13º DOMINGO DO TEMPO COMUM

ano C

 

        

 

A Bíblia relata muitos episódios de vocações: de Abraão, Moisés, Samuel, dos profetas e de muitos outros. Por meio dessas pessoas, Deus comunica seu plano de amor, estabelece aliança com seu povo e ensina o caminho da fidelidade. A vocação profética, de maneira especial, nasce de uma profunda experiência de Deus no meio da realidade de sofrimento em que o povo está imerso. Elias, considerado o pai dos movimentos proféticos, vive junto às vítimas do regime monárquico de Israel, solidarizando-se com elas. Anuncia a vontade de Deus, denuncia as falcatruas dos grandes e realiza sinais de libertação em meio aos pequeninos e pobres. O profeta é portador do projeto de Deus, que precisa ser continuado na história. A pessoa cumpre sua missão e passa, mas o projeto de Deus não pode passar. Eis, então, que surge a vocação do profeta Eliseu (I leitura). Jesus chama os discípulos para ficar com ele, ensina-lhes e revela-lhes a vontade do Pai, realiza diante deles sinais de libertação no meio do povo necessitado e envia-os para anunciar o evangelho e libertar as pessoas de toda espécie de mal. Em que pese a missão recebida de Jesus, os discípulos manifestam dificuldades para entendê-lo e aderir plenamente ao seu seguimento. O apego a seguranças pessoais impede a liberdade necessária para seguir verdadeiramente a Jesus (evangelho). Dentro de nós carregamos a tendência para os instintos egoístas. Podemos vencê-los se nos deixamos guiar pelo Espírito Santo. Ele nos torna livres em Cristo para uma vida nova na graça de Deus (II leitura). A vocação, portanto, é convite de Deus para a plena realização humana, somente possível se nos desvencilharmos de tudo o que impede a ação amorosa de Deus em cada um de nós e na humanidade inteira.

1º leitura (1Rs. 19,16b.19-21) - A profecia precisa continuar

O profeta Elias dedicou sua vida à causa da justiça divina, em favor das pessoas desprotegidas. Seu nome significa “Javé é meu Deus”. É portador do projeto do Deus que libertou o povo da escravidão do Egito e lhe deu uma terra “onde corre leite e mel”. Nessa terra, o povo, organizado em tribos, procurou viver a proposta de um poder descentralizado e de uma economia baseada na partilha, segundo a necessidade das famílias. Tudo mudou com o regime monárquico. Elias, cuja atuação profética se dá ao redor do ano 860 a.C., especialmente durante o governo de Acab, levanta a bandeira da proposta javista como caminho de restauração do direito e da justiça. Tendo a Javé como o seu Deus, Israel poderia libertar-se da corrupção e mudar a sua história.

Elias, inspirado por Deus, preocupa-se com a continuação de sua missão profética. A pessoa tem seu tempo histórico. O projeto de Deus, porém, não pode parar. O movimento profético vai continuar agora com Eliseu. A narrativa da sua vocação é reveladora. Transmite a intenção subjacente ao texto.

Eliseu é trabalhador da roça. Com 12 juntas de bois, cultiva a terra juntamente com outros trabalhadores. Ele conduz a última junta. A ligação simbólica com as 12 tribos é provável neste relato. Assim como Elias, também Eliseu é portador do ideal de uma sociedade governada segundo o projeto de Deus. Ao colocar sobre Eliseu o seu manto, Elias lhe transmite a autoridade profética. Imediatamente Eliseu deixa sua profissão e se despede de sua família. Sacrifica a junta de bois e partilha a carne com seus companheiros, aproveitando a madeira do arado para cozinhá-la. Depois, levanta-se e segue a Elias. Está em plena liberdade para exercer a missão profética.

Evangelho (Lc. 9,51-62) - Ser livre para seguir a Jesus

O texto situa o exato momento em que Jesus toma a firme resolução de ir a Jerusalém. Inicia-se o “êxodo” de Jesus, cujo principal objetivo é educar seus discípulos, abrindo-lhes os olhos a respeito das condições e consequências do seu seguimento. No texto refletido no domingo passado (9,18-24), os discípulos, por meio de Pedro, haviam declarado a Jesus que ele era o “Messias de Deus”. Não sabiam, porém, o verdadeiro significado dessas palavras. A concepção triunfalista de messianismo predominava em suas cabeças. Isso já ficou evidente pelo tipo de discussão que tiveram logo depois da confissão de Pedro: quem deles seria o maior? (cf. 9,46-48). Fica evidente também pela atitude de Tiago e João diante da hostilidade dos samaritanos. Estes são inimigos ferrenhos dos judeus. Certamente os dois mensageiros que Jesus havia enviado à sua frente deviam ter preparado os ânimos dos samaritanos. Mas parece que fracassaram. O que disseram e como fizeram? O fato é que sua missão não foi eficaz... Jesus repreende a Tiago e João e dirige-se para outro lugar.

No caminho são descritas três espécies de vocações. Nelas os discípulos devem reconhecer-se. Em cada uma delas, Jesus define quais devem ser as verdadeiras atitudes dos seus seguidores e seguidoras. O texto é elaborado de tal modo que situa no centro um chamado feito diretamente por Jesus. A primeira e a terceira personagens desejam seguir a Jesus por iniciativa própria. As três são personagens sem nome e, portanto, representativas de todas as pessoas discípulas de Jesus. Lucas quer enfatizar as exigentes condições para o seguimento.

A primeira demonstra disposição incomum: “Eu te seguirei para onde quer que tu fores”. A expressão faz lembrar as palavras de Pedro um pouco antes de negar a Jesus: “Senhor estou pronto a ir contigo à prisão e à morte” (22,33). A resposta de Jesus à primeira personagem alerta para a necessidade de ruptura com as seguranças e confortos que impedem a prontidão permanente. As “tocas” e os “ninhos” estão ligados à acomodação do poder em suas instituições. Neste sentido, não é por acaso que Jesus vai chamar Herodes de “raposa” (13,32)...

A terceira personagem também se oferece espontaneamente para seguir a Jesus, com a condição de despedir-se primeiro do pessoal de sua casa. A expressão grega denota o sentido de desvencilhar-se de uma incumbência. A personagem demonstra indecisão, própria de quem tem dificuldades de desapegar-se dos seus negócios e de quem ainda está amarrado a laços afetivos prejudiciais à liberdade e à autonomia necessárias para responder ao chamado divino.

A personagem central é convidada por Jesus. Está, porém, ligada às tradições paternas. Jesus pede-lhe que deixe o passado para entrar na nova dinâmica do reino de Deus. Lembra a dificuldade manifestada pelos discípulos de desatrelar-se da ideologia judaica.

Os três tipos de vocações sintetizam as atitudes que devem caracterizar o verdadeiro discipulado. A liberdade deve ser radical para que a opção pelo Reino seja feita com inteireza.

2º leitura (Gl. 5,1.13-18) - Chamados à liberdade

Um dos problemas sérios que Paulo enfrenta em sua missão é a influência dos pregadores judaizantes que insistiam na necessidade de os cristãos cumprirem certas normas judaicas, querendo obrigá-los a circuncidar-se. Diante dessas pregações persistentes, alguns membros das comunidades ficaram um tanto abalados e cheios de dúvidas. Geravam-se discussões e intrigas entre grupos com diferentes interpretações. Para Paulo, está totalmente superada a fase da Lei como condição para a salvação. O tempo da minoridade passou. Jesus Cristo nos libertou de todo tipo de escravidão, também a da Lei. Assim, todas as pessoas, independentemente da raça, recebem o privilégio de pertencer ao povo santo de Deus.

Há pessoas na comunidade, porém, que interpretam a liberdade como caminho de satisfação de interesses pessoais. Mas não! A liberdade em Jesus Cristo não é pretexto para satisfazer os instintos egoístas. Pelo contrário, é a qualidade que fundamenta o amor mútuo. A pessoa livre em Cristo põe-se inteiramente a serviço dos outros.

Paulo, então, contrapõe os instintos egoístas (ou os “desejos da carne”) às obras que provêm do Espírito Santo. São duas maneiras de viver. Os frutos são diferentes. A vida no Espírito é o jeito característico de quem foi libertado pela morte e ressurreição de Jesus. Assim como Jesus, conduzido pelo Espírito Santo, viveu a vontade do Pai, entregando-se por inteiro para a vida do mundo, também os cristãos recebem a graça de uma vida nova que se manifesta no amor-serviço.

PISTAS PARA REFLEXÃO

Todos nós somos chamados por Deus à vida e à santidade. A cada um Deus se revela de maneira original e convoca a viver segundo a sua vontade. Ele conta conosco para irradiar o seu plano de amor em atos e palavras. O profeta Elias é exemplo de disponibilidade e de dedicação ao projeto de Deus. Preocupa-se com a continuidade da missão profética e por isso, sob a inspiração de Deus, transmite o chamado a Eliseu. Como ele, podemos nos desapegar de todas as coisas que impedem a vivência plena da vocação que Deus nos dá.

Também o evangelho de hoje nos alerta para a importância de cultivar as condições para seguir Jesus: não proteger-se em “tocas” nem acomodar-se nos “ninhos” dos interesses pessoais e das instituições de poder; libertar-se das amarras econômicas e afetivas para viver a necessária e saudável autonomia no compromisso vocacional; romper com as tradições passadas para abrir-se à novidade de Deus na história presente, novidade que se manifesta por meio de sinais que nos desafiam ao compromisso em torno de um mundo de fraternidade e paz.

Jesus deseja que sejamos pessoas prontas a superar o individualismo, a acomodação, a administração egoísta dos bens, a tendência a fazer somente o que nos agrada pessoalmente... São Paulo chama essas atitudes de “desejos da carne” ou de “instintos egoístas”. Sem perceber, podemos nos tornar escravos de coisas, de convenções, de aspirações que caracterizam o mundo pós-moderno... Corremos atrás do que a moda exige, mudamos constantemente de pensamento e de rumo, sob pretexto de realização pessoal... Há, porém, outro jeito de viver: sob a condução e a força do Espírito Santo. Ele nos torna livres para vivermos na simplicidade, na alegria de servir, na capacidade de amar como Jesus nos ensinou...

– Podem-se lembrar as diversas vocações existentes na comunidade (e no mundo), seus serviços específicos e os frutos decorrentes da doação de tantas pessoas que respondem com generosidade ao chamado de Deus...

Celso Loraschi

 

Não há coisa mais radical e louca que ser cristão; não há maior aventura… Pena que os cristãos estejam perdendo essa percepção e o Evangelho muitas vezes apareça como algo certinho, cômodo e domesticado. Tantas vezes considerou-se que para ser um bom cristão bastaria ser bem comportado! Ora, não é isto que a Palavra do Senhor nos ensina!

Jesus durante toda a sua vida caminhou para o Pai, teve no Pai sua única meta, pelo Pai e o seu Reino, fez loucuras. Por isso, já no capítulo nove do seu evangelho, São Lucas no-lo apresenta subindo para Jerusalém, para sua partida para o Pai: “Quando chegou o tempo de Jesus ser levado para o céu, então tomou a firme decisão de partir para Jerusalém”. Ao pé da letra, são Lucas diz: ele voltou decididamente o rosto para Jerusalém… Este é o caminho de Cristo: ir subindo até a Cidade Santa, e de Jerusalém, para o Pai, atravessando o mistério da paixão, da cruz e da morte, para chegar à ressurreição. Ele vai à frente, no caminho, o seu caminho, e nos desafia a segui-lo. Quem quiser ser seu discípulo, deve segui-lo neste caminho! Basta recordar o domingo passado: deixar tudo… renunciar-se… tomar a cruz de cada dia… e segui-lo. Hoje, no caminho, ele nos previne: “As raposas têm tocas e as aves do céu têm ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça”. E exige que coloquemos tudo abaixo dele, até pai e mãe… É assim que Jesus quer seus discípulos: totalmente comprometidos com ele, absolutamente! E afirma claramente: “Quem põe a mão no arado e olha para trás, não está pronto para o Reino de Deus”.

Jesus é tão claro! Ele exige tanto de nós porque somente ele nos pode dar tudo: o sentido da vida, o amor de Deus, a paz verdadeira e perene e a vitória sobre a morte. Ele nos revela e nos dá um Deus que é todo amor, todo carinho, todo perdão, todo piedade, um Deus que é o rochedo de nossa existência. Mas, também, um Deus exigentíssimo! Não se pode ser cristão pela metade! São Paulo, na segunda leitura de hoje, exprime muito bem esta realidade: Cristo nos libertou para a liberdade de uma vida nova, vida na graça de Deus, vida impulsionada pelo Espírito do Ressuscitado. É esta a liberdade do discípulo de Jesus; uma liberdade diversa do conceito de liberdade que o mundo apregoa. O cristão é livre não porque faz o que quer; é livre porque quer somente a vontade de Deus manifestada em Cristo Jesus: “Foi para a liberdade que Cristo nos libertou!” E, aí, o Apóstolo nos previne: “Não façais dessa liberdade um pretexto para servirdes à carne”. “Carne” é tudo quanto pertence ao homem velho, tudo quanto manifesta o velho egoísmo de uma vida centrada em si mesmo e não em Deus, que se dá no Cristo Jesus! “Carne” é tudo aquilo que é lógica deste mundo e não lógica do Evangelho! Pode ser a lógica da ganância, da sensualidade e da imoralidade, da religião interesseira à procura de milagres, curas e benefícios materiais… tudo isso é carne: a descrença, a impiedade, a vulgaridade e o comodismo no modo de viver…

Há, portanto, dois modos de construir nossa existência. Um, segundo a carne, isto é, segundo o homem velho, com seu modo de pensar, com sua razão entregue a si mesma, com uma lógica meramente humana e, muitas vezes, pecaminosa. O outro, a vida segundo o Espírito do Ressuscitado. É a vida do cristão que, impulsionando e sustentado pelo Espírito do Senhor, abre-se para Deus, superar-se a si mesmo e seu modo meramente humano de pensar, e caminha incessantemente para o Cristo, até alcançar a estatura do homem novo, “o estado do Homem Perfeito, a medida da estatura da plenitude de Cristo” (Ef 4,13).

A medida e o ideal de vida do cristão não podem ser aqueles apresentados pela moda e pelo pensamento dominante do mundo atual. Nosso caminho é Cristo, nosso critério é Cristo, nossa medida é Cristo, nosso modo de viver deve ser o de Cristo Jesus! O grande desafio dos cristãos de hoje é redescobrirem que sua vida, seu modo de ser e de agir devem ser diferentes, simplesmente porque eles são discípulos do Senhor Jesus!

Mas estejamos bem atentos: isso somente é possível quando encontramos de verdade o Senhor em nossa vida, quando por ele nos encantamos, quando somos invadidos pelo seu amor. Observemos que nos evangelho de hoje – e de sempre – o cristianismo nasce de um encontro no caminho… um encontro marcante e transformador com Jesus. Só esta experiência é capaz de nos fazer entrar no caminho e aceitar as exigências do Senhor. Em outras palavras: o cristão, ou é um amigo de Cristo ou não é cristão; ou tem uma experiência de amizade com o Senhor ou jamais vai compreendê-lo de fato. É preciso insistir nisso, mais que nunca: o cristianismo não é uma doutrina, não é uma moral, não é uma ideologia, não é uma proposta política de justiça social para o mundo! Tudo isso é secundário! O que nos faz cristãos, é ter sido encontrados por Cristo no caminho, ter sido seduzidos por ele e tê-lo seguido, dizendo, meio responsáveis, meio loucos; “Senhor, eu te seguirei para onde quer que vás”. Que o Senhor nos conceda a graça da paixão por ele, a graça de segui-lo, a graça de testemunhá-lo com a carne da nossa vida de cada dia, como nossos irmãos de há dois mil anos atrás, quando ele tomou o caminho de Jerusalém, para a cruz e a ressurreição. Amém.

dom Henrique Soares da Costa - www.presbiteros.com.br

 

A primeira leitura narra a vocação do profeta Eliseu. Era um camponês rico. Estava arando em sua propriedade quando se encontra com o profeta Elias. Elias coloca o seu manto sobre ele e como isso adquire sobre ele um certo direito. Eliseu não se nega: sacrifica uma junta de bois com os quais estava lavrando a terra, abandona sua família e se coloca a servir somente a Deus. Encontramos aqui as condições ideais para uma vocação: Deus chama, o chamado responde e rompe com o passado e assume um novo gênero de vida a serviço de sua missão.

Nunca o ser humano foi tão sensível à liberdade como nos dias de hoje. Paulo diz com relação a este tema: o cristão é livre: a vocação cristã é vocação à liberdade, esta liberdade foi conquistada por Cristo; a liberdade se expressa e alcança sua plenitude no amor; diante do perigo de que muitos seres humanos caírem na libertinagem sob pretexto de liberdade, Paulo adverte que a verdadeira liberdade, a que vem do Espírito, liberta da escravidão da carne e do egoísmo.

O tema fundamental do evangelho é a apresentação de três vocações. Lucas coloca-as no contexto da viagem de Jesus e seus discípulos a Jerusalém. Jesus exige daquele que deseja segui-lo: desapego dos bens e das comodidades materiais, pois o Filho do Homem não tem onde reclinar sua cabeça; chamado de Deus; ruptura com o passado e o presente, inclusive com a própria família, e seguimento. Tudo isto para que o discípulo fique livre e disponível para poder anunciar o Reino de Deus.

