O milagre da partilha dos bens e do amor de Deus

As leituras de hoje testemunham o amor de Deus e a esperança de um mundo novo. O profeta Isaías, de um lado, e Paulo, do outro, são unânimes em testemunhar o amor de Deus. Quem tem fome vai comer sem pagar. Em Cristo Jesus nada nos separará do amor de Deus. Ele, o Filho de Deus, passa pelo mundo curando os abatidos pelo desânimo e pelo sofrimento, ensinando a partilha, a divisão dos bens. Multiplicar cinco pães e dois peixes, mais do que um ato mágico, é sinal evidente de que, onde há partilha, ninguém passa necessidade.

1ª leitura (Is. 55,1-3)

Vinde comer sem pagar!

A primeira leitura de hoje faz parte dos capítulos 40 a 55 do livro de Isaías, também chamado de Segundo Isaías, por se tratar de um profeta diferente daquele dos capítulos 1 a 39. Sendo grande teólogo e poeta, o Segundo Isaías atuou, aproximadamente, entre 553 e 539 a.C., época do declínio do império neo-babilônico e do surgimento da Pérsia como nova potência (cf. Faria, 2006, p. 68-69). As lideranças do povo de Deus viviam exiladas na Babilônia, atual Iraque. Sabedor das dificuldades, o Segundo Isaías alimentava no povo a esperança de um novo tempo. A sua solução, profetizava, está em Ciro, rei da Pérsia, que seria o instrumento de Deus para libertar o seu povo (45,1-8; 48,12-15) da dominação babilônica. Babilônia cairia (46). Os pagãos iriam se converter ao Senhor (42,1-4.6; 45,1-16.20-25; 49,6; 55,3-5). Jerusalém seria libertada (52,1-12).

Em meio a forte onda de pessimismo, crise de fé e de esperança entre os exilados (40,27; 49,14), o Segundo Isaías torna-se o “cantor do retorno do exílio”, do “novo êxodo”. Ele fundamentou sua esperança no retorno à terra da promessa. O seu projeto era real. Ciro seria a salvação do povo. Sonhar com um “novo tempo” era preciso (55). Essa era a promessa de Deus (43,13; 41,10; 44,6; 48,12). E foi nesse contexto que ele sonhou alto: “Todos que tendes sede, vinde à água. Vós, os que não tendes dinheiro, vinde, comprai e comei; comprai, sem dinheiro e sem pagar, vinho e leite” (v. 1). Imagine gente faminta, sofrendo de exílio, e alguém gritando essas palavras na rua. Parece irreal, mas foram essas palavras que alimentaram a esperança no povo exilado. Não tardou muito e a libertação chegou. O povo voltou para a sua pátria, Israel, e recomeçou a vida com novos projetos. O sonho alimentou a esperança que os manteve no caminho, na aliança, outrora feita com a casa de Davi.

Evangelho (Mt 14,13-21)

Comei partilhando o que tendes e encontrareis a felicidade!

O nexo da primeira leitura com o evangelho é evidente. Jesus, tendo sido informado da morte de João Batista, seu primo e precursor, vai rezar num lugar deserto. As multidões o seguem. Movido de compaixão por elas, ele cura os doentes. O povo não quer ir embora. Os discípulos demonstram preocupação com a fome do povo. Jesus ordena dar-lhes de comer. Mas como, se eles tinham somente cinco pães e dois peixes? Jesus, então, fez a multidão se assentar na grama e abençoou os pães e peixes, que se transformaram em tantos outros e alimentaram 5 mil homens, sem contar mulheres e crianças. E ainda sobraram 12 cestos de pedaços.

Como na primeira leitura, o povo está desanimado e sem rumo. Jesus torna-se a luz que aponta o caminho. Como Ciro, da Pérsia, ele não é rei, mas é o salvador dos pobres e famintos.

Caso tomemos as palavras do evangelho e as leiamos de modo simplista, haveremos de entender que se trata de uma multiplicação fabulosa de Jesus. Não é bem assim. O profeta Eliseu também havia feito o mesmo (Rs 4,42-44). A narrativa tem dois sentidos.

a) Sentido simbólico. O texto fala de 5 pães, 2 peixes, 12 cestos e 5 mil homens. O número 5 lembra a Torá, os cinco primeiros livros da Bíblia, que devem ser seguidos por todo judeu. Por analogia se fala em 5 mil homens, os reais seguidores da Lei. Mulheres e crianças não eram consideradas. O peixe lembra a presença salvadora de Jesus. Mais tarde, ele tornar-se-ia o símbolo dos cristãos diante da perseguição romana. Por onde passavam, eles desenhavam um peixe, cujo nome em grego, IXTUS, como um acróstico, forma as iniciais de Iesùs Xristòs Theòu Uiòs Soteèr, que significa “Jesus Cristo Filho de Deus Salvador”. O número 12 adquiriu destaque entre os judeus em virtude da divisão do ano em 12 meses e simboliza a totalidade ou plenitude, assim como as 12 tribos do povo eleito, Israel-Palestina, e o povo dos cristãos, os 12 apóstolos (cf. Faria, 2010c, p. 56-57). Jesus vai para o deserto, lugar da passagem e da organização do povo que vinha do Egito, depois de mais de 400 anos de opressão. No evangelho, o povo sofrido vem das cidades, lugar da exploração social e dos banquetes dos grandes, como o de Herodes, ocasião em que a cabeça de João Batista foi pedida. O povo senta-se na grama. Sentar na visão bíblica é sinal de soberania e poder. Daí o substantivo cátedra, catedrático e catedral. O pão distribuído recorda o maná que alimentou o povo no deserto e, mais tarde, a eucaristia como corpo real de Cristo (Mt 14,19; 26,26; 1Cor 11,23).

b) Sentido real. A multiplicação dos pães quer nos ensinar que, se partilhamos, ninguém mais vai ter necessidade. Nisso reside o milagre. A comunidade é chamada a não ficar parada, mas ir além. Deus não quer a pobreza, mas a igualdade social. Um dos grandes males que assolam o ser humano é o desejo incontrolável de ter para guardar e ostentar o poder da posse. A felicidade não está no ter, mas no ser e nas relações. O livro do Eclesiastes nos ensina que felicidade é comer e beber, desfrutando do produto do próprio trabalho (3,13).

2 leitura (Rm. 8,35.37-39)

Quem nos separará do amor de Deus

Se nas duas leituras anteriores foram ressaltadas situações de dificuldades enfrentadas por uma comunidade exilada e outra oprimida em sua própria terra pelos romanos, ambas sofrendo de fome e dificuldades econômicas, esta leitura parte de uma experiência pessoal de Paulo, que, após tudo sofrer para testemunhar a sua fé em Jesus ressuscitado, pergunta retoricamente: “Quem nos separará do amor de Cristo?” (v. 35). E é ele mesmo quem responde: nada. Nem fome, morte, perseguição, espada, principados etc. Nada nos separará do amor de Deus manifestado em Cristo Jesus, nosso Senhor (v. 39). A salvação é um dom gratuito de Deus para a humanidade. Ademais, Paulo acrescenta o substantivo espada aos muitos outros fatores elencados por ele em outros escritos (1Ts. 3,7; 1Cor. 12,7-10; Fl. 1,12-14. 19-25; 2,17; Cl. 1,24) para demonstrar a adesão a Cristo. A espada romana é a mesma que, mais tarde, lhe decepará a cabeça, fazendo-o mártir em Roma pelo testemunho da fé em Cristo. Por ironia, trata-se de uma carta dirigida aos romanos. Outro detalhe importante nos fatores elencados por Paulo é a crença de muitos em entidades do além, em poderes que podem influenciar nossa vida. Muitos seguiam esse caminho. Paulo se diz convencido de que nada disso nos pode afastar do amor salvador e misericordioso de Deus.

PISTAS PARA REFLEXÃO

1. Demonstrar para a comunidade os sentidos simbólico e real da multiplicação dos pães. Não se trata de simples milagre ou mágica realizada por Jesus. E nem mesmo de um milagre mágico religioso que muitas Igrejas saem pregando, iludindo o povo com a multiplicação de seu dinheiro. Não se trata de uma teologia da prosperidade econômica em nome de Deus. Muito pelo contrário, trata-se do milagre da distribuição e da partilha dos bens da criação, redistribuição de renda etc.

2. Chamar a atenção da comunidade para o fato de a eucaristia ser o sinal dessa presença real de partilha do pão e da vida do Ressuscitado, Jesus de Nazaré. No entanto, a comunidade, assim como a multidão do evangelho e o povo do deserto, não pode ficar parada após o comer nem esperar que outros manás caiam do céu. É preciso caminhar sempre.

frei Jacir de Freitas Faria, ofm

 

 

Multiplicando os pães

O episódio da multiplicação dos pães deve ter impressionado profundamente os ouvintes de Jesus. Os evangelistas, cada um a seu modo, descrevem a cena que pode ser lida de muitos ângulos. Vejamos alguns aspectos do conjunto das leituras propostas pela Igreja para este domingo.

• Antes de mais nada há a passagem de Isaías. Os que estão com fome e sede que se aproximem para comer e beber. Não é necessário dinheiro.  Da mesma forma que tomem leite e vinho. Sem paga.  Não se trata de comprar, mas de partilhar. O mesmo acontece no evangelho proposto. Os apóstolos querem ir à cidade para comprar.  Jesus adverte que eles precisam dar aos famintos daquilo que eles têm.

• Os que se dispõem a matar a fome dos famintos estão antecipando o perfil do mundo novo do Reino definitivo onde não haverá mais luto nem dor, nem fome, nem sede. Trata-se de criar no mundo um novo modo de convivência e de partilha entre as pessoas. Há que dar de comer aos famintos de perto e sobretudo os homens de boa vontade e os seguidores de Jesus lutarão  para que situações estruturais que fazem a miséria sejam denunciadas e extirpadas.

• Há uma arte de comer.  Não se trata apenas de comer como os animais, mas colocar-se  à escuta dos comensais.  Os que se assentam para comer  são irmãos que alimentam as forças para continuarem a ventura de serem irmãos.

• Comentários de J. Konings (Liturgia dominical - Vozes, p. 172): “O evangelho conta que Jesus se retira de sua cidade para outro lugar à beira do lago, e as multidões saem à sua procura. Movido de compaixão, Jesus cura os doentes no meio da multidão. Depois, na hora da janta, não quer que o povo vá embora com fome. Manda que os discípulos com sua pequena reserva de cinco pães e dois peixes alimentem a multidão. E saciem os cinco mil homens, sem contar mulheres e crianças...

Trata-se de um gesto profético de Jesus.  O profeta  Isaías tinha anunciado pão de graça: o pão da sabedoria, da palavra, da instrução da lei. Jesus põe em prática essa palavra profética, acrescentando também o pão material. A multiplicação do pão  material mostra que Jesus nos alimenta com o pão que vem de Deus, sua palavra a mensagem do Reino. É  um gesto que inaugura o Reino. O pão material é o primeiro fruto do pão da Palavra... Se a Igreja prega a Palavra, cabe-lhe também realizar  gestos proféticos. Existem  muitos famintos para que se justifique um novo sinal do pão, que realize por um exemplo material, algo do Reino anunciado por Jesus. Não podemos falar do amor de Deus, se não realizamos a justiça material ( e vital) para a multidão, assim como  Jesus dela teve compaixão.  A fome de Deus será sempre o mais importante, mas a fome do pão é o mais urgente.  O pão material não é o dom último, mas é um “aperitivo” do Reino (por isso devemos cuidar que ele tenha o gostinho do Reino e não do materialismo). Na multiplicação dos pães,  Jesus envolveu os discípulos em sua atuação; são eles que devem dar de comer à multidão. Seu lanche é insuficiente; mas, enquanto o repartem, Jesus faz com que seja até mais que suficiente. “Vós mesmos dai-lhes de comer...”. Não devemos aguardar até o que pão caia do céu. Devemos começar a repartir o que temos (economia da partilha  versus   economia do monopólio e da  capitalização). Assim falaremos no Reino pelas nossas ações.... No Pai-nosso, rezamos pedindo o “pão de cada dia”. Tudo é dom de Deus, também essa coisa mais elementar. O amor de Deus seria questionável, se Deus não nos desse o necessário para viver. Mas quem deve distribuir é a gente. Nosso empenho pelo pão cotidiano  dá credibilidade ao  Reino de Deus.

frei Almir Ribeiro Guimaeães

 

 

O Dom do Pão

Significativamente, depois da abundância da palavra de Cristo na pregação, o evangelho de Mt e a liturgia nos confrontam com a fartura de comida, na multiplicação dos pães. A 1ª leitura traz o convite de Deus para nos saciarmos com o dom de sua instrução, na Lei e no culto verdadeiro, dom que não exige dinheiro para comprar como exigem as idolatrias do mundo.

