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Neste domingo, a liturgia nos propõe dois exemplos de hospitalidade, o de Abraão e o de Marta. A história de Abraão dirige nosso olhar para o mistério escondido na hospitalidade. A história de Marta e Maria nos ensina que, antes de se desdobrar em gestos de hospitalidade, importa saber acolher. A verdadeira hospitalidade não consiste em preparar muitas coisas, mas em acolher o dom que é a pessoa. Receber as pessoas com atenção, dar-lhes audiência, pode ser uma ocasião para receber a única coisa verdadeiramente necessária, a palavra de Deus: sua promessa (no caso de Abraão), seu ensinamento (no caso de Maria). O lema que se repete durante a celebração pode ser: “Em primeiro lugar, escute o Senhor”. 1º leitura (Gn. 18,1-10a) A primeira leitura nos mostra como a hospitalidade de Abraão é recompensada pela promessa de Deus. Sob a aparência de três viajantes, Deus apresenta-se, incógnito, a Abraão, que demonstra toda aquela hospitalidade tão apreciada no Oriente. Aos poucos, o foco da narrativa se desloca da hospitalidade de Abraão para a promessa de Deus. Abraão não perguntou pela identidade de seus hóspedes. Agiu por bondade gratuita. Com a mesma gratuidade, Deus lhe concede o que era estimado impossível: um filho de sua mulher Sara, já idosa. A leitura mostra que, quando se está oferecendo hospitalidade, na realidade se está recebendo a generosidade de Deus. A hospitalidade que Abraão, generosa e gratuitamente, oferece a três homens, perto do carvalho de Mambré, transforma-se em receber. Ele recebe a coisa que mais deseja: um filho de sua mulher legítima, Sara. Talvez por isso se diz que a hospitalidade é “receber” uma pessoa: o hóspede é um dom para nós... Deus passa por nossa vida, junto de nossa casa, e importa fazê-lo entrar (Gn. 18,3), para que a nossa vida não fique vazia. Deus pode chegar como um viajante, um necessitado, e nossa gratuita bondade deve estar pronta para o “receber” no momento imprevisto. Evangelho (Lc. 10,38-42) O evangelho, com o episódio de Jesus na casa de Marta e Maria, focaliza “o único necessário”. Quem acolhe um hóspede parece estar oferecendo algo – a hospitalidade –, mas pode ser que, na realidade, esteja recebendo mais do que oferece, como foi o caso de Abraão na primeira leitura. Lida nessa ótica, a história de Marta e Maria se torna reveladora. Hospedar e cuidar é bom; mais fundamental, porém, é “receber” o dom que é o hóspede, com tudo o que tem de mais importante. E o mais importante, no caso, é a palavra de Jesus. Ele não veio para se fazer servir como um freguês num hotel; veio para servir (Mt. 20,28), e serve por meio de sua palavra, de sua vida inteira. Ele é inteiramente Palavra, Palavra de Deus, no seu dizer, no seu fazer, no seu sofrer. Acolher essa Palavra é o único necessário. Quem se esgota em “fazer coisas” para o outro, sem realmente o “receber”, pode ser chamado de ativista. O ativismo é um mal de nosso tempo, mas não data deste século. É doença que espreita a humanidade desde sempre. Jesus aproveita as intensas ocupações da “dona Marta”, sua anfitriã, para falar desse assunto. Marta dá muita importância aos próprios afazeres e pouca àquilo que recebe de Jesus. Ela deseja que Maria, imersa na escuta das palavras do mestre, interrompa sua escuta e a ajude a preparar a comida. Mas por que preparar comida se não se sabe para quê? Se alguém não se abre para receber a mensagem, para que acolher o mensageiro? Um bom anfitrião procura servir o melhor possível, mas, se não escuta o que o visitante tem para dizer, fará uma montão de coisas, mas a finalidade real da visita não se realizará. “Marta, Marta, tu te ocupas com muitas coisas; uma só, porém, é realmente necessária...”. Jesus não diz o que é essa coisa necessária, mas a história nos faz entender que é o que Maria estava fazendo: escutar Jesus. Maria escolheu a parte certa. Mais fundamental do que a casa bem arrumada e a mesa bem provida com que Marta se preocupa é acolher Jesus, com suas palavras, no coração. Então a mesa bem preparada servirá para sua verdadeira finalidade. O ativismo, mesmo a serviço dos outros, corre o perigo de ser um serviço a si mesmo: auto-afirmação à custa de quem é o “objeto” de nossa caridade. A superação do ativismo consiste em ver o mistério de Deus nas pessoas, assim como Maria o enxergou em Jesus, o porta-voz de Deus, o portador das “palavras de vida eterna” (cf. Jo 6,68). O hóspede vem a nós com uma recomendação de Deus, e por isso lhe dedicamos atenção. Nossa preocupação não deve ser o nosso próprio afazer, mas a interpelação que o rosto do outro nos dirige. Então não lhe imporemos uma hospitalidade que nós inventamos em proveito de nossa auto-afirmação, mas abriremos o coração àquilo que ele diz e é. É isso que Jesus lembra a Marta. A verdadeira contemplação não é uma fuga a pensamentos aéreos, mas aquele realismo superior que nos leva a ver Deus no homem e o homem em Deus. Essa contemplação é também o fundamento da verdadeira práxis da fé, que consiste, precisamente, em tratar o homem como filho e representante de Deus. Para isso, o centro de nossa preocupação não deve ser nossa atividade, mas a pessoa humana que nos é dada e que nós “recebemos” como um dom da parte de Deus. 2º leitura (Cl. 1,24-28)
A segunda leitura nos fala da manifestação do mistério
de Cristo na missão do apóstolo. Servir a Cristo é
participar de seu sofrimento. No sofrimento próprio,
Paulo vê confirmada sua comunhão com Cristo, e isso é
para ele uma alegria. Ele quer revelar o “mistério de
Deus” – que é Cristo – por sua vida. Cristo é a
“esperança da glória”. “Cristo no meio de nós” (1,27)
não é um belo pensamento, mas força que nos impele ao
encontro dos irmãos. Cristo é, em nós, a esperança, a
impaciência do Dia que há de manifestar, plenamente, o
que ele é e o que nós seremos nele. Paulo anuncia a palavra de Deus em sua plenitude: o mistério escondido desde a eternidade, a realidade só conhecida por quem dela participa, a esperança da glória, “Cristo em vós”. Na comunidade dos fiéis, da qual Paulo se tornou apóstolo, está presente aquele que assume todo o sentido de nossa vida e da criação toda (Cl. 1,15-20, cf. domingo passado). Para que fossem levados à perfeição os que receberam sua pregação, Paulo oferece sua vida. (Querendo usar um texto mais afinado com o tema do evangelho e da primeira leitura, veja-se 1Pd. 4,9-11: “Sede hospitaleiros”.) PISTAS PARA REFLEXÃO O importante e o necessário Grande mal em nossa sociedade, e também na Igreja, é o ativismo, a falta de disposição para aprofundar o essencial, sob o pretexto de tarefas urgentes. Na primeira leitura, vimos a virtude da hospitalidade, na figura de Abraão. Deus, que nos anjos se tornou seu hóspede, recompensa-o com a promessa de um filho. Será que o evangelho não contradiz essa lição? Jesus dá a impressão de valorizar mais a presença passiva de Maria, que fica a escutá-lo, do que a preocupação de Marta em bem recebê-lo. Ou será que o jeito certo de recebê-lo é o de Maria: escutar sua palavra? Jesus observa a Marta que ela anda ocupada e preocupada com muitas coisas, enquanto uma só é necessária. Essa observação não é uma crítica à hospitalidade, mas indica uma escala de valores: a melhor parte é a que Maria escolheu! O que esta faz é fundamental e indispensável: escutar. O resto (as correrias pastorais, as reuniões) é importante, mas deve ter fundamento no escutar. Jesus censura Marta não porque ela cuida da cozinha, mas porque quer tirar Maria do escutar para fazê-la entrar no ritmo das suas próprias ocupações. Marta não conhecia a escala de valores de Jesus. Paulo, na segunda leitura, pode ser um exemplo. Ele passou pela “passividade” do sofrimento, assumindo no próprio corpo a sua participação no sofrimento de Cristo. Dessa identificação profunda com Cristo ele tirou a força para seu surpreendente apostolado. Gente ocupada é o que menos falta. Mas sabemos muito bem que toda essa ocupação não gira, necessariamente, em torno do fundamental. Dá até pena ver certas pessoas complicar a vida com mil coisas das quais dizem que vão simplificá-la. Por outro lado, encontramos também, especialmente entre os pobres “de coração” (não aqueles com mania de rico), pessoas que levam uma vida simples, porém com muito mais conteúdo e, sobretudo, com um coração sensível e solidário. Importa acolher (a Deus, a Jesus, os outros) em primeiro lugar no coração. Só então as demais atuações terão sentido. Isso vale na vida pessoal e também na vida comunitária. Comunidades que giram exclusivamente em torno de preocupações e reivindicações materiais acabam esvaziando-se, caem em brigas geradas pelo personalismo e pela ambição. Mas comunidades que primeiro acolhem com carinho a palavra de Jesus num coração disposto saberão desenvolver os projetos certos para pôr essa palavra em prática. padre Johan Konings, sj. - www.paulus.com.br |
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A Palavra de Deus apresenta-nos, nas leituras deste Domingo, dois modos de acolher o Senhor; dois modos distintos, mas que se relacionam e mutuamente se condicionam. O primeiro, é acolhendo-o na sua Palavra, como Maria, a irmã de Marta e de Lázaro. Para nós, ela é modelo do discípulo perfeito, pois “sentou-se aos pés do Senhor, e escutava sua palavra”. Marta também acolheu Jesus, mas é um acolhimento exterior e, portanto, superficial, como o daqueles que são cristãos tão empenhados em trabalhar por Cristo e em falar de Cristo, que esquecem de estar com Cristo, de realmente dar-lhe atenção na escuta da Palavra e na oração. Ora, é nisto, precisamente, que Maria, hoje, é exemplo para nós: “sentou-se aos pés do Senhor”. – Vejam a disponibilidade, à atenção à Pessoa de Cristo, a disposição em acolher a Palavra que brota do coração do Salvador: “escutava sua palavra”. Aqui, cabe-nos perguntar: neste mundo dispersivo e agitado, neste mundo da competição e do estresse, tenho tido tempo, realmente, para acolher o Cristo que bate à minha porta? “Eis que estou à porta e bato: se alguém ouvir minha voz e abrir a porta, entrarei...” Não tenhamos dúvida que grande parte da crise de fé e de entusiasmo de muitos cristãos decorre da falta desse acolhimento íntimo em relação ao Senhor, da incapacidade de hospedá-lo no nosso afeto e no nosso coração pela escuta da Palavra que se torna oração amorosa e perseverante. Talvez sirva para todos nós, ativos em excesso e dispersos contumazes, a advertência de Jesus: “Marta, Marta! Tu te preocupas e andas agitada por muitas coisas. Porém, uma só coisa é necessária”. Qual? Que coisa é a única necessária? Estar aos pés do Senhor, abrindo-se à sua Palavra: “O homem não vive somente de pão, mas de toda Palavra que sai da boca de Deus” (Mt 4,4). É esta a parte que Maria escolheu e que, por nós escolhida, jamais nos será tirada, porque Deus é fiel! Mas, há um outro modo de acolher Aquele que está à porta e bate. Este modo deve decorrer da escuta da Palavra e mostra se essa Palavra é eficaz na nossa vida. Trata-se de acolher os outros, de hospedá-los no nosso coração e na nossa vida. Recordemos a cena de Abraão, nosso pai na fé. Colhamos os detalhes! Abraão estava sentado, talvez descansando do almoço, “no maior calor do dia”. Ao ver os estrangeiros que lhe estão próximos, corre ao encontro deles. Observem a solicitude de nosso pai na fé: não os conhecia, mas corre, com pressa, até eles e os reverencia: “Assim que os viu, correu ao seu encontro e prostrou-se por terra”. Observem a insistência no convite para que os estranhos comam de sua mesa; notem a solicitude em preparar rápido o melhor que tem: entrou logo na tenda, tomou farinha fina, correu ao rebanho e pegou um dos bezerros mais tenros e melhores, pegou coalhada e colocou tudo diante dos hóspedes... Por que fez isso? Porque tem fé! Para Abraão, não existe acaso. Notem como ele diz aos estrangeiros: “Foi para isso mesmo que vos aproximastes do vosso servo”. Ou seja: fizestes-vos próximos de mim para que eu me faça próximos de vós e vos sirva! Notem ainda como a situação se inverte: ao início, Abraão estava sentado e os hóspedes, de pé; agora, Abraão está de pé, servindo, e os hóspedes, comodamente sentados. Sem saber, naqueles estrangeiros, acolhidos desinteressadamente, Abraão estava acolhendo o próprio Senhor. E, ao fazê-lo, ao esquecer-se de si para preocupar-se com os outros, tornou-se fecundo: “Onde está Sara, tua mulher? Voltarei, sem falta, no ano que vem, por esse tempo, e sara, tua mulher, já terá um filho!” Bendita hospitalidade, que gera vida! Bendito sair de nós, que nos torna fecundos! Domingo passado, a Palavra nos fazia perguntar: quem é o meu próximo? Pois hoje, a pergunta volta, insistente: quem são aqueles e aquelas que estão de pé, à porta da minha tenda esperando que eu os acolha no meu coração e na minha atenção? Pensemos nos pobres, nos desvalidos, nos sem amor, nos que caíram, nos que se sentem sozinhos, nos que batem à nossa porta pedindo uma esmola e nos que pedem atenção, respeito, compreensão, perdão e amor... Somos tão tentados ao fechamento no nosso mundo e nas nossas preocupações! E, no entanto, neles, o Senhor bate à nossa porta, pede-nos hospedagem: “Eis que estou à porta e bato!” E isso não é de hoje nem de ontem: desde Belém, que ele está à porta, desde Belém, que ele procura o nosso acolhimento! Desde Belém, não “havia lugar para ele na hospedaria” (Lc. 2,7). Então, somente poderemos hospedar Jesus em plenitude quando estes dois modos se completam: hospedá-lo na escuta da Palavra e no silêncio da oração e hospedá-lo naqueles que vêm a nós pelos caminhos da vida. Calha maravilhosamente hoje o conselho do Autor da Carta aos Hebreus: “O amor fraterno permaneça. Não vos esqueçais da hospitalidade, porque graças ela alguns, sem saber, acolheram anjos” (Hb. 13,1s). Mais que anjos: acolheram o próprio Deus, aquele que disse: “Em verdade vos digo: cada vez que o fizestes a um desses irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes!” (Mt. 25,40). dom Henrique Soares da Costa - www.padrehenrique.com |
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Na liturgia da Palavra deste domingo aparecem dois belos exemplos de hospitalidade: um no Antigo, outro no Novo Testamento. No Antigo Testamento, é Abraão que recebe, na sua tenda no carvalhal do Mambré, três misteriosos personagens, que ele acolhe segundo a melhor etiqueta de um xeque beduíno: traz-Ihes água para lavar os pés empoeirados da viagem; manda a sua mulher Sara que Ihe prepare pão com fartura; toma um novilho tenro do rebanho e manda o servo que o prepare para oferecer numa refeição aos hóspedes, para ser servida com o pão, e mais leite e coalhada, como se usava. No fim, um deles promete que dentro de um ano Sara terá um filho. Esse filho é Isaac, que perpetuará a descendência de Abraão, tantas vezes confirmada por promessa divina. Nesses três personagens que visitam Abraão - trata-se de Javé acompanhado de dois anjos - alguns Padres da Igreja imaginaram entrever uma manifestação do mistério da Santíssima Trindade, uma vez que Abraão se dirige a eles usando ora o singular, ora o plural. E é famoso o ícone do pintor russo Rublev, que representa precisamente a Santíssima Trindade, na figura dos três hóspedes de Abraão. O que fica bem claro é que Deus visitou Abraão e lhe trouxe a bênção da descendência (cf. Gn. 18,1-10). No Novo Testamento é a visita de Jesus à casa de Marta e Maria, as irmãs de Lázaro, na aldeia da Betânia. Marta desdobra-se em atenções, para oferecer uma refeição digna do grande hóspede. Ao passo que Maria, sua irmã, se deixa ficar aos pés do Mestre, para ouvir seus ensinamentos. Marta se dirige a Jesus, reclamando porque Maria não a ajudava na preparação da comida. Mas Jesus deu uma resposta de altíssima sabedoria: "Marta, Marta, tu te inquietas e te preocupas por muitas coisas. Não são necessárias tantas coisas, e mesmo uma basta. Maria escolheu a melhor parte, e essa não lhe será tirada" (Lc. 10,41-42). As duas irmãs foram muito atenciosas para com Jesus que honrava sua casa com sua visita. A diferença é que Marta se preocupou mais com o preparo da refeição, o que, de algum modo, era um pouco essa vaidade de uma dona-de-casa, que gosta de ostentar sua competência nos pratos bem preparados. Ao passo que Maria honrou seu hóspede, reconhecendo a sabedoria cujos ensinamentos ela não podia perder. Uma honrou, oferecendo seus dons ao hóspede; outra, recebendo os dons que o hóspede lhe oferecia. É antiga na Igreja a lição que os comentadores tiram do episódio, considerando Marta como símbolo dos religiosos de vida ativa, e Maria como símbolo da vida contemplativa. A aplicação e legítima. É uma grande virtude saber acolher os que vêm Ter conosco. E uma das coisas que mais encantam o coração da gente é sermos bem recebidos. Isso torna extremamente simpáticos determinados povos e países. Como, aliás, os orientais normalmente de distinguem pela hospitalidade. É tão triste ser acolhido friamente! E por aí podemos perceber como temos o dever de acolher bem os outros. Inda mais nestes tempos de hoje, quando os problemas de relacionamento vão cada vez mais fechando as portas e os corações. O ideal seria que ninguém nunca se sentisse estranho, e pudesse ver em cada rosto o sorriso da amizade. E o ideal seria que cada um, onde quer que fosse, pudesse levar um coração amigo e um rosto sorridente. Seria maravilhosa uma sociedade onde todas as portas se abrissem para todos, por serem todos hóspedes dignos de confiança, de amor e de respeito. Um pedacinho de céu na terra! A hospitalidade, em dimensões mais amplas, faz parte daquela que na Igreja se convencionou chamar a "pastoral do turismo". Educar para as atitudes da cidade ou país que recebe turistas, e para as atitudes dos turistas que visitam uma cidade ou um país. Não se ficar apenas nas justas preocupações de lazer e de cultura, mas fazer do turismo ocasião de crescimento humano e cristão. Os turistas levando para o lugar que visitam o melhor que têm em si mesmos de qualidades morais e de virtude; e a cidade e o país, oferecendo aos visitantes o que têm de mais digno e de mais edificante. Haverá assim um intercâmbio de serviço, muito além do turismo-comércio ou do turismo- curiosidade. padre Lucas de Paula Almeida - www.padrelucas.com.br |