As leituras de hoje tem um tema comum: as exigências da vocação. Nelas descobrimos como subjaz a necessidade do desprendimento, de renuncia, do abandono das coisas e pessoas como exigência para seguir Jesus. Por isso não existe resposta ao chamado para colocar-se a serviço do Reino de Deus naqueles que postergam o chamado de Jesus aos interesses pessoais. O Evangelho nos diz que o desprendimento exigido por Jesus aos três candidatos ao seguimento é radical e imediato. Tem-se a impressão, inclusive, de uma certa dureza de Jesus. Porém, tudo está colocado sob o signo da urgência. Jesus iniciou “a viagem para Jerusalém”. Esta “subida” interminável (que ocupa 10 capítulos no evangelho de Lucas) não se enquadra na dimensão estritamente geográfica, mas teológica: Jesus se encaminha decididamente para o cumprimento de sua missão.

A viagem de Jesus a Jerusalém não é uma viagem turística. Por isso o mestre exige dos discípulos a consciência do risco que comporta essa aventura: “a entrega da própria vida”. Pode-se dizer que Jesus faz todo o possível para desanimar os três que pretendem segui-lo ao longo do caminho. Parece que sua intenção é mais a de rejeitar do que a de atrair, desiludir mais do que seduzir. Na realidade, ele não apaga o entusiasmo, mas as falsas ilusões e os triunfalismos messiânicos. Os discípulos devem estar conscientes da dificuldade da empreitada, dos sacrifícios que podem advir e da gravidade dos compromissos assumidos com a decisão. Por isso, seguir Jesus exige:

- Disponibilidade para viver na insegurança: “Não ter nada, não levar nada”.  Não se acentua a pobreza absoluta, mas na itinerancia. O discípulo, da mesma forma que Jesus, não pode programar, organizar a própria vida segundo critérios de exigências pessoais, de “conforto” individual.

- Ruptura com o passado, com as estruturas sociais, políticas, econômicas e culturais que prendem e geram morte. É necessário que os novos discípulos olhem adiante, que anunciem o Reino, para que desapareça o passado e vivam o projeto de Jesus.

- Decisão irrevogável. Nada de vacilos, nada de arranjos, nenhuma concessão às nostalgias do passado, o compromisso é total, definitivo, a eleição é irrevogável.

Ontem e hoje Jesus continua chamando homens e mulheres que, deixando tudo, se comprometam com a causa do Evangelho e, tomando o arado sem olhar para trás, entreguem a própria vida na construção de um mundo novo onde reine a justiça e a igualdade entre os seres humanos. Por outra parte, observamos uma nota de tolerância e paciência pedagógica no evangelho de hoje. Um zelo apaixonado dos discípulos os faz pensar em trazer fogo sobre a terra para consumir a todos os que não aceitam a Jesus. Levados por seu zelo, não admitem que outros pensem de maneira diferente, nem respeitem o processo pessoal ou grupal. Jesus “reprova” esse zelo neles.

Simplesmente vai para outra aldeia, sem condená-los e, muito menos, sem querer enviar fogo. O seguimento de Jesus é um convite e um dom de Deus, porém ao mesmo tempo exige nossa resposta decidida. É, pois, um dom e uma conquista. Um convite de Deus e uma meta que nos devemos propor com entusiasmo. Porém, somente por amor, por enamoramento à causa de Jesus, podemos avançar no seguimento. Nem as prescrições legais, mas o amor direto à causa de Jesus e a Deus mesmo através da pessoa de Jesus, tem que incidir decisivamente em nossa vida de chamados.

Uma vez que esse amor foi instalado em nossas vidas, tudo que passa a ser legal, continua tendo seu sentido, porém é colocado em seu devido lugar: relegado a um segundo plano. “Ama e faze o que queres”, dizia santo Agostinho; porque se amas, não vais fazer “o que queres”, mas o que deves, o que Deus amado espera de ti. É a liberdade do amor, suas doces cadeias.

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Santos normais

Está claro que Tiago e João não pediram que fosse enviado o fogo do Espírito Santo sobre os samaritanos. Eles queriam é que aquele povoado de samaritanos com todos os seus moradores fossem queimados, consumidos, e se transformassem em carvõezinhos! Por isso Jesus os repreende. No entanto, é admirável a naturalidade dos apóstolos em manifestar diante de Jesus aquilo que pensam e, ao mesmo tempo, é admirável a simplicidade do evangelista em não ocultar os defeitos dos apóstolos.

Quando lemos biografias de santos e observemos que eles também tinham pecados, animemo-nos: também nós podemos ser santos! Digamos para nós mesmos: se esse foi santo, apesar dos pesares, eu também posso sê-lo. Há livro muito bom de J. Urteaga – cuja tradução portuguesa eu não encontrei – “Los defectos de los santos”, no qual o autor vai analisando exatamente esse aspecto: os defeitos dos santos.

A propósito, conta-se que um jovem escutou certa vez que tinha que ser santo. Resolveu, então, ir à igreja para ver como são os santos. Entrou numa paróquia e começou a olhar as imagens de santos que lá havia. A primeira imagem que ele observou foi a de um santo magro, com os olhos elevados ao céu e quase sem ligar para a terra, em contemplação profunda. Aquele jovem não gostou daquela santidade, parecia-lhe muito distante e um pouco estranha. Viu uma segunda imagem, barroca, com aqueles típicos arrebatamentos místicos, aquelas roupas que dão voltas e mais voltas ao redor do corpo, uns gestos nas mãos um tanto complicados. Tampouco gostou daquela santidade, parecia-lhe do século XVII e, por tanto, muito antiga. A terceira imagem era de um santo que chorava diante da imagem do Cristo Crucificado, fazia duras penitências e tinha um rosto um pouco deformado. O nosso jovem, ao contrário, sentia-se tão alegre e expansivo. Reflexivo e quase chegando à conclusão de que não podia ser santo, meio cabisbaixo e já saindo da igreja, viu que na parede rumo à porta, à altura da sua cabeça, estava uma imagem de um Menino Jesus bem gordinho nos braços de Maria e que ria e brincava com o manto de Nossa Senhora, que também sorria espontaneamente com o Menino. O nosso jovem se alegrou ao ver aquela imagem tão simpática e disse para si: “Eu quero ser santo como esse Menino”. Puxa vida, nada mais, nada menos!

Os santos são pessoas normais. Eles também percebiam a própria concupiscência, e lutavam. Tiago e João que, num ímpeto de ira, queriam pedir fogo do céu para queimar os pobres samaritanos, hoje são venerados como são Tiago e são João. Eram pessoas normais! Agostinho que antes de converter-se ao cristianismo teve um filho fora do casamento, hoje é venerado como santo Agostinho! Pedro negou Jesus por três vezes e, no entanto, foi-lhe entregue o pastoreio de toda a Igreja e nós pedimos a sua intercessão na ladainha de todos os santos como são Pedro. E nós? Do jeito que nós somos, continuemos na luta por amar a Deus, por vencer os próprios defeitos. É verdade, talvez não sejamos canonizados (talvez sim!), mas – com certeza – ao menos canonizáveis. São Josemaria Escrivá, espanhol de caráter bastante forte e muito amável com todas as pessoas, costumava dizer que “a santidade está na luta”. Provemos essa receita: lutemos de verdade e, com a graça de Deus, chegaremos ao céu. Nós seremos santos que tiveram defeitos, mas, não importa, o importante é que lutemos até o fim.

padre Françoá Rodrigues Figueiredo Costa

 

1º leitura: 1Rs. 19,16b.19-21

A vocação do profeta Eliseu acontece depois da experiência de Deus que Elias teve no monte Horeb (1Rs. 19,8-18). Javé passou diante dele como uma brisa suave e lhe pede para voltar com uma missão política e profética. A política era ungir o rei da Síria e o rei de Damasco e a profética era ungir o seu sucessor o profeta Eliseu, para continuar a defender a fé em Javé como o fez Elias.

O texto de hoje não fala propriamente da unção com óleo, mas narra um gesto substitutivo que era a imposição do manto. Eliseu estava no trabalho, trabalhando com doze juntas de bois. Ele mesmo dirigia a última junta. "Ao passar perto de Eliseu, Elias lançou sobre ele o seu manto". Não disse nada, mas Eliseu compreendeu que estava recebendo uma missão profética, a própria missão de Elias. A partir desse momento ele estava a serviço de Elias. No Oriente, o manto simbolizava a personalidade e os direitos do seu dono. O manto de Elias tinha poder sobrenatural e Eliseu vai conseguir realizar prodígios como Elias (cf. 2Rs. 2,8-14).

Qual foi a atitude de Eliseu depois que recebeu o manto de Elias? Eliseu pede licença a Elias para despedir-se da sua família. Elias deixa. Jesus no Evangelho de hoje é mais radical e não permite a seus seguidores que façam essa despedida (cf. Lc. 9,61-62).

Eliseu faz com seus familiares uma grande festa de despedida, oferecendo em sacrifício a junta de bois com que trabalhava e aproveitando a madeira do arado para cozinhar a carne. A atitude de Eliseu parece uma simples festa de despedida, mas na realidade é uma atitude radical de ruptura com o seu passado, abandonando tudo para o seguimento do seu mestre, como vão fazer séculos depois os apóstolos de Jesus. Com Elias, Eliseu aprendeu a ser profeta. O primeiro livro dos Reis não fala mais de Eliseu. Seu nome aparece de novo em 2Rs. 2, quando ele vai suceder o seu mestre em Gálgala.

2º leitura: Gl. 5,1.13-18

Este texto nos apresenta duas contraposições. A primeira é entre a liberdade em Cristo e a escravidão da Lei (5,1ss), retomada explicitamente no v. 13. A segunda é entre a carne e o espírito (vv. 16-26).

1ª contraposição: liberdade x escravidão

Aqui no v. 1, ele conclui todo o capítulo 4º com as palavras: "É para a liberdade que Cristo nos libertou. Ficai firmes e não vos deixeis amarrar de novo ao jugo da escravidão". Afinal toda a mensagem doutrinal da carta está aqui sintetizada. Cristo nos libertou para a liberdade. Qual liberdade? É uma liberdade que se opõe ao jugo anterior da escravidão. Pelos versos seguintes percebe-se que se trata da escravidão da Lei com suas práticas. Aqui Paulo salienta mais a circuncisão. Em outras passagens, como em 4,9-10, ele menciona outras práticas como dias, meses, estações, anos. Esta liberdade da escravidão da Lei Cristo nos trouxe através da sua entrega total por nós na cruz (cf. 3,13; 4,1.5). No v. 13, Paulo relembra a vocação dos gálatas à liberdade. Mas não se pode confundir liberdade com libertinagem que são "os pretextos para a carne" (cf. 1Cor 6,12ss). É uma advertência muito a propósito para os gálatas, aliás, para o homem de hoje também, que muito facilmente faz uma separação entre a prática da religião, e o comportamento moral. Paulo fala da liberdade que se deixa conduzir pelo Espírito. É uma liberdade para o serviço mútuo fundamentado no amor. O amor é a expressão dessa liberdade, pois o amor ao próximo resume toda a Lei. O irônico v. 15 deve referir-se a algumas contendas específicas entre os gálatas, talvez provocadas pelos judaizantes. O certo é que é uma infração no mandamento do amor. Realmente, quem, achando-se na liberdade, serve às aspirações da carne, recai sob a escravidão da Lei e age contra a caridade, mordendo-se e devorando-se uns aos outros.

2ª contraposição: espírito x carne

Os vv. 16-18 trazem a 2ª contraposição, isto é, entre o Espírito e a carne. O Espírito deve ser o princípio de vida para o cristão. O "Espírito" está ligado a Cristo e à liberdade. A "carne" está ligada à Lei e à escravidão. Se o cristão se deixar guiar pelo Espírito, ele não estará debaixo da Lei e, por conseguinte, não satisfará os desejos da carne, pois há uma oposição entre a carne e o Espírito e as aspirações deste são contrárias às aspirações daquela. Esta contraposição entre carne e Espírito continua nos versículos seguintes, onde Paulo vai catalogar as obras da carne e os frutos do Espírito. A carne aqui é símbolo do homem, que se opõe a Deus; representa os instintos que levam o homem ao pecado. O Espírito é "a parte racional iluminada e fortificada pelo Espírito Santo e que consegue enfrentar os desejos da carne". Podemos concluir dizendo que guiados pela Lei interior do Espírito não sofreremos o jugo exterior da Lei, pois a vida no Espírito é capaz de nos fazer superar os desejos da carne.

Evangelho: Lc. 9,51-62

Estamos com este trecho no início de uma longa caminhada de Jesus para Jerusalém, uma caminhada sem retorno. É uma seção própria do evangelista São Lucas. São dez capítulos, pois vai de 9,51 até 19,27. Aqui São Lucas constrói o seu pensamento sobre Jesus e o significado dele para a vida cristã. É uma viagem na qual as pessoas são chamadas a fazer sua opção a favor da vida seguindo Jesus, ou contra a vida rejeitando Jesus. De vez em quando o evangelista vai lembrando que Jesus está a caminho de Jerusalém (cf. 13,22; 17,11; 18,31; 19,11). Isto quer ressaltar o valor teológico que Lucas quer dar a esta viagem. Tanto que a tradução literal do início do v. 51 é: "Quando se completaram os dias de sua assunção..." Esta palavra assunção é sinônima de elevação, "arrebatamento". Lembra o arrebatamento do profeta Elias aos céus. Por isso a decisão de Jesus de subir para Jerusalém é cheia de gravidade, é uma "decisão firme".

Nosso texto pode ser dividido em duas partes.

Primeira parte 9,51-56 - A negação da hospedagem por parte dos samaritanos e a reação dos discípulos.

Jesus quer passar a noite num povoado de Samaritanos, mas eles não aceitam, pois Jesus dava a impressão de se dirigir para Jerusalém. Só este fato já é motivo para os Samaritanos tomarem posição contra Jesus. Samaritanos não se davam com judeus que os consideravam como semi-pagãos e estrangeiros. Eles não freqüentavam o Templo de Jerusalém, mas adoravam a Deus e ofereciam-lhe sacrifícios no monte Garizim, uma contraposição ao Monte Sião, onde se situava Jerusalém. Os discípulos Tiago e João reagem com uma intolerância religiosa muito grande, querendo vingar dos samaritanos e destruí-los, com fogo caído do céu a exemplo do que fez Elias com os enviados do rei Ocozias (cf. 2Rs 1,10-14). Mas Jesus ao invés de se irritar com os samaritanos repreende os dois discípulos. Sua atitude é de misericórdia, compreensão e respeito pelos diferentes.

Segunda parte 9,57-62 - Exigências de um autêntico seguimento.

O evangelista apresenta três casos de seguimento. O primeiro mostra uma grande boa vontade de seguir Jesus, mas Jesus lhe mostra as duras exigências do seguimento, a radicalidade do despojamento e da entrega total.

O segundo é vocacionado, chamado por Jesus, mas ele pede para enterrar seu pai primeiro, pois o pai dele tinha acabado de morrer. Jesus responde: "Deixa que os mortos enterrem os seus mortos". É uma questão de prioridade. A prioridade de Jesus é o Reino da Vida, o Reino de Deus. A resposta de Jesus parece dura demais, pois sepultar o pai é um dever sagrado, mas aqui não é preciso interpretar a frase de Jesus ao pé da letra, pois Jesus faz um jogo de palavras: que os espiritualmente mortos enterrem os fisicamente mortos. Jesus quer mostrar também que o seu seguimento exige ruptura radical com o passado, até com os laços familiares.

O terceiro toma a iniciativa, mas também põe a condição de despedir-se primeiro dos seus familiares. Jesus responde: "Quem põe a mão no arado e olha pra trás, não está apto para o Reino de Deus". Jesus relembra aqui a vocação de Eliseu (1ª leitura). Mas Jesus é mais exigente para os seus seguidores e a proposta do Reino. A urgência do Reino supõe despojamento total e decisão firme e pronta, livre de todas as preocupações.

dom Emanuel Messias de Oliveira

 

Epístola (Gl. 5,1.13-18)

Na sua luta contra os judaizantes, que pretendiam ainda ser a circuncisão necessária para a salvação [justificação], Paulo argumenta, modo rabínico, de diversas maneiras, fundando suas premissas na Escritura, interpretada de modo singular. Uma dessas argumentações é a que encontramos na epístola de hoje. A Lei mosaica tratava principalmente de coisas corporais: circuncisão e pureza de alimentos. Era uma lei carnal, e como tal, uma servidão às concupiscências e desejos corporais. Já a fé, base da nova aliança, era uma lei que diretamente visava o Espírito [recebido no batismo] e, portanto, era lei de liberdade. E Paulo confirma a essência diferente das duas leis com o exemplo das apetências do corpo [suas obras] e os frutos do Espírito, estes todos dirigidos ao bem do próximo, porque a lei do Espírito está dirigida pelo amor e nesse amor não se necessita mandato particular, a não ser que o próximo deva ser considerado como desejamos tratar a nós mesmos. Logo devemos rejeitar a lei carnal como uma escravidão e gozar da liberdade que encontrados na lei do Espírito.

LIBERDADE CRISTÃ: Permanecei, pois, firmes na liberdade com a qual Cristo vos libertou (1).

