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1º leitura (2Sm. 12,7-10.13): Deus perdoa ao pecador arrependido
Davi foi ungido para governar o povo de Israel. Deus o
abençoou e o defendeu das armadilhas dos inimigos. Como
escolhido de Iahweh, deveria agir exemplarmente e seguir
os mandamentos. No ápice de seu poder, porém, Davi
esquece-se de servir a Deus e abnegar-se em favor do
povo. Enquanto seus soldados estão em batalha, Davi
permanece tranquilamente em seu palácio, usufruindo de
uma vida mansa e descomprometida. Deixa-se conduzir pela
luxúria e comete a primeira violação grave: adultério
com Betsabeia, a mulher de Urias, general de seu
exército. Ao constatar que ela engravidara, o rei
deixa-se conduzir pelo orgulho e comete a segunda
violação grave: assassinato. Manda que posicionem Urias
no lugar mais perigoso numa guerra contra os amonitas, a
fim de que fosse ferido e morresse. O desrespeito a
esses dois mandamentos da Lei de Deus lhe valeria a
morte (cf. Lv. 20,10 e 24,17). A intervenção do profeta Natã acorda a consciência adormecida de Davi, que reconhece seu pecado e se arrepende com sinceridade. Deus lhe perdoa e o livra da morte. Porém não o livra das consequências provenientes de suas faltas. A responsabilidade dos atos deve ser assumida. O perdão, de todo modo, proporciona a nova oportunidade de entrar na dinâmica do amor de Deus. Davi pode voltar a governar com justiça, respeitando a Lei de Deus e o direito de todas as pessoas à vida digna. O perdão reconduz a pessoa arrependida ao caminho da vontade divina. Evangelho (Lc. 7,36-8,3): Jesus, o rosto misericordioso de Deus O Evangelho de Lucas aprofunda, de maneira especial, o tema da misericórdia. É o caminho que proporciona a inclusão de todas as pessoas na proposta de amor e salvação revelada em Jesus. A casa de Simão, o fariseu, serve de cenário para a mensagem a ser assimilada e jamais esquecida pelas comunidades cristãs. O fariseu convida Jesus para comer com ele, em sua casa. Casa e comida são dois elementos que apontam para o projeto de “comunhão de mesa”. As comunidades primitivas reuniam-se nas casas para atualizar a memória de Jesus, a oração, a partilha da comida e a ceia... Sentar-se à mesma mesa representava a determinação de relacionar-se na igualdade e na fraternidade, sem discriminação de raça, sexo ou classe social, expressando as mesmas convicções religiosas. Este projeto, porém, não foi tão tranquilo. A dificuldade maior se deu na relação entre cristãos de origem judaica e cristãos gentios. Além disso, na época da redação do Evangelho de Lucas, percebe-se forte tendência de discriminar as mulheres, abafando o seu protagonismo na animação das comunidades cristãs. O fato de Jesus aceitar o convite do fariseu demonstra que o mestre não faz acepção de pessoas. Sente-se livre em qualquer ambiente. É portador do amor de Deus que se estende a todos, sem discriminação. Na mesa há outros convivas. Entre eles dificilmente estariam também mulheres. Decerto seriam os amigos de Simão, pertencentes ao mesmo partido farisaico. Estariam, quem sabe, também os apóstolos? A narrativa apresenta uma mulher que aparece de repente e se coloca aos pés de Jesus. Ela é da cidade, sem nome e conhecida como pecadora. Trouxe um frasco de perfume precioso e, entre lágrimas, unge os pés de Jesus, beija-os e enxuga-os com os cabelos. Os detalhes da ação da mulher revelam profundo sentimento de amor e gratidão. Simão, diante do que está vendo, não ousa criticar abertamente a atitude de Jesus, mas em seu coração põe em dúvida a sua qualidade de profeta, pois está acolhendo uma pecadora. A parábola que Jesus conta tem por finalidade desmascarar a atitude de superioridade e arrogância da parte dos que se consideravam justos diante de Deus. Tem endereço certo. A concepção farisaica de justiça divina relacionava-se com o cumprimento das leis. O perdão dos pecados e a salvação estariam condicionados pela observância legalista. Essa segurança que o sistema religioso lhe dava impedia o fariseu de entender e acolher a gratuidade do perdão e da salvação. Somente quem deve muito, isto é, quem tem consciência profunda de seus pecados conseguirá fazer a experiência do amor sem limites de Deus. A mulher pecadora irrompe, sem pedir permissão, naquele ambiente fechado e excludente. Sua atitude faz abrir os olhos para enxergar a presença de Jesus, o Filho de Deus, que vem trazer o perdão e a paz sem atrelamento ao sistema legalista do Templo. Na pessoa e na proposta de Jesus, a mulher se sente contemplada. É acolhida como sua discípula; pode comungar da mesma mesa da Palavra e do Pão; pode fazer parte da mesma Igreja, o Corpo de Jesus. Não é difícil perceber que a narrativa tem uma função de denúncia da exclusão de mulheres que, com muita probabilidade, está em processo na época da redação do evangelho, pelo final do primeiro século. O texto exerce também a função de atualização da proposta de Jesus, que inclui no seu seguimento tanto os homens – os Doze – como as mulheres: Maria Madalena, Joana, Susana e várias outras. Diz delas o que não diz dos Doze: serviam a Jesus com seus bens (cf. 8,1-3). 2º leitura (Gl. 2,16.19-21): A vida nova em Cristo Paulo, com base em sua experiência pessoal, procura anunciar uma de suas descobertas mais profundas: a salvação não provém da observância da Lei, mas do amor gratuito de Deus. Ele sabe o que diz: foi fariseu praticante e, agora, após ser encontrado por Jesus, percebe as coisas de forma totalmente diferente. A cruz de Jesus, para Paulo, é a chave por excelência que permite abrir a mente e o coração para a verdadeira compreensão do desígnio divino. Está plenamente convencido de que as obras humanas, a circuncisão e o cumprimento das leis não garantem a salvação. Se assim fosse, Jesus Cristo teria morrido inutilmente. Se ainda depositamos nossa confiança no poder dos ritos e normas como condicionantes de salvação, então não precisamos de Jesus Cristo. Mas não! Jesus veio e nos amou de tal maneira que entregou sua vida por nós. Portanto, na cruz de Jesus, encontra-se o segredo da justificação. Somos todos pecadores! Na cruz de Jesus podemos morrer também nós para tudo o que impede o acolhimento da gratuidade do amor de Deus. Nesta entrega confiante pela fé reside a verdadeira justiça que nos faz viver como novas criaturas. A vida iluminada pela fé no Filho de Deus, que morreu por nós, torna-nos verdadeiramente livres. PISTAS PARA REFLEXÃO O tempo em que vivemos prima pela superficialidade das relações entre nós e com Deus. Paramos e meditamos muito pouco. Damos pouca atenção à palavra de Deus. Rezamos apressadamente. Priorizamos celebrações triunfalistas. Vivemos dispersos e não encontramos o essencial. São Paulo descobriu que somente Deus nos realiza profundamente. Somente sua graça nos transforma. Ela nos foi dada plenamente na morte de Jesus. A cruz tornou-se a chave para entendermos o amor infinito de Deus. Nele podemos apostar com toda a confiança, entregando-lhe a nossa vida inteira. Jesus é nosso mestre. A seus pés nos lançamos com tudo o que somos e temos, como fez a mulher pecadora na casa do fariseu. Como seus discípulos missionários, assumimos sua cruz como caminho de vida nova. A misericórdia divina, se permitirmos, pode penetrar o mais profundo do nosso ser e nos transformar em criaturas novas. Se, no passado, cometemos muitas e graves faltas, podemos, no presente, acolher o perdão de Deus e entrar numa nova dinâmica de vida. O rei Davi é um exemplo nesse sentido. Necessitamos radicalmente do perdão que nos liberta e nos devolve a integridade. Uma pessoa reconciliada com Deus sente-se inteira e feliz. Sente-se fortalecida para irradiar esse amor, exercitando o perdão sincero e profundo a partir de si mesma e de sua casa. – Podem-se incentivar os gestos de perdão e reconciliação entre o casal, pais e filhos, vizinhos, Igrejas, religiões, povos... Pode-se também valorizar o sacramento da penitência e da reconciliação e oferecer momentos celebrativos especiais para a sua administração... Celso Loraschi |
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Hoje queria começar por vos propor um «exame para despertar a consciência»! Vem num pequeno livro intitulado «o livro da confissão». O autor é um sacerdote espanhol, chamado José Pedro Manglano, e o livro destina-se aos mais jovens, mas, com as devidas adaptações, pode interessar a todos. Traz várias hipóteses de exame de consciência, e ofereço-vos a tradução de um deles, que segue o esquema dos dez mandamentos: Reconheço Deus como Deus na minha vida, ou o que me arrasta é o dinheiro, a fama, o prazer? Deixo-me amar por Deus, confio e entrego-me? Rezo um pouco todos os dias? Espero nele, peço-Lhe, agradeço-Lhe, adoro-0, dedico-Lhe tudo? Aos domingos participo na Eucaristia, descanso, dedico-me aos outros e gozo da criação? Faço alguma coisa para me formar como cristão? Cuido das leituras? Evito as expressões vulgares ou pouco respeitosas para com Deus? Creio em superstições, espiritismos ou magias? Em casa: desobedeço? Respeito os pais, ou abuso do seu carinho? Queixo-me, protesto, sou negativo ou maçador? Procuro dar a cada um aquilo de que necessita? Amei com pureza, ou procurei-me a mim mesmo através dos outros? Deixei que a paixão me escravize usando o corpo de outros ou o meu de forma egoísta (com pensamentos, desejos, olhares ou atos)? Estudo e trabalho para servir ou para subir a um pódio que eleve o meu Eu? Dedico tempo a familiares, doentes, pobres, idosos? Vivo obcecado com o ter? Fui caprichoso? Gastei mais do que o necessário? Roubei? Ajudei aqueles que precisam? Gerei o mal com a mentira, a inveja, a crítica, os mexericos, o rancor...? Penso sempre eu tenho razão? Perdoei a todos? E agora passemos às leituras da Palavra de Deus. Há um grande contraste entre os dois principais interlocutores de Jesus no Evangelho de hoje. Em primeiro lugar, o texto diznos que esta mulher que ungiu os pés de Jesus em casa de Simão, o fariseu, era uma pecadora. Mas não sabemos como se chamava. Não era, com certeza, Maria Madalena. E não sabemos qual era o seu pecado, nem vale a pena tentar adivinhar. Só sabemos que lhe foram perdoados os seus muitos pecados, pelo sincero arrependimento e pelo muito amor que manifestou. E sobretudo sabemos que, a partir daquele momento, começou uma vida nova. Jesus disse-lhe: "«A tua fé te salvou. Vai em paz»". Pelo contrário, o fariseu, apesar da simpatia que tinha por Jesus, a ponto de o ter convidado para tomar uma refeição, o que já era bastante extraordinário para um fariseu, não conseguiu ultrapassar uma certa frieza e os preconceitos que tinha. Por isso, nem sequer deu a Jesus o beijo da paz, não lhe deu água para os pés, quando chegou, nem lhe ungiu a cabeça com perfume, como especial gesto de boas-vindas e expressão de homenagem. Há muitos pecados no mundo que estão à espera de uma conversão profunda, de um sinal de arrependimento, como o desta mulher, de um sincero pedido de perdão. Há pecados terríveis, que semeiam o sofrimento e a tristeza no mundo, como o pecado de David, que levou à morte um inocente, e do qual também se veio a arrepender sinceramente. Foi bom para David poder deixar de fingir, reconhecer o mal que tinha feito. Este reconhecimento trouxe consigo o arrependimento, e o arrependimento sincero abriu as portas ao perdão. E o perdão é como uma vida nova, um coração novo que Deus nos dá. O perdão de Deus é uma graça que não tem preço, mas é indispensável à vida. Sem perdão deve ser impossível viver. Mas, voltando ao Evangelho, temos de reconhecer que não há só pecados graves, também há muita frieza, muita indiferença escondida debaixo de uma aparente correção e até de um inicial amor e interesse por Jesus. É preciso ir além deste amor inicial, que se limita a ser correto, e fazer dele um amor profundo, para que Jesus não tenha de dizer: "«Entrei em tua casa, e não me deste água para os pés... Não me deste o ósculo... Não Me derramaste óleo na cabeça...»" Um primeiro sinal inequívoco deste amor profundo será certamente vir ao encontro de Jesus com arrependimento sincero, e pedir perdão, através do ministério do sacerdote, que acolhe e absolve em nome de Cristo. Outro sinal inequívoco é o amor pela Eucaristia, em que se recebe Cristo, o nosso espírito se enche de graça e nos é dada a antecipação da glória do Céu, como escreveu S. Tomás de Aquino. (É a famosa antífona: «O sacrum convivium», que poderíamos aprender de cor: «Ó sagrado banquete, em que se recebe Cristo e se comemora a sua Paixão; em que a alma se enche de graça e nos é dado o penhor da futura glória»). E um terceiro sinal que não engana é a disponibilidade para trabalhar ao serviço dos outros e do anúncio de Cristo. A prova de que a nossa vida cristã não é apenas «correta» é o tempo e o espaço que damos aos outros, aos doentes, às crianças, aos mais pobres, à construção da comunidade, à evangelização, à liturgia - ao culto - e à cultura que nasce da fé e pode transformar o mundo intimamente. O Evangelho fala-nos ainda de algumas mulheres que asseguravam a sustentação material da comunidade constituída por Jesus e os Doze: "eram Maria, chamada Madalena (...), Joana, mulher de Cusa, administrador de Herodes, e muitas outras, que serviam Jesus com os seus bens". Esta é mais um dado exclusivo de Lucas, que tem o maior interesse histórico, mas para nós o mais importante é que, tal como elas e como os Doze Apóstolos, queremos também nós ter o gosto e a alegria de seguir Jesus, sem frieza, mas com amor, de uma forma comprometida, responsável, constante, não inventando desculpas, mas seguindo-O sem reservas por onde Ele próprio nos quiser conduzir. www.paroquia-smbelem.pt |

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A epístola aos gálatas é uma apologia de seu evangelho [de Paulo], esse que colocava a salvação ou a justificação só em Cristo, como fonte; e na fé de cada cristão, como receptor da mesma. A Lei [nomos ou Torah] era inútil e até inconveniente, diante desta fórmula única de salvação em Cristo. Neste trecho, Paulo argumenta, servindo-se do valor que tem a cruz de Cristo, onde a redenção teve sua origem; portanto essa cruz não pode ser esvaziada de seu valor e significado. Uma outra ideia é que a fé nos transforma em novos Cristos, pois viver essa fé é estar crucificado com Ele, de modo que Paulo afirma que já a sua vida e a vida de Cristo se confundem. A JUSTIFICAÇÃO: Sendo conhecido que não se justifica um homem por meio de obras de Lei, senão através da fé de [em] Jesus Cristo, também nós, em Cristo Jesus temos acreditado, para sermos justificados pela fé de Cristo e não por meio de obras de Lei, porque não se justifica toda carne por meio de obras de Lei (16). JUSTIFICA: só Deus justifica, isto é, aplica ao homem sua santidade de vida, tornando-o livre de pecado (Rm. 3,30) [parte negativa] e colocando nele a sua santidade [parte positiva] que geralmente é chamada de graça santificante, verdadeira justificação que nos reintegra a graça de Deus (Deus derramado em nossos corações [Rm. 5,5]), para que tenhamos uma nova vida (Rm. 6,4) com a qual se realiza a adoção, transformando o homem em irmão de Cristo, conferindo-lhe a participação real na vida do Filho único, revelada mediante a ressurreição (CIC 654). Tudo é real, tanto o perdão (Rm. 5,1) como a graça (Rm. 5,5) e por isso somos lavados, consagrados e justificados (1Cor. 6,11). Paulo termina, afirmando que nenhuma carne [homem] é justificada pelas obras da Lei, ou seja, a que constituia a Antiga Aliança, que hoje é totalmente anulada (Rm. 4,14). OBRAS DA LEI: o NOMOS [Lei] em Paulo é o conjunto de normas que constituiam a Antiga Aliança [a Torah], fundada sobre a circuncisão e as numerosas tradições dos antigos, especialmente as referentes à impureza e ao sábado, que Jesus criticou em repetidas ocasiões, pois o sábado estava feito para o homem e não este para o sábado (Mt. 12,8); ou as leis de impureza eram sobre coisas externas que em nada podiam manchar o interior do homem como eram os alimentos proibidos (Mt. 23,25 ss). Máxime, se essas obras eram feitas para caiar o exterior como se fazia com os sepulcros (Mt. 23,27). PELA FÉ EM CRISTO: sendo a justificação obra gratuita de Deus, ou a aceitamos pela fé ou unicamente podemos nos opor a ela, não admitindo a mesma, porque