Neste sentido, na multiplicação dos pães segundo Mt (evangelho), não é a façanha de Jesus que está no centro da atenção, mas sua própria pessoa: ele é o Messias e Enviado do Pai. Depois de sua farta pregação na campanha da Galiléia (Mt. 5-13), terminada por uma inquietante nota a respeito do juízo (Mt. 13,49s), defrontamo-nos como mistério da incredulidade em várias formas: na pátria de Jesus (13,53-58) e na figura de Herodes, intrigado por Jesus, julgando-o João Batista redivivo (Mt 14,1-2) – pois o tinha mandado executar (14,3-12).

Diante dessa incredulidade, Jesus muda de área, vai para o deserto (14,13), o lugar preferido para Deus encontrar sua gente. Aí afluem as multidões de pobres e humildes, os prediletos do Reino, e o Enviado de Deus é movido por compaixão (“graça”, hésed, a qualidade divina por excelência; Mt 14,14) e cura todos os seus enfermos. Quando, ao entardecer, chega a hora da refeição, Jesus realiza o que a 1ª leitura prefigurou: o banquete que não exige riqueza. Aos discípulos, que querem mandar a turma embora, ele diz que eles mesmos lhes dêem de comer - implicando-os assim, misteriosamente, na sua missão (como ele já fizera quando os chamou, cf. Mt. 10 1; 11° dom. do T.C.): nas suas mãos, enquanto distribuem, multiplica-se a humilde comida de uns pãezinhos e peixes até uma fartura messiânica.

A “compaixão”, a cura do povo, o deserto, a semelhança com o alimento que Deus aí deu aos antigos israelitas, o convite de Is 55 para ver nisto uma nova aliança: eis alguns elementos que caracterizam esta cena como uma manifestação messiânica de Jesus. Para os cristãos imbuídos do espírito da liturgia é uma prefiguração da Ceia da Nova Aliança.

As orações da presente liturgia, como também o canto da comunhão, sublinham o significado escatológico: a alimentação que recebemos aqui é recriação para a vida eterna. O salmo responsorial sublinha o carinho de Deus, que alimenta suas criaturas.

A 2ª leitura é a conclusão da primeira parte de Rm: a exposição sobre a salvação pela graça de Deus e a fé em Jesus Cristo. Paulo termina sua exposição por uma efusiva proclamação de fé e confiança na obra de Deus em Jesus Cristo. Se Deus é conosco (pois nos deu seu próprio Filho), quem será contra nós, quem nos condenará (Rm. 8,31-34)? “Quem nos separará do amor de Cristo?”, inicia a leitura de hoje (Rm. 8,35).

“Amor de Cristo” significa o amor de Deus manifestado em Jesus Cristo (8,39), portanto, um amor que vence o mundo (8,37; cf. 1Jo 5, 1-5). Não se trata de amor sentimental. Paulo trata de expressar o mesmo que escreve João: “Nós acreditamos no amor” (1Jo 4,16). Paulo está polemizando com os que situam a salvação em outras coisas que não o amor de Deus manifestado em Jesus Cristo: o legalismo farisaico, a cultura helenística e tantos outros pretensos caminhos da salvação.

Não, exclama Paulo com paixão: o que nos salvou é o amor que Deus nos mostrou em Jesus Cristo (cf. Rm 5,1-l1), e este amor, não o largamos, ou melhor, ele não nos larga! Pois esse amor não é “criatura” (falta no elenco das criaturas nos v. 38-39a, que inclui até os anjos), mas graça de Deus mesmo.

Assim, a liturgia de hoje nos convida a ler no sinal do pão uma revelação da “compaixão”, do terno amor de Deus para conosco, que se revelou plenamente no dom de seu filho, do qual o pão também se tomou o sinal sacramental.

Para a práxis, uma sugestão a respeito do sentido messiânico (realização escatológica da vontade de Deus) do “multiplicar o pão”: enfrentar o problema da fome, no espírito de Cristo (portanto, não por cálculo político mas por verdadeira “com-paixão”). Isso será certamente um sinal da presença de Deus e de seu Reino.

Johan Konings "Liturgia dominical"

 

 

1. O texto de hoje inicia dizendo que “quando soube da morte de João Batista, Jesus partiu e foi de barca para um lugar deserto e afastado” (v. 13a). Essa informação é importante porque associa o que virá ao que precedeu.

2. Vejamos o episódio anterior (Mt. 14,1-12). Herodes, no dia do seu aniversário, celebra um banquete com seus oficiais. O banquete de Herodes é um banquete de morte.

2.1. É o banquete dos poderosos (Herodes personifica o poder tirano) que buscam ter vida matando a esperança do povo, João Batista (cf. v. 5: “o povo considerava João Batista um profeta”).

2.2. O banquete de Herodes e seus oficiais demonstra o que os poderosos entendem por vida e como garantem a vida para si.

2.3. A corte de Herodes é o lugar onde se decreta (por pressões, jogos de interesse e convenções), a morte das esperanças populares.

3. Diante disso Jesus se retira a um lugar deserto. A menção do deserto evoca o êxodo, onde nasceu a sociedade alternativa. A partir do deserto, Jesus irá inaugurar o mundo novo, dando vida ao povo (em vez de sufocá-la e eliminá-la). Vendo Jesus partir de barco, o povo sai das cidades e o segue por terra (v. 13b). Essa alusão à saída das cidades completa a idéia do êxodo: o povo se livra das cidades, onde impera o domínio de Herodes e de seu sistema explorador.

4. Encontro de Jesus com o povo: ao ver o povo, ele se compadece (=sofrer com quem sofre). Essa reação contrasta com a de Herodes que mata João Batista (esperança do povo). Jesus não tira a vida, antes a defende, curando os que estavam doentes (v. 14): gesto de devolver esperança e vida ao povo.

5. O tempo passou, entardeceu… e os discípulos sugerem que Jesus despeça o povo para ir comprar comida nos povoados (v. 15). Comprar significa voltar àquela sociedade que explorava o povo com suas leis econômicas, conservando-o na miséria e dependência. Jesus quer quebrar esse sistema de dependência. E diz: “eles não precisam ir embora. Vocês mesmos lhes dêem de comer!” (v. 16). Ao “comprar” se contrapõe o “dar”. Esta é uma das idéias revolucionárias de Jesus e de quem segue o Mestre: encontrar formas alternativas capazes de quebrar os mecanismos de dependência das estruturas iníquas que mantêm o povo submisso e algemado.

6. Reação dos discípulos: “só temos aqui cinco pães e dois peixes” (v. 17). O v. 21 salienta a desproporção ao dizer que havia ali mais ou menos cinco mil homens, sem contar mulheres e crianças (5 + 2= 7 x 5 mil!).

7. Jesus ordena que lhe tragam os pães e os peixes, e manda o povo sentar-se no chão para comer (v. 19a). Sentar para a refeição era gesto de pessoas livres. A partir desse momento o povo não será mais dependente e submisso. Jesus pega os cinco pães e os dois peixes – ergue os olhos ao céu – e pronuncia a bênção (v. 19b). Ele agradece a Deus o pão. Com esse gesto reconhece que o pão é dom de Deus, desvinculando-o das mãos dos poderosos e detentores do monopólio dos bens de primeira necessidade.

8. O alimento entra, assim, na esfera da gratuidade. Deus o concede gratuitamente e partilhá-lo é prolongar a gratuidade e generosidade divinas. Com isso o pão é libertado do “egoísmo humano”, deixando de ser objeto de lucro e exploração para se tornar gesto de partilha e fraternidade, gesto gratuito por excelência. A gratuidade vem de Deus, por Jesus, e se prolonga na ação de partilha dos discípulos, que põem tudo à disposição (v. 19c).

9. O texto afirma que todos comeram e ficaram satisfeitos (v. 20a). Cumpre-se assim a bem-aventurança: “felizes os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados” (5,6). Mais ainda! As sobras, doze cestos (número que recorda as doze tribos de Israel, isto é, todo o povo) estão a indicar que o verdadeiro milagre é a partilha, capaz de saciar um povo inteiro. O amor – traduzido na partilha de tudo – garante a abundância dos bens capaz de suprimir as desigualdades de uma sociedade injusta e gananciosa.

10. Podemos, assim, entender porque Jesus rejeitou a tentação de fazer um milagre num passe de mágica (cf. tentação de Jesus em Mt. 4,3). A solução para o problema da fome não está num milagre (econômico ou religioso), pois Jesus rejeitou esse tipo de solução, essa tentação. O verdadeiro milagre é o da distribuição e da partilha dos bens da criação. Esse “milagre” não é difícil nem impossível, pois os pobres e Jesus já o estão realizando.

11. O texto é também uma tênue referência eucarística (v. 19) enquanto gesto gratuito de Deus, enquanto refeição de um povo livre e libertado, capaz de saciar a todos. Lida dentro do contexto de hoje, a Eucaristia reveste-se da força do alimento libertador. Cabe perguntar: não é hora de redescobrir a Eucaristia como Memorial da libertação para uma nova sociedade, baseada na partilha e na solidariedade (e não vê-la como um simples rito)?

1ª leitura: Is. 55,1–3

12. Situação do povo. O povo está exilado na Babilônia (atual Iraque). Sua situação (conforme v. 1) é de carência absoluta (sede); de plena dependência econômica (sem dinheiro); de total ausência de bens básicos. É um povo que passa fome, que luta pela sobrevivência, sem condições de satisfazer as mínimas necessidades básicas. Enquanto isso, as elites vão estrangulando a população, mantendo e aumentando sua dependência.

13. Um profeta anônimo (o segundo Isaías) sai às ruas e imitando os vendedores ambulantes de água, cereais, vinho e leite, convoca o povo faminto, apresentando-lhe uma grande novidade (profeta da esperança de um novo tempo). Venham matar a sede, comprar sem ter dinheiro, comer sem pagar, beber vinho e leite à vontade! É o convite para os pobres ao banquete da vida e da abundância.

14. É o convite a se desfazer do jugo da dependência e submissão, a experimentar a gratuidade da libertação do fardo econômico dos poderosos exploradores. Continuar na dependência é gastar dinheiro com aquilo que não alimenta e desperdiçar o salário com alimento que não mata a fome (v. 2a).

15. QUEM é que oferece esse banquete da vida e da abundância, banquete gratuito, reservado aos pobres, sedentos, famintos e explorados? É Javé, que, por meio do profeta, suscita a memória da Aliança selada com Davi, o rei que favoreceu a vida em abundância para o povo (3b). Javé vai renovar os bons tempos de fartura porque seu pacto com o povo é uma Aliança eterna. Essa Aliança levará o povo de volta a seu país, “terra onde corre leite e mel”, restabelecendo-o no seu chão, em paz e segurança.

16. O banquete é bem mais que simples refeição abundante de um só dia, depois do qual o povo voltará a amargar a fome, a sede e o exílio. É o banquete da vida em liberdade, da terra repartida, da moradia garantida, da saúde, da paz e bem-estar.

17. Com qual convicção o Segundo Isaías afirma isso? Ele tem coragem de proclamar essa boa notícia baseado em duas experiências: a do povo que sofre e clama e a experiência de Javé, o Deus da Aliança, o Deus libertador, que não fecha os ouvidos aos clamores do povo por vida e liberdade. Convidando o povo a escutar e prestar atenção (isto é, a fazer memória do Deus que liberta e salva), o profeta tem certeza de que a libertação não tardará, que a vida irá renascer: “Prestem muita atenção, e então vocês poderão comer bem, saborear pratos deliciosos e bem preparados! Escutem e venham a mim! Queiram ouvir-me e vocês terão a vida! (v. 2b).

