Cinco pães e dois peixes

Quando o rei Herodes matou o profeta João em Maqueronte, as pessoas ficaram cheias de medo e de raiva. Nós estávamos então em Jerusalém. Ao saber o que havia se passado, regressamos depressa à Galiléia pelo caminho das montanhas.

Natanael: Ai, Felipe já não agüento mais... meus pés estão muito inchados!

Felipe: Não se queixe tanto, Nata. Afinal, só falta um pouco...

Natanael: Como pouco se ainda nem chegamos a Magdala...?

Felipe: Não homem, digo que falta pouco para que nos cortem o pescoço como a João o batizador. E então, os calos não ficaram ainda mais doloridos?

Natanael: Se é uma piada, não acho graça nenhuma!

Ao fim, depois de muitas horas de caminho...

João: Ei, companheiros, já dá para ver Cafarnaum! Olhem lá!

Pedro: Que viva nosso lago da Galiléia!

Felipe: E que vivam estes treze malucos que voltam a molhar os pés nele! Depois de três dias de caminho, voltamos para casa. Apesar do cansaço, íamos contentes. Como sempre, Pedro e eu nos pusemos a correr na última milha, para ver quem chegava primeiro...

João: Condenado Pedro-pedrada, você não será o primeiro desta vez...!

Pedro: Isso é o que você acha...!! Já estou quase lá, já estou quase lá!!

Quando chegamos a Cafarnaum, a família de Pedro, a nossa e a metade do bairro sairam para dar-nos as boas vindas e inteirar-se de como estavam as coisas lá por Jerusalém...

Um vizinho: Escute, Pedro, é verdade o que dizem que Pôncio Pilatos roubou outra vez o dinheiro do templo para o seu maldito aqueduto?

Pedro: Se fosse só isso! As cadeias estão cheias. Do átrio do templo dá para ouvir os gritos dos que estão sendo torturados na Torre Antônia.

Outro vizinho: Canalhas!

João: Antes de nós sairmos de lá, crucificaram mais dez zelotas. Dez apagões cheios de vida e com ganas de lutar!

Zebedeu: Pois por aqui as coisas não estão muito melhores!

Pedro: O que? Houve problemas?

Zebedeu: Sim, prenderam o Lino e o Manasses. E o filho do velho Sixto.

Salomé: O marido da sua comadre Cloé estava sendo procurado e teve de se esconder lá pelas cavernas dos leprosos. Foi Gedeão, o saduceu, que o denunciou.

João: Esse traidor!

Um vizinho: Um grupo de ferreiros fez um protesto por causa do último imposto sobre o bronze e, zaz! Todos pra cadeia.

Salomé: E todos apanharam!

Zebedeu: E isso já faz seis dias, e até agora não foram soltos!

Salomé: Bem, creio que há mais gente na cadeia do que na rua!

Jesus: E as famílias dos presos?

Zebedeu: Você pode imaginar, Jesus! Passando fome. O que é que vão fazer? Entre os mendigos e os camponeses que perderam a colheita e agora os filhos dos presos, Cafarnaum está que é uma lástima!

João: Temos de fazer alguma coisa, Jesus. Não podemos cruzar os braços.

Felipe: É o que eu sempre digo: Fomos a Jerusalém, voltamos de Jerusalém, e daí?

Pedro: Agora estamos os treze juntos. Entre todos podemos pensar um plano.

Salomé: Não comece a agitar mais ainda, Pedro, se não quiser que o pendurem em um pau. A polícia de Herodes anda bisbilhotando na taberna e diz que se alguém estiver conspirando será pego.

Jesus: Pois vamos para fora da cidade, para não levantar suspeitas. Sim, é isso, amanhã podemos sair para dar uma volta e procurar um lugar tranqüilo para falarmos sobre isso tudo... De acordo?

Natanael: Amanhã, sim, amanhã de manhã. E se for de tarde ainda melhor. Estou de um jeito que não consigo dar nem mais um passo. Ai, minha avó, estou com os rins feitos pó!.

No dia seguinte, pela tarde, Tiago pediu ao velho Gaspar sua barca grande. Nela cabíamos os treze.Remamos em direção a Betsaida. Com a primavera, a orla do lago estava coberta de flores e o capim estava muito verde...

João: Ei, Pedro, você se lembrou de pegar algumas azeitonas para enganar as tripas?

Pedro: Azeitonas e pão!... Pegue!

Felipe: Vejam, e aquelas pessoas que estão na margem? O que será que acontece?

João: No mínimo alguém se afogou. O mar rebenta muito nesses lugares...

Homem: Ei, vocês, da barca, venham aqui! Venham!

Natanael: Acho que os afogados seremos nós. Veja, Pedro, aqueles que estão fazendo sinais não são os gêmeos da casa grande?

Pedro: Sim, são eles mesmos... Como é que vieram parar aqui?

João: Devem ter vindo a pé de Cafarnaum. Seguramente o velho Gaspar lhes disse que viemos para cá. E chegaram primeiro que nós.

Uma mulher: Pedro!... Jesus não veio com vocês?

Pedro: Veio! O que você quer com ele?

Um homem: Com ele e com vocês!... As coisas andam mal em Cafarnaum. Já lhes contaram?

Uma mulher: Estamos passando fome! Nossos maridos presos e nós sem um pedaço de pão para dar às crianças!

Um homem: E nós que estamos livres, não achamos onde ganhar uma porcaria de denário! Não há trabalho nem para Deus se ele se sentasse na praça!

Pedro: E o que nós podemos fazer, se estamos quase que nem vocês?

Outro homem: Venham, venham, amarrem a barca aqui!... Venham!

João: Escute, Jesus, não seria melhor embicar para outro lado?... Há gente demais!

Jesus: É que o povo está desesperado, João. As pessoas não sabem nem o que fazer nem para onde ir, estão como um rebanho sem pastor.

Eram muitos esperando-nos na orla. Alguns vieram de Betsaida. Outros do casario de Dalmanuta. E também vieram muitos de Cafarnaum...

Um homem: Vocês sempre dizem que as coisas vão melhorar, que vamos por fim levantar a cabeça... e vejam vocês, quando o profeta João a levantou, a cortaram!

Uma mulher: Já não temos ninguém que responda por nós. Que esperança nos resta, heim? Estamos perdidos!

Jesus: Não, dona Ana, não diga isso. Deus não vai deixar-nos desamparados. Se lhe pedirmos, ele nos dará. Se buscarmos uma saída, a encontraremos. Não ficaram sabendo o que fez Bartolo outro dia, quando lhe chegaram alguns parentes no meio da noite?...

Um homem: Bartolo? Que Bartolo?

Jesus: Bartolo, homem, o que antes dava aqueles gritos na sinagoga, lembram?

Uma mulher: Ah, sim, e o que aconteceu com esse lunático?

Jesus: Para não perder o costume, continuou gritando. Afinal, que outra coisa esse coitado poderia fazer?

Jesus, como sempre, acabava contando histórias para fazer-se entender melhor. Pouco a pouco, todos fomos nos sentando. Havia muita grama naquele lugar...

Jesus: Pois vejam, acontece que outra noite, seus parentes vieram de visita e Bartolo não tinha nada em seu casebre para oferecer-lhes. Então foi até um vizinho: “Vizinho, abre-me, tum! tum! tum!... Vizinho, não lhe sobrou nenhum pão do jantar?”... Mas o outro já estava roncando. “Tum, tum, tum!... Vizinho, por favor!” E o outro da cama respondeu: “Deixe-me em paz! Não vê que estou deitado com meus filhos e minha mulher?”... Mas Bartolo continuava a bater, chamando à porta. Era um que não me amole, e outro que me empreste três pães... Resultado, o primeiro a se cansar foi o vizinho de Bartolo. E se levantou e lhe deu os pães que pedia para tirá-lo de cima.

Uma mulher: Bom, e daí?

Jesus: Que assim acontece com Deus. Se chamarmos ele acabará abrindo-nos a porta. E nos ajudará a ir adiante apesar de todas as dificuldades que temos agora. Vocês não acham?

Quando Jesus acabou de contar aquela história, uma mulher magra, com uma cesta de figos na cabeça e um avental muito sujo, se aproximou de nós...

Melania: Vocês me perdoem, eu sou uma mulher rude, mas... não sei, eu penso que a coisa também acontece ao contrário. Muitas vezes o que bate à porta é Deus. E nós somos os que estamos deitados, dormindo a sono solto. E Deus vem e nos esmurra a porta para darmos o pão que nos sobra aos que não o tem.

As palavras de Melania, a vendedora de figos, surpreenderam a todos nós.

Melania: Não é verdade o que digo, amigos? Pedir a Deus, sim, isso é bom, mas do céu, que eu saiba, não chove pão. Isso dizem que era antes, quando nossos avós iam caminhando por aquele deserto. Mas agora, já não acontecem esses milagres...

Jesus: Esta mulher tem razão. Escutem, amigos: a situação está ruim. Há muitas famílias passando fome em Cafarnaum e em Betsaida e em toda a Galiléia. Mas, se nos unirmos, se colocarmos o pouco que temos em comum, as coisas vão melhorar, vocês não acham?

João: O que eu acho, Jesus é que já está muito tarde. Vai cortando o fio e vamos embora. Ei, amigos, já não é um pouco tarde? Nós estamos voltando a Cafarnaum...

Um homem: Não, não, vocês não podem ir agora. Temos de discutir a questão das mulheres dos presos e o que vão comer os que estão sem trabalho.

Pedro: Deixe isso para outro dia, amigo. Já está ficando escuro e, de verdade, vocês devem ter as tripas coladas à espinha...

Uma mulher: E vocês também, que porcaria! Se formos agora desmaiaremos pelo caminho!

Jesus: Escute, Felipe, não há nenhum lugar por aqui onde se possa comprar alguma coisa?

Felipe: Um pouco de pão poderia ser comprado em Dalmanuta, mas eu creio que para tanta gente seriam precisos duzentos denários!

Jesus: Vejam o que são as coisas, amigos! Vocês têm fome. Nós também. Nós trouxemos algumas azeitonas, mas não queremos mostrá-las porque não bastariam para todos. Penso que alguns de vocês também trouxeram seu pão por baixo da túnica e, tampouco se atrevem a mordê-lo para que o do lado não lhes peça um pedaço.