não acreditamos na sua bondade e a desprezamos ou a rejeitamos propositadamente, como fez aquela geração que Jesus tratava de adúltera, no sentido de servir à mammona [deus-riqueza], desprezando o verdadeiro Deus. Jesus dirá que quem crer e for batizado será salvo [ou justificado] (Mc 16, 16). A MORTE NA LEI: Pois eu, por meio da Lei, morri na Lei para viver para Deus (19). Que significa esta frase de Paulo? Por meio da Lei morri na Lei, ou melhor, estou morto? Segundo o que ele conta em Romanos 2,17ss, todos os judeus transgrediram a Lei [a Torah] e portanto, segundo a doutrina [verdadeiro significado de Torah] dessa Lei, estariam mortos sob o império do pecado (Rm. 3,9) de modo que se pode aplicar a Escritura: Não há justo nem mesmo um só (Rm. 3,10). Mas Deus, que se compadece do pecador e veio para o salvar [viver, dar vida (Jo 10,10)], justificou Paulo, porque ele estava morto, de modo que se tornasse verdadeira a frase que ele se atreve a afirmar: Onde abundou o pecado superabundou a misericórdia (Rm. 5,20). Tudo porque Deus é rico em misericórdia (Ef. 2,4).E de sua vida, da de Paulo, podemos tirar uma conclusão universal:O resultado final da Lei é a morte; por isso, unicamente a fé nos faz viver em Cristo pela graça de Deus. É tão atrevida esta sua aproximação ao papel da Lei que Paulo teve que explicar como a Lei não era causa formal [em si mesma] do pecado; mas é este, como sendo um ser vivo, por meio da concupiscência, quem causa a morte, como independente e oposto à Lei (Rm. 7,7ss). A CRUZ: Pois com Cristo estou crucificado vivo; não eu, porém vive em mim Cristo, o qual, pois, agora vivo em carne, em fé vivo na do Filho de (o) Deus que me amou e deu a si mesmo por mim (20) CONCRUCIFICADO: a cruz de todo cristão é estar atado ao pecado. Sabemos que nosso homem velho tem sido crucificado com ele [Cristo] para que o corpo do pecado seja destruído, a fim de que não sejamos escravos do pecado (Rm. 6,6). E se este pressuposto é universal e normal em todo cristão que recebe no batismo o Espírito, em Paulo se deu de modo peculiar: eu não quero presumir a não ser da cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim e eu para o mundo. (Gl. 6,14). Como vemos a crucifixão de Paulo é para o pecado e o mundo, todos os dois submetidos a seu príncipe, Satanás, o verdadeiro inimigo de Cristo, cujo domínio especialmente se estende ao mundo e seus adoradores (Mt. 4,9). AGORA VIVO EM CARNE: Paulo na sua analogia do corpo de Cristo encontra na carne dos fiéis [carne e ossos, dirá] o corpo de Cristo vivente na terra em cada um dos seus verdadeiros fiéis, entre os quais ele mesmo se encontra. Por isso, sendo a Igreja e cada um dos seus membros apresentados como virgem pura a um só esposo que é Cristo (2 Cor. 11,2), e a Ele unidos individualmente (1 Cor. 6,17), podemos concluir que, segundo Gênesis, são dois numa só carne, como afirma Paulo da união com a meretriz (1 Cor. 6,16). Confirma-o Paulo quando fala da comunhão do pão e do vinho, como comunhão com o corpo e sangue de Cristo (1 Cor. 10,16). Mas para evitar uma interpretação totalmente materialista, Paulo afirmará que é dentro de uma interpretação espiritual, porém realista que deve ser interpretada esta união tão especial, não só com o espírito, mas também com o corpo de Cristo, formando um espírito comum com ele (1 Cor. 6,17), o que já Jesus disse no seu discurso de Cafarnaum: O espírito é que vivifica, a carne para nada aproveita; as palavras que eu vos tenho dito são espírito e são vida (Jo 6,63). Como se dissesse: um corpo vive pelo espírito não pela carne. E o que comunico com estas palavras é que meu espírito tornar-se-á vosso espírito. Embora carne e sangue aparentemente sejam diferentes do espírito, eu comunico a vida nova nessa vossa carne e sangue que do contrário estaria morta. Por isso, Jesus pode afirmar que se deve comer e beber seu corpo e seu sangue. Embora muitos membros [ou corpos diferentes] todos formamos um só corpo cuja cabeça é Cristo (Cl. 1,18). Mas é maravilhoso que possamos inteiramente não só como almas ou espíritos, mas também em nossas vidas corporais repetir com os antigos padres da Igreja: Christianus alter Chirstus ( Cristão é outro Cristo). E SE ENTREGOU POR MIM: o amor é o que mais une as pessoas e o amor é melhor manifestado, quando alguém se imola pelo amado. Isso foi o que Jesus fez e por isso essa entrega é o maior penhor de nossa vida e salvação. NÃO ESVAZIAR A CRUZ: não rejeito a graça de(o) Deus. Pois se por meio da lei há justiça, então vanamente Cristo morreu (21). Paulo conclui seu argumento ou diatribe, como se dizia em grego clássico entre os filósofos cínicos e estóicos, dizendo que não pode rejeitar a graça de Deus. Entre a escolha pela Lei ou pela graça misericordiosa de Deus, Paulo não tem mais remédio que optar por esta última. E como colofão de sua doutrina acrescenta: caso escolhamos a justiça como vinda da Lei, a morte de Cristo seria inútil, para nada serviria. Mas, pelo contrário, a morte de Cristo é causa da vida [do espírito] e da ressurreição [do corpo]. Evangelho (Lc. 7,36-8,3)1º parte: A PECADORAO BANQUETE: após um convite [convidava-lhe], Jesus entrou na casa de um fariseu de nome Simão (43) e se recostou na mesa para comer. Simão (forma abreviada de Simeão=famoso) era nome comum entre os judeus na época. Foi o nome de Pedro, o nome do leproso em cuja casa hospedou-se Jesus em Betânia, a vila próxima de Jerusalém. Nome do pai de Judas Iscariotes, que foi o traidor. Era o nome de Simão, o irmão [parente] do Senhor; Simão o Cirineu; Simão o Zelote, um dos discípulos; Simão o curtidor de Jope, dos Atos 9. Era um banquete em toda regra; pois o verbo grego anaklino indica que os convivas estavam deitados ou reclinados ao modo grego e não sentados como seria o costume judaico. Provavelmente seria no entardecer da sexta feira, ou seja, no início do sábado, tempo em que os fariseus acostumavam ter suas comidas em grupo, formado por 12 a 20 pessoas. Eram banquetes religioso-sociais em que só pessoas do grupo entravam a formar parte, com a exceção de convivas especiais, como no caso de Jesus a quem consideravam profeta (39) e a quem Simão chama de Mestre (40). Nessas refeições, em que se alternavam como hospedeiros os membros dos componentes do grupo, esmeravam-se as donas da casa em oferecer o melhor de sua culinária. Este era o caso que estudamos. Como era costume entre os romanos, os comensais estavam recostados sobre divãs a pouca altura do chão, descalços, com os pés fora do divã. Estes banquetes, pelo menos entre os romanos, começavam ao entardecer e continuavam durante a noite até altas horas da madrugada. Sabemos como a comida era regada com vinhos e acompanhada com danças e diversões como no banquete oferecido por Herodes Agripa no dia de seu aniversário natalício (Mc. 6,21). Evidentemente que este não era o caso de Simeão. Era um banquete mais familiar, entre seus colegas de collegium ou associação como sabemos que existiam em Roma e Alexandria. Tampouco era o banquete celebrado em honra dos mortos, costume greco-romano, nos cemitérios, que foi recebido pela primitiva Igreja e que deu lugar aos banquetes eucarísticos nas catacumbas onde se situaram as criptas que serviam para realizar a Eucaristia sobre o altar do mártir comemorado.A PECADORA: qual era o significado desta palavra nos tempos de Jesus? A maioria dos comentaristas pensam que essa mulher, conhecida na cidade, era uma mulher pública, das quais se dizem ter vida fácil (?), que se oferecem por dinheiro a todos os que possam pagar seus atrativos. Porém existe uma outra versão da palavra pecador que encontramos unida à de publicanos e cujo significado é de gentil ou pagão, como em Lucas 15,1: Aproximavam-se de Jesus todos os publicanos e pecadores [amartoloi] para ouvir. É verdade que Mateus une no mesmo contexto publicanos e meretrizes em Mt 21,31-32. Publicanos e meretrizes [pornai] vos precedem no reino de Deus (31) e não acreditastes nele (o Batista) ao passo que publicanos e meretrizes creram (32). Em Mt. 9,10 lemos: estando ele em casa à mesa, muitos publicanos e pecadores [amartoloi] vieram e tomaram lugares com Jesus. Em Mc 2,15-16 lemos que em casa de Levi muitos publicanos e pecadores [amartoloi] porque estes eram em grande número e o seguiam, estavam junto com ele (15). Por isso os escribas e fariseus perguntavam a seus discípulos por que come e bebe ele com os publicanos e pecadores [amartoloi] (16). É interessante que no lugar paralelo Lucas (5,29-32), primeiramente, o evangelista fala de publicanos e outros (29) para depois os fariseus e seus escribas afirmar que eram pecadores (30). No mesmo Lucas a palavra pecador tem um sentido de gentil em 24,7 quando Jesus afirma que será entregue nas mãos de homens pecadores [anthropön amartolön] Finalmente temos a passagem de Paulo em Gl. 2,15: Nós judeus por natureza e não pecadores [amartoloi] dentre os gentios. Tudo isso indica que a palavra amartolos pode ter um sentido não necessariamente ético, mas étnico. Por isso podemos pensar que a mulher que era amartolos poderia ser não uma meretriz, mas uma mulher pagã ou talvez uma mulher judia casada com um pagão. Nestes dois últimos casos, admitidos pela semântica e por alguns comentaristas como afirmava já Gill em seus comentários, temos uma nova visão do evangelho de Lucas que confirma sua predileção, assim como a de Paulo, para ser chamado o evangelho dos gentios. Por outra parte, a repulsa do fariseu seria mais forte, caso fosse uma pagã a mulher que tocou e ungiu os pés de Jesus. A MULHER: Podemos dizer quem não era e nada sabemos sobre quem era. A tradição grega a distingue perfeitamente das outras duas mulheres com as quais os latinos a confundem: Maria de Magdala e Maria de Betânia, irmã de Lázaro. Maria de Magdala, da qual Lucas fala em várias ocasiões, era uma mulher solteira, ou viúva, pois o seu patronímico (nome do pai ou do marido) é substituído por um toponímico (nome da cidade de origem), Magdala, ou um apelido (mulher do pelo enrolado). Magdala significa torre e provavelmente o nome seria Magdal-El, torre de Deus. Outros preferem Migdal Nunaya, torre dos peixes, porque coincidiria com a Tariqueia de Flávio Josefo, já que Tariqueia significa pesca salgada. Sem dúvida era a cidade mais importante à beira do lago. Tinha na época 4 mil habitantes, dedicados em grande parte à salgação de peixes com uma frota de 230 barcos. Distava de Tiberíades, na época a capital da Galiléia, 6 Km ao norte da mesma, situada na planície de Genesaré entre Cafarnaum e Tiberíades, no caminho de Damasco. Maria de Magdala ou Maria Madalena é citada várias vezes nos evangelhos. O próprio Lucas afirma que Jesus tinha tirado dela sete demônios (8,2). O número 7 não deve ser tomado em termos matemáticos, mas simbólicos e seria o mesmo que dizer que havia expulsado muitos demônios. Esta última palavra deve ser explicada já que na cultura da época, endemoninhado significava uma série de doenças mentais ou desconhecidas. Um louco, um surdo-mudo, eram endemoninhados. Por isso atribuiam a Jesus um demônio por suas afirmações mirabolantes de dizer que antes de Abraão ele já existia (Jo 7,20). Nada mais sabemos sobre a antiga profissão ou vida de Maria de Magdala. Sabemos, porém, que após sua cura, ela era uma das mulheres que acompanhavam Jesus e com suas posses e bens o serviam. Mas é difícil pensar que uma ex-meretriz (teria 50 anos) pudesse se misturar com as outras mulheres que seguiam Jesus, como Joana, mulher de Cuza, o procurador de Herodes, ou Susana, também pertencente à alta sociedade da época. Sabemos que Maria Madalena estava ao pé da cruz (Lc. 23, 49), assiste a sua sepultura (23,55) e é a primeira a ver o Cristo ressuscitado (Jo 20,11). A outra mulher seria Maria de Betânia, irmã de Lázaro e Marta. Desta mulher sabemos que na casa de Simão o leproso (Mc 14,3), durante o banquete, derramou um frasco de nardo sobre a cabeça de Jesus. Mas segundo João, foram os pés que ela ungiu e enxugou com os seus cabelos (Jo 12,3). Era costume oferecer água aos hóspedes para lavar os pés e ungir com perfume sua cabeça. É possível que ambos os gestos de unção fossem feitos por Maria de Betânia, destacando João, pelo insólito, unicamente o perfume dos pés, mais próprio da sepultura. Desta Maria, fala Lucas como sendo a que estava aos pés de Jesus escutando suas palavras (final do capítulo 10). A UNÇÃO: propriamente o evangelho fala de quatro ações feitas pela mulher pecadora: regar [molhar, como a chuva faz] os pés com as lágrimas; secar com os cabelos [os pelos de sua cabeça]; beijar [besuquear diríamos em espanhol] continuamente os pés de Jesus e ungir com mirra ( pés ou cabeça?). Vamos por partes descrever com mais detalhes estas quatro fases de um aparentemente esquisito comportamento. Entre colchetes temos colocado as traduções mais literais do texto grego que, sem dúvida, dá uma maior expressividade. Os costumes da época eram lavar com água morna os pés dos convivas, após estes ficarem descalços, como vemos na ação de Jesus na última ceia (Jo 13,3), a exemplo de Abraão (Gn. 18,4), ação que terminava com enxugá-los com uma toalha (Jo 12,3). Também os hóspedes lavavam suas mãos, como rito de purificação antes da comida (Mt. 15,2). A unção com perfumes era feita na cabeça do comensal. No Salmo 23,5 lemos: Preparas uma mesa, unges minha cabeça com unguento e minha taça transborda. Se unicamente atendemos ao grego não podemos afirmar que sejam os pés os ungidos; pode ser que a unção seja na cabeça com o qual concordaria com Mc. 14,3. e Mt 26,6. Porém, no versículo 48 se afirma que eram os pés, os ungidos. João diz sobre o mesmo sucesso que Maria de Betânia ungiu os pés de Jesus (12,3). Talvez seja esta uma ação inusitada e por isso Jesus podia afirmar que era uma preparação para o dia de sua sepultura (12,7). O unguento era uma preparação medicamentosa de uso externo, feita na base de ceras e resinas. No caso, a resina empregada é a mirra, produto de uma árvore que cresce nas regiões montanhosas da Arábia e Abissínia, cuja madeira produz uma goma-resina muito aromática de cor amarelenta ou pardo-vermelha, que se obtém como oxidação da resina que corre dentro da cortiça. Essa mistura de goma e resina é parcialmente solúvel em água e pode ser usada como pomada ao misturá-la com óleo, talvez do mesmo modo que hoje obtemos os perfumes, misturando-os com 60 % de álcool. O alabastro é um mineral de gesso de forma compacta que se apresenta como um material branco e translúcido, usado no lugar do vidro nas janelas das catedrais da idade média por ser translúcido e de fácil polimento. No tempo de Jesus era usado como material para a confecção de frascos de garganta estreita onde o unguento era armazenado. Bastava quebrar o longo pescoço para derramar seu conteúdo. Isso foi feito por Maria de Betânia, segundo Mc. 14,3. A SUPOSIÇÃO DO FARISEU: Simão não pensa no ato de bondade da mulher, mas na reputação da mesma, certamente não boa, e na falta de tato de Jesus que não se deu conta de quem era a mulher. Caso fosse uma pagã ou judia casada com um pagão, o caso se complicava, porque implicava uma impureza legal. Os fariseus diziam que se alguém tocava as roupas do povo comum ficava poluído ou impuro. Por outra parte, acreditava-se que um profeta devia conhecer as pessoas e sua moralidade, especialmente se ele era o Messias, porque este não julgará segundo o que veem os seus olhos, não se pronunciará segundo o que ouvem seus ouvidos. (Is 11,3). Por isso a resposta de Jesus na parábola indiretamente responde a esta questão: sim ele conhecia quem era a mulher, e diretamente é uma lição de moralidade contrária ao que os fariseus pensavam sobre pureza e culpa, sobre pecado e retidão de conduta. A PARÁBOLA: os dois devedores foram perdoados de suas dívidas na totalidade. Um devia 500 denários e o outro dez vezes menos: 50. O denário era o salário de um dia de um trabalhador ( Mt. 30,2). Jesus pergunta a Simão: qual dos dois estará mais agradecido? Na realidade o verbo grego é amará mais, mas sabemos que as línguas semitas não têm a palavra agradecer que é substituída por abençoar ou amar. O fariseu responde corretamente: Suponho que será aquele a quem mais perdoou. E Jesus replicou: julgaste corretamente. APLICAÇÃO: e tomando a parábola pelo inverso, Jesus conclui de modo absoluto: Os dois devedores eram a mulher a quem mais se perdoou e tu a quem menos foi remitido.Por isso as duas condutas são tão diferentes: Tu devias ter me lavado os pés (Gn. 18,4), dado o beijo [de reconhecimento como profeta que pensavas que eu fosse] (Êx. 4,27); como hóspede, nem me ungiste a cabeça com óleo como é costume (Sl. 23,5) e nada disto fizeste. Ela, pelo contrário, fez tudo isso em forma excelente. Por isso podemos deduzir que foi ela a quem muito se perdoou pois muito agradeceu. E Jesus termina com uma sentença que poderia ser um provérbio da época: A quem muito agradece [ama] é porque muito foi perdoado; mas a quem pouco se perdoa, pouco agradece[ama]. CONCLUSÃO: então disse à mulher: Perdoados são os teus pecados. E os outros comensais começaram a murmurar: Quem é este que até perdoa pecados? Das palavras do Senhor deduzimos que o importante não é o pecado, mas o perdão, que será tanto mais completo quanto maior seja o amor demonstrado. Tanto Simão como a mulher eram pecadores. Simão, porém, demonstrou pouco amor porque aparentemente pecou pouco. Já a mulher demonstrou muito maior amor, porque o seu perdão foi muito maior. Que pouco atinge o pecado humano o Senhor e como é importante o amor que tanto o obriga, independentemente de quem seja o sujeito que ama! Deus, em sua riqueza infinita e sua bondade sem limites, pode perdoar de igual modo, tanto grandes pecados em número e classe, como pequenas e insignificantes falhas cometidas pelo homem. O que Ele procura é o agradecimento e o amor resultante desse perdão. 