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Depois da parábola do “bom samaritano”, Lucas nos apresenta Jesus que faz uma pausa na sua viagem para Jerusalém para visitar Marta e Maria, onde aproveita a ocasião para dar uma nova indicação complementar àquela do texto anterior sobre o tema de “como herdar a vida eterna”. Estas duas mulheres eram irmãs de Lázaro e viviam num povoado bem perto de Jerusalém chamado Betânia (Jo 11,1; 12,1-3). O texto diz que Marta recebeu Jesus em sua casa. O verbo usado em grego para “receber”, indica a acolhida que se oferece a um hóspede, uma característica própria e muito importante do povo judeu do tempo de Jesus: a boa acolhida aos hóspedes. Nos diversos comentários sobre esta passagem bíblica, podemos encontrar uma certa tendência a contrastar, exaltando a atitude de Maria em detrimento da de Marta. Mas, como iremos notar, a atitude de Maria é uma ilustração concreta do amor a Deus, já que na narração precedente, tivemos uma ilustração do amor ao próximo (bom samaritano). Como diz o texto, Maria se sentou aos pés do Senhor para escutar sua Palavra. Maria estava sentada ao lado de Jesus, postura característica do discípulo que escuta atento os ensinamentos do Mestre. Marta, pelo contrário, estava ocupada com os muitos afazeres de casa. É óbvio que Marta também queria escutar os ensinamentos do Mestre, mas alguém tinha justamente que fazer a faxina, arrumar a casa para que Jesus se sentisse muito bem acolhido e não lhe faltasse nada. Afinal de contas, alguém tinha que fazer a refeição; provavelmente, Marta não tinha empregados nem dispunha dos serviços que dispomos hoje como comida pré-cozida, ou comida self-service etc. Enquanto Maria escutava, Marta servia. Esta, inquieta com a atitude da irmã, se aproxima de Jesus e lhe pergunta se ele não estava achando Maria folgada demais, enquanto ela fazia tudo sozinha? Bem que Maria poderia dar uma mãozinha à irmã! Mas, Jesus com uma suave repreensão, disse: “Marta, Marta! Você se preocupa com muitos detalhes?” Essa atitude de Jesus ilumina o que ele mesmo disse em Mc. 10,45: “eu não vim para ser servido, mas para servir”. Jesus continua e diz: “porém, uma só coisa é necessária”. Mas, uma tradução que ajuda a entender melhor o texto como um todo diz: “pouca coisa basta, não se preocupe em fazer muitos pratos nem em me oferecer muita coisa. Maria escolheu a parte boa e isto lhe está assegurado”. Este evangelho é uma exortação à vida contemplativa, um convite a escuta da Palavra de Deus. Mas, querer colocar a escuta como superior a prática, é interpretar de maneira alegórica, que não só carece de fundamento no próprio relato, como vai contra as diretrizes dos últimos documentos sobre a interpretação da Bíblia. O texto quer dizer que a vida do cristão deve ser caracterizada pelo “ora et labora” como expressou tão bem são Bento. Betânia (Marta e Maria) é um ícone, imagem da Igreja. Igreja, lugar onde Jesus habita, lugar no qual não somente se fala e se celebra a presença de Deus, mas onde o acolhemos no nosso coração, onde preparamos a Ceia do Senhor, com gestos simples e intensos de afeto e verdade. Como seria bom se a nossa casa, os nossos lares, as nossas famílias se tornassem uma Betânia, capazes de acolher, como fez tão bem Abraão na visita inesperada dos três homens junto ao carvalho de Mambré (1º leitura – texto onde vemos uma imagem da Santíssima Trindade). Marta e Maria se tornaram modelo, estilo de vida para o cristão. Infelizmente, quase sempre erroneamente elas são confrontadas. O ativismo de Marta em contraposição à atitude contemplativa de Maria. Ou a superioridade da oração sobre a ação. Esta é uma interpretação incapaz de colher o profundo deste texto. Pois, Marta e Maria, as duas irmãs, são o modelo das duas partes da vida cristã: oração e ação. Não pode existir uma sem a outra, não há discipulado autêntico sem ambas. Como disse o Bento XVI aos sacerdotes na vigília por encerramento do ano sacerdotal em 10 de junho de 2010: “ é importante que os fiéis possam ver que este sacerdote não faz apenas uma “profissão”, horas de trabalho, mas é um homem apaixonado por Cristo, que traz em si o fogo do amor de Cristo”. Por isso, é preciso rezar, ouvir e se alimentar da Palavra de Deus. O discípulo busca na oração, na oração silenciosa e constante, cotidiana e autêntica, o encontro com Jesus. A nossa oração deve ser um escutar o silencioso murmúrio de Deus em nós. E o discípulo encontra Jesus quando o reconhece no irmão que sofre. Uma fé que não sai das igrejas, que se resume àquela horinha da missa dominical, que não muda a relação com o próximo, que não ensina a refletir a vida e mudá-la à luz do Evangelho, é e permanece estéril. Marta e Maria, portanto, são indicação essencial do “ser cristão”. padre Carlos Henrique de Jesus Nascimento - www.pecarlos.blogspot.com |
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A primeira leitura propõe-nos a figura patriarcal de Abraão. Nessa figura apresenta-se o modelo do homem que está atento a quem passa, que partilha tudo o que tem com o irmão que se atravessa no seu caminho e que encontra no hóspede que entra na sua tenda a figura do próprio Deus. Sugere-se, em consequência, que Deus não pode deixar de recompensar quem assim procede. No Evangelho, apresenta-se um outro quadro de hospitalidade e de acolhimento de Deus. Mas sugere-se que, para o cristão, acolher Deus na sua casa não é tanto embarcar num ativismo desenfreado, mas sentar-se aos pés de Jesus, escutar as propostas que, n’Ele, o Pai nos faz e acolher a sua Palavra. A segunda leitura apresenta-nos a figura de um apóstolo (Paulo), para quem Cristo, as suas palavras e as suas propostas são a referência fundamental, o universo à volta do qual se constrói toda a vida. Para Paulo, o que é necessário é “acolher Cristo” e construir toda a vida à volta dos seus valores. É isso que é preponderante na experiência cristã. 1º leitura – Gn. 18,1-10ª - AMBIENTE Os capítulos 12-36 do livro do Gênesis são um conjunto de textos sem grande unidade e sem caráter de documento histórico ou de reportagem jornalística de acontecimentos. Fundamentalmente, estamos diante de uma mistura de “mitos de origem” (que narravam a chegada de um “fundador” a um determinado local e a tomada de posse daquela terra), de “lendas cultuais” (que relatavam como um deus qualquer apareceu em determinado local a um desses “fundadores” e como esse lugar se tornou um local de culto) e de relatos onde se expressa a realidade da vida nômade durante o segundo milênio antes de Cristo. Na origem do texto que hoje nos é proposto como primeira leitura está, provavelmente, uma antiga “lenda cultual” que narrava como três figuras divinas tinham aparecido a um cananeu anônimo junto do carvalho sagrado de Mambré (perto de Hebron), como esse cananeu os tinha acolhido na sua tenda e como tinha sido recompensado com um filho pelos deuses (Mambré é um famoso santuário cananeu, já no terceiro milênio a.C., muito antes de Abraão aí ter chegado). Mais tarde, quando Abraão se estabeleceu nesse lugar, a antiga lenda cananaica foi-lhe aplicada e ele passou a ser o herói desse encontro com as figuras divinas. No séc. X a.C. (reinado de Salomão), os autores jahwistas recuperaram essa velha lenda para apresentar a sua catequese. MENSAGEM Qual é, então, a proposta catequética que os autores jahwistas querem fazer passar, servindo-se dessa velha “lenda cultual”? No estado atual do texto, a personagem central é Abraão. É esta figura que os catequistas jahwistas vão apresentar aos israelitas da época de Salomão, como um modelo de vida e de fé. O texto apresenta-nos Abraão “sentado à entrada da sua tenda, na hora de maior calor do dia” (v. 1). De repente, aparecem três homens diante de Abraão (v. 2). Abraão convida-os a entrar; não se limita a trazer-lhes água para lavar os pés, mas improvisa um banquete com pão recentemente cozido, com um vitelo “tenro e bom” do rebanho, com manteiga e leite; depois, fica de pé junto deles, na atitude do servo sempre vigilante para que nada falte aos convidados (vs. 3-8): é a lendária hospitalidade nômade no seu melhor. Abraão é, assim, apresentado, como o modelo do homem íntegro, humano, bondoso, misericordioso, atento a quem passa e disposto a repartir com ele, de forma gratuita, aquilo que tem de melhor. Terminada a refeição, é anunciada a Abraão a próxima realização dos seus anseios mais profundos: a chegada de um filho, o herdeiro da sua casa, o continuador da sua descendência (vs. 9-10). Aparentemente, o dom do filho é a resposta de Deus à ação de Abraão: o catequista jahwista pretende dizer que Deus não deixa passar em claro, mas recompensa uma tal atitude de bondade, de gratuidade, de amor. O texto apresenta, complementarmente, a atitude do verdadeiro crente face a Deus. Ao longo do relato – sem que fique expresso se Abraão tem ou não consciência de que está diante de Deus – transparece a serena submissão, o respeito, a confiança total (num desenvolvimento que, contudo, não aparece na leitura que nos é proposta, Sara ri diante da “promessa”; mas Abraão conserva-se em silêncio digno, sem manifestar qualquer dúvida – vs. 10b-15): tais são as atitudes que o crente israelita é convidado a assumir diante desse Deus que vem ao encontro do homem. Atente-se, também, na sugestiva imagem de um Deus que irrompe repentinamente na vida do homem, que aceita entrar na sua tenda e sentar-Se à sua mesa, constituindo-Se em comunidade com ele. Por detrás desta imagem, está o significado do comer em conjunto: criar comunhão, estabelecer laços de família, partilhar vida. O jahwista apresenta, assim, um Deus dialogante, que quer estabelecer laços familiares com o homem e estabelecer com ele uma história de amor e de comunhão. O catequista jahwista aproveitou a velha “lenda cultual” e a figura inspirativa de Abraão para apresentar aos homens do seu tempo o modelo do crente: ele é aquele a quem Deus vem visitar, que o acolhe na sua casa e na sua vida de forma exemplar, que coloca tudo o que possui nas mãos de Deus e que manifesta, com o seu comportamento, a sua bondade, a sua humanidade, a sua confiança e a sua fé; ele é aquele que partilha o que tem com quem passa e cumpre em grau extremo o sagrado dever da hospitalidade. A realização dos anseios mais profundos do homem é a recompensa de Deus para quem age como Abraão. ATUALIZAÇÃO • Cada vez mais, o sagrado sacramento da hospitalidade está em crise, pelo menos na nossa civilização ocidental. O egoísmo, o fechamento, o “salve-se quem puder”, o “cada um que se meta na sua vida”… parecem marcar cada vez mais a nossa realidade. No entanto, são cada vez mais as pessoas perdidas, não acolhidas, que têm por teto os buracos das nossas cidades… De África, do Leste da Europa, da Ásia, da América Latina, chegam todos os dias à fronteira da “fortaleza Europa” bandos de deserdados, que procuram conquistar, com sangue, suor e lágrimas, o direito a uma vida minimamente humana. Que fazer por eles? Como os acolhemos: com indiferença e agressividade, ou com a atitude humana e misericordiosa de Abraão? Temos consciência de que, em cada irmão deserdado, é Deus que vem ao nosso encontro? • É com atenção, com bondade, com respeito, que as pessoas são acolhidas na nossa família, na nossa comunidade cristã, nas nossas repartições públicas, nas urgências dos nossos hospitais, nas recepções das nossas igrejas, nas portarias das nossas comunidades religiosas? • A atitude de Abraão face a Deus é, também, questionante, numa época em que muita gente vê em Deus um concorrente ou um rival do homem… Abraão é o crente que acolhe Deus na sua vida, que aceita viver em comunhão com Ele, que aceita pôr tudo o que tem nas mãos de Deus e que se coloca diante de Deus numa atitude de respeito, de submissão, de total confiança. Qual é a atitude que marca, dia a dia, a nossa relação com Deus? 2º leitura – Cl. 1,24-28 - AMBIENTE Continuamos com a leitura dessa Carta aos Colossenses que já vimos no passado domingo. Recordemos que é uma carta escrita por Paulo da prisão (em Roma), convidando os habitantes da cidade de Colossos (Ásia Menor) a não darem ouvidos a esses doutores para quem a fé em Cristo devia ser complementada com o culto dos anjos, com rituais legalistas, com práticas ascéticas rigoristas e com a observância de certas festas… Para Paulo, o único necessário é Cristo: a sua vida, o seu testemunho, a sua cruz (o dom da vida por amor) e a sua ressurreição. Estamos por volta dos anos 61/63. O texto que nos é proposto inicia a parte polemica da carta. Nele, Paulo apresenta o seu próprio exemplo, para que ele sirva de estímulo aos Colossenses. MENSAGEM Qual é, então, o exemplo que o apóstolo quer propor aos cristãos de Colossos? É um exemplo de alguém que, a partir da sua conversão, se alheou de tudo o resto, fez de Cristo a referência fundamental e se preocupou apenas em pôr a sua vida ao serviço de Cristo. Ao longo do seu caminho de missionário, Paulo sofreu muito para levar a proposta de salvação a todos os homens, sem exceção (cf. 2Cor. 11,23-29). Inclusive, no momento em que escreve, Paulo está prisioneiro por causa do anúncio do Evangelho. No entanto, o apóstolo sente-se feliz pois sabe que esses sofrimentos não foram em vão, mas deram frutos e levaram muita gente a descobrir Jesus Cristo e a sua proposta de libertação. Mais ainda: os sofrimentos de Paulo completam “o que falta à paixão de Cristo, em favor do seu corpo que é a Igreja”. Que significa isto? Para uns, Paulo refere-se à união da Igreja/corpo com o Cristo/cabeça: uma vez que a cabeça (Cristo) sofreu, os membros devem sofrer também para partilhar a sorte que a cabeça suportou. Esta explicação põe em relevo a união dos cristãos com Cristo e dos cristãos entre si. Para outros, Paulo refere-se à ação redentora de Jesus: para Jesus, a redenção significou a cruz e o dom da vida; se os apóstolos aceitam ser testemunhas da redenção, isso implica, também para eles, o dom da vida (que passa pela perseguição e pelo sofrimento). Esta explicação põe em relevo a unidade do ministério de Cristo e dos apóstolos e a necessidade do testemunho apostólico. Esta explicação – que aparece já nos Padres Gregos – é a que está mais de acordo com o contexto. De resto, Paulo tem consciência de que foi chamado por Cristo a anunciar o “mistério” (“mystêrion” – v. 26). Esta palavra (que a “Lumen Gentium” retomará para definir a Igreja e a sua missão no mundo – cf. LG 1) designa, em Paulo, o plano salvador de Deus, escondido aos homens durante séculos, revelado plenamente na vida, na ação e nas palavras de Jesus Cristo e continuado pelos discípulos de Jesus (Igreja) na história. O esforço de Paulo (e dos cristãos em geral) deve ir no sentido de continuar a apresentação desse projeto de salvação/libertação que traz a vida em plenitude aos homens de toda a terra. Paulo convida, pois, os Colossenses a construir a sua vida à volta de Jesus e do seu projeto (mesmo que isso implique sofrimento e perseguição); com o seu exemplo, Paulo estimula-os a uma comunhão cada vez mais perfeita com Cristo, pois é em Cristo (e não nos anjos, ou nas prática legalistas, ou nas práticas ascéticas) que os crentes encontrarão a salvação e a vida em plenitude. ATUALIZAÇÃO • Paulo é, para os crentes, uma das figuras mais questionantes da história do cristianismo. É o cristão de “vistas largas”, que não se deixa amarrar pelas coisas secundárias, mas sabe discernir o essencial e lutar por aquilo que é importante… Mas, sobretudo, é o exemplo do apóstolo por excelência, do apóstolo para quem Cristo é tudo e que põe cada batida do seu coração ao serviço do Evangelho e da libertação dos homens. É com o mesmo empenho de Paulo que eu “agarro” a missão que Cristo me confiou? Como é que a nossa comunidade trata e considera esses irmãos que, tantas vezes escondidos atrás da sua simplicidade e humildade, dão a vida à causa do Evangelho e da libertação dos outros? • A centralidade que Cristo assume na experiência religiosa de Paulo leva-o à conclusão de que Cristo basta e que tudo o resto assume um valor relativo (quando não serve, até, para “desviar” os crentes do essencial). Que valor ocupa Cristo na minha experiência de fé? Ele é a prioridade fundamental, ou há outras imagens ou ritos que chegam a ocupar o lugar central que só pode pertencer a Cristo? Evangelho – Lc. 10,38-42 - AMBIENTE Este episódio situa-nos numa aldeia não identificada, em casa de duas irmãs (Marta e Maria). Estas duas irmãs são, provavelmente, as mesmas Marta e Maria, irmãs de Lázaro, referidas em Jo 11,1-40 e Jo 12,1-3. Se assim for, a ação passa-se em Betânia, uma pequena aldeia situada na encosta oriental do Monte das Oliveiras, a cerca de 3 quilômetros de Jerusalém. Continuamos, de qualquer forma, a percorrer esse “caminho de Jerusalém”, durante o qual Jesus vai revelando aos seus discípulos os projetos do Pai e os vai preparando para o testemunho do Reino. MENSAGEM Estamos no contexto de um banquete. Não se diz se havia muitos ou poucos convidados; o que se diz é que uma das irmãs (Marta) andava atarefada “com muito serviço” (v. 40), enquanto a outra (Maria) “sentada aos pés de Jesus, ouvia a sua Palavra” (v. 39). Marta, naturalmente, não se conformou com a situação e queixou-se a Jesus pela indiferença da irmã. A resposta de Jesus (vs. 41-42) constitui o centro do relato e dá-nos o sentido da catequese que, com este episódio, Lucas nos quer apresentar: a Palavra de Jesus deve estar acima de qualquer outro interesse. Há, neste texto, um pormenor que é preciso pôr em relevo. Diz respeito à “posição” de Maria: “sentada aos pés de Jesus”. É a posição típica de um discípulo diante do seu mestre (cf. Lc 8,35; At. 22,3). É uma situação surpreendente, num contexto sociológico em que as mulheres tinham um estatuto de subalternidade e viam limitados alguns dos seus direitos religiosos e sociais; por isso, nenhum “rabbi” da época se dignava aceitar uma mulher no grupo dos discípulos que se sentavam aos seus pés para escutar as suas lições. Lucas (que, na sua obra, procura dizer que Jesus veio libertar e salvar os que eram oprimidos e