João: É assim mesmo, Jesus e, sem ir mais longe, há aqui um menino que trouxe alguma comida.

Jesus: O que você tem aí, garoto?

Um menino: Cinco pães de cevada e dois peixes.

Jesus: Ouçam, vizinhos, por que não fazemos o que a Melania disse há alguns instantes...? Por que não nos sentirmos como uma grande família e repartimos com todos o que temos? Na melhor das hipóteses isso dará...

Um homem: Sim, é isso, vamos fazer isso! Ei, você, garoto, traga aqui os cinco pães que você tem! Eu tenho aqui dois ou três mais!

Jesus: Você, Pedro, pegue as azeitonas e coloque-as no meio, para todos... Quem tem alguma coisa mais?

Outro homem: Por aqui há uns quantos dourados! Com os dois do garoto e outros mais que apareçam...

Melania: Aqui está meu cesto de figos, pessoal! Quem tiver fome, pode ir comendo sem pagar...

Tudo foi muito simples. Os que levavam um pão o puseram para todos. Os que tinham queijo ou tâmaras, o repartiram entre todos. As mulheres improvisaram algumas fogueiras e assaram os peixes... E assim, às margens do lago de Tiberíades, todos puderam comer naquela noite...

Uma mulher: Escutem, se alguém quiser mais pão ou mais peixe... Ainda tem... Você quer, Pedro?

Pedro: Eu? Não, estou mais estufado que um hipopótamo. Comi até demais!
Outra mulher: Você, garoto, recolhe os pedaços de pão que sobraram! Sempre se aproveita...

João: Agora, sim, companheiros, ao barco! Temos que voltar para casa!

Um homem: Esperem, esperem, não vão ainda!... Não acabamos de discutir a questão das mulheres dos presos e... sim, claro, estou entendendo. O que temos que fazer é...

Melania: O que se tem que fazer é compartilhar.

Jesus: Sim. Compartilhar hoje e amanhã também.E assim, o pão será suficiente para todos.

E nós treze, montamos na barca de Gaspar e começamos rema que rema no meio da noite rumo a Cafarnaum... Eu ia pensando enquanto cruzávamos o lago que um milagre, um grande milagre havia acontecido naquela tarde diante dos nossos olhos.

Comentários

A uns três quilômetros de Cafarnaum, bem próximo do lago da Galiléia, está Tabgha, onde a tradição fixou há muito tempo o lugar em que Jesus comeu pães e peixes com uma multidão de conterrâneos.Tabgha é a contração em árabe da palavra grega “Heptapegon”, que quer dizer “Sete Fontes”. A igreja que hoje se visita em Tabgha está construída sobre a que já existia ali há mil e quatrocentos anos. Os mosaicos existentes no piso desta chamada “igreja da multiplicação” são os do antigo templo e têm um grande valor artístico e arqueológico. Em um destes antiqüíssimos mosaicos se representa um cesto com cinco pães; e a seu lado há dois peixes. Desde a remota antiguidade, pães e peixes foram um símbolo eucarístico, por referência a este texto do evangelho no qual se realiza o essencial do que celebramos na eucaristia. Uma comunidade que compartilha sua fé, sua esperança e seu pão na presença de Jesus.

Jesus conta a seus vizinhos, neste episódio, a parábola do amigo a quem pede ajuda de noite (Lc 11,5-8). Com esta história quer ressaltar a confiança que devemos ter em Deus, que escuta nossas vozes quando clamamos a ele em nossa necessidade. Cedo ou tarde ele lhes abrirá a porta. Por outro lado, Jesus está tecendo uma história humorística com um ensinamento bem prático. Esta insistência ao pedir, esta cabeça dura que não cede, este impertinência tão oriental de saber insistir, esta astúcia que tem aquele que nada possui para conseguir o que procura, para surrupiar, tudo isso são valores que devemos saber usar para construir o Reino da Justiça.

O pão era o alimento básico no tempo de Jesus. Até há pouco tempo, na maioria dos países do mundo, também o era. Algumas revoluções e revoltas populares estouraram precisamente quando faltou o pão ou quando subiu tanto de preço que aos pobres se tornou impossível comprá-lo. A falta de pão – que é o mesmo que dizer a fome – acendeu em muitas ocasiões o estopim da rebeldia dos pobres. Pelos escritos da época, podemos saber com muita aproximação o preço do pão no tempo de Jesus. O que uma pessoa comia diariamente equivalia a 1/12 de denário, isto é, 1/12 do salário de uma jornada, pois o mais freqüente era que, na maioria dos ofícios, se ganhasse um denário por dia. O pão era comido na forma de tortas chatas, pouco grossas, como as que ainda hoje se usam nos países orientais. Para sua alimentação, um adulto, consumia pelo menos três dessas tortas.

Deus não dá de comer diretamente aos homens.E a prova mais palpável é a fome do mundo, padecida pela maioria da humanidade e não querida por Deus. Os famintos não devem esperar do céu a solução de sua miséria. O evangelho nos indica outra alternativa: Compartilhar. Não é necessário “comprar” – como propõem os discípulos . Basta “dar”, pôr em comum o que cada um tem. E assim haverá para todos. Este seria o maior dos milagres. Se se compartilha tudo, “todos ficam saciados” e inclusive sobra.

A missão da comunidade cristã no mundo dominado pela injustiça e regida pelo dinheiro e pela acumulação de bens, será sempre o amor. Mas não um amor de palavra, de bonitos discursos, mas um amor expresso no compartilhar. Deus é generoso e quer que todos comam, vivam, estejam saciados. Mas essa sua vontade se torna realidade unicamente através da generosidade da comunidade. Tudo isso é o que a comunidade expressa e celebra quando se reúne na eucaristia para compartilhar o pão.

Mateus 14,13-21 e 15,32-39; Marcos 6,30-44 e 8,1-10; Lucas 9,10-17; João 6,1-14)

 

 

O trecho do Evangelho que hoje nos é oferecido para a reflexão narra um dos fatos que, com certeza, marcou tão profundamente a vida dos discípulos a ponto de ser narrado por todos os evangelistas. Em alguns casos é narrado duas vezes e de formas diferentes, com a finalidade de evidenciar, no mesmo episódio, os vários significados aos quais Jesus podia aludir, como, por exemplo, a sua revelação e a missão da Igreja. Notamos imediatamente uma impostação litúrgica: «Levantou os olhos, deu graças, partiu...». É um indício claro que, para os discípulos e para a Igreja primitiva, não se tratava de um dos tantos milagres que Jesus havia realizado durante sua vida. Após a morte e a Ressurreição do Senhor, a comunidade cristã estava vivendo a tensão entre dois sentimentos aparentemente contraditórios: a consciência de que Jesus estava vivo na Igreja e a experiência da sua ausência, ou seja, a impossibilidade de continuar um relacionamento como tinha sido até então. Desse modo a Igreja começou a querer “sentir” e “experimentar”, a presença do Senhor Ressuscitado de modos sempre mais profundos; entre esses primam três: a escuta da Palavra do Senhor, a experiência da mesma comunhão que tinham vivido enquanto Jesus estava na Palestina e, principalmente, o fato de reviver a “última ceia do Senhor”, a «fração do pão» (At. 2,42; 20,7). Enfim, quando via a necessidade de “fazer memória” da vida do Senhor e da Páscoa, com a celebração da Eucaristia, a Igreja soube encontrar nesse episódio uma especial fonte de significado. O passo foi muito breve para descobrir a associação desse episódio com a Eucaristia e, por isso, foi depositado nos Evangelhos. Logo, trata-se de um fato que supera o milagre do pão que satisfaz as necessidades imediatas, para introduzir-nos mais diretamente no sentido da Eucaristia como a celebra a Igreja.

O ambiente é descrito por Mateus como um “lugar isolado”, deserto. Há uma alusão ao caminho dos hebreus no deserto? Está se propondo uma referência implícita ao “maná”, o pão do deserto? É possível. Certo é que o fato narrado hoje se dá fora da jurisdição e da influência do judaísmo, do “outro lado” do mar da Galileia, terra de estrangeiros pouco ligados a tradições religiosas e rígidos preceitos. Não é sem intenção que a multiplicação dos pães se dê justamente nesse contexto: implicitamente essa tende a sugerir a nova maneira de entender a relação com Deus que Jesus estava propondo. O que Jesus está prestes a propor, com um gesto simbólico tão forte, é uma relação com Deus que não desconhece a anterior. O judaísmo pensava que o fiel chegasse a Deus seguindo integralmente determinadas leis, cultos, práticas religiosas, todavia Jesus  oferece algo diferente. Foi bem isso que entenderam mais tarde os cristãos que, como nos dizem os Atos dos Apóstolos, ao mesmo tempo «frequentavam o Templo», mas «partiam o pão em suas casas» (At. 2,46). O gesto de partir o pão se tornou bem cedo o sinal que caracterizava e identificava a comunidade cristã.

O Evangelho nos dá a entender o contexto carregado de tristeza e o sofrimento de Jesus, não somente pela morte de seu primo, mas pela hipocrisia que reina no coração das pessoas que, como Herodes, querem manter a todo custo o poder e a própria imagem. Jesus, talvez, em tais circunstâncias, queria um momento “só para si”. É isso que todos nós fazemos quando os sofrimentos parecem ser mais fortes do que as nossas forças, quando algo nos atinge do modo tão pessoal e imediato que, por instinto, dizemos: “Ninguém pode entender o que eu estou passando” e isso, em parte, está certo, pois cada um é marcado e afetado de modo único e totalmente pessoal. O sofrimento nos diz quem somos e qual a orientação fundamental de nosso coração; para uns é justificativa para o fechamento em si mesmos, para outros, o mesmo sofrimento os projeta fora de si mesmos e lhes dá até a capacidade de compreender o sofrimento dos outros. É este o sentimento que o Evangelho chama de “compaixão”; é um “sofrer-com-quem-sofre”, é a superação de um sentimento por um outro:  o primeiro deixa quem sofre sozinho, o segundo o projeta na partilha de vida.

