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A liturgia deste domingo nos confronta com o ensinamento de Jesus sobre o amor fraterno, supremo mandamento da vida cristã. Trata-se do ponto fulcral da prática cristã. As leituras apresentam dois aspectos principais: o que é amar e a quem se dirige nosso amor? As duas perguntas fundem-se numa só compreensão: quem ama descobre logo a quem amar. Como lema, que pode ser repetido na homilia e nos comentários, sugerimos: “Torne-se próximo de seu irmão necessitado”, ou a sabedoria popular: “A melhor maneira de ter amigos é ser amigo”. 1º leitura (Dt. 30,10-14) A primeira leitura funciona como verdadeira abertura solene para a liturgia da Palavra. O livro mais imponente da Torá, o Deuteronômio, ensina-nos que o mandamento de Deus não está fora de nosso alcance. Deus fez de Israel seu povo, não por este ser importante, mas por amor e fidelidade à sua promessa (Dt. 7,7-8). O amor de Deus por Israel não tem explicação, mas tem consequências: Israel deve amar a Deus com todas as suas forças (Dt. 6,4-5). Deve escutar sua voz e não se afastar de suas orientações; e, quando se afasta, deve “voltar”, converter-se (30,10). E, se o povo diz que a Lei é difícil, Deus responde que não: não é coisa de outro mundo. Está perto, ao alcance de quem o ama (30,11-14; cf. Jr. 31,33; Br. 3,15-29; Rm. 10,6-8). Hoje importa redescobrir que lei e mandamentos não são coisas do passado, inimigas da liberdade moderna. O termo que traduzimos por lei (torah) deveria, na realidade, ser traduzido como ensinamento, instrução. É uma sabedoria (cf. Sl 19 e Sl 119). Ora, um bom conselho vale mais do que ouro. Para os teólogos que redigiram o livro do Deuteronômio (no século VIII-VI a.C.), a Lei de Moisés era inigualável tesouro de sabedoria, um rumo seguro para a vida, em todas as circunstâncias. Para tê-la sempre diante dos olhos, deviam colocá-la numa faixa amarrada na testa (Dt 6,8; cf. Ex 13,9 etc.). Os “deuteronomistas” enfrentavam um tempo de afrouxamento em Israel, mais ou menos como nós, hoje. A quem achava difíceis as orientações de Deus, respondiam: “Não é verdade. A Lei não é coisa do outro mundo, ninguém a precisa procurar no céu ou no inferno, ela está perto de ti”. Dificilmente poderia estar mais perto do que naquela faixa na testa. Mas não é só por meio dessa faixa que ela pode estar perto. Ela é uma palavra viva, lembrada continuamente pelos próprios profetas, que viviam no meio do povo. E em Cristo ela se torna mais perto do que nunca. Evangelho (Lc. 10,25-37) No evangelho, ouvimos o ensinamento do grande mandamento do amor e a parábola do bom samaritano. O trecho faz parte de um conjunto do Evangelho de Lucas (Lc. 10,26-11,13) que apresenta três exigências fundamentais do ser cristão: 1) o “grande mandamento” do amor a Deus e ao próximo (10,25-37); 2) o “único necessário” (10,38-42); 3) a “oração por excelência” (11,1-13). O “grande mandamento” responde à pergunta pelo caminho da vida eterna: amar a Deus e o próximo. Defrontamo-nos com um especialista da Lei que procurava, em meio à multidão de prescrições, saber o que devia fazer para “herdar a vida eterna”, a vida da era vindoura, do reino que Deus estabeleceria no mundo para sempre (pois era assim que se concebia a vida eterna) (Lc. 10,25-28; cf. Mt. 22,35-40; Mc. 12,28-31). Jesus o remete à Lei ensinada por Moisés. Pergunta o que aí se encontra. O escriba responde: amar a Deus acima de tudo (cf. Dt. 6,5) e o próximo como a si mesmo (cf. Lv. 19,18). “É isso mesmo que deves fazer”, responde Jesus. Novamente: não é coisa de outro mundo! Depois, porém, o escriba pergunta quem é seu próximo. A resposta de Jesus revoluciona suas categorias: o próximo não é um arbitrário “objeto de caridade”; é todo homem, desde que eu me torne próximo dele. Todos nós estamos de acordo em que devemos amar nosso próximo. Mas quem é ele? Minha velha tia rica, prestes a ceder sua herança, ou meu empregado, com cuja família nada tenho que ver? Visto que argumentar não adianta, Jesus conta uma história. Um homem cai nas mãos de ladrões. Passa um sacerdote, mas não tem tempo para parar, pois deve celebrar um sacrifício. Passa um especialista das leis de pureza (um levita): este tem medo de sujar as mãos com o sangue do homem que ficou semimorto na beira da estrada. Passa, depois, um inimigo, um samaritano, talvez um comerciante concorrente do homem que foi assaltado. E esse samaritano, inimigo dos judeus, cuida do homem à sua própria custa. Nesse ponto da narrativa, Jesus pergunta não quem é o próximo a quem se devem fazer obras caritativas, mas quem é o próximo do homem que foi assaltado. A inversão da pergunta é significativa, porque o especialista da Lei é obrigado a responder que um vil samaritano é o próximo de um judeu assaltado. Para todos nós, isso significa: eu sou próximo de quem encontro no meu caminho, sou chamado a ser solidário com ele, a me tornar próximo dele. Ao analisar o texto, aparecem detalhes mais significativos ainda. O samaritano “comiserou-se”, “aproximou-se”: uma linguagem que poderia ser aplicada ao próprio Deus. Deus comiserou-se do ser humano, tornou-se próximo dele e salvou-o à sua própria custa: custou a vida de seu Filho. O próximo, “aquele que se comiserou do homem” (Lc. 10,37), é Deus mesmo. “Vai e então faze a mesma coisa”, e já não precisarás perguntar quem é teu próximo. E terás a vida eterna, porque desde já estarás vivendo a vida de Deus mesmo. Gostamos de escolher nossos próximos. Está errado. Somos próximos de quem encontramos. Deus nos colocou perto deles para os tratarmos com o mesmo amor gratuito que ele nos dedica. 2º leitura (Cl. 1,15-20) A segunda leitura apresenta o belo hino cristológico da carta aos Colossenses. Essa carta dá uma resposta à introdução de doutrinas falsas na comunidade. Alguns ensinam que, além de Cristo, se devem venerar outros seres transcendentes, “espíritos” etc. É difícil ser livre! Por isso, Paulo realça o lugar central exclusivo de Cristo. Ele nos redimiu, dando a sua vida até a morte. Só compreenderemos bem isso quando formos conscientes de que Cristo é também o criador, com o Pai. Ele assume nossa vida e nosso mundo não por fora, mas por dentro. No íntimo do ser homem, ele vive a plenitude de ser Deus. Quando todos chegarem a essa plenitude, a criação estará completa. Esse hino é uma das obras-primas do Novo Testamento. A ideia principal é a unidade da ordem da criação e da redenção, em Cristo. Ele é a cabeça da redenção, assumindo a todos na sua glória, porque é também a cabeça da criação. O hino expressa isso em termos que lembram fortemente o prólogo de João (Jo 1,1-18) e os textos que falam da Sabedoria como hipóstase unida a Deus desde antes da criação do mundo (Pr. 8,22-36; Eclo. 24; Sb. 7). O hino combina a figura da Sabedoria que preside à criação, identificada a Cristo, com aquela outra imagem paulina de Cristo, cabeça da Igreja, que é seu corpo. No pensamento bíblico, todo o corpo participa da realidade de seu princípio vital (no caso, a cabeça). No sacrifício e na glória de Cristo, assume-se todo o universo na reconciliação com Deus. A “plenitude” (termo helenístico-gnóstico, indicando o “uno”, ou seja, o ser perfeito) mora nele: a plenitude de Deus, englobando todos os seus filhos. Esse texto pode ser interpretado como elo entre as duas outras leituras, neste sentido: o amor a Deus e a seu ensinamento (primeira leitura) encontra sua plenitude na fé que se concentra em Cristo e sua palavra, proclamada no evangelho. (Um texto que melhor combinaria com o tema da primeira leitura e do evangelho seria, por exemplo, Tg. 1,21-25, sobre ouvir e praticar a palavra.) PISTAS PARA REFLEXÃO Amor ao próximo e solidariedade Os profetas de Israel teceram os mais sublimes elogios à Lei, ou melhor, ao ensinamento (torah) de Deus. Era um caminho de vida. Mesmo assim, havia quem achasse a Lei complicada e procurasse um resumo ou pelo menos um mandamento-chave que, por assim dizer, a resumisse. Essa questão foi apresentada também a Jesus, e ele deu, sem hesitar, a resposta. Menciona o mandamento que todo judeu recita diariamente na oração do “Shemá Israel” (Dt. 6,4-5) – “Amar a Deus com todas as forças” – e acrescenta: “e ao próximo como a si mesmo” (como está em Lv. 19,18.35). Esses dois mandamentos são inseparáveis, pois o amor ao próximo é o dever número um de quem ama a Deus. Paulo (Gl. 5,13) e Tiago (Tg. 2,8) resumem toda a moral cristã nesse único mandamento. João nos diz ser impossível amar a Deus sem amar o irmão (1Jo 4,21). Não se pode amar o Pai sem amar os filhos. Mas o que é amar? E quem são nossos próximos? Os judeus consideravam como “próximos”, isto é, como candidatos à sua solidariedade, os membros da comunidade judaica e os estrangeiros residentes que viviam em seu meio (e cooperavam com eles): a esses era preciso “amá-los como a si mesmo” (Lv. 19,18.35). No caso dos inimigos, sobretudo dos samaritanos, a esses não se devia amar, pelo contrário (cf. Mt. 5,43). Ora, exatamente um samaritano se torna solidário com um judeu jogado à beira da estrada, depois que dois ilustres “próximos” judeus, um sacerdote e um levita, deram uma volta para não se incomodar com o compatriota assaltado... Jesus não respondeu diretamente à pergunta do mestre da Lei: “Quem é o meu próximo?”. Ele respondeu por meio de uma parábola, porque a questão não é descobrir, teoricamente, quem é e quem não é próximo. A parábola insere o ouvinte numa nova situação prática, existencial. Coração generoso se torna próximo de qualquer um que precisa; a melhor maneira de ter amigos é ser amigo; a melhor maneira de encontrar o próximo é tornar-se próximo, aproximar-se. A questão não é teórica, mas prática. Ora, nós, na prática, esquecemos a parábola de Jesus e fazemos como o sacerdote e o levita: afastamo-nos do necessitado – mesmo se pertence à nossa comunidade! – e não “nos aproximamos” dele. Tornar-se próximo é ser solidário. Será que somos solidários com os que vivem na margem da estrada de nossa sociedade? Mesmo quando damos uma esmola a um coitado, não é para nos desviarmos dele? “Vai e faze a mesma coisa”, diz Jesus. Imitar o samaritano exige solidariedade, assumir a vida do outro, não livrar-se dele. Torná-lo um irmão, pois esse é o sentido verdadeiro da palavra “próximo”. Como fica essa solidariedade neste tempo em que a doutrina da competição, do lucro e do proveito ilimitado solapou o tecido social, as relações de gratuidade entre as pessoas? padre Johan Konings, sj. - www.paulus.com.br |
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Ainda que o capítulo 30 esteja redigido em segunda pessoa do singular, é de sentido plural na época do exílio: “quando te aconteçam estas coisas” (v 1) fala de coisas que já tinham acontecido. Todo o capítulo pressupõe a destruição de Judá e Jerusalém no ano 587 a.C. A boa nova para o povo centra-se no capítulo 30. Apresenta-se mostrando que o preceito não supera as forças, nem está fora do alcance (v 11), ainda que o povo esteja no exílio. Não está no céu, nem parta além dos mares (vv 12-13). A Palavra de Deus já foi pronunciada e se encontra em nossa boca em nosso coração. Se deixarmos a palavra penetrar em nós, ela se realiza em nós (v 14). Ter a Palavra perto de si é amar a nosso próximo. Hoje necessitamos também de abertura à palavra reveladora da ação de Deus em nossa história, com o compromisso de escutá-la e vivê-la em radicalidade e compromisso. Salmo 68 - Humildes, buscai o Senhor e viverá teu coração. O tempo de composição do salmo 68 está expresso na última estrofe onde lemos: “o Senhor salvará a Sião, reconstruirá as cidades de Judá” (v 36), época imediatamente posterior ao desterro, pensando possivelmente no grupo de exilados que ansiavam pela reconstrução do templo. O Salmo é um canto de um “servo de Javé” (v 18): rejeitado e ignorado pelas estruturas de poder, é visto com carinho por Deus que vê nele um exemplo e testemunho para os que, como pobres, buscam e aguardam a ajuda de Deus. Com este serviço estão em jogo a confiança e a esperança de outras pessoas. O salmo é um convite a sair do egoísmo e o colocar-se a serviço dos demais, com a marca inconfundível do amor. Colossenses 1,15-20 - Tudo foi criado por ele e para ele. Este hino da carta aos colossenses apresenta em toda sua profundidade, a primazia de Cristo, como filho de Deus e como princípio de toda a nova humanidade que renasce nele. Conecta a ação salvadora de Cristo com a obra da criação, unidas a um mesmo tronco, com as raízes profundas da fé. A nova criação que surge com Cristo, se apresenta no modelo de nova humanidade: um mundo e uma história onde é preciso trabalhar para cumprir o plano salvador de Deus em seu Filho. Ao ser humano falta-lhe viver a reconciliação com a obra de Deus por causa do distanciamento enorme entre elas e a causa de sua justiça. Lucas 10, 25-37 - Quem é meu próximo? Jesus queria que a lei do amor estivesse em primeiro lugar, acima da lei do culto e acima dos próprios interesses. Visão panorâmica desta parábola: A mentalidade judaica do tempo de Jesus, absorvida pelo legalismo, havia se convertido em uma consciência fria, sem calor humano, à qual não lhe importavam as necessidades nem os direitos do ser humano. Somente se fazia o que permitia a estrutura legal e se rejeitava o que ela proibia. O legalismo, imposto pela estrutura religiosa, era a forma oficial do povo viver e praticar a moral. Chegou-se a estabelecer, por exemplo, desde a legalidade religiosa, que a lei do culto primava sobre qualquer lei, superando até mesmo a lei do amor ao próximo. Isto assombrava a preocupava Jesus, pois não era possível que, em nome de Deus, se estabelecessem normas que acabariam por desumanizar o povo. Este era o contexto no qual nasceu a parábola do bom samaritano: um homem necessitado de ajuda, caído no caminho, mais morto que vivo, sem direitos, violentado em sua dignidade de pessoa, abandonado pelos cumpridores da lei (sacerdotes e levitas), mas que é socorrido por um ilegal samaritano (que não atinha boas relações com os israelitas). Jesus fez uma proposta de verdadeira opção pelos direitos desse ser humano caído, condenado pelas estruturas sociais, políticas, econômicas e religiosas que se apresentam como excludentes (estruturas que se encarregam de não respeitar os direitos das pessoas e não lhes permitem viver em liberdade e na autonomia). Jesus quer dizer-nos como a solidariedade é um valor que precisa ser considerado acima da lei e do culto; acima da própria necessidade pessoal, para buscar o bem