18. A solução da situação do povo no exílio veio com Ciro, rei da Pérsia, que foi o instrumento de Deus para libertar o seu povo (45,1-8; 48,12-15) da dominação babilônica. Em meio a forte onda de pessimismo, crise de fé e de esperança entre os exilados (40,27; 49,14), o grande teólogo e profeta (o Segundo Isaías) torna-se o proclama- dor e cantor do novo êxodo. Ele fundamenta sua esperança no retorno à terra da promessa. Sonhar com “um novo tempo” era preciso (55). Essa era a promessa de Deus (43,13; 41,10; 44,6; 48,12).

19. Imagine proclamar a um povo faminto e exilado gritando pelas ruas um novo tempo. Parece irreal, mas foram essas palavras que alimentaram a esperança no povo exilado. Não tardou muito e a libertação chegou. O povo voltou à sua terra, Israel, e recomeçou a vida. O sonho alimentou a esperança que o manteve no caminho, na Aliança, outrora feita com a casa de Davi.

2ª leitura: Rm. 8,35.37–39

20. Desde o 15º domingo comum temos lido o capítulo 8 de Romanos. Paulo nos apresentou os dois princípios básicos para a vida do cristão: o Espírito que comunica a vida (vv. 1-13) e a filiação divina do cristão (vv. 14-30). Os demais versículos 31-39 são um hino ao amor de Deus manifestado na morte-ressurreição de Jesus e no fato de, mediante o evangelho e o batismo, adotar-nos como filhos seus.

21. Os versículos de hoje pertencem a esse hino. Eles nos comunicam a certeza de que o amor de Deus por nós é indestrutível, e preparam o cristão ao testemunho desse amor em meio à sociedade que hostiliza os seguidores de Jesus.

22. O texto pergunta: “quem nos separará do amor de Cristo?” (v. 35). Segue uma série de obstáculos (ou conseqüências) para quem se compromete com o projeto de Deus. São os mais variados modos com que a sociedade injusta persegue Paulo e os cristãos: tribulação, angústia, perseguição, fome, nudez, perigo, espada (v. 35b).

23. Há um crescendo que vai da tribulação ao perigo fatal, a morte pela espada.
- A primeira etapa (tribulação, angústia, perseguição) marca grande parte das viagens de Paulo. O anúncio do Evangelho acarretou-lhe sistematicamente perseguições por causa da Palavra.

- A segunda (fome, nudez) revela a situação de Paulo nas constantes prisões que enfrentou.

- A terceira (perigo, espada) aponta para a consciência do fim trágico: cedo ou tarde seu sangue será derramado.

24. Paulo escreve aos Romanos durante a terceira viagem, em Corinto, quando já se considerava prisioneiro do Senhor (2Cor. 11,23-28 traz um elenco maior de perigos que enfrentou).

25. Possuir o Espírito e ser filho de Deus acarreta uma luta constante. Ser cristão é estar em pleno campo de batalha, mas com consciência e atitude de vitorioso: “em tudo isso somos mais que vencedores (literalmente super vencedores), graças Àquele que nos amou” (v. 37). Não se trata de uma vitória futura e distante, mas de ser já vencedor em meio aos conflitos presentes e futuros. A razão disso é o amor de Deus que, em Cristo morto e ressuscitado, venceu definitivamente o poder hostil e injusto.

26. Os vv. 38-39 descrevem a consciência do cristão diante das forças hostis: a certeza de que nada nos poderá separar do amor de Deus. … nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os poderes celestiais, nem o presente, nem o futuro, nem as forças cósmicas, nem a altura, nem a profundidade, nem outra criatura qualquer…

- Vida-morte são dois extremos, e isso mostra que o amor tem força para vencer a morte e renovar a vida para sempre.

- Anjos e soberanias são categorias superiores: nenhuma força superior é capaz de vencer o amor presente.

- Presente-futuro são categorias temporais: não conseguirão anular esse amor.

- Forças, altura e profundidade são energias cósmicas misteriosas e hostis à pessoa: não poderão resistir diante do amor.

27. Paulo conclui: nada nem ninguém poderá nos separar do amor de Deus por nós, presente e manifestado em Cristo Jesus, nosso Senhor! (v. 39b).

R e f l e t i n d o

1. Multiplicar cinco pães e dois peixes, – mais do que um ato mágico – é o sinal evidente de que onde há partilha ninguém passa necessidade.

2. Jesus, ao saber da morte de João Batista, convida os discípulos e vai rezar num lugar deserto. Mas as multidões o seguem. Movido de compaixão por elas, ele cura os doentes. Já se faz tarde e o povo não quer ir embora. Os discípulos se preocupam com a fome do povo… mas não tem nenhuma solução, a não ser mandar embora (… e essa não era e nunca foi solução!).

3. Certamente o evangelista descreve o lugar afastado e deserto para recordar a saída dos hebreus do Egito para o deserto, a caminho da liberdade e da vida. Da mesma forma que o Senhor tirou os hebreus da dominação e opressão egípcia e os alimentou no deserto com o maná, assim agora, Jesus atrai o povo faminto explorado pelo Império Romano, por Herodes e a elite sacerdotal, para aí celebrar o banquete da vida e da abundância de alimento para todos (… enquanto isso, Herodes promove e celebra o banquete da morte).

4. Jesus não se esquiva da situação de fome do povo, ele toma os cinco pães e os dois peixes e, como pai de uma grande família que senta para partilhar os bens da vida, reza a bênção que todo chefe de família pronunciava antes da refeição. É um agradecimento pelo alimento destinado a ser partilhado entre todos, pois assim está previsto no projeto do Pai. Jesus não agradece aos discípulos, e sim Àquele que destinou o alimento para todos. Aos discípulos cabe a distribuição. De Jesus devem aprender outra maneira de entender e viver a vida a partir da ternura da acolhida.

5. Na multiplicação dos pães, Jesus envolveu os discípulos em sua atuação: são eles que devem dar de comer à multidão. Seu lanche é insuficiente, mas enquanto o repartem, Jesus faz com que seja até mais do que suficiente: “dai-lhes vós mesmos de comer…” Não devemos aguardar até que o pão caia do céu. Devemos começar a repartir o que temos (economia da partilha versus economia do monopólio e da capitalização). Assim falaremos do Reino através de nossas ações.

6. No Pai nosso, rezamos pedindo o “pão de cada dia”. Tudo é dom de Deus, também essa coisa mais elementar. O amor de Deus seria questionável, se Deus não nos desse o necessário para viver. … Mas quem deve distribuir é a gente, somos nós. Nosso empenho pelo pão cotidiano de todos dá credibilidade ao Reino de Deus (no qual acreditamos e com o qual nos comprometemos).

7. A liturgia de hoje nos convida a ler no sinal do pão uma revelação da “compaixão”, do amor terno, da ternura de Deus para conosco, que se revelou plenamente no dom de seu Filho, do qual o pão também se tornou o sinal sacramental.

8. Partir o pão sobre o altar, oferecer o cálice, são gestos simples e proféticos, mas não podem mais passar despercebidos ao exercício da nossa solidariedade. Se o pão da Eucaristia não nos remeter ao prato vazio dos necessitados, poderemos estar ainda celebrando indignamente a Ceia do Senhor.

9. Partilhar o alimento deveria ser sempre, para nós, um ato eucarístico. Sempre que partilhamos aquilo que garante a vida para todos, estamos de alguma forma, fazendo um gesto eucarístico. De acordo com Paulo, não seria escandaloso partilhar apenas o pão eucarístico sem partilhar “o pão nosso de cada dia”?

10. Se a Igreja prega a Palavra, cabe-lhe também realizar gestos proféticos. Existem muitos famintos para que se justifique um novo “sinal do pão”, que realize por um exemplo material (concreto), algo do Reino anunciado por Jesus. Não podemos falar do amor de Deus, se não realizamos a justiça material (e vital) para a multidão, assim como “Jesus dela teve compaixão”. A fome de Deus será sempre o mais importante, mas a fome do pão é o mais urgente. O pão material não é o dom último, mas é o “aperitivo do Reino”. (… Por isso devemos cuidar que ele tenha o gostinho do Reino e não só o simples gosto material).

11. Deus tem uma proposta de liberdade e vida para todos os oprimidos de todos os tempos (I leit. e ev.), convidando-os a sair do exílio e da dependência dos que vivem a explorar o povo. Essa proposta nasce e cresce na partilha dos bens da criação. Quando partilhamos esses bens – terra, moradia, saúde, educação, comida – é possível saciar a todos e ainda sobrar. Quem toma consciência disso e age para esse fim torna-se profeta da esperança (I leit.) e missionário do mundo novo, enfrentando com consciência de vitorioso os obstáculos inerentes à vida (2ª leit.).

12. A Eucaristia, nesse sentido, é o memorial da vida nova inaugurada por Jesus. Celebrá-la é tomar consciência disso, fazendo tudo o que for possível para construir uma sociedade justa, fraterna e igualitária. Caberia talvez uma pergunta: qual a boa notícia que anunciamos aos milhares de pobres que freqüentam nossas celebrações? Como fazer (e o que fazer) para não frustrar suas esperanças?

13. Para completar podemos ver o sentido simbólico no texto.

O texto fala de 5 pães, 2 peixes, 12 cestos e 5 mil homens.

O número 5 lembra a Torá, a Lei, os cinco primeiros livros da Bíblia, que devem ser seguidos por todo judeu. Por analogia se fala em 5 mil homens, os reais seguidores da Lei.

O peixe lembra a presença salvadora de Jesus. Mais tarde tornar-se-ia símbolo dos cristãos na perseguição romana. A palavra peixe (em grego IXTUS) , como um acróstico, forma as iniciais de Iesùs Xristòs Theoù Uiòs Soteèr, que significa ”Jesus Cristo Filho de Deus Salvador”.

O número 12 (os doze meses do ano e as 12 tribos do povo eleito) simboliza a totalidade ou plenitude.

14. Propor algumas interrogações parecem pertinentes (será que são?):

14.1. Estamos tão habituados a falar de multiplicação dos pães que até nos esquecemos de partilhar o mesmo?

14.2. Hoje em dia é possível realizar o milagre dos pães? Ou isso sugere um sonho ingênuo? Não parece estranho (… e muito!) falar em partilhar em vez de comprar?

14.3. Por que Jesus, – em vez de agradecer aos donos dos peixes e dos pães e aos seus seguidores, – agradeceu a Deus? Quantas vezes em nossas igrejas agradecem-se aos homens do dinheiro e do poder por sua colaboração?
E por que não se agradece aos pobres e despossuídos? … Estaria isso de acordo com o jeito do Reino de Jesus Cristo?

14.4. Será que temos experiências de partilha em nossa vida para recordar? O que sentimos e o que aprendemos quando “alguma vez” (… quase por acaso… ) partilhamos? E isso já faz muito tempo?

14.5. Nossa comunidade ainda se serve da desculpa que só Jesus podia realizar o banquete da vida?

14.6. Por que a injustiça só produz o banquete da morte? Ainda hoje há banquetes de morte?

14.7. Nossa comunidade, alguma vez, já incomodou a sociedade e as autoridades ao sair em defesa dos pobres e excluídos?

14.8. Por que a grande maioria da população mundial vive na miséria e até morre de fome?

Nós acreditamos no amor. 1Jo 4,16

O amor de Deus manifestado em Jesus Cristo. Rm. 8, 39

O amor que nos salvou é o amor que Deus nos mostrou no seu Filho Jesus. Rm. 8, 37

prof. Ângelo Vitório Zambon

 

 

Um dia, Jesus havia se retirado a um lugar solitário, às margens do Mar da Galiléia. Mas quando ia desembarcar, encontrou uma grande multidão que o esperava. «Sentiu compaixão deles e curou seus doentes.» Falou do Reino de Deus para eles. Pois bem, enquanto isso, escureceu. Os apóstolos lhe sugeriram que despedisse a multidão, para que pudessem encontrar algo para que comer nos povoados próximos. Mas Jesus os deixou atônitos, dizendo-lhes em voz alta, para que todos escutassem: «Dai-lhes vós mesmos de comer». «Não temos aqui mais que cinco pães e dois peixes», respondem-lhe, desconcertados. Jesus pede que os tragam. Convida todos a se sentarem. Toma os cinco pães e os dois peixes, reza, agradece ao Pai, depois ordena que distribuam tudo à multidão. «Todos comeram e ficaram saciados, e dos pedaços que sobraram, recolheram doze cestos cheios». Eram cerca de 5 mil homens, sem contar mulheres e crianças, diz o Evangelho. Foi o piquenique mais feliz da história do mundo!