LIBERDADE: Paulo fala em que Deus é Espírito e onde está  o Espírito do Senhor aí há liberdade (2Cor. 3,17). Para entender o argumento paulino devemos ter uma ideia clara de quais eram as mentalidades do seu tempo. Em primeiro lugar, Paulo admitia uma dualidade de carne ou corpo, inclinado ao mal, e de espírito, como base do bem; corpo e espírito que constituiam a totalidade do homem. Se o homem estava inclinado ao mal a culpa era da carne, da lei do pecado (1 Rm 7,23). Em segundo lugar, Deus como Espírito, era totalmente livre (2Cor. 3,17), não determinado pelas paixões desordenadas do corpo. Em terceiro lugar, após o batismo, o espírito do homem estava dominado pelo Espírito de Deus (At. 19,2-3). Esse domínio era tal que o corpo estava como morto junto com suas paixões e se podia afirmar que quem tivesse recebido o Espírito estava livre  (2Cor. 3,17) e unicamente nele reinava a lei do amor, que considera o outro como a si próprio (Gl. 5,14). Por isso, Paulo distingue entre obras da carne  (Gl. 5,19-21) e os frutos do Espírito (Gl. 5,22-23). Quem se diz dominado pelo Espírito não tem que seguir uma lei, pois a lei do Espírito é vida em Cristo Jesus e o livra da lei do pecado (Rm. 8,2). Guiados, pois pelo Espírito, os cristãos não estão sob a Lei (Gl. 5,18). Se isso é verdade do ponto de vista existencial, do ponto de vista legal, Paulo afirma que a liberdade foi conseguida por Cristo, de modo que compara o cristão com Isaac, filho de Sara, a livre; e o judeu com Ismael, filho da escrava Agar, sendo que estas mulheres representavam as duas alianças: Agar, o Sinai, com a Jerusalém terrestre da escravidão; e Sara, a Jerusalém celeste livre, que é nossa mãe (Gl 4,26). Não somos mais escravos da Lei [da circuncisão], mas estamos livres, pois pertencemos unicamente a Cristo que pagou nosso resgate com o preço de seu sangue (1Cor. 6,20 e 7, 23).

A LIBERDADE DO AMOR: Pois vós, irmãos, fostes chamados à liberdade. Somente não (é) a liberdade para incentivo na carne; mas através do amor servi mutuamente (13). Os gálatas eram, na sua imensa maioria, provenientes da gentilidade e, consequentemente, sua vocação foi feita pela fé em Cristo: logo em e para liberdade da Lei [Torah]. Porém é uma liberdade que exclui os apetites da carne na realidade estímulo, incentivo, aliciante, que temos traduzido como apetites, que a KJV traduz por ocasião ou oportunidade. Cremos que a tradução de incentivo é melhor que a de oportunidade escolhida também pela TEB. E Paulo termina com uma advertência positiva: A verdadeira liberdade é para fazer o bem escolhido como serviço ao próximo. Se escravos, o seremos voluntariamente como Cristo para servir em diakonia voluntária. Esta é a melhor maneira de fazer o bem: libertados do pecado, fostes feitos escravos da justiça (Rm 6, 18). Formados libertos do pecado, agora transformados em servos de Deus (Rm. 6, 22) que para Paulo consiste na servidão do anúncio de Cristo como Senhor; e a si mesmo feito escravo para o serviço dos cristãos por amor a Jesus (2Cor. 4,5).

O ÚNICO MANDATO: Porque toda Lei num mandato se cumpre: em amarás teu próximo como a ti mesmo (14).

LEI: embora tenha um amplo significado em grego como lei em geral, preceito, mandato, costume, etc. É propriamente a tradução dos Setenta da palavra TORAH, que é o conjunto de mandatos divinamente inspirados, dado como norma de vida por Moisés. Geralmente é a lei mosaica a que se designa, especialmente por Paulo em suas epístolas. De modo especial é o mandato da circuncisão.

MANDATO: a palavra logos tem o sentido primário de palavra, mas também pode ser usada como decreto, mandato, ordem, profecia, declaração, aforismo, provérbio, máxima, narração, discurso, doutrina. Particularmente no quarto evangelho, Logos é a Palavra essencial de Deus, Jesus Cristo. Foi Heráclito (576-480 a.C) quem usou Logos como a Razão divina ou o plano que coordena um Universo em contínua mudança. Aqui, logicamente, significa um preceito em particular que expressa toda a lei como num resumo concreto. Este preceito está claramente delineado em Lv. 19,18: Não te vingarás nem guardadarás ira contra os filhos do teu povo; mas amarás o teu próximo como a ti mesmo.

PRÓXIMO: o próximo, que em grego é traduzido por Plësion [vizinho, contíguo], tem em hebraico a palavra Rea como expressão do mesmo com outras conotações. Segundo o comentário bíblico moderno do rabino Meir Matziliah, as palavras que designam companheiro, próximo e irmão são rea amith- ben- am- ah. Ah é irmão e era usado para todo israelita. Em Lv 19,17-18 saem esses quatro termos ah (irmão) amith (companheiro), bem (filho) am (povo) e rea (próximo) A citação será: Não odiarás o teu irmão no teu coração; repreenderás a teu companheiro e por causa dele não levarás sobre ti pecado (17) . Não te vingarás nem guardarás ira contra os filhos do teu povo; mas amarás o teu próximo como a ti mesmo. O texto do Levítico (19,18) frequentemente citado de amarás o próximo como a ti mesmo é um texto negativo de não fazer o mal, pois começa com não te vingarás, nem guardarás ira contra os filhos de teu povo, mas amarás o teu amigo [rea em hebraico significa companheiro, irmão] como a ti mesmo. O grego traduz rea como plesion; a Vulgata como amicus e, este, como próximo, ou vizinho. A Nova Vulgata usa o proximum. Vemos que é um texto negativo impedindo atos de vingança ou de rancor. Mas Jesus, ao citar o mandato, dizendo que é semelhante ao primeiro, o transforma em amor positivo, amplamente descrito em Lucas como se demonstra com a parábola do bom samaritano. O próximo é todo aquele que necessita de nossa ajuda, sem distinção de qualquer classe. Ele deve ser amado como nos amamos a nós mesmos. E como mandato positivo, ele obriga sempre. Segundo o comentário do Senhor, este é o segundo mandato da Lei (Mt. 22,39), semelhante ao primeiro, pois tem sua base no amor. De modo que a Lei está contida nestes dois preceitos: amar a Deus e amar o próximo. A Deus, sem limite [sobre todas as coisas, até mais que a si mesmo] e ao próximo, como a nós mesmos. Esse é o caminho da vida e nele consiste a eternidade da mesma.

UM AVISO: Pois se mutuamente vos mordeis e devorais olhai para não vos destruir-vos mutuamente (15). Paulo usa a metáfora comum entre os judeus, para quem come a carne do inimigo era o mesmo que odiá-lo; e, portanto, querer destruí-lo. Nós falamos de comer o fígado, para ódio; e de comer à beijos, para o amor. Neste versículo, Paulo indica que a consequência do ódio ou rancor é a destruição mútua entre os membros de uma comunidade, que deveria ter como norma a dada por Jesus: Nisto conhecerão que sois meus discípulos se tiverdes amor uns aos outros (Jo 13,35).

UMA ADVERTÊNCIA: Digo, pois; caminhai em espírito e a concupiscência da carne não levareis a término (16). Os que se deixam levar pelo Espírito não se deixam arrastar pelos desejos da carne. O impulso do Espírito deve ser seguido pela sinergia ou cooperação constante da vontade humana, pois, do contrário, o fruto do Espírito seria nulo.

OPOSIÇÃO: Já que a carne se empenha contra o espírito, porém o espírito contra a carne pois eles se opõem mutuamente para que não façais as mesmas coisas que desejais (17). A oposição carne/espírito, como dissemos no início, continua durante a vida terrena como uma luta entre inimigos com objetivos contrários. O próprio Paulo é testemunha dessa luta que ele declara ser contra as forças espirituais do mal, especialmente pelo que toca à difusão do evangelho (Ef. 6,12);Mas pelo que toca à luta pessoal, Paulo também é de novo testemunha de que na sua carne não habita nenhuma dessas duas forças; pois o querer o bem está nele, porém não sou capaz de efetuá-lo (Rm. 7,18), já que encontra em seus membros uma lei contrária à lei da sua mente (Rm. 7,23) que o escraviza como lei do pecado, inerente aos membros do seu corpo.

LIBERDADE DO ESPÍRITO: Mas se sois guiados pelo espírito não estais sob a Lei (18). Não podemos dar a esta afirmação um valor absoluto, como quem derroga toda norma e lei e tem liberdade absoluta; mas seu significado é que, se realmente somos conduzidos pelo Espírito, ele nos guia de forma que faremos o bem sem necessidade de uma lei que o determine e nos dirija. Existe uma ambiguidade ao traduzir espírito, pois pode ser o espírito do homem e também o Espírito que recebemos como participação da vida divina no batismo. Porém, cremos que, segundo a definição tripartida de Paulo: Corpo, alma e espírito (1Ts. 5,23) este é o Espírito recebido no batismo, cuja origem é divina e não humana. E no mesmo Paulo encontramos o modo de operar do Espírito que produz frutos como amor, alegria, paz, paciência, bondade, fidelidade, mansidão, domínio de si mesmo. Esses frutos do Espírito não estavam ordenados na Lei que era totalmente negativa: Não matarás, não adulterarás, não furtarás, não levantarás falso testemunho. Pelo que diz respeito aos mandatos positivos temos o amor a Deus e, na segunda tábua, a honra devida aos pais. É por isso, que Paulo pode afirmar, num duplo sentido, que contra estas coisas não há lei (Gl. 5,23). 1) Porque não existia lei que as mandasse, 2) Porque não havia um mandato que as proibisse.

Evangelho (Lc. 9,51-62)

PRIMEIRA PARTE

As duas partes do evangelho de hoje pertencem à chamada interpolação maior (9,51-18,14). Considerando que Lucas segue em grande parte Marcos, este longo período é como um parêntese de Lucas antes de retomar a linha de Marcos. Neste trecho em que Lucas supõe Jesus caminhando a Jerusalém, Lucas aproveita a circunstância para, na ausência de multidões, mostrar a verdadeira face do discípulo de Jesus. São ensinamentos internos dirigidos aos doze em particular e, portanto, a todo membro que queira formar parte do discipulado estrito. Hoje vejamos dois exemplos diferentes.

AO SE COMPLETAREM OS DIAS: Sucedeu que ao se completarem os dias de sua assunção também ele deixou firme seu rosto de ir a Jerusalém (51). A frase indica que todas as circunstâncias da paixão e morte de Jesus estavam programadas pela Providência e que Ele sabia pessoalmente o que ia acontecer. Os três anúncios de sua paixão (9,22; 9,44; 18,31-33), que têm paralelos nos outros dois sinóticos, claramente indicam como Jesus aceitava seu fim para cumprir toda justiça (Mt. 3,13), ou seja, a lei divina que ordenava a conduta humana para salvação dos homens ou santificação dos mesmos. Eram os dias de sua ASSUNÇÃO literalmente de ser assumido ou acolhido em cima. Com toda certeza, indica Lucas a morte de Jesus e sua exaltação por ser recebido como o Filho que cumpriu obedientemente sua missão e por isso elogiado como tal (Lc. 9, 35).

ENDURECEU SEU ROSTO: parece um hebraísmo porque nas línguas semitas não existem muitas palavras para indicar idéias abstratas. Hoje diríamos determinou-se a subir a Jerusalém. Talvez venha de Pr. 21,29: o mal tem um ar de afronta; o homem reto solidez no proceder.

MENSAGEIROS: Então enviou mensageiros diante de sua face e saindo, entraram numa aldeia de samaritanos para acomodá-lo (52). A palavra grega é angellos que significa enviado. Era uma aldeia que devia acomodar Jesus e os doze. Para isso Jesus se serviu provavelmente de dois de seus discípulos como no caso da preparação da ceia pascal. Deste último caso sabemos os nomes Pedro e João. No nosso caso é possível que fossem os dois irmãos Jacobo e João. Foram rejeitados como veremos no parágrafo seguinte.

O CASO DOS SAMARITANOS. E não o receberam porque sua face era de ir a Jerusalém (53). Na subida a Jerusalém os galileus tomavam a rota de Pereia, da Transjordânia, para evitar a rota mais rápida através da Samaria, que sempre era dificultada pela oposição dos samaritanos como contrários ao templo de Jerusalém. Foi isto precisamente o que aconteceu com os dois enviados para buscar alojamento. Samaria tinha sido a capital do reino Norte, fundada como capital por Omri em 870 a.C. Após a destruição de Samaria em 720 a.C. por Salmanasar, os habitantes da região foram substituídos por colonos vindo da Babilônia. (2Rs. 17,24). Depois do desterro, ao iniciar os judeus a construção da cidade e templo de Jerusalém, encontram oposição em certos grupos de vizinhos que se opunham. Essa hostilidade provinha, segundo a tradição, dos samaritanos. O fato de que uma população meio-judia, que dava culto a Javé e restringia seus livros sagrados ao Pentateuco, e cujo templo estava em Garizim desde a época de Alexandro Magno até que foi destruído nos tempo de João Hircano (filho de Simão, o macabeu,  rei de 134-104 a.C.) no ano 128 a.C., odiasse os judeus, especialmente os que subiam a Jerusalém, é coisa natural. A samaritana pergunta a Jesus onde deve ser Javé adorado: se em Garizim como faziam nossos pais ou em Jerusalém (4,19). Tudo isto explica a razão do porquê os habitantes da aldeia em questão se opuseram a dar estalagem a Jesus e seu colégio.

FILHOS DO TROVÃO. Tendo visto, pois, seus discípulos, Jacobo e João disseram: Senhor, queres que digamos que desça fogo do céu e os destrua, como fez Elias? (54). Foram os dois irmãos, Jacob e João os que pediram fogo do céu para castigar os que se negaram a aceita-los. Jacob [suplantador] era um nome bem conhecido desde os tempos dos patriarcas. Jacó ou Jacob foi o gêmeo de Esaú e pai dos doze filhos que foram os ancestrais das doze tribos de Israel, nome que ele recebeu do anjo após a luta com este último em Fanuel (Gn. 32,24-32). O nosso discípulo é conhecido como Tiago [o Maior] e assim é traduzido o grego Jacob. João [graça de Deus] é o nome de seu irmão e o autor do quarto evangelho, segundo a tradição. A mãe de ambos era Salomé, acredita-se que parente de Maria (Mc. 15,40 e Mt. 27,56); e o pai Zebedeu (Mt. 4,21). O fogo que eles pediam era uma clara alusão ao caso de 2Rs. 1,10-12 em que por duas vezes desceu fogo do céu para destruir duas forças enviadas contra o profeta Elias. Jesus tinha dado a eles o nome de Boanerges, que significa filhos do trovão, ou seja, raios, pela sua impetuosidade. Neste caso os repreende. Alguns códices terminam o episódio com umas palavras severas de Jesus: Não conheceis de que espírito sois (55). E no começo do versículo seguinte (56) acrescenta: Pois o Filho do homem  não veio para destruir as vidas dos homens, mas para salva-las. Pode ser que estas palavras que temos escrito em itálico sejam uma glosa do redator; porém, refletem exatamente o pensamento do Senhor. Por isso se determinaram a buscar uma outra aldeia.

SEGUNDA PARTE

O MODELO DE DISCÍPULO: não falamos daquele que já está no círculo de seguidores, mas dos primeiros passos que devem ser como uma primeira determinação de  seguir o Senhor como objetivo de vida. Antes devemos pensar nas consequências, prever a nova realidade que devemos viver, para tomar a decisão correta e segui-la até o fim.(Lc. 14,31-33).

1º CASO. Sucedeu que andando eles no caminho, disse-lhe alguém: acompanhar-te-ei, Senhor, onde quer que fores (57). Aproveita Lucas que Jesus está a caminho de Jerusalém para apresentar o primeiro discípulo que quer seguir Jesus para onde quer que ele for. Parece uma proposta válida e totalmente desinteressada. A resposta de Jesus mais parece reprimir essa vontade que incentivar o ânimo do mesmo. Seguindo o modo de falar através de parábolas, Jesus lhe mostra a verdadeira realidade: não devemos esperar de Jesus riquezas e bem-estar. Mais do que uma exposição da pobreza, é a demonstração da vida e caráter itinerante e viajante que corresponde ao discípulo, isto é, ao que se entrega à evangelização. São os mathetoi  [no caso os doze] que Jesus envia a anunciar o evangelho, (Mt. 10,1-15; Mc. 6,5-13; Lc. 9,1-6) e também os setenta e dois em Lc. 10,1-12. Isso vemos especialmente em Paulo e suas viagens apostólicas. Sabemos também como Pedro e outros discípulos viajavam nas suas correrias apostólicas de modo que na Dídaque se fala de que os apóstolos não deverão se deter mais do que um só dia ou dois. Se ficar três dias será um falso profeta. Ele só poderá levar pão e não dinheiro. Se pedir dinheiro será um falso profeta (XI, 5-6). Porque até animais que eram praticamente nada, como as raposas (Lc. 13,32) que à noite percorriam os campos, tinham tocas, e as aves do céu, como poderiam ser os pardais, que na realidade são vendidos por um vintém (Lc. 9,10) e que tanto se movem, possuíam ninhos, estavam em melhores condições que o Filho do Homem e seus discípulos com respeito a ter um lar fixo, que nem podia ser comparado com uma pedra para descansar e dormir. Outro assunto é a pobreza. Nos tempos de Jesus apareciam mensageiros de deuses que percorriam as regiões pagãs próximas da Galileia, como um tal Luciano, enviado pela deusa Artagatis, que reunia donativos para os sacrifícios de seu santuário. Comprou um asno para carregar os donativos e no fim fez uma reata dos mesmos com os quais entrou no santuário. Em cada viagem trazia setenta sacos cheios. Por isso Jesus compara o seu suposto lar com uma pedra onde pode reclinar a cabeça para dormir, como era costume fazê-lo na época entre os peregrinos que subiam a Jerusalém. Assim termina esta lição de disponibilidade e austeridade que segundo Mateus (8,19) foi dada a um escriba, ou como diríamos hoje a um advogado ou doutor em leis.