escravizados, nomeadamente as mulheres) mostra, neste episódio, que Jesus não faz qualquer discriminação: o fato decisivo para ser seu discípulo é estar disposto a escutar a sua Palavra. Muitas vezes, este episódio foi lido à luz da oposição entre ação e contemplação; no entanto, não é bem isso que aqui está em causa… Lucas não está, nesta catequese, explicando que a vida contemplativa é superior à vida ativa; está dizendo que a escuta da Palavra de Jesus é o mais importante para a vida do crente, pois é o ponto de partida da caminhada da fé. Isto não significa que o “fazer coisas”, que o “servir os irmãos” não seja importante; mas significa que tudo deve partir da escuta da Palavra, pois é a escuta da Palavra que nos projeta para os outros e nos faz perceber o que Deus espera de nós. ATUALIZAÇÃO • O nosso tempo vive-se a uma velocidade estonteante… Para ganhar uns minutos, arriscamos a vida porque “tempo é dinheiro” e perder um segundo é ficar para trás ou deixar acumular trabalho que depois não conseguimos “digerir”. Mudamos de fila no trânsito da manhã vezes incontáveis para ganhar uns metros, passamos semáforos vermelhos, comemos de pé ao lado de pessoas para quem nem olhamos, chegamos a casa derreados, enervados, vencidos pelo cansaço e pelo stress, sem tempo e sem vontade de brincar com os filhos ou de lhes ler uma história e dormimos algumas horas com a consciência de que amanhã tudo vai ser igual… Claro que estas são as exigências da vida moderna; mas, como é possível, neste ritmo, guardar tempo para as coisas essenciais? Como é possível encontrar espaço para nos sentarmos aos pés de Jesus e escutarmos o que Ele tem para nos propor? • Nas nossas comunidades cristãs e religiosas, encontramos pessoas que fazem muitas coisas, que se dão completamente à missão e ao serviço dos irmãos, que não param um instante… É ótimo que exista esta capacidade de doação, de entrega, de serviço; mas não nos podemos esquecer que o ativismo desenfreado nos aliena, nos massacra e asfixia. É preciso encontrar tempo para escutar Jesus, para acolher e “ruminar” a Palavra, para nos encontrarmos com Deus e conosco próprios, para perceber os desafios que Deus nos lança. Sem isso, facilmente perdemos o sentido das coisas e o sentido da missão que nos é proposta; sem isso, facilmente passamos a agir por nossa conta, passando ao lado do que Deus quer de nós. • Esta época do ano – tempo de férias, de evasão, de descanso – é um tempo privilegiado para invertermos a marcha alienante que nos massacra. Que este tempo não seja mais uma corrida desenfreada para lugar nenhum, mas um tempo de reencontro conosco, com a nossa família, com os nossos amigos, com Deus e com as nossas prioridades. A oração e a escuta da Palavra podem ajudar-nos a centrar a nossa vida e a redescobrir o sentido da nossa existência. • Qual é a nossa perspectiva da hospitalidade e do acolhimento? Esta leitura sugere que o verdadeiro acolhimento não se limita a abrir a porta, a sentar a pessoa no sofá, a ligar a televisão para que ela se entretenha sozinha, e a correr para a cozinha para lhe preparar um banquete opíparo; mas o verdadeiro acolhimento passa por dar atenção àquele que veio ao nosso encontro, escutá-lo, partilhar com ele, a fazê-lo sentir o quanto nos preocupamos com aquilo que ele sente… • A atitude de Jesus – que, contra os costumes da época, aceita Maria como discípula – faz-nos, mais uma vez, pensar nas discriminações que, na Igreja e fora dela, existem, nomeadamente em relação às mulheres. Fará algum sentido qualquer tipo de discriminação, à luz das atitudes que Jesus sempre tomou? p. Joaquim Garrido, p. Manuel Barbosa, p. José Ornelas Carvalho - www.ecclesia.pt |
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A primeira coisa que chama a atenção no texto é quem aparece a Abraão. É o próprio Deus (18,1), três homens (18,2) ou anjos (19,1)? Com quem Abraão está falando, com três pessoas (vv. 4.5.9), com uma só (vv. 3.10) ou com o próprio Deus (v. 13)? Observe o texto atentamente e veja como ele é ambíguo. Ora é uma pessoa, ou são três homens, ora são anjos, ora é o próprio Deus. O que o autor quer ensinar através desta ambiguidade textual? Ele quer ensinar que "quem acolhe pessoas está acolhendo a Deus que dá vida e que os anjos são mensageiros de Deus, ou expressão do próprio Deus. Abraão, símbolo da fé, sabia muito bem que acolher as pessoas é acolher o próprio Deus, aliás, faz parte da mística semita a boa hospitalidade. Veja a visita dos anjos a Ló em 19,1-8. Vigilância e disponibilidade diante das imprevisíveis visitas de Deus (vv. 2-8) Abraão significa pai (= ab) do útero (= raham), ou seja, pai de uma prosperidade numerosa, pai da fertilidade, entretanto esta promessa de Deus de uma grande prosperidade parece ter ficado no esquecimento, pois Abraão e Sara já ficaram velhos. Será que Abraão perdeu a esperança, desanimou, desistiu? O texto de hoje mostra que não. O texto sublinha a vigilância e a disponibilidade de Abraão. Ao invés de estar deitado, acomodado, cochilando à sombra, Abraão está sentado atento aos acontecimentos. Não é hora de visitas, mas Deus não marca hora, nem aparece vestido de glória. Abraão é profundamente cordial e acolhedor. Ele consegue logo perceber que aquela visita era de Deus. Chama os três de Senhor e se coloca como seu servo. Apesar do intenso calor do sol ele corre para um lado, corre para o outro, movimenta a esposa e o criado e oferece o que há de melhor para os ilustres visitantes. A promessa de Deus está para acontecer (vv. 9-10) Aqueles visitantes eram mesmo diferentes. Perguntam pela esposa o que não era costume entre os beduínos. Sabe o nome da esposa de Abraão, sem Abraão ter falado. E, além disso, conhece sua condição de estéril. Mas nada para Deus é impossível. Deus promete que dentro de um ano ele retornará e Sara já terá um filho. Quem acolhe o outro acolhe o próprio Deus, quem acolhe Deus, acolhe a vida. 2º leitura - Cl. 1,24-28 Vamos destacar três temas nos textos de hoje. 1) Precisamos edificar a Igreja que é Corpo de Cristo Em 1,18 vimos uma afirmação forte: Ele (Jesus Cristo) é também a cabeça do corpo, que é a Igreja. Aqui em 1,24 volta o mesmo tema. A Igreja é o Corpo de Cristo. Assim é preciso que cada cristão (não apenas os agentes de pastoral) assuma um compromisso particular com a comunidade-Igreja. Cristo fez tudo por nós e por isso tem o direito de pedir tudo de nós para a edificação do seu Corpo. Nossa alegria é alegria para Cristo, nossa tristeza é tristeza para Cristo. Nossas virtudes e trabalhos edificam o Corpo de Cristo, nossos vícios, pecados e omissões, destroem o corpo de Cristo. Para o autor, que fala em nome de Paulo, ele se sente alegre por sofrer pela comunidade. Precisaríamos chegar a essa consciência. 2) O apóstolo se torna ministro da Igreja Isso aconteceu quando Deus confiou a Paulo a missão de anunciar o mistério da presença de Cristo na comunidade. Em 1,23 ele fala expressamente que se tornou ministro do Evangelho. Paulo é ministro da Igreja, do Evangelho, de Cristo, da Palavra. Estamos percebendo que há uma identificação destas realidades. O que deve fazer o ministro da Palavra? À imitação de Paulo ele deve alegrar-se no sofrimento em favor da Igreja, anunciar o Cristo, aconselhar, ensinar, trabalhar pela perfeição do irmão, acreditar profundamente na força de Cristo que age nele, não desanimar diante das dificuldades, mas investir na edificação do Corpo de Cristo que é a Igreja. 3) Qual é o mistério antes escondido? Este mistério cheio da riqueza gloriosa de Cristo é exatamente a novidade da salvação, que agora não é mais restrita aos judeus, mas dirigida a todos os pagãos; por isso ele representa muito para os pagãos. Este mistério da salvação que é Jesus Cristo já está presente no meio da comunidade, abrindo fronteiras, através do exemplo de cada cristão e do anúncio da Palavra. O núcleo do mistério é este: Cristo é salvação e vida para todos. Evangelho – Lc. 10,38-42 Rezar ou trabalhar - o que é mais importante Jo11,1 nos ajuda a situar este episódio, em Betânia, na casa de Lázaro. Lázaro está ausente, talvez Lucas queira salientar a importância da mulher na vida ativa (trabalho de Marta) e litúrgica (Maria atenta à palavra de Jesus) da Igreja. No tempo de Jesus as mulheres eram marginalizadas até pela religião: não podiam estudar a Lei, nem participar oficialmente do culto. O texto nos mostra que Marta acolhe Jesus, mas não tem tempo de acolher o dom que ele traz, seu projeto de vida. Ela parece com Abraão que acolheu o Deus da vida (Gn. 18,1-10a), mas o seu ativismo, suas preocupações exageradas a impediram de acolher e aprofundar o projeto de vida que Jesus trazia com sua vida. Abraão parece ter antecipado Marta e Maria; soube ouvir, servir, contemplar e agir e por isso recebeu o dom da vida na pessoa de seu filho. Maria, certamente era a companheira de Marta nos afazeres domésticos, senão ela não perderia tempo de insistir com Jesus para liberar Maria. Curioso! Quem ficaria com o hóspede? Não seria um desrespeito deixá-lo sozinho? Maria não chamou Marta, pois quem faria o trabalho? Egoísmo de Marta? Preguiça de Maria? Jesus valoriza a escolha de Maria e achou exagerado o pedido de Marta. Isto significa que precisamos rezar mais e trabalhar menos? Viver de contemplação e não de serviço? Poderíamos viver sem o trabalho? Poderíamos viver só de reza? Não é o próprio Jesus que insiste tanto em dar o exemplo de servir? "Eu não vim para ser servido, mas para servir". A parábola anterior ao nosso texto não frisa a prática da misericórdia? Veja 10,28: "faze isso e viverás", v. 37: "vai e faze tu a mesma coisa". O ensinamento do texto Creio que o contexto nos quer ensinar a importância da contemplação e da ação, do rezar e do trabalhar. Lucas distingue entre Marta e Maria o que deve estar unido e dosado em cada cristão, como esteve na atitude de Abraão. Devemos ouvir a Palavra e a colocar em prática. Não é isto que lemos logo à frente em Lc. 11,28? "Felizes, sobretudo, são os que ouvem a Palavra de Deus e a põem em prática". As duas atitudes devem andar juntas em cada cristão. Aqueles que se dedicam demais ao trabalho pastoral ou não, estes devem parar no dia do Senhor (domingo) para, sentados aos pés de Jesus louvar e agradecer, avaliar e se abastecer de novo. Aqueles que rezam muito não devem tardar em colocar em prática o projeto de Jesus. Jesus não parou para ser servido, ele veio até nós para entregar o dom da vida. De fato, ele está a caminho de Jerusalém, onde seu projeto de vida para todos ia realizar-se através da cruz. Marta e Maria estão vivas dentro de você? dom Emanuel Messias de Oliveira - www.diocesedeguanhaes.com.br |
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Voltamos a encontrar, na segunda leitura de hoje, o pensamento de Paulo sobre o mistério de Deus e sua revelação por meio da pregação e a contribuição de Paulo a essa revelação pelo sofrimento. Cristo revela a riqueza de Deus na pobreza da cruz e o apóstolo será o distribuidor da mesma a homens e mulheres. Um primeiro comentário ao evangelho de hoje: Lucas nos apresenta um fato da tradição existente no círculo de seus discípulos, especialmente mulheres. Mara e Maria, irmãs de Lázaro, recebem o Senhor em sua casa. O Caso de Marta e Maria é aproveitado mais uma vez por Lucas para ressaltar o valor da escuta da Palavra de Deus. Sem entrar na teoria do valor da contemplação sobre a ação que se quis ver nas duas atitudes opostas de Marta e Maria, o certo do fato é que o Reino de Deus não pode deixar-se distrair por uma preocupação exclusiva pelas realidades terrenas. Por outro lado, escutar a Palavra de Deus não é algo meramente ocasional, mas algo importante na vida: é tudo. Estamos diante de um quadro familiar no qual Jesus visita suas amigas. Marta e Maria, o recebem em sua casa. Marta se multiplica para dar conta do serviço para atender ao hóspede, mas Jesus a repreende porque anda inquieta “com tantas coisas”. Marta não encontra a colaboração de ninguém. Efetivamente, a irmã sentou-se aos pés de Jesus e está ocupada completamente na escuta de sua palavra. O Mestre não aprova o afã, a agitação, a dispersão, o andar em mil direções “da ama de casa”. Qual é, pois, o erro de Marta? É não ter entendido que a chegada de Cristo significa, principalmente, a grande ocasião, que não se deve perder, e por conseguinte, a necessidade de sacrificar até mesmo o urgente e o importante. Porém, a preocupação no comportamento de Marta é conseqüência, sobretudo, do contraste em relação à postura assumida pela irmã. Maria, diante de tanta atividade, escolhe Jesus, coloca no plano do ser e lhe dá a primazia da escuta. Marta, ao contrário, toma decididamente o caminho do ter e da ação. Marta se precipita para “fazer” e este “fazer” não parte de uma escuta atenta da palavra de Deus e, consequentemente, corre o risco de converter-se em um estéril girar no vazio. Mara, apesar de todas as suas boas intenções, se limita a acolher Jesus em casa. Maria o acolhe “dentro”, se faz recipiente seu. Oferece-lhe hospitalidade naquele espaço interior, secreto, que foi disposto por ele, e que está reservado para ele. Marta oferece coisas a Jesus, enquanto Maria se oferece a si mesma. Segundo o juízo de Jesus, Maria escolheu sem dúvida, “a melhor parte” (que, apesar das aparências, não é a mais cômoda: fica muito mais fácil mover-se que “entender a Palavra”. Marta, atenta para que não falte nada ao hóspede importante e a todos, deixa passar clamorosamente “a única coisa necessária”. Marta reclama a Jesus: não se sabe o que ela quer. O problema é precisamente este: descobrir, pouco a pouco, o que Jesus quer de mim. Por isso é necessário parar, deixar que ele venha e tirar tempo para escutar a Palavra de Jesus e compreender qual é realmente a vontade de Deus a respeito de minha vida. Um segundo comentário ao evangelho: no evangelho de Lucas, o caminho de Jesus a Jerusalém, marca uma progressiva manifestação do Reino. À media que avança, vai formando nos discípulos e discípulas atitudes de misericórdia, de abandono das pretensões de poder, e de escuta atenta da Palavra. Nesse caminho, da mesma forma que os missionários que vinham anunciando sua presença, Jesus é recebido pelas mulheres em uma casa de família. Aí acontecem duas atitudes diferentes. Uma de total atenção e escuta, a outra, de distração e de afã pelas preocupações habituais. O trajeto da vida cotidiana havia enganado a Marta e, provavelmente, a havia tornado surda à palavra de Deus. Ela recebe Jesus, porém não o escuta. Ainda que Jesus entre em sua casa, ela o deixa de lado. Jesus propõe um plano no sentido de formar verdadeiros ouvintes da Palavra – autênticos discípulos – que Marta não está disposta a atender. Maria, ao contrário, compreende bem o projeto de Jesus e rompe com os preconceitos culturais de sua época. Em lugar de andar atarefada com o labor doméstico “próprio das mulheres” (as “tarefas próprias de seu sexo”, como foi dito e pensado durante tanto tempo), põe-se “aos pés do Senhor para escutar a palavra”. Este gesto, reservado então culturalmente aos discípulos varões, faz dela uma discípula. Marta, ao afadigar-se com o interminável trabalho da casa, questiona a atitude contraditória de Maria e interpela o Mestre para que “coloque a mulher em seu lugar”. Jesus dá uma resposta inesperada: felicita Maria porque acertou na sua escolha e repreende a Marta por deixar-se envolver nas preocupações cotidianas sem atender ao importante. Efetivamente, Maria fez a melhor opção, a única necessária para colocar-se no caminho de Jesus e ser seu discípulo: decidiu aprender a escutar a Palavra e se deixa interpelar pela presença do Mestre. Em seu caminho, Jesus vai formando, pois, a seus seguidores nas atitudes indispensáveis para chegar a ser verdadeiros discípulos. Uma dessas atitudes é a da escuta atenta e serena da sua Palavra. Atitude que exige romper com o ritmo louco e interminável da vida cotidiana para colocar-se serena e atentamente aos pés do Mestre. Esta escolha que aos olhos da eficiência pode parecer superficial e inútil, é uma condição fundamental para chegar a ser um autêntico discípulo. Nós, hoje, vivemos um ritmo de vida mais agitado do que em épocas anteriores. Os meios proporcionados pela tecnologia para poupar tempo também multiplicam as ocupações e acabam fazendo-nos cair em uma ativismo desenfreado. E o excesso de preocupações nos leva a esquecer o fundamental. Nosso cristianismo se converte assim em um tímido cumprimento de algumas obrigações religiosas, sem espaço para a escuta da Palavra. Somos exortados, somos bombardeados continuamente com mensagens que nos convidam a sermos “eficazes, produtivos e competitivos”. Porém, com Marta e Maria, Jesus nos interpela e nos chama a respeitar a hierarquia de valores e a colocar em seu lugar a “opção pelo fundamental”: estar a seus pés e escutar sua palavra. Jesus nos convida a que nosso cristianismo seja um verdadeiro discipulado. Para aprender a lição do Mestre, é preciso deixar-se formar na escuta atenta da Palavra da Bíblia e da vida. A Bíblia não pode permanecer guardada em uma gaveta enquanto nós nos afogamos em interminável torvelinho de atividades cotidianas. A Palavra de Deus está aí para caminhar conosco, passo a passo, dia a dia, minuto a minuto, para ensinar-nos a viver em comunidade a solidariedade que torna efetivo aqui e agora, o reinar de Deus. Escutar a palavra de Deus é um grande ajuda na difícil realidade de nossos povos: nas inumanas condições das grandes cidades, na solidão e no isolamento dos campos. É preciso, pois, optar por atitudes que nos convertem em verdadeiros discípulos de Jesus e autênticos cristãos. Não é adequado interpretar o texto em sentido dualista (ou uma ou outra coisa): “ou contemplação e escuta passiva da Palavra, por uma parte... ou, por outra, ação caritativa sem oração nem contemplação”. Marta e Maria não devem ser símbolos e extremos parciais: a escolha não pode ser por nenhuma delas em particular, e sim pelas duas em conjunto. É o que nos diz o poeta Casaldáliga com “o difícil tudo” que escolheu “a outra Maria”: O DIFÍCIL TUDO Tão somente melhor que a melhor parte que Maria escolheu. O difícil tudo.
