14º DOMINGO DO TEMPO COMUM

ano C

 

 

1º leitura – Is. 66,10-14c

O texto da liturgia de hoje pertence ao 3o Isaías ou 3a parte do livro do profeta Isaías (I Isaías = 1-39; II Isaías = 40-55; III Isaías = 56-66). O 3o Isaías é o profeta da esperança e da reconstrução. O povo já voltou do exílio babilônico, voltou com muita esperança de reconstruir Jerusalém o mais rápido possível. Mas Jerusalém tinha sido toda destruída. O povo encontrou só escombros, miséria e fome. Começaram o trabalho, mas o tempo foi passando e as dificuldades aumentando. Todos nós, diante dos problemas, somos vítimas do imediatismo. Queremos sarar de um dia para o outro, queremos resolver tudo hoje; começou então a haver um desânimo e até dúvida sobre o poder de Deus. É aqui que entra o profeta da esperança lembrando a força restauradora e o carinho materno do Deus libertador. O profeta não olha para baixo partilhando o pessimismo do povo, mas olha para o alto enxergando longe e vislumbrando uma perspectiva de transformação e glória. Ele levanta o moral do povo abatido, convidando a todos para uma festa, partilhando a alegria de uma Jerusalém reconstruída (v. 10). Jerusalém é comparada com uma mãe cheia de vigor amamentando seus filhinhos. Assim como uma criança só tem alegria no colo da mãe, assim todos os filhos de Sião devem regozijar-se (vv. 11-13). Esta metáfora da mãe, onde o coração materno de Deus é transferido para Jerusalém, quer mostrar a transformação que Deus fará da cidade, trazendo para ela o bem estar e as riquezas das nações (v. 12). Deus quer trazer vida e consolo para seu povo, como uma mãe que amamenta e tranquiliza seu filho (v. 13). Jerusalém vai-se transformando na cidade como símbolo da ternura e da justiça de Deus. Diante de tudo isso por que a tristeza? O importante é arregaçar as mangas e mãos à obra! O Segundo Testamento vê em Jesus Cristo a realização das promessas de Deus e o alicerce da nova Jerusalém (Ap. 21,1-22,5).

2º leitura – Gl. 6,14-18

Entre os gálatas infiltraram-se os judaizantes, aqueles que são apegados à Lei judaica, para destruir o evangelho de Paulo. Paulo prega a salvação através da cruz de Cristo. Os judaizantes pregam uma salvação através do rigor da Lei e da necessidade da circuncisão. Paulo deixa claro que os judaizantes buscam seus próprios interesses e querem separá-lo dos gálatas. Eles fogem da perseguição que sofre quem aceita a cruz de Cristo e buscam gloriar-se na carne, ou seja, na circuncisão dos gálatas. A preocupação deles é aparecer.

O trecho de hoje é o final da carta, a mais brava que Paulo escreveu, pois ele percebe o perigo da destruição de todos os seus esforços e trabalhos de evangelizador. Podemos destacar nestes versos finais três temas: a inutilidade da circuncisão, o valor salvífico da cruz de Cristo e o renascimento cristão como nova criatura. A inutilidade salvífica da circuncisão e de toda a Lei fica bem clara na carta. Aderir à Lei é inutilizar a cruz de Cristo. A Lei não é capaz de gerar vida. Ela teve sua função até a chegada de Jesus (cf. 3,21-25). A única glória do cristão não está nele, mas na cruz de Cristo. A cruz deve ser vista sob dois aspectos: o da morte e o da vida. Paulo diz que na cruz de Cristo o mundo da injustiça, da vaidade e do pecado morreu para ele e ele para o mundo. Na cruz, Cristo destrói o anti-valor mal, pecado, morte. Da cruz, Cristo faz brotar a vida, a ressurreição, a nova criatura. A cruz não é escravidão (como a Lei que nos torna cativos de normas e preceitos, que não somos capazes de cumprir), mas é libertação para a vida. Quem adere à cruz de Cristo encontra a paz e a misericórdia, o perdão dos seus pecados para viver como nova criatura reerguida pela graça de Deus e não abatidos pelo peso da Lei. A prova da honestidade, fidelidade e verdade do evangelho de Paulo está nas cicatrizes do seu corpo, maltratado e torturado por causa de Cristo (v. 17). O caminho do verdadeiro missionário é o mesmo caminho de Cristo; primeiro a cruz depois a ressurreição.