estar social e comunitário, a defesa dos direitos de tantas pessoas que vivem em situações de falta de solidariedade e de falta de reconhecimento de seus direitos; tudo isto nas faz pensar na opção por continuar o caminho de compromisso e de trabalho em nossas comunidades e organizações, a partir do compromisso solidário com as pessoas e em especial com os irmãos caídos no caminho, por não terem seus direitos reconhecidos. A parábola é tudo, menos um jogo de palavras bonitas, é algo mais que uma peça literária da antiguidade. É uma constante interpelação para o hoje de nossa vida. Somente Lucas conserva em seu evangelho esta parábola. Este texto, tão amplamente conhecido na liturgia, inicia com uma pergunta de um mestre da lei, ou letrado: ele quer saber o que deve fazer para ganhar a vida eterna. Jesus, por sua vez, lhe devolve a pergunta, para que o letrado busque a resposta em sua especialidade, ele tem a resposta na lei... O letrado, citando de memória o Dt. 6,5 e Levítico 19,18, faz uma a breve síntese do sentido dos 613 preceitos e obrigações existentes, para responder com duas, que são fundamentais: Amar a Deus e ao próximo... Jesus aprova a resposta. O letrado interroga novamente, pois no Levítico o próximo é o israelita e no Deuteronomio reserva o título de irmãos unicamente aos israelitas. Jesus, em lugar de discutir e entrar em becos sem saída, não busca formular novas teorias e interpretações diante da lei antiga e sua prática, propõe apenas uma parábola como exemplo vivo de quem é o próximo. Podemos contemplar na parábola duas personagens e tirar daí as consequencias de ensino para o dia de hoje: um homem anônimo, que é vítima de ladrões e cai meio morto no caminho; um samaritano meio pagão – talvez um pagão completo – cujo trato e relação com os judeus era quase um insulto às suas tradições; um sacerdote e um levita: há contraposição e diferença entre as diferentes esferas de poder religioso. O levita era um clérigo de patente inferior, que se ocupava principalmente dos sacrifícios, “testemunha” do culto oficial e dos rituais que devem ser seguidos na religião estabelecida. A relação entre cada um dos personagens da parábola é diferente. O comportamento do sacerdote e do levita não se baseiam no plano da necessidade do homem caído no caminho, mas relação existente entre a lei e o desempenho do ofício, o apresentar-lhe qualquer atenção ao homem caído, impediria a estes representantes do ofício. Qualquer atenção dada ao homem caído, impediria a estes representantes do culto oficial a oferecerem sacrifícios agradáveis a Deus. O samaritano, pelo contrário, não encontra nenhuma barreira para prestar seu serviço desinteressado ao desconhecido que está caído e ferido, que necessita da ajuda de alguém que passe por esse caminho. O samaritano unicamente sente compaixão pela necessidade desse homem anônimo e se entrega com infinito amor para defender a vida que está ameaçada e despossuída. Próximo, companheiro, diz Jesus nesta parábola, deve ser para nós, em primeiro lugar, o compatriota, porém não somente ele, mas todo ser humano que necessita de nossa ajuda. O exemplo do samaritano desprezado nos mostra que nenhum ser humano está tão longe de nós; e que é preciso que estejamos preparados em todo o tempo e lugar, para arriscar a vida pelo irmão ou pela irmã, porque são o nosso próximo. www.claretianos.com.br |
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Jesus indica o caminho: “O que está escrito na Torah? Como lês?” – Aqui, há algo importantíssimo. Jesus está falando com um escriba judeu; por isso, manda-o à Lei de Moisés. Uma coisa ele quer deixar clara: a vida não está no homem, mas na vontade de Deus! O homem somente será feliz, somente encontrará a vida se procurar lealmente a vontade de Deus. Por isso, no salmo 118, o Salmista pede, de modo comovente: “Sou apenas peregrino sobre a terra; de mim não oculteis vossos preceitos!” Perder de vista o projeto de Deus para nós, é perder de vista a própria vida, o sentido da existência! Não esqueçamos, para não sermos enganados: fechados para a vontade do Senhor, não encontraremos a realização verdadeira! E este é o drama do mundo atual, que se julga maior de idade e, portanto, independente de Deus. Na verdade, é um mundo ateu, porque é um mundo auto-suficiente, que só confia de verdade na sua filosofia, na sua tecnologia, na sua racionalidade pagã e na sua moral fechada para o Infinito! Ao invés, Jesus nos força a abrir o coração para o Alto, para o Altíssimo; convida-nos a respirar fundo o ar novo e puro, que brota das narinas de Deus e dá novo alento ao ser humano cansado e envelhecido pelo pecado! “Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração e com toda a tua alma, com toda a tua força e com toda a tua inteligência”. Esta abertura para Deus dilata e realiza o coração humano, que foi criado para dar e receber amor, amor na relação com Deus, que desemboca, generoso, no amor em relação aos outros: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo”. – “Faze isto e viverás!” Os filósofos ateus dos séculos XIX e XX – de Feuerbach a Sartre - gostavam de insistir que Deus escraviza o homem, desumaniza a humanidade, impedindo-a de ser ela própria, de ser feliz. É mentira! É um triste mal-entendido! A verdadeira abertura para Deus nos faz crescer, nos faz superar nossos estreitos limites, nos lança de verdade em relação a Deus e nos compromete com os outros! Os mandamentos de Deus realizam o mais profundo anseio do nosso coração, que é a vida: “Converte-te ao Senhor, teu Deus, com todo o teu coração e com toda a tua alma! Na verdade, o mandamento que hoje te dou não é difícil demais, nem está fora do teu alcance!” O próprio Deus – acreditem – nos deu o desejo e a capacidade de amar ao nos criar à sua imagem! Jesus insiste ainda em algo muito importante: nossa relação com Deus, se é verdadeira, deve abrir-nos aos irmãos: “Quem é o meu próximo?” – A resposta de Jesus é clara: nosso próximo são aqueles que a vida fez próximos de nós. Nosso próximo são os próximos! Ou os amamos de verdade, ou não há próximo para amar. O próximo viraria uma idéia abstrata e sem valor algum. Não esqueçamos: o próximo tem rosto, tem cheiro, tem problemas e, às vezes, nos incomoda, nos atrapalha, nos desafia, nos causa raiva e contradição. É a este próximo, concreto como uma rocha, que eu devo amar! Mas, atenção: um judeu deve amar o próximo como a si mesmo: é isto que está escrito na Lei. Um cristão, não! Ele deve amar o próximo como Jesus: até dar a vida: “Amai-vos como eu vos amei. Dei-vos o exemplo para que, como eu vos fiz, façais vós também!” (Jo 13,34.15). Recordemos que o próprio Senhor nos deu o exemplo; ele mesmo se fez próximo de nós: sendo Deus se fez homem, veio viver a nossa aventura, partilhar a nossa sorte, para nos dar a sua vida: “Cristo é a imagem do Deus invisível... porque Deus quis habitar nele com toda a sua plenitude”. Ele não viu nossa miséria de longe, não nos amou à distância: desceu e veio viver a nossa vida, fazendo-se Deus-conosco! Por isso, ele é o verdadeiro Bom Samaritano, o verdadeiro modelo daquele que "se faz próximo" do próximo: viu-nos à margem do caminho da vida; viu-nos roubados e despojados de nossa dignidade de imagem de Deus; viu-nos totalmente perdidos... Ele se compadeceu de nós, desceu à nossa miséria, fez-se homem, para nos curar e elevar. Nele, se revela a plenitude do amor a Deus e aos outros: “Deus quis por ele reconciliar consigo todos os seres que estão na terra e no céu, realizando a paz pelo sangue da sua cruz”. Então, somente em Cristo, encontramos a vida verdadeira e a realização pela qual tanto almejamos. Só ele nos reconcilia com Deus e no abre uns para os outros, aproximando-nos no seu amor! Quando os cristãos não conseguem viver isso, quando não conseguem deixar que essa realidade maravilhosa transpareça, é porque estão sendo infiéis, estão sendo uma caricatura de discípulos do Senhor Jesus. Que responsabilidade a nossa! Saiamos daqui, hoje, com essa pergunta: quem são os meus próximos? Que tenho feito com eles? Pensemos em Jesus que veio ser próximo, e ainda se faz próximo hoje, em cada Eucaristia. Pensemos nele: “Vai, tu também, e faze o mesmo!” dom Henrique Soares da Costa - www.padrehenrique.com |
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(cf. Sl 16,15) Estamos vivendo o tempo comum. A liturgia deste dia do Senhor nos fala do amor ao próximo e da solidariedade. Um bom conselho vale mais do que ouro. Para os teólogos deuteronomistas a Lei de Moisés era um inigualável tesouro de sabedoria, um rumo seguro para a vida, em todas as circunstâncias. Para tê-la sempre diante dos olhos, deviam colocá-la numa faixa, na testa. Os deuteronomistas enfrentavam um tempo de afrouxamento em Israel, mais ou menos como nós, hoje. A quem achava as orientações de Deus, na Lei, bastante difíceis, Deuteronômio responde: “Não é verdade, A Lei não é coisa do outro mundo, ninguém a precisa procurar no céu ou no inferno”. A Primeira Leitura(cf. Dt. 30,10-14) nos ensina que o mandamento de Deus não é inalcançável. Deus tornou Israel seu povo, não por ser este importante, mas por amor e fidelidade à sua promessa(cf. Dt 7,7-8). O amor de Deus para Israel não tem explicação, mas conseqüências sim: Israel deve amar a deus com todas as suas forças(cf. Dt 6,4-5). Deve escutar sua voz e não afastar-se de suas orientações: e, quando isso acontecer, deve “voltar”. Israel diz que a Lei é difícil. Javé responde que não: não é coisa de um outro mundo. Está perto, ao alcance de quem ama a Deus. A Segunda Leitura(cf. Cl 1,15-20) é um hino cristológico. A Carta aos Colossenses responde à introdução de falsas doutrinas na comunidade. Alguns ensinam que além de Cristo se devem venerar também outros seres transcendentes, como o espiritismo e a sua falácia. É difícil ser livre! Por isso, São Paulo realça o lugar central exclusivo de Cristo. A Redenção por sua vida, dada até a morte, só a compreenderemos bem quando conscientes de que ele é também o criador. Ele assume nossa vida e nosso mundo não por fora, mas por dentro. No íntimo do ser homem, ele vive a plenitude de ser Deus. Quando todos chegarem a esta plenitude, a criação estará completa. O caminho sinuoso, pedregoso, que ia de Jerusalém a Jericó, em apenas 28 km descia mil metros, Jericó, uma das mais velhas cidades do mundo, está a 350 m abaixo do nível do mar, formando um oásis numa região desértica.(cf. Evangelho de Lucas 10,25-37) O caminho entre Jericó e Jerusalém era conhecido pelos assaltos. O deserto, as cavernas e gargantas facilitavam o esconderijo e a fuga. O caminho era bastante usado, por ser, então, a única subida do vale do Jordão para a Cidade Santa. Negócios, obrigações legais e religiosas faziam movimentar a estrada perigosa, onde os viajantes costumavam subir ou descer em grupos, para se protegerem. Muitos sacerdotes, que prestavam serviços no templo de Jerusalém, moravam em Jericó, assim como os levitas, que eram os serviçais e cantores do templo. A lição de Jesus está em dizer que a misericórdia exige que se deixe de lado o bem-estar pessoal para socorrer um necessitado. Mas suponhamos que se insista na desculpa de não se poder tocar no defunto, para melhor servir a Deus no culto, observando a Lei. É justamente nesse ponto que Jesus dá a grande lição: um irmão necessitado tem precedência, e, se não lhe dermos precedência, nossa oração é falha e errado é nosso culto. Noutra ocasião, Jesus foi ainda mais explícito, citando o profeta Oséias: “Quero misericórdia e não quereis sacrifícios”. Jesus não quer sacrifícios de animais no templo: a misericórdia tem precedência até mesmo sobre a obrigação da Missa dominical. Quem perguntou sobre o infeliz que caiu nas mãos dos ladrões foi um doutor da lei, portanto, um judeu. E os judeus restringiam muito os que podiam ser denominados próximo: eram só familiares, os que tinham o mesmo sangue, os compatriotas observantes da Lei Mosaica, os pagãos que adotassem as leis, a fé e as tradições judaicas, desde que circuncidados. Ficavam expressamente excluídos os estrangeiros, os que trabalhavam para estrangeiros, os inimigos de qualquer espécie, a plebe ignorante, os que exerciam certas profissões que facilitavam a impureza legal - a pesca, o pastoreio, o curtimento de couros -, os pobres e os leprosos. A lição de Jesus é clara e inovadora, de maneira forte: a misericórdia não tem fronteiras religiosas, geográficas ou de sangue. A misericórdia não faz restrições, ela é obrigação de todos. O semimorto é um desconhecido, um anônimo, mas um ser humano. Quem o atende é um samaritano que, para o doutor da lei, é estrangeiro, inimigo e pecador. O homem desprezado pelo escriba é apresentado por Jesus como exemplo de misericórdia, porque socorreu um irmão necessitado, sem saber quem era, sem medir perigos e conseqüências. Assim deve ser o verdadeiro discípulo de Jesus na nova comunidade. A dureza de coração e a supremacia dos interesses pessoais, mesmo se sagrados, devem ceder lugar à misericórdia. O próprio Jesus é o grande modelo: deixou seu paraíso para recolher e curar o ser humano assaltado pela força do mal e deixado ferido à beira da estrada da vida. Se vemos Jesus figurado no samaritano, podemos dizer que Jesus é o modelo perfeito do verdadeiro discípulo. Ele é a encarnação da misericórdia divina, verdade que Lucas tanto acentua em seu Evangelho. Jesus, para curar-nos do pecado, dá-nos seu sangue – que pode ser simbolizado no vinho – e sua benção fraterna e salvadora – simbolizada no óleo derramado nas feridas. Jesus é o nosso próximo mais próximo. E cada um de nós é o próximo mais próximo dele. A Segunda Leitura é uma das obras primas do Novo Testamento. A idéia principal é a unidade da ordem da criação e da redenção, em Cristo. Cristo é a cabeça da redenção, assumindo a todos na sua glória, porque ele é também a cabeça da criação. O hino de Cl 1,15-20 expressa isso em termos que lembram facilmente o prólogo de João e os textos que falam da Sabedoria como hipóstase unida a Deus desde antes da criação do mundo. A figura da Sabedoria que preside à criação, identificada com Cristo, é combinada com a imagem paulina de Cristo, cabeça da Igreja, que é seu corpo. No pensamento bíblico, todo o corpo participa da realidade de seu princípio vital. No sacrifício e na glória de Cristo, assume-se todos o universo na reconciliação com Deus. A plenitude mora nele: a plenitude de Deus, englobando todos os seus filhos. Este domingo leva a Comunidade eclesial a experimentar profundamente sua vocação ao amor ao próximo. A sublime capacidade de imitar a Deus no amor. A parábola do bom samaritano nos mostra que não basta o conhecimento; é preciso saborear, por em prática. Neste domingo a Comunidade transforma em ação de graças toda a dedicação de seus membros na vivencia do segundo mandamento, que é igual ao primeiro: amarás o teu próximo como a ti mesmo. Isto só será possível em Cristo Jesus, a imagem do Deus invisível, em que foram criadas todas as coisas. padre Wagner Augusto Portugal - www.catequisar.com.br |