2a parte : AS MULHERES QUE O SERVIAMAS MULHERES: os que acompanhavam Jesus na sua missão de proclamar e anunciar o Reino de Deus eram de duas classes: os doze e algumas mulheres. Estas foram curadas de espíritos malignos e de doenças – dirá Lucas. E nomeia em primeiro lugar Maria, a chamada Madalena, da qual sairam sete demônios, como temos anteriormente descrito. Dela dirá são Jerônimo que era viúva porque não tinha patronímico. Outra era Joana [favor de Deus], mulher de Cuza, administrador [epitropos] de Herodes Agripa. Era um pequeno governador de uma região, um camareiro, ou um administrador dos bens domésticos? Parece que esta última hipótese é a mais correta. Seria de certa idade ou talvez viúva porque não era permitida a separação entre esposos por tempo prolongado. Susana [açucena] é a outra mulher nomeada; dela nada sabemos fora deste versículo (8,3). Com suas posses ajudavam o Senhor e seu colégio apostólico. PISTAS 1) Jesus aceita um convite de quem, ao que parece, era seu inimigo; pois como diz o mesmo Lucas em 14,1 os fariseus nessa ocasião o espiavam. Como diz Paulo, somos dados em espetáculo ao mundo, aos anjos e aos homens (1Cor. 4,9). A eficácia da evangelização depende em parte de nossa conduta. 2) A conduta da mulher está valorizada por seu arrependimento e o trato com que cuida de Jesus. Todos nós temos de nos arrepender e todos nós temos um Senhor a quem servir e amar. E esta última devoção é a que dá sentido as nossas vidas. 3) Sempre existe uma razão para amar e perdoar, nunca há motivos para o desprezo e a rejeição. Dizem de Isabel I a católica, rainha de Castela, que admitiu os dois filhos do cardeal Mendonza, filhos da infidelidade do grande político ao seu voto de castidade e quis acolhê-los como seus familiares, que foi criticada. Ela se defendeu dizendo: não posso deixar que se percam. 4) A Igreja, que somos todos nós, deve se preocupar e muito a se arrepender ao ver como o Senhor disse e em realidade foi consequente com suas palavras que veio salvar o que estava perdido. Parece que nós, pelo contrário, estamos para santificar o que já está encaminhado. padre Ignácio - www.presbiteros.com.br |
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Puxa vida! Como essa mulher chorava! “As suas lágrimas banhavam os pés do Senhor e ela os enxugava com os cabelos, beijava-os e os ungia com o perfume” (Lc 7,38). Isso sim que é arrependimento. Jesus disse que os “seus numerosos pecados lhe foram perdoados, porque ela tem demonstrado muito amor” (Lc. 7,47). A esse tipo de arrependimento a Igreja chama contrição porque está movido pelo amor, diferente da atrição, arrependimento movido pelo temor. A contrição limpa totalmente a alma, purifica-a e faz com que fluam os propósitos de uma vida nova. A história da Igreja está cheia de famosos pecadores que se converteram ao Senhor, um dos mais conhecidos pelas suas próprias Confissões – livro clássico que vale a pena ser lido – é Santo Agostinho. Foi esse santo quem deixou escrita aquela frase tão conhecida e citada: “fizeste-nos, Senhor, para ti e o nosso coração está inquieto enquanto não descansar em ti”. É verdade, o coração humano não poderá encontrar repouso senão no Senhor. Bento XVI, ao chegar a Portugal, no começo da sua visita, sentenciou: “a relação com Deus é constitutiva do ser humano: foi criado e ordenado para Deus, procura a verdade na sua estrutura cognitiva, tende ao bem na esfera volitiva, é atraído pela beleza na dimensão estética. A consciência é cristã na medida em que se abre à plenitude da vida e da sabedoria, que temos em Jesus Cristo”. Geralmente, os convertidos mostram ser pessoas fervorosas. Às vezes são pessoas que conheceram os abismos do pecado e do demônio, que desceram até aos abismos da morte espiritual e, por tanto, ao serem libertadas do diabo e do pecado, sabem valorizar a graça de Deus que lhes alcançou: ser cristão, ser católico; poder confessar-se com freqüência; participar do Sacrifício de Cristo Salvador em cada Santa Missa; conversar com Deus na oração; viver uma vida limpa, honesta, livre das cadeias do mal e do pecado. A contrição que os conversos manifestam me ajuda a pensar na sinceridade do meu amor para com Deus. Eu acho que nós católicos “de sempre” deveríamos aprender algo do fervor dos conversos. Sem dúvida, quando a vida de fé vai madurando se vê mais e melhor; não obstante, nunca podemos afastar-nos do nosso primeiro amor, dessa visão das coisas que nos foi concedida e que mudou o rumo da nossa vida. Não nos esqueçamos daquelas palavras do Espírito Santo: “trabalhai na vossa salvação com temor e tremor” (Fl. 2,12). Aquela mulher percebeu algo do amor de Deus para com ela, viu também que tinha ofendido a esse Deus tão bom e amável e, diante dessa evidência, não pode fazer outra coisa que derramar abundantes lágrimas. O ato de contrição nos leva a perceber que “Deus é amor” (1 Jo 4,8.16) e que nós ofendemos a alguém que só quer o nosso bem e a nossa felicidade; em segundo lugar, que não podemos fazer nada a não ser pedir perdão, chorar e implorar misericórdia no sacramento da confissão. Peçamos a Deus que nos livre da atitude do fariseu que, além de ter sido pouco educado– não ofereceu água a Jesus para lavar os pés, não lhe deu o ósculo, não ungiu a cabeça de Cristo –, começou a julgar aquela pobre mulher. Infelizmente, às vezes, em lugar de alegrarmo-nos por um irmão que se converte, começamos a julgá-lo; essa atitude não é cristã. Precisamos ser mais acolhedores e alegrar-nos mais com os outros, celebrar festivamente o fato de que uma pessoa se aproxima do Senhor. Ele é o nosso Deus e quer sempre o nosso bem. padre Françoá Rodrigues Figueiredo Costa |

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O Evangelho de hoje afirma que “Jesus andava por cidades e povoados, pregando e anunciando a Boa-nova do Reino de Deus”. Que Boa-nova é esta, que Jesus pregava? Que nele, Deus se revelava como Pai cheio de amor e misericórdia, que se volta para o homem, inclina-se em direção a ele, para acolhê-lo, perdoá-lo, e caminhar com ele. Este anúncio requer uma decisão nossa: a conversão, isto é, um coração aberto à Boa-nova de Jesus; um coração capaz de acolher a presença salvífica de Deus e, cheio do amor do Senhor, abrir-se também para os outros, sobretudo para os pobres sejam de que pobrezas forem. E por que Jesus afirma que é dos pobres o Reino dos Céus? Esta pergunta é a chave para compreender as leituras de hoje. Vejamos. Quem é o pobre na Bíblia? De que pobre Jesus está falando? Pobre é todo aquele que se encontra numa situação extrema, situação de fraqueza e impotência; pobre é todo aquele que se encontra numa situação limite na vida. O gravemente doente é um pobre, o que não tem casa e comida é um pobre, o discriminado e perseguido é um pobre, o que se sente só e sem amor é um pobre, o aidético, o que foi derrotado, o que foi incompreendido, o que foi pisado pelo peso da existência… Notemos que a pobreza em si não é um bem. E por que Jesus proclama os pobres bem-aventurados, dizendo ser deles o Reino dos Céus? Porque o pobre, na sua pobreza, toca o que a vida humana é realmente: precária, débil, incerta, dependente de Deus. Normalmente, nossa tendência é esquecer essa realidade, procurando mil muletas, mil apoios, mil ilusões: bens materiais, saúde, prestígio, amigos, ninho afetivo, poder… e julgamo-nos auto-suficientes, senhores de nós mesmos, perdendo a atitude de criança simples e confiante diante de Deus. Assim, auto-suficiente, ricos para nós mesmos, não nos achamos necessitados de um Salvador, fechamo-nos para o Reino que Jesus veio anunciar. Só o pobre pode, com toda verdade, tocar a debilidade da vida com toda crueza e verdade e, assim, os pobres têm muito mais possibilidades de abrir-se para o Reino. As leituras deste Domingo ilustram-nos esta realidade. Primeiro, a pobreza de Davi que, apesar de forte militarmente e rei de Israel, não hesita em reconhecer seu pecado com toda humildade diante do profeta do Senhor: “Pequei contra o Senhor” – diz o rei. Davi não usa máscara, não procura justificar-se com desculpas esfarrapadas. Reconhece-se pequeno, frágil, limitado… humilha-se ante o Senhor. A resposta do Senhor é imediata: “De sua parte, o Senhor perdoou o teu pecado, de modo que não morrerás”. Depois, as duas figuras contrapostas do Evangelho: de um lado Simão, cheio de si, de sua própria justiça, seguro de si próprio, julgando-se em dia com Deus e com seus preceitos e, por isso mesmo, fechado para a misericórdia e a delicadeza para com os outros. Jesus o desmascara: “Quando entrei na tua casa, tu não me ofereceste água para lavar os pés… Tu não me deste o beijo de saudação… Tu não derramaste óleo na minha cabeça”. Simão, cheio de si, nunca pensou de verdade que precisasse de um Salvador e, por isso, não foi aberto para Jesus e para o Reino. Recebeu Jesus exteriormente, mas não aderiu a ele interiormente, de todo coração! Por outro lado, a mulher pecadora, adúltera pública, derrama as lágrimas e o coração aos pés de Jesus, com toda simplicidade, com toda sinceridade, do fundo de sua miséria… Reconhece-se pecadora, quebrada, infiel; sem máscara nenhuma, mostra-se ao Senhor e suplica sua misericórdia. Por isso, pode ouvir: “Teus pecados estão perdoados. Vai e paz!” Somente quando experimentamos, de fato, esta pobreza, podemos verdadeiramente acolher Deus que nos vem em Jesus como Salvador. Caso contrário, diremos que cremos nele, mas somente creremos de fato em nós e em nossas mil riquezas econômicas, afetivas, sociais, psicológicas, espirituais… Assim, do alto da nossa auto-suficiência, tornamo-nos incapazes de acolher de verdade o Reino. Não é este o drama do mundo? Com nossa ciência, com nosso divertimento, com nossa liberação total, com nossos bens de consumo… quem precisa de um Salvador? Temos tudo, somos ricos, estamos bem assim e, sozinhos, nos bastamos! Pois bem: faz parte do núcleo da convicção cristã que não nos bastamos, que somos pobres e, sozinhos, jamais nos realizaremos plenamente. É o que são Paulo exprime na segunda leitura da Missa: aos cristãos de origem judaica, ele recordava que a salvação não vem das obras da Lei de Moisés, de nossa própria bondade, mas unicamente da fé em Jesus, presente de Deus, misericórdia de Deus para nós. É esta, muitas vezes, a nossa dificuldade: compreender que somos todos pobres diante de Deus; precisamos dele, a ele devemos abrir nossa mente, nosso coração, nossa vida. Aí, sim, o Reino de Deus começará a acontecer e Deus em Cristo reinará de verdade na nossa vida e, através de nós, na vida do mundo. Que nos perguntemos: sou pobre ou sou rico? Reconheço devedor e dependente de Deus, realmente? Tenho-o como meu Salvador e minha riqueza? Aposto nele a minha vida? Tenho consciência que a vida não é minha de modo absoluto, mas é um do qual deverei prestar contas ao doador? O Senhor nos ajude e ilumine nosso coração e nossa mente! dom Henrique Soares da Costa |
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Sem estes dados, não se pode compreender a narrativa seguinte. A pecadora salva quer dar a seu Salvador o testemunho de sua gratidão. Toma umas das coisas mais preciosas que ainda lhe restam: um vaso fechado, cheio de nardo. Presente, talvez, de um amante de acaso, e com esse bálsamo precioso pensa em ungir os cabelos de seu Rei. Seu pensamento é pois movido pela gratidão. Seu gesto, um ato de público reconhecimento. A pecadora quer render graças – perante os olhos de todos – a Quem lavou a sua alma, ressuscitou seu coração, tirou-a da vergonha, e deu-lhe uma esperança mais gloriosa que todas as alegrias. Ela entra, abrançando o vaso de alabastro, intimidada como criança que entra pela primeira vez na escola; como prisioneira liberta saindo do cárcere. Entra, silenciosa, e ergue apenas um instante os olhos para ver de relance onde está Jesus. Aproxima-se do leito. Seus joelhos e suas mãos tremem. Baixa as pálpebras, sentindo sobre si todos os olhares, todas as pupilas daqueles homens fixas sobre seu belo corpo e curiosas por ver o que vai fazer. Rompe o gargalo do frasco selado e despeja metade do óleo sobre a cabeça de Jesus. Grandes gotas luzidias rolam sobre seus cabelos, como pérolas soltas. Com mãos amorosas, ela estende o perfumado bálsamo até que cada cabelo esteja umedecido, sedoso, brilhante. Toda a sala está cheia de perfume; todos os olhares, imobilizados de espanto. Sempre silenciosa, a mulher retoma o frasco aberto e ajoelha-se aos pés do Portador da Paz. Despeja o resto do óleo e delicadamente unge-Lhe o pé direito e o pé esquerdo, com um carinho de jovem mãe que lava, pela vez primeira, o primeiro filho. Depois, não pôde mais conter-se ; não pôde mais dominar a onda de ternura que enchia seu coração, apertando a garganta e fazendo jorrar lágrimas de seus olhos. Gostaria de falar, de dizer pura e simplesmente que era esse o seu agradecimento vindo do fundo do coração, por todo o benefício que recebeu, por toda a luz que lhe descerrou os olhos. Mas como encontrar, nesse momento, diante de todos aqueles homens, palavras dignas d’Ele e da graça que Ele lhe concedeu? Seus lábios tremem tanto, que não poderia proferir duas sílabas e seu discurso seria apenas um balbuciar entrecortado de soluços. Falam então seus olhos em lugar de sua boca: e copiosas, cálidas, caem suas lágrimas sobre os pés de Jesus como silenciosas oferendas de gratidão. As lágrimas aliviam seu coração, suavizam sua mágoa; ela não vê nem sente mais nada. Mas um gozo inexprimível, que jamais experimentou, nem nos joelhos de sua mãe, nem nos braços dos homens, penetra agora o seu sangue, fazendo-a estremecer, transpassando-a de pungente alegria, abalando todo o seu ser no êxtase supremo, em que alegria e dor se confundem numa só e tremenda emoção. Chora pela sua vida passada; sua vida miserável e de ontem. Pensa na sua pobre carne, aviltada pelos homens. A todos, ela teve de sorrir, de oferecer seu leito de luxúria e seu perfumado corpo. A todos, teve de simular um prazer que não sentia. Teve de mostrar cara alegre àqueles que desprezava e detestava. Dormiu ao lado do ladrão que a pagava com dinheiro roubado; beijou os lábios do assassino e do fugitivo da justiça; suportou o hálito forte e os repugnantes caprichos do ébrio. Jesus, também eu prostituí-me!!! Deus me havia favorecido com as belezas da alma e da inteligência e eu aviltei-as precipitando-me na busca das honras do mundo e das riquezas materiais. No mundo, também eu, tive de simular um prazer que não sentia e sorrir àqueles que destestava. E enquanto isso, eu Te abandonei. Tu, meu Redentor e meu Esposo! Perdoai-me Jesus e deixai-me banhar-Te com minhas lágrimas! |

