreja católica e a imprensa.

Uma vez mais me sinto interpelado por estes dados estatísticos. Sei que podem ser interpretados de formas muito diferentes; e também obtidos de formas diferentes. Dizem-me alguns colegas que em outras partes as coisas são diferentes.

Em todo caso, pensemos em nós mesmos. Falamos muito de oração, exigimos-nos mais oração. Mas, quantos se aproximam de nossas igrejas nos dizendo como diziam a Jesus "ensina-nos a orar!". Será que nossas rezas não os comovem, não os atraem, não parecem interessantes? Nossas liturgias, às vezes tão bem retransmitidas, convidam a orar? Cria nas pessoas esse desejo de serem ensinados na arte de orar? Que é orar?

Desde nossa precariedade

Somos enormemente necessitados e precários. Quantas coisas gostaríamos que fossem diferentes, e não o são! Envolve-nos a limitação, a impossibilidade. A imperfeição desta criação acossa-nos por todos os lados: sentimos a impressão de que as coisas não vão bem. Como são difíceis as relações entre os seres humanos (no trabalho, nas comunidades, na família, na política, nas comunidades eclesiais...).

Uma cidade é um espaço no qual o sofrimento circula em todas as direções. Não somos maus por pura intencionalidade maligna. O somos para sobreviver, para impor nossa justiça quando a outra não funciona, para reivindicar nossos direitos quando os outros não os defendem, para nos ressarcir daquilo que tanto nos faz sofrer. Por trás de todo pecado há uma história precedente, sem redenção. O mal vai sendo pouco a pouco concebido, e ao final explode.

Que venha teu Reino!

Jesus se deu conta desta situação em que nos encontramos. Por isso, nos ensinou a clamar ao Abbá, com todo nosso ser: "Venha teu Reino!" Não é o reinado de Deus aquele que dia a dia experimentamos; aqui reinam outros senhores. Queremos que seja Deus o único Senhor.

A terra deveria ser a casa "dos filhos e filhas de Deus", o lar da fraternidade e solidariedade. No entanto, estamos dispersos e desunidos. A dor surge por todos os lados. Há tantos seres humanos feridos!

O clamor a Deus para que o mal não nos fira e não se apodere de nós, deveria ser permanente. Jesus pede que nos dirijamos ao nosso Deus como filhos e como amigos. A um filho não se nega nada; tão pouco a um amigo, ainda que seja inoportuno. Tão pouco Deus vai negar a nós, quando é o melhor Pai-Mãe, o melhor e mais fiel amigo.

Devemos ter a consciência de viver na Aliança

O fundamento da melhor oração é a consciência de filiação e amizade. A oração cristã é exercício de aliança amorosa: aliança filial, aliança de amizade, aliança mística.

Nosso Deus não quer que sejamos objetos de seus dons. Nosso Deus deseja nossos desejos. Dignifica nossa condição de pessoas não nos obrigando, mais ativando nossos recursos e poderes.

Deus precisa de nosso "fiat" para seguir criando. Atua desde a relação conosco. Nós podemos obter o melhor de Deus. Assim ocorre sempre numa autêntica aliança de amor, de amizade!

Por isso, é tão admirável a relação entre Abraão e Deus, entre Deus e seus amigos e seus filhos.

Orar é ativar constantemente em nós a relação de aliança com nosso Deus. Quem ora constantemente expressa que está conectado com Aquele que transmite. Deus transmite através de sua Palavra: do livro da Criação e da história, do livro de sua Revelação (a Bíblia sagrada). Deus nos interpela constantemente quando somos sensíveis à sua presença. O silêncio de Deus é Palavra de Deus em todo momento para quem sabe pôr-se em sintonia. Quem está conectado faz que em sua vida esteja sempre essa "música de fundo", esse clima envolvente, esse vento suave que lhe permite viver confiando e sempre conectado.

Se um pai não falha a seus filhos se um amigo não falha a seu amigo, por inoportuno que seja, falhar-nos-á o Deus e Pai que conosco estabeleceu uma Aliança para sempre?

A oração é a respiração do mundo. Orar permanentemente é apoio, é a corda de segurança, que nos livra dos perigos, ou nos faz os abordar de maneira que os superemos.

Não estamos sozinhos. Alguém está aí disposto sempre a ser nosso Aliado fiel, a nos pedir colaboração para que este mundo e tudo o que o constitui, seja diferente. A maior desgraça para uma comunidade humana é que "se divorcie" de seu Deus, que rompa sua Aliança com Deus. Isto se expressa quando já não fala com seu Deus, quando já não tem súplicas, nem nada pelo que interceder. Então essa comunidade humana fica no vai-e-vem de sua solidão e impotência.

Uma Igreja em Aliança com Deus tem confiança, tem sentido do humor, sabe perder batalhas para ganhar a guerra, é compassiva, tem um olhar amplo, confia na ação íntima do Espírito Santo no coração de todos, sabe que Deus tem caminhos que nós não temos. Uma Igreja em Aliança sabe que sua oração é permanente, constante. A casa está iluminada pela Presença em todas as horas. Não é uma casa em escuridão. Quando assim é, que busquem a luz, nela encontrarão a Presença de Deus.

José Cristo Rey Garcia Paredes - homiliadominical.blogspot.com

 

DEUS É PAI DE TODOS!

Pai nosso que estais no céu

O A.T. apresenta muitas vezes, Deus como alguém que mora nas montanhas, nas nuvens, em lugares elevados.

Quando alguém queria chegar perto de Deus, subia à montanha e Deus dava uma descidinha. Assim foi com os patriarcas Moisés e Elias. Este último dá-nos o exemplo mais característico: o profeta cansado pela perseguição, foi à montanha. Queria ouvir a voz de Deus. Soprou um forte furacão, mas Deus não estava nele, nem no terremoto, nem no fogo. Foi na brisa suave que Deus fez ouvir a sua voz (cf. 1Rs. 19,11-12).

No N. T., dizer que Deus-Pai está no céu, é admitir que ele está acima de tudo. Crer no céu é admitir que existiu um antes e um depois; que estamos aqui de passagem, como peregrinos que esperam tornarem-se cidadãos do céu.

O C.I.C. explica que essa expressão bíblica não significa lugar (espaço), mas uma forma de ser. Nosso Pai não está em "outro lugar", Ele está além de tudo quanto possamos conceber sobre sua Santidade, mas está também muito próximo do coração humilde e contrito.

A expressão "que estais nos céus", mostra-nos a transcendência de Deus e sua grandeza. Porém a palavra PaiI, mostra-nos intimidade, proximidade. Transcendência e proximidade são palavras que combinam com Deus-Pai.

Jesus nos ensina que não basta deslumbrar-nos com a transcendência de Deus. Precisamos nos deixar conquistar por sua bondade e proximidade. É preciso sair de nossos corações o reconhecimento de que Deus-Pai é infinito, todo-poderoso, transcendente; mas é nosso Pai e com ele formamos uma única coisa.

Santo Agostinho conclui: "É com razão que estas palavras 'Pai Nosso que estais no céu' provêm do coração dos justos, onde Deus habita como que em seu templo. Por elas, também, o que reza, desejará ver morar em si aquele que ele invoca".

1º pedido - Santificado seja o vosso Nome

Nome: para o povo israelita, indica a pessoa no mais profundo do seu ser. Pronunciar o nome de alguém indica um gesto de afeto. Exemplos:

"Eu te chamei pelo nome" (Is. 43,1) i.é. conheci-te na tua profunda intimidade.

"Em ti confiam os que conhecem teu nome" (Sl. 9,11) i.é aqueles que conhecem tua pessoa, tua bondade, tuas características, se abandonam em ti.

"Eu manifestei o teu nome aos homens que me deste do meio do mundo" (Jo 17,6) i.é Quer dizer que fiz conhecer tua pessoa, teu amor.

Santificado seja o vosso Nome: Deus-Pai é fonte de toda santidade. Merece respeito, veneração, confiança, adoração. Nós é que sentimos a necessidade e o dever de louvá-lo.

Este pedido de Jesus pode ser entendido também como: Pai, purifica o conhecimento que as pessoas têm de ti. O cristão não pode ser um ignorante sobre Deus. Deve saber que Ele é o centro da nossa vida. É Ele que nos convida "Sede santos, porque Eu sou santo" (Lv. 11,44).

Para nós, é no batismo que tudo começa: "fomos lavados, santificados, justificados em nome do Senhor Jesus Cristo e pelo Espírito de nosso Deus" (1Cor. 6,11). Viver santamente é a melhor maneira de agradar a Deus.

2º pedido - Venha a nós o vosso Reino

O Reino: é o projeto do Pai: fazer do mundo uma família de filhos e irmãos, um lugar para todos viverem bem, livres da opressão e em harmonia com a natureza, consigo mesmo e com Deus.

Esse reino não está limitado a um espaço geográfico, nem a um tempo na história. Também não se trata da dominação de Deus, em caráter ditatorial, impondo fraternidade, bondade, misericórdia, justiça, igualdade, paz... Todos conhecem a resposta de Jesus a Pilatos: "Meu reino não é deste mundo" (Jo 18,36).

Venha a nós o vosso Reino: este pedido é muito semelhante com o que lhe segue: seja feita a vossa Vontade.

Significa aceitar o programa das bem-aventuranças, confiar em Deus mais que em nossas forças, afastar-se do comodismo. Também não pode haver compromisso entre Cristo e o mal: "Quem não está comigo está contra mim" (Mt. 12,30).

A.T. - Inicialmente esse Reino foi proposto ao povo de Israel, escolhido para ser o povo de Deus.

N. T. - Jesus Cristo abre a salvação para toda a humanidade. Para que o povo simples pudesse entender, Jesus utilizou parábolas e milagres, através dos quais convidou para a grande festa do Reino.

Mas para entender e entrar no Reino de Deus é necessário:

a) converter-se (Mc. 1,15)

b) nascer de novo (Jo 3, 3-8),

c) Amar a Deus e aos irmãos (Mc. 12, 28-34),

d) entender que o sábado é para o homem e não o homem para o sábado (Mc. 2,27)

e) reconhecer que ninguém pode marginalizar o outro (Mt. 5,45).

Só quando as pessoas perceberem que "o Reino de Deus está próximo" (Mc. 1,15) e que esse Reino "está no meio de nós" (Lc. 17,20-21), é que notarão como é algo grandioso, absoluto e que tudo o mais é passageiro.

3º pedido - Seja feita a vossa Vontade assim na terra como no céu

A Vontade de Deus: o Pai nosso é todo voltado para Deus, a oração pede que prevaleça a vontade de Deus e não a nossa. Mas isso não é simples, visto que freqüentemente a vontade de Deus contraria violentamente nossa própria vontade.

O caminho da adesão à vontade de Deus nunca foi fácil para o homem e por isso, Jesus coloca esse pedido bem no centro da oração e faz da vontade do Pai o centro da sua vida:

"O meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou e realizar a sua obra" (Jo 4, 34)

"Não vim para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou" (Jo 5,30)

"Pai seja feita a tua vontade, não a minha" (Mt. 26,39)

Nem sempre é fácil descobrir o que Deus quer. O melhor caminho é a palavra de Deus. Jesus facilitou mais ainda, unificando tudo na prática do Amor: "O que eu vos mando é isto: amem-se uns aos outros" (Jo 15,17).

A vontade de Deus deve marcar todos os passos do cristão no dia-a-dia. A vontade de sempre agradar a Deus e nunca afastar-se dele deve ser a característica marcante de nossa vida

4º pedido - O pão nosso de cada dia nos dai hoje

Interesse do homem = o sustento

Pão para o dia de hoje: o Pai nosso é oração de abandono. Ensina-nos a experimentar o generoso amor de Deus e a confiar que ele providenciará aquilo de que precisamos.

Pão Nosso

Ao pedir o "nosso" pão e não o "meu", Jesus ensina-nos que devemos ser solidários com as pessoas em suas necessidades e sofrimentos, sejam estes quais forem.

Devemos criar uma nova cultura de solidariedade e cooperação, na qual todos assumam a sua responsabilidade para atingirmos o bem comum

O Pão nosso de cada dia nos dai hoje: Jesus nos adverte que além do pão material, sem o qual ninguém sobrevive, devemos lembrar-nos do pão espiritual: "O homem não vive somente de pão, mas de toda palavra que sai da boca de Deus" (Mt. 4,4).

Devemos lembrar também da eucaristia, alimento supremo: "A eucaristia é o nosso pão quotidiano. A virtude própria deste alimento divino é a força que nos une ao Corpo do Salvador e nos faz seus membros, a fim de que nos transformemos naquilo que recebemos..." (santo Agostinho).

5º pedido - Perdoai as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos têm ofendido

Interesse do homem = libertação do pecado

Perdoa, como nós perdoamos

Jesus coloca uma condição para nos perdoar e é muito claro: é necessário perdoar, custe o que custar. "Não devia também você ter piedade do seu companheiro, como eu tive de você?" (Mt. 18,33)

O perdão é a principal condição para reconciliação, seja com Deus seja entre as pessoas. Da parte de Deus não há limite para o perdão; mas entre as pessoas a coisa é bem mais difícil!

Perdoar sempre

E quantas vezes devemos perdoar? Esta foi a pergunta de Pedro, à qual Jesus respondeu: "Setenta vezes sete", ou seja, sempre!

O ser humano precisa aprender a perdoar e a aceitar o perdão. É necessário perdoar a si mesmo e aos outros.

Para ter equilíbrio, a pessoa precisa do perdão e de perdoar. Perdoar é necessidade básica e condição para se salvar, mas também para ter saúde e alegria. Quem não perdoa vive conservando amarguras no seu coração.

O perdão é a mais profunda manifestação de amor. Quem ama perdoa sem estabelecer limites nem determinar quantidades.

É nesse querer perdoar que mais nos assemelhamos ao Pai.

6º pedido - Não nos deixeis cair em tentação

Interesse do homem = libertação do mal

Tentação e luta

A vida é dada para lutar, e somente na luta o homem mostra sua fé e sua personalidade. Só quando lutamos para amá-lo, sabemos e sentimos que amamos verdadeiramente a Deus.

Jesus rezou "não te peço para tirá-los do mundo, mas para guardá-los do maligno" (Jo 17,15). Jesus se preocupa com os discípulos, pois sabe da grande luta que teriam que enfrentar para vencer as forças do mal e manter-se fieis a Deus e a seu serviço.

O segredo para vencer é a oração. Deus não permite tentação impossível, já que sempre pode ser superada com a sua ajuda. Portanto, "Não nos deixeis cair em tentação" quer dizer que devemos pedir ao Pai que não nos deixe enveredar pelos caminhos do pecado. Devemos pedir também o discernimento que nos ajuda a desmascarar a mentira da tentação.

"Deus é fiel e não permitirá que sejais tentados acima de vossas forças, mas vos dará os meios de sair dela e a força para a suportar" (1Cor. 10,13).

7º pedido - Mas livrai-nos do mal

Interesse do homem = libertação do mal

Vencer o mal pela fé: este último pedido é um prolongamento do anterior. Nele invocamos a força de Deus em nossa defesa.

Paulo, falando aos Efésios, alerta: "Tenham sempre na mão o escudo da fé, e assim poderão apagar as flechas inflamadas do Maligno" (Ef. 6,16)

O Pai nosso, fala no mal, força misteriosa, quase que irresistível e sufocante. Cristo ensinou-nos a não temer, pois ele o venceu para sempre.

O mal existe em todas as pessoas, mesmo que em intensidade diferente. É o preço que pagamos por nossa liberdade mal usada. Mas não é Deus que deseja isso. Ele está ao nosso lado na luta contra o mal da injustiça, das guerras, da exploração...

"Amém" ou "assim seja" Com estas palavras conclui-se a maravilhosa oração do Pai nosso. Termina com o grande "Sim" do homem a Deus-Pai!

Maria Cecilia - homiliadominical.blogspot.com

 

Sodoma e Gomorra são rotuladas até hoje como símbolo do pecado e da infidelidade por terem sido insensíveis aos mandamentos do Senhor. Num relato atraente do livro do Gênesis (Gn. 19), é descrita a destruição total seguida da intervenção “punitiva” de Deus. Só escapa a família de Ló que foge para a pequena cidade vizinha de Segor.

No entanto, em Gn. 18, de onde é tirada a 1º leitura que a liturgia nos oferece hoje, é descrita a intercessão de Abraão ao Senhor e seus anjos: enquanto estes observam a cidade de Sodoma do alto com a firme convicção de levá-la ao extermínio; o grande patriarca, o pai da fé, que antes havia acolhido tão bem seus hóspedes, mostra ao Senhor que naquela cidade poderia haver alguns justos.

Talvez não fosse um número grande com relação à população de Sodoma, talvez fosse uma minoria insignificante na ordem de cinquenta, trinta ou dez pessoas, mas se trataria sempre de pessoas justas que exatamente pela sua conduta contra-corrente à situação de todos os outros, eram obrigadas a viver clandestinamente, no silêncio, por causa da discriminação social e dos insultos; talvez estes pouquíssimos sodomitas não tivessem como fazer-se notar porque foram sufocados pela Sodoma desonesta que, por assim dizer, é aquela “que conta”, mas certamente estes poucos sodomitas perseveraram na retidão e na perfeição moral, e, portanto, agora não merecem ser incluídos no extermínio. E assim, Deus poupa a vida daqueles poucos justos.

Este relato reafirma a realidade da misericórdia de Deus e ao mesmo tempo sublinha a importância da oração como ato de fé para com Deus Pai: a certeza de um Deus amor, disponível ao perdão e à reconciliação; que diante dos obstáculos e consequências negativas do pecado, a oração confiante, simples, livre e espontânea, implica que Deus não deixará de intervir em nosso favor, mesmo se a sua intervenção não for imediata. A oração é o recurso fundamental do nosso viver. Mas ela nunca será eficaz se não nos conscientizarmos da confiança que temos que depositar Naquele que nos escuta.

Depois, rezar não exclui o fato de pedirmos graças e bênçãos por nós e pelos outros porque afinal, esta é uma dimensão importante da oração que nos ajuda a reconhecer o nosso estado de dependência filial da Providência divina; mas como nos indica Jesus na segunda parte da oração do Pai Nosso: devemos pedir somente o essencial para a nossa existência (dá-nos a cada dia o pão de que precisamos), confiando na sua assistência paterna. Essa petição do Pai Nosso mostra que nunca devemos ter uma pretensão mágica pela qual deva resultar como automático que poderíamos obter tudo o que pedimos, até porque antes pedimos para que seja feita a vontade Dele e não a nossa.

Jesus nos encoraja no Evangelho: “Pedi e recebereis; procurai e encontrareis; batei e vos será aberto”, o que mostra a grande bondade do Pai. Entretanto, Tiago esclarece que muitas vezes a nossa oração não encontra resposta porque ilícito é o nosso pedir: “Pedis e não recebeis, porque pedis mal, ou seja, para gastar com os vossos prazeres” (Tg. 4,3), animados por meros egoísmos e proveitos individuais; e uma oração que quer obrigar Deus a cumprir a nossa vontade para fazer só e exclusivamente e na medida que interessa a nós não poderá nunca agradar nem ser acolhida.

Obviamente, toda oração deve ser dirigida diretamente a Deus, e seria absurdo e ridículo não considerar o Senhor como o principal agente de toda graça e de todo favor necessitado. Como também seria absurdo e imotivado o não dirigir-se frequentemente a Ele, que através do Espírito Santo, intervém também na nossa oração.

Entretanto, o episódio de Sodoma e Gomorra nos conscientiza da legitimidade da oração de intercessão, aquela pela qual nós pedimos aos outros que dirijam ao Senhor as nossas intenções de oração: como Moisés intercede pelo povo de Israel quando Deus queria aniquilá-lo em decorrência do pecado de adoração ao bezerro de ouro; como Abraão intercede agora para poupar a cidade de Sodoma por causa dos poucos sodomitas bons, assim também acontece com quem está pronto a interceder a Deus todas as vezes que nos pomos em oração pelo simples motivo de já viver em plenitude na glória divina e gozar da familiaridade benévola do Senhor.

Estamos falando dos Santos, que por ter imitado a Cristo no caminho de perfeição durante a sua vida terrena com o exercício das muitas virtudes e de provadas capacidades de fé e de heroísmo, agora gozam da glória divina. Estes nada tiram da onipotência com a qual Deus mesmo poderia intervir em nosso favor e não desmentem de modo algum que nós possamos ser ouvidos pelo mesmo Senhor nos nossos pedidos de graças; todavia, a mesma misericórdia do Pai torna possível que eles possam ser para nós intercessores junto a Deus.

Acredito que a oração faz parte da caminhada pessoal de cada cristão. Mas até aprendermos o nosso jeito de rezar, enfrentamos muitas coisas como o esforço, a dúvida, as distrações, as angústias, a preguiça, o comodismo etc. Quantos de nós, não estamos insatisfeitos com a nossa vida de oração? Podem surgir várias dúvidas do tipo: ficar pensando se Deus realmente está nos ouvindo enquanto estamos falando com ele ou mesmo chegarmos até o ponto de nos frustrarmos com nossas orações, pensando: será que não rezei direito ou o suficiente? Será que não sei rezar? Será que tenho que me emocionar e chorar na oração para ter certeza de que realmente rezei?

Ouvir pessoas fazendo belas orações espontâneas e elegantes diante da comunidade ou ver outras passarem horas diante do Santíssimo Sacramento ou mesmo orações quase aos gritos como se Deus fosse surdo, podem nos deixar frustrados e nos perguntarmos: será que realmente eu rezo?

Nunca devemos nos angustiar por isso, não temos a obrigação de saber rezar, temos a obrigação de aprender. Ora, até os discípulos de Jesus que já tinham passado tanto tempo com ele, sentiram necessidade de pedir a ele que os ensinasse a rezar: “Senhor, ensina-nos a rezar!” (Lc. 11,1). Jesus os ensinou a rezar, e eu acredito que quando nós pedimos a ele, ele nos ajuda também. Dessa forma, experimentamos uma crescente eficácia, liberdade e encanto em nossa vida de oração. A oração é realmente algo muito simples, algo natural tal como é respirar. E os santos com o seu exemplo de confiança total em Deus, com o seu poder de intercessão podem nos ajudar e muito neste sentido.

Para finalizar, ainda no Evangelho deste domingo, depois de ensinar-nos a oração do Pai Nosso (a versão de Lucas é simplificada), Jesus nos indica como devemos rezar esta oração: com persistência e insistência. Ele cita como exemplo uma pessoa que vai até a casa de seu amigo à meia-noite para pedir pão. Pela história, entendemos que ele foi atendido por sua persistência e insistência ousada. E só podemos fazer isso quando uma relação de amizade é verdadeiramente próxima. Que busquemos, cada um de nós, nos aproximarmos de Deus como a um bom amigo, em quem confiamos e partilhamos a nossa vida.

 padre Carlos Henrique de Jesus Nascimento - www.pecarlos.blogspot.com

 

Pai Nosso

A novidade absoluta que Jesus trouxe à terra dos homens foi um novo relacionamento com Deus. Na oração nos colocamos diante de Deus e aceitamos ser amados por Ele como Pai e amá‑lo como tal nos irmãos. Assim, realizamos a nossa natureza de filhos seus. Deus será sempre nosso Pai porque o Filho fez‑se definitivamente nosso irmão. Portanto, chamar a Deus de Abba é conhecer e proclamar o amor que Jesus, nosso Senhor, tem por nós. Quem ignora a paternidade de Deus, busca tomar‑se pai de si próprio, pretendendo tornar‑se fonte da vida. Desta ignorância, nasce o orgulho, raiz do pecado (Gn. 3,5). "Venha o teu reino. O Reino de Deus não é uma utopia irrealizável. Acontece hoje, no Senhor, e acontece cada vez que entramos, mediante a nossa conversão, no "seu hoje". Ele já está dentro de nós (cf. Lc. 17,21). O Reino de Deus é o que se cumpre em Jerusalém (19,38). Não temos que esperar um outro. Contra todas as falsas esperanças messiânicas nossas e do mundo, o Reino de Deus permanecerá sempre sob o signo da cruz, na pobreza, na humilhação e humildade de um amor que doa tudo, inclusive a si mesmo. Este amor é "Reino de Deus , porque só um amor assim pode, de fato, reger o mundo, isto é, dar‑lhe pleno sustento.