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Os homens têm belos projetos, mas são egoístas. Seus projetos acabam em privilégios para uns poucos e opressão para a maioria. O projeto de Deus, ao contrário, pretende trazer vida para todos. O coração de Deus só experimentará alegria, quando todos os homens viverem na solidariedade, justiça e paz. É isto que nos fala o Deuteronômio. Qual é a condição para isto? Conversão total a Deus e obediência aos mandamentos e estatutos escritos no livro do Deuteronômio (v. 10). Estes mandamentos e estatutos não são normas frias, mas a síntese de experiências vitais. Portanto, seguir a lei para o Deuteronômio é buscar a vida. Os vv. 11 a 14 querem mostrar a facilidade e a proximidade da Lei. É difícil subir aos céus, é difícil atravessar o mar, mas a Lei não está lá em cima no céu, nem do outro lado do mar. Ela está bem perto do homem, está dentro do próprio coração, ou seja, lá dentro da própria consciência. Coração para o semita é a sede da consciência. Quem quiser colocá-la em prática, portanto, não tem desculpas, pois obedecer à lei é obedecer ao que há de mais profundo no coração humano - seu anseio de justiça, sua busca de vida para todos: Sim, esta palavra "está na sua boca e no seu coração, para que você a coloque em prática". 2º leitura - Cl 1,15-20 Diante de tantos mediadores impostos pelos cultos pagãos e outros, como seres angélicos, tronos, soberanias, principados, autoridades e outras forças cósmicas, o autor apresenta o único mediador entre Deus e os homens: Jesus - o Filho amado. Estamos diante de um dos belíssimos hinos registrados nas cartas de Paulo ou atribuídas a ele. É uma exaltação à soberania de Cristo sobre tudo e sobre todos. Cristo é apresentado como a plenitude do humano e do divino. Cristo origem e fim de todas as coisas - vv. 15-17 O Gênesis já dizia que o homem é imagem e semelhança de Deus. Aqui podemos perceber que esta imagem chega à perfeição em Jesus Cristo. Ele é a visibilidade do próprio Deus no meio dos homens. Ele é o primogênito, o Filho anterior a tudo. Nele tudo foi criado, tudo que existe no céu e na terra, inclusive estas criaturas que os cultos pagãos estavam querendo apresentar como mediações. O mais interessante ainda é que tudo foi criado por meio do Filho e para o Filho. Ele é assim a origem e a finalidade de todas as criaturas. Cristo é a cabeça do Corpo que é a Igreja - vv. 18-20 Ele é o princípio da humanidade nova. O projeto de Deus falido em Adão alcança plena realização em Jesus Cristo, que, através da sua morte e ressurreição, funda uma humanidade nova. Ele tem a primazia em tudo, porque Deus, a plenitude total, quis nele habitar. Jesus é, portanto, a plenitude de Deus no meio dos homens; ele é o projeto acabado que Deus tinha para o homem. Por meio de Jesus através do seu sangue na cruz Deus se reconcilia com os homens estabelecendo a paz. A humanidade reconciliada, esta humanidade nova, recriada em Cristo, é a Igreja da qual Cristo é a cabeça. EVANGELHO - Lc 10,25-37 a) A atitude do especialista em leis e a resposta de Jesus Ele é mal intencionado. Sua pergunta é para tentar Jesus, além de ser uma pergunta egoísta. Sua ação visa seu próprio benefício: "Mestre, o que devo fazer para receber em herança a vida eterna?" Como ele é um especialista em leis, Jesus pergunta o que diz a Lei. Ele responde direitinho, amar a Deus e ao próximo. Jesus aprova sua resposta e diz categoricamente: "Faça isso e viverá". Para possuir a vida eterna não é preciso possuir muita teoria nem ser especialista em nada: a única especialidade que a lei exige e que Jesus insiste é a prática do amor. Como o especialista não quer saber da prática, ele teoriza mais uma vez com a pergunta: Quem é o meu próximo? Jesus responde indiretamente com uma parábola. E nesta parábola do Bom Samaritano ele transforma a pergunta egoísta e teórica do especialista numa pergunta altruísta e prática, onde o importante é o outro a quem eu devo amar e servir e não eu mesmo. Então a pergunta fica assim: que tipo de atitude prática me torna próximo da pessoa que encontro? b) Atitude do ladrão Uma atitude desrespeitosa, desonesta, gananciosa e usurpadora. Os ladrões de ontem e de hoje, ladrões de cor, ou de colarinho branco, ladrões que compram ou que vendem comportam-se como o funil ganancioso e o seu lema é: "o que é teu é meu". c) Atitude dos encarregados do Templo (sacerdotes e levitas) Eles também são especialistas não em leis, mas em religião, em ritos. Sua preocupação não é com o outro, a pessoa, a vida, mas com a religião, o Templo, os ritos, o culto, a pureza ritual. Eles concentram sua atenção em torno dos Templos e dos cultos sem vida e a parábola lhe mostra que Deus não está mais no Templo, mas na pessoa dos excluídos e dos marginalizados. Eles possuem valores aparentes e querem defendê-los mesmo em detrimento da vida. Seu lema é: "o que é meu é meu". d) Atitude do samaritano Ele não é especialista em nada. Não carrega perguntas teóricas como quem é o próximo; mas procura na prática estar mais próximo de quem precisa. A parábola insinua que o assaltado e moribundo era um judeu (judeu era inimigo de samaritano). Mas o samaritano está preocupado com a vida em perigo e não com rixas e picuinhas. Sua atitude é de compaixão, atitude divina que no evangelho de Lucas é reservada apenas ao Pai (cf. 15,20) e a Jesus (cf. 7,13). A parábola ocupa um grande espaço para enumerar as diversas atitudes práticas do samaritano. Ele é o homem da solidariedade e partilha. Seu lema é: "o que é meu é teu". Jesus não quer sacrifícios, mas misericórdia. dom Emanuel Messias de Oliveira - www.diocesedeguanhaes.com.br |
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para que a possas pôr em prática.” A primeira leitura apresenta-nos o texto da época do exílio. “A infidelidade causou as maldições anunciadas em 28,15-68. Tudo perdido? Não. Abre-se uma esperança: o povo deve meditar sobre a experiência histórica, converter-se novamente para Javé, e obedecê-lo radicalmente. Então o processo histórico mudará: o povo será novamente reunido, tomará posse da terra, e terá um novo tempo de bênçãos (cf. nota em 29,8-14). O Deuteronômio projeta o caminho de uma sociedade fraterna e igualitária: a justiça. O povo não pode desculpar-se, perguntando: “O que devo fazer?” O caminho já está ao seu alcance. Basta meditar nele, mudar a consciência e organizar a prática” (Bíblia da Paulus). O texto expressa-se de forma insistente e dramática, para que o povo escute a voz do Senhor seu Deus, e cumpra novamente os preceitos e mandamentos que estão no livro da Lei. Moisés reforça a necessidade da conversão, com o coração e toda alma. Tudo se renovará a partir da conversão, todas as graças e bênçãos do Senhor estão ao alcance de todos, quando há mudança e conversão. Os mandamentos não são pesados nem distantes do nosso alcance. Não precisamos subir ao céu. Basta rever a conduta e voltar ao caminho da prática do bem e dos preceitos que Deus colocou para dar segurança, e saber para onde caminhar. Deus não está além-mar, nem no fundo dele, nem no céu, muito menos em países distantes. Se estivesse além-mar, ele estaria salvo. Se estivesse no fundo mar, somente os peixes seria salvos. Se no céu, seria salvo somente o espaço sideral. Mas ele está em meio a nós. Portanto ao nosso alcance, e a prática que deseja é que o amemos nos irmãos e irmãs: eis o maior mandamento. “Por Ele e por Ele tudo foi criado.” “Para animar os colossenses a permanecerem firmes na fé, Paulo cita um hino cristão, provavelmente usado na cerimônia batismal, que canta a grandeza de Cristo. Ele se serve desse hino, para criticar toda doutrina que apresente como necessárias outras mediações salvíficas, além da de Cristo. Cristo é o único mediador entre Deus e a criação, e só ele, mediante a cruz, é capaz de reconciliar Deus com as criaturas, submetidas ao pecado. A introdução ao hino mostra como o pecado interferiu na criação, fazendo que a obra de Cristo se tornasse redentora, mediante uma nova criação. O Deus invisível e inatingível torna-se visível e acessível em Jesus, o Filho que se encarnou no mundo e na história. Jesus é, portanto, o verdadeiro Adão (Gn. 1,26s). Existindo antes de qualquer criatura, ele se torna modelo, cabeça e único mediador do universo criado. No hino primitivo, o termo “corpo” (v. 18) significava “universo”; com o acréscimo da expressão “que é a Igreja”, passou a indicar a comunidade da nova criação, da qual Cristo é a Cabeça. Primeiro a ressuscitar dos mortos, Cristo é o novo Adão, pois na nova criação ele é o Primogênito. Assim, o poder vital de Deus torna-se acessível aos homens por meio de Cristo, reconduzindo a criação à paz. A pacificação do universo está na remissão dos pecados realizada por Cristo na cruz” (Bíblia da Paulus). “Quem é o meu próximo?” O evangelho vem ao encontro da 1ª leitura de hoje, e mostra como praticar os mandamentos e viver o amor. “O primeiro a colocar obstáculos no caminho de Jesus é um teólogo. Este sabe que o amor total a Deus e ao próximo é que leva à vida. Mas não basta saber. É preciso amar concretamente. A parábola do samaritano mostra que o próximo é quem se aproxima do outro para lhe dar uma resposta às suas necessidades. Nesta tarefa prática, o amor não leva em conta barreiras de raça, religião, nação ou classe social. O próximo é aquele que eu encontro no meu caminho. O legista estabelecia limites para o amor: “Quem é o meu próximo?” Jesus muda a pergunta: “O que você faz para se tornar próximo do outro”?” (Bíblia da Paulus). A pergunta do doutor da lei foi capciosa, mas Jesus, sabendo o que se passava no seu íntimo, fez-lhe outra pergunta. Jesus apelou à Lei, pois sabia que o interpelador a conhecia muito bem. A resposta foi aquela que Jesus esperava, e mandou o doutor da lei vivê-la. Não basta saber ou conhecer a lei, é necessário praticá-la. Citando o Deuteronômio como resposta, respondeu bem, mas, para se justificar, quis saber quem é seu próximo. Jesus conta-lhe uma parábola conhecida como do Bom Samaritano. Ela conta que nem sempre o mais religioso ou o mais estudado vivem o que professam e conhecem. Pois a razão não está longe do coração, mas o coração sempre tem razões de amor para superar a razão. O caminho da razão ao coração é difícil; o mais curto, porém o mais árduo. Uma vez feito o caminho, a união dos dois faz o milagre do humanismo levado a máxima expressão divina, o ser humano semelhante a Cristo. Quem é o seu próximo? A pergunta deveria ser: quem está próximo? Ter compaixão significa sentir com o outro, e, como sente como o outro, quer fazer algo para não sentir mais tal coisa; portanto, fará de tudo para ajudar a aliviar o outro, aliviando a si mesmo. Compaixão é sofrer com e fazer de tudo para aliviar, e dar somente a companhia, e tirar a paixão, sinônimo de sofrimento. Aquele que não era religioso, nem instruído, salvou o assaltado. Não usava a razão, mas o coração, sem preconceito, porque isto é inimigo do amor. Os que tinham a ciência da fé e da Lei não fizeram nada, porque usaram a razão, e não o coração. Ainda estão cheios de preconceitos e preceitos criados por eles mesmos, e não por Deus. O doutor responde certo novamente, e Jesus manda-o fazer o mesmo, ou seja, então será perfeito praticante daquilo em que crê. De quem nós cristãos nos fazemos próximos? Praticamos o que cremos, e cremos naquilo que professamos? Temos a união de razão e coração, ou vivemos separando fé e vida? A nossa compaixão é somente com os parentes, ou saimos e vamos ao encontro dos que sofrem? Se a resposta for sim, podemos cantar o hino cristológico que aparece na 2ª Leitura, pois estamos unidos a Cristo, ou, em outras palavras, estamos cristificados. www.arquidiocese-pa.org.br |
![]() O Evangelho de hoje fala de solidariedade e compaixão. Ressalta que o amor a Deus só pode ser expressado através do amor ao próximo. O amor ao próximo é o filtro que purifica e que complementa o amor que devemos prestar a Deus. Ninguém pode dizer que ama a Deus se não ama o seu próximo. Para os judeus, o próximo era o seu parente, seu amigo ou conterrâneo. Os estrangeiros, principalmente os samaritanos, eram excluídos e tratados com descaso. O mestre da lei teve uma dúvida e perguntou: mas quem é esse próximo a quem devo amar como a mim mesmo, quem é esse meu irmão? Boa pergunta, quem é esse irmão? Para Jesus o próximo vai muito além de um amigo, parente ou vizinho. Para Jesus, próximo não está relacionado com distância física nem parentesco, mas sim, com amor. Não é fácil entender e aceitar, mas Jesus ensina que o amor aproxima. Jesus nos traz uma parábola bastante atual e que tem a finalidade de abrir os nossos olhos. Diariamente vivemos esta passagem. Olhamos com indiferença para as vítimas de assaltantes, vítimas das drogas e do desemprego que nos aparecem feridos, necessitados e sem forças, até mesmo, para pedir socorro. Jesus fala do samaritano, de sua disponibilidade e da sua preocupação com aquele estranho. Ele não se importou com o fato daquele homem ser um judeu, preocupou-se somente com o essencial, com sua saúde e com o seu bem estar. Quanto mais falamos desse samaritano, mais aumenta a curiosidade em saber de sua vida. Jesus poderia ter detalhado melhor esse viajante. Por que não disse seu nome, se era rico ou pobre, branco ou negro? Nada sabemos de sua vida particular. Será que tinha filhos, esposa, família? Dúvidas medíocres como essas vivem rondando nossos pensamentos. Diante de um exemplo tão maravilhoso, nos preocupamos mais com os detalhes do que com a essência. Esses detalhes nem passaram pela cabeça do samaritano. Não se preocupou com cor, religião, poder ou raça, simplesmente viu naquele moribundo um irmão. Que importa saber seu nome? Importante é saber que ele conhecia muito bem a Lei Divina. Esse sim era um especialista em leis. Mais do que isso, ele conhecia, amava e vivia a Palavra de Deus. Quanto ao sacerdote e ao levita, não podemos dizer que não conheciam o mandamento, mas podemos afirmar que não o colocavam em prática. Não viviam o amor. Nós podemos saber mais sobre esse desconhecido através dos bombeiros, enfermeiros, missionários, catequistas, líderes de movimentos sociais e de outros milhares de heróis que arriscam suas vidas para levar vida aos excluídos, aos menores de rua e dependentes químicos. São "samaritanos" que conseguem enxergar um irmão em cada um desses desfigurados. Quem quiser saber ainda mais sobre o samaritano, basta olhar para Jesus. Em tudo ele nos lembra o Cristo que, sem perguntar a raça nem religião, sem olhar classe social ou cor, se aproxima da humanidade cambaleante, sofrida, machucada, prestes a morrer e a socorre. Por amor entregou sua própria vida para salvar, até mesmo, o maior dos pecadores. Neste evangelho Jesus resume que o nosso próximo é aquele que precisa de nós. Jesus diz: "Vai e faz o mesmo, imite o samaritano!" Essa é a ordem para quem quiser ganhar a vida eterna. O amor é o essencial, o mundo precisa dele e milhares de irmãos precisam de nós. Jorge Lorente - www.miliciadaimaculada.org.br |