O que este evangelho nos diz? Em primeiro lugar, que Jesus se preocupa e «sente compaixão» do homem completo, corpo e alma. Às almas Ele dá a palavra, aos corpos, a cura e o alimento. Alguém poderia dizer: «Então, por que Ele não faz isso também hoje? Por que não multiplica o pão entre tantos milhões de famintos que existem na terra?». O evangelho da multiplicação dos pães oferece um detalhe que pode nos ajudar a encontrar a resposta. Jesus não estalou os dedos para que aparecesse, como mágica, pão e peixe para todos. Ele perguntou o que eles tinham; convidou a compartilhar o pouco que tinham: 5 pães e 2 peixes. Hoje Ele faz a mesma coisa. Pede que compartilhemos os recursos da terra.

Sabemos perfeitamente que, pelo menos do ponto de vista alimentar, nossa terra seria capaz de dar de comer a bilhões de pessoas a mais do que as que existem hoje. Mas como podemos acusar Deus de não dar pão suficiente para todos, quando cada dia destruímos milhões de toneladas de alimentos que chamamos de «excedentes» para que não diminuam os preços? Melhor distribuição, maior solidariedade e capacidade para compartilhar: a solução está aqui. Eu sei, não é tão fácil. Existe a mania dos armamentos, há governantes irresponsáveis que contribuem para manter muitas populações na fome. Mas uma parte da responsabilidade recai também nos países ricos. Nós somos agora essa pessoa anônima (um menino, segundo um dos evangelistas) que tem 5 pães e 2 peixes; mas nós os temos muito bem guardados e temos cuidado para não entregá-los, por medo de que eles sejam distribuídos entre todos.

A forma como se descreve a multiplicação dos pães e dos peixes («elevando os olhos ao céu, pronunciou a bênção e, partindo os pães, deu-os aos discípulos e estes à multidão») sempre recordou a multiplicação desse outro pão que é o Corpo de Cristo. Por este motivo, as representações mais antigas da Eucaristia nos mostram um cesto com 5 pães e, ao lado, 2 peixes, como o mosaico em Tabga, na palestina, na igreja construída no lugar da multiplicação dos pães, ou na famosa pintura das catacumbas de Priscila em Roma. No fundo, o que estamos fazendo neste momento também é uma multiplicação dos pães: o pão da palavra de Deus. Eu parti o pão da palavra e a internet multiplicou minhas palavras, de forma que mais de 5 mil homens, também neste momento, se alimentaram e ficaram saciados. Resta uma tarefa: recolher «os pedaços que sobraram», fazer a Palavra chegar também a quem não participou do banquete. Converter-se em «repetidores» e testemunhas da mensagem.

mons. Inácio José Schuster

 

 

A multiplicação prodigiosa

Entre as mensagens que a prodigiosa multiplicação dos pães oferece não se pode deixar de admirar a imensa munificência de Cristo diante da perplexidade dos Seus discípulos a lhe dizerem num lugar deserto: “Despede as multidões para que possam ir aos povoados comprar comida” (Mt. 14,13-21). Eles tinham apenas cinco pães e dois peixes, mas ali estava o poderoso Filho de Deus, que possuía um coração transbordante de amor e que se compadeceu de quantos tinham vindo a Ele.

O evangelista detalhou que eram mais ou menos cinco mil homens sem contar mulheres e crianças. O pouco que havia não inquietava o Mestre. O que contava a Seus olhos era Sua intenção sincera de realizar um ato de generosidade. Ele ensina, com isso, que se deve fazer o bem ainda que as dificuldades sejam enormes, deixando-nos o recado de que nunca o nosso pão é tão pequenino que não o possamos repartir com o próximo em necessidade. O que conta diante de Deus é a reta intenção de ajudar o irmão em todas as circunstâncias. O amor aos outros é indissociável do amor de Deus, pois os dois mandamentos são o vértice e a chave da Lei.

Dirá São João: "Quem não ama seu irmão a quem vê não poderia amar Deus a quem não vê". São Paulo mostrará aos Gálatas que “toda a lei compendia-se nestas simples palavras: "Amarás ao teu próximo como a ti mesmo" (Gl. 5,14). Trata-se da obra única e multiforme de toda fé viva. Portanto, no fundo, só há um só amor. Este, porém, se manifesta na doação. Lembrava, com razão: "O espírito enriquece com o que recebe; o coração, com o que dá”, afirma Victor Hugo. Entretanto, cumpre observar que o amor do próximo é essencialmente religioso, não é uma simples filantropia. Com efeito, o modelo é o próprio amor de Deus. Além disto, sua fonte é a obra divina no interior de cada um.

Não poderemos ser misericordiosos com o Pai celeste se o Senhor não no-lo ensinar, como mostrou São Paulo aos Tessalonicenses: "Quanto à caridade fraterna, não precisais que eu vos escreva, pois vós mesmos aprendestes de Deus a amar-vos uns aos outros" (Tl. 4,9).

Foi o que ele frisou também aos Romanos: "O amor de Deus se encontra largamente difundido nos nossos corações pelo Espírito Santo, que nos foi dado" (Rm. 5,5). O fundamento de tudo isso é que o próprio Deus nos toma por filhos, como ensinou São João: "O amor vem de Deus e todo aquele que ama é gerado por Deus e conhece a Deus {...] porque Deus é amor" (1Jo 44,7-8). Amando os nossos irmãos amamos o próprio Senhor como está no relato do Juízo universal: "Na verdade vos digo que tudo que fizestes a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes" (Mt. 25,40).

É de se notar ainda como base do magno ensinamento de Jesus, quando multiplicou os pães, o fato de formarmos o Corpo de Cristo e, por isso, o que se passa com o próximo não pode ser indiferente ao verdadeiro cristão. Aí está a razão pela qual Cristo fez do preceito do amor o Seu sublime testamento: "Amai-vos uns aos outros como eu vos amei" (Jo 13,34).

Tão grande dileção não permitiria que Ele despedisse a multidão faminta e, ao mesmo tempo, deixasse de oferecer tão inefável lição. Ele desejava deixar claro que Seu amor continuaria a se exprimir por meio da caridade que os discípulos mostrassem entre si. Amando como Cristo os cristãos viveriam uma realidade divina e eterna.

A fraternidade deveria ser uma comunhão total na qual cada um se engajaria com toda sua capacidade de amor e de fé. Trata-se de um amor exigente e concreto.Tocante o desejo que Jesus expressou ao Pai: "Que o amor com que me amaste esteja neles e eu neles" (Jo 17, 26). A generosidade seria inclusive a carteira de identidade do batizado: "Nisto todos vos reconhecerá como meus discípulos: no amor que tiverdes uns para com os outros" (Jo 13,35).

A essência desta dileção é a doação. Foi o que o apóstolo dos gentios compreendeu e pôde proclamar: "Fiz-me tudo para todos para a todos salvar" (1Cor. 9,22).

O coração do cristão deve ser como a hóstia consagrada, que é outro Pão multiplicado maravilhosamente por Jesus, no qual cada parcela infinitésima em que fosse dividido seria capaz de conter, vivo e perfeito, o tesouro do amor do Coração d´Aquele que se apiedou da multidão lá no deserto.

cônego José Geraldo Vidigal de Carvalho

 

 

Graça é justamente o que necessitamos

Jesus sente pena das pessoas que o seguem. Compadece-se deles. Atende os enfermos e dá de comer à multidão. Certamente não lhes oferece um suculento banquete. Apenas pão e pescado, mas todos ficam satisfeitos e ainda sobra. Uma vez mais o Evangelho nos apresenta Jesus oferecendo àqueles que o seguem vida, e vida plena. E o que é mais Importante, oferecendo-a gratuitamente.

Nisso Jesus se diferencia dos comerciantes do nosso mundo. Eles nada oferecem de graça. Tudo tem um preço, até mesmo quando a publicidade nos fala de brindes. Esses brindes nunca são gratuitos, nos os pagamos e muito bem. Esta é a primeira grande diferença entre o que nos oferece a nossa sociedade e aquilo que Jesus nos proporciona. O que Jesus nos oferece é sempre gratuito. Além disso, há outra diferença. Jesus nos oferece justamente aquilo de que necessitamos. Todos nós sabemos das grandes somas de dinheiro que gastamos inutilmente. Todos: os indivíduos, as famílias e a sociedade de urna maneira geral. Não podemos nos eximir dizendo que apenas os ricos fazem isso. De maneira sincera devemos aceitar que todos nós o fazemos. Apesar dos nossos poucos recursos, de fato não sabemos aproveitar e acabamos por gastar em coisas que não produzem fartura nem nos fazem sentir mais felizes e mais vivos.

Jesus nos indica onde devemos encontrar aquilo de que necessitamos para sermos felizes e, além disso, de maneira gratuita. Jesus se situa no oposto da nossa sociedade. Nela não apenas pagamos por tudo, mas, também acabamos comprando aquilo que não nos falta, mas o que outros querem que compremos. Por preços baratos, ou nem tanto, nos são oferecidos produtos que prometem felicidade. O que não nos dizem é que, uma vez usado o produto, retornaremos à mesma situação – ou pior – em que nos encontrávamos antes de adquiri-lo.

Jesus nos coloca diante do que é mais importante para nós. Não é necessário comprá-lo porque já o temos. Quando aprendermos a sentir com nossos irmãos e irmãs, a compartilharmos com eles o que possuímos então nossa vida se elevará e descobriremos a alegria do amor. O Reino se fará presente entre nós. Porque a felicidade não está em ter muitas coisas, mas sim na relação e no encontro prazeroso com os outros.

Seria bom refletir sobre a felicidade. Onde penso que se encontra a felicidade? Acredito que os bens materiais são o único meio necessário para alcançar a felicidade? Não seria mais acertado dizer que a encontro no amor e no relacionamento? Não me convida Jesus a participar da família de Deus? Não é exatamente nesse lugar que sou totalmente feliz?

Victor Hugo Oliveira

 

 

Multiplicação dos pães

O Evangelho de hoje mostra Jesus num dos momentos em que se compadece do povo faminto e sedento, defende a vida e cura os que estão doentes.

O milagre da multiplicação dos pães e dos peixes rememora a passagem em que Deus alimenta o Seu povo com o maná no deserto no Antigo Testamento. Aqui, Jesus, cumprindo plenamente as promessas de Deus, reúne e alimenta a multidão sofredora, realizando os sinais de um novo modo de vida que anuncia a Boa Notícia.

Compadecido daquela gente faminta que O acompanha e, ao ser indagado sobre como resolver o problema da fome, Jesus traz o desafio para a sua própria comunidade e transfere para Seus discípulos a responsabilidade de alimentar todo o povo: “Vocês é que têm de lhes dar de comer”, referindo-se à responsabilidade que os cristãos têm com relação à comunidade Igreja, sobretudo no que diz respeito à partilha e à solidariedade.

Sentar para a refeição era comum para as pessoas livres, por isso Jesus pede para que todos se sentem, mostrando que Ele veio para libertar o homem de todo tipo de opressão.

Jesus pega os cinco pães e os dois peixes, ergue os olhos ao céu e pronuncia a bênção. Com esse gesto, Ele reconhece que o pão é dom de Deus e, sendo assim, o alimento entra na concepção da gratuidade, porque Deus o concede gratuitamente, e partilhá-lo é prolongar essa gratuidade e generosidade divinas. A gratuidade vem de Deus, por Jesus, e dá continuidade na ação de partilha dos discípulos, que devem por tudo o que têm à disposição da comunidade.