Acolher o Verbo dando-se ao serviço. Vigiar sua ausência, gritando seu nome descobrir seu rosto em todos os rostos.
Fazer do silencio a melhor escuta. Traduzir em atos as Sagradas Letras. combater amando morrer pela vida, lutando na paz.
Derrubar os troncos com as velhas armas quebradas de ira, forradas de flores.
Cantar sobre o mundo a vinda que o mundo reclama talvez sem o saber.
O difícil tudo que soube escolher a outra Maria. www.claretianos.com.br |
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Entremos com Jesus naquela casa. Jesus e os seus estavam dirigindo-se para Jerusalém. Na estrada que vai de Jericó a Jerusalém, a uns três quilômetros da Cidade santa, antes do monte das Oliveiras, ali na aldeia de Betânia –que em hebraico significa “casa dos pobres”- Jesus se deteve na casa de Marta, irmã de Maria e de Lázaro, seu «amigo» (Jo. 11,11). Estranhamente o evangelista destaca que a casa “era de Marta”; ora, isto era incomum, pois uma casa pertencia ao homem. Seja qual fosse a motivação, certo é que tal definição coloca Marta numa posição toda especial. Por costume cabia ao homem a incumbência de desempenhar um dos principais deveres no médio-oriente e em toda a área mediterrânea: a “sagrada hospitalidade”. Se o autor diz que a casa é “de Marta”, isto significa que a ela cabia toda a responsabilidade de dar ao hospede a maior das atenções possíveis já que um hospede era considerado como alguém enviado por Deus. Um exemplo desta convicção o encontramos nas palavras do autor da Carta aos Hebreus, o qual assim recomenda: «Não negligencieis a hospitalidade, pois alguns, praticando-a, sem o saber acolheram anjos» (Hb. 13,2) Se nos livrarmos um pouco daquele falso lugar-comum que simplifica o episódio estigmatizando Marta como uma mulher de “ação” e Maria como uma mulher de “oração”, talvez será mais fácil compreendermos os sentimentos desta mulher que viu-se, de repente, envolvida por uma situação maior do que ela. Afinal, quem estava diante dela era o «amigo» do seu irmão e alguém tido por todos como o Messias esperado. O que mais podia fazer? Com certeza dar o melhor de si mesma, pois ela, e somente ela, era a responsável última pela hospitalidade. Bem diferente, evidentemente mais fácil, era a condição de Maria, a qual estava ali numa posição híbrida entre hospede e familiar. O texto nos dá uma indicação: «sentou-se junto do Senhor, aos pés», indicando assim a fisionomia que ela quis assumir naquela casa, Maria se identificou com um hospede que “senta junto” com outro, mesmo que a posição «aos pés» significasse o ato de querer aprender. Provavelmente isto deve ter irritado Marta a qual enxergava sua irmã por outro prisma: “ela não é hospede, é minha irmã! E deve comportar-se por aquilo que é...”. Marta sentiu-se por um momento sozinha, ela também teria gostado de estar na posição de Maria, mas os deveres da sagrada hospitalidade não lhe permitiam. Parecia-lhe estar perdendo algo importante, perder momentos únicos, fato este de aumentar a sua «ânsia pelas coisas, que são muitas». É um sentimento que com certeza também nós temos experimentado inúmeras vezes. Quantas vezes teríamos gostado de ter estado ao lado do Senhor numa certa maneira e, no entanto, a vida e as condições que escolhemos para demonstrar o nosso amor a Deus não no-lo permitiram... e, paradoxalmente, tudo isto por causa do amor. Nestas condições, tomados por sentimentos conflitantes diante disso tudo, muitas são as reações possíveis: querer apressar as coisas; querer resolver tudo de modo que depois tenhamos tempo de...; envolver todos na mesma ânsia que toma conta de nós como num vórtice; não compreender como seja possível qualquer outra atitude e criticá-la justamente porque não a consideramos possível; ou pior: renunciar ao sentimento mais profundo que possuímos, aquele de estar com o nosso Amado, e assumimos uma figura que não condiz com o que somos, dizendo: “tanto, isto não é para mim pois se eu não fizer o que precisa fazer...!”. Tentações e tentações que advêm quando perdemos de vista o centro que dá sentido ao tudo. «Marta, Marta», não é uma crítica nem repreensão, Jesus alerta delicadamente Marta a que todas estas “coisas”, “não preocupem” o seu coração, isto é, não ocupem um espaço maior do que devem. Coisas que são muitas, que passam das “coisas” imediatas, necessárias, superam o seu lugar e ocupam espaços indevidos se transformando em “coisas”, sentimentos, atitudes que estorvam no coração. A resposta de Jesus não visa criticar a maneira de agir de Marta nem o modo de demonstrar seu afeto, é um alerta a que ela não se deixe desviar por “coisas” que podem sufocar o seu mais singelo sentimento. Vejamos com um pouco de atenção a resposta do Senhor. O Evangelista nos transmite estas palavras de Jesus: «o que é um é necessário». A tradução: “uma só coisa é necessária”, que freqüentemente é escolhida por ser a mais fácil, traz uma série de conseqüências que não ajudam na leitura do texto, pois, por exemplo, deixa em aberto a frase de Jesus sem uma resposta clara. Ao contrário, a tradução que preferimos, realmente explicita o que Jesus queria dizer, mesmo sendo de difícil leitura. Seu significado se encontra nas raízes mais profundas da identidade do povo de Israel. A Escritura nos mostra o grande esforço que os hebreus fizeram para dar a Jahvé o atributo que O distinguiria de todos os deuses dos povos vizinhos: “Jahvé é o Único”, “Um”, “Um só”. Este axioma de fé era proclamado oficialmente na celebração da grande festa da Páscoa judaica; também as grandes orações públicas de Israel começavam todas com a repetição do famoso texto do Deuteronômio: «Ouve, Israel, o Senhor nosso Deus, é o “um”» (Dt. 6,4). Jesus vê em Maria, a imagem do verdadeiro Israel que “escuta” e que tem sempre no seu centro o “Um”: Jahvé. Esta é a “escolha melhor” da qual Jesus fala. Assim sendo, para o Senhor não importa o que estejamos fazendo e a maneira com a qual as condições da vida nos colocam perto Dele, o «necessário» é que Deus, e somente Deus esteja no centro do nosso coração, do nosso agir, do nosso “estar com Jesus”, independentemente da condição em que a vida nos ponha diante do Senhor. Deus fala com palavras diretas e também através de situações indiretas, como as responsabilidades, as decisões a serem tomadas, os fatos da vida etc. Em todas as circunstancias, seja quais forem, podemos ou não “escutar”; podemos ou não deixarmo-nos imbuir pela Sua presença. Isto é o que faz a diferença, isto é o “necessário”. Não importa como, o importante é sentir-se sempre como alguém que está “à presença de Deus”! Este é o princípio e o fundamento de toda profunda experiência espiritual. É a porta da contemplação, é a percepção da mais profunda união com o Senhor que «nunca será tirada». Todas as coisas que ocupam um lugar que não lhes pertence antes ou depois irão cair, a vida nos tirará tudo isto, o que restará é ter aprendido a viver “na presença de Deus”. Por fim, para fazer jus a Marta, à sua atitude de amor mesmo que envolvida por um turbilhão de sentimentos que a preocupavam, é preciso dizer que Jesus não deixou perder sequer um mínimo do seu amor e da sua maneira de expressar o que sentia, pois é preciso lembrar que foi a fé de Marta que fez com que Jesus, mais tarde, ressuscitasse Lázaro! Naquela ocasião, enquanto Maria somente expressou sua dor a Jesus, Marta, além da dor entregou a sua fé ao Senhor, dando assim o substrato suficiente para o milagre. Nada há que Deus não saiba valorizar, mesmo que Lhe ofereçamos sentimentos confusos! Contanto que haja amor autêntico. padre Carlo - www.fatima.com.br |
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“As pessoas devem estar abertas a situações corriqueiras, pois é por meio delas que Deus se manifesta para fazer o seu dom. O dom que Deus promete muitas vezes parece impossível, e até mesmo sem cabimento, para os homens; contudo, é na impossibilidade dos homens, que Deus torna possível a realização do seu projeto” (Bíblia da Paulus). Nada é por acaso. O acaso existe, porque não quer assinar; mas tudo que acontece conosco tem um propósito, que por vezes não entendemos na hora. Assim foi com Abraão, que acolheu bem os enviados do Senhor. Mesmo sendo um dia quente, o homem de Deus não deixou de servir o Senhor. Os três homens podem ser reflexo da Santíssima Trindade, já que apareceram três homens diante de Abraão. Ele se inclinou diante deles e disse: “Meu Senhor, se agradei aos vossos olhos...” Soaria melhor se dizesse meus senhores, porque eram três pessoas; mas, como era o Senhor, está clara uma referência intrínseca à Trindade. Era de bom grado acolher bem os forasteiros, e oferecer-lhes o melhor da casa. Todos de uma ou outra forma já tinham experimentado viagens longas e difíceis pelos desertos do Oriente, e, como tal, sabiam o que isso significava. Nada melhor do que uma boa acolhida, água e alimentos, além do repouso, após um viagem extenuante. A hospitalidade é quase um mandamento. Ainda mais, quando o próprio Senhor pede hospedagem em nossa casa (interior). Em muitas famílias ainda se vive a hospitalidade, e se esmeram, quando recebem visita, oferecendo o melhor da casa e de si. Abraão ficou de pé diante do Senhor, enquanto comia, de prontidão para servir, caso necessitasse. E, diante da boa acolhida, veio-lhe a recompensa, em forma de filho. Portanto, toda ação tem o seu efeito. A graça do filho era o maior desejo de Abraão. A sua bondade foi o ato, não por acaso, mas porque amava o Senhor, e o hospedou em sua casa (também em seu coração). Quem hospeda o Senhor em vida alcançará muitas graças e bênçãos. Ele volta sempre, e toda vez que Ele vem, se o recebermos, teremos mais e mais recompensas, porque nada é por acaso. Sejamos vigilantes em nossa tenda, a exemplo de Abraão. “O mistério ocultado ao longo dos séculos e agora manifestado aos seus santos” “Paulo alegra-se, porque o seu sofrimento confirma que ele está anunciando o verdadeiro Evangelho (cf. Mc. 13,5-10). O cerne da Missão do Apóstolo é o mistério do projeto de Deus: Deus quer que também os pagãos participem da redenção realizada mediante Cristo. A conversão dos colossenses, que antes eram pagãos, manifesta visivelmente este projeto de Deus” (Bíblia da Paulus). Todo sofrimento momentaneamente assusta, angustia e desanima, mas tem razão de ser; embora na hora não entendamos, mais tarde sabemos que nos tornou mais humanos e sensíveis para entender aqueles que sofrem. Só pode criar empatia quem já sofreu. Paulo sente na própria carne o sofrimento de Cristo, sente-se ligado ao sofrimento do Mestre, para o bem do seu povo, a Igreja. Depois do sofrimento vem a alegria, depois do silêncio vem a palavra, depois da vida a morte, e depois da morte vem a vida nova. Tudo é para o maior bem de quem é do Senhor. Paulo tornou-se ministro do corpo de Cristo, que é a Igreja, porque isto lhe foi confiado por Deus, para servir o seu Evangelho, levando-o a todas as gentes e povos. Servir o Mestre não isenta os seus ministros de sofrimentos; mas tudo compensa, porque a vida é feita por uma dialética: ação-efeito, alegria-tristeza, morte e vida... Importa viver, para servir; e servir, para viver. O sofrimento pelo qual Paulo passa traz alegria, porque ele se sente feliz diante da maravilhosa Missão que recebeu, de poder anunciar aos pagãos o Cristo vivo, nele e nos que nele creem. Ele mesmo afirma: “A glória inestimável deste mistério: Cristo no meio de vós, esperança da glória.” “Marta recebeu Jesus em sua casa. Maria escolheu a melhor parte” Cerca de três quilômetros a sudeste de Jerusalém, na vila de Betânia, havia um lar de duas irmãs e um irmão. Eram três dos mais chegados amigos de Jesus e, frequentemente, quando ele estava viajando próximo a Jerusalém, ele parava ali. Mais importante do que fazer as coisas, é fazê-las de modo novo. Para isto, é preciso ouvir a palavra de Jesus, que mostra o que fazer e como fazer. “Quantas vezes no nosso dia-a-dia, somos como Marta? Atarefados, inquietos e perturbados com muitas coisas! Até nos serviços que exercemos na Igreja, somos assim, inquietos e perturbados, preocupados com que tudo saia perfeito. Fazendo muitas coisas ao mesmo tempo, como se fossemos os únicos capazes de fazê-las. Não seria melhor, como Maria, sentarmo-nos aos pés de Jesus, para escutar a Sua Palavra? Todo o serviço deve partir da Palavra. Não interessa fazer muitas coisas, exercer muitos serviços brilhantemente, se não conseguirmos enraizar a nossa vida na Palavra!” (blog-mundo-melhor). Entendemos claramente que a melhor parte é estar aos pés de Jesus, é melhor estar bem com Jesus, do que fazer as coisas para Jesus, lembrando que não é para deixar de trabalhar para ele, mas devemos primeiro estar bem com ele, aos seus pés, e o trabalho vai ser melhor, vai ser com mais propósito, pois assim entenderemos um pouco do coração do Pai. Como já disse certo homem: “O rei vem antes das coisas do rei, e a adoração vem antes do serviço.” A melhor parte é dar do que receber; a melhor parte é agradar a Deus do que a homens; melhor parte é obedecer a Bíblia, que diz é melhor obedecer do que sacrificar. Devemos, sim, procurar agradar a Deus, e agradaremos consequentemente muitas pessoas, e mesmo assim desagradaremos outras tantas. É melhor contemplar a Deus pela oração e adoração, como fez Abraão, que recebeu a graça do filho; como fez Paulo, que, na sua união com Cristo pela adoração e comunhão espiritual, servia os pagãos em todos os lugares. Portanto, quem adora e ama Cristo como Maria, com certeza mais tarde servirá; quem apenas conhece Jesus, sem estar em adoração, oração e vida de comunhão em seu corpo, a Igreja, certamente fará muitas coisas, mas sem nenhum resultado em nada. Porém a felicidade depende de nossas escolhas diárias. A real felicidade está ligada à confiança que adquirimos ao nos relacionarmos com Jesus, e na amizade que desfrutamos com esse relacionamento. Gentilmente Jesus ensinou uma grande lição: a comunhão com Ele é uma prioridade. É também uma escolha. É a melhor parte do pão da vida. De fato, é o ponto principal da vida cristã. Hoje também Jesus nos faz o convite. O que Ele mais quer é o seu interesse, sua companhia, sua amizade e amor. Ele quer que você se assente aos Seus pés. Ele tem muito para lhe dizer. Assim fez Abraão, Paulo e muitos outros e receberam muitas bênçãos e graças. www.arquidiocese-pa.org.br |
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Não é justo contrapor Marta e Maria como
ação versus contemplação. A passagem quer, tão-somente,
reconduzir toda ação a sua fonte originária. A vertente
da ação de Maria é a escuta da Palavra do Mestre, por
ele identificada como "a melhor parte". É a melhor
parte, que nunca lhe será tirada porque não é dela, mas
do próprio Senhor que ela escuta. Pois, ao reconhecer e
se aproximar daquele que lhe veio ao encontro, Maria
está em condições de realizar o que ele disse: "Vai e
faze o mesmo!" (10,37). Em Maria constata‑se a
reviravolta realizada pelo Evangelho: ela pode amar e
acolher porque o Senhor a amou por primeiro (Mo 4,10). 0
silęncio absoluto de Maria, que não faz nem diz nada, é
o perfeito "renegar"o próprio eu cf. Lc. 9,23), sempre
sequioso de auto-afirmação e protagonismo. Esquecida de
si, realiza, na forma mais elevada, o ideal de
discípulo: ela é a serva obediente sempre voltada para o
seu Senhor. Nela, que vê e escuta o Mestre, cumpre‑se a
bem‑aventurança do discípulo: ver e escutar o Senhor
(10,23‑24). Este trecho repropõe, portanto, o fundamento
do nosso discipulado, que não consiste, essencialmente,
nas coisas que fazemos, mas no "como"as fazemos, isto é,
se fazemos as coisas a partir da escuta da Palavra do
Senhor ou prescindindo dela. A Palavra de Jesus é a
melhor parte porque é a de misericórdia do Pai dirigida
a todos os filhos. Por isso, os apóstolos dizem: "Não é
conveniente que abandonemos a Palavra de Deus para
servir às mesas" (At. 6,2). Com efeito, "não só de pão
vive o homem (Lc. 4,4), mas de toda palavra que sai da
boca de Deus"(Dt. 3). Da obediência e esta Palavra
depende a vida do homem (Dt. 30,20).
frei Aloísio de Oliveira, OFM Conv. |
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Maria escolheu a melhor parte
Voltamos a encontrar, na segunda leitura de hoje, o pensamento de Paulo sobre o mistério de Deus e sua revelação por meio da pregação e a contribuição de Paulo a essa revelação pelo sofrimento. Cristo revela a riqueza de Deus na pobreza da cruz e o apóstolo será o distribuidor da mesma a homens e mulheres.
