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1º leitura (Zc. 12,10-11; 13,1): Deus ouve a súplica do povo Os estudiosos distinguem, no livro de Zacarias, dois blocos distintos: o primeiro (Zc 1-8) teria sido escrito ao redor do ano 520 a.C., duas décadas após o exílio da Babilônia. Neste bloco, os autores apontam os pecados do povo como causadores do exílio. Deus, porém, concede o perdão e defende os interesses dos repatriados. Jerusalém e o Templo (que está sendo reconstruído) são projetados como fonte de bênçãos e de um futuro messiânico de paz e de alegria para o povo. O segundo bloco (Zc 9-14), escrito em torno do final do século IV a.C. e, portanto, mais recente do que o primeiro, apresenta um conteúdo centrado no messianismo. Jerusalém – a casa de Davi – é considerada como centro do mundo; é o lugar onde Deus mostra sua ternura e proteção ao povo “transpassado” pelo sofrimento, causado especialmente pelas dominações externas e por seus tentáculos internos. Desde a invasão babilônica em 587 a.C., quando a cidade e o templo de Jerusalém foram arrasados, muita gente foi morta e muitos foram expatriados de sua terra. A idolatria é reconhecida como a causa desses acontecimentos lamentáveis. Deus mostra-se extremamente solícito com o clamor do povo que chora e se lamenta, reconhecendo seus pecados. Deus mesmo vai purificá-lo, enviando-lhe um “espírito de graça e de súplica” para que todos voltem o olhar para ele. Espírito de graça porque Deus será reconhecido como aquele que ama na gratuidade, apesar das infidelidades do povo; espírito de súplica porque o povo, em situação de extrema necessidade, se volta para Deus com fé e confiança, invocando sua ajuda e proteção. Jerusalém, com a vida nova adquirida por intervenção divina, transforma-se em fonte irradiadora de purificação e bênção. Podemos aqui lembrar a leitura que a comunidade joanina vai fazer a respeito de Jesus, morto em Jerusalém, o “transpassado” para o qual todos voltarão seus olhos (Jo 19,37). O Messias assassinado na cruz torna-se a fonte de todas as bênçãos para a humanidade. Evangelho (Lc. 9,18-24): que tipo de Messias é Jesus? A compreensão do messianismo de Jesus por parte de seus discípulos foi acontecendo lentamente. Imersos na ideologia religiosa do Templo, esperavam um Messias com poder de monarca, da linhagem de Davi, capaz de libertar o povo da dominação romana... Portanto, se essa era a mentalidade dominante a respeito do Messias, ela deveria causar grandes problemas para os políticos da época. De fato, vários líderes messiânicos foram simplesmente exterminados antes de Jesus. Nenhuma das respostas dadas a Jesus sobre o que as multidões diziam a seu respeito contempla a ideia de Messias. Lucas reserva essa concepção para Pedro, o representante dos discípulos: “Tu és o Messias de Deus”. Imediatamente Jesus os proíbe severamente de espalhar essa afirmação para outras pessoas. Ele conhece os seus seguidores e sabe que estão ainda fanatizados pela ideologia dominante. Podem dar azo ao seu fanatismo e comprometer a missão de Jesus. Eles sabem que Jesus é o Messias, mas ainda não compreendem que tipo de Messias é Jesus. Segundo Lucas, Jesus vai dedicar uma caminhada inteira (novo êxodo), da Galileia a Jerusalém, ao empenho especial de educar os discípulos na verdadeira compreensão do Messias. O início dessa caminhada se dá em 9,51, quando Jesus “toma a firme decisão de partir para Jerusalém”. Antes disso, ele faz dois anúncios de sua paixão e morte. No primeiro, logo após a declaração teórica, por parte dos discípulos, de que ele é o Messias: “É necessário que o Filho do homem sofra muito, seja rejeitado pelos anciãos, pelos chefes dos sacerdotes e escribas, seja morto e ressuscite ao terceiro dia” (9,22). No segundo anúncio (9,44-45) Jesus prepara os discípulos para o destino do Messias, alertando-os: “Abram bem os ouvidos... O Filho do homem será entregue às mãos dos homens”. O terceiro anúncio (18,31-34) Jesus o fará em plena caminhada, próximo a Jerusalém: “De fato, ele será entregue aos gentios, escarnecido, ultrajado, coberto de escarros, depois de açoitá-lo, eles o matarão...”. Apesar da tríplice insistência, os discípulos “não entenderam nada”... A cruz e a morte estão intimamente ligadas ao messianismo de Jesus. A concepção triunfalista cai por terra. “Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz cada dia e siga-me.” A escolha de Jesus é o caminho do “servo sofredor”, inspirado no Segundo Isaías (Is 40-55). Decorre daí que o seguimento de Jesus se concretiza por meio de rupturas e opções. Rupturas com toda forma de egoísmo e poder; com toda preocupação de buscar o brilho próprio dos que dominam... Opções pelo serviço humilde e abnegado em vista de uma sociedade de amor, de justiça e de paz. De fato, Jesus não anuncia a sua morte como fato definitivo. A ressurreição é o destino dos que dão a vida pelo Reino. O êxodo pelo qual Jesus tem de passar, incluindo a própria morte, vai possibilitar a entrada na terra da liberdade e da vida plena, onde já não haverá egoísmo nem dominação de nenhuma espécie. 2º leitura (Gl. 3,26-29): Revestidos de Cristo Neste texto, Paulo continua explicando às comunidades cristãs a importância da fé em Jesus Cristo como caminho de superação de todo legalismo. A Lei funcionou como “pedagogo” enquanto ainda estávamos num estágio imaturo. Com seus preceitos e proibições, foi útil para nos ajudar a descobrir o que pode nos levar à maldição e o que atrai a bênção. O problema é que a lei nos tornou seus dependentes e até nos escravizou, a ponto de condicionar a salvação ao cumprimento de inúmeras normas. Com o advento de Jesus, é-nos dado o tempo da maturidade. Então, podemos sair da dependência da Lei e abraçar a autêntica liberdade de filhos e filhas de Deus. Não se pode voltar atrás, sob o risco de anular a graça de Deus. Pela fé em Jesus Cristo nos tornamos semelhantes a ele. Pelo batismo nos revestimos de Jesus, mergulhamos na sua própria vida. A Lei fazia distinção de pessoas e legitimava a exclusão de mulheres, pobres e estrangeiros. Agora nos tornamos uma unidade na diversidade. Portanto, “não há mais diferença entre judeu e grego, entre escravo e livre, entre homem e mulher”. Ficam assim eliminadas as barreiras que nos separavam, seja de raça, de gênero ou de classe social. Pertencendo, assim, a Cristo, somos herdeiros da promessa que Deus fez a Abraão de uma descendência numerosa e feliz. PISTAS PARA REFLEXÃO Temos a graça de conhecer a Jesus por meio do testemunho dos discípulos que o conheceram pessoalmente e também das comunidades cristãs primitivas. Constatamos que o seguimento de Jesus se dá num processo de compreensão gradativo. Assim como aconteceu com os seus discípulos, todos nós somos contaminados com falsas ideologias que vão introduzindo pseudovalores, segundo os interesses dos que dominam a sociedade.
Desde o âmbito familiar, os pais tendem a educar os
filhos para serem os melhores, os mais fortes, os mais
espertos... Ao entrar na escola, a maior preocupação é
vencer na vida, entendendo isso como ter dinheiro, fama
e poder. Num mundo competitivo como o nosso, há pouco
lugar para o serviço humilde e para uma política que
vise à inclusão de todas as pessoas nas condições de uma
vida digna. É grande ainda a discriminação entre pessoas
devido à sua condição social, à cor da pele ou ao sexo.