Evangelho - Lc. 10,1-12.17-20

Estamos no contexto da grande viagem para Jerusalém que em Lucas ocupa uma parte considerável do evangelho. Vai de 9,51 até 19,27. Lá, em Jerusalém, Jesus vai enfrentar a cruz da libertação. Ele vai morrer para trazer a vida para todos.

a) Todos devem participar

O número 72 é simbólico para lembrar que todos são chamados (não apenas os 12 apóstolos) a trabalhar para o Reino. A missão não é privilégio da cúpula, pois toda a Igreja é missionária. Para os antigos o número 72 representa todas as nações do mundo. Quer dizer, a salvação é para todos e todos devem se empenhar.

b) Quem são os discípulos e como devem agir

São pessoas de oração (rogai ao dono das plantações para mandar operários). Quem reza acredita na gratuidade do amor de Deus, quer dizer que quem cuida da colheita é Deus, a missão é um dom do seu amor. Eles lançam a semente da palavra em meio aos conflitos da sociedade (cordeiros no meio de lobos). Seus métodos se distinguem do método violento dos opressores - os lobos. Uma condição essencial do missionário é o desprendimento (não deve levar nada). A missão é caracterizada pela urgência (não devem parar), pelo anúncio da paz e da proximidade do Reino, transformando as estruturas, curando e reintegrando as pessoas. A paz significa plenitude dos bens messiânicos, condição favorável à vida de todos. Eles não devem agir visando lucro, mas devem se contentar com o necessário (vv. 7ss). Eles não devem fazer média com os poderosos que não querem acolher a mensagem, por isso, ao saírem, devem sacudir a poeira dos pés como gesto de ruptura. O julgamento fica para Deus (vv. 10-12).

c) O retorno dos 72 discípulos

Trata-se de um contínuo retorno às fontes da evangelização. Nossos trabalhos devem sempre ser avaliados à luz do evangelho. Nada de triunfalismo, nada de vaidade. A glória compete a Cristo, cujo anúncio do Reino espanta os demônios e é superior a todas as manifestações da morte (poder de pisar em serpentes e escorpiões). A alegria dos discípulos reside no fato de os nomes deles estarem escritos no céu.

dom Emanuel Messias de Oliveira - www.diocesedeguanhaes.com.br

 

Is. 66,10-14: como a mãe consola um filho, assim eu os consolarei.

O terceiro Isaías mostra a alegria do povo de Israel quando contempla seu renascer, depois de todas as amarguras do desterro, e ela a mostra com a figura do parto e dos filhos recém nascidos que necessitam da mãe para mamar de seus peitos e receber seu consolo, levados em seus braços e acariciados em seu colo. Estão na mão do Senhor e como a uma criança a quem sua mãe consola, assim os consolarei eu.

A figura de Deus Mãe é muito querida para os profetas. Sem dúvida, a experiência familiar do pai, da mãe e dos filhos, é talvez a mais admirável e compreensível para todos, quando se quer falar do amor de Deus.

Quando a Bíblia fala de Deus Pai, certamente não está determinando o gênero masculino da divindade. É certo que esta denominação e esta tradução estão condicionadas sociologicamente e sancionadas por uma sociedade de caráter varonil. Porém, realmente, Deus não deve ser concebido simplesmente como um homem. Especialmente nos profetas, Deus apresenta traços femininos maternais. A noção de Pai, aplicada a Deus, deve ser interpretada simbolicamente e transexual, que é a primeira e a última de todas.