A compaixão não é um piedoso sentimento de benignidade que deixa uma distância entre quem é beneficiado e quem “concede” o benefício. Isso não é cristão! A compaixão encurta a distância entre quem sofre e quem alivia o sofrimento do outro pois ambos sabem do que se trata. A compaixão é um ato de profunda humildade de quem dá e que não humilha aquele que recebe: é um movimento espontâneo da alma que se vê no sofrimento do outro. É esse sentimento que permeou o coração de Jesus: «viu... e teve compaixão». A reação de Jesus ao sentimento de compaixão corresponde exatamente ao milagre que acontece em nós quando somos capazes de transformar o negativo em positivo. Corresponde ao milagre que acontece no coração do cristão que aprendeu a viver a sua vida no estilo de Jesus, que não se detém na autocomiseração que nos fecha e nos faz morrer antes que a existência termine. Jesus «teve compaixão e curou os doentes».

Se esse trecho do Evangelho nos fala da eucaristia, então significa que a Eucaristia não se reduz a um ato, mas é manifestação de uma atitude nova que começa com o sentimento de “compaixão” pelos menos favorecidos, por aqueles que, de algum modo, sofrem. Sabemos bem que a celebração da Eucaristia é e manifesta a presença viva e real de Cristo na sua comunidade, todavia essa presença pode ser percebida na compaixão, na fusão de sentimentos, na comunhão participativa. É essa compaixão de Jesus que questiona os discípulos e os faz distribuir aquilo que eles não têm. A presença viva do Ressuscitado só será compreendida enquanto formos capazes de responder ao coração que pede que não nos fechemos em nós mesmos quando teríamos tudo para fazer o contrário.

A compaixão dá início a todo um processo dentro da nossa alma. Embora com o coração abarrotado de sofrimento, Jesus dá o que às vezes as forças não têm para dar: «curou os doentes», foi ao encontro de todas as penas que as pessoas carregavam junto com aqueles doentes reunidos e confusos na multidão. O simples sentir-nos objeto da compaixão de Jesus, ver o seu olhar que compreende o que estamos vivendo, cura as feridas do abandono e da solidão nas quais o sofrimento nos encurrala.

Jesus cura porque é disso que as pessoas sentem necessidade.

Contudo, pela narração, parece que também isso seja insuficiente para a multidão. As pessoas permanecem ali, em volta de Jesus, não vão embora depois curadas, quase presas por um instintivo desejo de eternizar aqueles momentos que seriam únicos em suas vidas. Permanecer com Jesus, permanecer mesmo depois de termos recebido aquilo que queríamos, aquilo de que precisávamos como sinal de seu amor é um gesto fundamental para receber ainda mais, muito mais do que poderíamos imaginar. Receber e ir embora contentes não salva, não gera comunhão, não nos torna partícipes de valores muito maiores do que a cura, e que são sintetizados no gesto que virá em seguida: “a fração do pão”.

Jesus também parece agradar-se com a presença daquela multidão. Não quer que aquele momento de graça seja interrompido, nem mesmo quando a necessidade imediata parece pressionar. A multidão está ali. Porém começam a surgir dificuldades, cansaço e fome, como na nossa vida de cada dia, quando o fascínio de sentir-se na presença de Jesus parece dar espaço à dureza do dia a dia que não tem muito de encantador.

Naquele momento, quando o tempo já está suspenso, quando nem a multidão nem Jesus querem romper o encanto, alguém decide que é melhor “pôr os pés no chão”, recordar que a realidade não é aquela. Com certeza, quem decidiu fazer isso pensava que estaria fazendo “o bem”. Quantas vezes pensamos que a faina do dia a dia é a realidade e arrastamos nela as pessoas que não se deixam prender pelas necessidades imediatas, mas sabem contemplar o tempo, os momentos, os outros, a poesia de viver um benefício. Quantas vezes pensando fazer o “bem”, tiramos os sonhos de quem ainda sonha! E mais: erroneamente, pensamos estar interpretando suas necessidades e fazendo-lhes o bem!

Que erro! É interessante: a exigência levantada não partiu da multidão, partiu dos discípulos.

«Despede as multidões». É a solução mais óbvia, a melhor conforme aquele tipo de mentalidade materialista que domina o nosso pensamento. É melhor que toda essa gente não se iluda: “manda-os para casa”. Mas nem sempre a solução mais óbvia, o caminho mais fácil é o de Jesus. Para Jesus, aquela situação é a realidade! Estar com Ele, naquelas condições, é o alimento daquelas almas insatisfeitas. Pessoas ligadas entre si pelo fato de sentirem-se todas necessitadas do Senhor, de carregar feridas e males,  não se cansam de “estar diante do Senhor”.

É nesse ponto que Jesus pede que os discípulos também façam o mesmo salto qualitativo que Ele: pede para que não olhem para aquilo que seus olhos estavam vendo ou achando ver; pede que não se fechem em suas convicções, mas que olhem para fora de suas sensações e dessem o que não tinham para dar. Pede que repitam em suas vidas aquilo que o Senhor fizera.

Um pouco de pão, algum peixe, é aquilo que podemos ter à disposição. Pouco, a tal ponto de sentir a vergonha de oferecer, pensando até que nem valha a pena...

E os discípulos escolheram seguir o Senhor e, como Jesus, deram o que não tinham para dar. Jesus responde, realiza o que não seria possível de outro modo. Jesus responde à insuficiência que experimentamos quando também sentimos compaixão. É aqui que a Eucaristia, o “partir o pão”, realiza aquilo que Jesus quer: que a sua multidão, frágil e faminta, continue ali, junto com Ele, num tempo sem horas, numa fome saciada continuamente, numa comunhão fortalecida pela confiança em seu providente.

padre Carlo

 

 

Todos têm um pouco de Jó, o personagem bíblico da dor. Trazemos com facilidade uma experiência triste para contar. Em momentos de dor e de exílio, fazemos também a experiência do abandono. Diante do sofrimento é comum que sintamos o não-amor. Seria a ausência do amor divino? São Paulo, que passou por tantas rejeições, por exílios, naufrágios, disputas e prisões, testemunha que nada poderá nos separar do amor de Cristo.

Diante da situação de dor e de exílio, é preciso que aumente em nós a confiança. Porém, é comum desejar um Deus intervencionista, que venha e faça o milagre aqui e agora, que não permita que a dor aconteça. O sofrimento parece ser sinônimo de imobilidade divina. A pobreza, a violência, a guerra, parecem evocar o fato de que Deus não se importa. Se Ele é Deus, por que não faz nada? S. Paulo testemunha que mesmo invocando a intervenção divina diante de um espinho que causava grande dor, Deus apenas o fortaleceu diante de seu desafio, bastando-lhe a graça (cf. 2Cor. 12,7-10). O que o mesmo apóstolo nos diz na primeira leitura é que o Senhor nunca deixa de nos amar, mesmo que não pareça. Às vezes age de modo furtivo, quase despercebido. Acima de tudo, seu amor vai além desta vida: é mais forte do que a morte, ou seja, é garantia de nossa ressurreição. Mas nossas vitórias sobre as mortes já acontece aqui e agora... A pergunta atual de São Paulo é um encorajamento a não duvidarmos: “Quem nos separará do amor de Cristo?”

O amor de Deus se manifesta na atitude de saciar a fome. O seu alimento não exige nenhuma paga (Is 55,1): Deus não cobra, Ele alimenta o pobre, o faminto, o pecador. Assim como as dores da vida não nos furtam o amor de Deus, também nossa condição social ou moral não nos impedem de sermos amados e alimentados pelo Senhor. Nem mesmo um grande pecado poderia impedir que Deus continuasse amando. Ele é amor incondicional, gratuito. Se o sofrimento e o pecado geram o afastamento de Deus, é da parte do ser humano, pois Deus não vai embora, apenas respeita a atitude daqueles que se afastam dele.

No Evangelho Jesus alimenta o Povo. Jesus não admite despedir a multidão com fome. Não deixa que “se virem sozinhos”. O Senhor deseja alimentar o seu povo, pois “encheu-se de compaixão por eles”. O amor que não se separa de nós é sinônimo de compaixão (=sofrer com). Deus não tem pena, mas sente em suas entranhas a miséria de quem sofre: este é o sentido bíblico do termo compaixão. Então, intervém com seu amor. Mesmo se não percebemos ou se a graça demora, Ele sofre a nossa dor, tem um coração capaz de se compadecer de nossa dor, é solidário com o ser humano.

Saciar a fome é a antecipação dos bens messiânicos. O Cristo traz o alimento como sinal do banquete eterno – a glória futura é a festa na qual todos poderão comer e beber. Enquanto esperamos o Banquete do Reino, saciamos nossa fome com o pão nosso de cada dia, com o pão da Palavra e da Eucaristia. Hoje, existem muitas fomes. As maiores fomes são mais sofridas do que a fome de pão material. Existe a carência de amor, de afeto, de sentido de vida... Somente o Senhor pode dar o verdadeiro alimento; ninguém e nada mais podem substituir o alimento divino. Hoje, continuamos com a missão de dar o alimento a todos. Não são esmolas no sinaleiro que resolvem o problema social do país; as cestas básicas apenas amenizam fomes. Ouso dizer que há gestos de partilha mais necessários: precisamos partilhar os dons mais sublimes, para que neste mundo o amor seja sentido e brilhe como sinal de vida.

A missa é o local do alimento. Na celebração eucarística começa o Céu, começa a mesa da justiça, da fraternidade, da partilha, nela saciamos nossa fome de paz e de sentido, nela nossa força é restaurada e Deus é o alimento. Na multiplicação dos pães, Jesus realiza um gesto eucarístico (tomar os pães, abençoar, partir e distribuir...), como fazemos na missa. O Senhor está no meio de nós. O Cristo distribui do pão que é Ele mesmo para que tenhamos a Vida Eterna. “Ó vinde vós todos que estais com sede, vinde às águas... Vinde comei, vinde comprar sem dinheiro, tomar vinho e leite de graça!”

padre Roberto Nentwig

 

 

«Trazei-os aqui»

Hoje, Jesus nos mostra o muito que deseja envolver-nos no seu trabalho de redenção. Ele, que tem criado o céu e a terra do nada, tivesse podido - da mesma maneira - ter facilmente criado um abundante banquete para saciar aquela multidão.