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Quantas vezes nós escutamos que a palavra “católico” significa “universal”? Várias. A Igreja de Cristo nasceu selada pela universalidade. Ela não devia estar restringida aos judeus. “Ide por todo o mundo” – disse Jesus. Ninguém nasce cristão, é feito cristão no sacramento do batismo. Quando somos gerados para essa vida nova em Cristo, recebemos imediatamente essa nota característica: universalidade. Nesse sentido, o coração do católico abraça a todos, a começar pelos católicos. Não se pode viver um amor universal desvinculado do amor às pessoas com as quais convivemos. Fico impressionado com algumas atitudes, por exemplo, em relação ao ecumenismo: somos muito tolerantes com os irmãos chamados evangélicos e pouco tolerantes com irmãos católicos caso tenham outra maneira de ver as coisas. Que tenhamos por certo: é totalmente lícito pertencer a distintas manifestações da catolicidade, a esse ou àquele movimento, a essa ou àquela pastoral, a essa ou àquela organização. Também é lícito e maravilhoso que entre os católicos haja várias opções temporais: esse ou aquele partido político, essa ou outra equipe de futebol, essa ou aquela filosofia. A catolicidade admite a unidade formada pela variedade. Unidade na fé, nos sacramentos, na moral, na obediência ao Papa e aos bispos em comunhão com ele; variedade em todas as outras coisas. Não estou fugindo da passagem do evangelho de hoje ao fazer essas afirmações tão amigas da liberdade. O samaritano, a diferença do sacerdote e do levita, “fez o bem sem olhar a quem”, simplesmente moveu-se de compaixão e começou a agir pelo bem daquele pobre homem que tinha caído na mão de malfeitores. O samaritano era um homem de coração e deixava que a compaixão o movesse a ajudar o próximo. Aprendamos desse homem: tenhamos um coração compassivo, a começar pelos nossos irmãos. Peçamos a Deus a graça de não ficarmos insensíveis diante das misérias da humanidade, das vicissitudes dos nossos irmãos, da pobreza, da falta de educação, da falta de vida espiritual. O bom samaritano, estando de viagem, soube atrasar os seus próprios projetos para realizar uma obra de misericórdia; não só viu as feridas daquele pobre homem, mas dedicou-lhe tempo e pôs-se a curá-las; não só o levou a uma hospedaria, mas até pagou as despesas. Jesus nos quer ensinar uma caridade que não é simplesmente uma espécie de filantropia, já que brota de um coração compadecido que faz ver quais são as verdadeiras necessidades dos nossos irmãos, ou seja, nos faz compreender os outros. Às vezes, o coração compassivo, movido pela caridade, nos dirá que em lugar de dar alguma moeda a um mendigo, o escutemos com carinho; outras vezes, a caridade que vem de Deus e que habita nossos corações nos dirá que não é só dar atenção e dizer que vai rezar por essa pessoa, mas também ajudá-la economicamente; outras ainda, o amor compassivo nos mandará fazer ambas as coisas. Quando estamos atentos ao que amor pede de nós em cada momento, não nos perguntaremos por uma suposta obrigação de caridade, mas a grande questão será a necessidade do outro. A pergunta não é “estou obrigado ou não a fazer isso?”, mas “o que essa pessoa necessita nesse momento?”. Na primeira pergunta está o nosso “eu”, na segunda está o “tu” dos outros. A caridade vai ao encontro, não é egoísta. A caridade alarga as nossas perspectivas e nos faz ter uma mentalidade universal. Por outro lado, uma visão “católica” das coisas nos oferece uma percepção aprimorada das distintas situações e nos faz ser mais eficazes à hora de ajudar os outros. padre Françoá Costa - www.presbiteros.com.br |
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Um doutor da Lei aproximou-se de Jesus e lhe perguntou: "Mestre, que devo fazer para alcançara vida eterna?" (Lc. 10,25). Jesus, no melhor estilo do mundo rabínico, devolveu-lhe a pergunta: "Que é que está escrito na Lei? Como é que lês?" E o doutor respondeu, citando o "Shemá, a oração que os israelitas rezam duas vezes por dia: "Amarás ao Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma, com toda a tua força e com todo o teu espírito, e ao teu próximo como a ti mesmo"{lbid., v. 27). Era tudo tão claro! E não ficou bem para o doutor da Lei ter feito a pergunta. Ele, porém, não se deu por vencido, e acrescentou uma nova pergunta: "E quem é meu próximo?" (v. 29). Foi quando Jesus pronunciou uma de suas mais belas parábolas, que será lembrada até os confins da terra e se contará ainda no último dia da História. É a parábola do Bom Samaritano. Ela fala do homem que descia de Jerusalém para Jerico, e no caminho foi assaltado pelos ladrões, que lhe roubaram tudo e o cobriram de pancadas, deixando-o meio morto à beira da estrada. A estrada naquele tempo era mais do que perigosa e as viagens eram arriscadas. Passou por ali pouco depois um sacerdote, viu o homem ferido, mas não quis se envolver no caso. Passou de longe e prosseguiu seu caminho. Passou também um levita, e teve o mesmo procedimento. Mas um viajante Samaritano, que ia passando em seguida, teve pena do pobre homem. Parou, apeou de sua cavalgadura, aproximou-se do pobre ferido, e lhe prestou os primeiros cuidados que pôde. Derramou óleo e vinho nas feridas. Vinho, como anti-séptico, e óleo como suavizante da dor. Colocou em seguida o homem em sua própria cavalgadura e o levou para uma próxima estalagem. Cuidou dele até o dia seguinte, e se despediu, deixando dois denários ao estalajadeiro para que fizesse tudo o mais que fosse necessário. E acrescentou que na volta pagaria tudo o mais que tivesse sido gasto. E aí vem a pergunta de Jesus ao doutor da Lei: "Qual desses três, na tua opinião, foi o próximo desse homem atacado pelos ladrões?" É claro que foi o que se compadeceu dele, respondeu o doutor. "Pois bem -concluiu Jesus -vai, e faze o mesmo" (v. 37). À beira da bela estrada de asfalto que hoje liga Jerusalém à região da depressão do mar Morto, onde fica Jericó, há um hotel com o sugestivo nome de "Hotel do Bom Samaritano", em oportuna homenagem à parábola de Jesus. E a lição ficou para todos nós. Socorreros necessitados, mesmo que isso nos custe sacrifício e perturbe nossos planos de atender tranqüilamente a nossos negócios. Só assim poderemos dizer que amamos ao próximo "como a nós mesmos". Neste nosso século de negocismo e de visão de lucro, há muita gente que só faz algum benefício, quando tem um retorno lucrativo. Só ajudam, por exemplo, alguma instituição assistencial, que garanta desconto no imposto de renda. E quantos há, que só ajudam a um pobre para se verem livres dele! Bem diferente de muitos abnegados enfermeiros que tratam de pobres nos hospitais e daqueles que gastam sua vida socorrendo a toda classe de necessitados. Sobre eles se projeta amável a sombra do Bom Samaritano. Jesus foi, por excelência, o Bom Samaritano. Desceu da Jerusalém celeste para a Jericó que é esta terra, onde o pecado havia ferido o homem mortalmente e o prostrara à beira da estrada da vida. Jesus nos socorreu com todo o amor; embora isso lhe custasse a morte de cruz no suplício do Calvário. Fez tudo por nós. E, - se quisermos insistir na aplicação da parábola, - confiou-nos à hospedaria da Igreja, para que ela cuidasse de nós. E os próprios dois denários seriam a figuração dos dois sacramentos - o batismo e a eucaristia - que estão na base dos meios da santificação que temos nesta terra! padre Lucas de Paula Almeida, CM - www.padrelucas.com.br |
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O evangelho de hoje se inicia com uma pergunta com tom de maldade na intenção do mestre da Lei. Um mestre da Lei é especialista na Lei de Deus, pois ele a estuda, a conhece, sabe os detalhes. Numa linguagem simples, a Lei de Deus consiste nos cinco primeiros livros da Bíblia que nós chamamos de Pentateuco e os judeus de Torah. A vida do judeu gira em torno da observância da Lei de Deus. Um especialista estuda todas as prescrições e aplicações relativas à Lei, portanto devia saber a resposta para sua pergunta sobre o como herdar a vida eterna, visto que a resposta estava na própria Lei. Jesus responde a pergunta com outra pergunta e faz com que o mestre da Lei responda a partir dos seus conhecimentos da própria Lei. A resposta de Jesus “Tu respondeste corretamente. Faze isso e viverás” confirma que neste ponto os dois pensam da mesma forma. Não se dando por satisfeito, o mestre da Lei continua questionando Jesus. Sua pergunta “Quem é o meu próximo?” também não recebe uma resposta direta com normas ou prescrições, mas parte de uma situação, da prática. E quando se refere à pratica o pensamento dos dois são diferentes. Voltemos agora aos personagens da história narrada por Jesus: um homem assaltado e quase morto, um sacerdote, um levita e um samaritano. Os Sacerdote e os levitas trabalham no templo de Jerusalém, portanto também passavam pelo caminho de Jerusalém para Jericó. Jericó era uma cidade que os hospedavam depois do turno de trabalho. Se um dos dois tivesse socorrido o homem caído ficaria inapto para a realização dos seus trabalhos no templo, pois segundo as prescrições da Lei tocar em sangue torna a pessoa impura por um determinado período, e mais ainda, se o homem viesse a falecer, tocar em cadáver também deixa a pessoa impura (cf. Lv. 21,1). No pensamento deles é mais importante servir a Deus no templo do que socorrer o outro. O samaritano, que socorre o homem, pertence a um povo discriminado pelos judeus, pois eram considerados idolatras por prestarem culto a mais de um deus. Mas foi justamente este que teve os mesmos sentimentos de Deus: chegou perto, viu e sentiu compaixão. Ele ajuda a um desconhecido porque teve compaixão. Nos gestos do samaritano podemos notar que ele dá tudo o que tem de melhor para ajudar. Com esta narrativa Jesus mostra que o mais importante não é saber quem pode ser o meu próximo, mas perceber como alguém se torna próximo. Não somos nós quem devemos escolher quem é nosso próximo, pois geralmente usamos alguns critérios para escolhê-lo: alguém da minha Igreja, do meu partido, do meu nível social, da minha família, alguém que pode me recompensar... Jesus quebra esse esquema mental e nos mostra que o amor, a compaixão não tem limites ou barreiras, nem mesmo religiosas. Muitos de nós, muitas vezes, agimos como o sacerdote e o levita citado por Jesus, pois participamos perfeitamente de nossas celebrações, não perdemos uma missa, seguimos a risca os mandamentos, mas não paramos perto de quem pede a nossa ajuda, dos necessitados de hoje. Tornar-se próximo é ser solidário com os que precisam. A vida eterna ou a vida com Deus consiste nisso. Para nós cristãos isso é muito evidente, pois somos convidados a termos o mesmo sentimento de Jesus, aquele que teve uma vida totalmente doada pelos irmãos, encarnada na realidade, a ponto de entregar a própria vida. Somos chamados a amar como ele amou. Nossa compaixão deve ser fruto da profunda convicção que tal sentimento deve ser parte da vida do seguidor de Jesus. Nossos gestos de amor e solidariedade revelam a gratuidade e o amor de Deus para com o seu povo. O amor a Deus e ao próximo são frutos de uma relação estabelecida. Seguir a Lei por medo de ser castigado por Deus ou por medo de não herdar a vida eterna é agir com uma fé ainda infantil. No seguimento a Cristo o bem é feito ao próximo porque dentro de nós, que somos cristãos, há a certeza de que somos filhos e filhas muito amados e amadas e este Deus que nos ama nos convida a partilhar e a testemunhar o seu amor para com todos. No mundo atual somos incentivados a ficar presos em nosso próprio mundinho e não nos preocuparmos com o outro. Estamos vivenciando o final da copa do mundo. Não podemos deixar que as notícias, os resultados dos jogos, dentre outras coisas, ofusquem nosso sentir e que nos “anestesiem” em relação às notícias de dor e sofrimento que muitos de nossos irmãos vem experimentando. Podemos fazer uma lista das notícias desta semana que apareceram nos jornais tais como os desabrigados no Nordeste por causa das chuvas, a namorada do goleiro que está desaparecida, e tantas outras, e nos perguntarmos: que sentimentos essas notícias causam em nós? Será que ainda nos interpelam? E quando falamos de próximos mais próximos ainda: como ajo com aqueles que me pedem ajuda diretamente? irmã Sueli da Cruz Pereira - www.homilia.com.br |