Precisamos realizar um “novo êxodo” rumo a uma terra sem
males, onde as diferenças sejam respeitadas e acolhidas;
onde as relações se fundamentem na dignidade intrínseca
de cada ser humano; onde a liberdade se concretize em
ações em favor da vida sem exclusão. – Podem-se levantar algumas situações evidentes de discriminação e de exclusão na família e na sociedade... Ressaltar as atitudes de serviço humilde e anônimo de muitas pessoas normalmente esquecidas e desvalorizadas... Esclarecer quais as rupturas e as opções a serem feitas pelos seguidores e seguidoras de Jesus... Celso Loraschi |
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LAMENTAÇÃO SOBRE AQUELE QUE TRANSPASSARAM! Este trecho é do chamado Dêutero-Zacarias. Os exegetas colocam os capítulos 9 a 14 de Zacarias no contexto dos acontecimentos bíblicos na época grega de Alexandre Magno (333-323 a.C.) e seus sucessores (300-250 a.C.), pois esta é a época que melhor coincide com os dados históricos, literais e psicológicos do Dêutero-Zacarias. O autor destes capítulos é anônimo e é difícil determinar para quem o texto é dirigido. São textos pós-exílio. O autor dos capítulos 1 a 9 é um profeta do exílio, que, por volta do ano 520 a.C., promoveu com Ageu o renascimento religioso e a reconstrução do templo de Jerusalém, reduzido a destroços em 587 a.C. por Nabucodonosor. A segunda parte do livro foi escrita no tempo de Alexandre Magno, que teve uma vitória brilhante e reacendeu a esperança de libertação para os hebreus. Porém, eles logo verificaram que só podiam esperar ajuda de Deus para libertar Jerusalém. Deus tomaria a iniciativa de libertar o seu povo infundindo um “Espírito de graça e consolação” sobre a casa de Davi e sobre os habitantes de Jerusalém. Aqui é evidente a referência à esperança messiânica real colocada na descendência davídica, ou seja, Deus renovaria com sua graça o espírito dos jerosolimitanos, purificando suas infidelidades e desvios idolátricos e levando-os à conversão. Eles se voltariam para Deus com coração sincero e invocariam o seu auxílio com sentimento de profunda piedade e fiel confiança. Para o povo, as conquistas de Alexandre Magno devem ter suscitado as mesmas esperanças de renovação que havia suscitado a vitória de Ciro sobre os babilônios em 538 a.C., documentada em 1940-55. Os versículos do nosso texto são bastante obscuros, numa linguagem apocalíptica, e sua simbologia torna difícil saber para quem foram dirigidos. O certo é que o profeta fala do renascimento espiritual e da conversão escatológica dos habitantes de Jerusalém, sobre os quais Deus derramará um Espírito de graça e súplica, um espírito de profundo pesar, ou seja, será um tempo de arrependimento e de luto. Quando tudo isso acontecerá? A impressão é de que se está falando do futuro, mas na verdade é do presente. O texto fala: “Olharão para aquele que transpassaram”. Esta frase é uma célebre "Crux interpretum". A transcrição textual é incerta. De fato, o texto massorético se refere a Deus, ou seja, os habitantes de Jerusalém voltaram o olhar para Deus, que transpassaram com suas próprias culpas. O texto dos LXX traduziu a palavra “transpassaram” por “me insultaram”. O hagiógrafo, porém, refere-se ao rei piedoso Josias, morto na batalha de Megido (609 a.C.), ou ao Servo Sofredor, de Isaías 53, ou ainda ao sumo sacerdote Onias III (172 a.C.). Para o cristão, a leitura feita à luz da Cristologia, na ótica de João 19,37, faz a aplicação a Jesus. Ele é o transpassado que o soldado golpeou com a lança, e de seu lado saiu sangue e água, símbolo do dom do Espírito Santo, ao qual Zacarias faz alusão em 13,1. De Cristo golpeado pela lança vem o perdão dos pecados e o dom do Espírito Santo. Segunda leitura: Gálatas 3,26-29 BATISMO, FILIAÇÃO DIVINA, LIBERDADE, A “PROMESSA” Este trecho apresenta a síntese de tudo que Paulo ensinou: há um só Pai e todos são filhos dele mediante a fé. Para Paulo, o Batismo confere ao homem uma nova identidade. Esta afirmação decorre do simbolismo da “roupa nova”. Pelo Batismo é assumida a identidade de Cristo. Com o Batismo nos tornamos cristãos, a expressão visível de Cristo. Com o Batismo já não existe distinção entre judeus e não judeus. Os judeus discriminavam os não judeus. Paulo adverte severamente os gálatas que foram na conversa dos judaizantes. Estes afirmavam que, para se obter a salvação, não era suficiente a obra redentora de Cristo. Era preciso observar toda a lei mosaica. Assim, esvaziavam o significado e o valor da cruz de Cristo. Por isso, Paulo demonstra, com base na Sagrada Escritura, que Abraão foi justificado com base na fé na Palavra de Deus e não com base na lei, que foi dada muito mais tarde. E junto com ele são benditos todos os que imitam a sua fé. Para Paulo, é em Cristo que a bênção de Abraão passa para todos com o dom do seu Espírito. A promessa feita a Abraão e à sua descendência não podia ser anulada pela lei dada a Moisés 430 anos depois. A função da lei era pedagógica. Era tornar o homem consciente de sua situação de pecado e levá-lo a Cristo. Para Paulo, com Cristo o homem foi liberado da escravidão da lei. Por meio da fé em Cristo, o homem se tornou filho de Deus. Através do Batismo, o homem foi enxertado profundamente em Cristo, revestindo-se de sua identidade teândrica, participando de sua filiação divina, para formar com ele um único ser vivo. Em Romanos 6,1-11 Paulo desenvolve esta temática da união sacramental do cristão enxertado em Cristo pelo Batismo. Revestir-se de Cristo não deve ser entendido em sentido exterior, pois para o oriental a veste exprimia a própria personalidade daquele que a vestia. Por isso, com o Batismo o cristão é inserido profundamente em Cristo para formar uma nova criatura, e assim toda distinção de religião, status social ou sexual perde o seu significado para se formar uma única criatura em Cristo. Por isso Paulo afirma que, com esta nova realidade, não há mais judeu ou não judeu, escravo ou livre, homem ou mulher. Realmente, os judeus discriminavam os não judeus e nas comunidades cristãs os judeus cristãos achavam que os pagãos gregos convertidos eram cristãos de segunda classe. Os judeus admitiam classes e distinguiam entre senhores e escravos, entre o homem e a mulher. O bom judeu agradecia a Deus todas as manhãs por tê-lo criado homem. Também os gregos faziam questão da raça e admitiam classes sociais, relegando a mulher a segundo plano. Para os gregos, os escravos vinham após os rebanhos e eram considerados como coisas, propriedades para se dispor. Também no mundo romano os escravos eram considerados coisas (“res”), algo que podia ser comprado e vendido. Para o filósofo Catão, um escravo velho valia menos que um boi velho, pois do boi podia pelo menos ser aproveitada a carne, ainda que dura. O historiador Tácito, falando do massacre de um grupo de escravos, qualificou-os como “vile dannum” (perda de pouco valor). Para o cristianismo nada disso existe, porque somos todos de Cristo, descendentes de Abraão, herdeiros de suas bênçãos. Somos revestidos de Cristo e “transformados nele”. Há uma profunda participação do homem adâmico na nova dignidade de filho de Deus. Esta dignidade do cristão é expressa de modo indicativo, mas quanto ao modo de vivê-la é expressa de modo imperativo. Leão Magno expressa esta dignidade dizendo: “Agnosce, o christiane, dignitatem tuam”. Evangelho: Lucas 9,18-24 PRIMEIRO ANÚNCIO DA PAIXÃO; PEDRO DECLARA SUA FÉ EM JESUS Este trecho situa-se no final das atividades de Jesus na Galiléia (Lucas 4,14-19,50). Em seguida Jesus empreende o longo caminho para Jerusalém, onde será morto e ressuscitado. O texto é composto por três articulações: 1) a confissão de Pedro; 2) a primeira previsão da paixão de Jesus; 3) a “sequela Christi”. Neste contexto, Jesus se encontrava num lugar solitário para rezar. Aqui Lucas destaca a virada fundamental do seu ministério, descrevendo Jesus absorto em oração, assim como quando foi batizado (Lucas 3,21), na escolha dos doze apóstolos (Lucas 6,12), na transfiguração (Lucas 9,28-36) e na paixão (Lucas 22,40-46). As atividades de Jesus estavam chegando ao fim. Jesus ensinou aos seus discípulos e estava para revelar-lhes a sua identidade após a multiplicação dos pães, a partir da qual a multidão queria fazê-lo rei. Diante disto, Jesus perguntou a seus discípulos qual era a opinião do povo a respeito de sua pessoa. O objetivo de Jesus era desbloquear uma situação incompreensível e de crise nos apóstolos, estimulando-os à reflexão. As respostas dos discípulos denotam que o povo não havia descoberto a verdadeira identidade de Jesus, confundindo-o com João Batista, Elias ou outro grande