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Aquela mulher muito provavelmente era uma prostituta, aquela marcada com o nome de “pecadora”. Para a sociedade hipócrita, não importa como e porque ela chegou até aquele ponto de vulgaridade, não importa à mente que se acha respeitável o motivo de uma escolha dolorosa, ela é condenada desde sempre e para sempre. Em nome da religião e da moralidade que ergue os seus muros para não entrar em discussão, aquela mulher é sinônimo de sua “profissão”. Nenhuma compreensão, nenhuma possibilidade, só desprezo, mesmo quando é desejada e usada. Ela chora, sem desespero, sente-se finalmente amada por um homem verdadeiro, sente-se compreendida e acolhida por Deus. Sem o peso do julgamento e da condenação, sem ambiguidade. Bota pra fora toda a sua dor, a sua treva, a sua raiva. A menina que havia nela descobre a face da misericórdia absoluta. Neste momento, o foco se move para o fariseu que tinha convidado Jesus para almoçar. O relato continua silencioso, mas só aparentemente. Porque o fariseu calado exteriormente, fica pensando, julgando, condenado, escandalizado. De fato, diz o texto: “vendo isso, o fariseu que o havia convidado ficou pensando: 'se este homem fosse um profeta, saberia que tipo de mulher está tocando nele, pois ela é uma pecadora'”. Pois muito bem, realmente ela se vendia. Mas Simão também é uma prostituta. Vende-se a Deus, e se vende muito bem. Conhece bem a religião, vive profundamente e rigorosamente os preceitos de Israel, não como o “povão ignorante” que se desgraça porque não conhece a lei. Paga o dízimo exato até da arruda e do hortelã, reza com fervor, estuda a Torá dia e noite. Está numa posição de privilégio com relação aos méritos. É devoto, mas é frio, não ama. Permite-se julgar quem quiser porque se sente justo, a lei está do seu lado, ele pode manter as distâncias. O interessante do Evangelho é que Jesus converte ambos. À mulher, ensina com toda delicadeza e compreensão que a medida do juízo de Deus é o amor e o perdão. A mulher amou, tanto, fez mal a si própria, mas amou. Deus que é Amor reconhece o amor mesmo quando é feito em pedaços, frágil e desesperado. Para Deus basta isso, ele salta qualquer lógica humana, religiosa ou moral, ele vai direto ao essencial: olha para dentro, para a dor, para a verdade. Este amor é a origem do perdão, o perdão que Deus dá, sempre de graça, sempre incondicional, move o amor. A Simão, também com delicadeza, sem raiva, Jesus põe um caso para que ele resolva, a parábola dos dois devedores, um que devia alguns reais e outro que devia alguns milhões, que inesperadamente são perdoados de suas dívidas. Quem estará mais feliz? Simão raciocina, reflete, julga corretamente, está aprendendo o ponto de vista de Deus. É chamado, ele que é fariseu, a colocar-se no papel do devedor. Para Deus, não importa a devoção se não é alimentada pela paixão; Jesus não veio para os justos, mas para os pecadores. Assim, Jesus, antes de tudo, dá a Simão a possibilidade de se convencer que ele é, verdadeiramente, um profeta, já que leu os pensamentos do seu coração; ao mesmo tempo, com a parábola, prepara todos a entender aquilo que está para dizer em defesa da mulher: “Por essa razão, eu te declaro: os muitos pecados que ela cometeu estão perdoados, porque ela mostrou muito amor. A quem se perdoa pouco mostra pouco amor”. Depois, Jesus disse a ela: Teus pecados estão perdoados”. O texto de hoje nos convida a uma conversão total do nosso coração e da nossa mente a Deus. Não o pecado e o pecar devem invadir e devastar a nossa vida, mas a graça que é fruto de um amor grande para com o Senhor. Ele é a fonte da verdadeira felicidade e da verdadeira alegria do coração do ser humano. O texto que nós acabamos de compreender realmente é um dos mais importantes e certamente mais impactantes para a mentalidade judaica porque nos imerge no discurso da infinita misericórdia de Deus. Uma misericórdia que experimentamos abundantemente na nossa vida mediante o sacramento da reconciliação que Jesus confiou a sua Igreja e a Igreja administra em seu nome. Ainda sobre o perdão e sobre a misericórdia focaliza também o trecho da primeira leitura de hoje, tirado do segundo livro de Samuel, no qual é apresentada a forte reprovação de Natã com relação ao rei Davi, que tinha se desviado completamente no seu comportamento moral, com o consequente reconhecimento das próprias culpas. Davi experimenta a compaixão de Deus que o expulsa da falsa imagem na qual se refugiou. Davi, poderoso, realizado, procura se salvar depois de ter tido uma relação com Bersabea, que agora espera um filho dele. Ao invés de admitir o próprio erro e assumir as responsabilidades, tenta se enganar e enganar os outros, com uma brincadeira que termina matando Urias, marido de Bersabea. Mas, o profeta Natã o coloca de frente as suas próprias responsabilidades. Davi toma consciência das suas limitações. E reconhecendo-as, torna-se grande, o maior. “Davi disse a Natã: Pequei contra o Senhor. Natã respondeu-lhe: 'de sua parte, o Senhor perdoou o teu pecado, de modo que não morrerás!'” Também São Paulo, grande fariseu, era um assassino em nome de Deus contra os cristãos. Depois, Cristo o conquistou. Agora, escrevendo aos Gálatas, reflete sobre a sua experiência precedente de fé: não é a lei que salva, nem a regra, nem norma alguma, nem o mandamento que eu posso observar por escrúpulo, por medo, por satisfação, para agradar aos outros. De observante rigoroso da lei de Deus, Paulo reconhece ter se tornado um assassino, pensando que estava agradando a Deus. É o amor que salva, não a lei. Do coração dilacerado de Cristo chega à humanidade o perdão de Deus. Um perdão que se renova cada vez que um sacerdote nos absolve dos nossos pecados e das nossas debilidades humanas. Então, a pessoa humana verdadeiramente arrependida e renovada no íntimo saboreia a alegria da misericórdia de Deus no modo mais autêntico possível ao homem sobre esta terra. “Irmãos, sabendo que ninguém é justificado por observar a lei de Moisés, mas por crer em Jesus Cristo, nós também abraçamos a fé em Jesus Cristo. Assim fomos justificados pela fé em Cristo e não pela prática da lei, porque pela prática da lei ninguém será justificado... Com Cristo, eu fui pregado na cruz. Eu vivo, mas não eu, é Cristo que vive em mim... Se a justiça viesse pela lei, Cristo teria morrido inutilmente”. Enfim, todos somos prostitutas quando nos vendemos por um elogio, para cultivar o nosso ego (mesmo o espiritual), para ter um papel social e eclesial reconhecido e apreciado, para ser se não melhor, pelo menos não inferior aos outros, dispostos como Davi a trair uma amizade sincera e não admitir os nossos erros. Mas todos podemos se quisermos e aceitarmos, ser perdoados e amados. A pecadora e Simão, Paulo, nós somos amados e perdoados por Deus, redimidos e salvos. A conversão é o caminho da felicidade e para uma vida plena. Não é algo penoso, mas de extrema felicidade.
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Primeira Leitura: 2Samuel 12,7-10.13 ELIAS RESSUSCITA O FILHO DE UMA VIÚVA DE SAREPTA É o relato do famoso texto do pecado do rei Davi. Estamos no período de esplendor do reino davídico. Depois de uma grande campanha de vitórias, Davi, o rei piedoso e reto, pratica um duplo pecado, cometendo adultério com Betsabé e mandando matar Urias seu esposo. Antes de ser rei, Davi liderou um grupo de pessoas descontentes com a política de Saul (1Samuel 22,2). Buscando a unidade, conseguiu reunir em torno de si todas as tribos, tornando-se rei de Israel (2Samuel 5,3). Como chefe guerreiro, tornou-se também chefe da linhagem messiânica. Tornou-se o ancestral do Messias esperado. Como rei de Israel, Davi foi o símbolo do rei que promoveu a justiça e a paz. De fato, uma das principais tarefas de sua autoridade política foi a defesa contra as agressões externas (ele mesmo ia à guerra) e a instauração da justiça. Depois de consolidar seu império, Davi deixou que o poder subisse à sua cabeça. Permanecia no palácio em plena mordomia (2Samuel 14). Tornou-se adúltero, violento, insensível, hipócrita e assassino (2Samuel 11). Em vista do episódio relatado hoje, Deus mandou-lhe o profeta Natã, que lhe contou uma parábola (2Samuel 12,1-7) para despertar sua consciência de rei, perscrutar-lhe o coração e provocar sua responsabilidade pela justiça e induzi-lo a pronunciar com sua própria boca a sentença sobre si próprio: “Quem fez isto merece a morte”. Por que Davi mereceu a morte? Porque pagou com injustiças os favores de Deus. Os versículos 7-8 enumeram cinco desses favores. As injustiças cometidas contra as pessoas também são contra Deus. Em vista disto Davi reconheceu o seu pecado: “Pequei, Senhor, contra vós”, e iniciou um caminho penitente de conversão que se manifestou em seu arrependimento. “Para o pensamento judaico, Davi era um homem em quem o atrativo do mal não tinha poder. Aconteceu-lhe ser fraco por permissão de Deus, para que todos os pecadores possam dizer: Vá a Davi e aprenda com ele como se deve arrepender” (The legend of Jesus 1,32-37). Segunda leitura: Gálatas 2,16.19-21 JUSTIFICADOS PELA FÉ EM JESUS CRISTO Nesta carta Paulo combate um tipo de religião mercantilista na qual se pretendia comprar a salvação. Esse tipo de religião era pregado por judeus cristãos, os quais afirmavam que, mediante as boas ações (o cumprimento da Lei), se podia ter direito sobre Deus. Por isso Paulo ensina que o homem não é justificado pela prática da lei, mas pela fé em Cristo. O que salva é a redenção operada por Cristo. A iniciativa de perdoar e salvar vem de Deus e a resposta do homem é a fé, uma fé dinâmica. Paulo, em sua segunda viagem pelos anos 50-51, evangelizou os gálatas. Obrigado a permanecer um bom tempo na Galácia devido a uma doença, foi acolhido muito bem pelo povo, recobrando a saúde e evangelizando os gálatas. Voltou em seguida para a Europa, mas não sem se preocupar com este povo, que era muito volúvel. De fato, por influência de cristãos judaizantes, ele estava se tornando uma seita judaica com um verniz de cristianismo. Diante disto Paulo, no ano 57, escreveu-lhes esta carta, que é um grito de dor e amor. Explica-lhes que a doutrina que lhes ensinou é a mesma dos apóstolos, reconhecida pelo Concílio de Jerusalém (Gálatas 2,11-14). Paulo argumenta com a “reductionem ad absurdum” através de duas frases: “Talvez Cristo seja ministro do pecado?”; ”Se a justificação vem da lei, Cristo morreu em vão!”. Evangelho: Lucas 7,36-8,3 A PECADORA QUE UNGIU OS PÉS DE JESUS Lucas é o evangelista da bondade (o filho pródigo, a ovelha perdida, o fariseu e o publicano, o bom samaritano, Lázaro e o rico Epulão, o filho da viúva de Naim, o perdão do bom ladrão...). Este trecho se encontra somente em Lucas. Ele relata o convite de um fariseu a Jesus para um almoço, mas com segundas intenções. O fariseu era uma pessoa influente, tinha o status de cumpridor da Lei. Durante a refeição ele se escandalizou com o fato de que Jesus se deixou tocar, perfumar e beijar por uma pecadora que fazia da prostituição o seu ganha-pão. Na cena, Lucas apresentou dois hóspedes na casa do fariseu: um profeta e uma prostituta, ele convidado e ela nem sequer tolerada. A presença imprevista da prostituta provocou desorientação, mas ela não se intimidou. Percebeu em Jesus os gestos da misericórdia de Deus, pois Jesus se mostrou cheio de bondade e misericórdia em relação a ela. Naquele tempo era costume propor enigmas nos banquetes para distrair os convidados. Jesus serviu-se deste costume e tomou a iniciativa, provocando a “piedade” de Simão. Este, ao responder, apesar de cauteloso, concluiu que “aquele a quem foi perdoado fora-lhe demonstrada maior gratidão”. REFLEXÃO Hoje a mensagem da Palavra de Deus é mais uma vez a misericórdia de Deus que perdoa o pecador arrependido, representado por Davi e pela mulher pecadora. Mostra também a predileção de Jesus pelos marginalizados, pois a mulher pecadora era uma marginalizada, tanto por ser mulher como pelo seu ofício. Não parece provável que esta mulher seja Maria, irmã de Lázaro e Marta, que ungiu Jesus em Betânia (João 12,1ss), e menos ainda Maria Madalena. Certamente Jesus foi comer na casa de Simão num dia de sábado, pois era um costume e uma honra convidar um rabi que, estando de passagem, houvesse falado na Sinagoga. Inesperadamente a mulher pecadora da cidade ficou sabendo que Jesus estava na casa de Simão e se dirigiu para lá com um frasco de perfume, colocando-se aos pés de Jesus, banhando seus pés com suas lágrimas, enxugando-os com seus cabelos, beijando-os e ungindo-os com perfume. Simão incriminou Jesus e a mulher em seu íntimo, porém Jesus leu seus pensamentos secretos e mediante uma parábola, a dos dois devedores, deu-lhe uma lição sobre a relação existente entre o amor e o perdão. A pecadora sentiu a mesma sensação que o rei Davi experimentou (2Samuel 12,17ss). Natã, por parte de Deus, reprovou as atitudes de pecado e o crime de Davi. Ele cometeu adultério com Betsabé, mulher de Urias, a quem fez perecer na batalha. Natã lhe contou a parábola do rico que sacrifica a ovelhinha do pobre para obsequiar um hóspede, semelhante à ação vil que merece a condenação de Davi, e Natã, diante da reprovação de Davi face a esta má ação, apontou-lhe que era ele esse homem mau. Então Davi reconheceu o seu pecado: “Pequei, Senhor...”. A pecadora sentiu-se perdoada porque amou e teve fé em Jesus. “O homem não se justifica pelo cumprimento da lei, mas pela fé em Jesus Cristo...”. “O homem é justificado pela fé sem as obras da lei mosaica” (Romanos 3,28). A justificação compreende a salvação de Deus, o perdão e a libertação do pecado pela fé em Cristo, a benevolência do Senhor para com o homem, a união e a vida nova com Jesus. A pecadora ama porque está perdoada. “Aquele que ama nasceu de Deus e conhece a Deus..." (1João 4,7). A fé e a humildade salvaram aquela mulher do desastre definitivo: “A sua fé a salvou”. Com a contrição ela iniciou uma vida nova. São Gregório Magno diz que “aquela mulher representou todos os que, depois de termos pecado, nos voltamos de todo coração para o Senhor e a imitamos no pranto da penitência”. Por isso, nossos piores defeitos e faltas, embora sejam muitos e freqüentes, não nos devem desanimar enquanto formos humildes e quisermos voltar arrependidos. “Neste torneio de amor não nos devem entristecer nossas quedas, nem mesmo as quedas graves, se recorremos a Deus com dor e bom propósito, mediante o sacramento da Penitência. O cristão não é nenhum colecionador maníaco de uma folha de serviços imaculada. Jesus não só se comoveu com a inocência e a fidelidade de João, como se enterneceu com o arrependimento de Pedro depois da queda”. Simão contemplou calado aquela cena e menosprezou o interior daquela mulher. Jesus a perdoou e ele, erigindo-se em juiz, a condenou. Simão não ofereceu a Jesus os sinais de hospitalidade que eram costumeiros naquele tempo aos hóspedes importantes. Não lhe ofereceu água para lavar os pés cansados do caminho, não o cumprimentou com o ósculo da paz, não lhe fez ungir a cabeça com perfumes. A mulher fez muito mais. “Mais que o próprio pecado - diz são João Crisóstomo -, o que irrita e ofende a Deus é que os pecadores não sentem dor alguma por serem pecadores”. Precisamos ter uma atitude humilde como a da mulher pecadora para crescer no conhecimento próprio com sinceridade e assim confessar nossos pecados. A humildade nos permite ver a grande dívida que temos com Deus e sentir nossa insuficiência, inclinando-nos a pedir perdão a Deus. A caridade e a humildade nos ajudam a ver nas faltas e pecados dos outros nossa própria condição fraca e desvalida e nos ajudam a nos unir de todo coração à dor do pecador que se arrepende, porque também nós cairíamos em faltas iguais ou piores se a misericórdia de Deus não nos sustentasse. Santo Ambrósio disse: “Jesus não amou o ungüento, mas o carinho; agradeceu a fé, louvou a humildade. Se você deseja a graça, aumente também o seu amor; derrame sobre o corpo de Jesus a sua fé na ressurreição, o perfume da Santa Igreja e o ungüento da caridade dos demais” (Tratado sobre o Evangelho de Lucas). Há dois aspectos a destacar na liturgia de hoje: o amor e a bondade de Deus e a atitude de penitência e conversão do pecador. O amor de Deus se manifesta num dos personagens mais ilustres do Antigo Testamento, que recebeu tudo de Deus. Davi reconheceu o seu pecado e arrependeu-se. Diante da situação de Davi, o profeta Natã lhe disse: “Tu es ille vir!” – “Você é este homem!”. Para que Deus possa salvá-lo é preciso que o homem reconheça seu pecado. O pior doente para o médico é aquele que se julga são. Do mesmo modo, quem se julga santo, perfeito, dificilmente acolherá o amor de Deus. Davi foi justificado no momento em que tomou consciência de seu pecado. Além do reconhecimento do próprio pecado, o homem deve acreditar no amor misericordioso de Deus. Quem está se afogando não se salva pelo simples fato de tomar consciência do que está sucedendo, mas deve contar com alguém que o tire fora da água. Um santo certa vez sonhou que Deus, para conduzir as pessoas para o céu, colocou um trem com três vagões. O primeiro era só para as crianças mortas antes do uso da razão. O segundo era só para os santos. E o terceiro, o maior de todos, era reservado para os pecadores, inclusive para os maiores pecadores, que se arrependeram pedindo perdão a Deus como a mulher do Evangelho de hoje. padre José Antonio Bertolin, OSJ |