Mas preferiu fazer o milagre partindo do único que os seus discípulos podiam entregar-lhe. «Só temos aqui cinco pães e dois peixes» (Mt. 14,17), disseram-lhe. «Trazei-os aqui» (Mt. 14,18), respondeu-lhes Jesus. E o Senhor levou a cabo a multiplicação de tão escasso recurso -nem suficiente para alimentar a uma família normal - para dar de comer a umas 5000 famílias.

O Senhor procedeu da mesma maneira no festim das bodas de Canaã. Ele, que criou todos os mares, podia facilmente ter enchido do melhor vinho aquelas vasilhas de mais de 100 litros, partindo de zero. Mas, novamente, preferiu abarcar suas criaturas no milagre, fazendo que, primeiro, enchessem os recipientes de água.

E, o mesmo princípio, podemos contemplá-lo na celebração da Eucaristia. Jesus começa não do nada, nem também não de cereais ou de uvas, senão do pão e do vinho, que contém em si o trabalho das mãos humanas.

O defunto cardeal Francisco Javier Nguyen van Thuan, prisioneiro dos comunistas vietnamitas desde 1975 até 1988, perguntava-se como poderia favorecer o Reino de Cristo e preocupar-se de seu rebanho enquanto tentava sobrepor-se ao brutal sofrimento de sua solitária reclusão. E, percebendo o pouco que podia fazer desde a cela da cadeia, pensou que, ao menos, cada dia, podia oferecer ao Senhor seus “cinco pães e dois peixes” e deixar que Deus fizesse o resto. E o Senhor multiplicou aqueles pequenos esforços convertendo-os numa testemunha que tem inspirado não só os vietnamitas, mas também a Igreja toda.

Hoje, o Senhor pede-nos, seus modernos discípulos, que “demos às multidões algo de comer” (cf. Mt. 14,16). Não importa quanto tenhamos se muito ou pouco: demo-lo ao Senhor e deixemos que Ele continue a partir daí.

fr. Roger J. Landry

 

 

O pão não se mata

1. O Evangelho deste domingo XVIII do tempo comum é conhecido como a primeira «multiplicação dos pães», realizada, neste caso, em mundo judaico. Mas vê-se bem que o título de «multiplicação» é inadequado, pois o que está aqui em causa não é, na verdade, uma multiplicação, mas uma divisão ou condivisão.

2. Neste episódio, salta à vista o comportamento compassivo, acolhedor, inclusivo e de partilha de Jesus em confronto com o comportamento insensível, não-acolhedor, exclusivista, frio, mercantilista, consumista, egoísta e egocêntrico destes discípulos de Jesus, que propõem a Jesus que mande as pessoas embora, para que cada um compre de comer para si mesmo (Mateus 14,15). O diagrama a seguir mostra os dois comportamentos em confronto:

Jesus

Discípulos

Misericórdia

Acolher

Curar

Dar

Condividir

Insensibilidade

Excluir

Mandar embora

Comprar

Cada um para si

3. Vistas bem as coisas, o comportamento destes discípulos, e, se calhar, o nosso também, opõe-se, ponto por ponto, ao comportamento de Jesus. A celebração da Eucaristia, com Jesus sempre no meio de nós, reclama que mudemos tantas maneiras de fazer!

4. O narrador termina o episódio, informando-nos que aquela multidão de pessoas ficou saciada, e que ainda «sobraram» doze cestos! (Mateus 14,20). Note-se que o verbo grego usado para dizer «sobrar» é o verbo perisseúô, que implica o excesso que ultrapassa toda a medida e a abundância que transborda, tornando inadequadas e ultrapassadas todas as nossas pequenas medidas! É assim normal que o narrador nos informe de que, com os pedaços que sobraram, os discípulos encheram doze cestos, símbolo da plenitude transbordante e inesgotável.

5. De notar que, aos olhos atônitos dos discípulos e dos nossos, Jesus não fez uma operação de «multiplicação» dos pães, mas de «divisão» e «condivisão», «partilha» dos pães! O milagre de Jesus – aquilo que suscita surpresa e maravilha – não consiste em aumentar a quantidade do pão (que permanece a mesma), mas em abrir os olhos aos seus discípulos e a nós que, como cegos, só conhecemos e pensamos na lógica do vender e do comprar, e não chegamos a saborear a lógica da gratuidade, que é a do nosso Pai celeste que faz nascer o sol para os bons e para os maus. Entrar nesta lógica é acreditar na força do dom, e ir por este mundo consumista, partindo o pão e dividindo-o, com a clara consciência de que onde isto acontecer, não só se instaura o necessário para todos («todos comeram e foram saciados»), mas instaura-se igualmente o «excesso», a superabundância da graça («os discípulos encheram doze cestos»).

6. Em perfeita sintonia com o Evangelho de hoje, a lição de Isaías 55,1-3 é fantástica. Um Deus bom e Pai convida os seus filhos sedentos e famintos a sentar-se à sua mesa e a comprar sem dinheiro o bom alimento. Note-se bem o oxímoro (comprar sem dinheiro) que nos deve (des)orientar sempre! Enquanto não entendermos isto, reprovaremos sempre no teste que Jesus fez a Filipe e faz a nós hoje também: «Filipe, onde compraremos pão para que eles comam?» (João 6,5). Era um teste, diz-nos o narrador (João 6,6), e Filipe pôs-se a contar o dinheiro e a pensar no shopping! (João 6,7). Pelos vistos, não conhecia este texto imenso texto de Isaías.

7. O pão dado, partido, condividido é um dom de Deus («Ouvi-me, ouvi-me, e comei o que é bom!») (Isaías 55,2), faz nascer novas maneiras de viver, alarga a tenda e o coração, gera fraternidade e comunhão. Também por isso, ainda hoje, os beduínos do deserto não cortam o pão com a faca, e explicam que «o pão não se mata!».

8. De fato, quando matamos este pão, o que nos resta?

António Couto

 

 

A partilha do pão em tempos de crise mundial

À primeira vista salta-nos aos olhos o milagre da multiplicação e partilha dos pães e dos peixes realizada por Jesus. Porém, para além do milagre, há dois pontos nessa passagem do Evangelho que merecem destaque. Primeiro, o sentimento que moveu Jesus. Segundo, suas respostas às interlocuções dos discípulos.

Os pães e os peixes são partilhados porque Jesus já estava movido por compaixão da multidão. Ele deixou-se “afetar” por suas vidas, suas histórias, suas buscas... Enfim, Jesus reconhece as necessidades do povo. Agir movido por compaixão é ter a capacidade de “sofrer com”, isto é, ser misericordioso, “abrir o coração aos que precisam”.

A compaixão, a misericórdia, são atitudes exigidas ao cristão. Elas deveriam mover nossas ações quando partilhamos o que temos e somos com nossos irmãos mais necessitados. Infelizmente, muitas de nossas ações são apenas assistencialistas e momentâneas. Esquecemos rápido e fácil do outro, “próximo” ou “distante”, aos quais anteriormente ajudamos. Quando acontece uma catástrofe, seja ela natural ou provocada pelo ser humano, procuramos ser solidários, mas é só passar alguns dias que esquecemos tudo o que aconteceu. Para provar o que afirmamos vejamos se estas perguntas ainda fazem parte de nossas preocupações: Será que nossos irmãos desabrigados com as chuvas desse ano já estão vivendo dignamente ou ainda precisam de ajuda? Será que o povo no Haiti já conseguiu recomeçar a sua vida, recuperar o que perdeu após os terremotos? E podemos acrescentar tantas outras perguntas referentes a realidades que bem conhecemos. Quem não se deixa afetar pelos problemas do outro, quem não se coloca no lugar do outro não é um cristão autêntico.

Com as palavras “Dai-lhes vós mesmos de comer”, Jesus convoca os discípulos a pensar de forma diferente, a partilhar aquilo que possuem. O mundo está vivendo uma crise financeira e isto leva cada um a pensar somente em si mesmo, em seus problemas, em sua economia. Assim, a partilha se torna algo que fica em segundo plano. Talvez os discípulos estivessem preocupados com eles mesmos e Jesus aponta para uma nova “relação econômica”, através da organização (pois mandou que as multidões se sentassem na grama), da benção (pronunciando-a) e da partilha dos pães. Esses três pontos remontam à imagem do jardim do Éden, lugar onde a vida é vivida plenamente, na presença de Deus e sem necessitados, isto é, seu Reino em plenitude. Imagens apontadas também na primeira leitura. Jesus evidencia com seus gestos o Reino de Deus acontecendo entre nós. Quando agimos da mesma forma damos continuidade à visualização do Reino.

Podemos chamar as ações de Jesus de “economia da partilha”, que é contrária à economia do individualismo, do monopólio, e hoje, poderíamos dizer também, que é contrária aos sistemas econômicos que geram empobrecidos, famintos, miseráveis...

Jesus age, e como dissemos anteriormente, movido por compaixão e misericórdia. E convoca seus discípulos a agirem da mesma forma. Não podemos viver hoje apenas esperando milagres e que o pão caia do céu para saciar a fome do mundo. É preciso solidarizar-se e estar atentos às “fomes” que estão próximas de nós.

irmã Sueli da Cruz Pereira

 

 

Os capítulos 14 e 15 de Mateus são denominados pelos estudiosos da Bíblia como a cessão do pão. Isso porque a narrativa gira em torno de duas multiplicações (Mt. 14, 13-21; 15,32-39). Duas narrações que nos fazem perceber que a mensagem fala para a Igreja primitiva a importância da Eucaristia e também nos leva a perceber o quanto é ainda importante para a vida do mundo.

O grande objetivo de Mateus é provar que Jesus é o novo Moisés. Só que Mateus vai mais longe mostrando que o que Jesus faz supera em muito os feitos de Moisés e nos introduz à compreensão do quanto importante é sua obra.