2º CASO. Porém, disse a outro: Acompanha-me. Mas ele disse: Senhor, permite-me primeiro enterrar meu pai (59). Jesus convida a uma pessoa a segui-lo. A resposta deste é que deve primeiro enterrar seu pai (59). Esta resposta pode indicar duas coisas:

1) Que nem todos os que Jesus chamou responderam tão pronto e generosamente como Pedro e André ou os filhos do Zebedeu (Mc. 1,16-20) nem como Mateus-Levi (Mc. 2,14), porque houve alguns que rejeitaram o convite do Mestre.

2) Que as desculpas poderiam ser consideradas como razões realmente poderosas como acontece no caso atual. Enterrar o pai era um mandato tido como sagrado pela lei e a Mishná. Até o sumo sacerdote podia tocar o cadáver do pai para enterrá-lo. Todo aquele que deixa pernoitar um morto quebranta um preceito negativo – diz a Mishná. No nosso caso, o pai tinha falecido recentemente ou o convidado falava de cuidar do velho pai de modo que somente após a morte do mesmo poderia se ver desobrigado de um dever exigido pelo mandamento de honrar pai e mãe? É provável que seja esta a circunstância no caso: o velho pai precisava do filho, talvez único, para passar seus últimos anos como um ancião feliz a quem o filho servia de apoio na velhice até a hora da morte. Porém lhe disse Jesus: Deixa que os mortos enterrem os seus mortos. Mas tu afastando-te, anuncia o reinado de Deus (60). A resposta de Jesus é surpreendente e até de difícil interpretação: deixa os mortos enterrar seus próprios mortos. Tu vem e anuncia o reino de Deus (60). Que significa? Que um morto, deve enterrar um ser passivo como ele, pesado demais até para um vivo forte poder manejá-lo sozinho? Temos que pensar numa metáfora. Jesus considera como mortas aquelas pessoas que não se deixam guiar pelo anúncio do evangelho. Não são unicamente surdos e cegos (Mt. 13,14-15) que se comportam como coisas inertes com coração de pedra (Ez. 11,19), ou seja, não são vivos. Eles que façam e vivam segundo os antigos preceitos e tradições. Os discípulos de Cristo, porém, devem se orientar por critérios diferentes. Um pai, uma mãe, nunca deve interferir numa vocação como pedra de escândalo, como morto que pertence ao mundo dos mortos. De fato, um pai que se opõe ao evangelho já está morto e nada se pode fazer por ele.

3º CASO. Disse, pois também o outro: deixa-me despedir-me primeiro dos de minha casa. (61). A resposta de Jesus é que não é digno  do Reino de Deus quem após iniciar o trabalho se cansa do mesmo e desiste voltando a vista atrás. O trabalho de arar exige sempre olhar para a frente. Quem nessa tarefa volta a vista atrás é o mesmo que ter sua vontade ocupada em princípios opostos. Ou seja, está mais pendente de outra coisa que a do trabalho iniciado. O provável provérbio é que tenha alguma relação com o discipulado de Eliseu no tempo em que Elias o chamou quando estava arando no campo (1Rs. 19,19-21), embora não pareça que seja esta a razão, pois Eliseu voltou e depois de matar os bois, seguiu Elias.

PISTAS

1) Existem duas maneiras de receber Jesus: como hóspede ou como discípulo e colaborador. Elas estão descritas no evangelho: a aldeia samaritana se negou por razões religiosas. É possível que muitas vezes tenhamos feito o mesmo quando o homem necessitado à nossa frente seja um ateu ou um herege. Cristo nos mostra que não é essa a maneira de recebê-lo, já que em todo necessitado está sua pessoa. Como discípulos e colaboradores na missão divina, devemos estar prontos a partilhar da vida e do destino de Jesus, reconhecendo-o e aceitando sua pessoa como um modo existencial de vida.

2) Não se trata de aderir a uma doutrina, mas de seguir um Mestre ligando-se a sua pessoa para sempre. Essa vida em comum com o mestre transforma o discípulo [= aprendiz] em auxiliar, em enviado e colaborador, definitivamente em apóstolo, para difundir a essência de sua doutrina que é a disponibilidade às ordens do alto. Se as antigas profecias se cumprem perfeitamente em Jesus é porque este se torna obediente à voz das mesmas que é a voz do Pai. Se a vida e a doutrina de Jesus se cumprem em seus discípulos será porque estes se tornam dóceis à sua voz e seguem fielmente seus mandatos.

3) Nenhum valor ou lei humana deve ser anteposta ao convite, ao segue-me que uma vez escutado, se transforma em lei absoluta em decisão incondicional e definitiva à pessoa de Jesus que exige além da fé em suas palavras o amor com o qual o contemplamos e servimos. Podem ser ouvidas e admiradas as palavras dos grandes filósofos e pensadores, mas não por isso suas pessoas são dignas de nosso reconhecimento e amor.

4) Vemos como Jesus não recusa o martírio e se dirige a Jerusalém para aí dar testemunho [= martírio] de seu amor ao Pai e de seu sacrifício em favor dos homens. A cruz será para ele motivo de desejo e aspiração como quem ambiciona uma vitória final e importante. Nossa história é bem diferente: até a pequena cruz do dia-a-dia nos cansa e aflige quando deveríamos estar contentes porque é aí onde mais nos aproximamos de Jesus: padecer e não morrer dizia uma alma santa, o que para nós é loucura, mas é a loucura da cruz de que fala Paulo.

padre Ignácio – www.presbiteros.com.br

 

 

Primeira leitura: 1Reis 9,16b.19-21

VOCAÇÃO DO PROFETA ELIAS

O primeiro livro dos Reis dedica boa parte do seu conteúdo ao “ciclo de Elias”, personagem que marcou profundamente a vida religiosa de Israel e exerceu uma influência particular no Novo Testamento. Nosso texto constitui a conclusão deste “ciclo”. Elias unge o profeta Eliseu, escolhido por Deus para continuar a obra da pregação. Elias, segundo o costume, “colocou o manto nas costas de Eliseu”, para exprimir com isso a passagem do poder e da autoridade de sua pessoa ao seu sucessor.

É um texto que a tradição bíblica coloca entre os “episódios do chamamento” e que serve para iluminar episódios semelhantes, presentes no Novo Testamento. Assim se explica a aproximação deste texto com o Evangelho de hoje.

Segunda leitura: Gálatas 5,1.13-18

NÃO ABUSAR DA LIBERDADE; VIVER A VIDA ESPIRITUAL

Carne”, na linguagem paulina, indica a condição do homem distante de Cristo e fora do âmbito da salvação trazida por ele. É o termo que descreve o mundo do pecado, da não salvação, o mundo antes da ressurreição e sem a luz do Evangelho.

Espírito”, na linguagem paulina, é o termo que indica o âmbito de Deus, o âmbito da graça e da salvação no qual a ressurreição de Jesus colocou o crente. O cristão deve empenhar-se cada dia em corresponder a esse dom e a esse âmbito da graça.

Evangelho: Lucas 9,51-62

JESUS REPELIDO PELOS SAMARITANOS; DEIXAR TUDO PARA SEGUIR JESUS

Este trecho é chamado pelos exegetas de “grande excerto lucano” (Lucas 9,51; 59,28). Lucas o coloca na moldura de uma longa viagem de Jesus feita da Galileia a Jerusalém, onde morrerá. No decorrer desta viagem Lucas coloca todo o material sobre Jesus que Mateus e Marcos colocam num contexto diferente.

Como a salvação do povo de Israel se deu no êxodo do Egito e culminou com a Páscoa e o ingresso na terra prometida, assim a salvação definitiva da humanidade é vista por Lucas na Páscoa da morte e ressurreição de Jesus que se dá em Jerusalém, meta de sua viagem.

Jerusalém, cidade santa do hebraísmo, é vista por Lucas não tanto como cidade geográfica, mas como lugar da salvação e da intervenção de Deus a favor da humanidade. Jesus deve subir a Jerusalém e ali deve morrer, não porque sobre ele pese um destino cruel, mas porque, como o verbo “dever” significa teologicamente em Lucas, nele se realiza o projeto da salvação que Deus pensou para o homem e que o êxodo e a Jerusalém bíblica prefiguram. Assim, podemos entender alguns termos que Lucas coloca no texto, como por exemplo, “Enquanto se cumpriam os dias em que Jesus seria tirado do mundo”. Aqui, para Lucas, o verbo “cumprir” (“plerèo”) exprime “scandire”, as etapas principais da salvação, onde Jesus realiza o projeto do Pai. “Ele se dirigiu decididamente para Jerusalém”. No texto grego se lê que Jesus “To pròsopon estèrisen”, ou seja, “tornou duro o seu rosto”, o que indica a atitude decidida de Jesus de querer realizar a vontade do Pai e de empenhar-se no caminho que lhe fora traçado.

REFLEXÃO

As leituras de hoje desenvolvem o tema da “sequela Christi” e nos conclamam a refletir sobre nossa identidade de cristãos e de discípulos de Jesus.

O texto da primeira leitura relata a vocação de Eliseu. Ele recebeu este convite divino em meio às ocupações do dia-a-dia. Encontrava-se arando a terra com doze pares de bois. A graça extraordinária surpreendeu este homem na banalidade da vida de todos os dias. A mesma coisa aconteceu com quase todos os eleitos do Antigo Testamento, assim como com os apóstolos e com cada um de nós.

Elias realizou um gesto simples, jogando o manto nas costas de Eliseu. O manto era a vestimenta característica do profeta e este gesto era altamente significativo. Eliseu entendeu e deixou tudo. Foi um gesto de renúncia e ruptura com o passado. Ofereceu um sacrifício de comunhão com os de sua casa, imolando os bois do trabalho e cozinhando a carne com a madeira do arado. Depois partiu, seguindo Elias.

Nesta vocação temos os aspectos característicos de todo chamado: é Deus quem toma a iniciativa. O discípulo não escolhe, mas é escolhido, e por isso é livre para se desvincular de tudo. O chamado de Deus não é uma imposição, mas um convite e uma resposta na liberdade. Exige desapego das coisas e dos compromissos humanos e disponibilidade incondicional. Exige coragem em direção a um futuro que é missão.

O cristão é aquele que escolhe seguir Cristo. Também aí há um chamado e o que há de original e característico nele Lucas relata em seu evangelho. O caminho para Jerusalém é a estrada que conduz ao Calvário e mostra o destino para aqueles que enveredam por ele. A subida para Jerusalém feita por Jesus e pelo primeiro grupo de discípulos é a estrada que devem subir os discípulos de todos os tempos. Ao longo deste caminho são colocados três encontros significativos, que fazem refletir aqueles que querem segui-lo.

O primeiro candidato diz: “Eu o seguirei para onde quer que vá!”. São palavras generosas e cheias de entusiasmo. Ele está disposto a seguir Jesus incondicionalmente. Todavia, Jesus o adverte para tomar consciência da dimensão de sua decisão, pois não se pode segui-lo sem perigo e risco, e por isso lhe diz: “As raposas têm suas tocas e as aves dos céus seus ninhos, mas o Filho do homem não tem uma pedra para reclinar a cabeça”. Assim é o discípulo de Cristo: um erradicado do mundo que não tem nada para se apegar e como segurança. Por quê? A razão está na amplidão do coração do homem, cujo espaço só pode ser preenchido por Deus. Com o pecado o homem destronou Deus para preencher seu coração com as coisas do mundo. O homem pecador é um idólatra, sempre tentado a esta aberração. Este é o erro e a impiedade com os quais é sempre sugestionado e só pode sair vencedor disso com o desapego, para instaurar em sua existência o primado de Deus e dos valores absolutos. Quem decide seguir Cristo se faz um “peregrino do Absoluto através do deserto da alma”, como disse Leon Blouy. Por isso não pode encontrar estabilidade no mundo, pois é tomado por uma inquietação divina que agita sua alma por esta aventura.

O segundo candidato recebe de Jesus um convite: “Siga-me!”. Este não renega o convite, apenas pede para que o deixe antes cumprir algumas obrigações: “Deixe-me antes ir sepultar o meu pai!” E Jesus responde-lhe: ”Deixe que os mortos sepultem os seus mortos. E você vá e anuncie o Reino de Deus!”. Por quê? Porque a vocação cristã é totalizante no sentido de que não se deixa condicionar por nada. Devemos eliminar tudo o que retarda, confunde ou atenua o nosso itinerário. O caminho para seguir Jesus é árduo e exigente. É necessário decisão e coragem.

Ao terceiro candidato Jesus dá uma resposta altamente emblemática: ”Aquele que põe a mão no arado e depois olha para trás não é digno do reino de Deus”. A “sequela Christi” exige, portanto, uma concentração máxima. O seguimento de Cristo é renúncia a tudo para o serviço da caridade, pois a doação de si se concretiza no amor, no desapego total, como fez Paulo, que escolheu Jesus com uma adesão absoluta e incondicional.

Portanto, a vocação cristã se caracteriza por sua radicalidade e tal seguimento não se concretiza num moralismo coativo, estéril e triste, mas na liberdade.

No Evangelho de hoje, Lucas relata a missão de Jesus na Galiléia e abre o caminho para Jerusalém com temas preferenciais sobre a atividade missionária de Jesus e sua instrução aos discípulos. Fala-lhes da urgência do desprendimento e da ruptura com tudo, inclusive com os laços familiares, porque o seguimento não admite demora, abatimento nem descontos. Jesus é mais exigente do que Elias em relação a Eliseu. Eliseu se despede dos seus, oferece uma refeição à sua gente e depois segue Elias.

Jesus impõe condições para segui-lo. Não se pode olhar para trás depois de ter posto a mão no arado. O novo trabalho daquele que é chamado é como o do arado palestino, que é difícil de manobrar, sobretudo, na terra dura das margens do lago de Genesaré. Assim, quando somos chamados, precisamos “ter sempre os olhos fixos em Jesus” (Hebreus 12,2), como o corredor que ao iniciar a corrida não pode distrair-se em nada. A única coisa que lhe interessa é a meta, ou como o agricultor que fixa um ponto de referência e depois dirige o seu arado para esse ponto. Se olhar para trás, o sulco sai torto.

Muitas vezes, a tentação de olhar para trás pode vir das limitações pessoais, ou do ambiente que se choca frontalmente com os compromissos assumidos, ou da conduta da pessoa que devia ser exemplar e não é, ou da falta de esperança, devido aos resultados medíocres apesar dos esforços. Assim, depois do entusiasmo inicial começam as vacilações e os titubeios. Diante disto Jesus admoesta: “Não olhe para trás”.

Olhar para trás, diz Santo Atanásio, significa sentir saudades e voltar a experimentar o gosto das coisas do mundo”. É a tibieza que se introduz no coração, é não ter o coração transbordante de Deus e das coisas nobres da vocação. Olhar com tristeza para trás, para aquilo que se deixou para aquilo que se poderia ter muitas vezes pode significar quebrar a relha do arado numa pedra ou, pelo menos, porque a missão que recebemos saiu torta, como o sulco.

O homem se realiza ou se perde conforme cumpre ou não em sua vida o desígnio concreto que Deus tem a seu respeito”. Nós recebemos uma vocação para conhecer a Deus, um convite para entrar na intimidade divina, para cultivar um relacionamento pessoal com ele. Depende de nós. Um chamado para colocar Cristo como centro de nossa existência, para tomar decisões tendo sempre em conta a sua vontade, para reconhecer os homens como nossos irmãos, e, portanto, para superar de maneira radical o egoísmo a fim de viver a fraternidade e desenvolver uma ação apostólica fecunda. É um chamado para entendermos que tudo isso se deve realizar em nossa própria vida, nas circunstâncias em que Deus nos colocou e de acordo com a missão que nos cabe realizar pessoalmente. A fidelidade a essa vocação exige em conseqüência uma fidelidade às pequenas coisas do dia-a-dia, e repelir com firmeza tudo que nos impede de encontrar o olhar de Cristo.

A fidelidade se apóia numa série de virtudes essenciais, sem as quais se torna difícil seguir o Mestre. Por isso precisamos ter humildade, reconhecer que temos pés de barro, como a estátua colossal descrita por Daniel (Daniel 2,33). Ter prudência e sinceridade, que são conseqüências da humildade. Ter caridade e fraternidade, que nos impedem de fechar-nos em nós mesmos. Ter espírito de sacrifício, que nos conduz à temperança, à sobriedade, à luta contra o comodismo e o aburguesamento. E, sobretudo, ter espírito de oração, pois, como diz Santa Teresa, “abandonar a oração não me parece outra coisa senão perder o caminho”!

padre José Antonio Bertolin, OSJ

 

Seguir Jesus no caminho da liberdade

O entusiasmo da copa do mundo na África do Sul e as chuvas que assolam o Nordeste de nosso país, são as notícias de impacto nestas últimas semanas. A maneira como os noticiários colocam lado a lado a festa e a dor como se tudo fosse a mesma coisa causa perplexidade. Diante desta realidade, vale a pena nos perguntar onde está o sentido escondido da vida? O que significa viver, amar, cuidar, ser solidários? Qual será mesmo o sentido da liberdade para a qual Cristo nos libertou?