profeta. De fato, o povo esperava a chegada de Elias antes do Messias. Este profeta viveu no século IX a.C. e tinha a função de ser o precursor do Messias (Malaquias 3,23). Até hoje os hebreus rezam: “Senhor, manda-nos o profeta Elias. Manda-o com o Messias Filho de Davi... O seu poder fará reflorir a lei e a sua boca anunciará a boa notícia (a vinda do Messias) que nos livrará das trevas...” Pedro, porém, em nome de seus companheiros, responde que Jesus é o Messias, o “Christós”, o mestre profeta que revela com plenos poderes, o ungido de Deus, a presença reveladora de Javé, que com sua palavra ensina quem é Deus e quais são os seus projetos. Como os discípulos ainda eram incapazes de entender a sorte dramática de Jesus, ele lhes impôs silêncio, pedindo que não divulgassem a sua messianidade, que seria entendida em sentido errado, pois esta passava pela cruz. Ao mesmo tempo anunciou-lhes pela primeira vez a sua paixão, para que os discípulos acolhessem pedagogicamente na fé o mistério do Messias crucificado. O messianismo de Jesus é marcado por conflitos com os poderes. Ele teria consciência de seu sofrimento como resultado do confronto com o Sinédrio, os anciãos, os sumos sacerdotes e os doutores da lei (v.23). Estes eram os membros do Sinédrio, o Supremo Tribunal de então. Os anciãos eram aristocratas leigos, latifundiários dados ao dinheiro. Formavam o núcleo central do partido dos saduceus e defendiam uma religião materialista. Os sumos sacerdotes formavam a aristocracia sacerdotal. Eram os detentores dos mais elevados graus da hierarquia sacerdotal, cujo primado era o sumo sacerdócio. Também eles pertenciam ao partido dos saduceus. Eram os donos do poder. Os doutores da lei também eram membros do Sinédrio e na sua grande maioria pertenciam ao partido dos fariseus. Eles eram os donos da verdade. Tal revelação perturbadora sobre a sorte de Jesus comportava uma seqüela: o discípulo não podia contentar-se em conhecer a verdade sem comprometer-se com a paixão de Jesus. Para entender o sentido salvífico de impor uma “sequela Christi” no caminho do Calvário e um tal percurso exige-se carregar a cruz, renegando a si mesmo, aceitando a tribulação cada dia. Jesus explica aos discípulos que deve ser morto e sofrer muito. O verbo “dei” do grego denota uma necessidade que faz parte do desígnio divino. Ele deve enfrentar as estruturas da morte na qualidade de “Filho do Homem”, ou seja, em sua fragilidade, sem recursos do alto ou extraordinários. O título “Filho do Homem” expressa Jesus em sua humildade (Daniel 7,13-14; Isaías 52,13-53). REFLEXÃO Jesus é o Cristo, tradução grega da palavra hebraica Messias (“Mashiàch”), personagem de quem o Antigo Testamento fala muito em seus múltiplos gêneros literário (narrações, histórias, oráculos dos profetas, hinos, poesias, festas, orações...) e através de vários títulos (Filho do Homem, Filho de Davi, bom pastor, Filho de Deus, Salvador...), identificado com os grandes personagens da Bíblia (Elias, Moisés, Davi...). Portanto, os evangelhos explicitam a verdadeira identidade de Jesus como os primeiros cristãos o identificaram através de categorias ricas em imagens, simbolismos... Coisa que hoje não percebemos muito devido ao nosso racionalismo, onde o sacro se explica pela razão e pela ciência, ou então não passa de magia, obscurantismo, engano... O que Jesus representa hoje para nós? Ele nos enriquece? Incomoda-nos? Empobrece-nos? Dá-nos serenidade? Alegria? Ou é um personagem, uma fábula, ou alguém que é necessário para se conhecer o verdadeiro sentido da vida, do ser? Do existir? Ele é uma realidade que só tem valor para as crianças? Velhos? Ou também para mim? Jesus não se contenta com a resposta impulsiva de Pedro e o conduz a uma reflexão mais profunda. Em relação ao texto de Zacarias, uma releitura de João 19,37 nos dá condição de conhecer melhor o pensamento do profeta. A liturgia nos convida a contemplar Cristo crucificado de cujo lado aberto pela lança saiu sangue e água. Jesus morre para manifestar a todos o imenso amor do Pai que sacrifica o seu Filho para a salvação dos homens: “Desprezado e rejeitado pelos homens, ele carregou as nossas dores...” (Isaías 53,3-5). Jesus fez a primeira predição de sua paixão e morte aos discípulos depois da profissão messiânica de Pedro. Sua glória pascal é conseqüência de sua oblação na cruz em filial e heróica adesão à vontade do Pai. Deus não quer “capturar” o homem com o esplendor de sua potência, mas trazê-lo a si com a demonstração suprema de sua bondade infinita através da elevação à cruz de seu Filho. Ele é o Cordeiro imolado que resgata com seu sangue todos os homens, constituindo-os num reino de sacerdotes (Apocalipse 4,10). Jesus não é o Messias vencedor dos povos e dominador, como os judeus esperavam. Sua realeza realiza-se na cruz, onde se revela plenamente a verdade do Pai, ou seja, o seu amor infinito pelos homens alienados pelo pecado. Do seu peito aberto, a alma que tem sede do Deus vivo (Salmo 62) pode chegar à fonte inexaurível da água para a vida eterna (João 4,13; 7,37-39). A abertura do coração de Cristo pela lança que fez jorrar sangue e água é o símbolo dos sacramentos da Igreja. São João Crisóstomo diz: “Esta água e este sangue eram símbolos do Batismo e dos mistérios eucarísticos. Ora, é destes dois sacramentos que nasceu a Igreja, por esse banho de nascimento e pela renovação, produzida pelo Espírito Santo. Os símbolos do Batismo e dos mistérios eucarísticos saíram do lado de Cristo. Em conseqüência, é do seu próprio lado que Cristo formou a Igreja, como Eva foi formada do lado de Adão”. Pelo Batismo somos revestidos de Cristo, morremos para o pecado, somos sepultados com ele, somos enxertados nele, completamente unidos a ele para participar de sua ressurreição (Romanos 6,3-5). Por isso, enquanto membro de Cristo, o cristão deve “completar o que falta aos sofrimentos de Cristo” (Colossenses 1,24) ou seja, partilhar suas provas, associar-se aos seus sofrimentos. Para o povo que havia escutado Jesus, visto seus milagres, Jesus se apresenta em uma imagem sublime. Por isso, na mente do povo passava a idéia dos grandes personagens do Antigo Testamento e, assim, ele exprimia sua admiração e estima por Jesus. Mas para os discípulos Jesus é algo mais, é o “Cristo Filho de Deus”, uma resposta justa, mas não completa, pois esta poderia ser mal interpretada dando a Jesus uma imagem triunfalista, distorcendo o sentido de sua missão. Por isso, Jesus completou a resposta dos discípulos dizendo que ele devia ir a Jerusalém, sofrer muito nas mãos dos anciãos e sumos sacerdotes, ser morto e ressuscitar. Pedro assustou-se com essa declaração, tomou Jesus à parte e começou a admoestá-lo, mas Jesus completou que se alguém quisesse segui-lo devia tomar sua cruz. Ao longo dos séculos os homens sempre se perguntaram quem é Jesus e deram respostas diferentes, algumas errôneas, outras incompletas, outras abordando seus interesses (cf. Jesus, o infinito presente na história dos homens). Jesus crucificado e ressuscitado, eis a sua verdadeira identidade. Jesus deixou claro que não era o messias político que os discípulos imaginavam, e para evitar equívocos substituiu o termo Messias pelo título Filho do homem, mais próximo da figura do Servo Sofredor, ou do “transpassado” anônimo da primeira leitura de hoje. Por isso, para ser seu discípulo, é preciso carregar a cruz. Quem é o Cristo para mim hoje? Não uma figura do passado, que viveu na Palestina há 20 séculos, mas uma pessoa viva, próxima, ressuscitada, que vive na comunidade. É aquele que optou pelos pobres e marginalizados da sua sociedade, que anunciou a presença do Reino de Deus em sua pessoa, testemunhou a verdade, denunciou uma religião corrompida pelo formalismo dos escribas e fariseus... padre José Antonio Bertolin, OSJ |
