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vacilam e sucumbem” (cf. Sl. 26,1s). Hoje somos chamados a ter confiança. Confiança como a viúva do Evangelho que chorava a morte de seu filho único. Jesus teve compaixão da viúva recuperando a vida de seu filho. Por isso a Igreja não se cansa de nos apresentar Jesus como o senhor da vida e da morte. A primeira leitura da liturgia dominical nos apresenta o filho da viúva de Sarepta (cf. 1Rs. 17,17-24). Elias era o “homem de Deus”: agia com a força de Deus. É conhecido por sua luta contra os ídolos, no século VIII a.C. Sua presença no meio do povo falava de deus; seus gestos eram “sinais” de Deus. Assim, a ressurreição do filho da viúva de Sarepta não é magia, e sim a resposta de Deus à oração de Elias (cf. 1Rs. 17,22). A segunda leitura nos apresenta a vocação de Paulo (cf. Gl. 1,11-19). Paulo tem a certeza de que a sua vocação tem sua origem em Jesus Cristo, portanto, em Deus mesmo. Para provar isso a seus críticos, não pode recorrer ao conteúdo de sua mensagem, pois eles apregoam no nome do mesmo Cristo um outro conteúdo. Então, aponta sua história pessoal: de fanático perseguidor de Cristo foi, por este, transformado em “apóstolo das gentes”. No caminho de Damasco, Cristo o chamou e com a sua luz ao mesmo tempo o cegou e o iluminou. No tempo em que Jesus peregrinava neste mundo, Israel esperava a volta do profeta por excelência, para preparar a “visita” de Deus. Havia certa dúvida se o profeta seria Moisés (cf. Dt. 18,16) ou Elias (cf. Ml. 3,23-24). Mas, quando Jesus ressuscita o filho de uma viúva, que o Evangelho de Lc. 7,11-17 nos conta hoje, não hesita em reconhecer nele o novo Elias: “Um grande profeta apareceu entre nós e Deus veio visitar o seu povo!” (cf. Lc. 7,16). Assim Jesus é o sinal da presença de Deus, com sua graça e misericórdia. Ele se “comiserou” (cf. Lc. 7,13) como o povo esperava no seu Dia. No quadro do Evangelho de Lucas, esta narração tem ainda outra função: logo em seguida lemos o episódio do Batista, que pergunta se Jesus é aquele que deve vir, no sentido de profeta escatológico. E a resposta de Jesus é: “Olha só o que está acontecendo: todas as categorias mencionadas nas profecias messiânicas encontram cura, e até os mortos são ressuscitados; e aos pobres é anunciada a boa notícia de Jesus, o seu programa de vida; será que ainda existe dúvida? Todos nós sabemos que a viúva é uma mulher carente e desamparada pela sociedade. A vida se esvai. A desolação é completa. Por isso mesmo, a Sagrada Escritura apresenta os órfãos e as viúvas como protótipos dos marginalizados. E o amparo aos órfãos e viúvas é a manifestação perfeita de verdadeira e autêntica vida comunitária e de inserção na comunidade eclesial. A primeira leitura da missa de hoje nos anuncia a ressurreição do filho da viúva de Sarepta realizada pelo profeta Elias (Cf. 1Rs. 17,17-24). Jesus chega com seus discípulos à cidade de Naim e encontra-se com uma viúva, cujo filho era levado para o cemitério fora da cidade. “O Senhor, ao vê-la, ficou comovido e disse-lhe: Não chores”. Mas Jesus não ficou nas palavras: “Aproximando-se, tocou no esquife e disse: Jovem, eu te ordeno, levanta-te!” E o morto sentou-se e começou a falar. E, Jesus o entregou à sua mãe”. E todos reconheceram que Deus visitou o seu povo. A primeira leitura é narrada para ilustrar como em Jesus se realiza a esperança do novo Elias. É uma tipologia: Elias é o “primeiro esboço” que é levado à perfeição em Cristo. Por trás destas tipologias, freqüentes na antiga teologia cristã, está à fé na continuidade da obra de Deus: o que ele tinha iniciado em Israel, levou-o a termo em Jesus Cristo. Que Jesus supera Elias aparece nos detalhes da narração: ele não é apenas o “homem de Deus”, mas “o Senhor”; não precisa fazer todos os trabalhos que Elias fez para reanimar a criança. Tanto a primeira leitura como o Evangelho revelam grande valorização da vida. Deus quer conservar seus filhos em vida. Isso está no violento contraste com a leviandade e até o desprezo que a vida humana enfrenta em nossa sociedade. Deus se comisera para fazer reviver uma criança, enquanto nossa sociedade as mata ainda no útero. Será que poderemos novamente falar de uma visita de Deus, quando restauramos o sentido do valor da vida, não só no caso do aborto, mas também das guerras, repressão, torturas, poluição do meio ambiente, da fauna, da flora, dos alimentos, do trânsito assassino, e, sobretudo da miséria e da fome? O salmo responsorial nos exalta a resistirmos: “Eu vos exalto, ó Senhor, pois me livrastes e preservastes minha vida da morte!” (cf. Sl. 30/29). Como nós podemos vislumbrar a Páscoa nestas leituras? A cena de Sarepta e de Naim, no Evangelho, repetem-se com muita freqüência, digo até impressionante, através da história. Não precisamos ir muito longe. Ela está presente em cada comunidade de fiéis. Ainda hoje, a toda hora, levam-se jovens, filhos únicos de mães viúvas, aos cemitérios. Isto acontece quando a vida gerada é tirada. Dá-se no abandono das pessoas, nas injustiças, na marginalização das massas sofridas. A nossa sociedade está repleta de mães viúvas, que levam seus filhos únicos para o cemitério. A última esperança de vida é tragada pela morte. Então é hora de nossas comunidades eclesiais reagirem. Importante que ela esteja à caminho como Jesus, como Elias. Mas não pode passar ao largo. Precisa parar, precisa entrar em casa, na cidade, para visitar as viúvas. Deverá ter a mesma atitude de Jesus: compadecer-se, consolar, agir, ressuscitando o jovem para que o povo glorifique a Deus. Paulo, na segunda leitura, para provar que seu “evangelho” é o verdadeiro mostra a sua origem. Não foi ele mesmo, nem outro ser humano, que o inventou (cf. Gl. 1,11.16.19). São Paulo faz questão de dizer que não foi instruído por homem algum. Quem fez de Paulo seu mensageiro foi Cristo mesmo, que o “fez cair do cavalo”; a transformação operada em Paulo, tornando o antigo rabino, fariseu e perseguidor de cristãos, em apóstolo de Cristo, não é obra humana. E também seu evangelho não é obra humana. Por isso, este resumo de sua história pessoal é história de salvação. Esta atitude será sincera se repetirmos o gesto de são Paulo. Sermos discípulos autênticos, convictos e zelosos pelo Evangelho (cf. Gl. 1,11-19). Somos chamados a deixar de devastar a Igreja, e deixar revelar-se em nós o Filho de Deus. Percebendo o renascimento da vida nos desamparados, também a assembléia eucarística poderá glorificar a Deus porque mais uma vez Ele visitou o seu povo. Ele renderá graças neste domingo, sobretudo, por aqueles e aquelas que, na sociedade injusta, se comprometem em defender e alimentar a vida dos irmãos necessitados. Hoje e sempre Deus continua visitando o seu povo. A visita de Deus deixa seu povo também com a “responsabilidade de gratidão”. O povo espalhou a fama de Jesus por toda a região. Mostrou que soube dar valor à visita que recebeu. A Igreja terá de celebrar a mesma gratidão de Deus, que fez grandes coisas aos pequenos, aos fracos e aos humilhados. Muitos ainda não são capazes disso. Não se sabem alegrar com a visita de Deus aos pequenos. Por isso lhes escapa a grandeza desta visita singular. Mas, afinal, quando é que sentimos Deus mais verdadeiramente próximo de nós: ao se realizar uma grande solenidade, ou quando um gesto de amor atinge uma pessoa carente? Que Deus, que sempre nos visita, nos comprometa com a vida em plenitude. Deus só visita aos homens e mulheres que defendem a vida e se opõem contra a morte. Que sejamos todos pregoeiros da vida e da vida plena, amém! padre Wagner Augusto Portugal |
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Na segunda leitura, a atitude sincera do apóstolo constitui para nós um apelo a permanecermos abertos às revelações de Deus. Nós ouvimos muitas vezes o Evangelho, mas as nossas mentes são muito fracas para conseguir entendê-lo em toda a sua profundidade e os nossos corações são muito duros para aceitar todas as suas exigências. O Espírito, porém, continua nos impelindo para descobrir coisas novas na mensagem do Mestre. Enquanto Elias, um simples profeta, teve que invocar o Senhor da vida, Jesus, mais que um profeta, é o próprio Senhor da vida, e por isso não recorre a ninguém. “Senhor”, no Antigo Testamento, era reservado a Deus (v. 13). Lucas aqui o aplica – pela primeira vez no seu Evangelho – a Jesus; deste modo, quer que os cristãos das suas comunidades entendam que, em Jesus, o Deus da vida veio ao encontro dos homens aflitos e derrotados pelo drama da morte. Imaginemos os dois cortejos que se encontram. O primeiro é precedido por Jesus, o Ressuscitado, o vencedor da morte; o segundo é precedido por um cadáver. O primeiro é formado por pessoas radiantes de alegria, felizes, que seguem o Mestre com passadas rápidas; no segundo, ao contrário, estão todos tristes, pesarosos, desesperados, e caminham a passos lentos e de cabeça baixa. É fácil perceber a quem representam estes dois cortejos: o primeiro representa a comunidade cristã, radiante de alegria porque está junto do seu Senhor, que a conduz para a vida; o segundo é o símbolo da humanidade que ainda não encontrou Cristo: está caminhando para o campo santo e considera a morte como uma derrota irreparável. O Senhor se compadece da viúva (que representa toda a humanidade, abatida e desesperada), avança, ordena que interrompa sua caminhada em direção à morte e lhe diz: “Não chores mais!”. Em seguida, aproxima-se do caixão, toca o morto com sua mão e diz ao jovem: “Levanta-te!”, ou melhor: “Ressuscita”. É estranho o motivo pelo qual as multidões ficam assombradas. Não louvam a Deus porque o jovem voltou à vida, mas porque o Senhor suscitou um profeta, porque enviou alguém para dar uma resposta à angústia dos homens. Jesus toca no caixão, onde está o cadáver (v. 14). Conforme está escrito no Antigo Testamento, este gesto provocava uma grande impureza (cf. Números 19, 6). Jesus não se mostra preocupado com estas tradições dos antigos. A morte, para ele, não contém nada de impuro. Lavar-se, prevenir-se com medidas higiênicas, são medidas certas. Mas se a morte é um nascimento, se marca a entrada para o mundo de Deus, não pode ser causa de impureza. A grande novidade que ele trouxe para nós é esta: a morte não é o encerramento de tudo; a sua ressurreição transformou-a num nascimento. www.claretianos.com.br |