Neste domingo, dois apelos emergem na liturgia da Palavra como luzes para responder a estas questões: “Segue-me” e “Liberdade”. O desafio que se apresenta é justamente o de seguir Jesus no caminho da liberdade. Tendo como pano de fundo a realidade dos últimos dias queremos nos colocar em atitude de leitura orante da Palavra de Deus deste domingo.

No Evangelho, vemos Jesus que toma a firme decisão de partir para Jerusalém (Lc. 9,51). Firme decisão é expressão madura de liberdade. Jesus tem consciência do conflito que lhe espera em Jerusalém, sabe que lá está o centro do poder da religião constituída de seu tempo... não se intimida: decide e parte. Só pessoas livres tem coragem de tomar decisões. Os mensageiro que vão à sua frente e encontram portas fechadas no povoado de samaritanos, deixam nascer em si a revolta e a ira, mas Jesus os repreende porque revolta e ira não combinam com a liberdade de quem ama e caminha.

Jesus prossegue e enquanto caminha é abordado por três pessoas: uma que quer segui-lo por onde ele for, outra que Ele mesmo chama mas resiste ao chamado e uma terceira que se apresenta para segui-lo mas pede tempo para despedir de seus familiares. Nos três diálogos encontramos as pistas que Jesus nos oferece para seguir seus passos no caminho da liberdade, para encontrar nele o sentido escondido da vida e sobretudo para ler com consciência crítica os acontecimentos que testemunhamos nos últimos dias.

Quando a primeira pessoa se apresenta para seguir Jesus, Ele responde: “O Filho do homem não tem onde repousar a cabeça”(9,58) e aponta a este candidato uma primeira condição para segui-lo: confiar no caminho, esvaziar-se das exigências de comodidade, vitórias e estabilidade e se tornar peregrino. Mais ainda, ao ler este evangelho tendo diante dos olhos as vítimas das enchentes, nos deparamos com o desafio de reconhecê-los nos irmãos e irmãs que tudo perderam e choram esperando nossa solidariedade. Seguir Jesus é correr riscos!

Ele continua e à segunda pessoa chama: “Segue-me”. Ao encontrar nesta segunda pessoa o apego à sua família, ele coloca a urgência do anúncio do Reino de Deus como centro da vida. Nada pode justificar a mediocridade de quem se apega aos próprios mortos, pois a urgência do anúncio do Reino de Deus é a vida acontecendo e se irradiando. Seguir Jesus é anunciar o Reino!

Finalmente, uma terceira pessoa se aproxima e se candidata mas não quer partir logo... pede tempo. Jesus diante desta terceira pessoa responde com a liberdade e a firme decisão que o motiva: “Quem põe a mão no arado e olha para trás não está apto para o Reino de Deus”. Uma palavra forte que convida acomodados a se desinstalarem e desafia inseguros a tomar uma decisão. Seguir Jesus é decidir-se pelo Reino e não voltar atrás!

Estes encontros de Jesus ao longo do caminho são paradigmáticos de nossos encontros hoje. Eles nos oferecem uma referência crítica na escuta das notícias, na leitura da realidade e no posicionamento que somos chamados a assumir. Jesus é um homem radicalmente livre. Ele sabe onde vai, sabe o que quer, sabe as conseqüências mas não teme nem recua, não busca justificativas para se acomodar e assume a vida como ela se apresenta.

Ser discípulos de um mestre assim, implica a coragem de assumir de forma madura a liberdade para a qual Cristo nos libertou e não nos deixar amarrar de novo pelo jugo da escravidão. Paulo, na segunda leitura apresenta o objetivo da liberdade: o amor como eixo da vida e a coragem de deixar-se conduzir pelo Espírito de Jesus ressuscitado para a prática deste amor. Aqui se encontra a raiz da vocação profética já presente na relação do profeta Elias com seu discípulo Eliseu.

Neste domingo, a liturgia da Palavra nos aponta a profecia como uma postura que dá sentido à vida e desafia à radicalidade. Profetas, profetisas e profecia parecem estar em baixa em nosso tempo em que festa e dor são noticiadas como se fossem a mesma coisa. Aqui se encontra o apelo fundamental à conversão que Deus nos faz  pelos lábios de Jesus neste domingo: “Segue-me”.

Que esta eucaristia seja lugar de encontro, chamado e resposta a Jesus. Uma resposta livre, radical e libertadora que reacenda em nossas comunidades de fé o impulso profético que nos revela como filhos e filhas da luz em meio às trevas que nos rodeiam. Jesus Cristo, pela força de sua Palavra e do pão eucarístico, nos ajude e nos ensine a nos levantar e caminhar... a segui-lo, anunciar o Reino de Deus e olhar sempre para frente onde a terra precisa ser arada e cultivada para que a vida floresça.

irmã Luzia Ribeiro Furtado

 

“Eliseu levantou-se e seguiu Elias”

O capitulo 19,1-18 retrata da vocação profética. “O profeta é perseguido, quando desmascara as aparências que encobrem uma política opressora. Ameaçado de morte, Elias foge. Sua fuga, porém, transforma-se na busca da fonte original, que é a fé javista. O monte Horeb (Sinai), lugar da aliança com Deus, é o ponto de partida para se formar uma sociedade justa e fraterna. Nesta experiência do Deus libertador, o profeta descobre os próximos passos a dar: reunir as pessoas fiéis ao projeto de Javé, criar um novo quadro político, e providenciar um substituto para a sua Missão.” Nos versículos 19-21, o profeta Elias passa o seu mandato para o discípulo. “O manto simboliza a atividade profética: jogando-o sobre Eliseu, Elias o escolhe para acompanhá-lo. A Missão profética é empenhativa, e supõe que a pessoa a coloque em primeiro lugar, acima dos próprios bens, família e trabalho” (Bíblica da Paulus).

O texto está claro: somos profetas do Senhor, para libertar e salvar as pessoas dos pecados e do mal. O profeta Elias cumpriu sua Missão, agora deve passar para Eliseu. Aqui o profeta permite ele se despedir dos seus, mas, no Evangelho de hoje, vimos que Cristo exige mais desapego em segui-lo.

Ser profeta e missionário implica necessariamente em deixar tudo, considerar tudo como nada para ganhar todos para Deus. Libertar o oprimido, dignificar o desvalido, dar guarida ao desabrigado, e testemunhar o amor a todos por causa do Senhor.

“Fostes chamados à liberdade”

Gálatas 5 trata praticamente todo da liberdade cristã. Os versículos 13-15 revelam que a vida cristã é um chamado para a liberdade. Ela, porém, não deve ser confundida com libertinagem, que é buscar e colocar tudo a serviço de si mesmo. A verdadeira liberdade leva o homem a crescer no amor e no dom de si, para colocar-se a serviço dos outros. Como os sinóticos (cf. Mc 12,31), Paulo resume a Lei no mandamento de Lv 19,18: quem ama o próximo, realiza a vontade de Deus. As expressões “segundo o Espírito” e “segundo os instintos egoístas” (lit.: carne) não designam duas partes do homem, e sim duas orientações diferentes de comportamento: “segundo o Espírito” é a orientação do amor, que leva o homem a servir o outro; “segundo os instintos egoístas” é a orientação do egoísmo, que leva o homem a servir a si mesmo” (Bíblia da Paulus).

Permanecer firmes na verdadeira liberdade significa seguir de perto os ensinamentos de Cristo. A verdade e o amor libertam-nos do jugo da escravidão. Cristo chamou-nos à vida plena, e conduz-nos pela caridade a ser dom para os outros. Portanto quem vive em Cristo é livre para fazer tudo que deseja, pois só deseja o que é bom. Santo Agostinho afirma: “Ama e faze o que queres.” Este é o resumo da Lei e da Boa-Nova: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo.”

Muitos não se amam, e como podem amar os demais? Para ser de Cristo e amar o próximo precisamos nos querer bem e ser pessoas centradas. Mas para sermos pessoas centradas, precisamos ser discípulos de Cristo, com um profundo amor pelas coisas de Deus.

“Tomou a decisão de Se dirigir a Jerusalém. Seguir-Te-ei para onde quer que fores”

“Jesus inicia o seu caminho para Jerusalém. Nesta viagem, Lucas mostra a pedagogia de Jesus, que vai indicando o caminho para aqueles que querem unir-se a ele. Tal processo por ele iniciado vai provocar sérios conflitos com aqueles que não querem mudar o rumo da história. Por enquanto, nem os samaritanos entendem que Jesus vai a Jerusalém para salvá-los. E os discípulos não imaginam que a Samaria será um dos primeiros lugares que eles evangelizarão ao saírem de Jerusalém (At 1,8). Os primeiros passos para os que seguem Jesus em seu caminho são: disponibilidade contínua, capacidade de renunciar a seguranças e, iniciado o caminho, não voltar para trás, por motivo nenhum” (Bíblia da Paulus).

Jesus muitas vezes não foi acolhido pelos seus. Quando precisou de hospedagem, quando iam a Jerusalém, as pessoas daquele povoado não o receberam. Os discípulos Tiago e João, afoitos, quiseram se vingar da cidade, destruindo-a com fogo do céu, mas Cristo mais uma vez revelou coerência a sua Missão e ao seu amor pela humanidade. Jesus repreende-os severamente.

Sempre haverá pessoas e culturas que não querem acolher e aceitar Jesus, o Salvador. O que fazer? Respeitá-los, com fez o Mestre diante da cidade que o recebeu. Haverá sempre filhos, maridos, esposas e parentes que não querem receber Cristo na Eucaristia ou como o Salvador. O que fazer? Rezar por eles, e seguir outro caminho, ou seja, não insistir, pois o em que se insiste persiste...

Muita gente quer seguir Jesus, sem compromisso, acomodados como sempre, e muitos são calculistas, querem saber o que vão ganhar com isto. Jesus alertou que os seus não têm lugar no qual possam estar tranquilos e sossegados, porque o Filho do homem não tem onde morar ou reclinar a cabeça. Assim é o missionário! Sempre itinerante, em busca de Cristo nos irmãos para levá-los a Cristo, e este ao coração daqueles.

Depois disse a outro: “Segue-Me.” Ele respondeu: “Senhor, deixa-me ir primeiro sepultar meu pai.” Disse-lhe Jesus: “Deixa que os mortos sepultem os seus mortos...”

Este texto tem de ser entendido no contexto. No contexto Jesus está chamando os discípulos a servi-lo e proclamar o Evangelho pelo mundo inteiro. Dito em outras palavras, quer dizer deixar que os parentes espiritualmente mortos – pessoas que não querem servir a Deus – enterrem seus parentes. Também significa que seus parentes fisicamente mortos devem ser sepultados pelos familiares que não seguem a Cristo. Jesus também ia a velórios, e, às vezes, surpreendia. Lázaro, que estava morto há três dias, foi ressuscitado.

Diz ainda: “Vai anunciar o reino de Deus.” Jesus estava dizendo ao homem que a sua família, que estava morta espiritualmente, cuidaria do enterro. Jesus queria que ele o seguisse. O discipulado cristão requer uma forte disposição. Quem quiser seguir Jesus deve deixar o passado e começar o presente, como presente que será um futuro de frutos para o Senhor e sua glória. O Reino de Deus é fruto da graça e de nosso empenho como discípulos-missionários, e seremos cidadãos do mundo e filhos, pais, irmãos de todos e em todos os lugares.

www.arquidiocese-pa.org.br

 

Povos todos, aplaudi e aclamai a Deus com brados de alegria” (Sl. 46,2)

No domingo passado Jesus anunciou de que modo ele seria o Messias, o “líder”; e convocou a todos para assumirem sua cruz no dia-a-dia do Seu Seguimento. Hoje, por conseguinte, vemos Jesus dirigir seus passos em direção de Jerusalém, pois, “completaram-se os dias para ser arrebatado” (cf. Lc 9, 51).

Jesus costumava subir todos os anos a Jerusalém. O Evangelho de hoje é o início da grande viagem. Nesta viagem vai aparecendo e se revelando o mistério da pessoa e da missão de Jesus e as qualidades que o Ministro deve ter.

Como “estava para completar-se o tempo da consumação” (Lc 9, 51), ou seja, indicando o sofrimento e a glória ao mesmo tempo em que Jerusalém é apontada, deixando de ser pensada apenas como cidade, torna-se sinônimo de paixão, morte, ressurreição e ascensão de Jesus. Na Cruz, o Senhor Jesus dirá: “Tudo está consumado” (cf. Jo 19,20). Em Jerusalém será elevado à Cruz e elevado aos céus. (cf. Lc 24,50). Em Jerusalém começara a Igreja, corpo vivo do Senhor! (cf. 1 Cor 12,24).

A Primeira Leitura deste domingo (cf. 1Rs 19,16b.19-21) demonstra a radicalidade do seguimento do profeta. Com vistas ao tema do Evangelho, narra-se a vocação de Eliseu para seguir Elias. A indicação de Josué, por Moisés (cf. Nm 28,18-19), acontece pela imposição das mãos; de modo semelhante, Elias estende seu monte sobre Eliseu para o indicar como seu sucessor. A resposta de Eliseu é radical: despede-se logo de sua família e sacrifica sua junta de bois, para seguir, completamente livre, a Elias. A exigência de Jesus será mais radical ainda, conforme veremos no Evangelho de hoje, já antecipado no Salmo Responsorial: “Ó Senhor, sois minha herança para sempre.” (cf. Sl. 15).

A Segunda Leitura(cf. Gl. 5,1.13-18) nos coloca diante da liberdade cristã. Na época em que viveu São Paulo, as tradições do judaísmo colocavam a liberdade cristã em perigo. Hoje são outras forças que fazem isso. Mas todas essas ameaças são “carne”, o contrário do Espírito. Jesus nos convida à liberdade que se revela nele mesmo: sendo livre, pode dar a sua vida por nós.

O Evangelho de hoje(cf. Lc. 9,51-62) nos provoca a uma caminhada interior. A mesma caminhada que Jesus faz para Jerusalém. Partir do que somos até o esvaziamento completo de nós mesmos e a vivência em plenitude da vontade do Pai. É essa caminhada por dentro de nós que nos possibilita, de perto Jesus, a morrer e ressuscitar com ele e com ele ser glorificados.

Assim todos nós devemos ter presente que a vida cristã é o seguimento de Cristo. Seguir Jesus significa imitar e colocar-se atrás de Jesus para caminhar sobre seus passos. O Evangelho de hoje apresenta-nos Jesus a caminho e os discípulos caminhando com ele. Caminhada em dois âmbitos: no pó da estrada e na confusão do nosso coração. Mais importante do que tudo isso é a caminhada dentro de nós, a luta e o combate espiritual, se Jesus está na nossa frente como modelo e guia.

Seguimento de Jesus que exige de nós uma decisão, uma mudança radical de vida para seguirmos a Jesus, para caminharmos com Jesus, para sermos santos e cumprimos a nossa missão de anunciar o Evangelho a todas as criaturas.

Amados em Cristo, isto mesmo, amados em Cristo porque Jesus passou a maior parte de sua vida distribuindo o amor, vivenciando a compaixão e ensinando a perdoar.  Isso, porque entre os judeus e samaritanos existia um ódio de morte e contínuos atritos de fundo religioso, racial e político. Os samaritanos eram intrusos, sem o querer. Quando os assírios destruíram o reino de Israel, em 722 a.C., deportaram todos os habitantes da região e, em seu lugar, trouxeram um povo pagão. Voltando os israelitas, inclusive o monoteísmo. Mas, não tendo sangue hebreu, jamais conseguiram a amizade, nem mesmo comercial, com os judeus. É, então, compreensível que os samaritanos neguem hospedagem ao grupo de Jesus pelo fato de ser evidente que estavam indo para Jerusalém.

Tudo tem o seu significado: Quando Jesus foi a primeira vez a Jerusalém, ainda no seio de Maria, para alcançar Belém, não havia lugar na hospedaria. Agora, na última ida a Jerusalém, quando deve acontecer o Natal de toda a humanidade, também não há lugar. Hospedar-se, sentar-se à mesa com alguém indicam aceitação. E Jesus não é aceito, é rejeitado. Mas sua resposta não é a violência e a vingança como querem Tiago e João. Cristo é a encarnação da misericórdia e o tempo, agora, é de perdão e salvação. O fogo que Jesus enviará não é destruidor, mas o fogo do Espírito Santo, no dia de Pentecostes, com força para “derrubar os muros da separação e da inimizade” (cf. Ef 2,14).

Quais são as condições para seguir a Jesus? Primeiro abandonar a tudo, ao mundo e seguir a Jesus. Em segundo lugar abandonar qualquer forma de violência sobre os outros, despindo os instintos de autodefesa e vingança e revestindo-se a túnica do amor. E nisso João é um exemplo magnífico: em Jerusalém tornar-se-á o Apóstolo do amor e deixará escrito para a eternidade: “Quem não amar o irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê”. (cf. 1 Jo 4,20).

Ser seguidor ou discípulo é ser desapegado. Desapego dos pais, da casa, da segurança de onde repousar o corpo e a cabeça.

Se Eliseu foi ungido por Elias e coloca-se à serviço dele. Fomos todos pela paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo libertados para o exercício da liberdade.