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Na segunda leitura, o tema da lei mosaica como desnecessária e abolida depois da vinda de Cristo, pois a fé nele é o que justifica diante de Deus, é o problema básico da carta aos Gálatas, que Paulo responde aos judeu-cristãos, que não conseguiam se desprender das formas judaizantes e que viam com receio a doutrina e a práxis do apóstolo. Por isso, depois de afirmar a função transitória e pedagógica da lei, Paulo firma a passagem da realização atual das promessas para a vinda de Cristo e na fé do Evangelho. Cristo é o acontecimento decisivo da história da salvação; pela fé nele e pelo batismo todos somos constituídos em filhos de Deus, quer dizer, somos justificados. Ao dizer todos Paulo acentua que não somente os judeus, como também as demais raças e povos. Quanto ao Evangelho, pode ser dividido em três partes: 1. A confissão messiânica de Pedro (vv. 18-21); o primeiro anúncio da Paixão (v. 22); Lucas omitiu a reprimenda que Jesus dirige a Pedro, quando este, diante do anúncio da Paixão, se opõe a ela; 3. As condições para o seguimento de Cristo (vv. 23-24). Lucas é o único que nota significativamente a oração de Jesus que precede a confissão de messianidade e o anúncio da Paixão (v. 18). Como a figura do Messias na mente dos apóstolos estava permeada de triunfalismos terrenos, Jesus os educa nesse grande mistério do Reino: sua própria Paixão e Morte (v. 22). Continua finalmente uma passagem que nos recorda o discurso apostólico de Mateus 10: condições que Jesus pede a seus seguidores: abnegação, disponibilidade absoluta e sofrimento afetivo (vv. 23-24). Se queremos seguir Jesus, temos que aceitar suas condições e entendê-las como ele as entende. Negar-se a si mesmo equivale a “não ter nada que ver” com a pessoa da qual se renega. Negar-se a si mesmo é descentrar-se, não ser já o centro de seu próprio projeto. É colocar a vida inteira a serviço do outro, neste caso, o projeto de Jesus. A isto Jesus o chama a perder a vida por ele. E quem consegue realizar isto, “ganhará”, salvará sua vida. A condição que põe Jesus para segui-lo não pretende tirar valor, mas orientar nossas energias e valores para a construção do Reino que ele iniciou negando-se, também ele, a si mesmo, para cumprir em tudo a vontade do Pai. Em que consiste carregar a cruz? Acaso é supor tudo sem reclamar como se toda contrariedade fosse mandada por Deus mesmo? É submeter-se à dor pela dor, como se a dor fosse um valor em si mesmo? Se a entendemos assim, não tem nada que ver com a condição que Jesus coloca para que sigamos seus passos. Jesus quer dizer que todos os discípulos têm que estar dispostos a viver da mesma maneira que ele viveu, mesmo sabendo que este estilo de vida pode acarretar a perseguição e talvez a morte. Essa é a cruz de Jesus e também deve ser a nossa. Não inventamos cruzes à maldade, não as buscamos nem nos preocupemos demais por elas. Sigamos os passos de Jesus e outros colocarão as cruzes em nossos ombros, antes mesmo que o pensemos. Negar-se a si mesmo é carregar a cruz equivale a fazer seu, cada um de nós, o caminho de Jesus. Ele se negou a tomar o poder, a forca e a fama como meios para servir e salvar os homens. Jesus escolheu o único caminho que conduz ao coração do homem: a solidariedade com todos os excluídos da terra. Este foi o caminho de Jesus e este tem que ser nosso caminho se queremos estar com ele e segui-lo. Tentar seguir Jesus no comodismo, na falta de compromisso, no pacto com os poderosos, ainda que possa parecer muito razoável, é um caminho falso. É “pensar como os homens e não como Deus”. www.claretianos.com.br |
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Na liturgia de hoje nós refletimos que Jesus vive um dos seus grandes momentos de intimidade com Deus, talvez refletindo sobre o sentido dos sinais messiânicos que lhe é dado fazer. Quer conscientizar seus discípulos daquilo que o Pai lhe faz ver. Pergunta quem, na opinião dos homens, ele é; e, depois de respostas aproximativas, que poderia ser João Batista ou Elias, pergunta também por quem os discípulos o têm. Pedro se torna porta-voz dos seus companheiros e diz: “Tu és o messias de Deus”. Jesus manda Pedro guardar esta intuição para si e explica por quê: o Filho do Homem deve sofrer e morrer, mas também ser ressuscitado. O povo ainda não entenderia isso. Só o entenderão depois de o ter transpassado, o que não deixa de ser mais um cumprimento das Escrituras, ou seja, da estranha lógica de Deus. Pois Jesus é o ponto final e a plenitude de toda uma linhagem de profetas rejeitados, messias assassinados, e de todos os servos e pobres de Deus. A pedagogia de Deus, que consiste em converter o homem não pela força, mas pelo exemplo do amor até o fim, atinge a plenitude em Jesus de Nazaré. Na primeira leitura (cf. Zc. 12,10-11) não se sabe quem foi, historicamente, o “transpassado” de Zacarias 12. Foi um profeta, um “pastor”. Foi um mártir: sua morte significou uma catástrofe para o povo, mas também um novo início, conversão e volta a Deus. A liturgia de hoje relaciona este texto com a predição da Paixão de Jesus. Na segunda leitura (cf. Gl. 3,26-29) observamos a superação de todas as discriminações em Cristo. Jesus é o fim da Lei. Nele se cumpre a promessa feita a Abraão. Nele são benditos todos os povos da terra, judeus e gentios: “todos” pela fé e o batismo, tornam-se semelhantes ao Filho, sendo eles mesmos filhos e co-herdeiros. Todas as diferenças tornam-se irrelevantes. Só o Cristo importa. Na comunhão em Cristo, já começam a desfazer-se as diferenças que dividem os homens. Naquele tempo comentava-se que Jesus provinha de família pobre, que não fizera estudos especializados, mas ensinava coisas sábias, cheias de sentido, e com autoridade. Havia quem o julgasse um demagogo, outros um agitador. Na verdade, entretanto, ele fugia dos aplausos políticos. Alguns o acusavam de contestar o domínio romano sobre o país, mas Jesus mandara dar a César o que era de César. Outras viam nela a força do príncipe dos demônios, mas Jesus dava prova de santidade, incompatível com o mal. Acusavam-no de não observar o sábado, nem os jejuns prescritos, de comer com pecadores públicos. Então Jesus veio abolir todo este rigorismo, ou jurisdicismo para anunciar a vida plena, a salvação pela conversão e pela mudança de vida. O comportamento de Cristo no Evangelho de hoje (cf. Lc. 9,18-24) deve ser o comportamento dos homens e das mulheres que seguem o Ressuscitado: a atitude de conversão, de mudança de vida e de busca da santidade. Os Apóstolos que conviviam com Jesus sabiam que ele era homem como eles, mas envolto em mistério. E o mistério tinha a ver com o divino. Todos conheciam a família de Jesus, mas suas palavra era maior que a doutrina dos rabis. Pedro expressou o que eles pensavam: era o Cristo, o enviado de Deus. Era preciso, aos poucos, que eles se convencessem de que o Cristo, o ungido de Deus, viera para restaurar a integridade das criaturas humanas, manchadas e fragmentadas pelo pecado. Era o Cordeiro de Deus que viera tirar o pecado do mundo e cumpriria essa missão, deixando-se pregar numa cruz. Sua morte, longe de ser um fim, tornar-se-ia fonte de graça sobre graça. Era a luz do mundo. Era o Filho de Deus vivo com poder de dar a vida divina a quantos nele acreditassem. Porque Jesus pediu a Pedro que não revelasse que Jesus era o Messias, o Cristo esperado? Isso porque o conceito de Messias, tanto na cabeça do povo quanto na cabeça dos doze apóstolos estava intimamente ligado à idéia do restabelecimento do Reino de Israel, como o único povo de Deus, plantando no coração do mundo. E o povo andava convencido de que isso só poderia acontecer através de uma revolução armada. Jesus precisava mudar esta mentalidade, porque o seu reino não era deste mundo, e era e é o Reino da paz, da partilha, da misericórdia, da acolhida, do perdão e do amor. Jesus não podia morrer antes da hora, por isso era preciso calar a Pedro e seus companheiros. Deveriam primeiro ser testemunhas do ministério de Cristo, de seus ensinamentos, dentro de uma missão de retiro, um período de humildade e reclusão. O Cristo Ressuscitado é que é o Senhor. Páscoa que ele revela a plenitude de sua divindade salvadora. O Messias se revela pelo sofrimento da Paixão redentora, que ele anuncia depois de impor silêncio aos discípulos. Vencer a morte pela morte é a manifestação como o Cristo de Deus. Todo mundo sabe que existem distinções e, muitas vezes, discriminações no tratamento das pessoas. O que fazemos com isso na Igreja, na comunidade de Cristo? São Paulo, na segunda leitura de hoje, anuncia a igualdade de todos no sistema do senhor Jesus. Acabou o regime da lei judaica, que considerava o ser judeu um privilegio, por causa da aliança com Abraão e Moisés. A crucificação de Jesus, em nome desse regime antigo, marcou a chegada de um regime novo. Simplesmente observar a lei de Moisés já não é salvação para quem conhece Jesus, para quem sabe o que ele pregou e como ele deu sua vida por sua nova mensagem e por aqueles que nela acreditassem. Eles constituem o povo da Nova Aliança. São todos iguais para Deus, como filhos queridos e irmãos de Jesus – filhos com o Filho e co-herdeiros de seu Reino, continuadores do projeto que ele iniciou. Não há mais judeu, nem grego, nem escravo, nem livro, nem homem e nem mulher. Não há mais rico ou pobre, analfabeto ou doutor: todos, todos, indistintamente são igualmente filhos de Deus pelo batismo. É preciso perder a sua vida, renunciar ao pecado, para encontrar o rosto sereno e radioso de Cristo ressuscitado. Quem se apega aos seus privilégios não vai encontrar a vida em Cristo. Só quem coloca suas vantagens a serviço dos irmãos, especialmente dos mais pobres, poderá participar da vida igual à de Cristo, na comunidade dos irmãos. O resumo é simples: é tomar a cruz todos os dias e seguir a Jesus. É perder a vida por causa de Cristo para que Cristo nos salve. padre Wagner Augusto Portugal |