O número cinco para os judeus significa a Palavra de Deus, porque se refere ao Pentateuco, os cinco primeiros livros da Bíblia; e o número dois remete à lembrança das duas tábuas da Lei que são os dez mandamentos que Deus deu para Moisés apresentar ao povo de Israel. Por isso, os cinco pães e os dois peixes do Evangelho têm um significado muito bonito que quer dizer: todo aquele que ouve a Palavra de Deus e a segue, e obedece aos seus mandamentos, não têm fome, porque Deus se faz presente na sua vida.

Ser cristão é mais do que fazer oração, é também ter ação, saber partir e repartir.

Em uma comunidade onde há tantos famintos, a fome de Deus é muito importante e deve ser saciada, sem que fique de lado a fome de pão que é urgente.

O relato possui também um tom litúrgico quando relembra o momento da instituição da Eucaristia: “ao anoitecer”; “pronunciou a benção”; “o partiu e o deu aos seus discípulos”.

A Eucaristia é o Sacramento que memoriza a presença de Jesus, lembrando continuamente a missão que os cristãos são chamados.

 

 

Dêem-lhes de comer!

A ordem dada aos discípulos - "Dêem-lhes de comer!" - pode ter-lhes soado como uma ironia. Havia condições de saciar uma multidão, reunida num lugar deserto para escutar Jesus? Não seria mais lógico despedi-la para que pudesse comprar alimentos nas aldeias vizinhas?

A ordem do Mestre parecia impossível de ser executada. Contudo, começou a ser superada, quando os discípulos apresentaram a quantidade de alimento disponível: cinco pães e dois peixes. Bastou-lhes colocá-los à disposição de todos, para que ninguém voltasse para casa faminto.

Assim aconteceu! Num gesto quase litúrgico, Jesus tomou os pães e os peixes, ergueu os olhos para os céus, abençoou-os, partiu-os, deu-os aos discípulos e estes, à multidão. A pequena porção de alimento começou a ser condividida. E todos comeram até à saciedade. E mais, sobraram doze cestos cheios, apesar da enorme quantidade de gente. Este episódio contém um claro ensinamento. O problema da fome resolve-se com a partilha. Se tivessem ido às aldeias, quem tivesse dinheiro e fosse mais esperto, fartar-se-ia. Quanto aos pobres e os menos ágeis ficariam em desvantagem, permanecendo famintos.

Esta situação é incompatível com o Reino, cujo projeto de fraternidade supera todo tipo de desigualdade.

padre Jaldemir Vitório

 

 

Ao multiplicar os pães e os peixes, Jesus revela o amor de Deus, seu Pai, para conosco. Deus não quer que seus filhos passem fome. Ele não os criou para isso. Ele os criou e providenciou tudo o que seria necessário para o seu bem-estar. Se isso não acontece é porque alguém interfere nos planos de Deus.

Por isso Jesus diz aos seus seguidores mais próximos, os que estarão à frente da sua Igreja: “Dai-lhes vós mesmos de comer”. Que a Igreja de Jesus mostre ao mundo o amor de Deus para com suas criaturas e trabalhe para que haja justiça e não falte o pão de cada dia para ninguém, trabalhe para que ninguém pegue só para si o pão que Deus deu para todos.

Quando Deus nos orienta pelo profeta Isaías a não gastarmos dinheiro com aquilo que não é pão, Ele se refere ao pão que revigora o corpo e ao pão que revigora todo o ser humano. A palavra do profeta à luz da revelação de Jesus Cristo aponta para o Senhor que é o Pão da Vida. A menção da Aliança com Davi e a promessa de um pacto eterno se confirma em Jesus Cristo. N’Ele a Aliança se torna real e eterna. Davi, como escreve São Pedro, morreu e está sepultado. O descendente de Davi morreu e ressuscitou, e vive para sempre. Nisso conhecemos o amor de Deus.

Mt. 14,13-21 – Com cinco pães e dois peixes, Jesus alimenta a multidão que o seguia. Depois da morte de João Batista, Jesus tinha se retirado para um lugar deserto e afastado. Ele queria ficar sozinho com alguns discípulos ou, por prudência, era melhor não aparecer muito naquele momento. Sua hora ainda não tinha chegado. O fato é que muita gente foi atrás d’Ele. Jesus teve pena daquele povo e curou os que estavam doentes. Como já fosse tarde, os discípulos aconselharam Jesus a mandar o povo embora para que pudesse comprar comida enquanto havia tempo.

A resposta de Jesus faz a gente pensar. Ele disse aos discípulos: “Eles não precisam ir embora. Dai-lhes vós mesmos de comer”. Jesus estava se referindo ao trabalho que eles deveriam fazer distribuindo os pães e os peixes que iam ser multiplicados naquele momento, ou estava dizendo que os discípulos deviam providenciar alimento para toda aquela gente! Eles mostraram a Jesus o que tinham: cinco pães e dois peixes. Então com aqueles pães e peixes Jesus alimentou 5 mil homens, mais as mulheres, mais as crianças, e ainda sobraram 12 cestos cheios.

Is. 55,1-3 – No livro do profeta Isaías, Deus chama aqueles que têm fome e sede para virem comer e beber de graça. Ele chama os que não têm dinheiro para comprar sem pagar, e aconselha aos que têm dinheiro a não desperdiçar com o que não traz satisfação. Que gastem com o pão e fortaleçam o corpo. Isso é dito em relação à Aliança que Deus fez com o rei Davi em favor de seu povo, Aliança que Deus mantém fielmente.

Sl. 144 (145) – O Deus bondoso e compassivo não deixa faltar nada às suas criaturas. Ele lhes dá o alimento no tempo certo e sacia todo ser vivo com fartura, porque Ele é bom e justo.

Rm. 8,35.37-39 – Em Jesus Cristo, Deus manifesta o seu amor por nós. Tudo o que Jesus fez enquanto estava nesta terra revelou o coração de Deus e sua bondade. Por isso nada pode nos separar do amor de Cristo.

cônego Celso Pedro da Silva

 

 

A benção liberta também o coração

Esta narrativa da partilha dos pães entre Jesus, seus discípulos, e a multidão, é encontrada nos quatro evangelistas. Contudo Marcos e Mateus apresentam a narrativa de uma segunda partilha, bastante semelhante, como que em reprise desta primeira, porém diferenciando-se na medida em que a primeira acontece na Galiléia e a segunda em território exclusivo de gentios, fora da Galiléia. João Batista, que com seu anúncio do Reino de justiça atraia a si as multidões, foi preso e executado por Herodes, no que teve o apoio dos chefes religiosos das sinagogas e do Templo de Jerusalém. Eles temiam João por seu anúncio libertador, conclamando à prática da justiça, e pela sua grande acolhida entre as multidões. Jesus percebe que ele próprio também é passível de sofrer o mesmo processo repressivo. Assim retira-se para um lugar isolado com seus discípulos, indo de barco através do lago da Galiléia (chamado Mar da Galiléia). As multidões sabendo da partida de Jesus seguiram a pé, pela margem do lago acompanhando-o. Quando Jesus desembarca já encontra a multidão e vendo sua carência e suas necessidades, tem compaixão dela, curando os doentes. A presença dos doentes entre as multidões exprime uma situação de exclusão social, que favorece o surgimento e a proliferação das doenças. É muito expressiva a compaixão que invade Jesus diante destas multidões. A menção das curas sugere o empenho de Jesus em promover a vida entre estas multidões excluídas. Ao entardecer, os discípulos percebem as necessidades das multidões e sugerem que sejam enviadas para comprar comida. Jesus, porém, apresenta-lhes outra solução: "Vós mesmos dai-lhes de comer". Os discípulos alegam, então, que têm apenas alguns pães e alguns peixes. Jesus pede que sejam trazidos e, em seguida, são abençoados e partidos por Jesus. Os discípulos os distribuem. O gesto toca os corações dos demais, que traziam reservadamente seu alimento. Eles também partilham e todos são satisfeitos. A partilha é o gesto concreto do amor. O amor é contagioso e transforma a comunidade. A visão messiânica, a partir do Primeiro Testamento, deu origem à interpretação desta passagem como um espantoso milagre pelo qual os pães são multiplicados. Se o objetivo de Jesus fosse o de praticar gestos espantosos, então maior efeito teria se transformasse as pedras em pães, o que ele rejeitou na tentação que lhe foi feita em seguida ao recebimento do batismo por João Batista. Na partilha se dá a abolição de uma sociedade escrava do mercado pela implantação da nova sociedade livre, justa e fraterna (cf. primeira leitura). A benção de Jesus sobre os pães e peixes que os discípulos lhe trazem significa redirecionar a Deus aquilo que é de Deus. Significa desvincular os bens da posse excludente para libertar o dom de Deus em sua criação colocando-o ao alcance de todos. A benção liberta também o coração e a generosidade leva à partilha e à saciedade de todos. A sobra indica a eficiência da generosidade. A partilha é a expressão do amor de Jesus. Nada nos separa deste amor que se manifesta, hoje, nas pessoas e comunidades que buscam a justiça e constroem a fraternidade.

José Raimundo Oliva

 

 

Hoje o Evangelho nos apresenta Jesus como a plenitude da compaixão de Deus no nosso meio. Multiplicando os pães, ele realiza de modo pleno aquilo que Moisés e Elias, os mesmos personagens da Transfiguração, representantes da Lei e dos Profetas, já haviam realizado: Moisés deu de comer ao povo no deserto; Elias sustentou com alimento a viúva de Sarepta durante todo o tempo da seca em Israel. Ora, Jesus é aquele que nos alimenta em plenitude, é o Messias prometido a Israel e à humanidade. Como o Bom Pastor, de que fala o Salmo, ele faz seu rebanho descansar na relva mais fresca e lhe prepara uma mesa. Seu alimento não se reduz ao pão. Primeiro nos alimenta porque sente compaixão de nós, de nossa pobreza e indigência: “Viu uma grande multidão. Encheu-se de compaixão por eles e curou os que estavam doentes”. Mais do que de pão, é de amor, de ternura e compaixão que o Senhor nos alimenta! Alimenta-nos também com sua Palavra de vida eterna: vê a multidão cansada e abatida como ovelhas sem pastor e ensina-lhe, fala do Reino até o entardecer... Olhando o nosso Salvador, vemos cumprir-se nele o convite tão terno, tão comovente do Deus de Israel: “Ó vós todos que estais com sede, vinda às águas; vós que não tendes dinheiro, apressai-vos, vinde e comei, cinde comprar sem dinheiro, e alimentai-vos bem, tomar vinho e leite, sem nenhuma paga!’

Que belo convite! Num mundo no qual tudo é pago, tudo gira em torno do lucro, tudo tem a preocupação do retorno econômico e do interesse (até nas seitas por aí a fora, o dízimo é a chave de entrada no céu), o Senhor se revela graciosamente! Quem dera, o mundo compreendesse esse amor apaixonado de Deus que se manifesta em Jesus! Quem dera se reconhecesse faminto e sedento! Quem dera se deixasse interpelar: “Por que gastar dinheiro com outra coisa que não o pão, desperdiçar o salário senão com satisfação completa? Ouvi-me com atenção e alimentai-vos bem! Inclinai vosso ouvido e vinde a mim, ouvi e tereis vida!” Infelizmente, o nosso é um mundo cansado, mas também auto-suficiente, prepotente, que pensa poder sozinho, do seu modo se saciar e viver de verdade! Também nós, nas nossas pobrezas, tanta vez fugimos do Senhor, ao invés de correr para ele, nosso Poço, nossa Água, nosso Pão, nosso Refrigério!

Mas, nós, cristãos, sabemos que em Cristo Jesus encontra-se a vida, encontra-se o verdadeiro caminho, a verdadeira vida do mundo! É isso que São Paulo exprime com palavras comoventes: “Quem nos separará do amor de Cristo? Tribulação? Angústia? Perseguição? Fome? Nudez? Perigo? Espada? Em tudo isso somos mais que vencedores, graças àquele que nos amou!” É por essa experiência do amor tão terno e presente de Jesus na nossa vida que somos cristãos! Deixemo-nos saciar pelo Senhor e experimentaremos que “nem a morte, nem a vida, nem o presente nem o futuro, nem outra criatura qualquer, será capaz de nos separar do amor de Deus por nós, manifestado em Cristo Jesus, nosso Senhor!”