São Paulo, na Segunda Leitura, nos diz que fomos libertos por Cristo para vivermos na liberdade. Mas como combina essa liberdade com a severa exigência pronunciada no Evangelho? A liberdade crista é “liberdade de”e “liberdade para”. “Liberdade de”outros sistemas, valores, apegos. Liberdade de outros mestres e senhores a não ser Cristo. Não é libertinagem, pois libertinagem não é liberdade e sim escravidão de veleidades, instintos, vícios, orgulho, auto-suficiência. O cristão “é livre para” o que Cristo deseja: a dedicação ao irmão, ao próximo, ao pobre, ao maltrapilho, ao doente, ao excomungado. Livre para a corajosa transformação da exploração em fraternidade; para a verdade que afugente a mentira; para tudo o que o Espírito de Deus nos inspira.

Irmãos e Irmãs, Caminhemos, pois, para Jerusalém celeste. Caminho longo. Caminho penoso. Caminho que devemos fazer dentro de nós para conseguir morrer para o pecado e buscar a santidade, o rosto sereno e radioso do Senhor. Por isso, na missa de hoje, devemos sair renovados no caminhar com Jesus rumo à liberdade e à glória. Jesus Cristo nos chama ao seu seguimento, porque Ele tem um projeto para cada um de nós. Não podemos, destarte, deixar que outras propostas nos desviem do caminho proposto por Jesus Cristo. Que nos coloquemos nos caminhos de Jesus, o Redentor!

padre Wagner Augusto Portugal

 

Estamos continuando na reflexão que nos é proposta nestes últimos domingos e que tem como centro o “seguir” Jesus: o que isto significa, o que implica, os efeitos que gera e mais. Hoje o Evangelho nos propõe três atitudes possíveis nesta aventura junto com Jesus. É bem provável que o Evangelista, Lucas, tenha reunido redacionalmente situações que se verificaram em outros momentos colocando-as em confrontação com o caminhar de Jesus; nas três situações poderemos ver ora aqui ora ali aspectos do nosso próprio caminhar com Jesus. Em cada um de nós podemos encontrar, em momentos diferentes, estas mesmas três atitudes que nos servirão como estímulos para adequar sempre mais a nossa vida à vida de Jesus. Vamos acompanhar os passos propostos.

Para Lucas é fé é um itinerário, é um proceder em direção a uma meta. Nisto está bem evidente nele a influência de São Paulo com o qual conviveu por muito tempo. Sendo assim, também a vida de Jesus é proposta como uma única viagem, uma viagem que tem como objetivo Jerusalém. Ver nesta Jerusalém somente um lugar físico é, evidentemente, um empobrecimento: trata-se da Jerusalém esperada, da Jerusalém que nunca será abalada e que não é uma cidade de muros. É a Jerusalém à qual se dirigia todo peregrino em busca do “lugar onde Deus está”. Sim, esta é a busca de todo homem, porque somente quando tiver encontrado o seu Deus o homem poderá ter paz. Mas de qual Jerusalém estamos falando? Os dois discípulos que acompanhavam Jesus, os mesmos que se precipitaram invocando o “fogo” sobre os habitantes de Samaria eram os mesmos que pouco antes haviam pedido a Jesus se sentarem-se «um à sua direita e outro à sua esquerda» (Mc. 10,37) quando Jesus tivesse tomado posse do seu reino. Lógico, se ele era Deus, tomaria posse em Jerusalém! Era então uma “Jerusalém” de sucesso aquela que eles esperavam. Evidentemente se enganavam, como nós fazemos quando nos agitamos, dizemos e agimos precipitadamente porque as coisas não decorrem como imaginaríamos que tivessem que acontecer e, afinal, não parecem ser um sucesso. É uma Jerusalém feita à nossa medida que procuramos quando agimos deste modo. O Evangelista associa a viagem de Jesus a uma saída: «devia ser tirado deste mundo». Este modo de entender nos reconduz ao grande passo que Deus deu em relação a Israel, quando, “tirando-o” do mundo feito da escravidão, da força e do poder, fazia daquele grupo anônimo um povo a caminho da própria identidade na liberdade. Jesus, de viagem para Jerusalém era o definitivo Moisés que conduz, aqueles que chama, rumo à liberdade construída através do amor dado sem medida, sem retornos, sem «mas», sem «deixa-me primeiro...».

Antes, porém, de refletirmos sobre as atitudes das pessoas que seguem Jesus, precisamos ver Jesus, pois Ele é o centro, a referência. Neste sentido, por exemplo, é muito importante a expressão que encontramos neste trecho do Evangelho que precisa ser traduzida assim: «siga a Mi»; o sentido é bem diferente de outra semelhante: “siga-me” pois, esta última dá ênfase ao ato de seguir, enquanto a outra dá realce à pessoa que precisa seguir. Voltando a Jesus: «ele tomou resolutamente o caminho para Jerusalém», diz o Evangelista. Tecnicamente o verbo usado significa: “afirmou o rosto”, o que se liga ao comportamento dos profetas quando devem assumir definitivamente uma posição em favor de Deus e que, possivelmente, lhes custará (veja-se o caso de Jeremias -3,8 e outros Profetas). É a decisão definitiva, irrevogável. Não que Jesus não tenha já decidido em favor do projeto do Pai, mas para cada um de nós, como tem sido para Jesus, esta decisão se re-propõe com forças sempre maiores. Quanto ao nosso “sim” a Deus, nunca podemos pretender de tê-lo dado definitivamente, isto porque aquele “sim” é o nosso “sim”, nem sempre como Deus deseja o seu “sim” em nossos lábios. Vem, como para Jesus, o momento de «firmar o rosto», ou seja, não permitir que o nosso rosto manifeste ainda expressões de titubeio, indecisão. A hesitação é possível e a insegurança deve existir numa caminhada, mas até certo ponto, pois quando passa disto, são sintomas de que algo não foi dado totalmente a Deus e ainda está guardado a sete chaves dentro do nosso “eu”. “Firmar o rosto” é um sentimento que brota espontâneo e que nasce do coração, é um sentimento de liberdade na entrega; “firmar o rosto” é, em todo caso, algo diferente de “endurecer o rosto” o que, na Escritura é expressão de orgulho e de orgulho ferido que não se dobra. O primeiro é amor, o segundo é pecado.

O pequeno grupo passava pela Samaria. Se é verdade que se tratava de um caminho que às vezes os peregrinos faziam para chegar a Jerusalém, aqui a passagem de Jesus adquire um sentido espiritual: Jesus “firma o rosto” bem no meio de um território de pessoas que se tinham afastado do projeto de Deus, que tinham deixado a identidade que Deus queria dar-lhes para escolher para si outra forma religiosa de seguir a Deus: paradoxalmente pensavam de fazer a vontade de Deus deixando o que Deus lhes propunha. Seguir a Deus é seguir a Deus; não é seguir o que nós queremos em relação a Deus; esta atitude não expressa aquilo que o rosto de Jesus expressava. Sem dúvida os Samaritanos faziam seus sacrifícios, suas orações a Deus, seus atos de piedade etc. tudo certo, tudo bom... mas não era aquilo que Deus havia preparado para eles. Jesus entrava em Samaria para revelar como é o “rosto” de quem decidiu dentro do seu coração de se entregar de fato ao Pai e aos homens. O rosto Dele -como o nosso- manifestará ainda medo, lágrimas, “suor de sangue”, fragilidade, decepção... mas nunca titubeio! ...Porém, um rosto firme, não é um rosto duro.

Passamos agora às três situações do caminhar com Jesus.

A primeira: é um homem não identificado, um alguém que, provavelmente, não continuou, caso contrário o Evangelista faria questão de dar um nome. É lícito então perguntar: porque não continuou? A resposta nos é sugerida justamente na maneira de se aproximar do homem e na resposta de Jesus. «Vou te seguir para onde fores!», estritamente pode ser expresso assim: “te seguirei mesmo que vás longe”. Obviamente á um lindo gesto de generosidade, própria de quem se lança porque atraído por Jesus; isto é bom, contudo não é sempre suficiente: após a generosidade inicial é necessária a generosidade da maturidade. Para ele não era problema afastar-se da casa, terra, pessoas... era um “alguém” desprendido (o que já é uma riqueza), o ponto fraco era outro que Jesus percebeu. Como Pedro, também este “alguém” crê, acha, tem a presunção de saber seguir Jesus, mas a diferença esta ainda mais a fundo: este “alguém” não se sentiu “chamado”, simplesmente “quis”. Quando alguém sabe de ser “chamado” e leva isto em consideração para o resto da vida, então sabe também como deixar a si mesmo e renunciar aos próprios caprichos porquanto válidos e justificados que forem, o que Pedro soube fazer. A resposta de Jesus nos diz quais eram as dificuldades que aquele “alguém” teria encontrado. As raposas procuram o “seu” abrigo na terra, nela encontram a sua proteção e segurança; os pássaros no céu (especificamente o Salmo 84 fala do pássaro que encontra abrigo no Templo de Jerusalém). Nem a “terra” a atitude da razão, nem a “religiosidade” piedosa fazem parte da proposta de Jesus; o que ele oferece é ser como o Filho do homem (Dan. 7) que não tem onde se apegar, nem na terra nem no Templo (segundo Daniel esta personagem “tem suas raízes no céu”, mas está com os homens). Jesus é como Jacó, que não tinha travesseiro e fez um para si com uma pedra (Gen. 28,11): foi ali, quando obedecia a Deus que Deus o encontrou abrindo o caminho do céu para si e para o seu povo.

A outra situação é típica daquele que de fato é chamado: «siga a Mim», disse-lhe Jesus. Para este o problema não está no fato de ter sido chamado e de saber claramente o valor de tudo isto; ele está livre da presunção de saber seguir. O impedimento está noutro lugar; é a tentação que acontece desde o início e sempre nos acompanha, a tentação do “mas...”, “primeiro...”. Estabelecer “quando” e “como” dar a Deus. A entrega ou é total, (mesmo que tenhamos que aprender com o tempo o que significa esta totalidade), ou não é entrega, logo não será possível «anunciar o Reino de Deus», porque Deus não reina; as palavras deste alguém serão suas palavras, não de Deus. Jesus pede para «anunciar o Reino de Deus».

A terceira é representada por aquele que, embora tenha decidido deixar de lado as próprias aspirações, projetos etc. em favor de Jesus, de fato têm contínuos retornos. Dificuldades, problemas existem e devem existir no caminho com Deus, mas isto não justifica a atitude daquele que fica continuamente “olhando para trás”. É muito exagerado pensar na mulher de Ló (Gen. 19,26), que voltou-se para ver o que estava deixando e tornou-se uma estátua cheia daquele sal que dá a morte a qualquer terra onde caia? Aquilo que Jesus pede é a atitude de Eliseu, o qual “queimou” o arado, em sinal da sua atitude definitiva e irreversível com a qual se entregava ao serviço de Deus e oferecia, fazendo isto, a antecipação do banquete messiânico feito de «carnes gordas» cfr. Is. 25,6. É assim que se ama!

padre Carlo - www.fatima.com.br

 

A primeira leitura narra a vocação do profeta Eliseu. Era um camponês rico. Estava arando em sua propriedade quando se encontra com o profeta Elias. Elias coloca o seu manto sobre ele e como isso adquire sobre ele um certo direito. Eliseu não se nega: sacrifica uma junta de bois com os quais estava lavrando a terra, abandona sua família e se coloca a servir somente a Deus. Encontramos aqui as condições ideais para uma vocação: Deus chama, o chamado responde e rompe com o passado e assume um novo gênero de vida a serviço de sua missão.

Nunca o ser humano foi tão sensível à liberdade como nos dias de hoje. Paulo diz com relação a este tema: o cristão é livre: a vocação cristã é vocação à liberdade, esta liberdade foi conquistada por Cristo; a liberdade se expressa e alcança sua plenitude no amor; diante do perigo de que muitos seres humanos caírem na libertinagem sob pretexto de liberdade, Paulo adverte que a verdadeira liberdade, a que vem do Espírito, liberta da escravidão da carne e do egoísmo.

O tema fundamental do evangelho é a apresentação de três vocações. Lucas coloca-as no contexto da viagem de Jesus e seus discípulos a Jerusalém. Jesus exige daquele que deseja segui-lo: desapego dos bens e das comodidades materiais, pois o Filho do Homem não tem onde reclinar sua cabeça; chamado de Deus; ruptura com o passado e o presente, inclusive com a própria família, e seguimento. Tudo isto para que o discípulo fique livre e disponível para poder anunciar o Reino de Deus.

As leituras de hoje tem um tema comum: as exigências da vocação. Nelas descobrimos como subjaz a necessidade do desprendimento, de renuncia, do abandono das coisas e pessoas como exigência para seguir Jesus. Por isso não existe resposta ao chamado para colocar-se a serviço do Reino de Deus naqueles que postergam o chamado de Jesus aos interesses pessoais. O Evangelho nos diz que o desprendimento exigido por Jesus aos três candidatos ao seguimento é radical e imediato. Tem-se a impressão, inclusive, de uma certa dureza de Jesus. Porém, tudo está colocado sob o signo da urgência. Jesus iniciou “a viagem para Jerusalém”. Esta “subida” interminável (que ocupa 10 capítulos no evangelho de Lucas) não se enquadra na dimensão estritamente geográfica, mas teológica: Jesus se encaminha decididamente para o cumprimento de sua missão.

A viagem de Jesus a Jerusalém não é uma viagem turística. Por isso o mestre exige dos discípulos a consciência do risco que comporta essa aventura: “a entrega da própria vida”. Pode-se dizer que Jesus faz todo o possível para desanimar os três que pretendem segui-lo ao longo do caminho. Parece que sua intenção é mais a de rejeitar do que a de atrair, desiludir mais do que seduzir. Na realidade, ele não apaga o entusiasmo, mas as falsas ilusões e os triunfalismos messiânicos. Os discípulos devem estar conscientes da dificuldade da empreitada, dos sacrifícios que podem advir e da gravidade dos compromissos assumidos com a decisão. Por isso, seguir Jesus exige:

- Disponibilidade para viver na insegurança: “Não ter nada, não levar nada”. Não se acentua a pobreza absoluta, mas na itinerância. O discípulo, da mesma forma que Jesus, não pode programar, organizar a própria vida segundo critérios de exigências pessoais, de “conforto” individual.

- Ruptura com o passado, com as estruturas sociais, políticas, econômicas e culturais que prendem e geram morte. É necessário que os novos discípulos olhem adiante, que anunciem o Reino, para que desapareça o passado e vivam o projeto de Jesus.

- Decisão irrevogável. Nada de vacilos, nada de arranjos, nenhuma concessão às nostalgias do passado, o compromisso é total, definitivo, a eleição é irrevogável.

Ontem e hoje Jesus continua chamando homens e mulheres que, deixando tudo, se comprometam com a causa do Evangelho e, tomando o arado sem olhar para trás, entreguem a própria vida na construção de um mundo novo onde reine a justiça e a igualdade entre os seres humanos. Por outra parte, observamos uma nota de tolerância e paciência pedagógica no evangelho de hoje. Um zelo apaixonado dos discípulos os faz pensar em trazer fogo sobre a terra para consumir a todos os que não aceitam a Jesus. Levados por seu zelo, não admitem que outros pensem de maneira diferente, nem respeitem o processo pessoal ou grupal. Jesus “reprova” esse zelo neles.

Simplesmente vai para outra aldeia, sem condená-los e, muito menos, sem querer enviar fogo. O seguimento de Jesus é um convite e um dom de Deus, porém ao mesmo tempo exige nossa resposta decidida. É, pois, um dom e uma conquista. Um convite de Deus e uma meta que nos devemos propor com entusiasmo. Porém, somente por amor, por enamoramento à causa de Jesus, podemos avançar no seguimento. Nem as prescrições legais, mas o amor direto à causa de Jesus e a Deus mesmo através da pessoa de Jesus, tem que incidir decisivamente em nossa vida de chamados.

Uma vez que esse amor foi instalado em nossas vidas, tudo que passa a ser legal, continua tendo seu sentido, porém é colocado em seu devido lugar: relegado a um segundo plano. “Ama e faze o que queres”, dizia santo Agostinho; porque se amas, não vais fazer “o que queres”, mas o que deves, o que Deus amado espera de ti. É a liberdade do amor, suas doces cadeias.

NÃO À VIOLÊNCIA

O Reino apresenta-se, na vida das pessoas, como uma proposta a ser livremente acolhida ou rejeitada. Jamais poderá haver coerção sobre o destinatário da mensagem, sob pena de invalidar a opção que ele fez.

É tentador querer levar as pessoas a acolherem o Reino, independentemente de sua liberdade. Ou seja, impô-lo à força! Sem liberdade plena, o Reino não chegará a fincar raízes consistentes no coração humano, a ponto de transformá-lo em coração de discípulo.

A tentação de compelir as pessoas a abraçar o Reino pode levar o discípulo a recorrer à violência, caso elas o rejeitem. Foi o que aconteceu com os discípulos de Jesus em relação aos samaritanos. Porque se recusaram a acolher Jesus, de passagem para Jerusalém, Tiago e João sugeriram ao Mestre que mandasse fogo do céu para consumi-los, a exemplo do que aconteceu, no passado, com as cidades impenitentes.

Jesus censurou os dois discípulos, pois tinham uma mentalidade contrária à sua. Eles pensavam que, com a destruição dos samaritanos, pudessem dar uma lição a todos os demais impenitentes. Enganavam-se! Esse castigo mortal daria a entender que o Deus anunciado por Jesus era impaciente e incapaz de respeitar o ritmo das pessoas. Na verdade, ele é um Deus paciente e misericordioso, pronto a esperar o momento de ser livremente acolhido.

padre Jaldemir Vitório

 

A caminho de Jerusalém

Ao longo da história, Deus sempre CHAMOU pessoas para realizar seus planos.