O único pecado imperdoável é não perdoar e não se achar necessitado de ser perdoado. A cegueira de quem se considera justo (Jo 9,41) e não conhece o perdão a ser dado e a ser recebido é o pecado contra o Espírito Santo. "Não nos deixeis cair em tentação." Tentação na Bíblia quer dizer prova. O que se pede a Deus não é ser preservado da prova, mas não cair, não sucumbir à prova. Com efeito, o perigo é este: ceder, desistir, apostatar por desânimo e medo da provação. A tentação (prova) faz parte do caminho. Só não é tentado pelo mal quem não optou pelo bem. É por isso que o Senhor nos adverte: "Se alguém quiser vir após mim, renegue a si mesmo, tome a sua cruz cada dia e siga‑me" (Lc. 9,23). E dizem ainda os Atos dos Apóstolos: "É necessário passar por muitas tribulações para entrar no Reino de Deus" (At. 14,22) e o Eclesiástico acrescenta: "Filho, se te dedicares a servir o Senhor, prepara‑te para a tentação" (Eclo. 2,1). Como que um comentário do Pai nosso, Lucas acrescenta aqui uma parábola (vv. 5‑8) e uma insistente exortação e oração acompanhada da promessa de ser atendido (vv. 9‑12), que juntas formam uma catequese sobre a maneira de rezar culminando com essas palavras: "Ora, se vós, que sois maus, sabeis dar coisas boas a vossos filhos, quanto mais o Pai do céu dará o Espírito Santo aos que lhe pedirem!" (v. 13). Para o evangelista Lucas, portanto, a coisa boa, por excelência, é o dom do Espírito Santo: "O Pai dará o Espírito Santo àqueles que lhe pedirem". Estas últimas palavras lançam uma nova luz sobre a oração. Não se trata de pão material, nem do pão servido no banquete celeste, mas da situação presente dos fiéis e da Igreja. Isto é, o pão que o cristão deve pedir constantemente a Deus é o seu Espírito Santo, pois é ele que nos dá força para sermos fiéis a Deus, para perdoarmos aos irmãos e vencermos toda tentação.

frei Aloísio de Oliveira, OFM Conv. - www.paroquiasaosebastiao.com.br

 

 

Este Evangelho ressalta que Jesus está num determinado lugar, rezando. Aliás, em diversas passagens bíblicas encontramos Jesus orando. Seja no deserto, na montanha ou na sinagoga, Jesus sempre destinou alguns minutos, horas, e até mesmo dias para a oração.

O fato de Jesus sempre se colocar em oração, despertou em seus discípulos o desejo de aprender a orar. Isso demonstra, mais uma vez, a importância do exemplo. O verdadeiro catequista, aquele que realmente deseja evangelizar, não se limita somente a dizer palavras, ele vive a Palavra. Não basta ensinar, tem que viver o evangelho.

Costumamos dizer, e é verdade, que somos fracos, sujeitos a acidentes pessoais, problemas financeiros, de saúde, desemprego ...e por isso, precisamos da oração. Realmente, a oração deve estar permanentemente em nossas vidas, ela traz segurança, ajuda a superar os obstáculos e os problemas do dia-a-dia.

E Jesus? O próprio Deus, com poderes divinos, capaz de multiplicar alimentos para alimentar milhares de pessoas; capaz de devolver a visão aos cegos, de restituir a saúde e até mesmo a vida, por que então rezava? O que lhe faltava, que riscos poderia ele correr, e o que precisaria Jesus pedir?

Nada é a resposta! Nada material! Para Jesus, a oração é como uma conversa amiga entre um pai e um filho que se amam. Jesus não repetia frases feitas, não rezava com a boca, mas sim com o coração. Suas orações não se limitavam a pedir bens, emprego ou coisas pessoais. Por isso seus discípulos lhe pediram para ensiná-los a rezar.

Suas orações eram súplicas pelo bem do próximo. Jesus não pedia nada para si, além de forças para superar os obstáculos que poderiam impedir sua caminhada para o calvário, pois sabia que a salvação da humanidade dependia de seu sacrifício de cruz. Sabia agradecer, queria entender os Planos do Pai e dizia com convicção, "seja feita a vossa vontade".

A oração que Jesus nos ensinou é um documento Sagrado, um testamento que nos garante um lugar no Paraíso. Jesus não ensinou somente uma oração, ensinou sim que Deus é nosso Pai, que seu nome é Santo e que, como herdeiros, como verdadeiros filhos de Deus, todos podemos fazer parte de seu Reino.

O lugar está garantido, a Glória eterna é uma realidade, mas só para quem, verdadeiramente arrependido, pedir perdão e souber perdoar. "Perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos aqueles que nos ofenderam". É isso que dizemos na oração do Pai Nosso, é assim que devemos agir.

Deus Pai não aceita divisões, por isso em outra passagem Jesus nos alerta dizendo: "Vai primeiro fazer as pazes com seu irmão e depois apresente a sua oferta no altar" (Mt. 5,23-24). Essas Palavras provam que nenhuma oferta tem mais valor para Deus do que o perdão e a paz entre seus filhos.

Jesus conclui seu ensinamento dizendo que devemos pedir ao Pai que não nos deixe cair em tentações. No entanto, para não ser engolido pelas tentações, é preciso manter-se afastado delas. A distância é o melhor repelente para as tentações, quanto mais longe, melhor.

Nosso Deus é liberdade, por isso nunca irá se colocar entre nós e o pecado. Nunca irá barrar nossas ações, pois já fez a sua parte: permitiu ser chamado de Pai, deu exemplos de conduta, ensinou-nos a rezar e deixou-nos livres para viver ou não, todas as palavras de sua bela oração.

Jorge Lorente - www.miliciadaimaculada.org.br

 

Era costume da época, os mestres ensinarem seus seguidores a rezar, como uma forma de transmitir a eles a essência de suas mensagens. Os discípulos observavam Jesus falar com Deus, em oração com tanta intimidade, que despertava neles a vontade de aprender a falar com Deus da mesma forma e, por isso, pedem que Ele os ensine. Jesus então lhes mostra uma forma muito íntima de falar com Deus, e como deseja que todos os cristãos se relacionem com Ele, e lhes ensina a mais bela e completa oração que conhecemos, chamando Deus de “Pai”.

O texto do Evangelho de hoje pode ser dividido em três partes distintas que se complementam: a oração, a persistência e a confiança.

Jesus ensina a rezar a oração com intimidade de filho, chamando Deus de Pai. Ele faz cinco pedidos: “Santificado seja o teu nome”, desejando que todos reconheçam a santidade de Deus; “Venha o teu Reino“, como desejo do verdadeiro cristão que o Reino, repleto de amor, justiça e paz, faça parte de sua vida; “Dá-nos cada dia o alimento que precisamos”, que nos seja dado o necessário para o sustento, sem acumular para o dia seguinte, assim como o maná no deserto que caía todos os dias alimentando o povo de Deus; “Perdoa as nossas ofensas, pois também nós perdoamos todos os que nos ofenderam”, como um pedido a Deus de perdão futuro, que depende de nossa ação de perdoar primeiro o próximo; “Não nos deixes cair em tentação”, que Deus não permita a seus filhos desviar de Seu projeto.

Logo após a oração, Jesus através de uma parábola, dá orientações valiosas aos discípulos, para que persistam na oração, pois o Pai os atenderá assim como o vizinho que de tanta insistência acabará por se levantar e ceder o pão ao outro. E confiem que podem pedir, pois Deus está sempre pronto a atender seus filhos. Cabe a cada um pedir e acreditar com fé de que será atendido, pois até mesmo um homem mau não recusa o pedido de um filho, quanto mais o Pai que está no céu.

Muitos cristãos não pedem a Deus coisas corriqueiras, por acharem que Deus é ocupado demais para ouvir um simples apelo do dia-a-dia, e fazem apenas orações de agradecimento e contemplação, mas Jesus ensina com o Pai-Nosso, que o Pai está sempre pronto a ouvir, a saciar seus filhos com o pão de cada dia, e que Ele espera o pedido com confiança e persistência.

Essa parábola põe toda ênfase na certeza de sermos ouvidos. O Pai nos dá a cada dia o pão que precisamos, mas nós temos que importunar os amigos para conseguir emprestado. Deus não age assim conosco, nem considera importuno os pedidos que nascem das necessidades dos seus filhos. Os amigos de Deus sempre rezaram na certeza de serem atendidos. Abrahão e Moisés são exemplos de pessoas que rezaram com confiança, humildade e ousadia na certeza de serem ouvidos por Deus.

Deus não quer a morte do injusto, mas que ele se converta e viva. O Pai-nosso, a única oração que Jesus nos ensinou, é o melhor exemplo de oração, de intimidade com Deus, de comunhão com o Seu projeto de vida que é o Reino, e o compromisso que leva à novas relações de partilha e de perdão, e a superação das “tentações” da sociedade estabelecida, na certeza de sermos atendidos em nossas necessidades.

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“Deus habita em seu templo santo, reúne seus filhos em sua casa; é ele que dá força e poder a seu povo”

(cf. Sl. 67,6s.36)

Este domingo é voltado totalmente para o modo e o jeito de rezar de Nosso Senhor Jesus Cristo.  Assim nosso relacionamento espiritual para com a Santíssima Trindade é evidenciada nesta liturgia, quando pediremos e receberemos do Senhor da Vida e da História. Aquele que sustenta todo ser deve, também, sustentar a nossa vida cotidiana. Jesus nos ensinou a pedir e a suplicar, até com insistência. Fala de uma viúva que pede, pede até cansar o juiz; de um vizinho que bate, à noite, até que o dono se levanta para se ver livre dele, conforme nos ensina o Evangelho. Faz pensar em Abraão, que, ao rezar por Sodoma e Gomorra, conforme a primeira Leitura, se lê a lição de Deus: “Não podes perder os justos com os injustos, é uma questão de honra!” E Deus atende: “Cada vez que te invoquei, me deste ouvido”, reza o salmo responsorial, salmo 138.

A primeira leitura (cf. Gn. 18,20-32) nos apresenta a oração de Abraão por Sodoma e Gomorra. O pecado de Sodoma e Gomorra clama ao céu, mas Deus não pode julgar conforme os muitos injustos, porém, deve poupar a cidade por causa de poucos justos: é o que lhe pede Abraão. É uma questão de honra para Deus. O Juiz do mundo (Gn. 18,25) é também amigo, o Pai (cf. Lc. 11,8). Se poucos justos lhe são suficientes(embora não os houvesse em Sodoma) para salvar muitos, a vida de um justo, seu Filho, salvará a todos.

A segunda leitura (cf. Cl. 2,12-14) nos ensina que as nossas dívidas são saldadas por Cristo. O sacramento, que é sinal da pertença de Deus, do Antigo Testamento era a circuncisão. Jesus se lhe submeteu, como a toda a Lei, mas assumiu toda a condição humana e a sepultou consigo na sua morte, para criar o Homem Novo na ressurreição. O que acontece a Cristo, acontece para nós: no batismo somos corressuscitados com Cristo. Com ele somos agora livres.

Jesus hoje nos ensina que o amor ao próximo e o amor a Deus vivem-se em comunidade orante. Três pilastras do cristão, que nunca sabemos se acabam sendo uma só ou se é possível distingui-las: a oração, a escuta da Palavra e a ação missionária. Elas são simultâneas e se exigem.

Não há santo que não tenha sido pessoa de oração. Tanto o cristão individualmente quanto à comunidade são, por definição, orantes. Quando Paulo escrevia aos tessalonicenses: “Orai sem interrupção” (cf. 1Ts. 5,17), ou aos romanos: “Sede perseverantes na oração” (cf. Rm. 12,12), estava falando do estado e vida normal dos cristãos.

Jesus nos ensinou a orar, a começar pelos seus apóstolos que com ele aprenderam a rezar. Embora tenha ensinado no Evangelho de hoje uma fórmula, não está na fórmula a oração. Porque a oração é uma atitude do ser humano em conversa com Deus. O próprio Jesus recordou-nos que a oração não está nas palavras: “Nas orações não faleis muitas palavras como os pagãos. Eles pensam que serão ouvidos por causa das muitas palavras. Não o imiteis” (cf. Mt. 6,7-8).

Todos nós aprendemos hoje um tratado sobre a vida de oração. Temos que pedir, com que palavras devemos pedir e fala-nos da força da oração e da confiança com que devemos rezar. A lição é dada pelo próprio Jesus num momento em que ele mesmo estava rezando. A oração verdadeira é coisa tão íntima e pessoal que ninguém consegue penetrar na oração de um santo, mesmo quando tenha deixado fórmulas escritas. Como Jesus, os santos deixam a certeza de que a oração é essencial, mostram-nos alguns princípios e modelos, fornecem-nos textos. Mas tudo isso é muito pouco, se não fizermos a experiência pessoal de nossa oração, se não juntarmos nossa inteligência e vontade, nosso sentimento, nosso ser inteiro e com ele dialogarmos com Deus, na humildade de criaturas e na confiança de filhos.

A oração requer a escuta da Palavra de Deus. Muitas vezes escutamos as nossas próprias necessidades, ideologias e vaidades e esquecemos de nosso contacto com Deus mesmo. Oração que vem junto da misericórdia, que rezamos há dois domingos.

Jesus rezou em lugares públicos e no deserto. Jesus e o Pai. Jesus na sua intimidade da oração, quando reza pelos Apóstolos, por Pedro, por aqueles que o perseguem. Hoje vemos Jesus como homem de intimidade profunda na oração, como o mestre que oferece a comunidade um verdadeiro catecismo sobre a oração. E é Lucas o evangelista que recolhe uma série de textos usados pelas primeiras comunidades cristas, como o Magnificat, o cântico de Zacarias, o cântico de Simeão, o canto dos anjos, o hino de Jesus de louvor ao Pai e o Pai Nosso.

Jesus nos pede uma oração constante. A nossa oração deve ser insistente, perseverante e contínua. O Pai nosso nos é dito o que devemos pedir. A parábola nos ensina como devemos pedir. Cada um dos verbos empregados tem seu sentido. O verbo pedir, por exemplo, pressupõe o reconhecimento de que somos pobres e necessitados. O verbo procurar marca uma dos temas que volta na Escritura todas as vezes que a criatura se coloca diante de Deus e do destino eterno que a espera. Poderíamos dizer que somos um ser à procura. Jesus sabe disso e diz que a procura não é vã para os que crêem. No fim da procura encontramos quem e o que procuramos: a divindade perdida, a participação nas coisas divinas, a convivência eterna com Deus numa só família.

 “Ninguém salva a ninguém. Será? Ninguém é salvo se não quer. Mas, em Cristo, existe uma comunhão de vida entre aqueles que buscam a fonte da vida, que é Deus. Esta comunhão de vida faz com que Cristo nos redima” (cf. Cl. 2,12-14). Desde que participemos da vida que ele viveu podemos dizer que a santidade de Cristo salda nossas dívidas e que sua morte por amor supre nossa falta de amor. Como nós mesmos perdoamos alguém a pedido de uma pessoa amigo, assim nossa comunhão com Cristo vale para nos restabelecer na amizade de Deus. E também nossa oração de intervenção junto a Deus será eficaz.

Uma coisa é certa. Se pedirmos com confiança o dom do Espírito Santo, ele nos será concedido. E se possuirmos o Espírito do Senhor e o seu santo modo de agir, temos tudo. Ele nos há de ajudar a acolher todas as coisas e acontecimentos das mãos de Deus. Ele nos faz possuir Cristo. E isto nos basta. Temos a própria Salvação.

padre Wagner Augusto Portugal - www.catequisar.com.br

 

A vida cristã acontece nos relacionamentos familiares, profissionais e de vizinhança. Um vizinho pede ajuda, um se preocupa com o outro, procuramos fazer coisas boas para os nossos familiares e os nossos amigos. Quando alguém se interessa por nós, nós nos sentimos valorizados e felizes. Assim também é Deus conosco, e muito melhor porque Ele não deixa de atender aos nossos pedidos. Ele não nos dá coisas, Ele nos dá o Espírito Santo.

Ora, o Espírito Santo em nós é a presença ativa do amor dinâmico e construtivo. O Espírito, que é Amor, nos torna criativos e inventivos. Quando se ama realmente, procura-se o melhor para a pessoa amada. Assim, no relacionamento renovado, próprio do cristão, estamos sempre criando algo novo para que os outros estejam bem. Estamos o tempo todo procurando uma Boa Notícia que alegre o coração do nosso próximo.

Nossa fé não pode ser expressa apenas em fórmulas fixas e repetitivas. O Espírito Santo presente em nós aciona a nossa criatividade e a orienta para o bem dos nossos irmãos. O amor foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo, que nos foi dado, nos leva a uma vida dinâmica, sempre atenta ao que pode se tornar boa notícia para os outros. Podem ser gestos pequenos, podem ser grandes ações, o importante é estarmos sempre criando situações que favoreçam a alegria e a felicidade de todos. Isto se chama ser prestativo. Nas bodas de Caná, Maria, cheia do Espírito Santo, estava atenta às necessidades dos noivos e procurou ajudá-los quando faltou o vinho.

A mediação e a intercessão fazem parte da nossa solidariedade fraterna. Mediar situações difíceis, interceder para que haja perdão, como fez nosso pai Abraão em favor dos habitantes de Sodoma e Gomorra. Às vezes, é preciso ser insistente, como na oração, segundo o ensinamento do próprio Jesus, tanto em relação a Deus como em relação aos outros.

Se temos algum problema que não sabemos como resolver, podemos insistir junto de Deus, por intermédio de seus santos, nossos intercessores, para que nossa causa seja atendida. A oração com fé remove montanhas e consegue milagres. Deus, porém, nos dá de antemão o Espírito Santo, a fim de que procuremos para os problemas as soluções humanas ao nosso alcance. O início de todo o nosso esforço vem da graça de Deus, mas podemos pedir ajuda se o nosso esforço não for suficiente. Não peça, porém, sem antes ter feito a sua parte, porque você já recebeu o Espírito Santo.

Podemos dizer o mesmo em relação aos outros, sobretudo quando se trata de ajudar alguém. Podemos ser mediadores insistentes que procuram aproximar corações distanciados, obter perdão, abrir caminhos novos. Quem é solidário não mede esforços para ajudar os outros e, se ama, não se cansa.

Da mesma forma podemos ser ativos nas conquistas sociais que beneficiam, sobretudo os mais fracos, sem nos esquecer de que eles também devem viver a justiça. A obtenção de direitos sociais por meios lícitos e justos é uma causa a ser abraçada. É bom, porém, pedir também a Deus para não cairmos em tentação. A tentação está sempre às portas, e pode minar a autenticidade da causa defendida. A maldade instituída também tem seus defensores

cônego Celso Pedro Silva - www.fc.org.br

 

O tema fundamental que a liturgia nos convida a refletir, neste domingo, é o tema da oração. Ao colocar diante dos nossos olhos os exemplos de Abraão e de Jesus, a Palavra de Deus mostra-nos a importância da oração e ensina-nos a atitude que os crentes devem assumir no seu diálogo com Deus.

A primeira leitura sugere que a verdadeira oração é um diálogo “face a face”, no qual o homem – com humildade, reverência, respeito, mas também com ousadia e confiança – apresenta a Deus as suas inquietações, as suas dúvidas, os seus anseios e tenta perceber os projetos de Deus para o mundo e para os homens.

O Evangelho senta-nos no banco da “escola de oração” de Jesus. Ensina que a oração do crente deve ser um diálogo confiante de uma criança com o seu “papá”. Com Jesus, o crente é convidado a descobrir em Deus “o Pai” e a dialogar frequentemente com Ele acerca desse mundo novo que o Pai/Deus quer oferecer aos homens.

A segunda leitura, sem aludir diretamente ao tema da oração, convida a fazer de Cristo a referência fundamental (neste contexto de reflexão sobre a oração, podemos dizer que Cristo tem de ser a referência e o modelo do crente que reza: quer na freqüência com que se dirige ao Pai, quer na forma como dialoga com o Pai).

1º leitura – Gn. 18,20-32 - AMBIENTE

Este texto do livro do Gênesis vem na seqüência da primeira leitura do passado domingo. Depois de terem deixado a tenda de Abraão, os três personagens dirigiram-se para a cidade de Sodoma, a fim de constatar “in loco” o pecado dos habitantes da cidade. Abraão acompanhou os seus visitantes divinos durante algum tempo. O autor jahwista situa num lugar alto, a Este de Hebron – de onde se avista Sodoma (cf. Gn. 19,27) – esse diálogo entre Abraão e Deus que o texto nos apresenta.

Sodoma era uma cidade antiga, que se supõe ter existido nas margens do mar Morto, ao sul da península de El-Lisan. De acordo com as lendas, foi uma das cidades destruídas (as outras teriam sido Gomorra, Adama, Seboim e Segor) por um cataclismo que ficou na memória do povo bíblico. Alguns estudiosos modernos têm procurado uma explicação para a lenda na geologia da área: a região fica situada na falha do vale do Jordão, numa zona sujeita a terremotos e a atividades vulcânicas. Depósitos de betume e de petróleo têm sido descobertos nesta região; e alguns escritores antigos atestam a presença de gases que, uma vez inflamados, poderiam causar uma terrível destruição, do tipo relatado em Gn. 19. Terá sido isso que aconteceu nessa zona?

É, provavelmente, essa recordação de um antigo cataclismo que, em tempos imemoriais, destruiu a área, que originou a reflexão que esta leitura nos apresenta. Poder-se-ia pensar que um acontecimento pré-histórico muito remoto, cujos traços enigmáticos eram ainda visíveis no tempo de Abraão (como o são ainda hoje), tenha excitado a fantasia religiosa, no sentido de procurar as causas de uma tão terrível catástrofe.

O diálogo que a primeira leitura de hoje nos propõe é um texto de transição que serve para ligar a lenda de Mambré com as lendas que relatam a destruição de Sodoma e das cidades vizinhas. Os autores jahwistas aproveitaram o ensejo para propor uma catequese sobre o peso que o justo e o pecador têm diante de Deus.

MENSAGEM

Deus prepara-se para iniciar a “investigação”, a fim de constatar da culpabilidade ou da não culpabilidade de Sodoma. É precisamente aí que o autor jahwista resolve inserir essa pergunta fundamental que o inquieta: que acontecerá se essa “investigação” revelar a existência na cidade de um pequeno grupo de justos? Deus vai castigar toda a comunidade? Será que um punhado de justos vale tanto que, por amor deles, Deus esteja disposto a perdoar o castigo a uma multidão de culpados?

A idéia de que um punhado de “justos” possa salvar a cidade pecadora é, em pleno séc. X a.C. (a época do jahwista), uma idéia revolucionária. Para a mentalidade religiosa dos israelitas desta altura, todos os membros de uma comunidade (família, cidade, nação) eram solidários no bem e no mal; se alguém falhasse, o castigo devia, invariavelmente, derramar-se sobre o grupo. No entanto, os catequistas jahwistas atrevem-se a sugerir que talvez a “justiça” de uns tantos seja, para Deus, mais importante do que o pecado da maioria. Apesar de tudo, ainda estamos longe da perspectiva da retribuição e da responsabilidade individuais: essas idéias só serão consagradas pela catequese de Israel a partir do séc. VI a.C. (época do exílio na Babilônia).

O problema que Abraão procura resolver é, portanto, se aos olhos de Deus um grupo de “justos” tem tal peso que, por amor deles, Deus esteja disposto a suspender o castigo que pesa sobre toda a coletividade. Os números sucessivamente avançados por Abraão (em forma descendente, de 50 até 10) fazem parte do folclore do “regateio” oriental; mas servem, também, para pôr em relevo a misericórdia e a “justiça de Deus”: a descida até aos dez “justos” e as sucessivas manifestações da vontade de Deus em suspender o castigo mostram que, n’Ele, a misericórdia é maior do que vontade de castigar, que a vontade de salvar é infinitamente maior do que a vontade de perder.