Caríssimos, a verdadeira Boa-Nova para o mundo atual é esta: o amor terno e próximo de Deus, manifestado em Jesus Cristo! Mas, atenção: somente poderemos ser testemunhas de tal amor se nós mesmos nos deixarmos tocar e envolver pela ternura do Cristo! Atendamos, portanto, ao seu convite de ir gratuitamente a ele, apesar de nossas pobrezas! Deixemos que ele nos alimenta e sacie de vida e de paz!

Não esqueçamos também que, sobretudo na Eucaristia essa vida, essa alimento, essa paz vêm a nós! Neste Ano Eucarístico, sintamo-nos convidados pela Igreja a recobrar nossa devoção e piedade eucarísticas. Primeiro pela participação consciente e piedosa da Santa Missa todos os domingos. Mas, também pela adoração ao Santíssimo Sacramento. Aí o Senhor Jesus nos espera para nos falar ao coração e encher-nos da sua paz. Estejamos atentos a alguns aspectos desse carinho pela presença eucarística de Cristo. Eis alguns pontos para nossa meditação: (1) como está minha participação na Missa? (2) Tenho consciência do que é a Missa? Compreendo que ela é o sacrifício de Cristo tornado presente no Altar para vida nossa e do mundo inteiro? (3) Tenho respeito pela presença de Cristo na Eucaristia? Quando entro na Igreja, dobro meu joelho ante o Santíssimo? Detenho-me em adoração ou fico conversando e disperso? (4) Tenho reservado alguns minutos durante a semana para uma visita ao Santíssimo Sacramento, para falar-lhe em espírito e verdade, como um amigo ao outro amigo?

Eis, meus caros! Procuramos vida e realização em tantas bobagens! A Vida, a Realização, é Jesus que se dá a nós no Altar e por nós espera no sacrário! Saibamos valorizar esse Dom tão grande: “Ó vós todos que estais com sede, vinda às águas; vós que não tendes dinheiro, apressai-vos, vinde e comei, cinde comprar sem dinheiro, e alimentai-vos bem, tomar vinho e leite, sem nenhuma paga!’ Que o Senhor nos dê a graça de aceitar seu convite! Amém.

dom Henrique Soares da Costa

 

 

Dêem-lhes de comer!

A ordem dada aos discípulos - "Dêem-lhes de comer!" - pode ter-lhes soado como uma ironia. Havia condições de saciar uma multidão, reunida num lugar deserto para escutar Jesus? Não seria mais lógico despedi-la para que pudesse comprar alimentos nas aldeias vizinhas?
A ordem do Mestre parecia impossível de ser executada. Contudo, começou a ser superada, quando os discípulos apresentaram a quantidade de alimento disponível: cinco pães e dois peixes. Bastou-lhes colocá-los à disposição de todos, para que ninguém voltasse para casa faminto.

Assim aconteceu! Num gesto quase litúrgico, Jesus tomou os pães e os peixes, ergueu os olhos para os céus, abençoou-os, partiu-os, deu-os aos discípulos e estes, à multidão. A pequena porção de alimento começou a ser condividida. E todos comeram até à saciedade. E mais, sobraram doze cestos cheios, apesar da enorme quantidade de gente.

Este episódio contém um claro ensinamento. O problema da fome resolve-se com a partilha. Se tivessem ido às aldeias, quem tivesse dinheiro e fosse mais esperto, fartar-se-ia. Quanto aos pobres e os menos ágeis ficariam em desvantagem, permanecendo famintos.
Esta situação é incompatível com o Reino, cujo projeto de fraternidade supera todo tipo de desigualdade.

 

 

A liturgia do 18º domingo do tempo comum apresenta-nos o convite que Deus nos faz para nos sentarmos à mesa que Ele próprio preparou, e onde nos oferece gratuitamente o alimento que sacia a nossa fome de vida, de felicidade, de eternidade.

Na primeira leitura, Deus convida o seu Povo a deixar a terra da escravidão e a dirigir-se ao encontro da terra da liberdade – a Jerusalém nova da justiça, do amor e da paz. Aí, Deus saciará definitivamente a fome do seu Povo e oferecer-lhe-á gratuitamente a vida em abundância, a felicidade sem fim.

O Evangelho apresenta-nos Jesus, o novo Moisés, cuja missão é realizar a libertação do seu Povo. No contexto de uma refeição, Jesus mostra aos seus discípulos que é preciso acolher o pão que Deus oferece e reparti-lo com todos os homens. É dessa forma que os membros da comunidade do Reino fugirão da escravidão do egoísmo e alcançarão a liberdade do amor.

A segunda leitura é um hino ao amor de Deus pelos homens. É esse amor – do qual nenhum poder hostil nos pode afastar – que explica porque é que Deus enviou ao mundo o seu próprio Filho, a fim de nos convidar para o banquete da vida eterna.

1ª Leitura – Is. 55,1-3 - AMBIENTE

Em 597 a.C., no reinado de Joaquin, os babilônios derrotaram os exércitos de Judá, conquistaram Jerusalém e deportaram para a Babilônia uma primeira leva de exilados, escolhidos de entre a classe dirigente de Judá. No entanto, esse primeiro grupo de exilados acreditava que o Exílio não estava para durar e que rapidamente poderiam regressar à sua terra. O profeta Jeremias, no entanto, desfez essas falsas esperanças, anunciando aos exilados que o desterro iria prolongar-se e convidando-os a refazer a sua vida na Babilônia (“edificai casas e habitai-as; plantai pomares e comei os seus frutos. Casai, gerai filhos e filhas, casai os vossos filhos e filhas, para que tenham filhos e filhas. Multiplicai-vos, em vez de diminuir. Procurai o bem do país para onde vos exilei e rogai por ele ao Senhor, porque só tereis a lucrar com a sua prosperidade” – Jr. 29,5-7). Aos poucos, estes exilados acabaram por se adaptar à situação e por lançar as bases para uma permanência prolongada na Babilônia.

Em 586 a.C. deu-se uma nova catástrofe para o Povo de Deus: Jerusalém foi de novo conquistada pelos babilônios e completamente arrasada… Os que tinham escapado à primeira deportação foram levados cativos para a Babilônia e juntaram-se aos seus irmãos exilados.

Os tempos do Exílio foram tempos de desolação e de sofrimento… Todas as referências tinham caído; Jerusalém, a cidade santa, estava reduzida a um montão de ruínas; à frustração pela humilhação nacional, juntavam-se as dúvidas religiosas: Jahwéh será o Deus libertador, como anunciava a teologia e a catequese de Israel – ou será um “bluff”, incapaz de proteger o seu Povo? Para alguns dos exilados já nada importava, pois o quadro de referência que dava segurança ao Povo tinha sido completamente subvertido. Enquanto que alguns continuavam a sonhar com a libertação e o regresso, muitos outros deixaram de sonhar e lançaram as bases materiais para se enraizarem definitivamente na Babilônia.

O Exílio prolongou-se até 539 a.C., quando Ciro, rei dos Persas, tomou a Babilônia e deu aos exilados a possibilidade de retornarem à sua terra de origem.

É no contexto do Exílio que aparece o Deutero-Isaías, um profeta anônimo cuja mensagem nos é oferecida nos capítulos 40-55 do Livro de Isaías. O profeta esforça-se por “consolar” os exilados, anunciando-lhes a libertação iminente, o regresso à Terra (cf. Is. 40-48) e a reconstrução de Jerusalém (cf. Is. 49-55).

O texto que nos é proposto como primeira leitura apresenta-nos as últimas palavras do “livro da consolação”. Depois de um oráculo que anuncia a restauração de Jerusalém (cf. Is 54,11-17), o Deutero-Isaías procura dar aos exilados razões para regressarem à cidade santa.

MENSAGEM

O profeta convida os exilados a cumprirem um novo êxodo, deixando a terra da escravidão e dirigindo-se ao encontro da terra da liberdade – a Jerusalém nova que Deus vai reconstruir para o seu Povo. Aí, Judá redescobrirá o Deus libertador, que derrama sobre o seu Povo – gratuita e abundantemente – a justiça, a prosperidade, a abundância, a paz sem fim. O profeta representa esse quadro de salvação através da imagem de um “banquete”: em Jerusalém, à volta da mesa de Deus, esse Povo sofredor, desolado, carente, faminto, encontrará trigo, “vinho”, “leite” e “manjares suculentos” (v. 1).

Será fácil, depois de mais de quarenta anos de Exílio, deixar a relativa segurança da Babilônia, enfrentar uma terra devastada e começar tudo de novo? É claro que não. Muitos exilados, correspondendo às palavras do profeta Jeremias (cf. Jr. 29), construíram as suas casas, refizeram as suas vidas, lançaram as suas raízes no solo babilônico e consolidaram existências tranqüilas e cômodas. A referência ao gastar “o dinheiro naquilo que não alimenta” e “o trabalho naquilo que não sacia” parece dizer respeito ao fato de muitos exilados pretenderem continuar na Babilônia, em lugar de arriscarem o regresso a uma terra desolada e, aparentemente, sem futuro (v. 2).

O profeta adverte: é preciso ter a coragem de arriscar, de se desinstalar, de partir ao encontro do sonho. Àqueles que forem capazes de sair dos seus esquemas para abrirem o coração ao seu dom, Deus vai oferecer, de forma gratuita e incondicional, a vida em abundância, a felicidade infinita.

Mais: a esses que estão dispostos a deixar as suas certezas e seguranças para partir ao encontro do seu chamamento, Deus oferecerá uma aliança eterna (v. 3), que nada nem ninguém poderão romper.

Quem aceitar esse dom que Deus oferece encontrará aí a água que mata a sua sede de vida e o alimento que sacia a sua fome de felicidade. Viverá uma relação nova com Deus e integrará, em definitivo, a comunidade do Povo de Deus.

ATUALIZAÇÃO

• Antes de mais, a leitura que nos é proposta revela o “coração” de Deus: o seu amor, o seu cuidado, a sua preocupação com a situação de um Povo atolado na miséria, no sofrimento, na desolação. Deus não fica, nunca, indiferente à sorte dos seus filhos; mas está continuamente atento às suas necessidades, à sua fome de vida, à sua sede de felicidade. Os crentes podem estar seguros de que, à mesa desse banquete onde Deus os reúne, encontram o alimento que os sacia, a mão que os apóia, a palavra que lhes dá ânimo, o coração que os ama. A reflexão deste texto convida-nos, antes de mais, a descobrir este Deus providente, amoroso e dedicado e a colocar toda a nossa existência nas suas mãos. A reflexão deste texto convida-nos também a sermos testemunhas deste Deus no meio dos nossos irmãos: os pobres, os famintos, os desesperados têm de encontrar nos nossos gestos e palavras esse “coração” amoroso de Deus que os apóia, que lhes dá esperança, que os ajuda a recuperar a dignidade e o gosto pela vida, que lhes mata a fome e a sede de justiça, de fraternidade, de amor e de paz.

• Se é verdade que Deus não cessa de nos oferecer a salvação, também é verdade que nós, os homens, nem sempre acolhemos a oferta que Deus nos faz. Muitas vezes escolhemos caminhos de egoísmo e de auto-suficiência, à margem do “banquete” de Deus. Na leitura que nos foi proposta, há um apelo a não gastar o dinheiro naquilo que não alimenta e o trabalho naquilo que não sacia. Corresponde a um convite a não nos deixarmos seduzir por falsas miragens de felicidade (os bens materiais, a ilusão do poder, os aplausos e a consideração dos outros homens) e a não gastarmos a vida a beber em fontes que não matam a nossa sede de vida plena e verdadeira. Como é que eu me situo face a isto? De que é que eu sinto “fome”? Como é que eu procuro saciá-la? Eu também sou dos que gastam o tempo, as forças e as oportunidades a correr atrás de ilusões, de valores efêmeros, de miragens? Quais são as verdadeiras fontes de vida em que eu devo apostar de forma incondicional?