Jesus está em sua terra natal, Nazaré (Mt. 13,53 ss.) e é informado por seus discípulos que João Batista foi morto. Objetivando um afastamento ou uma reflexão a sós, sai para o deserto e é seguido pelo povo. A figura de Jesus nos faz lembrar Moisés a frente de seu povo conduzindo pelo deserto. O deserto para o povo de Deus é o lugar do sacrifício e do aprendizado, acima de tudo, o lugar do encontro com Deus e com seus ensinamentos.

O povo vai atrás de Jesus para ouvir o que ele tem a dizer. Na sinagoga de Nazaré, Jesus foi desacreditado por alguns, mas a maioria das pessoas o admirava por causa de sua sabedoria e de seus milagres (Mt 13,34). Por essa admiração foram em busca de seus ensinamentos e se sacrificaram por isso. Jesus ia de barco, o povo ia a pé. O esforço do povo em buscar Jesus é importante porque nos dá a entender a mensagem que quer nos transmitir.

Jesus que objetivava o descanso ficou tomado de compaixão por seu povo. Como Moisés, se preocupou em cuidar dos que estavam no deserto junto com ele. Curou seus doentes e saciou a fome de todos. Gestos de infinita sabedoria que não ficam apenas no âmbito material, mas nos introduz à natureza dos ensinamentos da multiplicação dos pães.

Todos os evangelistas narram essa passagem (Mc. 6,30-43; Lc. 9,10- 17; Jo 6,1-15) e Mateus a faz duas vezes (Mt. 14,13-21; Mt. 15,32-39). Assim podemos entender o quanto a multiplicação dos pães é importante para a Igreja Primitiva. Se essa passagem ensinou tanto a Igreja nos primórdios, pode nos ensinar hoje também. Prestemos atenção.

Moisés no deserto amparou seu povo oferecendo o maná, pão do céu. O pão que alimentava a fome atual e fortalecia para a caminhada. Jesus também oferece o pão multiplicado. É o pão que além de fornecer forças para caminhada, estimula a organização do Reino no mundo e prepara a vida futura. É ao mesmo tempo pão da força e pão da salvação. Tudo o que a humanidade precisa. Sua ação não é momentânea como o maná, mas permanente conduzindo ao que é eterno. Moisés alimentava o povo para alcançarem a terra prometida, Jesus alimenta para alcançar a salvação.

A Eucaristia, o pão partilhado e oferecido por Jesus não parte de uma realidade misteriosa como o maná do deserto. Sua ação parte da realidade pertencente ao povo. Os cinco pães e dois peixes que possuem são mais que suficiente para o milagre. A Oração de Jesus indica a ação de Deus na boa vontade daqueles que oferecem o que possuem para que o problema da fome do povo seja solucionado.

Os discípulos a princípio querem despedir a multidão, mas Jesus deixa bem claro que a fome do povo é responsabilidade de seus seguidores. Ao que indica a ordem dos discípulos que querem mandar o povo comprar comida, chegamos a conclusão que o povo tinha dinheiro, mas Jesus quer ensinar que a aquisição do alimento pelo dinheiro nem sempre sacia a todos, mas a partilha sim.

Quando usamos nosso dinheiro para adquirir alimento, cada um pensando em sua necessidade, alguém não conseguirá o suficiente. Basta olhar ao nosso redor quanta injustiça presenciamos. Por outro lado, quando partilhamos, quando colocamos a disposição o que temos, veremos que todos ficarão satisfeitos e ainda sobrará.

Jesus é o pão que nos alimenta, nos satisfaz, nos organiza e nos salva. É o pão partilhado que Jesus dá primeiro a seus discípulos que depois dividem com a comunidade que já está organizada para recebê-lo que faz o efeito que o mundo precisa.

Essa é a função da Igreja: reunir o que se tem e incentivar a partilha. A disposição do povo que se esforça em seguir seus passos para ouvir seus ensinamentos é suficiente para Deus agir. Quem distribui é a Igreja. Os discípulos levam ao povo organizado e ciente da importância desse pão. Sua importância não está apenas em saciar, mas em incentivar a organização, a partilha, ao amor.

É preciso olhar hoje a importância que tem a eucaristia em nossas comunidades. Qual a disposição que nos leva ao encontro de Jesus que se dá como pão? Que benefícios ela traz para nossa vida, família e sociedade? Quanto é belo vermos o respeito de alguns quando se aproximam da Eucaristia. É também importante vermos a falta que ela faz na vida de quem está impedido por alguma causa canônica.

Muitos vão dizer que a Igreja deveria ser menos rígida em alguns aspectos principalmente com relação à comunhão aos casais de segunda união. Se assim fosse, se houvesse um afrouxamento moral a esse respeito, a Eucaristia seria apenas um alimento instantâneo e não exerceria sua função de exigir compromisso e respeito ao sacramento do matrimônio e ao que Deus decretou desde o início (Gn. 2,24; Mt. 19,6). É função de a Eucaristia alimentar, mas também manter o povo consciente dos deveres para com Deus e seus desígnios.

A predisposição do povo em se organizar para receber das mãos dos discípulos o pão que Jesus partilhou conosco nos ensina muito. Jesus pede a organização, por isso sabemos que não pode ser distribuído de qualquer jeito. Se assim não for, pode acontecer que alguém fique insatisfeito e aí a Eucaristia não seria o pão da justiça.

Quando tudo é feito em conformidade com as ordens de Jesus, quando se partilha o que a comunidade tem, quando colocamos a disposição de todos o que temos, quando buscamos Jesus e seu alimento, quando respeitamos a normas pré-estabelecidas para a justiça, quando somos servidos pelas mãos dos discípulos, todos ficamos satisfeitos e ainda sobra.

A sobra de doze sextos cheios indica que toda a humanidade pode ser saciada. Os doze apóstolos também indicam a Igreja que se responsabiliza pelo mundo. É a eucaristia, é o pão partilhado, é Jesus agindo no mundo.

O povo não pode ser dispersado, mas integrado. Isso é responsabilidade da Igreja. Se não posso comer o pão eucarístico posso participar da integração que ele produz. Se não comungo a eucaristia, posso comungar a comunidade reunida em torno de um ideal. É por isso que precisamos ver a Eucaristia em sua missão integral. É por isso que o pão de Jesus supera o maná do deserto, é por isso que Mateus nos transmite esse ensinamento.

Se vamos em busca de Jesus, se somos povo de Deus em busca dos ensinamentos de Jesus, ele nos sacia com a eucaristia. A eucaristia não apenas me satisfaz, mas me impulsiona a uma integração, a uma organização. A Eucaristia não é o pão da anarquia, mas da relação, da comunhão, da justiça perfeita. Essa é sua função. Foi assim que Mateus orientou a comunidade primitiva e nos oriente também.

Homens, mulheres e crianças,todos ficaram satisfeitos. Se o pão do céu fosse distribuído sem nenhum critério não exerceria sua função verdadeira. Não integraria e não promoveria a unidade e o comprometimento do mundo com a vontade de Deus. Que alimentados por esse pão possamos continuar lutando por justiça. A justiça é medida pela satisfação de todos. A satisfação brota da predisposição, do comprometimento e da vontade de estarmos unidos em torno do que Jesus nos pede.

Se o os cristãos vivessem plenamente as exigências da Eucaristia, nosso mundo seria bem mais justo. Se a justiça ainda não impera, a Eucaristia ainda não cumpriu toda a sua função. Que Deus abençoe nosso esforço.

padre Reginaldo Antonio Ghergolet

 

 

Se você procurar a palavra “pão”, na Bíblia, irá encontrar um número incalculável de citações. Isso porque, “pão” para a Bíblia indica a bênção divina. Dizendo de outro: onde existe pão, ali está a bênção de Deus. No caso divino, não se trata de pão comprado, mas do pão que é distribuído gratuitamente e, não só gratuitamente, distribuído fartamente. Assim lemos na passagem do maná do deserto, da viúva que foi abençoada pelo profeta, por ter dado a ele o último pedaço de pão (1Rs 17-7-16), assim lemos, igualmente, na multiplicação dos pães, realizada por Eliseu (2Rs 4,42-44). Teríamos outras passagens, mas estas são as mais conhecidas e ajudam a entender que onde tem pão partilhado gratuitamente, ali Deus está presente, ali está presente a bênção divina. Isso não vale somente para o âmbito da comunidade eclesial, mas também para nossas famílias, para nossa comunidade, para todo nosso mundo. Onde a ganância cria bolsões de famintos, ali percebe-se que o pecado do egoísmo impede que a bênção de Deus repouse sobre o povo.

A mesma leitura é feita na multiplicação dos pães, por Jesus. Ele estava no deserto e a sugestão dos discípulos foi para que despedisse a multidão, para que fossem comprar pão nas vilas e povoados vizinhos. A lógica de Deus não se encaixa no mercado de compra e venda, mas na gratuidade de quem sabe partilhar. Por isso, embora o milagre tenha sido estupendo, a mensagem do evangelista Mateus é muito clara para quem conhece um pouco de Bíblia: a multiplicação dos pães é uma manifestação visível e palpável da ação de Deus em Jesus Cristo. Lá onde o pão é distribuído em abundância, lá se sente a presença de Deus. Lá onde o pão é multiplicado para que todos possam saciar a fome, lá está a presença divina com sua ação. Isso está bem traduzido no salmo responsorial, quando canta: “vós abris a vossa mão prodigamente e saciais todo ser vivo com fartura”. Essa é a lógica divina: saciar a fome do povo e saciá-la de modo farto; com fartura para que todos fiquem saciados. Onde o pão é tirado e, pior ainda, onde o pão é negado, ali não é possível ver Deus agindo, porque é colocado um impedimento para que a compaixão divina se manifeste.

O envio dos discípulos para distribuir o pão, depois de multiplicado por Jesus, continua a lógica bíblica da presença divina, pela fartura do pão que é partilhado gratuitamente. Jesus não apenas se serve dos discípulos para fazer chegar o pão multiplicado ao povo, mas está mostrando que o discípulo é alguém que continua a multiplicação dos pães, continua a ação divina no meio da sociedade, distribuindo fartamente o pão a quem tem fome. Jesus está dizendo que nós, discípulos e discípulas do Evangelho, ao partilharmos fartamente o pão com nosso povo, estamos tornando visível a ação divina no meio do mundo. Embora faça milagres, Jesus não se serve deles como espetáculos religiosos pra atrair multidões, espetáculos capazes de tirar o fôlego, para sentir a presença divina. Jesus age de modo diferente. Para mostrar a presença divina agindo, serve-se do gesto de partilhar o pão, aquele pão que, como discípulos e discípulas, recebemos de Jesus. Pão que a ele levamos, pão por ele multiplicado, pão que ele nos dá para ser repartido.