Definida a questão fundamental que o jahwista quer abordar, detenhamo-nos agora um pouco na forma como se desenrola a “conversa” entre Abraão e Deus. É um diálogo “face a face” no qual Abraão se apresenta com humildade, com respeito, pois sente-se “pó e cinza” diante da onipotência de Deus. No entanto, à medida que o diálogo avança e que Abraão se confronta com a benevolência de Deus, vai surgindo a confiança. Abraão chega a ser importuno na sua insistência e ousado no seu regateio. Recordando a Deus os seus compromissos, ele aparece como o “intercessor”, que consegue da misericórdia de Deus que um número insignificante de justos tenha mais peso do que um número muito elevado de culpados.

É possível dialogar com Deus desta forma familiar, confiante, insistente, ousada? Certamente, pois o Deus de Abraão é esse Deus que veio ao encontro do homem, que entrou na sua tenda, que Se sentou à sua mesa, que estabeleceu com ele comunhão, que realizou os sonhos desse homem que O acolheu, que aceitou partilhar com Ele os seus projetos. Um Deus que Se revela dessa forma é um Deus com quem o homem pode dialogar, com amor e sem temor.

ATUALIZAÇÃO

• O diálogo entre Abraão e Deus a propósito de Sodoma confirma esse Deus da comunhão, que vem ao encontro do homem, que entra na sua casa, que Se senta à mesa com ele, que escuta os seus anseios e que lhes dá resposta; e mostra, além disso, um Deus cheio de bondade e de misericórdia, cuja vontade de salvar é infinitamente maior do que a vontade de condenar. É esse Deus “próximo”, cheio de amor, que quer vir ao nosso encontro e partilhar a nossa vida que temos de encontrar: só será possível rezar, se antes tivermos descoberto este “rosto” de Deus.

• A “oração” de Abraão é paradigmática da “oração” do crente: é um diálogo com Deus – um diálogo humilde, reverente, respeitoso, mas também cheio de confiança, de ousadia e de esperança. Não é uma repetição de palavras ocas, gravadas e repetidas por um gravador ou um papagaio, mas um diálogo espontâneo e sincero, no qual o crente se expõe e coloca diante de Deus tudo aquilo que lhe enche o coração. A minha oração é este diálogo espontâneo, vivo, confiante com Deus, ou é uma repetição fastidiosa de fórmulas feitas, mastigadas à pressa e sem significado?

2º leitura – Cl. 2,12-14 – AMBIENTE

Pela terceira semana consecutiva, temos como segunda leitura um trecho dessa carta aos Colossenses em que Paulo defende a absoluta suficiência de Cristo para a salvação do homem.

O texto que hoje nos é proposto integra uma perícope em que Paulo polemiza contra os “falsos doutores” que confundiam os cristãos de Colossos com exigências acerca de anjos, de ritos e de práticas ascéticas (cf. Cl. 2,4-3,4). Depois de exortar os colossenses à firmeza na fé frente aos erros dos “falsos doutores” (cf. Cl. 2,4-8), Paulo afirma que Cristo basta, pois é n’Ele que reside a plenitude da divindade; Ele é a cabeça de todo o principado e potestade e foi Ele que nos redimiu com a sua morte (cf. Cl. 2,9-15).

MENSAGEM

A questão fundamental é, neste texto breve, a afirmação da supremacia de Cristo e da sua suficiência na salvação do crente. Pelo batismo, o crente aderiu a Cristo e identificou-se com Cristo; a vida de Cristo passou a circular nele: por isso, o crente – revivificado por Cristo – morreu para o pecado e nasceu para a vida nova do Homem Novo. Em Cristo encontramos, portanto, a vida em plenitude, sem que seja necessário recorrer a mais nada (poderes angélicos, ritos, práticas) para ter acesso à salvação.

Para representar, de forma mais explícita, o que significa este “morrer” e “ressuscitar”, Paulo refere-se a um “documento de dívida” que a morte de Cristo teria “anulado”. Este “documento” em que se reconhece a nossa dívida para com Deus pode designar aqui, quer a Lei de Moisés (com as suas leis, exigências, prescrições, impossíveis de cumprir na totalidade e constituindo, portanto, um documento de acusação contra as falhas dos homens), quer o “registro” onde, de acordo com as tradições judaicas da época, Deus inscreve as contas da humanidade (cf. Sl. 139,16). De uma forma ou de outra, não interessa acentuar demasiado esta imagem do “documento de dívida”: ela é, apenas, uma linguagem, utilizada para significar que Cristo anulou os nossos débitos (no sentido em que o nosso egoísmo e o nosso pecado morreram, no instante em que Ele nos libertou); e, através de Cristo, começou para nós uma vida nova, liberta de tudo o que nos oprime, nos escraviza, nos rouba a felicidade, nos impede o acesso à vida plena.

ATUALIZAÇÃO

• Mais uma vez, a Palavra de Deus afirma a absoluta centralidade de Cristo na nossa experiência cristã. É por Ele – e apenas por Ele – que o nosso pecado e o nosso egoísmo são saneados e que temos acesso à salvação – quer dizer, à vida nova do Homem Novo. É nisto que reside o fundamental da nossa fé e é à volta de Cristo (da sua vida feita doação, entrega, amor até à morte) que se deve centralizar a nossa existência de cristãos. Ao denunciar a atitude dos Colossenses (mais preocupados com os poderes dos anjos e com certas práticas e ritos do que com Cristo), Paulo adverte-nos para não nos deixarmos afastar do essencial por aspectos secundários. O critério fundamental, no que diz respeito à vivência da nossa fé, deve ser este: tudo o que contribui para nos levar até Cristo é bom; tudo o que nos distrai de Cristo é dispensável.

• É necessário ter consciência de que o batismo, identificando-nos com Jesus, constitui um ponto de partida para uma vida vivida ao jeito de Jesus, na doação, no serviço, na entrega da vida por amor. É este “caminho” que temos vindo a percorrer? A minha vida caminha, decisivamente, em direção ao Homem Novo, ou mantém-me fossilizado no homem velho do egoísmo, do orgulho e do pecado?

Evangelho – Lc. 11,1-13 – AMBIENTE

Continuamos, ainda, nesse “caminho de Jerusalém” – quer dizer, a percorrer esse caminho espiritual que prepara os discípulos para se assumirem, plenamente, como testemunhas do Reino. A catequese que, neste contexto, Jesus apresenta aos discípulos é, hoje, sobre a forma de dialogar com Deus.

Lucas é o evangelista da oração de Jesus. Ele refere a oração de Jesus no batismo (cf. Lc. 3,21), antes da eleição dos Doze (cf. Lc. 6,12), antes do primeiro anúncio da paixão (cf. Lc. 9,18), no contexto da transfiguração (cf. Lc. 9,28-29), após o regresso dos discípulos da missão (cf. Lc. 10,21), na última ceia (cf. Lc. 22,32), no Getsêmani (cf. Lc. 22,40-46), na cruz (cf. Lc. 23,34.46). Em geral, a oração é o espaço de encontro de Jesus com o Pai, o momento do discernimento do projeto do Pai.

O texto que hoje nos é proposto apresenta-nos Jesus a orar ao Pai e a ensinar aos discípulos como orar ao Pai. Não se trata tanto de ensinar uma fórmula fixa, que os discípulos devem repetir de memória, mas mais de propor um “modelo”. De resto, o “Pai nosso” conservado por Lucas é um tanto diferente do “Pai nosso” conservado por Mateus (cf. Mt. 6,9-13) – o que pode explicar-se por tradições litúrgicas distintas. A versão de Mateus condiz com um meio judeu-cristão, enquanto que a de Lucas – mais breve e com menos embelezamentos litúrgicos – está mais próxima (provavelmente) da oração original. Nenhuma destas versões pretende, na realidade, reproduzir literalmente as palavras de Jesus, mas mostrar às comunidades cristãs qual a atitude que se deve assumir no diálogo com Deus.

MENSAGEM

Como é que os discípulos devem, então, rezar? Lucas refere-se a dois aspectos que devem ser considerados no diálogo com Deus. O primeiro diz respeito à “forma”: deve ser um diálogo de um filho com o Pai; o segundo diz respeito ao “assunto”: o diálogo incidirá na realização do plano do Pai, no advento do mundo novo.

Tratar Deus como “Pai” não é novidade nenhuma. No Antigo Testamento, Deus é “como um pai” que manifesta amor e solicitude pelo seu Povo (cf. Os. 11,1-9). No entanto, na boca de Jesus, a palavra “Pai” referida a Deus não é usada em sentido simbólico, mas em sentido real: para Jesus, Deus não é “como um pai”, mas é “o Pai”.

A própria linguagem com que Jesus se dirige a Deus mostra isto: a expressão “Pai” usada por Jesus traduz o original aramaico “abba” (cf. Mc. 14,36), tomada da maneira comum e familiar como as crianças chamavam o seu “papá”. Ao referir-se a Deus desta forma, Jesus manifesta a intimidade, o amor, a comunhão de vida, que o ligam a Deus.

No entanto, o aspecto mais surpreendente reside no fato de Jesus ter aconselhado os seus discípulos a tratarem a Deus da mesma forma, admitindo-os à comunhão que existe entre Ele e Deus. Porque é que os discípulos podem chamar “Pai” a Deus? Porque, ao identificarem-se com Jesus e ao acolherem as propostas de Jesus, eles estabelecem uma relação íntima com Deus (a mesma relação de comunhão, de intimidade, de familiaridade que unem Jesus e o Pai). Tornam-se, portanto, “filhos de Deus”.

Sentir-se “filho” desse Deus que é “Pai” significa outra coisa: implica reconhecer a fraternidade que nos liga a uma imensa família de irmãos. Dizer a Deus “Pai” implica sair do individualismo que aliena, superar as divisões e destruir as barreiras que impedem de amar e de ser solidários com os irmãos, filhos do mesmo “Pai”.

Desta forma, Cristo convida os discípulos a assumirem, na sua relação e no seu diálogo com Deus, a mesma atitude de Jesus: a atitude de uma criança que, com simplicidade, se entrega confiadamente nas mãos do pai, acolhe naturalmente a sua ternura e o seu amor e aceita a proposta de intimidade e de comunhão que essa relação pai/filho implica; convida, também, os discípulos a assumirem-se como irmãos e a formarem uma verdadeira família, unida à volta do amor e do cuidado do “Pai”.

Definida a “atitude”, falta definir o “assunto” ou o “tema” da oração. Na perspectiva de Jesus, o diálogo do crente com Deus deve, sobretudo, abordar o tema do advento do Reino, do nascimento desse mundo novo que Deus nos quer oferecer. A referência à “santificação do nome” expressa o desejo de que Deus se manifeste como salvador aos olhos de todos os povos e o reconhecimento por parte dos homens, da justiça e da bondade do projeto de Deus para o mundo; a referência à “vinda do Reino” expressa o desejo de que esse mundo novo que Jesus veio propor se torne uma realidade definitivamente presente na vida dos homens; a referência ao “pão de cada dia” expressa o desejo de que Deus não cesse de nos alimentar com a sua vida (na forma do pão material e na forma do pão espiritual); a referência ao “perdão dos pecados” pede que a misericórdia de Deus não cesse de derramar-se sobre as nossas infidelidades e que, a partir de nós, ela atinja também os outros irmãos que falharam; a referência à “tentação” pede que Deus não nos deixe seduzir pelo apelo das felicidades ilusórias, mas que nos ajude a caminhar ao encontro da felicidade duradoura, da vida plena…

Duas parábolas finais completam o quadro. O acento da primeira (vs. 5-8) não deve ser posto tanto na insistência do “amigo importuno”, mas mais na ação do amigo que satisfaz o pedido; o que Jesus pretende dizer é: se os homens são capazes de escutar o apelo de um amigo importuno, ainda mais Deus atenderá gratuitamente aqueles que se Lhe dirigem. A segunda parábola (vs. 9-13) convida à confiança em Deus: Ele conhece-nos bem e sabe do que necessitamos; em todas as circunstâncias Ele derramará sobre nós o Espírito, que nos permitirá enfrentar todas as situações da vida com a força de Deus.

ATUALIZAÇÃO

• O Evangelho de Lucas sublinha o espaço significativo que Jesus dava, na sua vida, ao diálogo com o Pai – nomeadamente, antes de certos momentos determinantes, nos quais se tornava particularmente importante o cumprimento do projeto do Pai. Na minha vida, encontro espaço para esse diálogo com o Pai? Na oração, procuro “sentir o pulso” de Deus a propósito dos acontecimentos com que me deparo, de forma a conhecer o seu projeto para mim, para a Igreja e para o mundo?

• A forma como Jesus Se dirige a Deus mostra a existência de uma relação de intimidade, de amor, de confiança, de comunhão entre Ele e o Pai (de tal forma que Jesus chama a Deus “papá”) e Ele convida os seus discípulos a assumirem uma atitude semelhante quando se dirigem a Deus… É essa a atitude que eu assumo na minha relação com Deus? Ele é o “papá” a quem amo, a quem confio, a quem recorro, com quem partilho a vida, ou é o Deus distante, inacessível, indiferente?

• A minha oração é uma oração egoísta, de “pedinchice” ou é, antes de mais, um encontro, um diálogo, no qual me esforço para escutar Deus, por estar em comunhão com Ele, por perceber os seus projetos e acolhê-los?

• A minha oração é uma “negociata” entre dois parceiros comerciais (“dou-te isto, se me deres aquilo”) ou é um encontro com um amigo de quem preciso, a quem amo e com quem partilho as preocupações, os sonhos e as esperanças?

P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho - www.ecclesia.pt

 

Pai Nosso

A liturgia nos convida a refletir sobre um dos elementos essenciais da vida cristã e do seguimento de Cristo: a oração. Mas o que é oração? Como fazê-la? A leituras nos dão dois exemplos concretos: Abraão e Jesus.

Na 1a leitura, Abraão reza, intercedendo por Sodoma e Gomorra. (Gn. 18,20-32)

É a primeira vez na Bíblia que um homem inicia uma conversa com Deus. Sua oração é um diálogo com Deus, humilde, reverente, respeitoso, mas também cheio de confiança, de ousadia e de esperança. Não foi a repetição de fórmulas decoradas ou lidas, mastigadas às pressas, mas um diálogo no qual apresenta a Deus as suas inquietações, dúvidas, anseios e tenta perceber os projetos de Deus para o mundo e para os homens.

A 2ª leitura convida a viver de forma renovada, pois fomos libertados pela obra redentora de Cristo na cruz. (Cl. 2,12-14)

No Evangelho, Jesus reza e ensina a rezar. (Lc. 11,1-13)

Lucas é o evangelista da oração de Jesus. O texto não quer ensinar uma fórmula fixa, que os discípulos devem repetir de cor, mas propor um modelo, o espírito que deve estar presente em todas as orações. Uma conversa de filho para Pai: em Lucas 5 pedidos; em Mateus 7.

1. A Introdução apresenta o contexto em que Jesus ensinou o Pai Nosso.

- Jesus estava rezando;

- Os apóstolos, impressionados, pedem: "Ensina-nos a rezar";

- Jesus responde: "Quando rezardes, dizei: Pai nosso."

2. A oração:

- "Pai nosso": - Que imagem temos de Deus? De um patrão exigente, um juiz severo, do qual se deve ter medo? Deus é Pai... é nosso (não apenas meu)

- "Santificado seja o vosso nome" "Glorificado seja o vosso Santo nome" seria uma tradução mais exata. Quando? Quando é ovacionado com salva de palmas? ou quando a Salvação alcança o coração de todos os homens?

- "Venha a nós o vosso Reino": Reino de justiça, de amor e Paz, de liberdade, de fraternidade...

- "Dai-nos hoje o pão necessário ao nosso sustento": todos precisamos do pão e das coisas necessárias para uma vida digna. Isso não dispensa o nosso esforço e o nosso trabalho. "Nosso" = "de todos"

- "Perdoai-nos os nossos pecados, pois também nós perdoamos": Não é possível rezar o Pai Nosso, tendo ódio no coração. Muitas vezes, o amor e a união só são possíveis pelo caminho do perdão...

- "Não nos deixeis cair em tentação": sobretudo o abandono da fé, dos projetos de Deus, para abraçar o espírito do mundo.

3. Duas parábolas completam o quadro:

- a 1ª salienta a eficácia da oração perseverante: o "amigo inoportuno" é atendido: "Pedi e recebereis..."

- a 2ª convida à confiança em Deus: lembra o amor de pai para os filhos. "Se vós que sois maus, sabeis dar coisas boas aos vossos filhos, quanto mais o Pai do céu dará o Espírito Santo aos que o pedirem..."

+ Não basta rezar... devemos rezar como convém. A oração deve unificar a vida de um homem com Deus, deve impregnar a vida de cada dia... não é uma "gaveta" isolada.

- Que dizer de fórmulas "milagrosas", das "orações de poder?"

- Das orações comerciais: "dou, se me deres?"

- Dos decepcionados, quando não são atendidos?

+ O valor da oração não está condicionado:

- Ao comprimento das velas...

- Ao número de vezes que repetimos...

- Ao comprimento da fita...

- Ao número de nós no barbante...

- À fórmula milagrosa

- Ao lugar em que fazemos...

- Ao Santo que invocamos.

= Mas sim ao espírito de fé e Amor com que a fazemos.

Rezar: é um diálogo familiar com Deus, que brota de um ato de fé e de um ato de amor e que nos leva a entrar no Plano de Deus: "Seja feita a vossa vontade"

Rezar: não é apenas orar com os lábios, mas também com a inteligência, com o coração e com toda a nossa vida.

* Temos tempo para rezar? Quando é que nos lembramos de rezar? Só nos momentos de apuro, como um pronto-socorro?

E você, pai (ou mãe) reza profundamente com o seu Deus, a ponto provocar em seu filho o pedido: "Pai (Mãe), ensina-me a rezar?"

Estamos aqui reunidos, porque acreditamos na oração. Ela está marcando de fato a nossa vida, de modo a impressionar também os que aqui não vem, percebendo em nós a alegria de alguém se encontrou com Deus na oração? Se ainda não o conseguimos... façamos nossa, a oração dos apóstolos: "Senhor, ensina-nos a rezar"

No dia dedicado ao agricultor e ao motorista, nossa prece e reconhecimento àqueles que cultivam a terra e aos que transportam os frutos. Que são Cristóvão abençoe os motoristas e proteja todos os agricultores.

padre Antônio Geraldo Dalla Costa - buscandonovasaguas.com

 

Uma aula sobre oração

Estamos no décimo sétimo domingo do tempo comum do ano C onde meditamos o Evangelho de Lucas. Esse é o Evangelista da misericórdia de Deus e trabalha alguns temas teológicos em seu Evangelho. Entre eles a oração é algo significativo. Hoje é o dia de entrarmos na aula do professor Lucas e aprendermos o que ele tem a nos ensinar sobre oração.

Quando desavisado posso perguntar: quem é esse professor? O que tem ele a me ensinar? Posso até pensar: eu já sei rezar, já fiz a catequese e isso basta!! E tem outra, nós estamos no ano 2010 e no tempo das universidades, o que um homem tão antigo tem a me ensinar?

Gostaria de começar mostrando o Curriculum Vitae de Lucas. Ele era médico de profissão (Col. 4,14) e foi convertido na pregação apostólica da Síria. Era conhecedor das ciências médicas helenísticas daquele tempo. Tudo bem; posso dizer: o que um médico entende de oração? Ele foi grande colaborador de Paulo que era discípulo de Gamaliel, um dos maiores mestres espirituais daquele tempo.

Com certeza Lucas fez parte de muitos encontros de oração promovidos pelo apóstolo conseguindo assim uma bagagem muito grande. Ainda, por volta do ano 57 d.C., Paulo fica preso em Jerusalém e nesse período Lucas, que também é um pesquisador (Lc. 1,3), entrou em contato com as comunidades primitivas e certamente fez experiências de oração com os seguidores mais próximos de Jesus.

Não é muita coisa, mas suficiente para sabermos que nosso professor é muito bem habilitado. Muitos de nossos místicos aprenderam com ele. Entremos na sala e sentemos em nossa carteira e aproveitemos a sabedoria de nosso professor.

Lucas começa falando que Jesus estava rezando mostrando que Jesus era um homem de oração. Isso ele aprendeu em suas pesquisas. A oração é um contato íntimo com Deus que transforma o ser humano. Jesus fazia isso e nosso professor nos ensina que é preciso rezar. É assim que Jesus se mantinha focado em sua missão e que ele  alimentava sua fidelidade ao Pai comunicando-se constantemente com Ele na oração. Os discípulos viam isso e admiravam seu mestre e queriam fazer o mesmo, queriam beber da mesma fonte por isso pediram a Jesus que os ensinasse a rezar.

A oração já era um costume em outros grupos, mas eles queriam que Jesus lhes ajudasse a compreender a maravilha do contato com Deus. Os discípulos estavam encantados com o testemunho de oração de Jesus e por isso se animaram.

Quantas vezes nós queremos que nossos filhos rezem, que aprendam orações belas. Queremos que eles freqüentem a Igreja e muitas vezes ficamos desesperados quando eles não trilham esse caminho. O segredo, nos ensina Lucas, está no testemunho. Se os pais rezam os filhos aprenderão que isso é importante. A imagem mais bela que pode ficar na mente de um filho é a de seus pais rezando. Quando essa oração ajuda a serem mais fortes e justos, os filhos também vão querer seguir seus passos. A melhor maneira de ensinar a rezar, ensina nosso professor, é rezando. Isso fez Jesus.

Jesus ensinou, continua o professor: mandou rezar chamando Deus de Pai. É costume hoje rezar de muitas formas, se dirigir a Deus de maneiras estranhas como “patrão do céu” “O cara lá de cima” “o amigão” e assim vai. Nosso professor nos orienta que Deus deve ser chamado de Pai. Quando chamo Deus de Pai me coloco como filho, como criança, como pequeno e desses é o Reino dos céus. O Pai é o que tem autoridade sobre os filhos. Rezo a Deus respeitando essa autoridade e não querendo ser igual a Deus ou rebaixar a Deus à minha condição. Deus é Deus e eu sou filho. Eu é que preciso de Deus por isso ele é Pai.

Santificado seja vosso nome, não menosprezado, não difamado. Quando santifico o Nome de Deus também me santifico. É isso que a oração deve gerar. Não usar o nome de Deus para conseguir privilégios ou reconhecimento. Seu nome é para ser santificado e nos santificar por meio da intimidade pessoal por meio da oração sincera.

Venha a nós o Teu reino. A oração deve ser plural e não individualista. Sempre rezamos pedindo algo para nós e nossas famílias. Sempre em benefício próprio. Lucas ensina que devemos pedir o Reino a nós. O que é o reino?? É a concretização da vontade de Deus no mundo, é a realização da paz e da harmonia entre os homens e a natureza como era no paraíso que o pecado desarmonizou. O Reino não beneficiará somente a mim, mas a todos. É isso que devemos pedir e não caprichos individuais. Deus é Pai não só meu, mas de todos. Rezar é querer o bem para a humanidade inteira.

Portanto, se alguém ainda insiste em que a vida de oração deve ser intimista e egoísta, que devo pedir a Deus que me ajude e não quero compromisso como mundo pode sair da aula de Lucas porque esse professor é exigente. É o Reino de Deus é a nós, não a mim.

Dá-nos o pão nosso de cada dia. O suficiente para eu viver com dignidade. Deus não está para me enriquecer, mas para me sustentar na minha necessidade. A cada dia Ele me sustenta de forma que sempre vou precisar de sua bondade de estar em oração. Muitos pedem a Deus riquezas sem fim, prosperidade e tudo mais. Nossa oração deve nos ensinar que nossa confiança está em Deus e em sua providência e não no que acumulamos. É o pão, o sustento de cada dia que precisamos, o mais é supérfluo, é injustiça. Se tenho muito, outro tem pouco porque Deus criou o mundo para todos, Ele é Pai de todos e não meu somente. Só obteremos o Reino que pedimos antes sem a ganância. Essa é a oração de Jesus que nos ensina nosso professor.