• Para acolher os dons que Deus oferece, é preciso desinstalar-se, abandonar os esquemas de comodismo e de preguiça que impedem que no coração haja lugar para a novidade de Deus e para os desafios que ele lança. Estou disponível para deixar cair os meus preconceitos, seguranças, esquemas organizados, egoísmos, e para me deixar questionar por Deus e pelas suas propostas?

2ª Leitura – Rm. 8,35.37-39 - AMBIENTE

O texto que nos é hoje proposto como segunda leitura conclui a reflexão de Paulo sobre a questão da salvação.

Há já alguns domingos que temos vindo a acompanhar o desenvolvimento das idéias de Paulo sobre esta questão: toda a humanidade vive mergulhada numa realidade de pecado (cf. Rm. 1,18-3,20); mas a bondade de Deus oferece a todos os homens, de forma gratuita e incondicional, a salvação (cf. 3,21-4,25). Essa salvação chega ao homem através de Jesus Cristo (cf. Rm. 5,1-7,25). O Espírito Santo é que dá ao homem a força para acolher esse dom (cf. Rm. 8,1-39), para renunciar à vida do egoísmo e do pecado (a vida “segundo a carne”) e para ascender a uma nova situação – a situação de “filho de Deus” (vida “segundo o Espírito”).

Acolher a salvação que Deus oferece, identificar-se com Jesus e percorrer com Ele o caminho do amor a Deus e da entrega aos irmãos (vida “segundo o Espírito”) não é, no entanto, um caminho fácil, de triunfos e de êxitos humanos; mas é um caminho que é preciso percorrer, tantas vezes na dor, no sofrimento e na renúncia, enfrentando as forças da morte, da opressão, do egoísmo e da injustiça.

Apesar das barreiras que é necessário vencer, das nuvens ameaçadoras e dos mil desafios que, dia a dia, se põem ao crente que segue o caminho de Jesus, o cristão pode e deve confiar no êxito final. Porquê?

É a esta questão que Paulo procura responder nestes versículos que nos são hoje propostos.

MENSAGEM

 “Se Deus é por nós, quem será contra nós”? – pergunta Paulo no início da perícope (Rm. 8,31). A verdade é que nada pode derrotar aquele que é objeto do amor imenso e imortal de Deus – amor manifestado nesse movimento que levou Cristo até à entrega total da vida para nos colocar na rota da salvação e da vida plena.

O crente tem de estar certo de que Deus o ama e que lhe reserva a vida em plenitude, a felicidade total, a comunhão plena com Ele. Dessa forma, pode escolher, com tranqüilidade e serenidade o caminho de Jesus – caminho de dom, de entrega da vida, de amor até às últimas conseqüências… Pode, como Jesus, lutar objetivamente contra o egoísmo, a injustiça, a opressão, o pecado; pode gastar a vida nessa luta, sem temer o aniquilamento ou o fracasso; pode enfrentar a perseguição, a angústia, os perigos, as armadilhas montadas pelos homens, com a certeza de que nada o pode vencer ou destruir… E, no final do caminho, espera-o essa vida plena de felicidade sem fim, que Deus oferece àqueles que aceitam a sua proposta de amor e caminham nela.

Nos dois últimos versículos do texto que nos é proposto (vs. 38-39), Paulo enumera uma série de forças que, na época, se julgavam mais ou menos hostis ao homem. Não devemos, contudo, tomar essas expressões como uma descrição detalhada daquilo que, para Paulo, era o mundo sobrenatural. Devemos ver nessa lista, apenas uma forma retórica de sugerir que nada – nem sequer esses poderes que os antigos acreditavam que hostilizavam o homem – será capaz de separar o cristão do amor de Deus, manifestado em Jesus Cristo.

ATUALIZAÇÃO

• Para Paulo, há uma constatação incrível, que não cessa de o espantar (e que temos repetidamente encontrado nos textos da Carta aos Romanos lidos nos últimos domingos): Deus ama-nos com um amor profundo, total, radical, que nada nem ninguém consegue apagar ou eliminar. Esse amor veio ao nosso encontro em Jesus Cristo, atingiu a nossa existência e transformou-a, capacitando-nos para caminharmos ao encontro da vida eterna. Ora, antes de mais, é esta descoberta que Paulo nos convida a fazer… Nos momentos de crise, de desilusão, de perseguição, de orfandade, quando parece que o mundo está todo contra nós e que não entende a nossa luta e o nosso compromisso, a Palavra de Deus grita: “não tenhais medo; Deus ama-vos”.

• Descobrir esse amor dá-nos a coragem necessária para enfrentar a vida com serenidade, com tranqüilidade e com o coração cheio de paz. O crente é aquele homem ou mulher que não tem medo de nada porque está consciente de que Deus o ama e que lhe oferece, aconteça o que acontecer, a vida em plenitude. Pode, portanto, entregar a sua vida como dom, correr riscos na luta pela paz e pela justiça, enfrentar os poderes da opressão e da morte, porque confia no Deus que o ama e que o salva.

Evangelho – Mt. 14,13-21 - AMBIENTE

No capítulo 13 do Evangelho segundo Mateus, começa uma longa secção que poderíamos intitular “instrução sobre o Reino” (cf. Mt. 13,1-17,27).

Na primeira parte desta secção (cf. Mt. 13,1-52), Jesus apresentou em parábolas a realidade do Reino (como vimos, aliás, nos domingos anteriores). Como é que os interlocutores de Jesus reagiram, frente a essa apresentação viva, popular, interpeladora, questionante? Aderiram à proposta de Jesus?

A resposta a esta questão vai ser dada na segunda secção da “instrução sobre o Reino” (cf. Mt. 13,53-17,27). De uma forma geral, a comunidade judaica responde negativamente ao desafio apresentado por Jesus. Quer os nazarenos (cf. Mt 13,53-58), quer Herodes (cf. Mt. 14,1-12), quer os escribas, quer os fariseus, quer os saduceus (cf. Mt. 15,1-9; 16,1-4. 5-12) recusam embarcar na aventura do Reino. Diante dessa recusa, Jesus volta-Se, cada vez mais decisivamente, para o pequeno grupo dos seus seguidores – os discípulos. Esse pequeno grupo vai-se definindo cada vez mais como a comunidade do Messias, que acolhe as propostas de Jesus e aceita o Reino. As multidões continuam a seguir Jesus; mas, cada vez mais, é aos discípulos que Jesus Se dirige e a quem destina a sua “instrução”.

O texto que nos é proposto neste domingo situa-nos no âmbito de uma refeição. O “banquete” é, para os semitas, o momento do encontro, da fraternidade, em que os convivas estabelecem entre si laços de familiaridade e de comunhão. É, portanto, símbolo desse mundo novo que há-de vir e no qual todos os homens se sentarão à mesa de Deus para celebrar a fraternidade, a igualdade e a felicidade sem fim. Torna-se, pois, um símbolo privilegiado desse Reino para o qual Jesus veio convidar os homens.

MENSAGEM

Na introdução ao episódio de hoje, Mateus anota que Jesus se retirou para o deserto, seguido por uma “grande multidão”; e que, impressionado pela fome de vida de toda essa gente, Se encheu “de compaixão e curou os seus doentes” (vs. 13-14).

Provavelmente, Mateus quer sugerir, com esta referência, que Jesus é um novo Moisés, cuja missão é libertar o seu Povo da escravidão, a fim de conduzi-lo à terra da liberdade e da vida plena. Como é que vai fazê-lo? Conduzindo-o ao deserto…

O deserto é, para Israel, o tempo e o espaço do encontro com Deus; aí, Israel aprendeu a despir-se das suas seguranças humanas, das suas certezas, da sua auto-suficiência, para descobrir que cada passo em direção à liberdade, cada pedaço de pão caído do céu, cada gota de água que brota de um rochedo, é um “milagre” que é preciso agradecer ao amor de Deus. Tudo é um dom de Deus, que o Povo deve acolher com o coração agradecido. O deserto é ainda o lugar e o tempo da partilha, da igualdade, em que cada membro do Povo conta com a solidariedade do resto da comunidade, onde não há egoísmo, injustiça, prepotência, açambarcamento dos bens que pertencem a todos, e em que todos dão as mãos para superar as dificuldades da caminhada (no deserto, quem é egoísta, auto-suficiente e não aceita contar com os outros, está condenado à morte).

É esta experiência que Jesus vai convidar os discípulos a fazer. Vai ensinar-lhes – com uma lição concreta – que tudo é um dom que deve ser agradecido ao amor de Deus; e vai ensinar-lhes também que os dons de Deus são para ser partilhados, colocados ao serviço dos irmãos. É deste processo libertador – que conduz do egoísmo ao amor – que vai nascer a comunidade do Reino.

A história da multiplicação dos pães apresenta todas as características de uma lição, destinada a demonstrar como é que deve viver quem quer aderir ao Reino.

O primeiro momento desse processo pedagógico destinado a formar os membros do Reino tem a ver com a constatação da fome do mundo e com a responsabilização da comunidade do Reino nesse problema… Quando os discípulos Lhe pedem que mande a multidão embora, para que ela encontre comida (lavando as mãos face à situação de necessidade em que a multidão está), Jesus pede-lhes: “dai-lhes vós de comer” (v. 16). Ensina-lhes, dessa forma, que têm uma responsabilidade inalienável face a esse desafio que o mundo dos pobres todos os dias grita… Depois disto, nunca um discípulo de Jesus poderá dizer que não tem nada a ver com a fome, com a miséria, com as necessidades dos mais desfavorecidos. Qualquer irmão necessitado – de pão, de alegria, de apoio, de esperança – é da responsabilidade dos discípulos de Jesus. A dinâmica do Reino passa pela solidariedade que torna todos os cristãos responsáveis pelas necessidades dos pobres.

No segundo momento deste processo pedagógico, Jesus ensina como dar resposta a este desafio. Começa por pedir aos discípulos que façam a listagem dos bens disponíveis; depois, toma os “cinco pães e dois peixes”, recita a bênção e manda repartir por todos os presentes… E todos comeram até ficarem saciados.

A lição é clara: diante do apelo dos pobres, a comunidade do Reino tem de aprender a partilhar. “Cinco pães e dois peixes” significam totalidade (“sete”): é na partilha da totalidade do que se tem que se responde à carência dos irmãos. É uma totalidade fracionada e diversificada mas que, posta ao serviço dos irmãos, sacia a fome do mundo. A comunidade do Reino é, portanto, não só uma comunidade que se sente responsável pela fome dos irmãos, mas também uma comunidade de coração aberto, disposta a repartir tudo o que tem… É uma comunidade que venceu a escravidão do egoísmo, para fazer a experiência da partilha que sacia e que torna todos os homens irmãos.

No terceiro momento deste processo pedagógico, Jesus dá a razão para a partilha. “Tomou os cinco pães e os dois peixes, ergueu os olhos ao céu e recitou a bênção” (v. 19). A “bênção” é uma fórmula de ação de graças, na qual se agradece a Deus pelos seus dons. Isso significa, em concreto, reconhecer que algo que se possui é um dom recebido de Deus… Para quem? Para um único homem ou para uma única família? Mas Deus não é o Pai de todos, que se preocupa com todos e que a todos ama da mesma forma? Portanto, “pronunciar a bênção” é reconhecer que determinado dom veio de Deus e que pertence a todos os filhos de Deus. Aquele que recebeu esse dom não é o seu dono; mas é apenas um administrador a quem Deus confiou determinado dom, para que o pusesse ao serviço dos irmãos com a mesma gratuidade com que o recebeu. À comunidade do Reino é proposto que aprenda a considerar os bens postos à sua disposição como dons de Deus Pai, colocando-os livremente ao serviço de todos.

Jesus é aqui apresentado como o novo Moisés, cuja missão é realizar a libertação do seu Povo e oferecer-lhe a vida em abundância. Como é que Ele o faz? Criando a comunidade do Reino – isto é, uma comunidade de homens novos, que reconhecem que tudo o que têm é um dom de Deus, destinado a ser partilhado com os outros irmãos.