Um primeiro comentário ao
evangelho de hoje: Lucas nos apresenta um fato da
tradição existente no círculo de seus discípulos,
especialmente mulheres. Mara e Maria, irmãs de Lázaro,
recebem o Senhor em sua casa. O Caso de Marta e Maria é
aproveitado mais uma vez por Lucas para ressaltar o
valor da escuta da Palavra de Deus. Sem entrar na teoria
do valor da contemplação sobre a ação que se quis ver
nas duas atitudes opostas de Marta e Maria, o certo do
fato é que o Reino de Deus não pode deixar-se distrair
por uma preocupação exclusiva pelas realidades terrenas.
Por outro lado, escutar a Palavra de Deus não é algo
meramente ocasional, mas algo importante na vida: é
tudo. Estamos diante de um quadro familiar no qual Jesus visita suas amigas. Marta e Maria, o recebem em sua casa. Marta se multiplica para dar conta do serviço para atender ao hóspede, mas Jesus a repreende porque anda inquieta “com tantas coisas”. Marta não encontra a colaboração de ninguém. Efetivamente, a irmã sentou-se aos pés de Jesus e está ocupada completamente na escuta de sua palavra. O Mestre não aprova o afã, a agitação, a dispersão, o andar em mil direções “da ama de casa”. Qual é, pois, o erro de Marta? É não ter entendido que a chegada de Cristo significa, principalmente, a grande ocasião, que não se deve perder, e por conseguinte, a necessidade de sacrificar até mesmo o urgente e o importante. Porém, a preocupação no comportamento de Marta é conseqüência, sobretudo, do contraste em relação à postura assumida pela irmã. Maria, diante de tanta atividade, escolhe Jesus, coloca no plano do ser e lhe dá a primazia da escuta. Marta, ao contrário, toma decididamente o caminho do ter e da ação.
Marta se precipita para
“fazer” e este “fazer” não parte de uma escuta atenta da
palavra de Deus e, consequentemente, corre o risco de
converter-se em um estéril girar no vazio. Mara, apesar
de todas as suas boas intenções, se limita a acolher
Jesus em casa. Maria o acolhe “dentro”, se faz
recipiente seu. Oferece-lhe hospitalidade naquele espaço
interior, secreto, que foi disposto por ele, e que está
reservado para ele. Marta oferece coisas a Jesus,
enquanto Maria se oferece a si mesma. Segundo o juízo de Jesus, Maria escolheu sem dúvida, “a melhor parte” (que, apesar das aparências, não é a mais cômoda: fica muito mais fácil mover-se que “entender a Palavra”. Marta, atenta para que não falte nada ao hóspede importante e a todos, deixa passar clamorosamente “a única coisa necessária”. Marta reclama a Jesus: não se sabe o que ela quer.
O problema é precisamente
este: descobrir, pouco a pouco, o que Jesus quer de mim.
Por isso é necessário parar, deixar que ele venha e
tirar tempo para escutar a Palavra de Jesus e
compreender qual é realmente a vontade de Deus a
respeito de minha vida.
Aí acontecem duas atitudes
diferentes. Uma de total atenção e escuta, a outra, de
distração e de afã pelas preocupações habituais. O
trajeto da vida cotidiana havia enganado a Marta e,
provavelmente, a havia tornado surda à palavra de Deus.
Ela recebe Jesus, porém não o escuta. Ainda que Jesus
entre em sua casa, ela o deixa de lado. Jesus propõe um
plano no sentido de formar verdadeiros ouvintes da
Palavra – autênticos discípulos – que Marta não está
disposta a atender.
Maria, ao contrário,
compreende bem o projeto de Jesus e rompe com os
preconceitos culturais de sua época. Em lugar de andar
atarefada com o labor doméstico “próprio das mulheres”
(as “tarefas próprias de seu sexo”, como foi dito e
pensado durante tanto tempo), põe-se “aos pés do Senhor
para escutar a palavra”. Este gesto, reservado então
culturalmente aos discípulos varões, faz dela uma
discípula.
Marta, ao afadigar-se com o
interminável trabalho da casa, questiona a atitude
contraditória de Maria e interpela o Mestre para que
“coloque a mulher em seu lugar”. Jesus dá uma resposta
inesperada: felicita Maria porque acertou na sua escolha
e repreende a Marta por deixar-se envolver nas
preocupações cotidianas sem atender ao importante.
Efetivamente, Maria fez a melhor opção, a única
necessária para colocar-se no caminho de Jesus e ser seu
discípulo: decidiu aprender a escutar a Palavra e se
deixa interpelar pela presença do Mestre.
Em seu caminho, Jesus vai
formando, pois, a seus seguidores nas atitudes
indispensáveis para chegar a ser verdadeiros discípulos.
Uma dessas atitudes é a da escuta atenta e serena da sua
Palavra. Atitude que exige romper com o ritmo louco e
interminável da vida cotidiana para colocar-se serena e
atentamente aos pés do Mestre. Esta escolha que aos
olhos da eficiência pode parecer superficial e inútil, é
uma condição fundamental para chegar a ser um autêntico
discípulo. Nós, hoje, vivemos um ritmo de vida mais agitado do que em épocas anteriores. Os meios proporcionados pela tecnologia para poupar tempo também multiplicam as ocupações e acabam fazendo-nos cair em uma ativismo desenfreado. E o excesso de preocupações nos leva a esquecer o fundamental. Nosso cristianismo se converte assim em um tímido cumprimento de algumas obrigações religiosas, sem espaço para a escuta da Palavra.
Somos exortados, somos
bombardeados continuamente com mensagens que nos
convidam a sermos “eficazes, produtivos e competitivos”.
Porém, com Marta e Maria, Jesus nos interpela e nos
chama a respeitar a hierarquia de valores e a colocar em
seu lugar a “opção pelo fundamental”: estar a seus pés e
escutar sua palavra. Jesus nos convida a que nosso
cristianismo seja um verdadeiro discipulado. Para aprender a lição do Mestre, é preciso deixar-se formar na escuta atenta da Palavra da Bíblia e da vida. A Bíblia não pode permanecer guardada em uma gaveta enquanto nós nos afogamos em interminável torvelinho de atividades cotidianas. A Palavra de Deus está aí para caminhar conosco, passo a passo, dia a dia, minuto a minuto, para ensinar-nos a viver em comunidade a solidariedade que torna efetivo aqui e agora, o reinar de Deus.
Escutar a palavra de Deus é um
grande ajuda na difícil realidade de nossos povos: nas
inumanas condições das grandes cidades, na solidão e no
isolamento dos campos. É preciso, pois, optar por
atitudes que nos convertem em verdadeiros discípulos de
Jesus e autênticos cristãos. Não é adequado interpretar o texto em sentido dualista (ou uma ou outra coisa): “ou contemplação e escuta passiva da Palavra, por uma parte... ou, por outra, ação caritativa sem oração nem contemplação”. Marta e Maria não devem ser símbolos e extremos parciais: a escolha não pode ser por nenhuma delas em particular, e sim pelas duas em conjunto. É o que nos diz o poeta Casaldáliga com “o difícil tudo” que escolheu “a outra Maria”.
MARTA E MARIA As leituras do XVI domingo do tempo comum convidam-nos a refletir o tema da hospitalidade e do acolhimento. Sugerem, sobretudo, que a existência cristã é o acolhimento de Deus e das suas propostas; e que a ação (ainda que em favor dos irmãos) tem de partir de um verdadeiro encontro com Jesus e da escuta da Palavra de Jesus. É isso que permite encontrar o sentido da nossa ação e da nossa missão. A primeira leitura propõe-nos a figura patriarcal de Abraão. Nessa figura apresenta-se o modelo do homem que está atento a quem passa, que partilha tudo o que tem com o irmão que se atravessa no seu caminho e que encontra no hóspede que entra na sua tenda a figura do próprio Deus. Sugere-se, em conseqüência, que Deus não pode deixar de recompensar quem assim procede. No Evangelho, apresenta-se um outro quadro de hospitalidade e de acolhimento de Deus. Mas sugere-se que, para o cristão, acolher Deus na sua casa não é tanto embarcar num ativismo desenfreado, mas sentar-se aos pés de Jesus, escutar as propostas que, n’Ele, o Pai nos faz e acolher a sua Palavra.
A segunda leitura
apresenta-nos a figura de um apóstolo (Paulo), para quem
Cristo, as suas palavras e as suas propostas são a
referência fundamental, o universo à volta do qual se
constrói toda a vida. Para Paulo, o que é necessário é
“acolher Cristo” e construir toda a vida à volta dos
seus valores. É isso que é preponderante na experiência
cristã.
Algo de estranho se percebe em Abraão. Ao ver chegar três pessoas, dirige-se correndo para elas, se prostra e lhes suplica que ”por favor” não passem ao largo. Uma coisa é acolher a quem nos pede acolhida, e outra diferente é adiantar-se a oferecer hospitalidade sem que ninguém peça. Nisto consiste a minha estranheza ante a conduta de Abraão. Há pessoas que se sentem agraciadas, quando hóspedes batem à sua porta. Quem tem uma visão transcendente da realidade - como o Grande Crente Abraão -, sabe que os hóspedes ocultam a presença do Grande Hospede: "o que fizeres a um destes meus pequenos irmãos, a mim o fazes". Porém Abraão contempla seus três hóspedes. Descobre o mistério de Fecundidade que com eles chega à sua casa. Crê neles porque se fixa neles, porque os atende pessoalmente, porque lhe interessa mais as pessoas que o serviço que lhes oferece. Segundo o evangelho de hoje, Marta tem a felicidade de acolher ao mesmo Jesus. A hospitalidade é imediata. No entanto, merece uma repreensão por parte de Jesus, ou melhor, uma impressionante inspiração. Marta multiplica-se na hora de oferecer seus serviços. Porém, a serie de serviços é tal que todas as mãos que colaboram são poucas. Marta requer também as mãos de sua irmã, Maria. Jesus qualifica a conduta de Marta com dois termos: "inquieta" e "nervosa". Jesus faz-lhe ver que está sem concentração, que lhe preocupam demasiadas coisas e no fundo lhe escapa a mais importante. Além disso, lhe censura por tentar contagiar dessa mesma falta de concentração a sua irmã Maria. Jesus mostra assim, que hospitalidade não é oferecer serviços, mais “conectar", "atender", "se concentrar na pessoa à que se acolhe". A pessoa à que se atende não é um ser que merece compaixão, mais um mistério que deve ser decifrado. É uma presença intensa de Deus que se manifesta no "diverso", "no outro", "ao que não é de casa”. É necessário dizer, a favor de Marta, que esta mulher - depois de tudo - soube centrar-se na pessoa de Jesus. Soube compreender seu Mistério e unir o serviço a uma fé profunda em Jesus. Quando morreu Lázaro, foi ela, não Maria, quem saiu ao encontro de Jesus. Foi ela, não Maria que em um diálogo precioso com Jesus admitiu que era o Filho de Deus, o que tinha que vir ao mundo. Tão pouco Sara, a mulher de Abraão, entendeu no princípio a promessa dos hóspedes de Abraão, porém depois ela recebeu a bênção e acolheu. Na Igreja oferecemos muitos serviços. A organização é cada vez melhor, mais extensa. Nossas dioceses, paróquias, congregações, comunidades, fazem o possível para funcionar sempre melhor. Mas, atende-se para valer às pessoas? É a pessoa, seu mistério, sua genialidade, sua unicidade, que nos comove? Dizia-me uma vez, Antonio - um mendigo a quem conheci e valorizei muito - que não ia a um lugar de assistência para comer, porque serviam bem, mais que “não lhe olhavam no rosto”. De que nos vale ter milhares de alunos, milhares de necessitados, milhares de paroquianos... se não temos tempo de olhar os seus rostos? De que nos serve ter aos nossos cuidados muitas pessoas, se não chegamos a nos conectar pessoalmente com eles? A falta de hospitalidade na Igreja pode chegar a ser alarmante quando: você é tratado como um número e não como pessoa, quando te reprovam sem te conhecer, quando suspeitam de ti, quando te colocam etiquetas e te desprezam. Às vezes nos esforçamos na hospitalidade com os poderosos, com aqueles de quem podemos obter benefícios. Não é assim, em tantos outros casos? Haverá quem interprete o Evangelho de hoje como uma senha de “entrega absoluta a Jesus”. Porém não se pode esquecer o que Jesus disse: "Quem a vocês ouve, a mim ouve, quem vos dá um vaso de água dá a mim; estive enfermo e me visitastes...”. Porém não é questão só de serviços. Há algo bem mais profundo: a valoração da pessoa. E, por isso, a acolhida de seu mistério, de sua forma diferente de ser. Não se sente falta da hospitalidade para o mistério das pessoas? A que se deve então tanta crítica, tanto desprezo - ainda que às vezes de modo cortes - para o diferente, para o que não pensa como eu? A excessiva hostilidade nada tem que ver com a atenta hospitalidade. Se na Igreja nos sentimos atacados por tantas frentes, muitas vezes injustamente, algumas vezes justamente, não será por nossa falta de hospitalidade? Porque andamos inquietos e nervosos com muitas coisas, mas não acolhemos o único necessário, que tem muito que ver com acolher a Jesus na pessoa do outro?
E voltamos ao princípio desta
reflexão. Na senha do “servir" fazemos méritos para o
outro. Na senha do “acolher" à pessoa estranha nos
sentimos agraciados com algo muito divino que se derrama
em nós. Uma Igreja de serviços não se confunde com uma
Igreja de acolhida pessoal, que olha aos olhos, que se
estremece ante o outro, que agradece a Deus se sentir
visitada.