Perdoa nossos pecados. É a confiança na misericórdia. Deus perdoa sempre, mas devemos ter uma abertura de vida, um crescimento pessoal na relação com Deus. Deus me perdoa e eu também perdôo. Minha dívida é sanada com Deus, experimento a misericórdia de Deus pela oração e me torno também misericordioso. Se assim não for, minha oração não serve para nada. Se não evoluo como ser humano, se não me torno com a oração uma pessoa melhor é tempo de me converter novamente.

Livra-nos das tentações. Ilumina nossos caminhos, dá-nos discernimento. É isso que a oração deve produzir em nós, um aprendizado para a abertura de mente e de coração para seguirmos sempre o caminho correto. É a sensibilidade ao projeto de Deus que guia meus passos.

Ainda com relação à oração Lucas nos apresenta duas parábolas. A do vizinho insistente e a do Pai bondoso. Pedi e recebereis, batei e vos será aberto. Para que serve a insistência na oração?? Somente para atormentar a Deus?

Quando insistimos mostramos que o que queremos realmente é importante para nós. A insistência vai cravando em nosso coração a vontade de Deus e vai nos fazendo mais fortes para aquilo que vamos receber. É pela insistência que provamos para nós mesmos que nossa oração, nosso pedido, nosso compromisso não é somente “fogo de palha” como dizia meu pai. É pela insistência que provamos a nós mesmos que somos merecedores da graça de Deus porque ela nos compromete com o Reino que pedimos no início da oração. Assim estou pronto a receber a graça e fazê-la frutificar.

Por último, nosso professor fala da bondade de Deus que nos dá somente o que é bom. Muitos de nossos pedidos não são atendidos porque ainda não aprendemos pedir. Se ainda são egoístas, intimistas, certamente não produzirão em nós o que Deus quer. Se recorremos a Deus somente nos momentos de desespero em que precisamos de uma conquista e muitas vezes não somos atendidos, é porque ainda não aprendemos pedir. Deus nos dá o que é bom, o que vai ajudar na minha salvação e muitas vezes o que peço é o veneno do escorpião para minha vida. Deus sempre vai me dar o peixe porque me ama como filho e é o Pai bondoso e misericordioso. É pelo Espírito Santo que Deus age em nós e nos transforma quando nos abrimos à oração, ao encontro com Deus.

Lucas ainda tem muitas coisas a nos ensinar. É um professor muito sábio. Seu Evangelho é uma dádiva de Deus para a humanidade. Vamos aproveitar. A aula continua, sejamos bons alunos. A tarefa de casa do professor é que meditemos seu evangelho e vejamos tudo o que ele nos ensina sobre a oração. Lembremos sempre o que nos ensina Madre Tereza de Calcutá. “A oração torna nossos corações transparentes e só um coração transparente pode escutar a Deus !”

padre Reginaldo Antonio Ghergolet - www.diocesedejacarezinho.com.br

 

    

 

No domingo passado o Evangelho de Luca nos apresentou a figura de uma mulher, Maria, que ficava extasiada diante do Senhor, que se deixava penetrar por suas palavras, pelos seus pequenos gestos, pelos detalhes da fisionomia do rosto, enfim, estava lá, diante do Senhor impregnando-se de sua presença. Desta vez o Evangelista nos apresenta o próprio Jesus na mesma atitude: Ele, o Senhor, recolhido no grande silêncio que dispensa as palavras. Não se trata de uma simples ausência de barulhos, mas daquele silêncio carregado de presença que, delicada e firmemente, invade a alma quando nos perdemos na pessoa que completa a nossa vida, que a esta dá significado. È um tempo em que o tempo é suspenso, que nunca passa nem começa porque o que nele conta é a intensidade do encontro, é a fusão de duas presenças.

É Jesus que está em oração.

Poucos são os momentos de profunda intimidade narrados pelos Evangelistas. Na grande parte estes momentos são associados às decisões importantes que Jesus deve tomar como, por exemplo, quando escolhe os discípulos ou quando está face a face com o momento mais crítico de sua vida, no horto. São estes os momentos em que tudo o que temos à disposição é tão insuficiente que nós mesmos nos sentimos insuficientes, pequenos. Sentimos que precisamos de algo maior, algo que nos seja simplesmente “dado”, gratuitamente.

A vida, as situações inesperadas e imprevistas freqüentemente nos colocam em xeque e nos mostram o que de fato podemos e o que somos. O que, geralmente, não corresponde a o que pensamos de poder e de ser. Quantas vezes imaginamos de sermos capazes de superar algumas coisas e quando nos encontramos com estas face a face, nem lágrimas temos para chorar! É um pouco o que esta narração do Evangelho significa.

A vida é o que é, não o que pensamos que seja. Somos nós que estamos ligados a ela, não é o contrário, como nos fazem acreditar alguns sistemas de pensamento. Como quanto maior fideísmo seguirmos o mito da nossa auto-suficiência, tanto maior será a nossa crise quando descobrirmos que fomos enganados por uma ilusão!

Quantas vezes temos a sensação que tudo desmorone diante de nós... Como resposta, estes mitos nos deixaram sozinhos, iludindo-nos que seriamos capazes de tudo... e nos tiraram também Deus. Nem sequer o seu Nome temos mais a coragem de pronunciar, pois nos disseram muitas coisas sobre Deus e O eliminaram do nosso convívio.

Paradoxalmente, este profundo e trágico momento, quando não temos mais nada é o momento da máxima liberdade, porque estamos sozinhos conosco mesmos, face a face com a verdade. Momento em que os eventos nos reconduzem ao absoluto silêncio das coisas, das pessoas, das convicções; nesta condição não precisamos mais obedecer a padrões de pensamento, já que muitas vezes estes nos traíram. Estamos face a face nós e o significado de nossa vida. Sós. Mas é aqui, no interior da escuridão da alma que pode ressurgir o homem novo. Pela primeira vez é possível pronunciar, apesar de tudo, lutando com o orgulho derrotado, a palavra: Deus, Pai. È possível dizer: eu não tenho mais nada, ninguém, a não ser você; não sei quem você é ainda, mas eu te peço...

A oração é a resposta à tentação, o desafio do homem que se descobre necessitado e pobre, a resposta ao mito da auto-suficiência. È a coragem do homem que se dobra, atitude mais valiosa e rara do que qualquer esforço orgulhoso. O homem que sabe se ajoelhar é indiscutivelmente mais forte daquele que não consegue.

A este ponto, quando nos superamos, o impulso mais imediato é o de pedir  alguma coisa que possa “resolver” a nossa situação; é o que precisamos imediatamente, pois não temos mais força alguma para sustentar algo que é mais forte de nós. Pedimos algo. E isto é ótimo, é maravilhoso. Jesus nos encoraja a pedir, com firmeza, com constância, até com desespero, mas pedir, não exigir; é preciso pedir, porque só pedimos para alguém que, sabemos, não somente “pode” nos dar o que precisamos, mas que, acima de tudo “quer” nos dar o que precisamos. Então, isto significa crer no seu amor. Pedir e amar são mãos que se encontram para fortalecer o caminho. Exigir é o contrário, é a tentação de arrastar Deus ao nosso limite, mas Deus é Deus. Quando aprendemos a arte de pedir, daí não temos mais “idéias” sobre Deus; as conjeturas aparecem tão ridículas; a partir daí começamos a conhecer, saber diretamente que somos amados, pessoalmente, unicamente, individualmente. Passamos a saber que, aquele Deus que chamaram de “arquiteto”, força, energia etc. não é nada disso, é uma pessoa; uma pessoa que dialoga comigo, que me conhece, que me quer bem. Sei que posso pedir. Sei que, se a Ele recorrer, Ele mesmo assumirá a responsabilidade para comigo, para a minha felicidade, para ter o que preciso a fim de realizar o que eu sou, realizar a mi mesmo conforme o que Deus pensou se mi.

A leitura, projeta-nos mais adiante, nos ajuda a compreender também outros aspectos da oração.

Mesmo que de início a oração nasça como um pedido às vezes desesperado, de fato pode transformar-se numa escola na qual aprendemos a nos relacionar com Deus, aprendemos a conhecer Quem não conhecíamos. As duas parábolas nos dizem que a relação com Deus não é algo que pode ser reduzido aos nossos interesses; embora Ele não deixe sem respostas, todavia não se deixa reduzir aos nossos mecanismos. Com certeza nos dará o que é de fato importante para nós, contudo, isto acontecerá na condição e no momento em que Ele, com extrema liberdade o entender. Deus quer uma relação madura, livre, entre duas pessoas que se respeitam. A relação com Deus nunca pode ser reduzida a uma magia. A perseverança, a certeza da fidelidade de Deus à sua palavra, são as verdadeiras riquezas que descobrimos em nosso coração quando aprendemos a pedir; estas são mais valiosas do que o objeto do nosso pedido. Este sem dúvida alguma virá, mas na hora em que para nós já se tornou secundário, pois pela dinâmica da oração aprendemos algo que é mais enriquecedor.

A partir daí, quando descobrimos a beleza de tudo quanto acontece quando nos colocamos diante do Senhor, acontece uma transformação da oração: se havíamos pedido “coisas” a Deus para resolver o nosso problema, Ele não se limitará a dar-nos coisas”, mas sim aquilo que é o maior dom que possa oferecer-nos: o Espírito. Espírito é “sentir o respiro de Deus, é “apalpar a presença”, é como aquela sensação estável em nosso coração quando amamos alguém tão profundamente que, embora longe, nunca sai de nós mesmos.  Assim, Deus não nos dá, como diz o provérbio: “o peixe”, mas nos dá o “instrumento” para nunca ficar com fome. Sentir a Sua presença constante em nossa vida não elimina os problemas, não nos deixa numa áurea protegida; mas nos dá a condição e a força para que em nosso coração se instaure aquela condição que nos permite fazer as escolhas mais oportunas, nas dificuldades que todos os homens vivem, como também as viveu Jesus. È aqui que a oração que pode iniciar como “pedido”, se transforma em contemplação. Isto é, a atitude permanente de quem fica extasiado, sentindo, enriquecendo-se da presença do Deus amado. É um estado de ânimo que não abstrai do mundo, assim como também Jesus não se abstraiu do mundo circunstante. É uma condição que nos permite penetrar profundamente o mundo porque pode nos dar as condições de ver o mundo com o olhar Daquele que o fez e que melhor o conhece. A oração que se transforma em contemplação projeta o coração além do mundo para recordar continuamente ao mundo a sua vocação infinita, que não se prende só àquilo que, no momento, está diante dos olhos.

padre Carlo - www.fatima.com.br

 

A oração de Jesus, por sua brevidade e conteúdo, não é uma estilizada forma ritual, mas uma maneira de iniciar a comunicação com Deus-Pai, partindo das coisas cotidianas. Nessa entram a preocupação pelo sustento e a confiança de que Deus o outorgará conforme nosso esforço. É uma oração que se pode fazer em qualquer momento e lugar; não é necessário ir à igreja nem esperar as grandes festividades. É dirigida a um pai misericordioso que nunca se esquece de seus filhos e os ama. Um pai atento a cada uma das pessoas e, por sua vez, pendente de toda a comunidade que o invoca. É uma oração que clama para que o reino de justiça e igualdade se torne efetivo aqui e agora.

Diante desse Pai não há já uma humanidade massiva, mas um povo composto de filhos, cada um com suas particularidades, com seus valores e seus tempos, pessoas débeis e confiantes, seres com sua própria identidade que buscam a Deus. A oração do Pai Nosso coloca Deus em primeiro lugar.

O Reino de Deus produz uma grande mudança, e esta tem sua garantia em Deus, que “se santifica” e mostra seu poder, que como “abbá”, Deus para nós. Nas aspirações da comunidade cristã são reconhecidas, por um lado, essa santidade inerente ao “santo nome de Deus” e, por outro, o modo concreto de sua ação na história humana.

É inconcebível que um pai não responda com coisas boas aos pedidos de seus filhos. Tanto mais ao se tratar das coisas de Deus. Os homens são maus; Deus é bom. Se um pai da terra é bom com seu filho que lhe pede, quanto mais o será Deus!

Finalmente, o pai não engana o filho necessitado, não se diverte às suas custas, não comete contra ele um gesto criminoso. Dar uma pedra em lugar de pão é querer enganar; dar uma serpente em lugar de um peixe é brincadeira de mau gosto; dar um escorpião em lugar de um ovo é um crime.

Um pai não abusa da fraqueza de seu filho pequeno, que não sabe distinguir ainda entre uma pedra e um pão, entre um peixe parecido com uma cobra – por exemplo, uma enguia – e uma serpente; entre um escorpião todo enrolado e um ovo. Precisamente porque a criança é pequena e indefesa, o pai lhe prodigaliza todo o cuidado e carinho.

O dom doado pelo Pai a quem lhe pede, é o Espírito Santo. Esse dom, enviado pelo Pai, vem do céu. O Espírito Santo é o presente celestial. Por meio dele, Jesus age.

Converte os discípulos no que devem ser. Cuida de seus pensamentos e ações sob sua própria direção. Por meio dele cumprem eles a vontade de Deus.

 www.claretianos.com.br

 

“Rezar é estar com Aquele que sabemos que nos ama muito” (Teresa D’ Ávila)

As leituras deste domingo convida-nos a refletir sobre o valor da oração e como esta nos aproxima do Senhor Jesus e de sua profunda ligação como Pai, a quem em numa oração de súplica chama de “Abba”, “paizinho”. Pela oração, como bem nos lembra Santa Teresa, vamos criando intimidade e amizade com Deus. E nessa profunda relação revelamos a Ele (O Senhor dos senhores) nossas dores, nossas angustias, nossas alegrias, esperança e confiança de que tudo se dará segundo a vossa vontade. Ainda, que nos custe à vida, como fez Jesus. Todavia, sua obediência o leva até as últimas conseqüências, pois confia plenamente. É na oração que Jesus vai tecendo sua confiança no Pai e no seu projeto como nos relata Lucas no evangelho de hoje.

Lucas vai mais adiante: se queres ser seu seguidor é preciso aprender com ele a traçar o mesmo caminho. Por isso, coloca na boca de seus discípulos: ”Senhor, ensina-nos a rezar...” (v.1). E Jesus os ensina o Pai-Nosso. Jesus ensina a santificar, a glorificar o nome do Pai e a implorar a vinda do Reino indicando sua manifestação concreta “no pão cotidiano” (vv.2-3), pedido central no Pai nosso. Ensina a pedir e suplicar com insistência o que for fundamental: a vida. Contudo, o que temos visto nas praças e meios de comunicação parece exaltar o contrário, cada um deseja fazer Deus o executor de seus próprios desejos e consumismo. Quantas injustiças em nome do “Deus fiel”! Em tempos de eleições políticas temos presenciado esse monopólio de Deus.

Entretanto, nos revela a primeira leitura de que a oração insistente de Abraão chega ao coração de Deus pelo caminho da justiça. Nela se fundamenta a ação misericordiosa de Deus. “...Por causa dos dez, não a destruiria”. Portanto, queridos irmãos e irmãs através da oração descobrimos que o Pai sempre se revela favorável quando pedimos com fé e perseverança. Aliás, a verdadeira oração é aquela que nos conduz a conversão de nossas atitudes e pensamentos não em sintonia com a vontade do Pai. Desta maneira, para que o mundo seja mais justo, fraterno e solidário, devemos entender melhor a oração que Jesus nos ensinou, ela é a oração por excelência.

A oração do Pai-Nosso não é uma reza miraculosa para ser repetida como se fosse um “abracadabra”. Na verdade, considero-a como um modelo de petição. É como um formulário a ser preenchido com as nossas próprias palavras para nos relacionarmos com Deus de forma sensata e realmente produtiva na vida dos irmãos e irmãs. Por isso, nos diz São Paulo, na segunda leitura. Pelo batismo participamos da morte e ressurreição de Cristo, de sua vitória sobre o pecado; e assumimos a vida nova que se traduz em atitudes concretas a serviço do Reino.

Neste domingo Jesus nos ensina o sentido da oração. A celebração litúrgica é um lugar privilegiado de dialogo com Deus que fala ao seu povo e a quem, o povo responde com cantos e preces (cf. SC 33). Desenvolve-se, então, um verdadeiro diálogo de Deus com seu povo reunido, um colóquio contínuo do Esposo e da Esposa. Neste diálogo Ele é glorificado e nós somos santificados. Na sua imensa misericórdia Ele nos atende e nos faz solícitos às necessidades dos irmãos e das irmãs. Desta forma, abramos o nosso coração e fortalecidos pelo pão eucarístico sejamos perseverantes na fé e na esperança de um mundo melhor. E assim, como bem definiu Santa Teresinha de Lisieux: “A oração é um impulso do coração, é um simples olhar lançado ao céu, um grito de reconhecimento e amor no meio da provação ou no meio da alegria”. 

Tânia Regina da Silva - www.homilia.com.br

 

Como é típico no evangelho de Lucas, Jesus é apresentado a rezar, isto é, em íntima relação com o Pai, estando presentes os discípulos que, quando Ele termina, lhe pedem que os ensine. Eles, como judeus, já tinham as suas orações, os salmos, mas querem imitar o seu Mestre, no que Ele tem de próprio, tal como João Batista ensinou a sua forma de rezar àqueles que o rodeavam.

A versão do Pai Nosso que encontramos em Lucas é mais breve do que a de Mateus, apresentada durante o discurso da Montanha (Mt. 6,9-13). As duas formas correspondem a duas tradições que circulavam no primeiro século nas diversas comunidades cristãs. Mais do que uma fórmula de oração, o Pai Nosso deve ser olhado como o esquema que todos os discípulos de Jesus devem ter presente na sua oração.

A oração cristã começa com a invocação de Deus como Pai, ou melhor, como papá (’abbá) como Jesus dizia quando rezava ao Pai. Deus é criador e senhor, como nos refere já o Antigo Testamento, mas Jesus exorta a considerá-lo sobretudo como um amigo, um familiar, um pai.

Os pedidos dirigidos ao Pai dizem respeito ao plano de salvação (seja santificado o teu nome, venha o teu Reino), ao bem material (dá-nos o pão) e espiritual (perdoa os nossos pecados e não nos deixes cair em tentação).

«Santificar o nome», é uma expressão de sabor bíblico que indica a intervenção salvífica de Deus por meio da qual ele revela a sua santidade. O texto de fundo é de Ez. 36,23, onde o profeta refere a intervenção salvífica de Deus a favor dos deportados: «Santificarei o meu Nome grande, desonrado entre os gentios, profanado por vós no meio deles. Então os gentios saberão que eu sou o Senhor... quando mostrar a minha santidade em vós diante dos seus olhos».

A manifestação da santidade de Deus consiste na obra de purificação e convocação do povo pecador e disperso, numa nova aliança. O «Nome» designa o próprio Deus enquanto age e se releva aos homens (Is. 30,27; 52,6). Por isso, a santificação do Nome de Deus coincide com a definitiva revelação de Deus aos homens como Deus fiel e salvador (cf. Lv. 22,32).

Sobre o fundo desta concepção bíblica se compreende a invocação dos discípulos que se dirigem ao Pai para que ele mesmo se revele eficazmente e de modo definitivo na sua ação salvífica. Este é o significado da expressão verbal no passivo «seja santificado». Este aspecto da «santificação do Nome» não exclui o empenho dos discípulos em acolher com uma fidelidade ativa e perseverante a iniciativa salvífica de Deus Pai em convidar todos os homens a dar glória ao Pai.

O segundo pedido prolonga e amplia a súplica inicial, introduzindo na oração dos discípulos um tema que resume todo o programa histórico salvífico de Jesus: o reino de Deus.

De fato, Jesus inaugura a sua atividade na Galileia com a proclamação, já antecipada na pregação do Baptista, «o reino dos céus está próximo». Este anúncio ressoa também na missão dos discípulos enviados por Jesus para fazerem os mesmos gestos de libertação que são sinal da erupção do reino de Deus na história humana. Por outro lado, o reino de Deus, já presente nas palavras e gestos de Jesus, não chegou ainda na sua plenitude, pelo que Jesus, na véspera da sua morte pode anunciá-lo como uma realidade futura.

Esta dupla dimensão da vinda do Reino é subentendida pela súplica do Pai Nosso: por um lado os discípulos pedem que o Pai pela sua iniciativa realize a sua realeza universal e plena superando os obstáculos e as resistências do mal histórico, por outro, eles tornam-se abertos e disponíveis à atuação da soberania de Deus por meio da fidelidade à sua missão que o anuncia e implanta na história humana.

O «pão», na linguagem bíblica e evangélica indica o alimento necessário e essencial para a existência humana. Este pão é qualificado pelo adjetivo «nosso» que sublinha o destino comunitário do dom pedido: é o pão dos discípulos solidários com todos aqueles que partilham a sua condição de homens. O pão-alimento não pode ser considerado como uma propriedade privada exclusiva. Os discípulos são convidados a colocar a sua confiança no Pai celeste, que conhece aquilo de que têm necessidade. Esta exortação evangélica à confiança religiosa é um eco da tradição sapiencial: «Não me dês nem pobreza nem riqueza, mas faz-me ter o pão necessário» (Pr. 30,8). Segundo este princípio era dado o maná ao povo de Deus no deserto, a comida quotidiana que não se podia acumular (Ex. 16,4.18.21). Na petição do Pai Nosso trata-se, então do pão dos «pobres», dos discípulos que, na procura prioritária do reino de Deus e da sua justiça, são livres das preocupações pelo amanhã e da obsessão da acumulação.

Depois do pão quotidiano, uma outra necessidade fundamental dos discípulos que vivem na história, é o perdão dos pecados. A obra salvífica de Jesus é caracterizada pela «remissão dos pecados». Este perdão de Deus, dado com generosidade e misericórdia, torna-se normativo para as relações entre os discípulos. A imagem da dívida referida ao pecado põe em evidência o aspecto pessoal enquanto implica uma relação entre duas pessoas, entre Deus e o pecador. O homem pecador diante de Deus está na condição do devedor que só pode esperar o perdão ou anistia do seu débito, pois não tem condições de pagar. Daqui o pedido de perdão por parte dos discípulos que se reconhecem pecadores.

Mas a novidade da oração evangélica está na segunda frase, onde o perdão pedido a Deus é posto em confronto com o perdão dado aos outros: «Como nós perdoamos aos nossos devedores». Evidentemente não tem sentido falar duma perfeita correspondência ente as duas formas de perdão e nem se pode imaginar que o perdão divino seja condicionado ou medido pelo perdão humano, tomado como modelo. O perdão fraterno, dado com generosidade, mais que uma prestação humana à qual esteja subordinado o divino, é um empenho de tal forma sério que decide da salvação definitiva. De fato, o perdão fraterno responde à única exigência de Deus: a abertura ao seu dom de amor que se traduz numa relação pessoal nova com o irmão.

A última petição, «não nos deixes cair em tentação», ou à letra: «não nos faças entrar em tentação», exprime a extrema precariedade da existência dos discípulos, exposta à ambivalência das situações históricas que podem provocar a queda da fidelidade e a ruína definitiva.

O vocábulo grego peirásmos, sem mais, não significa por si tentação como incitamento ao mal, mas prova, teste, verificação. «Entrar em tentação», segundo o modo de dizer nos textos judaicos, significaria aderir ou sucumbir à tentação. A «tentação» pela qual se invoca a intervenção do Pai celeste não é só aquela tentação crítica final em que se decide a sorte dos discípulos, mas também a prova diária que interpela a sua fidelidade e perseverança.

Com esta invocação ao Pai, solicitada pela dura e diária experiência do mal e da finitude humana, se fecha a oração dos discípulos. O Pai Nosso transcreve numa fórmula densa e sugestiva a relação filial que os cristãos, com o modelo de Jesus, aprenderam a viver diante de Deus, o Pai celeste, com confiante e humilde perseverança.

A parábola apresentada por Jesus é um apelo à persistência na oração, não porque Deus não ouça mas porque o homem precisa da tempo para poder assimilar o que melhor convém pedir. Deus é o amigo que socorre sempre o seu amigo, é o bom Pai que aos seus filhos dá o que tem de melhor: o Espírito Santo, isto é, a Si mesmo, como dom pleno e vivificante.

padre Franclim Pacheco - www.diocese-aveiro.pt

 

O BATISMO SUBSTITUTO DA ALIANÇA

Preocupado Paulo pela fé dos colossenses usa os últimos argumentos contra os judaizantes, e admite que o manuscrito de nossa condenação foi pregado na cruz, onde todo pecado [dívida] foi pago [resgate] e toda discrepância foi anulada[restituição].