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O Evangelho de hoje nos leva a ocupar-nos ainda sobre a Igreja, a refletirmos sobre um de seus principais âmbitos: a caridade, o amor. Escreve Bento XVI na sua encíclica Deus Caritas est número 20: “o amor do próximo, radicado no amor de Deus, é um dever antes de mais para cada um dos fiéis, mas o é também para a comunidade eclesial inteira, e isto a todos os seus níveis: desde a comunidade local passando pela Igreja particular até à Igreja universal na sua globalidade. A Igreja também enquanto comunidade deve praticar o amor”. O Papa ainda continua na mesma encíclica no número 22: “A Igreja não pode descurar o serviço da caridade, tal como não pode negligenciar os Sacramentos nem a Palavra”. Os outros dois âmbitos de vida que não podem faltar na Igreja, de fato, juntamente com a caridade, são a liturgia e a catequese (palavras recentemente recordadas pelo próprio papa na vigília por ocasião do encontro internacional de sacerdotes em 10 de junho de 2010: “são três as colunas do nosso sacerdócio: os Sacramentos, o anúncio da Palavra e o amor de Cristo”). O melhor testemunho que a Igreja pode dar a quem observa de fora é o exercício da caridade. A parábola do bom samaritano (que lemos hoje) no curso da história nunca deixou de interpelar a consciência dos fiéis em Cristo; e, em nossos dias atuais mais do que nunca. Para evitar o perigo de passar sem levar seriamente em consideração este tema, examinamos o trecho evangélico desde o princípio. Logo no início, o Evangelho nos lembra antes de tudo que o problema da caridade é uma questão religiosa. O doutor da lei, esperto nas questões teológicas, cita o duplo mandamento do amor, a Deus e ao próximo, mas o faz depois de ter interrogado Jesus sobre a eternidade: “Mestre, o que devo fazer para herdar a vida eterna?” Sobre o seu destino eterno qualquer um se lança totalmente. Este é o poder da religião. A busca da própria felicidade pessoal, porém, não pode se separar do amor, amor para com Deus e amor para com o próximo. Será feliz para sempre, quem desde agora tiver começado a amar Deus e os outros que como ele são irmãos em Cristo. O doutor da lei conhecia as indicações que Deus tinha dado por boca de Moisés e a contro-pergunta de Jesus (o que está escrito na lei?) que o convidava a dar sozinho a resposta, e, de fato, ele não erra o veredicto: é preciso amar a Deus com todo o coração, com toda a alma e com toda a força e com toda a inteligência e ao próximo como a si mesmo. Encontra assim confirmada a reflexão do livro do Deuteronômio, sempre a obra de Moisés que diz: “Este mandamento que hoje te dou não é difícil demais nem está fora do teu alcance. Não está nem no céu, para que possas dizer: 'Quem subirá ao céu por nós para alcançá-lo? Nem está do outro lado do mar, para que possas alegar: 'Quem atravessará o mar por nós para apanhá-lo? Ao contrário, esta palavra está bem ao teu alcance, está em tua boca e em teu coração, para que a possas cumprir” (1º leitura). Então será só uma questão de boa vontade? Podia parecer que sim se não fosse a sucessiva pergunta do doutor da lei que nos ponhe de sobreaviso (quem é o meu próximo?). Sem a ajuda da graça de Cristo é impossível cumprir perfeitamente o mandamento do amor de Deus e do próximo. De fato, entre as boas intenções e as realizações práticas há um abismo. Com a pergunta: “Quem é o meu próximo?”, o doutor da lei queria justificar-se no sentido de perda que se prova diante de uma tarefa genérica e juntamente árdua (para o judeu, o próximo era um igual a ele somente, outro judeu). Assim, “de onde posso começar no amor para com o próximo?” parece pedir o doutor da lei, “e depois desde que ponto devo chegar?” a resposta de Jesus é um obra-prima não tanto porque é original e bem construída, mas porque é a descrição daquilo que ele, Jesus naquele momento estava levando adiante. O bom samaritano da história de fato é um perfeito autorretrato do próprio Senhor. Aquele que Jesus atribui ao samaritano, na realidade, é aquele que ele Jesus estava para fazer. Os Padres da Igreja não deixaram escapar a ocasião de esclarecer as várias correspondências e interpretaram assim o relato. “A humanidade, criada por Deus, estava em Jerusalém, isto é, na Paz do paraíso terrestre, lugar da presença de Deus em meio ao povo. Mas o homem se moveu em busca de uma outra felicidade, para a cidade do pecado, que é Jericó. Como acontece para o filho pródigo, este abandono do pai foi fatal: Satanás, o tentador, que o desnuda do dom da amizade com Deus e o fere nas suas próprias capacidades humanas; agora, o homem, encontra-se sozinho, é incapaz de resistir ao mal, e segue destinado à morte pela estrada da história. O sacerdote e o levita da Antiga Aliança passam ao lado desta humanidade, mas é uma passagem ineficaz. Até que vem um samaritano, justo Cristo Salvador, que ajoelhando-se sobre este homem, o põe sobre a montaria do animal, a humanidade por ele assumida, para levá-lo ao local – que é a Igreja, dentro da qual o homem possa reencontrar cura e vida... na espera do seu retorno! No entanto, ali é possível a sua recuperação mediante as duas moedas deixadas pelo samaritano, que são a Palavra de Deus e os Sacramentos”. Esta é a leitura dos Padres da Igreja. Fazendo o percurso de Jerusalém (760 m. de altura) para Jericó (240 m. abaixo do nível do mar), que é um percurso de descida já que Jerusalém está (27 km), um anônimo peregrino da Idade Média esculpiu sobre uma pedra uma frase ainda hoje existente: “Amigo que lê, mesmo que sacerdotes e levitas passem além da tua angústia, saiba que Cristo é o bom samaritano, que terá compaixão de ti, e na hora da tua morte, te levará a pousada eterna”. Na espera desta destinação final, entretanto, nós somos convidados a tomar lugar na “pensão” terrena que é a Igreja e se nestes ambientes nos sentimos bem, não devemos nos esquecer daqueles que fora daí padecem e esperam também o nosso alívio; se pelo contrário, por vários motivos encontramos que nesta casa que é a Igreja há algo para melhorar, somos convidados a fazer a nossa parte desde o seu interno, de modo construtivo, superando as difidências e as resistências humanas e tornando-nos nós mesmos operadores daquela caridade da qual sofremos a falta. Também esta é caridade e também na Igreja e pela Igreja há tanto a se fazer. O Evangelho termina com um mandamento de Jesus: “Vai e faze a mesma coisa”. padre Carlos Henrique Nascimento - www.pecarlos.blogspot.com |
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O livro do Deuteronômio é fruto da reflexão e da catequese dos teólogos do Reino do Norte (Israel), preocupados em lembrar ao Povo os compromissos assumidos no âmbito da “aliança”; mas apresenta-se, literariamente, como um conjunto de discursos de Moisés, uma espécie de testamento espiritual que Moisés teria pronunciado antes da sua morte, na planície de Moab, na altura em que os hebreus se preparavam para renovar a “aliança”, antes de entrar na “Terra Prometida”. O texto que hoje nos é proposto é a parte final do terceiro discurso de Moisés (cf. Dt. 29-30). Na realidade, trata-se de uma homilia dos teólogos deuteronomistas, redigida na fase final do exílio da Babilônia, alertando a comunidade do Povo de Deus para as consequências da fidelidade ou da infidelidade face aos compromissos assumidos para com Jahwéh. MENSAGEM Fundamentalmente, estamos diante de um convite a aderir com todo o coração e com todo o ser às propostas e aos mandamentos de Deus (v. 10). No entanto, perguntavam os exilados, como encontrar o caminho e descobrir o que Deus propõe? Como é que se descobre o que Deus quer de nós, de forma a que não voltemos, nunca mais, a cair na escravidão? Os teólogos deuteronomistas estão convencidos de que não é necessário procurar muito longe: nem no céu (v. 12), nem no mar (v. 13), nem em qualquer outro lugar inacessível ao homem comum. O caminho que Deus propõe não é um caminho escondido, misterioso, revelado só aos iniciados ou iluminados; mas é um caminho que está claramente inscrito no coração e na consciência de cada homem (v. 14). A mensagem aqui apresentada pelos catequistas deuteronomistas diz-nos, portanto, o seguinte: para perceber o projeto de salvação, de liberdade e de felicidade que Deus tem para os homens, basta olhar para o nosso coração e para a nossa consciência; é aí que Deus nos fala e é aí que nós escutamos as suas propostas e as suas indicações. Resta-nos estar disponíveis para escutar e para perceber – no meio das contra-indicações que as nossas paixões nos apresentam – as sugestões, os apelos, os desafios de Deus. ATUALIZAÇÃO • O convite a aderir com todo o coração e com todo o ser às propostas de Deus leva-nos a questionar a qualidade da nossa adesão. Não pode ser uma adesão a meio-gás ou a tempo parcial – de acordo com os nossos interesses; mas tem de ser uma adesão total, completa, plenamente empenhada, a “fundo perdido”. É desta forma radical e total que aderimos aos projetos de Deus, ou a nossa adesão é “morna”, incompleta, limitada, reticente? • Encontramos espaço e disponibilidade para interrogar o nosso coração e para escutar o Deus que fala, que Se revela, que nos desafia e questiona? • Pode acontecer que os nossos interesses egoístas, as nossas ambições, as nossas paixões, os nossos esquemas e projetos pessoais abafem a voz de Deus e nos impeçam de escutar as suas propostas. Quais são, para mim, essas outras “vozes” que calam a voz de Deus? Que lugar ocupam elas na minha vida? Em que medida elas contribuem para definir o sentido essencial da minha existência? 2º leitura – Col. 1,15-20 – AMBIENTE Colossos era uma cidade da Frígia (Ásia Menor), situada a cerca de 200 quilómetros a Este de Éfeso. A comunidade cristã dessa cidade não foi fundada por Paulo mas por Epafras, discípulo de Paulo e colossense de origem (cf. Col. 4,12). Paulo escreveu aos Colossenses da prisão (provavelmente, de Roma). Estaríamos entre os anos 61 e 63. Epafras visitou Paulo e levou ao apóstolo notícias alarmantes… Alguns “doutores” locais (talvez membros de um movimento de índole sincretista, que misturava cristianismo com cultos mistéricos em voga no mundo helenista e com elementos religiosos de várias origens) ensinavam aos Colossenses que a fé em Cristo devia ser completada por rígidas práticas ascéticas, por ritos legalistas judaicos, por prescrições sobre os alimentos (cf. Col 2,16.21), pela observância de determinadas festas (cf. Col 2,16) e por especulações acerca dos anjos (cf. Col 2,18). Na opinião desses “doutores”, tudo isto devia comunicar aos crentes um conhecimento superior dos mistérios e uma maior perfeição. Paulo desmonta toda esta confusão doutrinal e afirma que nenhum destes elementos tem qualquer importância para a salvação: Cristo basta. O texto que hoje nos é proposto é um hino de duas estrofes, que provavelmente Paulo tomou da liturgia cristã primitiva, mas que está perfeitamente integrado no conteúdo geral da carta. Este hino cristão de inspiração sapiencial celebra a supremacia absoluta de Cristo na criação e na redenção. MENSAGEM A primeira estrofe deste hino (vs. 15-17) afirma e celebra a soberania e o poder de Cristo sobre toda a criação. A primeira afirmação é a de que Cristo é a “imagem de Deus invisível”. Dizer que é “imagem” significa aqui que Ele é em tudo igual ao Pai, no ser e no agir, pois n’Ele reside a plenitude da divindade. Significa que Deus, espiritual e transcendente, Se revela aos homens e Se faz visível através da humanidade de Cristo. A segunda afirmação é que Ele é o “primogênito de toda a criatura”. No contexto familiar judaico, o “primogênito” era o herdeiro principal, que tinha a primazia em dignidade e em autoridade sobre os seus irmãos. Aplicado a Cristo, significa a supremacia e a autoridade de Cristo sobre toda a criação. A terceira afirmação é a de que “n’Ele, por Ele e para Ele foram criadas todas as coisas”. Tal significa que todas as coisas têm n’Ele o seu centro supremo de unidade, de coesão, de harmonia (“n’Ele”); que é Ele que comunica a vida do Pai (“por Ele”); e que Cristo é o termo e a finalidade de toda a criação (“para Ele”). Ao mencionar expressamente que os “tronos, dominações, principados e potestades” estão incluídos na soberania de Cristo, Paulo desmonta as especulações dos “doutores” Colossenses acerca dos poderes angélicos, considerados em paralelo com o poder de Cristo. A segunda estrofe (vs. 18-20) afirma e celebra a soberania e o poder de Cristo na redenção. A primeira afirmação é a de que Ele é a “cabeça do corpo que é a Igreja”. A expressão significa, em primeiro lugar, que Cristo tem a primazia e a soberania sobre a comunidade cristã; mas significa, também, que é Ele quem comunica a vida aos membros do corpo e que os une num conjunto vital e harmônico. A segunda afirmação é a de que Ele é o “princípio, o primogênito de entre os mortos”. Significa que Ele, não só foi o primeiro que ressuscitou, mas também que Ele é a fonte de vida que vai provocar a nossa própria ressurreição. A terceira afirmação é de que n’Ele reside “toda a plenitude”. Significa que n’Ele e só n’Ele habita, efetiva e essencialmente, a divindade: tudo o que Deus nos quer comunicar, a fim de nos inserir na sua família, está em Cristo. Por isso, o autor deste hino pode dizer que por Cristo foram reconciliadas com Deus todas as criaturas na terra e nos céus: por Cristo a criação inteira, marcada pelo pecado, recebeu a oferta da salvação e pôde voltar a inserir-se na família de Deus. ATUALIZAÇÃO • Um dado fundamental da vida cristã é a consciência desta centralidade de Cristo na nossa experiência e na nossa existência. No entanto, a religião de tantos dos nossos cristãos centraliza-se, tantas vezes, em coisas secundárias… Cristo é, efetivamente, a referência fundamental à volta da qual a nossa vida se articula e se constrói? Ele tem a primazia na nossa vida? É Ele que está no centro dos interesses e da vida das nossas comunidades cristãs ou religiosas? Há outros deuses, ou poderes, ou “santos” em quem centramos os nossos interesses e que nos desviam de Cristo? • Para muitos dos nossos contemporâneos, Jesus não é uma referência fundamental. Quando muito, foi um homem bom, que deu a vida por um sonho, um visionário, um idealista, que a história se encarregou de digerir e que hoje é, apenas, uma peça de museu; por isso, não tem qualquer espaço nas suas vidas. Como podemos testemunhar a nossa convicção de que Ele é o centro da história e de que Ele está no princípio e no fim da história da salvação? Evangelho – Lc. 10,25-37 - AMBIENTE Continuamos “a caminho de Jerusalém” – quer dizer, continuamos a percorrer esse percurso espiritual, durante o qual Jesus prepara os discípulos para serem as testemunhas do Reino, após a sua partida deste mundo. É neste contexto “pedagógico” que vai aparecer a “parábola do bom samaritano”. Para percebermos cabalmente o que está aqui em jogo, convém também ter presente o quadro da relação entre judeus e samaritanos. Trata-se de dois grupos que as vicissitudes históricas tinham separado e cujas relações eram, no tempo de Jesus, bastante conflituosas. Historicamente, a divisão começou quando, em 721 a.C., a Samaria foi tomada pelos assírios e foi deportada cerca de 4% da sua população; na Samaria instalaram-se colonos assírios que se misturaram com a população local; para os judeus, os habitantes da Samaria começaram, então, a paganizar-se (cf. 2 Re. 17,29). A relação entre as duas comunidades deteriorou-se ainda mais quando, após o regresso do exílio, os judeus recusaram a ajuda dos