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Sabemos que a comunidade cristã primitiva dava um grandíssimo relevo à palavra “Senhor”; esta era usada no mundo grego-romano somente para indicar o vencedor de uma campanha militar ou, em última instância para indicar o Imperador. Entende-se então o valor, de forte pregnância alternativa e desafiadora, ínsito no fato de que os primeiros cristãos começaram a chamar “Senhor” o Cristo Ressuscitado. Assim fazendo eles confessavam que Jesus de Nazaré era o verdadeiro “Senhor”, em oposição aos falsos “senhores” do mundo que se impõem com os mais variados instrumentos de poder. Jesus, vencedor definitivo da “guerra” entre o mundo da morte e o mundo da vida; Senhor do conflito que é dolorosamente sentido em todos os níveis da existência humana... É isto que iremos encontrar no texto de hoje. O trecho sobre o qual estamos refletindo se apresenta mais como uma confissão de fé, do que como a simples narração de um episódio; visa manifestar o que Jesus é para o homem e para o mundo. Esta será a nossa chave de leitura, pois, de outra forma, a interpretação não passaria de um episódio que esgota seu significado atribuindo a Jesus um poder de curas e milagres... e nada mais. Vejamos o que o Evangelista nos diz. Como parece, o desvio para Naim é aparentemente casual, no entanto, sugere a maneira com a qual Jesus entra em nossa vida: às vezes por fatores inesperados, circunstanciais... não importa, o que importa é que acontece um encontro, e este se torna decisivo. Em favor desta leitura, a do caráter definitivo do encontro, está o fato de que, intencionalmente, Lucas indica qual é o lugar do encontro: a porta da cidade. Quando se fala de “porta da cidade” vem à nossa mente a imagem de uma cidade cercada por muros com uma ou mais portas de entrada. Contudo, nenhuma escavação arqueológica realizada até agora trouxe à luz algum vestígio de que a cidade tivesse muros perimetrais; isto significa que precisamos ler a indicação de Lucas sob outro prisma. Vem em nosso auxilio o Antigo Testamento. A “porta da cidade” era o lugar onde eram realizados os julgamentos (veja, por exemplo, Dt. 22,15; Jo. 5,4 etc.). À porta da cidade decidia-se se o homem imputado fosse culpado ou não e, com isto, se tivesse ou não o direito de participar da vida da cidade. O sentido definitivo da “porta” era tão evidente que se imaginava que o julgamento final de Deus sobre a história e a vida dos homens, aconteceria à “porta de ouro” que de Jerusalém dá para o vale do Cédron. Assim sendo, para o evangelista o encontro com Jesus é o julgamento definitivo, o momento em que se decide a sorte de um conflito entre o que atormenta o homem e o que o salva. É um encontro que acontece inesperadamente, a qualquer momento de nossa vida, sem pré-aviso e que pode modificar completamente a nossa existência. Ali, para “a porta a cidade”, avançava um cortejo de morte, carregado de toda a sua desolação, figura da vida humana que inexoravelmente vai em direção da “porta da cidade” com todo o seu fardo de sofrimento. É a humanidade carregada de um peso que sozinha não consegue suportar e para o qual não encontra sentido. O cortejo fúnebre é a figura de uma vida que carrega em si, como por um macabro jogo, a sua própria morte. Esta contradição, a vida que em si carrega a morte, tem sido objeto dos principais questionamentos desde as primeiras formas religiosas que conhecemos na história da humanidade. Inúmeras têm sido as tentativas de resposta, na maioria dos casos não passam de vagas maneiras de eternizar aquilo que gostaríamos que não terminasse. Mas esta atitude nada mais é do que fuga do drama da morte! É preciso recordar a nós mesmos que a morte existe, que convivemos com ela e que ela não condiz com a dignidade do homem. A morte, se percebida como “fim” é um trauma, um trauma que toca as convicções mais profundas de qualquer pessoa. Por outro lado, paradoxalmente, somente sabendo e tendo consciência de que há um “ultimo momento” (!) é que levamos à sério cada fato e situação da nossa vida, pois o “último momento” nos diz que “este” é o último e que não existe a possibilidade de adiar indefinidamente decisões, atitudes, relações... A morte nos recorda a seriedade da vida, a responsabilidade de viver e a consistência da existência: «Ensina-nos, Senhor, a contar os nossos dias, e alcançaremos um coração sábio» dizia o salmista (Sal. 90,12). A leitura nos coloca diante de uma procissão que carrega a morte até o limite da cidade, um cortejo de pessoas convencidas que este é o destino das coisas (na época não se pensava em ressurreição e não era comum pensar que houvesse uma vida após a morte). Era um cortejo de quem não espera mais nada, onde o limite da cidade corresponde ao limite das expectativas. “Terra de esquecimento” (Sal. 88,12) era chamada a terra do sepultamento: após o último gesto piedoso do enterro nada mais restaria do que a lembrança e o paradoxo da não-vida. Além do sofrimento devido ao sentimento de perca da pessoa amada, o Evangelista faz questão ressaltar: «filho único de mãe viúva»; a motivação é clara: ele queria indicar que uma cultura incapaz de ver a morte por aquilo que é (ou seja: um momento de uma história de vida que continua), gera injustiças, solidão, incompreensão. Era assim em Israel na época de Jesus; embora existissem leis que teoricamente deveriam proteger as viúvas, isto de fato não ocorria, principalmente se a viúva não tivesse um filho que assumisse as defesas dos seus direitos públicos. Esta seria a sina daquela mulher. À dor acrescentava-se a injustiça. Na época, o falecimento de uma pessoa era um fato social: «Grande multidão da cidade a acompanhava», diz o evangelista. Toda a cidade se sentia envolvida no evento e participava como que numa liturgia onde cada grupo de pessoas assumia uma função: algumas mulheres choravam gesticulando e produzindo um som agudo característico ao tocar os lábios com a mão e movimentando a língua com uma freqüência regular; alguns homens cantavam e outros tocavam instrumentos musicais. O defunto era carregado sobre uma tábua (não “caixão” – como alguns traduzem) e envolvido com uma mortalha branca, como ainda hoje se faz entre os palestinenses. Os sentimentos de um cortejo fúnebre são bem representados por estas palavras do salmo: «Os meus olhos desfalecem de aflição; venho clamando a ti, Senhor, a ti levanto as minhas mãos. Mostrarás tu prodígios aos mortos ou os finados se levantarão para te louvar? Será referida a tua bondade na sepultura? A tua fidelidade, nos abismos?» (Sal. 88,9). Perguntas e perguntas com um vazio diante de si. Ao menos não se fingia diante da morte, hoje, infelizmente temos medo de olhar para ela, temos medo de que as nossas crianças vejam um defunto – e damos inúmeras justificativas para não levá-la a um enterro (quando, bem no fundo, a criança sabe como superar o impacto, mas não é o mesmo para o adulto); exorcizamos a morte tornando-a um fato banal através de filmes e noticiários sempre mais propagandísticos, através de super-heróis que nunca morrem. Mas o fato é que temos medo de tocar a morte porque, caso contrário, perdemos o sentido da vida. No limite da porta, este cortejo se encontra com outro cortejo: Jesus e os seus. Não é difícil ver aqui a intenção de Lucas de indicar Cristo com a sua Igreja, feita de discípulos e de multidão indefinida. É no encontro com este segundo cortejo que as coisas mudam. Imediatamente o evangelista apresenta Jesus com os traços que O caracterizam: «O Senhor teve compaixão». Compaixão é sentir os sentimentos do outro e vive-los “junto” com o outro. É não julgar de fora as situações, mas “de dentro”, colocando-se no lugar de quem as está vivendo. Assim, Lucas nos apresenta Jesus como aquele que dá o primeiro passo em direção de quem está chorando. Chorar é a última manifestação do desespero, da impossibilidade de acreditar ainda em algo que possa porventura acontecer. O Senhor sente o que significa o sofrimento para o homem que desacredita na possibilidade de uma saída, do homem que vê a sua vida completamente à mercê da derrota final. Assim, quando o que resta é somente o peso da desilusão, “o Senhor” não deixa que isto triunfe, Ele é o Senhor! Jesus foi ao encontro da viúva e, tocando o esquife, deu um fim a toda aquela procissão, não permitindo assim que a tristeza pudesse transpor a porta, a porta do julgamento definitivo. A procissão parou Antes que a nossa última resposta seja a derrota sempre existe a resposta de Jesus. A narração do episódio é exposta intencionalmente como anteposição ao salmo que mencionamos acima. O encontro com Jesus é uma resposta real àquelas perguntas que, sem Ele, teriam o vazio como perspectiva. «Mostrarás tu prodígios aos mortos ou os finados se levantarão para te louvar? » perguntava retoricamente o salmo; o evangelista respondeu: «o que estava morto levantou» (o verbo indica “ficar ereto”, “estar em condição de se suster”); e ainda o evangelista prossegue: «e começou a falar». Via no jovem o testemunho pessoal, o louvor feito de palavras carregadas de um sentido que somente o pode entender quem já experimentou de algum modo o que significa se encontrar à beira do abismo da existência e, de repente, gratuitamente, encontrou Deus em seu trajeto. Ao seu louvor, toda a multidão do cortejo se associou como por um contagiante reconhecimento de que a última palavra não é, nunca, aquela que acreditamos que possa ser. padre Carlo |