José Cristo Rey Garcia Paredes |
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2. Todos sentimos, hoje, a pressa e a pressão das coisas, das pessoas, dos afazeres. Temos de fazer hoje tudo, como se fosse para ontem! Até a própria caridade para com o próximo anda a contra-relógio. Disse-o com particular beleza o Papa, em Fátima, aos agentes da pastoral social: “Muitas vezes, não é fácil conseguir uma síntese satisfatória da vida espiritual, com a ação apostólica. A pressão exercida pela cultura dominante, que apresenta com insistência um estilo de vida fundado sobre a lei do mais forte, sobre o lucro fácil e fascinante, acaba por influenciar e esvaziar de sentido cristão o nosso serviço. Os pedidos numerosos e prementes de ajuda e amparo que nos dirigem os pobres e marginalizados da sociedade impelem-nos a buscar soluções que estejam na lógica da eficácia, do efeito visível e da publicidade. E todavia a referida síntese é absolutamente necessária para podermos servir Cristo na humanidade que nos espera. Neste mundo dividido, impõe-se a todos uma profunda e autêntica unidade de coração, de espírito e de ação”. Ora esta unidade de vida só é possível pela prática da oração. De fato, “quem reza não desperdiça o seu tempo, mesmo quando a situação apresenta todas as características duma emergência e parece impelir unicamente para a ação. A piedade não afrouxa a luta contra a pobreza ou mesmo contra a miséria do próximo» (cf. Bento XVI, DCE 37). 3. Temos agora uma oportunidade mais distinguida de vivência e convivência. Tudo ficará mais entregue à nossa espontaneidade, às atenções do coração. De fato, as pessoas que recebemos ou as que nos esperam, não precisam de cuidados redobrados ou de cozinhados tecnicamente perfeitos; precisam da atenção do coração. Em tempo de crise, não precisaremos também nós de muitos luxos, para viver ou receber bem. «O luxo da nossa vida humana é, por exemplo, poder receber um ramo de flores. Não é uma necessidade. É um gesto completamente gratuito. É essa a grande experiência humana». E, neste preciso sentido, também «Deus é um luxo» (Edward Schillebeeckx) de que nos podemos sempre dar ao luxo! 4. Desfrutai deste período para o repouso e para retemperar as forças do corpo e do espírito. O habitual tempo de férias, no Verão, e em tempo de missão, seja marcado por uma atenção à “vida espiritual”. Seja este o tempo de ver mais longe e mais fundo. E que os nossos corações jamais percam de vista a Palavra de Deus e os irmãos em dificuldade!” Sejam estes, «dias maiores, para uma caridade mais plena»! (dom Manuel Clemente). padre Amaro Gonçalo - www.abcdacatequese.com |
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As duas irmãs, de temperamento bastante diferente, cada uma à sua maneira recebe Jesus com alegria. Enquanto Marta se preocupa em receber a pessoa de Jesus servindo-lhe, procurando acomodá-lo e Lhe preparando um banquete, Maria se concentra em ser servir-se dos ensinamentos do Senhor. Este texto pode ser visto por dois ângulos: No primeiro, a escolha certa de Maria em deixar tudo e receber os ensinamentos de Jesus, acolher sua palavra, pois Ele não veio para ser servido mas para servir, e Marta, ao se preocupar em servir a Jesus, negligencia receber em seu coração seus ensinamentos. Quando Deus visita os homens é para lhes trazer seus Dons, sua Palavra, que valem muito mais que tudo aquilo que os homens possam fazer por Ele. Sem a Palavra de Deus não há salvação, por isso ouvi-la é necessidade absoluta. Olhando por outro ângulo, este texto está inserido no evangelho de Lucas logo na sequência do domingo passado, onde Jesus deixa clara a forma correta de agir com amor. Por este contexto, e observando que o conteúdo dos ensinamentos de Jesus que Maria ouve com tanta atenção se quer são relatados, pode-se acreditar que, ao repreender Marta, Jesus não o faz por ela estar se dedicando aos afazeres domésticos, pois todas as atividades são importantes aos olhos Dele, mas sim pela forma como faz. Ele quer que Marta compreenda um modo novo de realizar as tarefas, seguindo seus ensinamentos e, não importando qual seja a missão, ela deve ser realizada com amor e alegria, sem atropelos. Não é a multiplicidade de obras que salva o homem, mas sim viver a Palavra de Deus com amor e felicidade. www.pequeninosdosenhor.com.br |
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Quem recebe o hóspede recebe Jesus. O anonimato de nossas "celebrações" pode ser amenizado pela acolhida. Acolher, indicar um lugar mais próximo do altar, entregar material de canto ou folhetos, assim como despedir-se, cumprimentar na porta da igreja, tudo isso ajuda a criar um ambiente humano e bom relacionamento. O importante, porém, no exemplo de Marta e Maria, é a acolhida que escuta e que serve com boa vontade, valorizando aquele que chega. Esse tipo de acolhida não acontece somente na igreja, mas em qualquer lugar. Jesus se movimenta de um lado para outro, entra nos povoados, para nas casas. Ele se comporta como um morador do lugar, como alguém desprotegido que depende da boa acolhida dos outros. Marta e Maria o acolhem. Enquanto Marta prepara uma refeição, Maria dá especial atenção ao hóspede. Senta-se com Ele e o escuta. Parece que isso provocou algum ciúme em Marta ou, o que é muito comum, ela não gostou de ter de arcar sozinha com o serviço. O ambiente da casa é tranquilo, normal e humano, com seus problemas de relacionamento. Jesus procura ajudar mostrando onde estão os valores e afirma que Maria escolheu a melhor parte. A melhor parte consiste em estar com Cristo e ouvir a sua Palavra. As ocupações materiais vêm depois. O que importa, porém, é que as duas foram acolhedoras, assim como Abraão, que sem saber acolheu anjos e o próprio Deus. Abraão estava diante da sua tenda quando viu três homens que se aproximavam. Não esperou que eles chegassem e pedissem alguma coisa. Adiantou-se em preparar a acolhida e ofereceu a eles o seu espaço. Abraão e Sara foram recompensados com o anúncio do nascimento de Isaac, o filho da promessa. Sabemos, de forma realista, que os católicos praticantes não são tão numerosos hoje em dia. Entendemos por praticantes os que participam da missa dominical e das atividades da sua comunidade. Esses deveriam constituir um núcleo forte de testemunho cristão no ambiente em que vivem, tanto em relação aos não praticantes quanto em relação aos não católicos. Os contatos, a amizade, as visitas, a ajuda mútua para que ninguém passe necessidade deveriam ser uma prática comum. Às vezes, é mais comum a dissensão, o falatório, a concorrência, a "fofoca". No entanto, a solidariedade fora da Igreja pode se tornar um forte testemunho de vida evangélica. E na Igreja também com a atenção aos mais velhos, a indicação dos lugares vazios e mais próximos do altar, a ajuda nas informações, a entrega de material litúrgico e de evangelização. Os antigos ostiários, que cuidavam das portas, continuam sendo importantes e necessários, mais até do que o serviço do próprio altar, que se faz com mais facilidade. A hospitalidade é a flor da caridade e revela os mistérios ocultos, porque nos torna perfeitos em nossa união com Cristo. cônego Celso Pedro Silva - www.fc.org.br |
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A cidade de Betânia ficava no caminho entre Jericó e Jerusalém. E, em suas viagens, para lá ou para cá, Jesus não deixava de entrar em Betânia para visitar seus amigos. Sabia que lá encontraria uma calorosa acolhida. Diante dessa certeza, por mais pressa que tivesse, nunca passaria por ali sem dar uma "paradinha". Como é bom entrar na casa de amigos! Como é bom sentir-se acolhido e amado. Jesus também fica muito feliz quando o recebem com amor. O lar que acolhe Jesus adquire ar festivo. É o que podemos notar no evangelho de hoje. As duas irmãs dão a Jesus uma recepção digna de um grande amigo. Lucas não menciona outras pessoas neste evangelho. Fala somente de Jesus e das irmãs Marta e Maria, mas Jesus andava sempre acompanhado dos seus discípulos, e Lucas inicia o Evangelho dizendo: “Enquanto caminhavam”...por isso, é bastante provável que seus doze apóstolos também estivessem naquela casa esperando pelo almoço que Marta estava preparando. Diante de tanto serviço e de tantas preocupações, não é de se estranhar que Marta tenha reclamado com Jesus da falta de colaboração de sua irmã. É muito importante ressaltar também, a forma como Marta falou com Jesus. Ela fala de maneira meio chorosa, e reconhece a autoridade de Jesus ao pedir-lhe que mande Maria ajudá-la. Seu jeito de conversar com Jesus deixa transparecer a grande amizade existente entre eles. Marta via Jesus como alguém da família e falou com Ele como se fala para um pai ou para um grande amigo. Falou sem rodeios e naturalmente, não falou por mal. Estava somente transmitindo o que sentia. Sentia-se sozinha e abandonada em meio a tantos afazeres, e sem ninguém com quem dividir as tarefas. As palavras de Jesus não devem ser interpretadas como advertência para Marta, nem como elogios para o comportamento de Maria. Jesus não está censurando o trabalho e muito menos, elogiando Maria por não ajudar sua irmã. Sabe que Marta tem muitos motivos para estar preocupada com seus afazeres. No entanto, Jesus sabe também como é importante que as coisas de Deus estejam em primeiro lugar em nossas vidas. É isso que Jesus tenta ensinar para Marta e para cada um de nós. As preocupações do dia-a-dia sempre existirão e não devem ser negligenciadas, entretanto é preciso cuidado para não nos envolvermos somente com as coisas materiais, a ponto de colocarmos Deus em segundo plano. Marta e Maria se complementam. Por isso se entendem, vivem juntas e são tão companheiras. Não podemos analisá-las de forma isolada, pois uma é o complemento da outra. Uma é o exemplo vivo do trabalho, da ação e do gesto concreto. A outra representa a vida contemplativa e a meditação da palavra de Deus. Maria representa, acima de tudo, a oração. A união das duas representa a perfeição da vida. O trabalho de Marta deve ser visto como algo necessário e a oração de Maria, como algo indispensável. Como dizia São Tiago, a fé sem obras é morta, no entanto a boa obra é fruto da oração. Quem dera fôssemos metade Marta, metade Maria; para estarmos sempre disponíveis, sem nunca nos afastarmos de Jesus. Jorge Lorente - www.miliciadaimaculada.org.br |
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A Liturgia deste Domingo orienta nossa mente e nosso espírito para a compreensão do que é fundamental na expressão da nossa fé. Somos confrontadas e confrontados com duas irmãs na mesma casa e num mesmo acontecimento envolvendo as duas e a visita de Jesus. Cf Lc 10,38-42. É um quadro do cotidiano de Jesus e por esta razão posto ao nosso alcance por Lucas, com exclusividade. O fundamental aqui exposto é a dualidade cotidiana na vida de quem crê em Jesus e na obra do Pai que ele revela. Tudo se passa num vai-e-vem de Jesus em seu caminho. Entra em casa das amigas, como de costume com certeza. Aí as duas irmãs se tornam, para Lucas, representativas da dualidade tida na tradição como contemplação e ação. Uma aos pés de Jesus escutando-o; a outra prestando serviços na casa. Uma compreensão sem dúvida eloqüente, mas a carecer de penetração da intenção do autor do evangelho. Se admitida, essa dualidade, ter-se-ia que considerar seu limite, um anacronismo. Se alguns Padres assim interpretam, partem de uma lógica tão presente no pensamento greco-latino, alcançando seu ponto mais alto na Idade Média que separou radicalmente os chamados espirituais dos demais cristãos, acentuando as antinomias e privilegiando a contemplação. Com certeza não é esta a principal intenção de Lucas que não conheceu esta dualidade em seu tempo nem colocava virtude maior numa ou noutra face do comportamento das duas irmãs. No tempo do evangelho ainda não se falava em virtudes. A questão de fundo era o seguimento de Jesus. Como entender, então, o conhecido episódio com seu discurso? Maria representa a escuta da palavra que Lc tão frequentemente exalta. Marta representa a ação de servir, tão fortemente marcada nas palavras de Jesus ao mestre da lei na parábola do samaritano narrada imediatamente anterior ao evangelho deste Domingo (cf v. 25-37), que tão bem serve ao que tombara vitimado por ladrões à beira da estrada: vai e faze o mesmo. Maria escolheu a melhor parte. A parte de Marta não é a pior. Escutar é atingir a dimensão mais profunda da ação de discípula; Marta com sua diaconia revela toda a extensão dessa escuta. Na verdade, Jesus não questiona o serviço de Marta. Na sua polarização do servir, porém, ela corre o risco de se perder na agitação e não valorizar bastante a escuta da Palavra. De fato ela não parece considerar positivamente a parte da irmã aos pés de Jesus. Pede a Jesus que a mande ajudar (v.40), tirando-a de sua parte da escuta...Seu incômodo a faz paralisar o serviço – Parou (epistasa) e disse: Senhor,...etc - Esquece o único necessário que faz o serviço verdadeiramente eficaz e que não é simplesmente estar aos pés de Jesus mas agir no espírito de discípula. Esta é a melhor parte. A liturgia deste Domingo aponta para o serviço e para a escuta da Palavra. Ambas as dimensões estão na mesma tenda (I Leitura), no ato de acolher o que vem de Deus e servir aos seus enviados e na mesma casa (Evangelho) no ato de acolher Jesus e servir no cotidiano da vida. Não podem separar-se. Na mesma casa habitam a escuta e o serviço como é demonstrado de modo bem prático no salmo responsorial; à pergunta inicial – Senhor, quem morará em vossa casa? -- que é o refrão, o Salmista responde: aquele que pratica a justiça fielmente...não prejudica o seu irmão...etc (cf Sl 14). A distinção tradicional entre contemplação e ação pode ter concorrido para a elitização de uma e outra dimensão do mesmo discipulado. Reforça historicamente tendências que se desconhecem, se excluem e mutuamente se atrapalham, quando na verdade são complementares e essenciais ao perfil do verdadeiro discípulo e discípula de Jesus. Contemplação fica para desocupados, poetas, místicos, monges e monjas. Assim compreendida, a contemplação precisa de estruturas de defesa para existir e ser cultivada. Pessoas do mundo não podem ser contemplativas...Parece que algumas vias contemplativas mais oficiais das nossas Igrejas deixaram-se enveredar por tal segregação elitista. Com isto afastaram-se do comum das pessoas sedentas de uma penetração maior na escuta da palavra e que vivem no corre-corre da vida, deixadas assim à sua carência. A vida contemplativa restou como carisma de poucos. Por sua vez, a ação se torna carisma de grupos especializados agregados em instituições que lhes garantam a existência e a obra a que se atêm. É como o carisma da pós-modernidade urbana, movida de eficiência e promotora da concorrência no mercado da eficácia. Só uma escuta atenta da palavra evita que as discípulas e discípulos caiam no engodo de se sujeitarem às leis da competição na prática do serviço, pois teriam que munir-se, como não poucas vezes acontece, de meios que são controlados por poucos. Um serviço fundado na escuta da Palavra, ao contrário, retira a Igreja da inércia que uma falsa compreensão da contemplação favoreceria e age atento aos sinais históricos de seu tempo. Nossa Igreja congrega, em torno da escuta da Palavra, discípulos e discípulas para o seguimento do Senhor em seu serviço ao mundo e às pessoas. Marta e Maria, sem oposição. Esta é a melhor parte que não lhe será tirada. João Batista Magalhães Sales |
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Parece que as mulheres distribuíram as tarefas: Marta assume o papel de dona de casa que prepara a refeição e Maria assume o dever de fazer companhia ao hóspede. Mas, no nosso texto, aquilo que parece normal assume o sentido de lição. Jesus não condena Marta pelo trabalho («serviços», «servir») que ela está a fazer, até o elogia, mas o fato de estar atarefada, preocupada e agitada com muitas coisas. Não se trata dum banquete, não são precisas «muitas coisas». E sobretudo, com os muitos afazeres, Marta está a perder uma oportunidade única que Maria está a aproveitar. A única coisa necessária nesse momento é a escuta da Palavra. Esta é a melhor parte, o fundamento de toda a vida, de todo o serviço aos outros. Não se trata de opor o «serviço» à escuta da Palavra, mas sim de prioridade, porque uma coisa sem a outra não faz qualquer sentido para aquele que quer seguir Jesus. É o que nos Atos dos Apóstolos vai ser bem vincado: «Não nos convém abandonar a Palavra de Deus para servir às mesas… Quanto a nós, permaneceremos assíduos à oração e ao ministério da Palavra» (At 6,2.4). padre Franclim Pacheco - www.diocese-aveiro.pt |