samaritanos (cf. Esd. 4,1-5) para a reconstrução do templo de Jerusalém (ano 437) e denunciaram os casamentos mistos; tiveram, então, que enfrentar a oposição dos samaritanos na reconstrução da cidade (cf. Ne 3,33-4,17). No ano de 333 a.C., novo elemento de separação: os samaritanos construíram um templo no monte Garizim; no entanto, esse templo foi destruído em 128 a.C. por João Hircano. Mais tarde, as picardias continuaram: a mais famosa aconteceu já na época de Cristo (alguns anos depois do nascimento de Cristo), quando os samaritanos profanaram com ossos o templo de Jerusalém. Os judeus desprezavam os samaritanos, por serem uma mistura de sangue israelita com estrangeiros e consideravam-nos hereges em relação à pureza da fé jahwista; e os samaritanos pagavam aos judeus com um desprezo semelhante. MENSAGEM O que está em jogo no texto que nos é proposto é uma pergunta de um mestre da Lei: “o que fazer, a fim de conseguir a vida eterna?” (Marcos apresenta a mesma cena – cf. Mc. 12,28-34 – mas, aí, a pergunta é acerca do “maior mandamento da Lei”. Lucas, talvez adaptando-se aos leitores cristãos de cultura grega, põe a questão em termos de “vida eterna”). A resposta é previsível e evidente, de tal forma que o próprio mestre da Lei a conhece: amar a Deus, fazer de Deus o centro da vida e amar o próximo como a si mesmo. Neste “resumo” dos mandamentos, cita-se Dt 6,5 (no que diz respeito ao amor a Deus) e Lv 19,18 (no que diz respeito ao amor ao próximo). Jesus concorda: até aqui, a proposta de Jesus não acrescenta nada de novo àquilo que a própria Lei sugere. A dúvida do mestre da Lei vai, no entanto, mais fundo: “e quem é o meu próximo?” É uma questão pertinente, neste contexto. Na época de Jesus, os mestres de Israel discutiam, precisamente, quem era o “próximo”. Naturalmente, havia opiniões mais abrangentes e opiniões mais particularistas e exclusivistas; mas havia consenso entre todos no sentido de excluir da categoria “próximo” os inimigos: de acordo com a Lei, o “próximo” era apenas o membro do Povo de Deus (cf. Ex. 20,16-17; 21,14.18.35; Lv. 19,11.13.15-18). Jesus, no entanto, tinha uma perspectiva diferente da perspectiva dos “fazedores de opinião” de Israel. É precisamente para explicar a sua perspectiva que Jesus conta a “parábola do bom samaritano”. A parábola situa-nos nessa estrada de cerca de 30 quilômetros entre a cidade santa de Jerusalém e o oásis de Jericó. Na época de Jesus, é uma estrada perigosa, sempre infestada de bandos armados. Ora “um homem” não identificado (não se diz quem é, de que raça é, qual a sua religião, mas apenas que é “um homem”, embora, pelo contexto, possa depreender-se que é um judeu) foi assaltado pelos bandidos e deixado caído na berma da estrada. Trata-se, portanto (e isso é que é preponderante), de “um homem” ferido, abandonado, necessitado de ajuda. Pela estrada passaram sucessivamente um sacerdote (que conhecia a Lei e que exercia funções litúrgicas no templo) e um levita (ligado à instituição religiosa judaica e que exercia, também, funções litúrgicas no templo). Ambos passaram adiante: ou o medo de enfrentar a mesma sorte, ou as preocupações com a pureza legal (que impedia contatar com um cadáver), ou a pressa, ou a indiferença diante do sofrimento alheio, impede-os de parar. Apesar dos seus conhecimentos religiosos, não têm qualquer sentimento de misericórdia por aquele homem. Eles sabem tudo sobre Deus, lidam diariamente com Deus mas, afinal, não sabem nada de Deus, pois não sabem nada de amor. A sua religião é uma religião oca, de ritos estéreis, de gestos vazios e sem sentido, de cerimônias faustosas e solenes, mas não tem nada a ver com o amor, com o coração. Pela estrada passou, finalmente, um samaritano. Trata-se de um desses que a religião tradicional de Israel considerava um inimigo, um infiel, longe da salvação e do amor de Deus… No entanto, foi ele que parou, sem medo de correr riscos ou de adiar os seus esquemas e interesses pessoais, que cuidou do ferido e que o salvou. Apesar de ser um herege, um excomungado, mostra ser alguém atento ao irmão necessitado, com o coração cheio de amor e, portanto, cheio de Deus. Jesus conclui a parábola dizendo ao mestre da Lei que o interrogara: “então vai e faz o mesmo”. A verdadeira religião que conduz à vida plena passa pelo amor a Deus, traduzido em gestos concretos de amor pelo irmão – por todo o irmão, sem exceção. Recordemos que a pergunta inicial era: “o que fazer para alcançar a vida eterna”… A conclusão é óbvia: para alcançar a vida eterna é preciso amar a Deus e amar o próximo. O “próximo” é qualquer um que necessita de nós, seja amigo ou inimigo, conhecido ou desconhecido, da mesma raça ou doutra raça qualquer; o “próximo” é qualquer irmão caído nos caminhos da vida que necessita, para se levantar, da nossa ajuda e do nosso amor. Neste gesto do samaritano, a Igreja de todos os tempos (a comunidade dos que caminham ao encontro da vida plena, da salvação) reconhece um aspecto fundamental da sua missão: a de levantar todos os homens e mulheres caídos nos caminhos da vida. ATUALIZAÇÃO • A pergunta do mestre da Lei não é uma pergunta acadêmica; é a pergunta que os homens do nosso tempo fazem todos os dias: “o que fazer para chegar à vida plena, à felicidade? Como dar, verdadeiramente, sentido à vida?” A resposta eterna é: “faz de Deus o centro da tua vida, ama-O e ama também os outros irmãos”. Trata-se, portanto, de fazer com que o amor percorra as duas coordenadas fundamentais da nossa existência – a vertical (relação com Deus) e a horizontal (relação com os outros homens). É por aqui que passa a nossa realização plena. • O que é isso do amor ao próximo? Até onde se deve ir? É preciso exagerar? Não se trata de exagerar. Trata-se de ver em cada pessoa – sem exceção – um irmão e de lhe dar a mão sempre que ele necessitar. Qualquer pessoa ferida com quem nos cruzamos nos caminhos da vida tem direito ao nosso amor, à nossa misericórdia, ao nosso cuidado – seja ela branca ou negra, portuguesa ou ucraniana, cristã ou muçulmana, portista, sportinguista ou benfiquista, fascista ou comunista, pobre ou rica… A verdadeira religião que conduz à salvação passa por este amor sem limites. • Pode acontecer que o lidar todos os dias com o divino tenha endurecido o nosso coração em relação às realidades do mundo… Pode acontecer que uma vida instalada nos torne insensíveis aos gritos de sofrimento dos pobres… Pode acontecer que o nosso egoísmo fale mais alto e que evitemos meter-nos em complicações por causa das injustiças que os nossos irmãos sofrem… Mas, nesse caso, convém perguntar: deixando que a minha vida se guie por critérios de egoísmo e de comodismo, estou a caminhar em direção à minha realização plena, à vida eterna? • As nossas comunidades são clubes fechados, “reservados a sócios”, onde é “proibida a entrada aos estranhos”, ou comunidades onde são amados e têm lugar todos aqueles que a vida atira para a berma da estrada? pe. Joaquim Garrido - pe. Manuel Barbosa - pe. José Ornelas Carvalho - www.ecclesia.pt |
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O doutor da lei queria pôs Jesus à prova, como o diabo no deserto; agora quer justificar-se, isto é, apresentar-se como justo. Daí nova pergunta: «E quem é o meu próximo?». Para entender a pergunta, é necessário ter em conta a mentalidade judaica da época. Próximo era o membro do povo hebreu ou o estrangeiro que vivia entre ele e se tinha convertido ao Deus de Israel. Os membros dos outros povos, porque considerados infiéis, não eram considerados «próximo». Por outro lado, havia circunstâncias em que o amor de Deus poderia excluir o amor ao próximo: um sacerdote não podia tornar-se impuro, tocando num cadáver ou num homem meio-morto. Igualmente um levita, em caso de contacto, ficaria proibido de exercer as suas funções no templo durante sete dias. Assim, estes, por amor a Deus, ficavam livres de amar o próximo… A história contada por Jesus tem como protagonista um samaritano: estrangeiro, não pertencente ao povo hebreu. Apesar de adorar o mesmo Deus, era considerado um herege por não ter as mesmas ideias, não tinha o culto verdadeiro. Mas, contra todas as avaliações, o samaritano está no seu íntimo em plena comunhão com Deus porque sabe ouvir o chamamento da sua voz que o impele a socorrer um homem, um desconhecido, em extrema necessidade. A desgraça podia acontecer a qualquer um que fizesse o caminho deserto e montanhoso de Jerusalém até Jericó: uma distância relativamente curta (27 Km), mas uma descida com cerca de 1000 metros de desnível. «Passou junto dele, e vendo-o». A primeira coisa é olhar, abrir bem os olhos e os ouvidos. Também o sacerdote e o levita o viram, mas foi um ver superficial e estéril. «Teve compaixão dele». Dos olhos ao coração. É o sentir a situação como sua. Do coração saem imediatamente intervenções pontuais que estão ao alcance de todos: «Aproximou-se». É o primeiro movimento: descer da sua posição e fazer-se próximo do homem que estava por terra sem possibilidade de se levantar. «Ligou-lhe as feridas», entende-se: com amor. «Der-ramando azeite e vinho»: presta os cuidados com aquilo que tem e o melhor que sabe fazer. «Depois carregando-o sobre o seu jumento». E ele, o samaritano, vai a pé. «Levou-o a uma estalagem», para dele cuidar melhor. «E cuidou dele», como se se tratasse dum irmão. «No dia seguinte tirou dois denários». Era uma boa quantia: o samaritano desembolsa o dinheiro por sua iniciativa, gratuitamente. «E deu-os ao estalajadeiro», confiando nele. «Dizendo: cuida dele». Envolve assim também o estalajadeiro. «... E o que gastares a mais, eu to pagarei no meu regresso». Empenha-se em pagar tudo o que for necessário para a cura completa. Duma maneira prática são evidenciados todas as passagens: dos olhos ao coração, do coração às mãos. Tudo inspirado e guiado pela compaixão. Com esta história, Jesus desloca o objeto da discussão: o problema não é saber quem é o nosso próximo, mas descobrir como tornar-se próximo do outro, como aproximar-se dele. A conclusão é clara. Jesus convida o doutor da lei a descobrir o verdadeiro sentido da misericórdia divina. Um estrangeiro que está aberto à Palavra, secretamente ativa no concreto da vida, descobriu e realizou tudo isso: «Vai e faz o mesmo». padre Franclim Pacheco - www.diocese-aveiro.pt |
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O Evangelho apresenta-nos um homem que quer conhecer o caminho para alcançar a vida eterna. Jesus convida-o renunciar às suas riquezas e a escolher “caminho do Reino” - caminho de partilha, de solidariedade, de doação, de amor. É nesse caminho - garante Jesus aos seus discípulos - que o homem se realiza plenamente e que encontra a vida eterna. O que é preciso fazer para alcançar a vida eterna? Jesus responde: é preciso, antes de mais, viver de acordo com as propostas de Deus (mandamentos); e é preciso também assumir os valores do Reino e seguir Jesus no caminho do amor a Deus e da entrega aos irmãos. Isto não significa, contudo, que a vida eterna seja algo que o homem conquista, com o seu esforço, ou que resulte dos méritos que o homem adquire ao percorrer um caminho religiosamente correto. A vida eterna é sempre um dom gratuito de Deus, fruto da sua bondade, da sua misericórdia, do seu amor pelo homem; no entanto, é um dom que o homem aceita, acolhe e com o qual se compromete. Quando o homem vive de acordo com os mandamentos de Deus e segue Jesus, não está conquistando a vida eterna; está, sim, respondendo positivamente à oferta de vida que Deus lhe faz e reconhece que o caminho que Deus lhe indica é um caminho de vida e de felicidade. O tesouro da Vida O que é que vale mais que todos os tesouros e comparado com ele o ouro é como areia e lama? O que é que dá ao ser humano muito mais excelência que a beleza e a saúde? Qual será aquela luz na vida que nunca escurece e tudo enche de esplendor e energia? No que consistirá o bem dos bens? Semelhante forma de falar pode parecer poética, imaginativa, fantasiosa. O ser humano -dizem muitos- tem que se acostumar com a sua “finitude”, tem que aprender a arte de se adequar a suas limitações; deve ser cauteloso na hora de “sonhar o impossível”. O adequado é conformar-se com o que se tem e se é. Não tem que sentir falta daquilo que supera sua capacidade. A cultura na qual estamos não nos convida a sonhar o “impossível”. Pede-nos que não agarremos o possível, aquilo que está ao alcance de nossas mãos. Porém, como admiramos aquelas pessoas que estão polarizadas em um centro misterioso, que “são tocadas” por uma Realidade que nós achamos que aos demais é inaccessível. Tais pessoas -como os grandes sábios e santos- nos indicam que “outra forma de ser humano é possível”. Essa outra forma de humanidade possível é -segundo a Primeira Leitura que acaba de ser proclamada- uma vida configurada e conformada na Sabedoria. A Sabedoria é o Dom de todos os Dons, a riqueza de todas as riquezas. Um homem, uma mulher, habitado, iluminado pela Sabedoria são seres “excepcionais”, a quem nada falta, por mais pobres que sejam. A Sabedoria é dom divino por excelência. Através dela, o Criador desenhou e fez realidade este Universo em que vivemos. A Sabedoria nos faz entender o coração humano, o sentido da vida, compreender o porquê de tudo. O Evangelho deste domingo nos dá outra resposta muito mais concreta. Não nos fala de uma Sabedoria abstrata, mais de uma pessoa, um ser humano, que tem vivido entre nos e é a personalização e encarnação da Sabedoria: Jesus de Nazaré! Um homem que lhe perguntou como entrar na Vida recebeu duas respostas: cumpre os mandamentos da Aliança, em primeiro lugar. Para viver -pensava Jesus- há que manter a Aliança com o Deus da Vida. Porém existe uma possibilidade maior: chegar a onde está Jesus e segui-lo como o único tesouro! Com esta forma de falar, Jesus nos mostra que vivendo com Ele, escutando a sua mensagem e fazendo-o realidade, se encontra a Vida, como o maior tesouro (tesouro do céu). A experiência nos fala que quando adquirimos um tesouro, todo o resto perde seu valor, é relativizado. Somente o tesouro nos faz viver, nos faz feliz. Muitas pessoas dizem, ou nós dizemos, que Jesus é nosso tesouro. Porém, nem todos dizem “Senhor”, “Senhor”... Jesus é nosso tesouro, quando fizer parte de nossa quinta-essência, quando acharmos impossível ficar sem Ele e sua presença iluminar constantemente nosso rosto ou sua ausência o escurecer. Provavelmente todos foram agraciados com alguns encontros com Jesus. Talvez muitos tenham se colocado no caminho para segui-Lo. Porém, é muito fácil frear a marcha, passar o tempo com outras realidades, esfriar a relação afetiva e se tornar um ponto indiferente com o Senhor. O trabalho nos impede do contato permanente da oração. A comodidade nos convida a “não perder" algumas coisas, a “não dar-lhe tudo", a reservar-se, a desfrutar um pouco... e assim colocamos interferências na caminhada e esfriamos na relação. Com que facilidades alguns se desconectam de Jesus, sem saber depois, quanto vai lhes custar voltar a se conectar! Com Jesus não vale a mera adesão, o apreço genérico, a disponibilidade de trabalho... Jesus quer nossa intimidade. Jesus gera com o crente um contexto de privacidade no qual acontece o milagre de nossa cristificação. O "vender tudo" no Evangelho nos mostra que é necessário saber situar-se ante o Tesouro da Vida de forma absoluta, sem concessões, em total fidelidade. Seguir Jesus é caminho, processo, andança. A intimidade vai crescendo dia-a-dia. A presença é pouco a pouco mais intensa. O ser e as relações vão se cristificando. A sabedoria e o amor tomam posse de nós. Talvez ao final nos ocorra a seguinte história: ao monge que chega ao céu, lhe pergunta Jesus: “Quem é você?” Varias vezes lhe havia sido negada a entrada por causa desta sua resposta: “Sou eu” dizia. Porém, se abriram as portas do céu naquele dia em que -depois de viver humildemente apaixonado- morreu e já podia responder: “Sou TU, Senhor”. padre José Cristo Rey Garcia Paredes - homiliadominical.blogspot.com |