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Na época de Jesus, as mulheres eram sempre dependentes, primeiramente de seu pai e depois do marido. E quando uma mulher ficava viúva, todos os bens do marido eram herdados pelo filho mais velho, e ela passava a ser dependente deste filho. As viúvas eram uma parte desprotegida da sociedade e estavam expostas à ganância dos poderosos que, principalmente com a morte de um filho único, seus bens corriam o risco de passar para as mãos de juízes gananciosos. No evangelho de hoje encontramos uma viúva levando para a sepultura o seu único filho, aliando o sofrimento da perda ao do desamparo. Jesus sempre se mostrou sensível ao sofrimento humano, tendo compaixão dos que sofrem, demonstrando assim sua natureza humana e, ao contrário do que normalmente acontece, Ele não espera que a viúva ou outra pessoa interceda pela vida do jovem. Quando Ele se depara com tamanho sofrimento, se compadece e compartilha de seus sentimentos, o que O leva a trazer o jovem de volta à vida, mostrando agora Sua grande natureza divina. Jesus não invoca a Deus por várias vezes como Elias e os outros profetas para realizar o milagre, Ele apenas ordena que o jovem se levante: “Moço, eu ordeno a você: Levante-se!”. A compaixão é feita de palavras e gesto, pois quem tocava num morto naquela cultura era contaminado pela impureza, mas Jesus quebra o tabu e cria as suas próprias leis, e o povo reage com medo diante do extraordinário e maravilhoso. O povo de Deus esperava pela volta de um profeta e alguns achavam que seria Elias, outros que seria Moisés. Quando Jesus ressuscita o filho da viúva, a multidão que o acompanhava vê Nele o novo profeta que traz toda a graça e a misericórdia de Deus. www.pequeninosdosenhor.com.br |
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Em qualquer lugar do mundo vamos encontrar pessoas sofridas e menosprezadas, feridas, famintas, maltratadas e abandonadas, que como dizia Madre Teresa de Calcutá, são “os mais pobres entre os pobres”. É de um pessoa inserida nesta categoria que o Evangelho de hoje vai tratar: uma viúva da cidade de Naim (ainda hoje existe com este nome a 18 km de Nazaré). Na época de Jesus, uma viúva ocupava uma situação social muito difícil. Aliás, qualquer mulher vivia uma situação difícil. A mulher era vista como alguém totalmente dependente do seu marido ou do seu pai. Quando uma mulher casada se tornava viúva, ficava a mercê do seu filho mais velho, pois quem herdava os bens deixados era o primeiro filho homem (direito de primogenitura) e nunca a esposa, ou no caso não tivesse bens, também era o filho mais velho quem tinha o dever de arranjar uma forma de sustentar a mãe. No relato do Evangelho de hoje, o filho constitui a única herança que aquela pobre viúva tinha, cuja proteção, moradia e bem estar, dele provinham. Assim, ela se encontrava num grande sofrimento, pois além de ser viúva, perde o único filho que tem. Portanto, a mulher que Jesus encontra tinha perdido não só o seu único filho, mas também a sua única fonte de sobrevivência. Agora, ela não tinha proteção alguma e dependia da boa vontade dos seus vizinhos. No tempo de Jesus, a viúva também deveria ainda vestir-se com trajes que a identificassem como tal (na Índia, por exemplo, ainda é assim, vestem o sari branco para o resto da vida). Por causa disso era taxada na sociedade como alguém indefesa, desprotegida, pobre, e, por isso, vítima fácil de enganadores, agiotas, credores etc. A Igreja primitiva suplicava pela assistência prática às viúvas, providenciava-lhes alimentos e roupas (At 6,1). São Tiago diz que a assistência aos órfãos e às viúvas demonstra que grau de compreensão e adesão à Boa Nova de Jesus as pessoas viviam.(Tg. 1,27). Consciente de toda esta situação, Jesus demonstra e ensina que todo ser humano, deve ser sensível ao sofrimento alheio e às dores humanas, e demonstra compaixão, atenção e amor pelos mais fracos, perdoando os seus pecados e apresentando-lhes o Evangelho da vida. Interessante neste texto, é que diferentemente de outros relatos de milagres, ninguém pede a ajuda a Jesus. E é até óbvio já que não existe cura para a morte. Assim, Jesus age de livre e espontânea vontade. Diante da necessidade daquela mulher, ele não se mostra impotente nem indiferente, mas sente compaixão. A necessidade dela o comove. Para ele, aquela viúva não é uma mulher idosa que não vale nada, que não conta nada, que deve sofrer um destino semelhante ao de tantas mulheres e que deve suportá-lo. Não! Ele se dirige a ela de um modo todo particular. Não há diante de si um caso como tantos, mas uma pessoa, e na sua misericórdia, reconhece a realidade da sua dor, a sua dignidade, dizendo-lhe: “Não chore!” Palavras que pronunciadas por qualquer outra pessoa poderiam soar meio costumeiras. No caso de Jesus, ele ajuda concretamente. Nem a morte impede a sua ação. Ele chama de volta à vida o filho da viúva (“Jovem, eu te ordeno, levanta-te!); e, depois disso, “o entregou à sua mãe”, eliminando assim aquela situação de transtorno. Como podemos perceber, Jesus não foi constrangido a fazer nada com relação ao filho da viúva nem ficou triste porque este morreu tão jovem. A sua compaixão é para com a viúva. O jovem não foi revitalizado (reanimado) porque Jesus teve pena dele, mas porque ele teve compaixão da viúva, para que o filho a sustentasse. Com isso, fica claro que o sentido da nossa vida não reside no fato de vivermos para nós mesmos, mas em vivermos uns para os outros e assim tornarmos recíproca a vida. Por meio do gesto de Jesus, mãe e filho, separados pela morte, agora estão novamente unidos numa comunidade de amor. Quantas pessoas se encontram numa situação semelhante à daquela mulher? A que serve, então, o gesto de Jesus em favor da viúva de Naim para aquele povo e para nós hoje? Com certeza, ficaram maravilhados porque “Deus veio visitar o seu povo”. O gesto misericordioso de Jesus deve servir também de estímulo para nós a fim de nos ajudar a viver o amor ao próximo. O modo como Jesus trata a viúva, levando a sério a sua situação, dirigindo-se a ela e ajudando-a, mostra a sua atitude, nos permite penetrar no seu coração. E do momento em que no seu gesto concreto se encontra a misericórdia de Deus, é nos manifestado o modo de se comportar de Deus. Jesus tem um coração bondoso e pronto para agir. O seu gesto mostra o que realmente ele considera importante. Ele não apresenta regras ou programas. Não conquista reinos, nem cria uma nova ordem social. Ele se dirige ao homem que sofre, se preocupando com a sua necessidade pessoal e o ajuda. Assim, a mensagem deste Evangelho não é a de que cada pessoa necessitada receba uma ajuda da mesma maneira como Jesus ajudou a viúva, mas que a cada necessitado seja dirigido do mesmo modo o coração de Jesus e o amor de Deus. E essa é tarefa nossa. O relato da viúva de Naim evoca o povo que perde a sua esperança quando perde o Messias pregado na cruz, e o reencontra na ressurreição. Nós também somos convidados vivamente a acreditarmos no amor que Jesus nutre por nós e que nos dá vida a ponto de nos estimular a oferecermos o nosso amor principalmente àquelas pessoas que são paupérrimas do amor de Deus, que se sentem vazias e nem sabem que têm fome de Deus. Que sejamos instrumentos do amor de Deus para elas. CURIOSIDADE A palavra ressurreição vem do latim (resurrectione), que vem do grego (a·ná·sta·sis). Significa literalmente "levantar; erguer". Esta palavra é usada com frequência nas Escrituras bíblicas, referindo à ressurreição dos mortos no dia do juízo final. Mas temos que observar que naquela época, o grego não tinha palavras como “revitalização”, “reanimação” de um corpo que se distingue claramente da ressurreição final e eterna, enquanto a reanimação não se trata da entrada na glória definitiva, mas de uma prorrogação da vida terrena que novamente vai passar pela morte, e aí sim, rumo à ressurreição propriamente dita. Entretanto, em ambos os casos, no grego do Novo Testamento era usada a mesma palavra e nós hoje é quem devemos saber a diferença. Em Jo 11,24, Marta diz sobre Lázaro que se encontra “morto”: “eu sei que há de ressuscitar na ressurreição do último dia.” Mas Jesus reanima o corpo de Lázaro, que obviamente depois de um tempo morreu para entrar na gloria do céu. De fato, aqui não cai em descrédito o milagre de Jesus. De fato, ele trouxe à vida, alguém se encontrava num estado de catalepsia.