BATISMO COMO MORTE E RESSURREIÇÃO: sepultados com ele no batismo no qual também ressurgistes por meio da fé da obra de Deus que vos ressuscitou dentre os mortos (12). Na preocupação de Paulo pela fé dos colossenses, ele usa diversos argumentos para confortá-los. Ausente na carne, ele diz, mas no espírito no meio deles, é por meio da carta que os anima a não serem enganados com argumentos capciosos e filosofismos falaciosos e vãos, fundadas em tradições humanas e não em Cristo.  A circuncisão verdadeira é a recebida no batismo que atinge o espírito e é pelo Espírito divino realizada e não a carnal do corpo, feita por mãos humanas. É neste ponto que Paulo descreve os efeitos dessa circuncisão batismal como vemos no início deste versículo.

SEPULTADOS: do significado da palavra e da ação mesma batismal, Paulo toma seu primeiro argumento. A imersão batismal e a saída posterior da água são como uma morte e uma nova vida ou ressurreição. O batismo é um símbolo de uma morte ao velho homem, penetrado do fermento da maldade e malícia (1Cor. 5,8) e, no batismo, crucificado com Cristo, destruído o corpo do pecado (Rm 6,6), para livre do velho fermento, ser imbuído do esmo da sinceridade e da verdade (1Cor. 5,8). Destes textos deduzimos que os vícios principais que nos apartam de Deus são a maldade definida como a opção de fazer o mal, ou o contrário da opção pelo bem; e a malícia que definiríamos como a intenção de optar pela mentira como forma de pensar e atuar. Também inferimos que a sinceridade e a verdade formam parte do verdadeiro homem que quer viver como autêntico discípulo de Cristo. A opção pela verdade é um requisito fundamental de nossa vida nova, junto com a sinceridade que evita a hipocrisia e falsidade, como filhos da luz, em que as boas obras são vistas para glória do Pai dos céus (Mt. 5,16).

OBRA DE DEUS: Na sinergia entre o poder divino e a vontade humana, Paulo atribui o papel principal à força de  Deus de modo a considerar tanto a fé como as obras que dela surgem, como é o amor (Gl. 5,6), como feitos principais da ação divina que é realmente a que dá o querer e o poder (Fp. 2,13).Como conclusão, vemos em Paulo a dicotomia humana que divide a mesma entre o homem natural e o homem assumido pelo espírito, com resultados diferentes nas diversas obras: prostituição, impureza, lascívia, idolatria, feitiçarias… etc., obras da carne, opostas ao amor; alegria, paz, longanimidade, benignidade ….etc. que Paulo diz serem frutos do espírito (Gl. 5,19-23).

VIVIFICADOS: e a vós, mortos sendo nas faltas e no prepúcio da vossa carne, vivificou com Ele perdoando-vos  todos os delitos (13).

MORTOS segundo Paulo os gálatas estavam mortos, ou seja, sem vida por dois motivos:

1) pelas transgressões, sendo que a palavra paraptöma é a usada em Mt. 6,14: se perdoardes aos homens as suas ofensas, vosso Pai Celeste vos perdoará.

2) pelo prepúcio: para Paulo a circuncisão era a garantia da eleição, segundo o pacto de Jahveh com Abraão, diante de Deus.  Quem não entrava dentro desse pacto, estava como morto diante de Deus. Os colossenses, cuja maioria era de origem pagão, estavam mortos por causa dos dois motivos apresentados: os pecados e a falta de circuncisão.

VIVIFICOU: na alegoria imersão/saída no batismo e morte/ressurreição em Cristo, esta vida nova do Jesus ressuscitado é causa de nossa ressurreição; pois sua morte  foi o resgate pago pelo pecado, que a teologia chama de redenção. Nas palavras da cruz: Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que estão fazendo (Lc. 23,34) encontramos uma atuação da teoria da reconciliação que o próprio Jesus declarava na última ceia: este é o cálice da nova aliança do meu sangue derramado em vosso favor (Lc. 22,20). A cruz foi um sacrifício de perdão e aliança que substituia perfeitamente a feita por meio da circuncisão.

1.O QUIRÓGRAFO: Tendo cancelado o manuscrito com os mandatos contra nós, o qual estava contrário a nós, e o retirou do meio, cravando-o na cruz (14).

MANUSCRITO: Cheirografon, que temos traduzido por quirógrafo, é um manuscrito concernente a uma obrigação contratual sem tabelião nem outro testemunho público, mas válido pela palavra nele escrita de punho e mão do devedor. O sentido original da palavra era manuscrito, mas legalmente era uma espécie de bilhete comprovante de uma dívida que o devedor se compromete em data determinada a pagar. A palavra só sai neste versículo no NT. A pergunta è: existiu esse documento; e se a sua existência foi real, por que Paulo fala de que foi cravado na cruz? Qual é o significado de tudo isso? Sobre a existência: o único documento que fala sobre o pecado é a Lei que Jahveh escreveu nas duas tábuas de pedra, segundo Êx 24,12: Dar-te-ei tábuas de pedra e a lei e os mandamentos que escrevi para os ensinares.. De fato, Moisés tomou o livro da Aliança e o leu ao povo e eles disseram: Tudo o que falou o Senhor faremos e obedeceremos. E tomou Moisés aquele sangue e o aspergiu sobre o povo e disse: Eis aqui o sangue da aliança que o Senhor fez convosco a respeito de todas estas palavras (Ex. 24,7-8). Como os judeus não cumpriram a Lei, e entre eles abundou o pecado, (Rm. 3,9 e 5,20) as tábuas da lei eram um quirógrafo pendente sobre a conduta do povo eleito, que o homem não podia pagar ou rescindir. Existia pois, um compromisso que foi rasgado na cruz, pois a antiga aliança foi substituída pela nova, carimbada com o sangue de Jesus: Tomou o cálice dizendo: Este é o cálice da nova Aliança no meu sangue, derramado em favor de vós (Lc. 22,20). Mateus acrescenta: Para o perdão dos pecados (Mt. 26,28). Logo, Paulo fala de um modo histórico ou real dessa Aliança, escrita e não cumprida, que agora, pelo sangue derramado, foi substituída pela cruz de Cristo. Essa cruz deve ser o novo manuscrito segundo as palavras do próprio Jesus: Quem quiser vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me (Mt. 16,24). Palavras que repetem quase literalmente os outros dois sinóticos. De modo que as tábuas  ou o livro da Lei é agora substituído pela cruz de Cristo.

CRAVADO NA CRUZ: o título da cruz era o motivo da morte do réu e estava bem visível para denunciar quem nele se achava cravado ou suspenso. Cravar na cruz era, pois um ato de justiça em que o réu era condenado. Assim, como condena e anulação da validez do AT  foi a cruz para Paulo. Pois na cruz foram perdoados os pecados em raiz [resgate] e foi feita uma Nova Aliança que não admite distinção de raça ou condição social [reconciliação]. O único pecado que não será perdoado é o cometido como blasfêmia contra o Espírito Santo; ou seja, o daquele que não quer admitir o bem e a verdade e publicamente rejeita ambas realidades.

Evangelho (Lc. 11,1-13)

O PAI NOSSO – CONSTÂNCIA NA ORAÇÃO

Duas partes temos no evangelho de hoje: Um modelo de oração que hoje é nossa prece universal; e em segundo lugar, um ensinamento sobre como deve ser a constância e a confiança na mesma. Na primeira parte, encontramos o que temos chamado com o nome geral de Pai Nosso. A fórmula que recebe o nome de Pai Nosso sai três vezes nos escritos primitivos antes do final do século I: Mateus 6,9-12; Lc 11,2-3 e Dídaque 8,2. A formulação mais antiga é a de Lucas. Mateus e a Dídaque são praticamente iguais, acrescentando esta última a doxologia final e o preceito de recitar a oração três vezes ao dia.

ENSINA-NOS A ORAR: Então sucedeu que ao estar Ele em certo lugar orando, como terminasse, lhe disse um dos seus discípulos: Senhor, ensina-nos a rezar como também João ensinou seus discípulos (1).

ORAÇÃO DE JESUS: Lucas circunscreve o momento da apresentação do Pai Nosso a uma circunstância que podemos chamar de fórmula literária: Porque sucedeu que estando ele [Jesus] em oração num certo lugar, quando acabou, um de seus discípulos perguntou-lhe: Ensina-nos a orar como João ensinou os seus discípulos. Evidentemente que o exemplo de Jesus era fundamental para que a petição fosse formulada. Mas o dito discípulo também apela para o exemplo de João, que nas orações se afastava da Keriat Shemá [leitura da Shemá], a reza diária dos israelitas adultos, duas vezes por dia. Vejamos, pois, quais eram os modos e fórmulas de oração em uso entre os judeus da época para compará-los com os que Jesus escolheu como fórmula própria de seus discípulos.

EXCURSO: ORAÇÃO ENTRE OS JUDEUS

TEFILÁ: é a palavra que significa oração entre os judeus. Como encontrei um artigo claramente esclarecedor do que é a oração entre os hebreus, vou resumir o mesmo, pois é como se tivéssemos encontrado as formas de orar de Jesus, verdadeiro judeu em hábitos e costumes religiosos. A palavra inicial do parágrafo provém do verbo Palal [julgar ou meditar] na forma reflexiva: é um ato de introspecção e auto-análise pelo qual o Mitpael [orante] medita sobre si mesmo e julga a si mesmo. O homem ora para compreender a vontade de Deus, a fim de que possa distinguir entre o que deve e o que não deve; que possa saber o que esperar e o que Deus espera dele (não o que ele espera de Deus), a fim de que ele possa perceber o propósito divino e servi-lo. A oração, do ponto de vista judaico, é a conversa do homem com Deus acerca das suas esperanças. É também a forma pela qual o homem descobre, cada dia, que a vida tem sentido. A oração é o processo pelo qual o homem atinge o que há de melhor em si mesmo. A maioria das orações é um comprometimento dos nossos recursos para cumprir nossos deveres para com Deus, meditação sobre a sabedoria das nossas escrituras sagradas, expressões de louvor e de gratidão pelas maravilhas da vida e declarações de segurança e confiança no poder de Deus. A oração é parte integral da fé judaica e um fator indispensável do ponto de vista teológico. Todas estas posturas entram dentro das orações de Jesus que encontramos narradas nos evangelhos. Para falar só de Lucas: Jesus acostumava se retirar a lugares desabitados (5,16) ou ao alto das montanhas (9,18) para orar passando a noite inteira (6,12). O tipo de oração era uma reflexão sobre a sua missão (9,30) e a conformidade com a vontade do Pai (22,42). Mas vejamos como os judeus descrevem as diversas orações de sua tradição.

CLASSES DE ORAÇÃO

A) Adoração: considera-se o poder, a majestade, a grandeza e o mistério de Deus. Deus não necessita da nossa adoração, mas nós necessitamos adorá-lo. As orações de adoração protegem o homem, evitando que se apegue ao que é falso e degradante; o propósito da oração é encontrar nossa relação com o Deus vivo. Essa oração é expressa em palavras que entoam louvores a Deus. O louvor a Deus é uma resposta à sua majestade e glória. À medida que enunciamos esses louvores somos levados a um plano mais alto de sentimento e pensamento.

B) Agradecimento: tem como objetivo tornar-nos conscientes das bênçãos que nos cercam e das quais recebemos benefícios diariamente. Só após louvar e agradecer, o judeu, nas suas orações, chega às preces nas quais exprime o seu pedido.

C) Suplicatórias: suplicamos a Deus em favor daqueles que estão enfermos e encorajamos mesmo o agonizante a orar pela restauração da saúde para o serviço útil a Deus. As orações suplicatórias exigem que o adorador se concentre na vontade de Deus em vez da própria vontade. Nossa súplica (pedindo a bênção para a vida) deve ser motivada pelo desejo de usar essa bênção para a glória de Deus. As orações judaicas de súplica são feitas no plural em vez do singular a fim de aguçar a consciência a respeito dos outros.

D) Penitenciais: o homem confessa seu erro e pede perdão. Essas preces recebem o nome de SELIHOT. O judeu pede ajuda a Deus a fim de que possa superar seus maus desejos. Apela por outra oportunidade tendo intenção de agir diferentemente e confia no misericordioso perdão de Deus. Se estudarmos o Pai Nosso veremos como ele se conforma com o dito: Pai [adoração]. Santificado teu nome. Venha teu reino e dá-nos o pão [suplicatórios]. Perdoa [penitencial].

E) SHEMÁ: porém existe uma oração própria de todo judeu que deve ser recitada duas vezes por dia: o Shemá. A recitação do mesmo recebe o nome de Keriat Shemá [leitura do Shemá] pois, era semicantada, em voz alta. Dados do segundo Beit Mikdash [casa sagrada ou templo], dizem que se recitava diariamente, entoada pelos sacerdotes após o Korban Tamid Saharit [sacrifício ao alvorecer]. O povo reunido no Mikdash [santuário] respondia: Abençoado seu nome, cujo Reino [é] glorioso para sempre, como forma de adesão ao culto e cumprimento das Mitzvoth Torá [preceitos da lei]. A Mishná [repetição ou lei falada] estabelece que uma pessoa deve esmerar-se em ler o Shemá e recitar a Amidá [principal oração suplicatória da liturgia judaica]. Os judeus têm três momentos de oração marcados por lei: Tefilat-sakarit [oração da manhã] Tefilat- Minká [oração da tarde] e Tefilat-Arvit [oração da noite]. Segundo a Mishná, o Shemá deve ser recitado na oração da manhã e na oração da noite, seguindo o preceito [mitzvá] da Torá: Estas palavras as inculcarás aos teus filhos e delas falarás, ao deitar-te e ao levantar-te (Dt. 6,7).

AS TRÊS PARTES DO SHEMÁ

A) PRIMEIRA PARASHÁ (Dt. 6,4-9): Parashá, em plural pareshot, é cada um dos parágrafos em que os massoretas [os fixadores do texto através de vogais sublinhares] dividiam o texto da Torá. Os Hahamim (rabinos) deduziram do texto, que fazia referência a certos momentos do dia e nos quais obrigatoriamente deviam ser pronunciadas estas palavras, que pertencem à primeira parashá ou trecho dos três que eram recitados no Shemá: (Dt. 6,4-9) Shemá [Ouve] Israel: Jahvé (hoje substituído por Adonai [meu Senhor], ou Hashem [o Nome]) Elohenu [nosso Deus]. Jahvé Ehad [único](4). We [e] ahabeta [amarás] eth [a] Jahvé Eliheika [teu Deus] bekol [com todo] lebabeka [teu coração] we [e] becol [com toda] nefeshka [tua alma] we [e] becol [com todo] meodka [teu poder] (5). Atualmente os judeus substituem Jahvé por H ‘. Devemos ler da esquerda para direita. O é o Yod, inicial das consoantes do nome de ‘HWH e H [o he], a segunda consoante, ou talvez a última de O Nome que eles traduzem como Hashem. Podemos ler com letras românicas o hebraico original em negrito, ao que acompanha em colchetes a sua tradução. O versículo 4 inicia-se com Shemá cuja última letra é E [y] e a última letra de Ehad é D. Com estas duas letras se forma a palavra ED que significa testemunho. Por isso estão escritas de forma destacada, como letras grandes, no livro da Torá. Porque este versículo era o escolhido pelos mártires judeus para morrerem com estas palavras pronunciadas no último suspiro de sua existência, tal como vemos no filme dos assassinados na olimpíada de Munique (1972). O grande Rabi Akiba, na época das perseguições do Império Romano, ensinava que bekol nefeshka [com todo teu ser] devia significar até o sacrifício da vida. No meio dos suplícios de seu martírio entoava o Shemá. Os discípulos estranharam ao ver o gozo com que ele entoava a oração e ele respondeu: Durante toda a minha vida, quando recitava o Shemá, me preocupava de quando poderia entender o que significava amar a Deus sem esperar recompensa. Agora chegou o momento de cumprir esse preceito. O momento da Shemá da manhã [Tefilá sakarit] é quando se colocam os Tefilim [filactérios] caixinhas de couro com rolos de pergaminho contendo quatro trechos ou parashot da Torá, que eram obrigatórios para recitar o Keriat [leitura] da manhã. A tradição afirma que o versículo 4 foi dito pela primeira vez pelos filhos de Jacó/Israel ao pai moribundo, quando este perguntou: meus filhos, estais bem firmes na vossa crença num único Deus? Em resposta, os filhos levantaram as mãos ao céu e disseram: Shemá Israel [ouve Israel ou Jacó], o Eterno é nosso Deus; o Eterno é um. Então Israel pronunciou de forma apenas audível o berahá [bênção] que também os judeus recitam em voz baixa: Bendito seu nome cujo Reino glorioso, para sempre. Como anedota contam que os Judeus hindus foram reconhecidos muitos séculos após sua diáspora porque recitavam esta primeira parte do shemá em hebraico, tendo esquecido por outra parte a língua de seus antepassados. O Tefilá da noite [Tefilá Arvit] era recitado ao se acostar. Finalmente o Tefilá da tarde [Tefilá Minká] era só recitado aos sábados, no dia de Yom Kippur [dia da expiação] e nos dias de jejum geral de todo o povo. Esta última recitação não era obrigatória por lei.

B) SEGUNDA PARASHÁ: Corresponde a Dt. 11,13-21. Se a primeira se dirige ao indivíduo, a segunda é para o coletivo. A primeira é o amor sublime em estado puro. A segunda é o amor prático. A primeira é o compromisso com o Eterno, a segunda é a compenetração com suas palavras e ações, pela qual se deve cumprir com certas prescrições: os tefilim [filactérios], os tzitzit [franjas], e o mezuzá [pergaminho] que consistia em escrever com as palavras do Shemá as jambas e os umbrais das casas. Atualmente o Mezuzá é um estojo que contém as duas parashás do Shemá e numa abertura se distingue a palavra Shadai [todo-poderoso] que dizem foi um composto das palavras Shomer [guardião] Delaot [portas] Israel. Além desses símbolos a serem usados na roupa, ou nas portas das casas, o judeu deve ensinar seus filhos, quer seja na casa ou no caminho fora da mesma, o significado do Shemá  (ver os desenhos).

C) TERCEIRA PARASHÁ: Nm 15, 37-41. O preceito do Tzitzit é determinado com os números correspondentes às letras pelo nome representados. Na recitação do Shemá, além do kipá ou solidéu, cobrem seus ombros com o talit, em forma de toalha, o manto ritual com as famosas listas azuis ou pretas paralelas aos lados mais curtos e que os fariseus ampliavam como distinção de sua piedade, segundo Mt 23, 5. Na parte superior que rodeia o pescoço tem um galão de prata ou ouro. E nos quatro cantos do retângulo pendem as borlas do Tzitzit como vemos na figura. O valor numérico da palavra TZITZIT é 600 junto com os 8 fios e 5 nós em cada canto chega a 613, o número total das mitvás [preceitos]da Torá, justo para se lembrar dos mesmos no momento da reza. Olhar para o tzitzit significa lembrar-se de toda a lei de Moisés.

Vemos nas figuras acima da esquerda para direita o Talit com os tzitzit correspondentes, os filactérios em forma de caixas com os cordões de couro para atá-los na fronte e no braço esquerdo e a mezuzá das casas.

O PAI NOSSO (1ª PARTE)

O PAI E O REINO: Disse-lhes, pois: Pai, o dos céus! Santificado seja o teu nome, venha o teu Reino (2). Voltemos à oração que Jesus ensinou. Lucas une num conjunto, que forma uma série à parte, três passagens dedicadas à oração: a fórmula do Pai Nosso, a parábola do amigo impertinente e algumas máximas sobre a eficácia da oração. Na antiguidade cristã temos três diferentes fórmulas sobre o Pai Nosso: esta de Lucas, considerada a mais antiga pela brevidade; a de Mateus 6,9-13 com três explicações de tipo catequético e a da Dídaque que é igual a de Mateus mas com uma doxologia no final.

PAI: Como início da oração temos um vocativo: Pai. A Ele nos dirigimos como filhos. É uma invocação que não só atrai a atenção divina como próxima de nossas vidas, mas também nos coloca em disposição de aceitar suas ordens e cumprir sua vontade. Esperamos seu carinho e sua bondade e oferecemos nossa debilidade e nossa confiança. Mateus acrescenta: "nosso", o dos céus (9,6). Na concepção tripartida do mundo, os céus eram do domínio absoluto de Deus, onde nada nem ninguém impedia a realização de seus planos. No AT também Javé era considerado como Pai, pois se fala de que o povo de Israel era filho de Deus e até seu primogênito (Ex. 4,22), como também o rei (2 Sm. 7,14). É pai como criador (Dt. 32,6), como ofendido pelo pecado de Israel (Jr 3, 4), como fonte de misericórdia e perdão (Sl. 103,13). Mas o emprego deste apelativo na oração individual é raro, por não dizer fora do comum. O início das orações judaicas era o de reconhecimento da majestade e transcendência de Deus. Os títulos de Rei, Senhor, são os mais usados. Um exemplo é o de Ester: "Ó meu Senhor, nosso Rei, tu és Único" (4,17) Na oração do Kadish [oração falsamente atribuída aos velórios], lemos: "Seja louvado e santificado o nome do Senhor, no mundo criado por Ele segundo sua vontade. Faça reinar seu reino na vossa vida e na vida de toda a estirpe de Israel agora e sempre Amém." Na oração Shemoné esré [das dezoito bênçãos], recitamos: Bendito sejas, Eterno [Jahweh], Deus nosso e de nossos pais , Deus grande, esforçado e terrível, Deus altíssimo. Bendito sejas, Eterno, Rei que ajuda, liberta e defende, defensor de Abraão. Como vemos pelos exemplos, os atributos que se invocam de Deus são o seu poder e senhorio e as suas ligações com o povo de sua escolha como defensor do mesmo contra seus inimigos. Nestas orações encontramos muito de retórica, exclusivismos e desejos de vingança contra inimigos, longe da simplicidade do Pai a quem nos dirigimos todos como filhos sem distinção. Como nota curiosa podemos trazer as citações em que o Pai Nosso era considerado por Tertuliano breviarium Totius Evangelii [resumo de todo o evangelho] e por são Cipriano coelestis doctrinae compendium [compêndio da doutrina celeste]. Por isso, na Igreja antiga, era transmitido solenemente ao batizando antes do batismo, submetido à disciplina do arcano [das verdades que não podiam ser reveladas aos não-cristãos]. Revelar que Deus era Pai dos novos batizados, os gerados de novo no batismo, o Abbá, do qual é a tradução literal grega Pater, era, segundo Paulo, a base do sentimento cristão. O termo Abbá [no original], recebido pelo espírito de adoção pelo qual clamamos: o Pai (Rm. 8,15). Da mesma forma, com as mesmas palavras temos Gl. 4,15 em que o ABBÁ é traduzido por o Pai. O que significa ABBÁ? Contrariando J. Jeremias, que diz significava papai, os modernos dizem que o Abbá era utilizado como tratamento dado por pequenos e adolescentes ao seu pai e também como tratamento a pessoas maiores (Mt. 23,9). No nosso caso, é uma nova relação íntima com o ser, que os judeus não ousavam de chamar pelo seu nome e até nem o escreviam, e que na língua vernácula representam pela grafia H’ de Yahveh [ler de esquerda direita], ou HÁ SHEM [o nome].