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Este Evangelho começa com duas perguntas de um mestre da Lei a Jesus, para pô-lo em dificuldade. São pontos sobre os quais não havia acordo nas escolas rabínicas. Jesus, na sua sabedoria, faz com que o próprio mestre da Lei responda as duas. A primeira é: “Que devo fazer para receber em herança a vida eterna?” O próprio mestre da Lei responde: “Amarás o Senhor teu Deus...” Entretanto, o mestre da Lei não se dá por vencido e faz outra pergunta: “E quem é o meu próximo?” Também sobre esta questão eles se dividiam. Para uns, eram os amigos. Para outros, eram os parentes. Para outros, eram os da mesma nação ou raça... O mestre da Lei quer saber quais são os limites do amor. Jesus fala que não tem limites. São todos e todas que encontrarmos pelos caminhos da vida, como o samaritano, que cuidou de um judeu, povo rival. Todo homem e toda mulher que encontrarmos pela vida, e estão em situação de necessidade, são nossos próximos. Dos três viajantes que, no caminho, se encontraram com o ferido, os dois primeiros são membros ativos e líderes da religião: o sacerdote, e o levita que tinha uma função parecida com os nossos líderes cristãos. Com isso, Jesus deixa claro que o que vale para entrar no céu não são títulos ou cargos importantes na Igreja, mas a prática da caridade. Já o amor do samaritano foi bonito: espontâneo, desinteressado, generoso, terno, serviçal, eficaz e gratuito. Após terminar a parábola, Jesus devolve a segunda pergunta ao seu interlocutor, mas a inverte. Ele não focaliza o destinatário (quem é o meu próximo?), e sim o seu sujeito: “Qual dos três foi o próximo do homem que caiu nas mãos dos assaltantes?” E o mestre da Lei respondeu corretamente, usando inclusive uma expressão bíblica: “Foi aquele que usou de misericórdia para com ele”. A conclusão de Jesus – “Vai e faze a mesma coisa” – é dirigida a todos nós. O amor verdadeiro sempre coloca como centro o outro, não eu. A pergunta correta que devemos nos fazer hoje é: “Quem espera ajuda de mim?” Vemos que o amor não tem limites, pois ele parte das necessidades do outro. O sacerdote e o levita viram o ferido, mas seguiram adiante pelo outro lado do caminho. Eles se colocaram propositalmente à distância do necessitado. Corresponde um pouco aos nossos condomínios fechados, muros altos, vidros fumê nos carros... são estratégias atuais de seguir em frente pelo outro lado. Já quem ama faz o contrário: quer estar no meio dos necessitados. Como vemos, a parábola é atual, e toca no núcleo da nossa vida cristã, que é o amor ao próximo. É o que Jesus, como Juiz, vai cobrar de nós no Juízo final: “Vinde, benditos de meu Pai! Recebei em herança o Reino que meu Pai vos preparou desde a criação do mundo!... Pois eu estava doente, e cuidastes de mim” (Mt. 25,34ss). Ser o próximo do outro é não apenas estar perto, mas estar perto de coração, aproximar-se afetiva e efetivamente dele. Quem tem o coração duro, fica distante de quem está próximo em situação de necessidade. Isso pode acontecer dentro das famílias e até das comunidades religiosas. O capitalismo interessa-se pelo próximo, mas apenas por uma parte dele: o seu bolso. Até no caso de doença, ou de acidente como foi este da parábola, o capitalista vê como oportunidade de ganhar dinheiro. “Este mandamento que hoje te dou não é difícil demais, nem está fora do teu alcance... Está em teu coração, para que o possas cumprir” (Dt. 30,10-14). De fato esta lei do amor ao próximo já está escrita em nosso coração desde que nascemos. Se alguém não a cumprir, não terá desculpas. Uma maneira frutuosa de meditar sobre esta parábola é tentar descobrir com qual dos personagens que aparecem nela nós mais nos parecemos. Claro que o nosso desejo é nos parecer com o samaritano, e até com Jesus. Mas a resposta verdadeira nós a damos com a nossa vida concreta do dia a dia. Será que nos parecemos com o dono da pensão: fazemos o bem quando somos remunerados? Ou somos como o sacerdote e o levita: vivemos tão preocupados com os nossos afazeres que “nem vemos” quem está em necessidade ao nosso lado? Ou, pior ainda, somos assaltantes disfarçados do nosso próximo? A sociedade atual que construímos mostra claro que os “bons samaritanos” não passam de uns 5%. Claro que cada um de nós se julga entre esses 5%. No entanto, o resultado está aí. Certa vez, numa grande região, faltou chuva e a colheita foi pobre. Entretanto, uma grande fazenda, que tinha irrigação artificial, teve uma colheita abundante. O administrador encheu os celeiros, depois disse para o dono da fazenda: “A colheita ruim aumentou o preço dos cereais. Agora é o tempo propício para vender e ganhar muito dinheiro”. O fazendeiro respondeu: “Eu penso nos pobres lavradores que não colheram nada e estão com as suas despensas vazias. Agora é tempo propício para dar”. O amor é assim, freqüentemente ele inverte o pensamento cego dos capitalistas, baseado na sede de lucro. Existem pessoas que disfarçam o seu egoísmo, como aquele que disse: “Os homens são maus. Só pensam em si. Só eu penso em mim!” Quem falou isso não percebe que a primeira pessoa má do mundo é ele mesmo! É próprio das mães perceber as necessidades dos filhos e colocar-se ao lado deles. Vamos pedir à nossa querida Mãe Maria Santíssima que nos ajude a ser bons samaritanos, socorrendo o nosso próximo em suas necessidades, e assim “recebendo como herança a vida eterna” Mãe do amor, rogai por nós. E você, meu irmão, minha irmã. Quem é o seu próximo? homiliadominical.blogspot.com |
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Na visão de Lucas, indo para Jerusalém Jesus realizava o verdadeiro designo de Deus, mas não pelos caminhos que a religiosidade judia previa. Jerusalém, tanto nos escritos do Antigo Testamento, quanto nos Evangélicos, se tornou o lugar por antonomásia da definição da luta entre Deus e seu inimigo, entre o orgulho -fonte e origem do pecado- e a humilde disposição, que é a atitude de quem se sente servo de Deus. Sendo assim, as duas mentalidades são representadas pelo dialogo entre o doutor da Lei e Jesus, um que precisa de certezas e garantias, precisa saber quais são os passos para chegar a Deus, o outro que propõe uma lógica que não passa por motivações escritas. Vejamos quanto o Evangelista quer nos sugerir. A pergunta do doutor da Lei é tendenciosa e feita em duas etapas; em primeiro lugar ele quer garantir-se o beneplácito de Jesus que, -embora tendo restrições- considera “mestre”, para depois formular a verdadeira questão que estava cultivando dentro de si. O doutor se aproximou pronunciando a frase clássica de todos os que queriam seguir um rabi ou um novo mestre da Lei que dava a sua opinião : «O que devo fazer para herdar a vida?». Com esta expressão formal o individuo se colocava à disposição do novo mestre para fazer quanto lhe seria proposto. Jesus não respondeu ao doutor da Lei dando uma fórmula, uma solução barata. A questão não se limita num simples: «O que devo fazer?» como se a salvação (que, na linguagem bíblica, significa felicidade, plena realização etc.) fosse objeto de uma conquista, para possuir o qual é preciso conhecer os meios mais eficientes ou fazer coisas específicas. Não é assim. É verdade que encontramos a mesma pergunta: «o que devo fazer?» também no início do Evangelho, mas não podemos esquecer que é dirigida a João Batista, este dá a resposta porque ainda se encontra na dimensão do Antigo Testamento: antes de Jesus! Com Jesus as coisas mudam totalmente: a salvação decorre de um atitude que simplesmente brota, é uma atitude que tem como fontes por um lado o coração e por outro o que mais desejamos para a nossa vida, a “opção fundamental”. Invés que dar uma solução “pronta”, Jesus colocou o doutor na condição de ser ele mesmo o parâmetro para saber o que significa “salvação”. Começou pedindo-lhe de “ler” ele mesmo a Lei, que tanto prezava e que tanto servia. Lhe pediu de “ler”, mas tentar “ler” com outro ponto de vista, de penetrar além daquilo que a “Lei” diz, de superar os limites que toda lei carrega em si mesma; limites que Paulo chama “maldição da lei” (Gal. 3,13), já que nos indicam apenas até que ponto somos ou não obrigados a fazer algo ou não fazé-lo, deste modo, apresentando a solução mais fácil, sufocam a imprevisível criatividade de um coração que sabe amar. Infelizmente aquele fariseu, que conhecia tão bem a Lei, não teve coragem de responder nada mais do que a lei dizia. Com uma ponta de tristeza Jesus via frustrada a sua oferta quando ouviu que os lábios daquele homem repetiam mecanicamente apenas as palavras escritas. Para quem não tinha coragem de arriscar só podia haver uma, lacônica, resposta: «muito bem... faz isto e viverás». É como se Jesus lhe dissesse: “se é nisto que você acha que consiste a Vida… pois então faça o que a Lei te diz e terá o que esta lei te oferece”. O doutor entendeu perfeitamente quanto Jesus lhe sugeria, por isso que quis «justificar-se da pergunta», como releva o Evangelho. É evidente que, não limitar-se ao “certo e errado”, a “o que devo fazer ou não fazer”, é bem mais difícil do que o contrário e viver cobertos pela garantia que nos oferece uma lei que diz: “você está certo”... Afinal das contas a lei não envolve, simplesmente nos coloca numa ou outra situação, mas não permite ao nosso coração de dar o melhor de si mesmo. A morte do coração é quando dizemos a nós mesmos: “a lei diz assim e é assim que eu fiz”. Isto é morte porque a vida é o amor e o amor não tem limites, o amor não mede, a norma sim! Jesus tentou ensinar ao doutor em que consiste a felicidade, a realização, a “vida”; para tanto utilizou a segunda pergunta do doutor da Lei: «quem é o meu próximo?». Aparentemente a pergunta parece insignificante e banal, todavia esta adquire seu significado pleno se levarmos em consideração o conceito de “próximo” na mentalidade judia. Segundo esta o “próximo” é aquele que faz parte do meu grupo, da minha família, daqueles que pensam como eu etc. Esta visão, logo, induz a fracionar o mundo, a fazer distinções e até divisões; evidentemente o doutor não entendia a amplitude da idéia de “próximo” de Jesus, uma vez que Ele não fazia distinção nenhuma nem partidarismos. Ora, a pergunta tem um outro aspecto, o que interessa de verdade ao doutor e que, creio, nos induz a fazer um bom exame de consciência. Digamos que a mesma pergunta (já que o contexto e a semântica o permitem) pode ser simplificada desta forma: “Afinal, quem está perto de mim? Quem vai ficar do meu lado?” A lei sempre garante a aprovação de um grupo; mas arriscar de ultrapassar a lei, arriscar de envolver-se pessoalmente, arriscar de não ter “ninguém”, nenhum apoio de amigos ricos ou de prestigio, arriscar em seguir uma lógica que prescinde de tudo isto que os “meus” me oferecem... é bem mais complicado. Assim se compreende melhor a preocupação do doutor da Lei. Jesus responde com uma história que não temos agora como analisar em seus belíssimos particulares; permito-me somente salientar alguns elementos. A história ensina de antemão a posição de Jesus: não existe uma regra preestabelecida que funcione como fórmula. A solução se encontra eventualmente, nas situações imediatas que a vida oferece, pois nelas é que Deus fala. O sacerdote estava “voltando” de Jerusalém, onde havia oficiado o culto a Deus, mas... não havia se encontrado com Deus, estava cheio da “sua pureza” ...para Deus (é este o absurdo contra o qual se lançavam desde os tempos mais antigos os Profetas). Uma “pureza” que era mais para ele do que para Deus. O levita também, preso às normas de santidade ritual, não entrou em contato com o infeliz ensangüentado... sempre para Deus. Ambos escolheram a solução mais fácil: julgaram que aquele «semimorto» podia já estar morto ou que ia morrer logo. Somente o fez um samaritano que «passava por acaso». Pois é; é nas situações imprevistas, eventuais, que vem à tona o que está dentro do coração e é isto que nos dá a noção exata do que é ser “próximo” de alguém. Então é só escolher. Àquele que perguntava a Jesus: “quem é o meu próximo” Ele respondia: “você saberá quem é teu próximo somente quando tiver sido o próximo de alguém”. Ser próximo é ter sentimentos de “com-paixão”, isto é, sofrer com o que o outro sofre, sentir o que o outro sente; não é estabelecer laços que garantem umas certezas. Aquele que terá estes sentimentos fará uma nova descoberta. E não é tão difícil saber qual. Vou dar uma pequena dica que podemos extrair do Evangelho de João (8,48) onde sabemos que, com ar de desprezo, Jesus era chamado pelos doutores da Lei com o epíteto de “samaritano”. Sim, quem tiver com-paixão poderá descobrir que Jesus é seu “próximo”, é Aquele que fica sempre ao lado, curando as feridas do coração com óleo e vinho. Então, somente então não haverá mais necessidade de artificiosas seguranças. padre Carlo - www.fatima.com.br |