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Mas, Jesus, pergunta aos discípulos, pergunta a nós: “E vós, quem dizeis que eu sou?” A resposta de Pedro é perfeita, é completa: “Tu és o Cristo, o Ungido, o Messias de Deus”. Esta resposta não veio da lógica humana, da inteligência ou da esperteza de Pedro. Em Mateus, Jesus afirma-o claramente: “Bem-aventurado és tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi carne ou sangue que te revelaram isso, e sim o meu Pai que está no céu” (Mt. 16,17). A afirmação do Senhor é clara, direta e gravíssima: carne e sangue, isto é, a só inteligência humana, não pode alcançar quem é Jesus! Somente na revelação do Pai, isto é, somente na experiência da fé da Igreja, nós podemos ter acesso ao mistério de Cristo, à sua realidade profunda. Portanto, não nos deve surpreender se o mundo tem dificuldade de crer realmente, de aceitar seriamente o Cristo e as exigências do seu Evangelho! Não devemos nos importar muito com o que as revistas e as ciências (história, sociologia, antropologia...) dizem a respeito de Jesus. Elas não conseguem penetrar no núcleo do seu mistério; ficam sempre no limiar, na soleira. Então, é na escuta fiel e devota da Palavra, na oração pessoal, na vida da comunidade eclesial, no empenho sincero e sacrificado de viver o Evangelho com suas exigências e, sobretudo, na celebração dos santos mistérios que podemos fazer uma experiência autêntica de quem é Jesus. Não cremos simplesmente no Jesus que a ciência ou a história podem apreender; cremos no Cristo crido, adorado, experimentado e anunciado pela Igreja, a partir do testemunho dos apóstolos! Mas, tem mais! O núcleo do mistério de Cristo é o mistério de sua cruz. Observe-se bem: assim que Pedro afirma que Jesus é o Messias, ele precisa, esclarece que tipo de Messias ele é: "O Filho do homem deve sofrer muito, ser rejeitado... deve ser morto e ressuscitar ao terceiro dia”. Somente na cruz o discípulo pode reconhecer em profundidade o seu Senhor. Mas, a cruz não é um teoria; é uma realidade em nossa vida e na vida do mundo: a cruz da solidão, do fracasso, da doença, das lágrimas, da pobreza, da morte... Somente quando abraçamos na nossa cruz a cruz de Cristo, podemos, então, compreendê-lo: “Se alguém me quer seguir, quer ser meu discípulo, renuncie a si mesmo, tome sua cruz cada dia, e siga-me!” Fora da cruz, fora do seguimento de Cristo até o fim, não há verdadeiro conhecimento do Senhor, não há a mínima possibilidade de uma verdadeira comunhão com ele. São Paulo nos emociona, quando afirmou: “O que era para mim lucro eu o tive como perda, por amor de Cristo. Mais ainda: tudo eu considero perda, pela excelência do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor. Por ele, eu perdi tudo e tudo tenho como esterco, para ganhar a Cristo e ser achado nele.. para conhecê-lo, conhecer o poder da sua ressurreição e a participação nos seus sofrimentos, conformando-me com ele na sua morte, para ver se alcanço a ressurreição” (Fl. 3,7-11). É preciso que rejeitemos claramente um cristianismo bonzinho, almofadinha, burguês, bem comportadinho, que agrade ao mundo! O cristianismo é radical, é escandaloso, na sua essência, é incompreensível ao mundo “A linguagem da cruz é loucura para aqueles que se perdem!” (1Cor. 1,18) – Será que não andamos meio esquecidos disso? E, no entanto, “para aqueles que se salvam, para nós, é poder de Deus” (1Cor. 1,19). Na fé, contemplamos a cruz do Senhor, tão dura para ele e para nós, e vemos nela a fonte de purificação e de vida de que fala a primeira leitura da missa de hoje. Do coração amoroso e ferido do Cristo, brota a vida do mundo e o sentido último da nossa existência. As palavras são impressionantes: “Derramarei um Espírito de graça e de oração... Eles olharão para mim. Quanto ao que traspassaram, haverão de chorá-lo, como se chora a perda de um filho único, e hão de sentir por ele o que se sente pela morte de um primogênito. Naquele dia, haverá uma fonte acessível para a ablução e a purificação”. Eis o escândalo: não cremos na tocha olímpica, não cremos que a globalização trará a salvação, não cremos que a ciência salve o ser humano dos demônios e monstros do seu coração, não cremos que a tecnologia nos faça mais felizes, não cremos que o esporte traga a paz universal, não esperamos que o prazer e o poder nos saciem o coração! Não somos idólatras para a perdição! Cremos que Jesus é o Cristo; cremos que pela sua encarnação, cruz e ressurreição ele nos deu uma vida nova, uma torrente de vida na potência do seu Espírito Santo. Cremos que Jesus é a nossa verdade, o nosso caminho e o sentido último da realidade. Por isso nele fomos batizados, dele nos alimentamos e nele queremos viver. Quando levarmos isso a sério, seremos cristãos e iluminaremos o mundo. Que o Senhor no-lo conceda por sua misericórdia. dom Henrique Soares da Costa |
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O livro do profeta Zacarias pode ser dividido em duas partes. A primeira dos capítulos 1-8, escritos por volta do ano 520 a.C., quando a comunidade recém-chegada do Exílio tenta reconstruir suas bases de fé e vida social. O profeta reanima a esperança do povo insistindo que Deus está presente na vida deles para realizar seu projeto. A segunda parte do livro, chamada "Segundo Zacarias" ocupa os capítulos 9-14. Foi escrita numa linguagem apocalíptica uns 200 anos depois da primeira. É do tempo da dominação grega, depois de Alexandre Magno. Mostra o futuro do povo, apontando para o caminho de unidade e salvação. Como? Através da realeza de Javé e da destruição de todo tipo de idolatria. Isto vai acontecer através de uma profunda purificação. O texto de hoje aponta o roteiro para a purificação da idolatria. a) O reconhecimento de que só Deus é absoluto (v.10a) Derramando sobre o povo um "espírito de graça e súplica" Javé conseguirá do povo o reconhecimento de sua soberania (olharão para mim), através do arrependimento e conversão. b) O reconhecimento do pecado de idolatria (v.10b) Quem é o "transpassado" sobre o qual se chora como se fosse o filho único? Seria o próprio Deus que se sente transpassado na pessoa de seu primogênito? Poderia ser uma referência a um Messias sofredor, talvez ao rei Josias (apresentado aqui como símbolo do povo exilado), morto na batalha de Meguido em 622 a.C. Jo 19,37 aplica esta passagem a Jesus transpassado na cruz. Para outros estudiosos se trata do povo de Israel, que, lamentando sua idolatria que o destruía, se volta arrependido para Javé. O v. 11 faz referência a um rito de lamentação lembrando o que aconteceu por ocasião da morte do rei Josias (cf. 2 Rs 23,28ss). c) A luta permanente (13,1) A purificação não se faz com um só gesto, mas através de um processo contínuo. Por isso o texto fala simbolicamente que em Jerusalém haverá uma fonte para lavar o pecado e a impureza do povo. 2º leitura - Gl. 3,26-29 A salvação vem pela fé - fruto da promessa Paulo vem mostrando que a salvação se dá pela fé e não pela Lei. A salvação é fruto de uma promessa de Deus a Abraão, por ocasião da Aliança. A Lei veio bem mais tarde com Moisés, de modo provisório, veio como pedagogo que nos conduziu a Cristo. O papel do pedagogo era, através de uma educação rigorosa, levar a criança à maturidade. Essa maturidade chegou com Jesus Cristo. Portanto a Lei já cumpriu seu papel com a chegada de Cristo. Ela não tem mais sentido. A promessa feita a Abraão se realizou em Jesus Cristo. Temos uma nova identidade Pela fé em Jesus Cristo e pelo batismo nos tornamos filhos de Deus (v. 26) e nos revestimos de Cristo (v. 27). A imagem da veste mostra nossa nova identidade: agora somos cristãos, isto é, identificados a Cristo - um só com ele (v. 28). Somos, portanto, uma família de irmãos, onde qualquer distinção e diferença perdeu sentido. Esta é a grande consequência da nossa nova identidade - a identidade cristã. As discriminações do mundo antigo Os judeus discriminavam os não-judeus. Os pagãos eram chamados de cães pelos judeus por causa da impureza. Entre os gálatas os pagãos convertidos estavam sendo considerados cristãos de segunda classe. Os gregos distinguiam as classes