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Porém, o rei reconhece seu delito e se manifesta humildemente arrependido. Mostra assim a profundidade de sua fé, real apesar de seu pecado. Por isso Deus o perdoa. Davi ficará para sempre como o exemplo vivo do homem que, superando suas misérias, situou-se na dinâmica divina, e, sem desatender a justiça, aplica a misericórdia e o perdão a quem se arrepende, inclusive de grandes delitos. Na segunda leitura, Paulo não cessa de combater a mentalidade que empurra o homem, apesar de que, graças às suas boas ações, tem direitos diante de Deus. A religião, fundada sobre a obediência e a lei e sobre um contrato “foi-te dado e tens que retribuir-me” falseia a verdadeira relação com o Senhor. Este tipo de religião conduziu o judaísmo a rejeitar a mensagem de misericórdia de Jesus, para fechar-se em seu frio esquema de legalidade vazia. A fé transforma radicalmente esta mentalidade e nos abre ao amor divino tal como se mostrou em Jesus. No evangelho, uma mulher se atreve a quebrar o protocolo de uma refeição cuidadosamente preparada. A arrogante intrometida, não somente infringe as leis da boa educação, como também comete uma infração de tipo religioso: um ser impuro não deve manchar a casa de um homem socialmente puro (fariseu). Por um momento, Cristo perde sua dignidade de profeta aos olhos de seu anfitrião: “Se este homem fosse profeta, saberia quem é esta mulher que o está tocando, e o que ela é: uma pecadora”. Diante da situação que se apresenta, Jesus utiliza o recurso dos sábios: o método socrático de incluir a conclusão correta a partir de argumentos corretos. Em vez de corrigir a seu anfitrião, convida-o a sair de sua ignorância e reconhecer que o verdadeiro pecador é ele: o fariseu que se acredita puro. A mulher não enganou ninguém: ela repetiu os gestos do seu oficio; a mesma atitude sensual que teve com seus amantes. Porém, nessa tarde, seus gestos não tem o mesmo sentido. Agora expressam seu respeito e a mudança do seu coração. O perfume, comprado com suas economias, é o preço do seu “pecado”. E, sem dúvida, rompe o vaso (cf. Mc 13,3), para que ninguém possa recuperar nem um pouco do precioso perfume. Uma vez mais, o gesto é fino e elegante. Pode-se tirar daqui duas dimensões da salvação. Por uma parte, aparece a liberdade, própria do amor. Nessa refeição, o fariseu tinha tudo previsto e preparado. Porém, basta que uma mulher, atrevida, impelida por seu coração, entre sem ter sido convidada, e a sobremesa muda completamente. Por outra parte, o episódio revela a libertação oferecida por Jesus. O Messias proclama com seus atos e palavras que o homem já não está condenado à escravidão da lei e de uma religião alienante. O cristão é um ser libertado com base na fé, feita de amor prático pregado por Jesus: “Tua fé te salvou”. Na antiguidade, as prostitutas eram consideradas escravas; socialmente não existiam. Contudo, nessa tarde, uma prostituta escuta a palavra de absolvição e de canonização, porque fez um gesto sacramental, expressou sua decisão de mudar de vida. Assim se coloca em sintonia com o evangelho. Que outra coisa pode significar as palavras de Cristo: “Teus pecados estão perdoados?” É o mesmo que dizer: “Maria, és uma santa”. www.claretianos.com.br |
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O amor de Deus supera os nossos pecados. Mas isso somente acontecerá se a nossa fé for a mesma de Jesus Cristo que nos leva a agir como ele agiu. Perdão e amor andam de mãos dadas. A primeira leitura de hoje (cf. 2Sm. 12,7-10.13) nos apresenta a contrição de Davi. O profeta Natã é o porta-voz, “boca” de Deus, voz da consciência para o rei Davi, quando denuncia seu homicídio e adultério. Davi desprezou o mandamento de Deus, mas aceita a denúncia do profeta, reconhece seu crime e entrega-se ao juízo de Deus. Por isso, Deus mostra compaixão. A segunda leitura (cf. Gl. 2,16.19-21) nos apresenta se as obras da Lei justificam, Cristo morreu em vão. Paulo tem que polemizar com a tendência de “judaizar” os cristãos da Galácia, que com o judaísmo nada tem a ver. Vai ao essencial: “O que torna o homem justo diante de Deus?” Os judaizaintes acham que é observar somente a Lei. Claro que a moralidade tem seu valor; Deus a deseja. Mas, de per si, ela não pode “forçar” Deus, pois sempre lhe ficamos devendo infinitamente. O que nos torna justos é a graça de Deus; sem ela, as obras não servem para nada. E esta graça manifesta-se no maior gesto de amor e perdão pensável:a vida de Cristo dada por nós. Devemos crer nesse amor. Ao refletirmos sobre o Evangelho de hoje (cf. Lc. 7,36-8,3 ou 7,36-50), vem uma pergunte a nossa mente: o que foi primeiro, o amor ou o perdão? Jesus nos diz que: “Tem-lhe sido perdoados seus muitos pecados, porque muito amou”, e: “Tem sido perdoados teus pecados... tua fé te salvou” (cf. Lc. 7,47-50). Será que os pecados foram perdoados porque mostrou muito amor, ou o contrário? A narração não permite distinguir claramente, mas também não importa, pois o mistério do perdão é que se trata de um encontro entre o homem contrito e Deus que deseja reconciliação. A contrição é o amor que busca perdão e o perdão é a resposta de Deus a este amor. A contrição é o amor do pecador, que se encontra com o amor de Deus, que é perdão, reconciliação, misericórdia. Jesus era acusado de comer com os pecadores. Hoje encontramos Jesus na casa de um fariseu, e, pelo jeito, não muito à vontade, porque o fariseu, ainda que o tivesse convidado, o tratara sem muita cortesia. Embora visse em Jesus um possível profeta o convidara pela fama que tinha, o tratara rudemente, talvez para não se macular legalmente, caso Jesus não se comportasse como observante das leis judaicas, e não ser criticado pelos seus colegas fariseus. Como era o costume de receber uma visita no tempo de Jesus? O anfitrião recebia o seu convidado na porta. Ali colocava as mãos nos ombros do visitante e lhe beijava a face. Depois chamava um servo para lavar com água fria os pés da visita e lhe oferecia uma bacia com água limpa e fresca para banhar o rosto e as mãos, antes de seguirem para a mesa. E, mais, o dono da casa deveria oferecer umas gotas de bálsamo ao recém-chegado do pó da estrada e do sol causticante. Nada disse o fariseu fez para Jesus. Era contra os costumes de então uma prostituta presenciar o banquete, ainda mais na casa de um fariseu. Então significa que o fariseu já conhecia a prostituta. Quem sabe o véu, que costumeiramente cobria o rosto e a cabeça das mulheres, tenha disfarçado a prostituta. Jesus veio estar com o fariseu, veio tomar refeição em sua casa. Para o fariseu, o Cristo era um profeta. Mas o fariseu ficou na exterioridade, num formalismo que não envolvia a consciência, mudança de vida, e a conseqüente aceitação de Jesus como Mestre e Senhor. Em vez de olhar seu próprio interior e retirar a trave que lhe cegava os olhos, pensou mal de Jesus que se deixava tocar por uma pecadora. A mulher que já deveria ter visto Jesus antes, escutando o seu ensinamento e o seu Evangelho fez o firme propósito de abandonar a devassidão e o pecado. Sabendo que Jesus estava na casa do fariseu foi ao seu encontro. Levando o perfume a prostituta foi com uma missão determinada: demonstrar gratidão a Jesus reconhecê-lo em público como profeta e declarar-se arrependida do seu passado e de seus pecados. O fariseu procurou a vaidade da companhia de um homem famoso, profeta de Deus, que poderia vir a ser uma pessoa importante. A mulher humilhou-se, porque sabia quais seriam os pensamentos e olhares dos convidados. A mulher, mais do que isso enfrentou o desprezo, tirando o véu, que lhe cobria a cabeça, para que a cabeleira servisse de toalha para os pés de Jesus. O fariseu julgava-se justo e sinceramente não era. A mulher, por sua parte, reconhecia-se pecadora e procurava o perdão de seus pecados. O fariseu oferecia um jantar à vista de todos, para que todos comentassem na vila. A mulher derramava lágrimas de arrependimentos pelos seus muitos pecados. O fariseu se chamava Simão, e, portanto, tinha honra. A mulher era anônima, sendo apenas conhecida de profissão duvidosa, ou seja, prostituta, considerada indigna pelos homens, exceto por Jesus que a acolheu e perdoou os seus pecados. Jesus fez a opção pela mulher pecada no momento em que disse que a mulher muito amara, enquanto o amor do fariseu era escasso. Não que o fariseu devesse cometer muitos pecados para receber um grosso perdão como a mulher. Mas porque o fariseu não soube reconhecer seu pecado de orgulho e prepotência diante de Jesus, apesar de sabê-lo profeta. O cenário do ocorrido era uma refeição: para receber o perdão era necessário o arrependimento dos pecados, a confissão dos pecados e uma entrega confiante aos pés do Senhor. Não importava a quantidade e o peso dos pecados, o importante é o gesto e a qualidade do amor, que é caridade e arrependimento. Jesus olha para a mulher quando fala com o fariseu Simão para que o fariseu Simão desse atenção à mulher, com o olhar de Jesus para a mulher, que era um olhar de perdão, de compreensão, de ternura e de amor. O fariseu, ao contrário, olhava para a mulher com julgamento e condenação como a maioria das pessoas que fazem retratos falados dos outros, voluntariamente. Jesus olha para a mulher e a contempla arrependida. Já o fariseu vê uma mulher airada. O fariseu, ao ver a mulher tocar em Jesus, o vê como pecador. Jesus veio nos ensinar que Deus é pai de todos, faz nascer o sol para bons e maus e chover sobre justos e injustos. Deus é o contrário do pecado, mas o pecador é sua imagem e semelhança. Mais uma vez Jesus afirmara que viera ao mundo com a missão de curar os pecadores para que nenhum deles se perca. O fariseu representa o modo de pensar pelos homens que não se apaixonam pela pedagogia de Jesus que é o perdão sempre e o amor incondicional, sem limites. A graça do perdão desperta a gratidão. A gratidão, a retribuição. A vida crista consiste em retribuir o amor de Deus, que se manifesta no perdão em Cristo Jesus, com amor. Amor que se manifesta na paz, na alegria e no doce e gratuito serviço aos irmãos, especialmente aos mais excluídos. Amém! padre Wagner Augusto Portugal |

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Os estudiosos da Bíblia nos mostram como o episódio da mulher adúltera não pertencia originariamente ao evangelho de são João. Ele não aparece em muitos manuscritos, versões e padres antigos. Mas não há dúvida de que é texto autêntico da Escritura e pertence à tradição apostólica; e em dado momento a Igreja o inseriu no quarto evangelho, onde o lemos com o maior proveito. Nele aparece a gravidade do pecado de adultério, punido na lei de Moisés com a pena cruel da lapidação. Aparece a perfídia dos escribas e fariseus, que armam uma cilada para tentar desprestigiar a Jesus. Aparece a sabedoria do Mestre Divino, que desfaz a astúcia de seus adversários. Nem manda que eles cumpram a lei e apedrejem a mulher; nem se coloca contra a lei, condenando a lapidação. Em vez dessas duas alternativas, à primeira vista inevitáveis, lança-Ihes um desafio: "Quem não tiver pecado, atire a primeira pedra" (Jo 8,7). E eles se foram retirando envergonhados, um a um, a começar pelos mais velhos... Mas aí brilha a misericórdia de Jesus e a conversão da pecadora. Quando todos se afastam e fica somente a mulher diante de Jesus - o pecado diante da santidade, a miséria diante da misericórdia - vem a grande palavra: "Mulher, onde estão eles? Ninguém te condenou? ...Pois eu também não te condeno: vai, e de agora em diante não peques mais" (Ib. , v v 10 e 11 ). E a paz voltou àquele coração. E a decisão de caminhar pelo caminho certo. A conversão! Não mais pecar! E isso não por mera obediência a uma lei escrita, mas para responderás exigências de uma consciência que encontrou o amor" (Meertens-Frisque, G.D.A.C.). Desceu o céu sobre aquela alma aniquilada pela vergonha e pelo remorso. Para usarmos a imagem de Isaías, foi como um rio de água correndo pelo deserto (cf. Is. 43,20). A tendência do homem é acusar e condenar. Condenar os outros, em vez de olhar para seus próprios pecados. Colocar -se numa atitude de superioridade, e do alto de seu orgulho apontar os pecados alheios e pedir para eles a sentença de condenação. Isso no âmbito reduzido da família ou do ambiente de trabalho, e isso também no vasto mundo das nações, umas querendo subjugar as outras e impor-lhes sua mentalidade, como se possuíssem o paradigma do bem e da justiça. Como quem dissesse: os outros estão errados; nós e que estamos certos. Quem somos nós para julgar os outros? Para apedrejá-Ios com nossas acusações descaridosas? Deixemos a Deus o julgamento. E aprendamos do próprio exemplo de Jesus a condenar o pecado, mas salvar o pecador: "Vai e não peques mais". E poderíamos comentar essa luminosa palavra com a qual J Jesus sela a conversão da pecadora, com o exemplo de São Paulo, conforme aparece na liturgia da palavra deste mesmo J domingo. Paulo vivera longe de Cristo. Vivera contra Cristo. I Aferrado a seu farisaísmo presunçoso e agressivo, tornara-se o mais violento perseguidor dos cristãos. Mas um dia "foi arrebatado por Cristo". O perseguidor de ontem torna-se o apóstolo de hoje. E se entrega totalmente ao seguimento de Jesus. E o faz com o olhar dirigido para frente, nessa tensão de esperança que dá sentido construtivo à sua vida: "Esquecendo tudo o que fica para trás- diz ele - atiro-me ao que está na frente; corro ao encontro da recompensa da vocação celeste, ao encontro do chamado de Deus em Jesus Cristo Nosso Senhor" (Fl. 3,13-14). É assim que deve ser o cristão. Alguém que não caminha olhando para trás, remexendo o passado, como que não confiando plenamente no perdão de Deus, ou -quem sabe? -com vontade de voltar ao caminho antigo. Cristão é alguém que caminha com os olhos no futuro, nessa antevisão da celeste felicidade, que ilumina o caminho de nossa vida como um poderoso facho de luz: "Não cheguei ainda ao prêmio, não sou ainda perfeito; mas prossigo minha corrida pra verse o arrebato" (Ib., v 12). padre Lucas de Paula Almeida, CM |