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1. Primeiro, a direção circular dos que giram e vivem a partir de si e para si, seguindo espontaneamente os seus desejos, projetos e instintos. É o caso dos ladrões que vêem no homem caído apenas um objeto a acrescentar à sua riqueza… ou o caso dos sacerdotes e levitas que vêem no homem meio-morto, pouco mais que um dejeto, com quem não vale a pena sujar as mãos. Todos estes vêem o pobre Homem a partir de si. E é porque vêem assim, que passam ao lado. Estes só conhecem o sinal de sentido único: o do seu próprio interesse e satisfação! 2. Ao contrário, há um homem que vai noutra direção: a dos que se vêem e revêem, a dos que vivem, para o outro e a partir do outro. É o caso de um samaritano, que estava de viagem e, por sinal, não ia em peregrinação. Ele chega a Deus, desviando-se, para o próximo. O samaritano não vê primeiro, para só depois se aproximar. Ao contrário, ele aproxima-se primeiro, para depois começar a ver. É precisamente porque se aproxima, que vê e se compadece. Este homem cumpriu a regra principal do código da aliança: o “outro” goza sempre de prioridade, na estrada da sua vida. Porque «’scuta» alguém, na berma da estrada, o bom samaritano dispõe-se a pagar a estalagem, como portagem! E por isso, podíamos dizer, que a questão ética, do dever, começa por ser uma questão óptica, do ver. Ver os outros, a partir de si. Ou ver-se a partir dos outros! O samaritano olha o outro, mesmo que impotente e caído, já meio-morto e por isso calado, e percebe na sua indigência, um grito que chama pelo seu nome e o responsabiliza. 3. «Vai e faz o mesmo» (Lc. 10,37), disse Jesus. «Façamos então nosso o estilo do bom samaritano» - exortava-nos o Papa, no passado dia 13 de Maio em Fátima, no seu Discurso às organizações da Pastoral Social! E Bento XVI deixou-nos o desafio: «Aproximemo-nos das situações carentes de ajuda fraterna! E qual é esse estilo? «É o de "um coração que vê". Este coração vê onde há necessidade de amor e age de acordo com isso» (Deus caritas est 31). Assim fez, de fato, o bom samaritano». 4. Eis uma parábola atualíssima, no contexto de grave crise social, em que vivemos. Há, pela certa, em alguma família, na família de cada um, no meio do bairro ou nalgum grupo da paróquia, da Escola ou da empresa, “situações gritantes”, que ameaçam a estabilidade do casal, a vida de uma família, a existência de um grupo, a sobrevivência de um projeto, ou a falência de uma empresa. Há situações de abandono e de quase morte, sem ruído e sem protesto, que silenciosamente chamam por mim. E “ser” alguém é responder a este grito de salvação, estender a mão. Disto não depende apenas a vida do outro. Depende a minha própria vida também, como disse Jesus: “Faz isto e viverás” (Lc.10,28)! Se não fizermos nada, gritarão as pedras e a revolta dos miseráveis nos assaltará sem piedade! 5. Mas – como disse o papa – “Jesus não se limita a recomendar! O Bom Samaritano é Ele próprio, que Se faz próximo de todos os homens e «derrama sobre as suas feridas o óleo da consolação e o vinho da esperança»”. Cristo quer fazer da Igreja a tal “estalagem, para onde conduzir os frágeis e feridos deste tempo, para aí os fazer tratar, confiando-os, aos seus ministros, e pagando pessoalmente de antemão pela cura». Assim, «o amor incondicionado de Jesus que nos curou, há-de converter-se em amor entregue gratuita e generosamente através da justiça e da caridade, para vivermos com um coração de bom samaritano” (Bento XVI - discurso - Fátima, 13.05.2010). O homem meio-morto, não está longe, nem apenas a teus pés. Está perto de ti! Está nas tuas mãos! padre Amaro Gonçalo - www.abcdacatequese.com |
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O discípulo missionário tem seu campo de ação na rua e nas estradas, isto é, em todos os lugares onde as pessoas se encontram de forma espontânea e natural. O primeiro lugar é o ambiente de trabalho. São Paulo iniciou a evangelização de Corinto na sua loja de confecções e consertos num shopping center da época. Lá, trabalhando, ele entrava em contato com as pessoas de forma natural. Ele não ficou esperando que as pessoas o procurassem. Enquanto missionário de Jesus Cristo, inseriu-se nos lugares onde podia encontrar pessoas na sua vida normal. A própria escolha de Corinto obedeceu à mesma estratégia. Em Corinto se concentravam trabalhadores, comerciantes e viajantes. Quantos de nós estamos por vezes limitados a espaços geográficos carentes de pessoas e sem significado estratégico. O mundo é ágil e móvel. Nós, às vezes, somos lentos e presos em imóveis. Se esta é a sorte de ministros ordenados, não deveria ser a dos fiéis leigos. O templo pode ser um lugar de abastecimentos, mas o lugar da ação e do testemunho é o mundo no qual passam a maior parte das horas de suas vidas. O bom samaritano não estava passeando. Deu uma parte de seu tempo e de seu dinheiro em favor de alguém maltratado, e seguiu adiante para cuidar de suas tarefas comprometendo-se a voltar. Em termos humanos, tudo isso demanda tempo, dedicação, gastos, e pede também uma pessoa que não esteja presa em estruturas, mas solta nos contatos da vida que não se programam. Segundo a expressão de São Paulo aos colossenses, Deus se encarna em seu próprio Verbo para reconciliar consigo todos os seres realizando a paz. A encarnação é a vocação primeira da Igreja de Jesus. A encarnação se dá também em nós, quando a Palavra está em nós e se torna a nossa força propulsora de ação. Dessa forma, a presença cristã no meio do mundo e junto a pessoas concretas em suas necessidades não é apenas uma presença a mais, fraca e limitada, mas é uma presença transformadora pela energia do Ressuscitado. A presença cristã é cheia da energia do Ressuscitado, que contagia o ambiente humano em que se encontra e se revela nas ações, mesmo pequenas. O sacerdote e o levita da parábola eram judeus, o samaritano, não. São Lucas, ao relatar o início da viagem de Jesus para Jerusalém conta como Tiago e João queriam fazer descer fogo do céu contra os samaritanos que não se dispuseram a receber Jesus. Esta etapa da viagem termina com a parábola do bom samaritano, talvez para nos dizer que é preciso olharmos com profundidade para perceber neste mundo quem de fato "observa os mandamentos e os preceitos que estão escritos na Lei". Os samaritanos podiam não saber quem era de fato Jesus, mas não teriam desculpas se não socorressem o homem da estrada. cônego Celso Pedro Silva - www.fc.org.br |
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Todos nós desejamos com segurança a Vida eterna. Mas qual é o caminho para conquistá-la. As leituras bíblicas respondem: no amor a Deus e aos outros. Na 1º leitura, Moisés convida o Povo a aderir aos mandamentos: "Ouve a voz do Senhor, teu Deus, e observa todos os seus Mandamentos". E acrescenta: "Esta lei não está acima de tuas forças, pelo contrário, ela está bem perto de ti, está em tua boca e em teu coração" (Dt. 30,10-14) Os Mandamentos de Deus não são uma coleção de prescrições impostas, que tolhem a nossa liberdade e prejudicam a nossa realização pessoal. Pelo contrário, correspondem aos anseios profundos da pessoa humana, são o caminho seguro, que nos conduz à Felicidade eterna desejada. E Deus inscreveu esses preceitos em nosso próprio coração. A 2ª leitura mostra Cristo como o centro de toda a criação. (Cl. 1,15-20) É um hino cristológico, em que Paulo apresenta Cristo como "imagem do Deus invisível" e o "primogênito de toda a criatura". No Evangelho, Cristo aponta o caminho da vida eterna, respondendo a duas perguntas de um Mestre da Lei: (Lc. 10,25-37) 1. "Que devo fazer para alcançar a vida eterna"? - Jesus o questiona: "O que diz a Lei?" - Ele resume os 613 preceitos em dois: o Amor a Deus e o Amor ao Próximo... (Dt. 6,5; Lev. 19,18) - Jesus concorda: "Respondeste bem... Faze isto e viverás". - E ele insiste com a segunda pergunta: 2. "E quem é o meu próximo?" Na época de Jesus, "próximo" era o membro do Povo de Deus; excluíam os inimigos, os pecadores e os não praticantes... Jesus responde não com uma definição, mas com um exemplo prático... com a maravilhosa parábola do bom samaritano. - Um homem é assaltado por ladrões, que o deixam jogado meio morto à margem da estrada. - Ali passa um sacerdote, que sabe tudo sobre a Lei: vê o homem jogado, mas vai adiante. - Passa também um levita, que trabalha diariamente no templo, mas não sabe nada de Deus: não tem misericórdia para aquele homem. Vê o homem e vai em frente... - Passa também um "samaritano" que não sabia tão bem a Lei de Moisés. Esse "pagão" sente "compaixão" (sentimento próprio de Deus). Supera a hostilidade entre judeus e samaritanos, esquece seus negócios, seus compromissos, seu cansaço, o medo. "Aproxima-se dele, derrama óleo e vinho nas feridas. Depois o coloca em seu animal e completa os cuidados na pensão". - E Jesus concluiu: "Vai e faze tu o mesmo". A parábola nos diz que: - A "vida eterna" é encontrada no Amor a Deus, concretizado no Amor ao próximo. Para ter a vida devemos fazer de quem está perto de nós o nosso próximo. Próximo é todo irmão, que necessita de nossa ajuda e de nosso amor. - Mais importante do que saber quem é o "próximo", é tornar-se próximo de quem precisa... Próximo é quem age com misericórdia e compaixão. Cristo foi o verdadeiro bom samaritano, que antes de ensinar a parábola a fez realidade em sua vida acolhendo a todos. E ele nos convida: "Vai e faze tu o mesmo..." Esse gesto é um aspecto fundamental da missão da Igreja. A parábola propõe três passos para realizar o amor misericordioso: ver, ter compaixão e agir. + Quem é o nosso próximo, hoje? Só os amigos, os familiares? Os que nos ajudam? Gente do nosso grupo? * Ainda hoje, há pessoas à beira das estradas, assaltadas pela violência ou opressão... precisando de nossa ajuda... - Qual é a nossa atitude para com elas? * A do sacerdote e do levita, que olharam o 'coitado' e passaram à frente, porque não tinham tempo, deviam cuidar dos seus trabalhos? * Ou a figura simpática do Bom Samaritano, que mesmo estando de viagem, soube parar... e oferecer a esse coitado aquilo que estava ao seu alcance, para suavizar a sua situação? - E nós, que aqui estamos reunidos nessa celebração para fortalecer a nossa fé e o nosso amor, sabemos quem é o nosso próximo? - Reconhecemos de fato a presença de Cristo nas pessoas que encontramos ao longo dos caminhos do mundo? Ou preferimos não perder tempo e seguir o nosso caminho, deixando o nosso próximo na sarjeta do abandono? Enquanto Cristo aguarda uma resposta, professemos publicamente a nossa fé no Cristo que ainda hoje muitas vezes encontramos abandonado e espoliado, ao longo de nosso caminho.cantando: Seu nome é Jesus. padre Antônio Geraldo Dalla Costa - buscandonovasaguas.com |
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Jesus faz um resumo de tudo o que Deus projetou em relação à pessoa quando é interrogado por um homem que se considerava entendido na lei de Moisés. O mandamento ou conselho máximo de Deus para nós se divide em dois: amar a Deus sobre todas as coisas (Dt. 06,05) e ao próximo como se fosse a nós mesmos (Lv. 19,18). Assim como a misericórdia tem três elementos fundamentais, o amor tem três dimensões: amor ao Criador, amor a nós mesmos e o amor ao próximo. Podemos dizer que Deus vive em plenitude esta tríplice dimensão. Nós, como seres criados a sua imagem e semelhança só encontraremos a razão de nossa vida se vivermos o amor pois está é a essência de Deus. O amor está ligado diretamente ao verbo sair. Ele é uma saída de nós mesmos para descobrirmos quem é Deus, quem somos nós e quem são nossos irmãos. É um movimento de altruísmo que se preocupa em transmitir vida. Devemos amar ao próximo como se fosse a nós mesmos. Se nós não nos amamos de verdade não temos condições de amar ao outro como ele é. O sacerdote e o levita se afastaram do homem machucado e um estrangeiro (samaritano), se compadece do homem ferido e faz tudo por ele mesmo ele sendo um desconhecido. Nós somos os próximos de todos os que necessitam de nossa ajuda. Mas quem é o nosso próximo? Porque Jesus utiliza esta palavra que tanto nos questiona em relação à tão conhecida parábola do bom samaritano? Jesus inverte os papéis. Talvez pudéssemos pensar que ele deveria perguntar qual é o próximo do bom samaritano que pratica a caridade, mas a pergunta vem ao reverso: qual dos três foi o próximo do homem que caiu nas mãos dos assaltantes? Este questionamento de Jesus nos afirma que a caridade tem um duplo efeito. Ela atinge tanto o que a pratica como o que a recebe. Precisamos amar a todos sem distinção. Praticar o bem e evitar o mal, sem nos preocupar com as aparências ou com o que dirão de nós se ajudarmos os outros. Infelizmente tanto o sacerdote judeu como o levita estavam de certa maneira impedidos de fazer a caridade de socorrer o ferido, devido ao ofício sagrado que deveriam exercer. Se eles o socorressem, seriam impuros e não poderiam prestar culto a Deus segundo a Lei. O que Jesus nos mostra é que a caridade e a solidariedade é o principal culto que poderemos oferecer a Deus. Jesus coloca todas as leis em segundo plano quando se trata de fazer o bem, quando se trata de promover a vida do homem. Nós somos convidados a praticar a justiça e sermos solidários. Devemos partilhar tudo o que temos, tanto os bens materiais como os espirituais. Estes são bem mais difíceis de serem partilhados especialmente por muitas vezes estarmos fechados em nós mesmos e não vermos que o Senhor está presente em nossa vida. Não podemos amar só aqueles que de alguma forma irão nos retribuir com algo. O verdadeiro amor é desinteressado. Estamos carentes deste amor em nossa sociedade. O mundo de hoje está passando por uma grande carência afetiva. O individualismo já provou a sua falência. O contato com Jesus é um contato libertador de nossas fraquezas para vivermos o verdadeiro afeto. Talvez não iremos ter a oportunidade do bom samaritano em socorrer alguém gravemente ferido, mas a pessoa que está ao nosso lado, neste momento, será que não precisa de nosso sorriso e carinho? Amar o próximo é reconhecer a presença do outro. É sentir que podemos nos comunicar dar do que temos o nosso coração aos que necessitam. Gosto muito desta frase de Charles Chaplin: “Mais do que máquinas precisamos de humanidade, mais do que inteligência, precisamos de afeição e doçura”. Que possamos ser um pequeno tijolo de amor dentro da construção do mundo. JESUS NOS ENSINA QUE A CARIDADE PARA COM O PRÓXIMO É A ESSÊNCIA DE NOSSA VIDA frei Giribone - www.saosebastiaoportoalegre.org.br |
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