A liturgia de hoje ilustra esse fato com vários exemplos: na 1ª leitura, encontramos o chamado de Eliseu: (Rs. 19,16b.19-21). O profeta Elias, já idoso e cansado, recebeu a ordem de Deus de consagrar profeta um rico agricultor chamado Eliseu. Desceu o monte e o encontrou lavrando a terra. Passando junto dele, lançou-lhe às costas o manto. Este gesto indicava a missão profética com que Elias investia Eliseu.

A resposta foi pronta e generosa. Foi em casa, sacrificou a junta de bois, que utilizava na antiga profissão. "Cortou todas as amarras" para dar-se radicalmente ao projeto de Deus.

* Eliseu é um homem normal, com uma vida normal a quem Deus chama, indo ao seu encontro na normalidade do trabalho diário, para lhe apresentar o seu desafio. Esse chamado de Deus chega até Eliseu através de Elias...

A 2ª leitura afirma que o seguimento de Jesus é uma escolha livre. Seguir Cristo é nascer para a vida nova da liberdade (Gl. 5,1.13-18).

O Evangelho encerra a etapa da missão de Jesus na Galileia e inicia a "caminhada" para Jerusalém. (Lc. 9,51-62)

É um itinerário espiritual, ao longo do qual Jesus vai mostrando aos discípulos os valores do Reino. Esse percurso converge para a cruz. E os discípulos são exortados a seguir o mesmo caminho. O texto apresenta a recusa dos samaritanos em acolher Jesus e três candidatos a discípulos:

A recusa dos samaritanos: os samaritanos não aceitavam a atitude religiosa dos judeus que peregrinavam para Jerusalém, pois eles tinham o próprio templo. Por isso queriam impedir a sua caminhada.

A reação de Tiago e João foi rápida e violenta: "Senhor, queres que mandemos que desça fogo do céu e os consuma?" Jesus repreende a intolerância deles... O caminho de Jesus não passa pela força e pela violência.

As comunidades cristãs continuam enfrentando hostilidades. O discípulo não é chamado para lutar contra ninguém. Diante dessas hostilidades, não deve ter nem intolerância... nem fanatismo...

1º chamado: um desconhecido se oferece para segui-lo. A fama de Jesus o entusiasmava e satisfazia os próprios interesses... A Resposta de Jesus foi desanimadora: "As raposas têm tocas... e as aves têm ninhos..." Não deve sonhar uma vida folgada. Não terá o conforto de uma morada. O discípulo deve despojar-se totalmente das preocupações materiais... Diante dessas palavras de Jesus, é possível aceitar atividades na comunidade para obter vantagens e privilégios?

2º chamado: um desconhecido é convidado por Jesus a segui-lo. Ele aceita, mas pede para enterrar primeiro os pais. Jesus: "Deixa que os mortos enterrem os seus mortos mas tu, vai anunciar o Reino de Deus." O discípulo deve desapegar-se  até dos deveres e obrigações, que impedem uma resposta imediata e radical ao reino.

3º chamado: um terceiro se apresenta a Jesus. E Jesus: "Segue-me". Ele: "Eu te seguirei (no futuro...), mas..." Jesus: "Quem põe a mão no arado e olha para trás, não é apto para o reino de Deus." O discípulo deve ser livre, sabendo se desapegar de tudo, até da família, para fazer do Reino a sua prioridade fundamental. Os três aceitaram o convite, mas a decisão foi parcial.

Cristo exige de seus seguidores três qualidades:

a) disponibilidade pronta e total

b) desprendimento: renunciar seguranças humanas

c) perseverança: não voltar atrás.

Deus ainda hoje continua chamando, propondo aos seus seguidores o "caminho" de Jerusalém. É um caminho exigente, que implica a renúncia a nós mesmos, aos nossos interesses, ao nosso orgulho, e um compromisso com a cruz, com a entrega da vida, com o amor até às últimas conseqüências.

Jesus desaprova atitudes de violência à oposição e à hostilidade do mundo, embora a Igreja, muitas vezes, tem trilhado caminhos de fanatismo e intolerância.

Dentro da comunidade, podemos ser chamados a um serviço, mandato... Não será Elias... nem Jesus Cristo a nos chamar... Deus poderá se servir de um fato, de uma necessidade, do convite de uma pessoa.

Qual é a nossa resposta aos convites, aos chamados de Deus? Será que ele pode contar de fato com cada um de nós?

padre Antônio Geraldo Dalla Costa

 

LIÇÕES DO CAMINHO

O caminho normal dos peregrinos que iam da Galiléia para Jerusalém passava pela região dos samaritanos. E por lá passou Jesus com seus discípulos na grande viagem final para a Cidade Santa, onde ia acontecer todo o drama da Paixão. Na Samaria, pediram hospedagem numa aldeia e não foram recebidos. Era a velha história da hostilidade entre judeus e samaritanos.

Estes, como sabemos, eram descendentes dos colonos provenientes da Babilônia no tempo do rei Sargão II que, no fim do século VIII antes de Cristo, os havia mandado para ocupar as terras deixadas pelos judeus levados para o exílio. Eles haviam adotado um sincretismo religioso, com misturas de suas crenças antigas e da religião de Israel.

Formavam um grupo cismático e tinham seu templo no alto do monte Garizim, em oposição ao templo de Jerusalém. E viviam em permanente inimizade com seus vizinhos. Jesus, evidentemente, não aprovava nenhuma inimizade, nenhum ódio racial ou religioso, como aparece em mais de um episódio do Evangelho. Basta lembrar a parábola sobre "quem é meu próximo?", na qual exatamente é um samaritano que faz o papel simpático, socorrendo o homem ferido na beira da estrada e passando para a história como o glorioso nome de "O Bom Samaritano".

São Lucas, no episódio que estamos lembrando, nos conta como os dois discípulos Tiago e João - que mereceram de Jesus o apelido de "boanerges", isto é, "filhos do trovão" - ficaram indignados com a recusa dos samaritanos e queriam que chovesse fogo do céu sobre aquela aldeia. Mas Jesus os repreendeu por esse ímpeto incendiário. Não era esse o espírito do Evangelho! Jesus vinha para salvar os pecadores, não para condená-los. E partiram para outra aldeia.

Está aí a grande lição que vale para todos os cristãos. Não é o ódio nem a dureza de coração que poderá transformar as pessoas. Ninguém se converte forçado por gestos de intransigência. Se devemos condenar o erro, devemos, ao mesmo tempo; compreender as pessoas, ter paciência, procurar os caminhos do amor para tirá-Ias da estrada do erro. Essa é a escola de Cristo, esse é o estilo da Igreja, como deve ser o de todos que queiram melhorar o mundo. Nenhum pai educará seu filho, se lhe quiser impor à força as lições da virtude, sem aceitar os prazos da imaturidade do jovem, de sua inconstância, de suas ilusões. Também aqui vale a norma: só o amor constrói.

Ao mesmo tempo que somos ensinados por Cristo a ter compreensão para com os que tomaram caminho errado, somos também alertados pela sua palavra a não nos desviarmos do bom caminho que escolhemos seguindo a Ele. Jesus é um absoluto, diante do qual não pode o homem ficar hesitante e incerto. Porque tudo o mais e relativo. São Lucas o ilustra com três episódios bem significativos. A alguém que queria seguí-Io e se dizia disposto a acompanhá-lo para onde quer que Ele fosse, Jesus declarou, usando de uma imagem de grande beleza: "As raposas têm sua toca e as aves do céu têm seu ninho, mas o Filho do Homem não tem uma pedra onde repousar a cabeça" (Lc. 9,58). Como que para dizer que seguir a Ele não era procurar uma vida fácil e cômoda, mas estar disposto a enfrentar os sacrifícios da vida e do caminho.

A outro que queria seguí-Io, mas pretendia antes ir dar sepultura ao pai que falecera, Ele respondeu: "Deixa que os mortos enterrem seus mortos; tu, no entanto, vai anunciar o Reino de Deus (Ib., v. 60). E a um terceiro que, antes de entrar para o seguimento de Cristo, pedia tempo para ir-se despedir da família, o Mestre deu a resposta que ficou famosa como advertência para os inconstantes e medíocres: "Aquele que põe a mão ao arado e olha para trás não serve para o Reino de Deus" (v. 62).

São afirmações que nos parecem até demasiado carregadas de rigor, mas que, no fundo, querem traduzir esta verdade: Tudo é relativo, quando se põe em comparação com a adesão a Deus, a adesão a Cristo. Nem caprichos de amor terreno, nem amor ao dinheiro, nem planos de grandeza, de prestígio, de fama, nada nos pode separar de Cristo. São Paulo irá dizer um dia, no entusiasmo de sua vocação de apóstolo de Jesus Cristo e como esplêndido estímulo para nossa fidelidade: "Quem nos separará do amor de Cristo? ...Estou convencido que nem a morte nem a vida, nem os anjos nem os principados, nem o presente, nem o futuro, nem os poderes, nem a altura, nem a profundeza, nem nenhuma outra criatura nos poderá separar do amor de Deus manifestado em Cristo Jesus, Nosso Senhor" (Ro 8,35, 38- 39).

padre Lucas de Paula Almeida, CM

 

O Evangelho de hoje parece ter a pretensão de nos mostrar que Jesus tem pressa em colocar em prática o Plano de Salvação de Deus Pai. Quer disponibilidade total de seus seguidores. Deixa claro que ninguém deve se deixar levar pelas coisas deste mundo.

São diversos os personagens que encontramos neste evangelho de Lucas. O primeiro se oferece para seguir Jesus. Chega até a dizer que é capaz de segui-lo em qualquer lugar do mundo. No entanto, quando Jesus esclarece que não tem nenhum bem material para dar em troca, ele vai embora.

Em seguida, é Jesus quem faz o convite para um segundo homem. “Segue-me” – diz Jesus. O desconhecido aceita o convite, porém pede para primeiramente enterrar seu pai e Jesus lhe diz para deixar que os mortos enterrem seus mortos.

Vamos tentar entender estas palavras, pois parece que Jesus não está nem um pouco preocupado com a obra de misericórdia que nos ensina a enterrar nossos mortos. Na verdade, o jovem estava disposto a seguir Jesus assim que não tivesse mais nenhum compromisso com seus pais, anos depois, talvez.

Nada, nem mesmo os sentimentos mais sagrados, como os que unem os filhos aos pais, podem impedir alguém de tomar a decisão de seguir Jesus. Quem se propõe a seguir Jesus tem que ter espírito de renúncia. Nenhum amor pode ser maior do que o nosso amor por Deus.

Um terceiro personagem se apresenta e se oferece para seguir Jesus. “Eu te seguirei, mas... - havia aí uma condição - primeiro deixe-me despedir-me de meus parentes”. Mais uma vez Jesus e o Plano de salvação estavam sendo colocados em segundo plano.

Jesus não pode esperar. Ele nos convida a segui-lo e fala com toda clareza: “quem põe a mão no arado e olha para trás, não serve para o Reino de Deus”. Mas como deixar de lado tudo o que construímos? Como concentrar nossa atenção somente no “arado”, sem desviar o olhar para as tentações deste mundo?

Jesus sabia muito bem o que o esperava em Jerusalém. Sabia do seu martírio, de sua paixão e morte de cruz, no entanto não recuou. Seu único objetivo era cumprir a vontade de Deus Pai, por isso caminha otimista para o sofrimento.

Quantas vezes, em nosso dia-a-dia, nos deparamos com fato semelhante. Quantas vezes o caminho é espinhento e repleto de obstáculos. Quantas vezes não encontramos apoio nem guarida. Nem mesmo um local para descansar a cabeça e o corpo.

No entanto, nessa hora, precisamos confiar na força que Jesus nos dá. O entusiasmo e a perseverança são marcas do verdadeiro cristão. Não basta dizer sim. O discípulo de Jesus precisa de coragem e persistência para levar avante seu apostolado.

Eis o segredo para não esmorecer na caminhada: a coragem e a persistência são facilmente encontradas na oração e na Eucaristia!

jorgelorente@ig.com.br - www.miliciadaimaculada.org.br

 

1ª leitura: 1Rs 19,16.19-21

É muito significativa a comparação entre o chamado que Elias faz a Eliseu e o chamado de Jesus a seus discípulos, como relata o evangelho deste domingo. Elíseu responde a Elias, que o chama: "Deixa-me abraçar meu pai e minha mãe, depois te seguirei" (1Rs. 19,20). Quando Jesus chama dois "possíveis" discípulos, um deles responde: "Deixa-me primeiro ir enterrar meu pai". Jesus, então, lhe responde: "Deixa que os mortos enterrem os mortos; mas tu, vai e anuncia o reino de Deus".

0 chamado de Elias a Eliseu pode ser acrescentado às outras responsabilidades que o vocacionado tinha. 0 chamado de Jesus é completamente diferente. É totalizante e tem precedência absoluta sobre todas as responsabilidades precedentes. Nele as responsabilidades anteriores são integradas como partes de um chamado global e lhe são subordinadas.

A segunda diferença é que o manto de Elias cai sobre Eliseu. Isto significa que Eliseu pode substituir plenamente o seu mestre quando este for arrebatado ao céu (cf. 2Rs. 2). Mas, quando Jesus sobe aos céus, seus discípulos não podem substituí-lo. Eles continuam a ser seus seguidores e Jesus continua a ser o "Senhor", vivo e presente meio deles.

2ª leitura: Gl. 5,1.13-18

A liberdade é a marca registrada da existência cristã. Tal liberdade, porém, é constantemente ameaçada. Para os Gálatas, isso acontecia porque eles estavam cedendo às pressões dos opositores de São Paulo e caindo numa espécie de sincretismo que incluía a circuncisão. Para Paulo, isso descaracterizava completamente o Evangelho. Os cristãos são livres porque não têm de conquistar a salvação pelas próprias obras; mas, porque já a receberam como um dom, o que lhes toca é, livremente, viver em conformidade com o dom recebido.

Há uma única obrigação para o cristão, que é a Lei do Amor. "Toda a Lei se resume numa só palavra: 'Amarás o teu próximo como a ti mesmo- Pauto não está suprimindo o primeiro e maior mandamento: "Amarás o Senhor, teu Deus"; ele está falando às pessoas que já ouviram a mensagem da justificação e que, portanto, estão inseridas na experiência do amor a Deus. Paulo está dizendo que o amor a Deus só é realmente verdadeiro se exprimir-se concretamente como amor ao próximo. 0 amor ao próximo deveria dar ao cristão um sensor que o capacitasse a perceber as situações concretas em que é chamado a atuar esse amor sem tantas regras e regulamentos. A orientação necessária é fornecida pelo "como a ti mesmo": "Tudo aquilo que quereis que os outros vos façam, fazei-o vós a eles" (Mt 7,12).

Evangelho: Lc. 9,91-62

"O Filho do Homem não tem onde repousar a cabeça"

Neste trecho que relata o início do significativo caminho de Jesus para Jerusalém, lugar de sua "ascensão", são mencionados três casos característicos de vocação. No primeiro, "alguém" - indicação indefinida que pode referir-se a qualquer seguidor - se oferece, de própria iniciativa, a seguir Jesus: "Seguir-te-ei aonde quer vás". Esta pessoa não foi chamada. Ela está se oferecendo. A resposta de Jesus: "As raposas têm tocas e as aves do céu ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde repousar a cabeça" quer mostrar àquela pessoa entusiasmada que ela não sabe do que está falando.

Aliás, não pode mesmo saber. Pois aqui fala Aquele que está indo de encontro à cruz e ninguém pode querer isso por escolha própria. Ninguém pode dirigir a si próprio o chamado ao seguimento. Há, portanto, uma separação insuperável entre a oferta voluntária ao seguimento e o seguimento real. Mas, se é Jesus Cristo a fazer o chamado, a separação é superada. Ele se coloca como ponte sobre o abismo.

0 segundo candidato a discípulo é chamado por Jesus mesmo, que lhe diz: "Segue-me!". Só que ele lhe pede um tempo para sepultar o próprio pai antes de aderir ao seguimento. Jesus, então, replica: "Deixa que os mortos sepultem os seus mortos; tu, porém, vá e anuncia o Reino de Deus" . Fala aqui um fiel observador da Lei de Moisés, a qual manda assistir os pais na velhice e dar-lhes sepultura digna (cf. Tb. 4,3; Ex. 20,12). Poderia, portanto, tratar-se de uma demora considerável, imprevisível e não simplesmente da participação de um funeral. Esse vocacionado quer seguir Jesus, mas sente-se obrigado ao cumprimento da Lei que nenhum fiel judeu poderia desobedecer. Portanto, um mandamento claro da Lei se interpõe entre o vocacionado e Jesus.

A resposta de Jesus "Deixa que os mortos sepultem os seus mortos" quer dizer que, quando feito por Jesus mesmo, o chamado é absoluto e totalizante e que, portanto, nenhuma motivação pode ser colocada como obstáculo entre aquele que é chamado e Jesus, nem mesmo o motivo mais sagrado como a Lei de Moisés. 0 teólogo Dietrich Bonhoeffer diz que, aqui, Jesus "se põe contra a Lei e ordena o seguimento. Só Cristo pode falar assim. É ele que tem a última palavra. 0 outro não pode colocar-se contra. A esta vocação, a esta graça, não se pode resistir". Vale dizer que o relacionamento com Deus, agora, não é mais mediado pela observância da Lei de Moisés, porque este se tomou imediato na pessoa de Jesus, que é o perfeito cumprimento da Lei (cf. Mt. 5,17).