sociais; as mulheres estavam num plano inferior e os escravos eram vistos como mercadorias. Os romanos também consideravam os escravos como bens do patrão. Poderiam ser vendidos ou comprados. Agora tudo mudou Agora podemos perceber a força revolucionária do v. 28: não há mais diferença de raça, de classe ou sexo. Somos um só em Jesus Cristo. E, portanto, descendentes de Abraão e herdeiros conforme a promessa (v. 29). Antes eram só os judeus que se consideravam filhos de Abraão e herdeiros da promessa. O resto era considerado escravo sem herança. Agora tudo mudou. Somos filhos e herdeiros através do batismo que nos identifica com Cristo. Evangelho – Lc. 9,18-24 A Identidade e missão de Jesus Jesus está no fim de sua atividade na Galiléia. Daqui a pouco iniciará sua caminhada para Jerusalém, onde realizará sua missão dando a vida por todos nós. Os momentos decisivos da vida de Jesus são sempre precedidos da profunda oração (v. 18). Jesus primeiro quer saber a opinião do povo sobre ele. São várias: João Batista, Elias, um profeta ressuscitado. Jesus está bem conceituado entre o povo. Mas isto não basta. Dos discípulos Jesus quer mais que uma opinião; quer uma opção definida e comprometida. Em nome dos discípulos Pedro define. Tu és o Messias de Deus. Jesus aceita esta definição, mas para levar os discípulos a uma opção de vida, ele vai primeiro proibir que eles divulguem essa verdade que para os discípulos ainda está carregada de messianismo político e triunfalista, ligado a uma vitória definitiva de Israel sobre os adversários dominadores. Em seguida Jesus esclarece sua identidade e missão. É o primeiro anúncio da paixão (v. 22): Jesus deve sofrer, ser rejeitado, ser morto e só depois deve ressuscitar glorioso. Jesus se identifica não com um Messias triunfalista, mas com o servo sofredor que se oporá aos donos do dinheiro (anciãos), aos donos do poder (os chefes dos sacerdotes) e os donos da verdade (os doutores da Lei ou escribas). Seu ensinamento e sua prática são contrários aos que dominam, discriminam, exploram e excluem. Por isso será perseguido e assassinado, mas Deus o ressuscitará. A identidade e missão dos seguidores de Jesus É diferente? Não. Os discípulos se identificam com o Mestre no ser e na missão. Jesus apresenta 3 condições para seus seguidores. Primeira: renunciar a si mesmo, ou seja, não ambicionar ser dono do dinheiro, do poder e da verdade. Segunda: tomar a sua cruz cada dia. Isto significa assumir a sua identidade e missão cristã à semelhança do mestre, sem medo da perseguição e da morte. A cruz simboliza dificuldades, desafios e sofrimentos de cada dia. Terceira: seguir a Jesus. Aqui temos a síntese da identidade e do compromisso cristão. A expressão seguir Jesus é sinônimo de ser discípulo. Implica em "caminhar para Jerusalém" enfrentando riscos, hostilidades, perseguições e morte. O v. 24 ganha sentido com a expressão "por causa de mim". Morrer com Jesus significa também ressuscitar com ele. dom Emanuel Messias de Oliveira |
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Este trecho do profeta Zacarias, bastante misterioso, se refere a uma pessoa ferida de morte, supostamente em Jerusalém. 0 que há de impressionante é o arrependimento que se abaterá sobre os assassinos, graças a intervenção de Deus, que "derramará sobre todo habitante de Jerusalém, um espírito de graça e de súplica". 0 arrependimento deles vai ser tão intenso que vão chorar a morte daquela pessoa que mataram como se chora a morte de um filho único (cf. Zc. 12,10). Quem foi essa pessoa e por que a mataram, não se sabe. Contudo, a teologia do Novo Testamento interpretou essa passagem como uma profecia messiânica referindo-se seja à multidão que contempla Jesus Cristo perfurado pela lança, na cruz (cf. Jo 19,37), seja aos ímpios no dia do juizo final (cf. Ap. 1,7). Retrata, portanto, o remorso que se abaterá, no dia do juizo final, sobre todos aqueles que, na terra, rejeitaram Cristo. Esta leitura utilizada também ria liturgia da Semana Santa, no contexto da Paixão, nesta parte do ano, em que a comunidade cristã é chamada a meditar sobre a vida segundo o Espírito e a caminhada da Igreja de Pentecoste rumo à segunda vinda do Senhor (Parusia), serve para reafirmar que o Evangelho de Cristo crucificado, razão da existência da comunidade cristã, é de uma solidez tão inabalável e de uma agudeza tão penetrante que é capaz de amolecer os corações mais endurecidos, levando-os ao arrependimento e à colhida da verdade que liberta (cf. Jo 8,32). 2ª leitura: Gl. 3,26-29 Continuando a leitura da carta aos Gálatas, passamos da longa discussão sobre a justificação para um tema que podemos compreender mais facilmente: a unidade dos batizados na Igreja que supera todas as barreiras de nacionalidade, etnia, status social e sexo. Mas São Pauto não poderia ter escrito esta belíssima passagem se não a tivesse embasado, antes, expondo a justificação pela fé em Jesus Cristo. Tais barreiras foram superadas somente porque o batismo é o sacramento da justificação, não porque foram declaradas indiferentes ou sujeitas à má interpretação. É somente quando se recebe o perdão da justificação realizada pelo batismo que essas diferenças reais de natureza, história e cultura são superadas. A "unidade" proclamada por São Paulo, como superação de toda diferença, é uma verdade "escatológica", compreensível somente à luz do "evento Jesus Cristo". Evangelho: Lc. 9,18-24 "E vós, quem dizeis que eu sou?" Jesus interroga os discípulos sobre o que as pessoas pensam dele e estes lhe respondem que uns pensam que ele é João Batista; outros, Elias ou algum dos antigos profetas. Jesus, porém, dirige a pergunta a seus discípulos: "E vós, quem dizeis que eu sou?". Não são mais as pessoas a interrogarem-se sobre Jesus, mas é próprio Jesus que interroga seus discípulos. É essa interrogação, de fato, que constitui o discípulo: não coloca Jesus em questão, mas deixa-se questionar por ele. Jesus pergunta e o discípulo responde! Enquanto formos nós a perguntar, nunca teremos resposta sobre a sua novidade, pois respondemos sempre segundo as nossas obviedades. Com efeito, a pergunta contém, por antecipação, a resposta. É necessário calar a nossa pergunta para ouvir a sua. Cessa, assim, a nossa resposta e estamos em condições de acolher a sua. Mesmo que Pedro, em nome de todos, responda que Jesus é o "Cristo de Deus", sua esperança é ainda mais conforme aos desejos do homem do que às promessas de Deus. Este, porem, cumpre as suas promessas e não os nossos desejos. Por isso, Jesus como "Cristo de Deus" decepcionará as esperanças messiânicas do homem. É por isso que à declaração de Pedro Jesus acrescenta imediatamente uma correção: ele é o Messias que passa pelos sofrimentos da Paixão. 0 mistério da cruz como caminho para a vida é o específico de seu messianismo. E o pensamento de Deus oposto ao pensamento do homem. Os discípulos entenderão isso só após a Páscoa. As tentações que Jesus enfrentou por si no deserto e vencerá na cruz, agora, estão no coração dos discípulos e da Igreja. A cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo tem o poder de exorcizar porque expulsa a tentação satânica de fazermos um Cristo segundo os nossos moldes e nos revela o verdadeiro rosto de Cristo e nosso: Cristo é Aquele que necessariamente passa pela cruz e discípulo é aquele que o seque nesse caminho. E esse caminho tem método e meta bem precisos: renunciar a si mesmo, tomar a própria cruz e perder a própria vida. A formulação parece toda centrada sobre o negativo, mas a sequência lhe dá a tonalidade positiva: "Quem quiser ganhar a sua vida vai perdê-la, mas quem perder a própria vida por causa de mim e do Evangelho, vai salvá-la" Assim, se afirma a positividade da formulação: perder é condição fundamental para ganhar. De fato, o maior obstáculo nesse caminho é o próprio "eu" que busca, a todo custo, impor-se e autopreservar-se, na falsa crença de que isto é um ganho. Aliás, este é o pecado radical que seduziu os primeiros representantes do gênero humano (cf. Gn. 3,1ss) e aquilo que pensavam ser um ganho, se revelou para eles como a mais radical das perdas. É por isso que São Pauto afirma: "0 que era para mim lucro eu o tive como perda, por amor de Cristo. Mais ainda: tudo eu considero perda, pela excelência do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor. Por ele eu perdi tudo e tudo tenho como esterco, para ganhar a Cristo" Este é o homem novo, pós-pascal que entendeu a sublimidade e excelência do amor de Cristo. De fato, esta é a palavra: Amor. 0 destino de toda pessoa se joga em torno dessas quatro letras, isto é, da experiência do Amor. E