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ELIAS RESSUSCITA O FILHO DE UMA VIÚVA DE SAREPTA Este texto pertence ao ciclo de Isaías, que conserva a memória das ações deste homem de Deus e do povo. O pano de fundo deste ciclo é a luta contra os ídolos que geram a morte, particularmente Baal, deus cananeu, senhor da terra, responsável pela fertilidade das roças, dos rebanhos e das famílias. Elias foi enviado por Javé a uma viúva estrangeira que o acolheu em sua casa em Sarepta da Sidônia. Ao acolher o profeta, esta mulher acolheu o dom da vida, pois estava destinada a morrer, visto que não tinha mais azeite nem farinha. Na miséria e privada de seu filho, ela vivia uma situação impossível e interpretou este fato em sua vida como um castigo de Deus por causa de seus pecados. Em conseqüência, interpretou a presença do profeta em sua casa como alguém que veio para lembrar-lhe os seus pecados. Elias não se preocupou em lhe dar uma aula de teologia. Ao contrário, fez o papel de mediador. Ele crê em Deus e suplica-lhe pela vida do menino. Segunda leitura: Gálatas 1,11-19 PAULO RECEBEU SUA MISSÃO DIRETAMENTE DO PAI Os judeus cristãos haviam tumultuado a comunidade dos gálatas e entre as acusações levantadas haviam espalhado a acusação de que Paulo não era Apóstolo e, portanto, o Evangelho que ele anunciava não era verdadeiro. Diante disto, Paulo anunciou à comunidade que o Evangelho que ele pregava não era invenção sua nem de outra pessoa, mas revelação de Jesus Cristo. Para comprovar este fato, fala-lhes de seu passado fanático como perseguidor da Igreja. Fala que era fariseu (“kata fariseun”) e que sua conversão se deve unicamente à manifestação da graça de Deus. Deus o converteu a fim de que pudesse manifestar sua graça aos pagãos. Portanto, sua conversão comprova a autenticidade do anúncio do seu Evangelho. Evangelho: Lucas 7,11-17 JESUS RESSUSCITA O FILHO DA VIÚVA DE NAIM Devemos o relato destes versículos apenas à pena de Lucas. Ele expressa a misericórdia de Deus que é o Senhor da vida. A mulher pobre e viúva havia perdido o seu único filho, seu único ponto de apoio, mas recebe a solidariedade de Deus e dos habitantes de Naim. É o único relato no Evangelho que fala que Jesus teve compaixão, um gesto eminentemente divino. A atitude de Jesus é como a de Elias e o seu poder leva a concluir que Deus visitou o seu povo. REFLEXÃO A liturgia nos mostra que Deus é misericordioso e compreende nossas dores e miséria. Jesus teve compaixão da viúva que chora a perda de seu único filho. É consolador saber que Deus não é indiferente a nossas dores, mas as partilha. Não só se compadece, mas também diz: “Não chore... Jovem, eu lhe ordeno...”. Ele intervém sobre a morte. Jesus continua hoje ressuscitando as pessoas quando concede a graça batismal e penitencial. Esta é a grande passagem da morte para a vida. A cena da ressurreição do filho da viúva de Naim realça o coração de Jesus cheio de bondade e humanidade, que se compadece da dor desta mulher. Diante desta atitude, Lucas chama Jesus de Senhor (Kyrios), palavra grega que é traduzida como Javé. Tanto na ressurreição do filho da viúva de Sarepta por Elias como na ressurreição do jovem de Naim por Jesus existem coincidências, pois em ambos os casos a ação milagrosa se situa na fronteira entre a vida e a morte. Os dois mortos são filhos únicos e jovens de mães viúvas, ambos os jovens ressuscitados foram entregues as suas mães. A viúva de Sarepta reconheceu Elias como um “homem de Deus” e a viúva de Naim viram Jesus como “um grande profeta”. O milagre de Jesus foi um sinal messiânico do Reino presente em sua pessoa. “Todos, maravilhados, davam glória a Deus dizendo: "Um grande profeta surgiu entre nós. Deus visitou o seu povo” (v.18). Por isso é que Jesus dá uma resposta aos emissários de João Batista que vieram interrogá-lo sobre sua identidade messiânica. “Anunciem a João o que vocês acabam de ver e ouvir: "Os cegos vêem, os mortos ressuscitam...” (v.22), embora este versículo não se encontre no texto de hoje. Foi com base neste evangelho de libertação pregado por Jesus que Paulo, na leitura de hoje, defendeu-se de seus inimigos judaizantes, que queriam exigir dos gálatas convertidos o velho estilo da lei de Moisés. Afirma-lhes a salvação e a justificação pela fé em Cristo, e não pela circuncisão e observância da lei mosaica. Lucas relata que Jesus se compadeceu diante do morto de Naim e de sua mãe. Sentiu a angústia das pessoas que passavam. Não seguiu por outro caminho, nem esperou ser chamado. Ele mesmo tomou a iniciativa, comovido com a aflição da viúva. Jesus se compadeceu, se emocionou externamente, como por ocasião da morte de Lázaro. Aproximou-se da viúva e disse: “Não chore”, não quero vê-la em lágrimas. A atitude de Jesus é exemplo dos sentimentos que devemos ter diante das desgraças das pessoas. Para isso devemos pedir ao Senhor que nos dê um coração misericordioso como o de Jesus, para termos o verdadeiro bálsamo do amor, as mãos repletas de caridade e misericórdia para oferecer aos irmãos. Pois o amor a Deus não se resume a um simples sentimento, mas leva às obras que o manifestem. Da mesma forma, nosso amor ao próximo deve se traduzir em gestos concretos: “Não amemos só com palavras e com a língua, mas com obras e de verdade” (João 3,18). “Venham, benditos, porque eu tive fome e vocês me deram de comer...” (Mt. 25,31-40). Devemos reconhecer Cristo que sai ao nosso encontro na pessoa dos irmãos, pois o contato com os doentes, os pobres, as crianças e os adultos famintos é sempre um encontro com Cristo em seus membros mais fracos e desamparados. padre José Antonio Bertolin, OSJ |
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1º leitura (1Rs. 17,17-24): A profecia vence a morte A missão profética de Elias revela-se como fundamento de todo o movimento profético ao longo da Bíblia. Ele é considerado o pai dos profetas. Sua prática serve, ademais, de inspiração para a prática libertadora de Jesus. A atuação do profeta Elias se dá no Reino do Norte, durante o reinado de Acab e de Ocozias, entre os anos de 874 e 852 a.C. Elias demonstra profundo zelo pela vontade de Iahweh, de quem se põe totalmente a serviço, conforme ele mesmo declara no início de sua missão: “Pela vida de Iahweh, a quem sirvo...” (1Rs. 17,1). Faz jus, assim, ao significado de seu nome: “Meu Deus é Iahweh”. Suas ações, de forma predominante, são desdobramento do compromisso com a solução dos problemas que afetam o cotidiano das pessoas necessitadas. A necessidade é o critério-chave que faz o profeta aproximar-se e pôr-se a serviço de quem precisa de ajuda. Essas pessoas são vítimas de um sistema monárquico que produz alto índice de exclusão social. O desenvolvimento econômico se dá com a exploração do povo. O fortalecimento político do Estado privilegia um grupo que concentra poder e dinheiro. A expropriação dos bens (cf. 1Rs. 21) e o abuso da mão de obra dos pequenos causam empobrecimento, miséria, fome e morte. A viúva de Sarepta e seu filho sintetizam a situação da maioria do povo, cujo futuro permanece fechado. As viúvas, os órfãos e os estrangeiros (Sarepta não faz parte do território de Israel) representam, na Bíblia, as categorias de necessitados. Deus não os quer abandonados nem quer a morte de ninguém. Elias põe-se a serviço de Deus, acolhe o clamor das pessoas que sofrem, vai ao seu encontro para defender e promover o direito à vida digna. O profeta se hospeda na casa da viúva pobre e estrangeira: a profecia é acolhida pelas pessoas empobrecidas e elas se tornam o lugar teológico-social onde são gestados novos caminhos. Essa gente marginalizada é capaz de solidariedade e partilha. A proximidade com as pessoas sofredoras, o anúncio da palavra que liberta, a oração confiante ao Deus da vida, a insistência em passar a energia profética ao que já se encontra em situação de morte são atitudes que revelam o método de restauração, transformação e ressurreição. Na verdade, a profecia é a manifestação da presença e da