Talvez, muitos de vocês estejam pensando que estou falando de utopia, que hoje, a realidade é bem diferente porque nossos relacionamentos são comercializados. O tempo da gratuidade acabou e, se não for nostalgia, é sonho utópico, algo que nunca mais voltará a se realizar. Esse pensamento de desconfiança na promessa divina impede que a sociedade seja mais humana e mais fraterna. Infelizmente, temos mais temor para com a lógica do comércio do que para com a lógica divina. Mesmo assim, este Evangelho continua sendo proclamado e continua provocando-nos a partilhar o pão, para que o mundo não morra de fome. Creio que Paulo poderá nos ajudar a manter nosso firme propósito de não nos separar do amor de Cristo, não nos separar do Evangelho de Jesus Cristo. No tempo de Paulo, o que distanciava e provocava a fidelidade dos discípulos era a espada, a perseguição, a angústia, o perigo... hoje é a mentalidade capitalista, o modo de viver egoísta... por isso podemos dizer: “quem vais nos separar do Evangelho de Cristo?” O pensamento egoísta, a cultura das celebridades, a busca da fama, o cultivo exagerado da beleza, a necessidade de ficar sempre jovem... A resposta continua a mesma: “nada disso é capaz de nos separar do amor de Cristo”. Nada disso é capaz de nos separar da proposta do Evangelho de mostrar ao mundo a presença divina pela partilha do pão.

padre Edson

 

 

A leitura do Evangelho de são Mateus deste domingo faz-nos regressar uma vez mais ao episódio chamado da multiplicação dos pães, e dizemos chamado porque de fato em nenhum momento o evangelista nos fala de multiplicação, mas bem pelo contrário de fração, de partilha e distribuição.

O milagre que Jesus opera de alimentar cinco mil homens, sem contar mulheres e crianças, é assim um sinal de uma outra realidade e de alguns desafios que se colocam aos seus discípulos.

Assim sendo, não podemos deixar de ter presente a construção do relato que São Mateus nos proporciona, relato no qual é dada maior ênfase aos preparativos, aos condicionalismos que levam ao milagre que à própria ação do milagre.

São Mateus preocupa-se em nos situar no espaço e no tempo, de nos transmitir a ansiedade dos discípulos nesse espaço e face a esse tempo diante da multidão que os surpreendeu na outra margem do lago. E só depois é narrada a ação de Jesus que se resume quase a uma ordem e a uma bênção.

Este milagre operado por Jesus, e ainda que na outra margem do lago, situa-se num lugar deserto, um lugar procurado por Jesus mas não alcançado em virtude da multidão que lhe aparece. Uma vez mais o deserto se apresenta como ponto de encontro, como lugar da experiência de Deus, e neste caso de um Deus que alimenta gratuitamente e em abundância, tal como tinha feito num outro deserto ao povo libertado do Egito.

E o milagre acontece quando a hora já vai avançada, quando o dia parece que termina. Face a esta referência temporal não podemos deixar de nos relacionar com um outro acontecimento também de bênção e fração do pão que encontramos no Evangelho de São Lucas a caminho de Emaús. Também aí a hora era já avançada e o dia declinava, mas foi graças a essa circunstância que os discípulos puderam convidar Jesus a ficar com eles e a partilhar da primeira refeição com o ressuscitado.

Os alimentos de que os discípulos dispõem, quando confrontados por Jesus para que sejam eles próprios a alimentar a multidão, são apenas dois peixes e cinco pães. Uma vez mais os alimentos de que Jesus se serve depois da ressurreição para se apresentar aos discípulos, para partilhar com eles da sua presença ressuscitada junto às margens do lago.

Neste sentido, e face a estas referências, o milagre da fração do pão é inevitavelmente um sinal da Eucaristia, uma prefiguração da refeição que o Senhor deixaria aos seus discípulos como sinal da sua vida, da sua presença, e do tremendo amor de Deus, um amor gratuito e abundante, capaz de fazer do pouco e miserável um excesso magnífico.

Deste milagre derivam objetivamente consequências e implicações para os discípulos, para aqueles que partilharam do pão naquela hora e para aqueles que quotidianamente partilham do mesmo pão que é o Corpo do Senhor.

E a primeira dessas consequências é a da relativização face aos meios, das impossibilidades que muitas vezes criamos por medirmos e contabilizarmos as realidades e as possibilidades em função da nossa pequenez ou do nosso egoísmo, esquecendo-nos o quanto elas podem dar de si, da potência que comportam ou encerram e nos desafiam.

No caso do milagre de Jesus os discípulos apresentam os cinco pães e os dois peixes, sem confiança, desanimados face a tamanha insignificância diante de tanta gente cheia de fome. A fração do pão que Jesus opera, e consequente satisfação até ao ponto de sobrarem doze cestos de bocados, mostra aos discípulos e a cada um de nós a possibilidade da partilha do pouco que possamos ter e podemos considerar insignificante. Aos nossos olhos e à nossa consciência pode não significar nada, ser uma miséria, mas para outros pode significar muito. E neste significado pode produzir mesmo um excesso, um excesso na alegria do outro que recebeu, e um excesso no despertar da responsabilidade de outros que podem partilhar mais e portanto pode sobrar mais ou dividir-se melhor.

Nesta partilha podemos falar de bens materiais, daquilo que de fato pode matar a fome e a sede do outro, mas podemos falar também da partilha de nós próprios, do nosso tempo e carinho, da nossa atenção face ao outro, ainda que nos possa parecer pouca, miserável e muitas vezes um desperdício. O milagre da fração do pão e sua distribuição coloca-nos assim diante da inevitabilidade de partilhar, mesmo do que nos pode parecer pouco e insignificante.

Outra das consequências do milagre da fração do pão é a da responsabilização, não só porque diante da chamada de atenção, feita por parte dos discípulos, Jesus os convida a alimentar a multidão, mas também porque depois da fração são eles mesmos que o distribuem à multidão. Os discípulos são completamente implicados não só no encontro de uma solução para o problema mas depois na concretização dessa solução.

O que nos inviabiliza qualquer desculpa de incapacidade e irresponsabilidade uma vez que podemos participar sempre na solução de qualquer problema, quer seja com uma ideia, com uma proposta, com a concepção de um projeto, ou a simples realização de uma tarefa humilde e imperceptível mas indispensável à prossecução dos objetivos e possível aos nossos meios e forças.

Uma outra consequência que deriva do milagre da fração do pão é a da relação com Deus, da implicação de Deus na solução dos problemas e necessidades. É inquestionável que através deste milagre Deus nos implica de sobremaneira, mas também é inquestionável que não se exclui, que não se põe de fora da solução dos nossos problemas.

E neste sentido não podemos esquecer as palavras do profeta Isaías que nos convida a dirigirmo-nos a Deus para alcançar vinho e leite de uma forma gratuita, a procurar o alimento que verdadeiramente nos sacia e alimenta. Contudo, e como nos diz o profeta, para tal temos que ter o ouvido atento, temos que escutar com atenção, porque de fato o alimento que verdadeiramente nos sacia é a Palavra, é o próprio Deus que se nos oferece e se nos entrega como alimento, para que também nós saibamos e possamos ser palavra e alimento para os outros.

Pelo que, e retomando o milagre da fração do pão como sinal da Eucaristia, não podemos deixar de descobrir em cada Eucaristia um apelo de Deus à escuta da sua Palavra, um convite à satisfação da nossa fome de Deus, e um compromisso com a satisfação da fome de pão e palavra dos outros com quem partilhamos a vida.

Que o Senhor através do seu Santo Espírito nos purifique os ouvidos e o coração para escutarmos o que nos pede e se nos oferece através das necessidades de pão e palavra dos irmãos, e à semelhança de Maria sabermos partir ao seu encontro plenos de solicitude e generosidade.

frei José Carlos Lopes Almeida, OP

 

 

Na 1ª leitura, o Profeta Isaías usa a expressão de comprar trigo, vinho e leite sem pagar. Ele quer dizer que o que Deus nos dá é muito mais do que poderíamos retribuir. Deus é infinitamente generoso, mesmo quando nós estragamos a festa da vida. O povo Hebreu estava mal quando Isaías pronunciou esse discurso. O profeta anuncia tempos melhores se a aliança com o Senhor for cumprida. Em todos os Evangelhos vemos Jesus sensibilizado diante das carências do povo. Ele tem compaixão das multidões e se entristece com tudo que impede a vida de ter gosto de festa, de fartura, de refeição partilhada.

No Evangelho proclamado hoje, Jesus acolhe , liberta e defende a vida. Devolve a esperança e a vida às multidões. Ele decide fazer um sinal que mostra que o Reino de Deus chegou. Mediante a reação dos discípulos que se acomodam e se apequenam diante das dificuldades, pois só tinham "cinco pães e dois peixes", Jesus lhes manda fazer algo que parece pouco sensato: "Dai-lhes vós mesmos de comer". Jesus pede que os pães e os peixes sejam entregues a Ele; e confiando no Pai, bendiz o alimento recebido e manda que os discípulos o distribuam multiplicado. Por meio de nós hoje, enquanto comunidade de discípulos missionários, Ele continua saciando a fome dos homens e das mulheres em seus diferentes aspectos e esta é a primeira condição para nos sentirmos motivados para a ação. A comunidade que partilha concretiza a generosidade do Pai. Colocando o que temos e produzimos debaixo das bênçãos do Pai e dentro do projeto de fraternidade e partilha, teremos o suficiente para todos e ainda com sobras, pois seu Projeto é libertar as pessoas do egoísmo que gera o acúmulo, a fome e a morte. Nós O proclamamos Pão da Vida, o alimento descido dos Céus e razão de nossa esperança.