talvez nenhuma palavra seja tão mal compreendida como esta. Fala-se de amor a torto e à direita. Está sempre na boca dos artistas das telenovelas e nas linhas dos romances. Mas o amor de que Jesus Cristo nos fala é muito diferente. É o mandamento novo que nos deu (cf. Jo 13,34-35). Este "Amor-mandamento-novo" consiste em sair de si e estar em quem se ama, Portanto, este Amor é próprio de quem está "fora de si". De fato, os parentes de Jesus, um dia, queriam prendê-lo porque estava "fora de si" (cf. Mc 3,21). Consideravam Jesus um anormal, mas sua anormalidade era sua normalidade: ele estava sempre "fora de si", isto é, não estava amarrado a um "eu" pequeno e mesquinho que não vê além do próprio umbigo; por isso, estava livre para amar com um Amor que é, de fato, um mandamento novo, uma novidade absoluta. Tal Amor é a realização plena do homem, pois foi dele, nele e para ele que o homem foi criado. Portanto, o negar a si mesmo que Jesus nos propõe não é um aniquilar-se, mas um aniquilar a morte que trazemos dentro em nós confundindo-a com a Vida. É um afirmar a nossa verdadeira vida como liberdade e Amor, à imagem e semelhança dAquele que nos amou por primeiro, nos criou e nos redimiu por seu imenso Amor. Tornar a própria cruz e seguir Jesus, portanto, é `sair de si" para amar como ele amou. Este sair de si é uma cruz muito pesada, porque se trata de desapegar-se do próprio eu que é fascinado, seduzido por si mesmo; na hora de alçar o voo para liberar-se de si próprio, dispara nele urna sensação de medo de perder que o faz precipitar-se no próprio abismo, voltar ao próprio vômito, como dizia São Francisco. É por isso que São Paulo diz que fomos vendidos como escravos ao pecado (cf. Rm. 7,14). É também por isso que São Francisco de Assis dizia que a maior graça que Deus pode conceder a uma pessoa é vencer-se a si mesma. frei Aloísio de Oliveira OFM Conv |
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A árdua tarefa dos libertadores Durante uma animada discussão no templo, Jesus declara aos Judeus: Se o Filho vos libertar, sereis realmente livres.» Para quem estava convencido de ser descendência de Abraão e nunca ter sido escravo de ninguém, estas palavras soaram como uma provocação intolerável. Começaram por recorrer ao insulto: «Não temos nós razão ao dizer que és um samaritano e que tens demônio?», depois passaram à violência: «Então, agarraram em pedras para lhe atirarem. Mas Jesus escondeu-se e saiu do templo» (Jo 8,31-59). O que mais surpreende neste episódio é o que se afirma no versículo introdutório: os opositores de Jesus não eram os inimigos, mas aqueles que tinham acreditado nele (Jo 8, 31). É então possível acreditar em Jesus e não entender e recusar a libertação que Ele oferece. Isto acontece porque às coisas que escravizam (e a algumas destas coisas de modo particular) facilmente se ganha afeição e não se querem deixar. Adaptamo-nos, resignamo-nos, não nos decidimos a empreender um caminho que se prevê demasiado difícil. E se alguém se aproximar para nos ajudar a encontrar uma saída, é afastado com aversão. O desregramento e todas as formas de corrupção moral são facilmente reconhecidos como formas de sujeição. Outras formas de escravidão, pelo contrário, disfarçam-se de condições de liberdade, mostram-se gratificantes (dou alguns exemplos: o apego doentio aos filhos, a certeza de possuir a verdade, a convicção de se ser pessoa de bem, cristão exemplar e irrepreensível. Também o ateísmo prático de quem não quer pôr em causa as próprias escolhas de vida é uma forma de escravidão...). São condições de «não vida», e, no entanto, sentimo-nos incomodados com os libertadores. Se Jesus tivesse combatido inimigos externos com a espada, teria sido reconhecido como libertador, mas Ele convidou «os escravos do pecado» (Rm 6, 20) a se libertarem da sua vida de erro, a matarem em si tudo aquilo que é morte. Não foi entendido. A mesma sorte espera quem continua a sua missão. PRIMEIRA LEITURA Este trecho, extraído do livro de Zacarias, é algo misterioso. Fala de um homem justo e inocente que foi trespassado, e deixa entender que os responsáveis deste crime foram os habitantes de Jerusalém. Mas o Senhor – diz a leitura – logo enviou sobre o povo culpado um profundo sentimento de pena pelo mal cometido. Todos se arrependeram e olharam para aquele que tinham trespassado. Houve um choro desesperado, semelhante ao dos pais que perdem o seu filho único, semelhante ao luto que se põe quando morre um primogénito, semelhante aos gritos desesperados dos camponeses da planície de Meguido quando invocam a chuva ao deus Hadad-Rimon (v. 11). Quem é este homem e porque foi morto? O profeta, que viveu duzentos ou trezentos anos antes de Cristo, referia-se certamente a um fato dramático que aconteceu no seu tempo. Não sabemos mais nada. O que é importante para nós é que o evangelista João reconheceu nesta misteriosa personagem a imagem de Jesus (Jo 19, 37). A Cristo, executado e trespassado na cruz, olham de fato, como ao seu salvador, as pessoas de todo o mundo. O perigo de repetir gestos loucos como aqueles que foram feitos no tempo de Zacarias e no tempo de Jesus pelos habitantes de Jerusalém é sempre atual. Quem se bate pela justiça e pela liberdade, propugna a fraternidade, pede a paz, acaba, inevitavelmente, por ser trespassado. É sempre tarde de mais quando se percebe que aquela pessoa que parecia perturbar a ordem, a calma, a harmonia, as santas tradições, na realidade era um profeta que cultivava os sonhos de Deus. SEGUNDA LEITURA Como reconhecer os batizados? É simples: pela roupa que vestem. O cristão – diz Paulo na leitura de hoje – deve vestir um uniforme, e este não consiste numa batina preta ou vermelha, mas na pessoa de Jesus (v. 37). Na Carta aos Colossenses, o Apóstolo vai explicar com clareza o que quer dizer: vós, batizados «vos revestistes do homem novo, aquele que, para chegar ao conhecimento, não cessa de ser renovado à imagem do seu criador» (Cl 3, 9-10). Olhando para o cristão, ouvindo aquilo que diz, considerando o modo como procura sempre entender, desculpar, ajudar, ir ao encontro de quem errou, observando como ele ama também os próprios inimigos, todos devem poder reconhecer nele a pessoa de Jesus. Paulo continua a sua exortação afirmando que este hábito dá a todos os que o vestem igual valor e dignidade (v. 28). Ele cancela todas as diferenças de classe (escravos e livres), de nacionalidade (Judeus e Gregos) e de sexo (homens e mulheres). EVANGELHO Excluindo os decénios do reino de David e de Salomão, Israel nunca mais desempenhou um papel relevante na cena política internacional da antiguidade. Foi sempre dominado e oprimido pelas grandes nações vizinhas. É nesta situação de constante submissão que deve ser inserida a promessa dos profetas de um messias libertador, nascido da estirpe de David. No tempo de Jesus, a expectativa deste salvador era aguda, impaciente, febril. Os rabinos ensinavam a rezar assim: «Senhor, faz com que surja o filho de David para que reine em Israel. Dá-lhe força para que abata os poderosos injustos e liberte Jerusalém dos pagãos. Possa ele aniquilar os ímpios pagãos apenas com a palavra da sua boca; que estes fujam diante dele.» Para compreender o Evangelho de hoje, é necessário ter presente estas expectativas do povo. O Messias será – pensavam todos – um herói, um guerreiro forte como Sansão, um chefe vitorioso como David, um político inteligente e hábil como Salomão, um rei milagrosamente protegido por Deus como Ezequias. Lucas nota com frequência que Jesus, antes de fazer algum gesto importante ou de dar algum ensinamento particularmente significativo, se recolhe em oração (Lc 3, 21; 5, 16; 6, 12; 9, 28). Também o texto de hoje inicia apresentando Jesus em oração (vv. 18-19). Quer isto dizer que o episódio que se segue deve ser tido como particularmente relevante. Marcos e Mateus ambientam a cena lá para os lados de Cesareia de Filipe (Mc 8, 27; Mt 16, 13). Lucas omite de propósito a indicação do lugar, talvez porque queira que os seus leitores – qualquer que seja a nação a que pertençam – se sintam directamente interpelados pelas perguntas do mestre. Jesus pergunta antes de mais: «Quem dizem as multidões que Eu sou?» Os discípulos ficam um pouco surpreendidos perante uma tal questão, porque Ele nunca tinha dado a impressão de se interessar pelo que se dizia acerca dele. De qualquer modo, respondem: para alguns és o Baptista que voltou à vida, para outros, Elias, para outros ainda, um dos antigos profetas. O povo associa Jesus àquelas grandes personagens que – segundo a tradição dos rabinos – devem preceder a vinda do Messias. É