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AS TRIBULAÇÕES: Agora me regozijo nos meus sofrimentos por vós, e preencho as deficiências das tribulações do Cristo na minha carne em favor de seu corpo, o qual é a Igreja (24). PREENCHO: como significado de encher a medida, cumprir, executar, suprir, ocupar, completar. DEFICIÊNCIAS: a tradução de ysterëma é deficiência, ausência, necessidade, pobreza, o que falta. DAS TRIBULAÇÕES: tribulação, aflição, aperto. Com o nome de tribulação aparece 12 vezes, aflição nove e dificuldade três na KJV, versão inglesa bastante confiável. Tribulações é a tradução da TEB e que mantém a oficial espanhola. Talvez, do latim passiones a tradução sofrimentos seja a que tem prevalecido na interpretação da passagem, levando o leitor a pensar que os sofrimentos da cruz eram compartidos por Paulo como uma necessidade para completar os mesmos. Mas o verdadeiro significado da palavra não é sofrimentos, mas tribulações, adversidades ou dificuldades. Cristo as encontrou durante sua pregação do Reino e Paulo sofreu muito dos inimigos do evangelho de modo que exclamou: no meu corpo trago os estigmas do Senhor Jesus (Gl 6, 17). Destas dificuldades e adversidades o próprio Jesus disse que o reino dos céus sofre violência e os violentos se apoderam dele (Mt 11,12). E se a mim me perseguiram, também perseguirão a vós outros (Jo 15,20). Daí que Paulo possa dizer, como verdadeiro discípulo e pregador do reino: Em tudo recomendamo-nos a nós mesmos como ministros de Deus na muita paciência, nas aflições, nas privações, nas angústias (2 Cor 6,4). NOTA: Este texto tem sido interpretado, através da tradução latina, como uma participação direta de Paulo no mistério da paixão e morte de Cristo. Segundo S. Tomás de Aquino, a morte e paixão de Cristo têm valor total e infinito. Ela não admite uma corredenção em si mesma, mas a Igreja, como parte do corpo místico de Cristo, deve ser em tudo conforme a sua cabeça e não participará de sua glória [da correspondente à cabeça] caso não participe dos padecimentos da mesma (Rm 8,17 e 20). Cristo já padeceu o que estava disposto nos desígnios do Pai [Consumatum est] (Jo 17,4 e 19,30). Falta, pois o que corresponde aos membros para se conformar à cabeça, cada um devendo assumir sua parte até que se colme a cruz individual que devemos tomar como verdadeiros discípulos de Cristo (Mt 10,38). Somos parte desse Cristo místico que não só é esposo da Igreja, em vida comum, mas que deseja ser esposo em matrimônio místico, mas experimental, como última união de cada membro da mesma. Exatamente assim o demonstram as experiências místicas dos santos que chegam a dizer: padecer e não morrer. Deste modo, cada cruz de um membro é também a cruz de Cristo e contribui aos méritos que são parte da saúde e redenção do corpo total. É uma consequência que Paulo claramente expressa em 1 Cor 12,26: se um membro padece todos os membros sofrem com ele e se um membro é honrado todos com ele se regozijam. Daí que, neste mundo de pecado, Maria pede em Fátima que se façam atos de penitência para a conversão dos pecadores. MINISTÉRIO PAULINO: Da qual eu fui feito servidor em conformidade com a administração de(o) Deus a mim entregue para cumprir a palavra de(o) Deus (25). Como sempre, Paulo, para distinguir o verdadeiro Deus dos deuses pagãos, usa o artigo determinante que temos posto entre parêntesis. SERVIDOR: diferente de doulos este verdadeiro escravo. Podemos dizer que diakonos era o servidor à mesa como vemos em Jo 2,5 e 9, geralmente um homem ou mulher livre, à diferença do doulos que sempre era um escravo, ou do ‘yperetës <5257> que era o servidor real. Na Igreja primitiva, os diakonos eram os designados para o serviço material dos necessitados, dentro da comunidade (At 6,1-6). No grego também encontramos ‘yperetës que se traduz por serventuário ou oficial de uma autoridade, como temos em Mt 26, 58, quando Pedro entrou no pátio do Sumo Sacerdote e assentou-se entre os servidores ou serventuários como diz RA evangélica. ADMINISTRAÇÃO inicialmente administração ou gerência de uma casa para terminar com a administração de uma empresa ou um negócio. Quando falamos da economia de Deus, podemos dizer que se trata da dispensação de sua providência com os planos de salvação dos homens, através das graças necessárias para levar ao término os mesmos. Tal Ef 3,2 e 1 Cor 9,17 em que essa planificação passa pela cooperação livre, mas necessária, de Paulo, como apóstolo escolhido por Deus. Paulo é o instrumento de Deus para CUMPRIR A PALAVRA, ou seja, para que a palavra, como ele chama o evangelho cumpra sua missão de excitar os pagãos à penitência e conversão. Tal como era a primeira voz a ser escutada na Galileia no início da vida pública de Jesus (Mc 1,14-15) e que Paulo reclama na sua epístola aos de Corinto: não me enviou Cristo para batizar mas para pregar o evangelho (1 Cor 1,17). Daí que termina dizendo: eu plantei, Apolo regou, mas o crescimento veio de Deus (1 Cor 3,6). MANIFESTAÇÃO DO MISTÉRIO: O mistério, o escondido desde as idades e desde as gerações, mas agora manifestado aos consagrados dEle (26). Essa palavra [logos] exprime agora uma realidade que Paulo designa como MISTÉRIO Mistério, coisa oculta, escondida, secreta, um enigma que deve ser conhecido e manifestado. IDADES: Esse mistério é agora revelado. Paulo diz que foi escondido desde os inícios dos tempos. Aiön em latim aevum é a idade de um homem ou seu período, que pode significar também um período longo de tempo e até uma eternidade ou para sempre.Uma frase comum é eis tous aiönas tön aiöniön [per saecula seaculorum] pelos séculos dos séculos, em que a idade se transforma em século. Apo tön aiönön é a frase atual que se repete em Ef 3,9 e que em ambos os casos, o latim traduz a saeculis, que é traduzida por dos séculos (RA) ou com melhor conformidade com o original, no decurso das idades da TEB. DESDE AS GERAÇÕES. Genea pode ser família, membros de uma família, geração que nos tempos de Jesus correspondia a um período de 30-33 anos. A frase, pois, tem o significado desde a origem [dos homens]. Esse mistério oculto agora é manifestado a seus CONSAGRADOS a palavra agios significa reverenciado, e se diz de uma coisa que está dedicada à divindade, como o templo, que recebe o adjetivo substantivado to agion [o sagrado] ou de uma coisa que pertence a Deus (Lc 1,35). Os demônios falam de Jesus como sendo o agios tou theou [o eleito de Deus]. O povo de Israel era santo (Dn 7,28), assim como os cristãos são santos; e é neste sentido que se deve tomar a acepção antes indicada. A GLÓRIA EM CRISTO: Aos quais quis o Deus dar a conhecer. Qual a riqueza da glória deste mistério no meio das gentes: o qual é Cristo em vós, a esperança da glória (27). RIQUEZA DA GLÓRIA: em singular, ploutos pode ser traduzido por abundância, embora em plural signifique preferentemente riqueza ou riquezas. A glória é majestade, poder, que neste caso é a sabedoria e conhecimento do secreto divino que se manifestou entre os gentios como resultado da pregação de Paulo. Precisamente o mistério estava concretado em Cristo, Cristo no meio dos convertidos como esperança última de vida. Num momento histórico em que a vida era tão difícil e curta, a esperança de uma vida imortal tinha ainda um sentido muito maior de se esforçar e lutar por uma expectativa que prometia uma riqueza inabalável, sem que nada pudesse eliminá-la (Lc 12,33). ANUNCIADO POR PAULO: O qual nós anunciamos admoestando todo homem e ensinando todo homem em toda sabedoria para apresentarmos todo homem completo em Cristo Jesus (28). O QUAL: evidentemente é Cristo o anunciado por Paulo, como ele afirma em 1 Cor 1, 23: nós pregamos Cristo crucificado. Nada de justiça ou outros valores humanos; mas a cruz de Cristo era o objeto da pregação de Paulo. Essa era a sabedoria que devia salvar o mundo segundo Paulo: 1) Porque essa é a sabedoria divina que governa o mundo, pois Cristo é o poder de Deus e sabedoria de Deus (1Cor 1, 24); pois sendo a cruz loucura, é mais sensata que toda sabedoria humana e sendo fraqueza, é mais forte que toda fortaleza humana (1 Cor 1, 25). 2) Porque Ele e sua cruz são os únicos que aperfeiçoam o homem, que só encontra sua plenitude em Cristo Jesus, se tornando novo exemplo de seu modelo: o discípulo deve ser como o mestre e o servo como seu senhor (Mt 10, 24). Evangelho (Lc 10, 38-42): O ÚNICO NECESSÁRIO AO SEGUIR CAMINHANDO: E sucedeu ao caminharem eles, que também Ele entrou numa vila, uma mulher, pois, de nome Marta o recebeu em sua casa (38). Lucas quer iniciar uma nova perícope de sua narração que tem como circunstância externa a sua viagem para Jerusalém, um marco do qual Lucas se serve para narrar diversos ensinamentos junto de alguns fatos de Jesus, ao modo como Mateus enquadra as palavras do Mestre no sermão da montanha. Eis, pois, que entra numa pequena vila ou aldeia. A Vulgata traduz por castellum [forte ou cidadela]. Sabemos que Marta e Maria moravam em Betânia [casa das tâmaras ou palmeiras], aldeia perto de Jerusalém (Jo 11,1). Mas segundo a lógica da narração de Lucas, Jesus ainda se encontrava na Samaria, ou no máximo perto de Jericó, ao qual chegamos no final do capítulo 18 (18,33). Porém, pelos relatos de Marcos, Mateus e João, sabemos que Betânia estava a poucos quilômetros de Jerusalém. O próprio Lucas em 19, 29 dirá que Betânia estava junto ao monte das Oliveiras. E era em Betânia onde Marta tinha sua casa (Jo 11,1), na qual se hospeda Jesus (Lc 10,38). Vemos como, cronológica e geograficamente, Lucas está fora da realidade histórica. Não lhe interessa esse marco narrativo e prefere a perspectiva catequética ou lógica, sem que desvirtue fatos e ditos. Por isso, os seus escritos são cópia da realidade, vivida como anúncio, pelas suas fontes. MARTA: o nome Marta significa senhora ou dona, forma feminina do substantivo aramaico Maré [= senhor]. Parece que era nome usual na época entre os judeus; nome que podemos ler nos papiros egípcios e num ossário [urna que contém os ossos dos mortos] no distrito nor-oriental [lugar do cemitério] de Jerusalém. Quem era Marta? Certamente irmã de Maria (Lc 18,39 e Jo 11,1) e Lázaro (Jo 11,2). Supostamente, era a mulher de Simão, o leproso (Mt 26,6 e Mc 14, 3), pois é no jantar oferecido por ocasião da ressurreição de Lázaro (Jo 12, 1) que Marta, como dona de casa, servia (Lc 10,28; 40). Parece que este jantar não é diferente do oferecido na casa de Simão, o leproso, e que é narrado por Marcos em 13,3-9 e Mateus em 26,6-13. Sabemos que os relatos evangélicos são incompletos, breves resumos do que na realidade aconteceu. Por isso, com os indícios de Lc 10,38-42, podemos supor que o banquete de Lucas na casa de Marta era o mesmo que o banquete de Mc, Mt e Jo da unção em Betânia, na casa de Simão, o leproso (Mt 26 e Mc 14). Já é um indício forte a afirmação de Lucas que Jesus estava como hóspede na casa de Marta. Naqueles tempos, como uma mulher podia ser considerada dona de casa quando o marido, o filho mais velho ou o irmão, eram os que tinham a propriedade? Só se Simão fosse um leproso que devia estar fora do convívio familiar e mais tarde foi curado. Não estando morto ainda era o dono; mas não podia tomar conta da casa que era deixada aos cuidados da mulher. Não se devia a cura a um favor de Jesus, que assim se torna hóspede, na viagem para Jerusalém dos proprietários da casa? Tudo isto se combina com Jo 12,1 que afirma que ofereceram um jantar a Jesus em Betânia em que Lázaro ou Eleazar [Javé o ajudou] estava à mesa e Marta servia. A palavra parece indicar que, como dona de casa, Marta se encarregava do serviço, como diz Lucas no trecho de hoje (38). De todas as formas, admitimos que o caso de hoje poderia ter uma circunstância diferente, como um banquete de sábado entre o grupo de fariseus do qual Simão formava parte. MARIA: E lá, estava uma irmã, chamada Maria, a qual também, sentada aos pés de Jesus, escutava sua palavra (39 O nome em grego é MIRYAM ou Marianne, de significado escuro. Nada tem a ver com a Madalena de Lc 8,2 de nome também Maria, que Lucas, no caso de Nossa Senhora seguindo os setenta, chama de Mariam. É um nome cananeu de origem ugarítico cujo significado próprio é altura, cume. Como nome de mulher tinha uma certa conotação de excelência. No trecho de hoje, Lucas a descreve como sentada junto aos pés do Senhor (39), que era a postura característica do discípulo ao ser ensinado (Lc. 8,35). Ou como foi educado Paulo aos pés de Gamaliel para aprender a observância exata da Lei [Torah]. Maria, pois, como discípula, escutava a palavra [instruções, recomendações], pois logos significa tudo isso. KYRIOS: Marta, então, estava ocupada pelo muito serviço. Tendo-se, pois, apresentado disse: Senhor, não te importas de que minha irmã deixe de servir? Diz-lhe para me ajudar (40). KYRIOS: é o título que com maior frequência se atribui a Jesus. Com o artigo o Kyrios, o Senhor, ou sem o artigo. Não é nome próprio, mas título, atribuído a Jesus como a Deus. O título de Kyrios a Deus tem origem nos Setenta; porém, nos antigos manuscritos gregos parece que se conservava o nome Yahweh com caracteres hebraicos, como afirmam Orígenes e Jerônimo, no seu tempo, de certos manuscritos gregos. Parece que no chamado terceiro estágio do cristianismo [primeiro de promessa, segundo de Jesus e terceiro da Igreja], esta última, segundo Paulo, poderá afirmar que para nós não existe mais do que um Deus, o Pai, de quem procede o Universo e a quem estamos destinados nós; e um só Senhor, Jesus Cristo, por quem existe o Universo e por quem existimos todos nós (1Cor. 8,6). Por outra parte, o Judaísmo pré-cristão referia-se a Deus com o nome de Adon (daí o Adonai=meu Senhor) e em aramaico Maré ou Marya (daí o nome de Maria) e a expressão de Marana tha [Senhor, vem] (1Cor. 16,22). Atualmente na recitação do Shemá, no lugar de Javé, para não pronunciar o nome santo, eles recitam Adonai e traduzem ao português por O Eterno: O Eterno é nosso Deus, o Eterno é único. Atualmente também no lugar de Adonai recitam Hashem com esse significado de Eterno. Por isso a primeira profissão de fé é Jesus é o Senhor (1Cor. 12,3). O título de Kyrios é atribuído a Jesus após sua ressurreição, como diz Pedro: Deus constituiu Senhor e Cristo [Messias] a este Jesus a quem vós crucificastes (At. 2,36). O título de Kyrios passa pois, de Deus [o Javé de Israel] a Jesus na sua condição de ressuscitado, mas para o fim de ser o Rei Salvador, como o anjo anuncia aos pastores: Nasceu-vos um Salvador, o qual é Messias Senhor.(Lc. 2,11). A DIAKONIA: no grego temos diversas palavras que definem o serviço: Doulos escravo, que sendo doméstico recebia o nome de oiketes. Diakonos, criado, destinado a certos serviços especiais como o serviço da mesa. Yperetes um subordinado, inicialmente um submetido ao trabalho do remo. Finalmente o Therapôn, um temporário para um determinado serviço. Como vemos, Marta servia à mesa. Era a que cozinhava e preparava a mesa com velas, divãs, talheres e toalhas correspondentes. Nestes afazeres estava muito preocupada a nossa protagonista. Era o banquete que queria fosse particularmente especial para um hóspede que desejava agradar do fundo da alma porque a ele devia a vida do irmão e talvez a cura do esposo. Esse serviço era próprio das mulheres, enquanto os homens estavam reclinados no triclinium, ou mesa baixa disposta em forma de U, de modo que os serventes podiam entrar pelo centro para servir os comensais, individualmente. MARTA, MARTA: Tendo respondido, então, disse-lhe Jesus: Marta, Marta. Estás preocupada e turbada por muitas coisas (41). Marta se queixa a Jesus de que sua irmã não a ajuda nos afazeres da casa. A resposta de Jesus é uma chamada de atenção que implica carinho e suave reprimenda: não espero de ti que te empenhes em fazer tantas coisas que não são convenientes ou razoáveis. Por que te empenhas em realizar tantas coisas ao mesmo tempo e te angustias por isso? Uma só coisa era a necessária como consequência de minha visita. E sabes? Tua irmã Maria a escolheu como quem escolhe o melhor. É por isso que eu não vou repreendê-la, nem tirar dela essa atitude que é a mais adequada neste momento. A PORÇÃO: Porém, uma só coisa é necessária. Maria, pois, escolheu a boa parte da qual não será retirada dela (42). Qual é essa parte ou porção que fez de Maria a mais sábia na sua escolha? Sem dúvida a de receber Jesus como Mestre e não como hóspede. Como hóspede, a atitude de Marta estaria plenamente justificada e poderia ser absolutamente aplaudida: ótimo. Ele merece a melhor e a mais abundante de minhas viandas. Mas recebê-lo como mestre significa, antes de tudo, ouvi-lo como palavra de vida e escutá-lo para aprender a realizar uma existência em plenitude da verdade. É se tornar discípula e não simples hospedeira. E nesse ponto, Maria estava com a força da razão que proporciona a verdade. Escutar Jesus como Mestre é o primeiro e principal dever de todo aquele que quer se tornar seu discípulo. PISTAS 1o) No contato com Jesus, qual é a coisa principal, ou como diz o evangelho, o necessário? Em toda vida existem momentos de escolha. Por que escolhemos, que escolhemos, qual é a norma-guia para a escolha? O Evangelho é uma proclamação e um anúncio de modificação de conduta e de fé comprometida (Mc. 1,15). Quem o ouve e quer que se torne existencial na sua vida, se torna discípulo, deixa tudo diante do segue-me. As parábolas do tesouro escondido e da pérola (Mt. 13,44-46) confirmam a periferia dos outros projetos humanos. O tesouro e a pérola significam o Reino, exemplificado no próprio Cristo. Por isso Jesus passa da perspectiva da refeição [pouca coisa é necessária, segundo alguns códices] ao único é necessário: A pessoa do Filho do Homem [o Verbo como homem] é o principal, pois dentro do Reino a figura de Jesus é tudo: o único que transforma em realidade interior de vida e salvação o que aparentemente era um fato social externo. 2o) Jesus define-se Mestre da Verdade que com Ele se identifica. Por isso Maria, sentada aos pés de Jesus, se identifica com o verdadeiro discípulo. No filme A paixão de Cristo de Mel Gibson, Cláudia, a esposa de Pôncio Pilatos, diz estas palavras: Si non vis audire veritatem, nemo tibi dicere potest. Cujo sentido é: Se não estás disposto a ouvir a verdade, ninguém a poderá dizer a ti. Em todas as ordens, a verdade é a maior vítima. Ela é unicamente escutada quando estamos dispostos a ouvi-la, mesmo que atinja negativamente nosso bem-estar e nossa comodidade. Jesus não a impõe mas deixa a cada um de nós que busquemos e encontremos a resposta certa como fez com o jurista no evangelho do domingo passado. Por isso, S. Agostinho só se converteu quando a voz da verdade chegou a ser mais forte que a voz de suas paixões. 3o) Todos temos que receber Jesus como hóspede. Como? Paulo o declara em duas passagens de suas cartas, que lembram o trecho de hoje. a) Pela palavra: A palavra de Cristo habite em vós ricamente (Cl. 3,16). b) Pela fé e o amor: pois Cristo deve habitar pela fé em vossos corações para que sejais arraigados e fundados em vosso amor (Ef. 3,17): A riqueza da palavra só pode ser descoberta pela fé e unicamente será o amor que a fará frutificar. 4o) A escuta da palavra não se dá unicamente através da leitura da Bíblia, mas nos fatos da vida, no apelo dos necessitados (Mt. 25,35+), no anúncio dos que pregam a paz (Is. 52,7); pois quem vos escuta a mim ouve (Lc .10,16). padre Ignácio - www.presbiteros.com.br |