misericórdia de Deus, que age por meio do amor afetivo e efetivo. É boa notícia para os pobres. É o projeto de Deus sendo acolhido a partir da casa. Constitui-se em fidelidade à aliança sagrada. Os protagonistas são as próprias pessoas excluídas do sistema oficial. Nelas reside a força e a criatividade divinas, capazes de mudanças radicais. A palavra profética infunde nelas essa consciência. Evangelho (Lc. 7,11-17): Jesus liberta das garras da morte O relato do episódio da ressurreição do filho da viúva de Naim encontra-se somente no Evangelho de Lucas. Tem estreita ligação com o episódio de Elias: ambos tratam da morte do filho único, cuja mãe é viúva. Os filhos únicos representam a garantia de futuro para as famílias. A situação de morte não pode deixar acomodadas as pessoas que servem a Deus. Nos evangelhos, os sinais de cura e libertação, em sua maior parte, são realizados por Jesus em atendimento à súplica dos necessitados. No caso da viúva de Naim, porém, é Jesus mesmo que toma a iniciativa de ir ao seu encontro. “Seus discípulos e numerosa multidão caminhavam com ele.” Naim é uma cidade amuralhada. Do seu interior para a porta vem uma procissão, acompanhando o enterro do filho único de uma viúva. “Grande multidão da cidade estava com ela.” Duas procissões em sentido contrário. Encontram-se na “porta da cidade”. Jesus vê a situação em que se encontra aquela mãe e fica comovido, isto é, “ele é movido em suas entranhas”, conforme o verbo grego (splanchnizomai). É o mesmo sentimento de amor e compaixão que leva o samaritano a socorrer a pessoa espancada e abandonada à beira do caminho (10,33); é também o mesmo sentimento que leva o pai do filho pródigo a ir correndo ao seu encontro, acolhê-lo nos braços e beijá-lo (15,20). Jesus, movido pela compaixão, dirige-se à mulher com palavras de consolação e esperança: “Não chores”. Não são palavras de meras condolências. Ele se aproxima, toca no esquife e pede que o jovem se levante. Percebe-se, aqui também, como na narrativa de Elias, alguns verbos-chave reveladores da metodologia que proporciona a transformação de uma realidade de morte. As pessoas que testemunham o fato glorificam a Deus, reconhecem Jesus como profeta e exclamam: “Deus visitou o seu povo”. É o eco do cântico de Zacarias, que bendiz a Deus “porque visitou e redimiu o seu povo e suscitou-nos uma força de salvação” (1,68s). Não é por acaso que Lucas situa o féretro vindo da cidade, lugar onde o poder se articula e se organiza. É como um seio que, ao invés de gerar a vida, provoca a morte. Jesus, força de salvação, vem com outro projeto que faz parar essa procissão de gente sem vitalidade. Junto com a vida, também restitui ao jovem a palavra. O povo, assim, é chamado a resgatar o direito à palavra e à vida e tornar-se protagonista de uma nova sociedade. 2º leitura (Gl. 1,11-19) - A graça da conversão Na carta aos Gálatas, Paulo aprofunda, especialmente, o evangelho da liberdade: “Foi para sermos livres que Cristo nos libertou” (Gl. 5,1). A primeira dimensão dessa liberdade se verifica na própria pessoa. Neste sentido, Paulo dá o seu próprio testemunho. Quando arraigado no judaísmo, era ferrenho perseguidor das comunidades cristãs com o intuito de destruí-las. Como judeu, seguia zelosamente as tradições de Israel. Conhecia muito bem as leis e se esforçava por praticá-las, pois aprendera que a salvação de Deus seria concedida por meio da observância legalista. Com a conversão, porém, muda radicalmente a sua visão teológica. Adquire a consciência de que Deus o escolheu desde o seio materno e o chamou por sua graça. Em seu itinerário pessoal, sempre com maior clareza e profundidade, percebe que a salvação oferecida por Deus se fundamenta na total gratuidade. A sua experiência pessoal o comprova: ele foi agraciado por Deus quando ainda era pecador e confiava nas seguranças humanas. Com essa nova compreensão, Paulo se desvencilha de seu apego à raça de Israel e lança-se ao anúncio do evangelho da salvação a todos os povos. Encontra, nessa missão, forte oposição, especialmente da parte de alguns pregadores judeu-cristãos. É o que se depreende ao ler o texto imediatamente anterior ao da liturgia de hoje (cf. Gl. 1,6-10). Esses pregadores, também conhecidos como “judaizantes”, procuravam convencer os gentio-cristãos a aderir a certas normas judaicas, especialmente à circuncisão. Certamente diziam que o evangelho pregado por Paulo não era verdadeiro. Vários cristãos deixam-se influenciar por tais pregadores. Paulo põe-se veementemente contra a doutrina desses missionários e alerta as comunidades da Galácia para não se deixarem enganar (cf. Gl. 1,6-10). Ao enfatizar o seu próprio testemunho de conversão, Paulo quer reafirmar a ação da graça de Deus, revelada em Jesus Cristo. A salvação por ele trazida estende-se a todos os povos sem discriminação. Este é o evangelho da liberdade a que todos podem ter acesso pela fé. É dom de Deus! PISTAS PARA REFLEXÃO Deus, desde a criação do mundo, estabeleceu um plano de amor e salvação para toda a humanidade. Firmou uma aliança com o seu povo, protegendo-o e amando-o com fidelidade. O egoísmo humano, porém, quebra a aliança sagrada e organiza sistemas que excluem e matam. Deus, no entanto, não abandona o seu povo. Chama pessoas, como o profeta Elias, capazes de ouvir o grito dos necessitados e comprometer-se com sua libertação. Deus envia o seu próprio Filho, Jesus, que assume o programa de anunciar a boa notícia aos pobres, proclamar a liberdade aos presos, recuperar a vista aos cegos e libertar as pessoas oprimidas (cf. Lc. 4,18s). Tanto o profeta Elias como Jesus de Nazaré revelam o caminho que deve ser seguido por todas as pessoas que amam a Deus. O desafio de uma sociedade justa e fraterna permanece atual. Os discípulos missionários do Senhor não podem acomodar-se. O testemunho de Paulo nos alerta para a necessidade do desapego das seguranças baseadas no poder, normalmente legitimado por sistemas religiosos. A liberdade em Cristo nos leva a acolher a graça da salvação que ele nos trouxe e, por isso mesmo, a amar gratuitamente os irmãos. “O povo pobre das periferias urbanas ou do campo necessitam sentir a proximidade da Igreja, seja no socorro de suas necessidades mais urgentes, como também na defesa de seus direitos e na promoção comum de uma sociedade fundamentada na justiça e na paz. Os pobres são os destinatários privilegiados do evangelho” (DAp 550). Pode-se fazer a memória dos profetas e profetisas de nossos tempos... Pode-se também levantar as situações de morte que nos desafiam hoje e valorizar as diversas ações que estão sendo desenvolvidas em favor da vida, estimulando a participação e a criatividade para novas iniciativas... Celso Loraschi |
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O profeta Elias se encontra em Sarepta na casa de uma pagã. Foi lá que Elias fez o milagre para a viúva, não deixando faltar farinha na vasilha, nem azeite na jarra. Mas, depois de um certo tempo, o filho dessa mulher adoeceu e morreu. O gênero literário deste trecho é chamado de "legenda profética": as narrações se apóiam em fatos simples realizados por pessoas santas. Com o tempo esses fatos são engrandecidos pelo povo. Estas histórias têm um objetivo específico: querem mostrar a proximidade, o cuidado e a preocupação de Deus com seu povo. De fato, a personagem principal da narração é o próprio Deus, pois é ele que é invocado, é ele que realiza o milagre da restituição da vida ao garoto. O núcleo da narração carrega a mensagem de que Deus é o Deus da vida e não o Deus da morte como num primeiro momento a viúva estava pensando. Ela chama o profeta Elias duas vezes de "homem de Deus". Mas na primeira vez ela atribui a morte do filho à presença do santo profeta, que lembrava as suas culpas, as quais provocaram a morte do filho. (vv. 17-18). É bom lembrar que o complexo de culpa é algo perigoso e destruidor! Mas, na segunda vez, ela reconhece que o profeta é aquele que anuncia a Palavra de Deus e é portador