SANTIFICADO SEJA TEU NOME: tanto Mateus como Lucas têm a mesma súplica. É uma exclamação ou uma prece? Judeus e árabes, imediatamente após o nome de Deus, exclamam: "Seja ele bendito." Será também um louvor do orante e não, como temos aprendido, uma súplica para que Deus mostre sua presença transcendente? De fato o Kadish [traduzido por santificação] inicia-se com "Seja seu nome exaltado e santificado." Evidentemente é um desejo este do Kadish ou uma exclamação como quando os árabes após o nome de Alá exclamam "Bendito seja para sempre!" De modo que esta que comentamos é uma exclamação e não uma petição de que Deus mostre a transcendência de seu nome, que, por outra parte, não é mais Jahweh [ou Hashem traduzido por Eterno] mas Pai? A tradição vê, nesta que temos chamado de invocação exclamatória, uma petição que, por estar na passiva, parece ser súplica de que Deus atue de forma a demonstrar sua grandeza e realeza, como Daniel pede que sejam vistos seu poder e sabedoria de eternidade em eternidade (2,20). No Kadish, recitado ao fim da homilia na sinagoga, junto com O Nome justapunha-se a petição de que fosse exaltado, engrandecido e santificado, e que fizesse dominar sua realeza em nossas vidas e em nossos dias. Sem dúvida, que temos duas ações simultâneas: a divina, como absoluto domínio e a humana, como submetimento à vontade dos planos de Deus. Por isso na Shemoné lemos: "Tu és santo e santo é teu nome e os santos te louvarão sempre e cada dia. Bendito sejas, Eterno, Deus santo!" E na oração do Kadish temos esta bênção: "Seja bendito e santificado o nome do Senhor no mundo, por Ele criado segundo sua vontade. (…) Seja bendito, louvado, honrado, engrandecido e glorificado o nome do Santo. Seja ele bendito sobre toda bênção e todo canto, sobre todo louvor e toda consolação que se pronunciam neste mundo. Amém."

O REINO: tanto no Kadish como na Shemoné Esré temos alusões claras ao reino. Vamos citá-las. Kadish: No mundo que Ele criou segundo a sua vontade, seja estabelecido seu reino na vossa vida e nos vossos dias e na vida de toda a estirpe de Israel agora e sempre. Amém. E na Shemoné: Bendito sejas Eterno, Rei que ajuda, liberta e defende, defensor de Abraão (…) Faze que voltemos à Torá e aproxima-nos a teu serviço, Rei nosso, e faze que voltemos o rosto para a frente com íntegro arrependimento. Como podemos ver, o reino era uma aspiração constante nas orações do tempo entre os judeus. O simples adveniat regnum tuum [venha o teu reino] de Lucas é explicado por Mateus de forma breve, mas magistral: que tua vontade se cumpra na terra do modo que ela é acatada no céu. A universalidade do Reino é oposta à estrita e reduzida ideologia das orações judaicas em que o reino está fundado no triunfo político de Israel.

O PAI NOSSO (2ª PARTE)

O PÃO: O pão nosso, o necessário, dá-nos cada dia (3). Panem nostrum cotidianum da nobis cotidie

O PÃO: as petições em Lucas e Mateus sobre o pão coincidem com as mesmas palavras; só que Lucas usa o verbo em presente [dá contínuo] e Mateus em aoristo [dá aqui e agora]. A palavra que tem dado a diversas interpretações é epiousios. A opinião mais provável é que seu significado é seguinte como corresponde adjetivamente ao emera [dia] epiousia [seguinte]. Assim em At. 7,26: No dia seguinte, apareceu Moisés. Também a noite é seguida por epiousia At. 23,11. A tradução, pois, do texto seria: o pão nosso o de amanhã, dá-nos a cada dia. Esta tradução é confirmada pela versão antiga do evangelho dos nazarenos ou dos hebreus que usa a palavra MAHAR [prontamente] para traduzir: dá-nos [continua a dar-nos] hoje o pão do amanhã, ou seja, o pão que nos darás no teu reino. Com o presente imperativo de Lucas poderíamos traduzir: Continua a dar-nos (como sempre) o pão, o de amanhã, que vamos necessitar a cada dia. Uma outra tradução seria dar a epiousios o significado de necessário em que ousia não significa substância, mas existência e, portanto, epiousios significaria vital. A tradução seria: dá-nos o pão necessário a cada dia. Esta é a tradução preferida hoje em dia. A tradução incorreta de Mateus 6,11 do epiousios, como supersubstantialis [supersubstancial], pela Vulgata, dando origem a de que se pedia o pão eucarístico, está hoje descartada, já que a mesma Vulgata traduz a mesma palavra epiousios em Lucas por cotidianus [de cada dia], como temos visto no versículo que comentamos. É a tradução literal de Green: Give us our needed bread. Como nota curiosa damos as traduções da versão King James: Give us this day our daily bread (Mt. 6,11) e Give us day by day our daily bread (Lc. 11,3).

O PERDÃO: E remite-nos os nossos pecados, já que também nós remitimos todo devedor nosso; e não nos leves dentro (da) tentação, [mas livra-nos do maligno] (4).

OS PECADOS: Lucas fala de amartia [pecado], ofeilontes [os que estão devendo]; a tradução de amartia por pecado acontece uma única vez das 148 vezes que ela é traduzida como ofensa, enquanto Mateus usa ofeilema [dívida] debita latino / ofeiletas [devedores, como substantivo]. Já Lucas identifica dívidas com pecado quando o devedor é o homem e o sujeito da dívida, o próprio Deus. O tema do perdão também é típico do judaísmo da época. Rei nosso faz que voltemos o rosto para a frente com íntegro arrependimento (Shemoné ). Perdoa ao teu próximo a injustiça, e então ao rezares ser-te-ão perdoados os teus pecados (Eclo. 28,2). Mas não atinge os inimigos, nem os não pertencentes a povos diferentes de Israel. Pelo contrário, o perdão é básico na literatura cristã (Lc. 6,37). Perdão de Deus para nós, e perdão dos inimigos por parte dos homens que desejam se comportar como o Pai, segundo afirma Mateus no versículo seguinte (6,14-15). Em Mt. 5, 23 s Jesus fala sobre a importância de se reconciliar antes de oferecer o sacrifício ou de levar o contencioso ao juiz. E como norma de vida não devemos condenar para não sermos condenados (Mt. 7,1). O cristão se compromete a atuar como o Pai e propõe sua conduta como filho para que o Pai atue realmente como tal Pai. Sem dúvida que esta proposição não é muito bem aceita pelos que só propõem a fé como base da salvação. Aqui temos uma proposta baseada nos méritos, nas obras boas do homem, e não na fé confidencial. Jesus não afirma que não seremos perdoados se não perdoamos, mas oferece uma boa razão para Deus cumprir suas promessas: perdoar aqueles que demonstram misericórdia com o próximo. Além do texto anterior do Eclesiástico temos: Pela misericórdia e pela verdade se expia a culpa (Pr. 16,2)Ou mais claramente como afirma Tiago o juízo é sem misericórdia para com aquele que não usou de misericórdia. A misericórdia triunfa sobre o juízo (2,13).

A TENTAÇÃO: Lucas e Mateus usam a dupla eisfero/peirasmós [levar/prova]. Tudo depende de que classe de prova ou tentação é a referida no versículo. Peirasmós significa também tribulação e sofrimento. A causa da diversa interpretação deste parágrafo é o verbo com o qual se determina a ação divina: eisferö, significa introduzir, transportar, arrastar. Como Deus pode ser causa de uma tentação em que o homem não tem força para superá-la? Os termos em que está formulada a petição são os mesmos em que Jesus pede aos discípulos que orem para não entrar em tentação (Lc. 22, 40.46). Qual era a tentação a que estavam os discípulos propensos a cair nesse momento? Sem dúvida a de desertar de seu seguimento, ou por covardia, ou pelas dúvidas que a paixão de Jesus suscitaria neles (Lc. 24,21). Deus no AT é visto como tentando o seu povo (Ex. 16,4 e 20,20 entre outros). Ou seja, pondo o povo à prova. Ainda não existia a diferença entre vontade absoluta e vontade permissiva divina. Em Rm. 9,18 Deus endurece o coração de quem quer. Por isso suscitou e endureceu o coração do faraó para mostrar nele o seu poder, e assim seu Nome pudesse ser celebrado em toda a terra (Rm. 9, 17). Foram as disputas teológicas sobre a predestinação que fizeram a distinção entre absoluto e permissivas. Deus não quer o mal em absoluto, mas o permite porque de sua permissão resulta maior benefício para as criaturas e maior glória para sua divina Providência. Já o apóstolo Tiago afirma claramente: Quando alguém está tentado não diga que é Deus quem o tenta, porque Ele não tenta ninguém (Tg. 1,13). Temos o caso de Jesus no deserto. Ele foi levado pelo Espírito para ser tentado pelo diabo (Mt. 4,1). E as tentações de Jesus eram sobre a sua missão salvífica para desviá-lo da mesma, e assim se render às sugestões do maligno. Por isso muitos afirmam que a tentação da qual os discípulos pedem para serem liberados seria a da apostasia em relação a Jesus.

O MALIGNO: apo tou ponëros que a vulgata traduz por a malo. Evidentemente o ponerós não é um adjetivo, mas um nome e pode ser traduzido por maligno ou mal. Se optamos por maligno o personagem seria o diabo. Se optamos pelo mal pode ser até o sofrimento ou a enfermidade. O texto grego inclina-se pelo maligno ou malvado. O malum latino, pelo contrário, significa mal físico ou moral, com um segundo sentido com significado de o maligno. Em Lucas, o ponerós é quase sempre adjetivo significando mau ou perverso, sendo o adjetivo que acompanha os espíritos malignos  expulsos por Jesus. Maligno e inimigo é o que semeia o joio pois os filhos do maligno são o joio (Mt. 13,25+).O Maligno é o Diabo, que trabalha, arrebatando a semente do coração, para que os ouvintes não creiam e se salvem (Lc. 11,12). Precisamente esta é provavelmente a natureza do pedido desta última parte do Pai Nosso. Como final, devemos dizer que esta parte B do versículo falta na maioria dos códices e por isso o encerramos entre colchetes. É uma transposição do texto paralelo de Mateus 6,13. Tudo indica que o Pai Nosso de Mateus era a oração comum das comunidades eclesiais e por isso o versículo foi acrescentado em diversos códices mais modernos.

SEGUNDA PARTE: PARÁBOLAS

A) DO AMIGO

O AMIGO: E disse-lhes: Quem dentre vós terá um amigo e vier a ele à meia-noite e lhe disser: amigo, presta-me três pães (5), já que agora um meu amigo veio de caminho a mim e não tenho o que oferecêr-lhe (6). Lucas prossegue este discurso sobre a oração, da qual ele tanto gosta, com outras duas narrações típicas dele: A parábola do amigo inoportuno e uma série de conselhos sobre como é respondida a oração pelo melhor dos pais. A parábola é melhor compreendida quando estudamos os costumes da época na Palestina. O pão era a comida praticamente única dos menos ricos. Três pães respondiam à comida de um dia. O  pão era cozido  de manhã  cedo, após a dona-de-casa moer o trigo com um moinho de mão. Logo a farinha assim obtida, era misturada com água e em forma de grandes hóstias, como é o pão sírio atual, e era colocado sobre uma prancha quente até ser assado. O amigo chega de noite. Na realidade, as viagens, devido ao calor do dia, muitas vezes eram realizadas à noite, daí que fossem essas horas as da chegada do vizinho.

A RESPOSTA: e aquele, de dentro, tendo respondido, disse: Não me tragas moléstias agora; a porta está fechada e os filhos estão comigo no leito; não posso, levantando-me, te dar (7). As casas humildes tinham unicamente uma habitação, separando nela por um cortinado o himeneu [lugar dos esposos] que ficava no fundo da habitação em que dormiam os outros membros da família; e durante a noite todos dormiam sobre esteiras, de modo que para passar do fundo até a porta deviam se levantar todos os membros da família. Compreende-se a resposta do dono da casa: a porta esta trancada e meus filhos estão deitados.

CONCLUSÃO: Digo-vos: Se por acaso não dará a ele, levantando-se por ser ele um amigo, porém pela “cara-de-pau” dele, levantando-se dará a ele o quanto necessita(8). Porque todo o que pede recebe e o que busca encontra e a quem bate se abrirá (9). A palavra chave é anaideia que o latim traduz por falta de vergonha ou como diz Green pela sua desavergonhada insistência, que hoje chamaríamos melhor de inoportuna. Diante, pois, da insistência do inoportuno amigo, Jesus se atreve a concluir que certamente conseguirá os pães, mesmo que seja pela insistência se não for suficiente a amizade. E Jesus termina talvez com o que era provérbio na época que recalca a insistência na oração até de um ponto de vista meramente humano: Pedi e vos será dado. Buscai e encontrareis. Batei e abrir-se-vos-á (9). Mateus traz em lugar paralelo as mesmas palavras que parecem formar parte de um poema ou um aforismo: Pedi e vos será dado. Buscai e encontrareis. Batei e vos será aberto (Mt. 7,7). E ambos terminam com as mesmas palavras: Todo aquele que pede, recebe. E o que busca, encontra e ao que bate, abre-se. Não existe melhor trilogia para indicar que grande parte de nossas conquistas em todos os âmbitos têm como fundamento a oração e a constância.

B) DO PAI

O PÃO E O PEIXE: Pois a quem de vós, pai, pedirá pão o filho, jamais lhe dará uma pedra. E se um peixe, nunca dará no lugar do peixe uma serpente(11). Ou se lhe pedisse um ovo, jamais dará a ele um escorpião(12). Jesus, à parte essa conclusão que mais parece uma coleção de ditos populares anima seus discípulos a fundar sua vida na oração como base de confiança num Deus que é, desde a primeira invocação, apelidado de Pai. E compara esta paternidade divina com a humana: se um pai humano trata da melhor maneira possível seus filhos em necessidade, como o Pai verdadeiro deverá falhar com os que o invocam com tal título e nele depositam sua confiança e deixam em suas mãos suas esperanças? As antíteses são também clássicas ou populares como o demonstra o lugar paralelo de Mateus. Em Lucas, temos as antíteses pão/pedra, peixe/serpente e ovo/escorpião (ver 11-12). E Mateus de  pão/pedra, peixe/serpente (7,9-10). O peixe e a serpente d’água têm certa afinidade, especialmente se se trata de moreias, na época comida esquisita entre os romanos. O escorpião, quando se enrola parece uma espécie de ovo. E a pedra pode ter forma de pão. Mais importante do que a semelhança entre os termos é a qualidade dos produtos enumerados. O primeiro termo é bom; o segundo é um veneno ou um mal. A serpente e o escorpião eram modelos do mal ou do maligno.

CONCLUSÃO FINAL

ESPÍRITO SANTO: se, pois, vós sendo malvados sabeis dar boas dádivas a vossos filhos, quanto mais o Pai, o do céu, dará Espírito Divino aos que o pedem (13). No lugar do espírito divino de Lucas, Mateus fala de dar coisas boas (7,11). A vulgata traduz spiritum bonum [espírito de bem] Falta o artigo "o" diante do espírito, de modo que a versão da vulgata é correta. Para Lucas, esse espírito era a paz com todas as qualidades e atributos que semelhante expressão abrangia. Que devemos dizer? Tertuliano tinha toda a razão quando afirmava ser o Pai nosso o resumo de todo o evangelho: a oração de Jesus nos coloca frente à frente a um Pai, que é a revelação que Jesus veio anunciar e propagar a todos os homens. Viver a filiação era viver a oração do Pai nosso e era viver a essência do Evangelho, na intimidade com a divindade, e na fraternidade com a humanidade. Por isso podemos afirmar que a frase do grande apologista africano é verdadeira e exata.

PISTAS

1) A oração deve ser a forma usual de vida com Deus. É como uma conversa com um ser superior que Teresa chamava de Majestade; mas viver a familiaridade com Deus na intimidade do sentimento e do coração. Como temos visto nas múltiplas orações dos judeus, a adoração e a ação-de-graças devem ter prioridade. Sem elas é impossível se dirigir a Deus, pois com Ele nos enfrentaríamos como um igual a um igual, com a soberba de quem exige, não com a humildade de quem pede. O Pai Nosso é precisamente essa oração em que a santidade de Deus e sua vontade precedem às nossas necessidades.

2) As últimas preces se dirigem a quem como Pai pode remediar nossas deficiências: as vitais do corpo de cada dia, as espirituais necessárias do perdão, e a libertação de toda ação do maligno. Que este não tenha sobre nós o poder de uma tentação impossível de superar. Jesus pediu a seus discípulos essa oração na hora da escolha dolorosa da paixão. Sem essa súplica, o verdadeiro Espírito Divino não nos seria dado e facilmente seríamos arrastados pela tentação, pois o espírito está pronto, mas a carne é fraca (Mt. 26, 41).

3) Com as duas parábolas Jesus mostra que a oração deve ser até importuna mas constante e ao mesmo tempo confiante, pois a quem pedimos não é um estranho ou um inimigo, mas um Pai e um Pai boníssimo. E faz uma comparação analógica entre os pais terrenos e o Pai do céu, dando a este a preferência em bondade e amor.

4) Segundo Lucas, o objetivo principal da oração é a recepção de um espírito que provenha da parte de Deus porque o nosso espírito é de tendência ao mal, sendo como somos perversos e o espírito do maligno nos pode atingir com a tentação. Ver as coisas no seu verdadeiro valor é ter o Espírito Divino que rege suas atuações e deve guiar nossos passos. Sentir-nos como filhos e ver nos outros os verdadeiros irmãos é viver esse espírito que podemos chamar de espírito que vive a Paternidade em Deus e a filiação nos homens.

padre Ignácio, dos padres escolápios

 

Das três leis do astrônomo alemão Johannes Kepler (1571-1630), a segunda nos diz que os planetas, em suas elipses, movem-se mais rapidamente quando estão mais próximos ao sol que quando se movem no extremo das órbitas. Na vida espiritual, também é assim: movemo-nos mais rapidamente quanto mais perto estamos do Senhor, nosso Sol, através da oração, dos sacramentos, das boas obras.

Ao pedido “Senhor, ensina-nos a orar, como também João ensinou a seus discípulos” (Lc. 11,1), Jesus responde ensinando-lhes o Pai-nosso, a oração do Senhor (oratio Domini) ou oração dominical, por referência ao Dominus, Senhor. Os cristãos dos primeiros séculos tinham um respeito tão grande pela oração dominical, pelo Pai-nosso, que se tratava de uma oração que só era revelada aos que queriam ser cristãos e no curso do catecumenato ou preparação para a recepção do sacramento do batismo. Ao começo da quaresma, os que desejavam ser batizados se inscreviam nos livros da Igreja e entravam na luz (fotizomenoi), a partir desse momento começava um tempo de preparação imediata que durava toda a quaresma e que consistia em participar de várias catequeses e serem exorcizados; era uma espécie de retiro espiritual. Na quinta semana da quaresma se dava assim chamada traditio symboli, ou seja, a entrega e a explicação do Credo. No domingo anterior à Páscoa, tinha lugar a entrega e a explicação do Pai-nosso, a Traditio orationis. A cada traditio, entrega, correspondia uma reditio, a recitação, por parte do batizando, da oração que lhe fora entregue. Na vigília pascoal os que iam ser batizados faziam, voltados ao ocidente (símbolo das trevas), a apotaxis, ou seja, a renuncia ao demônio e às suas pompas; depois, voltados ao oriente (região da luz) eles faziam a syntaxis, a adesão a Cristo. Finalmente eram batizados em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Já eram cristãos!

Que bonito observar que a oração do Pai-nosso é realmente a oração dos filhos de Deus e, que, por tanto, propriamente falando, só a reza bem e com toda a sua significação aquele que é batizado. Um não-batizado poderia recitá-la, mas não teria a mesma eficácia nem a mesma capacidade de chegar ao coração de Deus que no caso de um batizado. O Pai-nosso é a oração dos filhos dele, de Deus.

Há vários comentários sobre o Pai-nosso. São Cipriano, por exemplo, aconselhava no seu tratado sobre essa oração, rezar considerando-se sub conpectu Dei stare”, ou seja, sob o olhar amoroso de Deus. Além desse conselho, façamos também como santa Teresinha do Menino Jesus: saborear em espírito de contemplação cada uma dessas palavras que saíram da boca de Jesus começando por considerar que Deus é Pai. Estar próximo dele, chamá-lo de Pai, amá-lo, garantir-nos-á uma velocidade impressionante no caminho rumo à santidade. Dessa maneira, seremos como um planeta na própria órbita girando sempre rápido em torno ao Sol.

padre Françoá Costa – www.presbiteros.com

 

O Poder da Oração

A oração constitui um dos elementos essenciais da vida cristã e do seguimento de Cristo.

As leituras bíblicas deste domingo nos mostram a experiência suplicante de Abraão por seu povo e Jesus, que reza e ensina seus discípulos a rezar.

Na primeira leitura (Gn. 18,20-32) aparece a comovente e atrevida oração de Abraão, em favor das cidades pecadoras, expressão magnífica da sua confiança em Deus e da sua solicitude pela salvação dos outros. Deus revelou-lhe o Seu desígnio de destruir as cidades de Sodoma e Gomorra, pervertidas ao máximo, e o patriarca procura deter o castigo, em atenção aos justos que, possivelmente, poderia haver entre os pecadores.

Apenas se salva a família de Lot, para testemunhar a misericórdia de Deus e o poder da intercessão de Abraão. A oração de Abraão é muito atual nos tempos em que vivemos. É necessária uma oração assim, para que todo o homem justo trate de resgatar o mundo da injustiça.

O Evangelho (Lc. 11,1-13) retoma o tema da oração. Jesus, solicitado pelos seus discípulos, ensina-os a orar: “Quando orardes, dizei: Pai, santificado seja o Teu nome. Venha o Teu reino” (Lc. 11,2). O cristão, autorizado por Jesus, chama a Deus de Pai, nome que dá à oração uma atitude filial, que pode derramar o seu coração no coração de Deus, apresentando-Lhe as suas necessidades, de maneira simples e espontânea, como indica o Pai-nosso.

Com a parábola do amigo importuno Jesus ensina a orar com perseverança e insistência, como fez Abraão, sem temer a ser indiscretos: “Pedi, procurai, batei”. Não há horas inconvenientes para Deus. Nunca se aborrece da oração humilde e confiada dos Seus filhos, mas antes se compraz com ela: “Todo aquele que pede recebe; quem procura encontra; e ao que bate abrir-se-á” (Lc. 11,10). E, mesmo que o homem nem sempre obtenha aquilo que pede, é certo que a sua oração não é em vão, pois o Pai celeste responde sempre com o Seu amor e a seu favor, embora de uma maneira oculta e diferente da que o homem espera. O mais importante não é obter isto ou aquilo, mas sim, que nunca lhe falte a graça de ser cada dia fiel a Deus. Esta graça está garantida ao que ora sem cessar: “Se vós que sois maus sabeis dar coisas boas aos vossos filhos, quanto mais o Pai do céu dará o Espírito Santo aos que O pedirem” (Lc. 11,13). No dom do Espírito Santo, estão incluídos todos os bens que Deus quer conceder aos Seus filhos.

Jesus retirava-se para rezar, com freqüência! E um dia, ao terminar a sua oração, disse-lhe um de seus discípulos: “Senhor, ensina-nos a orar… É o que nós temos de pedir também: Jesus, ensina-me de que modo relacionar-me contigo, diz-me como e que coisas devo pedir-te… Pois, se Jesus foi um homem orante, também os cristãos são chamados a serem homens e mulheres orantes. Para que possam transformar toda a sua vida numa comunhão profunda com Deus, importa dedicar espaços de tempo explicitamente ao exercício da oração. Sem dúvida a oração constitui uma profunda experiência pascal. Daí cuidarmos da vida de oração, pois a oração é o grande recurso que no resta para sair do pecado, perseverar na graça, mover o coração de Deus e atrair sobre nós toda a sorte de bênçãos do céu, quer para a alma, quer pelo que respeita às nossas necessidades temporais.

O ensinamento de Jesus sobre a perseverança na oração une-se com a severa advertência de que é preciso manter-se fiéis na fé; fé e oração vão intimamente unidas: “Creiamos para orar – comenta santo Agostinho – e para que não desfaleça a fé com que oramos, oremos. A fé faz brotar a oração, e a oração, enquanto brota, alcança a firmeza da fé.”