Ao participarmos da Eucaristia, estamos nos transformando em promotores de comunhão, da paz e de solidariedade com os irmãos em todas as circunstâncias da vida? A nossa partilha solidária realiza o milagre da multiplicação e da abundância, em que todos se saciam e ainda sobra para aqueles que virão?

 

 

Tomado de compaixão

Em Mt. 14,13 diz: “Jesus, ouvindo isso, partiu dali, de barco, para um lugar deserto, afastado. Assim que as multidões o souberam, vieram das cidades, seguindo-o a pé”.

“Jesus, ouvindo isso...”

Ouvindo o quê? Ouvindo o relato sobre a morte de são João Batista: “Vieram então os discípulos de João, pegaram o seu corpo e o sepultaram. Em seguida, foram anunciar o ocorrido a Jesus” (Mt. 14,12).

Depois de ouvir o relato sobre a morte de São João Batista, o Senhor “... partiu dali”. Por que partiu? São Jerônimo e São João Crisóstomo escrevem: “Uma coisa é certa: não partiu por medo, mas por prudência e motivo”.

Qual motivo?

São Jerônimo e são Beda escrevem: “Para evitar que o tirano cometesse novo homicídio... não quis dar a Herodes ocasião para um novo pecado”.

O padre Juan de Maldonado comenta: “Jesus Cristo fez o que havia aconselhado aos apóstolos: ‘Quando os perseguirem numa cidade, fugi para outra (Mt. 10,23)”.

São João Crisóstomo e Eutímio apontam outro motivo: “Jesus Cristo não quis cair nas mãos de Herodes, temendo que ao ser preso, tivesse que fazer um milagre para salvar-se e com o milagre provasse sua divindade antes do tempo”.

Teofilacto também apresenta um motivo: “Quis o Senhor com essa fuga demonstrar que não era fantasma, contra o que um dia haviam de dizer os marcionitas e maniqueus, mas sim verdadeiro homem, a quem se podia prender e matar”.

O padre Juan de Maldonado comenta: “A causa real, a meu parecer, é que ainda não havia chegada sua hora (Jo 7,30)”.

Outra razão de sua partida aponta são Marcos (6,31); é que os apóstolos haviam voltado cansados da viagem e missão, e necessitavam do descanso... e naquele lugar era impossível, porque uma grande multidão os rodeava não dando-lhes tempo nem para comer: “Vinde vós, sozinhos, a um lugar deserto e descansai um pouco”.

“... partiu dali, de barco”.

E por que não por terra?

São João Crisóstomo escreve: “Para que a multidão não o seguisse”.

O padre Juan de Maldonado comenta: “Não acredito nisso, porque são Lucas (9,10) diz claramente que se foram a um deserto, que era Betsaida, a qual está na parte de cá e não na parte de lá do lago, na tetrarquia de Herodes onde estava Nosso Senhor... Pedro era natural de Betsaida. Logo, Cristo não atravessou todo o lago, mas somente algum golfo, ou melhor, costeou-o para passar a outro lugar mais secreto. E segundo Mateus, a multidão O seguiu a pé”.

Em Mt. 14, 14 diz: “Assim que desembarcou, viu uma grande multidão e, tomado de compaixão, curou os seus doentes”.

Desembarcou como disse São Marcos, e a multidão já estava no local... Chegou primeiro: “Assim que ele desembarcou, viu uma grande multidão...” (Mc. 6,34).

São Jerônimo, Eutímio e muitos interpretam “saindo do deserto”, segundo Lucas 9, 11: “As multidões, porém, percebendo isso, foram atrás dele. E, acolhendo-as, falou-lhes do reino de Deus...”; e São João 6,3: “Subiu, pois, a um monte, e ali se sentou com seus discípulos”. Porém, a explicação é improvável diante do claro testemunho de São Marcos: “Assim que ele desembarcou, viu uma grande multidão...” (Mc. 6,34). A frase de são Lucas não tem outro valor senão que Cristo os acolheu e não que saíssem ao seu encontro; e falava com eles do reino de Deus. Que também o disse São Marcos: “Assim que ele desembarcou, viu uma grande multidão e ficou tomado de compaixão por eles, pois estavam como ovelhas sem pastor. E começou a ensinar-lhes muitas coisas” (Mc. 6,34).

Em Mt. 14,15 diz: “Chegada a tarde, aproximaram-se dele os seus discípulos, dizendo: ‘O lugar é deserto e a hora já está avançada. Despede as multidões para que vão aos povoados comprar alimento para si”.

Leôncio escreve: “Parece referir o ‘seus’ a João de quem acaba de se fazer menção, como se foram os discípulos do Batista os que se aproximaram de Cristo para pedir-lhe que despedisse as multidões. Daqui segue claramente que os tais discípulos haviam se aproximado de Cristo, uma vez que o Batista havia morrido”. Porém, por são Lucas (9,12) se vê claramente que os que fizeram a Cristo a proposta foram os doze apóstolos: “O dia começava a declinar. Aproximando-se os Doze...” são João (6, 6) parece que narra o trecho de outro modo distinto, pois conta que Cristo perguntou a Felipe: “Onde compraremos pão para que eles comam?’ Ele falava assim para pô-lo à prova, porque sabia o que iria acontecer” (Jo 6, 5-6).

Primeiro, os apóstolos sugeriram a ideia de despachar as multidões, como conta São Mateus; e logo, Cristo, segundo diz São João, perguntou a Felipe para prová-lo.

Surgem aqui dois problemas: Por que pergunta Cristo aos apóstolos e por que precisamente a Felipe em particular? Ao primeiro, o mesmo são João parece responder que foi, não por necessidade de conselho, pois ele sabia o que tinha que fazer; mas sim, para prová-los. Porém, isso é precisamente o que perguntamos: por que quis prová-los?

Anfilóquio escreve: “Quis parecer homem preocupado com a maneira de pensar, pobre e superficial, dos ouvintes”.

Santo Agostinho, são Beda e Ruperto escrevem: “Não para descobrir a fé de seus discípulos que já conhecia muito bem; senão para que eles manifestassem sua pouca fé”.

São Cirilo escreve: “Para chamar a atenção e fazer mais ilustre o milagre que pensava realizar”.

São João Crisóstomo, Teofilacto, Amônio, os dois Teodoros, de Heraclea e Mopsuestia, observam que quis Cristo com perguntas e respostas excitar a fé dos apóstolos e dispô-los para presenciar o milagre que estava para acontecer. Já que sem esse diálogo preliminar, o milagre poderia se passar despercebidamente... nem dariam conta das milhares de pessoas que ali estavam.

Sobre a pergunta feita a Felipe: são João Crisóstomo, Teofilacto, Teodoro de Mopsuestia e Leôncio escrevem: “Cristo perguntou com frequência a Felipe, e não aos outros, porque era o que mais mostrava falta de fé. Felipe foi quem no final da vida de Cristo O interrogou, como se duvidasse: "Mostra-nos o pai, e isto nos basta!" (Jo 14,8)”.

André, irmão de Pedro, disse: “Há aqui um menino, que tem cinco pães de cevada e dois peixinhos; mas que é isso para tantas pessoas?” (Jo 6, 9).

Na opinião de Teodoro de Mopsuestia, Leôncio e Amônio, fez a observação, para que não pensassem que queria escondê-los e aproveitar-se ele só deles; e observam são João Crisóstomo, são Cirilo, Teodoro de Heraclea, Leôncio e Teofilacto, que André mostrou maior fé que Felipe, pois parecia vislumbrar-se em sua resposta alguma esperança do futuro milagre, recordando talvez que Eliseu multiplicou alguma vez o pão. Porém, necessitava de fé e confiança perfeitas: “... mas que é isso para tantas pessoas?” Acreditava que Cristo podia multiplicar os pães, mas fazendo de muitos, muitos... de poucos, poucos.

O padre Juan de Maldonado comenta: “Ao meu parecer, quando disse este André, não pensava em milagres, nem no mais remoto. Ensina-nos Cristo, como nos adverte Leôncio e Teodoro de Mopsuestia, com esse episódio, a não desconfiar nunca no perigo, mas confiar sempre naquele que pode multiplicar nosso pão, quando o possuímos; e fazer do nada,  quando não o temos”.

Eutímio comenta: “Cristo prolongou até à tarde seu sermão, para que se fizesse sentir a necessidade do milagre”.

Em Mt. 14, 16 diz: “Mas Jesus lhes disse: ‘Não é preciso que vão embora. Dai-lhes vós mesmos de comer”.

Teodoro de Heraclea escreve: “Demonstra sua pobreza voluntária, que se quer tinham o suficiente para comprar os alimentos necessários”.

Leôncio comenta: “Não disse o Senhor: ‘Eu lhes darei de comer’; senão: ‘Dai-lhes vós mesmos de comer’, para evitar a sombra de arrogância e de orgulho no milagre que pensava realizar”.

Em Mt. 14,17-18 diz: “Ao que os discípulos responderam: ‘Só temos aqui cinco pães e dois peixes’. Disse Jesus: ‘Trazei-os aqui”.

São João escreve: “Um de seus discípulos, André, o irmão de Simão Pedro, lhe disse: Há aqui um menino, que tem cinco pães de cevada e dois peixinhos; mas que é isso para tantas pessoas?” (Jo 6,8-9).

Não têm certeza os intérpretes se esses pães eram propriedades dos apóstolos ou do menino, que pensava vendê-los.

São João Crisóstomo, Leôncio, são Cirilo e Teofilacto acreditam que eram dos apóstolos. Eutímio pensava que estavam ali para ser vendidos.

O padre Juan de Maldonado comenta: “Segundo o meu parecer, a frase dos apóstolos é: Não podemos dispor senão de cinco pães e dois peixes para tanta gente”.

“Disse Jesus: ‘Trazei-os aqui”.

São João Crisóstomo e Eutímio escrevem: “Mandou que lhe trouxesse os pães para demonstrar que é o Senhor o que dá de comer a todos os habitantes da terra, que não depende de hora nem tempo algum, porque em qualquer ocasião pode de qualquer matéria fazer os pães que desejar”.

São João Crisóstomo, Teofilacto, Eutímio, são Cirilo e Leôncio escrevem: “É uma boa lição que nos dão, para que demos generosamente aos hóspedes e aos pobres, aquilo de que ainda necessitamos; porque, assim aumentará nossas provisões”.