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A parábola e sua aplicação Este trecho é o desfecho da parábola que Deus manda o profeta Natã falar a Davi. Havia um homem rico e um pobre. O rico tinha bois e ovelhas, mas roubou a única ovelhinha do pobre para servir a um visitante. Davi condena à morte o rico que fez esta barbaridade. No v. 7 o profeta conclui: "Esse homem és tu!". Os vv. 7-9 apresentam os inúmeros favores de Deus a Davi, que procurou sempre corresponder com honestidade, retidão e justiça em relação ao povo. Deus lhe deu o reino de Israel e Judá, bens, mulheres e poderes. Entretanto Davi começa agora a usar o poder em próprio proveito desrespeitando Javé que o reprova (v. 9). O erro de Davi O abuso que Davi fez do poder é aqui centralizado no seu adultério e no crime. O texto é narrado no cap. 11. Trata-se do adultério de Davi com Betsabéia, mulher de Urias e da trama que Davi fez para que Urias morresse na guerra para ele poder ficar assim com sua mulher - a ovelhinha da parábola. Davi viola dois mandamentos de Deus: cobiça a mulher do próximo e comete assassinato (vv. 9-10) Arrependimento e perdão O v. 13 é o resultado final da Palavra de Deus iluminando os fatos da vida. À luz da Palavra o rei toma consciência do seu pecado. Nesse momento em que arrependido o homem conhece sua nudez, sua pequenez, seu pecado, Deus mostra a grandeza do seu perdão e o envolve com sua graça. É claro, o pecado tem consequências gravíssimas que muitas vezes recaem sobre o pecador. No v. 5 Davi, sem saber, sentencia sua própria morte por causa do seu grande pecado. Mas Deus perdoou Davi. Você conhece casos de abuso de poder em benefício próprio, adultério e também conversão profunda a partir do perdão de Deus? 2º leitura – Gl. 2,16.19-21 A salvação vem pela fé O v. 16 salienta todo o evangelho de Paulo. Paulo tomou uma consciência muito profunda da distinção entre Lei de Moisés e graça de Cristo. A Lei é a lei do mérito: se a observo, me salvo, se não a observo, me condeno. Assim pensavam os judeus, assim pensava Paulo antes de conhecer Jesus Cristo. Depois ele percebeu com clareza que o único caminho da salvação é a fé em Jesus Cristo crucificado pelo nosso pecado e para nossa salvação. O v. 16 afirma: A Lei não tem força de salvar ninguém: "porque pela prática da Lei ninguém será justificado" e o v. 21 acaba de esclarecer: "se a justiça vem pela Lei, então Cristo morreu por nada". Isto significa que acreditar na salvação através dos próprios méritos do fiel cumpridor da Lei é elevar Moisés e eliminar Jesus; é retornar ao farisaísmo condenado por Jesus. É preciso que fique claro que o autor da nossa salvação é Cristo morto e ressuscitado. Nossas obras são apenas abertura do nosso coração para acolher a salvação viva já realizada na cruz de Cristo. Para isto é preciso fé, muita fé, uma fé viva, uma fé com obras, pois uma fé sem obras é morta. Fé não é apenas acreditar, mas comprometer-se com aquele que nos amou e se entregou por nós - Jesus Cristo. Com isso não queremos levar ninguém a ser um "fora da lei". A lei é importante para a convivência humana. Mas não justifica nem salva ninguém! Paulo totalmente transformado Os vv. 19-21 mostram as obras da graça de Jesus Cristo na vida de Paulo. Jesus condenado pela Lei, aniquila na cruz a pretensão salvífica da Lei. O Paulo da Lei morreu com Cristo na cruz, morreu para a Lei, a fim de viver agora para Deus, não confiando mais em seus méritos, mas unicamente na graça de Cristo que o transformou interiormente de tal modo que Paulo sente que é o Cristo que vive nele, quer dizer, ele está profundamente comprometido com Jesus Cristo. Paulo não deixou de ser um homem frágil, mas na sua fraqueza ele experimentou a força de Cristo. Ele assumiu totalmente a luta de Cristo para a salvação de todos, assumiu também suas dores e até mesmo sua morte e pretende também assumir a ressurreição. Isto é o que ele chama de fé que salva. Você realmente tem fé? Evangelho – Lc. 7,36-8,3 Estamos num ambiente de refeição, sinal de comunhão de vida. O tema geral é a conversão e o perdão. Quer ilustrar a misericórdia de Jesus para com os pecadores (a prostituta), que arrependidos trazem sua fé em gestos de amor. No tempo em que São Lucas escreve, ainda é forte a discriminação das mulheres. O evangelista apresenta o coração misericordioso de Jesus que não faz acepção de pessoas. Além disso, a acolhida que Jesus dá à pecadora é uma crítica refinada do evangelista na década de 80, do século I, contra a exclusão das mulheres. Aliás, os versículos finais 8,1-3 apresentam uma síntese da atividade de Jesus e a predileção de Lucas pelas mulheres que faziam parte da comitiva de Jesus. O texto mostra também a inutilidade de uma religião baseada nos méritos da Lei e no sistema de pureza ritual (Simão). Podemos destacar aqui três atitudes: a) A atitude da mulher Aparece uma mulher conhecida como prostituta e traz um frasco de alabastro com perfume. Com toda a humildade ela se coloca por trás de Jesus. E chorava. E com suas lágrimas de arrependimento e gratidão banhava os pés de Jesus e os enxugava com seus cabelos, cobria-os de beijos e os ungia com perfume. Os gestos da mulher eram símbolo da sua gratidão pelos muitos pecados que lhe tinham sido perdoados. b) A atitude de Simão Simão era fariseu e o evangelista faz questão de sublinhar isto, pois nos vv. 36-39 aparece a palavra "fariseu" quatro vezes. Isto reflete, provavelmente, a polêmica entre cristãos e fariseus no tempo de Lucas. Basta ver que Jesus respeitosamente chama o fariseu pelo seu nome: "Simão". O fariseu Simão não difere de seus colegas. É arrogante, prepotente, preconceituoso contra Jesus e a mulher, desconfia maldosamente da atitude de Jesus e da mulher, não tem misericórdia para com a pecadora, pelo contrário a denuncia. Ele falha tremendamente na falta de acolhida como anfitrião. Tudo o que ele deixou de fazer a Jesus como obrigação, a mulher fez com o máximo de espontaneidade feminina e expressão de gratidão pela atitude salvífica de Jesus. Simão certamente partilhava da convicção de seus convidados que Jesus não tinha poder de perdoar pecados. Sua segurança está em seu sistema religioso ancorado na Lei. Para ele o fiel cumprimento da lei é que salva e, por isso, despreza a gratuidade da salvação que Jesus oferece aos pecadores. (cf vv. 47-50) c) A atitude de Jesus Jesus não tem preconceitos nem contra a mulher, nem contra os pecadores, nem mesmo contra o fariseu Simão, pois aceita o convite dele de jantar em sua casa. Jesus conta a parábola para Simão, a parábola dos dois devedores que não podiam pagar: um devia 500 moedas de prata, o outro apenas 50. O credor (o Pai do céu) perdoa a ambos. Aí Jesus pergunta: "Qual deles amará mais?" Simão responde certo: "Aquele ao qual perdoou mais". Neste momento Jesus compara a mulher com Simão, mostrando a ausência de amor no coração de Simão que julgava que não tinha pecado, nem acreditava no perdão de Jesus. E por outro lado enaltece a delicadeza, carinho, a ótima acolhida da mulher que se reconhece pecadora, mas cujo coração está repleto de amor, de arrependimento e gratidão. O v. 37 deixa claro que a mulher já conhecia Jesus e já se tinha deixado transformar por ele, encantada, pela sua misericórdia. O desfecho da atitude de Jesus é linda. É o perdão, a paz e o reconhecimento da fé, concretizada no amor, que é o instrumento de salvação, não a Lei mosaica como pensava Simão. "Teus pecados estão perdoados" (...) "Tua fé te salvou. Vai em paz" (vv. 48-50). dom Emanuel Messias de Oliveira |

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O evangelho de hoje coloca Jesus diante de um fariseu e de uma pecadora. O fariseu (palavra que significa separado), de nome Simão, era uma pessoa influente na cidade e adquiriu estatus de piedoso e cumpridor das leis. Em circunstâncias normais, ele jamais receberia uma prostituta em sua casa, pois ela era uma pessoa impura, e portanto, uma hóspede indesejada. O hóspede desejado era Jesus, e Simão ao recebê-Lo, por esquecimento ou pretensão, não segue as tradições orientais de boas vindas. Porém, ao ver uma mulher considerada de má fama por seus pecados entrar, lavar os pés de Jesus com suas lágrimas, secar com seus cabelos e perfumá-los como uma forma de arrependimento de seus erros, Simão faz um julgamento preconceituoso, imaginando que, sendo um profeta, Jesus devia saber estar diante de uma pecadora e que, ao deixar-se tocar por ela conforme as tradições, isso O deixaria impuro. Jesus, ao perceber a indignação de seu anfitrião, conta-lhe uma parábola que o faz comparar suas atitudes com as da pecadora, para que perceba que, toda falha por maior que seja é digna de perdão e, quanto maior o perdão, maior a gratidão. É difícil definir se o grande amor e o verdadeiro arrependimento daquela mulher fizeram com que Jesus perdoasse seus pecados, ou se o perdão dado a ela por Jesus fez com que ela se arrependesse e O amasse verdadeiramente. Por viver segundo as leis da época, o fariseu considera-se livre de pecado e, por isso, sem necessidade de perdão, o que lhe torna arrogante e preconceituoso. Ele se julga piedoso, mas sua piedade não condiz com a proposta de Jesus, pois ele acredita não precisar do perdão de Deus. Na sociedade de hoje pode-se encontrar ainda muitos “fariseus”, pessoas que querem mostrar à sociedade uma conduta considerada correta, mas que não percebem o quanto são hipócritas ao esconder seus erros e apontar os erros dos outros. Não é preciso cometer grandes erros para obter um grande perdão e, sim, reconhecer-se pecador procurando o perdão e amando ao próximo sem julgar seus erros, pois este é o caminho para encontrar a misericórdia de Deus e o perdão de seus pecados. www.pequeninosdosenhor.com.br |
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A estrutura social do ambiente judaico era fundamentalmente patriarcal, isto é, ligada ao pai de família. O pai era a figura dominante enquanto garantia a estabilidade e continuidade do grupo familiar. Subordinadas a esta exigência geral, vinham todas as decisões, atitudes, formas de comportamento e atribuições com as quais se constituíam os laços que sustentavam a coesão das famílias em si mesmas e com as outras famílias. Ao homem cabia esta função importantíssima. Não creio que seja correspondente à verdade quando julgamos simploriamente tal tipo de sociedade ou quando aplicamos a ela os parâmetros de avaliação das relações do nosso universo cultural (às vezes com uma ponta de revanchismo machista ou feminista que distorce a verdade das coisas). Homem e mulher, cada um tinha seu lugar e função bem definidas. Contudo, havia sempre preconceitos, posições e prestígios aos quais muitos não renunciavam e, como é fácil acontecer, sentimentos de poder tomavam conta de muitos homens. Se a Escritura estabelecia igual dignidade para o homem e para a mulher, todavia, este princípio básico de fato era quase que esquecido na vida do dia-a-dia. Na prática, por exemplo, a indenização por uma mulher era a metade daquela de um homem (cfr. Lv. 27,1-8). Em relação a certos tipos de convicções convencionais, Jesus teve atitudes extremamente comprometedoras para Ele e seus discípulos; o fato de acolher mulheres em seu grupo era de verdade um escândalo, uma coisa inusitada, absurda, pois nunca algum rabino havia acolhido mulheres entre seus discípulos. Nem no mundo extra bíblico se encontra uma atitude desta, neste sentido Jesus foi indiscutivelmente precursor. Alguns rabinos eram firmes sustentadores de que uma mulher não pudesse sequer se aproximar em público de um homem ou de falar a sós com ele (veja o espanto dos apóstolos no caso da mulher samaritana que se encontra a sós com Jesus perto do poço de Jacó - Jo. 4). Imaginemos então a situação embaraçosa na qual se encontrou o fariseu quando uma mulher, conhecida como “pecadora”, de repente se fazia presente à refeição oferecida a Jesus. Durante um momento tão significativo, como era numa casa judia o convite à refeição, podia ressoar como uma grave ofensa ao hospede um fato como este. Como ela tenha entrado em casa também não é difícil descobrir, pois freqüentemente a refeição oferecida a um hospede se dava no terraço da casa; era uma laje coberta com taquaras ou folhagens como um caramanchão (cfr. At. 10,6-12); entre casas adjacentes era fácil e costumeiro usar estes terraços como se fossem verdadeiras ruas. A mulher entrou sem ser convidada, (de passagem...? de propósito...?). Era uma situação embaraçosa, uma “batata quente” da qual livrar-se o mais rapidamente e discretamente possível. Mas foi exatamente neste contexto que Jesus agiu de modo inesperado, bem no estilo de Deus que surpreende sempre o homem mostrando como «seus pensamentos são distantes dos nossos pensamentos tanto quanto o céu é distante da terra» (como dizia Isaias 55,9). Não somente Jesus não ficou embaraçado, mas com toda naturalidade se deixava tocar! Permitia à mulher expressar da sua maneira quanto estava no seu coração. Quando todos esperavam ao menos que Jesus tivesse um gesto de recusa Ele demonstrava não somente não se esquivar das demonstrações de afeto, mas também aceitar o presente trazido por ela, e isto era muito “perigoso” ao ver da opinião pública! Ainda mais se levarmos em consideração que o perfume tem ainda hoje grande significado no mundo oriental. Perfumes eram o dom mais agradável que pudesse ser oferecido a uma mulher pois simbolizavam, de alguma forma, a envolvência do amor que não pode ser identificado mas que permeia tudo. Era também sinal da benção de Deus e voto de prosperidade. Para indicar que uma pessoa era bem-vinda numa casa e que sua presença era uma “benção” para aquela casa o pai de família punha na cabeça do hospede um perfume com consistência gelatinosa que, com o calor do corpo, progressivamente ia exalando seu aroma. Quanto mais a pessoa ficaria em casa tanto mais o calor do seu corpo teria derretido a gelatina e espalhado o perfume. Claro sinal de que a presença do hospede é grata e desejada. O fariseu não teve a sensibilidade de colocar “perfume” na cabeça de Jesus: quando fazemos pouco caso das coisas, provavelmente é porque estas não são tão expressivas nem importantes para nós. Quando alguma coisa é muito importante para nós, cuidamos de todos os detalhes e encontramos agrado em fazê-lo; quando as motivações são outras, fazemos a mesma coisa, mas sem o “calor humano”. E isto, Jesus o intuiu! A este ponto se compreende facilmente a beleza do gesto da mulher e a profunda sintonia de coração que Jesus encontrou nela. Nunca saberemos por que, nunca saberemos o que antecedeu o gesto da mulher mas, de alguma forma, Jesus tinha entrado em sua vida e ela estava oferecendo a Ele tudo o que a sua vida tinha sido até então: uma vida feita de perfumes e cabelos soltos (gesto que era próprio de uma mulher que se oferecia a um homem). Ela não estava dando a Jesus o melhor de si mesma, como todos desejam dar a Deus. Talvez estivesse entregando-Lhe exatamente aquilo do qual se envergonhava mas, paradoxalmente, estava ao mesmo tempo oferecendo-lhe realmente o melhor de si mesma: a capacidade de amar e recomeçar. Não se importando com as considerações e rótulos aplicados indiscriminadamente por pessoas que se importam principalmente em manter a própria posição e imagem diante de todos, Jesus e a mulher se haviam encontrado. Ela não se sentiu recusada. Tudo aquilo que para ela estava pesando tanto, era acolhido por Jesus sem condições, como um dom. Ambos não tiveram medo de perder a imagem para descobrir, dentro do coração do outro, o mundo maravilhoso que existe apesar de qualquer condição em que a vida leve a viver. Era verdadeiramente o “salvador”, Jesus, aquele que devolvia a dignidade ferida por meio do seu amor, sem condições. Jesus a salvava porque o amor salva. O perfume que lhe dizia “bem-vindo”, Jesus não conseguiu encontrá-lo naquele homem atento a todas as leis da religião, o encontrou entre as lágrimas da mulher; “bem-vindo em minha vida” diziam-Lhe aquelas lágrimas carregadas do amor, lágrimas que uma mulher que se sente amada sabe dar. padre Carlo - www.fatima.com.br |