Aos jovens ensinava João Paulo II: “É preciso reconhecer humilde e realmente que somos pobres criaturas com idéias confusas, frágeis e débeis, com necessidade contínua de força interior e de consolação. A oração dá força para os grandes ideais, para manter a fé, a caridade, a pureza, a generosidade; a oração dá ânimo para sair da indiferença e da culpa, se por desgraça se cedeu à tentação e à debilidade; a oração dá luz para ver e julgar os acontecimentos da própria vida e da própria história na perspectiva salvífica de Deus e da eternidade. Por isto, não deixeis de orar! Não passe um dia sem que tenhais orado um pouco! A oração é um dever, mas também é uma grande alegria, porque é um diálogo com Deus por meio de Jesus Cristo! Cada domingo a santa missa e, se vos é possível, alguma vez também durante a semana; cada dia as orações da manhã e da noite e nos momentos mais oportunos!”

O que devemos pedir e desejar é que se cumpra a vontade de Deus: faça-se a tua vontade assim na terra como no céu. E este é sempre o meio de acertar, o melhor caminho que podíamos ter sonhado, pois é o que foi preparado pelo nosso Pai do Céu. “Diz-Lhe: – Senhor, nada quero fora do que Tu quiseres. Não me dês nem mesmo aquilo que te venho pedindo nestes dias, se me afasta um milímetro da tua vontade (são Josemaria Escrivá, Josemaria Escrivá, Forja, 512).

“Orai sem cessar”, diz-nos são Paulo. “Não sabes orar? – Põe-te na presença de Deus, e logo que começares a dizer: “Senhor, não sei fazer oração!…”, podes ter certeza de que começaste a fazê-la” (Caminho, 90). Continua são Josemaria no nº. 101 de Caminho: “Persevera na oração. Persevera, ainda que o teu esforço pareça estéril. A oração é sempre fecunda.”

mons. José Maria Pereira

 

ABRAÃO INTERCEDE EM FAVOR DE SODOMA

Abraão era amigo de Deus (Daniel 3,35). Tinha familiaridade com ele. Seu caminho de intimidade com Deus começou com sua vocação (Gênesis 12), depois com seu novo nome (Gênesis 17), e o ápice desse caminho se tornou visível na visita misteriosa dos três personagens que vem logo antes do nosso texto.

Se para Abraão as coisas iam bem, para Sodoma a situação chegou ao limite da catástrofe, e Abraão se empenhou totalmente em favor desta cidade, sede do pecado (Gênesis 13,3; Mateus 11,23).

Nosso texto serve-se de traços típicos da cultura daquele tempo e lugar, segundo a qual a pechincha e a negociação faziam parte das negociações e diálogos entre os chefes de clãs. Assim, Deus vai revelando sua misericórdia à medida que vai cedendo à pechincha de Abraão. Para Israel, Abraão era uma pessoa que sabia rezar.

O tema do diálogo entre Abraão e Deus é o pecado de Sodoma e Gomorra. O pecado destas duas cidades se concentrava nas injustiças praticadas. As queixas que chegavam ao Senhor eram um clamor por justiça e assim Deus estava prestes a tomar as medidas necessárias contra as duas cidades (v.21). Mas, antes disto, Deus revelou sua intenção a Abraão e este estava preocupado com a sorte dos justos daquela cidade. Acabou descobrindo que Deus não ia punir os justos e que estes acabariam salvando os ímpios (v.26).

Abraão é atrevido e vai além (v.27). Quer saber quantos justos serão necessários para salvar a cidade inteira. Aqui o diálogo se torna extremamente ousado, pois Abraão, diante da mesma resposta de Deus, vai reduzindo a percentagem, ou seja, o número de justos (vv.28-32), e assim estes, em número cada vez menor, continuam sendo a salvação para a cidade inteira. Com isso, o número de justos em Sodoma passa de 50 para 45, daí para 40, 30, 20, 10 e a resposta de Deus é sempre a mesma.

Neste diálogo com Deus, Abraão acabou descobrindo a misericórdia divina, aquilo que Ezequiel dirá mais tarde: “Eu não sinto prazer na morte do injusto. Se ele se converter de sua má conduta alcançará a vida” (Gênesis 18,23). Por esta atitude, Abraão acabou sendo em Israel a figura típica da pessoa que reza. Ele penetrou no fundo do ser de Deus, que estava à procura de um só homem para salvar a cidade (Jeremias 5,1), mas não o encontrou (Ezequiel 22,30).

No versículo 20, Deus diz: “Quero descer e ver”. Isto confirma a existência e a gravidade do mal, porque foi constatado pelo próprio Deus. Também em Gênesis 11,5 no episódio da torre de Babel, Deus desceu para ver.

No versículo 27, Abraão afirma ser pó e cinzas, dois símbolos de nulidade que indicam que a intercessão de Abraão não tem nada de arrogante, porque ele tem consciência de sua própria condição. Abraão confia só na bondade de Deus.

No versículo 32, Abraão considera dez o número mínimo. Abaixo disso não era lícito descer. Em Jeremias 5,1 e Ezequiel 22,30 encontramos a afirmação de que a salvação de uma comunidade pode depender apenas de um justo, que infelizmente não foi possível encontrar

Segunda leitura: Colossenses 2,12-14

REDENÇÃO, RESSURREIÇÃO E VITÓRIA FINAL DE JESUS CRISTO

Os cristãos de Colossos eram influenciados por ideologias alienantes, filosofias que começaram a gerar na comunidade uma visão fatalista da vida e da religião, agravada pela ação dos adversários de Paulo, que pregavam a necessidade da Lei para obter a salvação. Assim, pregavam a prática de uma religião alienante, baseada em ritos e sacrifícios, para acalmar as potências celestes. Os judaizantes insinuavam a idéia de um Deus distante, que só se tornaria próximo e amigo mediante a prática da Lei, cuja porta de entrada era a circuncisão. Para eles, a religião consistia no cumprimento rigoroso das normas, prescrições e proibições. Ora, tudo isso punha em risco os méritos da salvação de Cristo. De fato, não foi por causa da bondade do homem que Jesus veio ao mundo, mas por exclusiva misericórdia de Deus. Por isso, para Paulo a religião não é a prática rigorosa da Lei para agradar a Deus, mas a abertura ao amor misericordioso de Deus na pessoa de Cristo. O amor de Cristo apagou os pecados que a Lei apontava, por isso o homem não está mais sob o peso da Lei. Agora ele entra em comunhão com Cristo com a verdadeira circuncisão que é o Batismo. Sente a proximidade de Deus com o Batismo, pois com ele o homem morreu para a velha pertença adâmica (Romanos 5,1-12). Deu-se a morte total do homem velho e o nascimento do homem novo.

A Lei só apontava as transgressões do homem, mas não podia salvar. “Contra nós havia uma conta a ser paga” (v.14a), mas Cristo anulou esta conta pregando-a na Cruz (v.14b). É ele, portanto, o lugar privilegiado do nosso encontro com Deus e esse encontro se inicia com o Batismo. Nós tínhamos um documento escrito e assinado por nós que continha nossa condenação. Trata-se do famoso “chirógrafo” (escrito a mão), que denunciava nossas transgressões.

Evangelho: Lucas 11,1-13

PARÁBOLA DO HOMEM RICO: GUARDEM-SE DA AVAREZA

Lucas apresenta Jesus como aquele que reza ao Pai, sobretudo nos momentos decisivos de sua vida, e um desses momentos se insere na viagem para Jerusalém (9,51-19,27). O evangelista gosta de falar de Jesus em oração: oração no deserto (5,16), na escolha dos doze (6,12), nas duas epifanias: a do batismo (3,21) e a da transfiguração (9,28-29).

A oração de Jesus deve ter atraído a atenção dos discípulos e suscitado neles a vontade de rezar. Era, aliás, costume que os mestres dessem algumas diretrizes sobre a oração a seus discípulos.

Na oração de Lucas, em relação a Mateus, faltam dois pedidos: “Seja feita a vossa vontade” e “livrai-nos do mal”. São apenas cinco pedidos em vez de sete. Porém, isto não diminui em nada o seu conteúdo, já que alguns estudiosos (Jeremias e outros) vêem a oração como uma função da tradição materna.

A oração é muito rica, e foi definida na antigüidade como “síntese de todo o Evangelho” (Tertuliano). Ensina-nos um relacionamento inédito com Deus: chama-o de Pai (v.2a). É superior à forma como Abraão se relacionava com Deus: ele era amigo de Deus (1ª leitura). O cristão não é apenas amigo, mas filho de Deus. A invocação Pai manifesta a sensibilidade e a confiança do filho em relação ao Pai. Na oração pede-se para fazer os interesses do Pai, ressaltando o primado de Deus. Pede-se ao Pai que esteja ativamente presente na vida dos homens, para que estes possam reconhecer e apreciar tal presença. Pede-se que Deus seja conhecido e amado. A fórmula bíblica fala da santificação do nome (a própria pessoa de Deus) e da vinda do seu Reino, realidades já visíveis e operantes em Cristo.

Na espera e na construção diária do Reino, o cristão deve se empenhar caracterizando o NÓS da segunda parte da oração. Pede-se para todos: o pão de cada dia, em sentido material e espiritual, a capacidade de perdoar e de não cair em tentação.

Jesus lhes ensina uma oração nova. O novo está no modo como as pessoas se relacionam com Deus. Chamar Deus de Pai é uma relação nova, inédita. Deus não é tanto o Senhor, o juiz, mas o Pai. Portanto, Lucas coloca na oração do Pai-nosso cinco pedidos. Os dois primeiros (Santificado seja o vosso nome e Venha nós o vosso reino) provocam uma abertura para Deus. Os três últimos levam à transformação das relações entre as pessoas.

Em seguida vem uma parábola para elucidar a confiança na oração. A cena é tirada da vida familiar da Palestina. No tempo de Jesus, uma família de condição modesta possuía um único cômodo, que à noite se transformava em quarto para todos. Por isso há resistência ao vizinho que pede três pães, pois estava perturbando os que dormiam. Mas, diante da insistência dele, o pedido é atendido e assim se infunde uma confiança serena na intervenção de Deus, concluindo com a bondade do Pai que doa muito mais, ou seja, o Espírito Santo.

REFLEXÃO

O homem que reza tem as mãos no leme da história” (são João Crisóstomo). É o que nos dizem as leituras de hoje. A intimidade de Abraão com Deus não o isola nem o distrai. Ele intervém para orientar de outro modo o curso da história de Sodoma. A preocupação de Abraão não surtirá o efeito desejado e Sodoma será destruída. O trecho conserva, porém, o valor da intimidade com Deus que abre o homem generosamente para os outros na tentativa de tirá-los da morte. Se há um fracasso na tentativa de Abraão, ele está na impossibilidade de atingir o mínimo necessário de justos e não na mediação ou na força da oração. Abraão pôde intervir em benefício dos outros porque era íntimo de Deus.

As leituras nos orientam para a confiança na oração e a necessidade de insistir. Às vezes podemos perder o gosto pela oração porque a entendemos como uma relação mecânica com Deus. O Pai-Nosso nos ensina que devemos buscar primeiro o primado de Deus em nossa vida (Santificado seja o vosso nome), e com esta luz estaremos em condições de aceitar também que nossa oração não seja atendida.

O Pai nosso "Abba" é a palavra chave da oração de Jesus. Ele suscita em nosso coração um sentimento filial, que deve animar e vivificar nosso relacionamento vivo com Deus expresso nas palavras e no comportamento. “Que estais nos céus”. Ele está no alto, é totalmente Santo, tremendo, inacessível, porém é invocado como Pai que se aproxima de nossa pequenez e nos eleva até ele com ternura amorosa, “como alguém que levanta uma criança ao seu rosto” (Oséias 11,4).

A primeira coisa que Jesus nos faz pedir é a santificação do nome de Deus. Sua santidade encontra dificuldade de se manifestar devido ao nosso pecado. A beleza de Deus é o esplendor de sua santidade que quer irradiar-se, mas com o pecado nos opomos a essa irradiação e nos tornamos impenetráveis aos raios de sua beleza. Portanto, a primeira coisa que pedimos é que ele vença a opacidade de nossa miséria e nos faça transparentes à sua irradiação divina. Pedimos que seu nome não seja dito com blasfêmia, mas conhecido, aclamado e bendito e brilhe luminoso na santidade de nossa vida. Em suma, pedimos que nossa vida seja santa, porque o homem é um reflexo de Deus, criado à sua imagem e semelhança. Por isso deve ser santo como Deus é Santo.

Devemos colocar a santidade de Deus em nossa vida e transformar-nos com a escolha do amor aquilo que ele é. Devemos empenhar-nos em glorificar a Deus entrando no raio de sua glória e beneficiando-nos com o esplendor de sua beleza.

Venha a nós o vosso Reino”, “Seja feita a vossa vontade”. De fato, o Reino está no cumprimento de sua vontade, vontade salvífica que se manifesta e se realiza em Cristo. É como se disséssemos: “Cumpra-se em nós a vossa vontade, que é também o desejo do vosso Filho!”. A vontade de Deus é o projeto que ele tem para nós desde toda a eternidade.

Venha a nós o vosso Reino”. Este Reino já está presente, e é Cristo, e seu seguimento é norma de vida. Ele deve ser acolhido e amado, ou seja, devemos reconhecer a plena sabedoria de Cristo em tudo.

O pão nosso de cada dia nos dai hoje”. O pão indica tudo aquilo que é necessário para nossa existência temporal: alimento, roupa, casa, saúde, trabalho... Pedimos que ele nos ensine a repartir o pão que ele destina a todos. O obstáculo para o advento do Reino e da partilha fraterna é o pecado. Por isso, invocamos sua misericórdia e também nos dispomos a dá-la.

Não nos deixeis cair em tentação”. Deus não move o homem para a tentação, mas pode colocá-lo à prova, para ver o que há em seu coração, ou seja, as tentações que nascem do mal que já está dentro dele. O Demônio pode aproveitar para nos deixar confusos. Portanto, pedimos que ele nos dê forças para vencer os obstáculos.

Rezar é sempre difícil. Pois é difícil falar com alguém que não se vê. Por isso, os discípulos pediram a Jesus que lhes ensinasse a rezar. Rezar é como um avião que toma velocidade: os motores são acelerados ao máximo porque devem levantar da terra muitas toneladas. Rezar é levantar-se da terra para subir aos céus.

Sabemos que rezar não é fácil, sobretudo hoje. Muitos não rezam porque não sentem necessidade, outros porque pensam que isso leva à alienação, ou porque é uma ocupação inútil, improdutiva. Porém, por mais que o mundo progrida, o homem sempre terá necessidade do encontro pessoal com Deus.

Hoje as pessoas rezam pouco e mal. Muitos afirmam que não têm tempo por causa do ritmo vertiginoso do mundo, das preocupações com a família, do trabalho, das viagens, do lazer... Por isso há uma crise da oração, abandonando-se as práticas de piedade (missa, novena, via-sacra, visita ao Santíssimo...), assim como as fórmulas de oração (Rosário, Ângelus, Salmos...). As pessoas se esquecem de rezar ao levantar-se, ao deitar-se, ao iniciar uma refeição ou o trabalho. Porém, a oração não é monopólio dos contemplativos.

Na oração do Pai-Nosso, Jesus nos ensina a chamar Deus de nosso Pai, algo até então inaudito para o povo judeu, pois, nas milhares de vezes que Deus é mencionado no Antigo Testamento, apenas catorze vezes lhe é dado o nome de Pai. Ao chamarmos Deus de Pai vemo-nos todos como irmãos.

O Senhor se torna fiador de nossa oração: “Todo aquele que pede recebe, e aquele que busca encontra...”. Só partiremos de mãos vazias se formos auto-suficientes, pois o Senhor “encheu de bens os famintos e despediu os ricos de mãos vazias” (Lucas 1,53).

Devemos recorrer ao Senhor no sacrário como pessoas muito necessitadas diante daquele que tudo pode, como acorriam a Jesus os leprosos, os cegos, os paralíticos... “Rezar significa sentir a insuficiência pessoal nas diversas necessidades que se apresentam ao homem e fazem parte de sua vida: a própria necessidade de pão a que Cristo se refere, dando como exemplo o homem que acorda o amigo à meia-noite para pedi-lo a ele” (João Paulo II).

Ter a humildade de nos sentir limitados, pobres, carentes de tantos bens, e a confiança em Deus que é Pai incomparável que está sempre atento a seus filhos são as primeiras disposições com que devemos recorrer diariamente à oração. “Aprender quem é o Pai significa adquirir a certeza absoluta de que ele não poderá rejeitar nada”.

Quem pede recebe. Devemos pedir antes de tudo os bens da alma, com desejos firmes de amar cada vez mais o Senhor. Desejos autênticos de santidade em meio às circunstâncias em que nos encontramos. Devemos pedir bens materiais (saúde, bens econômicos, etc.) na medida em que servem para nos encontrar com Deus. Santo Agostinho disse: “Peçamos bens materiais discretamente e tenhamos a certeza, se os recebermos, de que são dados por quem sabe o que nos convém”.

Devemos pedir e desejar que se cumpra a vontade de Deus. “Senhor, não quero nada além do que tu queres. Não me dês nem mesmo aquilo que venho te pedindo, se me afasta um milímetro da tua vontade” (Scrivá).

Na primeira leitura de hoje, Abraão tenta salvar Sodoma regateando com Deus e invoca diante dele o tesouro imenso que são alguns justos. Dez justos seriam suficientes para que Deus salvasse Sodoma e Gomorra, pois as obras desses justos, colocadas numa balança, pesariam mais que todos os pecados daqueles pecadores. Por isso, devemos contar com as boas obras em vez de nos afligir com o mal. Deus tem outras medidas. “A oração de Abraão é muito atual nos tempos em que vivemos. É necessária uma oração assim, para que todo homem justo trate de resgatar o mundo da injustiça” (João Paulo II).

padre José Antonio Bertolin, OSJ - www.santuariosaojose.com.br

 

1º leitura - Gn 18,20-32

Abraão, modelo de fé, acolhimento e disponibilidade, é apresentado aqui como modelo de oração que brota de um relacionamento íntimo com Deus, relacionamento aberto, confiante, e ao mesmo tempo franco, sincero como também profundamente humilde. Abraão reconhece a grandeza do ser de Deus, o tamanho do seu coração justo e misericordioso, como também, da sua parte, reconhece a pequenez do seu ser; ele tem consciência de que é pó e cinza (v. 27). O assunto desse impressionante diálogo é Sodoma e Gomorra. O v. 20 insinua que o pecado deles é a injustiça. Em 19,5 percebemos que a injustiça no campo social destrói e perverte o relacionamento entre as pessoas, conduzindo-as às aberrações de todos os tipos.

A primeira preocupação de Abraão e sua descoberta

Deus está disposto a destruir as cidades de Sodoma e Gomorra. Abraão intercede questionando a justiça de Deus. Deus vai destruir o justo juntamente com o injusto? A primeira descoberta é que Deus não vai destruir o justo com o injusto e mais ainda que Deus é capaz de salvar a cidade toda por causa de alguns justos.

A segunda preocupação de Abraão

Quantos justos são necessários para salvar a cidade inteira? E aqui percebemos a beleza do diálogo, onde se entrelaçam intimamente, ousadia, atrevimento, delicadeza e humildade. Ousadamente, mas com uma delicadeza e respeitos profundos, Abraão conseguiria obter de Deus a salvação da cidade através de apenas 10 justos. Abraão na sua oração de intercessão conseguiu do coração misericordioso de Deus abaixar o número de 50 para 10. Mas por que parou? Parou por quê?

A misericórdia de Deus é infinita

Abraão quis descobrir o tamanho da misericórdia de Deus. Ele caminhou certo, mas pôs limites à misericórdia do Onipotente. Ele descobriu segredos importantes no mistério do amor divino; de fato Deus não destrói o justo com o injusto, pelo contrário, ele valoriza a intercessão do justo. Depois, pelos profetas e pelo Segundo Testamento, ficamos sabendo que Deus não quer a morte do pecador, mas que ele viva (Ez 33,22). Abraão descobriu alguns segredos da misericórdia, mas ele não sabia que Deus andava procurando por um único justo para justificar a salvação da cidade dos homens. Isto os profetas vão intuir (cf. Jr 5,1; Ez 22,30). Mas só um homem vai conseguir reunir a justiça e agradar o coração misericordioso de Deus. E este homem é seu Filho Jesus Cristo (Jo 3,16-17). Através desse único justo Deus salva a humanidade inteira.

2º leitura – Cl. 2,12-14

Lembramos mais uma vez o pano de fundo da carta. Do lado de fora, muita influência de vãs filosofias pagãs, atribuindo a forças intermediárias o mesmo valor de Jesus Cristo, como se Jesus fosse um entre tantos mediadores entre Deus e os homens. Do lado de dentro, a imposição da Lei por parte dos cristãos judaizantes como se a Lei tivesse poder salvífico. No fundo, os colossenses estavam começando a confundir tudo, estavam querendo como os pagãos acalmar a divindade através de rituais e submissões a detalhes de leis e prescrições. A porta para a submissão aos detalhes da Lei era a circuncisão. Por outro lado, a porta de entrada para a religião da liberdade é o batismo. A religião é fundamentada não na Lei, mas na graça, no amor de Cristo. O batismo cristão é morte para o pecado e ressurreição para uma vida nova. Nós estamos mortos pelo pecado, mas Deus nos concedeu a vida juntamente com Cristo.

O que Cristo fez por nós?

O texto de hoje quer mostrar exatamente isso. Jesus fez o que a Lei não tinha capacidade de fazer. A Lei apenas apontava transgressões. Jesus, ao contrário, perdoou as nossas faltas. Contra nós havia um título de dívida. Jesus anulou esta dívida, ele pregou este título na cruz, fazendo-o desaparecer. Tudo que devíamos a Deus foi pago por Jesus Cristo, e a Lei que nos fazia endividar perdeu o sentido. Vivemos agora não uma religião de méritos, mas a gratuidade do amor de Deus em Cristo. Entramos nessa novidade de vida através do batismo.

Evangelho – Lc. 11,1-13

 Estamos, sem dúvida, diante de uma catequese sobre a oração. Lucas quer ensinar a oração ao povo convertido do paganismo, que não estava habituado a rezar ao Pai misericordioso. Ele usa os ensinamentos de Jesus de um modo adequado à sua comunidade, por isso sua catequese sobre a oração é diferente da de Mateus. Jesus não pretende nos ensinar uma oração, mas, sobretudo, um novo modo de rezar. Os mestres daquele tempo (como João Batista) ensinavam seus discípulos uma oração como síntese dos seus ensinamentos. Jesus vai na mesma linha e mostra como síntese da vida cristã um relacionamento novo com o Pai e com os irmãos. Primeiro, Jesus mostra o relacionamento com o Pai: "Pai santificado seja o teu nome. Venha o teu Reino." O nome expressa a identidade da pessoa. Deus é para nós um Deus de amor, um Deus que é Pai, mais ainda, um Deus que é papai, paizinho, Pai querido. Jesus nos mostra um Deus íntimo de nós. Ele é santo e quer ser o Pai de uma família unida, fraterna e solidária. É neste Reino que Deus quer reinar. Em seguida, Jesus mostra como deve ser o relacionamento entre seus filhos. "Dá-nos a cada dia o pão cotidiano". Este pão cotidiano é aquele dom de Deus, que preenche a vida do homem em todos os sentidos. A cada dia, quer salientar que os bens da criação pertencem a todos. Devemos ter confiança que este pão não vai faltar na mesa de ninguém, se soubermos partilhar a vida abundante que Deus deu para todos. O perdão que Deus nos dá está condicionado, de um modo muito claro, ao perdão que damos aos outros. O último pedido: "Não nos introduzas em tentação". É muito mais sério do que parece. No fundo significa: não nos deixeis perder a fé. Essa é a grande e perigosa tentação para a comunidade cristã que vive num mundo pagão e estruturalmente injusto, mais voltado para os ídolos e caricaturas de Deus do que para o verdadeiro Deus.

Os vv. 5-13 querem fundamentar a confiança na oração. A confiança deve ser total. A gente deve rezar com a certeza de ser atendido e insistir sem achar que está amolando. Nem um amigo entre nós nega o que pedimos. Ainda temos uma novidade, o Pai do céu nos dá muito mais do que pedimos, ele nos dá o dom total, o Espírito Santo.

dom Emanuel Messias de Oliveira - www.diocesedeguanhaes.com.br

 

Era um vez um amigo, que tinha um amigo, que por sua vez tinha outro amigo… E esta bem podia ser a história de três amigos, à volta de três pães, numa noite, de surpresas e incômodos! Mas é uma parábola, sobre a oração! Nela Jesus vinca muito mais a certeza de ser atendido pelo amigo, do que a insistência de quem pede. Jesus quer falar-nos de Deus, de seu Pai, e de como Ele se porta e comporta conosco, quando batemos à porta trancada! À luz da parábola, permitam-me dez sugestões na ementa, antes de pedirem o que querem sobre a mesa. São dez provocações, para uma verdadeira arte de rezar e de pedir.