ATUALIZAÇÃO

• Antes de mais, o texto convida-nos a refletir sobre a preocupação de Deus em oferecer a todos os homens a vida em abundância. Ele convida todos os homens para o “banquete” do Reino… Aos desclassificados e proscritos que vivem à margem da vida e da história, aos que têm fome de amor e de justiça, aos que vivem atolados no desespero, aos que têm permanentemente os olhos toldados por lágrimas de tristeza, aos que o mundo condena e marginaliza, aos que não têm pão na mesa nem paz no coração, Deus diz: “quero oferecer-te essa plenitude de vida que os homens teus irmãos te negam. Tu também estás convidado para a mesa do Reino”.

• A nossa responsabilidade de seguidores de Jesus compromete-nos com a “fome” do mundo. Nenhum cristão pode dizer que não tem culpa pelo fato de 80 por cento da humanidade ser obrigada a viver com 20 por cento dos recursos disponíveis… Nenhum cristão pode “lavar as mãos” quando se gastam em armas e extravagâncias recursos que deviam estar ao serviço da saúde, da educação, da habitação, da construção de redes de saneamento básico… Nenhum cristão pode dormir tranqüilo quando tantos homens e mulheres, depois de uma vida de trabalho, recebem pensões miseráveis que mal dão para pagar os medicamentos, enquanto se gastam quantias exorbitantes em obras de fachada que só servem para satisfazer o ego dos donos do mundo… Nós temos responsabilidades na forma como o mundo se constrói… Que podemos fazer para que o nosso mundo seja alicerçado sobre outros valores?

• É preciso criarmos a consciência de que os bens criados por Deus pertencem a todos os homens e não a um grupo restrito de privilegiados. O Vaticano II afirma: “Deus destinou a terra com tudo o que ela contém para uso de todos os povos; de modo que os bens criados devem chegar equitativamente às mãos de todos (…). Sejam quais forem as formas de propriedade, conforme as legítimas instituições dos povos e segundo as diferentes e mutáveis circunstâncias, deve-se sempre atender a este destino universal dos bens. Por esta razão, quem usa desses bens temporais, não deve considerar as coisas exteriores que legitimamente possui só como próprias, mas também como comuns, no sentido de que possam beneficiar não só a si, mas também os outros. De resto, todos têm o direito de ter uma parte de bens suficientes para si e suas famílias” (Gaudium et Spes, 69). Como me situo face aos bens? Vejo os bens que Deus me concedeu como “meus, muito meus e só meus”, ou como dons que Deus depositou nas minhas mãos para eu administrar e partilhar, mas que pertencem a todos os homens?

• O problema da fome no mundo não se resolve recorrendo a programas de assistência social, de “rendimento mínimo garantido” ou de outros esquemas de “caridadezinha”; mas resolve-se recorrendo a uma verdadeira revolução das mentalidades, que leve os homens a interiorizar a lógica de partilha. Os bens que Deus colocou à disposição dos seus filhos não podem ser açambarcados por alguns; pertencem a todos os homens e devem ser postos ao serviço de todos. É preciso quebrar a lógica do capitalismo, a lógica egoísta do lucro (mesmo quando ela reparte alguns trocos pelos miseráveis para aliviar a consciência dos exploradores), e substituí-la pela lógica do dom, da partilha, do amor. Sem isto, nenhuma mudança social criará, de verdade, um mundo mais justo e mais fraterno.

• A narração que hoje nos é proposta tem um inegável contexto eucarístico (as palavras “ergueu os olhos ao céu e recitou a bênção, partiu os pães e deu-os aos discípulos” levam-nos à fórmula que usamos sempre que celebramos a Eucaristia). Na verdade, sentar-se à mesa com Jesus e receber o pão que Ele oferece (Eucaristia) é comprometer-se com a dinâmica do Reino e é assumir a lógica da partilha, do amor, do serviço. Celebrar a Eucaristia obriga-nos a lutar contra as desigualdades, os sistemas de exploração, os esquemas de açambarcamento dos bens, os esbanjamentos, a procura de bens supérfluos… Quando celebramos a Eucaristia e nos comprometemos com uma lógica de partilha e de dom, estamos a tornar Jesus presente no mundo e a fazer com que o Reino seja uma realidade viva na história dos homens.

P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho

 

 

“Meu Deus, vinde libertar-me, apressai-vos, Senhor, em socorrer-me. Vós sois o meu socorro e o meu libertador, Senhor, não tardeis mais.” (cf. Sl. 69,2.6).

Jesus nos convida hoje a repartir o pão da palavra e o pão do alimento diário, nesta nossa peregrinação rumo ao Reino das Bem-aventuranças.

A primeira leitura, retirada do profeta Isaías 55,1-3, traz o convite do Senhor Deus para o banquete messiânico, oferecido aos que não têm dinheiro para comprar. Essa leitura faz-nos, ainda, entender melhor o sentido da Multiplicação dos Pães segundo o Evangelho hodierno (cf. Mt. 14,13-21). Isaías apresenta o convite para o banquete messiânico. Is. 55 é a conclusão do “Segundo Isaías”- as profecias da escola de Isaías durante o exílio babilônico. O povo no Exílio é representado como faminto e sedento – as carências daquele outro exílio, o êxodo do Egito, ao qual o Exílio muitas vezes é assemelhado. Mas é fome e sede do Deus vivo e próximo – falta-lhes o Templo. Estão no perigo de se contentar com um sucedâneo: os deuses da Babilônia. Mas nenhum ídolo, pago com ouro ou prata, pode aliviar a sede do Deus vivo.

Chegamos hoje no centro do “discurso eclesial” pronunciado por Nosso Senhor Jesus Cristo. O Divino Mestre reparte o pão entre os seus. Essa seria uma missão fundamental da santa Igreja Católica, como tão bem vem demonstrada a ação evangelizadora da Igreja no Brasil, desde que lançou o mutirão para a superação da miséria e da fome, inspirando-nos permanentemente a repartir o pão nosso de cada dia, particularmente, entre os excluídos da sociedade individualista dos dias atuais.

O pão e a carne eram os alimentos comuns do povo e da região de Jesus. Eram o nosso arroz com feijão, feito de tantas maneiras e com tanto carinho pelas mães e cozinheiras deste abençoado País.

Naquele tempo, a maioria do povo comia pão de cevada. O pão de trigo era luxo. Os pães eram grandes, achatados e quase sempre com um buraco ao centro, que permitia pendurá-los em varas, como se penduram, no Sul do Brasil, as roscas de polvilho.

Ao escolher o pão como matéria do sacramental central do Novo Testamento, Jesus escolheu o alimento mais comum e encontradiço entre o povo. Mas também o alimento mais rico de significados sociais e espirituais. “Comer o pão com alguém” significava fazer com ele uma aliança. Daí a exclamação de um convidado a um banquete, numa parábola de Jesus: “Feliz aquele que come o pão no Reino de Deus”, isto é, feliz aquele que participa da aliança com Deus, da amizade, da intimidade de Deus!

Antes da última Ceia, Jesus se dissera o “pão descido do céu”, o “pão da vida” e ensinara a seus Apóstolos a pedir o pão a Deus, isto é, pedir-lhe o sustento do corpo e do espírito, pedir-lhe a amizade e a presença benfazeja.

Ao meditarmos a Multiplicação dos Pães podemos concluí-lo, também, como uma prefiguração da eucaristia. Foi um milagre estupendo multiplicar cinco pães e dois peixes de tal forma que fossem alimentados mais de cinco mil homens, sem contar mulheres e crianças, narra-nos o Evangelista. Jesus o fez por misericórdia; teve pena daquele povo que viera de longe para ouvi-Lo.

A instituição da Sagrada Eucaristia também foi por misericórdia. “Eis que estarei convosco todos os dias, até a consumação dos tempos” (cf. Mt. 28,20). Sim, alimentando a todos que o seguem, que o ouvem, presente no Sacramento do Altar, no sacramento de Amor, renovando sua imolação para resgatar-nos dos grilhões do pecado. Isso para, como nos ensina o Doutor Angélico, por meio de Seu corpo glorioso, de Seu sangue adorável, unidos à Sua alma e divindade, prepararmo-nos para o banquete mais augusto e mais substancial que jamais houve.

É o Divino Amigo que nos assegura que “se não comerdes a carne do Filho do Homem, e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós mesmos” (cf. Jo 6,53). É Nosso Senhor, ainda, quem teria dito a Santo Agostinho: “Quando me recebes, não és tu que me mudas e me fazer viver por ti, mas sou eu que te mudo e te faço viver por mim”.

Na Segunda Leitura de hoje, Romanos 8, 35.37-39, a exposição sobre a salvação pela graça de Deus e a fé em Jesus Cristo é evidenciada e compreendemos bem essa manifestação ao santo Bispo de Hipona. Paulo, o apóstolo das gentes, termina sua exposição com uma efusiva proclamação de fé e confiança na obra de Deus em Jesus Cristo. “Se Deus é conosco quem será contra nós? Quem nos condenará? Quem nos separará do amor de Cristo?” Nada nos pode separar do amor de Cristo. Todos precisamos de redenção, diz são Paulo, e ela nos é dada em Cristo, que nos introduz na vida do Espírito. Ao fim desta secção, seu pensamento se torna efusivo, proclamando a certeza de vencer os poderes que poderiam desfazer a obra; não o poderão! Esta certeza não vem de raciocínios ou provas escriturísticas; ela é a convicção de quem já a experimenta. A experiência da fé é mais forte que o que se costuma chamar a realidade.

A liturgia de hoje nos convida a ler no sinal do pão uma revelação da compaixão, do terno amor de Deus para conosco, que se revelou piedosamente no dom de seu Filho, do qual o pão também se tornou o sinal sacramental.

Padre Luís Brochain, um dos discípulos de santo Afonso de Ligório, atenta-nos que, na eucaristia, “Jesus nos comunica então a sua própria vida; o seu espírito transfunde-se em nós e nos dirige em todos os caminhos; a sua imaginativa cura a nossa da sua dissipação habitual ao recolhimento; a sua santa vontade enobrece os nossos sentimentos, purifica os nossos afetos e eleva os nossos desejos acima do mundo criado; ajuda-nos a fugir das menores infidelidades e a nos exercer em todas as virtudes”.

Num arroubo de contemplação, são Ruperto nos diz que, desta forma, pela eucaristia, “nós nos tornamos pela graça o que Jesus é pela natureza, isto é, santos e agradáveis a Deus”. Conscientizemo-nos disso, então, e procuremos nossa santificação por meio da prática dos sacramentos, principalmente participando com freqüência, devidamente preparados, da sagrada comunhão. Desta forma, além de nos unirmos intimamente com Jesus, seremos também como frascos de fragrância que esparzir o olor das virtudes, com nossa conduta, em nossa convivência familiar, na comunidade, no trabalho, como lídimos cristãos. Assim, estaremos partilhando o Pão da Palavra, orientados e alimentados pelos Evangelhos, indicando o caminho do Pão Eucarístico a tantos que se encontram desnorteados neste mundo de tantas opções, de muitos atrativos, de inúmeras seduções...

A participação no pão da vida se manifesta traduzindo-se necessariamente na vontade firme de tentar tudo a fim de que os famintos sejam saciados, os que têm sede possam beber, os que estão nus possam vestir-se. A participação na ceia eucarística se torna, para o cristão, fonte de um esforço de promoção humana no qual todos e cada um sejam reconhecidos em sua dignidade fundamental de pessoas, no sentido de uma só grande família.

Que todos nós saibamos partilhar o pão, como partilhamos a nossa fé, que é comunitária. Absolutamente nada impede que Deus nos ame, a não ser que nós também não amemos. Amor é partilha. Partilha é acolhimento, é estar com, é fazer refeição com o irmão.

Que este imenso país continental, tão rico de comida, mas tão pobre de partilha, seja evangelizado para que o pobre tenha comida e, mais do que comida, dignidade, para que todos aprendam a repartir os dons e os bens, a exemplo de Jesus que todos os dias é oferecido em favor de nossas vidas e de nossa salvação.

padre Wagner Augusto Portugal