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A primeira leitura apresenta-nos, através da história do pecador David, um Deus que não pactua com o pecado; mas que também não abandona esse pecador que reconhece a sua falta e aceita o dom da misericórdia. Na segunda leitura, Paulo garante-nos que a salvação é um dom gratuito que Deus oferece, não uma conquista humana. Para ter acesso a esse dom, não é fundamental cumprir ritos e viver na observância escrupulosa das leis; mas é preciso aderir a Jesus e identificar-se com o Cristo do amor e da entrega: é isso que conduz à vida plena. O Evangelho coloca diante dos nossos olhos a figura de uma “mulher da cidade que era pecadora” e que vem chorar aos pés de Jesus. Lucas dá a entender que o amor da mulher resulta de haver experimentado a misericórdia de Deus. O dom gratuito do perdão gera amor e vida nova. Deus sabe isso; é por isso que age assim. 1º leitura – 2 Sm. 12,7-10.13 - AMBIENTEO “Livro de Samuel” (dividido em duas partes) é um livro que nos apresenta os primórdios da monarquia, em Israel. Não é, contudo, um livro escrito por políticos, por historiadores ou por sociólogos; é um livro escrito por teólogos, empenhados em fazer catequese e em ler a história passada à luz da fé. Não lhes interessa demasiado que a sua perspectiva seja uma leitura rigidamente objetiva dos acontecimentos; interessa-lhes, sobretudo, que a sua leitura ajude os crentes a tirar conclusões acerca de Deus e da forma de Deus atuar. O texto que hoje nos é proposto faz parte de um conjunto de tradições sobre o reinado de David (cf. 2 Sam. 7-20). Depois de descrever o pecado de David (que cometeu adultério com Betsabé e mandou que o marido desta – Urias, soldado do exército de David – fosse colocado num lugar arriscado, no combate contra os amonitas, a fim de que corresse riscos e morresse – cf. 2 Sm. 11,1-27), o autor deuteronomista apresenta – pela voz do profeta Nathan – a reação de Deus diante do pecado do rei. Estamos em Jerusalém – nesta altura, capital do Israel unificado – nos primeiros anos do séc. X a.C. MENSAGEMDeus poderá pactuar com esta atitude egoísta e prepotente do rei? De forma nenhuma. Pela boca do profeta Nathan, o autor deuteronomista anuncia que Deus não fica indiferente diante da injustiça cometida e que pede contas ao agressor. Daí os castigos anunciados contra David e a sua casa. O autor deuteronomista escreve muitos anos depois destes acontecimentos. Ele conhecia uma série de desgraças que, entretanto, se tinham abatido sobre a família de David (morte violenta de três filhos de David: Amon – cf. 2 Sm. 13,23-39; Absalão – cf. 2 Sm. 18,9-15; e Adonias – cf. 1 Re. 2,24-25). Naturalmente, não foram castigos de Deus, mas acontecimentos históricos normais, típicos de uma época violenta, em que a luta pelo poder terminava, tantas vezes, em tragédias pessoais e familiares; mas esses acontecimentos foram lidos pelo teólogo como sinais claros de que Jahwéh não estava disposto a pactuar com as injustiças e as arbitrariedades cometidas pelo rei. A mensagem do nosso “catequista” é evidente: Deus não deixa passar em claro a atitude daqueles que se aproveitam do poder para fins egoístas e desfazem a vida dos irmãos. A última palavra do texto é, no entanto, de esperança. Confrontado com o seu crime, David reconhece, com humildade, o seu comportamento errado e pede perdão; e Deus acaba por perdoar a sua falta. Desta forma, o deuteronomista resume a lógica de Deus, que condena o pecado, mas que não abandona o pecador. Assim, o nosso catequista está a enviar uma mensagem aos homens do seu tempo: apesar das nossas falhas, a misericórdia de Deus não nos abandona e dá-nos sempre a hipótese de recomeçar. ATUALIZAÇÃOA reflexão fundamental que este texto nos apresenta é à volta da “lógica” de Deus: Ele não pactua com o pecado, mas manifesta uma misericórdia infinita para com o pecador. É esta a nossa “lógica” quando alguém nos magoa ou ofende? O exercício do poder é, tantas vezes, uma forma de “levar a água ao seu moinho”. O nosso tempo é fértil em figuras que, para proteger os seus interesses pessoais ou os interesses dos seus partidos e ideologias, arrastam populações inteiras por caminhos de morte e de sofrimento. Que sentido é que isto faz? Nós cristãos, filhos de um Deus que não suporta o egoísmo e a injustiça, podemos pactuar com estas situações? Podemos, tranquilamente, votar naqueles que cometem injustiças gritantes? A atitude de David, ao reconhecer humildemente a sua falta, é uma atitude que nos questiona pela sua sinceridade, honestidade e coerência. Contrasta violentamente com a irresponsabilidade dos “assassinos do volante”, que nunca têm culpa de nada; contrasta violentamente com a irresponsabilidade dos cinzentos gestores das sociedades anónimas, que provocam catástrofes ambientais e não têm culpa; contrasta violentamente com a irresponsabilidade dos governantes que deixam ruir pontes e morrer pessoas, mas nunca têm qualquer culpa… O exemplo de David convida-nos a assumir, com coerência, as nossas responsabilidades e a ter vontade de remediar as nossas ações erradas; convida-nos, também, ao arrependimento e à conversão – condições essenciais para que o pecado desapareça das nossas vidas. 2º leitura – Gal. 2,16.19-21 - AMBIENTEAs comunidades cristãs da Galácia (centro da Ásia Menor) conheceram, pelos anos 56/57, um ambiente de alguma instabilidade. A culpa era de certos pregadores cristãos de origem judaica que, chegados à zona, procuravam impor aos gálatas a prática da Lei de Moisés (cf. Gal. 3,2; 4,21; 5,4) e, em particular, a circuncisão (cf. Gal. 2,3-4; 5,2; 6,12). São, ainda, esses “judaizantes” que, nas primeiras décadas do cristianismo, tanta confusão trouxeram às comunidades cristãs de origem pagã. Paulo não está disposto a pactuar com estas exigências. Para ele, esta questão não é secundária, mas algo que toca no essencial da fé: se as obras da Lei são fundamentais, é porque Cristo, por si só, não pode salvar. Isto será verdadeiro? Quanto a esta questão, Paulo tem ideias claras: Cristo basta; a Lei de Moisés não é importante para a salvação. É neste ambiente que Paulo escreve aos gálatas. Diz-lhes que os ritos judaizantes apenas os prenderão numa escravatura da qual Cristo já os tinha libertado. O tom geral da carta é firme e veemente: era o essencial da fé que estava em causa. Depois de analisar a situação (cf. Gal. 1,6-10), de dizer que tem um mandato de Cristo para anunciar o Evangelho aos pagãos (cf. Gal. 1,11-24) e de se defender da acusação de pregar um evangelho próprio, diferente do pregado pelos outros apóstolos (cf. Gal 2,1-10), Paulo vai anunciar o “seu” Evangelho (que é o Evangelho da Igreja, o mesmo que é anunciado pelos outros apóstolos): não é a Lei e as obras que salvam, mas a fé. MENSAGEMNeste texto que nos é proposto, Paulo apresenta uma espécie de síntese daquilo que ele considera o autêntico Evangelho. Na primeira parte (vs. 16), Paulo sustenta que a salvação vem, única e exclusivamente, por Cristo. É por Cristo que somos “justificados” e não pelas obras da Lei. “Justificação” é, aqui, sinônimo de “salvação”. Significa que a “justiça de Deus” (que não é a estrita aplicação das leis, como no tribunal, mas é a fidelidade de Deus aos compromissos que Ele assumiu para com o seu Povo, no sentido de salvá-lo) derrama gratuitamente sobre o homem o amor e a misericórdia, mesmo quando o homem pecador não merece. Ora, Deus “salva” o homem pecador, não por ele cumprir a Lei de Moisés, mas por crer em Jesus (“crer” significa aderir a Ele, seguil’O). Na segunda parte (vs. 19-21), a reflexão de Paulo gira à volta da ação de Cristo e da ação da Lei, no sentido de “salvar” o homem. A Lei salva? Não. Ao crucificar Jesus, a Lei demonstrou que não gerava vida, mas morte; desqualificou-se, assim, e demonstrou a sua falência no sentido de conduzir à vida plena o homem que estava sob a sua jurisdição. Depois de ser responsável pela morte de Cristo, a Lei não terá qualquer legitimidade para se impor e já não será vista por ninguém como geradora de vida. Cristo, por seu lado, com a sua vida e, sobretudo, com a sua morte (provocada pela Lei) mostrou a todos a falência da Lei e libertou os homens de um regime que apenas criava escravatura e morte. Quanto a si, Paulo identifica-se plenamente com Cristo. Sendo um com Cristo, Paulo também foi crucificado pela Lei e descobriu, com Cristo, que a Lei não gerava vida, mas morte. Assim, ele aprendeu que só Cristo dá vida e que só Cristo liberta. É na identificação com esse Cristo do amor e da entrega total (“que me amou e Se entregou por mim”) e não na Lei, que Paulo descobre a vida plena, a vida do Homem Novo. Conclusão: a Lei gera morte; só Cristo salva. Esta é a convicção profunda que Paulo procura passar aos gálatas. ATUALIZAÇÃOO texto põe em relevo, em primeiro lugar, a atitude de Deus para com o homem. O nosso Deus não é o Deus que aplica rigorosamente as leis (nesse caso o homem pecador não teria acesso à salvação), mas é o Deus que, de forma gratuita, “justifica” o homem. O acesso à vida em plenitude não é uma conquista humana, mas um dom gratuito, que brota da bondade de Deus. De Deus não podemos exigir nada, mesmo que nos tenhamos “portado bem” e cumprido as regras: de Deus, podemos apenas esperar a graça da salvação como dom gratuito e incondicional. Isto retira-nos qualquer legitimidade para assumir atitudes de arrogância e auto-suficiência, quer em relação a Deus, quer em relação aos nossos irmãos. É preciso ter consciência de que “Cristo basta”. Muitas vezes a nossa caminhada religiosa alicerça-se em aspectos folclóricos, que são absolutizados e considerados essenciais. Inventamos comportamentos “religiosamente corretos” e procuramos impô-los, discutimos leis, magoamos as pessoas por causa de preceitos legais, marginalizamos e catalogamos por causa dos princípios de um código legal e esquecemos que Cristo é o único essencial. A comunidade cristã deixa de ser verdadeiramente a comunidade dos que aderem a Cristo. Que sentido é que isto faz, à luz da catequese de Paulo? Paulo chama, ainda, a atenção para a nossa identificação com Cristo. O cristão é aquele que se identifica com Cristo no seu amor e na sua entrega e que, nesse caminho, encontra a verdadeira vida, a vida em plenitude. É esse o caminho que eu procuro seguir? A minha vida desenrola-se de tal forma que eu posso dizer – como Paulo – “já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim”? A vida de Cristo circula em mim e aparece, aos olhos dos meus irmãos, nos meus gestos, nas minhas palavras, no meu amor? Evangelho – Lc. 7,36 – 8,3 - AMBIENTE O texto situa-nos na primeira parte do Evangelho segundo Lucas. Convém recordar que esta primeira parte se desenrola na Galileia, sobretudo à volta do lago de Tiberíades. Durante essa fase, Jesus vai concretizando o seu programa: trazer aos homens – sobretudo aos pobres e marginalizados – a liberdade e a salvação de Deus. Toda esta primeira parte é, aliás, dominada pelo anúncio programático da sinagoga de Nazaré, onde Jesus define a sua missão como “anunciar a Boa Nova aos pobres, proclamar a libertação aos cativos e mandar em liberdade os oprimidos” (cf. Lc. 4,16-30). Este episódio põe em evidência um tema caro a Lucas: a misericórdia de Jesus frente àqueles que necessitam de libertação. O episódio anterior terminou com uma descrição de Jesus como amigo dos pecadores (cf. Lc. 7,34); agora, este princípio vai ser ilustrado com um fato real. O episódio situa-nos no ambiente de um banquete, em casa de um fariseu chamado Simão (o “banquete” é, neste contexto, o espaço da familiaridade, da irmandade, onde os laços entre as pessoas se estabelecem e se consolidam). Lucas é o único evangelista que mostra os fariseus tão próximos de Jesus que até aceitam sentar-se à mesa com Ele (cf. Lc. 11,37;14,1) e preveni-l’O em relação à ameaça de Herodes (cf. Lc. 13,31). Lucas está, no que diz respeito a esta questão, bem mais perto da realidade histórica do que Marcos e, sobretudo, do que Mateus (que, influenciado pelas polemica da Igreja primitiva com os fariseus, apresenta sistematicamente os fariseus como adversários de Jesus). MENSAGEMA perspectiva fundamental deste episódio tem a ver com a definição da atitude de Jesus (e, portanto, de Deus) para com os pecadores. A personagem central é a mulher a quem Lucas apresenta como “uma mulher da cidade que era pecadora”. Não há qualquer indicação acerca de anteriores contactos entre Jesus e esta mulher, embora possamos supor que a mulher já se tinha encontrado com Jesus e tinha percebido n’Ele uma atitude diferente dos mestres da época, sempre preocupados em evitar os pecadores notórios e em condená-los. A ação da mulher (o choro, as lágrimas derramadas sobre os pés de Jesus, o enxugar os pés com os cabelos, o beijar os pés e ungi-los com perfume) é descrita como uma resposta de gratidão, como consequência do perdão recebido (vs. 47). A parábola que Jesus conta, a este propósito (vs. 41-42), parece significar, não que o perdão resulta do muito amor manifestado pela mulher, mas que o muito amor da mulher é o resultado da atitude de misericórdia de Jesus: o amor manifestado pela mulher nasce de um coração agradecido de alguém que não se sentiu excluído nem marginalizado, mas que, nos gestos de Jesus, tomou consciência da bondade e da misericórdia de Deus. A outra figura central deste episódio é Simão, o fariseu. Ele representa aqueles zelosos defensores da Lei que evitavam qualquer contacto com os pecadores e que achavam que o próprio Deus não podia acolher nem deixar-se tocar pelos transgressores notórios da Lei e da moral. Jesus procura fazê-lo entender que só a lógica de Deus – uma lógica de amor e de misericórdia – pode gerar o amor e, portanto, a conversão e a vida nova. Jesus empenha-se em mostrar a Simão que não é marginalizando e segregando que se pode obter uma nova atitude do pecador; mas que é amando e acolhendo que se pode transformar os corações e despertar neles o amor: essa é a perspectiva de Deus. O perdão não se dá a troco de amor, mas dá-se, simplesmente, sem esperar nada em troca. A reação de Jesus não é um caso isolado, mas resulta da missão de que Ele se sente investido por Deus – atitude que Ele procurará manifestar em tantas situações semelhantes: dizer aos proscritos, aos moralmente fracassados, que Deus não os condena nem marginaliza, mas vem ao seu encontro para os libertar, para dar-lhes dignidade, para os convocar para o banquete escatológico do Reino. É esta atitude de Deus que gera o amor e a vontade de começar vida nova, inserida na lógica do Reino. O texto que nos é proposto termina com uma referência ao grupo que acompanha Jesus: os Doze e algumas mulheres. O fato de o “mestre” se fazer acompanhar por mulheres (Lucas é o único evangelista que refere a incorporação de mulheres no grupo itinerante dos discípulos) era algo insólito, numa sociedade em que a mulher desempenhava um papel social e religioso marginal. No entanto, manifesta a lógica de Deus que não exclui ninguém, mas integra todos – sem exceção – na comunidade do Reino. As mulheres – grupo com um estatuto de subalternidade, cujos direitos sociais e religiosos eram limitados pela organização social da época – também são integradas nessa comunidade de irmãos que é a comunidade do Reino: Deus não exclui nem marginaliza ninguém, mas a todos chama a fazer parte da sua família. ATUALIZAÇÃOEm primeiro lugar, o nosso texto põe em relevo a atitude de Deus, que ama sempre (mesmo antes da conversão e do arrependimento) e que não Se sente conspurcado por ser tocado pelos pecadores e pelos marginais. É o Deus da bondade e da misericórdia, que ama todos como filhos e que a todos convida a integrar a sua família. É esse Deus que temos de propor aos nossos irmãos e que, de forma especial, temos de apresentar àqueles que a sociedade trata como marginais. A figura de Simão, o fariseu, representa aqueles que, instalados nas suas certezas e numa prática religiosa feita de ritos e obrigações bem definidos e rigorosamente cumpridos, se acham em regra com Deus e com os outros. Consideram-se no direito de exigir de Deus a salvação e desprezam aqueles que não cumprem escrupulosamente as regras e que não têm comportamentos social e religiosamente corretos. É possível que nenhum de nós se identifique totalmente com esta figura; mas, não teremos, de quando em quando, “tiques” de orgulho e de auto-suficiência que nos levam a considerar-nos mais ou menos “perfeitos” e a desprezar aqueles que nos parecem pecadores, imperfeitos, marginais? A exclusão e a marginalização não geram vida nova; só o amor e a misericórdia interpelam o coração e provocam uma resposta de amor. Frequentemente fala-se, entre nós, no agravamento das penas previstas para quem infringe as regras sociais, como se estivesse aí a solução mágica para a mudança de comportamentos… A lógica de Deus garante-nos que só o amor e a misericórdia conduzem à vida nova. Na linha do que a Palavra de Deus nos propõe hoje, como tratar esses excluídos, que todos os dias batem à porta da “fortaleza Europa” à procura de condições mínimas para viver com dignidade? E os moralmente fracassados, que testemunho de amor e de misericórdia encontram nas nossas comunidades? Ultimamente, fala-se muito do papel e do estatuto das mulheres na comunidade cristã. Este texto diz-nos que, ao contrário do que era costume na época, as mulheres faziam parte do grupo de Jesus. Que significa isso: que elas devem ter acesso aos ministérios na comunidade cristã? Seja qual for a resposta, o que é importante é que não façamos disto uma luta pelo poder, ou uma reivindicação de direitos, mas uma questão de amor e de serviço. padre Joaquim Garrido – padre Manuel Barbosa – padre Ornelas Carvalho |