0 terceiro "possível" discípulo, como o primeiro, também entende o seguimento como iniciativa própria, um programa de vida por ele mesmo escolhido. Por isso, sente-se no direito de impor condições e, por conseguinte, se emaranha em contradições. Ele quer seguir Jesus, mas quer também estar no controle da situação e estabelecer as condições do seguimento: "Permita-me primeiro" . Isto significa que, para ele, o seguimento é uma possibilidade cuja realização depende somente da execução de determinadas condições e preenchimento de certos requisitos. 0 seguimento seria, assim, uma realidade humanamente compreensível e previsível: há coisas para se fazer antes e outras para se fazer depois. É claro que, com isso, o seguimento fica esvaziado, toma-se um programa humano que estabeleço para mim mesmo, conforme minhas preferências, que posso justificá-lo em nível racional e ético. Portanto, com sua iniciativa, este terceiro vocacionado anula o seguimento. Com efeito, o seguimento não admite condições que possam se interpor entre Jesus e a obediência ao chamado que ele faz. Assim, ao impor a condição: "Permita-me primeiro", a pessoa cai em contradição não só em relação a Jesus, mas também em relação a ela mesma. Ela não quer o que Jesus quer, tampouco o que ela mesma diz que quer. Com uma imagem, Jesus põe às claras esta contradição: Quem põe a mão no arado e olha para trás não é apto para o Reino de Deus" (Lc. 9,62).

Colocar-se no seguimento de Jesus significa dar determinados passos concretos. E o primeiro passo feito no seguimento já separa nitidamente o vocacionado de sua vida anterior. Isto quer dizer que tal vocação cria uma situação inteiramente nova. Portanto, seguir Jesus e permanecer na mesma situação de antes são posições inconciliáveis. A Palavra de Jesus não é uma nova doutrina, transmissão de um conhecimento novo sobre Deus, mas sim, uma nova criação da existência. Assim, ao chamar alguém, Jesus estava Lhe dizendo que não lhe restava outra possibilidade de crer n'Ele senão abandonar tudo e ir atrás do Filho de Deus feito homem.

frei Aloísio de Oliveira OFM Conv - www.paroquiasaosebastiao.com.br

 

1º leitura – 1Re. 19,16b.19-21 - AMBIENTE

Esta passagem do primeiro livro dos Reis leva-nos até ao séc. IX a.C. Estamos na época dos dois reinos divididos.

Os profetas Elias e Eliseu, aqui referenciados, exerceram o seu ministério profético no reino do norte (Israel), no tempo dos reis Acab e Ocozias (Elias), Jorão e Jehú (Eliseu). É uma época de grande desnorte, em termos religiosos: a fé jahwista é posta em causa pela preponderância que os deuses estrangeiros assumem na cultura religiosa de Israel.

Uma grande parte do ministério de Elias desenrola-se durante o reinado de Acab (874 853 a.C.). O rei – influenciado por Jezabel, a sua esposa fenícia – erige altares a Baal e Astarte e prostra-se diante das estátuas desses deuses. Estamos diante de uma tentativa de abrir Israel ao intercâmbio com outras culturas; mas essas razões políticas não são entendidas nem aceites pelos círculos religiosos de Israel. Nessa época, Elias torna-se o grande campeão da fé jahwista (cf. 1 Re 18 – o episódio do “duelo” religioso entre Elias e os profetas de Baal, no monte Carmelo), defendendo a Lei em todas as suas vertentes (inclusive na vertente social – cf. 1Re. 21 – o célebre episódio da vinha de Nabot), contra uma classe dirigente que subvertia a seu bel-prazer as leis e os mandamentos de Jahwéh.

A luta de Elias no sentido de preservar os valores fundamentais da fé jahwista será continuada nos reinados seguintes por um dos seus discípulos – Eliseu. A leitura que nos é proposta apresenta-nos, precisamente, o chamamento de Eliseu.

MENSAGEM

O texto propõe-nos uma reflexão sobre o chamamento de Deus e a resposta do homem.

O quadro inicial da nossa leitura situa-nos no Horeb, a montanha da revelação de Deus ao seu Povo (cf. 1Re. 19,8). Porquê no Horeb? Porque aí, no lugar onde começou a Aliança, Deus vai definir os instrumentos do restabelecimento da Aliança:

Elias é convidado a ungir Eliseu como profeta; ele será (juntamente com Jehú, futuro rei de Israel e de Hazael, futuro rei de Damasco) o instrumento de Deus na aniquilação de Acab, o rei infiel a Jahwéh e à Aliança. Trata-se da única vez que o Antigo Testamento refere a “unção” de um profeta.

Após a apresentação inicial, o autor deuteronomista desenha o quadro do chamamento de Eliseu. Ele está no campo, com os bois, a lavrar a terra quando Elias o encontra e o convida a ser profeta: o profeta não é alguém que, repentinamente, cai do céu e invade de forma anormal o mundo dos homens; também não é alguém que se torna profeta porque não serve para outra coisa; mas é sempre um homem normal, com uma vida normal, a quem Deus chama, indo ao seu encontro e falando-lhe na normalidade do trabalho diário, para lhe apresentar o seu desafio.

Elias lança sobre Eliseu o seu “manto”. Este gesto tem de ser entendido à luz da crença de que as roupas ou os objetos pertencentes a uma pessoa representavam essa pessoa e continham qualquer coisa do seu poder: dessa forma, Elias comunica a Eliseu o seu poder e o seu espírito proféticos (cf. 2Re 2,13-14; 4,29-31; Lc. 8,44; At. 19,12).

Temos, depois, a resposta de Eliseu ao desafio que Deus lhe lança através do gesto de Elias: imolou uma junta de bois, queimou o arado, assou a carne dos bois e deu-a a comer à sua família; depois, seguiu Elias e ficou ao seu serviço.

O gesto de Eliseu significa, provavelmente, o abandono da vida antiga, a renúncia à antiga profissão, a ruptura com a própria família e a entrega total à missão profética.

Exprime a radicalidade da sua entrega ao serviço de Deus.

ATUALIZAÇÃO

- A história da salvação não é a história de um Deus que intervém no mundo e na vida dos homens de forma espalhafatosa, prepotente, dominadora; mas é uma história de um Deus que, discretamente, sem se impor nem dar espetáculo, age no mundo e concretiza os seus planos de salvação através dos homens que Ele chama. É como se Ele nos dissesse como fazer as coisas, mas respeitasse o nosso caminho e Se escondesse por detrás de nós. É necessário ter em conta que somos os instrumentos de Deus para construir a história, até que o nosso mundo chegue a ser esse “mundo bom” que Deus sonhou. Aceitamos este desafio?

- O relato da “vocação” de Eliseu não é o relato de uma situação excepcional, que só acontece a alguns privilegiados, eleitos entre todos por Deus para uma missão no mundo; mas é a história de cada um de nós e dos apelos que Deus nos faz, no sentido de nos disponibilizarmos para a missão que Ele nos quer confiar, quer no mundo, quer na nossa comunidade cristã. Estou atento aos apelos de Deus? Tenho disponibilidade, generosidade e entusiasmo para me empenhar nas tarefas a que Ele me chama?

- O chamamento de Deus chega a Eliseu através da ação de Elias… É preciso ter em conta que, muitas vezes, o desafio de Deus nos chega através da palavra ou da interpelação de um irmão; e que, muitas vezes, é preciso contar com o apoio de alguém para discernir o caminho e ser capaz de enfrentar os desafios da vocação.

- Finalmente, somos chamados a contemplar a disponibilidade de Eliseu e a forma radical como ele acolheu o desafio de Deus. A referência à morte dos bois, ao desmantelamento do arado (cuja madeira serviu para assar a carne dos animais) e ao banquete de despedida oferecido à família significa que o profeta resolveu “cortar todas as amarras”, pois queria dar-se, radicalmente, ao projeto de Deus. É esse corte radical com o passado e essa entrega definitiva à missão que nos questiona e interpela.

2º leitura – Gl. 5,1.13-18 - AMBIENTE

Continuamos a ler a carta aos Gálatas. Já sabemos qual é o problema fundamental aí abordado: os Gálatas estão a ser perturbados por esses “judaízantes” para quem os rituais da Lei de Moisés também são necessários para chegar à vida em plenitude (“salvação”); e Paulo – para quem “Cristo basta” e para quem as obras da Lei já não dizem nada – procura fazer com que os Gálatas não se sujeitem mais à escravidão, nomeadamente à escravidão dos ritos e das leis.

O texto que nos é proposto aparece na parte final da carta. É o início de uma reflexão sobre a verdadeira liberdade, que é fruto do Espírito (cf. Gl. 5,1-6,10).

MENSAGEM

As palavras de Paulo são um convite veemente à liberdade. Logo no início deste texto (vs. 1), ele avisa os Gálatas que foi para a liberdade que Cristo os libertou (a repetição – libertar para a liberdade – é, sem dúvida, um hebraísmo destinado a dar ao verbo “libertar” um sentido mais intenso) e que não convém voltar a cair no jugo da escravidão (mais à frente – vs. 2-4 – ele identifica essa escravidão com a Lei e com a circuncisão).

Os vs. 13-18 explicam em que consiste a liberdade para o cristão. Trata-se da faculdade de escolher entre duas coisas distintas e opostas? Não. Trata-se de uma espécie de independência ético-moral, em virtude da qual cada um pode fazer o que lhe apetece, sem barreiras de qualquer espécie? Também não.

Para Paulo, a verdadeira liberdade consiste em viver no amor (vs. 13-14). O que nos escraviza, nos limita e nos impede de alcançar a vida em plenitude (“salvação”) é o egoísmo, o orgulho, a auto-suficiência; mas superar esse fechamento em nós próprios e fazer da nossa vida um dom de amor torna-nos verdadeiramente livres. Só é autenticamente livre aquele que se libertou de si próprio e vive para se dar aos outros.

Como é que esta “liberdade” (a capacidade de amar, de dar a vida) nasce em nós? Ela nasce da vida que Cristo nos dá: pela adesão a Cristo, gera-se em cada pessoa um dinamismo interior que a identifica com Cristo e lhe dá uma capacidade infinita de amar, de superar o egoísmo, o orgulho e os limites – ou seja, com uma capacidade infinita de viver em liberdade. É o Espírito que alimenta, dia a dia, essa vida de liberdade (ou de amor) que se gerou em nós, a partir da nossa adesão a Cristo (vs.16).

Viver na escravidão é continuar a viver uma vida centrada em si próprio (Paulo enumera, mais à frente, as obras de quem é escravo – cf. Gl. 5,19-21); viver na liberdade (“segundo o Espírito”) é sair de si e fazer da sua vida um dom, uma partilha (Paulo enumera, mais à frente, as obras daquele que é livre e vive no Espírito – cf. Gl. 5,22-23).

ATUALIZAÇÃO

- Os homens do nosso tempo têm em grande apreço esse valor chamado “liberdade”; no entanto têm, frequentemente, uma perspectiva demasiado egoísta deste valor fundamental. Quando a “liberdade” se define a partir do “eu”, identifica-se com “libertinagem”: é a capacidade de “eu” fazer o que quero; é a capacidade de “eu” poder escolher; é a capacidade de “eu” poder tomar as minhas decisões sem que ninguém me impeça… Esta liberdade não gera, tantas vezes, egoísmo, isolamento, orgulho, auto-suficiência e, portanto, escravidão?

- Para Paulo, só se é verdadeiramente livre quando se ama. Aí, eu não me agarro a nada do que é meu, deixo de viver obcecado comigo e com os meus interesses e estou sempre disponível – totalmente disponível – para me partilhar com os meus irmãos. É esta experiência de liberdade que fazem hoje tantas pessoas que não guardam a própria vida para si próprias, mas fazem dela uma oferta de amor aos irmãos mais necessitados. Como dar este testemunho e passar esta mensagem aos homens do nosso tempo, sempre obcecados com a verdadeira liberdade? Como explicar que só o amor nos faz totalmente livres?

- Falar de uma comunidade (cristã ou religiosa) formada por pessoas livres em Cristo implica falar de uma comunidade voltada para o amor, para a partilha, para as necessidades e carências dos irmãos que estão à sua volta. É isso que realmente acontece com as nossas comunidades? Damos este testemunho de liberdade no dom da vida aos irmãos que nos rodeiam? As nossas comunidades são comunidades de pessoas livres que vivem no amor e na doação, ou comunidades de escravos, presos aos seus interesses pessoais e egoístas, que se magoam e ofendem por coisas sem importância, dominados por interesses mesquinhos e capazes de gestos sem sentido de orgulho e prepotência?

Evangelho – Lc. 9,51-62 - AMBIENTE

Aqui começa, precisamente, a segunda parte do Evangelho segundo Lucas. Até agora, Lucas situou Jesus na Galileia (1ª parte); mas, a partir de 9,51, Lucas põe Jesus a caminhar decididamente para Jerusalém. A “caminhada” que Jesus aqui inicia com os discípulos é mais teológica do que geográfica: não se trata tanto de fazer um diário da viagem ou de fazer a lista dos lugares por onde Jesus vai passar até chegar a Jerusalém; trata-se, sobretudo, de apresentar um itinerário espiritual, ao longo do qual Jesus vai mostrando aos discípulos os valores do “Reino” e os vai presenteando com a plenitude da revelação de Deus. Todo este percurso que aqui se inicia converge para a cruz: ela vai trazer a revelação suprema que Jesus quer apresentar aos discípulos e nela vai irromper a salvação definitiva. Os discípulos são exortados a seguir este “caminho”, para se identificarem plenamente com Jesus… Lucas propõe aqui à sua comunidade o itinerário que os autênticos crentes devem percorrer.

MENSAGEM

Lucas começa por apresentar as “exigências” do “caminho”. O nosso texto apresenta, nitidamente, duas partes, dois desenvolvimentos.

Na primeira parte (vs. 51-56), o cenário de fundo situa-nos no contexto da hostilidade entre judeus e samaritanos. Trata-se de um dado histórico: a dificuldade de convivência entre os dois grupos era tradicional; os peregrinos que iam a Jerusalém para as grandes festas de Israel procuravam evitar a passagem pela Samaria, utilizando preferencialmente o “caminho do mar” (junto da orla costeira), ou o caminho que percorria o vale do rio Jordão, a fim de evitar “maus encontros”.

A primeira lição de Jesus ao longo desta “caminhada” vai para a atitude que os discípulos devem assumir face ao “ódio” do mundo. Que fazer quando o mundo tem uma atitude de rejeição face à proposta de Jesus? Tiago e João pretendem uma resposta agressiva, “musculada”, que retribua na mesma moeda, face à hostilidade manifestada pelos samaritanos (a referência ao “fogo do céu” leva-nos ao castigo que Elias infligiu aos seus adversários – cf. 2Re 1,10-12); mas Jesus avisa-os que o seu “caminho” não passa nem passará nunca pela imposição da força, pela resposta violenta, pela prepotência (no seu horizonte próximo continua a estar apenas a cruz e a entrega da vida por amor: é no dom da vida e não na prepotência e na morte que se realizará a sua missão). Isto é algo que os discípulos nunca devem esquecer, se estão interessados em percorrer o “caminho” de Jesus.

Na segunda parte (vs. 57-62), Lucas apresenta – através do diálogo entre Jesus e três candidatos a discípulos – algumas das condições para percorrer, com Jesus, esse “caminho” que leva a Jerusalém, isto é, que leva ao acontecer pleno da salvação. Que condições são essas? O primeiro diálogo sugere que o discípulo deve despojar-se totalmente das preocupações materiais: para o discípulo, o Reino tem de ser infinitamente mais importante do que as comodidades e o bem-estar material.

O segundo diálogo sugere que o discípulo deve despegar-se desses deveres e obrigações que, apesar da sua relativa importância (o dever de sepultar os pais é um dever fundamental no judaísmo), impedem uma resposta imediata e radical ao Reino.

O terceiro diálogo sugere que o discípulo deve despegar-se de tudo (até da própria família, se for necessário), para fazer do Reino a sua prioridade fundamental: nada – nem a própria família – deve adiar e demorar o compromisso com o Reino.

Não podemos ver estas exigências como normativas: noutras circunstâncias, Ele mandou cuidar dos pais (cf. Mt. 15,3-9); e os discípulos – nomeadamente Pedro – fizeram-se acompanhar das esposas durante as viagens missionárias (cf. 1Cor. 9,5)… O que estes ensinamentos pretendem dizer é que o discípulo é convidado a eliminar da sua vida tudo aquilo que possa ser um obstáculo no seu testemunho quotidiano do Reino.

ATUALIZAÇÃO

- A nós, discípulos de Jesus, é proposto que O sigamos no “caminho” de Jerusalém, nesse “caminho” que conduz à salvação e à vida plena. Trata-se de um “caminho” que implica a renúncia a nós mesmos, aos nossos interesses, ao nosso orgulho, e um compromisso com a cruz, com a entrega da vida, com o dom de nós próprios, com o amor até às últimas consequências. Aceitamos ser discípulos, isto é, embarcar com Jesus no “caminho de Jerusalém”?

- O “caminho do discípulo” é um caminho exigente, que implica um dom total ao “Reino”. Quem quiser seguir Jesus, não pode deter-se a pensar nas vantagens ou desvantagens materiais que isso lhe traz, nem nos interesses que deixou para trás, nem nas pessoas a quem tem de dizer adeus… O que é que, na nossa vida quotidiana, ainda nos impede de concretizar um compromisso total com o “Reino” e com esse caminho do dom da vida e do amor total?

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