O profeta Oséias, no capítulo 11, traz um dos textos mais belos do Antigo Testamento. A experiência do amor de Deus faz dizer ao profeta que o Senhor exerceu as tarefas de pai-mãe para com seu povo. Também outros profetas apresentam a Deus com características materno-paternais: um Deus que consola seus filhos que choram, porque os conduz para torrentes por via plana e sem tropeços (Jr. 31,9); um Deus que sente dor na repreensão: Se és meu filho querido, Efrarim, meu filhinho, meu encanto! Cada vez que o repreendo me lembro dele, comovem-me as entranhas e sou movido de compaixão (Jr. 31,20).
Essa ternura do amor de Deus fica expressa de maneira inigualável na figura da mãe: Pode uma mãe esquecer-se de seu filho, deixar de querer bem ao filho de seu ventre? Pois ainda que ela se esquecesse, eu não te esqueceria (Is 49,15). Assim como a mãe consola o filho, assim eu os consolarei (Is. 66,13). Realmente o povo se sentia filho de Javé.

Desde a primeira experiência salvífica de Deus na saída do Egito, o Senhor ordenou a Moises dizer ao Faraó: Assim diz o Senhor. Israel é meu filho primogênito, e eu te ordeno que deixes sair a meu filho para que me sirva (Ex. 4,23). A experiência de Deus-Pai dava essa segurança aos israelitas que não permitia sentirem-se órfãos porque, “se meu pai e minha mãe me abandonam, o Senhor me socorrerá” (Sl. 27,10).

A paternidade de Deus evocava também uma atenção especial a uma relação de proteção diante daqueles que necessitavam de ajuda e cuidado. Os profetas mostram a predileção de Deus pelos pobres, pelos pecadores, pelos órfãos e pelas viúvas, em uma palavra, por todos aqueles que somente podiam esperar a salvação da intervenção amorosa do Pai-mãe que se preocupa mais pelos filhos desprotegidos e abandonados do que pelos demais.

O salmo 65 (66): Bendito seja Deus que não retirou de mim o seu amor.

Trata-se de um salmo cuja primeira parte é um hino de louvor e depois, a partir do versículo 13, continua com uma ação de graças. Os motivos do louvor são o poder soberano de Deus em favor da humanidade, dos prodígios que viveu o povo na saída do Egito, a passagem do Mar Vermelho e como os inimigos foram se rendendo.

O convite é para que todos os povos louvem o Senhor, já não pelas ações do passado, mas pelos benefícios à comunidade do salmista que se convertem então em motivos para ação de graças: perigos e provas diante das quais a comunidade busca o Senhor que os escuta. Todo o salmo é um convite para que a terra inteira, o povo de Israel, todos os fiéis louvem a Deus que salva e protege, ainda que permita que passemos por fortes provas.

Gl. 6,14-18: para que gloriar-me no humano, se não  posso gloriar-me senão na cruz de Cristo?

Na despedida da carta aos Gálatas, Paulo, de maneira muito sintética, reafirma dois de seus temas preferidos. A salvação não se dá pela Lei, e o homem em Cristo é uma nova criatura. A circuncisão era uma manifestação clara do cumprimento da Lei, porém Paulo diz aos Gálatas que a salvação não provém da lei e sim de Cristo. E se apóia na Cruz, sinal de ignomínia para os romanos, os pagãos e para os judeus, mas que agora é sinal de vitoria e de salvação, e por isso Paulo se gloria nela, como também todos os cristãos, porque dela brota a vida.

Circuncidar-se não é o mais importante. O que importa é renascer como nova criatura. O mundo da lei morreu. Já não há diferença entre judeus e pagãos. Já não há circuncisos e incircuncisos, o que conta agora é o homem novo, o homem que é capaz de superar a tragédia do pecado e realizar o processo da ressurreição de Jesus, para viver como uma pessoa nova.

Lc. 10,1-12.17-20: envio dos 72 discípulos.

Pela segunda vez no evangelho de Lucas, Jesus envia seus discípulos em missão. Agora chegou a época da colheita e são necessários muitos operários para recolher a messe; são setenta e dois, um número que evoca a tradução dos setenta em Genesis 10, onde aparecem setenta e duas nações pagãs. Jesus vai caminhando para Jerusalém, o caminho que deve ser modelo para a Igreja futura. Partem de dois em dois para que o testemunho tenha valor jurídico, segundo a lei judaica (cf. Dt. 17,6; 19,15).