isso que Jesus é para o povo: um precursor. Não o reconhecem como Messias porque não corresponde aos seus critérios: não tem nada do rei vencedor e glorioso que esperam. Portanto, é um precursor, nada mais. O verdadeiro messias deverá ainda vir. Lucas dirige-se aos cristãos das suas comunidades, que reconhecem em Jesus o grande mestre que pregou o amor, a fraternidade, a paz e a justiça. Sabe que o admiram pelas suas escolhas a favor dos pobres, dos últimos, dos marginalizados; sabe que o apreciam pela coragem, pela coerência, pela nobreza de ânimo, pela firmeza diante da morte. Todavia, se estes cristãos ficam ainda fascinados pelos triunfos do imperador de Roma, se acreditam que o futuro está nas mãos dos generais e das suas legiões, se invejam o luxo e o fausto de quem ostenta imensas riquezas, se prestam atenção aos vendedores ambulantes e aos demagogos que pululam por todo o lado no Império, se dão crédito aos propagadores de mitos, então estão a pô-lo entre as grandes personagens da história do mundo, mas nada mais. Também aqueles que vêem em Jesus apenas um fazedor de milagres, alguém a quem se recorre para obter graças ou favores, talvez se não dêem conta, mas na prática também eles o rebaixam ao papel de percursor. A Ele pedem um serviço provisório, enquanto esperam que cheguem os médicos capazes de curar todas as doenças, os cientistas que controlem as forças da natureza e, talvez até – quem o sabe –, descubram o remédio da eterna juventude. Nessa altura, haverá ainda necessidade de Jesus? A segunda pergunta obriga os discípulos a tomar posição de forma inequívoca: «E vós, quem dizeis que Eu sou?» (vv. 20-21). Pedro, em nome de todos, responde: «És o Messias de Deus!» Jesus não o desmente, mas impõe a todos, severamente, de o não divulgarem, de o não referirem a ninguém. A razão desta proibição é simples: as palavras de Pedro são exactas, mas o conteúdo está completamente errado. Jesus sabe qual é o tipo de Messias que passa pela cabeça de Pedro, conhece o sonho que os seus discípulos têm vindo a acalentar: estão convencidos de que basta um pouco de paciência e, um dia (não muito distante), o seu Mestre se decidirá a levar as coisas a sério e, se necessário, recorrerá até ao uso da espada. Será um vencedor. Este messias é diabólico, é o oposto do «Messias de Deus», e, por isso, Jesus não quer que se fale dele até quando os acontecimentos da Páscoa não revelarem a sua verdadeira identidade. Lucas sabe como é fácil os discípulos se enganarem com a pessoa de Jesus, como a lógica deste mundo e o modo de pensar das pessoas se infiltram entre eles nas formas mais enganadoras. Também os cristãos das suas comunidades repetem de forma exacta os artigos do Credo, mas cultivam ideias pouco evangélicas. Lucas quer avisá-los deste perigo mortal. Chegou para Jesus o momento de esclarecer o equívoco do qual os discípulos não conseguem libertar-se. Na terceira parte do Evangelho de hoje, Ele mostra o seu bilhete de identidade: «O Filho do homem tem de sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos, pelos príncipes dos sacerdotes e pelos escribas; tem de ser morto e ressuscitar» (vv. 21-22). São palavras inquietantes: não o espera o triunfo, mas a humilhação; não a vitória, mas a derrota. Como pôde Deus escolher este caminho absurdo? Certamente que não foi porque lhe agradam o sofrimento e a morte. Ele é o Deus da vida. A morte é obra do maligno, isto é, de todas aquelas forças negativas que traba-lham na pessoa. Por que é que o Senhor não fez com que o seu Filho triunfasse? Por que é que permitiu que Ele fosse pregado numa cruz? Deus não condiciona a liberdade das pessoas. Ele revela a sua grandeza e o seu amor, não impedindo que cometam erros, mas servindo-se do seu próprio pecado para construir a sua história de salvação. Em Jesus de Nazaré, Ele mostrou como era capaz de transformar o maior dos crimes numa obra-prima de amor. O caminho de Jesus neste mundo concluiu-se com a morte, com a derrota; mas a última palavra teve-a Deus, que introduziu na vida o seu Servo fiel. A última parte do trecho (vv. 23-24) é uma exortação que Jesus dirige às pessoas de todos os tempos: «Depois, dirigindo-se a todos» – especifica Lucas –, portanto não apenas aos discípulos e às multidões, mas a todos. Acreditar nele não significa declarar a própria adesão a um conjunto de verdades tomadas do cristianismo, mas segui-lo, partilhar o seu destino: «Se alguém quiser vir comigo, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz todos os dias e siga-me.» O Mestre coloca-nos perante uma opção. Não convida a fazer um sacrifício a mais, a procurar sofrimentos, mas exige que deixemos de nos guiar pela procura do próprio interesse e da própria afirmação; pede que deixemos de procurar ser o centro das atenções. Quem quer seguir o Mestre, deve, como Ele, esquecer-se de si mesmo, não se deixar tocar por pensamentos egoístas. Tomar a sua cruz não significa suportar com paciência as pequenas ou grandes contrariedades da vida, e também não é uma exaltação da dor como meio para agradar a Deus. O cristão não procura o sofrimento, mas o amor. A morte na cruz foi para Jesus a consequência das suas escolhas de amor. Ele recusou os princípios, os valores, os parâmetros deste mundo e propôs os das bem-aventuranças. Incomodou, disturbou, inquietou as estruturas, quer religiosas quer políticas; não podia deixar de ser rejeitado, perseguido e eliminado. Os discípulos que tencionam seguir os seus passos não podem esperar aplausos, consenso, a aprovação das pessoas, mas a oposição e a cruz. Lucas – o único entre os evangelistas – insere nas palavras de Jesus o inciso todos os dias. Todos sabem realizar um gesto isolado de generosidade, todos conseguem esquecer-se de si mesmos por um momento. Difícil é manter esta disposição todos os dias. Provavelmente, Lucas quer chamar os cristãos das suas comunidades à perseverança, à constância perante as dificuldades, as provações e as seduções do mundo que os circunda. Fernando Armellini - O banquete da Palavra |
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Tu és o Messias, o Filho do Deus Vivo! Esta afirmação foi feita pelo Espírito Santo, através de Pedro. O evangelho deste Domingo sugere que nos deixemos guiar pelo Espírito. O dono de um coração aberto à Palavra de Deus entende e enxerga melhor, tem a mente sã e os olhos aguçados. Jesus disse: “Quem dizem os homens ser o Filho do Homem?” As respostas foram várias. Também nós, em nossos dias, ouvimos muitas referências a respeito de Jesus. Dois mil anos depois e ainda o chamam de homem excepcional, grande mestre, o maior dos profetas. Muitos o conhecem por diversos títulos, porém, poucos o reconhecem como Verdadeiro Deus. “Quem sou eu para vocês?” Se hoje Jesus nos dirigisse esta pergunta, o que diríamos? Certamente nossa resposta seria igualzinha àquela de Pedro, “Tu és o Messias, o Filho de Deus Vivo!” Sem pestanejar, gritaríamos essa frase feita. Provavelmente, Jesus insistiria para obter uma resposta individual e concreta. Talvez dissesse, “é isso mesmo que você pensa, ou é o que você ouve desde pequenino na catequese, nas homilias e, até mesmo em aulas de teologia?” “Quero saber mais”, diria. “Quero uma resposta lá do fundo do coração: que influência eu exerço em sua vida e quais as mudanças que essa fé trouxe para a sua vida familiar, profissional e comunitária?” Diria ainda, “Só mais uma perguntinha, o que você tem feito para propagar essa verdade?” O que responder? É bom estarmos preparados, pois certamente seremos cobrados. Somos batizados, somos Igreja, e como membros dessa Família temos que evangelizar, gritar com convicção, para que o mundo todo ouça que Jesus, o Verdadeiro Deus, está entre nós. Feliz aquele que acredita e propaga o que o Pai do Céu revelou. Feliz aquele que assume a sua função na construção do Reino. Sejamos pedra, sejamos Pedro, homem de fé que, apesar dos seus momentos de covardia e de fraquezas, sabia humildemente arrepender-se e recomeçar tudo de novo. Não faz muito tempo que o Haiti foi abalado por um terremoto. Em apenas quarenta e cinco segundos, centenas de prédios foram destruídos. Milhares de pessoas morreram, além das que ficaram feridas. Num piscar de olhos, milhares de famílias foram mutiladas. Na preparação para a vida eterna enfrentamos terremotos, tempestades e ventos fortes. Se nossa fé não estiver alicerçada em uma base sólida e apoiada em pedra firme, certamente, tudo vem abaixo. Essa Base Sólida chama-se Jesus Cristo. Sem Ele, uma fração de segundo é suficiente para deixar-nos sob os escombros por toda eternidade. jorgelorente@ig.com.br - www.miliciadaimaculada.org.br |