da vida (v. 24). O profeta usa um certo ritual para que Deus restitua a vida ao filho da viúva. Entretanto, a narrativa deixa bem claro que é Deus quem "ressuscita" o menino. O Deus de Israel é o Deus da vida e não da morte; ele mostra sua misericórdia para com os desvalidos e sua palavra anunciada pelo profeta é palavra de vida. O problema da morte continua sendo um enigma para o homem. Realmente é um mistério. Mas o que o povo tem que tirar da cabeça é o complexo de culpa e a concepção de que coisas ruins que acontecem são castigo de Deus. Enquanto não trocarmos em nossa mente o Deus que fabricamos pelo Deus que Jesus Cristo revelou, vamos andar pessimistas, cheios de complexos, medo da doença e da morte e medo até mesmo do próprio Deus, que só quer nosso bem e a nossa felicidade, que, não quer a morte do pecador, mas que ele viva. 2º leitura - Gl. 1,11-19 A carta aos Gálatas, diferentemente das outras, é uma defesa de Paulo da autenticidade do seu evangelho e do seu ministério apostólico. Já em Gl. 1,8 ele fala bravo: "Pois bem, mesmo que nós ou um anjo vindo do céu vos pregasse um evangelho diferente daquele que vos pregamos, seja excluído!". No v. 9 ele repete a mesma frase. Ele quer também com esta carta reconduzir os gálatas ao evangelho pregado por ele, já que falsos evangelizadores estavam perturbando a fé da comunidade ou comunidades. Veja o que ele escreve no v. 6: "admiro-me de que tão depressa, abandonando aquele que vos chamou na graça de Cristo, tenhais passado a outro evangelho". No trecho de hoje, ele vai dizer que seu evangelho não é invenção humana. Ele o recebeu diretamente de Jesus Cristo e, portanto, não é diferente do evangelho pregado pelos apóstolos. Paulo recebe o seu evangelho por revelação divina e a essência de sua pregação é que a salvação nos é dada pela fé em Jesus Cristo e não pelo cumprimento das antigas prescrições da lei. Ele mostra como sinal de autenticidade do seu evangelho a reviravolta que Jesus fez na vida dele. Antes como fiel e zeloso fariseu, enquanto acreditava na salvação vinda da lei e não da graça, ele perseguia cruelmente os cristãos. Agora, apaixonado por Jesus Cristo, ele se entregou totalmente à evangelização e descobriu que Deus o escolheu para isso antes mesmo do seu nascimento. A certeza de sua vocação foi tamanha que ele não sentiu necessidade de ir a Jerusalém consultar os apóstolos. Ele só apareceu por lá três anos depois, quando ficou com Pedro quinze dias. E lá em Jerusalém o único apóstolo que ele viu foi Tiago, o irmão de Senhor. Paulo demonstra com esta carta sua absoluta consciência apostólica. Ele é apóstolo do mesmo jeito que os outros o são e seu evangelho é o mesmo pregado pelos doze apóstolos. Ninguém pode arrancar-lhe essa glória. Evangelho - Lc. 7,11-17 Estamos diante do milagre da ressurreição do jovem (v. 14) filho da viúva de Naim. Assim todos pensamos. Mas seria interessante jogar areia nesta convicção. O que quero dizer? Que não houve o milagre? Não. Quero dizer que o milagre é uma coisa e a narração do milagre é outra coisa. E as narrativas dos milagres obedecem a certos critérios literários até no mundo pagão. Nós não temos acesso a nenhum milagre de Jesus a não ser o da sua ressurreição que é o fundamento e o significado último de todos os milagres. O que temos são narrações escritas muito tempo depois do fato. São Lucas, por exemplo, escreve cerca de 50 anos depois dos acontecimentos. É verdade que antes da escrita dos evangelhos já havia narrações dos milagres de Jesus, narrações ainda não canônicas. Observando de perto, percebemos a afinidade da narração deste milagre de Jesus com a narração do milagre que lemos na primeira leitura. É o filho de uma viúva que é necessitado. O filho da viúva de Sarepta era provavelmente uma criança, enquanto o filho da viúva de Naim era um jovem. Mas ambos filhos únicos. A viúva já sofria muito pela morte do marido e era marginalizada. O filho poderia ser a esperança de vida para a viúva. Enquanto Elias era chamado de homem de Deus, Jesus era chamado de profeta. Percebemos também umas diferenças muito claras. Elias faz todo um ritual para ressuscitar o garoto, enquanto Jesus, que é o Senhor da vida, dá apenas uma ordem, diz apenas uma palavra. Elias é um homem que está a serviço da palavra. Jesus é a própria Palavra viva. Fica clara a superioridade de Jesus sobre Elias. No conjunto podemos perceber dois cortejos até à porta da cidade. O primeiro aparece no v. 11; Jesus está chegando para participar da vida da cidade. É uma caminhada bonita, alegre, festiva, com muita gente: além dos discípulos, numerosa multidão. O outro cortejo está saindo da cidade, deixando a vida (v.12). Este é triste, fúnebre, doloroso. A viúva, que já tinha perdido seu marido, perde agora o seu filho jovem, que poderia ajudá-la na sua sobrevivência. No primeiro cortejo Jesus vai à frente, ele é o Senhor da vida. No segundo o sustentáculo da vida da mãe, é carregado imóvel, morto, num caixão. Qual seria o futuro daquela mãe, sem o marido e sem o filho único? Não seria possível perceber que o cortejo que entra representa a comunidade cristã, feliz, porque está acompanhada pelo Senhor da vida? No cortejo que sai vemos a humanidade, perdida, imobilizada, sem vida, porque ainda não encontrou o Cristo. Mas o segundo cortejo encontra-se com o primeiro. A morte encontra-se com a vida. Jesus, rompendo os preconceitos judaicos, que massacravam as pessoas, toca no caixão e movido de compaixão pronuncia uma palavra de vida: "Jovem, eu te digo, levante-te". A palavra de Jesus é transformadora, é palavra de vida. Tudo mudou. O choro foi substituído pela alegria, a morte deu lugar à vida. A multidão percebeu claramente a presença de Deus no meio do seu povo. dom Emanuel Messias de Oliveira |
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Na Bíblia, a viúva, especialmente aquela sem filhos, simboliza Israel ou Jerusalém rejeitados por Deus e exilados (cf. Is. 49,21; 54,13). Pois ser viúva significava não ter a proteção do marido e não ter filhos significava não ter futuro. Assim, na experiência do exílio, longe da casa de seu Deus, o povo de Israel não tinha perdido só seu esposo, mas também seus filhos. Estava desprotegido e sem esperança para o futuro. Em geral, o Evangelho apresenta a vida e a atuação de Jesus como a visita de Deus a seu povo, restituindo-lhe a esperança e assegurando-lhe o futuro. O trecho do evangelho de hoje descreve a cena de dois cortejos que vão um de encontro ao outro. Um dos cortejos sai da cidade dos vivos levando um morto para a cidade dos mortos. O outro é precedido por Jesus, o restituidor da Vida, que interrompe a marcha dos que vão ao cemitério fazendo-os mudar de direção. Assim, os dois cortejos se tornam um só: transformam-se no único Povo de Deus, que entra na cidade dos vivos a louvar, com alegria, o Deus da vida. A mulher, que tinha perdido o marido e, naquele momento, em prantos, acompanhava o enterro do filho, representa toda a humanidade que chora diante da morte. A multidão emudecida que a circunda, sem ser capaz de lhe dirigir uma palavra de consolo, indica a consistência da condição mortal que envolve a todos. Toda morte é de todos e de cada um. Na morte alheia, cada um experimenta, com antecipação, a própria morte. Com efeito, sem a iluminação da Palavra do Evangelho, nossa vida é um inexorável caminho para a morte, o triste pesar de um cortejo fúnebre, diante do qual nada resta senão o desespero e o pranto. A mensagem cristã, porém, nos comunica a Palavra d´Aquele que desceu à mansão dos mortos, como o Sol nascente que nos veio visitar (cf. Lc. 1,78). Tal Palavra nos ordena levantarmos e sairmos da região sombria da morte (cf. Lc. 1,79) e nos unirmos à multidão jubilosa dos vivos que entram na Cidade Santa a louvar nosso Senhor. A Palavra de Vida e Esperança, que irrompe como luz a iluminar os que jazem nas trevas e na sombra da morte (cf. Lc. 1,79), brota das profundezas do impossível: "Jovem, eu te ordeno: levanta-te!" Pode