1. Não tenhas medo, nem vergonha de pedir ou de suplicar, na tua oração. Afinal Tu és um ser incompleto, uma criatura frágil, que clama, chama e reclama a atenção amorosa de alguém. Estás tu bem consciente de quem sem Deus, nada podes alcançar! Pedir é colocares-te na posição correta, diante de Deus! Afinal todo «o homem é um pobre, que tudo precisa de pedir a Deus» (santo Cura d’Ars)!

2. Não rezarás nem pedirás seja o que for a Deus, com o medo infantil de um estranho que se dirige a um outro Ser ainda mais estranho. Atreve-te a pedir a Deus, como um «pobre amigo» a um «rico amigo», com quem tens toda a intimidade e confiança! «A oração é afinal um tratado de amizade, com Aquele que sabemos que nos ama»! (santa Teresa de Ávila)!

3. Não rezarás nem pedirás, como um escravo ou ceguinho, medroso do seu senhor, que permanece um eterno desconhecido. Pedirás, humilde e confiante, como um filho a um Pai, que conhece as tuas necessidades, antes de as confessares, mesmo se não reconhece algumas das tuas necessidades artificiais.

4. Não rezes, apresentando a Deus, com petulância, os teus pedidos, como se tivesses de instruir a sua ignorância, explicando-lhe, com detalhes, tudo quando, quanto, como e o que deve fazer! “Quanto menos palavras, mais perfeita é a oração” (Lutero)!

5. Não cairás na tentação, que te leva a crer que Deus está às tuas ordens, ao teu serviço, e à tua disposição, pronto a atender a todos os teus humanos caprichos! Se rezas, é para pedir a Deus, não o que tu queres, mas o que Deus quer, e assim conformares os teus desejos à vontade de Deus. A oração é assim uma oficina do desejo! Pedirás “não o que te irrompe o coração, mas o que rompe o coração de Deus”! (Magaret Gibb).

6. Não reduzirás a tua oração e os teus pedidos a Deus, a momentos aflitivos de urgência ou de emergência, mas acordarás tu para Deus, que te está presente no quotidiano da tua vida, sempre e em toda a parte! Não rezes, portanto, para «acordares» ou «recordares a Deus» alguma coisa. Reza para te acordares e te despertares, tu que dormes, e assim a luz de Cristo, brilhará na noite da tua indigência (cf. Ef. 5,14)!

7. Não desconfiarás nunca do interesse de Deus por ti. Deus quer escutar-te e não deseja senão escutar-te. Não tentes forçá-lo a ouvir-te, quando Ele o faz sem cessar. Não queiras tê-lo à mão. Ele leva-te e eleva-te sempre mais além de Ti. A Oração é como um raio laser, que concentra a mente e dilata a alma! Se Deus te demora a responder, é para que, entretanto, a tua alma se dilate, para receberes tudo o que ele tem para te dar, em tempo oportuno.

8. Não digas nunca que Deus não te ouve, que não atende o teu pedido. “O que se passa é que Ele te lança o desafio, de viveres agora a vida, de modo diferente”. (J. Chittister). No seu silêncio, Deus dir-te-á: «continua o caminho, as dificuldades são as mesmas. Mas agora irás enfrentá-las-ás, com a minha força».

9. Não peças nada a Deus, que tu próprio possas, responsavelmente, alcançar. Não peças nada a Deus, que tu próprio devas dar. Não lhe peças senão o essencial pão de cada dia, o perdão dos pecados e auxílio na luta. Ou melhor, de Deus, espera apenas Deus! Deseja a Deus, sobre todas as coisas, mais do que todas as coisas, que lhe pedes! Olha que “se vertem mais lágrimas, pelas preces atendidas, do que pelas preces não correspondidas” (Santa Teresa de Àvila). 

10. Não julgues saber com clareza o que pedir, na oração! Pede, em primeiro lugar, o Espírito Santo, o dom de Deus, essa pessoal e divina prenda, que ultrapassa todas as coisas boas, que possas pedir ou imaginar. Ele vem em auxílio da tua fraqueza (cf. Rom. 8,26). Reza em ti e intercederá por ti, para pedires o que mais convém: a glória do nome de Deus, a vinda do seu reino, a começar dentro de ti e a irradiar a partir de ti, à tua volta!

E eu dir-te-ia, para terminar, pensando ainda na parábola dos três amigos, aplicada a estes dias de férias: vale mais ter a Deus como companheiro de viagem, do que um desconto no bilhete! Quem a Deus tem, nada lhe falta! Nestes dias, faz da tua oração «a chave da manhã e o ferrolho da noite» (Gandhi)! Mantém-te desperto, que «a oração é realmente uma história de amigos inoportunos» (cf. A. Maillot)!

padre Amaro Gonçalo - www.abcdacatequese.com

 

A oração: uma luta com Deus

Qualquer que seja a religião a que pertençam, os crentes rezam. Também os cristãos rezam. Rezam por quem está doente, por quem não tem um trabalho, pelo filho que anda com más companhias, pelas famílias que não se entendem. Pedem a Deus que mande chuva, abençoe as colheitas, proteja das desventuras. Hoje em dia, este tipo de oração é ridicularizado por algumas pessoas, deixa indiferentes outras e suscita muitas interrogações nos crentes. Por que motivo rezar, se Deus já conhece aquilo de que precisamos e está sempre disposto a conceder-nos todo o bem? Até mesmo perante as súplicas mais angustiantes, muitas vezes Ele cala, deixa que os acontecimentos sigam o seu decurso aparentemente absurdo. Tudo procede como se Ele não existisse e o seu inexplicável silêncio leva a exclamar: «Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?» (Sl. 22,2). O diálogo com Ele chega a assumir tons dramáticos, transforma-se em discussão, em disputa aberta. Jeremias dirige-lhe uma acusação quase blasfema: «Serás para mim como um riacho enganador de água inconstante» (Jr. 15,18). És como as torrentes primaveris que, ao derreter das neves, correm impetuosas, mas nos meses de seca, quando as caravanas de Sabá lá chegam, sedentas, estão áridas, sem água (Jb. 6,15-20). Quereríamos um Deus complacente, que garantisse os nossos sonhos. Mas Ele, pelo contrário, tenta libertar-nos das nossas ilusões, arrancar-nos às nossas mesquinhices, à nossa rudez, aos desejos vãos, para nos fazer participar dos seus projetos. A oração torna-se assim uma luta com o Senhor, como a que manteve Jacob, durante toda a noite, junto ao rio Jaboc (Gn. 32,23-33). Sai vencedor quem se rende a Deus. PRIMEIRA LEITURA Abraão não é somente um modelo de fé e de hospitalidade – como vimos no domingo passado – mas também de oração. Um dia – narra a história – o Senhor revela-lhe a sua decisão de ir a Sodoma para verificar as queixas que chegaram até Ele acerca da malvadez dos seus habitantes. Naquela cidade, Abraão tem um sobrinho e começa a interceder para que Sodoma seja poupada, por amor dos justos que aí se encontram. Fala-lhe como um amigo, a sua oração não é um suceder-se de fórmulas memorizadas ou lidas num livro, não é uma cantilena pronunciada distraidamente, é um diálogo espontâneo e sincero. A cena é descrita com a típica linguagem florida dos orientais. Parece que estamos a assistir ao encontro entre dois mercadores do suq da cidade velha de Jerusalém. Abraão regateia o preço, começa por descer de cinquenta até quarenta e cinco, depois a quarenta e, visto que o Senhor está disposto a negociar, ganha coragem e desce ainda, já não de cinco em cinco, mas de dez em dez. Na realidade, a mensagem teológica do texto é muito profunda: quer relevar a magnanimidade de Deus, aquela infinita misericórdia que a pessoa progressivamente descobre, precisamente mediante a oração. Dá vontade de perguntar: por que é que Abraão se ficou pelos dez? Jeremias e Ezequiel ousarão descer ainda mais, intuirão que Deus perdoará ao seu povo se encontrar um só justo: «Percorrei as ruas de Jerusalém, olhai e informai-vos; procurai nas praças, vede se nelas encontrais alguém que pratique a justiça; que busque a verdade; e eu perdoarei à cidade» (Jr. 5,1; Ez. 22,30). Hoje, nós encontramos aquele único justo e estamos certos do perdão de Deus. SEGUNDA LEITURA Se nos arquivos de um juiz fosse conservado um documento que comprova as nossas transgressões às leis, nós não viveríamos serenos e tranquilos. Um dia, este documento poderia ser dado a conhecer e causar a nossa condenação. Contra nós – diz Paulo – estava arquivado nos céus um livro onde estavam assinaladas todas as nossas «dívidas». E eram mesmo muitas. O que fez Deus? Pegou naquele documento e rasgou-o, pregou-o na cruz. Já não temos motivo para ter medo (v. 14). No batismo, a nossa vida antiga, os nossos pecados foram destruídos e agora, ressuscitados com Cristo, levamos uma vida completamente nova. EVANGELHO Nenhum evangelista insiste tanto no tema da oração como Lucas, que em sete ocasiões lembra que Jesus rezava. Estava em oração – diz ele – no momento do batismo (Lc. 3,21); «retirava-se para lugares solitários e aí se entregava à oração» durante a vida pública (Lc. 5,16); rezou quando escolheu os discípulos (Lc. 6,12) e antes de lhes pedir que se pronunciassem acerca da sua identidade (Lc. 9,18); estava em oração no momento da transfiguração (Lc. 9,28-29) e quando ensinou o Pai Nosso (Lc. 11, 1). Rezou, sobretudo, no momento mais dramático da sua vida, no Getsêmani (Lc. 22,41-46). Para além destas anotações, Lucas relata ainda cinco orações de Jesus. Destas quero recordar duas, comoventes, pronunciadas na cruz: «Perdoa-lhes, Pai, porque não sabem o que fazem» (Lc. 23,34) e – são as suas últimas palavras antes de morrer – «Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito» (Lc. 23,46). É quanto basta para demonstrar que toda a vida de Jesus foi marcada pela oração. A lucidez das suas escolhas, o seu equilíbrio psicológico, a sua doçura unida à firmeza explicam-se com a sua perfeita relação com o Pai, relação essa estabelecida mediante a oração. Ele não rezou para pedir favores, para ter um desconto nas dificuldades da vida, não pediu a Deus que modificasse os seus projetos, mas que lhe desse a entender qual era a sua vontade, para a poder fazer sua e assim a cumprir. O trecho de hoje é uma catequese sobre a oração. Começa por apresentar a circunstância em que Jesus ensinou o Pai Nosso (v. 1), depois continua apresentando a oração do Senhor (vv. 2-4) seguida de uma parábola (vv. 5-8) e conclui com as palavras com que Jesus garante a eficácia da oração (vv. 9-13). Examinemos cada uma destas partes. Antigamente, os movimentos religiosos eram caracterizados não só pelas verdades em que acreditavam e pelas normas éticas que observavam, mas também por uma oração onde estava sintetizada a sua fé e a sua proposta de vida. Também o Baptista tinha ensinado uma aos seus discípulos. Um dia, os apóstolos aproximam-se de Jesus e pedem-lhe que componha uma para eles (v. 1). Respondendo a este pedido, Jesus ensina-lhes o Pai Nosso. Aqui está – exclamam muitos cristãos – a mais bela de todas as orações! É melhor do que a Ave Maria, do que a Salve Rainha, do que o Requiem Aeternam, porque foi pronunciada por Jesus. Esta afirmação parte do pressuposto que o Pai Nosso seja uma fórmula de oração a acrescentar às outras. Mas não é assim. O Pai Nosso não deve ser posto ao lado das outras orações, mas ao lado do Símbolo dos Apóstolos porque, assim como o Símbolo, é um compêndio da fé e da vida cristã. Na Igreja primitiva os catecúmenos aprendiam-no diretamente da boca do bispo. Era a surpresa, a prenda que ele dava a quem tinha pedido para se tornar cristão. Entregava-o aos catecúmenos oito dias antes do seu batismo e estes, durante a celebração da noite de Páscoa, restituíam-no, isto é, recitavam-no pela primeira vez juntamente com a sua comunidade. Por este motivo, seria muito bonito recitá-lo de vez em quando junto à fonte batismal. Pai (v. 2) Diz-me como rezas e dir-te-ei em que Deus acreditas. A pessoa que não acredita não reza porque não tem um interlocutor e considera alienante procurar obter de outra pessoa as soluções que cada um deve encontrar sozinho. Os crentes rezam, mas as modalidades são variadas, porque a cada fé religiosa corresponde uma imagem de Deus diferente. Para alguns, Deus é apenas uma força cega, impessoal, às vezes benéfica, outras vezes maléfica, imprevisível, até mesmo caprichosa; para outros é um interlocutor anónimo; e para outros ainda um «ente supremo», um juiz severo, um «patrão absoluto de todas as coisas» de quem apenas nos podemos aproximar se formos acompanhados por um anjo ou por algum santo que faça de mediador. Para os cristãos, Deus é o Pai por quem todos foram pensados e amados «quando estavam a ser formados, sem que ninguém o pudesse ver» (Sl. 139,15). Quando se dirigem a Ele – estando em pé (não de joelhos) – chamam-lhe Pai (v. 2). Recorrem a Ele diretamente e com confiança, não sentem necessidade nenhuma de proteções ou recomendações, entram na sua casa porque a porta está sempre aberta de par em par e se, como o filho pródigo, por vezes se afastam, sabem que podem voltar e ser bem acolhidos. «Santificado seja o vosso nome» (v. 2) É o primeiro auspício que aflora nos lábios do cristão quando se dirige ao Pai. Revela o desejo irreprimível de ver realizado o sonho de Deus. A forma passiva da expressão equivale – na linguagem bíblica – a santifica, ó Deus, o teu nome. Não nós, mas Ele deve manifestar a santidade do seu nome. Como? Ao longo dos séculos – diz a Bíblia – Israel profanou o nome do seu Deus, não porque blasfemasse, mas porque, com as suas infidelidades, o impedia de manifestar o seu amor e de realizar a sua salvação (Ez. 36,20). O nome de Deus não é «santificado» ou glorificado quando muitos o aplaudem, quando aumenta o número das pessoas que participam em solenes liturgias e cerimônias nos templos, mas quando a sua salvação atinge a pessoa. Um pobre que obtém justiça, um coração libertado do ódio, um pecador que volta a ser feliz, uma família onde é reconstruído o entendimento e a paz «santificam o nome de Deus», porque são a prova de que a sua palavra realiza prodígios. No Pai Nosso o cristão auspicia que Deus, logo que possível, cumprirá a promessa feita pela boca de Ezequiel: «Quero santificar o meu santo nome, que vós aviltastes, profanastes entre as nações, para que eles saibam que Eu sou o Senhor – oráculo do Senhor Deus – quando a seus olhos for santificado por vós. Eu vos retirarei de entre as nações, recolher-vos-ei de todos os países e vos reconduzirei à vossa terra. Derramarei sobre vós uma água pura e sereis purificados; Eu vos purificarei de todas as manchas e de todos os pecados. Dar-vos-ei um coração novo e introduzirei em vós um espírito novo: arrancarei do vosso peito o coração de pedra e vos darei um coração de carne. Dentro de vós porei o meu espírito, fazendo com que sigais as minhas leis e obedeçais e pratiqueis os meus preceitos. Habitareis no país que dei a vossos pais; sereis o meu povo e Eu serei o vosso Deus» (Ez. 36,23-28). Quando pede: seja santificado o vosso nome, o discípulo declara ao Pai a sua própria disponibilidade para se deixar envolver, colaborar com ele para que esta promessa de bem se realize. Não conhece «nem o dia nem a hora» (Mc. 13,32), mas tem a certeza de que a sua oração será atendida. «Venha o vosso reino» (v. 2) A experiência da monarquia em Israel foi uma desilusão, como testemunham as dramáticas denúncias feitas pelos profetas: «Os teus governantes são rebeldes, companheiros de ladrões. Andam todos à procura de regalias e de recompensas. Não defendem o direito dos órfãos nem se interessam da questão das viúvas» (Is. 1,23). O povo sente a necessidade de um reino novo no qual os destinos do País não sejam orientados pela avidez, o frenesim do poder, os interesses egoístas, mas pelos pensamentos de Deus. Inicia a expectativa do dia em que o Senhor assumirá pessoalmente os destinos do seu povo e será rei. O Salmista canta assim a maravilha desse reino: «Em seus dias florescerá a justiça e uma grande paz até ao fim dos tempos. Haverá nos campos fartura de trigo, ondulando pelo cimo dos montes; tudo se cobrirá de frutos, como o Líbano; as cidades florescerão como a erva dos prados» (Sl 72, 7.16). Também os profetas sonham com esse dia: «Que formosos são sobre os montes os pés do mensageiro que anuncia a paz. Que apregoa a boa-nova, e que proclama a salvação. Que diz a Sião: “O rei é o teu Deus”» (Is. 52,7). A expectativa, no tempo de Jesus, é febril. Na terceira das dezoito Bênçãos, os israelitas piedosos pedem a Deus: «De onde estás, ó nosso rei, resplandece e reina sobre nós, porque nós esperamos que tu reines em Sião.» As esperanças suscitadas pelas profecias geram também ilusões, falsas expectativas, mal-entendidos dos quais resultam revoltas mal pensadas que terminam em banhos de sangue. Não é «deste mundo» o Reino que constitui o fulcro da pregação de Jesus. No Novo Testamento fala-se cento e vinte e duas vezes do «reino de Deus» e noventa pela boca de Jesus. Ele afirma: «Mas se Eu expulso os demônios pela mão de Deus, então o Reino de Deus já chegou para vós» (Lc. 11,20) e proclama: «O Reino de Deus está entre vós» (Lc. 17,21). Terminou o tempo da expectativa, todavia, o cristão continua a suplicar a sua vinda porque o reino de Deus está ainda no início, deve desenvolver-se e crescer em cada pessoa como semente de bem, de amor, de reconciliação, de paz. A oração faz com que se evitem equívocos trágicos, ajuda a discernir entre os reinos deste mundo (que procuram seduzir e atrair) e o reino de Deus. «Dai-nos em cada dia o pão da nossa subsistência» (v. 3) Entre os povos orientais onde cada grupo familiar tinha o seu forno, o pão era bem mais do que um simples alimento para consumir. Evocava sentimentos, emoções, relações de amizade que nós, hoje em dia, ignoramos. Era uma chamada de atenção à generosidade e à partilha com os mais pobres: não se podia comer sozinho (Jb. 31,17), o pão devia ser sempre partilhado com quem tinha fome (Is. 58,7). O pão era sagrado, não podia ser deitado ao lixo, não se cortava com a faca, mas partia-se delicadamente. Só as mãos do homem eram dignas de o tocar porque tinha algo de sagrado: o trabalho do homem e a benção de Deus que tinha concedido ao seu povo uma terra fértil e tinha mandado a seu tempo a chuva e o orvalho. É o trabalho do agricultor que nos dá o pão. Então, o que é que pedimos a Deus: que trabalhe por nós? Faz sentido pedir-lhe aquilo que somos capazes de arranjar sozinhos? Não corremos o perigo de cair na alienação e no obscurantismo? Examinemos cada detalhe do pedido: pedimos o nosso pão. Do maná nunca se diz que é nosso: chovia do céu, era unicamente dom de Deus (Ne. 9,20). O pão, pelo contrário, é ao mesmo tempo dom de Deus e fruto do suor, da canseira e do sacrifício do homem, e por esse motivo pode justamente ser considerado nosso. O pão abençoado por Deus é o que se produz «juntamente» com os irmãos, o que se obtém da terra que Deus destinou a todos e não apenas a alguns, o que não é feito com as lágrimas do pobre explorado. Recitar o Pai Nosso significa questionar-se constantemente, porque não se pode rezar com sinceridade e autenticidade pensando unicamente no próprio pão, esquecendo o pobre, não se empenhando para alcançar a justiça social. Não pode pedir a Deus o pão nosso quem não trabalha, quem vive à custa dos outros. Pedir o pão de cada dia significa recusar-se a açambarcar alimento para o dia seguinte, enquanto que aos irmãos falta o necessário para hoje; significa libertar o próprio coração do desejo de possesso e da angústia do amanhã. Equivale a dizer: «Ajuda-me, ó Pai, a contentar-me com o necessário, liberta-me da escravidão dos bens e dá-me a força para os partilhar com os pobres.» «Perdoai-nos os nossos pecados, porque também nós perdoamos a todo aquele que nos ofende» (v. 4) Podemos recitar qualquer oração (a Ave Maria, o Angelus Domini, o Requiem Aeternam) com ódio no coração, mas não o Pai Nosso. O cristão não pode esperar ser ouvido por Deus se não cultiva sentimentos de amor para com o irmão. Não basta esquecer o mal recebido, é pedido mais. O cristão não se pode abrir ao amor do Pai se recusa a reconciliação com o irmão. «E não nos deixes cair em tentação» (v. 4) A tentação de que se pede para ser salvos não se refere às pequenas fraquezas, misérias e fragilidades quotidianas (mesmo que não se excluam), mas ao abandono da «lógica do Evangelho» para aderir à «lógica deste mundo». As tribulações ou a perseguição podem levar a tropeçar e a um estado de crise; as preocupações da vida e o engano dos bens podem sufocar a semente da palavra de Deus. O cristão não pede para ser preservado destas «tentações», mas para não ceder às seduções deste mundo, para não ser tocado pela ideia de abandonar o Mestre. Depois de ter apresentado o modelo da oração cristã, Jesus conta a parábola de um homem que, com muita insistência, vai pedir a um amigo que lhe dê três pães (vv. 5-8). Este relato pretende ensinar que a oração só obtém resultados se for prolongada. Não porque Deus queira ser interpelado longamente antes de conceder alguma coisa, mas porque o homem precisa de muito tempo para assimilar os seus pensamentos e os seus sentimentos. As nossas orações parecem tentativas para convencer Deus a mudar o seu projecto. Gostaríamos que Ele se adaptasse às nossas ideias, que corrigisse os «erros» em que caiu. Se falarmos demoradamente com Ele, acabamos por entender o seu amor e por aceitar os seus desígnios. A oração não muda Deus, abre a nossa mente, modifica o nosso coração. Esta transformação interior não pode realizar-se – exceto por um improvável milagre – em poucos instantes. É difícil renunciarmos ao nosso modo de ler os acontecimentos. Custa-nos aceitar a luz de Deus. Somo cegos, não conseguimos (ou não queremos) ver. Os caminhos de Deus nem sempre são fáceis e agradáveis, exigem conversões, esforços, renúncias, sacrifícios. Para chegar a esta adesão interior à vontade do Senhor, para chegar a ver com os seus olhos os acontecimentos da nossa vida é preciso rezar... durante muito tempo. Chegamos assim à última parte do Evangelho de hoje (vv. 9-13). A oração cristã é sempre atendida – diz Jesus – e, no entanto, a nossa experiência não parece confirmar esta afirmação. É retomado o tema da insistência na oração mediante três imagens: pedir, procurar, bater. A oração produz sempre resultados prodigiosos e inesperados. Mas não cultivemos falsas esperanças. Fora de nós a realidade permanecerá como era (as doenças continuarão, as injustiças permanecerão, as feridas da traição serão ainda mais dolorosas...), mas dentro tudo será diferente. Se a mente e o coração já não são os mesmos, se o olhar com que contemplamos a nossa situação, o mundo e os irmãos é diferente, mais puro, mais «divino», a oração terá obtido o seu resultado, terá sido atendida. Recuperadas a serenidade e a paz interior, também as feridas psicológicas e morais fecharão rapidamente e também as doenças orgânicas – porque não – poderão curar-se mais facilmente.

O banquete da Palavra - Fernando Armellini