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O Evangelho, em Lc 10, 38-42, apresenta Jesus a caminho de Jerusalém e que, em Betânia, é recebido em casa de Marta, irmã de Maria e Lázaro, por quem o Senhor havia chorado e a quem havia ressuscitado. Na casa dos três irmãos, que Jesus amava de todo o coração, encontrou Ele a acolhida e o repouso necessários para descansar, depois de uma longa jornada. O diálogo de Jesus com Marta tem um tom familiar cheio de confiança, que nos faz pensar na grande amizade do Senhor com os três irmãos. Santo Agostinho comenta esta cena da seguinte maneira: “Marta ocupava-se em muitas coisas, dispondo e preparando a refeição do Senhor. Pelo contrário, Maria preferiu alimentar-se do que dizia o Senhor. Não reparou de certo modo na agitação contínua de sua irmã e sentou-se aos pés de Jesus, sem fazer outra coisa senão escutar as Suas palavras. Tinha muito bem compreendido o que diz o Salmo: “Descansai e vede que Eu sou o Senhor” (Sl 46, 11). Marta consumia-se, Maria alimentava-se; aquela abarcava muitas coisas, esta só atendia a uma. Ambas as coisas são boas.” Por séculos quis-se apresentar Marta e Maria como dois modelos de vida contrapostos: em Maria quis-se representar a contemplação, a vida de união com Deus; em Marta, a vida ativa de trabalho; mas a vida contemplativa não consiste em estar aos pés de Jesus sem fazer nada: isso seria uma desordem! Os afazeres de cada um são precisamente o lugar em que encontramos a Deus, “o eixo sobre o qual assenta e gira a nossa chamada à santidade” (São Josemaria Escrivá). Sem um trabalho sério, consciente, prestigioso, seria muito difícil, para não dizer impossível, ter uma vida interior profunda e exercer um apostolado eficaz no meio do mundo. A maioria dos cristãos, chamados a santificar-se no meio do mundo, não se podem considerar como dois modos contrapostos de viver o cristianismo. Pois, uma vida ativa que se esqueça da união com Deus é algo inútil e estéril; uma suposta vida de oração que prescinda da preocupação apostólica e da santificação das realidades ordinárias também não pode agradar a Deus. A chave está, pois, em saber unir estas duas vidas, sem prejuízo nem de uma nem de outra. Esta união profunda entre ação e contemplação pode viver-se de modos muito diversos, segundo a vocação concreta que cada um recebe de Deus. O trabalho, longe de ser obstáculo, há de ser meio e ocasião de uma intimidade afetuosa com Nosso Senhor, que é o mais importante. Ou seja, é no meio de nossos trabalhos cotidianos e através deles, não apesar deles, que Deus convida a maioria dos cristãos a santificar o mundo e a santificação nele, com uma vida transbordante de oração que vivifique e dê sentido a essas tarefas. A um grupo numeroso ensinava S. Josemaria Escrivá: “Deveis compreender agora – com uma nova clareza – que Deus vos chama a servi-Lo nas e a partir das tarefas civis, materiais, seculares, da vida humana. Deus espera-nos cada dia no laboratório, na sala de operações de um hospital, no quartel, na cátedra universitária, na fábrica, na oficina, no campo, no lar, e em todo o imenso panorama do trabalho. Não esqueçam nunca: há algo de santo, de divino, escondido nas situações mais comuns, algo que a cada um de nós compete descobrir (…). Não há outro caminho: ou sabemos encontrar o Senhor na nossa vida de todos os dias, ou não O encontraremos nunca. Por isso, posso afirmar que a nossa época precisa devolver à matéria e às situações aparentemente vulgares o seu sentido nobre e original; pondo-as ao serviço do Reino de Deus, espiritualizando-as, fazendo delas o meio e a ocasião para o nosso encontro contínuo com Jesus Cristo” (Temas Atuais do Cristianismo, nº 114). Temos que chegar ao amor de Maria enquanto levamos a cabo o trabalho de Marta. Pois, o trabalho alimenta a oração e a oração “embebe” o trabalho. E isto até se chegar ao ponto de o trabalho em si mesmo, enquanto serviço feito ao homem e à sociedade, se converter em oração agradável a Deus. Numa palavra, o trabalho é o meio com que nos santificamos. E isto é o que verdadeiramente importa: encontrar Jesus no meio desses afazeres diários, não esquecer em momento algum “o Senhor das coisas”; e menos ainda quando esses afazeres se referem mais diretamente a Ele, pois, do contrário, talvez acabássemos por realizá-los com a atenção posta em nós mesmos, procurando neles somente a nossa realização pessoal, o gosto ou a mera satisfação de um dever cumprido, e deixando de lado a retidão de intenção, esquecendo o Mestre. Marta ao acolher Jesus em sua casa também nos ensina que devemos abrir o coração para o próximo, todo o próximo que se aproxima de nós ou de quem nós nos aproximamos. É toda uma atitude de acolhimento entre os esposos, entre pais e filhos, entre irmãos, entre os vizinhos, no trabalho, em nossas comunidades paroquiais, etc. É importante que acolhamos Jesus como Maria, colocando-nos aos seus pés para ouví-Lo, mas é importante também que O acolhamos como Marta, proporcionando-Lhe descanso e alimento, contanto que tudo seja feito no Senhor. Que a Virgem Santíssima nos alcance o espírito de trabalho de Marta e a presença de Deus de Maria, daquele que, sentada aos pés de Jesus, escutava embevecida as suas palavras. mons. José Maria Pereira - www.presbiteros.com.br |
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A liturgia de hoje nos convida a refletir sobre a hospitalidade e o acolhimento. Toda vez que nos reunimos para celebrar a Eucaristia, o Senhor nos acolhe como hóspedes em sua casa e nos oferece a "melhor parte": a sua Palavra e o Pão da vida. As leituras apresentam pessoas, que acolheram o Senhor. Na 1a leitura, Abraão acolhe com alegria três caminhantes desconhecidos e acolhe também o dom da vida, que Deus lhe oferece. (Gn. 18,1-10a) Abraão está sentado à porta de sua tenda em Mambré, atento a quem passa e disposto a repartir com ele, de forma gratuita, aquilo que tem de melhor. Ao ver três homens, que se aproximam, o Patriarca corre ao encontro deles e oferece-lhes com insistência hospedagem. No final da refeição, como recompensa pela generosa hospitalidade, recebe a promessa de um filho, apesar da idade avançada de Abraão e Sara. Era o que mais desejava na vida... Seria o herdeiro das Promessas. Deus sempre paga generosamente a hospitalidade. * Antiga tradição cristã viu nestes três personagens, dos quais só um fala, misteriosa figura da Trindade. Na 2a leitura, Paulo apresenta o próprio exemplo: acolheu em sua vida Cristo, que deu sentido à sua vida e sua missão: "É Cristo crucificado que vive em mim" (Cl. 1,24-28) * Missão do ministro é acolher o povo em seu coração para que se sinta acolhido, amado e valorizado. As pessoas não procuram tanto na Igreja uma boa organização, mas serem ouvidas e receberem palavras que comuniquem o Amor de Deus. No Evangelho, Marta e Maria acolhem Jesus em sua casa. (Lc. 10,38-42) - MARTA preocupa-se com os trabalhos para acolher bem o visitante em sua casa. - Maria, pelo contrário, senta-se aos pés do Mestre (posição típica de um discípulo diante do seu Mestre) e acolhe a Palavra de Jesus em seu coração. Duas formas sinceras de acolher... mas diante da reclamação de Marta, Jesus afirma que a atitude de Maria lhe era mais agradável, pois a escuta da sua palavra é o ponto de partida na caminhada da fé. A hospitalidade é um gesto sagrado desde o Antigo Testamento. Não é só abrir a porta da casa, mas é também abrir os ouvidos e o coração, para dar a nossa atenção àquele que veio ao nosso encontro. Durante o diálogo, Maria permanece em silêncio, sinal de meditação e interiorização da Palavra de Deus. - Marta acolhe em sua casa um amigo muito querido... - Maria acolhe o Mestre que tem palavras de Vida. - Paulo hospeda o Redentor, que redime os homens de seus pecados... - Abraão acolhe naqueles viajantes o próprio Deus... Quem são as Martas e Marias, hoje? - Na vida prática: Você valoriza mais as pessoas, ou as coisas, os trabalhos, a casa, os negócios? - Na família > Você, esposa, costuma acolher com carinho, com atenção e com sorriso o seu esposo que chega cansado do trabalho ou o seu filho que retorna da escola? > Você, marido, mesmo cansado, escuta com interesse, sua esposa que deseja lhe contar como foi o dia? > E você, jovem, sabe dar a devida atenção a seus pais, que trabalham o dia todo por você? - Na comunidade Você encontra tempo para "sentar aos pés de Jesus e escutar a sua palavra"? Ou apenas se satisfaz em "fazer coisas"? Fato decisivo para ser "discípulo" de Cristo, é estar disposto a escutar a sua Palavra. - Na sociedade Você tem tempo para parar e escutar os que chegam até você, reconhecendo neles a voz de Cristo (ou a visita de Deus)? Ou apenas se contenta em oferecer "coisas"? - Na ação pastoral Como servimos a Deus? O Evangelho nos mostra dois modos: como Marta e como Maria. Damos o devido tempo entre ação e contemplação, trabalho e oração. Ação, sem escuta da Palavra de Deus, torna-se vazia... e oração, sem ação, é estéril e alienante. Que a nossa atitude não seja apenas a de Marta, nem apenas a de Maria, mas a de Marta e de Maria, juntas, se completando em nós... Cristo ainda hoje continua nos advertindo: "Marta, Marta..." Cristo continua ainda hoje batendo à nossa porta. Sua voz tem inúmeros timbres. Procuremos reconhecê-la e abrir a porta sem fazê-lo esperar. Para acolher Jesus, devemos encontrar tempo para nos sentar a seus pés, escutá-lo e escutar os outros; tempo para rezar; tempo para servir; um coração pronto e disponível. A Conferência de Aparecida fala em gastar mais tempo para escutar as pessoas... O que poderíamos fazer nesse sentido? padre Antônio Geraldo Dalla Costa - buscandonovasaguas.com |
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Há um grande desafio entre o ser e o fazer. Entre atividade e o ativismo. A atividade é fruto da experiência e o ativismo é fruto da fuga de nós mesmos. O seguimento de Jesus não é um seguimento ideológico ou partidário ele envolve uma postura de vida. Não seguimos a Cristo pela nossa razão, embora ela seja um instrumento, seguimos pelo amor e a amizade que sentimos por Ele. A experiência de Deus precisa ser cultivada em nossa vida. Não existe nada pronto tudo passa por um processo. Por esta razão o grande inimigo da vida contemplativa e ativa é o “imediatismo” que nos leva ater atitudes precipitadas que muitas vezes vão contra nossa própria vontade. Ele é o grande vilão que tenta destruir o processo de relacionamento nosso com a Santíssima Trindade. Jesus repreende Marta pela sua atitude mais preocupada com o fazer do que com o ser. Apesar de que se ela não estivesse trabalhando eles não poderiam fazer a refeição. O trabalho deve ser o complemento da experiência de amor. Deve nos levar a dignidade de filhos de Deus. Nós cristãos nos perdemos em ações que muitas vezes não são transformadoras de nossa vida e nem de nossos irmãos porque não cultivamos o valor da contemplação e da oração. A teologia não pode ser transformada em ideologia. A sua base deve ser a Mística. A razão precisa nos levar ao amor e ao processo de conversão, pelo contrário nos desvia da realidade. A verdadeira ação é produto da escuta do Senhor. Estamos em um mundo cheio de velocidade e dinamismo. Os meios de comunicação e de transporte se aperfeiçoam cada vez mais para que o homem possa chegar mais rápido e com melhores resultados ao que ele busca (o problema é a resposta a esta busca). O tempo e o espaço devem ser superados a qualquer custo. Na realidade estamos muito longe de nosso coração, pois estamos atravessando uma crise mundial de afetividade. Nunca o homem esteve tão distante de si mesmo como hoje com esta falsa evolução. O fato de Maria estar escutando a Jesus nos surpreende especialmente a reclamação que Jesus faz em relação à Marta que se encontra muito atarefada. Como Jesus conhece os corações, certamente sabia que Marta necessitava mais de contemplação do que de ação. Era justamente o que Maria estava fazendo. Podemos ir um pouco mais adiante neste fato e tentarmos imaginar como seria a vida concreta de Maria em relação à Marta? Certamente ela teria mais condições de enfrentar as situações de seu dia a dia de uma forma mais clara e tranqüila do que Marta que necessitava de maior escuta. Hoje estamos carentes de escuta da Palavra de Deus. Preocupamos-nos em conhecer a ela, ou nem isto, nos perdemos em ações e reuniões não nos recordando que esta Palavra é vida. Ela precisa passar pelo nosso coração. A exegese sem a mística se torna vazia. A contemplação deve complementar a ação e vice-versa. Quando rezamos sabemos exatamente o que o Senhor quer de nós. A oração humilde é um processo de redescoberta de nossa identidade muitas vezes perdida pelo excesso de ativismo. frei Giribone - www.saosebastiaoportoalegre.org.br |
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Nós vivemos no mundo do corre-corre, ou numa palavra clássica, do chamado “ativismo”. Contemplamos as pessoas correndo desvairadamente de um lado para o outro. E isso vem desde os tempos de Jesus. Assim, Jesus, vez e outra, irreverente com seus anfitriões (cf. Lc. 13,27ss), aproveita as intensas ocupações de Marta, sua anfitriã, para falar do assunto no Santo Evangelho. Pois ela deseja que Dona Maria, imersa na escuta das palavras do Mestre Jesus, interrompa sua audiência e a ajude a preparar a comida para Jesus. Mas, por que preparar a comida, se não se sabe para quê? Se a gente não se abre para acolher a mensagem, para que acolher o mensageiro? Um bom anfitrião procura servir o melhor possível, mas se ele não faz tempo para se abastecer, que poderá oferecer? Um montão de coisas, mas não aquilo que serve. “Marta, Marta, tu te ocupas com muitas coisas; uma só, porém, é realmente indispensável...”(cf. Lc 10,41-42). Não diz o que. Só diz que Maria escolheu a parte certa: escutar Jesus. Muito mais importante do que acolher Jesus numa casa bem arrumada, a uma mesa bem provida e servida é acolhê-lo, com suas palavras, no coração e na vida integral. Então saberemos preparar a mesa do modo certo. A primeira leitura de hoje fala da hospitalidade de Abraão e a promessa de Deus (cf. Gn 18,1-10a). Sob a aparência de três viajeiros, Deus apresenta-se “incógnito” a Abraão, que desempenha toda a hospitalidade tão apreciada no Oriente. Mas o acento desliza da hospitalidade de Abraão para a promessa de Deus. Abraão não perguntou pela identidade de seus hóspedes. Agiu por gratuita bondade. Com a mesma gratuidade Deus lhe concede o que era estimado impossível: um filho do seio de Sara. Deus passa por nossa vida, e nós devemos fazê-lo entrar, pois, senão, nossa vida fica vazia. Deus vem como um necessitado, um viajante, e nossa gratuita bondade deve estar pronta para o acolher no momento imprevisto. A segunda leitura (cf. Cl. 1,24-28) fala da manifestação do mistério de Cristo no apóstolo. Servir a Nosso Senhor é participar de seu sofrimento, de sua paixão, morte e ressurreição. No seu sofrimento, o Apóstolo das Gentes vê confirmada sua comunhão com Cristo; e isso lhe é uma alegria. Quer revelar o “mistério de Deus” – que é Cristo – por sua vida. Cristo é “a esperança da glória”. “Cristo está no meio de nós” não é um belo pensamento, mas uma força que nos impele ao encontro de nossos irmãos. Ele é, em nós, a esperança, a impaciência do Dia que há de manifestar plenamente o que ele é e o que nós seremos nele. Um dos temas mais caros da Sagrada Escritura é a escuta da Palavra de Deus. Vem desde o livro do Gênesis, percorre todos os Profetas e é uma das chamadas constantes dos Santos Evangelhos. Todos nós somos convidados a abrir nossas vidas para a escuta da Palavra de Deus e colocar esta palavra em prática. O homem é tendencioso a auto-suficiência, ou seja, a satisfazer seus desejos e interesses de maneira própria e pessoal. Um de nossos dramas é sair dos próprios interesses que, ao final, perfazem um círculo vicioso, e alcançar o transcendente. Assim, Jesus, no Evangelho que hoje (cf. Lc. 10,38-42) refletimos nos fala que a fome do transcendente sacia-se na escuta da Palavra de Deus. Essa escuta não impede o trabalho, mas lhe dá sentido e torna-se condição de boa oração. A essa escuta todos são chamados. As mulheres eram excluídas de ouvir a Palavra de Deus. Mas, Jesus veio acabar com qualquer discriminação e vem ao encontro de Maria para ouvir a Palavra de Deus. Dona Maria está sentada aos pés do Mestre, escutando seus ensinamentos. No ambiente rabínico circulava a opinião de que antes de entregar a tora a uma mulher, seria preferível queimá-la. Que diferença entre essa mentalidade e a de Jesus! Da escuta da Palavra de Deus ninguém é excluído. Jesus hoje acentua o amor horizontal para o próximo. Jesus vai ao encontro de duas mulheres privilegiadas dentro da vida pública de Jesus: Marta e Maria, irmãs de Lázaro, a quem Jesus ressuscitara dos mortos. Jesus era amigo pessoal dos três e costumava hospedar-se em sua casa todas as vezes que ia a Jerusalém. Estes três irmãos moravam em Betânia, um lugarejo distante 15 km de Jerusalém, situado no sopé do Monte das Oliveiras, porém na encosta contrária àquela que se volta para a cidade Santa e onde se situava o horto da Paixão. Para entrar em Jerusalém os judeus se lavavam antes. Assim, em Betânia, Jesus foi se lavar na casa de Lázaro, de Marta e de Maria. A preocupação de Marta era compreensível: ela tinha que preparar comida para Jesus e para seus doze apóstolos. Isso tudo exigia muita preparação e grande trabalho, conforme as donas de casa bem entendem. Marta estava distraída com a preparação do alimento para os visitantes. O trabalho é necessário, é nobre e é bom! Mas o trabalho deve ser santificado pela escuta da Palavra de Deus. Assim, vem a pergunta: E o que é escutar a Palavra de Deus? São Paulo ensina que “a fé nasce da escuta da Palavra de Cristo” (cf. Rm. 10,17). O próprio Cristo elogiou Maria pela grandeza de “escutar a Palavra de Deus” (cf. Lc. 11,28). E, em outra ocasião, Jesus adverte aos judeus que o seu pecado consiste “em não escutar a Palavra de Deus” (cf. Jo 8,43).Não se trata de supervalorizar a contemplação em detrimento da ação. Não há primazia da contemplação. O que é necessário é que toda a nossa ação brote da Palavra de Deus e dela se nutra. Escutar a Palavra de Deus não é somente lê-la com os olhos. É muito mais do que isso: é ouvi-la com os ouvidos e compreendê-la com o intelecto, mas transformá-la em prática de vida, em forma de prece orante, em comportamento, em obras, a ponto de cantar como São Paulo: “Não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim!” (cf. Gl. 2,20). Dona Maria é hoje apresentada como o modelo do verdadeiro discípulo que, em parte coincide com o retrato do verdadeiro modelo de discípulo que, em parte coincide com o retrato do verdadeiro israelita descrito pelos Salmos. Digo em parte, porque Jesus faz exigências novas. O verdadeiro discípulo, aquele que escuta a Palavra de Deus e a põe em prática, Jesus o compara ao homem que construiu sobre rocha sólida e a um campo fértil que produz muitos frutos. Marta, ao contrário, fez um julgamento dizendo que Maria a deixara sozinha nas lides da cozinha. Muitas vezes nos comportamos como Marta sempre com lamúrias e reclamações de toda a sorte. Jesus não condena o trabalho de Marta, mas a sua super preocupação. Assim, a hospitalidade foi sempre recomendada pelo Antigo e pelo Novo Testamento: “Praticai a hospitalidade” (cf. 1Pd. 4,9) A primeira leitura nos mostra a virtude da hospitalidade na figura de Abraão. Deus – que nos anjos se tornou um hóspede – o recompensa com a promessa de um filho. Paulo, na segunda leitura, pode ser um exemplo. Ele passou da “passividade” do sofrimento, assumindo no seu corpo aquilo que o sofrimento de Cristo deixou para ele. Foi desta identificação profunda com Cristo que ele tirou a força para o seu surpreendente apostolado. Ainda hoje Jesus está em viagem e, cansado, bate à nossa porta. Será que o acolhemos na sua Palavra, no angustiado à procura de uma boa palavra, no pobre que pede um pedaço de pão, nos injustiçados, colaborando em criar estruturas sociais mais justas e fraternas? É importante que acolhamos a Jesus como Maria, colocando-nos aos seus pés para ouvi-lo, mas é importante também que o acolhamos como Marta, proporcionando-lhe descanso e alimento, contando que tudo seja feito no Senhor. Quanto ao motivo de ação de graças para podermos hospedar o Senhor! padre Wagner Augusto Portugal - www.catequisar.com.br |