A missão não será fácil; deve ser desenvolvida em meio à pobreza, sem alforje nem provisões. A missão é urgente e nada pode atrapalhá-la, por isso não podem deter-se para saudar a ninguém pelo caminho; tampouco os discípulos devem forçar a ninguém a escutá-los, porém é preciso anunciar a proximidade do Reino.

Este modelo de evangelização é sempre atual. Certamente é uma tarefa difícil quando se trata de ser fiel ao evangelho de Jesus. Muitas vezes, por uma falsa compreensão da inculturação, se fazem concessões que vão contra a essência do evangelho.

Quando os discípulos regressam da missão estão cheios de alegria. Há uma expressão que merece um pouco de atenção: até os demônios se nos submetem em teu nome. Que significado tem os demônios? Uma breve explicação do termo está no final.

Jesus manifesta sua alegria porque as forças do mal foram vencidas, porque ele rechaça qualquer forma de demônio e exorta a seus discípulos e não vangloriar-se pelas coisas deste mundo. O importante é ter o nome inscrito no céu, isto é, participar das exigências do Reino e viver de acordo com elas (cf. Ex. 32,32). Há outro motivo de alegria para bendizer ao Pai.

Seus discípulos são uma amostra de que o Reino se revela aos simples e humildes. Não é o conhecimento o que permite a experiência do Reino, mas a experiência de Deus por meio do contato íntimo com Jesus e seu seguimento.

www.claretianos.com.br

 

Uma dúzia de Apóstolos, não é bastante, para deitar mãos à obra e fazer face a tão grande seara! Mesmo mantendo, em campo, e junto de si, o seu núcleo duro, o grupo dos Doze Apóstolos, o Senhor Jesus vê-se na necessidade de multiplicar os seus avançados, designando setenta e dois discípulos, a quem envia em missão! O evangelista diz precisamente que o Senhor os “enviou dois a dois, à sua frente, a todas as cidades e lugares aonde ele havia de ir» (Lc.10,1). Permitam-me, a este respeito, três pontos de reflexão:

1º. O Senhor designou setenta e dois discípulos e enviou-os dois a dois! (Lc.10,1)

Faz parte da condição de todo o discípulo, ser enviado por Jesus, em missão! A Missão não é, portanto, exclusiva dos Apóstolos ou dos seus sucessores, com os seus colaboradores: os bispos e padres. Como nos disse o Papa, aqui no Porto: todo «o cristão é, na Igreja e com a Igreja, um missionário de Cristo, enviado ao mundo» (Bento XVI, Homilia na Avenida dos Aliados, 14.05.2010). O verdadeiro índice da nossa adesão a Cristo, é este mesmo: uma vez evangelizados, tornarmo-nos evangelizadores!

2º. Enviou-os a todas as cidades e lugares aonde Ele havia de ir! (Lc.10,1)

Jesus quer chegar e fazer chegar a sua Boa Nova ao coração de todos! E por isso, envia os discípulos «a todas as cidades e lugares aonde ele próprio havia de ir». Estas cidades e lugares, não estão hoje definidos geograficamente, como se houvesse, aqui ou além, uma área exclusiva e reservada à missão. Não. Onde há uma casa, onde há uma família, onde há uma pessoa, onde há um coração, há uma seara, uma há uma terra de missão! Como nos disse o Papa, no Porto: «realmente aguardam por nós não apenas os povos não cristãos e as terras distantes, mas também os âmbitos sócio-culturais e sobretudo os corações, que são os verdadeiros destinatários da actividade missionária do povo de Deus».

De facto, sem a presença activa dos leigos, o Evangelho não pode gravar-se profundamente nos corações, na vida e no trabalho de um povo. Por isso o Papa, vos desafiava com esta pergunta: “se não fordes vós as suas testemunhas, no vosso próprio ambiente, quem o será em vosso lugar”?