haver coisa mais insensata e absurda que dar ordem a um morto para que viva? O desejo de vencer a morte é constitutivo do ser humano. Mas nunca pode traduzir-se em esperança real para ele, porque é brutalmente tacerado pela morte. A ressurreição não é dedutível de nenhuma premissa humana. Extrapola qualquer pretensão e esperança humanas. Mas o Senhor age exatamente por sua Palavra criadora. Do nada, fez surgir todas as coisas e da morte, fez surgir a vida. Aqui é a primeira vez que Jesus é chamado Senhor no evangelho de Lucas. O fato de ser o Senhor é a condição de tudo o que ocorre. N´Ele se realiza a visita de nosso Deus e o impossível se faz possível como dom gratuito e inesperado. Aliás só poderia mesmo nos sobrevir como dom inesperado, pois nós nunca teríamos ousado formular tal pedido porque é absurdo para os vivos e impossível para os mortos. Só mesmo o Senhor, comovido nas suas entranhas de misericórdia, poderia ter-se dignado vir de encontro a nós e mudar nosso destino. Sua visita é descrita de modo vivaz e comovente. Ele vem nos encontrar às portas de nossa cidade, isto é, na nossa situação pessoal, não importa qual seja, mesmo na situação mais desesperadora, além de toda possibilidade humana. Mais ainda: Ele nos é tão próximo e real! Não é como os ídolos, que tendo olhos não podem ver, tendo ouvidos não ouvem e tendo boca não podem falar (cf. SI. 115,5). Em Jesus, Deus significa pés para caminhar e se aproximar de nós, olhos para nos ver, coração para nos amar, mão para nos tocar e boca para nos comunicar a Palavra da Vida. Com os pés Jesus se aproxima de nós e com os olhos Ele nos enxerga. Desta forma, por seu olhar, nós entramos em seu coração. Alguém já dizia que os olhos são a janela da alma. Ver, de fato, é deixar o outro entrar em si. Portanto, se Jesus define sua missão como restituição da vista aos cegos (cf. Lc. 4,19a), é porque Ele veio nos fazer ver n'Ele o Pai (cf. Jo 14,9), em quem vivemos, nos movemos e somos (cf. At. 17,28). E, assim, permitamos entrar em nós Aquele que nos criou comunicando-nos um sopro de vida (cf. Gn. 2,7), pois não é Deus de mortos, mas sim de vivos (cf. Mt. 22,32b). Mais ainda: Jesus veio nos fazer ver que o que nos faz viver, mover e existir é o invencível amor do Pai por nós, encarnado n'Ele mesmo, Cristo Jesus, Nosso Senhor. E do seu amor, que se comove até as entranhas, nada pode nos separar: nem a morte, nem qualquer outra coisa no mundo (cf. Rm. 8,38). A morte foi tragada pela vitória de Cristo! "Morte, onde está a tua vitória? Onde está o teu aguilhão?" (1Co. 15,54b). Portanto, é hora de rompermos as cadeias do medo e vivermos, alegremente, a maravilhosa liberdade dos filhos de Deus (cf. Rm. 8,21). frei Aloísio de Oliveira OFM conv. |
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Jesus não ressuscitou muita gente naquele tempo, os evangelhos mencionam apenas três: Lázaro de Betania, irmão de Marta e Maria, a filhinha de Jairo, Chefe da Sinagoga, e o filho da viúva de Naim, que Lucas narra no evangelho desse domingo. Conclui-se, portanto, que não era propósito de Jesus libertar e salvar os homens da morte biológica, pois se fosse assim, sua missão teria sido um fracasso já que ressuscitou apenas esses três e nem José, seu pai adotivo, ele teria conseguido livrar da morte. Há ainda outra questão importante a ser considerada: que vantagem teria se ressuscitar fosse apenas retornar a esta vida, com todas as suas limitações e aprendizado, suas angústias e tribulações? Por acaso não iríamos morrer novamente, como o próprio Lázaro, a filha de Jairo e o moço que Jesus ressuscita nesse evangelho? Não, não valeria a pena, com toda certeza! Essa vida nova que Cristo nos dá, através de sua paixão, morte e ressurreição, é infinitamente melhor e superior a esta existência terrena, a ponto do apóstolo Paulo afirmar em uma de suas cartas “os sofrimentos do tempo presente nem se comparam àquilo que Deus irá nos revelar”, ou ainda “o que vemos hoje é como se fosse em um espelho, mas depois nos veremos como de fato o somos”. A chave que decifra esse mistério da Vida e da morte está precisamente em Cristo, nele o Pai não só se revela, mas revela também quem é o homem. A graça de Deus que em Cristo recebemos nos faz criaturas novas onde o mistério é iluminado pela luz da Fé. Essa grande e feliz Verdade chegou até nós por causa do evangelho, anunciado pelo próprio Cristo – filho de Deus feito homem, que ao trazer-nos a Boa Nova permitiu-nos conhecer a Deus, descobrindo o sentido da nossa vida na Vida de Cristo, onde todos os limites humanos foram superados, ao dar-nos acesso a Deus, rompendo para sempre a barreira do pecado. Sem este anúncio e esta graça, a nossa esperança por uma Vida Nova, seria vã, não passaria de uma grande utopia, uma fantasia e ilusão que um belo dia chegaria ao seu final, mas o homem que vive pela fé, a comunhão com Cristo, sabe em seu coração que não caminha para o fracasso da morte e esta esperança viva é que dá a esta vida terrena um sentido novo. Portanto, nossa Vida está em Cristo porque nele nos movemos e somos, sem ele, nossa caminhada terrena não passa de um cortejo fúnebre, onde somos como um morto vivo, caminhando para a ruína da morte biológica, para ser devorado pela terra. A vida do homem que tomou a decisão de viver sem Deus, ignorando esta Salvação e Libertação oferecida por Jesus, é muito triste, porque ele se ilude com toda pompa que esta vida oferece, satisfazendo seus desejos egoístas, colocando toda sua esperança nas coisas que passam, e no final, descobre que foi enganado, quando percebe que caminha para a morte. Mas nunca é tarde para reverter esse quadro doloroso, pois, para quem caminha assim, como se fosse um corpo sem vida, irradiando tristeza e dor aos que o acompanham, o evangelho desse domingo anuncia algo maravilhoso: no sentido contrário, vem chegando Cristo Jesus, Senhor da Vida, aquele que movido de compaixão, como na entrada da cidade de Naim, irá dizer a viúva e aos que a seguiam no enterro de seu filho: não chores! Hoje há tantas mães caminhando tristes, levando seus filhos para a sepultura, há tanta gente caminhando cabisbaixa, sem uma perspectiva de vida e sem esperança no coração. Não chores mais – diz o Senhor, que ao tocar no esquife, que são as misérias do homem, dirá com firmeza “Moço, eu te ordeno, levanta-te!”. E diante de sua palavra libertadora e restauradora, o homem renasce e se torna uma nova criatura, só Cristo é a nossa vida, só ele tem a palavra de ordem, capaz de nos levantar de todos os nossos pecados que querem nos arrastar inexoravelmente para a morte. Longe de Deus e da sua Salvação oferecida por Jesus, iremos fatalmente morrer, mas com ele teremos a Vida Eterna, que extrapola os nossos limites e nos reconduz ao paraíso da plenitude, resgatando a nossa imagem e semelhança com que fomos criados por Deus. É missão nossa como Igreja anunciar a toda criatura esta vida que vem de Jesus, mas isso só será possível se como ele, tivermos no coração essa compaixão, que nos leve a sofrer e chorar com quem sofre e chora, onde um sorriso, um abraço, uma palavra de consolo ou um gesto de caridade, sempre feito em nome de Jesus, terá a mesma força de sua palavra libertadora, capaz de levantar quem se julga morto. O cristão, como qualquer ser humano, também pranteia seus mortos, mas a diferença está naquilo que ele espera: a plenitude da Vida, reservada aos que crêem que esta vida é uma peregrinação para a casa do Pai, predestinados que fomos desde toda a eternidade. diácono José da Cruz |