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Jesus estava na casa de um fariseu chamado Simão, pois havia sido convidado para uma refeição. O fariseu o convidou, mas, de fato, não o acolheu. O costume mandava que se oferecesse ao convidado água para lavar os pés, óleo para perfumar os cabelos e que fosse recebido com um beijo de saudação. O fariseu não fez nada disso para Jesus. Por que então o convidou, se não o recebeu como devia ter feito? Jesus reclamará dizendo claramente a Simão o que ele não fez, mas não reclama só por reclamar, exigindo alguma coisa para si, mostrando-se ofendido pela atitude de Simão. Nada disso. Jesus é capaz de entender por que Simão procedeu dessa maneira, mas aproveita a ocasião para mostrar a todos quem naquela casa o estava acolhendo de verdade, quem, no meio de todos os convidados, era a pessoa que merecia um destaque. Na casa de Simão estava alguém que não tinha sido convidado, que entrou por decisão própria, porque queria se encontrar com Jesus. Era uma mulher, que nem nome tinha nessa história. A mulher anônima não tinha sido convidada e, no entanto, fez todos os gestos de acolhida para Jesus. Os convidados estavam reclinados num tipo de divã. Quem entrasse no local tinha diante de si, num primeiro nível, os pés dos que estavam reclinados. A mulher que se aproxima vai de encontro aos pés de Jesus e os molha com suas lágrimas e os unge com o óleo perfumado. Ela sabe por que está fazendo isso. Suas lágrimas o dizem. Se na sociedade em que vivia ela só era útil se não aparecesse nem se desse a conhecer, junto de Jesus ela era alguém com novas possibilidades de vida. Jesus perdoa seus pecados e a envia em paz. Era tudo o que ela buscava. Ela não teve receio de mostrar publicamente que sabia amar, assim como Jesus não teve receio de mostrar a todos que podia se relacionar abertamente com aquela mulher. Não foi assim com Simão, o fariseu dono da casa. Ele sabia quem era aquela mulher, mas não quis se revelar. Apenas pensou, não falou, não se expressou. Onde foi que Simão conheceu a mulher anônima? Por que não fez como Jesus e se relacionou publicamente com ela? Isso teria prejudicado sua boa fama? Aquela mulher era muito interessante, desde que não aparecesse. Aparecendo, tornava-se um perigo. Era melhor mantê-la oculta. Jesus ao contrário conversa com a mulher abertamente, valoriza-a, renova suas esperanças, dá-lhe novo alento, anima-a a continuar vivendo e a buscar uma vida nova. Ao mencionar algumas mulheres que colaboravam com os apóstolos na obra da evangelização, o autor sagrado nos mostra como todos, homens e mulheres, podemos ser diferentes, mudar nossas atitudes, recomeçar a vida e seguir adiante. Ninguém será sempre necessariamente aquilo que é neste momento. Se lhe forem dadas oportunidades e meios, e a pessoa quiser, seja ela quem for, terá sempre chance de se renovar. |
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Depois de celebrarmos o tempo pascal, e de no domingo passado termos voltado nossa reflexão sobre nosso Deus que é uno e trino, retomamos o chamado tempo comum. São muitos os domingos do tempo comum, e eles nos ajudam a aprofundar nossa vida do seguimento de Jesus e também nossa vida de ser Igreja. O tempo litúrgico é chamado de comum, mas isto não significa que seja um período sem nenhuma importância, ao contrário estes domingos nos remetem a celebrar nossa história atual, a vida da Igreja de Jesus. A cor usada é verde, pois a virtude da esperança deve nortear nossa caminhada. Neste domingo as leituras vão nos ajudar a compreender que todos nós somos devedores de Deus, e necessitados de sua misericórdia. Reflitamos então um pouco sobre a Palavra de Deus que é sempre luz para nosso caminho. Na primeira leitura (2 Sm. 12,7-10.13) estamos diante das fortes palavras do profeta Natã dirigidas ao Rei Davi. É bom recordarmos o contexto desta intervenção profética: Davi havia cometido adultério com Bersabéia e mandou matar seu marido Urias para livrar-se da culpa (2 Sm 11). O profeta então chega diante de Davi e lhe conta primeiro a história de um homem muito rico que possuía muitos rebanhos, e outro homem muito pobre que tinha apenas uma ovelha, e que um dia o rico para não perder nenhuma das suas ovelhas acabou matando a única ovelha do pobre para servir a um hóspede seu. (2 Sm. 12, 1-6). Davi ao ouvir a narração julgou e concluiu que aquele homem era réu de morte. Ai começa nosso texto quando Natã diz a Davi que aquele homem da parábola é ele! Em seguida nosso texto enumera os benefícios divinos concedidos a Davi e aponta para a sua ingratidão em não corresponder a eles. Davi havia se fechado a Palavra de Deus, e acabou por fazer o que desagradava ao Senhor. É interessante notar como Deus toma a defesa do pobre simbolizado em Urias que tinha apenas uma única ovelhinha. Neste sentido encontramos a lógica divina que dá preferência especial aos pequenos, sofredores e aos pecadores como iremos ver no Evangelho de hoje. É profetizado também ao Rei que a espada não sairia mais de sua casa, isto é dos seus descendentes. Convém notar que não é Deus que provoca os ódios e as violências, mas o próprio pecado traz consigo conseqüências graves. A violência sempre gera violência e deste modo nunca é eficaz para conseguir uma verdadeira paz. Davi reconhece seu pecado e se arrepende do que fez, sente-se necessitado da misericórdia divina, e encontramos no belíssimo salmo 50 seu pedido de perdão a Deus. Como Deus é sempre misericórdia infinita e nunca abandona ninguém, o profeta Natã termina sua intervenção dizendo que Deus perdoa Davi. Trata-se de uma mensagem de esperança, onde mais uma vez podemos perceber que Deus quer o bem de todos, e generosamente oferece uma vida nova aos que erraram na vida. Será que nós reconhecemos os nossos pecados e nos sentimos necessitados da misericórdia e do perdão de Deus? Será que não agimos muitas vezes como Davi, sacrificando e não respeitando nossos irmãos mais pobres, sofredores e excluídos? Na segunda leitura (Gl. 2,16. 19-21) Paulo está refletindo com a comunidade sobre o problema dos judaizantes. Convém recordar que as primeiras comunidades cristãs enfrentaram o grave problema de seguir ou não a Lei Mosaica, e a circuncisão era imposta por alguns como condição para a entrada na comunidade. Já havia ocorrido o Concílio de Jerusalém com sua decisão de não impor que os cristãos fossem feitos primeiro judeus, mas passados alguns anos o problema ainda persistia na prática e dividia muitas comunidades. Paulo então chegou até a enfrentar Pedro o reprovando em sua conduta (Gl. 2,1-14). Depois disto começa o nosso texto litúrgico de hoje onde o Apostolo aborda o tema da justificação como presente gratuito de Deus. Estamos diante de duas formas de religião: a dos méritos tão assumida pelos fariseus, e a da fé apontada claramente por Jesus. Aliás, no Evangelho de hoje notaremos que o que salvou a prostituta foi somente sua fé em Jesus que como Deus podia perdoar o seu pecado. Sem dúvida muitos fariseus tornaram-se cristãos, e acabaram levando consigo para as comunidades o seu modo de pensar com relação a Deus. Paulo alerta aos Gálatas que para os cristãos a salvação não vem através da observância literal da Lei, mas da fé em Jesus que morreu e ressuscitou pela nossa redenção. A justificação, palavra que se repete por diversas vezes no pequeno texto de hoje, quer apontar para: a salvação que procede do amor gratuito de Deus; é a libertação do pecado, é a garantia da recompensa gratuita de Deus, é a vida nova da graça concedida ao ser humano. Aquela vida nova que traz a pessoa uma profunda comunhão com Deus, a ponto de Paulo dizer que é Cristo que vive nele! De fato não somos nós que nos tornamos justos por algo que fazemos, mas é Deus quem nos justifica! Precisamos ter mais humildade e reconhecer que tudo o que temos provem de Deus, e mesmo a nossa capacidade de fazer o bem também é presente divino. É muito bonito ver como Paulo afirma não desprezar a graça de Deus, e afirmar com convicção que Jesus o amou e por ele se entregou morrendo na cruz. Será que também nós fazemos esta experiência do amor, da graça e da misericórdia de Deus em nossas vidas? A falta de perceber-se amado por Deus traz inúmeras conseqüências negativas para a nossa existência, tais como: desvalorização de si mesmo, autopunição, incapacidade de perdoar a si mesmo, desconfiança da misericórdia divina, tristeza, desanimo e etc. Devemos sempre nos questionar se estamos no caminho da fé em Jesus, ou se continuamos na prática da religião farisaica da justificação pelas obras. No Evangelho (Lc. 7, 36- 8,3) estamos diante da misericórdia de Deus manifestada em Jesus que acolhe e perdoa a pecadora publica. Jesus é convidado por um fariseu para uma refeição em sua casa. Lucas muitas vezes nos apresenta Jesus sentado a mesa, e aceitando o convite de todos, pobres ou ricos. Nosso Senhor não fazia distinção de pessoas, e não temia ser contaminado ao estar junto dos pequenos, dos pecadores e dos excluídos de sua época. Atitude bem diversa tinham os fariseus e doutores da Lei, que nunca se sentavam à mesa com pessoas pecadoras. Provavelmente Jesus foi convidado por ser um Rabi conhecido, e seguindo o costume de chamar a refeição quem havia explicado a Palavra de Deus no culto sinagogal de sábado. Certamente Simão queria ouvir Jesus, desejava compreender melhor o seu ensinamento, mas com certeza também tinha a vontade de apontar para Jesus certas posturas que não eram aceitas pelos chefes religiosos da época. A conversa ao redor da mesa já havia começado, quando entra em cena uma mulher pecadora. Ela era provavelmente uma prostituta bem conhecida na cidade, e aproximando-se de Jesus não profere uma única palavra, mas lhe lava os pés com lágrimas e os unge com óleo. Aquela mulher sem nome era duplamente excluída pela cultura de sua época: por ser mulher e por ser pecadora publica. Provavelmente aquela mulher já havia se encontrado com Jesus, e fizera a experiência de como o Senhor era diferente dos outros mestres! Em geral dos fariseus e doutores da Lei ao encontrarem uma pecadora, viravam o rosto, desviavam-se daquele caminho e cuspiam ao chão, esta era a forma de manifestar o desprezo e a condenação para com aquela pessoa. Jesus ao contrário sempre ia a procura dos irmãos menores e lhes manifestava o imenso amor do Pai (Mt. 21,31). Também para ela Jesus era diferente dos outros homens que dela se aproximaram apenas para a usar como um “objeto” de prazer. Certamente aquela mulher ao perceber em Cristo alguém que a olhava sem desejá-la, a tratando como “pessoa” e não como “objeto” reconheceu que ainda podia transformar sua vida e mudar! Sentindo-se amada e compreendida teve coragem de mudar o rumo de sua vida. Ela vai então procurar Jesus para manifestar a sua gratidão, e o sinal desta gratidão é justamente sua atitude de amor em lavar os pés do mestre e ungi-los. Simão o dono da casa que como bom fariseu vivia a religião dos méritos, e que separava as pessoas fez imediatamente um juízo de condenação contra Jesus. É bem verdade que delicadamente não falou nada, mas pensou e condenou no intimo de seu coração. Diante daquele fato chegou a conclusão que Jesus não era um profeta, pois segundo pensava se o fosse não permitiria que uma pecadora tocasse nele. O que fez Simão continua a ser feito ainda hoje, pois muitas vezes condenamos por nossos pensamentos os nossos irmãos! Conta então Jesus a parábola a dos dois devedores, um que devia mais e outro que devia menos. Mas é importante notar que todos os dois deviam, e isto já nos aponta que todos somos devedores de Deus, pois tudo dele recebemos! Simão havia perdido a consciência de que também ele era pecador, e por isto julgava e excluía os demais. Hoje este pecado farisaico continua a perpetuar-se, visto que muitos se colocam como justos e não querem nem mesmo contatos com os demais, os segregam e excluem. Pior que isto ainda os “novos fariseus” chamam esta atitude de desinfetar a comunidade do que não presta; tais pessoas não são nem se quer digna do nome de cristãos. Jesus pede que Simão responda, e ele o faz com dificuldade visto que ainda teima em ver Deus como um juiz implacável de quem erra, ou como um patrão que remunera conforme os serviços prestados. Aquele fariseu não era capaz de compreender a grandiosidade do amor gratuito de Deus! Jesus em seguida com muita calma, não repreende Simão, mas o leva a uma reflexão. Manda que ele olhe para a mulher pecadora, aquela mesma mulher que ele já tinha julgado e condenado no seu coração. Pede que ele perceba que ela tinha manifestado em suas atitudes muito amor, ao passo que ele não havia manifestado este amor ao recebe-lo em sua casa. Simão havia sido cortez, mas não cordial prestando as deferências especiais ao hospede (Gn 18,4; Sl 23, 5), nem lhe oferecendo água para lavar os pés, e nem se quer lhe dando o beijo de saudação. No fundo Jesus quer levar Simão a perceber que ele também tem defeitos, e que não é o mero cumprimento da Lei o mais importante. Sem dúvida precisamos todos evitar o mal, mas evitar a maldade sem fazer nada de bom também não leva a nada! Aquela mulher teve a coragem de demonstrar amor o que é muito importante em nossas vidas. Demonstramos amar alguém não apenas com belas palavras, mas com gestos concretos. De fato deveríamos aprender com aquela pecadora, em nossos tempos tão frios em demonstração de afeto, carinho e amizade! Ela teve a coragem de entrar em um ambiente onde não era aceita e ali demonstrar todo seu afeto pelo Senhor, tudo impulsionada por sua fé. Quando Jesus afirma que os pecados da mulher sem nome estão perdoados, todos começam a pensar mal de Jesus, baseados no argumento de que só Deus perdoa os pecados. De fato só Deus pode perdoar, e Jesus sendo o Filho Eterno de Deus o pode fazer! E aquela mulher foi perdoada justamente porque acreditou em Jesus, como Filho de Deus! Termina nosso texto dizendo que Jesus era acompanhado em suas viagens pelos apóstolos, e por algumas mulheres que ajudavam. Naquela época os rabis nunca tinham mulheres que os seguiam, pois elas não podiam ler as Escrituras, e nem mesmo participavam do culto na sinagoga. Em Jesus encontramos uma postura totalmente diferente, e podemos perceber como o Evangelho não é fruto de uma cultura, mas transcultural. Homens e mulheres têm os mesmos direitos e deveres diante de Deus, ambos são feitos a sua imagem e semelhança. Muito ainda nos falta, mesmo em nossa práxis pastoral, para colocarmos em prática esta postura do Senhor Jesus. A Palavra de Deus em nossa liturgia de hoje nos leva a um sério exame de consciência e mesmo de nossas práticas na vida da Igreja. Todos precisamos da misericórdia divina e somo devedores de Deus. Será que de fato compreendemos que precisamos de perdão? Nós nunca podemos isolar e rejeitar os pecadores aos moldes da atitude dos fariseus. Como nossa comunidade trata os que erram? Somos pessoas que acolhem ou que condenam? Somos pessoas que vivem relembrando o pecado dos irmãos e esquecendo dos nossos? Com relação às mulheres, que espaço damos a elas em nossas comunidades? Será que ainda não precisaríamos superar certos preconceitos culturais que não tem a mínima sustentação no Evangelho? E que dizer da misericórdia divina em nossas vidas? Talvez por ser grátis o perdão de Deus não estejamos dando a ele o devido valor, visto que vivemos numa sociedade altissimamente consumista, não é? Que nesta semana façamos a experiência de que todos precisamos do perdão de Deus. Olhemos nossas culpas e erros, mas mais que isto meditemos no infinito e gratuito amor de Deus que nos justifica e regenera! Quem sabe isto nos ajude a sermos mais misericordiosos com os irmãos, e assim como Jesus ajuda-los a reconstruírem suas vidas! Podemos ter a tentação de esconder nossas fraquezas no cumprimento legalista da Lei ou numa religião de ritos exteriores. Tomemos cuidado porque poderemos estar mostrando exteriormente aos demais que somos “perfeitos”, mas infelizmente seremos incapazes de amar verdadeiramente. padre Antonio Luiz Heggendorn, CP. |