E no encontro com os Bispos Portugueses, em Fátima, disse Bento XVI: “Há necessidade de verdadeiras testemunhas de Jesus Cristo, sobretudo nos meios humanos, onde o silêncio da fé é mais amplo e profundo: políticos, intelectuais, profissionais da comunicação que professam e promovem uma proposta cultural que menospreza a dimensão religiosa e contemplativa da vida. Em tais âmbitos, não faltam crentes envergonhados” (Bento XI, Discurso aos Bispos Portugueses, 13 de Maio 2010). Diríamos, de outro modo: precisamos hoje de cristãos descomplexados e activos, capazes de colocar o fermento, o sal e a luz do evangelho, «nos lugares do vasto e complicado mundo da política, da realidade social e da economia, mas também da cultura, das ciências e das artes, da vida internacional, dos “mass media”, e ainda outras realidades abertas à evangelização, como são o amor, a família, a educação das crianças e dos adolescentes, o trabalho profissional e o sofrimento» (E.N. 70, cit. CEP, Carta Pastoral, Para um rosto missionário, 25).

Por sinal, e a confirmar esta urgência da missão, soubemos que, na véspera da Solenidade de São Pedro e São Paulo, o Papa anunciou a criação de um novo Conselho Pontifício para a Nova Evangelização. Este novo organismo da Igreja, tem como tarefa principal promover a renovada evangelização nos Países, onde já ressoou o primeiro anúncio da fé e estão presentes Igrejas de antiga fundação, mas que estão a viver um eclipse do sentido de Deus, e onde se verifica uma grave crise do sentido da fé cristã e da pertença à Igreja. Este é bem e também o caso de Portugal!

3º. Dizei-lhes: está perto de vós, o reino de Deus! (Lc.10,9)

Este é o anúncio, a levar a todos os homens! Não o anúncio de uma ideia ou a mera enunciação de uma mensagem! Mas o testemunho da alegria da presença de Cristo e do encontro com Ele. Mostrai, na alegria da fé, como Cristo vivo e Ressuscitado, é capaz de transformar a vossa vida e de lhe dar um novo horizonte, um rumo decisivo! «Aquilo que fascina é sobretudo o encontro com pessoas crentes que, pela sua fé, atraem para a graça de Cristo, dando testemunho d’Ele» (Bento XVI, Discursos aos Bispos, 13.05.2010).

O Reino está perto, na própria sede de Deus, que se sente e pressente no homem de hoje! Não deixeis de aí mesmo levar a água viva do Evangelho!

padre Amaro Gonçalo. - www.abcdacatequese.com

 

A «carta de alistamento» para uma missão sem fronteiras

Jesus está em viagem: caminha com firme decisão para Jerusalém (Evangelho de domingo passado). Trata-se de uma viagem missionária e comunitária, carregada de ensinamentos para os discípulos. Pouco antes Jesus tinha enviado em missão os Doze (Lc. 9,1-6). A breve distância de tempo, Lucas (Evangelho) narra a missão dos 72 discípulos: «O Senhor designou outros setenta e dois discípulos e enviou-os dois a dois à sua frente, a todas as cidades e lugares aonde Ele havia de ir» (v. 1). A «carta de alistamento» e as instruções para os dois grupos de missionários – os 12 apóstolos e os 72 discípulos – são praticamente as mesmas. Surpreende por isso essa proximidade e duplicidade, como que a sublinhar a urgência da Missão.

Quem eram os 72? Aqui o número tem um significado simbólico, que remete para a totalidade da missão: 72 (ou 70, conforme os códices) eram os povos da terra, de acordo com a “lista dos povos” (Gn. 10,1-32); outros tantos eram os anciãos de Israel. Além disso, 72 é o número múltiplo de 12, pelo que pretende indicar a totalidade do povo de Deus. A missão, portanto, não é tarefa apenas de alguns (os 12, exatamente), mas obra também dos leigos, isto é, de todos. Nestes números capta-se uma mensagem de universalidade da missão, na sua origem, extensão e destinatários.