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A dimensão profética percorre a liturgia da Palavra deste domingo, em Elias, o profeta da esperança e da vida, em Paulo, o profeta do Evangelho recebido de Deus, e, particularmente, em Jesus, o grande profeta que visita o seu povo em atitude de total oblação. A primeira leitura apresenta-nos a figura da mulher de Sarepta, que significa a perda da esperança e o sentimento de derrota e de procura de um culpado, e a figura do profeta Elias, que acredita no Deus da vida, que não abandona o homem ao poder da morte, ressuscitando o filho da viúva. No Evangelho, temos a revelação de Deus expressa na atitude de piedade e compaixão de Jesus no milagre da ressurreição do filho da viúva. Deus visita o seu povo em Jesus, “um grande profeta”, realizando o reino pela ressurreição, oferecendo a sua vida e dando-lhe pleno sentido. Na segunda leitura, acolhemos a absoluta gratuidade da conversão de Paulo, para quem o Evangelho é uma força vital e criadora, que produz o que anuncia; a sua força é Deus. É uma força vital, uma dinâmica profética que ele recebeu diretamente de Deus. 1º leitura – 1 Reis 17, 17-24 - COMENTÁRIOO episódio de hoje, a ressurreição do filho da viúva de Sarepta, é um dos milagres atribuídos a Elias e enquadra-se na polemica contra a religião cananeia do deus Baal. Este era considerado o senhor e o esposo da terra e simbolizava a fertilidade dos campos, dos animais, das famílias. Enfim, era o deus da fecundidade e da vida. Portanto, em Canaan, celebrava-se todos os anos a festa da morte e da ressurreição da natureza na figura de Baal. O milagre de Elias, como outros a eles atribuídos, significa fundamentalmente que Yahveh é a única fonte da vida e da fertilidade. A vida vem de Deus. Toda a vida e ação de Elias apontam nesse sentido; o próprio nome Elias significa “Yahveh é o meu Deus”. Portanto, todos os elementos da mensagem devem ser vistos à luz desta centralidade. Todo o relato, que pode denotar referências mágicas na relação entre pecado e doença, baseia-se na oração de Elias, que deixa clara a sua fé num Deus pessoal, senhor e fonte de vida. A viúva de Sarepta, uma mulher estrangeira, confessa a fé em Elias como “homem de Deus”, “porta-voz de Deus”: “Agora vejo que és um homem de Deus e que se encontra verdadeiramente nos teus lábios a palavra do Senhor”. Naamã confessará uma fé semelhante, depois de ser curado e se ter lavado no Jordão por indicação de Eliseu (cf. 2 Re. 5,15). Jesus fará referência à viúva de Sarepta e ao sírio Naamã como representante dos gentios que entram n Igreja, após receber o Evangelho (cf. Lc. 4,25 27). A figura da mulher significa a perda da esperança e o sentimento de derrota e de procurar um culpado. O profeta Elias é a figura que acredita no Deus da vida, que não abandona o homem ao poder da morte. Como pensamos e agimos hoje, nós que somos cristãos? Não ficamos muitas vezes no paganismo, na falta de esperança, no derrotismo das desgraças que nos atingem? Quando é que, verdadeiramente, agimos como se Deus fosse verdadeiramente o único Deus da vida e da bondade? Quanto caminho a fazer para sermos profetas à maneira de Elias… 2º leitura – Gal. 1, 11-19 - COMENTÁRIOO texto de hoje enquadra-se na acentuação muito forte da absoluta gratuidade da conversão de Paulo. A essa luz Paulo prega um Evangelho que não é de origem humana. Poder-se-ia pensar que este Evangelho tem um conteúdo da catequese sobre os fatos e os ditos de Jesus. Ora, Paulo, quando perseguia ferozmente os cristãos, conhecia bem o conteúdo da sua doutrina. Para Paulo, o Evangelho é uma força vital e criadora, que produz o que anuncia; a sua força é Deus. É uma força vital, uma dinâmica profética que Paulo recebeu diretamente de Deus. Para Paulo, a sua conversão é obra exclusiva de Deus. Temos aqui um equilíbrio dinâmico entre a gratuidade da fé e a adesão à tradição e magistério eclesiástico. Somos convidados a estarmos sempre abertos à revelação de Deus, à autêntica conversão, ao acolhimento do Evangelho vivo de Deus. Evangelho – Lc. 7,11-17 - COMENTÁRIOTemos aqui o episódio da ressurreição do filho de uma viúva, em paralelismo com o da primeira leitura. O milagre relatado neste texto, assim como o dos versículos anteriores, respondem à pergunta de João de Baptista a Jesus: “és Tu que hás-de vir ou devemos esperar outro?” Jesus oferece a salvação (cf. Lc. 7,1-10) e mostra o verdadeiro triunfo da vida (cf. Lc. 7,11-17). Não é o relato em si que é o mais importante, mas o sentido que nos transmite. Antes de mais, temos aqui uma revelação de Deus. Diante da atitude de piedade e compaixão de Jesus, neste milagre de ressurreição, vemos a exclamação do povo: “Deus visitou o seu povo”. Jesus é “um grande profeta”, não apenas porque transmite a Palavra de Deus e anuncia o reino com palavras, mas sobretudo porque veio realizar o reino pela ressurreição, oferecendo a sua vida. Em seguida, vemos aqui o sentido da vida. Jesus veio criar, oferecer ao homem a alegria de uma vida aberta com todo o sentido. Percebemos ainda todo o caráter de sinal presente no milagre. A ressurreição do filho da viúva testemunha Jesus que há-de vir, cuja vida triunfa plenamente sobre a morte. Significa que para nós, hoje como então, Deus Se encontra onde há o sentido da piedade, do amor vivificante. Significa ainda que, seguindo Jesus, só podemos também suscitar vida, ter piedade dos que sofrem, oferecer a nossa ajuda, ter uma atitude de oblação. Das duas, uma: ou fazemos da nossa vida um cortejo de morte, dos sem esperança, que acompanham o cadáver, em atitude de choro, de luto, de desespero; ou fazemos do nosso peregrinar um caminho de esperança, de ressurreição, de transformação do choro e da morte em sentido de vida. Podemos escolher, é certo. Mas se somos seguidores de Cristo e nos deixamos visitar por esta grande profeta, não temos alternativa! padre Joaquim Garrido – padre Manuel Barbosa – padre Ornelas Carvalho |
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«Recordai a cena que nos conta são Lucas, quando Cristo andava nos arredores da cidade de Naim (cf. Lc. 7,11-17). Jesus vê a angústia daquelas pessoas, com quem Se cruzou ocasionalmente. Podia ter passado de lado, ou ter esperado que O chamassem Lhe fizessem um pedido. Mas não Se afasta, nem fica na expectativa. Toma Ele próprio a iniciativa, movido pela aflição de uma viúva que perdera a única coisa que lhe restava – o filho. Explica o evangelista que Jesus Se compadeceu; talvez a sua comoção tivesse também sinais externos, como pela morte de Lázaro. Jesus não era, nem é, insensível ao padecimento que nasce do amor, nem sente prazer em separar os filhos dos pais: passa além da morte, para dar a vida, para que aqueles que se amam convivam. Não é apenas antes mas ao mesmo tempo que exige a preeminência do Amor divino que deve informar a autêntica existência cristã. Cristo sabe que O rodeia uma grande multidão, a quem o milagre encherá de pasmo e que há-de ir apregoando o sucedido por toda aquela região. Mas o Senhor não procede de uma maneira artificial, para praticar um feito: sente-Se singelamente afetado pelo sofrimento daquela mulher, não pode deixar de a consolar. Então, aproximou-Se e disse-lhe: não chores (Lc. 7,13). Que é como se lhe dissesse: não te quero ver desfeita em lágrimas, pois Eu vim trazer à Terra a alegria e a paz. E imediatamente se dá o milagre, manifestação do poder de Cristo- Deus. Mas, antes, já se dera a comoção da sua alma, manifestação evidente da ternura do coração de Cristo- Homem. Se não aprendermos com Jesus, não amaremos nunca. Se pensássemos, como alguns pensam, que conservar um coração limpo, digno de Deus, significa não o misturar, não o contaminar com afetos humanos, o resultado lógico seria tornarmo-nos insensíveis à dor dos outros. Só seríamos capazes de uma caridade oficial, seca e sem alma; não da verdadeira caridade de Jesus Cristo, que é ternura, amor humano. E com isto não dou lugar a falsas teorias, tristes escusas para o desvio dos corações, afastando-os de Deus, e levando-os a más ocasiões e à perdição (…). Se queremos ajudar os outros, temos de os amar – deixai-me insistir – com um amor que seja compreensão e entrega, afeto e humildade voluntária. Assim compreenderemos por que quis o Senhor resumir toda a Lei nesse duplo mandamento, que é afinal um mandamento só: o amor de Deus e o amor do próximo com todo o coração (Mt. 22,40) ». são Josemaria Escrivá |