Em Mt. 14,19 diz: “E, tendo mandado que as multidões se acomodassem na grama, tomou os cinco pães e os dois peixes, elevou os olhos ao céu e abençoou. Em seguida, partindo os pães, deu-os aos discípulos, e os discípulos às multidões”.

São Marcos diz: “Ordenou-lhes então que fizesse todos se acomodarem, em grupos de convivas, sobre a grama verde” (Mc. 6,39).

Teofilacto e Leôncio escrevem: “A grama verde era muito abundante, pois era primavera e a páscoa estava próxima, segundo são João 6,4”.

Em Lucas 9,14 diz: “Com efeito, eram quase cinco mil homens. Ele, porém, disse a seus discípulos: ‘Fazei-os acomodar-se por grupos de uns cinquenta”. Coisa que dispôs Cristo por muitas razões. Provavelmente, para que mediante aquela distribuição ordenada se visse claro o número de homens e assim comprovasse a grandeza do milagre. E para que sem confusões os apóstolos distribuíssem a todos a comida; e todos, sem  esquecer nenhum, tomassem tranquilamente sua refeição.

Leôncio e são Cirilo escrevem: “Cristo mandou que sentassem ao solo como bestas, porque aqueles cinco pães de cevada eram os livros de Moisés (místico), que os judeus assimilavam sem gosto nenhum, sem sentimento, como se fosse para animais irracionais”.

São Cirilo interpreta a determinação de Cristo como se dissesse: “Ó homens lentos para entender meu poder! Fazei-os acomodar-se no chão para que eu os ensine com obras e não com palavras”. O mesmo escreve Apolinar na Catena grega.

“... elevou os olhos ao céu”.

Para demonstrar que do pai havia recebido o poder de fazer milagres (Santo Hilário, São João Crisóstomo, Eutímio e Teofilacto); para ensinar-nos a fazer o mesmo, como indicam os mesmos autores e Leôncio e Amônio; para demonstrar-nos de onde há de vir o auxílio em todas as coisas, como asseguram São Jerônimo e são Beda; para provar que Ele não era contrário a Deus, como asseguram o mesmo Amônio e Leôncio. Leôncio indica outra razão: para que não parecesse que se fazia maior que o Pai, como havia dito os judeus: “Porventura poderá preparar-nos a mesa no deserto?” (Sl. 77,19).

Notaram também São João Crisóstomo, Leôncio e Eutímio, que Cristo nem sempre que realizou milagres levantou os olhos ao céu, senão em poucas ocasiões... uma delas foi na ressurreição de Lázaro.

“Em seguida, partindo os pães, deu-os aos discípulos”.

Parece realizar o milagre por meio deles, como ministros seus, o qual, segundo escrevem são Jerônimo e são Beda, significa que o povo cristão há de ser apascentado pelos apóstolos. Também para que se certifiquem do milagre os apóstolos tocando-o com as mãos, como dizem Leôncio e Eutímio, e para que se lhes ficasse mais impresso na memória o que com suas mãos haviam palpado, como quer Teofilacto.

O padre Juan de Maldonado comenta: “Me parece que Cristo quis também que a glória de seu milagre alcançasse também a seus apóstolos”.

Em Mt. 14,20-21 diz: Todos comeram e ficaram saciados, e ainda recolheram doze cestos cheios de pedaços que sobraram. Ora, os que comeram eram cerca de cinco mil homens, sem contar mulheres e crianças”.

Três argumentos põem aqui o evangelista para fazer evidente o milagre:

1º Todos comeram.

2º Todos ficaram satisfeitos. 3º Sobraram doze cestos.

São Jerônimo, são João Crisóstomo, Teofilacto e Eutímio escrevem: “Sobraram doze cestos porque eram doze os apóstolos”.

São João Crisóstomo diz: “Judas também teve seu cesto repleto”.

O padre Juan de Maldonado comenta: “Os apóstolos receberam das mãos de Cristo os cestos cheios; e era bom que os devolvessem, como bons administradores, outro tanto”.

Notaram são Cirilo, Leôncio e Amônio, na Catena grega, que os evangelistas só fizeram menção dos homens, sem contar mulheres e crianças, porque era costume judaico computar somente os homens.

padre Divino Antônio Lopes FP.

 

 

A liturgia da Palavra deste 18 domingo comum apresenta-nos a Igreja na sua maravilhosa missão, sempre atual, de fraternidade e amor. Problemas graves afligem a humanidade e põem em risco a sua própria sobrevivência.

A morte lenta de milhões de irmãos nossos subalimentados, as discriminações sociais e raciais, e o tormento da guerra agora ainda mais agravado pelo terrorismo mais desumano, quase nos levam a concluir que parece cada vez mais impossível uma convivência pacífica entre os homens.

Mas o Deus de Jesus Cristo e dos nossos pais  é um Deus de vida, de paz e de abundância, e não de morte, guerra e miséria ; de libertação e não de escravidão. Confiando ao homem a missão de se governar e de governar os seus irmãos, Deus espera e exige do cristão, conhecedor da Sua vontade, o empenhamento incondicional para a instauração da justiça entre os povos.

A 1ª leitura do livro do profeta Isaías, diz-nos bem claramente, pela palavra deste profeta, que quando o homem se interroga sobre o sentido último da vida, não encontra uma resposta nos bens materiais de que dispõe.

- «Todos vós que tendes sede, vinde às águas; se não tiverdes dinheiro, vinde mesmo assim.(...). Tratai de escutar-Me e comereis o que é bom, deliciar-vos-eis com manjares suculentos». (1ª leitura).

Evidentemente, a resposta é a de que só na Palavra revelada por Deus é possível encontrá-la. Só Deus é infinitamente misericordioso e só Ele nos pode saciar, como proclama o Salmo Responsorial: “Abris, Senhor as Vossas mãos, e saciais a nossa fome”.

Na 2ª leitura são Paulo admoesta-nos sobre o amor a Cristo como base do nosso amor aos irmãos. Aquele que ama verdadeiramente a Cristo, nada o poderá separar d’Ele. Nem os obstáculos do dia-a-dia – o sofrimento, o medo do compromisso, o desânimo, o apego aos bens do mundo e o comodismo – nem as forças personificadas, como a morte, a vida e o porvir.

“Quem poderá separar-nos do amor de Cristo ?” A tribulação, a angústia, a perseguição, a fome, a nudez, o perigo ou a espada”? (2ª leitura).

Se verdadeiramente acreditamos em Cristo, n’Ele triunfaremos.

O Evangelho é de são Mateus e apresenta-nos a Multiplicação dos pães em que Cristo para além do seu desejo de saciar a fome aos que o seguiam, parece querer dizer-nos que devemos fazer o mesmo.

- “Ordenou então às multidões que se recostassem na relva. Pegou nos cinco pães e nos dois peixes, ergueu os olhos ao Céu e pronunciou a bênção”... (Evangelho).

Ele manda os seus discípulos distribuir o pão e os peixes, para lhes mostrar a eles e a nós, que também devemos continuamente levar aos nossos irmãos o alimento da Sua Palavra e do Seu Corpo. Jesus saciou a fome dos homens. O Reino de Deus, cuja vinda Jesus proclama, não é deste mundo, mas está em relação direta com ele.

Não se pode pensar que ele se não manifeste também como uma resposta efetiva à necessidade fundamental do homem, a necessidade do pão. Mas a multidão seguia Jesus para ouvir a sua mensagem. Ora, a Boa Nova que ele proclama jamais se poderá reduzir a uma saciedade corporal.

O essencial é outra coisa, e a multiplicação dos pães não é mais do que o sinal de um pão da vida que sacia para a eternidade. O pão divino que sacia o homem torna-o capaz de amar mais os seus irmãos; suscita nele um dinamismo humano que o leva a prover de pão os que dele estão privados.

O milagre da multiplicação dos pães é, para o cristão, o sinal de um apelo. A participação no pão da vida manifesta-se, traduzindo-se necessariamente na vontade firme de tentar tudo a fim de que os famintos sejam saciados, os que têm sede possam beber, os que estão nus se possam vestir, etc. (Mt. 25).

A participação na ceia eucarística torna-se, para o cristão, fonte de um esforço de promoção humana no qual todos e cada um sejam reconhecidos na sua dignidade fundamental de pessoas, no sentido de uma única família. A celebração eucarística introduz cada vez mais profundamente os cristãos na comunidade eclesial, que é a comunidade de irmãos e de pobres.

O pão que não perece é distribuído com abundância, mas sob aparências muito modestas, como um verdadeiro alimento de pobres. Os que participam desta ceia são fortalecidos pelo pão da vida que os une como irmãos e os liberta do apego aos bens caducos e das suas escravidões.

Ao mesmo tempo, a Eucaristia torna aqueles que crêem cada vez mais disponíveis e mais livres para o único serviço: o serviço de Deus que se identifica com o serviço de todos os homens.

A Igreja é o lugar, e a Eucaristia é o momento privilegiado, em que se descobre a força de Cristo e em que se obtém a capacidade de repetir o prodígio por ele realizado. Cristo é o alimento por excelência que devemos tomar para fazermos parte do plano da História da Salvação !

Sobre o pão nosso de cada dia, diz o Catecismo da Igreja Católica:

2828 - «Dai-nos». Como é bela a confiança dos filhos, que tudo esperam do Pai ! «Ele faz nascer o seu sol sobre maus e bons e chover sobre justos e injustos» (Mt. 5,45); dá a todos os seres vivos «de comer a seu tempo» (Sl. 103,27). É Jesus quem nos ensina esta petição: porque Ele, de fato, glorifica o nosso Pai, reconhecendo quanto Ele é bom, acima de toda a bondade.

2830 - «O pão nosso». O Pai, que nos dá a vida, não pode deixar de nos dar o alimento necessário para a vida de todos os bens «convenientes», materiais e espirituais. No sermão da montanha, Jesus insiste nesta confiança filial que coopera com a providência do nosso Pai. Não nos incita a qualquer espécie de passividade, mas quer libertar-nos de toda a inquietação dominante e de qualquer preocupação. Assim é o abandono filial dos filhos de Deus.

John  Nascimento