As instruções são múltiplas e todas significativas, no estilo da missão nova que Jesus inaugurou. Desde então são instruções igualmente válidas, também para nós e para os futuros evangelizadores.

- «O envio» (v. 1): a iniciativa da chamada e do envio é do Senhor, dono da seara; aos discípulos compete a disponibilidade na resposta.

- «Dois a dois»: em pequenos grupos; é preciso estar em comunhão pelo menos com uma outra pessoa, para que o testemunho seja credível. Assim seguiram Pedro e João (At. 3-4; 8,14); Barnabé e Saulo, enviados pela comunidade de Antioquia (At. 131-4). O anúncio do Evangelho não é deixado à inventiva solitária, mas é obra de uma comunidade de crentes. Mesmo que pequena, como no caso dos pais, primeiros educadores da fé dos seus filhos. O empenho de anunciar o Evangelho juntamente com outros não é apenas por uma questão de maior eficácia, mas porque fazê-lo juntamente a outros é expressão de comunhão e garantia da presença do Senhor. «Onde dois ou três se reunirem… eu estarei no meio deles» (Mt. 18,20),

- Enviou-os «à sua frente…»: são portadores da mensagem de uma outra pessoa; não são proprietários ou protagonistas, são precursores de Alguém que é mais importante, que virá depois, para cuja vinda hão-de preparar a mentes e os corações dos destinatários, que se encontram em toda a face da terra.

- «A seara é grande, mas são poucos os trabalhadores» (v. 2) disponíveis. Hoje a situação é a mesma de ontem. Os desafios da missão variam, em parte, de acordo com os tempos e os lugares, mas na essência são igualmente exigentes. E por isso são válidas também hoje as mesmas soluções que Jesus propunha então.

- «Pedi… ide…» (v. 2-3): a solução que Jesus oferece é dúplice: «Pedi… e ide…» (v. 2-3). Pedir para viver a missão em sintonia com o Dono da seara, porque a missão é graça a implorar para si e para os outros. E ir, porque em cada vocação, comum ou especial, o Senhor ama, chama e envia. «Pedir e ir»: dois momentos essenciais e irrenunciáveis da missão (*)

- A mensagem a levar é dúplice: o dom da paz (o Shalom) no sentido bíblico mais completo, para as pessoas e as famílias (v. 5); e a mensagem de que «está perto o reino de Deus» (v. 9.11). O Reino de Deus constrói-se e intromete-se na história; o Reino é antes de mais uma pessoa: Jesus, plenitude do Reino. Quem o acolhe encontra a vida, a alegria, a missão: anuncia-o a toda a família humana.

- O estilo da missão de Jesus e dos discípulos é o oposto do dos poderosos de turno ou do das multinacionais. A missão não assenta na vontade de domínio, na arrogância, na cobiça (coisa de lobos: v. 3), mas na proposta humilde, respeitosa, livre de seguranças humanas (bolsa, sandálias, v. 4); está atenta aos mais fracos (doentes, v. 9), é oferecida na gratuidade, sem receber recompensas (v. 20).

- O Evangelho de Jesus é mensagem de vida verdadeira, porque convida a confiar apenas em Deus, que é Pai e Mãe (I leitura); e a confiar em Cristo crucificado e ressuscitado (II leitura) para a salvação de todos.

- Os trabalhadores são poucos, pobres e fracos perante um mundo imenso; Paulo encontra força apenas na cruz de Cristo (v. 14) … São sinais e garantia de que o Reino pertence a Deus, de que a Missão é Sua.

Palavra do papa

«A Igreja precisa hoje de muitos apóstolos para evangelizar o mundo do novo milênio e espera-se encontrar esses evangelizadores entre vós, jovens rapazes e raparigas» (Lima, Peru, 2.2.1085).

«Colocai-vos em primeira linha entre os que estão dispostos a deixar a sua terra por uma missão sem fronteiras. Através de vós Cristo quer chegar à humanidade inteira». João Paulo II (Mensagem para o Dia Mundial de Oração pelas Vocações, 1985)

padre Romeo Ballan